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+The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: A Morgadinha dos Cannaviaes
+
+Author: Júlio Dinis
+
+Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em
+ caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
+ No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jun. 2009)
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
+
+XXIII
+
+ROMANCE
+
+III
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+Vol. I
+
+
+
+
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
+TELEPHONE 2337
+
+
+
+
+JULIO DINIZ
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+(CHRONICA DA ALDEIA)
+
+DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
+
+
+
+LISBOA
+J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES
+186--Rua Aurea--188
+_1920_
+
+
+
+
+OBRAS DE JULIO DINIZ
+
+
+A Morgadinha dos Cannaviaes
+Os Fidalgos da Casa Mourisca
+As Pupillas do Senhor Reitor
+Uma Familia Ingleza
+Ineditos e Esparsos
+Poesias
+Serões da Provincia
+Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças)
+
+
+
+_Todos os direitos d'esta publicação estão reservados em conformidade
+com a lei em Portugal e Brasil_
+
+J. Rodrigues & C.^a
+
+
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+
+
+
+I
+
+
+Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro,
+chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera,
+subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa
+vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada, á falta de
+competidora, em que melhor coubessem.
+
+Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia
+começa já a resentir-se, senão ainda nos valles e planuras, nos visos
+dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa
+Traz-os-Montes.
+
+O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e,
+n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoação importante, e
+com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco
+transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se
+encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do
+rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do
+que a absoluta solidão.
+
+Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que
+dissemos.
+
+Um, o mais moço e pela apparencia o de mais grada posição social, era
+transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas
+orelhas, musculos de marmore e articulações fieis; o outro seguia a pé,
+ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o
+caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso,
+excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre
+emulação.
+
+Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de
+transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e
+fadigas da jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro.
+
+A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, o olhar melancolico,
+fito nas orelhas do macho, a indifferença, a taciturnidade ou o
+manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem
+natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silencio que apenas de
+quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma
+pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza
+de gestos e desempenado jôgo de membros do pedestre, com a sua
+torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, e com as joviaes
+cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quaes
+se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico
+companheiro.
+
+Explica-se bem esta differença, dizendo que o cavalleiro era um elegante
+rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um
+almocreve de profissão.
+
+O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto
+que o grato e quasi voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planisa
+qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que d'ella
+guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores
+delicias, do que as impressões experimentadas no proprio momento de nos
+vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e
+mórmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas
+impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou
+que a saudade consegue até dourar e poetisar a seu modo; esses
+microscopicos martyrios, que de longe não avultam, actuam-nos, na
+occasião, a ponto de nos inhabilitar para o gôso do que é realmente
+bello. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre
+que se monta, o tempêro ou destempêro do heteróclito cozinhado com que
+se enche o estomago, a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó que
+se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o
+sol que nos congestiona o cerebro, tudo então nos desafina o espirito,
+que traziamos na tensão necessaria para vibrar perante as maravilhas da
+natureza ou da arte.
+
+Só pelo preço de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel
+no meio dos episodios d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e
+exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse
+habito, tambem nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as
+commoções do bello.
+
+Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se
+mais e melhor; porém a propria analyse é a prova de que se sente menos.
+Onde domina o sentimento e a imaginação, mal teem cabida a paciencia e
+phleúgma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio
+recolhe de qualquer excursão á patria com a carteira cheia de
+apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos,
+sentiu mais.
+
+Mas Henrique de Souzellas--que era este o nome do cavalleiro--fôra
+educado e passado da infancia á plena juventude, em Lisboa,
+levantando-se por avançada manhã, frequentando o theatro, o Gremio, as
+camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a
+Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da
+capital.
+
+Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fôra esta jornada,
+em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob tão maus
+auspicios, que era para suffocar-lhe á nascença os instinctos de
+_touriste_, se porventura quizessem despertar n'elle.
+
+Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo
+accommodado aos caminhos por que passára. E então que dois dias!
+D'aquelles, durante os quaes o céo, uniformemente pardo, parece
+desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupção e com uma teimosia e
+constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita já
+a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares,
+e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias;
+em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente
+despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos
+mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e tão
+densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de
+que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.
+
+Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir
+cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera.
+
+E para quê e por quê a commettera elle assim?
+
+Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é
+de suppôr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o.
+
+Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos,
+vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e
+dividindo as attenções do espirito pela politica, pela litteratura e
+pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a
+fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos.
+
+Não concebia vida fóra d'aquillo.
+
+O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava
+possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria
+maior façanha.
+
+Não que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta
+natureza.
+
+Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia
+folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.
+
+Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia tão direita a
+apostrophe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler
+no livro setimo das _Viagens_.
+
+De certo tempo em deante começou, porém, a incommodal-o uma especie de
+vácuo interior, um mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem
+familia, quando chegam á idade a que chegou Henrique, e passam a vida
+como elle.
+
+Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras,
+bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos
+seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de
+insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que
+o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros
+forcejam por divertir-se.
+
+O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel
+verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava,
+apoderou-se d'elle em corpo e alma.
+
+Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito preoccupado com a sua
+pessoa, imaginando-se victima de mil e uma molestias, as mais
+disparatadas e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente predestinado
+para a apoplexia e para a phtisica, para o cancro e para a alienação,
+para a cegueira e para as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da
+semana, folheando livros de medicina, construindo theorias
+physiologicas, consultando todos os medicos da capital, experimentando
+todo o arsenal pharmaceutico e todos os annuncios, em parangona, da
+quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças do seu espirito
+amedrontado até ás mysteriosas e nevoentas alturas do credo
+homoepathico! Ao mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva
+degeneração de gôsto; não podia ler uma pagina dos livros que lhe eram
+predilectos; desfazia-se sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e
+objectos curiosos que colleccionára com paixão; detestava a musica, o
+theatro, n'uma palavra, tornára-se um dos maiores flagellos, que podem
+pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o supplicio dos
+medicos que os aturam.
+
+Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte com o desculpavel
+intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho,
+que fôsse viajar.
+
+Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia n'esta palavra: viajar.
+
+Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias apopleticas? E as
+suas disposições para tantas outras enfermidades? Pois um homem pode lá
+viajar com esta bagagem pathologica?
+
+E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a
+receita, e ficou na capital.
+
+Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os medicos,
+como se para isso apostados, a insistirem em que saisse de Lisboa.
+
+--O senhor não tem nada--diziam alguns.
+
+Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto.
+
+Prolongou-se este estado de coisas, até que um dia o hypocondriaco rapaz
+persuadiu-se muito sériamente de que estava chegada a sua hora extrema.
+
+Um medico velho e grave, que por essa occasião o escutou, em vez de se
+rir d'elle, disse-lhe, muito sisudo:
+
+--Homem! O senhor está realmente mal. Esse estado de imaginação não pode
+prolongar-se mais tempo, sem romper por ahi em alguma doença que o
+sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto é tempo.
+Quebre por todos os habitos, e escolha entre as fortes impressões de uma
+grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensações de um
+completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emollientes curam por meios
+oppostos ás vezes as mesmas molestias.
+
+Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse Henrique um presente de
+fructa de uma sua tia, santa creatura que elle, desde creança, não
+tornára a vêr.
+
+Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco
+annos Henrique passára alguns mezes na companhia de sua mãe.
+
+Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo, já meio apagado na
+memoria, e conseguira fazer-lhe saudades. D'ahi uns vagos desejos de
+voltar a vêr aquelles sitios.
+
+Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em
+que esta sua parenta vivia.
+
+O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para que fôsse abraçada.
+
+O sobrinho escreveu então á tia, e, passados dias, punha-se a caminho.
+
+Mil vezes se arrependeu, depois da resolução tomada; mil vezes mandou ao
+diabo o conselho do medico e phantasiou horriveis exacerbações em todos
+os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os
+velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e
+almocreve, ampliava-lh'os a proporções estupendas, o prisma da
+hypocondria.
+
+No momento em que nos associámos ao cavalleiro, caira elle n'um
+desalento profundo, n'um quasi convencimento de proxima anniquilação, do
+qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas
+eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.
+
+Havia mais de uma hora que estavam luctando com as difficuldades da
+ascensão do ingreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as
+voltas de uma helice.
+
+Era este monte uma como irregular pyramide, levantada no meio da
+amplissima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava;
+por isso o estafado rapaz não podia atinar a razão de conveniencia pela
+qual, tendo de procurar o valle, assim porfiavam em descrever as
+fastidiosas curvas da quasi interminavel espiral, que os approximava do
+vertice.
+
+Não se concebe uma estrada menos logica do que aquella.
+
+No nosso paiz são porém frequentes estas faltas de logica nas estradas.
+
+O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de
+encurtar distancias, seguindo por um atalho só franqueavel a gente de
+pé.
+
+Henrique nem desviára os olhos para o fundo valle, que se abria á
+esquerda, velado pela densa nevoa d'aquella atmosphera saturada de
+humidade, nem prestava attenção á agreste e selvatica paizagem, do lado
+direito, toda encrespada de pinheiraes nascentes e de espinhosas
+tojeiras.
+
+Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o mais alto da flexuosa
+ladeira que subia, no sitio em que ella, formando um cotovello, furtava
+á vista o seguimento ulterior.
+
+N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, cançado e
+aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma promettedora esperança.
+
+--D'alli verei talvez o termo do caminho--pensa elle.
+
+Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança lhe foge!
+
+Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á almejada inflexão e quando
+esperava principiar emfim a descer para o valle e approximar-se da
+aldeia, viu que o macho, pratico no caminho, e á disposição de cujo
+instincto elle collocára a razão, dobrava ainda para a direita e
+continuava a contornar e a subir o monte. A espiral não terminára ainda.
+Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do valle,
+nada pôde descobrir, que lhe promettesse a aldeia procurada. Muita
+arvore, povoação nenhuma!
+
+Teve um paroxismo de impaciencia!
+
+--Isto não é estrada!--exclamou elle, exasperado.--São os nove circulos
+do Inferno de Dante virados para fóra.
+
+E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a augmentar, a calar
+através do grosso gabão de jornada que Henrique vestia! O desgraçado
+vergava sob o pêso da sua consternação.
+
+Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleugma
+desesperadora.
+
+--Com um milhão de demonios!--bradou-lhe Henrique, não podendo
+conter-se.--Essa maldicta terra foge deante de nós, homem!
+
+--Estamos quasi lá, meu patrão. É alli logo adeante--respondeu o
+almocreve, sem se alterar. Vê aquella capellinha branca em cima
+d'aquelle monte? pois fica já para além da povoação. É a ermida da
+Senhora da Saude. É um instante.
+
+--Desde as duas horas da tarde que me dizes que é um instante, e eu
+estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica
+alli em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas que temos dado,
+estou persuadido de que vamos tão adeantados como quando principiámos a
+subir.
+
+--Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito lá por baixo, era mais
+perto, mas...
+
+--Mas foi então pelo prazer de trepar, que me trouxeste por aqui?
+
+--Não é isso, patrão; mas bem vê v. s.^a que o caminho lá por baixo é
+todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar taes voltas, que a
+final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá ideia
+de como estão os riachos por lá! Só o esteiro do almargeal é para uma
+pessoa se afogar. Mas tenha o patrão paciencia, que pouco falta agora.
+Vê v. s.^a aquelle tronco de sobreiro que parece, visto d'aqui, um frade
+de capuz?
+
+--É alli?
+
+--Não, senhor--disse o homem, rindo;--mas vêem-se d'aquelle sitio as
+primeiras casas da aldeia.
+
+--As primeiras!--murmurou Henrique em tom lastimoso; e penderam-lhe os
+braços com mais desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna
+vertebral.
+
+O almocreve proseguiu, para o distrair:
+
+--Tenho passado por estes sitios muita vez com neve de se cortar á faca
+e de noite. E olhe que nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim! E
+vamos lá! o sitio não é dos mais seguros. Vê o senhor essa cruz preta,
+ahi á sua mão direita, pregada no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo
+mataram um homem, que vinha com uns centos de mil réis da feira franca
+de Vizeu, fez pelo S. Miguel um anno. E ainda hoje se está para saber
+quem foi. N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma creatura.
+
+Henrique sentiu-se pouco á vontade com as elucidações do cicerone; olhou
+para elle com desconfiança e quasi julgou vêr moverem-se sombras
+suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os
+cabos das pistolas, e approximou as esporas dos ilhaes da cavalgadura.
+
+Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do
+qual deviam avistar a aldeia.
+
+Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas arvores, mas continuou a
+não enxergar vestigios de casas.
+
+--Onde está a aldeia que dizias, homem?
+
+--D'ahi já se vê--disse o almocreve, correndo para alcançar o
+cavalleiro.--Não vê v. s.^a, além, além, aquelles pinheiraes mansos?
+
+--Vejo, sim.
+
+--Pois já são da freguezia. Se fôsse mais claro havia de avistar a casa
+do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence á morgadinha dos
+Cannaviaes.
+
+Henrique não respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada
+fel-o suspirar.
+
+Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando
+sempre obliquamente o monte.
+
+Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco,
+que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já
+indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da
+neblina.
+
+--Lá está a capella da freguezia--dizia o homem.
+
+--Alli? É um seculo para lá chegar!
+
+--Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo!
+
+E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o
+passo.
+
+O homem continuou:
+
+--Até se fôsse mais dia podia-se vêr d'aqui a pedra, que está no
+cemiterio novo, e que é da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a
+mãe d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais
+ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar
+fóra da egreja. Elle, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do
+costume... mas emfim a gente foi creada n'isto... Mas a pedra é coisa
+asseada. É como as que estão na cidade.
+
+Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem attendia ao
+que o homem ia dizendo.
+
+Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim o valle. O terreno
+mudava agora de aspecto. Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de
+cultura, annunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos
+estreitavam, internando-se no valle, e seguiam tortuosamente por entre
+muros tôscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, que
+não cessára de cair, transformára estes caminhos, onde o declive não
+dava escoamento ás aguas, em charcos e tremedaes.
+
+Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente apparecendo.
+
+Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por
+uma creança de palhoça e pernas nuas, os quaes paravam a olhar com
+aquella expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o
+recem-chegado visitante da aldeia. Não faltou receio a Henrique, que
+suppôz a estes bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e bravia dos
+touros, a cuja chegada tantas vezes fôra assistir em Lisboa.
+
+Mais adeante passava por elles uma fileira de carros a vergarem sob o
+pêso do matto e atroando os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o
+eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de Henrique, cujos nervos se
+irritavam com elle, mas apparentemente agradabilissimo para os
+conductores aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle
+acompanhamento.
+
+N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas casas de tectos de
+colmo, de cujas innumeras fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera
+humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado de Henrique
+de Souzellas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas sêccas
+dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações muito longe de
+serem agradaveis.
+
+Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que já lhe tomára o
+animo.
+
+--Tantas fadigas para este resultado!--pensava elle.--Sair de Lisboa
+para me enterrar n'esta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do
+doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus
+lhe perdôe o homicidio.
+
+Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incómmodo de
+trilhar; as curvas complicavam-se como as ruas de um labyrintho. Aqui
+subiam; desciam mais além, para subir outra vez. Umas vezes caminhavam
+em terreno descoberto, outras penetravam em tão estreitas quelhas,
+apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas de ramos
+entrelaçados, que só o instincto do animal podia evitar-lhes os perigos.
+Ora soavam as patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes o
+som um terreno, que a chuva encharcava, e a agua lamacenta vinha
+salpicar o rosto do cavalleiro.
+
+As casas eram já frequentes, e algumas de menos humilde apparencia.
+
+Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam
+raivosos por dentro dos portões ou de sobre os muros das quintas, ao
+ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou
+cantava sempre.
+
+Outras vezes era um inharmonico grunhir suino que accusava a vizinhança
+das córtes ou, partindo de um casebre rustico, o chorar de creanças,
+entremeado com os ralhos das mães e com as pragas dos chefes de familia.
+
+O almocreve não desistira das suas funcções de cicerone, que sómente
+interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.
+
+--Estes campos e lameiros--ia dizendo--são da morgadinha dos Cannaviaes;
+andam arrendados a um compadre meu.
+
+E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente allumiada por
+uma candeia:
+
+--Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?
+
+--Ai, é vossemecê, sr. José? Então não entra?--respondia-lhe uma voz
+feminina.
+
+--Agora, não, ámanhã.
+
+E proseguiu para Henrique:
+
+--É uma santa creatura. A morgadinha...
+
+Henrique interrompeu-o:
+
+--Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? onde mora minha tia? Não me
+dirás?
+
+--É logo ahi adeante, meu patrão. Em nós passando umas casas amarellas
+que ha ahi... é logo ao pé. Essas casas que digo são tambem da
+morgadinha, mas ha uma demanda pelos modos.
+
+O almocreve falava pela decima ou undecima vez na morgadinha. Até esta
+periodica referencia a uma personagem que elle não conhecia,
+impacientava Henrique de Souzellas.
+
+E continuavam a succeder-se em enredado dedalo as quelhas e azinhagas, a
+ponto de fazer perder toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido das
+levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; adeante, transpunham
+uma ponte rustica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ella
+atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o ranger das rodas dos
+moinhos.
+
+Henrique a cada momento imaginava cair n'um abysmo.
+
+--São os açudes do Casal--dizia o almocreve berrando para se fazer ouvir
+através do estrondo da torrente.--Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes.
+
+Henrique nem alento já tinha para falar.
+
+Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia tão cerrada lhe
+envolveu o coração a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistencia ao
+crescente torpor que o invadia, como o que desespera da vida e da
+salvação.
+
+Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma toada plangente,
+melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos.
+
+--É uma fiada em casa do Tapadas--disse o almocreve.--É um dos maiores
+amigos do pae da morgadinha. Vê aquelle muro acolá?
+
+--Eu não vejo nada. Deixa-me!
+
+--Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha...
+
+--Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha--exclamou Henrique.
+
+Era evidente emfim que estavam em pleno coração do povoado. As casas
+appareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que
+tinha o que quer que era de lugubre. Era a corôa rezada em familia a
+Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e
+trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das
+raparigas e creanças n'aquelle piedoso côro, produzindo um effeito que
+acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.
+
+--Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que não a acabamos de
+attingir?
+
+O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante
+junto ás orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira
+orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do almocreve, estacou em
+frente de um portão de quinta resguardado por um telheiro rustico.
+
+--É aqui--disse o guia.
+
+--Até que emfim!--exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e
+de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cançado da vida, quando
+antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convicção de que a
+quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio.
+
+
+
+
+II
+
+
+O almocreve assentou duas vigorosas pancadas no solido portão de
+castanho, deante do qual tinham parado.
+
+As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois cães, que
+acudiram de longe ao signal e vieram ladrar á porta com furia, que fez
+agourar mal a Henrique da cordialidade da recepção que o esperava. De
+facto as intenções dos quadrupedes não pareciam demasiado hospitaleiras.
+O almocreve divertia-se excitando-os de fóra com uma vara de vime,
+apesar de quantas recommendações de prudencia lhe fazia Henrique, não em
+demasia socegado.
+
+A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando os cães á ordem, se é
+licito, sem irreverencia, empregar n'este caso a phrase consagrada para
+outro genero de algazarra.
+
+Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a aldraba,
+gemerem os gonzos, e emfim um homem de lavoura alto e magro, trazendo em
+punho um lampeão de frouxissima luz, appareceu-lhes á porta e saudou-os
+com a fórmula do estylo:
+
+--Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites.
+
+E, levantando a luz á altura do rosto de Henrique, poz-se a miral-o com
+a menos ceremoniosa curiosidade.
+
+--É o sobrinho cá da senhora, não é verdade?
+
+--Sou eu mesmo.
+
+--Está um tempo muito azêdo. Eu já julgava que não vinham. Entre.
+
+Henrique não se resolvia a acceitar o convite, porque lhe continuavam a
+impôr respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois
+façanhosos quadrupedes, cuja má vontade era a custo refreada.
+
+--Entre, entre--insistia o homem.
+
+--Mas esses animalejos?...
+
+--Ah! isto não faz mal. Sae-te p'ra lá, Lobo: passa, Tyranno!
+
+Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem que não faziam mal!
+
+--C'os diabos! ti'Manuel--disse o almocreve--em occasião de se esperarem
+hospedes, não se soltam assim os cães. Os diabos não são nenhuns
+cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joãosinho das Perdizes, que por pouco
+lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas.
+
+--Forte perca!--resmoneou o outro.--Não trouxesse cá os d'elle. Não tem
+dúvida; entre o senhor, que elles não lhe fazem mal.
+
+--Não entro; assim é que não entro--teimou Henrique, a quem as palavras
+do almocreve acabaram de fortificar na sua resolução.
+
+O homem em vista d'isto encolheu os hombros e bradou:
+
+--Ó Luiz!
+
+Uma creança de cinco annos, e quasi nua, correu ao chamamento.
+
+--Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor tem mêdo.
+
+A creança, á palavra mêdo, fitou Henrique com uns olhos espantados, e
+tomando do chão um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas
+feras, que, com todos os signaes de respeito, de orelha baixa e cauda
+abatida, fugiram deante d'ella.
+
+O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um tanto maltratado com o
+desfecho da scena; mas a prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andára
+ajuizadamente.
+
+--Agora vossemecê--disse o camponez para o almocreve--arranje-se como
+puder e mais a bêsta ahi pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao
+senhor.
+
+--Vão, vão com Nossa Senhora, que eu cá me arranjarei. Muito boas
+noites, sr. Henriquinho.
+
+--Adeus, José--disse Henrique, passando para a mão do guia a esportula
+da gorgeta, e após seguiu, com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem
+do lampeão.
+
+Não era para dissipar a impressão penosa, que subjugava o espirito de
+Henrique, o aspecto que lhe offerecia, áquella hora da noite, a parte da
+quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.
+
+Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro ou eido, estradado
+de altas camadas de matto e embebido de chuva, d'onde se exhalava um
+cheiro de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado a estes
+aromas campezinos. A luz do lampeão a custo conseguiu evitar a Henrique
+o tropeçar n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia para
+gallinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo a
+cancella que terminava este, seguiram por uma rua de folhas;
+atravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia;
+ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados mais alguns rodeios,
+acharam-se finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia
+para uma especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um
+modesto portico á casa de Alvapenha.
+
+A propriedade da tia de Henrique era um genuino typo de casa rustica, á
+moda do Minho.
+
+Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos á escassa
+luz que os allumiava, recebeu Henrique a primeira impressão agradavel de
+toda aquella mal estreada excursão.
+
+Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram n'elle
+memorias, quasi apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter brincado
+alli, a cavallo n'esse mesmo parapeito, então, como agora, enfeitado de
+uma formidavel cohorte de aboboras meninas, victimas votadas ás festas
+do proximo Natal.
+
+A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso de louça, que
+elle, havia vinte e tantos annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia
+vaga de haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de se certificar,
+e viu que de facto ainda lhe faltava a aza, sendo este o unico estrago
+que após tanto tempo o velho utensilio soffrêra.
+
+--É admiravel!--não pôde deixar de exclamar Henrique ao fazer a
+descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma nos seus
+aposentos em Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava em
+Alvapenha.
+
+O hortelão bateu á porta e disse para dentro que era o sobrinho da
+senhora que chegava.
+
+Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar de
+passos; moveu-se a chave na fechadura; abriram-se as portas e no limiar
+appareceu de braços abertos a tia Dorothéa, e por traz d'ella, elevando
+a luz acima do hombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que, havia
+trinta annos, lhe era companheira e interessada em lagrimas e pesares.
+Já Henrique lhe andára ao collo no tempo em que estivera creança na
+quinta.
+
+Deante da figura esbelta, do typo varonil e do comprido bigode de
+Henrique, a sr.^a Dorothéa reprimiu as suas expansões e quasi recuou.
+
+Nunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco annos, deixára
+Alvapenha, e dir-se-hia que esperava ainda encontrar os mesmos cabellos
+louros e annelados e o mesmo rosto menineiro da travêssa creança de
+outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos annos
+volvidos o tinham transformado.
+
+Ha d'estas illusões na gente.
+
+A mais segura razão não está precavida contra ellas; a infundada
+surpreza invade-nos de subito, e os labios não podem prender a
+exclamação que a denuncia.
+
+--Pois na verdade tu és o Henriquinho?!--disse espantada a boa senhora.
+
+--Eu julgo que sim, tia Dorothéa.
+
+--Tu! Ai como estás um homem! Ó Maria de Jesus, você não quer vêr isto!?
+
+--Parece mesmo um soldado!--disse a criada, igualmente estupefacta.
+
+--Credo, mulher! Santissima Trindade! Você que está a dizer? Nossa
+Senhora nos livre de tal!--exclamou a ama, em cujo conceito o soldado
+estabelecia a transição do homem para o diabo.
+
+No entretanto Henrique de Souzellas abraçava a tia, que havia tanto
+tempo que não vira, e ella correspondia-lhe, beijando-o com todo o
+carinho e chorando.
+
+Chorando por quê? Por quê? Pela muita bondade que tinha n'aquella alma.
+A bondade é um rico manancial, que brota lagrimas ao toque da menor
+commoção.
+
+Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados
+amplexos e mais provas de affecto de sua tia, quando se sentiu prêso em
+novos laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava tambem e lhe pespegava
+nas faces dois beijos muito chiados, como aquelles que veem a ferver do
+coração, e isto acompanhado de um--Ai o meu rico filho!--tão eloquente
+como os beijos.
+
+Henrique, habituado ás etiquetas da civilisação urbana, que estabelece
+entre amos e criados distancias desconhecidas na aldeia, extranhou um
+pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexões.
+
+Maria de Jesus dizia, ainda admirada:
+
+--Ó senhora! Não que uma coisa assim! Pois é este o menino que vinha á
+cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada!
+
+--É verdade! E que boa marmelada cá se fazia!
+
+--Lambareiro!--disse a tia, sorrindo.--Se eu soubesse que eras assim,
+não tinha mandado lavar o tacho do dôce, que ainda hoje serviu.
+
+--Sim? Então ainda se faz dôce cá em casa, como d'antes?--perguntou
+Henrique.
+
+--Pois então? todos os annos. Mas valha-me Deus! E não querem vêr nós
+aqui postas á palestra! Entra, menino, entra cá para dentro, que está
+frio e tu deves vir cançado.
+
+--Um pouco, um pouco, tia Dorothéa.
+
+E Henrique entrou para a sala.
+
+Demoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas, em cuja
+casa se vae alojar com Henrique de Souzellas.
+
+Não se imagina a santa paz de espirito, a placidez de paraiso, que estas
+duas mulheres--D. Dorothéa e Maria de Jesus, ama e criada--gosavam na
+quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar allivio aos
+seus muitos e variados males.
+
+Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus habitos, ambas
+muito tementes a Deus e amigas do proximo, as duas celibatarias passavam
+alli uma vida, rescendente a um suave perfume de santidade, como o da
+alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as gavetas e de que se
+repassava toda a roupa branca, objecto muito dos seus cuidados.
+
+A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos entre as duas,
+poderia ser exemplo á maior parte das familias d'este mundo. Entre
+velhas, que nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral faz o humor
+mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso.
+
+Tinham ellas porém a precisa tolerancia para fazerem mutuas concessões;
+cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria
+bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu uma só palavra, que, por
+mais alto pronunciada ou por menos expressiva de paciencia, destoasse da
+invariavel monotonia dos seus habituaes dialogos.
+
+Eram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maior parte,
+devorados por demandas entre primos e irmãos, paes e filhos, marido e
+mulher, mostravam infelizmente ser esta abençoada semente caída em
+improductivo terreno.
+
+As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento affligiam as
+duas sexagenarias e augmentavam o numero de Padre-Nossos com que todas
+as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram validas,
+pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua propria.
+
+Ouvir rezar as duas santas velhas--e era essa a occupação dos seus
+curtos serões--equivalia a escutar uma resenha das differentes
+calamidades, que perseguem e apoquentam o genero humano, e que ellas,
+d'esta maneira, pretendiam evitar.
+
+--Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Marçal, para que nos livre do
+fogo--dizia D. Dorothéa, e seguia-se o Padre-Nosso.--Outro a Santa Luzia
+milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma e no corpo; outro a
+S. Braz, para que nos proteja da garganta; outro a S. Vicente, por causa
+das bexigas, etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os que andam sobre
+as aguas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro por
+os orphãos; outro pelos doentes; um pelos vivos; outro pelos mortos; um
+pelos justos; outro pelas almas do purgatorio, não hesitando até a sua
+caridade em transpôr as portas do inferno e pedir tambem a remissão dos
+condemnados. E ainda depois d'esta minuciosa e longa enumeração, um
+ultimo Padre-Nosso fechava a primeira serie, comprehendendo todos os não
+contemplados por esquecidos, ou por não terem logar na classificação.
+
+Compunha a segunda serie a menção especial de cada uma das pessoas
+fallecidas das suas relações: parentes, amigos e conhecidos, por cujo
+«eterno descanço entre os resplendores da luz perpetua» oravam com
+verdadeira compunção. N'esta phalange ia tambem D. João VI, por quem,
+havia quarenta annos, se costumára a rezar D. Dorothéa, e não era ella
+mulher que rompesse com habitos semi-seculares. Era esse talvez o unico
+Padre-Nosso que a alma do monarcha recebia no Céo, com procedencia do
+seu antigo reino.
+
+Quanto ás qualidades physicas, a imaginação dos leitores pintar-lh'as-ha
+melhor do que a minha descripção. Forçosamente conheceram uma d'estas
+boas velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem se estima e com
+quem se brinca ao mesmo tempo; que nos podem inspirar sacrificios e
+simultaneamente nos tentam a travessura; a quem mystificamos agora e
+logo beijamos respeitosamente a mão; contra quem não reprimimos
+impaciencias, escutando depois submissos os seus nunca terminados
+sermões.
+
+Ora estas velhas assim teem quasi sempre um typo uniforme, que é o
+reflexo exterior da bondade do coração; esse era o typo da tia Dorothéa
+com o seu vestido rôxo, o seu lenço castamente cruzado no peito, a sua
+touca de folhos alvissimos e de fitas escuras, o mólho de chaves á
+cinta, o livro de orações na algibeira e os oculos a marcarem no livro a
+reza habitual.
+
+Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edição popular da mesma
+alma. Succedêra de mais com ellas o que é sempre de esperar de uma longa
+e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado maneiras e modos de
+pensar e de vêr e de dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer
+d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo de conclusão, se deduzia
+a outra facilmente.
+
+Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao primeiro exame que fez
+das duas santas mulheres.
+
+Entremos agora com elle para dentro da sala.
+
+Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ahi
+voltasse de novo com Henrique julgaria, á vista da uniforme disposição
+de coisas mantida alli dentro em tão distantes épocas, que todo esse
+tempo não fôra mais do que um sonho de momentos.
+
+Encontraria os mesmos móveis, na mesma collocação; as mesmas cobertas
+nos leitos, apenas mais desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas
+janellas; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosphera dos quartos,
+os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas cómmodas.
+
+A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana memoria de rapaz
+estouvado, sentia-se acordar, á vista d'aquillo tudo.
+
+A sala tinha uma physionomia caracteristica.
+
+Supponha-se uma não muito ampla quadra de pouca altura, toda pintada a
+óca, e alumiada por duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus
+competentes assentos de pedra, um defronte do outro, com meias cortinas
+de cambraia sempre corridas--pleonasmo de discrição que se não
+justificava, visto que as janelas, abrindo para a quinta, não tinham
+vizinhança de cujos olhares precisassem de recatar-se. O tecto era de
+almofadas de castanho, em tempos pintado de azul, agora de uma côr
+duvidosa. Havia quinze annos que D. Dorothéa falava em o mandar retocar,
+mas o projecto, momentoso como era, ia sendo adiado de primavera para
+primavera. Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija saliente, onde
+coroadas maçãs de inverno aguardavam, em vistosa fileira, a completa
+maturação, e derramavam no aposento o mais agradavel aroma. O pavimento,
+apesar de muito picado de caruncho, andava limpo e _escafunado_--termo
+do vocabulario de casa--que mettia gôsto vêl-o. Cada parede era um museu
+de estampas de devoção. Poucos santos e santas da côrte celestial não
+estavam alli representados e com um colorido, que era o maior peccado, a
+que estes bemaventurados haviam dado logar cá no mundo.
+
+Cá se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras; Santa Anna
+ensinando Nossa Senhora a ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. João
+Novo, no Porto; o Bom Jesus de Bouças, representação da imagem, que,
+segundo reza a respectiva chronica, é obra das mãos de José de
+Nicodemus; os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de S. Francisco,
+etc., etc. Sobre a cómmoda de pau preto era devotamente venerado o mais
+rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda modelaram
+as mãos de santeiro afamado. E seja dito de passagem que não sei por que
+a tradição popular dá a este austero franciscano o aspecto chorudo de um
+moderno reitor de farta abbadia de aldeia.
+
+No interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido o
+museu de raridades da tia Dorothéa. Eram flores artificiaes,
+concharinhas e caramujos, um rosario de caroços de azeitonas, uns poucos
+de vintens de prata, enfiados e pendentes do braço do menino Jesus, que
+o santo sustentava ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha
+benta, uma medida do braço do Senhor de Mattosinhos, um pão do sacco de
+Santa Isabel, que vae na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos
+curiosos.
+
+A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam quando
+entravam em serviço, como militar, cujas articulações o rheumatismo
+invadiu; mesas cobertas com colchas de chita; bahús cravados de pregaria
+amarella, disposta em lettras e arabescos; uma papeleira de pau santo, e
+uma gaiola com um canario decrepito, objecto, havia muitos annos, das
+tentações de um gato, mais decrepito do que elle e pertencente ás
+classes inactivas.
+
+Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de beatitude e de
+antiguidade que alli se respirava, os habitos da casa, sentia já certo
+desconfôrto, como de quem é arrancado de subito ao ambiente, em que se
+educou e vive, e engolfado n'um ambiente extranho; especie de asphyxia
+moral, não menos angustiosa do que a do peixe fóra da agua.
+
+A saudade que ao principio sentira, dissipára-se já. O perfume da
+saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o
+recebemos. Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.
+
+Acontecera isto com Henrique.
+
+Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crença de que não seria
+por muito tempo que se demoraria alli.
+
+--Os emollientes do doutor--pensava elle, emquanto sua tia falava--serão
+efficazes para quem os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim...
+
+No entretanto sentou-se.
+
+--Ora o Henriquinho!--dizia ainda D. Dorothéa, pondo-se de braços
+cruzados em contemplação defronte d'elle.--Ó menino, onde foste tu
+arranjar esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se?
+
+Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique.
+
+--Quem quer usar, usa, tia. Não é obrigação--respondeu elle, com leve
+mau humor.
+
+--Em nome do Padre e do Filho!--dizia Maria de Jesus, benzendo-se e
+tomando logar ao lado da ama.--Até nem sei que parece, lembrar-se a
+gente que trouxe este marmanjão ao collo!
+
+O termo «marmanjão» não soou bem a Henrique. Principiava tambem a
+impaciental-o o vêr as duas embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito
+a uma exposição d'estas, por mais que faça, não atina com o modo de
+arrostar com ella, que não seja ridiculo. Ora Henrique, como todo o
+homem da sociedade, o que mais que tudo temia n'este mundo era o
+ridiculo.
+
+Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da tia Dorothéa, que fez
+perceber á criada a conveniencia de ir preparando a ceia de Henrique,
+que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não costumar cear,
+acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas e a má alimentação dos
+ultimos dias, haviam-lhe desafiado o appetite. Demais, o espanto de D.
+Dorothéa, quando lhe ouviu dizer que as ceias não entravam nos seus
+habitos, foi tal que lhe tirou o animo de rejeitar.
+
+--Não ceias! Ó menino, que me dizes? então vaes-te deitar sem ceia? Ora
+essa! Por isso vocês são uns pelens. Vejam lá que arranjo este! ficar
+toda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento ao estomago, que
+aconchegue. Nada, nada; a ceinha em todo o caso. E tu has de tambem
+querer mudar de fato?
+
+--Eu venho bastante molhado.
+
+--Ai, então depressa, menino, que não ha nada peor do que a roupa
+molhada no corpo. Ó Maria... ou deixe estar, eu vou... Anda,
+Henriquinho, anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares.
+
+Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado e commodamente vestido,
+saboreava uma gorda gallinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha
+lavada, e na melhor louça da copeira.
+
+Elle que tinha sempre severidades de critica contra os mais afamados
+cozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquella comida
+primitiva, com que o regalava a tia.
+
+Esta sentou-se a vêl-o comer, e com a mesma familiaridade, que Henrique
+já anteriormente extranhára, Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.
+
+Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao cerrar da noite.
+
+Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem de o observar com a natural
+curiosidade de quem havia tanto tempo não tivera um hospede, faziam-lhe
+perguntas, ás quaes elle ia respondendo conforme lhe era possivel.
+
+--Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; pois olha que na cara
+não o parece.
+
+--Não--concordou a criada--tem boas côres, e, vamos, a magreza inda não
+é lá essas coisas.
+
+Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu logo ao reclamo.
+
+--Não me digam isso! Então não vêem como estou? Pois isto é lá côr de
+saude? de febre, será. Gordo? pois acham-me gordo?!
+
+--Gordo, não digo, mas assim, assim... E depois como vieste de
+jornada... Mas a final que molestia é a tua, menino?
+
+--Eu sei lá, tia Dorothéa? Nem os medicos a conhecem bem. É, entre
+outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me não deixa, que me
+persegue por toda a parte. Ás vezes parece-me que sinto apertar-se-me
+dolorosamente o coração; outras, são palpitações, ancias... Tenho quasi
+vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem,
+nada quero vêr, nada quero ouvir; não leio, não durmo, não como.
+Finalmente todo eu sou doença e tristeza.
+
+A boa tia Dorothéa olhava com sisudez e attenção para o sobrinho,
+emquanto elle falava, e na physionomia iam-se-lhe desenhando, ao
+ouvil-o, os mais expressivos signaes de espanto e consternação.
+
+Assim que Henrique terminou a exposição, ella disse-lhe com uma adoravel
+candura:
+
+--Então é assim uma especie de mania!
+
+Á palavra «mania» Henrique sobresaltou-se. Seria a consciencia que se
+sentiu ferida?
+
+--Mania? Ó tia Dorothéa! Mania! Veja bem, olhe que o termo é forte?
+Mania!
+
+--Sim, menino--insistiu ingenuamente a boa senhora--pois olha que não é
+outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de quê... sim... porque
+não te morrendo ninguem, nem te doendo nada...
+
+Ó poetas devaneiadores, ó almas melancolicas, que percebeis no sussurrar
+das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios, queixas
+occultas de dryades e de nayades, sentidas vibrações das harpas de fadas
+aereas, que vivem em palacios de nuvens; ó corações inoculados de
+poesia, que vos confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar do
+dia, ao desfolhar das arvores no outomno; poetas, que escutaes, com
+Victor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepusculo, e com elle
+adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, perdoae a involuntaria
+blasphemia da tia Dorothéa, que não contem o menor fermento de malicia;
+perdoae-lhe a dura expressão de que ella se serviu para caracterisar os
+vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e
+crêde que, apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada para
+sympathisar comvosco, do que tantas que por ahi fazem gala de vos
+comprehender melhor.
+
+Henrique não podia porém digerir a expressão, de que se servira a tia,
+para diagnosticar o seu mal.
+
+--Mania!--repetia elle--essa agora! Sempre é forte de mais. Mania, não,
+tia Dorothéa, lá isso não. Mania!
+
+--Eu lhe digo--acudiu a criada.--Não vá sem resposta; que está quasi
+como o cunhado da Rosa do Bacello. A senhora não se lembra? Andou
+aquella alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só, até que a
+final lá foi parar...
+
+--Aonde?--perguntou Henrique, erguendo os olhos interrogadoramente para
+a criada.
+
+--Lá foi parar a Rilhafolles--concluiu esta, espevitando a véla o mais
+naturalmente d'este mundo.
+
+Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.
+
+Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo de arroz, que lhe estava
+sabendo como nunca manjar lhe soubera.
+
+--Então não comes mais?--perguntou a tia.
+
+--Muito agradecido; eu o mais que tenho é somno.
+
+--Pois sim, mas é preciso fazer por comer--insistiu ella.
+
+--Ora vá mais este côxão--disse a criada.
+
+--Não é possivel--teimou Henrique, e insistiu para se recolher ao
+quarto.
+
+--Tens razão, tens--concordou a tia Dorothéa--deves estar fatigado. Vae
+com Nossa Senhora, menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que
+isso não é bom. É fazer por espairecer. Come, bebe, passeia, que é o que
+dá saude. Nada de malucar.
+
+--Sim--accrescentou a criada--e não queira estar doente, que não tem
+graça nenhuma.
+
+--E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem te podes distrahir. O
+brazileiro Seabra, que tem uma casa como um palacio; o Augustito do
+doutor, que é um bom mocinho. E depois vae dar um passeio por ahi, um
+dia até os moinhos outro dia até á ermida da Senhora da Saude. Agora me
+lembra: a Lenita já mandou ahi outra vez saber se tinha chegado o
+hospede--disse D. Dorothéa.
+
+--Não foi só a morgadinha...
+
+--Ahi está você a chamar-lhe tambem a morgadinha.
+
+--Então, senhora?! isto é o costume. Mas todas as outras senhoras
+mandaram tambem o Torquato saber do sr. Henrique. A sr.^a D. Victoria e
+a Christininha.
+
+--Ai, pois cuidadosas são ellas! Tu has de te entender com aquella
+gente. É uma gente muito dada e sem ceremonia. É preciso lá ir. Olha,
+ámanhã podes ir visital-as. É um passeio bonito.
+
+Henrique, que tinha estado distrahido durante a conversa das duas, nem
+se dava ao trabalho de intervir no dialogo em que ellas dispunham já do
+seu tempo e traçavam-lhe planos de vida.
+
+--Mas vae descançar, menino, vae e faze por dormir. Olha lá, tu costumas
+dormir com luz?
+
+--Não, tia, não costumo.
+
+--É porque n'esse caso... Ó Maria, onde está aquella lamparina, que me
+serviu quando eu estive doente, ha seis annos?
+
+--Está lá dentro, senhora; se a senhora quer eu...
+
+--Vê lá, menino...
+
+--Não tia, não quero.
+
+--Ha pessoas que não podem dormir ás escuras--dizia a criada.--Eu,
+graças a Deus, durmo bem de qualquer fórma.
+
+--Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, has de vêr
+se queres o travesseiro mais alto ou...
+
+--Muito agradecido, tia Dorothéa, tudo deve estar bom--disse Henrique,
+procurando fugir ás muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as
+duas o iam perseguindo até o quarto.
+
+--Olha, ó menino, tu bebes agua de noite?
+
+--Ás vezes.
+
+--Você poz-lhe agua no quarto, Maria?
+
+--Puz, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia, que
+antes sem luz do que sem agua.
+
+--Bem, então está bom. Então muito boa noite, menino.
+
+--Boa noite, tia.
+
+--Ai, é verdade. Has de vêr se queres mais roupa na cama.
+
+--Não hei de querer, não, tia.
+
+--Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria?
+
+--Cinco, senhora.
+
+--Cinco!--exclamou Henrique, quasi horrorisado.--Cinco cobertores!
+
+--É pouco?
+
+--Pouco?--É de morrer esmagado debaixo d'elles.
+
+--Ai, quer não! Olha que está muito frio.
+
+--Bem, bem; eu cá me arranjarei.
+
+--Então, muito boa noite.
+
+--Muito boa noite, tia.
+
+E Henrique ia a fechar a porta.
+
+--Olha...--disse ainda a tia.
+
+Henrique parou.
+
+--Não sei o que é que me esquece...
+
+--Não ha de ser nada, tia; boa noite.
+
+--Não esquecerá?... Eu sei?... Emfim... boa noite. Ai, é verdade...
+Sempre é bom ficar com lumes promptos.
+
+--Ai, sim; lá isso sempre é bom.
+
+--Vês? não que bem me parecia.
+
+--Já lá estão, senhora--disse a criada de longe.
+
+--Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino.
+
+--Muito boa noite, tia.
+
+E Henrique conseguiu fechar a porta.
+
+Estava finalmente só.
+
+--Que desastrada lembrança a minha!--disse o pobre rapaz, ao fechar a
+porta sobre si.--Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente,
+que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinencias me
+espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que só posso voltar para ti á
+custa de outra jornada!
+
+O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de
+almofadas na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava
+o auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma commoda com um
+pequeno espelho, um bahú, um lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam
+a mobilia toda.
+
+Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos objectos de
+toucador, a que estava habituado. Aquelle estrictamente necessario não
+lhe promettia grandes confortos.
+
+Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo e respirava um asseio
+e frescura convidativos: os travesseiros, de largos folhos engommados,
+possuiam uma molleza agradavel ás faces; o colchão de pennas abatia-se
+suavemente sob o peso do corpo fatigado.
+
+Henrique conchegou a roupa a si; á falta de velador, pousou o castiçal
+no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a
+ler, para obedecer a um habito adquirido.
+
+Não teria ainda lido um quarto de pagina, quando ouviu a voz da tia
+Dorothéa, que lhe dizia de fóra da porta:
+
+--Ó menino, tu já te deitaste?
+
+--Já, sim, tia Dorothéa.
+
+--Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um mêdo de fogos!
+
+--Esteja descançada, tia. Eu apago já.
+
+--Então será melhor. S. Marçal nos acuda.
+
+E afastou-se, rezando ao santo.
+
+Henrique continuou a ler.
+
+D'ahi a pouco a mesma voz:
+
+--Tu já dormes, Henriquinho?
+
+--Não, tia, ainda não durmo.
+
+--Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um mêdo de
+fogos! Não descanço, emquanto não vejo tudo apagado em casa.
+
+Henrique perdeu a paciencia.
+
+--Pois pode socegar, olhe.
+
+E apagou a véla, meio zangado.
+
+--Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por
+dormir. Então, muito boas noites.
+
+--Muito boas noites--respondeu Henrique quasi amuado; e ageitando-se na
+cama, dizia comsigo:--E esta! Já vejo que nem ler me é permittido aqui.
+Olhem que vida me espera! É isto o que me devia curar? Que fatalidade!
+
+Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, unicos que
+conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu effeito,
+insinuando nos membros cançados da jornada um agradavel calor.
+Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque que ficava por debaixo das
+janellas do quarto e as gottas da chuva, que dos beiraes do telhado
+caíam compassadas na taboa do peitoril.
+
+A noite socegára. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento,
+já menos impetuosas, faziam bater as vidraças.
+
+Eram como estes estados, que succedem a um choro aberto. Correm ainda
+algumas lagrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem
+ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será
+completa a serenidade.
+
+Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar
+n'aquelle confortavel leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe
+enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente, no mais
+profundo, tranquillo e restaurador somno, que, havia muito tempo, tinha
+dormido.
+
+
+
+
+
+III
+
+
+Ao romper da manhã, quando a consciencia principia, pouco a pouco, a
+acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpôr de um somno profundo,
+Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente sentado em uma cadeira de
+S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma opera favorita.
+
+Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos e contrabassos;
+sopravam, a plena bôca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam
+descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados
+faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente
+os ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta
+riqueza de instrumentação, mais do que uma nota unica, arrastada,
+continua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar
+uma só phrase musical.
+
+Era de desesperar um _dilettante_ como elle; torcia-se na cadeira,
+inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acusticas,
+e sempre o mesmo resultado!
+
+Este violento estado de attenção, este esforço do sensorio, principiou
+n'elle a obra de despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cêdo se
+transmittiu a todos os outros orgãos.
+
+Antes de dar a si proprio conta do que era aquelle som, e quasi
+esquecido ainda do logar em que estava, Henrique abriu os olhos.
+
+A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janellas e
+espalhava no aposento uma tenue claridade.
+
+Veio então a Henrique a consciencia do logar em que estava, e uma
+alegria profunda lhe dilatou o coração.
+
+O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de pesadêlos, ou de somnos
+febris, não avalia por certo o contentamento intimo, que se apossa das
+desgraçadas victimas d'esses demonios nocturnos, quando por excepção
+elles as deixam em paz, e lhes respeitam o somno de uma noite completa.
+Acordar só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis prazeres, a que
+elles aspiram na vida.
+
+Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor; a arca do peito
+expande-se-lhes mais livre e as sombras do espirito dissipam-se-lhes com
+aquelle clarão matinal.
+
+Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos mezes,
+dormira de um somno a noite inteira.
+
+Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade
+de cantar.
+
+Mas o som, que o acordára, aquella nota unica, em que se confundiam
+todas as notas da sonhada orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.
+
+Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu que era o chiar dos
+carros--o mesmo som, que na vespera o irritára, agora assim a distancia,
+estava-lhe agradando, como nota extrahida por mão habil das cordas de um
+violino.
+
+Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella manhã o incitava ao
+exercicio, rara disposição no indolente filho da capital, que tinha por
+habito ouvir o meio dia na cama.
+
+Ergueu-se e abriu as janellas.
+
+Não é licita a comparação entre a mais surprehendente transmutação de
+uma d'essas apparatosas magicas, que tanto extasiam as multidões
+embasbacadas nas plateias e camarotes de um theatro, e as que de
+instante para instante, realisa a natureza. Descerrando o véo de nuvens
+que encobre o fulgor do sol, elevando, acima do horizonte, esse
+magestoso lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor que illumina
+as noites desanuviadas, a natureza opéra, a cada momento, as mais
+admiraveis e completas metamorphoses.
+
+Durante o somno de Henrique realisára-se um d'esses effeitos magicos.
+
+Abrandára gradualmente a violencia do sul; o vento, mudando, voltou em
+sentido opposto a grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;
+luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram perante o
+alvor do dia, e quando o sol assomou por sobre a crista das serras,
+estendia-se-lhe deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que
+tinha a percorrer. Só, muito para o occidente, ainda algumas nuvens
+amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve
+tingiu de carmim e de ouro.
+
+Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, cheia de aromas, que vem
+dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique,
+quando elle abriu as janellas.
+
+A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito uma exclamação de
+prazer!
+
+A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste que, com o coração
+apertado, atravessára na vespera, parecia outra.
+
+O sol da manhã baixára sobre ella, dissipára-lhe as sombras,
+colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersára-se em
+iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a
+de aromas, animára-a de cantos, transformára-a emfim na mais risonha
+paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas
+galas do Minho, tinham nunca repousado.
+
+O inverno despojára parte d'essas galas; embora! Até da propria nudez de
+algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos
+despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza
+poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde não haja uns tons
+escuros de melancolia?
+
+Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se
+cançava de admirar aquella scena.
+
+Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n'um momento,
+elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina.
+
+Pois era esta a mesma aldeia, através da qual elle cavalgára de noite?
+
+Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que tão do fundo da alma
+amaldiçoára na vespera, produziam, vistos então d'alli, os mais
+pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo valle,
+opulento em vegetação, e que a certa distancia se continuava insensivel
+e gradualmente com uma amenissima collina.
+
+Além, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os
+de folhas, tingira quasi da côr da violeta, contrastava com a fronde
+sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a
+qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mão do
+lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas
+encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos
+aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres,
+alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas
+conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor
+trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas
+e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado.
+Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um
+só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida
+pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de
+musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os
+paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos
+ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de
+vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições
+a pastel da mão de Pillement.
+
+A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e
+disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava
+observando.
+
+--É preciso sair! é preciso sair!--disse Henrique comsigo.--Quero vêr
+isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por
+aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras.
+
+E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa
+_toilette_, saiu do quarto.
+
+Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.
+
+--Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?
+
+--Deliciosamente minha querida tia--respondeu elle, abraçando-a com
+maior affecto e bom humor do que na vespera.
+
+O que é sentir-se a gente bem!
+
+--Então não estranhaste?
+
+--Estranhei immenso!
+
+--Sim?!--disse a tia, mortificada.
+
+--Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a
+mais estranha das occorrencias.
+
+A tia sorriu satisfeita.
+
+--Pois antes assim. E agora...
+
+--E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um
+paraiso terreal.
+
+--Espera, menino. Não vás sem almoçar.
+
+--Almoçar! Pois que horas são?
+
+--Não é cêdo; são já sete horas.
+
+--Já sete horas!
+
+E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr
+como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.
+
+--E então acha que se pode almoçar ás sete horas?
+
+--Por que não? Se está já prompto.
+
+--Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia.
+Principiemos por este.
+
+Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de
+leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo.
+
+Foi por elle que principiou o almoço.
+
+Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro,
+o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os
+physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das
+georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle,
+que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado
+sôro, a que estava habituado na cidade.
+
+D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o
+costume, continuadamente.
+
+Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.
+
+Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e
+paciencia.
+
+Falaram em muitas coisas.
+
+A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança,
+sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas,
+offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da
+terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já
+mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir
+visital-as aquella manhã.
+
+Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o
+almoço apressou-se a sair para o campo.
+
+--E se te perdes, menino?--lembrou a tia.
+
+--Se me perder, farei por achar-me.
+
+Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.
+
+Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe
+parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O
+aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a
+mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas
+graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.
+
+Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era
+novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres
+pensamentos.
+
+Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear
+ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa
+terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas,
+sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta
+d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços,
+creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á
+umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do
+lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se
+dirigiam todos os olhares.
+
+Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo
+satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte
+pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o
+distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas.
+
+Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe
+serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa,
+Henrique entrou na repartição.
+
+Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e
+dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal
+do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento
+Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e
+solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em
+interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso
+paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de
+posse s. s.^a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se
+procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras
+antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador
+de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares,
+e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.
+
+Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou
+cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para
+cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o
+nome de Henrique.
+
+Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e,
+achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito,
+convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas
+alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.
+
+Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de
+certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio
+não chegára ainda.
+
+--Saiba v. s.^a que ainda não--respondeu o sr. Bento Pertunhas--mas não
+deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem
+andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.^a ahi
+vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do
+Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um
+inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está
+paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de
+latinidade.
+
+--Ah!...
+
+--É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que
+eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão
+era a musica. Eu ainda queria que v. s.^a me ouvisse tocar trompa, que é
+o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.^a se demorar ha de
+fazer-me o favor...
+
+--Com muito gôsto.
+
+--Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação!
+
+--Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas
+deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de
+arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.
+
+O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.
+
+--Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode
+achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma
+vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que
+se tem falado no mundo! Se é que se falou--accrescentou em voz baixa.
+
+--Então duvida que se falasse latim?--perguntou Henrique, sorrindo.
+
+--Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella
+endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar
+volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa
+desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando
+precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o
+latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As
+armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem
+percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles
+punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É
+quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois--continuou elle, enthusiasmado
+com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação--e depois as
+differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós
+cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor;
+diz-se _regnum_ e _regna_ e _regni_ e _regno_ e _regnis_ e até
+_regnorum_. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua!
+
+Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento
+Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor
+pode imaginar, depois do que ouviu.
+
+--Ai, meu caro senhor--continuou o atribulado _magister_--eu se me vejo
+um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei
+de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.
+
+É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a
+Virgilio.
+
+Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de
+facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de
+cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia
+Virgilio 1.^o, 2.^o e 3.^o, como quem se refere aos monarchas homonymos,
+que succederam n'um mesmo reino.
+
+--Não me salvo se morro mestre de latim--proseguia elle.--Afunda-me no
+inferno o trambolho da syntaxe.
+
+Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta,
+principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não
+comportava mais ninguem.
+
+--Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi
+vem!--diziam todos á uma.
+
+O funccionario principiou a impacientar-se.
+
+--Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer?
+Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem
+logar. Não vêem que estão molestando este senhor?
+
+Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os
+outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo,
+como se lhe valesse algum especial privilegio.
+
+--Saia você, mulher--dizia um.
+
+--E você por que não sae? Olha agora!
+
+--A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá
+por estar aqui não é que...
+
+--Pois então saia tambem. Ora essa!
+
+--Ó santinha, não empurre.
+
+--Ó filho, quem é que lhe faz mal?
+
+--Por onde é que se quer metter, homem de Deus?
+
+--Eu não sou menos que os outros.
+
+--Que quereis vós d'aqui, canalhada?
+
+--Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.
+
+--Espera que eu te falo.
+
+Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas
+declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar
+para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.
+
+Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a
+alvoroçada anciedade do povo.
+
+Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e
+da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos
+sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um
+observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos
+semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta
+de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia
+da vida de cada um.
+
+Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem
+encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas
+vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os
+pezares!
+
+Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato
+dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem
+segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no
+anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos
+com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de
+desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com
+que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem
+depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta
+impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo
+momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em
+que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada.
+
+Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao
+mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de
+assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que
+formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu
+fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de
+cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.
+
+Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que
+seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas
+abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para
+receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que
+lhes dominava os animos.
+
+Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a
+Henrique:
+
+--Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar
+trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e
+expressão.
+
+Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação
+d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.
+
+--Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim?
+
+--Ah! pois já as espera hoje?
+
+--Não é provavel; porém...
+
+Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa
+a leitura dos sobrescriptos.
+
+Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo.
+
+A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um
+grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos
+accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
+
+Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que
+diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.
+
+--Luiza Escolastica, do logar dos Cójos--lia mestre Pertunhas.
+
+--Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!--exclamou uma mulher
+joven, apoderando-se ávidamente da carta.
+
+--Joanna Pedrosa, de Serzedo--continuava elle.
+
+--Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?--disse uma velha, pobremente
+vestida.
+
+--Será do seu Antonio, será--respondeu o insensivel funccionario;--o que
+lhe posso dizer é que traz obreia preta.
+
+A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo
+aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da
+loja, a chorar lastimosamente.
+
+--Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella--disse
+um dos circumstantes.
+
+--Coisas do mundo!--respondeu outro.
+
+Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura.
+
+--João Carrasqueiro.
+
+--Prompto, senhor--bradou um velho.
+
+--A mezada, hein?--disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos
+oculos.--O rapaz não se esquece.
+
+--Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.
+
+--D. Magdalena Adelaide de...
+
+--É a morgadinha, é a morgadinha--disseram a um tempo muitas vozes.
+
+--Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação--disse o
+Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de
+fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou:
+
+--Leve-lh'a a casa.
+
+E proseguiu:
+
+--Augusto Gabriel...
+
+--É o mestre-escola...
+
+--Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui...
+pode ficar... ainda que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve
+tambem...
+
+--João Cancella.
+
+--É o João Herodes.
+
+--Esse foi a Lisboa.
+
+--Então, quando vier, que appareça.
+
+--O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle.
+
+--Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com
+o seu zabumba e deixe lá os outros.
+
+A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu,
+redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um
+fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se
+á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario
+fechou a tarefa.
+
+--E acabou-se.
+
+Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má
+vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel
+sorte.
+
+Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por
+muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas
+amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em
+melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de
+obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte
+imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.
+
+Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu
+interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão
+satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de
+trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra
+occasião, bastaria para o fazer doente.
+
+Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a
+deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um
+rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.
+
+Parou a certificar-se.
+
+Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde
+tentava passar, que se estava falando.
+
+Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma
+scena, que lhe moveu a curiosidade.
+
+Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com
+religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes
+fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava
+montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e
+simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que
+Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas
+paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os
+collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a
+periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.
+
+Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço
+do immovel quadrupede.
+
+A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do
+rancho.
+
+Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao
+socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique,
+as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar
+penetrar bem na intelligencia do auditorio.
+
+Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos
+antes, vira na casa do correio.
+
+Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora.
+
+Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave,
+elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma
+mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa
+côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o
+desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi
+dar nome apropriado.
+
+Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos,
+porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser
+alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a
+magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular,
+se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores.
+
+Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse;
+olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar;
+coração, que não se perturbasse na sua presença.
+
+Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e
+punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente
+dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da
+airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a
+cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas
+delicadas.
+
+Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão
+inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a
+essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.
+
+Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o
+carinho com que ella o fazia.
+
+Henrique applicou a attenção.
+
+--...«E por isso, minha mãe»--lia ella--«se Deus me ajudar, espero
+dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale
+vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que
+tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.»
+
+Aqui a leitora parou para perguntar:
+
+--Então que historia é esta das arrecadas, Anna?
+
+--É, senhora, que o aluguer estava vencido...
+
+--E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?
+
+--Ora, senhora, bem basta o que...
+
+--Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda
+a coragem!
+
+E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de
+alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.
+
+Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão
+a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos
+de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e
+desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para
+mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre
+mulher, a quem era dirigida.
+
+Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de
+filho para mãe; outra de noivo para noiva.
+
+Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e
+no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel
+bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados
+conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão.
+
+A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era
+evidente que estava exultando de jubilo.
+
+Com esta terminou a leitura.
+
+Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na
+carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um
+sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura
+raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma
+castellã rodeada dos seus vassallos.
+
+Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de
+convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir.
+
+Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil
+rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu
+rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por
+entre as arvores do caminho.
+
+Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em
+que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella
+preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era
+necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e
+como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára?
+
+Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia,
+para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo;
+tinham dispersado.
+
+Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em
+que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas
+lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar
+ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras
+do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não
+transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.
+
+Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do
+Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.
+
+
+
+
+IV
+
+
+A casa do Mosteiro, com a quinta annexa á casa, como o dava a entender o
+nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem
+monastica.
+
+Era um d'estes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruinas
+ou transformados em solar de alguma _notabilidade_ provinciana. Ao de
+que falamos coubera o ultimo destino.
+
+Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na lista dos bens
+nacionaes, fôra, por insignificante preço, vendido a um modesto
+proprietario das immediações, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais
+convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se
+inaugurava no paiz.
+
+E em tão auspiciosa hora lhe acudira aquella inspiração, que, em pouco
+tempo, lhe restituia a quinta o capital empregado, regalando-o todos os
+annos com não calculados juros, e elle, sem intermittencias, cresceu
+d'ahi por deante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a familia
+no numero das mais abastadas d'aquella terra.
+
+A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos e reformas
+effectuados n'ella, offerecia, ainda claros, muitos vestigios de seus
+primitivos usos. Não era raro encontrar-se, aqui e alli, em pé uma cruz
+de pedra marcando antigos logares de devoção; no alto de algumas portas
+conservava-se visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de
+inscripções latinas; nas paredes da arcaria, em que se apoiava a face
+posterior do edificio, mantinha-se ainda um azulejo contemporaneo dos
+frades; finalmente resistira a successivas reformações certo colorido
+monastico, que só após muitos annos se dissiparia de todo.
+
+Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e magestosa álea
+de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados,
+por pouco trilhada, crescia espêssa e verdejante. Abria-se, ao fim
+d'esta rua, o alto portão do pateo.
+
+Henrique, deixado só pelo guia ao chegar alli, foi caminhando
+vagarosamente por esta avenida, dominado por a intima commoção e
+sentimento quasi de temor, que se apodera de nós, em todos os logares a
+que se ligam memorias do passado.
+
+A phantasia estava-o transportando a tempos, a que não chegavam já as
+suas recordações, ás épocas, em que, por entre estas arvores gigantes,
+se via passar, como um phantasma, o habito escuro do monge, cuja sombra
+o sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e
+estirada, ao longo d'aquella mesma avenida.
+
+Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao portão,
+transpondo o qual se introduziu no pateo. Era um largo terreiro de
+perfeita fórma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e
+lateralmente por elevadas paredes, armadas á maneira de pannos de Arrás,
+com tapeçarias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se
+dois tanques de vasta capacidade.
+
+No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas
+de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e purissima agua;
+porém as medidas economicas do ultimo proprietario e as exigencias dos
+seus projectos agricolas haviam derivado para outros fins, parte d'esta
+abundante veia, de maneira que tres d'aquellas bacias estavam agora
+completamente a sêcco.
+
+Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, os funchos
+odoriferos, havia muito que tinham invadido a bôca dos encanamentos
+inuteis onde encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas e
+myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias de caracoes.
+
+A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel pelo lado architectonico.
+A arte não tivera fadigas, ao concebel-a; o cinzel pouco se embotára a
+executal-a; nem uma columna singela, nem um florão, nem um tympano lhe
+davam a menos pretenciosa apparencia monumental. Imagine-se uma vasta
+casaria de um andar além do terreo, com muitas janellas de peitoril e
+uma só varanda de pedra sobranceira á porta principal; acima do telhado,
+uma especie de agua furtada, de construcção evidentemente posterior e
+aconselhada aos proprietarios modernos por conveniencias de accommodação
+domestica; e ter-se-ha concebido o edificio.
+
+Emquanto Henrique se occupava a examinar estas particularidades, um
+velhito, que, sentado em um banco de pedra, que havia á porta de casa,
+se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do
+recem-chegado, tossindo e arrastando os passos.
+
+Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia rustica, meia urbana,
+depois de o saudar com grave cortezia, que deixou a descoberto o
+_solideo_ fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se
+havia alguma coisa, em que o pudesse servir.
+
+Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar
+as senhoras, com nova cortezia lhe fez signal para que o acompanhasse, e
+ambos atravessaram o pateo em direcção da casa.
+
+No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferencia para deixar
+passar Henrique; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e,
+voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de annunciar.
+Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significação
+teve de explicar, porque o velho não a comprehendia bem.
+
+A final porém retirou-se por outra porta, levando o bilhete.
+
+A sala, em que Henrique ficou esperando, era toda mobilada com pesadas
+cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e
+pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, pertencentes
+provavelmente aos antigos proprietarios do mosteiro.
+
+No momento em que o velho servo, que era uma especie de feitor honorario
+da casa, abriu outra porta da sala, para ir annunciar á familia a visita
+de Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura com um tinir de
+louças e de crystaes, as vozes e risos de creanças, que falavam ao mesmo
+tempo. Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, e após uma
+voz de mulher, de timbre fresco e agradavel, disse audivelmente e como
+em resposta ás palavras do criado:
+
+--Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! Mande entrar para aqui.
+
+O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a que ainda a mesma voz
+redarguiu:
+
+--O que não é bonito é fazel-o esperar. Ande, vá.
+
+Torquato--chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram--appareceu
+outra vez e fez signal a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.
+
+Henrique que presentiu ir achar-se na presença de uma mulher nova e
+porventura bonita, correu, com instincto de perfeito homem de côrte, os
+dedos pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente o laço da
+gravata e entrou.
+
+Era completo o contraste d'este aposento com o primeiro; transpondo
+aquella porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o caracter de
+vetustez, que até alli reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto,
+modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobilia toda de um
+cunho de actualidade, visivel aos olhos menos pesquizadores. Como para
+tornar mais frizante o contraste, a presença do velho feitor estava aqui
+substituida por a de duas creanças, a mais velha das quaes mal passaria
+dos seis annos.
+
+O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como que uma cortina
+corrida sobre o passado. A porta, que elle transpuzera, a barreira que
+separava dois seculos.
+
+Sentadas no tôpo de uma longa mesa de jantar, coberta de louça fina
+ingleza, estavam as duas creanças que dissemos, com os seus babeiros
+brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sôpa. Em
+pé, á cabeceira, presidia ao _lunch_ infantil uma mulher, de quem
+Henrique só pôde notar vagamente os contornos geraes do corpo e não as
+particularidades das feições, porque, ficando voltada de costas á luz
+das janellas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras, que não favoreciam
+o exame.
+
+Ao vêr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:
+
+--Na aldeia a sala de recepções é aquella em que a gente se acha, quando
+lhe annunciam uma visita. É assim pelo menos que eu comprehendo o viver
+do campo.
+
+--E é assim que eu o aprecio, minha senhora--respondeu Henrique,
+approximando-se da mesa.
+
+As creanças, interrompendo a refeição, fitavam o recem-chegado com
+aquelles olhos espantados e penetrantes, com que ellas, promptamente, e
+quasi sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, decidem para si
+das sympathias ou antipathias de que lhes é merecedor um estranho, a
+quem vêem pela primeira vez.
+
+A mulher, que presidia ao banquete, não suspendeu com a entrada de
+Henrique a occupação domestica, na qual estava empenhada. Mostrava
+receber-lhe a visita com um perfeito «á vontade», que nada tinha porém
+de affectado.
+
+--Não sei se v. ex.^a sabe...--ia dizendo Henrique, quando, ao chegar
+perto d'ella, parou subitamente em meio da phrase.
+
+Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a
+interessante rapariga, que tanto o preoccupára.
+
+Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora
+melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um
+primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graça como
+singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie
+de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de fórma pouco mais ou
+menos similhante á que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi
+sempre absurda, e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada
+denominação de _zuavo_!
+
+A surpreza de Henrique não passou despercebida a quem era causa d'ella e
+que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação.
+
+--Perdão, minha senhora--disse Henrique, comprehendendo aquelle
+gesto--mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não
+era estranha.
+
+--E sou eu essa pessoa?
+
+--É v. ex.^a effectivamente.
+
+--Pois já nos vimos?
+
+--Já... quero dizer, eu já vi v. ex.^a
+
+--Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter
+visto nunca. Apesar d'isso sei que é o sr. Henrique de Souzellas,
+sobrinho d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; não é
+verdade?
+
+--Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.^a não é antigo tambem;
+data de algumas horas apenas.
+
+A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as
+sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu á cabeça
+uma ligeira inclinação sobre o hombro, d'onde resultou para aquella
+gentil physionomia a mais adoravel expressão de estranheza, que pode
+animar um semblante de mulher.
+
+--Esta manhã--proseguiu Henrique, a quem os encantos d'aquelle gesto não
+tinham passado despercebidos--assisti a uma scena commovente. O logar
+era uma deveza; uma joven senhora... joven e... e com outras qualidades,
+além d'esta, para excitar attenções, lia, em voz alta, as cartas que
+algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio...
+
+Ella não o deixou continuar.
+
+--Ah! entendo agora. Viu-me? Já andava por fóra? Não o suppunha assim
+madrugador. Mas onde estava tão escondido? Vejo que é indiscreto... Não
+admira, habitos da cidade. É verdade, é. Aquella gente encontrou-me no
+caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e não me
+deixou sem que eu lhe abrandasse a ancia de coração que a affligia.
+Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, já pensou no supplicio que
+deve ser olhar a gente para uma folha de papel escripta, na qual sabemos
+que se fala de uma pessoa querida, e não ter poder para decifrar aquelle
+enygma? Que martyrio! Eu por mim, confesso que me falta o animo para
+recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria para negar uma gotta d'agua
+ao desgraçado que visse a morrer de sêde. A crueldade seria quasi igual.
+Não lhe parece?
+
+Henrique formulou um galanteio, que ella porém não ouviu, entretida já a
+escutar o que uma das creanças lhe dizia.
+
+--Lena, olha a Annica, que está a deitar a sôpa d'ella no meu prato.
+
+--Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro a deitou no meu.
+Não tem vergonha de mentir!
+
+--Então--disse Magdalena, que a este nome correspondia a contracção
+familiar, de que se serviam as creanças.--Olhem agora se teem juizo.
+Vejam se querem que eu vá dizer á mamã que venha para aqui.
+
+--Não é ella a mãe, visto isso--pensou Henrique, como quem modificava
+uma opinião que concebera antes e folgava com a modificação.--Será irmã?
+Talvez... Ou mestra... É mais provavel que seja mestra. Esta mulher foi
+de certo educada na cidade. Tem uns ares distinctos...
+
+E elevando a voz:
+
+--V. ex.^a está-me recordando uma scena de um precioso livro, que nunca
+me canço de ler.
+
+--Qual é?
+
+--Werther.
+
+--Ah!
+
+--Conhece?
+
+--Conheço... quero dizer, li-o, por acaso, ha pouco tempo. Compara-me a
+Carlota? É por estar a distribuir as rações d'estas creanças? Que mulher
+ha que não seja Carlota, n'essa parte? Em todas as casas se passa uma
+scena assim. Bem se vê que não tem familia.
+
+--Por quê?
+
+--Por lhe fazer tanta sensação o espectaculo d'esta.
+
+--É certo--respondeu Henrique com melancolia.--Deve ser essa uma das
+causas; mas não a unica--accrescentou galanteadoramente.
+
+E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora
+tinha lido Werther.
+
+Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:
+
+--Então que lhe parece esta nossa aldeia?
+
+--Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que me foi desagradavel a
+impressão recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço.
+Esta manhã, porém, a transformação foi completa. Estou encantado,
+fascinado! N'uma palavra, minha senhora, eu, cidadão em corpo e alma,
+reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo.
+
+--Desconfie da mudança rapida. Habitos radicados, qualidades ou defeitos
+de educação não se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará
+por Lisboa outra vez.
+
+--Talvez não. Hoje estou até em acreditar que tinha razão o doutor, que
+me prometteu a cura das minhas doenças, se me costumasse devéras a estes
+habitos campestres.
+
+--Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?
+
+--Por que não? Hoje já almocei ás sete horas, já andei mais do que uma
+semana inteira ando em Lisboa. E inda tenho por vêr as raridades da
+terra.
+
+--As raridades?! E que raridades são essas que inda tem para vêr? A
+nossa pobre aldeia não lhe merece essa ironia.
+
+--Então acha tão pouco curiosa esta terra? Do quasi nada que d'ella
+observei esta manhã, parece-me até...
+
+--Ai, se fala da natureza, é outra coisa. A cada passo se encontra um
+ponto de vista, que nos obriga a uma exclamação. Mas ha por ahi certos
+cicerones, que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas da arte.
+Peça a Deus que o livre d'esse flagello.
+
+--V. ex.^a assusta-me. Embora; se lhes cair nas mãos, farei por achar
+curioso o que elles acharem. Vae ser esse o meu systema de cura.
+Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o
+regimen que me prescreveu o medico, quando me receitou o campo, a titulo
+de emolliente; se o seguir, salvo-me.
+
+--E não o diga a rir. Se quizer prender-se á aldeia, abjurar os
+attractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo; principiar por
+cultivar o interesse por as questõesinhas da terra; deve, por exemplo,
+declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia ou pela junta de
+parochia contra o abbade; ralhar do regedor na questão com os
+taberneiros ou defendel-o. Emquanto não chegar a isso, desconfie da sua
+acclimação.
+
+--Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. Outra coisa necessaria
+é deixar-me convencer ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito
+das notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em perpetua
+admiração deante de uns certos nomes famosos que ha sempre em todas as
+terras pequenas, e que nos atiram á cabeça a cada momento. Por exemplo,
+aqui já sei de um, com que encherei a bôca a proposito de tudo; é o de
+uma celebre morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouço falar, desde
+que puz os pés, ou por mim a alimaria que me trouxe, n'este productivo
+torrão.
+
+Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.
+
+--Então com que, tem ouvido falar muito n'essa morgadinha?
+
+--Oh! mas não faz ideia; de uma maneira desesperadora. Não ha pinhal,
+quinta, azenha, choça ou lameiro que não pertença a essa entidade, para
+mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, como um estribilho
+de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na
+loja do correio, em toda a parte o ouço pronunciar. Parece que voga nos
+ares.
+
+--Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.
+
+--Qual! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ella. E demais
+parece-me que a estou a vêr.
+
+--Ora diga. Então como a imagina? Annica, não tens ahi um guardanapo?
+
+--Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dicto tudo; uma senhora
+nutrida, a rever saude por todos os póros, encarnada como uma romã,
+sobre quem os vestidos á moda assentam como pendurados de um cabide, as
+mãos cheias de anneis, meias luvas de retroz, um chapéo com uma
+cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça... V. ex.^a ri-se?
+Acertei?
+
+--Parece-me que sim; mas julgue-o por si já que tem á vista o original.
+
+--Como?!
+
+--A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.
+
+--Vossa Excellencia!...
+
+Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito
+tempo sem saber como sair da situação em que se puzera.
+
+Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos riam, por contagio, sem
+saberem de quê. Tudo augmentava pois a confusão de Henrique.
+
+--Ora confesse--insistia cruelmente Magdalena--confesse que o está
+lisonjeando a exactidão das suas conjecturas.
+
+Henrique teve emfim uma lembrança. Tirou do bolso a carteira, em que,
+horas antes, esboçára rapidamente a figura esbelta da morgadinha,
+rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:
+
+--Veja v. ex.^a se esse esboço, apesar da sua imperfeição, está de
+accordo com a estupida concepção, que eu formára.
+
+Magdalena lançou a vista para a carteira e sorriu.
+
+--Ah! desenha?
+
+--Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. Os resultados são
+lastimosos, como estes. Perdôe-me o original, que julguei possivel
+copiar, o desacato, mas...
+
+Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.
+
+--Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo advertil-o de uma coisa, sr.
+Henrique de Souzellas. Não ha nada tão mal empregado como uma fineza no
+campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez o achasse pouco
+delicado... ou pelo menos pouco amavel, se me não dirigisse d'essas
+phrases conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso lá. Aqui acho-as
+affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da scena. Ha tanta
+semceremonia no campo! Aqui todos nos tratamos como parentes: ha de vêr.
+Não repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem nem sequer tirar
+os babeiros a estas creanças? Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa...
+
+--Então v. ex.^a já lá esteve?
+
+--Eu nasci lá e lá me eduquei.
+
+--Ah! bem se vê.
+
+--Ah? Ahi está um _ah_, que eu desejaria muito que me explicasse.
+
+--Não me será difficil fazel-o. É que antes já de ouvir falar v. ex.^a,
+só ao vêr certa distincção, certa elegancia de maneiras, conjecturei...
+
+--Basta. É um _ah_ portanto, que tem umas poucas de más qualidades.
+
+--Devéras? Uma interjeição tão innocente!
+
+--Pelo contrario, é a voz mais perfida e inconstante da nossa lingua;
+tudo exprime, a hypocrita. O seu _ah_ é vaidoso, adulador e iniquo pelo
+menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia que ainda se
+abrigue no seu coração lisbonense; a adulação competia-me castigal-a,
+mas perdôo-lh'a porque quero ainda suppôr que é um symptoma da doença
+das cidades, a meu vêr, a principal doença, que o obrigou a procurar a
+aldeia; da iniquidade, da injustiça, que faz á educação que se pode dar
+na provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe
+apresentar minha prima Christina, uma rapariga, que tem vivido aqui
+sempre e que protesta contra essa sua opinião; possue tudo quanto pode
+dar de bom a educação das cidades, e, o que mais vale, aquillo que lá é
+tão facil perder-se depressa, uma candura adoravel. É a irmã mais velha
+d'estas creanças--accrescentou, pousando a mão na cabeça dos pequenos,
+que comiam e conversavam um com o outro.
+
+--Mas v. ex.^a...
+
+--Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no caminho das admoestações,
+permitta-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei de por força
+ter. Não me sôa bem o impertinente tratamento de excellencia, que me dá.
+Essa excellencia está a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e,
+confesso-lhe ingenuamente que me custaria a voltar na lingua uma palavra
+tão comprida.
+
+--Como quer então que a trate?
+
+--Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco não me comparou á Carlota de
+Goethe? Deixe-me pois adoptar uma lembrança d'ella. Está certo de que
+tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? É um
+tratamento como outro qualquer; e entre nós mais justificado, porque
+sendo o sr. Henrique sobrinho direito de D. Dorothéa, e teimando minha
+tia Victoria, a mãe d'estes pequenos e de Christina, que D. Dorothéa é
+ainda uma especie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós a
+final de contas vimos a ser uma especie de primos tambem. Pelo menos
+assim o sustentou e decidiu hontem minha tia Victoria; e ha de vêr como
+por primo o tratará! É um tratamento menos incómmodo; eu chamar-lhe-hei
+primo Henrique; chamar-me-ha, se quizer, prima Magdalena, e
+desterraremos para sempre a antipathica senhoria e excellencia;
+concorda?
+
+--Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso,
+admittido pela fidalguia em Portugal, de que «os primos dos nossos
+primos, nossos primos são.»
+
+--Fica pois ajustado?
+
+--Fica ajustado.
+
+--Bem. Mas que ia dizer ha pouco?
+
+--Nem eu já sei... Ah!... Perguntava se tinha estado muito tempo em
+Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui.
+
+--Isso é nem mais nem menos do que pedir-me a historia da minha vida.
+Seja; é um sacrificio inevitavel a quem se vê pela primeira vez.
+Deixe-me primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.
+
+E, depois de partir a cada creança uma fatia de queijo, a morgadinha
+principiou:
+
+--A historia é curta e sem peripecias, tranquillise-se. Eu sou filha de
+Manuel Bernardo de Mesquita e...
+
+Este nome era o de um dos principaes vultos politicos da época, e que
+então militava no campo opposicionista, sendo indigitado para ministro
+na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade
+politica, tendo sempre advogado no parlamento as ideias mais liberaes, e
+militado no partido progressista.
+
+Henrique de Souzellas, que conhecia todas as personagens de importancia
+no paiz, fitou Magdalena com olhar estupefacto: tão longe estava de
+encontrar alli a filha de um futuro ministro.
+
+--Filha do conselheiro Manuel Bernardo! V. ex.^a?
+
+--Excellencia! Esquece-se da nossa convenção? Repare! É verdade. Não
+sabia que meu pae era d'aqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda
+actualmente n'um collegio em Lisboa, somos os unicos filhos de meu pae.
+Nasci, como disse, em Lisboa, mas as continuas enfermidades de minha mãe
+fizeram-nos vir para aqui viver na companhia d'ella; aqui mesmo morreu,
+e aqui está sepultada. O Angelo nasceu já n'esta casa. A morte de minha
+mãe deixou-me orphã aos doze annos, e incompleta a educação que ella
+principiára a dar-me e para a qual, se vivesse, ella só bastaria. Fui
+pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha
+educação. Mas, ao chegar á idade dos quinze annos, receiando meu pae que
+os ares da cidade desenvolvessem em mim germens de molestia, que
+porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre
+passava alguns mezes no anno, e para onde me chamavam tambem habitos
+adquiridos em creança. Eu sou muito aldeã. Para aqui vim pois. A morte
+de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia
+Victoria, que ficou desde então um pouco... um pouco... com pouca
+paciencia para olhar por as coisas domesticas. Isto creou-me novos
+deveres; havia aqui muitas creanças, estas duas, outras que estão lá
+dentro, e Christina, que era então creança tambem; occupei-me a ajudar
+minha tia.
+
+--E tão admiravelmente, que a mais carinhosa mãe o não faria melhor.
+
+--Dou-me bem com as creanças, dou. E a meu pae devo, em parte, o ter
+aprendido cedo esta sciencia. Porque é uma sciencia tambem.
+
+--Então como procedeu o conselheiro para a ensinar?
+
+--Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas umas ideias muito
+singulares. Excellentes as acho eu. Oh! não imagina que boa e excellente
+alma é a de meu pae! Era eu uma creança, tinha onze annos, talvez,
+quando elle, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo comnosco,
+me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberg. Nos
+primeiros dias não me fartava de a vêr, de a beijar, até commigo a
+deitava. Oito dias depois succedia o que era de esperar, já nem d'ella
+sabia. Meu pae notou-o.--Então, Lena--aqui todos me chamam assim--já não
+gostas da tua boneca?--Disse-lhe eu: Gosto, mas...--Bem sei, já fizeste
+tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, pela sua parte ella nada faz
+por ti, enfastias-te, canças-te de conceber, a cada momento, brinquedos
+novos. Tens razão; onze annos já não é idade em que o interesse se
+sustente com tão pouco, é necessario mais. Ora dize-me, Lena,--continuou
+elle--se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braços e os olhos,
+que te sorrisse, que chorasse tambem, que te beijasse até...--Pois ha
+bonecas assim?--perguntei eu, admirada.--E desejaval-a?--Oh! se a
+houvesse!...--Trago-t'a ámanhã. Não dormi aquella noite a pensar na
+boneca. No dia seguinte apresentou-me meu pae uma creança de um anno,
+orphã de uma pobre familia, que uma epidemia extinguira, e
+disse-me:--Ahi tens a boneca que te prometti, Lena; vou confial-a aos
+teus onze annos. Veremos se tens juizo para brincares com ella. É assim
+que eu quero que aprendas os deveres de mãe, que é a verdadeira sciencia
+apropriada a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o desgosto
+dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer
+áquella pobre creança, fui avara nas suas caricias, troquei por ella
+todos os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a morte, quando, um
+anno depois, ella me expirou nos braços. Quando fui para Lisboa, já ia
+educada para amar creanças.
+
+Magdalena contára tudo isto naturalmente, sem a menor affectação, sem
+deixar até de attender aos primos, o que augmentava o interesse com que
+a escutava Henrique.
+
+--E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos Cannaviaes--concluiu
+ella, desatando o babeiro das creanças, que tinham terminado o _lunch_.
+
+--É verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, prima
+Magdalena?--perguntou Henrique, tomando ao collo uma das creanças, que a
+morgadinha pousou no chão.
+
+--É que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha
+madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
+perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa;
+chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeição, e,
+sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi começaram a
+chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo
+quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que
+sou proprietaria ainda. Foi uma como confirmação do titulo, que já desde
+creança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo na
+verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo
+Henrique da possuidora d'elle.
+
+--Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei a pessoa a quem elle
+pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso...
+
+--Vamos, vamos. Confesse que o titulo não é dos mais romanticos e que,
+de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de phantasia
+que ahi fez, da mesma maneira que deu á humilde e fiel jumenta, que eu
+montava ha pouco, a conformação e orelhas elegantes de um palafrem, e
+quasi me transformou em uma amazona ingleza.
+
+Henrique respondeu, sorrindo:
+
+--Na impossibilidade de reproduzir as graças naturaes, soccorri-me ao
+expediente das bellezas de convenção. Confesso o meu deploravel erro.
+
+--Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas
+arvores e refreie o sestro galanteador, com que está.
+
+--Por quem é! Não leve o rigor a tal extremo. Tão injusta é comsigo, que
+se recuse a acceitar, como naturaes e sinceras, as phrases que a sua
+presença inspira?
+
+--Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa creança, que tem no collo, o
+está encarando com os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim
+aqui!
+
+Henrique beijou as faces da creança, movimento em que não ia uma
+intenção menos lisonjeira do que nas phrases que dissera, porque elle
+percebia que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos primos.
+
+Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra
+creança mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma
+folha de papel.
+
+--Lena--dizia ella em alta voz.--Olha; queres vêr o que o sr. Augusto só
+me emendou hoje no thema francez?
+
+Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.
+
+--É o sr. Henrique de Souzellas--disse Magdalena.--O hospede da tia
+Dorothéa. Esta é Marianna, outra de minhas primas--accrescentou,
+voltando-se para Henrique.--Já vê que não faltam creanças n'esta casa; e
+ainda ha mais. É o que lhe dá o ar alegre que tem.
+
+Marianna cumprimentou Henrique e não se constrangeu por mais tempo;
+mostrando á prima a composição que o mestre lhe emendára, disse:
+
+--Ora vê que não tive muitos erros.
+
+Magdalena sorria, examinando o thema.
+
+Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Marianna, quando á mesma
+porta, por onde ella entrára, appareceu o mestre, de quem se falava.
+
+Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, era um rapaz de pouco
+mais de vinte annos de idade; de rosto pallido e physionomia
+intelligente.
+
+Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola de aldeia.
+
+Trajava com simplicidade, porém com asseio e gôsto, e havia em toda a
+sua figura certo ar de distincção, que feria quem pela primeira vez o
+visse.
+
+N'um leve pendor de cabeça, no olhar penetrante e fixo, e nos labios,
+como habituados a fecharem-se á saida dos pensamentos intimos, lia-se o
+caracter pouco expansivo d'aquelle adolescente.
+
+Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferencia.
+
+--Como vão os seus discipulos, sr. Augusto?
+
+--Optimamente, minha senhora--respondeu o interrogado.
+
+--O sr. Augusto--disse Magdalena, apresentando-o a Henrique--o primeiro
+mestre de meu irmão Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.
+
+--Esquece-se, minha senhora,--accrescentou Augusto--que de Angelo sou
+discipulo tambem, e mais discipulo do que fui mestre.
+
+--Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não devia, foi de que de
+Angelo é effectivamente mais do que mestre, é amigo; assim como de todos
+nós. Este senhor--continuou ella, concluindo a apresentação--é o senhor
+Henrique de Souzellas, que se esperava em Alvapenha; é ainda nosso
+primo.
+
+Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.
+
+--Teve carta de Angelo?--perguntou em seguida a morgadinha.
+
+--Não recebi ainda o correio de hoje.
+
+--Nem nós; e é de estranhar que meu pae pelo menos não me escrevesse!
+Angelo não virá passar a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce
+quando se vê aqui. É uma perfeita creança então.
+
+Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique ainda não vira, entrou
+n'este momento na sala, trazendo um masso de cartas na mão. Depois de
+cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, disse para
+Augusto:
+
+--A mamã deu-me essas cartas para o sr. Augusto escolher d'ahi aquellas
+que eu pudesse ler.
+
+--Eu verei devagar--disse Augusto, guardando-as n'uma pasta que trazia.
+
+--Ah! já temos o Eduardo a ler cartas!--disse a morgadinha, afagando o
+primo.
+
+--Pelo que vejo--disse Henrique de Souzellas, vendo Augusto em
+disposições de partir--tem uma vida muito occupada?
+
+--E tanto que sou obrigado a pedir licença para me retirar. Tenho de ir
+esta tarde a casa do Seabra...
+
+--Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?--perguntou Magdalena.
+
+--Ainda, sim, minha senhora.
+
+--E como vão essas mulatinhas?
+
+Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto que não devia lisonjear a
+vaidade do sobredicto brazileiro, se tomasse a peito os dotes
+intellectuaes das referidas mulatinhas.
+
+Passados segundos, Augusto retirou-se, apertando a mão a Magdalena que
+familiarmente lh'a estendeu, e a Henrique, que a imitou.
+
+--Ia apostar que vae alli uma intelligencia--disse Henrique ao vêl-o
+sair--algum d'esses grandes espiritos, que vivem e morrem ignorados e
+improductivos, porque os não aquece o sol do favor publico, nem os
+bafeja a aura da moda caprichosa. É terra de maravilhas esta, ao que
+estou vendo.
+
+--É um rapaz intelligente, é--disse a morgadinha--e uma alma generosa.
+Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. Não tem familia. O pae foi um
+pobre e honrado advogado de um logar perto d'aqui, que morreu quasi na
+miseria, deixando-o por educar. A mãe, que era d'estes sitios, para ahi
+veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, mestre de si
+mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Angelo e hoje é o seu melhor
+amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimonio para elle se
+ordenar: não quiz, e preferiu ser mestre-escola. Meu pae, que lhe
+reconhecia intelligencia para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada
+conseguiu. Não ha quem o arranque d'estes sitios.
+
+--Prende-o talvez alguma paixão?
+
+--Não sei. É certo que é um professor modelo. O seu primeiro despacho
+foi temporario; agora, porém, espera meu pae fazel-o effectivo; para o
+que já elle fez novo concurso. Já vê que ambições são as d'este rapaz.
+
+--Na verdade! com muito menos fundamentos ha quem aspire a ser ministro.
+Mas com certeza o coração entra como elemento no problema d'esse
+caracter.
+
+--Mas ainda agora reparo!--exclamou a morgadinha--eu esquecida a
+conversar, e sem avisar a minha tia e Christina da sua chegada! Não o
+fiz logo, porque as sabia occupadas em umas longas novenas, em que
+andam; mas agora é tempo. Vae, Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos
+dizer-lhes que está aqui o... o primo Henrique de Souzellas.
+
+Marianna e o irmão sairam a correr.
+
+--Vae conhecer duas boas almas--disse Magdalena, voltando-se para
+Henrique--minha tia é uma santa senhora, cujo peor defeito é suppôr-se
+victima dos criados; e Christina... Christina é um anjo.
+
+
+
+
+V
+
+
+Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia,
+que logo á primeira vista, aquella mulher lhe despertára.
+
+Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada
+reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a
+que tão espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e
+etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles,
+como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás
+suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica
+indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella.
+
+A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel,
+absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o
+menor constrangimento, proseguia nas suas occupações domesticas.
+
+Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala
+immediata.
+
+--Ellas ahi veem--disse a morgadinha.
+
+De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D.
+Victoria e Christina.
+
+A mãe vinha dizendo:
+
+--É o que eu digo... Não que vocês não querem crer! Ora vejam se isto se
+atura... se isto não é para metter uma pessoa no inferno!... Não tem que
+vêr!... Não ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja
+tão mal servida como eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados
+d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o que elles fazem, esse
+bando de mandriões!... Elle é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o
+Damião, elle é a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante... e não
+havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo! É forte
+coisa!... Compromettem uma pessoa! Então como está?--accrescentou ella,
+mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mão.
+
+Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este um olhar malicioso.
+
+Henrique correspondeu delicadamente á saudação das senhoras e procurou
+justificar os criados.
+
+--Não m'os desculpe,--atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de
+voz--aquillo é de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem
+me tira isto da cabeça... Aquillo é de proposito!
+
+--Mas a mamã não vê que as criadas estavam comnosco á novena?--lembrou
+timidamente Christina.
+
+--Pois que não estivessem. Quem tem serviço a fazer não pode ouvir
+novenas.
+
+--Mas se a mamã é que as mandou!
+
+--Pois sim... pois sim... mas... mas ellas é que me deviam dizer que
+tinham que fazer. Então eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas
+obrigações? Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas então
+vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada?
+
+Henrique principiou a falar para desvanecer a irritação de D. Victoria.
+
+Como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a
+occasião para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que
+estão em scena.
+
+D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel dos quarenta e
+tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descripção.
+Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo,
+e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez.
+Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito
+sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava
+forçar o espirito a abraçar alguma ideia mais complexa; mãos rotas com a
+pobreza; intolerante, em theoria, com os ladrões e malfeitores, porém
+felizes d'elles se d'aquellas mãos lhes dependesse a condemnação; eis o
+que era D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; e esta
+idade gosa de privilegios, que eu não posso infringir. O leitor não me
+perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de
+Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua juventude e ao seu typo
+feminino. Reparemos pois.
+
+Christina era mais bonita do que bella. Não havia n'aquelle rosto uma só
+feição, que não fôsse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos
+meigos e quebrando-se com suavidade infantil; bôca, d'onde parecia
+sempre prestes a sair um afago ou uma consolação; voz, que da muita
+piedade d'aquelle bom coração, tirava ás vezes modulações commoventes;
+n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais
+inspirados artistas, cuja mão representou na téla os augustos mysterios
+do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas não
+procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e
+como por magnifico influxo, a attenção dos olhos, uma d'essas
+particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com
+arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais
+fascinador; temperavam-se alli tão completamente todas as feições, que a
+attenção não se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que
+lhes diminuia muito a intensidade. É o grande senão dos rostos
+harmonicamente perfeitos.
+
+Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria
+sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, não se sentia dominado
+por a sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram
+suaves de mais as inflexões d'aquelles contornos, brandas as tintas que
+lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente
+o typo angelico, de que lhe ficára uma agradavel, mas vaga impressão.
+
+Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser
+adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis,
+difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.
+
+Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe
+primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se
+continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal,
+reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras
+e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de
+linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas
+mulheres assim, é uma belleza subjectiva.
+
+De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia
+sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava
+timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão,
+mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por
+muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da
+morgadinha--que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava
+contraste completo com sua prima.
+
+Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e
+principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.
+
+D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a
+fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á
+tia.
+
+Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas,
+impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora
+classificára como mania.
+
+Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
+
+Henrique tornou para ella os olhos.
+
+--Ó menina, de que ris tu?--perguntou D. Victoria, com certo tom de
+severidade.
+
+--Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo?
+Ora diga?
+
+--Eu?... mas...
+
+--Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha
+d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu
+mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...
+
+--Então não crê na realidade d'ellas.
+
+--Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao
+suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a
+natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos
+naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses
+doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações.
+É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e
+mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o
+pode olhar a sério.
+
+--Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.
+
+--Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.
+
+--Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima
+Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...
+
+--Ah! tambem?--Com esse aspecto de robustez?!...
+
+--Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!--disse D. Victoria, que não
+tinha percebido bem o dialogo.
+
+--É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os
+maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode
+curar-se.
+
+--Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.
+
+--Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...
+
+--Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso
+renuncio á cura.
+
+--Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo...
+
+--Acabe.
+
+--Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.
+
+--Eu adoro as sinceridades.
+
+--Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo...
+desaffectado.
+
+Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.
+
+--Então acha?...
+
+--Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de
+galanteria, desnecessarios e perdidos.
+
+--Ó meninos, eu não vos entendo--repetia D. Victoria.
+
+Magdalena sorriu.
+
+--Digo eu que...
+
+Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.
+
+--Sempre chegou o correio!--exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo
+as cartas.--Por que veio tão tarde?
+
+--A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...
+
+--Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
+
+--Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a
+a correr.
+
+Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
+
+--É de meu pae--disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir
+licença, começou a ler para si.
+
+--Pois agora--dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique--o que
+deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As
+pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir,
+Christina?
+
+--Eu! disse Christina, córando.
+
+--Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...
+
+--Á Senhora da Saude, mamã.
+
+--Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê?
+Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o
+ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante...
+
+--A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a
+pé--notou Christina do lado.
+
+--Isso é por os açudes.
+
+--Pois por onde haviamos de ir?
+
+--Por a Granja, que é melhor.
+
+--Por a Granja! É uma legua!
+
+--Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que
+é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os
+cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.
+
+--Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr.
+Henrique...--disse Christina, embaraçada ao continuar.
+
+--Eu o quê, minha senhora?
+
+--Perdão--interrompeu D. Victoria.--Por que não has de tu chamar primo
+ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?
+
+--Por isso mesmo, mamã,--respondeu Christina--os sobrinhos da tia
+Dorothéa não são...
+
+--Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,--acudiu Henrique--eu
+acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus
+primos.
+
+Christina baixou os olhos, sorrindo.
+
+Henrique proseguiu:
+
+--Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da
+Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.
+
+--Não tem que saber--disse D. Victoria, caminhando para uma
+janella.--Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.
+
+--Tendo duas tão galantes companheiras de viagem--tornou Henrique,
+depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia
+d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou--parece-me que daria a pé
+uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.
+
+--O que eu lhe digo, primo--accrescentou D. Victoria--é que se acautele,
+porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.
+
+--Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus
+a morte.
+
+--Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento--disse Magdalena, que
+continuava a ler.--Logo ajustaremos contas.
+
+--É implacavel esta nossa prima, não acha?--perguntou Henrique,
+sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.
+
+--Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha
+que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para
+mim, e depois estes criados...
+
+Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto
+de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse,
+terminando a leitura da carta:
+
+--Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e
+trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.
+
+As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem
+inveja a um clown de circo.
+
+D. Victoria zangou-se.
+
+--Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora
+vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado
+para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a
+sua obrigação!
+
+As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas
+ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o
+seguinte:
+
+--Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!
+
+--Pschiu! Calae-vos!--bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para
+Magdalena:--Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que
+vem...
+
+--Nas vesperas do Natal.
+
+--Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
+
+--Depois dos Reis.
+
+--Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?...
+
+--O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?
+
+--Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...
+
+--Não ha nada menos confuso... É só isto.
+
+--Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó
+meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha
+mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles...
+
+--Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou,
+porque...
+
+--Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre
+promptos para desculpal-os. São elles...
+
+--Ó Lena, Lena--diziam as creanças--o primo Angelo não torna para
+Lisboa?
+
+--Ha de tornar.
+
+--Ora!
+
+--Olha lá, ó Lena--disse D. Victoria--sabes tu o que me lembra?... Mas
+eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma
+vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo
+Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar
+com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para
+consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...
+
+Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas
+demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á
+cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:
+
+--Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de
+ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos
+de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.
+
+D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço,
+como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe
+o riso dos labios.
+
+--Saiam d'aqui!--exclamava ella, quando conseguiu estar
+séria.--Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem
+caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então,
+Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui,
+estafermos!
+
+A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára
+impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de
+jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar
+suave um fulgor pouco costumado.
+
+A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.
+
+Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe
+affectuosamente:
+
+--Ora ahi está o que é muito bem pensado.
+
+--Pois sim, sim, mas o peor é... os criados--disse D. Victoria.
+
+--Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós.
+Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da
+tia Dorothéa.
+
+--Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella
+sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se
+importam os de cá com a Maria.
+
+--Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem,
+melhor--aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.
+
+--Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já
+não estou. Então, não.
+
+--Está resolvido--disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da
+tia.--Aqui o sr. de Souzellas--accrescentou, com maliciosa
+inflexão--fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o
+nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.
+
+--Acceito da melhor vontade.
+
+--Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella
+noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um
+minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá....
+
+--Ó menina, tens coisas!--disse D. Victoria.--Deixe-a falar, primo.
+
+--Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.
+
+--E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os
+pratos em que puzer a mão. Que mais querem?
+
+Foi alegremente acolhida a promessa.
+
+As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado
+um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção,
+trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas,
+difficultando-lhe as respostas.
+
+--Havemos de jogar o rapa, não havemos?
+
+--Havemos de jogar, havemos--respondeu Henrique.
+
+--E o par ou pernão?
+
+--Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.
+
+--E?...
+
+--Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
+
+--Olhe: e sabe contar historias?
+
+--Sei tambem contar historias.
+
+--Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata
+borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na
+testa.
+
+--Ora, o sr. Henrique já as sabe--disse, fazendo-se sisuda, Marianna.
+
+--Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de
+querer ouvir isso tudo.
+
+--Ó meninos!--exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a
+discutir com Magdalena.--Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá
+confiança, está arranjado, primo.
+
+--Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar;
+pegam-se.
+
+--E não o diga a brincar--disse Magdalena--que tambem confio n'essas
+creanças para o curarem dos seus males.
+
+--Então devéras emprehendeu curar-me?
+
+--Com toda a certeza.
+
+--N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.
+
+--Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o
+interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido
+com fé, e cega.
+
+Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por
+lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.
+
+--Lena--disse ella--que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?
+
+--A das consoadas? Excellente.
+
+--Não, menina, a do passeio á ermida.
+
+--Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.
+
+--Quando queres?
+
+--Depois de ámanhã, que é quinta feira.
+
+--Seja.
+
+--Que diz, primo Henrique?
+
+--Quando quizerem, primas; agora mesmo...
+
+--Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?
+
+--Pois não viu hoje?
+
+--Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que
+se levante ás horas, a que se deitava na cidade.
+
+--Que estás a dizer, Lena?--acudiu Christina.--Deixa-a falar. Basta que
+saiamos d'aqui ás cinco horas.
+
+--Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao
+primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.
+
+--Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou
+valetudinario.
+
+--Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui
+muita indolencia.
+
+--Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora
+havemos de vêr--disse Christina.
+
+Magdalena poz-se a rir.
+
+E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse
+Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos
+pontos de vista.
+
+Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa
+hora ao que promettera á tia Dorothéa.
+
+Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.
+
+Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro,
+do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem
+que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse
+n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos
+entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que
+fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.
+
+Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não
+passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco
+artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam
+a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o
+espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos
+costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem
+reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a
+ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe
+trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via
+manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira
+de D. Victoria.
+
+Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes
+quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes
+mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da
+mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a
+immortalidade.
+
+De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura
+de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no
+eden, onde a mão de Deus o collocára.
+
+--Anda, vagaroso, anda--disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu
+chegar.--Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.
+
+--Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
+
+--Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?
+
+--É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A
+morgadinha, sobretudo, é adoravel!
+
+--Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina
+boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
+
+Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa
+malicia.
+
+--Que quer dizer, tia?
+
+--Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se
+quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não
+tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
+
+Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais
+preoccupado e distrahido no resto da tarde.
+
+
+
+
+VI
+
+
+O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer
+amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam
+juntos n'uma terra para ambos desconhecida, tão alheios ás coisas como
+ás pessoas, no meio das quaes se vêem, nem por momentos se soffrem
+separados; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa
+d'elle para communicar-lhe as primeiras impressões recebidas, e
+pedir-lhe em troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, se vão
+familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo
+novo, afrouxa a constricção d'esses laços, e cada um principia a
+readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia
+abdicado.
+
+Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrámol-o
+na estrada; na companhia d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos era
+estranho; nada mais natural do que dar o braço um ao outro, passar
+juntos a manhã, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porém, que
+temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos
+declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forçada,
+a qual, embora seja de um amigo estimavel, se é forçada, é sempre jugo,
+em certas occasiões.
+
+Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de
+ter momentos em que se desejassem sós; se é que não deviam aos deuses a
+felicidade de possuirem curtos espiritos, o que não creio.
+
+Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorothéa a
+mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digestão de um jantar;
+deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um
+dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Marianna e
+de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do
+Mosteiro.
+
+Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos e á beira de vallados,
+com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar.
+
+O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, é
+já bastante para que nos não admire a quasi incessante melancolia de
+Augusto.
+
+Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo, á custa
+de sacrificios, cultival-a, e eleval-a á altura das suas aspirações!
+Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os
+infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!..
+não serão estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma
+existencia, embora a juventude as illumine?
+
+Havia alguns annos que esta disposição para a tristeza se exacerbára em
+Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convém
+referir.
+
+A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o
+nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao
+morrer instituido um legado a favor de Augusto, então creança, com a
+condição d'elle abraçar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de
+Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas
+de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até o da primeira
+missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro.
+
+Isto succedeu no tempo em que a mãe de Augusto, que havia dois annos
+viuvára, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo
+enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da
+localidade.
+
+Foi por todos abençoada a memoria da morgada, por tão bem cabido legado,
+que era ao mesmo tempo que remedio ás privações de uma familia, premio e
+estimulo á intelligencia e á applicação de uma creança, que promettia
+vir a ser... Deus sabe o quê.
+
+Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela
+legataria como condição á concessão do beneficio, não podia ser uma
+crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem
+querer saber a quantidade de aspirações, de esperanças, de phantasias
+que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, não é uma
+iniquidade; se não era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo
+luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, propôr-lhe trocar por
+estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por
+mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo,
+egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta;
+essas meigas generosidades são ás vezes a causa do infortunio de uma
+vida inteira; acceites ou recusadas, é raro que depois, a cada provação
+que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que
+abraçamos.--«Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de
+phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos
+de poetas o beneficio que te offereciam?»--dirá ella aos que rejeitaram
+o pacto.--«Ambicioso!--clamará aos outros--ahi tens a felicidade que
+julgaste comprar á custa do que ha de mais nobre na alma humana;
+embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de
+ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspirações.»
+Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição
+testamentaria. Era muito creança ainda; e depois uma ideia nobre o
+preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre mãe, que só
+podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo,
+apenas conseguira deixar uma herança; foi á viuva o dever de velar pelo
+filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando
+elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a
+vida.
+
+Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a
+intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem
+rudes eram os cuidados de cultura que o velho _magister_ lhe sabia dar.
+Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do
+estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas
+duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso,
+elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso.
+
+E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de
+uma nobre missão a cumprir. Não ha fadigas que tal estimulo não vença;
+abnegação, que não inspire.
+
+A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua mãe precisava d'elle.
+
+Quando ainda aos seus treze annos fôsse já bem conhecida a grandeza dos
+sacrificios que lhe exigiam, não hesitaria talvez, instigado por aquella
+aspiração; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as
+doces imagens, tão gratas ao coração do adolescente, e a que teria de
+renunciar.
+
+Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, graças aos esforços
+empregados, não se fez esperar muito.
+
+Quando se approximava a occasião, o pae de Magdalena mandou vir Augusto
+para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia.
+
+Não confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro
+quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas lições de um professor
+da cidade, e d'este obteve as melhores informações da intelligencia do
+rapaz, que só por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos
+vicios do ensino de campo.
+
+Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o
+exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas
+qualificações.
+
+Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se,
+dizia-se por lá que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até
+quem não hesitasse em affirmar que a creança confundira os mestres, que
+fôra uma maravilha.
+
+O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se
+em que, através do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre.
+
+Os invejosos disputavam-lhe porém tão inquestionavel gloria e riam-se
+d'elle.
+
+A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graças
+á Virgem, a quem tanto encommendára o filho.
+
+Voltou Augusto á terra.
+
+Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um
+prodigio. Todos o queriam vêr, como se até alli o não tivessem visto
+bem, e de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o administrador,
+nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o
+viram, não houve um só que não notasse que o pequeno vinha triste.
+
+Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as
+interpretações é que variavam.
+
+--Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem não está costumado... dizia um.
+
+--São canceiras de estudos--aventava outro.--Ha lá coisa que puxe mais
+por uma pessoa do que o estudo!
+
+--Não que vocês cuidam! Um exame sempre abala a gente cá por
+dentro--dizia um doutor, que levára dez annos a vencer um curso de
+cinco.
+
+Fôsse pelo que fôsse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os
+ares da sua terra não dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam
+no futuro e no legado da morgada.
+
+Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era
+de suppôr, a receiosa mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos
+e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, arguições,
+lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder
+que nada tinha que o affligisse, que era a illusão de quem o via a
+tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era
+mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.
+
+Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, á
+custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar
+nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia.
+Não se pôde atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia não era;
+pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o
+illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas.
+
+A saude vacillante da mãe de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio
+dar outro motivo á demora do filho.
+
+Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo
+os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma.
+Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto
+abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um
+cadaver.
+
+Era orphão.
+
+A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto,
+condensou-se-lhe mais então. Era quasi um negrume de tristeza.
+
+Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois
+receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa.
+
+O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a
+Lisboa. Uma manhã, porém, este, de pouco mais de quinze annos,
+procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção
+meditada e irrevogavel:
+
+--Venho prevenir v. ex.^a de que desisto do legado da sr.^a morgada. Não
+quero ordenar-me.
+
+O conselheiro fitou-o, estupefacto.
+
+--Não queres ordenar-te! Por quê?...
+
+--Já não tenho mãe a quem amparar. Por ella forçaria a minha vocação sem
+remorsos; por interesse proprio não o posso fazer; parece-me um
+sacrilegio.
+
+O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a
+frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as
+boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e
+sabe-se que a candura de sentimentos não entra no numero das mais
+habituaes d'essas qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se
+abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas sómente
+depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se
+baseava; assim era que, em politica, se costumára a contemporisar,
+espaçando a adopção de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para
+tempos em que fôsse mais conveniente; não se apaixonava por utopias,
+desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desviára dos olhos o prisma
+encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais
+sonhadores; costumára-se a marcar por modelo nas differentes carreiras
+da vida, não um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos
+os defeitos e vicios; assentára a menor altura o alvo: parecia-lhe que
+bom fito eram já os individuos que tinham conseguido maior consideração
+na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto,
+maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance;
+agradavel para entreter, porém mau nas applicações ás coisas da vida.
+N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera
+mundana; não um d'aquelles typos de pureza crystallina, através da qual
+parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas já um tanto
+embaciado do bafo social, que não o fazia ainda totalmente opaco.
+
+Por isso sorriu á declaração de Augusto. A carreira ecclesiastica não
+lhe parecia tão escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem tão dura
+a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro não pensava necessario
+tomar ao pé da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle,
+tolerante em naturaes infracções; por tudo isso se riu. Fez a Augusto
+uma longa dissertação sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os
+muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria
+renunciar a uma carreira segura movido pelas instigações de um espirito
+timorato ou de uma visão phantastica.
+
+Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso sceptico do conselheiro,
+declarou que não abraçaria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com
+a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha;
+que era precisa uma grande abnegação, e que elle, depois da morte de sua
+mãe, não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses não pensava, e
+se pensasse, seria isso a primeira prova de não estar preparado para a
+missão de que se queria encarregar.
+
+Quando alguem abraça com lealdade e franqueza uma boa causa,
+difficilmente é vencido. O conselheiro, costumado a não recuar nas mais
+acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás objecções
+d'aquella creança. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as
+illusões a que o via abraçado,--illusões pelo menos as suppunha elle;
+parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em
+que vivia.--Respeitou-o e calou-se.
+
+--Alguma creancice amorosa dos quinze annos--pensou para si. Deixemos ao
+tempo convencel-o. Não me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco
+sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcançado menos
+no mundo, mas talvez tivesse gosado mais... ou melhor...
+
+O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflexão
+modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz.
+
+Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as tenções, em que estava de não
+se ordenar, pelo menos emquanto não passasse mais tempo sobre aquella
+resolução.
+
+E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se
+encarregasse da primeira educação de Angelo, então de nove annos; pois
+mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official.
+
+Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus
+gôstos, lhe abria uma carreira, que elle já imaginára adoptar.
+
+De então nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos
+os progressos do discipulo, e não menos reaes as vantagens que ao mestre
+resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a
+intelligencia.--O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da
+escolha.
+
+Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram
+as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro não o deixou ser muito
+ardente a combatel-as.--Espaçou-se mais uma vez a decisão.
+
+Outras lições appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com gôsto; o
+mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido
+da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.
+
+O velho acabou por declinar n'elle o serviço todo, sem que Augusto
+consentisse em receber por isso o menor estipendio.
+
+O publico não se cançava de perguntar quando seria que o rapaz
+principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o não fazia já. Como
+não obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos
+os que não entende.
+
+No entretanto a educação de Augusto não ficára estacionaria. Com grandes
+sacrificios a continuára elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia,
+tinha muito de milagre o que fazia.
+
+O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás impaciencias do espirito
+d'este discipulo enthusiasta; e não era raro que a intelligencia de
+Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre.
+
+O acaso favoreceu os desejos do estudante.
+
+N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia,
+homem de solido saber e de reputação extensa.
+
+Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prégar na
+festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia
+e, conversando-o, admirou-lhe a penetração, captivou-se da sua modestia
+e lamentou não estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como
+pudésse, nos estudos.
+
+Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o
+padre que sim, respondeu que não seria então estorvo a distancia, porque
+elle a venceria.
+
+E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás quintas feiras e domingos,
+franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as
+lições do erudito abbade. Assim se aperfeiçoou na latinidade, cultivou a
+philosophia e adquiriu o gôsto pelos nossos velhos prosadores e poetas.
+Vinha de lá carregado de livros para ler durante a semana. Toda a
+bibliotheca do padre lhe passou pelas mãos.
+
+Era porém o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e
+litteraturas modernas.
+
+A sorte não recusou ainda a Augusto um novo mestre.
+
+Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal
+fazem preceder, vinte annos antes, a construcção definitiva de uma só,
+que de ordinario sae sempre como se não fôsse tão estudada, um houve que
+levou á aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi
+fez quartel e centro de operações, durante tres mezes inteiros.
+
+A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cêdo travaram
+conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de
+mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e
+bahús uma excellente provisão.
+
+Não tendo que fazer ás noites, entreteve-se a ensinar o francez a
+Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as
+horas a Augusto n'aquelles serões; n'elles aprendeu todos os nomes da
+nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de França e de
+Inglaterra.
+
+Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francez bastante
+para se aperfeiçoar por si; este amigo deixou-lhe em lembrança grande
+parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.
+
+Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O
+conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para
+que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em vão,
+encontrou-o ainda inabalavel.
+
+E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio
+foi concedido a outro.
+
+Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia.
+
+Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle
+logar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se
+interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da
+ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o
+não ter ambições era indicio de uma profunda doença moral; que a posição
+a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se
+acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro
+empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo
+qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da
+idade que ainda não tinha, pois mal completára dezenove annos, e Augusto
+foi por conseguinte admittido a concurso para tão pouco disputado logar
+e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem não fôra
+impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de
+tres annos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal recompensada
+carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o
+legado da morgada tivesse tido já outra applicação, o conselheiro não
+hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.
+
+Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer já
+os espinhos da profissão, apresentou-se novamente ao concurso para obter
+novo despacho. Na época em que abrimos esta narração, voltára Augusto de
+pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decisão do
+ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito
+protegido por influencias da localidade, as quaes ainda não tinham
+podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.
+
+Desde que fôra para Lisboa, Angelo não se esquecera de escrever
+amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e
+descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a férias,
+procurava transmittir ao que fôra seu mestre a sciencia que durante o
+anno adquiríra.
+
+Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a
+geographia e a historia.
+
+Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applicação faziam o
+resto.
+
+Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo teremos de travar
+conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um
+louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu
+contingente, para a educação de Augusto.
+
+De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle
+com um pacote de livros debaixo do braço e, sorrindo, pousava-lh'os em
+cima da mesa.
+
+Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos
+de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto.
+Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros,
+alguns dos quaes eram de preço? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe
+a surpreza:
+
+--Não queiras saber da minha vida, rapaz. Suppõe que eu tenho a
+servir-me uma vara de condão ou uma fada qualquer, e deixa correr.
+
+Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado
+riquezas, á fôrça de economias: porque de economias vivera sempre.
+
+De pequeno merecera áquelle velho uma singular sympathia, e com affecto
+de pae fôra sempre tratado por elle.
+
+Resignou-se a acceitar sem reflexões; até porque sabia ser facil o
+escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presença
+d'elle, qualquer palavra que pudésse denunciar desejos de possuir um
+livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder
+occulto a informal-o, ás vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros
+que Augusto devéras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza
+de lhe não ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia.
+
+A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a crença supersticiosa do
+povo a respeito d'aquelle seu velho amigo.
+
+Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informações, pelas
+quaes o velho se guiava na escolha. Não lhe attribuia porém o presente,
+porque as economias de Angelo não chegavam para tanto.
+
+Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor
+estranhar os ares pensativos com que o vemos?
+
+Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a
+distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle.
+Era de Angelo.
+
+Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho.
+
+Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses
+longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de
+uma carta de amigo para amigo.
+
+Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanças e de
+projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o
+instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda á
+aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:
+
+«Peço-lhe que diga á Lindita que se não esqueça de mim. Dentro de poucos
+dias conto ir vêr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a
+agua do poço. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva
+um livro para si.»
+
+Augusto sorriu, ao ler o _post-scriptum_.
+
+--Pobre Angelo!--murmurou elle,--Deus não permitta que sobreviva á tua
+ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affeições
+de creança muitas vezes, ao crescer, envenenam o coração.
+
+Havia tanta amargura n'estas reflexões de Augusto!
+
+E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que
+era o pae da pequena, a quem na carta se alludia.
+
+
+
+
+VII
+
+
+A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das mais estreitas ruas da
+aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das
+diversões do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da
+sua occupada e laboriosa vida.
+
+Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do
+tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o
+ámanhã já a mais de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a
+multidão nas ruas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da
+sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida
+á custa de muitos annos de fadigas.
+
+As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que
+conjunctamente vieram, não destruiram totalmente esse typo dos antigos
+tempos, anterior a ellas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes
+limite á existencia, passaram, sustentados pela fôrça dos habitos e
+justificados pelas irregularidades do serviço das postas; e Deus sabe
+quando de vez acabarão. Mas Cancella era além d'isso um recoveiro de uma
+especie rara e superior. Em todas as profissões ha sempre, no meio do
+vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gôsos,
+superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de
+escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia através das
+sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d'estes; era o poeta
+da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um _touriste_, e
+assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar
+algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.
+
+Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do
+conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza
+relativa das recovagens operadas por este meio primitivo,
+proporcionavam-lhe algumas occasiões d'isso, as quaes o Cancella de
+boamente aproveitava. Era de uma d'essas expedições que elle devia
+voltar aquella manhã, como o dava a entender a carta de Angelo.
+
+Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a ainda fechada; escutou á
+fechadura, mas não pôde verificar o menor signal de que alguem estivesse
+dentro.
+
+--É cêdo ainda--pensou comsigo.--Vejamos se estará em casa do compadre.
+
+Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.--A poucos passos mais,
+e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos
+rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma só porta e
+uma só janella, e com o respectivo quintal ao fundo.
+
+Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada;
+julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, além de
+vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava
+apenas cerrada e entrou.
+
+A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado
+á volta de cruzes de pau, para as devoções da via sacra, e de imagens de
+santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros
+enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria,
+havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual
+occupava o logar de honra n'aquella devota exposição.
+
+Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta confraria, sociedade um
+tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só
+visavam a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se _apenas_, em
+paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem
+saudades já. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a
+palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os
+martyres no céo, lá andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a
+acção d'esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor;
+as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto
+catholico era por elles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e
+ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o
+progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros
+discursos.
+
+Ardente proselyta d'estes apostolos de fé duvidosa, a sr.^a Catharina do
+Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão,
+tomára por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as
+desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita.
+
+Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando a alcova conjugal, que
+era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e
+folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d'onde
+lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o
+attrahira.
+
+Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha,
+comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.
+
+Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, ou vulgarmente
+chamado ti' Zé P'reira--nome que lhe vinha do popular e ruidoso
+instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje
+aquelle nome.--Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso
+homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e
+cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.
+
+O ti' Zé P'reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no
+rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias
+pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.^a
+Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perenne sabatina
+com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando
+sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de
+hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria
+na retesada pelle do seu companheiro inseparavel--o zabumba. Era aos
+cuidados e vigilancia d'este par conjugal que o recoveiro Cancella
+confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa
+creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem
+elle mais queria do que á menina dos olhos.
+
+Ermelinda era afilhada da familia Zé P'reira, e a mesma a quem ouvimos
+referir-se Angelo no fim da carta.
+
+Zé P'reira estava, como dissémos, só na cozinha, quando Augusto alli
+chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo
+para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e
+vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e
+rouca da sua escala de barytono, até o mais agudo e desafinado falsete.
+A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, difficultando-lhe suspeitosamente
+a articulação de algumas syllabas; era evidente que se apossára do
+hortelão o espirito familiar, o qual n'este caso, era um verdadeiro
+espirito, na accepção chimica do termo.
+
+Ze P'reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente nutrido, de
+olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto
+artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas que pareciam tentar
+sumir-se-lhe pela bôca dentro; tinha longos braços, accommodados ás
+difficuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para
+baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus.
+
+Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando:
+
+--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... É forte desgraça!...
+Aqui estou eu!... Um homem casado... casado á face da igreja... que me
+casou em dia de S. Thiago o abbade que foi... e que Deus tenha em
+descanço. Não faltou nada... correram-se banhos deante de quem os quiz
+ouvir, e não houve quem puzesse impedimento... porque eu não devia nada
+a ninguem... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catharina do
+Nascimento de S. João Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos
+Fójos... E casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?...
+Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e
+achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar
+missas e novenas lá por essas igrejas... Ora, senhores, que é forte
+desgraça a minha! É forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de
+fraqueza, se não fôsse aquelle quartilhito... o ultimo, que sempre me
+deu sua aquella... sim... sempre me conchegou o estomago. Não que dizem
+que o vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois casem-se com uma
+mulher que vá de madrugada para a igreja e venha de lá quando muito bem
+lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira
+que se soffre... verão depois... Ora, senhores, que é forte desgraça a
+minha!... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa
+carne e o osso do nosso osso... Deus devia de vez em quando tornar a
+dizer estas coisas... para não esquecerem... como se faz na escola com a
+taboada. A minha Cath'rina já o não sabe, aposto... e pelos modos os
+padres não lhe dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A carne da
+minha carne e o osso do meu osso!... mas é carne e osso que me não fazem
+caldo... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Como ha de um
+homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou
+fazer qualquer sachada?... E tambem quero vêr como hei de no arraial e
+procissão de Santo Amaro, que não tarda ahi, dar sequer um rufo assim
+mais tal... assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo...
+
+A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida pela apparição
+de nova personagem á porta do quintal.
+
+--Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de
+paciencia. É um instante emquanto accendo o lume e lhe faço o caldo.
+Verá.
+
+A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de
+doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creança da cidade, com
+os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doçura, e com os
+mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil.
+Não havia n'elles sombra, que desvanecesse aquella côr deslumbrante;
+reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em
+tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de
+artificio, de um e de outro lado do collo.
+
+Condizia com a expressão angelica do semblante o suave e affectuoso
+timbre de voz com que falára.
+
+O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha do Cancella, ou
+Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creança que tem na
+sua presença.
+
+Ermelinda sobraçava um mólho de hortaliça, que fôra colher ao quintal, e
+dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal
+deixavam ainda apagado áquella hora do dia.
+
+Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.
+
+--Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem
+reparar.
+
+A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça e fitou em Augusto
+um dos seus desemparelhados olhos.
+
+--Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa é sua... De
+jantar não lhe offereço... porque... porque... Forte desgraça a minha...
+Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de
+trabalho... e vejo o lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, a
+confessar-se, a commungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os
+está a tomar todos... Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de
+consciencia, como eu estou do estomago... Ora, senhores...
+
+--Deixe estar, padrinho... Verá como isto se arranja depressa... Olhe; o
+lume já está accêso--dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume
+no lar.
+
+--Já o devias ter feito antes, Lindita,--disse Augusto, sentando-se
+junto d'ella.
+
+--Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui lavar a roupa?
+
+--Pobre pequena--disse o Zé P'reira--tambem não te ha de faltar lazeira,
+tambem!
+
+--A mim? Agora. Não que eu não saí de casa com as algibeiras vazias.
+
+--Pois sim... mas é sempre preciso coisa que conforte... Inda se tu
+bebesses... já não digo um quartilho...
+
+--Credo, meu padrinho! Que está a dizer?
+
+--Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida
+amaldiçoada, que todos lhe teem mêdo! É vêr se o padre na missa...
+
+--Padrinho! padrinho! que vae dizer?--interrompeu Ermelinda, quasi
+aterrada.
+
+--Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho minha presumpção de nunca
+dizer senão a verdade... Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e
+mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento,
+por causa d'aquellas pancadas no recebedor... É que nenhum d'esses
+santalhões, d'esses missionarios me teem que ensinar n'esse ponto... Os
+missionarios!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao
+trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se
+Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não
+tenham que comer, quando voltarem do trabalho... Um dia inda lhes vou
+perguntar... isso vou...
+
+--Olhe; a agua não tarda a ferver; verá que dentro em
+pouco...--continuou Ermelinda.
+
+--Bem, Lindita, bem--disse Augusto--em paga da boa vontade, com que
+trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.
+
+--A mim? Diga.
+
+--Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dará em vez de
+visitas, um abraço.
+
+--De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?
+
+--Como adivinhaste depressa!
+
+--Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que... em poucos dias...
+Então?
+
+--Tel-o-hemos cá pelo Natal.
+
+--Fala verdade?
+
+--Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?
+
+--Para quê?--respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos
+cheios de curiosidade.
+
+--Ora lê, lê... Até para vêr se ainda te recordas das lições, que eu te
+dei.
+
+--Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho...
+
+--Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não a tua presença.
+
+Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a
+lêl-a com intensa curiosidade.
+
+Zé P'reira proseguiu no seu monologo:
+
+--A religião, senhores--dissertava elle--não manda tal... Isso é que não
+manda... A religião é a palavra de Deus... e Deus disse... sim... Deus
+disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixarás pae e
+mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores; que tem lá isso?
+mas não é mais mãe do que a outra mãe... e então... senhores, uma mulher
+não deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o
+tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, senhores, que é forte
+desgraça.
+
+O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram
+interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua.
+
+
+ O dinheiro paga tudo,
+ Não se fica a dever nada;
+ Toma, toma o limão verde,
+ Ó da fresca limonada.
+
+
+E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns
+passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a
+figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda.
+Cancella, ou o João Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter
+creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do
+sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela natureza dotado de uma
+estatura e robustez, dignas de Adamastor.
+
+Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas realisações dos
+temperamentos sanguineos que, sem ameaçarem de insultos apopleticos, dão
+riqueza ao sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto e
+colorido da saude e os reflexos da satisfação interior.
+
+A barba negra e espessa cercava-lhe as faces córadas, e o natural fulgor
+dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas,
+que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaçadoras, d'onde
+fuzilavam relampagos. Era formidavel então!
+
+O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na presença de amigos,
+descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes,
+d'esses que os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram.
+
+Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes lhe chamaremos assim,
+cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que
+mais que tudo trazia na memoria--a filha.--Esta, pela sua parte, mal o
+reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços.
+
+O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna, levantou-a á altura dos
+labios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda
+palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal.
+
+--Ah!--exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de
+satisfazer uma intensa necessidade do coração.--Isto consola que nem o
+copo de agua que a gente, em dias de calma, pede á borda da estrada,
+quando se leva a bôca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me
+sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... Ó sr.
+Augusto! tambem por cá?
+
+--Esperava-o, Cancella.
+
+--A mim?--continuou o homem, pousando no chão uma mala que trazia.--Pois
+aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa no que
+lhe irá por casa, sente ás vezes uns sustos, que parece que lhe fazem
+tudo escuro... As desgraças, para succederem, não põem muito... De um
+momento para outro... E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas
+que parece que são agouros... e que nos fazem a noite no coração... Umas
+vezes é um enterro... outras, um desastre... um fogo... um... E as
+creanças sós, e os paes fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o coração
+de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui
+o compadre, tirante lá a sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram
+já hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem de bem: a comadre
+é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa devéras... mas
+emfim... tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vae
+por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A
+primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando me vem
+dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro o coração, que ninguem faz
+uma ideia; eu bem canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha
+alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar
+doente!... Assim me succedeu com tua mãe... Deixei-a uma vez tão
+satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que
+encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, sr. João, venha, que já não vem
+sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como se
+recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e...
+
+A commoção impediu-o de continuar; disfarçou como envergonhado d'aquella
+fraqueza, beijando a filha outra vez.
+
+Ermelinda percebeu a perturbação do pae e disse-lhe carinhosamente:
+
+--Para que está agora a pensar n'essas coisas que o affligem, meu pae?
+
+--Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem faz bem. Mas, por isso,
+quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas côres e
+alegre... nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar.
+Ah!... ah!... Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto;
+mal fica a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto ha muita
+menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas
+cabellos assim dourados?--e passava com orgulho os dedos pelos bastos
+cabellos de Ermelinda--mas uma pelle assim delicada,--e afagava-lhe com
+as mãos a face, quasi a mêdo--mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo
+coração á gente?--e beijava-lh'os com paixão--isso é que eu ainda não
+vi, nem tenho de vêr. Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um
+selvagem como eu, é que não sei... É a imagem da mãe!... Ella tambem era
+poucochinho de si... miudinha e... Mas não pensemos n'estas coisas. Sim,
+senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por
+arranjar e eu posto á taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e
+muitos recados, muitos.
+
+--Já sei; Angelo escreveu-me.
+
+--Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo é uma perola!
+Com tres milheiros de demonios do inferno! d'alli ha de sair coisa
+grande. Eu não queria morrer sem vêr o que saía d'alli. Brinca como uma
+creança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem. E nada de
+soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da
+cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle
+tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me
+pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa,
+e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle,
+e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah!
+ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois cá a respeito da rapariga?...
+Isso é uma comedia!... Não se farta de me ouvir falar d'ella... Ah, sr.
+Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.
+
+Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.
+
+--Sim, filha,--proseguiu elle.--Deus não te devia dar a um homem como
+eu, que emfim... Com os diabos! lá alma e coração... não quero que haja
+ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios,
+até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do
+corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha
+tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que
+eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto
+que já se está ao sermão.
+
+Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido ao seu compadre um
+olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas
+amargas contra a sorte e contra a esposa.
+
+Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu uma das suas
+lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com
+reflexões proprias essa longa jeremiada.
+
+--Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a
+falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste... Aqui
+está um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a
+minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas berças... Tambem eu estou em
+jejum desde as cinco horas da manhã... mas estes missionarios! Ah! com
+seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia...
+
+--Deus nosso Senhor seja n'esta casa--disse uma voz gemida á porta da
+cozinha.
+
+--E o demo na do abbade--resmungou Herodes.
+
+Era a sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, typo de beata,
+que dispensa descripção, que regressava a casa depois de completar o
+cyclo das suas devoções.
+
+--Viva a comadre!--disse o João Cancella, continuando a mexer na mala.
+
+Ermelinda foi beijar a mão á madrinha.
+
+Augusto saudou-a affavelmente.
+
+O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e,
+voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos,
+espalmadamente abertas:
+
+--Mulher dos meus peccados, mulher de não sei que diga, olha que a
+paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto não pode continuar assim,
+mulher! Eu não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na
+igreja, mulher!... Isto são preparos, mulher?... Um homem chega a casa e
+acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove
+missas por dia e uma duzia de novenas!
+
+--Cala-te, cala-te,--retorquiu azedamente a devota metade do Zé
+P'reira--cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que
+assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha lá que não morresses
+de fome! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus! Já não ha quem queira
+soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que não tens de soffrer as do
+purgatorio? E Deus nos queira dar só o purgatorio e livrar-nos das penas
+do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que
+não ha de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar
+lamurias em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus
+peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações,
+que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de esta
+gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas
+horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o
+sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos
+eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...
+
+--Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com
+uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois
+raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça
+a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má
+christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres
+deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem
+a sôpa e o toucinho á espera d'elles?
+
+--Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n'essa
+cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos.
+Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar!
+
+--Confessar é parolar; ora adeus!
+
+--Tu estás doido, alma perdida?!
+
+--E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?
+
+--Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?!
+
+--Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os
+santos... de pau.
+
+--Vamos, vamos--disse o Herodes, intervindo.--Não vale zangarem-se por
+causa d'isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em
+santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos
+entre marido e mulher. Você, compadre, tambem tem culpas em cartorio;
+vamos lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante
+tempo em devoção; emquanto á comadre, acredite o que lhe digo: a palavra
+de Deus não é tão difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo
+a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz
+o coração, e que não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho
+direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir
+perdão por o não ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as
+mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos
+rochedos, nem...
+
+--Compadre!--atalhou escandalisada a sr.^a Catharina--compadre! É essa a
+educação que dá á sua filha? São coisas que se digam deante de uma
+creança de doze annos? Ande lá, ande lá... Ora Deus queira que lhe não
+encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse
+ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe d'ella.
+
+--Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre
+á porta, a quem não dê esmola; creança que não afague; velho ou velha,
+que não corteje; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o
+Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus;
+de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que ha de
+ser... O Senhor me perdôe, se mais é preciso ainda, que mais não sei eu
+ensinar-lhe.
+
+--Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas! E cautela com o mimo
+que dá á pequena, que é o que perde muitas almas.
+
+--Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes é que hei de
+dar mimo a esta pobre creança, que nem o da mãe conheceu!
+
+--Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar
+andar a rapariga com esses cabellos soltos? Não sabe que o demonio...
+cruzes! arma com elles laços ás almas das creaturas?
+
+--Fracas prisões são as do diabo, se as forja só de cabellos!... Então,
+por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem
+coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu á pequena
+esses cabellos tão bonitos, é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que
+lh'os tire, eu é que não.
+
+--Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos.
+
+--Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se
+os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha
+filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma d'essas cabeças
+tosquiadas, que por ahi andam!
+
+--Talvez ainda se arrependa!
+
+--Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se
+pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras... respeitaveis, como
+a da comadre; ora então...
+
+A beata, apesar de trazer sempre na memoria o _Vanitas vanitatum_ do
+_Ecclesiastes_, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre.
+Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como
+para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae:
+
+--Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar!
+Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um
+boi! É preciso não ter consciencia.
+
+E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto.
+
+Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro
+recebido.
+
+Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creança, que
+era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata
+uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de
+dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença
+da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos
+olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios
+austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e
+penetrante, falando nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão
+que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua
+candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como
+virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente
+julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle
+perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia;
+e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentira que
+dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o
+sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da
+mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da
+alma.
+
+É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres
+como os da beata.
+
+O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.
+
+--Toma lá, Ermelinda--disse elle, tirando da mala uma pequena medalha
+com um retrato.--É um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou antes,
+para ti...
+
+Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a
+creança.
+
+A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o
+retrato.
+
+--Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!--rompeu ella, com um
+espanto exaggerado.--Este homem não tem a cabeça no seu logar, por mais
+que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida
+a uma creança!
+
+O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no chão, e
+com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o
+campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:
+
+--Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher?
+São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e
+deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creança,
+de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus
+peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar
+marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha
+mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a trazem a
+vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania
+lhe tirava.
+
+O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade
+do casal; e não levava á paciencia que outro, além d'elle, dissesse
+d'aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos
+que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas
+vacillantes, e bracejando sempre, bradou:
+
+--Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!...
+Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa!
+Compadre!... veja que eu é que sou aqui o chefe da familia e esta é
+minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora,
+senhores.
+
+Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão
+nas faces; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar
+cada vez mais. Ás exclamações de Zé P'reira respondia já azedamente.
+
+--Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... Não
+basta dar á lingua... Na taberna não é que se governa a casa...
+
+A sr.^a Catharina abstinha-se agora prudentemente.
+
+Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando.
+
+Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que
+precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.
+
+Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.
+
+Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas
+satisfações, e separaram-se apertando as mãos.
+
+Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.
+
+O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel
+contenda em que viviam.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito
+tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
+do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente
+offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado
+silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo
+soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão
+justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a
+final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.
+
+Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma
+banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
+
+Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha.
+N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe
+recordassem as do supplicio.
+
+Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só
+entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e
+encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira
+vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia,
+perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao
+caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os
+humanitarios instinctos.
+
+Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e
+amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
+presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores
+do penoso tirocinio;--mas que importa? nem por isso é menos real o
+supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O
+lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e
+semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e
+volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem
+os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado,
+coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem
+sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se
+olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos
+os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que
+lhe mingúa.
+
+De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as
+desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita
+vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande
+thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia
+concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em
+não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os
+momentos de alegria.
+
+Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam
+os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado
+absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro
+contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo,
+d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que
+a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde
+professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe
+com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas
+do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas.
+Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor
+as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas
+intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar
+agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não
+tinham azas para voar.
+
+Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus
+mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do
+esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os
+ensinou a ler.
+
+Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não
+são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres
+diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona
+do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão
+mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de
+instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por
+escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma
+de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na
+vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as
+suas obrigações lhe permittiam respirar.
+
+D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.
+
+Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma
+voz bem conhecida d'elle.
+
+Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
+
+--Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. _Amice!_ Pode falar a um amigo
+e colega?--dizia elle.
+
+Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado.
+
+O latinista entrou esfregando as mãos.
+
+--A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!--dizia elle,
+batendo no hombro a Augusto.--Invejo-lhe mais a pachorra do que o
+proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as
+canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este
+mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... Faça como eu.
+
+E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto,
+poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.
+
+--Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!...
+Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E não é
+agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz
+até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas
+nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocação é para a musica...
+Poh! poh!... Lá para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e
+Dorothéa--continuava elle, examinando os livros.--Novellas... Poh!... E
+isto que é? _Confessions_ de Rousseau--n'este nome deixou aos diphtongos
+o valor portuguez--Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada!
+Poh! poh! poh! poh!...--E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi
+arremessado como se estivesse em braza.
+
+Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de
+repulsão do mestre.
+
+--Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?--perguntou elle.
+
+--Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor,
+meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade...
+_Quousque tandem, Catilina_... Mas, é por esta vez...
+
+--Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes.
+
+--Ah! grande maganão, que adivinhou--exclamou o mestre, abraçando
+Augusto com effusão.--É isso mesmo, se lhe não custasse...
+
+--Irei.
+
+--É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica...
+Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal,
+e não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do
+_Trovador_ para ensinar á minha gente. São muito bonitas... Poh! poh!
+poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o
+pequeno... Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha.
+Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e
+julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá
+esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me
+que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem
+modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito
+feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor?
+Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
+d'isto. Pois não lhe parece, hein?
+
+--Não sei bem o que quer dizer com a imagem--respondeu Augusto,
+levemente enfadado.--Além de que não posso adivinhar as intenções de um
+homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.
+
+--Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo
+que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a
+boa musica, _et coetera_, andar leguas e leguas para se metter n'este
+desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é
+natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, _et coetera_...
+O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao
+dinheiro, meu amigo.
+
+A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
+Augusto, que não redarguia.
+
+--Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de
+ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas
+agora me lembro! o senhor é tambem da sucia.
+
+--Eu?!
+
+--Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o
+convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o
+caso, observe-o e verá se eu tenho razão.
+
+--Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a
+criada--disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa.--Em
+seguida irei aos seus rapazes.
+
+--Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe
+não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com
+ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a
+encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e
+falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições.
+O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por
+outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo
+pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas vá, vá jantar, que eu
+espero.
+
+--Se quizer fazer-me companhia...
+
+--Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua
+vontade.
+
+Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas
+voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto,
+poz-se a examinar os papeis que ella continha.
+
+Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções
+e esgares dos labios.
+
+A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto
+trazia, quando o vimos no Mosteiro.
+
+Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais
+curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o,
+desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo
+a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára.
+
+Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si,
+para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o
+escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a
+tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro
+e encetou novas variações de trompa.
+
+--Então já! Apre! Isso é jantar a vapor--disse o latinista, pondo-se a
+pé, logo que Augusto voltou.
+
+E momentos depois sairam juntos.
+
+Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de
+latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para
+voltarmos ao Mosteiro.
+
+Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao
+parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares
+vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens,
+que pareciam limital-o.
+
+D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As
+creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas
+vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que,
+a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.
+
+A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e
+longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que
+se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á
+tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos
+apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno
+costuma dar-lhe.
+
+Christina interrompeu o silencio por fim.
+
+--O que eu não sei--principiou ella--é como o primo Henrique de
+Souzellas...
+
+--Onze!--atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da
+perspectiva, que fitava.
+
+--Onze quê?--perguntou Christina, erguendo os d'ella.
+
+--Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo
+silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas,
+uma vez que está decidido que seja primo.
+
+Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.
+
+--E então que queres dizer com isso?
+
+--Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.
+
+--Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse
+caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece
+dezembro.
+
+--Não; vae magnifico para os nabaes--replicou Magdalena zombeteiramente.
+
+--Se não mudar com a nova lua--continuou Christina, ainda formalisada.
+
+--É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso,
+principalmente os das terras baixas.
+
+E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.
+
+--Não sei de que te ris!--acudiu Christina, cada vez mais séria.--Pois
+não é esta a conversa de que tu gostas?
+
+--Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.--E,
+mudando repentinamente de tom, accrescentou:--Ora vamos, Christe; não te
+zangues commigo.
+
+--Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas
+coisas que mettem raiva--respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
+
+--Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo
+Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.
+
+Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
+
+--Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle
+agora; por isso...
+
+--Pelo menos completa a duzia.
+
+--Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.
+
+--Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a
+gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que
+te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho
+na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas
+franquezas.
+
+Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão
+da prima.
+
+--E não sabes a razão d'isso?--respondeu-lhe ella--a razão é o genio que
+tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não
+perdesse a paciencia comtigo.
+
+--Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades
+que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante!
+Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se
+te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E
+pagas-me assim!
+
+--És muito infeliz commigo. Pobre Lena!
+
+--Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso
+vêr assim.--E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda
+certa malicia, Magdalena continuou:--Pois é verdade, dizias tu que não
+sabias por que o primo Henrique de Souzellas...
+
+Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.
+
+--Então que é isso? Não me acceitas a expiação?--perguntou Magdalena,
+sorrindo.
+
+--Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que
+te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
+razões que tens para isso...
+
+--Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam
+quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança!
+
+--Eu não quero dizer...
+
+--O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se
+fala n'este assumpto.
+
+--Que lembrança!--tornou Christina, cada vez mais embaraçada--pois
+imaginas devéras que eu?...
+
+--E por que não?
+
+--Lena!
+
+--Não ha nada mais natural.
+
+--Se queres, juro-te...
+
+--Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.--Isso não, que é
+mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua
+consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que
+ousadia ias pronunciar um juramento falso!
+
+--Falso!
+
+--Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres
+então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
+proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo
+agora que eram fundadas.
+
+--Suspeitas! que suspeitas?...
+
+--O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.
+
+--Lena!
+
+--Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora.
+Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do
+privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella
+timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma
+pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até
+descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me
+dares a preferencia.
+
+--Mas como imaginaste?...
+
+--Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por
+ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é
+espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato
+do mundo...
+
+--Mas...
+
+--Faça favor de me ouvir--atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios.
+Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por
+isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem
+receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço
+o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada.
+
+Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse.
+Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita
+demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez,
+suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto,
+que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais
+persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella
+o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a
+completou.
+
+Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para
+confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.
+
+A morgadinha proseguiu:
+
+--É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos
+de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são
+imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia
+hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas
+qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem
+esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que
+olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu
+sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso
+primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse
+titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto,
+Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos
+olhos muitos dos seus defeitos.
+
+--Quaes são?--perguntou Christina com viveza.
+
+--Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda
+perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
+que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu
+logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que
+n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um
+passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
+revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este
+sobrinho da tia Dorothéa te causára.
+
+--Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas
+horas? Julgo que me imaginas apaixonada?
+
+--Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer
+termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não
+é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me
+de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial,
+por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos
+medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.
+
+--Pois o tino enganou-te.
+
+--Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr
+realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais
+digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não
+fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso
+tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa
+fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em
+Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz
+mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em
+muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude,
+agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e
+desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais
+da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar
+cair a primeira capa, para que o natural appareça.
+
+--Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de
+outra--notou Christina, sorrindo.
+
+--Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha
+annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella
+suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o
+verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois
+o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais
+sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os
+inexperientes.
+
+Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou,
+olhando pela primeira vez fita para Magdalena:
+
+--Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar
+que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o
+meu, que vias dependente do estudo que fazias?
+
+A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas
+recriminações.
+
+--Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um
+sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido--a
+desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te
+falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e
+immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia.
+Satisfaz-te esta razão?
+
+A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára
+quasi o da commoção.
+
+Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida,
+apertou as mãos da amiga.
+
+--Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de
+ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para
+sempre, envenenado o coração.
+
+A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.
+
+--Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as
+nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa
+que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora
+tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize.
+
+Christina hesitou.
+
+--Vamos,--insistiu a morgadinha--acredita que preciso de uma declaração
+para me guiar... E crê que é para bem teu.
+
+--Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada.
+
+--Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um
+«agradada», por exemplo.
+
+--Confesso que...
+
+--Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz
+muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não
+corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente
+coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como
+se costuma dizer.
+
+--E então qual é o teu ideal?
+
+--Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma
+especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
+e não sei onde o procure.
+
+N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D.
+Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o
+costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo,
+attribuia umas dôres de cabeça com que acordára.
+
+No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de
+galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal
+podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a
+sua timidez não a deixava luctar.
+
+De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de
+Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos
+da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova
+visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua
+admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
+de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma
+sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á
+volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas
+pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos
+officiaes.
+
+Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa.
+
+
+
+
+IX
+
+
+Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára
+para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves.
+Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena
+abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da
+projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella
+rapariga, com tal preoccupação.
+
+As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem
+d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.
+
+Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta
+dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto.
+Christina foi acordal-a ao leito.
+
+A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.
+
+--Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares
+estremunhando a casa esta noite?
+
+--Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são
+estas as madrugadas em que falavas?
+
+--De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é.
+
+--Dentro em pouco é dia. Queres vêr?
+
+E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e
+correu as cortinas.
+
+A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave
+estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da
+natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos,
+scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
+
+--Vês?--disse Christina.
+
+--Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie
+melhor do que esta lamparina.
+
+Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de
+creança.
+
+--Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper
+do sol.
+
+--Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro!
+
+--Está tão bonita, que parece de primavera.
+
+--Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá
+coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.
+
+Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e
+voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel
+necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
+quando nos deixamos apossar da impaciencia.
+
+--Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê
+neve.
+
+--Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me
+que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia
+ganhando. Vês?
+
+--Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!...
+Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um
+engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.
+
+--Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma
+fogueira no coração, não precisa...
+
+--Ahi principias com as tuas coisas!
+
+--Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios
+matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu
+t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.
+
+--Não quero saber de explicações; veste-te, anda.
+
+--Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia
+Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo;
+dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que
+sorte de invejar!
+
+E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella
+madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e
+heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito
+para a vêr impaciente, principiou a vestir-se.
+
+Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e
+transmittindo á prima as observações que fazia.
+
+--Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os
+pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que
+não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar
+prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão
+ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
+
+--Elle! Quem é esse elle que vem ahi?
+
+--Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha?
+
+--É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em
+mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um
+«elle».
+
+--Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo--disse Christina,
+que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
+fazia de baixo.
+
+--Então, com effeito já chegou?--perguntou a morgadinha,
+admirada.--Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle
+tambem tem alguma coisa no coração!
+
+--Tambem o julgo--respondeu Christina, despeitada;--é vêr como hontem te
+falou.
+
+--Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a
+pessoa que causou esse mal.
+
+--Não sei o que elle me está a dizer--disse Christina, olhando para o
+pateo.--Posso abrir a janella, Lena?
+
+--Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã.
+Abre lá a janella, abre. Fala-lhe.
+
+Christina correu a vidraça.
+
+A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.
+
+--Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?--perguntou
+elle a Christina.
+
+Christina respondeu, sorrindo:
+
+--Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio
+dia.
+
+--Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha
+indolencia!--disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de
+Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a
+ella, mas sempre sem receber resposta.
+
+Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio
+tivera ainda.
+
+--De maneira que nós, priminha--continuou Henrique--damos uma lição de
+mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos
+appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se.
+
+--Eu vou chamal-a--disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena,
+com certo modo, que não podia escapar a esta:--Olha se appareces alli ao
+sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê.
+
+A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao
+penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha
+e disse-lhe sorrindo:
+
+--Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos
+ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que
+não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não
+via.
+
+--Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
+
+--Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir
+accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço
+falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para
+completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.
+
+Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
+
+Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois
+ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes
+companheiras na romagem.
+
+A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as
+pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
+talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de
+Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais
+vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas;
+no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do
+campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito
+esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos
+e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.
+
+Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro
+aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá
+margens a confidencias.
+
+Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles
+certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva.
+
+Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando
+não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois
+indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e
+fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção.
+
+Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas
+ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de
+dezembro.
+
+Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de
+D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e
+mesmo do leito perguntou-lhes:
+
+--Então já vão, meninas?
+
+--Vamos, tia; vamos, mamã--responderam as duas a um tempo.
+
+--O Luiz já partiu com o almoço?
+
+--Já partiu, já, minha senhora.
+
+--E ides agasalhadas?
+
+--Como se fôssemos para a Siberia--respondeu Magdalena.
+
+--Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa
+Senhora.
+
+--Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.
+
+--Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis.
+
+Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã
+d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára
+com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir.
+
+Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique,
+depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe
+attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
+porque se lembrou de Christina.
+
+--Muito obrigada, primo,--disse ella com vivacidade.--Mas é preciso que
+o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
+trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo
+isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em
+que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro,
+embora seja o de um heroe.
+
+--Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se
+escusa--replicou Henrique.
+
+--É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma
+pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço
+de giestas, por exemplo.
+
+--Vê lá, Lena,--disse Christina ao ouvido da prima.--Talvez seja melhor
+que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.
+
+--Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr.
+Augusto--continuou voltando-se para este--espero que tome a direcção do
+nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista;
+leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de
+perigos e de fadigas. Partamos!
+
+O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus
+milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era
+uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais
+de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica
+vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes,
+arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o
+gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava
+sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em
+vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés,
+permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma
+convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em
+colosso.
+
+Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda,
+que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da
+ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam.
+Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra
+os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma
+longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito
+deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
+tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus
+passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um
+absurdo.
+
+Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que
+d'elle o separava.
+
+O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava
+um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido
+pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.
+
+Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do
+monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi
+infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes
+negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o
+cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da
+madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos
+climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua
+verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral
+do quadro.
+
+A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com
+lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e
+atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o
+passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das
+outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir.
+
+Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se
+indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os
+córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e
+os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por
+aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.
+
+As difficuldades para Henrique eram continuas.
+
+A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte
+de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse
+d'aquillo.
+
+Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a
+paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava,
+apparecia mais surprehendente e maravilhosa.
+
+Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.
+
+As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a
+belleza do quadro.
+
+Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes
+mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia
+aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos
+canteiros de um jardim.
+
+Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.
+
+--É magnifico! é admiravel! é soberbo!--dizia elle, a cada momento e
+quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.
+
+O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os
+montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na
+planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.
+
+Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que
+viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
+que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
+
+Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.
+
+Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena;
+parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
+mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a
+ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem
+lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi
+achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio.
+
+A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava
+insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.
+
+--Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á
+necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos
+auxiliar--disse ella sorrindo.--A falar verdade, para quem tem passado a
+vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto.
+Tenho um pouco de alpestre. Adeante.
+
+E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:
+
+--Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve
+a lembrança de lh'o offerecer.
+
+Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o,
+offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando.
+
+--Então por que recusas?--perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.
+
+--Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.
+
+A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não
+lhe disse nada.
+
+Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já
+tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia
+encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo
+apparecimento do sol.
+
+--Chegamos a tempo!--exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a
+primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.
+
+Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella.
+
+Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á
+contemplação d'aquella perspectiva solemne.
+
+As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa,
+n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um
+espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam
+longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em
+simples phrases, como estas:
+
+--É bello!
+
+--É magnifico!
+
+--É sublime!
+
+E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E
+eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só
+bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o
+panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a
+imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse
+d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna.
+
+Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade
+precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a
+fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
+
+Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre
+os quatro.
+
+Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus
+projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua
+mutua frieza.
+
+--Lá está o Mosteiro--disse Magdalena, apontando para o logar
+indicado.--Como parece pequeno, visto d'aqui!
+
+--É verdade--respondia Christina--e olha, Lena, como se vêem bem as
+janellas do teu quarto.
+
+--Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares...
+
+Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu:
+
+--Para cumprimentares a estrella d'alva.
+
+--As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas.
+
+--Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia
+Victoria não é muito matinal.
+
+--Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?--perguntou Henrique,
+apontando n'outra direcção.
+
+--É--respondeu Augusto--e, mais adeante, alli tem a deveza, em que
+passou ante-hontem. Não é verdade?
+
+--É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei!
+D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter
+passado tambem.
+
+--Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?--perguntou
+Magdalena, apontando para um ponto distante.
+
+--Perfeitamente.
+
+--É a minha quinta dos Cannaviaes.
+
+--Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista.
+
+--Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de
+Nossa Senhora, muito milagrosa.
+
+--Sim? hei de visital-a.
+
+--Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é
+concedido--disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão
+da mais insinuante sinceridade.
+
+--Que quer dizer o voto da meia noite?
+
+--Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no
+altar da Senhora--continuou Christina.
+
+--Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra
+desejo que se não satisfaça.
+
+--Mais devagar,--acudiu Magdalena, sorrindo--pouca gente se atreve até a
+ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas
+mortas por a sua antiga casa, dizem.
+
+--Cada vez sinto mais desejos de lá ir--accrescentou Henrique, depois de
+ouvil-a.
+
+--Além, entre aquellas arvores, sr.^a D. Magdalena, vive um
+philosopho--disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.
+
+--É verdade; o bom do tio Vicente.
+
+--Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu
+possa augmentar o meu parentesco na aldeia?
+
+--O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos
+montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso
+parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim
+como quasi toda a gente por aqui.
+
+--Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da
+igreja?--perguntou Christina.
+
+--Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas--disse
+Henrique de Souzellas.
+
+--São as mulheres que vão ouvir o missionario--respondeu a
+morgadinha.--Escutem, lá está a tocar o sino.
+
+Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas
+do campanario da aldeia.
+
+--A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira,
+que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas
+devoções--notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a
+que na vespera assistira.
+
+--Degenerou aquella mulher!--disse Magdalena--e, se quer que lhe fale a
+verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue
+assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!
+
+--Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos
+missionarios?--perguntou Henrique.
+
+--E não tem lavrado pouco!--tornou Magdalena.
+
+Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as
+palavras da morgadinha.
+
+--Primo Henrique--disse ella--julgo que ainda será preciso o seu auxilio
+para livrar do contagio esta innocente Christina.
+
+--Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a
+minha vontade.
+
+--Olha, Lena, não vês?--exclamou Christina--são os pequenos que nos
+estão a dizer adeus das janellas do mirante.
+
+De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços
+brancos.
+
+Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a
+prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.
+
+Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
+
+--Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creação.
+
+Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da
+alameda já se tingiam de luz.
+
+Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida
+faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as
+extremidades até se perder de todo no azul-celeste.
+
+Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro
+inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal
+candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu
+nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões
+que o retinham.
+
+O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas
+meias sombras da madrugada.
+
+Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha,
+que veio annunciar que o almoço estava prompto.
+
+--Pois devéras temos um almoço?--exclamou Henrique, sinceramente
+surprehendido.
+
+--Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em
+casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que
+estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o
+appetite--respondeu Magdalena. E logo após continuou para
+Henrique:--Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os
+recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
+
+Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a
+ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender,
+limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena
+fingiu não perceber.
+
+E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de
+pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.
+
+D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A
+alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das
+iguarias convidavam.
+
+Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de
+circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido,
+correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.
+
+Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á
+cozinha do Mosteiro.
+
+Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças,
+conversou animada e espirituosamente.
+
+Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com
+vontade das que ouviu a Augusto.
+
+A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.
+
+N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de
+amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.
+
+Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do
+congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam
+contrariados.
+
+Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre
+o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas
+letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
+
+--Bravo!--exclamou, depois de as ler para si--não imaginava que havia
+poetas na aldeia! Querem ouvir?
+
+E leu:
+
+
+ Se estás mais perto do céo
+ N'estas alturas da serra,
+ Ai, porque tens, peito meu
+ Inda saudades de terra?
+
+ Em vez-de erguer os olhares
+ Á luz d'este firmamento,
+ Desço-os á sombra dos lares,
+ Onde tenho o pensamento.
+
+
+--É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima?
+
+--Não sei; da aldeia de certo que não é--respondeu Magdalena, com
+indifferença.
+
+Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.
+
+--Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil
+crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um
+romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever
+saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do
+poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se
+vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim,
+confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra
+companhia--accrescentou, olhando significativamente para a
+morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta
+expressão do meu sentir, porque...
+
+
+ Em vez de erguer os olhares.
+ Á luz d'este firmamento
+
+
+Eu tambem...
+
+
+ Os _abaixaria_ aos lares
+ Onde tenho o pensamento.
+
+
+Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda.
+
+Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito
+ao ficar só com Henrique.
+
+--Prima Magdalena,--disse em tom mais affectuoso Henrique, passado
+tempo, e depois de mais algumas palavras--deixe-me falar-lhe com
+franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém,
+sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode
+imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã.
+
+--Perdão,--atalhou Magdalena--diga-me primeiro o que é isso que me vae
+dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto
+de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir
+preparando uma resposta adequada.
+
+-Que prazer tem em ser cruel!
+
+-Deixemo-nos de loucuras--continuou Magdalena, séria já.--Quem ouvisse o
+sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer
+uma declaração.
+
+-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por
+que não?
+
+-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista
+d'ellas.
+
+--Por quê?
+
+--Porque não posso escutal-o.
+
+--Ou não quer.
+
+--Ou não quero; seja.
+
+--Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração
+já...
+
+--Que impertinente pergunta? Se _já_, não tenho ainda no sr. Henrique a
+necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas
+de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.--E accrescentou logo
+depois:--Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
+Henrique.
+
+--Que vae fazer?--perguntou-lhe Henrique, admirado.
+
+Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os
+olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:
+
+--O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter;
+o meu amor proprio disse-me que--era pouco delicado estar assim a
+lisonjear uma mulher na presença de outra--e redargui por isso, pondo em
+dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na
+tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora
+dize tu.
+
+Christina córou intensamente e não teve que responder.
+
+Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo
+sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou
+desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu:
+
+--Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á
+accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da
+doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima
+Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa
+Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que
+alludiu.»
+
+A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras;
+mas fingiu não comprehender.
+
+Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos
+n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave
+expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico,
+que não escapou tambem a Henrique.
+
+Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum
+parecesse disposto a baixar-se deante do outro.
+
+Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina,
+dizendo:
+
+--Olhem o tio Vicente por aqui!
+
+Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e
+approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos
+falado no decurso dos passados capitulos.
+
+
+
+
+X
+
+
+Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.
+
+A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e
+penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes
+meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle
+semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os
+annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
+os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o
+caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que
+atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem
+permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando
+para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes.
+
+Era um enigma vivo.
+
+Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe
+curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita
+consagrava as maiores attenções e canceiras.
+
+Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém
+ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que
+vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo
+velho.
+
+Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle,
+como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.
+
+Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns
+alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e
+mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros
+de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de
+astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais
+predilectos e consultados contava um exemplar da _Polyantheia_ de Curvo
+Semedo.
+
+O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que
+revézes de familia haviam interrompido.
+
+Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os
+erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou
+a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por
+maravilhosa.
+
+E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de
+concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
+
+Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos
+simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a
+austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que
+dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle
+typo, para ella quasi lendario.
+
+Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a
+Augusto, que lh'a apertou com affecto.
+
+--Bons dias, rapaz,--disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e
+Christina, accrescentou com maneiras paternaes:--Adeus, pequenas;
+grandes madrugadas hoje!
+
+Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi
+desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:
+
+--Guarde-o Deus!
+
+Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
+
+Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe
+com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:
+
+--Quem é?
+
+Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
+
+--O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa
+pergunta.
+
+O velho nem sequer o olhou.
+
+--Este senhor--respondeu Magdalena--é sobrinho de D. Dorothéa; está
+hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.
+
+Vicente tornou a examinar Henrique.
+
+--Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã...
+Umh!...
+
+Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam
+desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo
+jovialmente:
+
+--A doença d'este senhor é um pouco de imaginação.
+
+--E grandes effeitos nascem d'ahi--acudiu sentenciosamente o velho.--Lá
+veem na _Polyantheia_ muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
+umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto
+scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo
+uma pedra do feitio de uma amora.
+
+--Com effeito!--disse Henrique, com ironica expressão de pasmo--ahi
+estava um cerebro de concepções rijas!
+
+--É divertido!--disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para
+Magdalena.
+
+--Pelo contrario--acudiu a morgadinha--o seu mal é a melancolia. Não é
+verdade?
+
+--Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia
+Dorothéa, que lhe chamou mania.
+
+--Mania e melancolia não são a mesma coisa--emendou o velho.--Tambem lá
+na _Polyantheia_ se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem
+furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou
+cólera requeimada.
+
+--De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!--continuou
+Henrique, no mesmo tom.
+
+Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse
+por irritar o velho, perguntou a este:
+
+--Parece-lhe que terá cura a doença?
+
+--Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a
+final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de
+ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira.
+
+--Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer
+o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que
+receita para as manias--disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe
+ficava proximo.
+
+O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras
+impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um
+relampago de irritação.
+
+Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.
+
+--Está bom, menino,--replicou elle amargamente.--Não diga mais, para se
+não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
+costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os
+attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não
+pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que
+é isto?--exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas
+sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.--As folhas veem d'este
+lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo.
+
+E, depois de olhar para o ar, continuou:
+
+--Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e
+aquellas nuvens.
+
+E levantou-se.
+
+--Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que
+virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o
+quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não
+tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
+Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
+
+E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as
+hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu,
+depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
+
+Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que
+parecia haver o que quer que era de forçado.
+
+--É realmente curiosa esta antigualha--disse elle, que interiormente
+sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.
+
+--Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na
+aldeia!--disse a morgadinha.--Tem uns melindres e uma maneira de vêr as
+coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender!
+depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não
+estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é
+bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças
+suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?
+
+--Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado
+geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...
+
+--É um homem de bem--atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade
+de expressão, que até alli não mostrára ainda.
+
+Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou
+firmemente aquelle olhar.
+
+--Não o nego--respondeu Henrique, pouco depois--mas infelizmente os
+homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a
+imbecilidade.
+
+--Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um
+juizo são e uma razão clara.
+
+--Acha?--tornou Henrique, já algum tanto azedado.--Ha de dar-me licença
+de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.
+
+--Procede mal--redarguiu Augusto.--Porque eu conheço aquelle homem ha
+muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor
+quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma
+digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A
+consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.
+
+--Lê fundo nas consciencias dos outros!
+
+--Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de
+ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.
+
+--Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui
+suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção
+aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que
+dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei.
+
+Augusto córou, mas respondeu com firmeza:
+
+--Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que
+qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.
+
+Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada
+ironia:
+
+--É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu
+programma... de mestre-escola.
+
+--Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre;
+rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas n'esse ponto podem
+dar lições a elegantes filhos das cidades.
+
+--Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia,
+dever-lhe algumas lições tambem. Comtudo, como, felizmente, as
+circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do
+estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lições que
+receber.
+
+--Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o
+discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.
+
+--E acceita-a em toda a especie de moeda, não é verdade?--perguntou
+Henrique, cada vez mais petulantemente.
+
+Augusto respondeu com a mesma serenidade:
+
+--Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito
+salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo.
+
+O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais
+acerbo caracter.
+
+Christina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Magdalena, como
+para convidal-a a intervir.
+
+Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto.
+A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
+inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens,
+rivalisava com o d'elle, eram tão novos para a morgadinha, que a
+surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
+de uma intervenção. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade.
+
+--Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre
+os senhores é uma altercação--disse ella por fim.--Vejam que só teem por
+testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a
+contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha
+que fizeram da occasião, para uma justa tão pouco... amavel.
+
+--Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu
+proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o seu
+pensamento, quiz estender até mim este despotismo de... _magister_...
+Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...
+
+--Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me
+agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que
+levianamente formou de quem lh'a não merecia. Vejo que prefere ser
+injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu não soffro é que se
+diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem
+sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo
+por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer,
+lastimo-o; é porque não os tem.
+
+--Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois--disse
+Magdalena.--É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e
+aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja
+porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui
+traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo
+sacrilego, que se fizesse n'ella.
+
+Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo
+antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto,
+representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e
+florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles
+pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos
+desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé
+ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
+
+E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto.
+D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que
+reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que
+estava.
+
+Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique
+examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára
+mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da
+Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não
+sei se pensando n'ellas.
+
+Esperava-os uma surpreza á saida.
+
+Realisára-se o prognostico do herbanario.
+
+O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo,
+viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e
+empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se,
+pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de
+longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea.
+Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se,
+acabando por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. Ao
+mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a
+erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas
+moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as
+aguardavam firmes.
+
+Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da
+ermida.
+
+--Depressa!--exclamou Augusto--já não ha tempo a perder! Desçamos antes
+que a tormenta nos colha.
+
+--Tem medo?--disse Henrique em tom de mofa.--Um montanhez!
+
+--Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que não é de inimigo pouco
+digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, por amor
+d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida.
+Felizmente que o criado já partiu. É um embaraço de menos.
+Vamos.--Detendo-se, porém, disse para Magdalena:--Se descessemos por o
+outro lado, minha senhora?
+
+--Para quê?--respondeu esta.--É um momento, emquanto chegamos abaixo.
+
+A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerração do ar;
+os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a
+chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente;
+havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
+nuvens tomavam uma côr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas
+igualmente sinistras.
+
+Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas;
+Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.
+
+Não era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo
+d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi
+impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em
+catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro ás
+arestas salientes da rocha.--Era necessario estar muito amestrado para o
+descer sem perigo.
+
+Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim não tivesse de
+repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas
+aventuras; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos
+despenhadeiros do monte.
+
+A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que
+inspirava alento e confiança aos mais. Agil, como um animal montez,
+girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fôra reconhecido
+chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil
+transito, ora á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira em
+embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos
+braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára,
+sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O
+proprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso
+admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de
+Augusto.
+
+O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto
+mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e
+aptidões, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de
+baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este
+momento; ora Henrique não era homem que, tendo consciencia disto,
+ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma
+compensação.
+
+Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos
+quaes sómente a preoccupação, em que iam os animos, impedia achar
+risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser
+alimento de animadas e joviaes recordações.
+
+Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao
+lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a
+pique e erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas
+e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado
+tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a
+mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espaço arremeçou-a ao
+abysmo.
+
+Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria
+difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.
+
+Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror
+Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
+
+A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças ligeiramente
+desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado
+susto.
+
+A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo sobresalto que
+involuntariamente causára.
+
+--Descança em paz!--disse ella, olhando para a mantilha; e
+accrescentou:--Sigamos.
+
+--Mas não será possivel tiral-a d'alli?--perguntou Augusto, examinando o
+sitio.
+
+--Para quê? Não podemos demorar-nos agora com isso--respondeu Magdalena.
+
+--Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um
+momento--insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.
+
+Henrique notou, sorrindo:
+
+--O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes não eram de
+tão bom aviso.
+
+E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia
+humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia
+a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma
+desnecessaria imprudencia.
+
+Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão,
+deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos á borda
+do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha,
+até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um
+ramo mais tenaz; á fôrça de vontade dominou a sua impericia em
+exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço,
+segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio.
+
+Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos,
+pôde, roçando-se como reptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e
+nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em
+terra, sem acceitar a mão que Augusto lhe offerecia, e com gesto
+radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de
+triumpho.
+
+Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma
+palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.
+
+Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça
+murmurando:
+
+--Que imprudencia!
+
+--Na verdade!--disse Magdalena, ainda nervosa com a impressão que este
+incidente lhe causára--foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.
+
+E a perturbação era tal, que nem acertou com uma phrase de
+agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais
+desejava reprehender, do que recompensar.
+
+Esta reserva offendeu Henrique; serviços a seu vêr de menor importancia,
+tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.
+
+Revoltou-o esta ingratidão.
+
+Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo
+sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e
+aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o
+tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca
+aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o
+desespêro de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas loucuras!
+
+Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fôrça das
+enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares,
+era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado
+mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham
+encontrado quasi submersa.
+
+Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:
+
+--Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar
+já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do
+moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto.
+
+--Então deixa-nos sós?--exclamou Christina, assustada.
+
+--É um instante.
+
+--Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação--disse
+Magdalena.
+
+--O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte;
+o caminho indica-se por si.
+
+E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na
+rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.
+
+Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina
+fechava o cortejo.
+
+O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios
+com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
+a direcção do rancho.
+
+Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava
+merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella
+contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o
+humilhava.
+
+Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique
+perdera com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo
+o dia.
+
+Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular
+um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
+nem sempre demasiado affavel.
+
+Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar.
+Christina menos.
+
+Este silencio acabou por exasperar Henrique.
+
+Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do
+riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor
+do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
+
+Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.
+
+--Estou devéras arrependido, prima Magdalena,--disse elle com leve
+ironia--do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
+ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a
+gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era
+demasiado cauteloso para heroe...
+
+Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou
+proseguir.
+
+Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas,
+pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.
+
+Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa
+d'aquelle duplo grito.
+
+Refiramol-o em poucas palavras.
+
+Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou
+não transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.
+
+O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em
+taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não
+conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O
+andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou
+para descançar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o
+verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua
+pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio
+caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava.
+Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava
+muitos passos de avanço.
+
+Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se
+dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em
+descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente
+caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já não se viam
+signaes de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os
+açudes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em
+cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.
+
+O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas,
+sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.
+
+Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. Encontrou a primeira,
+pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como pôde, para resistir á fôrça da
+corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um
+passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de
+sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio,
+caiu na levada para o lado dos moinhos.
+
+Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o
+estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a
+urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, sem
+perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados
+do moinho.
+
+Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o
+espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se á agua.
+
+Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas
+abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto
+se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre n'um palco,
+deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o
+papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, arriscaria,
+para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por
+ventura, um impulso generoso, que não pudésse harmonisar-se com a
+convenção, que se chama elegancia.
+
+Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle.
+
+Augusto era differente.
+
+As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos,
+para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis.
+
+Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou temerariamente a vida
+para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais
+segurança, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida,
+para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o
+fazia recuar.
+
+Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a
+margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás
+anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:
+
+--Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe
+tambem arriscar a vida, quando uma razão de humanidade lh'o pede. A sua
+imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, mas... não posso approval-a.
+Confesse que não foi tão justificada como esta.
+
+Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia justa para vêr
+que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda,
+inferior ao seu companheiro.
+
+Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo
+que teve sobre a rebellião dos maus instinctos poder sufficiente para se
+obrigar a ir apertar a mão a Augusto.
+
+O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforço da lucta com a
+corrente; ainda assim abraçou tambem Augusto, dizendo:
+
+--Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião de te dever a vida,
+rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.
+
+Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
+
+Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D.
+Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
+o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto
+estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem
+ahi dentro mudar de fato.
+
+Augusto seguiu o herbanario a casa.
+
+Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de
+haverem renovado a roupa, que a chuva repassára.
+
+No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas
+exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas,
+como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os
+criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a não haverem
+avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante,
+repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de
+chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.
+
+Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma,
+ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
+cobertores, emborcaram-o de _punch_ e taes mêdos lhe insinuaram, que as
+apprehensões pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram
+reapossar-se da sua antiga victima.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Censuravel descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos
+logares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episodios
+d'esta narração.
+
+Que se diria de um _cicerone_ que, por esquecimento ou proposito,
+deixasse de apresentar um viajante, recem-chegado a uma cidade, na
+assembleia, club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem as
+principaes personagens d'ella, onde se compendiam as grandes questões e
+interesses locaes, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras,
+os voluveis caprichos que agitam os espiritos, onde se commenta o boato
+de hontem, se dão ao de hoje mil versões diversas e se adivinha já o de
+ámanhã?
+
+Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando a este undecimo capitulo,
+sem ter guiado os leitores á venda de Damião Canada, a qual podia
+dizer-se o verdadeiro coração d'aquelle organismo social.
+
+Tudo quanto na terra havia de certa representação alli ia falar da coisa
+publica e tambem da particular;--da particular dos outros mais do que da
+propria, entenda-se.
+
+Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza após horas continuadas
+de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permittiu que o
+sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o
+envolvia, e mandasse os raios amortecidos ás cristas das serras
+fronteiras; aproveitemos este intervallo de socego para entrarmos na
+taberna.
+
+Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.
+
+Henrique de Souzellas teve de condescender com uma leve angina, que lhe
+legaram os rigores d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha,
+entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a scismar n'uma imminente
+desorganisação da larynge, a que imaginava conduzirem-o os seus
+incómmodos actuaes.
+
+No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça narrar-se ao leitor.
+
+Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos o que
+dizem os frequentadores do estabelecimento de Damião Canada.
+
+Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do proprietario, barriguda e
+rubicunda figura, que, assim posta ao pé das pipas, podia servir de typo
+para a representação de um Sileno, havia varias individualidades de peso
+nos destinos de toda a comarca.
+
+Dê-se primeiro menção ao nosso já conhecido Bento Pertunhas, a quem as
+humanidades não faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em
+communicação social com os seus conterraneos.
+
+Observada esta deferencia, mencionemos os mais.
+
+Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho das Perdizes, em quem
+já temos ouvido falar por mais do que uma vez.
+
+Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario em uma das freguezias
+proximas, chamada de Pinchões; mas propriedades e morgadia andavam-lhe
+tão embaraçadas em redes de demandas e de hypothecas, que Deus nos
+acuda.
+
+Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes, enchiam um cartorio.
+Graças, porém, ao seu genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho
+deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os cuidados agricolas
+aos rendeiros e feitores; os do futuro, a Deus ou ao diabo; e para si
+não reservava nenhuns.
+
+Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era necessidade. Frequentava
+as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavallos com os ciganos,
+e ás vezes para dar e levar sovas monumentaes.--Nos mezes de caça, a
+vida do morgado era perfeitamente nómada: estendia por leguas e leguas
+as suas excursões venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida,
+de que, de ordinario, participavam os cães, que o acompanhavam;
+distrahia-se tambem a conquistar os corações femininos da freguezia,
+calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insoffridas de um ou
+outro pae, marido ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas
+tinha contas em aberto, o que não obstava a que entrasse em todas com
+ares de conquistador e expendesse alli as suas opiniões absolutas, com
+grande exhibição de berros e de punhadas.
+
+Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das Perdizes um homem
+verdadeiramente popular entre os da sua freguezia; movia-os no sentido
+que quizesse.
+
+Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não havia funcção, rixa, solemnidade
+official, para que elle não fôsse consultado. É que a superioridade do
+morgado das Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham o povo;
+ninguem hesitava em falar-lhe e em procural-o em casa, porque, falando e
+vivendo com elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem. Os seus
+defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a
+popularisal-o; justo é porém que se diga que algumas boas qualidades
+tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não era avarento, nem
+soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso, não consentia que
+pessoa alguma, desde o mais rico proprietario até o jornaleiro mais
+miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. Não eram poucos os
+filhos-familias que resgatára de soldado, sem a menor caução ou
+interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum
+desgraçado se via perseguido pela justiça, encontrava, fôsse qual fôsse
+a enormidade do crime, asylo seguro na herdade das Perdizes, que em
+certas épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.
+
+Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era o sr. Joãozinho uma
+verdadeira potencia eleitoral.
+
+Eis ahi o homem moralmente.
+
+Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta e cinco annos, gordo,
+vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado
+e a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na maneira de vestir
+inculcava os habitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe
+era peculiar. Trazia o collete quasi sempre desapertado e com alguns
+botões de menos de modo que os peitos da camisa formavam hernia pela
+abertura; entre as calças descaídas e o collete avistava-se o cóz das
+ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar a mão; ao pescoço trazia
+um lenço de seda escarlate, negligentemente atado e com longas pontas
+fluctuantes; uma jaqueta de pelles com alamares, calças de fazenda
+chamada pelle do diabo, botas de montar e esporas constituiam o resto do
+vestuario. O cigarro, que quasi sempre fumava até ás ultimas,
+crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e o canto dos labios. O
+palito andava-lhe sempre atraz da orelha; a navalha de ponta na
+algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa
+matilha de galgos, podengos e perdigueiros.
+
+Segunda e não menos importante personalidade era a do sr. Eusebio
+Seabra, chamado por antonomasia--o Brazileiro.
+
+Era um homem de cincoenta annos; bem figurado e sisudo, de falar
+compassado e com seus quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de
+protecção a todo o mundo.
+
+Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao Brazil. Por lá esteve
+quarenta annos, e voltou o homem grave que vemos e rico. Como enriqueceu
+não sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sitio em
+que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com tres andares e
+varandas, jardim com estatuas de louça e alegretes pintados de verde e
+amarello, o qual jardim tinha mais fama n'aquellas aldeias vizinhas do
+que os jardins suspensos da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma arara,
+igualmente famosos, e uma botica homoepatica, que elle proprio
+manipulava.
+
+As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a primeira
+personagem de influencia na aldeia. Para isso principiou por fazer
+alguns reparos na igreja parochial, presenteou com vestidos novos todos
+os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze annos
+tocava a rachado. Fez á sua custa a festa do orago, chegando a mandar
+vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do
+chão. Apesar, porém, de todos estes beneficios á localidade, o
+conselheiro Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto vivesse quasi
+sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as
+ambiciosas vistas. Por isso, apesar da apparente amizade com que Seabra
+o acolhia e lisonjeava até, conservava por elle no fundo uma má vontade,
+um ciume, de que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões.
+
+Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho das Perdizes descurado
+no seu vestir. Usava sempre de suissa irreprehensivelmente talhada em
+volta do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres grandes botões
+de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas côres de uma ave da
+America; e o ouro, distribuido com profusão por todos os accessorios da
+sua pessoa, attestava os bons resultados dos seus quarenta annos do
+Brazil. Passeiava pela aldeia de chinelos de marroquim verde ou sapato
+de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do andar, que voltava a casa
+sem que uma mancha ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino.
+Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a
+com bota de polimento.
+
+Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé P'reira, que bebia, em
+silencio, ao pé do taberneiro, havia um padre, coadjuctor da freguezia,
+dois lavradores abastados e já de avançada idade, e outros que
+deixaremos confundidos na massa indistincta dos comparsas.
+
+No momento, em que entramos, usava da palavra o brazileiro, que estava
+sentado á porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.
+
+--Pois é verdade--disse elle--fômos todos da mesma creação. O
+conselheiro Manoel Bernardo saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu
+ir para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola, que era a do padre
+Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. Vossemecê ha de estar lembrado,
+sr. Luiz--accrescentou, dirigindo-se com a affabilidade protectora, que
+o caracterisava, a um dos lavradores.
+
+--Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da
+Luciana.
+
+--É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro e aquelle ratão
+do Vicente, herbanario, que era já rapaz taludo. Lembra-me, como se
+fôsse hoje, de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro da
+Corredoura.
+
+--Olha lá, hein!--diziam dois lavradores com um sorriso cortezão nos
+labios--então com que o sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...
+
+--Ora, como um homem. Eu fui levadinho da bréca. Boa sóva levei de minha
+mãe, por causa de umas calças novas que rompi.
+
+--Ora vêdes?--diziam os outros.
+
+--Ai tempos, tempos!--disse, suspirando, o brazileiro.
+
+--Quem havia de dizer então ao que v. s.^a e o conselheiro tinham de
+chegar!--notou lisonjeiramente o sr. Bento Pertunhas.
+
+--Eu sim--respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.--A que cheguei
+eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um boccado de pão
+para o resto da vida; com isso me contento. O mais, sou um pobre diabo
+que ninguem conhece, um homem ignorante, sem principios. Elle é outra
+coisa.
+
+--Não é tanto assim--insistiu Pertunhas--todos sabem que v. s.^a se
+quizesse...
+
+--Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesse o juizo de muitos, que
+por ahi vejo figurando, então havia de me vêr na brecha; porque, não é
+por me gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles.
+
+--Ora pois, não, não--disseram os lavradores, Pertunhas e o padre.
+
+--Alguns que até ministros teem sido...
+
+--Por essa estou eu...
+
+--O conselheiro mesmo...--resmungou o padre, fungando uma pitada
+jesuitica--sim, aqui para nós...
+
+--Tanto não digo--continuou o brazileiro, mais jesuiticamente ainda.--O
+conselheiro... vamos... Faça-se-lhe justiça. Eu não quero dizer que elle
+seja uma coisa por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a
+final?... Mas... Não é dos peores, não é dos peores. Faça-se-lhe
+justiça. Não é homem de grandes talentos... isso não; nem mesmo de
+grande fundo. Sim... Devemos confessar que esta é a verdade... Mas...
+emfim, vamos andando... Cada um faz o que pode--concluiu o brazileiro,
+depois de ter feito justiça ao conselheiro.
+
+--No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode fazer. Ha
+quantos annos nos anda a falar na estrada, e até hoje ainda nem palmo
+d'ella?--opinou Pertunhas.
+
+--Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o dictado--ponderou o
+brazileiro.
+
+--A falar verdade!...--disse um dos lavradores--com a influencia que
+elle tem, podia...
+
+--Ora adeus! palanfrorio--atalhou o padre--bem me fio eu na influencia
+do conselheiro.
+
+--Eh! eh! eh!--respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do padre,
+e accrescentou com um sorriso velhaco:--Não, elle diz que fala com os
+ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. Emfim...
+Elle lá o sabe.
+
+--Para mim é que elle vem de carrinho...
+
+--Eu não sei--concluiu com requinte de velhaquez o brazileiro.
+
+--Pois eu cá--disse o sr. Joãozinho, que estivera bebendo em silencio, e
+descarregou um murro na banca, que fez tilintar os copos.--Eu cá já
+disse; se os taes homens das bandeirolas me tornam a passar por as
+terras, sempre lhes meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e
+que já me serviu para varrer a feira de Santo Estevão. Uns mariolas!...
+
+E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um pontapé a
+um podengo, que lhe viera roçar por as pernas, e fel-o sair ganindo.
+
+--Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das
+estradas--informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr.
+Joãozinho.
+
+--Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!--resmungou
+este.--Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente queimámos toda
+a papelada da camara e do escrivão da fazenda.
+
+--Agora no inverno é que elles hão de principiar com os trabalhos.
+Sempre se fia em boa!--disse, encolhendo os hombros, mestre Pertunhas.
+
+--Vossemecê é que está a ler--veio-lhe á mão o brazileiro.--Então não
+sabe que as eleições são em fevereiro?
+
+--Ai, é verdade! não me tinha lembrado d'isso!--exclamou o padre.
+
+--Tambem não sei como será d'esta vez essa historia das eleições--acudiu
+o sr. Joãozinho.--Cá eu e a minha gente ainda estamos a vêr no que param
+as coisas. Eu já não estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao
+conselheiro a freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo
+que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos de entrar
+n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá por umas contas, não anda o
+filho de meu pae.
+
+--Ora adeus!--disse o padre cura.--O conselheiro tem artes para o levar.
+
+--A mim? Está enganado. Não querendo eu? Então você não me conhece. Em
+eu embirrando, sou como um borrego teimoso.
+
+--Quando se fala em estradas, já estou a tremer--disse um dos
+lavradores.--O que elles veem cá fazer é cortar-nos os campos, e a final
+não sei para que servem.
+
+--Isso não é assim--atalhou o brazileiro, tomando uns ares
+cathedraticos, cheios de gravidade.--Vossemecê é ignorante e por isso é
+que fala d'esse modo.
+
+--Eu digo...--tartamudeou, intimidado, o lavrador.
+
+--Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que não entende. As
+estradas não servem para nada! As estradas são meios de communicação
+e... facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por
+conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um
+capital..., sim, senhores, mas... mas um capital... sim... um capital
+morto... quero dizer um capital que não vive... Quero dizer... sim...
+supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., sim... ahi está o
+credito... Pois que é o credito?... O credito é... é o credito...
+depende de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós não
+tivessemos estradas... Uma supposição... Partamos de um principio. A
+producção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a
+producção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta?
+Está claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... Não
+havendo estradas... Ahi está que se diz por ahi que a livre exportação,
+que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não é
+assim. É preciso que se attenda tambem ás condições economicas dos
+povos. Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em
+termos já se sabe... Mas... o commercio livre... a livre troca...
+entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que...
+Ora supponhamos... supponhamos que não havia estradas... Os transportes
+eram mais difficeis e portanto mais caros... E se além d'isso os generos
+fôssem escassos e... Diz vossemecê, para que servem as estradas? Ora
+diga-me uma coisa, sr. Manoel, supponhamos que... os impostos
+indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos
+indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer.
+
+--Impostos, Deus me livre d'elles!--murmurou o lavrador, cujos
+instinctos trepidaram á palavra «impostos».
+
+--Isso tambem não é assim... Deus me livre! Não se diz Deus me livre,
+porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra...
+isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a
+exploração... Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não...
+vamos cá por outro lado... Ha um _deficit_ n'um orçamento... desce o
+preço das inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que ha boas
+estradas, _et coetera_... A riqueza tende a augmentar... e... e... Emfim
+lá que as estradas são uteis, isso é que não tem questão.
+
+Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com profunda
+attenção.
+
+O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios periodicos
+politicos, conseguira, á fôrça de leitura, fixar na memoria certas
+phrases de artigo de fundo, e acabára por convencer-se de que possuia
+grandes noções de sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma
+sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos
+do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposição tal ou qual, mais
+ou menos regular, e assim lhe saia uma dissertação, como essa que viram.
+Em permanente indigestão economica vivia este portento. A doença não é
+das mais raras entre politicos.
+
+O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bôca,
+depois do discurso do brazileiro, e disse:
+
+--Eu cá por mim não sei d'essas coisas. Não se me dava das estradas para
+poder ir á feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que me
+não venham mexer na quinta; porque então teem que vêr.
+
+--Pois está arriscado a isso--disse o brazileiro.
+
+--Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da papelada outra
+vez.
+
+--Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, depois de tomar
+á esquerda pelo Castro e vir direito á Palhoça. Não tinha cruzes nem
+cunhos. Ia-me parte da propriedade.
+
+--Ah! ah! ah! Tambem não gosta? Diga-me d'isso!--berrou o sr. Joãozinho.
+
+--Não é não gostar, é que o traçado era pessimo.
+
+--Não sei por quê.
+
+--Só a expropriação da minha quinta por que preço não lhes ficava?
+
+--Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu modo--notou o padre
+cura.
+
+--E por onde ha de ir então a estrada?
+
+--O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do
+capitão-mór, faz um viaducto nos lameiros, atravessa o pinhal do Conego,
+passa o rio n'uma ponte e...
+
+--Oh com os diabos; o que ahi vae!
+
+--Não é tanto como parece; sendo as obras bem dirigidas... Até aos
+lameiros só tem a deitar abaixo a casa e o quintal do herbanario.
+
+--Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de paixão,
+se tal fazem--disse, com certa commiseração, o sr. Joãozinho das
+Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera affeição e respeito,
+n'elle excepcional, desde que lhe attribuia a cura de um typho que o
+tivera ás portas da morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com
+uns cozimentos sómente d'elle sabidos.
+
+--Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está maluco de
+todo--redarguiu o brazileiro.
+
+--Tambem está um bom magico, está--notou o padre.
+
+--Quer não, que sabe mais do que todos os medicos--acudiu o sr.
+Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. Oh que
+excommungada!
+
+E principiou a fazer a historia da sua doença.
+
+Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas attribuiam-lhe
+mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.
+
+--Pois a final por onde devia ir a estrada--continuou o
+brazileiro;--tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso
+não se fala, já se sabe.
+
+--Ora! pois está de vêr--concordou o padre.
+
+--E o conselheiro não se ha de oppôr á expropriação da casa do
+herbanario, porque pelos modos elles não andam muito correntes--lembrou
+um lavrador.
+
+--É verdade; por que seria aquillo?--perguntou outro.
+
+--Elles em tempo eram muito um do outro; e são até
+aparentados;--explicou o brazileiro--e o velho ainda hoje é tratado com
+familiaridade pela gente do Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle
+genio exquisito que tem, disse algumas verdades ao conselheiro, por
+occasião de umas eleições, quando elle pôz as auctoridades a trabalhar
+por si, e o velho entendia que as coisas não iam bem assim.
+
+--Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte
+conselheiros e toda a familia,--exclamou o sr. Joãozinho, batendo outra
+punhada--e queira elle, que o tal senhor não põe mais o pé nas camaras,
+mandado cá pela terra.
+
+--Eu gósto de os ouvir,--disse o padre--falam assim, mas em chegando a
+occasião, vão todos votar n'elle como carneiros.
+
+O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.
+
+--Pois havemos de vêr o que será!--berrou o sr. Joãozinho.--Isso é
+consoante cá umas coisas.
+
+--A falar a verdade--disse o Pertunhas--não tem pago muito bem ao
+circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só essa teima agora em
+querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!
+
+--Essa a falar a verdade!--disse um lavrador.
+
+--Quero vêr se me hão de enterrar a mim!--disse ameaçadoramente o sr.
+Joãosinho, como se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas
+vontades á fôrça de murros e de pragas.
+
+--Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. É moda e
+acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda a gente e não havia mais doenças
+do que agora--isto dizia o padre.
+
+--Os romanos tinham as suas catacumbas--ponderou o mestre de latinidade,
+forçando as suas reminiscencias romanas.
+
+--Vamos--ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo
+discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade
+scientifica.--O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque os
+chimicos sabem que... o ar que não é puro... é mau para a saude publica.
+Ora os cadaveres... em putrefacção produzem uns vapores que corrompem o
+ar... Ha uns insectozinhos invisiveis que a gente respira... e vão para
+a massa do sangue e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a
+febre são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se sáem,
+muito que bem; e se não sáem, ficam retidos e azedam o corpo todo.
+
+A theoria physiologica pathologica foi recebida com attenção igual á que
+merecera a economica.
+
+--Tudo isso será assim,--disse o padre--mas o conselheiro faz aquillo
+por instigações das lojas maçonicas e dos pedreiros livres.
+
+--Pois elle será tambem?...--disse um dos lavradores, arregalando os
+olhos assustados.
+
+--Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da sucia.
+
+--Corja!--resmungou o sr. Joãozinho.
+
+O brazileiro, que se filiára no Brazil na maçonaria, fez um discurso
+sobre os fins da sociedade, que ninguem entendeu; vendo, porém, que não
+calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.
+
+--Elle não será mação--disse d'ahi a momentos o padre--mas é vêr o que
+elle tem defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e ás freiras
+os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o exemplo do cunhado, que se
+encheu com a compra do Mosteiro; queria acabar com o santo sacramento do
+matrimonio; queria que cada qual seguisse a religião que muito bem lhe
+parecesse. Vejam que christão aquelle!
+
+Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras
+de censura.
+
+--E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.
+
+--A falar a verdade, os vinculos...--murmurou o sr. Joãozinho, que por
+vezes tropeçára nas disposições da antiga lei vincular, ao caminhar na
+estrada da dissipação; porém, recordando-se de um irmão que tinha,
+casado e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa de
+muito trabalho, a ideia da abolição dos morgados não lhe sorriu e
+exclamou com nova punhada:--Acabem lá com os morgados quando quizerem,
+que o que eu lhes digo é, que tem de se haver commigo quem quizer
+tirar-me um palmo de terra!
+
+O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o conselheiro.
+
+O pae de Magdalena militára sempre, como já dissémos, nas fileiras do
+partido mais liberal, e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a
+maioria do clero, que, entre nós, não espósa ardentemente aquellas
+ideias.
+
+No principio da sua carreira parlamentar, cedendo ao impulso do
+enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára desassombradamente a
+bandeira do partido progressista e pronunciára os mais absolutos artigos
+d'aquelle credo politico; liberdade era então o seu mote favorito; a
+liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as reformas
+consequentes nos codigos, a desamortisação e desvinculação da
+propriedade, tudo advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas
+palavras soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra de
+outro catecismo.
+
+Com o tempo arrefeceu, porém, esse enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o
+fogo da mocidade. Com quanto liberal ainda de convicção, ensinou-lhe a
+politica pratica a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios
+doutrinarios, a contemporisar, e até quando as conveniencias,
+infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos de
+retrocesso e a transigir com o partido opposto.
+
+Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformar em projecto de lei
+nenhuma d'aquellas medidas por que pugnára nos seus primeiros discursos,
+e que tantas malquerenças lhe acarretaram então.
+
+Já atraz dissémos, que o conselheiro era actualmente um espirito pouco
+apaixonado do ideal, respirava a atmosphera de desillusão e de
+scepticismo, em que nas grandes cidades se vive. Era um perfeito homem
+de côrte; tratava cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo
+d'elles mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás vezes da
+tribuna e depois apertava-lhes a mão nos corredores das camaras e nas
+praças. Se o julgava vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases
+sonoras, uma d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no
+principio da sua carreira adoptára com sinceridade; mas não tinha já aos
+principios o amor preciso para cair, abraçado n'elles, dos degraus do
+poder, se algum dia os chegasse a subir.
+
+Por isso os soldados rasos do seu partido, os politicos em abstracto,
+unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o taxavam de frouxo
+e tibio; e de gazeta na mão havia muito que lhe dictavam, do obscuro
+canto do paiz em que viviam, a estrada direita, de que elle, porém, a
+cada passo se desviava.
+
+Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por os
+seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má fé, a acoimal-o
+de impio, de republicano e de pedreiro livre.
+
+O brazileiro entrou em dissertação a respeito de todas as medidas
+politicas a que alludira.
+
+Segundo o costume, ninguem o entendeu.
+
+Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um
+tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra espreitar á
+porta, voltou-se, exclamando:
+
+--Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!
+
+Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que mais de má
+vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.
+
+Dentro em pouco todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que
+montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um pequeno
+baio de fórmas elegantes e olhar vivo.
+
+O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e
+patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi
+todo o effeito da conversa que descrevemos.
+
+Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, dispoz-se
+para entrar na venda.
+
+
+
+
+XII
+
+
+O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se sentar nos
+bancos de pinho do estabelecimento de Damião Canada, envernizados já
+pelo uso de muitos annos.
+
+Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com
+attenções e o flagellava com obsequios.
+
+O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia
+satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e
+conversando com aquella familiaridade, tão sabida de candidatos a
+procuradores do povo, nos circulos que pretendem representar. Até chegou
+a levar aos labios o copo de vinho, que um lavrador lhe offereceu.
+
+Não se lhe percebia porém no rosto, ao fazer isto, o menor vestigio de
+artificio, e, ao mesmo tempo, mantinha-se ainda n'elle tão apparente a
+superioridade intellectual, que os seus interlocutores nunca excediam os
+limites da deferencia. O pae de Magdalena era um perfeito homem de
+côrte: presença agradavel, modos insinuantes, palavras tão
+astuciosamente lisonjeiras, que desvaneciam os proprios que como taes as
+tinham.
+
+Alvejavam-lhe já algumas cãs nos cabellos e suissas, que usava talhadas
+á moda ingleza; principiava a predominar-lhe nas fórmas certa
+rotundidade caracteristica; mas no esmero e até elegancia distincta de
+casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, nos movimentos
+ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza das conversas,
+havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que ninguem se
+sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que não perdera
+ainda.
+
+Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e
+não obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se que assim
+fôsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro olhar lançado sobre elle.
+
+Possuia o dom especial de se encontrar á vontade em toda a parte, desde
+o mais perfumado gabinete da moda, até o menos asseiado local de um
+comicio popular. Nas camaras com graves diplomatas, nos cafés com
+rapazes estouvados, na sua aldeia com eleitores absurdos, com actores e
+actrizes nos bastidores, com padres nas sacristias, com militares nos
+quarteis, em toda a parte e com todos se achava este homem á vontade,
+acabando, quasi sempre, por captar sympathias.
+
+Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da
+opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezão, a phrase
+conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho
+popular, a figura oratoria, a maxima moral, e até a praga energicamente
+expressiva; mas, como os espadachins de profissão, jogava-as todas com
+frieza de animo, cada qual na occasião opportuna e com perfeita
+observancia do que o mundo chama conveniencias sociaes.
+
+Muito tinham que fazer com elle os La Bruyères, que, a cada passo, ahi
+encontramos no mundo; illudia os mais atilados. Ás vezes parecia
+abrir-se tão do intimo, tão completamente e sem condições nem reservas,
+havia tal uncção de sinceridade nas palavras, com que falava de si, dos
+seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado jesuita
+sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; outras,
+falava verdade, mas com taes hesitações na voz, com tal mobilidade no
+olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua creança experimentaria o
+despontar da primeira dúvida.
+
+Já se vê que um homem d'estes era um contendor de muita fôrça, para
+poder ser combatido por qualquer dos influentes locaes; o proprio
+brazileiro, apesar de toda a sua economia politica, ainda nada pudéra
+contra elle; nem ousára romper hostilidades com receio de ficar vencido.
+
+Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do
+Damião Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a conversa que
+precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. Tres ou quatro
+lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos modestamente pedidos
+com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.
+
+Deixemol-o nós na laboriosa e pouco invejada tarefa de manter a
+popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae á porta da
+venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.
+
+Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com
+aquelle alvoroço do coração, que conhece quem já foi estudante e se
+recorda ainda do que experimentava ao vêr de longe despontar o telhado
+da casa paterna, onde vinha gosar as delicias de umas almejadas férias.
+
+Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma agradavel
+figura de creança, expressiva de intelligencia e de vida. Tinha nas
+feições um mixto da delicadeza de Magdalena e da energia varonil, e ao
+mesmo tempo attrahente do conselheiro.
+
+O cabello louro e curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis
+naturaes, com grande vantagem para a espaçosa e bem modelada fronte.
+
+Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do
+Mosteiro estavam todas obscuras, á excepção das aguas-furtadas,
+correspondentes aos quartos das creanças. Angelo desmontou e
+cautelosamente se dirigiu a pé para casa.
+
+Torquato dormia á porta, como frequentemente lhe acontecia.--Angelo pôde
+assim penetrar sem ser percebido até o mais intimo da casa, até os
+aposentos onde dormiam as creanças, e em cujas janellas avistára luz.
+
+A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe no coração uma suave e
+encantadora alegria.
+
+O mais novo dos seus primos, creança de tres annos, estava meio nú e de
+joelhos sobre o leito com as mãos erguidas e os olhos fitos em um
+crucifixo que tinha á cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe
+as palavras da oração, que a creança repetia, cheia de fervor.
+
+Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar
+das continuadas advertencias da prima.
+
+Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para
+beijar a creança, elle estendeu a cabeça e pousou tambem um beijo nas
+faces da irmã.
+
+Magdalena soltou uma exclamação de surpreza e cingiu-o nos braços com
+effusão.
+
+A creança levantou um brado, que foi o signal de revolta dado a Marianna
+e Eduardo, que cêdo abandonaram os quartos e correram a abraçar Angelo.
+
+--Vens só?--perguntou Magdalena ao irmão, quando uma pergunta lhe foi
+possivel.
+
+--O pae ficou na loja do Canada--respondeu Angelo.--Estava em sessão a
+assembleia dos notaveis. E como estás tu, minha Lena, tu e Christe e a
+tia? Como vae toda essa gente?
+
+--Anda tu mesmo sabêl-o.
+
+--Eu vou dizer á mamã--disse Marianna, saindo aos saltos.
+
+--Eu vou chamar Christe--disse Eduardo, imitando-a.
+
+E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.
+
+O pequeno que Magdalena deitára, pedia, chorando, para se tornar a
+levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.
+
+--Dize-me--continuava no entretanto este para a irmã--tens-te enfastiado
+muito, aqui só?
+
+--Não, tenho-me divertido até.
+
+--Devéras? E que fazes? Em que passas o tempo?
+
+--Eu sei? O tempo é que passa, sem eu dar por isso. Leio pouco, passeio
+muito; trabalho mais.
+
+--Que tens lido?
+
+--Quasi sempre relido.
+
+--O quê?
+
+--Nem eu sei já. O primeiro livro em que pouso a mão, quando os vejo
+sobre a mesa.
+
+--O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?
+
+--Todos os dias.
+
+--E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?
+
+--Vae bom. Caiu no outro dia á levada da raiz do monte; valeu-lhe o
+Augusto para o salvar.
+
+--Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorothéa?
+
+--Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas;
+conheces?
+
+--Eu não.
+
+--É provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em que lhe
+chamemos primo. Aviso-te d'isso.
+
+--Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?
+
+--Coitada! Achei graça, ha dias, á Joanna, que com muita ingenuidade se
+me veio queixar de que ella até o anjo da guarda lhe occupava em serviço
+proprio. Tu sabes que a tia, quando está com muito somno, tem aquelle
+costume de dizer ás criadas que a encommendem ao anjo da guarda d'ellas.
+Mas vamos.
+
+--Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?
+
+--Trouxe.
+
+--É verdade; e a filha d'elle? A Lindita?
+
+--Já cá me ia tardando a pergunta--notou a morgadinha, rindo.--Essa anda
+contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades.
+
+--Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia.
+
+--Então devéras esse coração está assim tomado?
+
+--Não te informo do meu coração, que o não levo commigo, quando d'aqui
+vou. Cá me fica; e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que
+pergunto; em que estado m'o entregas?
+
+--Muito doente.
+
+--Sim? E o teu?
+
+--O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto de corações são como as
+creanças. As travêssas tantos cuidados dão ás mães, que a todos os
+instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; as socegadas
+inspiram tal confiança, que nem sequer n'ellas se pensa. O meu coração é
+um modelo de serenidade.
+
+--Então ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...
+
+--O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d'estas immediações,
+capaz de ferir a imaginação e commover os affectos de uma mulher, é o
+sr. Joãozinho das Perdizes; mas esse é um Actéon insensivel, que...
+
+--É verdade--disse Angelo, rindo--lá vi tambem esse javali na venda do
+Damião Canada. Mas... Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de
+dizer umas coisas.
+
+--A mim? A respeito de quê?
+
+--Do teu coração.
+
+--Que sabes d'elle?
+
+--A seu tempo direi.
+
+--Como te vieram essas presumpções de conhecedor dos corações alheios?
+Não tinhas isso, quando d'aqui foste.
+
+--Ás vezes vê-se melhor de longe.
+
+--Os de vista cançada... de muito vêr.
+
+--Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa gente, que o pae não
+tarda ahi.
+
+De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das salas
+principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de braços,
+tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, encostava-se-lhe familiarmente
+ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o braço, em
+que recostava a cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala,
+D. Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos pequenos
+que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficar a
+pé, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e
+Eduardo, com as historias que lhes contava.
+
+A conversa cêdo se generalisou. Era uma d'essas conversas intimas,
+familiares, em que se referem as mais insignificantes circumstancias da
+vida domestica; conversas cujo suave perfume só em familia se aprecia.
+
+Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos
+apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, e se vê
+obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que não
+é a sua! É uma pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que
+para todos é de igual interesse a narração dos successos domesticos, que
+tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifferente que se
+lhes depara; tudo trazem á luz, o dicto agudo da creança de tres annos,
+os incómmodos que soffreu na primeira dentição, as espertezas do gato
+favorito, as razões ponderosas que aconselharam a mudança de um movel, a
+combinação economica que favoravelmente modificou o orçamento domestico,
+a reforma nos processos culinarios consagrados pelo habito de muitos
+annos, o exame comparativo da conserva de um anno e da do anno
+antecedente, os defeitos e qualidades de um criado e mil outras pequenas
+coisas, que é forçoso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o
+que obriga a esforços sobrehumanos.
+
+É natural aquella illusão; e pathetica a dissemos nós tambem, porque os
+que mais de coração se entregam á vida domestica, são os mais sujeitos a
+ella. Todos estes episodios futeis e pueris os preoccupam e deliciam
+mais do que as mais estranhas peripecias, que ainda concebeu a
+imaginação de romancista fecundo. E quem se lembra de que é
+individualissimo esse interesse, inherente á pessoa e não aos factos, ás
+causas que tão curiosos lh'os fazem ser?
+
+Eu e o leitor, estranhos á familia do Mosteiro, vêr-nos-iamos, se
+fôssemos escutar todo o dialogo que se travou na sala, na posição da
+pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses relatorios
+domesticos, a que sobre tudo são tão inclinadas as mães de familia.
+
+É verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; e o
+conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle achasse
+curioso é porque realmente o era. D'esta vez, porém, damol-o por
+suspeito, porque o conselheiro tinha coração e, quando esta viscera se
+alvoroça com affectos, as intelligencias mais elevadas teem d'estas
+sympathicas fraquezas.
+
+O politico, o diplomata reservado, fica fóra do portão da quinta do
+Mosteiro; alli dentro, n'aquelle circulo de affectos, era o pae
+extremoso, o homem de familia, ingenuo, sincero, aberto a todos, porque
+em todos confiava, contente por não ter de estudar na expressão dos
+rostos os pensamentos que se guardam; nas palavras o sentido, que
+n'ellas não vem explicito.
+
+Era um salutar descanço dos continuados esforços da sua vida de Lisboa;
+lá a lucta; aqui o repouso.
+
+Por isso ouvia com attenção e applaudia com vontade as narrações da
+cunhada, de Magdalena, de Christina e até da pequena Marianna.
+
+E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro não
+poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o vertiginoso
+movimento da sua vida politica.
+
+Eram-lhe já necessidade aquella contenção, aquelle esforço de espirito,
+aquellas desconfianças continuas, aquelle jogo de astucias, que lhe
+tomavam em Lisboa todo o tempo.
+
+Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o
+afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.
+
+A politica é uma embriaguez; nos intervallos em que o espirito se sente
+desanuviado dos vapores em que ella o envolve, pesam-nos os desacertos a
+que fomos arrastados; o desgosto do mal feito insinua-se-nos no coração;
+cêdo, porém, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da consciencia,
+e de novo nos arrasta.
+
+O caracter intimo da conversação foi levemente modificado por a entrada
+de D. Dorothéa e de Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram
+visitar o conselheiro, mal tiveram noticia da sua chegada.
+
+O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e
+com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa.
+Frequentavam ambos os principaes círculos da capital e, por mais de uma
+vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em conversas e
+discussões communs.
+
+Passado algum tempo depois dos cumprimentos, o serão animou-se de novo,
+fragmentando-se porém a conversação.
+
+D. Victoria tomou á sua parte D. Dorothéa e passou a fazer-lhe amargas
+queixas a respeito dos criados do Mosteiro, ao que D. Dorothéa acudiu
+com conselhos de resignação christã.
+
+Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente fazia
+rir.
+
+Henrique e o conselheiro, proximos do fogão, estavam empenhados n'um
+dialogo muito animado.
+
+O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que
+surprehendiam Henrique, que ainda o não tinha observado por esta face.
+
+--É uma triste verdade--dizia por exemplo o conselheiro n'um ponto
+adeantado da conversa, referindo-se a algumas considerações de Henrique
+sobre a felicidade d'aquella vida do Mosteiro.--Tenho esta familia que
+vê; todos me querem sinceramente aqui, e não sei resistir á fatal
+necessidade que me arranca de todos estes braços para me lançar ao
+turbilhão da politica e d'isso que se chama o mundo! Pois amo devéras a
+minha Lena, creia.
+
+--É um dever que cumpre. N'estes tempos de má fé politica, quem se sente
+com a coragem de se votar, corpo e alma, á defeza despreoccupada dos
+bons principios...
+
+Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de
+descrença, meio de melancolia.
+
+--Defeza despreoccupada? Isso é quando Deus quer--respondeu elle.--Olhe,
+Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a cuja porta eu
+deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso no mundo,
+vae vêr em mim o homem que talvez não esperasse e que, já lhe digo,
+debalde procurará reconhecer um dia, se me observar outra vez em Lisboa.
+O que lhe vou dizer não lh'o diria, nem lh'o repetirei lá. É verdade que
+estes ares do campo tambem actuarão em si para me apreciar e tomar á boa
+parte a franqueza. Lá não acreditaria n'ella; se por acaso não a
+aproveitasse como arma politica contra mim...
+
+--Pois julga?...
+
+--Peço perdão, se o offendi com isto. Não era esse o meu intento, mas é
+pratica tão geral!... Se um dia fôr politico, o que lhe não desejo,
+dir-me-ha.
+
+Dizendo isto, fez uma curta pausa na conversação.
+
+Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:
+
+--Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e
+através de tudo. Não sei se quiz ser lisonjeiro e disse o que não
+sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo o caso, eu, aqui no
+Mosteiro, acho-me muito ás ordens da minha consciencia, a qual não me
+deixa calar hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem
+politico, a que alludiu. Humildemente o confesso; até porque, se
+quizesse sel-o, arriscar-me-hia a achar-me só, não teria partido.
+Porque, qual é o que vê nas condições de constancia de opiniões que
+disse? Tenho crenças politicas, é verdade; espóso no coração certos
+principios que quizera vêr realisados, mas não combato por elles a todo
+o transe, nem por elles affrontaria o supplicio; antes, por vezes, entro
+em transacções, que são a completa negação da divisa da minha bandeira.
+E este peccado não sou eu só que o commetto; é um peccado venial da
+nossa época. As grandes ideias, que definem e estremam os campos na
+politica, havemol-as eu e os mais calcado muitas vezes aos pés, para
+sustentar umas insignificantes fórmulas, um interesse mesquinho, um
+capricho pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem é
+isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que de fóra
+nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados na minha carreira
+publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro n'elles? quando me
+persuado de que não são de todo desculpaveis? quando... porque o não
+direi? quando sinto remorsos de os ter commettido? É aqui, é perante a
+boa fé, a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que
+me considera um homem perfeito, superior, impeccavel. É perante os
+generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella
+creança--e indicava Angelo com o gesto.--Parece-me que tenho n'elles
+juizes inflexiveis, e escondo por isso a minha face politica dos seus
+olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo é já
+indulgente, mas que receio elles me não perdoassem.
+
+Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta
+effusão de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:
+
+--Estou a vêr que não esperava estas palavras da minha bôca; esta
+confissão de peccador contricto.
+
+--Confesso que não.
+
+--Então que quer? Surprehendeu-me aqui com o coração aberto. Já agora
+deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual é?
+Vê aquella creança que alli está? Angelo? É uma intelligencia que, de
+dia para dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. Não é
+a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. Conhecendo-o de perto ha
+de dar-me razão. Mas o que ha além d'isso n'elle é um senso
+profundamente moral, raro até em idades menos tenras. Pois bem, quando
+penso n'elle por algum tempo, e conjectura que não serão poucas as vezes
+em que o faço?... quando penso n'elle e no futuro, sobresalto-me. De um
+lado, seduz-me abrir-lhe a carreira politica, onde ha grandes triumphos
+a embriagar as intelligencias e onde presinto que a d'elle terá o
+direito, se não o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que
+na atmosphera d'aquellas regiões não duram muito estas primitivas
+canduras da alma, tão adoraveis e consoladoras, quando me lembro de que
+Angelo será um dia... o que eu já hoje sou, um pouco desilludido, um
+pouco sceptico... com franqueza o digo, hesito em impellil-o ao
+redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais não valeria dizer-lhe: Angelo,
+vive obscuro e tranquillo n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a
+ideal pureza da tua alma e procura a felicidade nas satisfações do
+coração. A lucta da vida pode embriagar-te, filho, mas não te fará
+feliz.
+
+--Mas não admitte possivel que um homem possa atravessar a vida
+politica, sem sacrificar um só artigo do seu primitivo credo?
+
+O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:
+
+--É difficil. Se um dia a fôrça das circumstancias realisasse, como um
+phenomeno natural, uma revolução completa nas camadas politicas do paiz
+a ponto de trazer á superficie de uma só vez uma geração nova,
+impolluta, inspirada de sentimentos generosos e de sinceras crenças,
+então sim, não bastaria o tempo de uma vida para produzir n'esses homens
+reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo exemplo e vigilancia,
+a inquinação que eu receio. Mas lance esses mesmos homens, um a um, a
+sós com os seus principios e com os seus esforços, insulados no meio de
+uma camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, após uma
+lucta impotente de momentos, ou se retirará, fiel aos principios, mas
+desanimado pela inefficacia da sua intervenção, ou ficará, cedendo á
+corrente e deixando-se penetrar do espirito pouco ideal, que rege as
+massas. Só um d'esses caracteres de excepção, que são raros na historia
+do mundo, é que poderia luctar e vencer na lucta. E a esperar tanto de
+Angelo não chega o meu affecto paterno.
+
+--Não o fazia tão pessimista, sr. conselheiro;--disse
+Henrique--conceda-me que julgue em demasia carregadas as côres do quadro
+que me faz. Eu não creio que a corrupção...
+
+--Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, relaxação,
+tibieza de fé politica, indifferentismo... em todo o caso será uma
+doença social. Assim abrandada a fôrça da expressão, não ponha
+difficuldades em adoptal-a. Não se me pode levar a mal o propôl-a, desde
+que principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.
+
+--Nunca esperei encontral-o tão desilludido. Eu, que me não tenho ainda
+assim por demasiado crente, creio que quem entrar na politica sob a
+égide de uma convicção profunda, pode...
+
+O conselheiro interrompeu-o.
+
+--Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? É
+aquella de que nos dá uma eloquente mostra a historia do aldeão do
+Danubio. Sair um homem de um canto retirado da provincia, um pouco
+montanhez, e escudado só da sua boa fé, achar-se de repente no meio de
+um circulo luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir
+ahi aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra;
+vêr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder resalvar as
+suas crenças d'aquelles sorrisos; sentir o ridiculo a seu lado, e ousar
+fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada passo, as vozes seductoras da
+moral elegante e facil, que hoje domina, e conservar-se fiel á austera e
+rude moral que lhe falava entre o rumorejar das folhas da sua aldeia nas
+longas horas de vigilia e de estudo, que lá teve; cair embora, mas cair
+fiel á consciencia, como um leal cavalleiro da idade média caía pela
+dama de quem trazia a divisa: é uma especie de lucta, para que não
+abundam lidadores, e nem sempre se deve lançar o labéo de traidores aos
+que mentem á sua antiga profissão de fé. A maioria cede com boas
+intenções. O perigo está em chegar a persuadir-se de que as suas
+convicções eram sonhos, em perder o amor ás utopias. Eu confesso que só
+quando aqui estou é que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro
+tempo lhes tive.
+
+N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um
+dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do
+conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de processos, como o
+mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua
+paixão pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, só por gosto
+de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislação
+especialissima, reguladora da propriedade rural, fomenta estas
+disposições no espirito dos camponios, das quaes os juizes são as
+miserandas victimas.
+
+Depois de grande exhibição de cortezias, para a direita e para a
+esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu
+lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade.
+
+O homem que tão judiciosa dissertação acabava de fazer sobre a politica
+abstracta, sentiu, na presença do recem-chegado que de novo o abandonava
+o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica,
+sob a feição mais mexeriqueira que ella pode revestir.
+
+Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fôrça
+ou vontade dos representantes.
+
+Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das senhoras, no
+grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.
+
+Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores;
+reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve
+ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de
+Christina.
+
+D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco na conversa,
+e desviando-lhe o curso, fizeram-a cair sobre o assumpto das proximas
+consoadas.
+
+Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o
+Tapadas:
+
+--Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso é
+que eu não transijo. Ninguem é mais condescendente do que eu, menos no
+que pode arriscar a vida de muitos e entre essas as dos que me
+pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes dias deve chegar uma
+portaria, mandando expressamente cumprir a lei. Consegui isso do
+governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo,
+levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, graças
+a um preconceito tolo, á má fé de alguns padres, á frouxidão das
+auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se
+enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos
+d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da
+igreja onde a extrema devoção d'este povo accumula em certos dias,
+durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de fieis. Portanto,
+com isso não transijo. Hei de acabar com o abuso.
+
+--Pois sim... mas agora na occasião das eleições... sr. conselheiro, não
+sei se faz bem.
+
+--Para compensação trataremos de apressar o principio das estradas;
+tambem o pude conseguir.
+
+--Inda assim... Receio alguns motins.
+
+--Reprimem-se.
+
+--O peor é que ha de haver quem lance mão d'essa arma contra nós.
+
+--Quem?
+
+--Ora! não falta quem. Basta o missionario, que já prégou contra isso.
+
+--Não tenho mêdo. Quando muito, algum motimzito sem consequencia.
+Leve-os por bem. E se fôr preciso fale ao ouvido d'esse tal
+missionario... O homem que quer? Provavelmente alguma abbadia? algum
+canonicato? É preciso vêr isso.
+
+--Elle diz que não quer nada.
+
+--Bem sei, todos dizem o mesmo--disse o conselheiro, com a sua descrença
+de homem politico.
+
+Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto a opinião publica era, por
+toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo não
+estava de todo limpo do preconceito geral, mas a sua affeição ao
+conselheiro obrigava-o a digerir a disposição legal, conforme podia.
+
+Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:
+
+--Vem em má occasião a medida, vem; é arrojada para épocas eleitoraes;
+se houvesse um chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso
+não transijo.
+
+Eram dez horas quando se levantou a sessão, e Henrique voltou com a tia
+para Alvapenha.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ao outro dia a impaciencia de Angelo não lhe permittiu longa demora no
+leito. Tardava-lhe o vêr todos aquelles sitios, tão seus conhecidos;
+arvores que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos, e
+quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almoço; resignou-se
+porém a não ultrapassar, até então, os muros da quinta. Logo porém que
+sorveu á pressa o ultimo golo de chá, partiu, veloz como uma lebre, sem
+nem sequer dar ouvidos á enfiada de recommendações de sua tia D.
+Victoria, que teimava em o querer prevenir, com sócos, gabão e
+guarda-chuva, de uma hypothetica mudança de tempo.
+
+Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma
+recordação e uma saudade; mas seguia sempre, como quem não errava ao
+acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio por um intento,
+que tinha pressa de realisar.
+
+Atravessou grande parte da aldeia, cortejado, cumprimentado e festejado
+por quantos encontrava pelos caminhos, ou ás portas e janellas das
+casas, nos campos e nos ribeiros.
+
+Chegou emfim á casa, onde já dissemos morar o recoveiro Cancella e a sua
+filha Ermelinda.
+
+Era evidentemente aquelle o termo proposto por Angelo ao passeio
+matinal, porque retardou o passo á medida que se approximava, e parou á
+porta da casa.
+
+Achou-a fechada, mas não lhe causou isso embaraço.
+
+Como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente
+o muro do quintal, construido de pedras soltas, e dispoz-se á escalada.
+
+Com a agilidade e destreza proprias de quem passou na aldeia os
+primeiros annos da vida, o irmão de Magdalena trepou sem vacillar até o
+alto do muro, e n'um momento pousou os pés no chão do quintal.
+
+Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precaução e, com mais
+precaução ainda, se dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era o
+logar de recreio do pequeno horto.
+
+Foi motivo d'estas precauções o ter já avistado, por entre os troncos e
+a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou conhecido.
+
+Assim se foi approximando sem que o presentissem e, occulto por detraz
+de uma sebe de roseiras silvestres, poz-se á espreita.
+
+Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.
+
+Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que mezes antes
+havia sido derrubada, a filha do Cancella e afilhada da familia Zé
+P'reira, tinha todas as faculdades applicadas á decifração dos
+hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto, que segurava
+nas mãos, e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura e,
+erguendo a cabeça para o céo, parecia repetir o que lera, como se
+pretendesse decoral-o.
+
+Angelo applicou mais o ouvido, a vêr se alguma das palavras, que ella
+declamava, lhe revelava a natureza do manuscripto.
+
+De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais audivel e elle escutou a
+seguinte quadra:
+
+
+ --Que lamentavel tragedia,
+ Que os meus olhos tristes viram!
+ E publicam minhas vozes
+ Aquelles que não ouviram!
+
+ E principalmente o rei,
+ Que se chama o rei tyranno,
+ N'esta região remota
+ Do Egypto dilatado.
+
+
+Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabeça e repetiu:
+
+
+ --Que lamentavel tragedia
+ Que meus olhos tristes viram...
+
+
+Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precaução,
+veio collocar-se por detraz d'ella, sem que fôsse presentido ainda.
+
+Tão perto chegou, que, por cima do hombro de Ermelinda podia já ler as
+quadras que ella estava decorando:
+
+
+ --Tenho mil linguas, mil bôcas...
+
+
+ia Ermelinda continuar a ler, quando uma respiração mais profunda de
+Angelo a fez desviar a cabeça.
+
+Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de sobresalto; depois sorriu
+e instinctivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que
+lia.
+
+Angelo segurou-lhe a mão.
+
+--Que estavas a ler, Linda?
+
+--Não é nada...
+
+--Deixa vêr.
+
+--Não deixo.
+
+--Por que não deixas?
+
+--Para não ser curioso. Que modos são esses de andar a escutar a gente?
+
+--Pois sim, sim; mas deixa-me vêr os versos.
+
+--Não são versos. Quem lhe disse que eram versos?
+
+--Pois não ouvi? Que era isso de tyranno e de Egypto, que dizias?
+
+--Que ha de ser?--disse a final Ermelinda, dando-lhe o papel.--São os
+versos do auto dos Reis. Sabe agora?
+
+--Do auto dos Reis? Ai, sim; está a chegar o dia! Mas que tens tu com o
+auto dos Reis?
+
+--É que este anno meu pae quer que eu seja a Fama.
+
+--Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E já sabes os versos?
+
+--Estava a decoral-os.
+
+
+ --Tenho mil linguas, mil bôcas...
+
+
+dizia Angelo, lendo no principio.--O que é pena é pôr uma chochice
+d'estas na bôca de uma Fama como tu.
+
+--Que está a dizer? Então os versos não são bonitos?
+
+--Oh! pois não são!--exclamou Angelo, gracejando.--São uma perfeição!
+
+E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os com accentuação e
+emphase comicamente exaggeradas.
+
+--Ora ouve lá:
+
+
+ Sabei que aquelle Herodes,
+ Lobo cruel carniceiro,
+ Tremendo de inveja pura
+ Lhe venham tirar o reino...
+
+
+--Então que ha que dizer a isto?
+
+E proseguiu:
+
+
+ Feria raios de fogo
+ De seus olhos com mudança;
+ E só pretende fazer
+ Alvo da sua vingança.
+
+
+--Isto é claro e sublime!
+
+--Lendo assim, pudéra!--disse Ermelinda, rindo.
+
+É preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos
+estamos referindo, não são obra da nossa imaginação. Por ahi corre
+manuscripto o auto, mais ou menos extravagantemente orthographado,
+segundo o systema ou o capricho do copista. Em quasi todas as aldeias
+dos arredores do Porto podem vêr em cada anno representado este ou outro
+analogo, com applauso e gloria da arte. Ás mãos nos veio uma d'essas
+cópias, á qual, menos na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.
+
+Angelo era talvez em demasia severo na apreciação critica sobre o
+merecimento litterario da obra, ao chamar-lhe uma chochice. É raro que a
+musa popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspiração. N'este
+mesmo auto, se encontram vestigios d'ella. Mas não é nossa missão
+apreciar as opiniões dos actores que pomos em scena; tão sómente as
+registamos, sem nos responsabilisarmos por nenhuma.
+
+Angelo redarguiu á reflexão de Ermelinda:
+
+--Pois bem; para que não digas que é da maneira de ler, que elles
+parecem chôchos, repara; vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora
+escuta.
+
+
+ Que quantos até dois annos
+ Em Belem fôssem nascidos,
+ E toda a sua comarca
+ Matassem a ferro frio
+
+ Sem excepção a pessoa
+ Que nos districtos se achasse,
+ Entendendo d'esta sorte
+ Que nós lhe não escapassemos.
+
+
+--Olhem que semsaboria!
+
+Esta divisão administrativa e judicial, em districtos e comarcas, que o
+auctor fez na Judéa e que tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas
+liberdades shakspeareanas, que se devem perdoar aos genios.
+
+--E não foi assim?--perguntou Ermelinda, que não percebia ainda o motivo
+dos reparos de Angelo.--Pois Herodes mandou matar todas as creanças da
+Judéa; então não mandou?
+
+--Mandou, mandou; mas a Fama é que devia contar isso melhor.
+
+--Melhor?! Então não é bonito esse verso?
+
+E Ermelinda, tirando o manuscripto das mãos de Angelo, leu a seguinte
+quadra:
+
+
+ Para livrarem seus filhos
+ Da morte dos innocentes,
+ Dos braços faziam cruzes
+ Aquellas mães impacientes.
+
+
+Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam a belleza,
+talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.
+
+Esta pequena contenda litteraria entre duas creanças podia dar margem a
+profundas reflexões a quem para ellas estivesse disposto.
+
+Angelo estava no principio de uma educação esmerada. Principiára já a
+desenvolver-se n'elle a intelligencia, e a acordar os instinctos
+artisticos que estremeciam já sob as primeiras seducções da fórma.
+N'estas épocas criticas, em que esses segredos se revelam, é tal o
+encanto em que elles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo
+culto, com a fanatica intolerancia. Onde as louçanias do estylo, os
+primores e a sonora harmonia do metro, e o brilhantismo das imagens nos
+não afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na
+sombra muita belleza real, ás vezes occulta sob a grosseira revestidura
+da poesia ou narrativa popular.
+
+É necessario que passe o enthusiasmo, a violencia da paixão nascente,
+que venha a frieza de animo necessaria á imparcialidade do juizo, para
+que nos não cause repulsão a aspereza, e grosseria até, da fórma e
+consigamos apreciar o bello que por ventura n'ella se envolva.
+
+Dá-se com a belleza da ideia e da fórma de qualquer obra litteraria, o
+que se dá com a belleza moral e a belleza physica de uma mulher.
+
+Ambas são feitas para nos commoverem e dominarem. Mas, quando o assomar
+de um sentir novo começa a alvoroçar o sangue do adolescente, quando
+fórmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe os sonhos de suas
+noites febris, a paixão da fórma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma
+modelação perfeita, um delineamento gracioso poderá decidir da sua vida
+inteira, e na fascinação que o cega, nunca verá a formosura da alma, que
+se abriga n'uma pouco feliz encarnação. É que para apreciar a belleza
+moral, para a vêr transparecer, através do involucro exterior é preciso
+deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou não a ter ainda
+experimentado.
+
+Por isso na infancia e nas idades viris é que melhor se apreciam essas
+fealdades, que escondem um coração angelico. A adolescencia é impiamente
+cruel para com ellas.
+
+Por uma lei analoga é o povo, o simile da creança, porque não tem os
+sentidos educados para as mais subtis bellezas da fórma, e é o homem a
+quem ella já não fascina, embora ainda e sempre o deleite, como
+poderosissimo elemento de belleza litteraria,--são estes os leitores que
+mais aptos estão para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre
+muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou
+a officina do artista.
+
+Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo não perdoou ao auto.
+
+--Sabes que mais? Não decores isso--disse-lhe elle resolutamente.
+
+--Meu pae quer.
+
+--O que é que quer teu pae?
+
+--Quer que eu entre no auto.
+
+--E has de entrar. Quem te diz que não?
+
+--E quer que seja a Fama.
+
+--E has de ser a Fama.
+
+--E não hei de falar?
+
+--Has de falar. Tinha que vêr uma Fama que não falasse. Para que lhe
+serviriam as cem bôcas?
+
+--Então?
+
+--Então; é que não é forçoso que digas o que ahi está.
+
+--E que hei de eu dizer?
+
+--Outra coisa.
+
+Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir comprehendel-o.
+
+--Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.
+
+--Olha, proseguiu Angelo.--D'aqui até chegar o dia do auto vae muito
+tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em logar d'esses.
+
+--E onde os tem?
+
+--Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta que no dia recites, em vez
+d'esses, os que eu te der!...
+
+--Mas que dirá meu pae e o sr. Pertunhas?
+
+--O mestre de latim? Pois que tem elle com o auto?
+
+--É quem ensina como a gente ha de dizer.
+
+--Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda para a occasião os
+versos que eu te arranjar. Até ha de ter graça vêr a cara com que elles
+ficarão todos, quando lhes sair uma coisa bem differente do que esperam.
+
+--Mas... diga: onde é que vae buscar esses versos?
+
+--Não sairei da aldeia para isso. N'uma visita que d'aqui vou fazer,
+conto obtel-os. Agora falemos de outra coisa. Que é de teu pae?
+
+--Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, d'alli defronte, está
+para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de
+meu pae.
+
+--Pois vae, que eu faço-te companhia.
+
+E Angelo seguiu-a á cozinha, e ahi, ella sentada na soleira da porta a
+escolher hortaliça, elle a dar de comer aos coelhos e ás gallinhas, se
+entretiveram a conversar.
+
+Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe enredos de dramas
+que o tinham commovido; typos e situações de romances, que se lhe haviam
+gravado na memoria; invenções da arte moderna, versos, anecdotas,
+contos.
+
+Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.
+
+Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, para sair.
+
+--Onde é que vae?
+
+--Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa.
+
+--E ainda o não viu?
+
+--Ainda não. A minha primeira visita foi esta.
+
+--Então vá, que elle deve estar morto por o vêr. Ah!... já sei a pessoa
+a quem vae pedir os versos!
+
+--Quem te disse que Augusto os fazia?
+
+--Eu vi-o estar a escrever na parede da capella da Senhora da Saude de
+uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar
+para aquelles sitios.
+
+--E leste-os?
+
+--Não, que não quiz que elle me visse. Mas que havia elle de escrever na
+capella? Então não adivinhei?
+
+--Não sei. Adeus.
+
+--Diga.
+
+--E chamavas-me curioso!
+
+E Angelo saiu apressadamente.
+
+Momentos depois estava com Augusto.
+
+A conversa entre ambos teve toda a intimidade da de dois affectuosos
+amigos.
+
+Angelo fez a narração dos episodios da sua vida de collegio; das
+difficuldades e das bellezas dos seus estudos n'aquelle anno. Augusto,
+que da aldeia com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o sobre
+algumas dúvidas que tinha, e esclarecia ás vezes tambem, graças á sua
+poderosa penetração e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia
+deixado no espirito do seu antigo discipulo.
+
+A geographia e a historia, que eram as disciplinas estudadas n'aquelle
+anno por Angelo, deram assumpto a grande parte d'este dialogo.
+
+Augusto inclinára-se aos estudos historicos, inclinação em que o
+herbanario o entretinha com frequentes presentes de livros d'aquelle
+genero.
+
+Em exame de livros novos, referencias a outros lidos, e leituras de
+alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manhã, até que
+por fim Angelo disse a Augusto:
+
+--Ah! é verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.
+
+--Qual é?
+
+--Sabe que está para breve o dia dos Reis?
+
+--Sim.
+
+--E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; aquelle auto em que
+o Herodes faz tremer meio mundo?
+
+--Bem sei--respondeu Augusto, sorrindo.
+
+--Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo; mas
+se soubesse os versos que lhe deram para recitar!
+
+E Angelo reproduziu, como pôde, as quadras do monologo da Fama no auto
+dos Reis.
+
+De quando em quando passava um sorriso pelos labios de Augusto.
+
+--Eu já conhecia isso. É o costume--disse elle no fim.
+
+--Mas não lhe parece que de uma Fama como aquella, se devia esperar
+melhor do que isto?
+
+--E então que quer que eu lhe faça?
+
+--Outros versos para o logar d'estes.
+
+--Outros!... Eu?...--perguntou Augusto.
+
+--Por que não?
+
+--Que lembrança!
+
+--Não me venha negar que os faz.
+
+--Versos?
+
+--Sim.
+
+--Quer dizer que os leio.
+
+--E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me então quem
+é que os escreveu na parede da capella da Senhora da Saude, para eu me
+dirigir a elle.
+
+--Então houve quem escrevesse versos na parede da capella?--perguntou
+Augusto, sorrindo.
+
+--Não que eu visse; mas já duas pessoas m'o affirmaram, e as suspeitas
+de ambas recaíram no mesmo homem.
+
+--Quem foram essas pessoas?
+
+--De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.
+
+--Ah!
+
+--A outra foi Lena.
+
+--Le... A sr.^a D. Magdalena?
+
+--É verdade, minha irmã. E estranhou, com razão, que eu o não soubesse.
+
+--E como o soube ella?
+
+--Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.
+
+Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o
+preoccupava.
+
+Angelo continuou falando, sem que fôsse escutado; a final concluiu,
+dizendo:
+
+--Então quer falar ao poeta da Ermida para que me dê o que lhe peço?
+
+--Poesia não lhe pode elle dar, agora se... alguns versos o
+satisfazem...
+
+--Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu a procurarei n'elles, até
+a achar. Desde já lh'os agradeço.
+
+--A elle?
+
+--A ambos--respondeu Angelo, rindo.--E agora diga-me, Augusto: Ainda
+está resolvido a viver aqui sempre enterrado? Não pensa em mudar de
+vida?
+
+--Nenhuma outra me namora mais; o destino que a bondade da morgada me
+offerecia... não tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso do
+crepe.
+
+--Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas o Augusto não terá amigos
+que ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos
+pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pae já ...
+
+--Que quer? Não me posso vencer até pedir ou acceitar de outrem
+auxilios, quando Deus m'os não tem recusado ainda; nem sei até se esses
+destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. Ha indoles
+que nasceram affeiçoadas para a obscuridade. Incommoda-as a demasiada
+luz. Umas plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi em qualquer
+canto escuso e obscuro, e lá mesmo dão flôr. Porque é isto não sei,
+mas...
+
+--Sei eu--disse uma voz da parte de fóra da janella, junto da qual se
+passára o dialogo...
+
+Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario desenhava-se no
+vão da janella, como um retrato de velho n'um caixilho de galeria.
+
+--Ah! o tio Vicente!--exclamou Angelo, correndo-lhe ao encontro.
+
+O herbanario encostou-se, ainda de fóra, ao peitoril da janella, ficando
+assim com meio corpo para dentro da sala.
+
+--Viva o nosso doutor--disse elle, sorrindo, a Angelo.--Por emquanto
+ainda esse coraçãozito está como era. Não esqueceu os seus amigos da
+aldeia.
+
+--Está como sempre estará--respondeu Angelo.
+
+--Sempre!--repetiu o velho.--Sempre e nunca são duas palavras de
+terrivel significação... Mas emfim... de bom metal é o coração, assim o
+não enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos...
+
+E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:
+
+--Com que dizias tu que não sabes porque algumas plantas vivem de pouca
+luz e de pouco ar, ahi em qualquer buraco do muro? É porque vivem muito
+pelas raizes essas. As plantas vivem do ar pelas folhas e vivem da terra
+pelas raizes. Lá diz aquelle livro da _Historia Natural_ que eu tenho.
+Umas prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar
+para poderem viver; outras porém, profundam tanto a terra, com tantas
+raizes se seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e não desdobram
+muitas folhas, nem crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como
+outras ha homens no mundo. Tu és dos que deixam ganhar raizes ao coração
+e d'ellas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros
+procuram? Mas é preciso cautela, rapaz! Ha corações como a hera, que
+onde quer que se encosta, prende-se com raizes. Quem é assim deve
+dirigir com prudencia as suas inclinações. Se para mau lado dobra, se se
+encosta a arvore de preço... mal d'elle! que o separarão com fôrça,
+fazendo-lhe estalar todas as raizes, que o prendiam.
+
+As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas pelo herbanario, parecia
+terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao
+ouvil-as.
+
+--Que está ahi a dizer, tio Vicente!--disse Augusto, sem ousar fitar o
+velho.
+
+--Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que os annos dão, vê longe e
+fundo, rapaz... É verdade que... ás vezes... o arrojo dos mocos é tambem
+guia feliz... Anda lá com a tua estrella, anda. Ao que já vejo, não sei
+se te possa chamar louco... como ao principio não duvidei fazel-o. É
+certo que é pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus castellos.
+
+--Os meus castellos! Que castellos faço eu?
+
+--Não hei de ser eu que t'os mostre... Só te quero avisar que não ponhas
+grande fé em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida?
+
+--No monte da ermida?
+
+--Não viste por lá no outro dia uns signaes de trovoada? A inconstancia
+é sempre de receiar. O que n'aquella manhã se passou, o que então vi...
+
+--Que viu?... Que se passou?
+
+O herbanario demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal
+expressão, que o obrigou a desviar o seu; depois accrescentou:
+
+--Nada; o que todos os dias acontece. O céo azul fez-se pardo, a luz
+clara cobriu-se de sombras, os raios do sol tornaram-se torrentes de
+chuva. Pois não te lembras?... E tudo devido a uma mudança... de
+vento... a uns ares que vinham do sul...
+
+Augusto não entendia ou fingia não entender estes mysteriosos dizeres do
+herbanario. Angelo estava distrahido devéras.
+
+O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:
+
+--Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?
+
+--Esteve lá hontem.
+
+--É amigo das creanças?
+
+--Parece-o.
+
+--Conta muitas historias ás senhoras?
+
+--Entretem-as bastante.
+
+--E ao... e a teu pae? Ouve-o com attenção?
+
+--Conversaram muito toda a noite.
+
+O herbanario parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada
+resposta obtida, abanava pausadamente a cabeça com certo ar meditativo.
+
+Augusto relanceava tambem para a fronte, meio contrahida, do velho um
+olhar entre curioso e timido.
+
+O herbanario proseguiu:
+
+--Emfim... A desconfiança é um achaque de velhice e nem sempre os mais
+felizes são os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem
+ainda a graça da sua protecção.
+
+--O tio Vicente desconfia do primo Henrique? perguntou Angelo, rindo.
+
+--Primo?!--repetiu o velho, admirado.
+
+--Primo lhe chamamos nós, porque a tia Victoria teima que, sendo elle
+sobrinho da tia Dorothéa, é nosso primo tambem.
+
+--Ah? Já ahi vamos? E Lena?...
+
+--Lena, Christe, todos lhe chamam por lá assim.
+
+O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras inintelligiveis,
+terminando por estas:
+
+--E, como no Egypto, é o vento sul que traz a praga dos gafanhotos. Mas
+Deus que vele, Deus que vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda
+d'aqui aos pardieiros de Cernuche.
+
+--Á caça dos sapos, tio Vicente?--perguntou Angelo, gracejando.
+
+--Não, que não é agora o tempo--respondeu, sisudo, o velho.
+
+--Dos sapos! Galante caça, na verdade!--continuou Angelo no mesmo tom.
+
+--Galante não será ella, pequeno,--respondeu o velho;--mas abençoada a
+chamarias se te torcesses no leito com as dores do carbunculo, que não
+ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle d'estes animaes
+sêcca ao ar livre.
+
+--E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caça toupeiras?
+
+--Em seu tempo. Oh! a toupeira é animal de abençoadas virtudes! Basta
+que um dente que se lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoço,
+cura a mais desesperada dor de dentes.
+
+--Não deve ser facil operação a de tirar os dentes ás toupeiras--tornou
+Angelo.
+
+O herbanario continuou:
+
+--A quinta essencia das toupeiras é milagrosa contra cancros e herpes.
+
+--A quinta essencia das toupeiras!--repetiu Angelo, rindo.
+
+--Não rias, creança--acudiu severamente o herbanario.--Que não é bonito
+rir do que os homens doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que o
+li n'aquelle grande livro da _Polyantheia_, livro como se não faz hoje
+outro.
+
+--E como é que se tira a quinta essencia a uma toupeira, tio Vicente?
+
+--Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as fazer em cinzas. Mistura-se
+a estas cinzas o sumo de celidonia maior, até haver quatro dedos de sumo
+acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, que se enterra
+por dez dias e... e... Bem, bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo
+e paciencia com creanças.
+
+--Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... Então depois de
+enterrar tudo isso, que se faz?
+
+--Até logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com
+menos vontade de rir.
+
+--E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, tio Vicente, eu padeço ás
+vezes de um somno tão pesado que me não deixa estudar.
+
+O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu:
+
+--E julgas que não sei de remedio para isso? Experimenta e verás. Mette
+um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... Mas
+adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche é uma legua.
+
+E o herbanario retirou-se, meio agastado com o scepticismo de Angelo e
+sobraçando a caixa de lata e o sacco dos seus thesouros medicinaes.
+
+Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das singularidades do
+velho, riso em que não entrava, porém, o menor laivo de malignidade;
+porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que elle bem lhes
+merecia, pois sempre do coração o achavam votado a seu favor.
+
+O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se ainda, até ás horas do
+jantar.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não
+possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella
+festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se
+despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo
+mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
+não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia
+este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já
+n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias,
+olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas
+janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias
+que vão no seio das familias, e pela phantasia creando em cada morada um
+mundo intimo de affectos e de venturas, como o de que a sorte os privou,
+que esses me perdoem as amargas saudades, que por ventura lhes avive
+assim.
+
+É certo que não ha noite mais alegre; alegre d'esta alegria que vae
+direita ao coração, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez;
+alegre d'esta alegria candida a que o homem é sujeito do berço á
+velhice, a qual respeitam os estos das paixões, na idade d'ellas, e o
+gêlo do egoismo, no declinar da vida.
+
+Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas tu sempre, noite de
+vinte e quatro de dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste
+a luz, o calor, o conchêgo dos lares, e mais intimos se estreitarão os
+circulos da familia em roda da ceia patriarchal.
+
+E vós todos, a quem uma moda tôla não constrangeu ainda a abandonar os
+habitos que de pequenos contrahistes, e festejaes ainda o Natal de
+Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter genuinos esses
+costumes nacionaes, que não resultará d'ahi desdouro para o vosso nome
+ou brazão. A roda da civilisação, a que applicaes hombros com tanto
+denodo, não se cravará por isso.--Podeis, elegantes meninas, cantar lôas
+sem escrupulo deante do presepe armado na sala mais intima da casa, que
+nem por isso cantareis peor na das visitas as arias italianas, que
+aprendestes no collegio; não córeis de collaborar, por excepção, esta
+noite nos mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia e perfumes
+tendes no toucador para as abluções purificatorias. Homens graves, a
+republica perdoar-vos-ha uma pequena infidelidade, a politica do paiz e
+da Europa não periclitará desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a
+vossa attenção; humanisae-vos pois uma vez por anno, e baixae ao seio da
+familia os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem
+sublimados.--Entrae com as creanças em jogos pueris e faceis, que não
+destemperareis a intelligencia para as philosophicas cogitações do
+_boston_ e do _whist_.
+
+A familia do Mosteiro era fiel ás classicas usanças d'esta noite
+tradicional. E n'aquelle anno sobretudo as festas das consoadas deviam
+ser coisa falada, graças ao plano de D. Victoria de reunir no Mosteiro a
+resumida familia de Alvapenha; plano que vimos approvado por acclamação
+por toda a assembleia presente.
+
+D. Dorothéa veio effectivamente na companhia de Henrique de Souzellas e
+de Maria de Jesus.
+
+Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovação das creanças.
+
+D. Dorothéa viu-se litteralmente enlaçada em braços infantis, que lhe
+tolhiam os movimentos e que, dizia ella, quasi ameaçavam asphyxial-a.
+
+Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que inauguraram um estado
+de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquella noite.
+
+A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro é indescriptivel. Na
+cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruido.
+
+Aqui eram as creanças jogando, a pinhões, o «par ou pernão» e o «rapa»,
+jogos popularissimos e de occasião, que, de tão conhecidos, dispensam o
+trabalho de descrevel-os. Estes jogos, como é de prever, não se
+executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a
+impaciencia de D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que se
+passava na sala, ralhar com os criados á cozinha.
+
+No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, armára-se o presepe,
+deante do qual ardiam seis vélas de cêra em castiçaes de prata maciça.
+
+As duas velhas senhoras, D. Dorothéa e D. Victoria, encetaram logo no
+principio da noite uma longa e devota reza, meio recitada, meio cantada,
+a qual se continuava com uma interminavel enfiada de Padre-Nossos e
+Avé-Marias, a que respondia, em côro, a parte feminina, da familia, as
+creanças e as criadas.
+
+Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em voz trémula e quebrada pela
+idade, entoava em singela cantilena coplas como esta:
+
+
+ Ó infante suavissimo,
+ Vinde, vinde já ao mundo
+ Livrar-nos do captiveiro
+ D'este jazigo profundo.
+
+
+E seguia-se um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
+
+Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, desordenado um pouco
+o andamento regular das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico
+expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.
+
+Á sala, onde Henrique de Souzellas conversava com o conselheiro em
+assumptos, todos d'esta vez longe da politica, chegaram as surdas
+harmonias d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de
+saber o que era aquillo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a seguil-o
+para por si proprio se poder informar.
+
+E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introducção na
+sala da novena justamente ao lado de D. Victoria e de D. Dorothéa, que,
+de embebidas que estavam nas suas orações, nem por elles deram.
+
+O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado d'aquellas boas
+senhoras, e quando após um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorothéa, se
+devia seguir a resposta do côro feminino, este emmudecido, com a chegada
+dos dois, a qual desafiára risos a custo suffocados, foi substituido por
+um dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, e
+escandalisaram depois ambas as sisudas senhoras.
+
+O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as creanças; D. Victoria
+teve muito que fazer, muito que reprehender o cunhado, muito que ralhar
+com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dorothéa,
+muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de
+todas estas tarefas.
+
+Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. Os desordeiros
+sómente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometteram
+que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique voltou com o
+conselheiro a admirar o primor que a paciencia de um artista imaginoso
+realisára na confecção do presepe, onde estavam representados todos os
+episodios da natividade de Jesus, e muitos outros.
+
+Era effectivamente uma complicada machina aquelle presepe, e seria prova
+de profunda indifferença artistica passar por elle sem um exame, embora
+fugaz.
+
+Este traste antiquissimo na familia gosava de nomeada n'um circulo de
+leguas em redor. Havia empenhos para o vêr no tempo do Natal, e se algum
+viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe
+recommendasse o visitar o presepe, como coisa digna de vêr-se.
+
+Consistia elle n'uma espécie de santuario de pau preto, no meio do qual
+havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel,
+com estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava deitado o menino
+Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos
+impulsos do compadecido coração de D. Victoria, que, ainda que tarde,
+parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma
+bonita cama de lençoes de renda com cercadura dourada; colcha de setim
+bordado, e colchão e travesseiro da mais macia penugem de aves
+americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quasi iguaes
+ás do menino; mais longe a vacca e a mula tradicionaes. Os episodios
+porém eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Varios
+grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e
+vestuarios, ornavam a scena. Alli um cego tocador de sanfona; um grupo
+de gallegos dançando, ao som da gaita de folle; uma pastora com ovos
+mais adeante; ao lado, um grupo celebrando um _pic-nic_, perfeita
+actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata, e botas de
+cano;--outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona ingleza, com o seu
+Jockey, galopava pelas cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira
+caminhavam a par com offertas para o menino. Ao longe, nos visos da
+serra, appareciam os tres Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar
+abaixo.
+
+Não esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento esculptural os
+muros de Jerusalem. Elles lá estavam coroados de ameias e de milicianos
+fardados á ingleza e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aquelles
+guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do
+quadro, qualquer d'elles era duas vezes maior do que as figuras do plano
+da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portugueza. Havia
+varios santos espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, e, entre os
+additamentos feitos pela devoção de D. Victoria ao presepe, contava-se o
+de um Santo Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, parecia muito
+admirado de se vêr n'aquelle tempo e logar. Um gallo colossal soltava do
+telhado do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins espreitavam do
+céo por entre nuvens de algodão e estrellas de ouropel. Era um prodigio!
+
+Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, sentia eu vivo orgulho
+de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime
+admiração faria cêdo ou tarde justiça; tive porém de abandonar esta
+lisonjeira idéa, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais
+justificadamente populares da nação vizinha. Das paginas de um delicioso
+quadro de costumes de Fernan Caballero, a eminente escriptora de que a
+Andaluzia se ufana, conheci eu serem não sómente nacionaes, mas
+peninsulares pelo menos, estes modelos de presepes, com os seus ingenuos
+anachronismos, cunho irrecusavel que o povo imprime a todas as suas
+obras de arte. Onde falta o anachronismo, falta a assignatura do povo.
+
+Em todo o caso era digno da menção que d'elle fizemos o presepe do
+Mosteiro.
+
+Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miudo, D. Victoria
+fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o
+serviço, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as peores criadas
+do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar
+lôas deante do presepe. D. Dorothéa cêdo tomou com Magdalena e Christina
+o mesmo caminho.
+
+O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com elles
+entraram em jogos, como se fôssem creanças tambem.
+
+O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e sério das
+salas de Lisboa perdera todo o ar diplomatico: agora era sómente o homem
+da familia; pueril, travesso, alegre, folgazão.
+
+--Meu caro,--dissera elle a Henrique no principio da noite--vou
+fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assumpto politico, a
+menor discussão séria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o
+contrario seria uma profanação, que attrahiria sobre nossas cabeças as
+justas iras dos anjos domesticos que n'estas noites andam invisiveis
+misturados com a familia.
+
+--Apoiado,--respondeu Henrique;--acceito e comprometto-me a cumprir a
+proposta.
+
+Henrique possuia em alto grau o talento de se tornar agradavel.
+Comprehendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, tão frio e
+pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da
+familia, e ao proprio conselheiro parecia já impossivel que ainda fôssem
+tão recentes as suas relações mais intimas com aquelle rapaz.
+
+--Animo, sr. conselheiro,--dizia-lhe Henrique, no momento em que elles
+ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.--Coragem,
+que temos gloriosos exemplos a animar-nos; até, entre outros, o do meu
+homonymo Henrique IV. É sabido o episodio recordado por uma gravura
+celebre.
+
+O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes jogos, a sala estava
+dentro em pouco em desordem; os moveis fóra da sua posição, o chão
+alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes
+desviados, as cortinas soltas.
+
+Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique:
+
+--Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d'estas festas, o
+principal. É dirigir uma visita á cozinha. Porque a obra principal
+d'esta noite é fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o a
+acompanhar-me lá.
+
+--Com tanto mais vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso
+com as senhoras.
+
+--N'esse caso é tempo.
+
+E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á cozinha.
+
+Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente,
+annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.
+
+A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto
+recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas
+monumentaes, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda
+saudosa dos odoriferos vapores que outr'ora espalhavam os tachos e as
+grelhas monasticas.
+
+Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae
+de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certãs, um
+borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de
+crystaes no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamações,
+de conselhos, todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria
+ralhava, e a sr.^a de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus
+desdenhava do serviço das collegas, e Magdalena e Christina riam de
+todos e de tudo, e Angelo a todos impacientava.
+
+Não se imagina!
+
+A chegada do conselheiro e do seu hospede veio exacerbar a desordem.
+Ergueram-se risos e exclamações, as quaes ainda assim eram subjugadas
+pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia para o
+conselheiro:
+
+--Sempre o mano tem coisas! Olhem agora para o que lhe havia de dar! Vão
+lá para dentro, vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do que
+estamos. E o primo Henrique tambem! Ora esta!...
+
+--Não se afflija, mana. Nós não podiamos resignar-nos a ficar alheios á
+tarefa principal do dia. E até porque é necessario dar andamento a isto
+para chegarmos a tempo da missa do gallo.
+
+--Pois querem ir á missa do gallo?
+
+--Está de vêr que sim.
+
+--Eu tambem vou--disse Christina.
+
+--E eu--acudiu Magdalena.
+
+--Mais um, que irá tambem--disse Henrique.
+
+--E eu, e eu--accrescentaram differentes vozes.
+
+--Ai, minhas encommendas!--suspirou D. Victoria.--Então por que não
+disseram isso logo? Agora como ha de ser?
+
+E saiu em direcção á sala da ceia a dispôr as coisas.
+
+É preciso que se diga que D. Victoria vivia na candida illusão de que
+era ella quem fazia tudo em casa, emquanto que manda a verdade declarar
+que nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas do que quanto
+dormia esta aliás excellente senhora.
+
+--Mãos á obra, sr. Henrique!--bradou o conselheiro, insistindo na
+resolução com que viera.
+
+--Prompto--respondeu Henrique.
+
+--Então? então?... Que vão fazer?--perguntava D. Victoria, afflicta,
+voltando á cozinha.
+
+--Querem vêr que preparos?!--dizia D. Dorothéa, sorrindo e olhando com
+curiosidade para o que faziam os dois.
+
+--Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia--dizia
+Henrique, approximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena
+e Christina.
+
+--É verdade que sim,--acudiu Magdalena--e eu exijo o cumprimento da
+promessa.
+
+--Vamos lá, sr. Henrique,--tornou o conselheiro--acceite-me alguns
+preceitos da pratica. A regra é fazer tudo o mais indigesto possivel;
+porque essa qualidade é o caracteristico dos manjares d'esta noite.
+
+--N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois
+desafio o melhor estomago do mundo a que subjugue os meus guisados com
+os seus succos digestivos.
+
+--Eu já escolhi tarefa--disse o conselheiro, tirando das mãos de
+Christina a colhér com que ella mexia o vaso onde se preparava o vinho
+quente, esse _punch_ nacional, que n'esta noite seria uma falta
+imperdoavel se esquecesse no programma d'aquelle banquete.
+
+Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, e cêdo principiou a
+desempenhar-se d'este trabalho, no meio de hilaridade geral.
+
+Angelo dispensou a tia Dorothéa do trabalho da preparação dos mexidos.
+
+Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu
+constante proposito, approximou-se da morgadinha, que n'aquelle momento
+se occupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas.
+
+--Peço trabalho, prima Magdalena.
+
+--Não ha falta de braços n'esta repartição, primo Henrique. Vá a outra
+porta.
+
+--Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas fôrças.
+
+--Esta? Como se engana! Não sabe que as rabanadas são a essencia da ceia
+de Natal? E logo havia de confiar-lh'as?
+
+--Ah! não ligava tanta importancia a estas representantes da pastelaria
+primitiva, notaveis porque recordam a infancia da arte! Emquanto a mim,
+já no tempo da peregrinação dos hebreus, Moysés lhes ensinava a cozinhar
+d'isto.
+
+Magdalena abanou a cabeça em signal de reprehensão.
+
+--Perdôe ás pobres rabanadas o pouco ar de moda que teem. A sua
+elegancia é implacavel, primo Henrique. Um indigesto manjar francez
+seria de melhor tom, bem sei. Até n'isso!
+
+--Para provar que estou arrependido da minha irreverencia, consinta-me
+que a coadjuve, prima.
+
+--Não pode ser; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.
+
+--Isso equivale a recusar-me o fôro de familia, que tão humildemente
+reclamo.
+
+--Justamente--respondeu Magdalena.--Eu sou muito escrupulosa n'isso. Faz
+mal em não reclamar esse fôro de Christina, que talvez encontrasse mais
+disposta a conceder-lh'o.
+
+--Mas, se me não engano, foi a prima Magdalena que primeiro me conferiu
+o apreciavel titulo de parentesco com que nos tratamos.
+
+--O de primos? Esse sim; mas não tem os privilegios, que lhe quer dar.
+
+--Que privilegios são?
+
+--Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, por exemplo.
+
+--Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o que eu peço?--perguntou
+Henrique a Christina, que principiára a escutal-os.
+
+--Não ouvi--respondeu esta, córando e sorrindo, como sempre que lhe
+falava Henrique.
+
+--Escusado é consultar Christina--acudiu a morgadinha--porque em muitas
+coisas pensa ella em opposição commigo. E n'isto...
+
+--E n'isto...
+
+--N'isto de attender a requerimentos, é talvez mais condescendente.
+
+--Ao que estou vendo--disse o conselheiro jovialmente--grandes coisas se
+tinham passado aqui, antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade
+entre Lena e o sr. de Souzellas, que me dá sérias inquietações.
+
+--E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu
+a nossa Lena no Mosteiro!...--disse D. Dorothéa, com toda a indiscreção
+da sua ingenuidade.
+
+Magdalena procurou acudir a tempo á corrente das revelações, a que viu
+disposta a boa senhora.
+
+Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que tendo feito uma digressão
+pela sala do refeitorio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava
+na mesa.
+
+O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. Suspenderam-se
+trabalhos, quasi completos, ultimaram-se á pressa outros, e a companhia
+dirigiu-se para o corredor.
+
+Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o e pretendendo
+suster a corrente, que ameaçava invadir a sala, que ella ainda não dera
+por prompta. Já não era tempo. O conselheiro, tomando duas creanças ao
+collo, rompia a marcha, e atraz d'elle até a pacifica D. Dorothéa
+clamava insubordinada que não recuaria um passo.
+
+E falando e rindo assim entraram na sala.
+
+Estava offuscante de luzes, esplendida de louças e baixellas, enfeitada
+de flores e de crystaes e ennevoada dos vapores das iguarias.
+
+Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confusão e
+incoherencia de ordens de D. Victoria para marcar logares, infracções
+d'estas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudésse perigar a
+ordem natural e social do mundo, e, como justa consequencia, caía sôbre
+a cabeça dos criados uma enfiada de recriminações, que elles por habito
+já soffriam com exemplar paciencia.
+
+Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se á ceia.
+
+Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas
+mesmas disposições de animo em que ordenava Christo estivessem os que
+fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com tão pouca
+vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos
+eméritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados,
+outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem
+da França e da Allemanha; cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e
+furta-te ás mãos da extranha geração de Vateis, que aspiram a dominar
+pelos paladares o espirito nacional.
+
+Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeições, mas
+respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo
+facto de que quasi não é feita para ser comida.
+
+Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro,
+das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorothéa sobre a
+innocuidade dos guisados, os pratos corriam á roda da mesa quasi
+intactos e intactos voltavam á cozinha d'onde sairam.
+
+Mas se se comia pouco--e de facto, á excepção de Henrique, do
+conselheiro e das creanças, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli
+para ceiar--mas, diziamos nós, se se comia pouco, em compensação
+falava-se muito.
+
+O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa
+efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar
+constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma creança, a
+anecdota contada por Henrique, as distracções de D. Victoria, as
+canduras de D. Dorothéa, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as
+allusões da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, as maliciosas
+insinuações de Angelo.
+
+Assim procedeu o repasto nocturno até á altura das saudações e dos
+_toasts_. N'esta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro
+fôram menos abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade dos
+vinhos.
+
+Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro,
+voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propôr tambem um brinde.
+
+Angelo levantou-se então para brindar Augusto.
+
+O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios.
+
+--Ah! o sr. Augusto--disse Henrique, antes de beber e com certo tom de
+ironia.--Conheço; é uma ave rara d'estas immediações, que tem brios de
+cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.
+
+--Brios de cavalleiro?--disse Angelo, com vivacidade.--Inda isso não é
+tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem.
+
+--Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr preciso até consciencia
+de santo. Vá á saude da phenix!
+
+E bebeu.
+
+Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior:
+
+--O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverencia
+d'esta personagem; corre-se o risco de vêr voltar contra o impio, que
+tanto ousa, os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; prometto
+acatar essa preciosidade.
+
+--E creia--disse-lhe o conselheiro--que lhe é merecedor de toda a
+consideração. Augusto é um d'estes caracteres excepcionaes que vivem á
+sombra de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella muitas vezes
+morrem. É necessario ter a vista muita exercitada n'estas explorações de
+almas modestas, para descobrir uma assim.
+
+--Felizmente para os myopes como eu--proseguiu Henrique--ellas fazem ás
+vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á luz.
+Não é verdade, prima Magdalena?
+
+--Que admira;--respondeu Magdalena--bem occulto está o fogo na
+pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca.
+
+--Pobre rapaz;--notou a sr.^a de Alvapenha--aquillo nem parece d'este
+tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque elle se não resolveu a
+tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa!
+
+--Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra
+qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para seguil-a até o fim.
+Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio
+singular aquelle rapaz!
+
+--É uma phenix--insistiu Henrique, ironicamente.--Vejo que não é
+susceptivel de discussão, impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho
+habitos de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir no meu credo
+esse dogma.
+
+--Perdão--replicou Angelo.--Um axioma não se demonstra, e a boa alma de
+Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas.
+
+--Por favor!! Dêem como não ditas as minhas palavras! Arrependo-me da
+minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a
+penitenciar-me na sua presença.
+
+--E é certo que nos falta aqui Augusto. Como te não lembraste d'elle,
+Angelo?
+
+--Não viria. N'esta noite não deixaria o tio Vicente.
+
+--Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.
+
+--É do herbanario que falam?--perguntou Henrique.
+
+--Justamente.
+
+--Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos
+inviolaveis; não é verdade, prima?
+
+--Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se
+uma especie de inviolabilidade.
+
+A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a
+desviar do ponto principal da questão, dizendo:
+
+--Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em
+si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de
+perturbar-lh'a. Além de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa
+soberania, que deve lisonjeal-o.
+
+--E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em
+coisas de doenças e de remedios, menino,--disse D. Dorothéa, que era uma
+das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.
+
+--É na verdade um homem singular!--disse o conselheiro.--D'antes, na
+noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem
+por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu
+em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e
+dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação.
+Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com
+maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e
+o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar mais a
+ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não
+houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante n'estas
+condições.
+
+--Sei-o já por experiencia;--disse Henrique--que n'uma unica entrevista
+que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer
+a irritabilidade.
+
+--Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa
+entrevista não demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades
+de que o accusa.
+
+--Agora--continuou o conselheiro--vão consideravelmente exacerbar-se os
+despeites do herbanario contra mim.
+
+--Porquê?--perguntou Magdalena.
+
+--Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada.
+
+--Então?--disseram simultaneamente Angelo e Magdalena.
+
+--A casa e o quintal do herbanario são os primeiros cortados.
+
+--Não pode ser!--exclamou Magdalena, com evidente expressão de susto.
+
+Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.
+
+Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza.
+
+--É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O
+primeiro era uma luva lançada a uma influencia eleitoral, poderosissima;
+o brazileiro Seabra.
+
+--Ah!--disse Magdalena, com certa amargura na expressão e no olhar.
+
+O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se não lia
+menos intenso desgosto.
+
+--Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse
+com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem
+d'essas exigencias absolutas.
+
+Magdalena respondeu:
+
+--Julguei que era a da consciencia, meu pae.
+
+--A consciencia diz-me que ha interesses superiores ás contemplações com
+as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira
+politica ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo
+exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto ás vezes a um
+sacrificio individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores
+e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos. É muito
+tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua
+casa; porém, mais respeitavel é o bem-estar e a conveniencia de uma
+localidade.
+
+--E é tão necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que
+se quer obrigar o herbanario?--perguntou Angelo, e Magdalena secundou
+com o olhar a pergunta do irmão.
+
+--Eu te digo, Angelo--respondeu o conselheiro, levemente despeitado.--Eu
+tinha a vaidade de me suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem
+elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em
+familia, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato,
+muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão d'este
+povo, e elles, á falta de outros, acceitariam ámanhã qualquer nome
+inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e
+que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se
+propunha ser representante. Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja
+parecendo um censuravel excesso de vaidade.
+
+--Não, meu pae, ninguem acredita mais do que eu no muito valor da sua
+influencia, mas... Ó meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio
+Vicente! Imagine bem o que é n'aquellas idades e com aquelle genio, a
+grandeza do sacrificio que vão exigir d'elle?
+
+--Custa-me ser obrigado a isso; porém...
+
+--Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle não pode ser muito
+longa. Deixem-o morrer em paz, á sombra d'aquellas arvores a que elle
+quer tanto. Que importa passar mais alguns annos sem uma estrada?
+
+--Poesia!--disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe
+correspondeu.
+
+--Perdão!--acudiu Magdalena, córando--é caridade.
+
+--Ora vamos, Lena. Sê razoavel. Todos soffrem no mundo sacrificios
+maiores do que esse; eu mesmo, que me não tenho ainda assim por victima
+da sorte...
+
+--E não haveria outro meio?--perguntou Angelo.--Acaso ha só esses dois
+logares para dirigir a estrada?
+
+--Que antes nunca se fizesse!--exclamou Magdalena, apaixonadamente.
+
+--Ahi temos como o sentimento me torna retrograda a minha Lena. Já clama
+contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro
+traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo.
+
+--Ah! então esse, esse! São bens nossos!--exclamou Magdalena com
+vivacidade.
+
+--São bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles que um dia mais
+valiosos se tornarão para teu irmão.
+
+--Os charcos?--disse Angelo, encolhendo os hombros--ora! Só para viveiro
+de rãs.
+
+--Hoje pouco mais são do que isso, e como tal nol-os pagariam agora.
+Dentro, porém, de alguns annos, operados alli os trabalhos de esgoto,
+que eu projecto, verão em que se transforma aquillo. É exigir a um homem
+muita abnegação pretender d'elle que sacrifique assim os elementos da
+riqueza futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens não seriam
+taes que...
+
+--Não pediriamos esmola, meu pae--notou timidamente Angelo.
+
+--Nem o Vicente a pedirá. Visto que estaes tão desprendidos de
+interesse, que não hesitaes em fazer-lhe sacrificio dos vossos bens,
+podeis ceder-lhe o sufficiente para o compensar da perda.
+
+--Mas quem o compensará dos golpes nos seus affectos?--perguntou
+Magdalena.
+
+--Tambem tu! São segredos do coração feminino essas compensações.
+Deixo-as á tua disposição.
+
+--Meu pae! meu pae! se é ainda possivel atalhar-se!
+
+--É impossivel.
+
+--Meu tio!--secundou Christina.
+
+--Mano! Primo!--disseram a um tempo as senhoras mais idosas.
+
+--O que posso fazer é ir eu proprio falar com o Vicente, para o mover a
+consentir na expropriação amigavel, que farei que lhe seja o mais
+vantajosa possivel.
+
+--E tem coração para lhe ir propôr isso?
+
+--Dize antes se tenho coragem para arrostar com as iras do velho, e com
+as maldições que já sei vae sacudir sobre mim.
+
+Lena calou-se, suspirando.
+
+--Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!--continuou o
+conselheiro.--Eu, que tinha feito voto de não me entreter de negocios
+publicos esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu!
+
+--Eu?! Eu, que abomino a politica! que só ella podia fazer entrar uma
+crueldade no coração de meu pae!
+
+--Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por outro sitio!--implorou
+meigamente Christina.
+
+--Tambem tu, Christe! tambem tu!
+
+--Pudera, mano! Não, que uma coisa assim! Isso é até uma ingratidão para
+com um homem a quem esta aldeia tanto deve--disse D. Victoria.
+
+--Pois não é! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de
+virtudes!--accrescentou D. Dorothéa.
+
+--Vá vendo, sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim. Veja como
+um sentimento insignificante organisa uma opposição.
+
+--É uma lição que estou recebendo, sr. conselheiro.
+
+--Meu pae,--insistiu Magdalena--eu espero ainda que, ouvindo o tio
+Vicente, se commoverá e trabalhará por alterar esse fatal plano que
+principia por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, com ellas
+arrancará uma vida.
+
+--Romances! Lena, romances! Os romances, lidos em plena aldeia, são
+perigosos. Falta aqui nos ares um certo scepticismo que, não sendo em
+dóses exaggeradas, tem a vantagem de não deixar vêr as coisas da vida
+através do prisma dos livros de imaginação. Mas basta de falar em
+politica. Ámanhã procurarei o herbanario. Espero uma recepção de gêlo, e
+vou preparado para uma ladainha de recriminações, mas irei. Nada
+esperes, porém, da entrevista, Lena; nem o mal, se mal é, se poderia já
+atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permittiria expansões á
+sensibilidade, que cheguem a commover-me. Conheço-o.
+
+Magdalena não instou. Ficou, porém, pensativa e sem o menor vestigio da
+alegria, com que principiara o serão.
+
+N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.
+
+--Já toca para a missa do gallo! Ouvem?--disse D. Victoria.
+
+--Vamos! Não ha tempo para demoras--exclamou o conselheiro,
+levantando-se.
+
+Todos o imitaram, menos Magdalena.
+
+--Não vens, Lena?--perguntou Christina.
+
+--Não.
+
+--São amúos, filha!--disse-lhe o conselheiro, indo por traz d'ella; e,
+tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-a na fronte.
+
+--Não, meu pae, é uma dôr de cabeça tão violenta!
+
+--A maldita politica é o que faz! Pois fica; fica, porque está fria a
+noite.
+
+--Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.
+
+--Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair.
+
+--Aviem-se!--dizia D. Dorothéa.--Henriquinho, vens?
+
+Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia noite esfriou desde que
+viu Magdalena ficar, respondeu:
+
+--Ó tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...
+
+--Vem d'ahi, preguiçoso! anda!
+
+--É que... para um homem doente...
+
+--Ai, não; se te ha de ás vezes fazer mal, então não--apressou-se a
+dizer a precavida senhora.
+
+E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cêdo
+depois Torquato foi ensinar. o caminho para o quarto onde devia
+pernoitar.
+
+O conselheiro, D. Dorothéa, Christina e Angelo fôram para a missa do
+gallo.
+
+D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no Mosteiro.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de
+Souzellas sentiu poucas disposições de dormir. Uma profunda excitação
+impedia-lhe o repouso; em parte era devida ás occorrencias d'aquella
+noite, tão fóra dos seus habitos de vida; em parte, digamol-o em
+verdade, á influencia dos vinhos, com que secundára os brindes do
+conselheiro, e com que elle proprio iniciára outros.
+
+A imaginação, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe
+representava mais bella a de Magdalena. A especie de hostilidade
+permanente, com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia
+seduzil-o.
+
+Nos poucos dias que passára na aldeia, havia Henrique, com novos
+habitos, adquirido uma maneira de vêr e de julgar as coisas e as
+pessoas, differente da que lhe era habitual na cidade, no circulo de
+amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou tacitamente, e sem dar
+por isso, certo scepticismo convencional, que uma antipathica escola
+conseguiu pôr muito na moda.
+
+Graças a estas melhoras moraes, tão verdadeiras n'elle como as physicas,
+as quaes até o constante pensamento das doenças lhe haviam dissipado,
+pudéra elle considerar Magdalena como uma mulher superior ao typo, pelo
+qual a mencionada escola costuma modelar o sexo: e acceitou sem má
+prevenção a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, que
+descrevia com enthusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais intimos
+amigos de Lisboa.
+
+Taes estados de convalescença são porém sujeitos a recaídas.
+
+N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta áquellas cartas,
+e sob as impressões com que ficou da leitura, tinha vindo para o
+Mosteiro.
+
+O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo de um homem da moda, da
+candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado á
+vista dos profundos estragos que alguns dias de provincia tinham operado
+n'elle. Via-o disposto a idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina
+monomania que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro de qualquer
+homem.
+
+Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos os dias caracteres,
+aliás não pervertidos, levianamente calumniam ou ferem de suspeitas
+reputações de todo o genero, elle fazia irreverentes allusões á
+morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a sério as isenções
+de uma rapariga de vinte e tres annos. Acabava por o aconselhar a que
+indagasse de algum primo timido e modesto, ainda que menos ingenuo de
+certo do que elle Henrique se estava mostrando.
+
+Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doença, que estava em via
+de cura. Um espirito mephistophelico parecia havel-a dictado. Henrique
+transportou-se pela imaginação, depois de lel-a, a um dos circulos que
+habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração
+da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o
+escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria
+por certo commentada a narração. E então uma vergonha de má indole,
+vergonha do homem que põe um preceito de elegancia acima de um dictame
+de moral, fazia-o córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a ler a
+carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso,
+emquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e
+desarrazoada.
+
+Quem ha que não tenha tido momentos d'estes? Quem se pode gabar de não
+ter perguntado um dia aos seus escrupulos mais nobres se não são meros
+preconceitos, que ficaram de uma educação acanhada? Quem não poz um
+momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em creança?
+Henrique estava passando por um d'esses accessos de scepticismo.
+Magdalena era já para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido
+da sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, que promettia a
+si proprio ser d'ahi por deante mais arrojado. Esta ordem de reflexões
+estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se
+apoderára d'elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça
+em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do
+quarto, saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.
+
+A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no
+céo, que com forte scintillação parecia illuminarem a terra de um tenue
+crepusculo, que mal deixava distinguir os objectos.
+
+O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle
+procurava prolongar.
+
+Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostára á varanda
+do quarto, quando lhe attrahiu a attenção certo vulto alvacento, que
+furtivamente se movia n'uma das ruas da quinta.
+
+Pareceu-lhe uma figura de mulher.
+
+Justamente n'aquella occasião tinha Henrique na memoria o periodo final
+da carta do seu amigo.
+
+Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.
+
+--Ah!... Querem vêr que... A dôr de cabeça subita... A insistencia em
+ficar só... Percebo... Um primo timido e modesto...
+
+E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os labios de
+Henrique.
+
+--Se eu pudésse averiguar isto... Mas ella corre com uma ligeireza que,
+antes que eu ache meio de sair para a quinta... já a levará bem longe.
+
+O meio porém não era difficil de encontrar. Da varanda em que estava
+Henrique passava-se com grande facilidade para outra immediata, na qual
+havia uma escada de communicação para a quinta.
+
+Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique operou n'um momento a
+descida, e pouco depois procurava através da quinta os vestigios da
+mulher que tinha perdido de vista.
+
+N'esta operação esforçava-se por combinar com a maxima ligeireza a
+possivel precaução, para não ser por causa alguma frustrada a sua
+pesquiza.
+
+A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda em volta por um solido
+muro de alvenaria. Aqui e alli abriam-se n'elle differentes portas que
+deitavam para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto havia
+pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava á tôa, já
+desanimado de ser bem succedido no empenho.
+
+De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar de uma chave na
+fechadura. Parou por precaução e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o
+bater de uma porta e mais nada.
+
+Então adeantou-se rapidamente; n'um momento deu com a porta, que ainda
+se conservava aberta.
+
+Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.
+
+Dirigiu-se á esquina que d'alli avistava; dobrou-a, mas nada viu; as
+ruas eram solitarias, e uma só casa terrea que havia ao lado de um
+quintal estava discretamente fechada e silenciosa.
+
+Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, Henrique voltou para a
+porta.
+
+--Esperemos aqui por esta donzella destemida que assim anda de noite a
+correr aventuras. Ha de ser curioso observar como ella fica, quando me
+encontrar por guarda portão. Veremos se ainda depois d'isto durarão
+aquelles ares de soberania, com que me trata. Um primo timido e
+modesto!...
+
+E, sorrindo á lembrança da scena que se preparava, Henrique fechou a
+porta por dentro, e accendendo um charuto, poz-se a passeiar, aguardando
+o regresso da morgadinha.
+
+Para não perdermos muito tempo á espera tambem, aproveital-o-hemos a
+inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento é util á continuação
+da nossa historia.
+
+A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro e n'um sitio a que a
+abundancia de vegetação e a suavidade de perspectiva davam o mais
+pittoresco aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, casa e
+quintal já condemnados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e
+offerecidos em sacrificio aos melhoramentos municipaes e concelhios.
+
+Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena e Angelo escutaram
+a nova d'esta expropriação, quem conhecesse a vivenda rustica do
+herbanario e soubesse do amor que elle votava a cada objecto d'ella,
+assim como da vida que, havia tantos annos, alli vivia escondido e
+obscuro.
+
+Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre
+verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o
+herbanario se entregava ás suas leituras e lucubrações scientificas.
+Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas
+flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices
+medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle
+cultivava.
+
+Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar-lhe.
+Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes
+curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a
+responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as
+amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando
+nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fôra dado a
+singularidades, augmentaram estas disposicões, que tinham o que quer que
+era de pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando com
+ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo.
+
+A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os
+trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe
+faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão.
+
+O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Elle proprio
+cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domesticos.
+
+É pois de imaginar que não seria muito complicado o banquete das
+consoadas n'aquella casa, e que devia formar em tudo contraste com o que
+á mesma hora se celebrava no Mosteiro.
+
+De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas e mais espontaneos
+os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma
+pequena mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta sala o santo
+anniversario. Um era o proprietario da casa, o outro Augusto, um dos
+poucos que se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a habitação do
+velho.
+
+Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, maçãs,
+nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na
+confecção da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa de vinho do
+Porto de promettedora côr de topazio, consistia o resto da mobilia n'uma
+estante de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas
+encadernações e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e
+bancos tambem occupados com livros e com varios utensilios empregados
+nas explorações scientificas do velho, taes como caixas de lata,
+frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes ainda sobravam para
+alastrarem o chão.
+
+Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro de azeite, e a
+escassa luz, que dos tres lumes que, em attenção á solemnidade da noite,
+o velho accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Christo de
+marfim pendente de um crucifixo negro, que sobresaía n'aquellas paredes
+nuas e caiadas.
+
+Havia bastante tempo que aquelles dois homens, sentados defronte um do
+outro, guardavam silencio; um d'esses silencios, durante os quaes os
+espiritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se
+desembaraçado d'ella, voam a par, para adeantarem caminho e voltarem
+mais longe a associarem-se á sua mais lenta companheira.
+
+Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava a scena, parecia
+alheio a quanto o rodeava.
+
+O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com o braço estendido para o
+calice que tinha defronte de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar,
+um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles os pensamentos
+que o preoccupavam. Emfim rompeu o primeiro o silencio:
+
+--Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. Para que te mettes a
+esconder de mim aquillo que eu ha tanto te leio nos olhos, creança?
+
+--O quê, tio Vicente?--perguntou Augusto, inquieto.
+
+--O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o
+coração: são dons do Céo, que se pagam caro e com lagrimas, rapaz.
+Bondade de coração, com a cabeça... assim, assim... a dar esmolas aos
+pobres se satisfaz; cabeça de fogo, mas coração de gêlo... todos os
+meios de levar ao fim ambições, tanto os bons como os maus, todos lhe
+servem; mas coração como o teu, com o espirito que tens!... ai, pobre
+Augusto, se se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do Senhor.
+
+--Não o entendo, tio Vicente,--disse Augusto, com manifesta confusão.
+
+--Não! Olha para mim. E vê se te atreves a repetil-o.
+
+Augusto baixou a cabeça.
+
+O velho sorriu com ar de commiseração e sympathia.
+
+--Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas que me não havia de
+custar, se não tivesse acertado?--E, depois de breve pausa,
+continuou:--Mas ainda quando penso em como tu, uma cabeça forte, assim
+te deixaste enfeitiçar!...--E tomando o calice, que tinha defronte de
+si, disse com resolução--Quero beber á tua saude, Augusto, e para que em
+breve se te desfaça essa loucura.
+
+Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão de Augusto susteve-lhe o
+braço.
+
+--Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ella. Sou feliz
+assim.
+
+--Ah!--disse o velho herbanario, tomando um ar mais grave; e pousou o
+copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.
+
+Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu com maior vehemencia e
+colorindo-lhe as faces um não costumado rubor:
+
+--Sim. Por que o não hei de confessar? Essa loucura que diz, trago-a
+commigo, vivo com ella e quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a
+desejaria perder. Amor? não é; a tanto não chega... antes um culto, isso
+sim. É uma adoração como aquella, em que de pequenos nos educam para com
+a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem procuro alimental-as. Quer
+que lhe diga? Vêl-a; respirar estes ares que ella respira; atravessar
+estas devezas em que ella passeia; amimar as mesmas crenças que ella
+amima; soccorrer, com o meu óbulo de pobre, a miseria sobre a qual ella
+espalha caridosa as dadivas da sua abençoada opulencia... e, ahi está;
+são as minhas aspirações; é o futuro que desejo, e com que me contento.
+Leu no meu coração, disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas não viu
+claro de todo, confesse. Julgou talvez que haveria em volta d'este
+sentimento um enxame de esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por
+certo foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. Enganou-se,
+porém, tio Vicente; vê agora que se enganou, não é verdade? Essas
+esperanças não existem. Se existissem, bem vê que não estaria aqui. Não
+me teria impellido a ambição pelo caminho de realisal-as? Não se me teem
+offerecido os meios para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto
+me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não arrisco um instante
+d'ella para tentar uma ventura maior.
+
+O herbanario escutava silencioso, porém meneando a cabeça com ares de
+quem não punha demasiada fé n'aquellas palavras.
+
+--Aos vinte annos!...--disse elle por fim--sentir o que dizes... ser
+feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e
+verás... verás depois...
+
+--Tem dez annos--disse Augusto, sorrindo.
+
+--Dez annos!
+
+--É verdade. De creança a conheço, a paixão que diz; por isso confio
+n'ella. Tenho fé em que se não transviará.
+
+--Dez annos!--repetia o velho, admirado.--Porém... ha dez annos...
+
+--Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não se lembra? Era então uma
+pobre creança da aldeia, educada entre os braços de minha mãe, e
+conhecendo, uma por uma, as arvores d'estes sitios e mais nada. Saí
+d'aqui e fui para Lisboa. Não imagina as fortes impressões que recebi na
+noite que alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de fadas e de
+encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginação
+assim! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os
+palacios, os edificios, os carros produziam-me quasi uma vertigem;
+sentia-me vacillar. Achei-me, nem sei bem como, de tão atordoado que ia,
+n'uma casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, n'aquella
+noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de creanças,
+muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembleia á parte. A
+sala era magnifica; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, moveis
+dourados, tapetes, quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, o
+piano, objecto novo para mim, e que eu me não fartava de admirar. Tudo
+isto me perturbava, como imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares
+de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; deu explicações ás
+pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue ás
+creanças. Ahi fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta
+mal talhada, o meu olhar timido, os meus modos acanhados, no meio de uma
+turba de creanças elegantes, que se me figuravam de uma essencia
+superior á minha. As creanças são desapiedadas, quando assim em
+companhia. Cêdo percebi que estava sendo o alvo da zombaria d'ellas;
+riam ao principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de
+relance; redobravam as risadas e transmittiam reflexões a meu respeito,
+cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas,
+dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; formaram
+grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Então
+apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o coração de
+tristeza. Lembrei-me, com saudades, das arvores da minha aldeia, do meu
+pobre quarto, de minha mãe; e achei-me alli tão só, tão sem conforto nem
+amizades, que as lagrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje não
+hesito em dizel-o, foi aquelle um dos mais amargos momentos da minha
+vida. Nós, quando adultos, esquecemos facilmente os martyrios da
+infancia, quando n'esta idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos
+os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha piedosa superstição
+de rapaz aldeão, quasi me pareceu de intervenção divina. Abriu-se a
+porta e entrou na sala uma creança, que eu não tinha ainda visto. Era
+uma menina pallida, de gesto affavel e angelico. Vestia toda de branco.
+Entrou e approximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigos. O
+conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe disse ao ouvido. Ella
+correu então a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim.
+
+--Não conhecias já da aldeia, Magdalena?--perguntou o herbanario.
+
+--Não; minha mãe veio para aqui no anno em que, por morte da sua,
+Magdalena voltou a Lisboa. A affabilidade, a singeleza desaffectada com
+que me falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje sinto como que
+os reflexos d'aquella suave impressão. Parecia-me ouvir a voz de minha
+mãe; tinha o timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança o
+coração. Com ella não senti mais aquelle acanhamento que me enleiava.
+Depois falava-me de coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a
+respeito dos campos, das arvores, das abelhas, dos ninhos dos passaros,
+das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escutando-me com
+tanta deferencia e attenção, que me inspirava coragem, e julgo que me
+estava dando ares de mais importancia junto d'aquelles pequenos senhores
+e senhoras que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus desdens e
+acabaram por me escutar e interrogar tambem com curiosidade. Já uns me
+lançavam os braços ao hombro, outros formavam circulo em volta de mim, e
+cêdo fui eu a principal personagem d'aquella noite. Essa creança...
+
+--Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o não soubesse. Não podia
+deixar de ser ella--exclamou o herbanario, com um fulgor de sympathia a
+illuminar-lhe o olhar.--Era ella; sempre assim foi!
+
+--Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia no meu espirito.
+Hoje ainda, se penso n'ella, acho-a de uma grande significação moral.
+Pois não é mais apreciavel n'uma creança esta prova de superioridade de
+caracter, do que nas idades em que muitas vezes a razão e o calculo a
+impõem a uma indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo
+espontaneidade. Desde então a adoro.
+
+O herbanario parecia não ter já animo para sorrir.
+
+--Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella grande tristeza. Tão
+novo!
+
+--É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi sempre para mim affavel;
+inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os
+defeitos da minha educação aldeã, e, se reconhecia progressos no
+discipulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e
+o maior premio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena com certo
+ar de gravidade, que aquella creança já então tomava, perguntou-me, no
+meio de uma conversa propria de creanças: «E sente-se com genio para ser
+padre, Augusto?» Já me não lembro do que lhe respondi. Trouxe porém
+commigo aquella pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia.
+Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde então m'a repetia
+sempre, até junto da cabeceira de minha mãe, cuja maior aspiração era,
+como sabe, vêr-me padre. Mas em vão! foi desde então uma dúvida
+constante com que luctava. Com a morte de minha mãe tudo mudou. Pela
+primeira vez respondi á interrogação, que havia tanto tempo dirigia a
+mim proprio, e consegui por fim responder: «Não». Eis o segredo do meu
+passado.
+
+--E por que disseste «Não»?
+
+--Porque vi que toda a minha vida era para a consagrar a um sonho; que o
+sonharia no altar, no pulpito e no confessionario; que para toda a parte
+me seguiria a imagem, a que eu já não podia renunciar, e a qual então já
+não contemplaria sem remorsos, como agora o faço. Foi por isto.
+
+--Só? Não te illudirás a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que n'isso pode
+ir a tua felicidade! Estás bem certo de que não ha uma esperança dentro
+do teu coração?
+
+--Se a tivesse...
+
+Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua. Cêdo
+batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fóra:
+
+--Está acordado ainda, tio Vicente?
+
+O herbanario trocou um olhar com Augusto. A voz era de Magdalena.
+
+Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario quiz retêl-o.
+
+--Onde vaes?
+
+--Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora. Não estou preparado com a
+minha indifferença.
+
+--Pobre mascara!--N'esse caso sae pelo quintal.
+
+--Tio Vicente!--repetiu Magdalena, de fóra.
+
+--Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera--continuou em voz baixa
+para Augusto:--dá-me a tua palavra que não escutarás.
+
+--Dou; mas... promette que nada lhe dirá?
+
+--Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer, quanto mais... Adeus!
+
+Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo lado do quintal, o
+herbanario foi abrir a porta da rua á morgadinha.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+--Ora com Deus venha a minha fada; esta querida Lena, que se não esquece
+dos seus amigos velhos... Boas festas me trazes pela noite, filha!
+
+No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes indicios de
+preoccupação.
+
+--Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; eu venho...
+
+O herbanario conduziu-a para junto da mesa, onde estavam ainda os
+signaes de refeição, que havia pouco findára. Vendo os dois talheres, a
+morgadinha olhou interrogadamente para Vicente:
+
+--Estava alguem comsigo?
+
+--Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porquê? Temos por ahi mais alguns
+livros a comprar-lhe?--continuou, sorrindo com benevola malicia.--Tenho
+eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada que, de vez em quando,
+me ensina em segredo quaes os livros, que o rapaz mais deseja e de que
+eu mal sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos, que
+não mereço, e que elle mais de coração daria, a quem são de justiça
+devidos?
+
+--Não, tio Vicente; não se trata agora d'isso.
+
+--Ai, Lena, Lena, que não sei bem o que devo pensar de todas estas
+coisas.
+
+A morgadinha parecia um pouco perturbada com as palavras do herbanario.
+
+--Que ha de pensar? Ha nada mais natural? Angelo foi que me deu o
+exemplo. Elle sabia o amor que Augusto tem á leitura. Porém o cofre de
+Angelo é pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego a nem saber em que
+hei de consumir o que me sobra. Por isso foi que me lembrei... porém
+como não conviria que eu propria fizesse o presente, nem elle de mim o
+acceitaria, é que eu lhe pedi que o fizesse em seu nome. Mas falemos de
+outra coisa, porque me não posso demorar. Venho ás occultas e emquanto a
+minha gente foi á missa do gallo. Tio Vicente, um objecto muito grave me
+obrigou a procural-o a estas horas.
+
+--Ah!--disse o velho, sentando-se em tom de gracejo.--Adivinho a
+gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem
+algum principio de sarampo ou de garrotilho, e vens...
+
+--Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este
+quintal?
+
+O velho tornou-se immediatamente sério.
+
+--Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
+
+--Tem?
+
+--Nasci aqui, filha.
+
+--Custar-lhe-ia a...
+
+--A quê?
+
+--A... a...
+
+E Magdalena hesitava.
+
+--Fala!--insistiu o velho, já inquieto.
+
+--A separar-se d'ella?
+
+O herbanario respondeu simplesmente:
+
+--Ah! morreria.
+
+Magdalena fez um gesto de afflicção.
+
+Em Vicente crescia o desassocego.
+
+--Mas... Dize, Magdalena; o que significam essas palavras?
+
+--É que...
+
+--Explica-te!--exclamou o herbanario, quasi imperiosamente.
+
+--Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas não se afflija. Eu vim de proposito
+para o prevenir. Mas, por amor de Deus, socegue; senão tira-me o animo
+de continuar.
+
+--Que socegue, e tu a atormentares-me com essas demoras!
+
+--Perdôe... Fala-se em deitar abaixo estas arvores e esta casa, para...
+
+O herbanario de um impeto poz-se a pé. Fulgurou-lhe nos olhos um
+relampago de ira terrivel!
+
+Magdalena calou-se, assustada.
+
+--Deitar abaixo estas arvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve?
+Pois que venham! que venham!
+
+Mas reparando no terror que estava causando a Magdalena, procurou
+reprimir-se, e com uma voz que elle se esforçava por tornar tranquilla,
+continuou:
+
+--Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Dize o que
+sabes. Quem é?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala,
+bem vês que eu estou socegado, filha.
+
+--Ha um projecto de estrada...
+
+--Ah!--disse Vicente, com um grito de raiva.--Não digas mais. Já
+sei--continuou com renascente exaltação.--Já sei. Adivinho o resto. É
+teu pae que o determina; é teu pae que o resolveu?
+
+Magdalena abaixou a cabeça com dolorosa expressão.
+
+O furor do velho exaltou-se outra vez.
+
+--Teu pae! Teu pae, Lena! Então esse homem jurou matar-me?
+
+--Tio Vicente!
+
+--Elle não sabe o que são para mim estas arvores e estas paredes? Elle
+não sabe que a minha alma está n'ellas, presa a estas raizes? que com
+ellas se despedaçará? Esse homem sem coração não vê que são estas as
+minhas affeições, as unicas? a minha unica familia? Elle, o companheiro
+dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou, á sombra d'essas
+mesmas arvores e sob os olhares de meu pae, que tambem o abençoava, tão
+duro de coração se fez que, sem respeito por estas memorias todas, assim
+me quer separar do que me dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é
+teu pae este homem, Lena?
+
+--Por quem é, tio Vicente; ouça-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que
+talvez tudo se remedeie ainda.
+
+--Sim, sim; tudo se remediará... com a minha morte. Talvez que ella seja
+util a teu pae... Talvez precise d'ella.
+
+--Oh! não creia, não creia.
+
+--É duas vezes doloroso o golpe; porque me separa do que amo deveras e
+por vir da mão de quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita que
+o era... ainda. Conheci-o tão generoso e tão innocente, como teu irmão
+Angelo. Muitas vezes me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus
+projectos. E acreditei n'elle. Tinha então no olhar um fogo, que não
+mentia. Vi-o seguir a carreira publica e acompanhei-o com a minha fé.
+Não tardaram os primeiros desenganos; não lhes quiz dar credito ao
+principio. Vieram outros e outros. Fui vendo então que os maus ares
+d'aquella terra tinham embaçado o brilho do caracter, que eu julguei
+melhor do que os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me reservado
+ainda. Para teu pae hoje os homens são medidos pelos votos, que podem
+lançar na urna eleitoral!
+
+--Por amor de Deus, tio Vicente, não fale assim! Não duvide de meu
+pae!--exclamou Magdalena, a quem cruelmente estavam affligindo as
+recriminações amargas do herbanario.--Meu pae estima-o e respeita-o. Não
+tem o coração endurecido que diz. Elle mesmo ámanhã aqui ha de vir. Verá
+então...
+
+--Elle? Ámanhã?...
+
+--Para isso venho prevenil-o. Não o receba com asperezas, tio Vicente;
+fale-lhe com brandura. Talvez o commova, talvez seja ainda possivel
+valer a tudo. Ainda não está decidido... Julgo... E que estivesse...
+
+--Ámanhã! Teu pae vem aqui ámanhã? E ousa vir elle proprio annunciar-me
+o que sabe que vae ser uma sentença de morte?
+
+--Não; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia. Sabendo-o, verá
+como...
+
+--Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me, e ha muito. Não
+julgues que pode errar, calculando o effeito d'este golpe. Mas que
+queres tu? ensinaram-lhe já a avaliar em pouco as venetas de um velho
+quasi tonto. Homens que trazem o pensamento em interesses tão altos, não
+teem vista para estas pequenas desgraças.
+
+Magdalena sentia-se possuir de uma profunda tristeza, ao ouvir falar o
+herbanario. Era uma dolorosa provação para o seu amor de filha vêr assim
+uma nuvem de desconfiança offuscar a ideal concepção que ella formára do
+pae, e não ter fôrças para a afugentar. Ás vezes uma dúvida cruel
+fazia-lhe, a seu pesar, suppôr que o herbanario tinha razão. Agora só
+conseguia oppôr um gesto supplicante áquellas acerbas accusações, que
+por muito tempo ainda desattenderam esta supplica muda.
+
+A final serenou a violencia da irritação do velho; succedeu-lhe, porém,
+uma commoção profunda, dominado por a qual disse a Magdalena:
+
+--Socega, Lena; ámanhã eu receberei teu pae sem a menor aspereza.
+Fizeste bem em vir primeiro, filha. Se o não esperasse, talvez não
+soubesse conter-me. Agradecido. Uma noite é bastante para me preparar.
+Agora vae, deixa-me só; deixa-me... chorar.
+
+E cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair, soluçando, sobre a mesa,
+junto da qual se achava.
+
+Magdalena correu para elle, commovida.
+
+--Então, tio Vicente, então! Socegue! Ámanhã meu pae virá. Fale-lhe, e
+eu espero que ainda será tempo de evitar... o mal.
+
+--Pode ser, pode ser...--respondia o velho.--E se não pudér, Deus me
+acudirá, para não viver por muito tempo fóra da casa em que nasci.
+
+Magdalena já não tinha que lhe dizer.
+
+--Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos, como já pedimos.
+Tenho esperança.
+
+--Não, filha, não peças tu. Deixa-me só com teu pae ámanhã. Disseste que
+tinhas vindo, sem ninguem saber?--continuou elle.--Olha que te não dêem
+pela falta. Vae, que é tempo.
+
+--Mas...
+
+--Vae, filha. Eu estou já tranquillo. Bem vês. Deus te recompense a
+bondade que tiveste. Vae. Queres que te acompanhe?
+
+--Não é preciso. Vim pela porta das prezas, que deixei aberta. São dois
+passos e estou na quinta. Mas, tio Vicente...
+
+--Vae então; e Deus te abençoe.
+
+E o velho pousou a mão sobre a cabeça de Magdalena, que saiu commovida.
+
+E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o pranto que lhe rebentava
+dos olhos.
+
+É sombria a saudade n'aquellas idades, porque as esperanças são já muito
+debeis para lhe darem luz.
+
+Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda pelos sentimentos que
+alli a tinham agitado, a morgadinha dirigiu-se á pressa para a porta da
+quinta, por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta resistiu.
+Este facto surprehendeu e inquietou um pouco Magdalena. Quem poderia ter
+fechado a porta? E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe
+necessario um longo rodeio pela aldeia para chegar a outra, que pudesse
+encontrar aberta.
+
+N'esta hesitação impelliu outra vez instinctivamente a porta, que lhe
+oppoz a mesma resistencia.
+
+Cêdo, porém, sentiu o rodar da chave na fechadura e viu mover-se
+lentamente a porta, e no vão, que augmentava, desenhar-se uma figura de
+homem.
+
+Antes que pudésse, através da obscuridade da noite, reconhecer a pessoa,
+que assim tão a proposito lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas
+palavras:
+
+--Muito boas noites, prima Magdalena. Espero que pelo menos me concederá
+licença para exercer, junto de si, as humildes funcções de porteiro.
+
+Era Henrique de Souzellas.
+
+Magdalena não foi superior a um vago sentimento de receio, ao
+encontrar-se ahi com o hospede de Alvapenha; comtudo esforçou-se por
+dominar-se e respondeu, com apparente presença de espirito:
+
+--Ah! É o primo Henrique. Muito boas noites. Ahi temos um requinte de
+galanteria, que eu estava muito longe de esperar.
+
+--E de desejar, não?
+
+--E de desejar tambem; confesso-o. Por mais diligente que seja um
+porteiro, nunca o é tanto como uma porta aberta.
+
+--Mas é mais discreto.
+
+--Duvido. Em todo o caso, agradeço o incómmodo.
+
+E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explicações.
+
+--Uma palavra, prima Magdalena--disse Henrique, retendo-a por o braço e
+com certa expressão nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto
+da morgadinha.--Não ha mais accommodado terreno para um dialogo solemne
+do que o limiar de uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o
+homem muda de mascara; depõe a que apresenta na sociedade e afivela a
+que traz na familia, e vice-versa. Ora n'estas mudanças é facil
+surprehender o verdadeiro rosto da pessoa.
+
+--Será tudo o que quizer o limiar de uma porta, primo; menos um logar
+muito confortavel para serões n'uma noite de dezembro.
+
+E Magdalena tentou de novo seguir para deante.
+
+Henrique susteve-a outra vez.
+
+--Um momento só, prima Magdalena; tenho necessidade de saber se me quer
+para alliado ou para inimigo.
+
+--Não vejo a necessidade da alliança que propõe, nem as razões para a
+lucta.
+
+--Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aqui foi
+um desagradavel contratempo. Uma certa altivez e consciencia de
+invulnerabilidade, de que tinha o incómmodo de se revestir, sempre que
+tratava commigo, depois d'esta importuna occorrencia terá de se
+modificar.
+
+--Não havia dado por essa... _revestidura_ que diz; mas, se ella
+existiu, far-me-ha o favor de dizer: por que não pode continuar?
+
+--Essa é boa! porque eu faço a justiça á prima de suppôr que não vae tão
+longe a sua hypocrisia.
+
+--Hypocrisia!--disse Magdalena, com accento mais severo.
+
+--Perdão; não tive tempo para inventar outro termo mais... brando.
+Dissimulação talvez lhe agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do
+occorrido...
+
+--Agora exijo eu que se explique, senhor.
+
+--Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar uma explicação...
+edificante... d'esta sua excursão nocturna?
+
+--Obsta apenas a que eu lh'a dê, sr. Henrique de Souzellas, a falta de
+uma pequena formalidade: a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.
+
+--Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha ideia. A prima é uma mulher
+admiravel, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade
+distincta, sobranceira por isso a pieguices provincianas. Tanto mais me
+encanta! E creia que me envergonho só ao lembrar-me do que terá pensado
+de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de
+franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, não é
+verdade?
+
+--Agora é que me está parecendo bem enygmatico!
+
+--Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo.
+
+--Pois ignorava!--atalhou Magdalena, com ironia.
+
+--E sabe de certo, por experiencia do mundo, que para homens como eu, a
+indifferenca, a frieza e os desdens redobram o ardor da paixão.
+
+--Sim; já li isso n'um romance.
+
+--A prima tem sido para commigo de uma crueldade revoltante, mas pouco
+sincera. Eu resignava-me a soffrer, porque um resto de ingenuidade que
+me ficou dos quinze annos, illudia-me na interpretação de taes
+resistencias. Tive a puerilidade de a suppôr uma mulher de excepção;
+pouco me faltou para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel
+noite de Natal o desengano.
+
+--Ah! então parece-lhe...
+
+--Que a prima representa admiravelmente o seu papel. Pode gabar-se de
+ter illudido um homem habituado ás scenas da comedia social.
+
+Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza:
+
+--Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas, sem que eu
+propria bem saiba o que me retem aqui: se é a compaixão que me inspira a
+profunda doença moral de que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a
+que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por
+um facto, que a sua pouco delicada indiscreção preparou, eu ficarei de
+hoje em deante á mercê da sua generosidade. Conhece-me muito pouco, sr.
+Henrique! Ainda quando esse facto não pudésse ter uma explicação
+natural, e que me não repugnará declarar quando quizer, saiba que tenho
+orgulho de mais para arrostar com tudo, até com a calumnia, de
+preferencia a resignar-me ao menor predominio que me seja odioso.
+
+--Bravo!
+
+--Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se eu não lhe fizesse a
+justiça de acreditar que d'esses seus actos e palavras não é
+absolutamente irresponsavel talvez a má influencia da ceia d'esta noite,
+bastariam elles para me inspirarem por si e pelo seu caracter o mais
+completo desprezo; e então seria, como nunca, manifesta a minha
+independencia, porque eu nunca temi os seres que desprezo.
+
+Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de
+energia, com que a morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de
+scepticismo obrigou-o a replicar:
+
+--Santo Deus! prima Magdalena; não dê um colorido tão pavoroso ás minhas
+supposições. Despojal-a de uma crueza deshumana, para a dotar de uma
+sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma justiça feita ao seu
+coração. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me auctorisa. O
+pequeno e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se
+já, creia; e agora só me resta invejar a sorte de quem tem a
+felicidade...
+
+--Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o
+escutarei; poupar-lhe-hei assim os remorsos, que ámanhã teria da sua
+infamia...
+
+E animada por uma resolução mais energica, Magdalena caminhou
+soberanamente para a porta.
+
+Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.
+
+--Um momento mais.
+
+--Deixe-me passar, senhor.
+
+--Não, sem que me ouça antes.
+
+--É uma violencia?
+
+--É uma supplica.
+
+N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avançou
+para elles.
+
+--Sr.^a D. Magdalena, se fôr preciso reter o insolente, que se lhe
+atravessa no caminho, ponho um braço á sua disposição.
+
+E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio collocar-se entre
+Henrique e Magdalena.
+
+Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de cólera. O olhar que
+fixou no recem-chegado trahiu a vehemencia da impressão recebida. Depois
+succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias. Olhou para Magdalena,
+em quem não era menor a surpreza causada pela inesperada presença de
+Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de
+malignidade e de ironia, que a ambos fez estremecer.
+
+--Ahi está uma apparição tanto a tempo, prima Magdalena, que aos mais
+incredulos infundiria fé na intervenção da Providencia. Que foi sem
+dúvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas,
+um tão generoso e intrepido salvador. Não é verdade, prima? O que vale
+estar de bem com Deus!
+
+Estas palavras mostraram a Augusto que a sua intervenção, ainda que
+generosa e devida a um espontaneo impulso da alma, não fôra porventura
+das mais convenientes.
+
+--Senhor!--exclamou elle, indignado, dando um passo para Henrique.
+
+--Socegue--tornou este, com dobrado sarcasmo.--O senhor é um perfeito
+heroe de romance; enthusiasta, cavalheiresco, mas, em certas occasiões,
+incómmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio
+causar a um bello dialogo que eu sustentava aqui com a sr.^a D.
+Magdalena! Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu com a sua vinda o fio
+da comedia, que desempenhava com perfeita sciencia de actriz. As almas
+ingenuas e generosas, como a sua, sr. Augusto, são ás vezes de uma
+impertinencia! Vamos, sr.^a D. Magdalena; não descoroçôe. Assim exgotou
+todos os recursos da sua imaginação? Vamos, introduza mais este elemento
+de apparição de um heroe no enredo, e organise a comedia com o superior
+talento que tem! Eu por mim acceito todos os papeis que me distribuir.
+
+Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou, dizendo com voz firme:
+
+--Perdão; vejo n'esta noite em todos uma notavel disposição para
+usurparem direitos, que não possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar;
+o sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que já ha pouco lhe
+disse; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas acções,
+fal-o-hei deante de outros juizes, em quem reconheça o direito de o
+serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar que, se o titulo de
+hospede e de parente não fôsse bastante para me assegurar da parte do
+sr. Henrique de Souzellas os respeitos que me são devidos, tinha ainda
+na minha familia defensores legitimos e não seria por isso obrigada a
+recorrer á protecção de um estranho. Meus senhores...
+
+E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre elles e
+entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.
+
+--Se esta senhora acceitasse a sua protecção e eu teimasse n'aquillo que
+chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu
+procedimento? Poder-se-ha saber?--perguntou Henrique, logo que a
+morgadinha desappareceu.
+
+Augusto, em quem a fria altivez da resposta d'ella deixára o desespero
+no coração, respondeu acerbamente:
+
+--Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem vê que não me esqueço
+facilmente do meu programma de mestre-escola.
+
+--Vejo; é a segunda tentativa de lição que lhe mereço. Permitte-me que
+ámanhã o procure para dar principio a um curso de educação mais regular?
+
+Augusto respondeu, sorrindo:
+
+--É um cartel em fórma? Não sei se estarei ensaiado para essa comedia.
+
+--Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha esse sabor.
+
+--Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa.
+Qualquer scena d'essas entre nós seria pouco delicada... ámanhã.
+
+--Pois bem, contemporisemos; e até lá é de esperar que algum motivo
+occorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.
+
+--Como queira; a minha porta não se fecha a quem me procura.
+
+E separaram-se depois de se cortejarem.
+
+--Se me não engano--dizia comsigo Henrique, em caminho do quarto--é um
+verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me
+parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando um mestre-escola. Se
+lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos
+o que ámanhã, á luz do dia, eu penso d'isto tudo. Eu já não fico por mim
+esta noite. Estou a querer convencer-me de que tenho andado
+estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É que esta
+mulher e este creancelho são irritantes. Ella com a sua altivez, elle
+com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endymião d'esta esquiva
+Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo e timido... A
+ociosidade da aldeia para alguma coisa ha de dar. Mas da maneira por que
+ella lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é
+certo é que estou em lucta com uma mulher superior... Pois luctemos,
+priminha, mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo que o
+acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ella ámanhã me
+trata...
+
+Esta scena deixou em Augusto uma perturbação de espirito mais profunda.
+
+As operações mentaes, que o preoccuparam toda a noite, eram d'aquellas a
+que repugna chamar pensar. É mais uma febre intellectual, um succeder de
+imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que
+não aconselha nenhum partido, que não esclarece, offusca.
+
+Como se explica esta differença entre os dois? Por um apparente
+parodoxo; porque Augusto tinha mais habitos de reflectir. Quando n'uma
+vida de episodios uniformes e apparentemente vulgares, o espirito exerce
+demasiado a analyse, habitua-se a estudar factos que para outros passam
+por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.
+Costumado assim a ligar valor a tudo, quando succede que no decurso da
+vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confusão do primeiro
+momento é inevitavel. Assim como a balança de precisão, apropriada para
+oscillar com pesos tenuissimos, não é a que pode servir para os grandes
+pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar subtis accidentes, de
+que se compõe o drama habitual da vida, não é a que de subito pode
+avaliar algum mais complexo e importante.
+
+A resolução n'estes espiritos, depois de formada, é mais tenaz; mas,
+emquanto se não fórma, vae n'elles um tumulto de ideias, que se não
+podem analysar.
+
+Não analysemos, pois, as de Augusto.
+
+Magdalena não socegou emquanto não viu Henrique voltar ao quarto, pelo
+mesmo caminho por que saíra.
+
+--Que resultará d'isto?--pensava ella.--Que fará elle ámanhã?... É
+preciso não me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois
+que os deixei?... Veremos ámanhã.
+
+No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena sorriu.
+
+É que lhe occorrera então este pensamento:
+
+--Dizem que nós, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar
+amadas. Pois será mais difficil fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?
+
+
+FIM DO PRIMEIRO VOLUME
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
+
+XXIII
+
+ROMANCE
+
+III
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+Vol. II
+
+
+
+
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
+TELEPHONE 2337
+
+
+
+
+JULIO DINIZ
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+(CHRONICA DA ALDEIA)
+
+DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
+
+
+
+LISBOA
+J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES
+186--Rua Aurea--188
+_1920_
+
+
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal.
+
+A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo
+pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os
+gêlos dos montes e os gêlos da velhice.
+
+O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os
+sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos,
+saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na
+direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da
+Natividade.
+
+Era dia santo entre os que mais o são; e os dias santos na aldeia teem
+uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a
+vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia
+duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas
+arvores das nossas praças e jardins.
+
+Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia
+santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na
+lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em
+vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os
+da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição typica e
+interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer
+apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no
+domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.
+
+Dirá então se não parece que até o sol tem outra luz e que as arvores e
+as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os
+dias de festa.
+
+Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo
+Henrique de Souzellas, encostado á varanda do quarto em que pernoitára,
+e emquanto esperava que o chamassem para o almoço.
+
+De vez em quando a recordação das scenas nocturnas da vespera
+desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento; acudiam-lhe
+todos aquelles incidentes á memoria, mas vagos e confusos, como se
+tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles.
+
+Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber
+como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na
+presença d'ella.
+
+Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.
+
+D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o toque da campainha
+annunciando o almoço.
+
+--Vamos,--disse Henrique--preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos
+a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle
+regular o meu plano de tactica.
+
+E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do
+almoço.
+
+Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha
+presidindo á mesa e preparando o chá.
+
+Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que
+elle tinha passado a noite.
+
+Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando,
+desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural,
+sem timidez nem audacia.
+
+Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de
+cumprimentar Magdalena.
+
+--Bons dias, prima Magdalena,--disse Henrique, estendendo a mão e
+fixando-a com olhar investigador.
+
+Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de
+affectado nem de constrangido:
+
+--Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos
+habitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha.
+Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã.
+
+--Eu é que não consentia:--disse o conselheiro--na aldeia como na
+aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são mais tardias.
+
+--Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o
+toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu
+quarto.
+
+--Eu não pude dormir toda a santa noite--disse D. Dorothéa.--Estranhei a
+cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...
+
+--Ó prima, não vá sem resposta--disse D. Victoria--que tambem eu não puz
+olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber
+quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram
+que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo
+Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
+
+--Não, minha senhora; eu não senti rumor.
+
+E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que
+justamente n'aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de
+novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença.
+
+Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco á sua vaidade
+este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em
+Magdalena.
+
+No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorothéa o facto
+das passadas que ouvira de noite.
+
+--Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o que vae. São coisas
+d'estes criados. Não faz ideia! É uma pouca vergonha! É preciso
+paciencia de santa para os aturar.
+
+--Angelo,--disse a morgadinha ao irmão--entretido como estás a conversar
+com as creanças, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece
+de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão!
+
+Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e
+caida em uma d'aquellas abstracções, a que ultimamente era sujeita.
+
+--Eu não sei que tem hoje esta Christe--disse Angelo.--Julgo que lhe fez
+mal o frio na noite de hontem.
+
+--É verdade, até está falta de côr! Ora queira Deus que não seja coisa
+de cuidado. Dóe-te alguma coisa, menina?--perguntou D. Victoria,
+apprehensiva.
+
+--Não, mamã--respondeu Christina.
+
+--Ó meninas, vocês tambem são umas desacauteladas. Eu bem te dizia
+hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não
+tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.
+
+Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido.
+Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era
+objecto d'ellas.
+
+Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta côr e
+d'esta expressão recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava
+mais graciosa.
+
+Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creança, em que mal
+fixára a attenção até alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a
+com alguma insistencia.
+
+--É interessante esta pequenita--pensava elle comsigo.
+
+Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorothéa, quando
+encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal
+pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos
+baixaram-se de novo.
+
+--Ha de ser adoravel esta mulher--pensou d'esta vez Henrique, vendo-a
+sob novo aspecto.
+
+O conselheiro disse, sorrindo:
+
+--Ora, que estão a dizer? A Christe até está com umas côres muito
+bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados.
+Provavelmente está agora n'algum episodio sentimental no romance da sua
+imaginação. Não sondemos aquelles mysterios, mana. Já não é para nós
+comprehendel-os, prima Dorothéa.
+
+Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina.
+
+A morgadinha, a quem não passára despercebida a impressão, que a prima
+d'está vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que
+havia tanto procurava, e para isso propoz que se désse uma volta pela
+aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenções de
+Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se não decorresse o
+tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a
+impressão que o dominava.
+
+A manhã convidava á excursão campestre. A proposta da morgadinha foi
+acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa
+do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã.
+
+Levantaram-se todos da mesa, e á excepção de D. Victoria e D. Dorothéa,
+todos saíram.
+
+A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz
+para dar tempo a Henrique de offerecer o braço a Christina, o que
+effectivamente aconteceu.
+
+--Bem,--disse Magdalena comsigo ao vêl-os--agora que os anjos bons de um
+e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.
+
+E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no braço.
+
+Angelo ia com as creanças adeante.
+
+Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, para vêr se os anjos
+bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena.
+
+--Não ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos,
+n'uma manhã como a de hoje, e em companhia tão amavel--dizia Henrique,
+procurando aquilatar o espirito da sua _partner_, n'um certame de
+galanteria, fóra do qual não concebia que se pudesse temperar uma
+paixão.
+
+Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava
+porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os
+labios, não lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder:
+
+--Está muito agradavel a manhã, está; nem parece de inverno!
+
+--Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural em uma senhora isso.
+Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque
+prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as leituras em
+commum, e traz-me á ideia as imagens de um viver a que a phantasia de
+todos sorri; de todos os que teem um resto de coração; refiro-me ás
+imagens de uma familia.
+
+Não ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma
+revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra não
+sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expansões. Na
+apparencia é fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforços
+realisados, que os fortes nem concebem sequer.
+
+Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios só
+puderam responder:
+
+--Na cidade o inverno é mais facil de passar, julgo eu; porém na
+aldeia...
+
+--Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino.
+Não é fóra das portas de casa que devemos procurar os elementos para
+instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar
+admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e
+sete annos sem familia. Não é verdade?
+
+Christina só pôde sorrir:
+
+--Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do
+ideal e abraçado á peor das realidades. É a consequencia legitima e
+triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres
+formosas, amaveis, interessantes; porém nenhuma que satisfizesse ás
+necessidades do meu coração, de quem me affirmasse a consciencia poder
+esperar a realisação do meu sonho. Perdôe-me falar-lhe n'isto, priminha;
+é uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no
+coração bastante bondade para m'a perdoar.
+
+--Está a gracejar?--disse Christina, em quem redobrava a turbação, e
+que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a
+sua felicidade: contradicções proprias dos timidos.
+
+--A prima é muito moça--continuou Henrique, que não desesperava ainda de
+animar esta Galatheia--e talvez por isso lhe causará estranheza este meu
+modo de falar. Um dia virá, porém, em que o comprehenderá melhor. Se
+então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha
+misericordia d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem a
+conheceu n'uma época, em que só podia vêr em si, priminha, a aurora de
+uma esperança que já não tinha de luzir para elle.
+
+--Mas... salval-o!... como salval-o!...
+
+--Como as mulheres salvam; amando.
+
+--Bem digo eu que está a gracejar--balbuciou Christina, com voz trémula.
+
+--Tem o defeito da innocencia--disse Henrique para si.--Não se lhe tira
+uma resposta de geito.
+
+N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha saído da
+quinta na noite passada.
+
+--Agora deixo-os por aqui--disse o conselheiro--irei encontral-os á
+igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil.
+
+--Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei--disse Magdalena.
+
+--Socega, filha; serei de cera. Até logo.
+
+--Até logo.
+
+E o conselheiro tomou a direcção da casa do herbanario.
+
+--Era tempo!--disse Henrique comsigo.--A minha eloquencia arrefecia na
+proximidade d'este gêlo.
+
+A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de
+Christina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.
+
+--Ainda não!--murmurou ella.--Pobre Christe! como se deve estar odiando
+a si mesma! Como ha de esta creança vencer este obstinado? Mas não perco
+ainda as esperanças.
+
+Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e
+tentou outra vez experimentar Magdalena.
+
+--Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima?
+
+--É--respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:--O
+que te faz lembrar esta porta, Angelo?--perguntou ella.
+
+--Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas já de noite, e sem a
+tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das
+borboletas.
+
+--Fica perto a casa d'elle?--perguntou Henrique.
+
+--É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina--respondeu Angelo.
+
+Henrique pensava:
+
+--Seria para provocar uma explicação que ella fez a pergunta? Esta
+mulher é admiravel! Não lhe sei resistir.
+
+E já lhe não restavam vestigios da impressão causada por Christina.
+
+--Este herbanario--continuou elle em voz alta--deve, pelos seus habitos
+excentricos e até pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra
+certa famazinha de feiticeiro.
+
+--E tem,--affirmou Magdalena--mas de feiticeiro bem intencionado.
+
+--Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver.
+
+--É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o
+bem que elle faz de dia.
+
+--Ah! Então temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que
+lhe valerá é algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que
+diz, prima Magdalena? haverá?
+
+Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse:
+
+--Á excepção de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais
+o visita.
+
+--Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?!
+
+Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
+
+--Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não
+chegava o seu animo não, prima?
+
+--Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido só, e a altas
+horas--respondeu Magdalena com a maior firmeza.
+
+--Sim?! E não tem mêdo?
+
+--De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De
+malfeitores? não os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com
+uma suspeita me offendem--disse a morgadinha, accentuando com expressão
+as ultimas palavras.
+
+Henrique acudiu immediatamente:
+
+--Longe de mim duvidal-o.
+
+E calaram-se por muito tempo.
+
+Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do
+herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanças de aspecto
+doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos
+seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanças de aspecto
+rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio
+humano.
+
+--São os peregrinos que veem de Meca--disse comsigo o conselheiro.--Pelo
+que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como
+d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito
+respeito o codigo.
+
+Entrou emfim a porta do quintal.
+
+Poucos passos andados encontrou-se com o Zé P'reira, que vinha virando e
+revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume:
+
+--Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta
+mexerofada! Isso até era um peccado. N'essa não caio eu!
+
+O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel.
+
+O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe
+dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho,
+causa dos seus males. A receita era extrahida da _Polyantheia_, e tinha
+por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabellos de homem e
+figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a
+efficacia.
+
+Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de
+limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal.
+Cêdo chegou á vista do herbanario, que dera audiencia _sub tegmine
+fagi_.
+
+Estava sentado á borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava
+sombra.
+
+O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle.
+
+Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer
+quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.
+
+--Bons dias, Vicente--disse o conselheiro com familiariedade e parando
+defronte d'elle.
+
+--Bons dias, Manoel--respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado.
+
+--Saía agora d'aqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua
+medicina. Padece de mal que se não cura.
+
+--Os vicios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo,
+são.
+
+--Já que tu não appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar
+comnosco as festas do Natal, vim eu vêr-te.
+
+--Obrigado.
+
+--A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente--continuou o conselheiro,
+sentando-se á beira do tanque.--Cada vez te estás a sequestrar mais dos
+homens, cada vez mais os aborreces.
+
+--Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a
+vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus
+semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo
+pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por
+isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
+
+--És um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que
+cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse banco,
+com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão?
+
+--No passado. Pois não t'o disse já? O domingo reservo-o eu para me
+recordar. Ahi está que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os
+repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu
+pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje.
+Lembras-te d'elle, Manoel?
+
+--Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.
+
+--Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cêdo do
+que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou
+menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós
+ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo
+traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço,
+uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os
+dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos
+transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns
+segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz
+os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces
+a arvore hoje?
+
+--Não--disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum
+pequeno arbusto.
+
+--Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É esta a que me
+encosto.
+
+O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore,
+como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas
+mãos.
+
+--É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa--disse
+elle, distrahidamente.
+
+--Depois da nossa tarefa, sentámo-nos--proseguiu o herbanario.--Tu
+ficaste, exactamente como estás agora, á beira d'este tanque. Então,
+lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda
+não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará mais
+do que nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O machado vem, quando menos se
+espera.»
+
+--Como te lembras bem d'essas coisas!--disse o conselheiro, sorrindo
+constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a
+entrevista.
+
+--Ai, eu tenho boa memoria!
+
+Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente,
+dizendo:
+
+--Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
+
+O conselheiro respondeu com resolução:
+
+--Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.
+
+--Sim? E commigo é que vens tratar os objectos graves?
+
+--Por que não? sempre foste homem de bom conselho.
+
+--Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim.
+
+--Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos
+genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a
+pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem
+divergencias naturaes, que comtudo nos não obrigam a deixar de nos
+estimarmos, julgo eu.
+
+--Bem, então dizias tu que vinhas?...
+
+--Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente.
+
+--Dize.
+
+--Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios?
+
+--Pouco tenho que sacrificar.
+
+--Tens, e é um sacrificio doloroso.
+
+--Acaba.
+
+--Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por
+aqui a estrada em projecto.
+
+O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza
+estas palavras, e respondeu, com certa ironia:
+
+--E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para
+eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu,
+a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel,
+em teres ainda em conta a vida de um homem inutil.
+
+--Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...
+
+--Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte
+n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre
+mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os
+interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro
+partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas
+coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não déste a isso o nome
+de ingratidão.
+
+--Ouve.
+
+--Sê franco, que eu te ouvirei.
+
+--Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta
+estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra
+e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por
+causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situação politica me
+ser contraria. Tres traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande
+parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está
+no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella não
+teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os
+seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos,
+vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo,
+convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias
+que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito?
+
+--Fizeste bem--respondeu o herbanario.
+
+--O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este
+homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir
+a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabeça
+que, entregue a si, não faz coisa de geito. O homem oppunha-se
+formalmente a esse traçado; se o não attendesse, declarava-se, por
+despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para
+luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar
+áquellas mãos os seus destinos; vencido, era perder a esperança de tirar
+dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do
+que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos
+altares. Eu ando a catequisar o homem, para vêr se consigo d'elle uma
+casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um
+estabecimento sericicola; se o desattendesse, lá iam as esperanças
+d'estes melhoramentos tão uteis, e que o mais que nos poderão custar é
+um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te não agradam estes
+meios, porém olha que em politica são dos mais innocentes que podem
+empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o
+circulo, por cujo interesse me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois
+o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem
+scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia
+para o teu coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo
+memorias ligadas a estas arvores, e não ha homem que, aos cincoenta
+annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos
+de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma
+generosa e heroica, e que não duvidarias comprar, á custa das tuas dores
+e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta
+estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de má vontade,
+corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os
+trabalhos; a menor opposição dos proprietarios, o menor embargo
+dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido.
+Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me?
+
+O herbanario estava cada vez mais pensativo.
+
+--Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais importancia a
+dois annos de vida que me restam, do que á vida nova que vae haver para
+esta terra. Fizeste bem.
+
+--Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as
+apprehensões com que estás; em toda a parte terás arvores...
+
+O herbanario interrompeu-o:
+
+--Se não entendes o amor que eu tenho a estas, não faças por
+consolar-me, Manoel, porque me affliges mais.
+
+--Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das
+nossas propriedades, tens sempre um logar vago á tua espera, tanto á
+mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.
+
+--Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria
+tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.
+
+--Eu farei com que o contracto da expropriação seja o mais favoravel
+possivel. Vejamos, em quanto avalias...
+
+--Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o
+pagaria; a não attender a isso, tudo será pagal-o bem.
+
+--Mas...
+
+--Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouçam
+propôr o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te,
+então...
+
+--Tudo. Dize em que te posso servir.
+
+--Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que
+te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte
+annos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da
+gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais
+uma justiça: lembra-te d'isso.
+
+--Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa facilima; mais
+que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por
+modesto. Acredita, ás vezes é mais facil servir os ambiciosos. Nem eu
+sei o que tem empatado esse negocio. É certo que ha um competidor, por
+quem alguem trabalha; mas não importa; conta com isso, como negocio
+concluido.
+
+--Emquanto não vir...
+
+--Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes? Vê lá.
+
+--E que me deixes agora só.
+
+--E não me ficas querendo mal, Vicente?
+
+--Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que suppões
+que a tens. Basta-me isso para te perdoar.
+
+--Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a
+Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.
+
+--Não prometto.
+
+--Adeus.
+
+O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que não retirou a sua, e
+partiu.
+
+--Está feito!--ia pensando o conselheiro á saída--não foi tão difficil
+como julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o vê! O que faz a
+idade! Bem! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a vêr
+se acalmam algum fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que
+pequeno será.
+
+N'estas cogitações chegou á igreja. Magdalena esperava-o no adro.
+
+--Então?--perguntou ella, com anciedade.
+
+--Tudo está remediado; entendemo-nos perfeitamente--respondeu o
+conselheiro, com manifesta satisfação.
+
+--Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!--exclamou Magdalena, com
+alegria.
+
+--Como ceder?--tornou o pae.--Elle é que foi mais condescendente do que
+eu esperava. Não oppôz a menor resistencia, nem se queixou muito
+amargamente.
+
+--Pois consentiu?!
+
+--Sem grande custo, ao que parecia.
+
+--Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo devéras. Pobre tio Vicente!
+assusta-me isso que diz, meu pae!
+
+--Ora vamos; a tua imaginação é que te illude. Mas deixa-me aqui falar
+com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me
+dizer. Vae para a igreja, que eu vou já ter comvosco.
+
+E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que
+estavam aquellas duas notabilidades.
+
+--Dou-lhes uma boa nova, meus senhores--disse o conselheiro, depois de
+cumprimental-os--dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na
+terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do
+homem, que nos obrigassem a expropriações judiciaes, sempre demoradas.
+Mas não, achei-o nas melhores disposições; e assim, dentro em poucos
+dias...
+
+--Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios não
+sejam tão doceis--lembrou o brazileiro.
+
+--Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores com pouco
+se contentam.
+
+--Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco--disse o
+brazileiro, sorrindo velhacamente--mas os modernos...
+
+--Pois mudaram de senhorio?
+
+--Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.
+
+--E quem os comprou?
+
+--Este seu criado.
+
+O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, dizendo:
+
+--Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e
+independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos
+publicos, do que...
+
+--Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os
+melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.
+
+--De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma empreza como esta.
+
+--Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios á parte.
+
+O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o
+espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.
+
+--Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?--requereu do lado o sr.
+Joãozinho das Perdizes.
+
+--Mil que pretenda--acudiu o conselheiro; e tomando o braço do morgado
+afastou-se do grupo.
+
+--Eu tenho a pedir-lhe um favor--principiou o morgado.-- Eu, como sabe,
+interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir
+ensinar para aqui. Este negocio está empatado, como sabe; por isso
+queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.
+
+--Pois sim, mas...--fez-lhe notar o conselheiro--não sabe que é Augusto
+o outro concorrente?
+
+--Então que tem isso?
+
+--Não lhe parece que seria uma injustiça? Um rapaz de merecimento, como
+elle é, aqui da terra, que já exerce o emprego ha tres annos e com tanta
+intelligencia? e haviamos de...
+
+--É verdade,--atalhou o outro--pois isso é verdade, mas... Emfim, elle
+que passe para outra parte.
+
+--Mas se o rapaz quer isto?
+
+--Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr.
+conselheiro, a gente tambem não ha de estar só a fazer favores, sem os
+receber quando os pede. Com este já são tres. Pedi-lhe para o meu tio
+abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias lá
+para a freguezia... estou á espera d'ellas... Ora isto não se faz. O
+senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha
+freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A
+não se decidir este negocio depressa...
+
+--Ora não será isso motivo para tanto.
+
+--Com certeza que é--insistiu o sr. Joãozinho.--Então digo-lhe mais: a
+mim já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria dos votos de que eu
+disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que
+não é peor.
+
+O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:
+
+--Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por
+qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que
+me diz, eu verei.
+
+--Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás eleições
+não estiver feito o despacho, não conte commigo.
+
+--Mas quem lhe diz que não ha de estar?
+
+--Pois lá isso...
+
+--Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.
+
+--Bem.
+
+O sino tocava a chamar para a festa.
+
+Terminou o dialogo.
+
+--O peor--ia pensando o conselheiro--o peor é que prometti ao Vicente
+que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a
+posta, que não vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma
+coisa melhor. É preciso ter ambição por elle. Se elle quizesse ir para
+Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo
+contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o que sabe.
+
+Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o
+pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de impaciencia,
+assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, á fôrça de
+cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção.
+
+Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o
+latinista com tanto ardor namorava.
+
+O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor
+que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:
+
+--Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não farta de chupar.
+Contente-se com o que tem; vá conjugando o _laudo, laudas_, que outros,
+com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me.
+
+O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se
+para deixar passar o conselheiro.
+
+Mas lá comsigo dizia:
+
+--Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te não pica.
+
+E entrou tambem para a igreja, com não muito christãs disposições de
+espirito.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em
+visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral,
+visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com
+gôsto, n'estas excursões politicas.
+
+Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de Pinchões,
+passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e
+desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se trilhava a cauda
+a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o
+proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dóses de carne
+de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar.
+
+No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do
+chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos
+leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram
+desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor
+que escutavam fóra.
+
+Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o
+obrigava a esta noitada.
+
+Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua
+propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em
+affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli.
+
+As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana,
+por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de
+fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia,
+fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com
+assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram
+as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar;
+lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados,
+diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo
+encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de
+Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de
+ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno
+brazileiro.
+
+Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.
+
+Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das
+festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia
+occorresse coisa que mereça nota.
+
+Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem
+outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas
+palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então.
+Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural esta ausencia,
+contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a
+ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de
+quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os
+dissipava com uma palavra.
+
+Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do
+Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
+
+Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para
+assistir á solemnidade popular.
+
+Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia ser coisa
+memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o
+sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a
+ensaial-o, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da
+Fama, que lhe competia desempenhar.
+
+Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os
+restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira
+deixou ficar pelo chão.
+
+Não obstante as extravagancias e as modelações toscas e risiveis de
+muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado
+mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada musa das
+cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularissimas redondilhas, tão
+apreciadas ainda na Hespanha.
+
+Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pateo de quinta
+um tablado; veem adornal-o as mais vistosas colchas de chita, das quaes
+tambem se formam os bastidores; alugam-se nos depositos mais modestos da
+cidade ou villa proxima vestidos de reis, de principes e de guerreiros,
+em que se combinam os elementos de épocas e de nacionalidades
+disparatadas, e perante uma plateia rustica, ao ar livre, como no
+theatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentaes
+peripecias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os
+episodios comicos do algum enredo popular.
+
+A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do
+Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do circulo, em
+parte por conveniencia dos emprezarios, pela apropriação do terreno a
+todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes casos
+recebiam de s. ex.^a, essa circumstancia, dizemos, augmentava o numero
+de espectadores.
+
+Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do
+espectaculo popular.
+
+O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem
+pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava pôr á
+disposição dos seus representados.
+
+Desde a vespera havia grande agitação e azafama no pateo do Mosteiro. Os
+artifices levantavam o tablado scenico; pregavam e despregavam taboas;
+serravam barrotes; os directores, e á frente d'elles o infatigavel e
+imaginoso Pertunhas, davam ordens contradictorias; e os curiosos
+estacionavam em magotes, difficultando tudo, censurando o que viam
+fazer, e aventando alvitres absurdos.
+
+Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora dos
+seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida e de
+enthusiasmo.
+
+Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir a
+espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia chorar
+as creanças e estremecer as mães; ia resuscitar Herodes, o déspota
+legendario.
+
+Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e
+insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos
+scenicos futuros.
+
+Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com
+a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a
+ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a d'elle.
+
+E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do recoveiro; alli
+havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico,
+deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha
+abafado mineral de lei.
+
+Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam porventura
+arrebatar plateias inteiras com as revelações do genio, que ás vezes
+n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda assim
+inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da
+arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no
+calor do desempenho; não mentia aquella embriaguez que lhe causavam os
+applausos da multidão. Não ha verdadeiro genio artistico, que se não
+namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O
+homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será poeta nem
+artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da gloria adeantou a meio
+caminho os emprehendedores d'esta nova conquista de vellocino.
+
+Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista novel, á lembrança do
+espectaculo, em que pela primeira vez ia entrar.
+
+As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido
+encarregar-se da _toilette_ da Fama.
+
+Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das
+mãos de Magdalena para as de Christina e das d'esta para as d'aquella, e
+sempre com recato preciso para que ninguem mais lhe puzesse os olhos,
+pois que pretendiam reservar para a occasião a surpreza toda. Contra a
+curiosidade de Angelo é que mais tiveram que luctar.
+
+Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo de
+espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto
+por as colchas de chita aos olhares da multidão.
+
+Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica,
+dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de
+batuta.
+
+Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a
+flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das torturas.
+
+Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos,
+deu o signal de principiar.
+
+Um, dois, tres; um, dois--dizia ou fazia elle com os olhos e com os
+movimentos da cabeça e pés, porque a bôca, essa já estava applicada á
+embocadura da trompa. O segundo «tres» era o tempo fatal. Os musicos,
+porém, ou por distrahidos, ou por a commoção propria dos actos solemnes,
+não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do
+mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a
+esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os
+ouvidos quasi em sangue.
+
+Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando
+as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota
+chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atraz d'ella, cada uma
+por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito.
+
+O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e
+o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a
+vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da
+banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão.
+
+Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade!
+
+Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia.
+
+Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que fôram
+de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de um Cham ou
+Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaçava estalar todas
+as costuras da farda, primitivamente feita para um individuo de metade
+das dimensões d'elle, com as faces insufladas, a testa contrahida e os
+olhos injectados para extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava
+com arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um flautim,
+de braços compridos e tibias esquinadas, com meio braço fóra das mangas,
+com meia perna de fóra das calças, figura em que havia não sei o que de
+onomatopaico, tão bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos,
+que arrancava do exiguo instrumento. O artista pratilheiro era um velho
+recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em
+tufos no meio das faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava
+os pulmões dentro de um figle; um corcovado e semi-anão repicava os
+ferrinhos com uma prodigalidade assustadora; as baquetas da caixa
+estavam confiadas ás mãos callosas de um moço de lavoura, de rêpas
+hirsutas a cobrir-lhe a testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E,
+no meio d'estas e analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas,
+torcendo-se, batendo com o pé, suando, arregalando os olhos,
+piscando-os, marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa,
+que lhe dava então não sei que apparencias de proboscidiano.
+
+Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a
+familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram de
+dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista que
+se conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforços fez para soffrer
+com paciencia aquellas torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de
+S. Carlos perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso
+aquella banda pandemonica!
+
+--Coragem! coragem!--murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como
+perfeito politico.--Nas occasiões é que os homens se conhecem! Coragem.
+
+--É em extremo forte a provação!--respondia-lhe, gemendo, Henrique.
+
+--Firmeza; que a pallidez do susto nos não atraiçoe--continuava aquelle.
+
+Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a seriedade.
+
+A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido
+tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o
+estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares de tantos
+espectadores fixavam-se na coberta de chita que já se via ondular.
+Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, como se fôra a
+resultante do palpitar de tantos corações.
+
+Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes.
+
+A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros
+largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas
+negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as
+juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho
+selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na multidão um quasi
+pavor, que nem o conhecimento intimo que tinha do homem conseguia
+dissipar.
+
+Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos,
+corpete de velludilho azul, calções golpeados. Pendia-lhe á cinta um
+alfange e uma pistola; ao peito algumas condecorações.
+
+Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões.
+
+O auto rompe com um monologo de Herodes.
+
+O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz considerações
+substanciosas sobre a condição dos reis em geral e a sua em particular.
+Principia elle assim:
+
+
+ Não ha vida mais inquieta,
+ Nem mais cheia de cuidados,
+ Do que a de um rei que pretende
+ Conservar os seus estados.
+
+
+O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços cruzados, medindo o
+palco a passos largos.
+
+Continuavam varias proposições de physiologia do throno, e, do caso
+generico baixando ao particular, da these á hypothese, principia a falar
+de si. Cancella, conhecedor dos segredos da arte, começava aqui a dar
+mais vida á recitação, como para mostrar o maior empenho que tomava a
+alma n'este capitulo da especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda
+do Messias, e inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz
+traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de
+desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos
+paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a fôrça á sua voz potente,
+soltava berros, que participavam da natureza dos do tigre.
+
+
+ Começarei desde logo
+ A publicar leis tyrannas,
+ Que aterrem os meus montes,
+ Os palacios e as choupanas.
+
+ Será tal o meu furor,
+ Tal a minha indignação,
+ Que ninguem se atreverá
+ A conquistar meu brazão.
+
+
+O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam
+a fixar-se. A excitação de animos a que os transportes de Herodes,
+inquieto pelo seu brazão, levára o publico, foi serenada por um chorado
+côro de anjos que cantavam atraz da cortina:
+
+
+ Não temas, ó rei cruel,
+ Que te conquiste o docel.
+
+
+Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afiançarem
+a segurança do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla,
+entra-lhe o mêdo no coração, mêdo que procura afugentar com bravatas, em
+que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com
+abundancia de gestos e de movimentos.
+
+Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do Herodes. Para este
+final do monologo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se
+d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os
+espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade
+propria; suppunha-se Herodes; e até... ó fôrça da arte!
+offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava
+a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado
+por o artista, e n'um d'estes silencios que todos prevêem se
+desencadeiará em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas
+quadras finaes:
+
+
+ Porém o furor me incita!
+
+
+Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o alfange e
+abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.
+
+
+ O brio dá-me ousadia.
+
+
+Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda.
+
+
+ Para defender o sceptro
+ A favor da tyrannia!
+
+
+Aqui agitava os braços como azas de moinhos.
+
+
+ Será cada lança um raio!
+
+
+E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago.
+
+
+ Cada espada um corisco,
+
+
+E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile.
+
+
+ Cada soldado um trovão,
+
+
+E trovejava-lhe a voz.
+
+
+ Cada golpe um basilisco!
+
+
+E na posição e gesto em que ficava, não era menos terrivel e pavoroso do
+que a fera da comparação.
+
+Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as mulheres e
+as creanças ficaram silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um
+peccado applaudirem Herodes. E não sei se, o que fizera menos
+escrupulosa n'este ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das
+janellas do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no palco
+são admirados, mas raras vezes applaudidos.
+
+Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o
+auto.
+
+Dariamos de bom grado na integra tão importante peça dramatica ou pelo
+menos circumstanciada noticia d'ella, se não receiassemos o recheio
+excessivo para esta ordem de alimentos litterarios, que se querem leves.
+Não podemos comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente.
+
+Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro do dito--assim se lhe
+chama pelo menos no folheto, o que dá a entender que Herodes era homem
+de escripturacão regular,--o capitão das tropas reaes, os tres reis
+magos, o anjo, a Virgem, S. José e o menino Jesus, a criada de Santa
+Isabel, dois cidadãos de differentes cidades, o criado de um d'elles, a
+Fama e duas creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho.
+
+As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na lapa de
+Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto.
+
+A imaginação do espectador era a encarregada da mudança do scenario.
+
+O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas as cordas do
+coração.
+
+Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a sympathia
+pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres moços de lavoura,
+de manto, luvas de algodão e turbante, os quaes, em lamuria nasal e com
+profusão de _xes_, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das
+quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao Deus
+nascido a protecção para Portugal.
+
+Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como carpinteiro
+que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina, emquanto a Virgem
+dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a
+despontar o buço da puberdade. O anjo apparecia, como nas procissões,
+carregado de cordões de ouro.
+
+No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica
+simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, chega a
+elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocetão em
+trajes femininos, e da parte da ama offerece aos foragidos algum
+dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por não poder dar quanto queria,
+o que tudo a Senhora agradece com as phrases da tarifa, recommendando-se
+muito a sua prima.
+
+O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha
+personagens, reflexões e scenas sempre apreciadas e já aguardadas pelo
+publico, que as saúda com sinceras gargalhadas. D'estas a principal é
+evidentemente a que se passa entre um cidadão, de quem a sacra familia
+recebe gasalhado, e o criado do mesmo.
+
+É uma scena de disputa domestica, cheia de allusões satyricas á classe
+dos criados de servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois
+de mostrar ao criado, de relogio em punho--anachronismo shakspeareano--a
+demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o auditorio:
+
+
+ Não se pode ter criados
+ Hoje em dia, n'esta vida,
+ Ou quem houver de os ter
+ Não lhes deve dar guarida.
+
+
+N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso
+episodio.
+
+D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa
+de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, não pôde
+conter-se, que não exclamasse:
+
+--Aquillo é que é uma verdade!
+
+A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro, riso que
+teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo.
+
+A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir pelo caixeiro o
+rapé ao auditorio; outra liberdade que produzia sempre o maior effeito.
+
+O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia
+pitadas ao publico, dizendo:
+
+
+ O meu amo, com ser rico,
+ Gosta d'estas patuscadas.
+ Nunca os senhores tiveram
+ As pitadas tão baratas.
+
+
+Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo
+a regularidade do espectaculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam,
+riam e guinchavam, todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: «Dominus
+tecum» e «Deus te salve» no meio de toda aquella confusão. Porém a um
+signal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espirito
+das massas, tudo entrou na ordem.
+
+Preparava-se nova transição dramatica. O criado, que vae a saír, volta,
+dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio:
+
+
+ Jesus, Jesus, que é isto?
+ Jesus do meu coração!
+ O signal da cruz me livre
+ De tão terrivel visão.
+
+
+Era a Fama que apparecia.
+
+Ermelinda entrava em scena.
+
+No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que
+entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia tão
+completo contraste, que um murmurio significativo de profunda sensação
+correu o auditorio.
+
+Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao que
+era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, para
+lhe darem a apparencia superior.
+
+O proprio Henrique, que até alli estivera commentando maliciosamente o
+espectaculo, não pôde reter uma exclamação de surpreza, que foi
+secundada por o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo
+occupava agora a scena.
+
+A simplicidade do vestir concorria para esse effeito.
+
+Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe
+descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos
+contornos e esbeltas proporções d'aquella creança, que promettia ser uma
+mulher esculptural. Os cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara,
+caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando como fios de
+ouro, na alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das
+faces sobresaía n'aquella moldura natural. Com os braços descaídos, os
+dedos encruzados, e a cabeça ligeiramente pendida, em expressão de
+melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de
+Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem
+o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto
+da innocencia, tendo nos passos a hesitação da timidez. Havia tanto de
+sobrenatural no vulto candido, franzino e melancolicamente suave
+d'aquella creança, que o actor que estava em scena não teve de simular
+espanto, porque o sentia real, e não podia desviar os olhos d'aquella
+apparição.
+
+O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a fôrça de
+um encantamento.
+
+Como na antiga tragedia, o facto principal da acção, a carnificina dos
+innocentes, passava-se fóra de scena. Á Fama competia narral-o.
+
+Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor
+de commoção, principiou lentamente e no meio de um religioso silencio a
+recitar os versos da narração, os quaes, como o leitor já sabe, não eram
+os do auto, que mestre Pertunhas se estafára a ensaiar.
+
+Os versos que Ermelinda recitou diziam assim:
+
+
+ Desci dos celestes córos,
+ Por Deus mandada a escutar
+ Da infancia as queixas e os choros,
+ Para lh'os ir confiar.
+
+ Desci. Na terra, nos mares
+ Tanta miseria encontrei.
+ Que os meus magoados olhares
+ Da terra e mar desviei.
+
+ Desci. E tantos gemidos,
+ Tão dolorosos ouvi!
+ Que, turbados os sentidos,
+ Quiz recuar... mas desci.
+
+ N'esta colheita de dôres
+ Pelo mundo todo andei,
+ No pranto dos peccadores
+ As minhas vestes molhei.
+
+ Vagueando dias e dias,
+ Chegára á Judéa emfim,
+ Quando um clamor de agonias
+ Veio de longe até mim.
+
+ O sol, o sol inflammado
+ D'estas terras orientaes,
+ Tinha no disco afogueado
+ Não sei que estranhos signaes.
+
+ Soavam menos distantes
+ Sinistros brados de dôr,
+ Choros de mães e de infantes,
+ Cantos de morte e terror.
+
+ Vi anjos de azas nevadas
+ Em bandos subir ao céo,
+ Quaes pombas amedrontadas
+ Fugindo á voz de escarcéo.
+
+ «Onde ídes? Quem vos persegue?
+ A que tormentas fugis?»
+ Um, que triste o bando segue,
+ Estas palavras me diz:
+
+ «Somos as almas de infantes
+ Mortos em guerra feroz;
+ Inda das mães delirantes
+ Nos chama a sentida voz.
+
+ «Só a materna saudade
+ Nossa carreira detem,
+ Embora no céo, quem ha de
+ Esquecer, o amor de mãe?»
+
+ Disse e o semblante formoso
+ Com as azas encobriu,
+ E ao bando silencioso
+ Silencioso se uniu.
+
+ Eu segui. Na impia cidade
+ Aterrada penetrei...
+ Ai, da fera humanidade
+ Os meus olhos desviei!
+
+ Que scena! Corre nas praças
+ Sanguinaria multidão,
+ Como nuvem de desgraças
+ Semeando a desolação.
+
+ Cáem por terra sem vida
+ Tenras creanças ás mil,
+ E uma turba enfurecida
+ Corre á matança febril,
+
+ As mães pallidas, chorosas,
+ Supplicam, pedem em vão!
+ N'essas feras sanguinosas
+ Não palpita um coração.
+
+ Outras tentam em delirio,
+ Os seus filhos disputar,
+ E com elles no martyrio
+ Gostosas se vão juntar.
+
+ Sobre a terra ensanguentada
+ Eu soluçando, ajoelhei,
+ E de intensa dôr magoada,
+ A Deus piedade implorei.
+
+ Findava a prece, e uma estrella
+ No horisonte despontou,
+ Pura, scintillante, bella
+ O caminho me traçou.
+
+ Á humilde e escondida estancia
+ Da venturosa Belem
+ Cheguei; vi um Deus na infancia
+ Nos ternos braços da mãe.
+
+ Minha colheita de dôres
+ N'aquelle berço depuz,
+ Da humanidade aos rigores
+ Pedi remedio a Jesus.
+
+ No olhar do divino infante
+ Raiou a luz e fulgor,
+ Foi a aurora radiante
+ Que annuncia um redemptor.
+
+
+Não se descreve a impressão causada por estes versos, que assim
+transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infancia. Muitas
+causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto
+de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e
+depois aquellas palavras inesperadas, aquella exposição desconhecida e
+em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia
+augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da impressão d'aquella
+voz sonora e infantil, ninguem procurava explicar o mysterio. Milagre
+lhes parecia e quasi como milagre o acceitavam, e de ouvidos attentos,
+collos estendidos e bôcas semi-abertas parecia recolherem, uma a uma,
+aquellas palavras, como se de um verdadeiro emissario celeste as
+escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguem dera
+por isso. Os actores que estavam atraz da cortina tinham sido feridos
+pelos primeiros versos, differentes dos que elles esperavam; isto
+obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz
+e d'aquelle gesto, vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram
+circulo á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O
+espanto, os affectos, o orgulho de pae, a exaltação de artista
+combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expressão quasi de extase.
+Olhava para a filha como se a visse animada de inspiração divina.
+
+Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo
+trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bôca
+aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria,
+elle só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente
+aquella voz de creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos
+espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse
+alguma coisa de sobrehumana.
+
+Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que
+os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem
+de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi
+encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena,
+exprimiu n'um «bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal.
+
+O silencio degenerou na mais altisona ovação.
+
+O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a
+sustentar, a logica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo
+debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os
+outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braços
+para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a,
+os lenços das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes
+parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo
+e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entre beijos e afagos,
+transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos
+calorosa a recepção.
+
+Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre
+Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vêr as
+restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas.
+
+O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do
+Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não fôsse bastante
+pathetico para commover.
+
+--Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai
+que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os
+dizia!--exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena
+que vira.
+
+Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:
+
+--Foi Augusto que fez aquelles versos?
+
+Angelo sorriu.
+
+--Por que me perguntas isso a mim?
+
+--Porque o deves saber.
+
+--Então não crês no milagre?
+
+--Responde.
+
+Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o
+conselheiro:
+
+--Se eu digo a v. ex.^a que o Bernardim existe.
+
+--Mas quem é?--perguntou o conselheiro.
+
+--Não sei; porém posso afiançar a v. ex.^a que não são estes os
+primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos
+montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Magdalena, de umas
+quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude?
+
+--Sim; recordo-me.
+
+--Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a
+attribuil-as á mesma pessoa?
+
+--Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.
+
+--Mas talvez este lhe seja habitual.
+
+Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a
+accrescentar:
+
+--Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes de capellas e ruinas,
+e nos troncos das arvores.
+
+Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. Quando lhe perguntavam quem
+lhe ensinára os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não
+podia dizel-o.
+
+--Apostemos que n'isto entra Angelo?--disse o conselheiro.
+
+O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura inspiração.
+
+Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da morgadinha,
+disse-lhe ao ouvido:
+
+--Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta
+sem se mostrar.
+
+--Sim?
+
+--Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediações. Estas
+aves melancolicas amam as inspirações nocturnas.
+
+--Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora
+favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o.
+Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a
+verdade. Não ha quem se tema d'ella.
+
+E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.
+
+--D'esta vez foi de uma severidade!!--pensou Henrique.--Cada vez me
+convenço mais de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas
+agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? Não foi
+má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que
+o caso não vale a pena.
+
+O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d'esta vez mais
+intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava
+ainda, pois disse a Christina:
+
+--Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.
+
+--Que dizes?!
+
+--Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.
+
+Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no
+pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram
+dispersando pouco a pouco.
+
+A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as
+serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem
+era devido o cantar os Reis.
+
+Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao
+pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.
+
+Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á
+fronte e ao coração do pobre rapaz.
+
+Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; na manhã seguinte
+devia partir com o pae para Lisboa.
+
+Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades não se
+amontoam no coração das creanças ao expirar o termo d'esse feliz espaço
+de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos
+despreoccupados!
+
+Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que á menor
+palavra rebentam.
+
+Quem não terá recordações de infancia a falar-lhe d'isto?
+
+O pateo despovoára-se de gente; através das vidraças da casa viam-se já
+brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça
+inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e
+mulheres, sem que elle désse por isso.
+
+De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos.
+Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a pôr em ordem
+as roupas e mais objectos que serviram no auto.
+
+--Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus--disse Angelo.
+
+--Então vae-se embora?
+
+--Vou ámanhã--respondeu Angelo, com a voz presa de commoção.
+
+--Muito cêdo?
+
+--De madrugada.
+
+Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.
+
+--E agora quando volta?
+
+--Eu sei lá? agora... só para agosto.
+
+Novo silencio.
+
+--Então... adeus...
+
+--Adeus, Ermelinda.
+
+E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo
+estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como irmã, e que
+chorava ainda mais do que elle.
+
+Que melancolico fim de dia tão alegre!
+
+A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.
+
+--Ermelinda--disse logo a voz esganiçada e colerica, que saiu d'aquelle
+vulto.
+
+Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.
+
+Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas devoções e ficára
+surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadiça castidade
+d'aquella matrona toda se alvoroçou com a tocante despedida das duas
+creanças.
+
+Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou
+pelo braço e a levou comsigo.
+
+Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella harpia a
+innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.
+
+A sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista ia dizendo, ao levar
+comsigo a afilhada:
+
+--Que terão ainda de vêr meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo
+este de abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem das Dores, isto é para se
+vêr e não se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer,
+e já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus crucificado!...
+
+--Minha madrinha--dizia Ermelinda, chorando.
+
+--Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e riem de
+contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por
+entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da igreja, que é a
+casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados são
+estes!... Ai, filha, que muita penitencia te é já precisa para salvares
+a alma!
+
+--Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga
+isso--exclamava Ermelinda, aterrada.
+
+--Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, assanhados como
+cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de
+Satanaz, onde não ha religião nem temor de Deus... Ó meu divino Jesus, e
+para isto tanto padeceste por nós! E nós tão pouco caso fazemos dos
+vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois
+queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do
+inferno...!
+
+A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.
+
+A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamações, bramando
+contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes,
+contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso,
+desenvolvia sobre o thema do peccado dissertações não em demasia
+apropriadas aos ouvidos de uma creança.
+
+O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das
+palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma horrivel
+convicção de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a
+pobre creança bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que já tinha
+remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente.
+
+Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os
+triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraçal-a,
+Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde saber que explicasse os
+vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o
+pranto; desistiu pois.
+
+Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de
+levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.
+
+Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na fronte
+desmaiada, abençoou-a e saiu.
+
+--Comadre,--disse ao passar por casa do Zé P'reira--ahi lhe deixo a
+pequena. Olhe-me por ella, que não está lá muito boa.
+
+--Vá com Deus--disse uma voz de dentro.
+
+Era a sr.^a Catharina.
+
+O recoveiro partiu, silencioso e triste.
+
+
+
+
+XIX
+
+
+No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
+determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
+muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das
+eleições geraes que estavam proximas.
+
+Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
+padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava
+Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia
+e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de
+coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção.
+
+Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
+posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
+cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de
+Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume
+patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a
+memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias
+e frequentes inexactidões em que a via cair.
+
+Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não
+ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava,
+achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.
+
+Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto
+dos Reis.
+
+--Eu ainda estou para saber como aquillo foi!--dizia D.
+Dorothéa.--Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!
+
+--Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito--disse
+Maria de Jesus, com ar de mysterio.
+
+--Olhem o milagre!--respondeu D. Dorothéa.--Por essa estou eu.
+
+--Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
+mesma.
+
+--Então é mais do que certo.
+
+--Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!--disse Henrique,
+rindo.--Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?
+
+--Pois, menino, aquillo a falar a verdade!
+
+--E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?
+
+--Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que
+aquelles não calhavam bem nas lôas?
+
+--O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e
+até suspeito com que fim.
+
+--Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do
+Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem
+um livro. A senhora não se lembra?
+
+--Ora se lembra!
+
+--Digam-me--insistiu Henrique.--Quem ha aqui na aldeia que faça versos?
+
+--Versos!--repetiu a D. Dorothéa, admirada.--Ninguem, que eu saiba.
+
+--Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos
+desafios?
+
+--Sem ser o João do Trolha--tornou Henrique, sorrindo.
+
+--Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no
+outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que
+elle botou?
+
+
+ Viva a senhora D. Dorothéa,
+ Raminho de bem-me-queres,
+ Quando põe a sua touca
+ É a rainha das mulheres.
+
+
+--E depois a mim:
+
+
+ Viva a senhora Maria,
+ A perola das criadas,
+ Quando se chega á janella
+ Ficam as estrellas pasmadas.
+
+
+--Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer
+do que pasmarem--disse D. Dorothéa.
+
+--Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que
+diz...
+
+--E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?--perguntou
+Henrique.
+
+--Que eu saiba...--disseram as duas.
+
+--E aquelle Augusto?
+
+--O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
+Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.
+
+--Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos?
+
+--Tolos não digo, mas...
+
+--Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?
+
+--Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um
+homem de respeito, faz versos?
+
+--Por que não?
+
+--Versos?!
+
+--Versos, sim, senhora.
+
+D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade.
+
+Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da
+entrada e após algumas pancadas á porta da sala.
+
+--Abra, tia Dorothéa--disseram de fóra as vozes de Magdalena e de
+Christina, que fôram logo reconhecidas.
+
+E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria,
+que vinha mais retardada.
+
+D. Dorothéa levantou-se para recebel-as.
+
+--Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já
+jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que
+não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do
+missionario--disse a morgadinha.
+
+--Eu não; para apertos e barafundas é que não estou.
+
+--E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.
+
+--Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer?
+Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.
+
+--Dizem que préga tão bem--atalhou Christina.
+
+--Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões--ponderou D.
+Victoria.
+
+--Vou eu tambem ouvir o missionario--disse Henrique, levantando-se.--Já
+m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á
+figura...
+
+--Então?--interrogou D. Dorothéa.
+
+--É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da
+grossura do pulso.
+
+--Pois bom é que vás, menino--disse D. Dorothéa--para acompanhares as
+pequenas.
+
+--Como quizer, primo,--acudiu Magdalena--mas não se constranja. O
+Torquato tambem vae.
+
+--Que quer dizer? Que me dispensa?
+
+--Não; mas que se é só por condescendencia que...
+
+--É por prazer. É por devoção.
+
+--N'esse caso...
+
+E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á
+igreja.
+
+O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua
+invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da
+igreja, nada faltára para solemnisar a festa.
+
+O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido
+concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas
+catechéses.
+
+A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e
+Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita
+gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial.
+
+Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de
+sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as
+aguas impetuosas.
+
+A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
+missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.
+
+As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
+popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por
+deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a
+capella-mór.
+
+Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião.
+Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a
+extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres
+de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á
+cabeça.
+
+Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
+dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.
+
+Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
+orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se
+escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao
+entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de
+pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com
+Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no
+chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a
+Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos
+deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de
+promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns
+pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes
+nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos
+rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a
+circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá
+regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e
+inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé
+porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a
+consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa.
+
+Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e
+exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina,
+ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo
+cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se
+não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes
+cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção,
+satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles
+gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo,
+tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os
+ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel.
+
+De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as
+luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta
+arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.
+
+Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.
+
+Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
+sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja
+influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por
+aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios
+improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião,
+de que se dizem ministros.
+
+Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não
+pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que
+os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico.
+
+A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os
+differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos
+os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem
+de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia,
+na rua, se prolongava a multidão.
+
+Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
+hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta
+por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.
+
+Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto.
+
+Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois
+causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi
+a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão,
+reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do
+Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto
+enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
+labios, que tanta graça lhe davam!
+
+E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim
+ficar tanto tempo aos pés do confessor?
+
+Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e,
+como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres
+ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo
+rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes.
+
+Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas
+teria a expiar aquella inconsolavel dor?
+
+O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas,
+que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e
+fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das
+sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.
+
+Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou
+aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.
+
+Era o missionario.
+
+A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
+triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as
+borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com
+profusão.
+
+Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
+do chão um estorvo.
+
+Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e
+realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para
+abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua.
+
+Dizia o homem:
+
+--Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu
+quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A
+religião manda... Quando um homem se casa...
+
+O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com
+modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de
+cólera:
+
+--Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter
+commigo?!
+
+E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que
+rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para
+afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se
+a dizer mansamente:
+
+--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode
+dizer o que sente?
+
+Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:
+
+--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!
+
+Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
+este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:
+
+--Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe
+do que de pastor?
+
+O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
+vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico.
+Henrique arrostou-o com audacia provocadora.
+
+O padre entrou para a sacristia.
+
+No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais
+commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.
+
+No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
+pouco attrahente do famigerado educador dos povos.
+
+Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
+Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
+firmeza.
+
+Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia
+talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um
+sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:
+
+Emfim soltou o texto latino do sermão.
+
+Seguiu-se nova pausa, e principiou.
+
+Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas
+humoristicas da _Vida e opiniões de Tristam Shandy_, um sermão sobre a
+consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia
+sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.
+
+Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a
+extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador
+acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta
+prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da
+vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e
+prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja
+voz é abafada por aquella gritaria.
+
+As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
+
+Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
+fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
+um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á
+missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as
+almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de
+tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo
+Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os
+delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e
+desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do
+inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.
+
+Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
+de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor
+sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com
+imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do
+seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que
+se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e
+as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria.
+
+Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava
+a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.
+
+Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e
+principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro
+manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em
+toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco
+impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para
+Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas,
+tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.
+
+Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
+tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.
+
+Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que
+se estava exercendo no animo timido de Christina.
+
+Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
+com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador,
+que ambas offereciam farto alimento para elles.
+
+D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse.
+
+Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios
+improprios do logar.
+
+Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os
+commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena;
+e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador,
+exacerbando-lhe a virulencia da phrase.
+
+Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera,
+estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.
+
+Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes,
+haviam attingido já a causa d'elles.
+
+D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.
+
+No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas
+do que nenhumas. A sr.^a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de
+anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração
+da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao
+cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
+fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a
+prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a
+pensar.
+
+N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os
+progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do
+inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique
+approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão
+tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria
+Christina sorriu tambem.
+
+Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces
+apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos
+e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:
+
+--Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da
+palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes
+os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram
+esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos,
+se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze
+esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das
+cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as
+estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na
+alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros
+livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
+requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...
+
+E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o
+braço na direcção de Henrique.
+
+Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e
+fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder
+alli mesmo.
+
+Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
+desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
+má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam
+alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas,
+os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções
+assustadoras.
+
+Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
+presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de
+Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
+
+Henrique resistia e procurava falar.
+
+O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.
+
+O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a
+cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.
+
+Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
+havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja
+por a porta da sacristia.
+
+Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em
+confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da
+sacristia, e correu clamando atordoadoramente.
+
+E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel
+parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de
+braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos
+pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.»
+
+Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
+
+Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente
+furiosa e ameaçadora.
+
+--Que querem de mim e d'estas senhoras?--perguntou elle, com voz firme.
+
+Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:
+
+--Morra o pedreiro livre!
+
+--Ensinem esses senhores da cidade!
+
+--Pouca vergonha!
+
+--Isto não fica assim! Isto é de mais!
+
+--Mação!
+
+--Hereje!
+
+--Quero passar!--repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.
+
+--Havemos de ensinar estes fidalgos.
+
+--Excommungados!
+
+--Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.
+
+Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo
+para elles, levantando o chicote que trazia na mão.
+
+Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
+varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.
+
+E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!»
+levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a
+tremer, o braço de Henrique.
+
+E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.
+
+Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
+sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que,
+entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto
+de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil
+curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos,
+procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a
+cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e
+em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse
+para toda aquella gente:
+
+--Não vêem que iam matando esta creança?
+
+Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais
+effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia
+n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e
+será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as
+massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por
+simulal-a, quando precisam do povo.
+
+--Quem foi que atirou a pedra?--perguntou um.
+
+--Temos tolice!
+
+--Nada de pedra, olá!
+
+--Então isto é coisa de garotos!
+
+Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
+«morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E
+comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era
+evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia
+resolveria a crise.
+
+O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
+irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
+apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem.
+
+Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e
+concorreu para dissipar a tempestade.
+
+Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que,
+pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da
+interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio
+desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro,
+tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que
+ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão.
+
+Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a
+dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas
+e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na
+caixa--pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles
+floridissimos periodos acusticos.
+
+Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era
+habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.
+
+Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara
+metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e
+sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as
+maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.
+
+Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.
+
+Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
+philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado.
+
+N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um _ceci tuera cela_, como o que
+preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris,
+analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico
+entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador
+era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira
+extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos
+portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um
+commetimento digno de menção na historia da arte.
+
+Pobre Zé P'reira!
+
+Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto
+de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento
+de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma
+melancolia quasi poetica.
+
+N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo
+pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A
+intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que
+via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão,
+principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.
+
+Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem
+ergueu-se.
+
+Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
+tiracollo a alça do tambor.
+
+Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que,
+estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.
+
+Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé
+P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao
+rapaz, e...
+
+_Pom_--fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada
+superficie do bombo.
+
+_Taplão, taplão, rataplão, rataplão_...--responderam as baquetas movidas
+pelas amestradas mãos do Zé P'reira.
+
+Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.
+
+O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das
+baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.
+
+Principiou a acudir o povo para junto do artista.
+
+Este tomára-se já do _raptus_, do phrenesi musical. Já não eram só as
+mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De
+olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes,
+contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para
+traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia,
+não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo,
+delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes
+electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor,
+desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos,
+aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o
+torciam, desconjunctavam e desfiguravam.
+
+Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo
+era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou
+com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se
+moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos
+sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que
+succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de
+uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo.
+
+O povo inteiro applaudiu o artista.
+
+E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já
+fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro.
+O povo dispersou pacificamente.
+
+
+
+
+XX
+
+
+Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da
+aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.
+
+O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é
+impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal
+pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia,
+villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha.
+
+Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta
+curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento.
+
+Isto aconteceu com o Cancella.
+
+Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os
+olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos
+chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.
+
+--Passaros de arribação...--pensava o Herodes comsigo--que vento traria
+isto para aqui?
+
+E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.
+
+Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:
+
+--Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos
+alojemos?
+
+--Por pouco ou por muito tempo, meu amo?
+
+--Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.
+
+--Ah! então v. sr.^{as} são engenheiros?
+
+--Julgo que sim.
+
+--Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar?
+
+--Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não.
+
+--Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os
+meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de
+uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem
+uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á
+direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira;
+ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um
+larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e
+perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.
+
+Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a
+explicação.
+
+Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma
+rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os
+engenheiros.
+
+--Se v. s.^{as} querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.
+
+Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.
+
+--Grande novidade!--ficou dizendo o Cancella comsigo--sim, senhor; com
+que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus
+dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que
+vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O
+pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza...
+Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é
+outro arranjo para quem tem de ir á cidade...
+
+Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe
+ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia
+que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias
+toma as proporções de um grande successo.
+
+--Ui! Temos novidade--disse o Herodes ao vêl-o.--Edital á porta da
+igreja!--e approximou-se para ler.
+
+Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens
+terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente
+prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da
+igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido.
+Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando
+contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim.
+
+--Bom, mais outra!--dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.--Grandes
+coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que
+não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi
+rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma
+pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e
+ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois
+de morta.
+
+E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.
+
+Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a
+invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella
+imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no
+regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e
+separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou
+triste e sobresaltado. Porquê?
+
+É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e
+estremecia agora na incerteza de como a iria achar.
+
+Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,
+tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros
+da casa parou irresoluto.
+
+Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo
+aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas,
+se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos,
+que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de
+sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.
+
+Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao
+avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.
+
+Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol
+crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe
+estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito
+esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão
+despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em
+que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que
+chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte
+obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as
+sombras.
+
+Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros
+degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera
+coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.
+
+Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que
+encontrou aberta.
+
+Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de
+surpreza.
+
+Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.
+
+Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que
+cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que
+não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o.
+
+--Crédo!--disse o Cancella, desgostoso.--Para longe o agouro! Cruzes
+negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me
+scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe
+acudo...--Ermelinda!--exclamou, chamando por a filha.
+
+Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.
+
+Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua
+benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.
+
+--Mau!--disse o Herodes, cada vez mais descontente.--Vou vendo que a
+minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...
+Ermelinda!
+
+E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o
+quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais
+retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por
+dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que
+na porta exerceu o Herodes.
+
+Franqueando assim a passagem, parou no limiar.
+
+Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um
+canto escuro do quarto.
+
+--És tu, Linda? Estás ahi?--perguntou o Cancella, affirmando-se
+n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,
+
+--Meu pae... respondeu com voz fraca.
+
+--Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto
+mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga,
+quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca
+pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas
+esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me
+consola...
+
+E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro.
+Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e
+principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não
+bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas
+assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o
+corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e
+de espanto, bradando emfim, com voz consternada:
+
+--Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as
+tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem
+risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás
+doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda,
+fala!
+
+A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
+
+--Meu Deus! Isto que é, meu Deus?--exclamava, mais assustado, o
+pae.--Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens
+pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar;
+mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?
+
+E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no
+coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação
+d'aquelle doloroso mysterio.
+
+Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais
+commovido:
+
+--Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não
+sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em
+que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim?
+Fala!
+
+E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais
+lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.
+
+Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle
+apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao
+collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber
+o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito
+inquieto.
+
+Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e
+pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos
+trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as,
+soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.
+
+Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma
+palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no
+corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o
+lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco,
+abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o
+desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.
+
+É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor
+beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o
+enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos
+golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.
+
+Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta
+descoberta lançou o coração d'aquelle.
+
+Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.
+
+Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de
+ambos.
+
+A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do
+Cancella.
+
+Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os
+olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e
+gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe
+amontoavam no coração:
+
+--Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?...
+Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te
+deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha
+desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas
+riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te
+tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É
+com este desamor?! e com esta ingratidão?!
+
+--Meu pae! meu pae!--implorava Ermelinda, suffocada pelo
+pranto.--Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?...
+Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os
+cortei... A vaidade é um peccado grande.
+
+--Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?
+Fala!...
+
+--Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!
+
+--Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de
+saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae.
+Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?
+
+--O missionario...--ia a dizer Ermelinda.
+
+O pae não a deixou proseguir.
+
+--Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua
+madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim!
+Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem
+religião, sem Deus...
+
+--Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.
+
+--Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu
+pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...
+Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus,
+e eu não o reconheço nem adoro!
+
+Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o
+desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca
+horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas,
+e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.
+
+--Por amor de Deus--murmurava ella, com a voz chorosa e quasi
+sumida--por alma de minha mãe!...
+
+--Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua
+mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me
+não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão
+amargas e tantas, como eu choro agora!
+
+E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e
+valente, chorava, porque tinha um coração de pae.
+
+Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.
+
+--Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!--dizia ella.--Se soubesse... Fui eu que
+pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe
+ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da
+minha alma, porque...
+
+--E foi tua madrinha que t'os cortou?
+
+--Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um
+santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.
+
+E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do
+Cancella.
+
+--Querem matar-me a filha--bradava elle.--Ó meu Deus! pois não é isto um
+grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui,
+esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um
+crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com
+lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse
+missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem
+traz assim o desespero ao coração de um pae.
+
+E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,
+cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no
+corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos
+postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o
+Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De
+repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que
+alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com
+jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia
+oração, quasi extatica, quando o pae entrou.
+
+--Coração de Maria!--disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a
+vista fixa na imagem, e como falando para si.--Coração de mãe, e de mãe
+extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a
+um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que
+deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as
+desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres--continuou
+allucinado, voltando-se para a imagem--e se não podes ser adorada senão
+assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como
+as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!
+
+E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o
+caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços
+no pavimento.
+
+Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O
+terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi
+lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os
+labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.
+
+Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra
+vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua
+benta, bradando:
+
+--Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.
+
+Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter,
+mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a
+levou de rastos á outra sala.
+
+Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo
+despedaçava ou rasgava.
+
+N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que,
+como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços
+estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento
+inerte e fria como um cadaver.
+
+Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a
+madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.
+
+Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que
+descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella
+cortou-lhe a fala na garganta.
+
+Era de facto um olhar selvagem e sinistro.
+
+A sr.^a Catharina parou.
+
+--Que vem fazer aqui, mulher?--dizia-lhe o Cancella com voz cavada.
+
+--Eu...
+
+--Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares,
+onde metteu a tristeza?
+
+E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava
+outro.
+
+Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.
+
+--Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a
+esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.
+
+A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:
+
+--Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!
+
+Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.
+
+Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a
+pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu
+para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo
+nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão
+a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.
+
+A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora
+chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de
+Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos,
+e implorando misericordia.
+
+--Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto.
+Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o
+coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr...
+pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o
+coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella
+precisa.
+
+E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.
+
+Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres,
+attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára
+de falar.
+
+Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e
+pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.
+
+Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.
+Ermelinda tinha aberto os olhos.
+
+Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o
+aspecto d'elle lhe causasse terror.
+
+--Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com
+maior consternação na voz e no olhar.
+
+Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer
+convulsivamente e n'uma anciedade extrema.
+
+--Deixe a pequena!--disse a beata--não vê que lhe faz mêdo? E com razão,
+pobre creança! depois do que viu!
+
+--Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?--repetiu timidamente o
+pae.--Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...
+
+Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.
+Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a
+soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:
+
+--Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que
+desgraçado que eu sou!...
+
+A scena era bastante commovente, para que se não sentissem
+impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.
+
+Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do
+infeliz, em quem entrára o desespero no coração.
+
+Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,
+que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a
+toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.
+
+Ouviram-se perfeitamente estas palavras:
+
+
+ Vinde, vinde, ó missionarios,
+ Com a palavra de Deus
+ Libertar-nos do peccado,
+ Encaminhar-nos aos céos.
+
+
+O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar.
+
+As vozes continuaram:
+
+
+ Minha alma por vós anceia,
+ Ó ministros do Senhor!
+ E o meu peito em chammas arde,
+ Em chammas do vosso amor.
+
+
+O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos animaram-se-lhe de
+um fulgor extranho.
+
+O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco desembocou na rua,
+em que se passavam estas scenas, um singular cortejo.
+
+O missionario, que nós já conhecemos, por o termos visto em pleno
+exercicio de suas funcções predicatorias, vinha seguido por uma cohorte
+de mulheres de roupas escuras e cabellos cortados, que cantavam em
+chorada cantilena estas e analogas quadras, que os missionarios ou os
+agentes seus teem quasi sempre o cuidado de vulgarisar como
+preparatorios dos animos impressionaveis das mulheres e das creanças.
+
+Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a procissão da
+casa do Cancella.
+
+Este já estava em pé no meio da rua, á espera d'ella.
+
+O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu caminho,
+aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, se lhe
+apresentava escuro como um phantasma, e não conjecturou bem do que via.
+Por isso parou tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se.
+
+O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:
+
+--Sabe quem sou?
+
+O padre fez um signal negativo com a cabeça.
+
+--Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve Deus.
+
+O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem
+procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razão que
+um homem que não ouve Deus não estaria muito disposto a escutal-o, a
+elle, humilde creatura.
+
+--Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de
+minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;
+perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella creança sem
+culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o coração,
+e depois... depois matal-o.
+
+O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu caminhar para elle
+o Cancella, viu no ar aquella mão musculosa e larga, e, calculando a
+violencia do embate pelo volume do braço, julgou-se de antemão esmagado,
+e só pôde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as
+feições, e suspender a respiração, aguardando n'esta postura o golpe,
+que não podia evitar.
+
+Este de facto não foi suave. A mão do Cancella caíu em parte sobre o
+cabeção, em parte sobre o pescoço do padre, e com tal fôrça, que este
+foi constrangido a ajoelhar.
+
+--Anda, meu impostor do inferno!
+
+E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo á
+primeira posição. O chapéo rolou a alguns passos de distancia.
+
+--Anda, meu envenenador de almas!
+
+Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o
+caminho do chapéo.
+
+--Anda, meu calumniador de Deus!
+
+E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em pé, e após,
+dando-lhe um forte impulso e soltando-o das mãos, deixou-o ir á mercê da
+fôrça transmittida.
+
+O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar na quéda
+provavel, e, pé aqui, pé acolá, a passos descommunaes, escapou
+miraculosamente de cair, porém não conseguiu parar senão a muitos metros
+de distancia.
+
+Escusado é dizer que esta scena não correu entre o silencio dos
+espectadores. Mal o Cancella levantou a mão sobre a cabeça do padre, as
+beatas ergueram um alarido de atroar céo e terra.
+
+--Aqui d'El-rei!
+
+--Aqui d'El-rei sobre o Herodes!
+
+--Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José!
+
+--Quem acode ao sr. fr. José?!
+
+--Ai, que matam o santinho do missionario!
+
+E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas esganiçadas
+mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, porém, a intervir mais
+activamente.
+
+A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, em
+cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com respeito.
+
+Este, porém, não oppoz resistencia.
+
+Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento.
+
+Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das imprecações das beatas
+e dos gritos de indignação dos homens.
+
+As devotas mulheres correram para o missionario.
+
+Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o capote.
+
+--Magoou-se, sr. fr. José?
+
+--Doe-lhe alguma coisa?
+
+--Feriu-se?
+
+Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a abanar com a
+cabeça negativamente e deitou a correr, como se visse atraz de si ainda
+a mão espalmada do Cancella, prompta a cair-lhe outra vez sobre a
+cabeça.
+
+Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a multidão engrossára e
+em altos gritos pedia o castigo do criminoso.
+
+O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a multidão.
+In continenti, redigiu um officio ao administrador, no qual foi tão
+feliz que escreveu tres palavras com boa orthographia; e, falando ás
+turbas, disse que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de
+ser punido com todo o rigor das leis.
+
+
+
+
+XXI
+
+
+O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi
+assumpto das conversações geraes de toda a aldeia. Era com indignação
+que se commentava a façanha. Dizia-se que o Cancella fôra apenas o
+instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do
+padre, pela occorrencia da tarde do sermão.
+
+Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes
+offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual
+havia muito suspiravam.
+
+O missionario e os seus ardentes sequazes fôram dos mais acerbos
+propugnadores d'estas ideias, que reforçavam com muitas accusações, de
+hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do
+conselheiro.
+
+A politica viu n'isto uma arma favoravel para combater o adversario, e
+não a desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio,
+manifestamente devida á iniciativa do pae de Magdalena, e
+impopularissima na aldeia, augmentar a irritação dos animos e servir de
+thema a uma violenta diatribe do missionario contra a impiedade da
+época, que nem aos fieis concedia a santa consolação de repousar á
+sombra dos templos.
+
+Tudo isto começou pois a fomentar uma reacção contra o conselheiro, a
+qual ameaçava o resultado da sua candidatura.
+
+Não pequena parte n'esta guerra surda, que principiára a lavrar, tomava
+o seu companheiro de infancia e particular amigo o brazileiro Seabra.
+
+Nunca elle sentira entranhada no coração metade da bem-querença que
+apparentemente ostentava para com o conselheiro: mas depois de uma
+conferencia que tivera com mestre Pertunhas tornára-se mais manifesta a
+sua hostilidade e menos observadora de etiquetas e rebuços.
+
+Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do
+conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o
+missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos
+bens da Igreja.
+
+Foi tambem o brazileiro quem trouxe á flor de agua os antigos excessos
+demagogicos, que caracterisaram o principio de carreira politica do
+conselheiro, e referira, com modos de horrorisado, a substancia dos
+exaltados discursos que elle proferira nas camaras, advogando ideias
+cuja só exposição ferira de pavor a imaginação dos povos.
+
+Finalmente, até o principio dos trabalhos para as estradas, cujo
+protrahido adiamento fôra até aquelle tempo um capitulo de accusação
+contra o pae de Magdalena, servia agora de arma á opposição.
+
+O brazileiro, em attenção a quem se adoptára o traçado que ia ser posto
+em execução, era o que provava á saciedade com grande exhibição de
+cifras e de razões economicas, ser esse traçado, sobre dispendioso,
+irracional.
+
+E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio
+conselheiro, quando este os allegava para vêr se conseguia demovel-o do
+empenho que mostrava em que o traçado em questão fôsse preferido aos
+outros. Tal era o estado das coisas publicas na terra no dia em que
+principiaram os primeiros trabalhos de campo.
+
+Tinham-se passado alguns dias depois da prisão do Herodes.
+
+A aldeia vira-se invadida por um bando de sêres desconhecidos, que
+vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma população habituada
+a considerar como occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros
+ou das cancellas de qualquer proprietario da localidade.
+
+A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais
+operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou
+maiores mudanças na vida moral da aldeia do que nas condições physicas
+d'ella as bandeirolas, os niveladores, as enxadas, as pás, alviões,
+picaretas, carros de mão e padiolas, de que era armada essa cohorte.
+
+Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior
+actividade tinham começado os trabalhos. Era como já dissemos, na casa
+do herbanario. Pela demolição d'ella, e do quintal que a rodeava,
+principiaram as obras.
+
+O velho Vicente assignára dias antes o auto de expropriação e recebera o
+preço da venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro, não
+lhe foi muito regateado.
+
+Elle, porém, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por as arvores
+nada quiz; não podia resignar-se a vendel-as. Podia vêl-as cair, como
+amigos sacrificados no cadafalso, mas mercadejar-lhes com os restos,
+isso não.
+
+O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu á Fazenda Nacional de
+compensação ao excessivo preço por que fôram expropriados os bens de que
+o brazileiro se apossára, com o patriotico intuito de promover os seus
+melhoramentos particulares, preço que por empenho do conselheiro não foi
+litigado.
+
+Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram resistir,
+mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido á cohorte de operarios
+melhor armados do que elles, em parte cedendo ás imperiosas ordens do
+herbanario, que, ao sair pela ultima vez da casa, onde envelhecera, lhes
+disse, com voz irritada e severa:
+
+--Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes
+vós, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz!
+
+Os instigadores das massas conheceram que não era aquella a occasião nem
+aquelle o pretexto proprio para os seus projectos, e adiaram, em vista
+d'isso, a empresa prudentemente.
+
+Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em
+que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.
+
+Na baixa em que ficava a habitação do herbanario, ia uma azafama
+extraordinaria.
+
+O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de destruição;
+desconjuntavam-se as pedras dos muros, desfazia-se em pó a argamassa
+secular, caíam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos das
+arvores, alastrava-se de tijolo e caliça a verdura dos taboleiros, e
+cêdo, de toda aquella vivenda tão amena e virente, só restavam ruinas.
+
+Numerosos grupos de já pacificados espectadores seguiam com curiosidade
+as operações de devastação; mas, longe d'alli, a maior distancia do que
+os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que elle
+orvalhava de lagrimas, o unico coração que elle devéras apertava de dor.
+
+O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se
+divisava toda a scena. Com a cabeça pousada na mão e o braço apoiado
+sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore, que d'alli
+via vacillar e cair, como se fôsse um amigo que o precedesse no tumulo.
+Parecia ter fugido para longe, para pelo menos não lhes ouvir o estertor
+da agonia.
+
+Ao lado do velho estava Augusto.
+
+Não era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da demolição.
+
+Mais do que uma vez tentára arrancar o herbanario d'aquelle sitio. O
+velho, porém, resistiu; queria estar alli até vêr cair a ultima arvore.
+
+Ao pinheiral d'onde assistia á scena, chegava em confusão o alarido dos
+trabalhadores, o rumor do manobrar dos instrumentos, e até o da quéda
+das arvores cortadas.
+
+O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore,
+recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava
+ligada.
+
+--Lá vae aquella faia!--dizia elle, com intensa melancolia--pobre velha!
+Era á tua sombra que meu pae me ensinava a ler! Encostava-se áquelle
+tronco sobre a grossa raiz que elle tem á flor da terra e pegando em mim
+ao collo, guiava-me nas primeiras lições! E viver eu para te vêr cair!
+
+E, ao perceber-lhe balançar as sumidades, o velho fechou os olhos
+instinctivamente. Cêdo ouviu um estrondo... Quando os abriu, estava por
+terra a faia.
+
+--Agora é a tua vez, pobre carvalho!--dizia algum tempo depois--muito
+queria minha mãe áquella arvore! Por suas mãos a plantou bem tenra.
+Nunca me sentei áquella sombra, que me não lembrasse da santa mulher!
+Parecia que eram vozes tuas, que m'a recordavam, infeliz! Barbaros! Olha
+com que desamor a decepam! Perdôa-me, meu velho amigo, mas bem vês que
+te não posso valer.
+
+E o carvalho caíu.
+
+--Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno
+passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto
+cubiçavam as creanças, que pela ultima vez o fazias!... Adeus, pobre
+amiga, adeus.
+
+E caía a cerdeira tambem.
+
+E caíam, uma após outra, todas as arvores do quintal, os limoeiros, as
+nogueiras, os salgueiros e toda a familia vegetal do velho Vicente, que
+sentia ir-se-lhe com ella a alma. Memorias de infancia, sonhos de
+juventude, e reminiscencias de velho, como aves invisiveis, occultas nas
+copas d'aquellas arvores, surgiam agora, espavoridas e desnorteadas, a
+procurar o refugio que não encontravam fóra dalli.
+
+Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram dolorosamente
+feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena casa, onde elle
+envelhecêra e contava morrer, e ao patentear-se indiscretamente aos
+olhos irreverentes e curiosos do povo aquelle recatado asylo.
+
+A demolição proseguia com ardor e actividade. Em pouco tempo, só
+restavam da casa os muros, meio derrocados; e, no quintal, a serra e o
+machado principiavam a exercer no tronco da ultima arvore a sua obra
+destruidora. Era o castanheiro da entrada, gigante de outro seculo, que
+desafiára os raios de muitos invernos successivos.
+
+A exaltação do herbanario cresceu n'aquelle momento. Ergueu-se, pallido
+e trémulo, apoiou-se no hombro de Augusto, murmurando:
+
+--Tambem o castanheiro! Já era arvore quando eu nasci! Como elles se
+encarniçam contra elle! Mas não te parece, Augusto, que não soffre muito
+o castanheiro?... Sabes? É que elle já não agradeceria a vida, porque
+tinha de viver assim desamparado dos seus outros companheiros, que vê
+caídos no chão... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao lado d'elles... É como
+eu.
+
+O castanheiro principiou a oscillar.
+
+--Repara--disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o
+braço de Augusto.--Elle já treme! Não vês!... Lá lhe deitam a corda...
+Vae cair!... Parece-me que estou a sentir aquelle estalar de fibras...
+
+E a arvore caíu com fragor no chão, que por tanto tempo cobrira de
+sombras.
+
+Estava ultimada a obra.
+
+O herbanario encostou a cabeça ao hombro de Augusto e rompeu em soluços.
+
+--Então, tio Vicente, tenha animo--dizia-lhe Augusto, igualmente
+commovido.
+
+--Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para acolá e
+não ver em pé uma só das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um
+sonho isto, um sonho de afflicção! Sinto-me tão só no mundo! Ai! se a
+morte me ferisse agora!
+
+A dor, a saudade e o desalento davam uma uncção de poesia elegiaca á
+figura, ao gesto e ás palavras do velho, que desvanecia tudo o que
+n'elle pudésse haver, nas situações ordinarias da vida, capaz de
+desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente.
+
+Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos
+materiaes, lagrima que não importa uma ironia á civilisação. Exalte-se
+embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como meteoro, as
+povoações e os êrmos; mas não seja isso motivo para condemnar a
+compaixão pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada á
+beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a
+cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de redempção, o vencido, desde
+que cáe, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima de saudade.
+Não tenteis a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos áridos
+que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida á vossa alma sêcca
+e esteril. Quem devéras confia nos destinos da humanidade não tem mêdo
+das lagrimas. Pode-se triumphar com ellas nos olhos.
+
+Passado algum tempo, e quando já as sombras da noite se condensavam nos
+valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o velho disse para
+Augusto:
+
+--Agora que não tenho casa, dá-me por alguns dias o abrigo da tua.
+
+--Por alguns dias?--repetiu Augusto, admirado.--Pois quer deixar-me
+depois!
+
+--Quero. Vou com ellas.
+
+E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas.
+
+Atravessaram a aldeia á hora a que vibravam nos ares os sons
+melancolicos das Avé-Marias.
+
+Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois.
+
+--Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!--disse o
+herbanario, ao transpor o limiar.--Má companhia te fará a minha velhice.
+
+--Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua
+presença podia desalentar quem na mocidade é mais fraco e desalentado do
+que ninguem o pode ser na velhice.
+
+--Custou-me muito este golpe de hoje! Não contava com elle! Desde hontem
+envelheci muitos annos. Podes crêl-o.
+
+Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de fóra da
+porta:
+
+--Dão licença?
+
+E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes
+sorrisos.
+
+O herbanario e Augusto não reprimiram um gesto de impaciencia.
+
+O homem entrou.
+
+--Ora Deus seja aqui! Tão grande é o dia como a romaria, sr. Augusto!
+Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que tinha ido de manhã para
+casa do tio Vicente; vou lá... estava um mundo de gente no sitio... Mas
+qual sr. Augusto, nem tio Vicente! Então com que escorraçaram-n'o do seu
+ninho?... Pobre homem! A falar verdade, n'essa idade! Já sei que vem
+para casa do nosso Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda
+bem que o temos por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que
+tambem fizeram-n'a fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa
+assim!... Coisas cá do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheirão na
+tal estrada! E já por ahi se rosnam coisas! Emfim, politicos! politicos!
+Todos são os mesmos... Vae por ahi uma poeira dos meus peccados com a
+ordem a respeito do cemiterio; e com a historia do Herodes! Sabem que
+elle esteve hontem para matar o missionario?... E valha a verdade, dizem
+que por ordem de alguem do Mosteiro... Que eu não acredito, mas emfim,
+aquella historia no sermão do outro dia... E o tal sr. Henrique, que é
+unha e carne com elles... Elle será muito boa pessoa, mas não me
+calha... Lá feliz, isso como não sei de outro, com dinheiro e sem
+cuidados! E sempre se faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi
+dizer que sim.
+
+O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente
+impassibilidade d'este não illudiu o velho.
+
+O Pertunhas não se exgotára ainda:
+
+--Ora agora, quem anda fulo é o brazileiro, o Seabra. Pelos modos, eu
+não sei o que ahi houve; o conselheiro não o tratou muito bem, dizem,
+n'uma carta que escreveu ao ministro, ou creatura do ministro. Umas
+historias muito complicadas, que eu não entendo, mas que promettem dar
+de si... Veremos em que ficam as eleições este anno... O conselheiro bem
+pode trabalhar, senão... Elle cuidava que era só apresentar-se, e
+emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr. Joãozinho das Perdizes?
+Será fiel esse? Já me disseram tambem que...
+
+--Ó sr. Pertunhas,--atalhou o herbanario, enfastiado--antes queremos não
+saber. Importa-nos pouco a politica.
+
+--Estão como eu... Isto tambem não é politica, mas emfim... Pelo que
+vejo estão cançados? Eu tambem não os maço mais... E antes que me
+esqueça, ha muitas horas que estou de posse de uma carta para vossemecê,
+tio Vicente. É de Lisboa, veio por o correio de hoje. Não lh'a mandei a
+casa, porque... não sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como
+o vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso...
+
+O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando
+para o sobrescripto, disse com indifferença:
+
+--É do Manoel.
+
+E abriu-a lentamente.
+
+O mestre de latim deixou-se ficar, na esperança de ouvir novidades.
+
+A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio de
+indignação e de colera:
+
+--Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem
+sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos amigos,
+com a justiça das causas e com a voz da propria consciencia, do que com
+os caprichos e interesses dos poderosos com quem vive!
+
+--Mas que é?--perguntou Augusto, sem atinar com a significação
+d'aquellas palavras.
+
+--Lê.
+
+E passou a carta para as mãos de Augusto.
+
+O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira
+obrigado a ceder, na questão do despacho de Augusto, a fortes
+influencias que se empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que
+mais tarde lhe explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle,
+talvez fôsse isto até uma vantagem; que o logar que pedia era a sua
+annullação perpetua, e que elle, conselheiro, havia de luctar contra a
+grande modestia do rapaz, trazendo-lhe á luz os merecimentos reaes,
+dando-lhe melhor collocação, e que esperava ainda empregal-o na capital.
+
+Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia.
+
+Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios:
+
+--Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui.
+
+--A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria despachar,
+e breve; e quebrou-a como um pêrro! Oh! o que fizeram d'aquelle homem!
+
+--Quê?! Pois é possivel?--perguntou, exaggerando a sua consternação e
+espanto, o officioso Pertunhas.--É possível que o sr. Augusto não fôsse
+despachado?!
+
+E dizendo isto, passou a desfiar uma série de consolações, qual d'ellas
+mais tôla e sem cabimento.
+
+Até que emfim, tendo já novidades para contar, e almejando communical-as
+aos frequentadores da taberna do Canada, onde devia estar reunida grande
+e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a pretexto de não ser mais tempo
+incómmodo, e deixou-os outra vez sós.
+
+--Estão-me guardados para o fim da vida todos os desenganos! todas as
+amarguras! todos os desesperos!...--disse o herbanario momentos
+depois.--É para se odiar o mundo e os homens vêr um, que conhecemos
+generoso e innocente, contaminado tambem!... Pobre Augusto! Não basta
+que sejam modestos os teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.
+
+Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo:
+
+--Por que te não fazes politico? Por que não vaes tambem para a taberna
+do Canada dizer tolices sobre a governança do paiz? Talvez levasses
+comtigo alguns tôlos, e tinhas n'isso uma recommendação poderosa. Olha
+para aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um
+influente... Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer?
+
+--Ficar--respondeu Augusto, com firmeza.
+
+O herbanario fixou-o com um olhar penetrante.
+
+--Ainda?... Mas... não te vae ser suave agora a vida, rapaz. Para se
+viver não basta uma... uma loucura. Repara bem. Se quizeres... O Manoel
+é leviano, mas creio que ainda não perverso; eu lhe escreverei... talvez
+que em Lisboa...
+
+--Não lhe escreva. Sabe que não partiria para Lisboa...
+
+--Mas... repara!... Estás muito novo, Augusto... Tens um longo futuro
+deante de ti. E, ficando, o que te espera?...
+
+--A morte que fôsse, a morte de miseria e de fome, ficava. Mas resta-me
+ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o.
+
+O herbanario baixou a cabeça, pensativo.
+
+Soaram n'isto á porta da sala duas pancadas lentas.
+
+O herbanario fez um gesto de enfado.
+
+--Não abras sem eu sair,--disse elle a Augusto, que se erguera--não
+estou de animo para aturar importunos.
+
+E passou para uma sala contigua.
+
+Augusto foi abrir ao novo visitante.
+
+Achou-se na presença do brazileiro Seabra.
+
+A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer
+valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro.
+
+Augusto offereceu-lhe cadeira para se sentar, sem inquirir do motivo de
+tão inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou:
+
+--Acabo agora mesmo de saber da injustiça que lhe fizeram. Senti-a como
+se fôra propria, e venho aqui declarar-lh'o.
+
+Augusto curvou-se, em signal de agradecimento.
+
+--Mas então que quer?--proseguiu o homem.--Hoje em dia é tudo assim.
+Padrinhos e mais padrinhos, e o mais são historias. Estamos n'uma época
+de corrupção e de immoralidades, e ninguem sabe onde isto irá parar.
+
+Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu:
+
+--Tôlo é quem não faz como os mais. O mundo está para os velhacos.
+
+Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de
+Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo:
+
+--Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias não pode receber as
+offensas e ficar-se com ellas assim. O perdão evangelico é muito bonito,
+mas não é para homens. Não lhe parece? Eu por mim não gósto de genios de
+lama. Falemos como amigos. Nós ambos somos victimas de um mesmo homem. O
+sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se
+apregoava seu protector. Ahi temos a protecção que elle lhe deu. Eu
+tambem lhe devo finezas.
+
+--V. s.^a?--perguntou Augusto, que não podia saber o que lhe queria no
+fim de tudo o brazileiro.
+
+--Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi.
+
+E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu
+principio á exposição dos seus aggravos:
+
+--O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a
+causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me
+visconde por fôrça. Coisas de que eu me estou rindo... Mas... emfim,
+para me livrar d'aquelle importuno, disse-lhe que... fizesse lá o que
+quizesse... Pois, senhores, não teve o petulante o atrevimento de
+escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da opposição, mantem
+aturada correspondencia; não teve a audacia de lhe dizer que eu andava
+sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel, pois
+promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao Estado,
+visto que com tão pouco me contentava, e outras coisas n'este gôsto? O
+petulante!...
+
+Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam,
+luctava para se conservar sério perante aquella indignação do sr.
+Seabra.
+
+--Mas tem a certeza d'isso?--perguntou elle.--Ás vezes são calumnias...
+
+--Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro não, mas do
+secretario, que é o mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse á
+mão... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo; mas era de
+parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo quanto eu pudésse
+dar, porque... porque... por umas tolices de que eu me lembrei a
+tempo... Ora ahi tem como elles são!... Que venham para cá com os seus
+melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se hão de
+arrepender.
+
+--Mas... talvez haja equivoco.
+
+--Equivoco? Ora essa! Pois eu não li a carta? Ella ha de apparecer em
+publico; oh! se ha de! Isto é, não a parte que me diz respeito,
+porque... porque emfim são negocios particulares, que não interessam a
+terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella, umas promessas do ministro,
+que põem a calva á mostra a este Catão, que nos anda aqui a prégar
+liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com
+muita vontade.
+
+--Acaso tenciona?...
+
+--Se tenciono?! Pudéra não! Eu lhe afianço que o homem ha de saber com
+quem se metteu. Deixe vir as eleições, deixe-as vir. Já ha de achar o
+caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto eu... A lição ha
+de leval-a breve.
+
+--Vão guerrear a eleição do conselheiro?
+
+--Faço essa tenção.
+
+--E quem lhe oppõem?
+
+--O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa.
+
+--Que nem o circulo conhece?
+
+--Que importa? É uma lição. Aqui não ha politica nem meia politica. Eu
+não morro pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro.
+Mas é preciso aproveitar tudo. E assim temos por nós a auctoridade, além
+dos padres.
+
+Augusto não se sentia com disposições para discutir esta questão
+politica; por isso nada mais lhe replicou.
+
+O Seabra proseguiu:
+
+--O que eu quero saber é se o amigo quer entrar na nossa alliança e
+acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A vingança é o prazer dos
+deuses, e visto que foi tambem offendido...
+
+--Não, senhor, não acceito--acudiu com vivacidade Augusto.
+
+--Escute. Deixe-me concluir. Não sabe do que falo. Pouco se exige. A
+coisa é esta: na carta a que me referi, e que por acaso me chegou ás
+mãos, fala-se n'uma outra, ou em outras anteriores, em que se tratava,
+mais por miudo, de uma curiosa transacção politica que n'esta se revela
+claro. O conselheiro é pouco acautelado; haja vista ao extravio d'esta,
+e por isso...
+
+Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se não pudésse
+comprehender onde elle queria chegar.
+
+O Seabra proseguiu:
+
+--Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro... sim,
+porque julgo que continúa a ensinar os pequenos, e, já se sabe... como
+mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais
+como a D. Victoria é... um tanto descuidada, como todos nós sabemos...
+Não sei se me percebe?... Dizia eu... sim, que se ás vezes, por acaso,
+encontrasse coisa que valesse...
+
+Augusto levantou-se, indignado.
+
+--Sr. Seabra!--exclamou, cheio de cólera.
+
+--Valha-me Deus, eu não quero dizer... Não me entendeu... Bem vê que se
+o senhor devesse obrigações ao conselheiro, eu não ousava... Mas...
+
+--Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se não insistir...
+
+--Entendamo-nos. O senhor está no principio da vida. Precisa do auxilio
+de alguem. Offerece-se-lhe occasião para fazer serviços ao governo, que
+é finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para isso? Quasi
+nada... O senhor sabe perfeitamente que se não trata aqui de desgraçar
+ninguem, de levar ninguem á forca.
+
+--Visto que v. s.^a insiste, sou obrigado a retirar-me.
+
+--Espere, sr. Augusto--acudiu o brazileiro, segurando-o.--Repare no que
+faz. Não seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns sacrificios,
+se vir que nas suas circumstancias...
+
+--Visto que v. s.^a não se cala, nem quer que eu me retire, ouça então o
+que tenho para lhe dizer. A sua proposta seria para mim o maior dos
+insultos, se não fôsse tal a baixeza d'ella, que até despe de toda a
+imputação a pessoa que a faz. Os homens, faltos de sentimentos de honra,
+não offendem, quando insultam; não se lhes pode pedir razão da infamia,
+porque não a conhecem como tal; identificaram-se com ella. Por isso, só
+me resta um partido, é convidal-o a sair.
+
+O brazileiro fôra erguendo-se á medida que Augusto falava. Estava
+espantado por vêr que um rapaz, sem um vintem de seu, ousasse falar com
+tal irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crédito em tantos
+bancos! A ordem do mundo estava perturbada!
+
+--Ora esta!--disse elle no fim.--Então o senhor ordena-me?...
+
+--Que saia!--respondeu Augusto, indicando-lhe a porta.
+
+O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do que
+ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra vez,
+e, no limiar, parou para dizer:
+
+--Veja lá o que faz! Eu só lhe digo que me não convem dar a minhas
+filhas um mestre de soberbas.
+
+--Decerto que lhe não poderá convir a educação que eu désse a suas
+filhas; é natural não querer educar consciencias que sejam juizes da sua
+corrupção. Deixe-as ignorantes, para não ser castigado pelo desprezo
+d'ellas.
+
+--Quer então dizer...
+
+--Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra.
+
+O brazileiro saiu, bufando.
+
+Augusto, que ficára só, sentiu-se apertar nos braços de alguem que
+entrou, sem elle sentir.
+
+Era o herbanario.
+
+--É assim, é assim que te vingas de todos, rapaz! Esmaga-m'os com a tua
+nobreza!
+
+Augusto sorriu-se tristemente.
+
+--O peor é, meu amigo--disse elle--que é a segunda subtracção que hoje
+se opéra no meu orçamento, e... a nobreza não nutre!
+
+--Mas consola!--replicou o velho.
+
+
+
+
+XXII
+
+
+Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
+morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu
+atraz de si correr o reposteiro da entrada.
+
+Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.
+
+--Retiro-me, se sou importuno--disse a pessoa que entrára, e que ficára
+no limiar da porta.
+
+Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas.
+
+--Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.
+
+--Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação
+de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno...
+
+--Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da
+correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante.
+
+--Então utiliso-me da concessão.
+
+--Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em
+relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar
+de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E
+como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de
+dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão
+delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
+a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da
+madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir.
+
+--E como vae a pequena?
+
+--Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem
+esperanças, que eu mesma não tenho.
+
+--Que disse o cirurgião?
+
+--Nada animador.
+
+--Como capitulou a molestia?
+
+--Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a
+necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que
+lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão
+que me interessa. Tudo o mais me é indifferente. N'uma pessoa doente
+vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos
+peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero
+saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia
+e a morte.
+
+--Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura,
+prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo
+muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É
+voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
+d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine
+o clamor que por ahi vae!
+
+--Deixe clamar--respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.
+
+--Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
+quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não
+sou muito bem tratado.
+
+--É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente.
+
+--Não receie. Esta gente a final é cobarde.
+
+--Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. Foi uma
+desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario.
+
+--Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o
+ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.
+
+--Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das mais
+agradaveis.
+
+--Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e
+talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se
+interessa em organisar contra o sr. conselheiro.
+
+--Ah! pois trata-se d'isso?
+
+--Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio,
+a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um
+grande mal.
+
+--Oh! se meu pae perdia!...
+
+--Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a
+expressão de um desejo.
+
+--E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez
+para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.
+
+--Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á
+politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia,
+aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as
+politicas, a politica local.
+
+A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
+dizia.
+
+Henrique proseguiu:
+
+--Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O
+brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a
+propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e
+sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto
+seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia
+inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. Já vê,
+prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o
+meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a
+interessar-me pelas questões locaes, como se aqui estivesse, ha annos.
+
+--E é um bom indicio de cura, pode crer.
+
+--E ainda tem empenho de me curar?
+
+--Empenho, todo; esperança é que menos.
+
+--Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a
+sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não
+falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente,
+foi n'uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então
+até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito
+desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei...
+
+--De quê?--perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de
+altivez.--É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção,
+no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu
+interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.
+
+--Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella
+alguma misericordia para com o peccádor?
+
+--Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me
+obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado
+delicadas, com que me mortifica.
+
+--Está sendo tão amavel!...
+
+--Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.
+
+--Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
+Magdalena.
+
+--Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
+do mal, inda não desisti de cural-o.
+
+--Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?
+
+--Ha já agora uma unica maneira de o salvar.
+
+--E é?...
+
+--Apaixonal-o.
+
+--Ah! n'esse caso estou salvo!--exclamou Henrique, n'um impeto, que não
+pôde passar sem um sorriso da morgadinha.
+
+--Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixão,
+sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.
+
+--E como hei de escolher?
+
+-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio.
+
+--A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser mais clara...
+
+--De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
+persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão
+heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa
+indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da
+inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao
+papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma
+inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter
+igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe
+que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o
+esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres
+nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas
+superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se
+n'elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo,
+domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio
+que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes é que deve
+procurar para salvar-se; só d'elle pode esperar a realisação da vaga
+ideia de felicidade, que todos concebem na vida.
+
+--E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia
+encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se
+apoiar?
+
+--Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente
+nas necessidades do seu coração.
+
+Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
+do correio.
+
+--Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu
+pae--disse Magdalena, examinando a carta recebida.
+
+--Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que
+chegaram.
+
+E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas
+de Lisboa.
+
+Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a
+leitura, exclamando:
+
+--Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?
+
+Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.
+
+Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro.
+
+--Ha alguma má nova?--perguntou Henrique, ferido por aquella expressão.
+
+Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura
+até o fim.
+
+Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
+n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a
+mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.
+
+--Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
+perturbar?--perguntou Henrique, já assustado tambem.
+
+--Não sei bem; não posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas
+sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.
+
+--Mas a final o que se diz ahi?
+
+--Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
+certo doloroso.
+
+Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos.
+
+N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um
+abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer
+quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias
+uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem
+politica do que o secretario intimo do ministro.
+
+O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
+compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação
+que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O
+periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado
+os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
+discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre
+quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia,
+recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança
+que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como
+por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á
+filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e
+por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos
+comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa
+classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa,
+como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão--a
+vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres
+a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar
+offendidos, é natural encontrar o criminoso.»
+
+--Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.--De que se
+trata aqui?
+
+--Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é
+necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os
+que, como eu, teem entrada n'esta casa, é isto um mysterio em que a
+nossa honra está empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar
+suspeitas.
+
+-Por amor de Deus!--acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.--Não
+pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até
+aqui não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.
+
+--Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador,
+prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.
+
+--Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
+occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma
+intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu
+Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do
+dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! Meu pae não tem crimes;
+meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos
+as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?
+
+--Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
+criminosos...
+
+--A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para
+explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica
+sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois...
+ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da
+sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma
+nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre
+necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?
+
+--Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem
+fôr escrupulosamente fiel á sua.
+
+--Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh!
+ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vêr...
+quero saber que carta é esta.
+
+Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que não
+costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o
+que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido
+e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
+effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
+Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de
+filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente
+nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas
+frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
+fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém.
+Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe
+revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os
+periodicos:
+
+--Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga
+ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha.
+
+E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de
+que elle mais receiava.
+
+E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.
+
+Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
+Magdalena.
+
+Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, que até
+alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n'um ponto;
+contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou
+e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um
+movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção
+profunda:
+
+--Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d'elle, a fôrça precisa para
+fugir d'estes enredos! Isto é de enlouquecer!...
+
+Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
+examinou-a.
+
+Tinha conjecturado bem.
+
+O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
+tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia.
+Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época,
+impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
+lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande
+significação nem gravidade. O caso era o seguinte:
+
+Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questão
+politica; uma d'estas questões que servem para estremar os campos e
+descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os
+principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
+inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avançadas
+ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir
+n'esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem
+apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem
+que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a fé nas
+utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer
+pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a
+localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a,
+sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se
+parlamentar, se chama conveniencias politicas.
+
+Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no
+conselheiro.
+
+Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua eloquencia,
+variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão
+espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o
+proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discussão, de que
+falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os
+adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o
+conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação
+taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das
+contingencias. Entenderam-se.
+
+Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou
+ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma
+opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á
+provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a
+questão.
+
+Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
+inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
+contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi
+apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós
+a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a
+discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar
+nos circulos politicos contra o resultado da votação e expender as
+razões que deveriam fazer repellir a medida.
+
+Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia;
+e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d'ella.
+
+Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do
+secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as
+condições do pacto.
+
+Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia
+politica do conselheiro soffreu com isso.
+
+Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
+possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
+declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.
+
+Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem,
+invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora
+caia com elles o partido a que se filiam.
+
+Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos
+taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu
+risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.
+
+Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a
+consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma
+significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique
+de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam
+attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.
+
+A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de
+familia.
+
+É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de
+quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos
+lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da
+virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel
+julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas
+dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes,
+filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á
+prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com
+lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter
+duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para
+os actos domesticos.
+
+Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no
+animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente
+moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.
+
+Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem
+cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e
+penosa impressão que lhe ficára da leitura.
+
+Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se
+julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse,
+em tom já apparentemente sereno:
+
+--Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as
+cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas
+não se pronuncia claramente.
+
+N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma
+viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em
+grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de
+manhã os fogões da casa.
+
+Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado,
+levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um
+interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos
+quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique
+tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e
+inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar
+de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.
+
+--Aqui entre nós--dizia Henrique--vejamos em quem se pode, com
+plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem;
+um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de
+valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra
+especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta
+o Mosteiro...
+
+E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para
+elle com um gesto espantado:
+
+--Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos
+indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem
+processo.
+
+--Ora essa, primo Henrique!--exclamou D. Victoria.--Era o que faltava!
+Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.
+
+Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este
+episodio.
+
+Henrique proseguiu:
+
+--Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem
+deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém,
+alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que
+n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que
+por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu
+pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a
+ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações,
+porém...
+
+Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,
+antes de enuncial-a.
+
+--Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.
+
+--Diga, primo, diga--acudiu logo D. Victoria.
+
+--A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha
+áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores
+velhas...
+
+--Então julga que foi o Vicente?--perguntou D. Victoria.--Mas elle não
+vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.
+
+--Não digo que fôsse elle, minha senhora--disse Henrique, cujo embaraço
+augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante,
+como se lhe estivesse lendo o pensamento.
+
+--Então?--insistia D. Victoria.
+
+--Mas--proseguiu Henrique--o velho exerce certa fascinação na gente da
+terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e
+alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero
+seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse
+rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos
+resentimentos da minha parte.
+
+--Faz bem em o abandonar, primo Henrique--disse Magdalena, com
+severidade.--Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita
+injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um
+passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais
+tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio,
+não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da
+suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada
+respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e
+filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia;
+culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer
+arvorar.
+
+--Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento
+sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e
+adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode
+dar do proprio caracter.
+
+D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:
+
+--Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo!
+Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.
+
+Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora
+das lições dos pequenos.
+
+Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao
+Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e
+com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de
+Natal.
+
+A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais
+pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até
+sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o
+caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor,
+cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D.
+Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos
+termos trocados entre Henrique e Magdalena.
+
+--Muito bons dias, sr. Augusto,--disse D. Victoria affavelmente--então
+são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De
+manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!
+
+--Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte
+das minhas obrigações--disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e
+Henrique.
+
+--Como?
+
+--Pois v. ex.^a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu
+logar?
+
+--Que me diz?
+
+Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.
+
+D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O
+gesto de Henrique tinha uma expressão particular.
+
+--Recebi ha dias a participação official--continuou placidamente
+Augusto.
+
+--Mas--proseguiu D. Victoria--o mano tinha aqui dito que o seu despacho
+estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu
+cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo
+menos com esta gente. Isto de politicos...
+
+Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.
+
+--Bem vê v. ex.^a--disse Augusto, com leve tom de amargura--que ás vezes
+ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto
+professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve
+extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.
+
+Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os
+de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.
+
+A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe
+manifestou na contracção da fronte.
+
+--V. ex.^a dá-me licença que principie os meus trabalhos?--disse
+Augusto.
+
+--Ai, quando quizer--respondeu D. Victoria.--Os pequenos estão na sala
+verde.
+
+Augusto saiu.
+
+D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se
+fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que
+aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.
+
+--Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um
+homem--dizia ella.--Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta;
+ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.
+
+E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi
+buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do
+filho.
+
+--Não vejo ...--disse ella, remexendo os papeis.--Isto que é?... Ai,
+isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.
+
+Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.
+
+--Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não
+entendo, mas hão de estar bons.
+
+E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma
+attenção.
+
+--Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse.
+Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja,
+primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a
+leio... Quer vêr?
+
+Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe
+ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos
+filhos.
+
+Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no
+fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e
+outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos
+labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.
+
+Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a
+impressionou:
+
+--Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta
+do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças
+não a comprehenderiam bem.
+
+Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a
+ler.
+
+Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade,
+que a obrigou a ler com rapidez até o fim.
+
+Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto
+entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.
+
+D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.
+
+--Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
+
+--É que ha momentos, minha tia,--respondeu Magdalena, fitando-a com os
+olhos arrazados de lagrimas--em que eu não sei como se resiste á
+loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar
+da Providencia, que dizem que protege os bons.
+
+E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos
+soluços.
+
+D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que
+ella não podia comprehender.
+
+Henrique respondeu simplesmente:
+
+--Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr.
+Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro
+se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.
+
+D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da
+resposta.
+
+--Mas... n'esse caso... visto isso...
+
+--Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha
+pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham
+infelizmente um fundo de verdade.
+
+D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:
+
+--Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não
+esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora
+deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi
+está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...
+
+--Eu retiro-me--disse Henrique, pegando no chapéo para sair.
+
+--Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...
+
+--Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para
+isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.^a e elle, e, se me é licito um
+conselho, bom será que não seja demasiado violenta.
+
+Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.
+
+Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha
+feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e
+irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?
+
+Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel
+ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de
+todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a
+justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que
+commettemos um mal, formulando uma accusação.
+
+Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos
+escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.
+
+D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e
+castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo
+que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.
+
+Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que
+lhe esquecêra na sala.
+
+--Que procura?--disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.
+
+--Uma pasta que deixei aqui!
+
+--Será esta?--disse D. Victoria, mostrando-a.
+
+--É essa mesma--respondeu Augusto, indo para buscal-a.
+
+--Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr.
+Augusto?--perguntou D. Victoria, retendo a pasta.
+
+--Muito bem, minha senhora.
+
+--Já entenderam esta carta?
+
+Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.
+
+--É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver
+escolhido esta entre as que v. ex.^a me deu.
+
+--Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe
+pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a
+imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses
+gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que
+fez, para se mandar pagar.
+
+D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior
+aos seus habituaes expedientes de espirito.
+
+Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia
+comprehender aquellas singulares palavras.
+
+--Diz v. ex.^a que...
+
+Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que
+Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou:
+
+--Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
+
+Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia
+nem o que queria dizer tudo aquillo.
+
+--Mas, por amor de Deus, minha senhora,--disse elle, já
+sobresaltado--que quer dizer tudo isto?
+
+--Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de
+atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em
+esconder as provas da sua villeza.
+
+--Minha senhora!--exclamou Augusto, fazendo-se pallido.
+
+--Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós
+ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a
+carta.
+
+--Oh, meu Deus! pois suspeita-se...
+
+E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e
+começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem
+que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.
+
+Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:
+
+--Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é
+um homem que sabe o que é o mundo...
+
+Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e
+scintillou-lhe o olhar de cólera:
+
+--Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar
+que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame,
+uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...
+
+--Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos--disse D. Victoria,
+interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.
+
+Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:
+
+--Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não
+lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham
+habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É
+uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar
+para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a
+desconfiança que lhes semeia tão cêdo.
+
+D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não
+ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as
+singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso,
+onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.
+
+É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos,
+commovida.
+
+Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento
+tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas
+inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no
+seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos
+olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos
+os prestigios.
+
+Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a
+reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.
+
+--Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não
+succumbir;--exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o
+rubor da exaltação--obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa
+memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a
+intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao
+encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador
+leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta
+casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena,
+unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que
+no teu pensamento o meu nome não é o de um infame.
+
+Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.
+
+Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se
+respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.
+
+--Espere,--disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda
+melancolia--não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o
+reputou sempre innocente.
+
+Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.
+
+Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a
+estender-lhe a mão.
+
+Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.
+
+--Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!--exclamou elle--precisava
+d'essas palavras para não enlouquecer.
+
+--Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão.
+Creio-o firmemente.
+
+--E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa
+generosa confiança. Juro-lh'o.
+
+As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos;
+iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando
+Christina entrou na sala.
+
+Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a
+scena e a commoção dos dois.
+
+Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.
+
+Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando
+correr livremente o pranto.
+
+Christina correu a abraçal-a.
+
+--Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?--exclamou Christina.
+
+E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel
+ingenuidade:
+
+--Pois tu... amaval-o?
+
+Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.
+
+E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu do
+Mosteiro, ainda sem plano formado, sem tenção definida, mas
+comprehendendo vagamente a necessidade de abraçar uma resolução
+qualquer.
+
+As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltára, tinham-lhe feito
+conceber a suspeita de que Henrique não fôra alheio á calumnia que
+pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga não ia
+longe, e justo é confessar que não era destituida de plausibilidade a
+ideia.
+
+A especie de aversão reciproca que, desde o primeiro encontro, os
+dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de Natal, em que
+ficára pendente entre elles uma provocação, só á espera de pretexto,
+concorriam para dar vigor a esta supposição.
+
+Por isso, depois de por muito tempo percorrer á tôa os caminhos dos
+campos, sem consciencia nem destino, Augusto encaminhou-se resolutamente
+para Alvapenha.
+
+Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que
+occasionaram a sua accusação. Mal poderia até dizer de que era accusado.
+Percebeu que se tratava de um abuso de confiança, de uma infamia, mas a
+impressão recebida fôra tal que não o deixára investigar os pormenores
+do facto. Previa em tudo isto uma traição, e, para a esclarecer,
+dirigiu-se á unica pessoa de quem lhe parecia provavel que ella
+partisse.
+
+Quando chegou a Alvapenha já tinha alli passado a hora de jantar.
+
+Henrique retirára-se para o quarto, D. Dorothéa e Maria de Jesus,
+aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a rezar parte das
+suas longas orações quotidianas.
+
+Quando Augusto bateu á porta, estavam ellas de volta com a ladainha, que
+D. Dorothéa dizia em latim, a seu modo, e a que Maria de Jesus respondia
+no mesmo idioma.
+
+--_Turris e burris, fedilisarca, espeque da justiça, Joannes
+asellis_--dizia D. Dorothéa.
+
+--_Orá pér nós_--respondia invariavelmente a criada.
+
+A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala.
+
+Poucas situações se podem conceber mais exasperadoras de animo do que a
+de Augusto n'aquelle momento.
+
+Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixões, trazer no
+coração uma verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na
+presença de duas indoles essencialmente pacificas, de dois corações a
+que a paixão nunca alterou o rithmo, de duas consciencias de que nunca a
+dúvida, o remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, é um
+martyrio cruel.
+
+Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.
+
+--Ditosos olhos que o vêem!--disse D. Dorothéa, arredando deante de si a
+dobadoura, para mais á vontade contemplar o recem-chegado.--Não sei que
+mal lhe fizeram n'esta casa!
+
+--As minhas occupações...--balbuciou Augusto, sem saber o que dizia.
+
+Maria de Jesus veio de reforço á ama.
+
+--Isso! fale-nos nas suas occupações, nem que se não soubesse cá que
+todos os dias dá o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas
+quintas-feiras e domingos...
+
+Augusto não respondeu.
+
+--Pois olhe que todos aqui lhe querem bem--disse D. Dorothéa.
+
+--Assim o creio, minha senhora.
+
+--Eu fui muito amiga de sua mãe, que era uma santa creatura. Inda me
+parece que a estou a vêr ahi sentada, com aquella capa rôxa que trazia.
+A alegria d'ella, quando o Augustito veio de Lisboa! Vi-a chorar e
+agradecer a Deus o filho que lhe tinha dado... Todo o seu desejo era não
+morrer antes de o vêr padre; queria pelo menos uma vez commungar das
+suas mãos... Coitada!... Não lhe concedeu isso o Senhor, que bem cêdo a
+chamou a si.
+
+E continuou para Augusto:
+
+--Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui
+do legado que ella deixára, eu disse logo: «Ora a alma tem ella no Céo
+por isto, quando por mais não seja». Porque, emfim... só quem não
+conheceu sua mãe é que não diria outro tanto. Verdade é que elle não
+chegou a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o
+que lhe não convem. E eu digo, a vida de sacerdote é muito bonita, isso
+é, mas... não havendo inclinação...
+
+Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha.
+
+--O sr. Henrique de Souzellas está em casa?--perguntou elle, logo que
+pôde.--Desejava muito falar-lhe.
+
+--Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle
+deve estar no quarto... Ha de estar a ler. Não tem outra vida aquelle
+rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: «Henriquinho, olha que
+isso faz-te mal...» É o mesmo que nada. Só ler, ler, ler, que é uma
+coisa por maior. Ao principio ainda por ahi dava alguns passeios...
+Agora, tirando lá as suas visitas ao Mosteiro, elle para ahi fica. Lá ao
+Mosteiro sim, para ahi ainda elle vae.
+
+--É que os ares são por alli muito saudaveis--disse maliciosamênte Maria
+de Jesus.
+
+--Adeus! ahi vem vossê com as suas coisas. E então que tem? Pois está
+claro que um rapaz, como elle, dá-se com a gente nova.
+
+--Pois sim, senhora, eu não digo...
+
+--E as raparigas de lá já não estão bem sem elle... Ora eu confesso,
+quando elle está de maré, é um gôsto ouvil-o. Sempre ás vezes tem coisas
+que fazem rir as pedras.
+
+--E pondo-se a contar historias? Ih! isso então é que é! Eu não sei onde
+elle as vae buscar!--accrescentou a criada.
+
+--Com esta--continuou D. Dorothéa, apontando para Maria de Jesus--é ás
+vezes um passo. Eu ainda queria que o Augustito os ouvisse a ambos. É
+perdido em pouca gente. Elle põe-se lá a inventar patranhas, e ella a
+tôla, que sabe já como elle é, ouve tudo muito séria e fiada, e no fim
+então é que são os escarcéos. Emfim, uma coisa é dizer, outra é vêr!
+
+E D. Dorothéa ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em que ha não
+sei que indicios de uma existencia placida, que consola ouvir.
+
+Augusto forçava-se a sorrir áquellas narrações das duas velhas, a que
+elle mal attendia.
+
+--Eu digo--continuou D. Dorothéa--que já nos havia de fazer falta se
+saisse d'aqui; quando cá não está parece-me a casa morta.
+
+--Deixe lá, senhora, que este já d'aqui não sae.
+
+--Ora bem sabe vossê d'isso.
+
+--Pois a senhora verá. Ora! Os passeios ao Mosteiro são muito bonitos.
+
+Augusto ergueu-se, devéras resolvido a cortar a conversa por uma vez.
+
+--Se me dá licença, eu vou procural-o ao quarto. Desejava falar-lhe,
+quanto antes, para um negocio de urgencia.
+
+Depois de mais algumas reflexões, resignaram-se a deixal-o partir.
+
+Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto de
+Henrique, e bateu á porta d'este.
+
+--Entre quem é--disse de dentro Henrique.
+
+Augusto entrou.
+
+O sobrinho de D. Dorothéa estava sentado junto da janella, lendo uma
+folha e fumando.
+
+Ao vêr Augusto levantou-se.
+
+A lembrança das scenas d'aquella manhã no Mosteiro, e a expressão de
+physionomia de Augusto, fizeram-lhe prevêr a indole da entrevista que se
+ia seguir.
+
+Evitando porém o menor indicio, que pudesse revelar a prevenção em que
+estava, disse naturalmente, estendendo a mão a Augusto:
+
+--Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita?
+
+Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:
+
+--Assim estende a mão a um miseravel? Ou é tibieza de pundonor, ou
+excesso de magnanimidade!
+
+Henrique retirou logo a mão e respondeu com orgulhoso desdem:
+
+--Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para não me
+arvorar em superintendente de negocios que me não dizem respeito; é um
+sentido especial, que se chama delicadeza.
+
+--É um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso sentido--replicou
+Augusto no mesmo tom.--Nem sempre são tão observadas pelo senhor, essas
+delicadas abstenções, como agora. Sei-o por experiencia.
+
+--Não o são desde que os interessados me ordenam que intervenha, e desde
+que a minha intervenção pode ser util a amigos.
+
+--Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em relação
+ao objecto que me traz aqui, espero que me explique a natureza da sua
+intervenção.
+
+--Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui explicações?
+
+--Com o direito que me dá a consciencia, senhor!--respondeu
+energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de
+ironia.--Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e
+infamemente, como eu fui, de provocar uma accusação aberta e leal.
+Direito? É mais ainda do que direito, é dever. É um dever para com a
+moral, é um dever para com a consciencia, é um dever para com a memoria
+d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado.
+
+--Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e não
+lh'o contestarei, por que singularidade acontece que seja eu a pessoa
+que tem de responder por tudo isso? Por acaso será este o pretexto, para
+depois do qual tinhamos adiado uma entrevista que suppuzemos
+necesssaria?
+
+--Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem infame
+e vil. Não lh'o invejo. Da minha não é pretexto; é uma interrogação bem
+positiva e terminante. Todos os motivos anteriores, que podiam
+auctorisar-me a procural-o, cessaram ante a impreterivel exigencia
+d'este. Preciso de justificar-me, e por isso preciso de conhecer e de
+ouvir os meus accusadores.
+
+--E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia
+escolher uma hora mais cómmoda. Sabe que na Alvapenha se janta
+patriarchalmente ao meio dia.
+
+--Não julgue que com essas ironias de mau gôsto, se esquivará a
+responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a falar com seriedade.
+
+--E tem meios para isso?
+
+--Faço-lhe a justiça de acreditar que sim; creio que ainda não estará
+tão envilecido que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe
+infligir...
+
+--É provavel que não risse, no caso que diz; mas tambem não falava,
+acredite. Ha, para interrogações d'essas, respostas mais adequadas e
+discretas. Não tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, quem lhe disse
+que eu não queria dar-lhe todas as explicações que souber? Sente-se,
+conversemos placidamente, que é a melhor maneira de vêr claro nas
+coisas. Não fuma?
+
+Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia:
+
+--Está-me causando tedio e compaixão ao mesmo tempo, senhor. Deve ter já
+uma alma bem corrompida para me receber assim. Ainda quando eu fôsse um
+criminoso, se no seu caracter houvesse brio, dignidade e sentimento
+moral, devia a minha presença ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto,
+para o não deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza em que
+está, em que deve estar por fôrça, a só ideia de que pode calumniar um
+homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a gravidade
+d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser attendido.
+Para não comprehender isto, para não respeitar esse sagrado direito, que
+tem todo o accusado de se defender, é necessario estar corrompido até o
+fundo da alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, só se
+dá em quem duvída de si proprio, e a si proprio se não respeita, porque
+se conhece. O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia,
+cujos amigos generosos não a receberam sem dor; e quando o calumniado
+lhe vem pedir explicações, porque se trata da sua unica riqueza, porque,
+sem familia e pobre, e ámanhã talvez na miseria, precisa de defender o
+unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um sorriso ultrajante,
+para occultar talvez a cobardia, que não ousa repetir na face do
+accusado as insinuações que contra elle fez na ausencia. Se a
+consciencia lhe não exprobra esta infamia, teve razão ao dizer-me que me
+enganei procurando-o. A caracteres d'esses não se pede a explicação da
+calumnia; é a sua manifestação natural.
+
+E terminando estas palavras, que a mais violenta paixão lhe dictára,
+Augusto caminhou para a porta do quarto.
+
+Henrique deteve-o.
+
+No espirito do leviano hospede de Alvapenha passára-se n'este curto
+intervallo de tempo uma profunda revolução moral.
+
+Na voz, no gesto e na indignação de Augusto pareceu-lhe perceber
+vestigios de sinceridade, em que até alli não acreditára, e desde esse
+momento, além dos remorsos pelos desdens com que o recebêra, sentia viva
+a necessidade de uma reparação.
+
+Magdalena tinha razão.
+
+No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um não exgotado
+fundo de pundonor e de moralidade.
+
+--Não saia--disse elle para Augusto, já sem a menor sombra de
+ironia.--Se para isso fôr necessario pedir-lhe perdão, pedir-lh'o-hei.
+Que mais quer?... Reconheço-lhe o direito que tem de ser escutado.
+Fique. E creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu,
+que em bem pouco concorri para ellas, sinto-me já movido a não lhes dar
+fé. É já um convencimento tão intimo como o que até agora tinha da sua
+culpa, confesso-o. Se na minha mão estiver esclarecer o mysterio, conte
+commigo. Fale.
+
+Augusto fitava-o ainda com desconfiança.
+
+Henrique percebeu-o e continuou:
+
+--É justa a dúvida que lhe leio no olhar, mas, como sómente o meu
+procedimento futuro a pode desvanecer, peço-lhe que não deixe por isso
+de falar.
+
+--Antes de mais nada: de que me accusam?--perguntou Augusto.
+
+--Pois não sabe?!--exclamou Henrique, admirado.
+
+--Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a conclusão em
+que fiquei, mal me deixou comprehender...
+
+Henrique contou então tudo o que se passára no Mosteiro, e terminou
+dizendo:
+
+--Já vê que eu não fiz mais do que faria outro qualquer em meu logar.
+Pesava sobre todos quantos frequentavam aquella casa uma desconfiança
+odiosa: esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lançar aos hombros
+do culpado toda a responsabilidade da traição, era o natural empenho de
+todos. A descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta
+foi occasionalmente feita por D. Victoria. Eu não o conhecia bastante
+para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das
+apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por
+aquella occasião confirmaram, explicavam muito bem certas tentações de
+vingança... Nada mais natural do que suppôr...
+
+Augusto cobriu o rosto com as mãos, murmurando:
+
+--Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de...
+
+Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a indiscreção da sua dor.
+
+Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas disposições para
+com Augusto; por isso, quando este cortou assim em meio a expressão do
+pensamento, elle, que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo:
+
+--D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto,
+advogados eloquentes.
+
+Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador.
+
+--Diz que...
+
+--Que não deve temer da impressão produzida, por todas as provas d'este
+mundo, no animo de quem, através de tudo, acreditará sempre na sua
+innocencia.
+
+--Refere-se a...
+
+--Ao seu segredo, que ha muito o não é para mim. Veja como eu estou
+virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com elle, quando ha pouco
+tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a causa occulta de tal ou
+qual antipathia, que sentia pelo senhor... que sentiamos um pelo outro,
+digamos assim.
+
+--Mas...
+
+--Vamos, vamos... eu sei que é discreto; nem esta era occasião para
+entrar em confidencias. Tratemos do que mais importa... Não sei como é
+que iria jurar agora a sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e
+com o tempo... porque francamente lhe declaro que me é necessario algum
+tempo para desvanecer em mim todos os restos de despeito e de...
+paixão... porém, com o tempo, talvez venha a ser seu verdadeiro amigo...
+sem a menor prevenção.
+
+E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom:
+
+--Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes
+inimigos aqui na terra para o enredarem assim! É preciso esclarecer
+isto.
+
+--Inimigos?!... Não os conheço, nem vejo motivos...--disse Augusto,
+pensativo. Mas de repente, como se lhe acudisse um pensamento luminoso,
+fez um gesto que Henrique percebeu.
+
+--Que é?--perguntou este logo.--Descobriu?... Diga... Uma suspeita é já
+um rasto precioso... guia os primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei
+a seguil-o.
+
+--Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi. É isso...
+
+E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.
+
+--E ainda agora se lembra d'elle?--exclamou Henrique, ao ouvil-o--e inda
+hesita?! O senhor é de uma boa fé!... Temos o fio!
+
+--Mas como pôde elle...?
+
+--Isso depois; o mais virá a seu tempo. Agora trata-se de vigiar esse
+senhor... E agora me lembra; elle é um dos oradores do club do Canada...
+Sondarei esse antro tenebroso... Eu já devia suppor que andava aqui
+miseria politica... Estou a achar razão áquella adoravel Magdalena...
+Perdão... inda não perdi o habito de a adorar... Tambem, desde que o
+consiga, serei seu amigo sem restricções. Até lá, porém, não será isso
+motivo para de corpo e alma me não dedicar á sua causa... Eu posso ter
+todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma velhacaria;
+e, fôsse o meu maior inimigo que eu visse victima d'ella, creia que
+procuraria desfazel-a.
+
+--Agradeço-lhe essas palavras, que acredito são sinceras; não posso,
+porém, acceitar a intervenção que me offerece. Eu sou que devo
+justificar-me. Está empenhada n'isso a minha dignidade.
+
+--Como queira. Em todo o caso espero que uma má prevenção o não
+constranja a não recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio lhe puder
+servir. Agora peço-lhe perdão, se alguma vez o offendi de mais; mas
+vamos lá, o senhor tambem não está de todo isento de culpa... E quanto
+ao pretexto... adiado mais uma vez, não lhe parece?
+
+Augusto não podia fechar-se áquelle caracter, que se lhe estava
+mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso respondeu,
+sorrindo:
+
+--Adiado para sempre.
+
+E estenderam as mãos um ao outro, apertando-as já sem o menor
+resentimento.
+
+Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender.
+
+--É notavel;--pensava comsigo Henrique--estou sympathisando á ultima
+hora com este rapaz! Mas como se combina isto com a minha paixão por
+Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha que ella acertasse, e
+que não fôsse paixão o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista tão
+apurada para estas discriminações!
+
+
+
+
+XXIV
+
+
+O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes;
+porém, graças ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a
+favor do prêso, e apesar da perseguição que lhe moviam os padres,
+contava-se que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia dentro em
+poucos dias.
+
+Magdalena não se descuidára de mandar todos os dias ao pobre homem
+noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado
+sérios cuidados á medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo
+de convalescença.
+
+Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber
+por quê, ella propria não sentia as esperanças que dava.
+
+Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, á
+maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximação
+do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feição
+assustadora.
+
+Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de
+saude principia a tingir as faces, até então pallidas, e elles sentem-se
+ainda estremecer de secretas apprehensões.
+
+Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feições da pequena
+Ermelinda.
+
+A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de
+vida principiára já a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de
+terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancolico,
+distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras
+nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia
+assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as
+vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar
+n'ella.
+
+O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado
+pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar
+d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a
+dar-lhe a boa nova.
+
+E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehensões
+da morgadinha.
+
+Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais tranquilla
+e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os
+indicios do mal profundo.
+
+Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores,
+gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia
+despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao
+dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi
+completa insensibilidade de funesta significação.
+
+Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e
+trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, já
+quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.
+
+Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de
+inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que
+principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creança;
+ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas
+para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um
+reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára.
+
+Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já vacillante, com a
+expressão, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se
+despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente
+para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade.
+
+Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes
+lagrimas.
+
+A morgadinha apertou-a ao seio, commovida.
+
+--Que tens tu, minha filha?--disse-lhe com meiguice, afagando-a.
+
+Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma
+expressão de affecto e de tristeza.
+
+A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a.
+
+A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a
+como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a Magdalena
+haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a inquietou.
+
+Palpou as mãos da creança; estavam frias; o coração, parado; chamou-a
+pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas
+feições... estava morta.
+
+Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o
+adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella,
+arrebatasse nas azas para o throno de Deus.
+
+A morte de uma creança como Ermelinda é um facto de ordinario
+indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz
+que emmudece nos festivos córos da infancia; algumas sentidas lagrimas
+de mãe sobre um berço vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á
+superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a rosa
+desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis tudo.
+
+A multidão segue no delirio das festas, na lucta das paixões, na febre
+da ambição e das glorias, e o perfume da flor pendida não lhe affecta os
+sentidos embriagados.
+
+Ás vezes, porém, não succede assim, e assim não devia succeder com
+Ermelinda.
+
+As paixões humanas, que ante o cadaver de uma creança, coroada de flores
+candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como
+deante de uma visão do Céo, tomam-n'o ás vezes por estimulo para mais
+furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedição e a
+vingança.
+
+Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente os
+enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito do povo, não
+tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em
+execução.
+
+A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas instigações de
+alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do
+conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas não rompêra em explosão
+por falta de pretexto.
+
+Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um
+maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á formação de
+magotes nas encruzilhadas e nos largos.
+
+Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a
+effervescencia dos animos. Era chegado o momento.
+
+A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz
+que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa do Mosteiro. Cumprindo
+assim a lei, prestava-se tambem culto á affeição que todos sentiam pela
+creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irmã.
+
+Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a indignação popular.
+
+No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde
+do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada
+extraordinario ajuntamento.
+
+O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas,
+alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joãozinho,
+falavam, berravam e gesticulavam a um tempo.
+
+O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e
+guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que
+pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraiçoar, achava-se
+agora muito abalado, porque na questão dos cemiterios era intolerante,
+não podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, como
+elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio.
+
+O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joãozinho, não
+se cançava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e
+atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia.
+
+Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão do morgado
+para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do coração do
+conselheiro, que privára cruelmente o pobre velho da sua propriedade,
+golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito
+contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe
+poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha
+interesse em que não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma
+grande porção dos proprios bens.
+
+Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de grosseiro e
+bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos
+de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes.
+
+Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o espirito
+tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que
+elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de
+Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este
+negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o
+que dava logar a novas punhadas, novas irritações e a novas pragas do
+sr. Joãozinho.
+
+No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de costume, as
+suas libações de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio
+fechados, ouvia com irritação os commentarios dos circumstantes e
+distribuia com profusão pragas e murros.
+
+--Com os diabos!--berrava elle, acabando de despejar um copo de
+quartilho.--Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir á
+igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena.
+
+--Isso não se faz assim com essa facilidade e arreganhos--disse
+velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais.
+
+--Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa que me
+dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do Cancella... não tenho eu
+nada... lá se avenham.
+
+--A questão não é ser filha do Cancella ou deixar de ser;--tornava o
+brazileiro--a questão é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os
+outros.
+
+--Menos eu--exclamou o morgado.
+
+--Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar.
+
+--Diabos me levem se...
+
+--Pelos modos--disse um padre do lado--elles enterram a rapariga no
+tumulo da familia do conselheiro.
+
+--Pois vêdes; se elles são todos da mesma confraria!--ponderou o
+Pertunhas.
+
+--E se não, é vêr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Então
+julgam que aquillo não foi combinação?--disse o padre.
+
+--Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe
+bater--accrescentou um lavrador.
+
+--A mim me disseram que trinta.
+
+--Sempre uma pouca vergonha como aquella!
+
+--E verão que não lhe succede mal.
+
+--Pois não, não; elle está alli, está na rua.
+
+--Diz-se que o soltam á fiança.
+
+--Não pode ser; aquelle crime não tem fiança--ponderou um fazendeiro,
+que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justiça.
+
+--Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles...
+
+--Aquillo parece uma seita.
+
+--E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles são pedreiros-livres.
+
+--E o tal lisboeta?
+
+--Esse, então, é que é d'aquelles!
+
+O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique.
+
+--Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caçoar
+com o missionario? Sempre vossês são uns homens de lama, tambem! Ó
+Cosme--continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao
+lado d'elle--olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo?
+
+O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros.
+
+--Pois, senhores--proseguiu o brazileiro, que não queria deixar
+arrefecer o enthusiasmo e a irritação do publico--hoje decide-se a
+coisa... D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso
+faz lei.
+
+--Isso é que é verdade--secundou o Pertunhas.
+
+--Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir desenterral-a--respondeu,
+cada vez mais azedado, o sr. Joãozinho
+
+--Não; isso lá mais devagar--acudiu o brazileiro--vossemecê bem sabe
+que, estando ella no mausoléo do conselheiro...
+
+--Importa-me cá o mausoléo? O senhor está a ler. Eu com um empurrão
+arrumo aquella platafórma a terra. Ó Cosme, olha nós, hein?
+
+O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
+
+--Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de
+vontade, que não deixasse fazer o enterro--disse o padre.
+
+--Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca assim com o
+povo.
+
+--Lá isso era!--repetiram algumas vozes.
+
+--Eu por mim... se alguem fôr...--aventurou um.
+
+--E eu, eu--ouviu-se dizer de alguns pontos da sala.
+
+--Deixem-se de contos,--continuou o padre--elles fazem o que querem,
+porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha á frente do
+povo...
+
+--Lá isso é que é verdade.
+
+--Já não ha homens para as occasiões.
+
+O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de valente, e se gabava de
+ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e
+protestou dizendo:
+
+--Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, não vou ao cemiterio,
+eu só, e ponho tudo aquillo em cacos? hein?
+
+--Isso não se faz com essa facilidade--disse o brazileiro
+impertinentemente.
+
+--A quanto aposta vossê?--bradou, cada vez mais afogueado, o sr.
+Joãozinho.
+
+--Ora vamos--continuava o brazileiro com os mesmos modos--não que a
+auctoridade...
+
+--A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! O regedor
+commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco?
+
+O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes:
+
+--Se queres tentar...
+
+--Com mil demonios!--disse o morgado, exgotando mais um copo--vamos a
+isto! anda d'ahi, ó Cosme!
+
+O Cosme levantou-se.
+
+--Nada de imprudencias--aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a
+significação contraria ao pensamento que exprimia.
+
+--Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se
+ha ou não ha um homem para as occasiões.
+
+E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus arrojados camaradas,
+e o brazileiro já conferenciava com o padre, que lhe respondia com
+signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle
+movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por não
+habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou
+geral extranheza.
+
+Era Henrique de Souzellas.
+
+Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos
+occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a
+cavallo e deu um longo passeio pelos arredores.
+
+Na volta achou-se defronte da taberna do Canada.
+
+Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e das pragas que iam lá
+dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que
+fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vêr se encontrava
+vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto.
+
+Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou.
+
+Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a sua presença, e até,
+pela expressão com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse
+demasiado prudente o passo que dera.
+
+Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor
+manifestação de receio.
+
+Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia.
+
+O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente
+do que desejava o recem-chegado.
+
+Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não obstante estar
+firmemente resolvido a não lhe tocar.
+
+O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio
+associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da
+sêde.
+
+Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu
+a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos
+havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se
+lançasse uma pedra de gêlo.
+
+Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e
+que ameaçava degenerar em maior tormenta.
+
+O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para não ser
+visto; o sr. Joãozinho olhou para Henrique, como se o não conhecesse, e
+conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no
+recem-chegado olhares sombrios e ameaçadores.
+
+Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, sustentava-os sem
+desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a
+pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos.
+
+--É preciso ensinar estes espiões--dizia uma voz audivelmente.
+
+--Que quererá d'aqui este figurão?--perguntava outro.
+
+--Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a nossa vida...
+
+O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braços sobre a
+mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para
+Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe já algum tanto a voz nas
+fauces:
+
+--Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar,
+sempre lhe dou uma lição, que lhe ha de lembrar toda a vida! Não, que
+isto aqui não é Lisboa! Eu não admitto que se olhe para mim com falta de
+respeito... Já disse! Eu não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto!
+O senhor não ouve?
+
+Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado.
+
+--Ó senhor lá... Faz favor de não olhar para mim d'essa maneira?
+
+Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu.
+
+--Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera!
+
+E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se.
+
+O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos.
+
+Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos.
+
+--Então! então! isso o que é?
+
+--Quero perguntar áquelle senhor de que é que se ri--bradava o morgado,
+furioso.
+
+--Para isso não se incommode--respondeu Henrique--eu mesmo d'aqui lhe
+respondo. Rio-me da ridicula figura que está fazendo.
+
+--Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó Cosme!...
+
+E o morgado barafustava entre os braços debeis que o retinham. No povo
+principiou a subir a maré das murmurações contra Henrique.
+
+--O senhor vem para aqui armar desordens?
+
+--É para espiar?
+
+--Depois queixe-se...
+
+--Não se metta com a gente.
+
+O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mãos
+que o retinham, conseguiu, graças aos seus musculos robustos, sacudir de
+si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por prevenção se
+collocou a pé.
+
+O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para
+elle:
+
+--O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para
+mim... Quero vêr agora se ainda se ri.
+
+--Por que não? Se cada vez está mais ridiculo!
+
+O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a
+Henrique.
+
+Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante
+de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, dizendo
+motejadoramente:
+
+--Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar.
+
+O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho ficaram litteralmente
+tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mão á faxa da cinta, como
+a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se
+a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si.
+
+O morgado torcia-se e espumava sob a constricção de Henrique, e já
+congestionado e rouco bradou:
+
+--Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse maldito!...
+
+A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do
+Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zangão.
+
+O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crédito do
+estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que
+infallivelmente lhe seria fatal.
+
+A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido.
+
+Henrique estava incólume, e o morgado sôlto.
+
+Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado preparava-se com os
+seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre
+bradarem:
+
+--Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo!
+
+E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por
+varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e tão
+convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco:
+
+--Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao
+cemiterio!
+
+--Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.
+
+--E queime-se a papelada da camara!
+
+--E mate-se o escrivão de fazenda!
+
+--E quebrem-se os vidros do Mosteiro!
+
+--E pegue-se fogo á casa!
+
+Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho.
+
+--Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio!
+Atiremos a terra com o tal mausoléo!
+
+E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto,
+percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do
+Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o
+e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se
+anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar
+por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no
+ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada,
+partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique,
+acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.
+
+Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do
+cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se
+pacificamente aos lares.
+
+O sino da igreja continuava a repicar.
+
+
+
+
+XXV
+
+
+Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia
+por aquella tarde de inverno!
+
+Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de
+toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo
+ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes.
+No centro d'este espaço elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da
+familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os
+ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a
+erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes
+ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se
+um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se
+podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos
+campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli,
+a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro,
+agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria.
+
+A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a
+tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em
+quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas
+sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido
+melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente
+se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente
+uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul
+recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado.
+As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o
+aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais
+carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda,
+apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.
+
+Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme,
+cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em
+quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos.
+
+Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.
+
+Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a
+infeliz creança.
+
+Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando
+a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
+
+Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos;
+muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova
+fórma de enterro lhes suscitava.
+
+As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do
+Canada, nem por isso faltavam.
+
+Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão
+e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam
+assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam
+enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta,
+aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de
+peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus
+threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do
+inferno.
+
+Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
+entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos
+proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.
+
+A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
+
+Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára
+adoentada.
+
+Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á
+campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma
+d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as
+outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham
+por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
+extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas
+para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa
+religiosa.
+
+Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres
+ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que,
+saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda
+devia ser sepultada.
+
+O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
+que as nuvens não toldavam.
+
+A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
+que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
+intensidade.
+
+A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
+reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
+verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina,
+recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto
+venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era
+o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os
+preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes
+energicamente os combatia e censurava.
+
+Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de
+creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a
+formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
+innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica
+alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça,
+cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa
+inclinação que lhe era habitual em vida.
+
+As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e
+Christina, entre as mais gentis da aldeia.
+
+Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
+formoso.
+
+A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com
+o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo
+melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no
+cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de
+inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que
+morrem.
+
+Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já
+occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos
+em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres
+abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a
+borda da sepultura.
+
+O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
+
+Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
+
+Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que
+tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se
+approximasse em tropel.
+
+As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
+activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa
+por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas,
+tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio,
+gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a
+distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.
+
+Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do
+dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a
+cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar.
+Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já
+antevista.
+
+Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto
+feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e
+todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre
+sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.
+
+Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
+estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que
+no caminho se incorporam as aguas dos algares.
+
+Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o
+_factotum_ Cosme.
+
+Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando
+em confusão:
+
+--Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
+
+--Esperem! Isso não vae assim!
+
+--Não façam a festa sem nós!
+
+--Fóra com os do cemiterio!
+
+--Morram os pedreiros-livres!
+
+--Para a igreja!
+
+--Enterre-se na igreja!
+
+--Olá, sr. abbade, espere por nós!
+
+--Aqui vamos para abençoar a cova!
+
+E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
+gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
+
+O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos,
+abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o
+esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e
+chorosas.
+
+A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade
+para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o
+cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que
+já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo
+de piedade.
+
+O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
+
+--Que querem d'aqui?--perguntou elle, fitando-os--com que fins vieram
+perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
+
+--Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio--respondeu o sr.
+Joãozinho.
+
+--É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!--confirmaram
+differentes vozes.
+
+--Por quê?--continuou o padre--julgam que Deus não receberá as almas,
+cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da
+igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
+
+--Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!
+
+--Eu não lhes reconheço o direito de querer.
+
+--Ora o padre mestre tem vagares!--disse o façanhudo Cosme--e tu
+pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões
+para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me
+para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a
+enxada e vem d'ahi.
+
+E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que
+jazia Ermelinda.
+
+--A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar
+n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!--exclamou o velho,
+indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.
+
+Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação
+religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do
+padre se cumprisse alli mesmo.
+
+Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
+hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas;
+ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos
+procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.
+
+Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares,
+que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua
+quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se
+dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos
+momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os
+precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito
+sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos,
+mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião,
+apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das
+massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a
+segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a
+embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento
+reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra.
+Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem
+de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não
+vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto;
+mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
+campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.
+
+Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das
+Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra
+severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
+
+Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este
+seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos
+quaes se encontravam padres e mulheres.
+
+A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.
+
+Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.
+
+--Viva o missionario!
+
+--Viva o santo!
+
+--Abaixo os pedreiros-livres!
+
+E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:
+
+--Abaixo os maçonicos!
+
+--Morram os jacobinos!
+
+--Viva a santa religião!
+
+Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das
+injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o
+fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o
+mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da
+christandade.
+
+A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes.
+Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não
+fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.
+
+Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento
+popular.
+
+Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
+
+--Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo
+estas pedras--bradou elle, apontando para o tumulo da familia do
+conselheiro.
+
+--É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
+
+--São invenções dos pedreiros-livres!
+
+--É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!
+
+--Abaixo! Abaixo!
+
+O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de
+um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.
+
+Magdalena collocou-se deante d'elle.
+
+Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da
+indignação.
+
+--Afaste-se, senhor!--bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que
+parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos
+degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!
+
+A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
+resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos
+affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi
+varonis.
+
+O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
+ficou enleado.
+
+Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que
+elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca
+humana.
+
+Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um
+sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
+
+--Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
+
+Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
+
+--Ah! ah! Faz-se fidalga!--disse o sr. Joãozinho, despeitado.--Pois não
+anda bem.
+
+O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
+escutal-o, bradou:
+
+--Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
+
+--Abaixo!...--repetiram muitas vozes.
+
+--Pois vá abaixo!--repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o
+machado.
+
+--Para traz!--exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.
+
+O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
+
+O sr. Joãozinho sorriu.
+
+--Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe
+queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!--e soltou,
+ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
+
+--Abaixo, abaixo!--repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
+para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava.
+Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda
+que fôsse á custa da propria vida.
+
+Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as
+lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a
+palavra «piedade».
+
+O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
+achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:
+
+--Mau! se temos chôro, nada feito.
+
+Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e
+outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de
+profanação.
+
+O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
+
+Imitaram-n'o muitos.
+
+Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da
+violencia.
+
+Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
+
+Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns
+baixaram-n'os, como arrependidos.
+
+O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a
+scena.
+
+Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
+
+--Tirem essa mulher d'ahi.
+
+Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
+facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo
+popular.
+
+Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do
+cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos
+alli reunidos.
+
+Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
+
+A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a
+elle, dominava toda aquella multidão.
+
+Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação,
+como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella
+scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no
+logar do motim.
+
+Era tempo.
+
+A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas
+violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas
+luctas em que elle toma parte.
+
+--Que é isto aqui?--disse o homem, rompendo com os braços potentes a
+onda que se lhe antolhava.
+
+Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até
+ao meio do circulo.
+
+Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.
+
+--O Herodes... É o Herodes!...--diziam, afastando-se.
+
+Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
+
+Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra,
+ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o
+atormentara.
+
+O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
+
+Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o
+encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.
+
+Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as
+ultimas noticias recebidas.
+
+Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos,
+conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no
+adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.
+
+Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
+mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a
+acudir-lhe.
+
+Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia
+a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do
+esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos
+n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso
+de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.
+
+Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de
+surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança
+morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.
+
+Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para
+n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos,
+calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.
+
+Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
+fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido,
+quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos
+cruzadas da creança.
+
+Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas,
+tomando-as outra vez, murmurava:
+
+--Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode
+ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?
+
+A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no
+tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão
+intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que
+as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda,
+como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá
+dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca.
+Aquelle homem estava perdido.
+
+--Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
+tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr
+assim!
+
+E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
+que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.
+
+Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
+ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
+fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.
+
+O Cancella continuava:
+
+--Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
+despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras
+antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que
+me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu
+que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que
+te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!...
+Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?
+
+Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
+
+O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.
+
+--Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha
+filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?...
+Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha
+filha não me perdoou?
+
+Magdalena respondeu a custo:
+
+--Que tinha ella a perdoar-lhe?
+
+--Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por
+ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus
+me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
+
+E outra vez a estreitava nos braços.
+
+Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
+voz alterada:
+
+--Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de
+minha filha morta?
+
+--Queremos que elles a enterrem na igreja--responderam, já tibiamente,
+algumas vozes.
+
+--Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram
+elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as
+alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a
+conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas
+festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem
+aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram
+sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te
+entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha;
+aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas
+vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu
+Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...
+
+E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae
+ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
+
+--Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de
+sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em
+socêgo... A minha pobre filha!
+
+E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de
+paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias
+mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez
+aquella de que mal podia separar-se.
+
+Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
+
+Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra
+o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
+
+Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
+
+O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a
+figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco
+agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
+
+Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não
+estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a
+secundal-os.
+
+Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella
+contra os excessos do fanatismo e do beaterio.
+
+--A falar verdade--dizia um--este pobre homem tem alguma razão. Isto de
+metter scismas ás creanças!...
+
+--E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
+
+--Tambem é de mais.
+
+--Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.
+
+N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
+
+Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e
+armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro
+os convocára.
+
+Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de
+joelhos, suffocado em pranto.
+
+As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita
+aquella idade, choraram tambem.
+
+Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.
+
+Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.
+
+O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
+desafogado pranto do que nunca.
+
+A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
+
+Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.
+
+O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica.
+Responderam-lhe as creancas!
+
+Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
+
+O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
+
+A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.
+
+
+
+
+XXVI
+
+
+Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa
+agitação.
+
+Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem accôrdo,
+Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se encarregára de trazer
+da taberna, onde o Canada o recolhera, até o Mosteiro, sobre um carro de
+herva que vinha guiando.
+
+Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, D. Victoria
+perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as providencias que o caso
+pedia, deu em ralhar, em fazer exclamações, em andar de sala em sala, de
+corredor em corredor, sem tenção formada, sem methodo, sem direcção.
+Levava as mãos á cabeça, ajuntava-as consternada; dava uma ordem ociosa;
+mandava logo suspender a execução d'ella; impacientava-se; chamava a
+toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para dizer-lhe;
+extranhava a tardança de outro que não mandára chamar, e sem dar a final
+expediente a coisa nenhuma, nem saber o que fizesse.
+
+Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente direcção; paravam
+embaraçados, ou corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem
+adeantarem serviço.
+
+As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque, cheias de
+susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria, que nem sequer dava
+por ellas.
+
+Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de espirito
+n'aquella occasião.
+
+Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que pudesse dizer-se
+ociosa; graças ao methodo com que procedia ás instrucções que ordenava,
+a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria o
+percebesse até.
+
+Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado assustador,
+sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe era precisa
+toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem sómente
+poderia descançar, e logo achou na necessidade valor, e, com serenidade
+apparente, só trahida pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu,
+tudo previu, tudo providenciou.
+
+Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero ou de susto, sem nem ao
+menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel, que lhe era
+natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os aprestes que
+o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros com
+intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião, enviou a Alvapenha
+parte do succedido, e ordenou que procurassem Magdalena, occupando
+n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra toda como alimento á
+impaciencia de sua mãe.
+
+A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e
+sympathicas. Não era para o salão que se formára e educára o ingenuo e
+meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um acanhamento, que
+já não conseguiria vencer, mas nas lides domesticas, na vida do lar era
+d'essas corajosas luctadoras, a quem a desventura não derruba, cuja
+intelligencia por tudo se reparte; d'estes genios providenciaes, que
+pairam sobre o estreito horisonte da familia, activos, laboriosos,
+achando nas fadigas um prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar,
+nos sorrisos que provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que
+enxugam, premio bastante para compensar as penas que soffrem.
+
+Mulheres são estas nascidas para serem esposas e mães, o que é quasi o
+mesmo que dizer: nascidas para serem mulheres.
+
+A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que soube o que
+succedera ao sobrinho, não dispensou Christina d'estes cuidados, que
+voluntariamente tomára.
+
+Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que D. Victoria,
+e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis effervescencias,
+em que esta se deixava arrebatar, não era tambem mulher para casos
+d'estes.
+
+Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa perdera ou
+embotára a faculdade preciosa de acertar bom caminho em qualquer
+imprevista occorrencia.
+
+Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos
+já a lançava em sérios embaraços. Ella propria confessava que inda havia
+pouco tempo principiára a afazer-se á estada de Henrique em Alvapenha, e
+a fazer o que era seu costume fazer antes de elle vir.
+
+É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia fazer do que rezar, e
+para isso ninguem estava mais habilitado do que ella. Em relação á côrte
+celestial era a boa senhora como esses almanachs vivos, que nos sabem
+dizer todos os canaes por onde os differentes negocios poderão ser
+melhor conduzidos nas côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade
+de cada santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento
+particular.
+
+Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de Henrique, onde,
+com as melhores intenções, mais embaraçava o serviço do que auxiliàva;
+usando de uma debil violencia foi-a levando para a sala do oratorio,
+onde ella encetou uma reza sem fim.
+
+Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do cemiterio,
+e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para verificar a
+realidade do que lhe diziam.
+
+Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido,
+uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. Victoria
+tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos.
+
+Magdalena dirigiu-se para lá.
+
+Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas
+interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a fecunda
+verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres, seja dito antes em
+honra do que em censura do sexo, são oradoras de muito mais folego que
+os homens que blasonam de eloquentes. O assumpto mais simples, uma
+colhér que se perdeu, uma peça de louça que se quebrou, por exemplo,
+fornecem-lhes thema para uma prédica de duas horas.
+
+Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil fórmas e
+estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo que a um homem a
+custo daria para uma magra oração.
+
+--Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu estavas. Faça
+favor de me dizer onde é que estava?
+
+Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara
+e postura de réo.
+
+--Eu... senhora...--ia elle a dizer.
+
+--Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que é. Um desafôro
+assim!... Eu só quero saber se vossemecê ganha soldada para andar lá por
+onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as vendas... Porque
+elle não ha mais... Como o dinheiro se vae roubar á estrada... O que tu
+merecias... Estou eu aqui a chamar ha mais de duas horas e vossemecê
+apparece-me lá quando é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem
+quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é roubar?
+
+--Mas...
+
+--Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para responder.
+Ora toma-me cautela, senão vaes já, já pela porta fóra. Pouca vergonha!
+Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer mandar onde
+é preciso e não apparecer um criado n'esta casa! A pagar-se aqui umas
+soldadas por ahi além, e, quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa
+de o fazer por suas mãos!... Tu cuidas que isso não é peccado tambem?
+Deixa, meu amigo, que tens boas contas a dar de ti. Quem é que lhe deu
+licença para sair sem ordem de seus amos? Faz favor de me dizer?
+
+--A sr.^a Christininha...
+
+--Eu não quero saber da sr.^a Christininha, quero saber quem lhe deu
+licença para sair?
+
+--Mas é o que eu estou dizendo á senhora.
+
+--É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e veja como responde.
+
+Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a urgencia do
+serviço de que falava D. Victoria, serviço que ella propria adiava com
+este importuno sermão.
+
+A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria esqueceu-se do
+criado, o qual pôde retirar-se sem ser percebido e sem receber as ordens
+urgentes para que fôra chamado.
+
+D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella
+propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique.
+
+--Andam desaforados--concluiu ella.--Já nem attendem a uma pessoa de
+respeito. É porque não ha justiça n'esta terra. Estão para ahi uns
+patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era preciso um
+exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse rei, não tinha pena nenhuma: havia
+de os esquartejar e era bem feito!
+
+Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um gato.
+
+A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio.
+
+Então é que trasbordou a indignação da tia.
+
+--Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar sério?... Pois elles?... Em
+nome do Padre... Que mais teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E
+esses malvados ainda estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda
+saber... Não, isso não fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no
+pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se fizeram as forcas... Ora
+deixa que... Isto aqui anda trama.
+
+--Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado do ferido.
+
+--Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu não sei onde elles
+se metteram. Ha de ser preciso ir á botica, e muitas mais coisas, e não
+vejo nenhum!
+
+Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha.
+
+Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em direcção ao
+quarto de Henrique, com um copo de agua acidulada.
+
+--Que ha, Christe?--perguntou-lhe Magdalena.
+
+--Que ha de haver, Lena?--respondeu Christina com tristeza, mas com
+serenidade ao mesmo tempo--uma desgraça, mas que Deus ha de permittir
+que não seja sem remedio.
+
+--Como está elle?
+
+--Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou.
+Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas calmantes que lhe
+tenho dado, achou-se bem.
+
+--E ainda não mandaram chamar o cirurgião?
+
+--Já mandei, já veio, já o sangrou, já...
+
+--Mas tua mãe não o sabe e ia mandar...
+
+--Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados, que por ora não convem
+que venha. Elle precisa de socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia Dorothéa,
+que não adeantava serviço. Queres vir vêl-o?
+
+Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique.
+
+Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda commoção
+cerebral, que lhe produzira a quéda. A tendencia ao estado comatoso, que
+apresentava, tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso.
+
+Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia aquella, e estes sem
+possibilidade de longa fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que
+n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma indifferença morbida
+pelo seu estado e por tudo quanto o cercava.
+
+Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que ella mesma
+preparára, com os movimentos quasi instinctivos do somnambulo.
+
+No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causára lhe
+avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de
+gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a cabeça outra vez no travesseiro,
+fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual.
+
+Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel,
+desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar
+calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma dúvida suscitada por
+os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a
+espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E
+sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confusão.
+
+Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi subjugada pelas
+muitas e violentas commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade da
+prima e extranhava-a.
+
+Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a
+suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito
+methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.
+
+Apreciára-lhe até então os dotes de creança, a bondade do coração, os
+extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto tomando
+assim tanto a sério a sua missão de mulher e desempenhando-se d'ella tão
+dignamente.
+
+Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o espirito da
+morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como
+que sob a protecção de uma timida e debil creança que, mais do que elle,
+parecia carecer de amparo, Magdalena não pôde reprimir um sorriso
+benigno e pensou:
+
+--Sim; aquella cabeça estouvada pôde até hoje passar por este anjo sem o
+conhecer; mas é preciso não ter coração para que, ao erguer-se d'aquelle
+leito, não seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella
+para a adorar. E Henrique não é falto de coração. Lida, lida, minha boa
+Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz
+que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu á mulher.
+Confio em Deus que vencerás. Deixar-te-hei todas as fadigas, para te
+pertencer todo o prazer.
+
+E em harmonia com esta resolução, a morgadinha absteve-se de intervir no
+tratamento de Henrique.
+
+
+
+
+XXVII
+
+
+Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este
+correra sérios riscos durante a primeira semana, por não sei que
+complicação que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou
+o prático, não nos compete a nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como
+de legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso intento.
+
+Ao fim dos oito dias, porém, começaram a manifestar-se melhoras
+evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar ás
+senhoras, que sempre o vinham consultar á saida com anciosa curiosidade,
+que «o homem estava salvo».
+
+De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, como já
+dissémos, n'um d'aquelles estados de indifferença para tudo e para
+todos, de que se não pode agourar nunca bem. Agora, porém, começava já a
+manifestar attenção para os cuidados de que era objecto, e a agradecer,
+com palavras de sincera gratidão, o tratamento affectuoso que recebia
+n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina.
+
+Esta fôra effectivamente sempre incançavel, solícita e carinhosa
+enfermeira.
+
+Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe todos os
+instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe
+allivio ás dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de
+cada momento, a preoccupacão permanente de todos os seus pensamentos.
+
+Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto aquella meiga e
+delicada figura de mulher, creança de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave
+e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar
+brando que o fitava com sympathia e meiguice; já se não sentia bem,
+longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas
+para a porta á espera de a vêr apparecer.
+
+Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
+Christina sobre o animo do rebelde, que até alli fôra insensivel, e
+exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
+cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que obriga os pintores a
+deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a attenção
+se fixe no objecto principal.
+
+Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
+devia ser a figura principal.
+
+N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha fazer a
+Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
+familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos
+da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem comprehendia os deveres
+da sua missão, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais
+extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que tão
+irresistivel influencia exercem no coração do homem que experimenta a
+ventura de ser objecto d'elles.
+
+De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
+crescia á custa de Magdalena.
+
+Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a descoberta. É
+necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um
+coração de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo contentamento
+que Magdalena sentia. É tão natural defeito a vaidade! Não se exprime o
+prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida
+domestica, que punha em relêvo o predominio de Christina.
+
+Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
+placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado.
+
+Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
+a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o
+chá. Não era, porém, a presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena,
+que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
+circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade embotada,
+emquanto o facto se não der com elle. Era que Christina, que em outra
+qualquer occasião cedia sempre a Magdalena a direcção dos trabalhos
+domesticos, alli dentro não resignava em ninguem essas funcções. Tomava
+naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a mãe, a prima e
+todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso,
+visitas.
+
+Não se imaginam os encantos que Henrique achava áquillo. A elle proprio
+parecia já que de facto o prendiam a Christina laços mais intimos, laços
+mais de familia, do que ás outras senhoras. Era assim que qualquer
+pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a
+uma irmã; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra
+qualquer pessoa, e não o fazia sem as desculpas e cumprimentos do
+estylo, que para ella não usava já.
+
+Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
+despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir á risca as
+dietas e as prescripções do facultativo, recusando-se obstinadamente a
+deixal-o lêr, e até ralhando-lhe ás vezes com severidade quasi maternal:
+apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de
+affecto.
+
+O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do seu leito de
+doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma
+mãe, de uma irmã ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o
+com essas entonações carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a
+mão que nos estende a taça do mais amargo remedio; elle, que não sabia
+ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo
+apoio de uma debil mão de mulher, a que o amor dá fôrças
+extraordinarias, commovia-se até ás lagrimas agora, e quasi não pensava
+sem tristeza na convalescença, que havia de o privar d'aquelles cuidados
+affectuosos.
+
+O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
+approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas
+as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer.
+
+Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.
+
+Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
+se agitava no leito com a inquietação da febre, Christina, depois de lhe
+dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com
+a mais adoravel candura:
+
+--Não sabe rezar?
+
+Henrique sorriu, respondendo:
+
+--Julgo que desapprendi já as orações que minha mãe me ensinou.
+
+Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.
+
+Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolação encontraria
+nas provações da vida um espirito que não soubesse recolher-se na
+oração.
+
+Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:
+
+--Quer-me ensinar a rezar, Christina?
+
+Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
+intenção d'aquellas palavras.
+
+--Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz a minha
+alma, as orações que me ensinar.
+
+Christina respondeu-lhe gravemente:
+
+--Reze, reze e verá como n'isso acha consolação. Vou emprestar-lhe o meu
+livro de orações, quer?
+
+--Por que me não ha de antes ensinar, como minha mãe o fazia?
+
+Christina ouviu com seriedade a proposta.
+
+E o certo é que um dia, em que Henrique passára peor, Magdalena ouviu,
+na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece á Virgem, e o
+doente repetindo-a com docilidade de creança.
+
+Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
+vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
+modificações a que todos os caracteres estão sujeitos, quando se dão a
+actual-os dois elementos tão poderosos, como se davam em Henrique: a
+doença, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o coração
+ás doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e
+irresistivel de todas.
+
+Não direi que fôsse com inteira fé que o doente orava; talvez que
+houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava
+ao orar assim. É certo, porém, que, desde então, frequentes vezes se lhe
+desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do
+seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique.
+
+Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
+Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratidão, beijou-lhe,
+commovido, a mão, que ella ia a retirar.
+
+--Que faz?--disse Christina, córando e afastando-a.
+
+--Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só
+agora comecei a amar.
+
+--Ora vamos--acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.
+
+--Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me
+salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda?
+
+--Repare que eu não tenho azas de anjo.
+
+--Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre
+doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa
+dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?
+
+--Nenhuns titulos! que diz?--tornou Christina, com um sorriso adoravel.
+
+--Pois quaes?
+
+--Então não somos primos? disse ella, jovialmente.
+
+E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
+Henrique.
+
+Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe
+alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para
+Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de
+umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do
+quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam
+serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de
+ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para
+junto d'elle, para lhe fazer companhia.
+
+D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações.
+
+--Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta
+pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que hão de estar
+molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão
+molhados...
+
+Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de
+uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade
+affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira
+fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção.
+
+--Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor?
+
+--Estou triste, porque estou melhor--respondeu Henrique.
+
+--Que está a dizer?!
+
+--A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede commigo. Este
+renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias,
+este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós,
+que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como
+que estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei prostrado
+no leito da doença, Christina.
+
+--Não diga isso.
+
+--E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! Não sabe
+que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia
+que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da
+solidão, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino,
+desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber,
+Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...
+
+--E tenciona voltar?
+
+A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma
+intima commoção. Ha d'estes effeitos. Ás vezes o olhar menos
+significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de
+maneira tal que elle proprio se sente estremecer.
+
+--E queria que eu ficasse, Christina?--perguntou Henrique, sob o dominio
+d'essa impressão.
+
+Christina não respondeu logo.
+
+--Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, para não
+vêr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de
+irmã. Esta ideia será a minha consolação; deixe-me partir com ella.
+
+--Partir?... mas... para que ha de partir?
+
+--Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorothéa,
+cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidadãos?
+
+--Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! E depois... que vae
+fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que está doente, que é
+quasi a mesma coisa.
+
+--E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?
+
+--Por que havia de lh'a negar?
+
+--Tempo virá em que outros me disputarão a menor porção de affecto que
+me conceder, Christina... e então... então é que eu ficarei mais só do
+que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou.
+
+--Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por esse mundo?
+
+--Então a menina não sabe que se está só mesmo em companhia? Quem está
+só é a alma. Ai, a alma está só quasi sempre!
+
+--Por que quer.
+
+--Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que não
+obteve a que desejava. Além de que, ha almas tão tristes, que intimidam
+outras. E a minha é d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer
+companhia á minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci,
+não hesitaria? Confesse.
+
+Depois de um momento de silencio e hesitação, Christina respondeu:
+
+--Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa tristeza...
+
+--Concedia-m'a?
+
+--E por que havia de negar-lh'a?
+
+Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado.
+
+--Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras?
+Se o meu coração é tão ousado...
+
+Christina, córando, retirou a mão de que Henrique se apoderou, e
+levantando-se, sobresaltada, disse:
+
+--Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.
+
+E fugiu, correndo em direcção de casa.
+
+Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias
+durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma como
+perfumada atmosphera, que exercia profundas revoluções no caracter de
+Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas
+exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em
+vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas
+metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, da infancia, estado de
+chrysalida para a imaginação, passava á verdadeira juventude, ao periodo
+em que a imaginação ganha azas, em que o coração se completa.
+
+Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não havia razão
+possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a
+mudança para Alvapenha.
+
+Já se não fez sem lagrimas a despedida.
+
+Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu
+commovida; só Christina não se achava na sala em que se passou a scena.
+
+Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.
+
+Seria casual esta circumstancia?
+
+Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe o coração que a
+encontraria alli.
+
+--Volto á minha solidão, Christina--disse-lhe, commovido.--Não lh'o
+tinha eu dicto?
+
+A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez só lhe
+resultaram lagrimas.
+
+--Não diga mais nada--disse Henrique, levando aos labios a mão que ella
+não retirou.--Essas lagrimas bastam-me.
+
+Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas produziram.
+
+E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.
+
+Christina ficou a chorar na varanda.
+
+A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo:
+
+--Pago-te hoje o abraço que me déste no outro dia; mas eu escuso de te
+perguntar... «Pois tu amaval-o?»
+
+--Ai, Lena!...--exclamou Christina, cada vez chorando mais.
+
+--Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e imaginaram
+uma separação de duzentos passos para poderem representar a scena das
+despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!--dizia
+Magdalena, para consolal-a.
+
+Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia.
+Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual
+taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar á ama a ideia de que a
+doença tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa
+levou muito a mal.
+
+Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignação que lhe
+causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava
+novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam
+enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do coração,
+contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu.
+
+Depois teve Henrique uma visão.
+
+Não se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha
+aqui que se pareça com as visões épicas; foi uma visão como muitas, que
+nós todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses
+espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginação, esta
+fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A
+quem não terá de facto succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma
+perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da visão exterior,
+enfraquecerem as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem fórma,
+realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa
+visão?
+
+Estava Henrique á janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos
+já que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde
+parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos
+differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mêdas,
+colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural,
+resentindo-se, porém, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora
+velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura.
+
+Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta como ella era.
+
+Principiava a visão interior.
+
+As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos
+campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de
+cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o chão das eiras; gemiam as
+noras e os lagares; soltavam-se ás prêsas os diques, e uma verdadeira
+rede liquida envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; alvejavam
+as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as
+cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da
+vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados,
+do sobrinho de D. Dorothéa. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir
+todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro patriarcha ao modo
+antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, á sombra de uma arvore, á
+borda do tanque, debruçada no muro, por entre os silvados das sébes
+vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina!
+
+Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem
+elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as
+qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de ter uma
+visão como esta!
+
+No quasi extase, em que a imaginação o lançára permanecia ainda, quando
+soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.
+
+Apressou-se logo a receber a visita.
+
+Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e
+das meninas.
+
+O pobre homem era um dos que ficára com affeição a Henrique depois que
+estivera no Mosteiro.
+
+Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos encontrava,
+contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o
+bastante para o velho lhe querer bem.
+
+--Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incómmodo
+que estão tendo commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes
+passeios.
+
+--Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... É exercicio a final... Pois é
+verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe
+que eu já tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu era
+já homem feito... Inda me lembra...
+
+Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem transição sensivel:
+
+--Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado
+um cuidado!... Todas!... Até a Christininha!
+
+--Sim? Tambem essa?
+
+--Ora se tambem!... Pois a sr.^a D. Victoria?
+
+--Mas... mas... Christina... a sr.^a D. Christina, então...
+
+--Isso é um coração de pomba. Inda ha pouco, ao sair, já vinha no pateo,
+e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de
+reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais triste.»
+
+--Ella disse-lhe isso?
+
+--É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o encontrei alegre como...
+
+--Não, não; não lhe diga isso, homem--atalhou Henrique.
+
+--Então por quê?!
+
+--Porque... porque... porque não é verdade... Então eu estou assim tão
+alegre como isso?
+
+--Não digo que esteja, mas para a socegar...
+
+--Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse ella mais
+nada?
+
+--A sr.^a D. Victoria...
+
+--Falo de Christina.
+
+--Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo.
+
+--Diga, diga.
+
+--Não é nada; é uma promessa que...
+
+--Uma promessa? Que promessa?
+
+--Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve
+muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a Christinita prometteu
+rezar na capella dos Cannaviaes as estações da meia noite...
+
+--As estações da meia noite?
+
+--Sim; as estações rezadas á meia noite á Senhora que está na capella da
+casa dos Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que
+se lhe pedisse assim. Contava meu pae...
+
+E vinha um caso comprovativo da tradição popular.
+
+--Sim, lembra-me que já me falaram n'isso--disse Henrique, pensativo.
+
+--É verdade. O peor é que é este seu criado quem tem de a acompanhar até
+á quinta, depois d'ámanhã á meia noite...
+
+--Então depois de ámanhã á meia noite?
+
+--Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da pequena.
+
+--Esteja descançado.
+
+E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que
+Henrique não ligou attenção, aquelle retirou-se.
+
+Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda abstracção.
+Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para
+presenciar aquelle acto de fervorosa devoção de Christina, que
+supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crença, com a
+effusão do mais generoso affecto.
+
+N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que
+conduziam á quinta, que elle ainda não visitára, e sobre como penetrar
+até á capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa.
+
+D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos
+precisos sem que suspeitassem das intenções com que elle lh'os pedia.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+
+A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha
+morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um
+dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia.
+
+O tempo, cuja acção não contrastada se exercera livremente n'ellas,
+viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta
+casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados,
+de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos
+e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstição popular terminára
+a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e
+corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue á natureza.
+
+A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia senão depois de ter
+gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e
+brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava
+n'esta pequena terra, onde passára o resto da vida, de uma fama de
+espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a
+opinião de que a sua alma andava ainda penando por cá.
+
+Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relação aos annos da
+mocidade da morgada. A imaginação popular fazia a biographia d'aquella
+senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma
+phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.
+
+A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos começaram a
+falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza,
+passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da
+vida elegante ás práticas de devoção.
+
+Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as
+semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente
+os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade natural.
+Trajava sempre com distincção e esmero, e ao corrente das modas.
+
+Tudo isto e as proprias devoções da morgada, acabaram por convencer o
+povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava
+remir á fôrça de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das
+contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava á terra penando.
+
+Já se vê que o logar era para apavorar as imaginações timidas, e de
+noite pouca gente da aldeia gostava de passar por lá.
+
+Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao
+Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora devida, e
+fazendo obra pelas informações da morgadinha, dirigiu-se para os
+Cannaviaes para escolher posição d'onde pudesse, sem ser visto, observar
+Christina, não tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria
+imperturbada na sua piedosa tarefa.
+
+A noite fizera-se escura e ameaçava chuva.
+
+Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um pouco
+habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a
+aldeia, examinando com attenção todos os objectos que lhe deviam servir
+de indicadores da estrada.
+
+Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que
+por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.
+
+Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um
+lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique
+achou ainda fechada.
+
+O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver
+acertado.
+
+Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escuridão a
+fazer receiar grandes aguaceiros.
+
+Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se.
+N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto seu, achou-o
+aberto.
+
+Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria
+habitada a quinta?
+
+Estas tres explicações do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito,
+sem que elle soubesse qual adoptar.
+
+Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida.
+
+A chuva caía com mais fôrça. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus
+de pedra, no tôpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente
+toldado.
+
+Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de
+um corredor pareceu-lhe divisar luz.
+
+Henrique parou indeciso.
+
+--Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre
+perguntarei.
+
+E bateu as palmas.
+
+Ninguem lhe respondeu.
+
+Bateu outra vez; o mesmo resultado.
+
+Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.
+
+O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou
+a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada
+por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco
+brilhavam ainda uns carvões candentes.
+
+--Parece uma historia de fadas!--pensava Henrique.--Dar-se-ha que a alma
+da morgada goste ainda das commodidades?
+
+Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado
+opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do
+campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e
+preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:
+
+--Procurava alguem, o senhor?
+
+--Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim
+como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a
+casa dos Cannaviaes.
+
+--A casa dos Cannaviaes é esta mesma.
+
+--Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui
+ninguem.
+
+--E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.^a morgada.
+
+--A sr.^a morgada?--perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar
+da resposta e de tudo que via.
+
+--Sim, senhor; a sr.^a morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o.
+
+--Ah! A sr.^a morgada esperava-me?
+
+--É verdade--disse a mulher, sorrindo.--Adivinhou que o senhor vinha
+aqui. E o que é que ella não adivinha?
+
+Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena.
+
+--Então é a sr.^a morgada em pessoa que...
+
+--Que o convida para tomar uma chavena de chá--disse uma voz por traz
+d'elle.
+
+Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.
+
+Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos
+labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras,
+que de tantos encantos a revestia.
+
+Henrique exclamou, admirado:
+
+--A prima Magdalena!
+
+--A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras
+da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje.
+Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a
+minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que
+aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de
+quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a
+destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.
+
+--Mas como soube que eu?...
+
+--Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que
+nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi.
+Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem
+em recolher-se... Ouve?
+
+E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças.
+
+--O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção.
+
+--O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros--notou Brizida, como
+para desvanecer aquelle receio.
+
+--Pois sabe que Christina vem?
+
+--Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o
+lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco
+hospitaleiro.--Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que
+podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da
+capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo,
+porque a cozinha está pouco habitavel.
+
+Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta,
+chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de
+Souzellas.
+
+--Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada,
+responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?
+
+--Pois não diz que sabe tudo?
+
+--Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades
+que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia
+de quem as fórma, repugne acceitar.
+
+--Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e
+approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo
+commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não
+assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?
+
+--Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença
+esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias
+de duas doenças.
+
+--De duas?
+
+--Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou.
+
+--Então?
+
+--A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe
+tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se
+por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder
+verdadeiramente doentia.
+
+--Estou curado d'isso.
+
+--Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era
+doença.
+
+--Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me
+aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos
+negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.
+
+--Ah! e experimentou a receita?
+
+--Experimentei e curei-me.
+
+--Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da
+convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são
+perigosas as recaidas.
+
+--Pois teme que eu recaia?
+
+--Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto
+motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição
+romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum
+accidente.
+
+--É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios
+que prescreve.
+
+--Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me
+com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa
+não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?
+
+--Confesso que algumas...
+
+--E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do
+coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que
+puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr.
+
+--Desde o primeiro dia? Pois Christina...
+
+--Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.
+
+--Querido anjo!
+
+--Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua,
+timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma
+indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um
+caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais
+coragem e mais fé no futuro.
+
+Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para
+Magdalena:
+
+--Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as
+necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu?
+
+--E quem lhe disse que as tinha?
+
+--Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se
+julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a
+observam.
+
+--Ah! Então leu?
+
+--Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que
+eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém,
+tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado
+n'ella. Cego, como eu fui.
+
+--Não leria?--perguntou Magdalena, sorrindo.--Está certo d'isso?
+
+--E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a
+adivinhasse. Ha casos d'esses.
+
+Magdalena tornou, mudando de tom:
+
+--É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que
+sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio.
+
+--E por que demora o tratamento?
+
+--Pois parece-lhe que será urgente o caso?
+
+--Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do
+que....
+
+--Silencio!--disse a morgadinha, escutando.--Pareceu-me ouvir...
+
+N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo
+em voz baixa:
+
+--Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
+
+--Então depressa--disse Magdalena.--Abra-nos o côro; mas antes apaguemos
+as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de
+furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.
+
+Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um
+corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir
+missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.
+
+Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar
+as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava
+longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a
+varanda do côro.
+
+Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem
+Christina e Torquato.
+
+Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres
+degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera
+que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da
+Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não
+dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
+
+Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho,
+com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro
+em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.
+
+Tudo ficou depois em silencio.
+
+Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a
+tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou
+immovel a rezar a devoção promettida.
+
+Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella
+angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle
+anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e
+candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de
+gosar um amor assim!
+
+Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
+
+A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos.
+
+Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
+
+--Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás.
+
+--Não peça a Deus o que está na sua mão--respondeu-lhe em voz baixa
+Magdalena.
+
+--Que diz?
+
+--Está ou não sinceramente apaixonado?
+
+--Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
+
+--Crê na pureza d'aquelle coração?
+
+--Como na dos anjos.
+
+--Está convencido de que o pode salvar, ella?
+
+--Não ha crédo que professe com mais fé.
+
+--Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?
+
+--E consente?
+
+A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas
+escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór.
+
+--Aqui tem o caminho--disse ella.--Siga-me. E, servindo-se da lanterna
+de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a.
+
+No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns
+passos, parou junto de um reposteiro.
+
+--Agora faça o que lhe dictar o coração--disse ella para Henrique.
+
+Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella.
+
+Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava
+por detraz d'ella, não o viu chegar.
+
+Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração.
+
+Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um
+grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou
+perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror.
+
+Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
+
+--Não tenha receio, Christina. Sou eu.
+
+Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a
+presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar
+explicações. Henrique accrescentou:
+
+--Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto
+fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado,
+Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados
+prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me
+as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda
+a paixão que pode haver na minha alma.
+
+E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem
+ousára retirar das suas.
+
+--Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do
+viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr
+realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de
+que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e
+gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir
+occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de
+mãe, de irmã, e de...
+
+--Henrique!...--murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada
+creança.
+
+--É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a
+mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que
+uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada
+de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo.
+Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração.
+
+Christina tremia sem poder responder.
+
+Magdalena entrou por sua vez na capella.
+
+--Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique--disse
+ella.
+
+Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e
+inesperadas apparições, correu para a prima.
+
+--Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
+
+--Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos,
+dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr.
+Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito
+terminantemente, a tua mão.
+
+Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio.
+
+--Não responderam os labios, primo,--continuou a morgadinha--mas falou o
+coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
+
+--E disse?...
+
+--Que havia de dizer? Que sim.
+
+E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique,
+que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
+
+Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia.
+
+O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as
+rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
+
+Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e
+recuou estupefacto e aterrado.
+
+Suppôz que almas penadas andavam na capella.
+
+O bom do homem não ousava approximar-se.
+
+Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
+
+--Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de
+fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
+
+O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se
+receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para
+Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via.
+
+Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
+
+Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra
+recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá.
+
+A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já
+percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou
+algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena.
+
+Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita
+intimidade.
+
+--Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!--disse
+Henrique.--Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A
+morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
+
+--É verdade, como foi que vieram aqui?--perguntou Christina, já mais
+desenleiada.--Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O
+que merecia!...
+
+--Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
+
+--N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a
+indiscreção--disse Magdalena.
+
+--Que é?--tornou a prima.
+
+--É a discreção.
+
+--Então por quê?
+
+--Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que
+a verdade.
+
+--Eu...--ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o
+interrompeu.
+
+--Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
+
+--N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
+
+--Que hei de eu dizer?
+
+--Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique?
+
+--Ora, já o sabem.
+
+--Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca.
+
+--Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar.
+
+--Que diz, primo Henrique?
+
+--Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já.
+
+--Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida
+por um sentimento de piedade e de...
+
+--Lena!
+
+--Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella
+sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era
+decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores.
+
+Christina poz-se a rir.
+
+--Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o
+Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...
+
+--Eu?!
+
+Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão.
+
+--Se eu o soubesse!...
+
+--Eu... eu não disse... eu... só disse...
+
+Henrique tomou a palavra.
+
+--Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim
+alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se
+involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima...
+
+--Eu? Soube-o tambem do Torquato.
+
+--Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
+
+--Isso é que não. Eu não disse á sr.^a D. Magdalena... Ella é que...
+
+--Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o
+segredo.
+
+--Como?
+
+--O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
+
+--Eu a esse não disse.
+
+--Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal.
+
+--Ora, ora...
+
+--O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e
+ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha
+merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de
+umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha
+propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz
+ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito
+enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a
+verdade, porque do Torquato soubera tudo.
+
+--Eu não disse...
+
+--E depois a prima...
+
+--Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e
+exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a
+respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final
+falou.
+
+--Mas sabia tambem que eu vinha?--perguntou Henrique.
+
+--Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a
+respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a
+insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao
+Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua
+hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de
+receber o primo em minha casa.
+
+--E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
+
+--Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste
+sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo.
+
+--São mesmo coisas tuas--disse Christina, rindo.
+
+--Mas eu não disse nada--insistiu Torquato.
+
+--Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?--perguntou
+Henrique.--Que imaginava elle a final?
+
+-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias
+palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas
+de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui
+um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que
+respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas
+attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo
+Henrique...
+
+--Ah! percebo agora--disse Henrique, rindo.--O velho é ciumento por
+procuração.
+
+Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
+
+Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique,
+sorriu com elles.
+
+O Torquato foi o unico que nada percebeu.
+
+Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de
+voltarem a casa.
+
+--Choverá?--perguntou Brizida.
+
+--Julgo que não--respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a
+vidraça da janella e examinou o firmamento.
+
+Henrique acompanhou-a.
+
+--A noite está serena--disse ella.--São horas de voltarmos.
+
+--Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas
+horas--disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:--Mas que
+agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
+
+--Vamos, vamos,--respondeu Magdalena--o dia d'ámanhã deve ser feliz
+ainda, porque...
+
+N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse
+a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito.
+
+--Que foi?--perguntou Henrique, que o percebeu.
+
+--Nada--respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella.
+
+--Viu a alma da morgada?--perguntou jovialmente Henrique, vendo-a
+preoccupada.
+
+--Não--respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.--Pode porém
+haver apparições peores.
+
+--Que é, Lena? Que viste tu?--perguntou Christina, assustada.
+
+--Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
+
+E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam
+aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em
+silencio e na sua quasi desolação.
+
+
+
+
+XXIX
+
+
+No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada
+do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda que a este ultimo
+causára a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo
+para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D.
+Dorothéa apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro;
+Henrique acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu
+coração, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de
+fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mão de Christina.
+
+D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se não desacostumára de
+considerar Christina como uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava
+ainda vestidos curtos!
+
+Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e
+agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera.
+
+Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não se fartou
+de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as
+habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram enfastial-o.
+Estava devéras apaixonado!
+
+Chegaram ao Mosteiro.
+
+O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e apparente tranquillidade
+de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o
+que quer que era forçado a revelar certa preoccupação interior.
+
+É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o animo do publico da
+terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava
+muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.
+
+Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias
+realisavam-se as eleições. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus
+adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens
+politicas, com que contava, falharam-lhe, e até nem o visitaram. As
+auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o
+administrador até o cabo de policia.
+
+Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro
+para conversar em assumptos alheios á questão que o interessava, para
+sorrir e prestar attenção ao que se dizia.
+
+De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
+escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente
+eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente não podia
+socegar.
+
+Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista dos
+recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena
+faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou
+D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorothéa, e em nome
+de Henrique, o pedido da mão de Christina. D. Victoria trazia bem
+visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causára. Era muito
+amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais
+que tudo a lisonjeára, fôra a preferencia dada por Henrique a sua filha
+sobre a morgadinha.
+
+--Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique--dizia ella.--Estou mesmo
+muito arrenegada comsigo.
+
+--Por quê, minha senhora?--perguntou Henrique, sorrindo.
+
+--Pois então isso é coisa que se faça? Já precisa de embaixadores para
+se dirigir a mim?
+
+--Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v.
+ex.^a para fazer todas as reflexões que a proposta lhe suggerisse e
+discutil-a á vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.^a ás vezes, sendo
+eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se...
+
+--Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade um rapaz de tão má
+nota! Ora sempre tem coisas!
+
+--Visto isso, posso esperar?
+
+--Da minha parte uma guerra de morte--disse D. Victoria, não resistindo
+a dar um abraço a Henrique, já com familiaridade de mãe; abraço que
+Henrique retribuiu com affecto.
+
+O conselheiro não dava attenção á scena.
+
+--Então, mano!--bradou-lhe D. Victoria.--Deixe lá essas politicas que
+temos negocios sérios em casa.
+
+--Sim?--disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
+ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.--Então de
+que se trata?
+
+--De um negocio importante, em que é preciso que seja ouvido.
+
+--Ah! Então é um caso de consciencia?
+
+--E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de
+me fazer um pedido... Isto é, a prima Dorothéa foi que m'o fez.
+
+--Mas por ordem d'elle--acudiu esta.
+
+--Pois sim, o que era escusado.
+
+--Mas então que pede de nós este caro sr. Henrique?
+
+--Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.
+
+O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por mais de uma
+vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado
+pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom
+nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade,
+e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.
+
+Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
+tiral-o quanto antes da illusão e disse:
+
+--Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a
+amizade de Christina.
+
+--Ah!--disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.--Então
+quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique?
+
+--É apenas uma restituição que peço, sr. conselheiro, porque não me
+posso resignar a viver sem coração.
+
+--Faz madrigal? Está então apaixonado devéras, já vejo--disse o
+conselheiro.--Pela minha parte folgo de o vêr assim associado á minha
+familia, por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, que fez o
+milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa
+a rir-se do casamento?
+
+--Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima Magdalena,
+que é tão rigorosa nos castigos!
+
+--Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas.
+
+--Mas o mano tem razão--disse D. Victoria.--Onde está a Christe?
+Admira-me não a vêr aqui!
+
+--Admirar, não me admiro eu--tornou o conselheiro.--É provavel que
+soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi
+decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso
+tribunal.
+
+Henrique e Magdalena sorriram.
+
+--Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
+Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no fogo ao ateares d'estes
+fachos.
+
+--Eu vou buscar a Christe--disse a morgadinha, rindo das palavras do
+pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direcção
+que elle lhe deu.
+
+O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
+emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa tentava
+distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de creanças, que elle
+mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado
+á intelligencia d'elle.
+
+Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
+já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no chão.
+
+--Aqui está a accusada--disse a morgadinha ao entrar.
+
+O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse jovialmente para a
+sobrinha:
+
+--Ora venha cá, venha cá, que temos muito que falar.
+
+E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o,
+continuou:
+
+--Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente
+com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de
+bonecas, e já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, é
+energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me
+peça explicações por os que lhe roubar.
+
+E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
+tingidas pelo pejo e pela alegria.
+
+Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:
+
+--São os penultimos.
+
+--Os penultimos?--disse D. Victoria, rindo.--Ora essa! Então para quando
+ficam os ultimos?
+
+--Para quando a vir com a grinalda de noiva.
+
+--O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo
+á prima. Não tens vergonha, Lena--disse D. Dorothéa para a morgadinha,
+em quem esta reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe
+aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manhã.
+
+O conselheiro e Henrique sorriram tambem.
+
+--Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia--disse
+Henrique com intenção.
+
+--Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou
+teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo
+que se devem decidir pelo coração sómente.
+
+--E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios
+actos.
+
+--O _sómente_ é que veio de mais, filha--disse o
+conselheiro.--Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era
+bom se vivessemos em um mundo de corações.
+
+A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e
+modificou a scena.
+
+Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
+Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas
+entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o
+latinista era de suspeitosa natureza.
+
+Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
+n'estas épocas não comia, não dormia, não respirava, por assim dizer,
+senão eleições, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a
+todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por
+desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas.
+
+--Então que novas temos da campanha, meus senhores?--perguntou o
+conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando
+um tom de confiança que não sentia.
+
+--Más, sr. conselheiro,--respondeu o Tapadas--muito más. Vejo isto muito
+feio.
+
+--Ora a coisa ainda não ha de ser tão má como diz.
+
+--Nada, nada; não me agrada. V. ex.^a descuidou-se. Tenha paciencia, mas
+eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas são. É preciso não as
+desacompanhar. V. ex.^a devia vir ha mais tempo.
+
+O Pertunhas acudiu:
+
+--Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os
+serviços que fez á terra...
+
+--Ora com o que vmc.^ê vem!--replicou o Tapadas, com modo azedo.--Então
+não sabe como é esta gente? Então não os ouve ahi berrar já contra as
+estradas, quando até agora berravam por não as terem?
+
+--Meia duzia de garotos--tornou o Pertunhas.
+
+--Não, senhor, não é assim; não estejamos a enganar-nos. Os que não
+dizem mal das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as
+devem, e estamos na mesma. A coisa vae mal.
+
+--Então decididamente o Seabra?...--perguntou o conselheiro.
+
+--Esse é o chefe de todos elles--disse um merceeiro.--Á porta da minha
+loja o ouvi eu estar a dizer ao cunhado do administrador que o traçado
+da estrada era o peor que podia ser, que se gastava alli um dinheiro
+louco, sem utilidade para o povo.
+
+O conselheiro olhou para Henrique, dizendo:
+
+--Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
+traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? Admire agora o
+velhaco.
+
+Henrique sorriu, encolhendo os hombros.
+
+--Arremedos do que se faz em terras maiores--disse elle.--Não extranho.
+
+--E tem razão--respondeu o conselheiro.
+
+--Mas, a final--continuou o conselheiro--o homem não tinha na freguezia
+grande influencia. Como é que...?
+
+--Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
+por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com elle e de mal
+com v. ex.^a.
+
+--Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra mim?
+Deixámo-nos em janeiro nas melhores disposições um para com outro...
+
+--Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
+ministro...--disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera grande
+importancia ao objecto a que se referia.
+
+O conselheiro mudou logo de assumpto.
+
+--E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
+commetti, para me terem esse odio?
+
+--Dizem que v. ex.^a é mação--respondeu um lavrador.
+
+--O diacho da questão do cemiterio...--acudiu o Tapadas.
+
+--Isso acalmou já.
+
+--Não acalmou, não senhor. O povo não está contente. É certo que lhe
+passou a furia do principio, depois d'aquella historia com o Cancella,
+mas...
+
+--Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
+filha!
+
+--É melhor não falar n'isso--aconselhou prudentemente o Tapadas.--O que
+lá vae, lá vae. Os homens estão meio arrependidos, e até o missionario
+perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi berrado que
+foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette pena. Até me
+dizem que por causa d'isso o padre já se retirou da aldeia. O que era
+bom era vêr até se se falava ao Herodes; porque talvez elle possa agora
+ainda arranjar alguns votos--accrescentou o Tapadas, disposto a
+servir-se da dôr de um pae como arma eleitoral.
+
+E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
+politicos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potencias
+eleitoraes do circulo. Estudaram-se as ambições de cada uma;
+ponderaram-se as exigencias feitas por uns, os desejos adivinhados em
+outros, para este o emprego de um afilhado, áquelle o bom exito de uma
+demanda, a outro o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma
+hypotheca, e a alguns até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta
+empresa de subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o
+conciliabulo, sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o
+que estava fazendo alli.
+
+Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos principaes.
+
+--Então sempre é certo que me roeu a corda esse basbaque?--perguntou, ao
+falar-se n'elle, o conselheiro.
+
+--É dos mais assanhados--responderam-lhe.
+
+--Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem tantas vezes
+tenho tirado de apuros!
+
+--Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
+cemiterios...--disse o Pertunhas.
+
+--Deixe lá, alli andou tambem um presente que lhe fez o brazileiro. O
+morgado está muitas vezes com a corda na garganta--explicou malignamente
+o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das demandas e da
+politica, não achava explicações tão plausiveis como a corrupção.
+
+--E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario--insistiu o
+tendeiro.
+
+--Ora adeus!--disse o Tapadas.--Bem me fio eu n'essas compaixões. Quem
+não os conhecer...
+
+--E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?--insistiu o
+conselheiro, de mau humor.
+
+--Então? Deu-lhe para alli.
+
+--Qual historia! Para mim é que vem com isso?!--teimava o sceptico
+Tapadas.
+
+--Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
+taberna com este senhor--disse o Pertunhas, designando Henrique.
+
+--Sinto, sr. conselheiro--disse este--se de alguma maneira concorri...
+
+--De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram. Á ultima
+hora é capaz de mudar de tenção. E por causa d'elle é que ficou
+despachado professor um pateta em vez de Augusto.
+
+Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
+despeito:
+
+--Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito do caracter
+de certos homens. Ha vinganças tão torpes e mesquinhas, que nenhum
+aggravo as justifica.
+
+Henrique procurou defender Augusto; achou porém o conselheiro obstinado
+na sua crença.
+
+Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor da
+intriga.
+
+--Embora o fôsse--respondeu o conselheiro--mas que tem isso? O Seabra
+não veio a minha casa, não suspeitava da existencia de tal carta. Alguem
+houve que a leu primeiro e que lh'a foi entregar depois, e já é ser
+muito indulgente suppôr que fôram só cegueiras de vingança e não a
+sordidez da cubiça quem o moveu a essa infamia.
+
+Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
+pela innocencia d'elle.
+
+O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma altercação
+travada entre Pertunhas e o Tapadas.
+
+Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
+eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente:
+
+--Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor parolar menos e fazer coisa que se
+veja; ou deixa só as obras para o seu amigo Seabra?
+
+D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a altercação virulenta, que o
+conselheiro teve de apaziguar.
+
+A conferencia durou até ás horas do jantar.
+
+
+
+
+XXX
+
+
+Chegára o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a batalha
+eleitoral.
+
+A azáfama politica activára-se n'estes ultimos dias consideravelmente.
+De parte a parte tinham-se posto em campo todos os influentes e em
+exercicio todas as armas. Promessas, alliciações, pressão de
+auctoridades, exigencias a dependentes, subornos, ameaças mais ou menos
+declaradas; de tudo se lançava mão.
+
+Ás vezes até o calor das discussões degenerava em pugnas menos
+pacificas; os argumentos physicos, que figuram no catalogo das razões
+mais convincentes, haviam já sido invocados a pleitear ambas as causas,
+berrando-se depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do
+governo, do outro, contra os manejos sediciosos e anarchicos da
+opposição.
+
+Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os
+padres que arvorando a cruz e o estandarte, prégavam a cruzada contra o
+conselheiro e instavam com o povo para que não elegesse para
+representante um atheu e um pedreiro-livre; em outras eram os agentes do
+brazileiro e os da auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos
+populares, resgatando penhores, levantando hypothecas, remindo dividas,
+empregando afilhados, e conquistando assim para o seu partido.
+
+O conselheiro e os seus parciaes não desprezavam tambem nenhum d'estes
+mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater as do brazileiro
+Seabra.
+
+Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha.
+Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores dos
+dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas,
+assignando-se: o _Amigo da verdade_; o _Epaminondas_; o _Vígilante_; a
+_Sentinella_; o _Alerta_, etc., e pondo ao soalheiro as máculas da vida
+privada uns dos outros, e todas as bisbilhotices da terra,
+correspondencias que, felizmente para crédito da humanidade, por ninguem
+mais, além dos interessados e dos que já os conheciam, eram lidas.
+
+O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta
+secção periodistica. Os seus communicados eram estirados, compactos,
+obscuros e enrevezados tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se
+em minuciosos incidentes; em labyrinthos de orações secundarias, d'onde
+a grammatica da principal saía frequentemente maltratada, deixando ficar
+por lá o sujeito, o verbo ou qualquer complemento necessario. Mas o
+brazileiro imaginava que o paiz inteiro aguardava com ancia os seus
+escriptos. Era frequente abrir uma resposta a alguma zargunchada de um
+seu adversario, por estas palavras: «Os leitores hão de ter notado o meu
+silencio, depois das calumniosas asserções...» Os leitores não tinham
+notado nada.
+
+Finalmente a aldeia achava-se em plena fermentação politica.
+
+Eu tenho a fraqueza de a não amar debaixo d'aquelle aspecto.
+
+A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado é
+o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e conhecidos
+são os que vivem d'ella, tanto mais acanhada, mexeriqueira e antipathica
+se torna. Se a politica do nosso paiz é já pequena, como elle, e
+degenera em desavença de senhoras vizinhas, que fará das terras pequenas
+d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos partidos estão os
+mexericos e as vaidadesinhas que brotam como tortulhos á sombra das
+arvores do campanario?!
+
+Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos!
+
+Henrique de Souzellas não ficára indifferente ao movimento politico da
+aldeia. Pegára-se-lhe a febre eleitoral. Impedido de votar, auxiliava,
+porém, os parciaes do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um
+dia lembrou um _meeting_. O conselheiro poz-se a rir.
+
+--Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que está tratando? Um
+_meeting_, para quê? Não se esqueça de ir domingo á igreja e lá se
+desenganará por os seus olhos. O espectaculo não é muito para alegrar,
+porque mostra como em geral o nosso paiz está ainda pouco educado no
+regimen constitucional. Mas em todo o caso é instructivo.
+
+Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel
+Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em relação ao tempo em
+que principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com
+que já se podia contar.
+
+A eleição, porém, estava muito arriscada ainda. O sr. Joãozinho das
+Perdizes devia decidir a contenda. Para onde se inclinasse o morgado,
+com todo o peso dos seus comparochianos, desceria o prato da balança.
+
+Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o
+menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e
+aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte
+nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, não se descuidava
+de o manter nas disposições hostis contra o conselheiro. A todo o
+momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a
+necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma lição ao
+conselheiro, com quem Henrique estava ligado. Depois disse-lhe que o
+conselheiro se gabava de ter dinheiro para comprar o morgado e toda a
+freguezia.
+
+O morgado, sob estas e analogas instigações, praguejava e jurava
+despejar na urna ministerial o suffragio da sua freguezia.
+
+Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do
+governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido
+para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que
+era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser
+representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o
+custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa
+feição.
+
+Logo pela manhã do domingo, marcado para a grande solemnidade civil, o
+adro da igreja parochial apresentava uma animação fóra do costume.
+Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se com
+desconfiança, ou correspondendo-se por signaes de intelligencia,
+conforme pertenciam á mesma ou a opposta parcialidade. Os agentes
+eleitoraes, os influentes dos dois campos acercavam-se d'este, apertavam
+a mão áquelle, segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam
+com um terceiro, e, sempre que era possivel, distribuiam listas ao maior
+numero.
+
+O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava
+a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as
+mãos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por entre os
+grupos, recommendava ordem e respeito ás auctoridades, e dava de olho
+aos cabos, seus subordinados, para que se não esquecessem de cumprir as
+instrucções recebidas, votando no candidato ministerial.
+
+Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a constituição
+da mesa. O parocho, o administrador e o regedor foram occupar o seu
+logar. Ficou presidente o brazileiro, e o resto da mesa formou-se
+d'entre as duas parcialidades.
+
+Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as
+probabilidades da victoria.
+
+N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios
+do brazileiro, dizia-se:
+
+--Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; verão!
+
+--Só a freguezia de Pinchões enche-nos ahi a urna.
+
+--E estará bem seguro o morgado?
+
+--O sr. Joãozinho!? Ora! Está de ferro e fogo contra o conselheiro.
+
+--Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram na taberna,
+e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!...
+
+--Não é só por isso. Elle já estava do nosso lado, desde que soube
+tinham deitado abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava
+succumbido de todo.
+
+--É verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro d'esta vez.
+
+--Quem? O Vicente? Esse sim. Então não sabes que o pobre velho já se não
+levanta da cama?
+
+--Ai, não?
+
+--Andava já muito fraco e doente; mas ha tres dias, sobretudo, tem ido
+de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi dizer, aquillo está
+por pouco tempo: nem deita a semana fóra.
+
+--Coitado!
+
+--Ahi vem quem ainda hoje o viu. Não é verdade, sr. Pertunhas?
+
+--O quê, meus amigos, o quê? o que é que é verdade? o que é que
+dizem?--perguntou o mestre de latim, esfregando sempre as mãos.
+
+--Não é verdade que o Vicente herbanario está a ajustar contas?
+
+--Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o coração! Sempre eu digo que uma
+crueldade assim, como a do conselheiro!
+
+--Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, só por causa do
+mal que fez áquelle santo velho.
+
+--E com razão.
+
+--E então para quê? senhores, para quê?--continuava Pertunhas.--Para
+fazer uma estrada em que se gastam rios de dinheiro, e que a final não
+presta! Pois eu passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer,
+por a casa do Augusto, que é onde vive agora o Vicente. O rapaz estava á
+porta. Então, sr. Augusto, disse-lhe eu, á urna! vamos á urna! Elle
+encolheu os hombros como quem diz: «bem me importa a mim com isso.»
+
+--Ahi está outro, que tambem não é pelo conselheiro.
+
+--Por que não? Pois não é elle todo do Mosteiro?
+
+--Foi, foi--replicou o Pertunhas.--Então vmc.^ê não sabe que o
+conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de lhe arranjar a demissão,
+inda por cima o poz fóra de casa, porque pelos modos o rapaz... fez
+publicar umas certas cartas... que compromettiam o homem? A falar
+verdade, tambem não foi bonito.
+
+--Fez elle muito bem.
+
+--Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o
+povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar
+a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o
+Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi então
+que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem vossês, outro tanto de
+magro e outro tanto de velho... Mettia dó! Poz-se a perguntar-me muitas
+coisas, o que havia, o que não havia, por quem estava este, por quem
+estava aquelle... Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que
+fizesse, já não podia vencer; que não arranjaria os votos precisos para
+cobrir a freguezia de Pinchões. O velho ficou admirado quando eu lhe
+disse que o sr. Joãozinho era dos nossos. E lá o deixei a remoer a
+noticia. Ao menos resta-me a consolação de lhe ter adoçado com ella os
+ultimos momentos.
+
+N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter com
+um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer não sei que
+eleitor recalcitrante.
+
+--Ahi anda este--disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.--Era bem
+feito que lhe dessem outra lição, como a da taberna do Canada.
+
+--Ordem, ordem e prudencia!--disse o Pertunhas.--É preciso manter a
+liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes!
+
+--Mas que tem este senhor com as nossas eleições?
+
+--Quem o manda metter-se cá n'estas coisas?
+
+--Ora é boa! Então não sabem que elle casa no Mosteiro?--disse o
+Pertunhas, que andava sempre informado das vidas alheias.
+
+--Sim?!
+
+--É verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o Augusto, veio a
+nós o José Barbeiro, que nos deu essa novidade, que lh'a dissera o
+Manoel da Quinta, que a ouvira á Gertrudes, criada do Mosteiro.
+
+--Casa com a morgadinha, já se sabe?
+
+--Pois vêdes! não que a bolada convida! A mim logo me farejou isso,
+quando vi chegar esse figurão cá á terra. Mas querem vossês saber uma
+coisa engraçada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor não gostou da
+novidade.
+
+--Não? Então por quê?!
+
+--Vi-o fazer-se de mil côres quando a ouviu... Pois ter-se-lhe-ha
+mettido na cabeça... Hein?!
+
+--Tinha graça. Mas olha o milagre!...
+
+--Ah! ah!... Este mundo é muito divertido!
+
+N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a
+olhar para todos os lados, como procurando alguem.
+
+--Que temos nós lá, ó sr. Luiz?--perguntou-lhe o Pertunhas.
+
+--Onde diabo estão os de Pinchões?--perguntou o interpellado.
+
+-Inda não vieram.
+
+--Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles não apparecem. O
+morgado é homem para se esquecer a catar os cães.
+
+--Mas vamos nós principiando, e no emtanto elles virão--disse o
+Pertunhas, que fôra nomeado para revezador do secretario da mesa.
+
+--Mas a primeira freguezia que vota é justamente a d'elle. O sr. Seabra
+está como uma bicha!
+
+E, dizendo isto, o homem voltou para dentro.
+
+A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do
+beaterio, que pela voz dos padres chamava áquillo artes do demonio, ia
+principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais tarde, de
+proposito para não formar parte da mesa, requereu, com o relogio na mão,
+que se abrisse a urna aos eleitores, visto ser a hora marcada no edital.
+
+Este requerimento, simples e justo como era, suscitou discussão.
+
+O brazileiro allegou que, sendo os de Pinchões os primeiros a votar, em
+virtude do artigo 62.^o do decreto eleitoral, que manda votar primeiro a
+freguezia mais distante, e não estando na assembléa ninguem d'aquella
+freguezia, convinha esperar.
+
+O conselheiro insistiu, dizendo que a lei não mandava esperar por os
+eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que portanto
+votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas horas de
+espera, votariam os ausentes que depois viessem.
+
+Esta questão não se resolveu de prompto. Trocados alguns alvitres, lida
+a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados os recenseamentos e
+mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao administrador, e ao
+parocho, é que se approvou a proposta do conselheiro e principiou a
+chamada.
+
+A freguezia de Pinchões faltou em pêso.
+
+O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a lista
+dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os adversarios, e
+sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em principiar a
+votação julgou descobrir cavillação. Na urna não tinha entrado uma só
+lista. Pregoou-se o ultimo nome dos eleitores de Pinchões. Ninguem
+ainda!
+
+Passou-se a outra freguezia.
+
+O brazileiro já não estava em si.
+
+Os primeiros votos recolhidos mal os pôde introduzir na urna, de trémulo
+e sobresaltado que estava.
+
+O homem suppunha que lhe tinha sido roubada á ultima hora uma freguezia
+inteira. Não estava muito longe de acreditar que os agentes do
+conselheiro a haviam arrasado completamente.
+
+A freguezia que se seguia na votação era uma das que se conservavam
+fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a indisposição do
+Seabra.
+
+A votação ia, porém, correndo, interrompida apenas por algumas
+questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e sobre a
+regularidade d'esta ou d'aquella lista, graças aos futeis pretextos de
+que os contendores lançavam mão para disputarem, voto a voto, o
+suffragio popular.
+
+Ia adeantada a votação, quando correu na igreja uma voz, que veio
+infundir alento no animo desfallecido do brazileiro.
+
+-Veem ahi os de Pinchões!... Ahi estão os de Pinchões... Ahi vem o sr.
+Joãozinho e toda a sua gente!--dizia-se de toda a parte.
+
+Esta nova passou de bôca em bôca, a ponto de produzir um sussurro na
+assembléa.
+
+Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados.
+
+Chegára de facto alli o sr. Joãozinho das Perdizes, á frente da sua
+freguezia.
+
+Leitor, se tens, como eu, esperança e sincera fé no systema
+representativo, perdôa-me o obrigar-te a assistir a uma scena que faz
+subir a côr ao rosto de quem, como nós, abençôa os sacrificios por cujo
+preço nossos paes nos compraram a nobre regalia de intervir, como povo,
+na governação do Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa
+tutela de um homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos,
+contra os quaes o instincto e a razão igualmente se revoltam. A scena,
+porém, humilhante como é, não envolve a minima censura á excellencia do
+systema; mas apenas aos que nos quarenta annos que elle quasi tem de
+vida entre nós, não souberam ou não quizeram ainda fazer comprehender ao
+povo toda a grandeza da augusta missão que lhe cabe executar.
+
+Depois das nossas luctas civis, já muitas creanças se fizeram homens; se
+a escola fôsse entre nós o que devia ser, já haveria sobra de eleitores
+com perfeita consciencia dos seus direitos civis.
+
+O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, sómente devem impellir os
+homens de intenções sinceras e puras a applicar os esforços de
+intelligencia e de acção para ministrar com a educação a moralidade, e
+para acordar a consciencia d'esta entidade social.
+
+Era o sr. Joãozinho das Perdizes á frente da sua freguezia, disse eu.
+
+E é justamente este o espectaculo humilhante de que falava.
+
+Tendes visto um guardador de cabras á frente do seu rebanho, conduzindo
+com acenos e assobios todas as barbudas cabeças d'aquelle regimento
+quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da scena que se
+presenciava agora no adro da igreja matriz.
+
+O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mãos o sceptro da
+sua soberania, não era menos docil do que os irracionaes que recordamos.
+
+O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava;
+quando podia dispôr dos destinos dos seus senhores, era quando mais
+vergava a cabeça sob o pêso que estes lhe assentavam.
+
+Não é similhante esta fôrça inconsciente do povo á do boi robusto e
+válido, que uma creança dirige e subjuga? Forte como elle, como elle
+docil, como elle laborioso, como elle util, não vê que a mesma fôrça que
+emprega no trabalho lhe poderia servir para repellir o jugo. Ou quando o
+vê, é quando o desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas
+tremendas.
+
+Mas o povo de Pinchões, o povo do sr. Joãozinho, estava muito longe
+d'esses excessos.
+
+O morgado vinha, como já disse, á frente.
+
+A barba por fazer, as melenas despenteadas, o lenço do pescoço sôlto,
+sem botões o collarinho da camisa, com as mãos mettidas no cós das
+ceroulas, o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas
+até o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bôca, o palito atraz da
+orelha, o chapéo sobre o occiput, dois galgos adeante de si, e o
+inseparavel Cosme quasi _à latere_. Entrou no adro com ares
+triumphantes, sorrindo e piscando os olhos para os seus amigos e
+partidarios, como para lhes fazer notar a numerosa procissão que o
+seguia e a docilidade dos membros d'ella.
+
+Atraz vinham os eleitores de Pinchões, velhos e moços, ricos e pobres,
+mas todos com o olhar timido e estupido, todos com movimentos enleados,
+todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle
+parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com elle; a direcção que
+tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo,
+segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se
+praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou á porta da igreja.
+
+O morgado passou revista á sua tropa, á qual deu instrucções.
+
+Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braços estendidos e
+a cabeça baixa, não ousavam fazer um movimento, e conservaram-se
+enfileirados até nova ordem do sr. Joãozinho.
+
+Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem.
+
+No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel almaço
+dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de um homem que elles
+nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um d'elles,
+chamado pela voz do escrutinador eleitoral, responderia: «presente»;
+approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle
+papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um pêso que o
+opprimia.
+
+Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto
+que acabavam de executar, não saberiam dizel-o; se lhes perguntassem o
+nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das suas
+liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a resignação do
+direito de votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem
+que n'aquelle dia estavam nas suas mãos e dos seus pares os destinos do
+paiz, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiança
+propria dos ignorantes.
+
+Innocente povo!
+
+Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómmodo degrau.
+
+Quando disseram ao sr. Joãozinho que já tinha passado a sua vez de
+votar, o homem rompeu pela igreja dentro, berrando, bracejando,
+ameaçando céos e terra, sem attender a quantos lhe clamavam que tinha de
+se proceder a nova chamada, e que portanto socegasse.
+
+O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justiças.
+
+Custou a serenar o morgado, e não o fez senão depois de duas pragas
+contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas que razões politicas
+fizeram engulir ao brazileiro, sem nem sequer lhe tirarem dos labios o
+sorriso com que saudára a vinda do morgado.
+
+Caindo em si, o sr. Joãozinho deu ordem á sua gente para que entrasse
+para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos lados d'ella, promptos á
+primeira voz.
+
+A chamada proseguia, e a votação não ia já muito favoravel ao
+conselheiro, a julgar pelos indicios, que não escapam aos olhos
+amestrados dos mirones.
+
+O brazileiro exultava comsigo mesmo, principalmente quando, por sobre as
+cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do
+morgado, compactas e decididas.
+
+O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo
+cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo
+sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do
+brazileiro.
+
+Era caso desesperado.
+
+Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde
+estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo
+eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a
+nossa narração.
+
+Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre
+os quaes o Zé P'reira.
+
+Com este deu-se um episodio comico, que merece menção.
+
+O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o
+parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que
+era contra a expressa determinação do artigo 61.^o, § unico, da lei
+eleitoral.
+
+Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi
+impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé
+P'reira. Era uma nódoa de vinho.
+
+Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se
+lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.^o.
+
+A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a
+maior candura:
+
+--Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que
+vocemecê me deu.
+
+O proprio conselheiro desatou a rir.
+
+O brazileiro resmungou:
+
+--Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?
+
+-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir--disse o Tapadas, e
+accrescentou:--ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé.
+
+Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista
+caiu na urna.
+
+Estava a findar a primeira chamada.
+
+Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.
+
+A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve
+entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar.
+
+Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do
+herbanario, cuja inicial era um V.
+
+Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a
+actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram
+affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e
+paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna
+para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição
+inevitavelmente.
+
+O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se
+desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.
+
+O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.
+
+--Vicente Rodrigues da Fragosa--disse elle, preparando-se já para voltar
+o caderno.
+
+--Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe--disseram alguns.
+
+E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja
+uma voz trémula, mas sonora ainda, responder:
+
+--Presente.
+
+Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.
+
+Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o
+velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio.
+
+Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.
+
+Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o
+herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido,
+segurando a lista que vinha lançar na urna.
+
+Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor,
+perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do
+tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do
+caminho com respeito, senão com supersticioso terror.
+
+Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som
+dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja.
+
+O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do
+herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia,
+parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade
+politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição
+de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.
+
+Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam
+approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura.
+
+Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um
+pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um
+pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.
+
+O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão
+em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao
+encontro, dizendo commovido:
+
+--Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!...
+
+O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.
+
+--Arreda-te!--disse com severidade--deixa-me, serpente, que mordes a mão
+do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia,
+quando estiver a expirar!
+
+O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas
+palavras.
+
+--Ó tio Vicente!...--exclamou, ajuntando as mãos--pois eu que lhe fiz?
+
+--Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar
+contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle
+a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso:
+eu não o quero para mim.
+
+E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro,
+que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:
+
+--Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
+
+O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.
+
+Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela
+assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava
+approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim
+estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.
+
+--Manoel,--disse-lhe o velho em voz sumida--não me cegava tanto o
+resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo.
+
+--E sel-o-has sempre, Vicente.
+
+--Sempre que o seja... por pouco tempo será--respondeu o velho, sorrindo
+tristemente.
+
+--Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?
+
+--Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e
+outros mais.
+
+A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia
+luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na
+garganta.
+
+--Já não posso...--murmurou elle.--Queria dizer-te...
+
+E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:
+
+--Era... d'este... Elle é... elle está...
+
+Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes,
+ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.
+
+Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras
+morto, quando o fôram a erguer.
+
+O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o
+adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o.
+Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um
+agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
+
+Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis.
+
+Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.
+
+Os indifferentes voltaram a continuar a eleição.
+
+Ia principiar a segunda chamada.
+
+O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava
+desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja.
+
+O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo,
+acharam-se sós junto do cadaver.
+
+A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens
+precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em
+que o conselheiro esteve só com Augusto.
+
+N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao
+resentimento.
+
+--Augusto--disse elle a meia voz--a morte não deixou este infeliz
+completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu
+adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo.
+
+E, dizendo isto, estendia-lhe a mão.
+
+Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:
+
+--A mão que v. ex.^a me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as
+injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso.
+Desde que uma vez v. ex.^a formulou a accusação e se fez juiz, prefiro,
+a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico
+mais em paz com o meu orgulho.
+
+A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.
+
+Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver.
+
+Augusto acompanhou a casa o herbanario.
+
+O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco
+disposto a permanecer alli.
+
+--Fique se quizer--disse elle para Henrique.--Não estou em estado de
+receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a
+mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar
+esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande
+novidade. Adeus.
+
+E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.
+
+Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias
+circumstancias que a acompanharam.
+
+Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou
+ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára.
+
+A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da
+vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina
+alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava
+exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das
+suas previsões, infelizmente realisadas.
+
+Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira,
+o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito
+pela derrota que se lhe preparava na urna.
+
+Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação
+era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir.
+
+Assim, por exemplo, dizia elle á filha:
+
+--Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma
+vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer;
+a vida politica ia-me cançando já.
+
+Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal
+simulada satisfação!
+
+Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem
+estas exterioridades lhe permittia já.
+
+Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de
+votos.
+
+Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só
+pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de
+uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.
+
+Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos
+afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos
+tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram
+preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a
+ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões
+ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos
+sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão
+intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada
+individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o
+effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a
+todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da
+sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a
+ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e
+comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas
+exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta
+d'ellas.
+
+O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava
+preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que
+esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de
+que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma
+grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento
+prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a
+tranquillidade da certeza.
+
+É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um
+desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como
+as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os
+ramos cortados?
+
+O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos,
+passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de
+vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e
+melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.
+
+Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando
+viesse, feril-o-ia como imprevista.
+
+Sempre assim succede.
+
+No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções
+por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes.
+
+O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.
+
+Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo
+bateram precipitados.
+
+A causa estava, emfim, decidida.
+
+A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do
+vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle?
+
+O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um
+sorriso amargo, disse para a familia:
+
+--Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!
+
+--Quem sabe, mano? Ás vezes...
+
+Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando
+Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:
+
+--Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!
+
+--A correr?!--disse o conselheiro, em quem esta simples noticia
+infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das
+pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella.
+
+As senhoras seguiram-n'o alli.
+
+O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os
+silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro.
+
+--Parece o Domingos, o criado do Tapadas...--disse o conselheiro,
+affirmando-se.
+
+--Mas que pressa elle traz!--notou D. Victoria.
+
+--Já nos viu--disse Angelo.
+
+--Lá acenou com o chapéo--exclamaram todos.
+
+--Que quer elle dizer com aquelles signaes?--tornou o conselheiro,
+nervoso.
+
+--Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano.
+
+--Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É
+boa!--disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer
+que lhe descubram uma esperança.
+
+Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia
+n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.
+
+Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir
+alli. Mal se respirava.
+
+--Eil-o--disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle
+appareceu.
+
+--Viva! sr. conselheiro, viva!--bradou elle de lá, apesar de esfalfado.
+
+O conselheiro teve quasi uma vertigem.
+
+--Elle que diz?... Como pode...
+
+Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com
+frenetico enthusiasmo.
+
+Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae
+desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e
+celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião
+da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um
+partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o
+ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos
+momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a
+commoção que esta produz, se se realisa.
+
+O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava:
+
+--Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano...
+
+Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez
+a sair d'ella.
+
+Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto.
+
+O conselheiro interrogou o.
+
+--Então que dizes tu? Que vivas são esses?
+
+--Digo que vencemos--respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na
+primeira pessoa do plural.
+
+--Estás a sonhar?
+
+-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para
+lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.^ê... tinha v. s.^a mais
+cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por
+junto. No caminho ouvi a girandola...
+
+--Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser!
+
+--Cento e cinco!
+
+--Estás bem certo no que te disse teu amo?
+
+--Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo.
+
+O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel
+aquillo que lhe annunciavam.
+
+Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para
+ir por seus proprios olhos averiguar do facto.
+
+Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira
+nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares
+com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre
+Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!
+
+O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram
+estrondosas.
+
+A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime.
+
+O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação.
+
+Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes
+eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa.
+
+--Que quer dizer isto?--perguntou o conselheiro, abraçando-os.
+
+--Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem
+menos--respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas.
+
+--Cento e trinta e cinco--repetiu o Pertunhas.
+
+--Mas d'onde vieram!
+
+--Ora essa é boa! De Pinchões.
+
+--De Pinchões--repetiu o Pertunhas.
+
+--Como?... Pois o morgado?...
+
+--Votou comnosco como um homem. Ora pudéra!
+
+--É verdade... votou... comnosco--dizia mestre Pertunhas.
+
+--Mas não se viu ainda ha pouco...
+
+--Que estavam com metralha inimiga?--concluiu o Tapadas.--Que tem lá
+isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um
+destrôço! Parece a loja de um farrapeiro.
+
+--Mas explica-me isso, Tapadas.
+
+--Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda
+que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao
+morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente
+expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que
+se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me
+metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse
+e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada
+ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um
+momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se
+põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda.
+Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a
+urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a
+vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é
+que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás
+cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no
+fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra
+o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á
+girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles,
+pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto!
+
+E o Tapadas terminou com outra gargalhada.
+
+O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe
+as costas, dizendo:
+
+--Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se.
+
+E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que
+estavam proximos:
+
+--Este Tapadas tem cada graça!
+
+Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario.
+Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com
+exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o
+elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito
+calculam.
+
+As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as
+suas demonstrações de alegria.
+
+O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e
+das festas populares que se faziam no pateo.
+
+
+
+
+XXXI
+
+
+A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, não só pela
+qualidade de homem que era aquelle, como pelas circumstancias, no meio
+das quaes o facto succedêra.
+
+O resultado da eleição, comquanto momentoso, não distraía do assumpto as
+attenções; pois que, tendo sido successos simultaneos, associavam-se
+naturalmente nas conversas e discussões, e um chamava o outro.
+
+O herbanario não fôra colhido desprevenidamente pela morte; havia muito
+tempo que fizera as suas disposições e por ellas legára a Augusto tudo
+quanto possuia, isto é, alguns livros, entre os quaes a _Polyanthea_, e
+o preço, quasi intacto, que recebêra pela casa expropriada.
+
+Logo que estas disposições fôram sabidas, não faltou quem achasse
+n'ellas a explicação da amizade desvelada com que Augusto sempre tratára
+o velho, e do piedoso acatamento com que o recebêra em casa, assim que
+da sua o expelliram.
+
+Nós que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos julgar a fundo
+do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos taes juizos.
+
+É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no
+desinteresse dos outros!
+
+Não ha explicação mais difficil de ser recebida do que a que se
+fundamenta n'um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade.
+
+É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim desconfiarmos do
+proximo. Porque a final o que é verdade é que a mais exacta e infallivel
+sciencia do coração humano só se adquire pelo estudo do proprio coração:
+esse é o unico que nos está bem patente. É por isso que as melhores
+almas são de ordinario as mais crentes.
+
+Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as
+apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado
+o coração como suppõe o dos outros.
+
+O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi
+muito concorrido.
+
+Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinação do fallecido, em campa
+rasa, e não no tumulo da familia do Mosteiro, como o conselheiro
+desejára.
+
+Tudo se passou sem o menor signal de opposição.
+
+Não se explicam bem estas versatilidades da opinião publica. Uma medida
+que hoje ateia uma revolução, ámanhã executa-se no meio do
+indifferentismo geral, e sem apostolado prévio, sem providencias
+repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao
+legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia
+das leis naturaes.
+
+O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do
+herbanario, e receberam as visitas de pêsames, que em parte eram tambem
+de parabens pelo exito do suffragio popular.
+
+Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam na
+igreja matriz as badaladas das Avé-Marias, Augusto entrou no cemiterio,
+já deserto, e approximou-se lentamente da sepultura, inda coberta de
+pouco, como o denunciava a terra revolvida.
+
+Elle, cujo coração era decerto o que a morte do herbanario mais
+dolorosamente ferira, não recebêra pêsames de ninguem. Passára a tarde
+só com o seu pensamento, o qual, como o leitor prevê, lhe não devia ser
+muito jovial companheiro.
+
+Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado
+pelo ar abatido, revelador de uma profunda prostração de animo, que lhe
+quebrára as fôrças.
+
+Que era feito d'aquella energia, com que se revoltára contra as
+perseguições da sorte, e que lhe animára os primeiros passos para obter
+a justificação devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem
+mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir
+nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe
+perdão; vimol-o recusar o auxilio que este já lhe offerecia, e
+considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da
+sua innocencia.
+
+Que é feito d'essa energia?
+
+O que é feito d'ella? leitor, talvez o teu coração te possa responder
+por mim, se és uma d'essas victimas, para quem a sorte parece
+personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios
+lentos.
+
+Quando, uns após outros, se repetem os golpes da adversidade, quando
+todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldição de
+Deus, é raro encontrar-se têmpera de alma tão rija que resista e não
+ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta
+com um poder superior.
+
+A razão mais clara deixa-se tomar então da cegueira do fatalismo, e
+eivado d'esta grave doença dissipa-se a fortaleza do espirito, como se
+extinguem as fôrças do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador.
+
+Então encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a que é tão
+sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gôso em succumbir sem
+lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema
+infelicidade.
+
+Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provações da vida: a miseria
+em perspectiva, a ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que
+ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade
+o insulto e a calumnia: sorrira á miseria e á ingratidão, e dera á
+amizade as consolações que a amizade lhe inspirára.
+
+Mas não desfallecêra com tudo isto.
+
+Maior provação lhe estava reservada, porque ha maiores provações para a
+alma humana, do que todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de
+subito a estrella que a guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia,
+dormindo no meio de uma desencantada realidade; privae-a da ideia
+querida, que havia muito concebêra, que comsigo vivia, que para si
+guardava, ciosa dos olhares extranhos, e vêl-a-heis desnorteada,
+perdida, louca, contorcer-se em desespero e succumbir.
+
+Se resiste e sobrevive, se não desfallece, nem vacilla, é porque é de
+essencia mais elevada do que a humana.
+
+Ás vezes aquella ideia era tão irrealisavel, aquelle sonho tão
+chimerico, que a pobre devia estar prevenida para o perder um dia, e
+julgou que o estava.
+
+Mas illudira-se. Se nos dermos de coração a uma chimera, se ella, nas
+fórmas vagas e aereas que reveste, nos sorrir e namorar, em vão julgamos
+têl-a por o que verdadeiramente é; ha sempre um ou outro momento em que
+a acreditamos realisavel e até realisada.
+
+E, ao convencermo-nos devéras da sua impossibilidade, sentimos a dor
+profunda que nos causa a perda de um objecto querido.
+
+Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes
+vestiam a fórma humana, assim o impossivel, quando nos apaixonamos
+d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a feição da realidade aos nossos
+olhos namorados.
+
+E ao revelar-se como impossivel, destróe o coração que o abraça, como
+Jupiter sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua
+gloria de deus.
+
+Qual fôsse a ideia constante, o pensamento recatado de Augusto,
+sabem-n'o os leitores: era o amor de Magdalena. A natureza d'esta paixão
+dizia elle conhecel-a. Não tinha outra aspiração além de existir, era
+como o culto pela Virgem do Christianismo, era que se adora por adorar,
+em que na mesma adoração se acha o premio do culto, em que o deixar-se
+adorar é o mais que pode pedir-se ao objecto d'elle.
+
+De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto.
+
+Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique,
+sentiu quasi aversão para elle? por que foi que, amavel e bondoso para
+com todos, só para com um desconhecido se mostrou frio e irritante? por
+que foi emfim que, ao persuadir-se, por certos indicios, de que
+Magdalena e Henrique se amavam, caiu no desalento, em que tantas causas
+de infortunio o não tinham lançado ainda? Porque a verdade era que foi
+este o golpe que o venceu.
+
+Por quê? porque amava Magdalena, porque este amor não tinha nada
+excepcional; era inconscientemente apprehensivo, ambicioso, devaneador e
+ciumento, como todos os amores verdadeiros; porque era aquelle o seu
+sonho mais querido, e desde que era obrigado a convencer-se de que não
+passára de um sonho, não se sentia de animo para fitar a realidade;
+porque era aquella a luz da sua alma, e ao vêl-a apagar, vacillou nas
+trevas e parou. Desde que não avistava um alvo, não havia para elle
+retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que não valia mais
+do que a quietação.
+
+Esta fôra a causa do desalento de Augusto, que só então conheceu que se
+illudira com o estado do seu coração, que o que em si se passava era o
+verdadeiro amor.
+
+Desde que teve de renunciar a elle, não fez mais um esforço para
+justificar-se da calumnia que pesava sobre si. Sentia-se indifferente á
+condemnação do mundo. Já nem lhe importava justificar-se para com
+Magdalena; era quasi uma vingança, que tirava d'aquella por quem
+soffria, obrigal-a a ser injusta.
+
+E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto!
+
+O herbanario fôra victima da mesma illusão de Augusto, e concorrêra
+involuntariamente para o levar a este estado moral.
+
+Das explicações dadas por Magdalena na casa dos Cannaviaes, sabemos como
+das meias palavras e meias revelações de Torquato, o herbanario
+acreditára que a morgadinha combinára imprudentemente com Henrique uma
+visita nocturna á quinta dos Cannaviaes. O velho, que suspeitára sempre
+da natureza dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vêr
+n'aquillo a confirmação das suas suspeitas, e encontrando Magdalena,
+reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a quiz.
+
+Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dúvida, se deveria
+ou não revelar tudo a Augusto.
+
+A noite cerrou de todo e deslizou com a lentidão de uma noite de
+inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia seguinte
+passou-o na mesma indecisão. Mas a inquietação do herbanario crescia;
+desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha exposta Magdalena, cuja
+confiança em Henrique a podia perder.
+
+O herbanario continuava a desconfiar de Henrique.
+
+Chegára a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com uma das
+meninas de visitar á meia noite, por causa de Henrique, a casa dos
+Cannaviaes. O velho não pôde mais tempo conter-se e disse a Augusto,
+depois de muito luctar comsigo:
+
+--Não devo calar-me. É preciso coragem, meu filho. Arranca do coração a
+loucura que lá tens ainda, embora o deixes em sangue, ou estás perdido.
+
+Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto.
+
+O velho proseguiu:
+
+--Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que
+vires te não curar, se é sem remedio esse mal, ao menos sê generoso, e
+acode e salva, se fôr possivel, quem, perdendo-te, se perde tambem.
+
+E após estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto tremeu de
+investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma noite,
+recommendando-lhe que fôsse preparado para receber uma grande dor.
+
+Augusto seguiu as indicações do herbanario, e foi.
+
+Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da
+piedosa devoção de Christina, a vimos chegar á janella dos Cannaviaes.
+
+A morgadinha reconhecêra Augusto através das sombras nocturnas, e tivera
+um presentimento do que significava a presença d'elle n'aquelle logar e
+n'aquella occasião.
+
+Por concentrada e discreta que fôsse a paixão de Augusto, não era um
+mysterio para Magdalena.
+
+A extranhar alguem esta penetração de vista não será decerto nenhuma das
+minhas leitoras.
+
+Magdalena adivinhára havia muito Augusto, e não lhe fôra difficil
+explicar até a instinctiva hostilidade com que elle sempre acolhêra
+Henrique.
+
+Por isso, ao vêl-o alli, previu que pesava sôbre ella uma suspeita, que
+era victima de uma illusão, e que as apparencias a podiam condemnar.
+
+De feito Augusto chegára tarde aos Cannaviaes, porque só tarde o
+herbanario vencêra a hesitação que experimentára ao dizer-lhe que fôsse.
+Por isso só pôde reconhecer a voz e a figura da morgadinha e de Henrique
+no curto dialogo, que entre os dois se trocára, quando vieram examinar á
+janella o estado da noite.
+
+As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas de uma maneira
+cruel para o seu coração. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais querer
+vêr nem ouvir, retirou-se como um louco.
+
+Foi n'essa occasião que Magdalena o viu.
+
+Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava,
+viu-o pallido, e com uma expressão singular no rosto.
+
+--Então?--interrogou-o anciosamente o velho.
+
+--Tinha razão, tio Vicente. Tem sido uma longa e má loucura a minha.
+Verei se me curo d'ella.
+
+E, sentando-se, encostou a cabeça ás mãos e permaneceu silencioso.
+
+O velho não lhe perguntou o que se tinha passado.
+
+D'ahi em deante foi em rapido progresso a prostração de animo em
+Augusto.
+
+A doença do herbanario que se exacerbou consideravelmente tambem, era o
+unico motivo de uma fôrça ficticia que ainda o sustentava. Os seus
+desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes.
+
+A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a do
+cirurgião que tratava do herbanario.
+
+Falador por indole e por cálculo profissional, o facultativo contava á
+cabeceira do leito as novidades do dia. Entre essas trouxe uma das que
+mais vogavam, que era a de que Henrique casava no Mosteiro com a
+morgadinha.
+
+Um equivoco dizer do Torquato, na presença dos criados do mosteiro, uma
+das meias discreções do velho, mais perigosas do que a propria
+indiscreção originára esta versão.
+
+Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, que
+o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto impassivel.
+
+No dia das eleições, o estado do velho Vicente era mais grave ainda. O
+cirurgião prolongou a sua visita e falou da campanha eleitoral.
+Assegurou que era certa a derrota do conselheiro, desde que contra elle
+se manifestára o sr. Joãozinho das Perdizes.
+
+O herbanario escutou-o com admiração e sobresalto.
+
+Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma
+predilecção que a tudo sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o
+affecto que alguns paes sentem pelos filhos, de quem só teem recebido
+desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais
+motivos ha para a esfriar.
+
+Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.
+
+Foi então que o herbanario, dominado por energia febril, quiz erguer-se
+do leito, e, apoiado no braço de Augusto, que em vão tentou dissuadil-o,
+se dirigiu á igreja para votar. O resultado sabem-n'o os leitores.
+
+Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar o
+alento a Augusto. Facil é, pois, de conceber qual o estado do seu
+espirito ao entrar no cemiterio.
+
+Oração ou meditação, por muito tempo durou aquelle tributo de saudade,
+que o aspecto sombrio da tarde e a melancolia do logar e da hora mais
+solemne faziam.
+
+Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava
+d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do
+tumulo da filha.
+
+Não era o Cancella já o mesmo robusto e alegre aldeão que vimos,
+dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado rustico, representar com
+applauso o tyranno perseguidor do Messias. Desde a morte da filha
+parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, nem tinha fôrças para o
+trabalho, nem coração para alegrias.
+
+Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o que
+se movia alli.
+
+--Ah! logo vi que era o sr. Augusto--disse o pobre homem, estendendo a
+mão, que Augusto apertou com affecto.--Só nós temos amigos aqui.
+
+--É verdade, Cancella. Ou só nós, fóra d'aqui, não temos outros, pelos
+quaes esqueçamos estes, que ahi dormem.
+
+--Eu decerto que não! Está-me toda a alegria, está-me todo o coração
+debaixo d'aquella pedra--disse o Herodes, apontando para o tumulo da
+filha.--Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar?
+
+--Ha quem aos vinte já não tenha coragem para principiar outra!
+
+O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras.
+
+--Fala de si, sr. Augusto?... Não tem razão. Que são as suas dores ao
+lado da minha? Se ainda não experimentou o amor e as alegrias de pae,
+como ha de imaginar a dor, que a morte de uma filha unica nos traz ao
+coração?... A minha pobre Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o
+têl-a perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com razão, que
+era seu amigo e quasi um pae para si... mas não é sem remedio a sua
+saudade, verá... A minha porém...
+
+Augusto sorriu amargamente.
+
+--Tu sabes lá, homem, o que eu tenho no coração?
+
+N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de
+acclamações e applausos. Eram os clamores dos grupos populares,
+celebrando a victoria do conselheiro.
+
+Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais.
+
+--Uns riem, emquanto outros choram--disse o Cancella.--Ha alegria acolá.
+
+E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli.
+
+--Ha...--respondeu Augusto, pensativo.--Somos de mais n'esta terra, meu
+pobre Cancella; nós, os infelizes.
+
+--Por isso parto ámanhã.
+
+--Partes?
+
+--Se eu não posso viver aqui! Se tudo isto me está falando na filha!...
+A cada passo estou á espera de vêl-a... É como se a todo o instante me
+morresse. Vou para a cidade; dizem que estão engajando por lá
+trabalhadores para o Brazil... Quero vêr se o trabalho me mata, antes
+que o desgôsto me não tente a morrer de outra sorte.
+
+--E dizes que partes ámanhã?
+
+--De madrugada. Já tenho tudo prompto.
+
+Augusto reflectiu por algum tempo.
+
+--Far-te-hei companhia.
+
+O Herodes olhou-o, admirado.
+
+--O sr. Augusto?! Pois quer?...
+
+--Quero que me batas á porta, quando passares.
+
+--Mas que tenções são as suas, sr. Augusto?
+
+--As mesmas talvez que as tuas. Não dizes,que queres vêr se o trabalho
+te mata? Por que não hei de eu tentar o mesmo tambem?
+
+--Mas... não lhe morreu uma filha.
+
+--E cuidas tu que só um amor de filha nos pode prender á vida? que só a
+morte de uma creança nos pode ferir no coração?...
+
+O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois
+disse, com hesitação ainda:
+
+--Não é por certo a morte d'este santo velho que o faz falar assim, sr.
+Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez que lhe fizesse bem.
+Bem vê que eu sou infeliz e... havia de entendel-o...
+
+Augusto apertou-lhe a mão, commovido.
+
+--Pobre amigo! Não, não me entenderias; porque não basta ser infeliz
+para me entender. É necessario ter sido louco como eu fui.
+
+--Louco?!...
+
+--Sim, louco, meu bom Cancella, louco. Não te lembras d'aquelle
+desgraçado do Pé do Monte, que se suppunha rei? Como ria n'aquelle
+tempo! Um dia voltou-lhe o juizo, mas ficou tão triste até morrer, que
+parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe devesse os unicos
+instantes de felicidade que sentiu na vida.
+
+O Herodes já não comprehendia Augusto, o que lhe fez crêr que o não
+entenderia se elle o tomasse por confidente.
+
+Augusto mudou de tom, dizendo-lhe:
+
+--Promettes passar por minha casa esta madrugada?
+
+--Pois sempre quer?...
+
+--Se não partir comtigo, partirei só.
+
+--N'esse caso...
+
+--Espero-te. Aonde vaes agora?
+
+--Ao Mosteiro.
+
+--Ah!... vaes ao Mosteiro?...
+
+--Vou despedir-me d'aquella santa familia, que tão bem me tratou da
+filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se não
+consolou tambem da morte da minha pobre Linda.
+
+--Angelo?... É um nobre coração... Espera... Não quero partir sem lhe
+dirigir algumas palavras... Devo-lh'as.
+
+--Só a elle?
+
+--Só elle m'as agradecerá.
+
+E Augusto approximou-se do tumulo da mãe de Magdalena, e á frouxa
+claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em um quarto de papel
+estas palavras:
+
+
+ «Angelo.--Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que repousam sua
+ mãe e Ermelinda, duas imagens que serão sempre para o seu coração
+ rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ouça-me, que em nome
+ d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre
+ estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as
+ sombras de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem
+ custo. Não o tornando talvez a vêr, Angelo, tinha um dever a
+ cumprir para com a sua generosidade. Hão de ensinal-o a
+ desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creança
+ recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razão do
+ adolescente talvez venha a ser mais docil. Não podendo
+ justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a
+ consciencia tranquilla. Não é por mim que faço este protesto, é
+ para lhe evitar, se fôr possivel, a dúvida no caracter dos homens.
+ Para um coração, como eu lhe conheço, deve ser um martyrio. Os mais
+ que me condemnem; nem necessidade sinto já de me justificar. Parto
+ com um desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo
+ acceito com indifferença.--Seu amigo, _Augusto_.
+
+
+Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a
+que deviam encontrar-se, separaram-se.
+
+O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que
+ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.
+
+Não pôde, porém, chegar tão depressa ao Mosteiro como esperava;
+distrahiu-o no caminho o seu compadre Zé P'reira.
+
+A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso
+Zé P'reira, estava cada vez mais transtornada.
+
+A beatice azedára o animo da sr.^a Catharina do Nascimento de S. João
+Baptista.
+
+A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro na terra
+depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle
+imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle santo varão do
+prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoção
+pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia.
+
+Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Zé
+P'reira, peor se tornou depois d'essa época.
+
+A mulher passava todo o tempo em devoções na igreja. O marido,
+desconsolado, procurava lenitivo na taberna.
+
+Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado
+habitual, e já menos inoffensiva e pacifica do que nos primeiros tempos.
+
+A miseria ameaçava invadir aquelle lar, até alli remediado.
+
+Tudo isto exacerbára a acrimonia das discussões conjugaes.
+
+Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e
+attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal.
+
+De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais
+ameaçadora.
+
+Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais além do que a sua
+timidez habitual o permittira até alli, e a sr.^a Catharina soube, pela
+primeira vez, que o osso de que ella era osso não tinha a brandura que
+lhe suspeitava.
+
+Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhança. D'ahi por
+deante fôram frequentes iguaes espectaculos.
+
+Na noite em que o Herodes o encontrou, o Zé P'reira, em completa
+embriaguez, acabára de fazer sentir mais uma vez a sua mulher toda a
+fôrça da auctoridade marital. Ella revoltou-se e abandonou os penates,
+jurando que nunca mais voltaria a elles.
+
+O pobre do homem andava agora perdido nas ruas á procura d'ella,
+arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia dó. O Cancella
+condoeu-se d'elle, e dando-lhe o braço, para lhe firmar os passos
+cambaleantes, conduziu-o a casa, promettendo restituir-lhe a mulher
+fugida.
+
+E n'esta tarefa de reconciliação passou grande parte da noite,
+conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de que não seria muito
+duradoura a paz.
+
+E tinha razão o Cancella em pensar assim. Ao lar domestico, onde uma vez
+se passa uma scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia.
+
+O pobre do Zé P'reira estava condemnado a levar assim o resto da sua
+vida de familia.
+
+Esta occorrencia demorou o Herodes, que só tarde entrou no Mosteiro a
+despedir-se da familia que tanto lhe estimára a filha.
+
+
+
+
+XXXII
+
+
+Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada á
+insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na aldeia, não porque
+os preparativos da jornada lhe impedissem o repouso, mas a lucta de
+tantos pensamentos e paixões encontradas, decerto lhe disputaria o
+espirito.
+
+Partir é já uma palavra, que quasi nunca se pronuncia com indifferença;
+partir para não voltar é uma ideia afflictiva, que mais violenta
+commoção desafia; partir sem esperanças no futuro... poucas torturas de
+alma se podem comparar a esta!
+
+Experimentava-a Augusto.
+
+Era quasi uma resolução de suicida a sua. Nenhuma ambição tivera poder
+sobre elle para o arrancar d'alli; tivera-o o desespero.
+
+A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os
+olhos fitos na chamma da véla, com a cabeça entre as mãos, sem saber em
+que pensava, sem consciencia de si.
+
+A noite estava socegada, e apenas o som monótono de uma fonte proxima
+interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas.
+
+Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se
+costuma ler em situações identicas.
+
+Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os
+seus movimentos uma indecisão, uma falta de consciencia, que não deixava
+dúvidas sobre o estado do animo que os regia.
+
+Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as suas
+acções; e no meio do cumprimento de uma tenção, perdia a consciencia
+d'ella.
+
+Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria
+comsigo; mas cêdo afastava-o de si com enfado.
+
+Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de
+passados devaneios, effusão de uma alma sensivel, fructos da juventude e
+da solidão, a que a primeira inspirára o enthusiasmo, e a segunda a
+melancolia, tudo consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a
+chamma, desapparecerem as lettras, reduzir-se tudo a cinzas.
+
+Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em
+algumas de Magdalena. O sobresalto do seu coração, ao ler aquelle nome,
+era então mais violento que nunca.
+
+N'estas pesquizas veio-lhe ás mãos um pequeno masso, que pertencêra ao
+herbanario.
+
+Ia para as queimar tambem, quando a inscripção, que viu por fóra da
+cinta que as enfeixava, o fez hesitar.
+
+Liam-se estas palavras:--_Cartas de Magdalena_.
+
+Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma
+tentação.
+
+Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que já tinha
+renunciado; era entrar em communhão de pensamentos com ella, e infeliz
+de quem não concebe a casta voluptuosidade d'este gôso.
+
+Mas ao mesmo tempo hesitava.
+
+Pertencia-lhe tambem aquelle legado? Não seria um abuso lel-as? Devia
+antes queimal-as, mas... eram cartas de Magdalena. E depois, que mal
+poderia vir da indiscreção? Não tinha elle um coração que não devia
+abrir-se mais a ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o
+quasi em um tumulo.
+
+E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente?
+
+De que se poderia tratar alli, a não ser de algum affectuoso cumprimento
+da morgadinha ao velho, que sempre tratára com intima familiaridade, ou
+algumas meigas reprehensões por a sua porfiada ausencia do Mosteiro?
+
+Augusto recordava-se até do velho lhe ter falado na indole d'estas
+cartas.
+
+Nas vesperas de renunciar para sempre á felicidade, devia-se perdoar a
+tentação.
+
+Abriu-as.
+
+Não ia muito adeantado na leitura, quando já todos os signaes de
+hesitação cediam o logar aos da mais irreprimivel avidez. E terminada a
+primeira, abriu, leu ou devorou outra, e após outra e outra, até a
+ultima; da ultima voltava de novo á primeira, e cada vez mais profunda
+commoção parecia dominal-o.
+
+Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de
+todas.
+
+Dizia uma:
+
+
+ «Meu bom amigo.--Hontem, depois que nos separámos, recebi de Lisboa
+ a encommenda que esperava. O Angelo não se esqueceu. Mando-lh'a,
+ para que mais uma vez faça de feiticeiro, _adivinhando_ os gostos
+ do seu amigo.
+
+ «Afianço-lhe que vae acertar com os desejos d'elle. Ha tempos que o
+ vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, procurar de
+ preferencia na estante os livros de historia franceza. Custa-me a
+ perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a Revolução, mas emfim
+ seja feita a sua vontade. Escuso de lhe recommendar discreção. E,
+ quando nos virmos, peço-lhe que me não torne a falar nos laços em
+ que diz que eu estou a prender o coração. Mette-me mêdo.--Sua
+ amiga, _Lena_.»
+
+
+Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam:
+
+
+ «Meu amigo.--Hontem separámo-nos de tão mau humor, que hoje acordei
+ com remorsos, e não pude socegar emquanto lhe não escrevi para lhe
+ pedir perdão. Espero que perdoará a este rebelde genio que tenho.
+
+ «Mas tambem para que me está sempre a ralhar? Não se assuste pelo
+ meu coração; o maior perigo que o tio Vicente receia para elle,
+ faz-me sorrir.--É o de me apaixonar?--Então que tinha? Não sonhe
+ com nuvens, e vá representando o seu papel de _adivinho_, que é uma
+ generosa acção que pratica.--Sua arrependida inimiga, _Lena_.»
+
+
+ «Meu bom tio.--Ahi vão uns livros, de que eu não entendo nada.
+ Augusto falou d'elles ao filho do administrador, que veio de
+ Coimbra. Conheci n'elle desejos de possuil-os. Tomei nota. O Angelo
+ remetteu-m'os hontem. Para Augusto não desconfiar, finja atraiçoar
+ um pouco o mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, já
+ nada digo.»
+
+
+A de mais recente data dizia apenas:
+
+
+ «Tio Vicente.--Pensei no que me disse do estado do coração do
+ seu... do nosso amigo. Parece-me que exaggera. Mas, se fôsse
+ verdade, podia tranquillisar-se. Eu lhe afianço que d'ahi nunca
+ para elle virá a infelicidade. No entretanto, discreção por
+ ora.--Sua affeiçoada sobrinha, _Magdalena_.»
+
+
+Por a amostra, que lhe damos, o leitor não deve estranhar que estas
+cartas estivessem causando a Augusto o effeito que dissemos.
+
+Cada uma era uma revelação.
+
+Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha;
+d'ella lhe viera pois grande parte da instrucção que recebera, alli, na
+solidão d'aquella aldeia!
+
+O mysterio dos presentes do herbanario, a que tão diversas explicações
+dera, esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; suspeitára,
+pelo menos, que era a elle que o herbanario se dirigia para escolher os
+livros.
+
+Nunca, porém, se lembrára de Magdalena; agora, que sabia de que origem
+provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, venerava-os com
+expansões de verdadeira idolatria. Já não tinha coração para se separar
+d'elles.
+
+Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos
+cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella
+por Augusto, não havia para elle menor encanto. Pelo que tantas vezes
+lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza deviam ser as
+reflexões a que Magdalena alludia.
+
+O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois
+corações, estudando-os a ambos, receiando por ambos, lidando por
+extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer e que ameaçava
+degenerar em paixão. Toda a sua intervenção consistia em fazer com que
+elles se não revelassem; era o meio isolador que impedia que se ateasse
+o incendio. Nas suas mãos paravam os dois fios da corrente, só elle a
+interrompia.
+
+Esta situação do herbanario era para elle causa de grandes iuctas.
+
+Amando Augusto com sentimento paterno, tinha ambições por o amigo; e, ás
+vezes, movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella paixão. Por
+outro lado, não estimava menos Magdalena, e prevendo as resistencias e
+repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos a soffrer,
+hesitava e desejava poder abafar no coração dos dois os germens de
+pesares futuros.
+
+Tivemos occasião de o vêr sob estas diversos impressões. Umas vezes
+reprehendendo Augusto, outras quasi deixando-lhe entrever esperanças. A
+chegada de Henrique de Souzellas e os successos subsequentes despertaram
+no velho uma especie de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de
+Augusto.
+
+Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto.
+
+Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao coração, e tão
+enlevado estava pelo perfume do affecto que rescendia de todas, que nem
+se lembrava já da hora proxima da partida do motivo que a originára.
+Motivo que era o desmentido da sua illusão.
+
+Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impressão que produziu foi
+dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as lagrimas aos
+olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os braços, e assim
+permaneceu por muito tempo.
+
+Depois levantou a cabeça n'um impeto de desesperação, exclamando:
+
+--Para que me haviam de vir á mão estas cartas? Que espirito diabolico
+se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um anjo me acompanhava com
+a sua vista protectora só quando elle me vae deixar para sempre! E dizia
+ella que me não podia vir o infortunio d'aqui!... Não contava com as
+mudanças do proprio coração.
+
+Na vidraça da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram algumas
+leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer.
+
+--O Cancella já?... É pois certo que vou partir?
+
+Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe como os do condemnado
+ao caminhar para o supplicio.
+
+Chegára o momento de romper com todas as esperanças.
+
+--Estou prompto--disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, sem
+reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis que
+tinha dispersos na mesa.
+
+--Cuidei que era mais cêdo--continuou elle.--Distrahi-me a ler umas
+cartas que estive a pôr em ordem, e o tempo correu. Vamos lá, meu pobre
+amigo, deixemos esta terra para os venturosos.
+
+E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia
+estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e
+Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico
+sorriso.
+
+Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito em
+Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda contemplação.
+
+Magdalena foi a primeira que falou.
+
+--Admira-se de nos vêr aqui?--disse ella.--Que ha de mais natural?
+Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o mesmo
+pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe
+deviamos... visto que vae partir.
+
+E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de
+recriminação, que feriu Augusto.
+
+--E é certo que quer partir?--perguntou Angelo.
+
+--Sim... parto...--respondeu Augusto, perturbado.
+
+--Mas por quê? Que significa essa resolução? Lena contou-me ha pouco
+tudo. Eu nada sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame,
+e em nossa casa! Mas, já resolvemos; ámanhã, eu e Lena, havemos de
+falar, havemos de conseguir...
+
+--Não, Angelo. É inutil. Deixe-me com o meu destino. É a elle que eu
+obedeço.
+
+--Não fala verdade,--acudiu a morgadinha--diga que obedece á sua
+phantasia, e commette uma ingratidão.
+
+Á palavra «ingratidão», Augusto não pôde reprimir um sorriso de
+amargura.
+
+--Uma ingratidão, sim--repetiu Magdalena, respondendo com firmeza e
+serenidade áquelle sorriso.--Ha dias, depois de uma scena dolorosa para
+todos nós, quando saía do Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel
+fatalidade, encontrou alguem no limiar da porta, que lhe pediu que não
+partisse sem se despedir... de quem através de tudo, o acreditaria
+innocente. E para esta pessoa não houve uma só palavra na carta de
+despedida que mandou a meu irmão! E escreveu-a sobre o tumulo de minha
+mãe!
+
+Estas palavras fôram ditas com tão sentida commoção, que Augusto esteve
+quasi a lançar-se-lhe aos pés, para pedir perdão; reteve-se, porém, e
+respondeu turbamente:
+
+--Porém, minha senhora, por essa occasião eu jurei tambem á pessoa de
+quem fala, e a quem serei sempre grato, que não procuraria tornar a
+vêl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de todos digno
+da sua generosa confiança.
+
+--Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser visto?--perguntou
+Magdalena, sorrindo.--Veja qual d'esses juramentos será mais em harmonia
+com os seus actos.
+
+A lembrança da excursão nocturna aos Cannaviaes, para espiar Magdalena,
+tirou a Augusto o animo de responder.
+
+Magdalena comprehendeu aquelle embaraço, e não insistiu.
+
+--Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as provas
+da sua justificação?
+
+--Não, minha senhora, parto, porque desisto d'ella. Basta-me estar
+justificado para com a consciencia.
+
+--Não tem direito para o fazer. Uma alma, que é nobre, deve homenagem a
+si propria. Resignar-se á suspeita, é como um suicidio moral.
+
+--Justamente, minha senhora; e não concebe que haja casos em que o
+suicidio seja natural?
+
+--Meu Deus, Augusto--exclamou Angelo--como eu o estranho! o que o levou
+a esse desespero?
+
+A morgadinha sorria, ao responder ao irmão:
+
+--É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale com franqueza, sr.
+Augusto? Tenho um secreto presentimento a dizer-me que, apesar d'essa
+descrença, apesar d'essa carta, e apesar de estar por minutos o momento
+da partida, não só não partirá, mas até ha de tomar parte na nossa
+primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina.
+
+Estas ultimas palavras fizeram impressão em Augusto, que
+instinctivamente repetiu:
+
+--Do proximo casamento de Christina?!
+
+--Pois não sabia que Christina vae casar?-perguntou Magdalena com a
+maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto.--É verdade, o sr.
+Henrique de Souzellas teve pressa de legitimar o titulo de primos, com
+que arbitrariamente nos tratavamos.
+
+Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expressão, dizendo:
+
+--Quê?... pois é com Christina... pois Henrique vae casar com...
+
+Só depois de lhe romperem dos labios estas palavras, é que, reconhecendo
+a indiscreção da sua surpresa, accrescentou com mal simulada
+indifferença:
+
+--Ah! não sabia!
+
+--Devéras? Pois não tinha ouvido falar d'este casamento? Oh... querem
+vêr que suppunha tambem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque
+o Cancella tambem estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na
+aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n'elles!
+
+E, mudando de inflexão, proseguiu:
+
+--São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o
+outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre
+aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o
+doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma
+maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as circumstancias em que
+isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na
+capella-mór da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fôra
+rezar, pela saude de Henrique, as estações da meia noite; onde Henrique
+foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para
+os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; intervenção algum tanto
+perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas
+intenções de que as de qualquer dos tres, e que, ao vêr-me em tão
+extraordinario sitio, a taes horas, não me concedesse a confiança
+precisa para acreditar, através de tudo, na minha innocencia.
+
+A allusão era clara, e mais clara a fazia a inflexão com que foi
+pronunciada.
+
+Augusto curvou a cabeça e murmurou:
+
+--Tem razão, algum miseravel.
+
+--Ou algum infeliz--corrigiu delicadamente Magdalena.--Os infelizes são
+tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mal isso?
+
+Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse
+mais jovialmente:
+
+--Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei?
+
+Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha animo nem razão
+para dizer que partia. Calou-se.
+
+Angelo, a cuja prompta intelligencia não tinha ficado latente o
+verdadeiro sentido d'este dialogo, graças tambem ao conhecimento que
+elle tinha, havia muito, do coração de sua irmã e do de Augusto,
+respondeu por elle:
+
+--Não te enganaste, não, Lena. Tambem eu já digo que Augusto não
+partirá.
+
+E Augusto sem protestar!
+
+Magdalena tornou-se de subito mais séria e grave do que até alli, e a
+mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmão,
+dizendo:
+
+--Para vir aqui, pedi o auxilio do teu braço de creanca, Angelo, como se
+fôra o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da
+mesma maneira, emquanto não termino a minha missão. Ha pouco, depois que
+me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que
+tencionas fazer?» Não é assim?
+
+--Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te
+acompanhasse aqui.
+
+--Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo,
+que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse
+pensamento não está cumprido ainda.
+
+--Vejo que não.
+
+--Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom
+conselheiro, é deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi
+estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.
+
+E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que só
+um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse bastante para o denunciar:
+
+--Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provação,
+até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que
+herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. É
+uma especie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por
+isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo
+para estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer,
+as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas
+sympathias podem bastar ás aspirações da sua, se, para ganhar coragem,
+os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma...
+e dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta confissão, Angelo.
+Terás que me ralhar por causa d'ella?
+
+Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação, e tomando
+entre as suas a mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos
+apaixonados.
+
+Magdalena não teve pressa de retiral-a.
+
+Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que respondia á
+pergunta d'ella.
+
+Pobres creanças! Porque a final eram creanças todos tres, creanças a
+quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao
+transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só
+regando-os de lagrimas é que as mais das vezes se consegue nutril-os.
+
+O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria.
+
+--Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas.
+Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que
+tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar as provas da minha
+innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois...
+
+Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o
+rosto.
+
+Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu:
+
+--E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. Bem vê que,
+depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu
+coração, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a
+mão, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a
+seguir o caminho do Mosteiro.
+
+Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com
+firmeza:
+
+--Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.
+
+Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só.
+
+O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão
+inesperada companhia, mas não lhe foi difficil, depois do que viu e
+ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de
+resolução o seu companheiro de jornada.
+
+Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.
+
+Estes não conseguiram dissuadil-o de partir.
+
+Não havia já estimulo para arrancar aquelle coração ao desalento.
+
+Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro.
+
+O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão violentas
+paixões, que desisto de descrevel-as.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+
+Na manhã do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, na qual
+incluimos já D. Dorothéa e Henrique, reunida em uma das salas do
+Mosteiro.
+
+As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e
+Henrique jogavam o xadrez; D. Dorothéa e D. Victoria conversavam a
+respeito do preço de umas meadas de linho, que esta tinha dado a córar,
+e da pessima qualidade do fiado, effeito evidente, segundo D. Victoria,
+das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro
+examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que recebera,
+já a pedir empregos e graças em paga dos serviços eleitoraes, ás vezes
+hypotheticos.
+
+A cada passo, porém, Magdalena suspendia o trabalho, para olhar para a
+porta da sala, principalmente quando nos immediatos aposentos se
+escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que não com menor
+frequencia os desviava das pedras do taboleiro para encontrar os da
+irmã.
+
+Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, e
+esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os olhos
+da costura.
+
+D. Victoria e D. Dorothéa não era raro metterem-se na conversa dos
+outros, d'onde facil transição achavam logo para voltarem aos seus
+assumptos favoritos: meadas e criados.
+
+O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia
+notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que examinava.
+
+Era evidente que todas aquellas cabeças estavam pouco preoccupadas com
+os assumptos apparentes das suas cogitações.
+
+--Ó Lena!--dizia Christina, que pela terceira vez chamava a prima, sem
+conseguir ser ouvida--que tens tu esta manhã? Que distracções são essas,
+que não respondes quando te chamam?
+
+--Pois falaste-me?
+
+--É o que eu digo! Ó menina, ha que seculos te estou eu a perguntar em
+que tempo é que as laranjeiras teem flor?
+
+--Ah! Christe!--acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.--Esse pensamento
+é linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em que tens estado a
+scismar.
+
+Christina córou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do
+conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:
+
+--Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque...
+
+--Socega, quando o véo estiver prompto, a laranjeira não nos faltará com
+ramos e flores.
+
+--Não, mano--disse D. Victoria--olhe que se não trata de vêr o que é que
+está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não ha uma só na quinta. Que
+tambem para serem comidas as laranjas pelos criados... Porque quasi que
+são só para elles. Não que não faz ideia!...
+
+E continuou com D. Dorothéa a narração dos abusos de que os criados eram
+culpados.
+
+D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.
+
+--Esta é galante!--disse elle, examinando uns papeis e rindo.--Ora ouça
+isto, Henrique. Aqui está um homem que deseja que eu lhe empregue nada
+menos do que sete sobrinhos que tem. Sete! É uma geração como a de
+Jacob; se estivessemos na côrte de Pharaó!...
+
+--Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio
+completo--disse Henrique.
+
+--Oh! oh!--disse o conselheiro, passados alguns momentos.--Cá está o meu
+amigo Pertunhas, teimando com o logar de recebedor.
+
+--Pois o maroto ainda se atreve?
+
+--E que despeza de estylo que faz! É uma ode congratulatoria em prosa.
+
+N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos
+passou-se o tempo até a chegada do correio, successo que marca época
+n'uma manhã passada na aldeia.
+
+N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os
+periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das eleições dos
+differentes circulos do paiz.
+
+O conselheiro já por tres vezes consultára o relogio, extranhando que o
+correio se demorasse.
+
+Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos;
+Henrique deu subito desfecho ao jôgo com um lanço absurdo, e ambos se
+precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo veio encostar-se ao
+espaldar da cadeira de Henrique.
+
+O conselheiro principiou por ler uma carta.
+
+Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico.
+
+--Oh! oh!--disse o conselheiro, logo ás primeiras linhas que leu.--Temos
+crise ministerial. As eleições fôram pouco favoraveis ao governo;
+perderam-se em quasi toda a parte!
+
+--Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo
+de fundo--disse Henrique.
+
+--Dizem-me n'esta carta que já se fala em que o ministerio vae pedir a
+sua demissão.
+
+--Este artigo allude apenas a uma reconstrucção do gabinete.
+
+-«O governo--proseguiu o conselheiro, lendo,--nem espera pela
+constituição da camara e cáe por estes dias, infallivelmente. Quando
+vossê receber esta, já talvez elle pertença aos livros findos.»
+
+--«Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para resolver
+sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na futura
+camara»--lia Henrique no periodico, que logo em seguida pôz de lado,
+para consultar outro.
+
+--«Não imagina--continuava o conselheiro, lendo a carta--o movimento de
+ambições que vae já por aqui». Ora se não imagino!
+
+--Um numero do _Suffragio Nacional_!--exclamou Henrique, abrindo segundo
+periodico.--Provavelmente é alguma amabilidade que lhe dirigem, sr.
+conselheiro; elles que lh'o mandam!
+
+--Sim, decerto. Como da outra vez. Veja lá,--disse o conselheiro,
+sorrindo--aos moribundos tudo se perdôa.
+
+Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivára a remessa
+d'ella para o Mosteiro, onde não costumava vir.
+
+--Ah! temos correspondencia cá da terra!--exclamou por fim.
+
+--Deve ser isso. Já tardava. É communicado do Seabra. Leia, que são
+curiosos. O homem a apreciar as eleições de domingo deve ser soberbo.
+Isso não se pode perder. Leia, leia.
+
+--Assigna-se _um eleitor indignado_.
+
+--Justo. É o estylo do homem. Vamos lá a vêr isso.
+
+Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro.
+
+A peça litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra contava ao
+mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu
+transcrevel-a aqui, se, pela sua extensão, não tomasse demasiado espaço,
+e se, pela sua unidade e estreita ligação logica, se não subtrahisse á
+menor tentativa de fragmentação.
+
+Aquelle communicado era indivisivel.
+
+Apesar d'esta forçada omissão, espero que os leitores farão a justiça de
+suppôr o escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar
+com tanta proficiencia na taberna do Canada.
+
+O homem escrevia recheado de indignação pela serie de illegalidades,
+escandalos, subornos e pressões de todo o genero, de que, dizia elle,
+fôra theatro aquella pacifica aldeia do Minho.
+
+Em _linguagem chã e rude_ ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de
+todos uma _pestifera chaga do organismo social_. _Sophismára-se a urna e
+calcára-se aos pés a Carta_. As phrases em italico são d'elle. Depois de
+um exordio por esta afinação, em que fazia a conveniente razão de ordem,
+entrava o homem na materia. Era um modêlo de impertinente bisbilhotice o
+escripto; desfiava-se alli a vida de todos os eleitores com uma
+minuciosidade esmagadora.
+
+Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho
+de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse
+que havia de fazer, e não fez; e como aquelle nem disse nem fez; e como
+aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos mais
+maltratados era o sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o auctor da
+correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera
+pressão sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem de pessimos
+costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberrão cheio de
+dividas, amigo de malfeitores, _et coetera_.
+
+O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.
+
+O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas.
+
+O brazileiro não lhe perdoára a pressa com que este celebrára a victoria
+do conselheiro, á frente da philarmonica que regia.
+
+Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe
+suggeria, inclusivé o de estafador de trompa, e fechava por estas
+memoraveis palavras:
+
+«Para levar á evidencia o caracter infame e intriguista d'este
+sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos dias antes, subtrahiu
+de uma pasta aquella celebre carta politica, que tanto deu que falar no
+paiz. E este homem exerce o cargo de administrador do correio. _Proh
+pudor!_»
+
+Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu sensação
+no auditorio.
+
+Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as bôcas uma
+exclamação de surpresa ou de alegria.
+
+--Como é?... como é?...--perguntou o conselheiro.--Diz que...?
+
+--É o mysterio que se explica--respondeu Henrique.--A traição
+encarrega-se de a si propria se desmascarar.
+
+--Então foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta de uma
+pasta!
+
+--Era a de Augusto.
+
+--Mas como estava ella ahi?
+
+--Lá isso sei eu como foi,--disse D. Victoria--fui eu que, por engano,
+lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma para a
+leitura dos pequenos.
+
+Christina celebrou a descoberta, beijando com effusão a morgadinha, e
+dizia:
+
+--Venceste, Lena! agora está bem provada a innocencia d'elle, até para
+os que mais duvidavam!
+
+--E quem não duvidaria?--acudiu o conselheiro, como para se desculpar da
+desconfiança.
+
+--Quem o conhecesse bem, meu pae--respondeu Magdalena, a quem a commoção
+recebida dava animação ao olhar e ao semblante.--Eu e Angelo, por
+exemplo.
+
+--E então eu?--accrescentou Christina.--Eu não entro na conta?
+
+Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que
+recebera.
+
+--Olhem o pobre rapaz!--dizia D. Victoria, sinceramente consternada.--E
+eu que o tratei tão mal! Bem me dizia elle: «Não tenha pressa de dizer
+nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar de um homem
+que elles se costumaram a amar e a respeitar.» E o caso é que eu, desde
+que lhe ouvi dizer aquillo, de um modo tão sério e triste, fiquei
+resentida, e não disse nada ás creanças, que todos os dias me
+perguntavam ainda por elle.
+
+--Mas...--dizia D. Dorothéa, deveras embaraçada--eu não sei ainda bem do
+que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê?...
+
+--Ó tia Dorothéa--atalhou Henrique--por quem é, não insista na pergunta.
+Depois que se sabe que uma suspeita é falsa, não ha nada que mais
+escalde os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles.
+
+--Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não
+é verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique,
+está-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na
+consciencia. Ora anda lá.
+
+--Não, tia. Ha muito que lhe faço justiça. Ao principio não digo que
+não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me
+pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em
+expiação, me não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é porque
+elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu desastre... quero
+dizer--emendou, olhando para Christina--a felicidade que me procurou sob
+a fórma de doença...
+
+Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.
+
+O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras reflexões que
+lhe ouvimos fazer, disse, suspirando:
+
+--Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei
+áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As
+apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de politica,
+apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a
+quem eu estimava devéras, fôram exactamente os que mais fiz padecer!
+Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me
+teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia,
+dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e
+talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se
+nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sairá da ideia aquella
+scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e já então de
+viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou
+para o perder, e não só o privei do modesto logar que elle exercia, mas
+até levantei contra elle uma accusação infamante, e quasi o expulsei de
+minha casa... É triste que a vida politica me tenha obrigado a estas
+crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que
+maneira lhes parece melhor?
+
+--Eu se fôsse--disse D. Dorothéa--fazia como a morgada, e o rapaz, em
+vez de vir a ser só padre havia de se formar em Coimbra, como o reitor
+de Friande...
+
+--Isso era se elle quizesse ser padre;--acudiu D. Victoria--mas
+parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era demittir aquelle
+velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre de latim, e
+arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, já que o outro foi
+tratante!...
+
+O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não pôde deixar de
+dizer:
+
+--N'esse caso deixava só ao Pertunhas a regencia da philarmonica? E tu,
+Lena, qual é a tua opinião?
+
+Magdalena respondeu sem vacillar:
+
+--A minha opinião é que o pae deve ir a casa de Augusto, pedir-lhe
+humildemente perdão pela offensa que lhe fez.
+
+--Mas involuntaria--ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que não
+pôde bem disfarçar.
+
+--Mas offensa--repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse
+totalmente a fôrça da expressão.
+
+--É um pouco dura de cumprir a sentença, sobretudo esse adverbio
+humildemente... Não lhe parece?--perguntou o conselheiro, voltando-se
+para Henrique.
+
+--Eu tinha vontade de dizer tambem a minha opinião--respondeu
+Henrique;--mas receio certos melindres... Comtudo, parece-me que
+encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a
+offensa e dores muito mais pungentes do que as que soffreu em virtude
+d'esta desagradavel occorrencia.
+
+--Qual é?--perguntou o conselheiro.
+
+Henrique olhou para Magdalena, respondendo:
+
+--Repito que tenho escrupulos em dizêl-o, porque talvez não seja eu o
+mais competente para o fazer.
+
+--Tem razão, primo--disse Magdalena.--Elle proprio o dirá. É mais
+natural.
+
+--Mas sábel-o tambem tu, Lena?
+
+--Sei.
+
+--Então dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.
+
+Magdalena hesitou.
+
+--Vamos, Henrique--disse Cristina, sorrindo--não esteja com tantos
+escrupulos. Diga o que pensa.
+
+--Pois quer? mas se sua prima me não perdôa?
+
+--Eu o protegerei. Fale.
+
+--Então, Christe?--tornou Magdalena.
+
+--Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode.
+
+--Fale, fale--disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D.
+Dorothéa.
+
+--Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer parte da
+familia de... da nossa familia--respondeu Henrique, olhando para
+Magdalena, que já não tentava retêl-o.
+
+--De fazer parte da nossa familia?--repetiu o conselheiro.--Mas como?
+
+--Como ha de ser? visto eu não estar resolvido a prescindir de
+Christina, e Marianna ser ainda creança, facil é de conjecturar o unico
+meio que ainda resta de realisar aquella pretensão.
+
+O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir,
+dizendo:
+
+--Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabeça?
+
+--Mas que é a final? eu não entendo--dizia, embaraçada, D. Victoria.
+
+--É uma coisa muito simples--respondeu Henrique.--Augusto sentiu o
+effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a ponto de
+ligar a elles a sua felicidade, e de cair em adoração para com a
+magnetisadora.
+
+Esta explicação foi recebida com espanto por D. Victoria.
+
+--Ora! está a brincar, primo Henrique? Não ouve aquillo, prima Dorothéa?
+
+--Mas que é, que é?--perguntou esta.
+
+-Diz que o Augusto aspirava...
+
+--Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não aspirava. Quem pode tomar
+contas a um coração do culto que elle guarda religiosamente em si? A
+prima Lena é adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porém...
+
+--É possivel!--exclamou tambem D. Dorothéa, espantada.--Por essa não
+esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto!
+
+O conselheiro ria ainda da noticia que recebera.
+
+Magdalena córou ao ouvir todas aquellas exclamações de estranheza.
+Cedendo ao impulso energico do seu caracter impetuoso e apaixonado,
+disse com vivacidade:
+
+--Não sei que haja no que diz o primo Henrique nada que mereça esses
+espantos. Pois quem sou eu a final? Que distancia me separa da
+humanidade, para que se tenha por um desacato uma affeição que inspire?
+É verdade. Julgo que não se enganou o primo Henrique. Tambem eu descobri
+esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no coração e não na cabeça, meu pae.
+Ha muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo
+nos outros. Digo mais, causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque é natural
+sentil-o por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter
+generoso que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais
+nobre e mais puro do que d'antes.
+
+O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom
+profundamente irritado:
+
+--Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê lá se me
+queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom
+senso, até o ponto de tomares a sério phantasias e creancices.
+
+--Não é phantasia nem creancice, é uma resolução de mulher--respondeu
+Magdalena, com firmeza.
+
+--Uma resolução de creança, que está na minha mão remediar--tornou o
+conselheiro, como quem desejava cortar o incidente.
+
+Porém para o génio de Magdalena já não era possivel recuar nem parar;
+replicou:
+
+--Talvez não. E deixe-me então dizer-lhe tudo, meu pae. Augusto nunca me
+revelou esse segredo do seu coração. Adivinhei-lh'o eu. Longe de
+procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem estava
+resolvido a deixar a aldeia para sempre.
+
+--Mas ficou--notou o conselheiro com ironia.
+
+--Ficou--respondeu tranquillamente Magdalena--porque eu lhe pedi que
+ficasse.
+
+O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a
+filha com olhar severo e interrogador.
+
+A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um esfôrço
+interior:
+
+--Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava a
+affeição desinteressada e pura que elle guardava no coração; ficou,
+porque eu, que só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e
+que o sabia tão leal como pobre, tão innocente como perseguido pelo
+infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, sob o pêso de uma
+accusação em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir
+eu propria procural-o para lhe estender a mão e dizer-lhe: «fique, e
+prometto-lhe que todos lhe farão justiça em breve.»
+
+Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltação
+crescentes, ninguem ousou falar na sala; e os olhos de todos
+dirigiram-se quasi instinctivamente para o conselheiro.
+
+Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo
+sentiram-se profundamente inquietos.
+
+Todos viram passar por differentes côres as faces do conselheiro, os
+labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz evidentemente
+alterada pela cólera, disse para a filha, passados alguns instantes:
+
+--Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga
+estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem
+naturalissimos á sua razão estragada pelos romances. Eu ainda não
+prescindi da minha auctoridade paterna, e ella me servirá para corrigir
+essas levezas, de que deveria envergonhar-se.
+
+Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da posição
+de todos os que estavam presentes. Ninguem ousava intervir, ou,
+desejando-o, ninguem sabia a maneira de o fazer.
+
+Entre as falsas situações, em que nos achamos ás vezes n'esta vida,
+poucas se podem comparar no incómmodo que produzem, á de assistir a uma
+questão domestica, por qualquer motivo que seja originada.
+
+Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que
+prendeu Lena nos braços, não sei se para instinctivamente a defender, se
+para reprimir-lhe o impeto de reacção que receiava n'ella.
+
+A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu ao
+pae:
+
+--Ás vezes aos caracteres levianos estão confiadas tarefas generosas.
+Cabe-lhes sanar muitas injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e
+por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem
+arrependo do passo que dei. Não fiz mais do que salvar do desespêro uma
+alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua
+consciencia, senhor, o accusasse de não ser innocente n'essa perda. Quiz
+evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m'a
+não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana
+assim, a ser cruel como...
+
+O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou:
+
+--Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá de escolher
+entre os seus caprichos e a minha approvação. Fique certa que, com o
+consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posição,
+especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida
+do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria casa,
+sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada á sua credula
+sensibilidade.
+
+Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na sala.
+
+Era Augusto.
+
+Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que o
+conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu
+venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar.
+
+O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou.
+
+Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza:
+
+--Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, tem n'esse triplice
+infortunio outros tantos titulos para ser respeitado dos felizes, como
+v. ex.^a, e eu não prescindo d'esses direitos.
+
+O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse
+responder a Augusto. A irritação dictava-lhe uma violenta resposta, mas
+já lh'o não permittia a consciencia.
+
+Augusto continuou:
+
+--Sei que v. ex.^a está já convencido de que as suspeitas, que pesavam
+sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que ainda tem na mão, veem
+as provas da minha innocencia. Vi-o em casa do Seabra, d'onde venho
+agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preço
+que fôsse; elle não m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui,
+sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo,
+antes que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a
+receber-me a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o
+insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu
+encontrei!
+
+--Menos justificado?--repetiu o conselheiro, azedadamente.
+
+--Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.^a podia julgar-me
+criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas não tem o
+de duvidar de sua filha; porque a sr.^a D. Magdalena pedindo a seu irmão
+que a acompanhasse a casa de um pobre, que ella sabia ser victima de uma
+immerecida accusação, e a quem o desalento e o desespêro faziam
+succumbir, não se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrario,
+aos seus devia aquelle acto de sublime generosidade, porque das mãos dos
+seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr.
+conselheiro, como um miseravel e infame; os filhos de v. ex.^a, que
+sempre fôram meus amigos, a quem v. ex.^a ensinára a sel-o, vieram á
+minha dizer-me: «Não parta, deve á nossa confiança a justiça de ficar».
+
+--É verdade--disse Angelo--eu acompanhei Magdalena. O pae diz-me muitas
+vezes que não tenha pressa de principiar a duvidar; eu não podia
+principiar por Augusto. Não duvidei.
+
+O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarçado despeito,
+ainda que em tom moderado:
+
+--Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do coração, creia.
+Ainda que as apparencias o culpassem, arrependo-me de não ter tido mais
+fôrça a minha confiança para não ceder. Peço-lhe por isso...
+humildemente... perdão. Iria a sua casa pedir-lh'o se não viesse aqui.
+Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para
+antevêr realisadas loucuras de rapaz?...
+
+Augusto não o deixou continuar.
+
+--Ouça-me, sr. conselheiro--disse elle placidamente--deante de todas as
+pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu
+coração. É verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde
+creança até hoje, tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros,
+se eu commigo as guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha
+vida? Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz
+sempre por suffocar. Nem ambições me despertou, como meio de realisal-o,
+porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a morrer com elle, sem
+o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o fizera nascer, e,
+deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito
+era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar
+pelo fulgor de imprevistas esperanças? Perdôe-se-me a fraqueza. As
+illusões duraram pouco; as palavras de v. ex.^a dissiparam-n'as... um
+tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro,
+que o ser pobre, sem familia e sem nome, impõe tambem uma certa ordem de
+deveres, a que eu serei fiel. Não é o de humilhar-me, é o de manter a
+unica dignidade que me resta, a dignidade moral. Já vê v. ex.^a que se
+enganou de duas maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve especulação,
+nem da parte da herdeira rica estouvamento.
+
+E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente
+deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um
+extremo olhar de despedida.
+
+A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Christina para
+a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão
+disse:
+
+--Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço que não saia.
+
+--Magdalena!--disse o conselheiro com severidade.
+
+--Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de
+remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do
+coração, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente
+depois.
+
+--Magdalena!--repetiu o conselheiro com mais fôrça.
+
+--Minha senhora! disse Augusto.
+
+Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á vehemencia do caracter
+apaixonado.
+
+--Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu coração; todos me
+ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma
+franqueza e lealdade, com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza
+dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se envergonharia
+d'elles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer-lhe seria offendel-o,
+porque seria acreditar na constancia d'essa má paixão que o domina, e no
+seu bom coração não pode ella durar muito tempo.
+
+O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder
+violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as
+outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras
+tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de intervenção, que
+elle suppunha já indispensavel, quando um incidente veio interromper
+esta scena e modificar a feição critica do caso.
+
+O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao serviço
+de um proprietario da villa proxima. Este criado era portador de uma
+mensagem para o conselheiro.
+
+O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio
+dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar á
+presença do conselheiro.
+
+A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a
+carregar-se.
+
+O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.
+
+O criado respondeu:
+
+--Venho para entregar a v. ex.^a esta parte telegraphica, que chegou a
+meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira
+que não pôde mandal-a com ellas.
+
+O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu,
+e correu-o com a vista.
+
+Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.
+
+Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta:
+
+--Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim.
+
+O criado saiu.
+
+N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e
+combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique
+desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa.
+
+O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que uma
+visivel satisfação se lhe desenhára no semblante.
+
+--Leia e admire--disse elle.
+
+Henrique leu, e não reteve uma exclamação de surpresa.
+
+A parte dizia:
+
+«Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apresentar em
+Lisboa. Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle
+acceite uma das pastas.»
+
+Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz.
+
+Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a
+surpresa da noticia não fez esquecer a crise domestica a que assistira,
+disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena:
+
+--Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os
+emboras pela sua nomeação.
+
+A palavra «ministro» produziu sensação na sala. D. Victoria exclamou:
+
+--Ministro! Pois quem é que está ministro? O mano?... Ora, sim senhor!
+acertou sua magestade!...
+
+--Mas... valha-nos Deus! O ponto está que não façam por ahi alguma
+revolução para o deitar abaixo--acudiu D. Dorothéa, em cujo animo os
+factos das nossas dissenções civis tinham deixado sinistras ideias
+ligadas á palavra ministro.
+
+Magdalena, Angelo e Christina correram a abraçar o conselheiro; Henrique
+reteve, porém, os dois ultimos dizendo:
+
+--Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a s. ex.^a, e á
+primeira não ha caracter de ministro que não ceda.
+
+O conselheiro sorriu já.
+
+Magdalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela violencia das
+scenas anteriores, e até alli a custo reprimido, rebentou agora
+abundante, banhando as mãos do pae.
+
+Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não deixar sair da
+sala.
+
+O coração do conselheiro não era de pedra. Duas causas poderosissimas
+conspiravam-se para abrandal-o. Como homem politico, havia a satisfação
+da maxima ambição de todos, a noticia de ser chamado ao ministerio. Nos
+momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso
+coração, abrimo-nos ás sympathias para com os desejos dos outros; se de
+nós depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as
+lagrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das
+lagrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida: quanto mais se a
+mulher é joven e bella! quanto mais se a mulher é filha!
+
+Sem o menor vestigio da irritação anterior, o conselheiro ergueu
+Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:
+
+--Por que choras tu, Lena? Creança! Então promettes-me ser muito feliz,
+se eu te deixar fazer as tuas loucuras?
+
+Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e beijando-o.
+
+Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa
+contra as severidades de um pae?
+
+O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e
+voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi
+affectuoso:
+
+--Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a
+felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz,
+tornando-m'a venturosa. É a unica vingança á altura da sua alma.
+
+Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho
+tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforços
+combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorothéa, que o
+arrastaram quasi para junto do conselheiro.
+
+E toda aquella familia, em que não havia n'aquelle momento um só coração
+triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e
+pathetico grupo, que pode desenhar um artista.
+
+Para mais tocante confusão ainda, as creanças, que voltavam dos seus
+brinquedos na quinta, entraram então na sala, e de boa vontade se
+associaram áquella manifestação de alegria, sem querer saber o que a
+motivára,
+
+São assim as creanças. Alegres por instincto, saudam as scenas alegres
+sempre que as vêem, sentem-as antes de as explicarem.
+
+Fôram innumeraveis os beijos, os abraços, as palavras de affecto, os
+sorrisos, as lagrimas, as exclamações pueris que se trocaram entre os
+diversos actores d'esta scena de familia.
+
+Chegado a este ponto da minha narração, nada melhor posso fazer do que
+deixar á imaginação dos leitores concluil-a.
+
+Haverá algum tão malfadado, que na sua vida não tenha visto representada
+uma scena assim?
+
+Esse mesmo, se existe, obriga-me a não proseguir.
+
+O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de
+que por certo é victima.
+
+Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de
+beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a
+narração, vêl-o-hiamos abafado pelos sons revolucionados e anarchicos da
+philarmonica da terra, que não tardará a festejar a nomeação do
+conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba
+verdadeiramente épica, e capaz de mudar a côr ao gesto, como a de que
+fala o poeta.
+
+Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos
+acontecimentos ulteriores.
+
+
+
+
+CONCLUSÃO
+
+
+O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na
+pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de
+animo dos meus leitores, que, sob a direcção dos talentos e aptidões do
+novo estadista, se locupletou a fazenda publica, prosperou a agricultura
+e a industria, refulgiram as artes e as lettras; e que Portugal, como a
+Grecia, sob Pericles, causou o assombro das nações do mundo.
+
+Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e
+prospero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espirito dos
+leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse com isto a
+desconfiança no chronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a
+direcção do conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se
+tem regido sob as duzias de ministerios, que nós todos havemos já
+conhecido.
+
+O conselheiro, já ministro, voltou tempos depois á aldeia, para assistir
+aos casamentos de Magdalena e de Christina, que se verificaram no mesmo
+dia.
+
+Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com
+D. Dorothéa, que não podia resignar-se a viver só.
+
+Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se
+completamente a quinta, e é hoje uma das mais rendosas e bem geridas
+propriedades d'aquelles sitios.
+
+Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S. Carlos,
+está um rico e laborioso proprietario rural. Apaixonou-se pela
+agricultura, e promette realisar o typo do antigo patriarcha.
+
+Cumpriu-se a sua visão.
+
+Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, já nem memoria lhe
+resta.
+
+Christina, além de ser adorada pelo marido, vê-se rodeada pelo amor e
+carinhos de D. Dorothéa e de Maria de Jesus, as quaes, sem o menor
+despeito, a viram tomar o sceptro da realeza domestica, que usa com
+adoravel brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de
+mulher.
+
+No Mosteiro não correm peor as coisas, sob os cuidados de Augusto e de
+Magdalena, que ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, além
+de se occupar de agricultura, alimenta a imaginação, já não a fazer
+versos, mas em outra fórma de poesia: a organisar a escola sob bases
+mais racionaes, e dotação mais fecunda; a generalisar e educar os
+processos agricolas; a implantar industrias novas.
+
+É assim que a sericultura, graças aos seus cuidados, é hoje alli
+cultivada com bons resultados, e outras já principiam a ensaiar-se.
+
+Magdalena é sempre a mulher que foi; se é que as nobres qualidades já
+reveladas nos seus actos de juventude, não se vão caracterisando inda
+melhor, á medida que de mais graves deveres se incumbe a sua missão de
+mulher. Intelligencia temperada por um bom senso natural, que a educação
+esmerada não estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado, mas
+de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem
+severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que não faz sentir
+a ninguem o peso da obediencia.
+
+É hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos, querida por
+D. Victoria, adorada pelo marido e abençoada pelo povo, que soccorre com
+esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina n'aquelles sitios.
+
+D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o
+direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do
+mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando
+despedidos.
+
+Em relação ás personagens secundarias d'esta historia pouco teremos a
+dizer.
+
+O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que
+entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava
+visconde de não sei quê o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto
+politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a sem-razão de não
+applaudir.
+
+O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de
+melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia.
+
+O sr. Joãozinho, em vista d'esta fusão de partidos, achou-se encorporado
+na liga, e em pouco tempo teve occasião de demonstrar de novo a sua
+influencia eleitoral, trazendo compacta á urna a freguezia de Pinchões,
+para reeleger o conselheiro que, pela sua nomeação, perdera o logar de
+deputado. D'esta vez ninguem lh'o disputou, e era edificante vêr o
+brazileiro ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de
+commum accordo e de boa harmonia.
+
+A reconciliação entre dois adversarios commove sempre a alma.
+
+O sr. Joãozinho não mudou de habitos, e cada vez tem mais dividas, mais
+cães e mais bebedeiras.
+
+O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas funcções de
+ensino e na commissão do correio, odiando os irmãos Virgilios e
+desafogando as suas mágoas na embocadura da trompa.
+
+O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingança. Confessa que por
+brincadeira tirára uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornára a
+collocar no seu logar e por isso...
+
+A familia Zé P'reira vae em rapida decadencia; o homem já nem tem fôrça
+para fazer resoar o zabumba. É esta uma das que mais deve á caridade de
+Magdalena.
+
+O conselheiro, ainda hoje no gôso imperturbado dos votos unanimes
+d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o animo
+exhausto nas fadigas parlamentares e nas diversões da capital, no seio
+da sua feliz familia, e volta melhor.
+
+Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores, corre
+com alvoroço de creança a gosar na aldeia os dias que elle já presente
+terem de ser os mais felizes de toda a sua vida.
+
+A quinta dos Cannaviaes, á qual andam ligadas suaves recordações dos
+dois venturosos pares, que os incidentes d'esta historia reuniram, foi
+transformada por Magdalena n'uma habitação de recreio, onde as duas
+familias celebram, durante o anno, algumas festas em commum.
+
+Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia
+muito estava de posse.
+
+E hoje é ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de
+«Morgadinha dos Cannaviaes».
+
+
+FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | Volume I | | |
+ |#pág. 144| precipios | precipicios |
+ |#pág. 162| se se sentem | se sentem |
+ |#pág. 169| a seu seu vêr | a seu vêr |
+ |#pág. 264| uma uma explicação | uma explicação |
+ | | | |
+ | Volume II| | |
+ |#pág. 27| glo['r]ia | gloria |
+ |#pág. 68| examimal-a | examinal-a |
+ |#pág. 95| encontrassse | encontrasse |
+ |#pág. 148| coisapor | coisa por |
+ |#pág. 200| ovialmente | jovialmente |
+ |#pág. 215| fregrezia | freguezia |
+ |#pág. 218| principalte | principalmente |
+ |#pág. 248| saparámo-nos | separámo-nos |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
+
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+works. See paragraph 1.E below.
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
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+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
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+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
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+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
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+Title: A Morgadinha dos Cannaviaes
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+Author: Júlio Dinis
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+Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+</pre>
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+<div>
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jun. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>A Morgadinha dos Cannaviaes<br />
+
+<br />
+
+<a href="#Vol.I">Volume I</a><br />
+
+<a href="#Vol.II">Volume II</a></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><a name="Vol.I"></a>BIBLIOTHECA ESCOLHIDA<br />
+
+<br />
+
+XXIII
+</h4>
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>
+ROMANCE<br />
+
+<br />
+
+III<br />
+
+<br />
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vol. I</span></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h5>
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL<br />
+
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28<br />
+
+TELEPHONE 2337</h5>
+
+<h5><br />
+
+</h5>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<span style="font-weight: bold;" class="quote">JULIO
+DINIZ</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA<br />
+
+DOS<br />
+
+CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<h4>(CHRONICA DA ALDEIA)
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>DECIMA-SETIMA EDI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<img style="width: 150px; height: 146px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+J. RODRIGUES &amp; C.<sup>a</sup>, EDITORES<br />
+
+186&#8213;Rua Aurea&#8213;188<br />
+
+<em>1920</em>
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>OBRAS DE JULIO DINIZ
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote">A Morgadinha dos Cannaviaes<br />
+
+Os Fidalgos da Casa Mourisca<br />
+
+As Pupillas do Senhor Reitor<br />
+
+Uma Familia Ingleza<br />
+
+Ineditos e Esparsos<br />
+
+Poesias<br />
+
+Ser&otilde;es da Provincia<br />
+
+Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembran&ccedil;as)
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Todos os
+direitos d'esta
+publica&ccedil;&atilde;o<br />
+
+est&atilde;o reservados em conformidade com a lei<br />
+
+em Portugal e Brasil</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">J.
+Rodrigues &amp;
+C.</span><sup>a</sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>I
+</h4>
+
+<br />
+
+Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e
+genuino dezembro, chuvoso, frio, a&ccedil;outado do sul e
+sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam
+dois viandantes a encosta de um monte por a estreita
+e sinuosa vereda, que pretenciosamente gosava
+das honras de estrada, &aacute; falta de competidora,
+em que melhor coubessem.
+<br />
+
+<br />
+
+Era nos extremos do Minho e onde esta risonha
+e feracissima provincia come&ccedil;a j&aacute; a resentir-se,
+sen&atilde;o ainda nos valles e planuras, nos visos dos
+outeiros pelo menos, da vizinhan&ccedil;a de sua irm&atilde;, a
+alpestre e severa Traz-os-Montes.
+<br />
+
+<br />
+
+O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario,
+melancolico, e, n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a
+qualquer povoa&ccedil;&atilde;o importante, e com nome em
+carta corographica, estendiam-se milhas de pouco
+transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana
+raro se encontravam. S&oacute; de longe em longe,
+a cho&ccedil;a do pegureiro ou a cabana do rachador,
+mas estas t&atilde;o ermas e desamparadas, que mais entristeciam
+do que a absoluta solid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se moviam em perfeita igualdade de
+condi&ccedil;&otilde;es
+os dois viandantes, que dissemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um, o mais mo&ccedil;o e pela apparencia o de mais
+grada posi&ccedil;&atilde;o social, era transportado n'um pouco
+<span class="pagenum">[6]</span>
+esculptural, mas possante muar, de inquietas orelhas,
+musculos de marmore e articula&ccedil;&otilde;es fieis; o
+outro seguia a p&eacute;, ao lado d'elle, competindo, nas
+grandes passadas que devoravam o caminho, com
+a quadrupedante alimaria, cujos brios, al&eacute;m d'isso,
+excitava por estimulos menos brandos do que os
+da simples e nobre emula&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual
+processo de transporte, dos dois o menos extenuado
+e impaciente com as longuras e fadigas da
+jornada n&atilde;o se pode dizer que f&ocirc;sse o cavalleiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A postura de abatimento que lhe tom&aacute;ra o corpo,
+o olhar melancolico, fito nas orelhas do macho, a
+indifferen&ccedil;a, a taciturnidade ou o manifesto mau
+humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem
+natural conseguiam j&aacute; desvanecer, o obstinado
+silencio que apenas de quando em quando interrompia
+com uma phrase curta mas energica, com
+uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada,
+contrastavam com a viveza de gestos e desempenado
+j&ocirc;go de membros do pedestre, com a
+sua torrencial verbosidade, a que n&atilde;o oppunha diques,
+e com as joviaes cantigas e minuciosas
+informa&ccedil;&otilde;es
+a respeito de tudo, por meio das quaes se
+encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir
+o seu sorumbatico companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Explica-se bem esta differen&ccedil;a, dizendo que o
+cavalleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que
+fazia ent&atilde;o a sua primeira jornada, e o outro um
+almocreve de profiss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma
+vez; sabe portanto que o grato e quasi voluptuoso
+alvoro&ccedil;o, com que se concebe e planisa
+qualquer projecto de viagem, assim como a suave
+recorda&ccedil;&atilde;o que d'ella guardamos depois,
+s&atilde;o coisas
+de incomparavelmente muito maiores delicias, do
+que as impress&otilde;es experimentadas no proprio momento
+de nos vermos errantes em plena estrada
+ou pernoitando nas estalagens, e m&oacute;rmente nas
+<span class="pagenum">[7]</span>
+classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas
+impertinencias, em que se n&atilde;o pensa antes,
+que se esquecem depois, ou que a saudade consegue
+at&eacute; dourar e poetisar a seu modo; esses microscopicos
+martyrios, que de longe n&atilde;o avultam,
+actuam-nos, na occasi&atilde;o, a ponto de nos inhabilitar
+para o g&ocirc;so do que &eacute; realmente bello. A dureza do
+colch&atilde;o, em que se dorme, do albard&atilde;o ou selim
+sobre que se monta, o temp&ecirc;ro ou destemp&ecirc;ro do
+heter&oacute;clito cozinhado com que se enche o estomago,
+a lama que nos encrusta at&eacute; os cabellos, o p&oacute;
+que se nos insinua at&eacute; os pulm&otilde;es, o frio que nos
+inteiri&ccedil;a os membros, o sol que nos congestiona o
+cerebro, tudo ent&atilde;o nos desafina o espirito, que
+traziamos na tens&atilde;o necessaria para vibrar perante
+as maravilhas da natureza ou da arte.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; pelo pre&ccedil;o de muitas jornadas se compra o
+habito de ficar impassivel no meio dos episodios
+d'estas pequenas odyss&ecirc;as, que atormentam e exhaurem
+o animo dos Ulysses novatos; mas ai,
+quando se adquire esse habito, tambem nos achamos
+j&aacute; com a sensibilidade mais embotada para as
+commo&ccedil;&otilde;es do bello.
+<br />
+
+<br />
+
+Examina-se com mais minuciosidade, mas com
+menos enthusiasmo; analysa-se mais e melhor; por&eacute;m
+a propria analyse &eacute; a prova de que se sente
+menos. Onde domina o sentimento e a imagina&ccedil;&atilde;o,
+mal teem cabida a paciencia e phle&uacute;gma, necessarias
+aos processos analyticos. O homem positivo e
+frio recolhe de qualquer excurs&atilde;o &aacute; patria com a
+carteira cheia de apontamentos; o enthusiasta e
+poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu
+mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas Henrique de Souzellas&#8213;que era este o
+nome do cavalleiro&#8213;f&ocirc;ra educado e passado da
+infancia &aacute; plena juventude, em Lisboa, levantando-se
+por avan&ccedil;ada manh&atilde;, frequentando o theatro, o
+Gremio,
+as camaras, parolando no Chiado ou no Rocio,
+e indo alguns dias no anno a Cintra, ou qualquer
+<span class="pagenum">[8]</span>
+praia de banhos, desenfadar-se da monotonia
+da capital.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que fazia perfeito e consciente uso da raz&atilde;o,
+f&ocirc;ra esta jornada, em que o encontramos, a
+primeira levada a effeito, e logo sob t&atilde;o maus auspicios,
+que era para suffocar-lhe &aacute; nascen&ccedil;a os
+instinctos
+de <em>touriste</em>, se porventura quizessem
+despertar
+n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante,
+unico vehiculo accommodado aos caminhos por
+que pass&aacute;ra. E ent&atilde;o que dois dias! D'aquelles,
+durante
+os quaes o c&eacute;o, uniformemente pardo, parece
+desfazer-se em agua, e a chuva cae sem
+interrup&ccedil;&atilde;o
+e com uma teimosia e constancia impacientadoras;
+d'aquelles em que a terra saciada rejeita j&aacute; a agua
+que recebe, a qual escorre nos declives, transborda
+dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos,
+transformando em brejos as lezirias; em que as lufadas
+do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente
+despidos, dos &aacute;lamos e sobreiros, e emprestam
+aos pinheiraes a voz dos mares; em que
+os campos se mostram desertos, a noite se anticipa,
+e t&atilde;o densas nuvens cobrem o firmamento,
+que parece tomar-nos a persuas&atilde;o de que nunca
+mais o veremos com as suas formosas vestes de
+azul.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz
+podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao
+diabo a viagem que commettera.
+<br />
+
+<br />
+
+E para qu&ecirc; e por qu&ecirc; a commettera elle assim?
+<br />
+
+<br />
+
+Em poucas palavras procuraremos satisfazer a
+natural interroga&ccedil;&atilde;o, que &eacute; de
+supp&ocirc;r nos dirigissem
+os leitores, se podessem fazel-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos
+vinte e sete annos, vivendo, como diss&eacute;mos, aquella
+enlanguescedora vida da capital, e dividindo as
+atten&ccedil;&otilde;es
+do espiri
+Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos
+vinte e sete annos, vivendo, como diss&eacute;mos, aquella
+enlanguescedora vida da capital, e dividindo as
+atten&ccedil;&otilde;es
+do espirito pela politica, pela litteratura e pelos
+destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava
+<span class="pagenum">[9]</span>
+habilitado a fazer circumstanciada chronica, que
+abrangesse os ultimos dez annos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o concebia vida f&oacute;ra d'aquillo.
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo para elle era Lisboa. N&atilde;o sentia desejos,
+nem imaginava possibilidade de visitar a Europa,
+quanto mais a provincia; o que seria maior
+fa&ccedil;anha.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o que lhe faltassem recursos para realisar
+qualquer projecto d'esta natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique herd&aacute;ra dos paes rendimentos bastantes,
+dos quaes vivia folgadamente e sem precisar
+de sacrificar nos altares da economia.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A
+poucos ia t&atilde;o direita a apostrophe de Garrett aos
+seus &laquo;queridos alfacinhas&raquo;, a qual se pode ler no
+livro setimo das <em>Viagens</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+De certo tempo em deante come&ccedil;ou, por&eacute;m, a
+incommodal-o uma especie de v&aacute;cuo interior, um
+mal-estar, doen&ccedil;a infallivel nos celibatarios sem familia,
+quando chegam &aacute; idade a que chegou Henrique,
+e passam a vida como elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos,
+bocejava nas camaras, bocejava no Gremio, bocejava
+no Suisso, no Chiado e nos circulos dos seus
+amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o
+insupportavel de insipidez; porque poucas coisas
+ha que mais perturbem o espirito, do que o espectaculo
+d'um homem que boceja ou dorme, onde e
+quando os outros forcejam por divertir-se.
+<br />
+
+<br />
+
+O demonio da hypocondria, esse demonio negro
+e lugubre, implacavel verdugo dos ociosos e egoistas,
+o qual havia muito o espiava, apoderou-se d'elle
+em corpo e alma.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito
+preoccupado com a sua pessoa, imaginando-se victima
+de mil e uma molestias, as mais disparatadas
+e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente
+predestinado para a apoplexia e para a phtisica, para
+o cancro e para a aliena&ccedil;&atilde;o, para a cegueira e
+para
+<span class="pagenum">[10]</span>
+as aneurismas, tremendo &aacute; leitura do obituario da
+semana, folheando livros de medicina, construindo
+theorias physiologicas, consultando todos os medicos
+da capital, experimentando todo o arsenal pharmaceutico
+e todos os annuncios, em parangona, da
+quarta pagina dos periodicos, e elevando as cren&ccedil;as
+do seu espirito amedrontado at&eacute; &aacute;s mysteriosas
+e nevoentas alturas do credo homoepathico! Ao
+mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva
+degenera&ccedil;&atilde;o de g&ocirc;sto; n&atilde;o
+podia ler uma pagina
+dos livros que lhe eram predilectos; desfazia-se
+sem desg&ocirc;sto de quadros, m&oacute;veis, estatuas e
+objectos
+curiosos que colleccion&aacute;ra com paix&atilde;o; detestava
+a musica, o theatro, n'uma palavra, torn&aacute;ra-se
+um dos maiores flagellos, que podem pesar sobre
+a humanidade e que muito em especial causam o
+supplicio dos medicos que os aturam.
+<br />
+
+<br />
+
+Foram estes os que, em parte de boa f&eacute;, em parte
+com o desculpavel intuito de sacudirem de si tal
+pesadelo, lhe deram um dia de conselho, que f&ocirc;sse
+viajar.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia
+n'esta palavra: viajar.
+<br />
+
+<br />
+
+Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias
+apopleticas? E as suas disposi&ccedil;&otilde;es para
+tantas outras enfermidades? Pois um homem pode
+l&aacute; viajar com esta bagagem pathologica?
+<br />
+
+<br />
+
+E se lhe d&eacute;sse alguma coisa pelo caminho? Recusou
+com mau humor a receita, e ficou na capital.
+<br />
+
+<br />
+
+Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as
+consultas, e os medicos, como se para isso apostados,
+a insistirem em que saisse de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor n&atilde;o tem nada&#8213;diziam alguns.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique perdia a cabe&ccedil;a, ao ouvir isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Prolongou-se este estado de coisas, at&eacute; que um
+dia o hypocondriaco rapaz persuadiu-se muito s&eacute;riamente
+de que estava chegada a sua hora extrema.
+<br />
+
+<br />
+
+Um medico velho e grave, que por essa occasi&atilde;o
+<span class="pagenum">[11]</span>
+o escutou, em vez de se rir d'elle, disse-lhe, muito
+sisudo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem! O senhor est&aacute; realmente mal. Esse
+estado de imagina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode
+prolongar-se mais
+tempo, sem romper por ahi em alguma doen&ccedil;a que
+o sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto
+&eacute; tempo. Quebre por todos os habitos, e escolha
+entre as fortes impress&otilde;es de uma grande
+capital, como Paris ou Londres, ou as mornas
+sensa&ccedil;&otilde;es
+de um completo viver de aldeia. Os revulsivos
+e os emollientes curam por meios oppostos
+&aacute;s vezes as mesmas molestias.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse
+Henrique um presente de fructa de uma sua tia,
+santa creatura que elle, desde crean&ccedil;a, n&atilde;o
+torn&aacute;ra
+a v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho
+onde na idade de cinco annos Henrique pass&aacute;ra
+alguns mezes na companhia de sua m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquelle presente frugal record&aacute;ra-lhe esse tempo,
+j&aacute; meio apagado na memoria, e conseguira fazer-lhe
+saudades. D'ahi uns vagos desejos de voltar
+a v&ecirc;r aquelles sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique
+nomeou-lhe a aldeia, em que esta sua parenta vivia.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para
+que f&ocirc;sse abra&ccedil;ada.
+<br />
+
+<br />
+
+O sobrinho escreveu ent&atilde;o &aacute; tia, e, passados
+dias,
+punha-se a caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Mil vezes se arrependeu, depois da resolu&ccedil;&atilde;o
+tomada;
+mil vezes mandou ao diabo o conselho do
+medico e phantasiou horriveis exacerba&ccedil;&otilde;es em
+todos
+os seus males. Os inconvenientes de uma jornada,
+feita ainda segundo os velhos processos, com
+malas, coldres e pistolas, botas de montar e almocreve,
+ampliava-lh'os a propor&ccedil;&otilde;es estupendas, o
+prisma da hypocondria.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento em que nos associ&aacute;mos ao cavalleiro,
+caira elle n'um desalento profundo, n'um quasi
+<span class="pagenum">[12]</span>
+convencimento de proxima anniquila&ccedil;&atilde;o, do qual
+nem a loquacidade do almocreve, condimentada,
+como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco
+edificantes, o conseguia arrancar.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia mais de uma hora que estavam luctando
+com as difficuldades da ascens&atilde;o do ingreme e escabroso
+caminho, que torneava o monte como as
+voltas de uma helice.
+<br />
+
+<br />
+
+Era este monte uma como irregular pyramide,
+levantada no meio da amplissima bacia, onde tinha
+assento a aldeia que Henrique demandava; por isso
+o estafado rapaz n&atilde;o podia atinar a raz&atilde;o de
+conveniencia
+pela qual, tendo de procurar o valle, assim
+porfiavam em descrever as fastidiosas curvas da
+quasi interminavel espiral, que os approximava do
+vertice.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se concebe uma estrada menos logica do
+que aquella.
+<br />
+
+<br />
+
+No nosso paiz s&atilde;o por&eacute;m frequentes estas faltas
+de logica nas estradas.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve havia-se separado por momentos de
+Henrique com o fim de encurtar distancias, seguindo
+por um atalho s&oacute; franqueavel a gente
+de p&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique nem desvi&aacute;ra os olhos para o fundo
+valle, que se abria &aacute; esquerda, velado pela densa
+nevoa d'aquella atmosphera saturada de humidade,
+nem prestava atten&ccedil;&atilde;o &aacute; agreste e
+selvatica paizagem,
+do lado direito, toda encrespada de pinheiraes
+nascentes e de espinhosas tojeiras.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhos procuravam, em anciosa interroga&ccedil;&atilde;o, o
+mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sitio em
+que ella, formando um cotovello, furtava &aacute; vista o
+seguimento ulterior.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe
+ao viajante, can&ccedil;ado e aborrecido, que pela primeira
+vez as trilha, uma promettedora esperan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'alli verei talvez o termo do caminho&#8213;pensa
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperan&ccedil;a
+lhe foge!
+<br />
+
+<br />
+
+Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar &aacute;
+almejada inflex&atilde;o e quando esperava principiar emfim
+a descer para o valle e approximar-se da aldeia,
+viu que o macho, pratico no caminho, e &aacute;
+disposi&ccedil;&atilde;o
+de cujo instincto elle colloc&aacute;ra a raz&atilde;o, dobrava
+ainda para a direita e continuava a contornar
+e a subir o monte. A espiral n&atilde;o termin&aacute;ra ainda.
+Henrique olhou em torno de si, profundou a vista
+nas sombras do valle, nada p&ocirc;de descobrir, que lhe
+promettesse a aldeia procurada. Muita arvore,
+povoa&ccedil;&atilde;o
+nenhuma!
+<br />
+
+<br />
+
+Teve um paroxismo de impaciencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto n&atilde;o &eacute; estrada!&#8213;exclamou elle,
+exasperado.&#8213;S&atilde;o
+os nove circulos do Inferno de Dante
+virados para f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva
+a augmentar, a calar atrav&eacute;s do grosso gab&atilde;o de
+jornada que Henrique vestia! O desgra&ccedil;ado vergava
+sob o p&ecirc;so da sua consterna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando
+com fleugma desesperadora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com um milh&atilde;o de demonios!&#8213;bradou-lhe
+Henrique, n&atilde;o podendo conter-se.&#8213;Essa maldicta
+terra foge deante de n&oacute;s, homem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos quasi l&aacute;, meu patr&atilde;o. &Eacute; alli
+logo
+adeante&#8213;respondeu o almocreve, sem se alterar.
+V&ecirc; aquella capellinha branca em cima d'aquelle
+monte? pois fica j&aacute; para al&eacute;m da
+povoa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a
+ermida da Senhora da Saude. &Eacute; um instante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desde as duas horas da tarde que me dizes
+que &eacute; um instante, e eu estou acreditando que cada
+vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica alli
+em baixo, para que diabo subimos n&oacute;s? &Aacute;s voltas
+que temos dado, estou persuadido de que vamos
+t&atilde;o adeantados como quando principi&aacute;mos a subir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois olha que d&uacute;vida! Se se f&ocirc;sse a direito
+l&aacute;
+por baixo, era mais perto, mas...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+&#8213;Mas foi ent&atilde;o pelo prazer de trepar, que me
+trouxeste por aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; isso, patr&atilde;o; mas bem
+v&ecirc; v. s.<sup>a</sup> que o caminho
+l&aacute; por baixo &eacute; todo cortado por quintas e campos,
+e &eacute; preciso dar taes voltas, que a final fica mais
+longe. Depois, com a chuva que tem ca&iacute;do, faz l&aacute;
+ideia de que o caminho
+l&aacute; por baixo &eacute; todo cortado por quintas e campos,
+e &eacute; preciso dar taes voltas, que a final fica mais
+longe. Depois, com a chuva que tem ca&iacute;do, faz l&aacute;
+ideia de como est&atilde;o os riachos por l&aacute;!
+S&oacute; o esteiro
+do almargeal &eacute; para uma pessoa se afogar. Mas tenha
+o patr&atilde;o paciencia, que pouco falta agora. V&ecirc;
+v. s.<sup>a</sup> aquelle tronco de sobreiro que parece,
+visto
+d'aqui, um frade de capuz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; alli?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor&#8213;disse o homem, rindo;&#8213;mas
+v&ecirc;em-se d'aquelle sitio as primeiras casas da aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As primeiras!&#8213;murmurou Henrique em tom
+lastimoso; e penderam-lhe os bra&ccedil;os com mais
+desalento e augmentou-se-lhe a flex&atilde;o da columna
+vertebral.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve proseguiu, para o distrair:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho passado por estes sitios muita vez com
+neve de se cortar &aacute; faca e de noite. E olhe que
+nunca tive m&ecirc;do. Qual historia! M&ecirc;do? Isso sim!
+E vamos l&aacute;! o sitio n&atilde;o &eacute; dos mais
+seguros. V&ecirc; o
+senhor essa cruz preta, ahi &aacute; sua m&atilde;o direita,
+pregada
+no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo
+mataram um homem, que vinha com uns centos de
+mil r&eacute;is da feira franca de Vizeu, fez pelo S. Miguel
+um anno. E ainda hoje se est&aacute; para saber quem foi.
+N'um ermo d'estes s&oacute; os santos podem valer a uma
+creatura.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique sentiu-se pouco &aacute; vontade com as
+elucida&ccedil;&otilde;es
+do cicerone; olhou para elle com desconfian&ccedil;a
+e quasi julgou v&ecirc;r moverem-se sombras suspeitas
+por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou
+nos coldres os cabos das pistolas, e approximou as
+esporas dos ilhaes da cavalgadura.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de
+sobreiro, de junto do qual deviam avistar a aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique olhou; viu l&aacute; no fundo do valle muitas
+<span class="pagenum">[15]</span>
+arvores, mas continuou a n&atilde;o enxergar vestigios
+de casas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; a aldeia que dizias, homem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'ahi j&aacute; se v&ecirc;&#8213;disse o almocreve, correndo
+para alcan&ccedil;ar o cavalleiro.&#8213;N&atilde;o v&ecirc; v.
+s.<sup>a</sup>, al&eacute;m,
+al&eacute;m, aquelles pinheiraes mansos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo, sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois j&aacute; s&atilde;o da freguezia. Se f&ocirc;sse
+mais claro
+havia de avistar a casa do guarda. &Eacute; a tapada dos
+Bajuncos, que pertence &aacute; morgadinha dos Cannaviaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o respondeu. A distancia a que ficava
+ainda a tal tapada fel-o suspirar.
+<br />
+
+<br />
+
+Emfim, passados minutos, principiaram a descer
+para o valle, costeando sempre obliquamente o
+monte.
+<br />
+
+<br />
+
+Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar
+um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe
+por entre a rama do arvoredo, mas j&aacute; indistinctamente,
+em virtude do adeantado da hora e da intensidade
+da neblina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; est&aacute; a capella da freguezia&#8213;dizia o homem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alli? &Eacute; um seculo para l&aacute; chegar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! Estamos aqui, estamos l&aacute;. Eh, russo!
+<br />
+
+<br />
+
+E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas
+do macho, que accelerou o passo.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; se f&ocirc;sse mais dia podia-se v&ecirc;r
+d'aqui a
+pedra, que est&aacute; no cemiterio novo, e que &eacute; da
+familia
+da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a m&atilde;e
+d'ella a primeira pessoa que l&aacute; se enterrou, e
+at&eacute;
+hoje mais ninguem. O povo, como o outro que diz,
+tem sua aquella em se enterrar f&oacute;ra da egreja. Elle,
+a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do
+costume... mas emfim a gente foi creada n'isto...
+Mas a pedra &eacute; coisa asseada. &Eacute; como as que
+est&atilde;o
+na cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, transido de frio, quebrado de desalento,
+j&aacute; nem attendia ao que o homem ia dizendo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+Cerr&aacute;ra-se a noite de todo, quando attingiram emfim
+o valle. O terreno mudava agora de aspecto.
+Appareciam j&aacute;, aqui e alli, alguns indicios de cultura,
+annunciando a proximidade de um povoado. Os
+caminhos estreitavam, internando-se no valle, e seguiam
+tortuosamente por entre muros t&ocirc;scos de
+pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva,
+que n&atilde;o cess&aacute;ra de cair, transform&aacute;ra
+estes caminhos,
+onde o declive n&atilde;o dava escoamento &aacute;s aguas,
+em charcos e tremedaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Novos indicios da vizinhan&ccedil;a da aldeia iam successivamente
+apparecendo.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui era uma manada de bois soltos, em direc&ccedil;&atilde;o
+do curral, guiados por uma crean&ccedil;a de palho&ccedil;a e
+pernas nuas, os quaes paravam a olhar com aquella
+express&atilde;o de composta curiosidade, que lhes &eacute;
+peculiar,
+para o recem-chegado visitante da aldeia.
+N&atilde;o faltou receio a Henrique, que supp&ocirc;z a estes
+bonacheir&otilde;es quadrupedes a indole trav&ecirc;ssa e
+bravia
+dos touros, a cuja chegada tantas vezes f&ocirc;ra
+assistir em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais adeante passava por elles uma fileira de
+carros a vergarem sob o p&ecirc;so do matto e atroando
+os ares com o chiar inc&oacute;mmodo das rodas sob o
+eixo, inc&oacute;mmodo para os ouvidos cidad&atilde;os de
+Henrique,
+cujos nervos se irritavam com elle, mas apparentemente
+agradabilissimo para os conductores
+alde&atilde;os, que ou dormiam ou cantavam com aquelle
+acompanhamento.
+<br />
+
+<br />
+
+N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe j&aacute; algumas
+casas de tectos de colmo, de cujas innumeras
+fendas sa&iacute;a um fumo esp&ecirc;sso, que a atmosphera
+humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado
+de Henrique de Souzellas o cheiro resinoso
+e activo das pinhas e das agulhas s&ecirc;ccas dos
+pinheiros, queimadas no lar, produziam sensa&ccedil;&otilde;es
+muito longe de serem agradaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia
+que j&aacute; lhe tom&aacute;ra o animo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+&#8213;Tantas fadigas para este resultado!&#8213;pensava
+elle.&#8213;Sair de Lisboa para me enterrar n'esta aldeia
+escura e suja! Enganou-se o parvo do doutor.
+Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro
+por certo aqui. Deus lhe perd&ocirc;e o homicidio.
+<br />
+
+<br />
+
+Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual
+mais tortuoso e inc&oacute;mmodo de trilhar; as curvas
+complicavam-se como as ruas de um labyrintho.
+Aqui subiam; desciam mais al&eacute;m, para subir outra
+vez. Umas vezes caminhavam em terreno descoberto,
+outras penetravam em t&atilde;o estreitas quelhas,
+apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas
+de ramos entrela&ccedil;ados, que s&oacute; o instincto do
+animal podia evitar-lhes os perigos. Ora soavam as
+patas do macho como em ch&atilde;o lageado, ora amortecia-lhes
+o som um terreno, que a chuva encharcava,
+e a agua lamacenta vinha salpicar o rosto do
+cavalleiro.
+<br />
+
+<br />
+
+As casas eram j&aacute; frequentes, e algumas de menos
+humilde apparencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os c&atilde;es, que, pelo timbre de voz, mostravam ser
+gigantes, ladravam raivosos por dentro dos port&otilde;es
+ou de sobre os muros das quintas, ao ouvirem os
+passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que
+falava ou cantava sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+Outras vezes era um inharmonico grunhir suino
+que accusava a vizinhan&ccedil;a das c&oacute;rtes ou, partindo
+de um casebre rustico, o chorar de crean&ccedil;as, entremeado
+com os ralhos das m&atilde;es e com as pragas
+dos chefes de familia.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve n&atilde;o desistira das suas
+func&ccedil;&otilde;es
+de cicerone, que s&oacute;mente interrompia para saudar
+alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estes campos e lameiros&#8213;ia dizendo&#8213;s&atilde;o
+da morgadinha dos Cannaviaes; andam arrendados
+a um compadre meu.
+<br />
+
+<br />
+
+E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente
+allumiada por uma candeia:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[18]</span>
+&#8213;Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; vossemec&ecirc;, sr. Jos&eacute;?
+Ent&atilde;o n&atilde;o entra?&#8213;respondia-lhe
+uma voz feminina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, n&atilde;o, &aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+E proseguiu para Henrique:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma santa creatura. A morgadinha...
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique interrompeu-o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde fica a final, a quinta de Alvapenha?
+onde mora minha tia? N&atilde;o me dir&aacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; logo ahi adeante, meu patr&atilde;o. Em
+n&oacute;s passando
+umas casas amarellas que ha ahi... &eacute; logo
+ao p&eacute;. Essas casas que digo s&atilde;o tambem da
+morgadinha,
+mas ha uma demanda pelos modos.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve falava pela decima ou undecima vez
+na morgadinha. At&eacute; esta periodica
+referencia a uma
+personagem que elle n&atilde;o conhecia, impacientava
+Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+E continuavam a succeder-se em enredado dedalo
+as quelhas e azinhagas, a ponto de fazer perder
+toda a orienta&ccedil;&atilde;o. Umas vezes ouviam o ruido
+das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado;
+adeante, transpunham uma ponte rustica, escutando
+das profundezas do despenhadeiro, que ella
+atravessava, o fragor das cascatas nos a&ccedil;udes ou o
+ranger das rodas dos moinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique a cada momento imaginava cair n'um
+abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o os a&ccedil;udes do Casal&#8213;dizia o
+almocreve
+berrando para se fazer ouvir atrav&eacute;s do estrondo
+da torrente.&#8213;Pertencem &aacute; morgadinha dos Cannaviaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique nem alento j&aacute; tinha para falar.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia
+t&atilde;o cerrada lhe envolveu o cora&ccedil;&atilde;o a
+nuvem de melancolia,
+que cedeu sem resistencia ao crescente
+torpor que o invadia, como o que desespera da vida
+e da salva&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais adeante, excitou-lhe ainda as atten&ccedil;&otilde;es uma
+<span class="pagenum">[19]</span>
+toada plangente, melancolica, monotona, que exacerbou
+estes effeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma fiada em casa do Tapadas&#8213;disse o
+almocreve.&#8213;&Eacute; um dos maiores amigos do pae da
+morgadinha. V&ecirc; aquelle muro acol&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o vejo nada. Deixa-me!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois pertence j&aacute; &aacute; quinta dos Cannaviaes, que
+a morgadinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha&#8213;exclamou
+Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Era evidente emfim que estavam em pleno cora&ccedil;&atilde;o
+do povoado. As casas appareciam mais juntas.
+De algumas sa&iacute;a um surdo rumor de vozes que tinha
+o que quer que era de lugubre. Era a cor&ocirc;a
+rezada em familia a Nossa Senhora. A voz grave
+do lavrador casava-se com a voz quebrada e tr&eacute;mula
+do av&ocirc;, com a voz sonora e fresca da m&atilde;e, e
+a juvenil das raparigas e crean&ccedil;as n'aquelle piedoso
+c&ocirc;ro, produzindo um effeito que acabou por levar
+ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha,
+que n&atilde;o a acabamos de attingir?
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu
+uma chicotada sibilante junto &aacute;s orelhas do muar,
+o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira
+orlada de arvores, volveu &aacute; direita e, &aacute; voz do
+almocreve,
+estacou em frente de um port&atilde;o de quinta
+resguardado por um telheiro rustico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; aqui&#8213;disse o guia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; que emfim!&#8213;exclamou Henrique, suspirando.
+Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo
+tempo, como o do homem can&ccedil;ado da vida, quando
+antev&ecirc; o repouso do tumulo. Em Henrique era intima
+a convic&ccedil;&atilde;o de que a quinta de Alvapenha lhe
+havia de servir de cemiterio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+O almocreve assentou duas vigorosas pancadas
+no solido port&atilde;o de castanho, deante do qual tinham
+parado.
+<br />
+
+<br />
+
+As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as
+de dois c&atilde;es, que acudiram de longe ao signal e
+vieram ladrar &aacute; porta com furia, que fez agourar
+mal a Henrique da cordialidade da recep&ccedil;&atilde;o que o
+esperava. De facto as inten&ccedil;&otilde;es dos quadrupedes
+n&atilde;o pareciam demasiado hospitaleiras. O almocreve
+divertia-se excitando-os de f&oacute;ra com uma vara de
+vime, apesar de quantas recommenda&ccedil;&otilde;es de
+prudencia
+lhe fazia Henrique, n&atilde;o em demasia socegado.
+<br />
+
+<br />
+
+A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando
+os c&atilde;es &aacute; ordem, se &eacute; licito, sem
+irreverencia,
+empregar n'este caso a phrase consagrada para
+outro genero de algazarra.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos,
+levantar a aldraba, gemerem os gonzos, e emfim
+um homem de lavoura alto e magro, trazendo em
+punho um lampe&atilde;o de frouxissima luz, appareceu-lhes
+&aacute; porta e saudou-os com a f&oacute;rmula do estylo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora Nosso Senhor lhes d&ecirc; muito boas noites.
+<br />
+
+<br />
+
+E, levantando a luz &aacute; altura do rosto de Henrique,
+poz-se a miral-o com a menos ceremoniosa curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o sobrinho c&aacute; da senhora, n&atilde;o
+&eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; um tempo muito az&ecirc;do. Eu j&aacute;
+julgava que
+n&atilde;o vinham. Entre.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o se resolvia a acceitar o convite,
+porque lhe continuavam a imp&ocirc;r respeito os olhares
+ferinos e os rugidos surdos dos dois fa&ccedil;anhosos
+<span class="pagenum">[21]</span>
+quadrupedes, cuja m&aacute; vontade era a custo refreada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entre, entre&#8213;insistia o homem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas esses animalejos?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! isto n&atilde;o faz mal. Sae-te p'ra l&aacute;, Lobo:
+passa, Tyranno!
+<br />
+
+<br />
+
+Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem
+que n&atilde;o faziam mal!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C'os diabos! ti'Manuel&#8213;disse o almocreve&#8213;em
+occasi&atilde;o de se esperarem hospedes, n&atilde;o se soltam
+assim os c&atilde;es. Os diabos n&atilde;o s&atilde;o
+nenhuns
+cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Jo&atilde;osinho das
+Perdizes, que por pouco lhes deixava nos dentes
+as barrigas das pernas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Forte perca!&#8213;resmoneou o outro.&#8213;N&atilde;o trouxesse
+c&aacute; os d'elle. N&atilde;o tem d&uacute;vida; entre o
+senhor,
+que elles n&atilde;o lhe fazem mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o entro; assim &eacute; que n&atilde;o
+entro&#8213;teimou
+Henrique, a quem as palavras do almocreve acabaram
+de fortificar na sua resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem em vista d'isto encolheu os hombros e
+bradou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Luiz!
+<br />
+
+<br />
+
+Uma crean&ccedil;a de cinco annos, e quasi nua, correu
+ao chamamento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enxota para l&aacute; esses c&atilde;es, que aqui o senhor
+tem m&ecirc;do.
+<br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a, &aacute; palavra m&ecirc;do, fitou
+Henrique com
+uns olhos espantados, e tomando do ch&atilde;o um tronco
+de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas feras,
+que, com todos os signaes de respeito, de orelha
+baixa e cauda abatida, fugiram deante d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um
+tanto maltratado com o desfecho da scena; mas a
+prudencia consolava-o, dizendo-lhe que and&aacute;ra ajuizadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora vossemec&ecirc;&#8213;disse o camponez para o
+almocreve&#8213;arranje-se
+como puder e mais a b&ecirc;sta ahi
+pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+&#8213;V&atilde;o, v&atilde;o com Nossa Senhora, que eu
+c&aacute; me
+arranjarei. Muito boas noites, sr. Henriquinho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Jos&eacute;&#8213;disse Henrique, passando para
+a m&atilde;o do guia a esportula da gorgeta, e ap&oacute;s
+seguiu,
+com as pernas tr&ocirc;pegas de cavalgar, o homem
+do lampe&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era para dissipar a impress&atilde;o penosa, que
+subjugava o espirito de Henrique, o aspecto que lhe
+offerecia, &aacute;quella hora da noite, a parte da quinta,
+por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro
+ou eido, estradado de altas camadas de matto
+e embebido de chuva, d'onde se exhalava um cheiro
+de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado
+a estes aromas campezinos. A luz do lampe&atilde;o
+a custo conseguiu evitar a Henrique o trope&ccedil;ar
+n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia
+para gallinhas, e em outros objectos que atrancavam
+o quinteiro. Transpondo a cancella que terminava
+este, seguiram por uma rua de folhas; atravessaram
+diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia;
+ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados
+mais alguns rodeios, acharam-se finalmente junto
+da escadaria de pedra, por onde se subia para uma
+especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia
+de um modesto portico &aacute; casa de Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+A propriedade da tia de Henrique era um genuino
+typo de casa rustica, &aacute; moda do Minho.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar
+os objectos &aacute; escassa luz que os allumiava, recebeu
+Henrique a primeira impress&atilde;o agradavel de
+toda aquella mal estreada excurs&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre
+avivaram n'elle memorias, quasi apagadas.
+Lembrava-se agora vagamente de ter brincado alli,
+a cavallo n'esse mesmo parapeito, ent&atilde;o, como agora,
+enfeitado de uma formidavel cohorte de aboboras meninas,
+victimas votadas &aacute;s festas do proximo Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um
+<span class="pagenum">[23]</span>
+grande vaso de lou&ccedil;a, que elle, havia vinte e tantos
+annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia vaga de
+haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de
+se certificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a
+aza, sendo este o unico estrago que ap&oacute;s tanto
+tempo o velho utensilio soffr&ecirc;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; admiravel!&#8213;n&atilde;o p&ocirc;de deixar de
+exclamar
+Henrique ao fazer a descoberta, vendo que em oito
+dias operava maior reforma nos seus aposentos em
+Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava
+em Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+O hortel&atilde;o bateu &aacute; porta e disse para dentro que
+era o sobrinho da senhora que chegava.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de
+vozes, um arrastar de passos; moveu-se a chave na
+fechadura; abriram-se as portas e no limiar appareceu
+de bra&ccedil;os abertos a tia Doroth&eacute;a, e por traz
+d'ella, elevando a luz acima do hombro da ama, a
+criada Maria de Jesus, a que, havia trinta annos,
+lhe era companheira e interessada em lagrimas e
+pesares. J&aacute; Henrique lhe and&aacute;ra ao collo no tempo
+em que estivera crean&ccedil;a na quinta.
+<br />
+
+<br />
+
+Deante da figura esbelta, do typo varonil e do
+comprido bigode de Henrique, a sr.<sup>a</sup>
+Doroth&eacute;a reprimiu
+as suas expans&otilde;es e quasi recuou.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca mais vira Henrique desde que este, aos
+cinco annos, deix&aacute;ra Alvapenha, e dir-se-hia que
+esperava ainda encontrar os mesmos cabellos louros
+e annelados e o mesmo rosto menineiro da trav&ecirc;ssa
+crean&ccedil;a de outros tempos, em vez do homem
+feito, em que os vinte e tantos annos volvidos o
+tinham transformado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha d'estas illus&otilde;es na gente.
+<br />
+
+<br />
+
+A mais segura raz&atilde;o n&atilde;o est&aacute; precavida
+contra
+ellas; a infundada surpreza invade-nos de subito, e
+os labios n&atilde;o podem prender a
+exclama&ccedil;&atilde;o que a
+denuncia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois na verdade tu &eacute;s o Henriquinho?!&#8213;disse
+espantada a boa senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+&#8213;Eu julgo que sim, tia Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu! Ai como est&aacute;s um homem! &Oacute; Maria de
+Jesus, voc&ecirc; n&atilde;o quer v&ecirc;r isto!?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece mesmo um soldado!&#8213;disse a criada,
+igualmente estupefacta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Credo, mulher! Santissima Trindade! Voc&ecirc; que
+est&aacute; a dizer? Nossa Senhora nos livre de tal!&#8213;exclamou
+a ama, em cujo conceito o soldado estabelecia
+a transi&ccedil;&atilde;o do homem para o diabo.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto Henrique de Souzellas abra&ccedil;ava a
+tia, que havia tanto tempo que n&atilde;o vira, e ella
+correspondia-lhe,
+beijando-o com todo o carinho e chorando.
+<br />
+
+<br />
+
+Chorando por qu&ecirc;? Por qu&ecirc;? Pela muita bondade
+que tinha n'aquella alma. A bondade &eacute; um rico manancial,
+que brota lagrimas ao toque da menor
+commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o tinha ainda bem conseguido libertar-se
+dos roxeados amplexos e mais provas de
+affecto de sua tia, quando se sentiu pr&ecirc;so em novos
+la&ccedil;os. Era Maria de Jesus, que o abra&ccedil;ava tambem
+e lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados,
+como aquelles que veem a ferver do cora&ccedil;&atilde;o, e
+isto
+acompanhado de um&#8213;Ai o meu rico filho!&#8213;t&atilde;o
+eloquente como os beijos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, habituado &aacute;s etiquetas da
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+urbana, que estabelece entre amos e criados distancias
+desconhecidas na aldeia, extranhou um pouco
+a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflex&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Maria de Jesus dizia, ainda admirada:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhora! N&atilde;o que uma coisa assim! Pois
+&eacute;
+este o menino que vinha &aacute; cozinha limpar o tacho,
+em que se fazia a marmelada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! E que boa marmelada c&aacute; se fazia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lambareiro!&#8213;disse a tia, sorrindo.&#8213;Se eu
+soubesse que eras assim, n&atilde;o tinha mandado lavar
+o tacho do d&ocirc;ce, que ainda hoje serviu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Ent&atilde;o ainda se faz d&ocirc;ce c&aacute; em
+casa, como
+d'antes?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[25]</span>
+&#8213;Pois ent&atilde;o? todos os annos. Mas valha-me
+Deus! E n&atilde;o querem v&ecirc;r n&oacute;s aqui postas
+&aacute; palestra!
+Entra, menino, entra c&aacute; para dentro, que est&aacute;
+frio
+e tu deves vir can&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um pouco, um pouco, tia Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique entrou para a sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Demoremo-nos no limiar para informar o leitor
+sobre as pessoas, em cuja casa se vae alojar com
+Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imagina a santa paz de espirito, a placidez
+de paraiso, que estas duas mulheres&#8213;D. Doroth&eacute;a
+e Maria de Jesus, ama e criada&#8213;gosavam na quinta
+de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar
+allivio aos seus muitos e variados males.
+<br />
+
+<br />
+
+Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas
+aos seus habitos, ambas muito tementes a Deus e
+amigas do proximo, as duas celibatarias passavam
+alli uma vida, rescendente a um suave perfume de
+santidade, como o da alfazema e do rosmaninho,
+que lhes aromatizava as gavetas e de que se repassava
+toda a roupa branca, objecto muito dos seus
+cuidados.
+<br />
+
+<br />
+
+A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos
+entre as duas, poderia ser exemplo &aacute; maior
+parte das familias d'este mundo. Entre velhas, que
+nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral
+faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais
+para admirar o caso.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinham ellas por&eacute;m a precisa tolerancia para fazerem
+mutuas concess&otilde;es; cada uma fechava os
+olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria
+bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu
+uma s&oacute; palavra, que, por mais alto pronunciada
+ou por menos expressiva de paciencia, destoasse
+da invariavel monotonia dos seus habituaes
+dialogos.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram um exemplo edificante para os vizinhos,
+que, pela maior parte, devorados por demandas entre
+primos e irm&atilde;os, paes e filhos, marido e mulher,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+mostravam infelizmente ser esta aben&ccedil;oada semente
+ca&iacute;da em improductivo terreno.
+<br />
+
+<br />
+
+As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento
+affligiam as duas sexagenarias e augmentavam
+o numero de Padre-Nossos com que todas
+as noites se faziam lembrar dos santos, de quem
+eram validas, pedindo-lhes a felicidade dos outros
+tanto ou mais do que a sua propria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvir rezar as duas santas velhas&#8213;e era essa a
+occupa&ccedil;&atilde;o dos seus curtos
+ser&otilde;es&#8213;equivalia a escutar
+uma resenha das differentes calamidades, que
+perseguem e apoquentam o genero humano, e que
+ellas, d'esta maneira, pretendiam evitar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Mar&ccedil;al,
+para que nos livre do fogo&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a,
+e seguia-se o Padre-Nosso.&#8213;Outro a Santa Luzia
+milagrosa, para que nos d&ecirc; vista e claridade na alma
+e no corpo; outro a S. Braz, para que nos proteja
+da garganta; outro a S. Vicente, por causa das bexigas,
+etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os
+que andam sobre as aguas do mar; outro por os
+pobres sem abrigo nem alimento; outro por os orph&atilde;os;
+outro pelos doentes; um pelos vivos; outro
+pelos mortos; um pelos justos; outro pelas almas
+do purgatorio, n&atilde;o hesitando at&eacute; a sua caridade
+em
+transp&ocirc;r as portas do inferno e pedir tambem a
+remiss&atilde;o dos condemnados. E ainda depois d'esta
+minuciosa e longa enumera&ccedil;&atilde;o, um ultimo
+Padre-Nosso
+fechava a primeira serie, comprehendendo
+todos os n&atilde;o contemplados por esquecidos, ou por
+n&atilde;o terem logar na classifica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Compunha a segunda serie a men&ccedil;&atilde;o especial de
+cada uma das pessoas fallecidas das suas
+rela&ccedil;&otilde;es:
+parentes, amigos e conhecidos, por cujo &laquo;eterno
+descan&ccedil;o entre os resplendores da luz perpetua&raquo;
+oravam com verdadeira compun&ccedil;&atilde;o. N'esta phalange
+ia tambem D. Jo&atilde;o VI, por quem, havia quarenta
+annos, se costum&aacute;ra a rezar D. Doroth&eacute;a, e
+n&atilde;o era
+ella mulher que rompesse com habitos semi-seculares.
+<span class="pagenum">[27]</span>
+Era esse talvez o unico Padre-Nosso que a alma
+do monarcha recebia no C&eacute;o, com procedencia do
+seu antigo reino.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto &aacute;s qualidades physicas, a
+imagina&ccedil;&atilde;o dos
+leitores pintar-lh'as-ha melhor do que a minha
+descrip&ccedil;&atilde;o.
+For&ccedil;osamente conheceram uma d'estas boas
+velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem
+se estima e com quem se brinca ao mesmo tempo;
+que nos podem inspirar sacrificios e simultaneamente
+nos tentam a travessura; a quem mystificamos
+agora e logo beijamos respeitosamente a m&atilde;o;
+contra quem n&atilde;o reprimimos impaciencias, escutando
+depois submissos os seus nunca terminados
+serm&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora estas velhas assim teem quasi sempre um
+typo uniforme, que &eacute; o reflexo exterior da bondade
+do cora&ccedil;&atilde;o; esse era o typo da tia
+Doroth&eacute;a com o
+seu vestido r&ocirc;xo, o seu len&ccedil;o castamente cruzado
+no peito, a sua touca de folhos alvissimos e de fitas
+escuras, o m&oacute;lho de chaves &aacute; cinta, o livro de
+ora&ccedil;&otilde;es
+na algibeira e os oculos a marcarem no livro
+a reza habitual.
+<br />
+
+<br />
+
+Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma
+edi&ccedil;&atilde;o popular da mesma alma. Succed&ecirc;ra
+de mais
+com ellas o que &eacute; sempre de esperar de uma longa
+e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado
+maneiras e modos de pensar e de v&ecirc;r e de
+dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer
+d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo
+de conclus&atilde;o, se deduzia a outra facilmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao
+primeiro exame que fez das duas santas mulheres.
+<br />
+
+<br />
+
+Entremos agora com elle para dentro da sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa
+de Alvapenha e ahi voltasse de novo com Henrique
+julgaria, &aacute; vista da uniforme
+disposi&ccedil;&atilde;o de coisas
+mantida alli dentro em t&atilde;o distantes &eacute;pocas, que
+todo esse tempo n&atilde;o f&ocirc;ra mais do que um sonho
+de momentos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+Encontraria os mesmos m&oacute;veis, na mesma
+colloca&ccedil;&atilde;o;
+as mesmas cobertas nos leitos, apenas mais
+desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas janellas;
+o mesmo cheiro de feno e alfazema na
+atmosphera dos quartos, os mesmos quadros na
+parede, as mesmas jarras nas c&oacute;mmodas.
+<br />
+
+<br />
+
+A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana
+memoria de rapaz estouvado, sentia-se acordar,
+&aacute; vista d'aquillo tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+A sala tinha uma physionomia caracteristica.
+<br />
+
+<br />
+
+Supponha-se uma n&atilde;o muito ampla quadra de
+pouca altura, toda pintada a &oacute;ca, e alumiada por
+duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus
+competentes assentos de pedra, um defronte do outro,
+com meias cortinas de cambraia sempre corridas&#8213;pleonasmo
+de discri&ccedil;&atilde;o que se n&atilde;o justificava,
+visto que as janelas, abrindo para a quinta,
+n&atilde;o tinham vizinhan&ccedil;a de cujos olhares
+precisassem
+de recatar-se. O tecto era de almofadas de castanho,
+em tempos pintado de azul, agora de uma c&ocirc;r duvidosa.
+Havia quinze annos que D. Doroth&eacute;a falava
+em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso
+como era, ia sendo adiado de primavera para primavera.
+Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija
+saliente, onde coroadas ma&ccedil;&atilde;s de inverno
+aguardavam,
+em vistosa fileira, a completa matura&ccedil;&atilde;o, e
+derramavam no aposento o mais agradavel aroma.
+O pavimento, apesar de muito picado de caruncho,
+andava limpo e <em>escafunado</em>&#8213;termo do
+vocabulario
+de casa&#8213;que mettia g&ocirc;sto v&ecirc;l-o. Cada parede era
+um museu de estampas de devo&ccedil;&atilde;o. Poucos santos
+e santas da c&ocirc;rte celestial n&atilde;o estavam alli
+representados
+e com um colorido, que era o maior peccado,
+a que estes bemaventurados haviam dado logar
+c&aacute; no mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+C&aacute; se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras;
+Santa Anna ensinando Nossa Senhora a
+ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. Jo&atilde;o Novo,
+no Porto; o Bom Jesus de Bou&ccedil;as,
+representa&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[29]</span>
+da imagem, que, segundo reza a respectiva
+chronica, &eacute; obra das m&atilde;os de Jos&eacute; de
+Nicodemus;
+os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de
+S. Francisco, etc., etc. Sobre a c&oacute;mmoda de pau
+preto era devotamente venerado o mais rubicundo,
+menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda
+modelaram as m&atilde;os de santeiro afamado. E seja
+dito de passagem que n&atilde;o sei por que a
+tradi&ccedil;&atilde;o
+popular d&aacute; a este austero franciscano o aspecto
+chorudo de um moderno reitor de farta abbadia de
+aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+No interior da redoma onde se abrigava o santo
+estava estabelecido o museu de raridades da tia Doroth&eacute;a.
+Eram flores artificiaes, concharinhas e caramujos,
+um rosario de caro&ccedil;os de azeitonas, uns
+poucos de vintens de prata, enfiados e pendentes
+do bra&ccedil;o do menino Jesus, que o santo sustentava
+ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha
+benta, uma medida do bra&ccedil;o do Senhor de Mattosinhos,
+um p&atilde;o do sacco de Santa Isabel, que vae
+na prociss&atilde;o de Cinza, no Porto, e outros objectos
+curiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha,
+que gemiam quando entravam em servi&ccedil;o,
+como militar, cujas articula&ccedil;&otilde;es o rheumatismo
+invadiu;
+mesas cobertas com colchas de chita; bah&uacute;s
+cravados de pregaria amarella, disposta em lettras
+e arabescos; uma papeleira de pau santo, e uma
+gaiola com um canario decrepito, objecto, havia
+muitos annos, das tenta&ccedil;&otilde;es de um gato, mais
+decrepito
+do que elle e pertencente &aacute;s classes inactivas.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de
+beatitude e de antiguidade que alli se respirava, os
+habitos da casa, sentia j&aacute; certo desconf&ocirc;rto, como
+de quem &eacute; arrancado de subito ao ambiente, em
+que se educou e vive, e engolfado n'um ambiente
+extranho; especie de asphyxia moral, n&atilde;o menos
+angustiosa do que a do peixe f&oacute;ra da agua.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+A saudade que ao principio sentira, dissip&aacute;ra-se
+j&aacute;. O perfume da saudade &eacute; como o de certas
+flores,
+que s&oacute; se percebe quando de longe o recebemos.
+Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto,
+dissipa-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Acontecera isto com Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a
+cren&ccedil;a de que n&atilde;o seria por muito tempo que se
+demoraria alli.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os emollientes do doutor&#8213;pensava elle, emquanto
+sua tia falava&#8213;ser&atilde;o efficazes para quem
+os pud&eacute;r soffrer sem enj&ocirc;o, mas para mim...
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto sentou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o Henriquinho!&#8213;dizia ainda D. Doroth&eacute;a,
+pondo-se de bra&ccedil;os cruzados em
+contempla&ccedil;&atilde;o defronte
+d'elle.&#8213;&Oacute; menino, onde foste tu arranjar
+esses bigodes tamanhos? Ent&atilde;o isso agora usa-se?
+<br />
+
+<br />
+
+Pergunta que sobremaneira embara&ccedil;ou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem quer usar, usa, tia. N&atilde;o &eacute;
+obriga&ccedil;&atilde;o&#8213;respondeu
+elle, com leve mau humor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em nome do Padre e do Filho!&#8213;dizia Maria
+de Jesus, benzendo-se e tomando logar ao lado da
+ama.&#8213;At&eacute; nem sei que parece, lembrar-se a gente
+que trouxe este marmanj&atilde;o ao collo!
+<br />
+
+<br />
+
+O termo &laquo;marmanj&atilde;o&raquo; n&atilde;o soou
+bem a Henrique.
+Principiava tambem a impaciental-o o v&ecirc;r as duas
+embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito a
+uma exposi&ccedil;&atilde;o d'estas, por mais que
+fa&ccedil;a, n&atilde;o atina
+com o modo de arrostar com ella, que n&atilde;o seja ridiculo.
+Ora Henrique, como todo o homem da sociedade,
+o que mais que tudo temia n'este mundo
+era o ridiculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente acudiu-lhe a caridosa interven&ccedil;&atilde;o da
+tia Doroth&eacute;a, que fez perceber &aacute; criada a
+conveniencia
+de ir preparando a ceia de Henrique, que
+havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de n&atilde;o
+costumar cear, acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas
+e a m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o dos ultimos dias,
+haviam-lhe
+<span class="pagenum">[31]</span>
+desafiado o appetite. Demais, o espanto de
+D. Doroth&eacute;a, quando lhe ouviu dizer que as ceias
+n&atilde;o entravam nos seus habitos, foi tal que lhe tirou
+o animo de rejeitar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ceias! &Oacute; menino, que me dizes?
+ent&atilde;o
+vaes-te deitar sem ceia? Ora essa! Por isso voc&ecirc;s
+s&atilde;o uns pelens. Vejam l&aacute; que arranjo este! ficar
+toda a santa noite sem alguma coisa que d&ecirc; sustento
+ao estomago, que aconchegue. Nada, nada; a
+ceinha em todo o caso. E tu has de tambem querer
+mudar de fato?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu venho bastante molhado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, ent&atilde;o depressa, menino, que n&atilde;o ha nada
+peor do que a roupa molhada no corpo. &Oacute; Maria...
+ou deixe estar, eu vou... Anda, Henriquinho,
+anda l&aacute;, que eu guio-te ao teu quarto para te
+arranjares.
+<br />
+
+<br />
+
+Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado
+e commodamente vestido, saboreava uma gorda gallinha
+de canja, sobre uma mesa coberta de toalha
+lavada, e na melhor lou&ccedil;a da copeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle que tinha sempre severidades de critica contra
+os mais afamados cozinheiros de Lisboa, estava
+achando deliciosa aquella comida primitiva, com
+que o regalava a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta sentou-se a v&ecirc;l-o comer, e com a mesma
+familiaridade, que Henrique j&aacute; anteriormente
+extranh&aacute;ra,
+Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.
+<br />
+
+<br />
+
+Ambas tinham ceado j&aacute;; pois que o faziam ao
+cerrar da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem
+de o observar com a natural curiosidade de quem
+havia tanto tempo n&atilde;o tivera um hospede, faziam-lhe
+perguntas, &aacute;s quaes elle ia respondendo conforme
+lhe era possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu dizias-me na tua carta que estavas doente;
+pois olha que na cara n&atilde;o o parece.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;concordou a criada&#8213;tem boas c&ocirc;res,
+e, vamos, a magreza inda n&atilde;o &eacute; l&aacute;
+essas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu
+logo ao reclamo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me digam isso! Ent&atilde;o n&atilde;o
+v&ecirc;em como
+estou? Pois isto &eacute; l&aacute; c&ocirc;r de saude? de
+febre, ser&aacute;.
+Gordo? pois acham-me gordo?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gordo, n&atilde;o digo, mas assim, assim... E depois
+como vieste de jornada... Mas a final que molestia
+&eacute; a tua, menino?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute;, tia Doroth&eacute;a? Nem os medicos a
+conhecem
+bem. &Eacute;, entre outras coisas, uma tristeza,
+uma melancolia, que me n&atilde;o deixa, que me persegue
+por toda a parte. &Aacute;s vezes parece-me que sinto
+apertar-se-me dolorosamente o cora&ccedil;&atilde;o; outras,
+s&atilde;o
+palpita&ccedil;&otilde;es, ancias... Tenho quasi vontade de
+chorar,
+irrito-me, impaciento-me, n&atilde;o quero que me falem,
+nada quero v&ecirc;r, nada quero ouvir; n&atilde;o leio,
+n&atilde;o durmo, n&atilde;o como. Finalmente todo eu sou
+doen&ccedil;a e tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+A boa tia Doroth&eacute;a olhava com sisudez e
+atten&ccedil;&atilde;o
+para o sobrinho, emquanto elle falava, e na
+physionomia iam-se-lhe desenhando, ao ouvil-o, os
+mais expressivos signaes de espanto e
+consterna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim que Henrique terminou a exposi&ccedil;&atilde;o, ella
+disse-lhe com uma adoravel candura:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; assim uma especie de mania!
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; palavra &laquo;mania&raquo; Henrique
+sobresaltou-se. Seria
+a consciencia que se sentiu ferida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mania? &Oacute; tia Doroth&eacute;a! Mania! Veja bem,
+olhe que o termo &eacute; forte? Mania!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, menino&#8213;insistiu ingenuamente a boa senhora&#8213;pois
+olha que n&atilde;o &eacute; outra coisa. Pois isto
+de estar triste sem ter de qu&ecirc;... sim... porque
+n&atilde;o te morrendo ninguem, nem te doendo nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&Oacute; poetas devaneiadores, &oacute; almas melancolicas,
+que percebeis no sussurrar das brisas, no ciciar das
+folhas, no murmurar dos arroios, queixas occultas
+de dryades e de nayades, sentidas vibra&ccedil;&otilde;es das
+harpas de fadas aereas, que vivem em palacios de
+<span class="pagenum">[33]</span>
+nuvens; &oacute; cora&ccedil;&otilde;es inoculados de
+poesia, que vos
+confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar
+do dia, ao desfolhar das arvores no outomno;
+poetas, que escutaes, com Victor Hugo, as vozes
+interiores, os cantos do crepusculo, e com elle
+adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras,
+perdoae a involuntaria blasphemia da tia Doroth&eacute;a,
+que n&atilde;o contem o menor fermento de malicia; perdoae-lhe
+a dura express&atilde;o de que ella se serviu para
+caracterisar os vossos arroubamentos, as vossas
+tristezas vagas, os vossos devaneios, e cr&ecirc;de que,
+apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada
+para sympathisar comvosco, do que tantas
+que por ahi fazem gala de vos comprehender melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o podia por&eacute;m digerir a
+express&atilde;o,
+de que se servira a tia, para diagnosticar o seu
+mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mania!&#8213;repetia elle&#8213;essa agora! Sempre &eacute;
+forte de mais. Mania, n&atilde;o, tia Doroth&eacute;a,
+l&aacute; isso n&atilde;o.
+Mania!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe digo&#8213;acudiu a criada.&#8213;N&atilde;o v&aacute; sem
+resposta; que est&aacute; quasi como o cunhado da Rosa
+do Bacello. A senhora n&atilde;o se lembra? Andou aquella
+alminha por ahi sempre triste, sempre a falar s&oacute;,
+at&eacute; que a final l&aacute; foi parar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aonde?&#8213;perguntou Henrique, erguendo os
+olhos interrogadoramente para a criada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; foi parar a Rilhafolles&#8213;concluiu esta, espevitando
+a v&eacute;la o mais naturalmente d'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem acabou de sorver a ultima colh&eacute;r de caldo
+de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar
+lhe soubera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o comes mais?&#8213;perguntou a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito agradecido; eu o mais que tenho &eacute;
+somno.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas &eacute; preciso fazer por comer&#8213;insistiu
+ella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+&#8213;Ora v&aacute; mais este c&ocirc;x&atilde;o&#8213;disse a
+criada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; possivel&#8213;teimou Henrique, e insistiu
+para se recolher ao quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens raz&atilde;o, tens&#8213;concordou a tia
+Doroth&eacute;a&#8213;deves
+estar fatigado. Vae com Nossa Senhora,
+menino. E deixa-te l&aacute; de pensar e estar triste, que
+isso n&atilde;o &eacute; bom. &Eacute; fazer por
+espairecer. Come, bebe,
+passeia, que &eacute; o que d&aacute; saude. Nada de malucar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim&#8213;accrescentou a criada&#8213;e n&atilde;o queira
+estar doente, que n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem
+te podes distrahir. O brazileiro Seabra, que tem uma
+casa como um palacio; o Augustito do doutor, que &eacute;
+um bom mocinho. E depois vae dar um passeio
+por ahi, um dia at&eacute; os moinhos outro dia at&eacute;
+&aacute; ermida
+da Senhora da Saude. Agora me lembra: a
+Lenita j&aacute; mandou ahi outra vez saber se tinha chegado
+o hospede&#8213;disse D. Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi s&oacute; a morgadinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; voc&ecirc; a chamar-lhe tambem a morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, senhora?! isto &eacute; o costume. Mas todas
+as outras senhoras mandaram tambem o Torquato
+saber do sr. Henrique. A sr.<sup>a</sup> D. Victoria e a
+Christininha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, pois cuidadosas s&atilde;o ellas! Tu has de te entender
+com aquella gente. &Eacute; uma gente muito dada
+e sem ceremonia. &Eacute; preciso l&aacute; ir. Olha,
+&aacute;manh&atilde; podes
+ir visital-as. &Eacute; um passeio bonito.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, que tinha estado distrahido durante a
+conversa das duas, nem se dava ao trabalho de intervir
+no dialogo em que ellas dispunham j&aacute; do seu
+tempo e tra&ccedil;avam-lhe planos de vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vae descan&ccedil;ar, menino, vae e faze por
+dormir. Olha l&aacute;, tu costumas dormir com luz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tia, n&atilde;o costumo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque n'esse caso... &Oacute; Maria, onde
+est&aacute;
+aquella lamparina, que me serviu quando eu estive
+doente, ha seis annos?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+&#8213;Est&aacute; l&aacute; dentro, senhora; se a senhora quer
+eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; l&aacute;, menino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tia, n&atilde;o quero.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha pessoas que n&atilde;o podem dormir &aacute;s
+escuras&#8213;dizia
+a criada.&#8213;Eu, gra&ccedil;as a Deus, durmo bem
+de qualquer f&oacute;rma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas nem todos s&atilde;o como voc&ecirc;. Olha,
+&oacute; Henriquinho, has de v&ecirc;r se queres o travesseiro
+mais alto ou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito agradecido, tia Doroth&eacute;a, tudo deve estar
+bom&#8213;disse Henrique, procurando fugir &aacute;s
+muitas reflex&otilde;es, perguntas e conselhos, com que
+as duas o iam perseguindo at&eacute; o quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, &oacute; menino, tu bebes agua de noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; poz-lhe agua no quarto, Maria?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Puz, sim, minha senhora; pois ent&atilde;o? J&aacute; minha
+m&atilde;ezinha dizia, que antes sem luz do que sem
+agua.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, ent&atilde;o est&aacute; bom. Ent&atilde;o muito boa
+noite,
+menino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boa noite, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade. Has de v&ecirc;r se queres mais roupa
+na cama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o hei de querer, n&atilde;o, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que est&aacute; muito frio. Voc&ecirc; quantos
+cobertores
+lhe deitou, &oacute; Maria?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cinco, senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cinco!&#8213;exclamou Henrique, quasi horrorisado.&#8213;Cinco
+cobertores!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pouco?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouco?&#8213;&Eacute; de morrer esmagado debaixo
+d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, quer n&atilde;o! Olha que est&aacute; muito frio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, bem; eu c&aacute; me arranjarei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, muito boa noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boa noite, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique ia a fechar a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+&#8213;Olha...&#8213;disse ainda a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique parou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei o que &eacute; que me esquece...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha de ser nada, tia; boa noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o esquecer&aacute;?... Eu sei?... Emfim... boa
+noite. Ai, &eacute; verdade... Sempre &eacute; bom ficar com
+lumes promptos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim; l&aacute; isso sempre &eacute; bom.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s? n&atilde;o que bem me parecia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; l&aacute; est&atilde;o, senhora&#8213;disse a criada
+de longe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Melhor; ent&atilde;o muito boa noite nos d&ecirc; Nosso
+Senhor, menino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boa noite, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique conseguiu fechar a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava finalmente s&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que desastrada lembran&ccedil;a a minha!&#8213;disse o
+pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si.&#8213;Como
+posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que
+chama manias aos meus padecimentos? Que futuro
+de impertinencias me espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e
+pensar eu que s&oacute; posso voltar para ti &aacute; custa de
+outra jornada!
+<br />
+
+<br />
+
+O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade.
+Um alto leito de almofadas na cabeceira e
+rodap&eacute; de chita, t&atilde;o alto que se n&atilde;o
+dispensava o
+auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma
+commoda com um pequeno espelho, um bah&uacute;, um
+lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam a mobilia
+toda.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos
+objectos de toucador, a que estava habituado.
+Aquelle estrictamente necessario n&atilde;o lhe promettia
+grandes confortos.
+<br />
+
+<br />
+
+Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo
+e respirava um asseio e frescura convidativos:
+os travesseiros, de largos folhos engommados, possuiam
+uma molleza agradavel &aacute;s faces; o colch&atilde;o
+de pennas abatia-se suavemente sob o peso do corpo
+fatigado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+Henrique conchegou a roupa a si; &aacute; falta de velador,
+pousou o casti&ccedil;al no travesseiro, e, abrindo
+um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a ler, para
+obedecer a um habito adquirido.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o teria ainda lido um quarto de pagina, quando
+ouviu a voz da tia Doroth&eacute;a, que lhe dizia de
+f&oacute;ra
+da porta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menino, tu j&aacute; te deitaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;, sim, tia Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um
+m&ecirc;do de fogos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteja descan&ccedil;ada, tia. Eu apago j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ser&aacute; melhor. S. Mar&ccedil;al nos
+acuda.
+<br />
+
+<br />
+
+E afastou-se, rezando ao santo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique continuou a ler.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco a mesma voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu j&aacute; dormes, Henriquinho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tia, ainda n&atilde;o durmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que n&atilde;o v&aacute;s adormecer sem apagar a
+luz. Eu tenho um m&ecirc;do de fogos! N&atilde;o
+descan&ccedil;o,
+emquanto n&atilde;o vejo tudo apagado em casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique perdeu a paciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois pode socegar, olhe.
+<br />
+
+<br />
+
+E apagou a v&eacute;la, meio zangado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fizeste bem, fizeste bem; isto j&aacute; &eacute; tarde, e
+&eacute;
+melhor fazer por dormir. Ent&atilde;o, muito boas noites.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boas noites&#8213;respondeu Henrique quasi
+amuado; e ageitando-se na cama, dizia comsigo:&#8213;E
+esta! J&aacute; vejo que nem ler me &eacute; permittido aqui.
+Olhem que vida me espera! &Eacute; isto o que me devia
+curar? Que fatalidade!
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de
+papa, unicos que conservava dos cinco primitivos,
+come&ccedil;aram a fazer o seu effeito, insinuando nos
+membros can&ccedil;ados da jornada um agradavel calor.
+Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque
+que ficava por debaixo das janellas do quarto e as
+gottas da chuva, que dos beiraes do telhado ca&iacute;am
+compassadas na taboa do peitoril.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+A noite soceg&aacute;ra. De quando em quando apenas
+algumas lufadas de vento, j&aacute; menos impetuosas, faziam
+bater as vidra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram como estes estados, que succedem a um
+choro aberto. Correm ainda algumas lagrimas nas
+faces, mas j&aacute; n&atilde;o brotam novas dos olhos: saem
+ainda do peito os solu&ccedil;os, por&eacute;m mais
+espa&ccedil;ados;
+dentro em pouco ser&aacute; completa a serenidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique come&ccedil;ou a experimentar uma languidez,
+um delicioso bem-estar n'aquelle confortavel
+leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe
+enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente,
+no mais profundo, tranquillo e restaurador
+somno, que, havia muito tempo, tinha dormido.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>III
+</h4>
+
+<br />
+
+Ao romper da manh&atilde;, quando a consciencia
+principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos,
+at&eacute; ent&atilde;o tomados pelo torp&ocirc;r de um
+somno profundo,
+Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente
+sentado em uma cadeira de S. Carlos,
+disposto a assistir ao desempenho de uma opera
+favorita.
+<br />
+
+<br />
+
+Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos
+e contrabassos; sopravam, a plena b&ocirc;ca,
+os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam
+descompostamente os bra&ccedil;os os ruidosos timbaleiros;
+dedos amestrados faziam vibrar as cordas da
+harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os
+ares, e comtudo n&atilde;o chegava aos ouvidos de Henrique,
+de toda esta riqueza de instrumenta&ccedil;&atilde;o, mais
+do que uma nota unica, arrastada, continua, plangente,
+baixando e subindo na escala dos tons, e sem
+formar uma s&oacute; phrase musical.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+Era de desesperar um <em>dilettante</em> como
+elle; torcia-se
+na cadeira, inclinava convenientemente a cabe&ccedil;a,
+fazia das m&atilde;os cornetas acusticas, e sempre
+o mesmo resultado!
+<br />
+
+<br />
+
+Este violento estado de atten&ccedil;&atilde;o, este
+esfor&ccedil;o do
+sensorio, principiou n'elle a obra de despertar; principiou
+pois pelos ouvidos, mas c&ecirc;do se transmittiu
+a todos os outros org&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de dar a si proprio conta do que era
+aquelle som, e quasi esquecido ainda do logar em
+que estava, Henrique abriu os olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+A luz do dia penetrava j&aacute; pelas frestas mal vedadas
+das janellas e espalhava no aposento uma tenue
+claridade.
+<br />
+
+<br />
+
+Veio ent&atilde;o a Henrique a consciencia do logar
+em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou
+o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor se ainda n&atilde;o padeceu de insomnias, de
+pesad&ecirc;los, ou de somnos febris, n&atilde;o avalia por
+certo
+o contentamento intimo, que se apossa das desgra&ccedil;adas
+victimas d'esses demonios nocturnos, quando
+por excep&ccedil;&atilde;o elles as deixam em paz, e lhes
+respeitam
+o somno de uma noite completa. Acordar
+s&oacute; aos raios da aurora &eacute; um dos mais ineffaveis
+prazeres, a que elles aspiram na vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Penetra-lhes ent&atilde;o nos membros um insolito vigor;
+a arca do peito expande-se-lhes mais livre e
+as sombras do espirito dissipam-se-lhes com aquelle
+clar&atilde;o matinal.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira
+vez depois de muitos mezes, dormira de um somno
+a noite inteira.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentia-se com isto t&atilde;o bom, t&atilde;o vigoroso,
+t&atilde;o
+contente que teve vontade de cantar.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o som, que o acord&aacute;ra, aquella nota unica,
+em que se confundiam todas as notas da sonhada
+orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Prestando-lhe a atten&ccedil;&atilde;o de acordado, conheceu
+que era o chiar dos carros&#8213;o mesmo som, que
+<span class="pagenum">[40]</span>
+na vespera o irrit&aacute;ra, agora assim a distancia, estava-lhe
+agradando, como nota extrahida por m&atilde;o
+habil das cordas de um violino.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella
+manh&atilde; o incitava ao exercicio, rara
+disposi&ccedil;&atilde;o no
+indolente filho da capital, que tinha por habito ouvir
+o meio dia na cama.
+<br />
+
+<br />
+
+Ergueu-se e abriu as janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; licita a compara&ccedil;&atilde;o
+entre a mais surprehendente
+transmuta&ccedil;&atilde;o de uma d'essas apparatosas
+magicas, que tanto extasiam as multid&otilde;es embasbacadas
+nas plateias e camarotes de um theatro, e
+as que de instante para instante, realisa a natureza.
+Descerrando o v&eacute;o de nuvens que encobre o fulgor
+do sol, elevando, acima do horizonte, esse magestoso
+lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor
+que illumina as noites desanuviadas, a natureza
+op&eacute;ra, a cada momento, as mais admiraveis e completas
+metamorphoses.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o somno de Henrique realis&aacute;ra-se um
+d'esses effeitos magicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Abrand&aacute;ra gradualmente a violencia do sul; o
+vento, mudando, voltou em sentido opposto a
+grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;
+luziram tr&eacute;mulas por momentos as estrellas, empallideceram
+perante o alvor do dia, e quando o sol
+assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe
+deante um vasto manto azul, tapetando a estrada,
+que tinha a percorrer. S&oacute;, muito para o occidente,
+ainda algumas nuvens amontoadas formavam
+uma como franja, que o astro nascente em breve
+tingiu de carmim e de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa,
+cheia de aromas, que vem dos campos nas alvoradas
+serenas que penetraram no quarto de Henrique,
+quando elle abriu as janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito
+uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer!
+<br />
+
+<br />
+
+A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste
+<span class="pagenum">[41]</span>
+que, com o cora&ccedil;&atilde;o apertado,
+atravess&aacute;ra na vespera,
+parecia outra.
+<br />
+
+<br />
+
+O sol da manh&atilde; baix&aacute;ra sobre ella,
+dissip&aacute;ra-lhe
+as sombras, colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe
+nas presas, dispers&aacute;ra-se em iris cambiantes na
+espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfum&aacute;ra-a
+de aromas, anim&aacute;ra-a de cantos, transform&aacute;ra-a
+emfim na mais risonha paizagem, em que
+os olhos de Henrique, pouco habituados &aacute;s esplendidas
+galas do Minho, tinham nunca repousado.
+<br />
+
+<br />
+
+O inverno despoj&aacute;ra parte d'essas galas; embora!
+At&eacute; da propria nudez de algumas arvores resultavam
+encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos,
+as moitas sem flores infundem tristeza; mas
+n&atilde;o tem a tristeza poesia tambem? Pode haver
+completa paizagem onde n&atilde;o haja uns tons escuros
+de melancolia?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, debru&ccedil;ado na varanda de
+pedra do quarto, n&atilde;o se can&ccedil;ava de admirar
+aquella
+scena.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas,
+que, n'um momento, elevam, nos ermos, jardins
+e pa&ccedil;os, como os de Armida e Alcina.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois era esta a mesma aldeia, atrav&eacute;s da qual
+elle cavalg&aacute;ra de noite?
+<br />
+
+<br />
+
+Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que
+t&atilde;o do fundo da alma amaldi&ccedil;o&aacute;ra na
+vespera, produziam,
+vistos ent&atilde;o d'alli, os mais pittorescos effeitos.
+Abatia-se-lhe aos p&eacute;s um n&atilde;o muito profundo
+valle, opulento em vegeta&ccedil;&atilde;o, e que a certa
+distancia
+se continuava insensivel e gradualmente com
+uma amenissima collina.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m, um bello bosque de carvalhos seculares,
+que o inverno, privando-os de folhas, tingira quasi
+da c&ocirc;r da violeta, contrastava com a fronde sempre
+verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde
+por entre a qual se divisavam abundantes os dourados
+fructos, poupados pela m&atilde;o do lavrador. As
+copas, como umbelladas dos pinheiros mansos,
+<span class="pagenum">[42]</span>
+desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras
+as mais suaves ondula&ccedil;&otilde;es. Dispersos aqui e alli,
+e entremeiados com a verdura, grupos de casas
+campestres, alvejantes &aacute; luz do sol, moinhos e azenhas,
+noras toldadas de ramadas conicas, eiras,
+pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau
+humor trilh&aacute;ra na vespera, t&atilde;o sinistras
+ent&atilde;o, como
+graciosas agora; extensas e virentes campinas e
+lameiros, onde pastavam numerosas manadas de
+gado. Mais longe a igreja com a sua alameda &aacute;
+entrada e o cemiterio, onde um s&oacute; mausol&eacute;o
+avultava
+ainda; uma ou outra casa apala&ccedil;ada, ennegrecida
+pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas
+heras, revestidas de musgos, douradas de lichens;
+finalmente, tudo o que tenta os paizagistas,
+tudo o que exal&ccedil;a os poetas, tudo quanto suspende
+os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro,
+um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe
+a apparencia de uma das mimosas composi&ccedil;&otilde;es
+a pastel da m&atilde;o de Pillement.
+<br />
+
+<br />
+
+A mudan&ccedil;a de aspecto da scena operou n&atilde;o menor
+mudan&ccedil;a nos sentimentos e disposi&ccedil;&atilde;o
+do
+enlevado espectador que das varandas de Alvapenha
+a estava observando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso sair! &eacute; preciso sair!&#8213;disse Henrique
+comsigo.&#8213;Quero v&ecirc;r isto de perto; quero
+entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por
+aquelles montes, debru&ccedil;ar-me d'aquellas ribanceiras.
+<br />
+
+<br />
+
+E vestindo-se &aacute; pressa, e sem sentir a necessidade
+de uma escrupulosa <em>toilette</em>, saiu do
+quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+Encontrou nos corredores a tia Doroth&eacute;a, que o
+saudou amavelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bons dias, menino, ent&atilde;o como passaste
+tu a noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deliciosamente minha querida
+tia&#8213;respondeu
+elle, abra&ccedil;ando-a com maior affecto e bom
+humor do que na vespera.
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; sentir-se a gente bem!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o estranhaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estranhei immenso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?!&#8213;disse a tia, mortificada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dormi a noite de um somno, e acordei bem
+disposto; o que para mim &eacute; a mais estranha das
+occorrencias.
+<br />
+
+<br />
+
+A tia sorriu satisfeita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois antes assim. E agora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora quero sair, quero v&ecirc;r esta terra, que
+me est&aacute; parecendo um paraiso terreal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera, menino. N&atilde;o v&aacute;s sem almo&ccedil;ar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Almo&ccedil;ar! Pois que horas s&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; c&ecirc;do; s&atilde;o
+j&aacute; sete horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sete horas!
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique insensivelmente desviou os olhos
+para a janella, para v&ecirc;r como era a natureza, a uma
+hora a que raras vezes a examinava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o acha que se pode almo&ccedil;ar &aacute;s
+sete
+horas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Se est&aacute; j&aacute; prompto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse
+os habitos da aldeia. Principiemos por este.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrando para a sala do jantar, Henrique viu
+deante de si uma ta&ccedil;a de leite espumante, t&eacute;pido,
+odorifero, extrahido de pouco tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi por elle que principiou o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido
+o leite verdadeiro, o leite que n&atilde;o faz mentir a
+analyse dos chimicos, de que os physiologistas exaltam
+as qualidades nutritivas, de que os poetas das
+georgicas cantam as delicias e virtudes; s&oacute; agora
+os comprehendeu elle, que bem differente d'aquillo
+era o aguado e quantas vezes derrancado s&ocirc;ro, a
+que estava habituado na cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a, almo&ccedil;ando, e Maria de Jesus,
+servindo,
+falaram, segundo o costume, continuadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvia-as j&aacute; com mais atten&ccedil;&atilde;o e
+respondia-lhes com mais vontade e paciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+Falaram em muitas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas
+da vizinhan&ccedil;a, sabendo-o chegado, lhe tinham
+mandado presentes de gallinhas, offerecendo-se, ao
+mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da
+terra; disse mais que as senhoras da quinta do
+Mosteiro tambem tinham j&aacute; mandado saber d'elle,
+Henrique, e lembrou que seria delicado ir visital-as
+aquella manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar
+em qu&ecirc;, e terminando o almo&ccedil;o apressou-se a sair
+para o campo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se te perdes, menino?&#8213;lembrou a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se me perder, farei por achar-me.
+<br />
+
+<br />
+
+Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta,
+que tambem ent&atilde;o lhe parecia graciosa, de uma
+gra&ccedil;a bucolica, a que n&atilde;o estava habituado. O
+aspecto
+melancolico da vespera desvanecera-se. At&eacute;
+para ser completa a mudan&ccedil;a, estavam encadeados
+nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas gra&ccedil;as
+comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo
+quanto via lhe era novidade, tudo lhe captivava a
+atten&ccedil;&atilde;o e o distrahia dos seus lugubres
+pensamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de muito andar, de subir collinas, de descer
+valles e costear ribeiros, foi sair a um pequeno
+largo, ao fim do qual havia uma casa terrea, caiada
+de branco, com portas verdes e janellas envidra&ccedil;adas,
+sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos
+por papel. &Aacute; porta d'esta casa estava muita
+gente parada; mulheres, velhos, mo&ccedil;os,
+crean&ccedil;as,
+uns sentados, outros deitados, outros a p&eacute; e encostados
+&aacute; umbreira, e todos apparentemente aguardando
+alguma coisa ou alguem do lado de uma das
+ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se
+dirigiam todos os olhares.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+Henrique approximou-se d'esta casa com alguma
+curiosidade, que c&ecirc;do satisfez, vendo em uma taboleta,
+suspensa no alto da janella, a seguinte pomposa
+inscrip&ccedil;&atilde;o:
+&laquo;Reparti&ccedil;&atilde;o do correio&raquo;, e,
+como
+a confirmar o distico, um c&oacute;rte feito na porta para
+a recep&ccedil;&atilde;o das cartas.
+<br />
+
+<br />
+
+Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado
+do correio para lhe serem remettidas a Alvapenha
+as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique
+entrou na reparti&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com
+um banco de pinho e dividida por um mostrador,
+para dentro do qual se alojava todo o pessoal do
+servi&ccedil;o, isto &eacute;, um homem por junto; e era este o
+sr. Bento Pertunhas, personagem importante na
+terra, e a cuja intelligencia e solicitude estavam confiadas
+mais do que uma func&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m de
+servir,
+em interinidade permanente, como muitas vezes s&atilde;o
+as interinidades do nosso paiz, este cargo, dito por
+elle, de &laquo;director do correio&raquo;, estava de posse s.
+s.<sup>a</sup> de uma das cadeiras de latim e de
+latinidade, com
+que se procura em Portugal fomentar nos concelhos
+ruraes o g&ocirc;sto pelas lettras antigas; era ainda
+regente e director da philarmonica da terra, armador
+de igreja em dias festivos, ensaiador de autos
+e entremezes populares, e, quando Deus queria, auctor
+de alguns tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre
+funccionario tirou cortezmente o seu bonnet
+de pelle de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar
+t&atilde;o honrosa visita. Nos cumprimentos
+que formulou disse o nome de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Admirado por ser j&aacute; conhecido, Henrique interrogou
+o latinista e, achando-o muito informado de
+tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu-se de que
+estava na presen&ccedil;a de um esmerilhador de vidas
+alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o fim de cortar a divaga&ccedil;&atilde;o, em que o homem
+<span class="pagenum">[46]</span>
+entr&aacute;ra a respeito de certa viagem que fizera
+a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio n&atilde;o
+cheg&aacute;ra ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba v. s.<sup>a</sup> que ainda
+n&atilde;o&#8213;respondeu o
+sr. Bento Pertunhas&#8213;mas n&atilde;o deve
+tardar; o
+homem que d'aqui vae buscar as malas &aacute; villa, se
+bem andasse, j&aacute; c&aacute; podia estar. Esse formigueiro
+de gente, que v. s.<sup>a</sup> ahi v&ecirc;
+&aacute; porta,
+est&aacute; &aacute; espera
+d'elle. Hoje ent&atilde;o, que chegam as cartas do Brazil,
+ninguem p&aacute;ra com este povo. D&atilde;o-me cabo da
+paciencia.
+Isto &eacute; um inferno! Eu sirvo este logar interinamente,
+emquanto o empregado est&aacute; paralytico;
+porque eu tenho outro cargo publico; sou professor
+de latinidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, mas a minha voca&ccedil;&atilde;o era
+para as
+artes. Meu pae queria que eu f&ocirc;sse padre e mandou-me
+ensinar latim; mas j&aacute; ent&atilde;o a minha
+paix&atilde;o
+era a musica. Eu ainda queria que v. s.<sup>a</sup> me
+ouvisse tocar trompa, que &eacute; o instrumento que mais
+tenho estudado... Se v. s.<sup>a</sup> se demorar
+ha de fazer-me
+o favor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com muito g&ocirc;sto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o poder um homem seguir no mundo a sua
+voca&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda assim n&atilde;o se pode queixar muito. O
+cultivo das lettras latinas deve-lhe proporcionar gosos;
+porque emfim para quem possue instinctos
+de arte, a leitura dos poetas j&aacute; &eacute; um lenitivo
+contra
+as agruras da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos
+muito abertos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa!
+Ent&atilde;o parece-lhe que pode achar-se g&ocirc;sto em
+l&ecirc;l-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe
+uma vontade!... O latim!... a mais destemperada
+e desesperadora lingua que se tem falado
+no mundo! Se &eacute; que se falou&#8213;accrescentou em
+voz baixa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o duvida que se falasse latim?&#8213;perguntou
+Henrique, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu duvido. N&atilde;o sei como os homens se podessem
+entender com aquella endiabrada contradan&ccedil;a
+de palavras, com aquella desafina&ccedil;&atilde;o que faz
+dar volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o
+que &eacute; uma casa desarranjada, onde ninguem se
+lembra onde tem as suas coisas quando precisa
+d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois &eacute;
+o que &eacute; o latim. Abre a gente um livro e p&otilde;e-se a
+traduzir e vae dizendo: &laquo;As armas, o homem e eu,
+canto, de Troia, e primeiro, das praias.&raquo; Quem percebe
+isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em
+outras, que elles punham &aacute;s vezes em casa do diabo,
+e fa&ccedil;am uma coisa que se entenda! &Eacute; quasi
+uma adivinha. Ora adeus! E depois&#8213;continuou
+elle, enthusiasmado com o riso de Henrique, suppondo-o
+de approva&ccedil;&atilde;o&#8213;e depois as differentes
+maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem
+tem gra&ccedil;a. N&oacute;s c&aacute; dizemos por exemplo:
+&laquo;reino e
+reinos&raquo; e est&aacute; acabado; l&aacute;
+n&atilde;o senhor; diz-se <em>regnum</em>
+e <em>regna</em> e
+<em>regni</em> e
+<em>regno</em> e
+<em>regnis</em> e at&eacute;
+<em>regnorum</em>. Ora venham-me
+c&aacute; elogiar a tal lingua!
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique estava achando delicioso o odio entranhado
+de mestre Bento Pertunhas &aacute; latinidade que
+ensinava com a proficiencia, que o leitor pode imaginar,
+depois do que ouviu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, meu caro senhor&#8213;continuou o atribulado
+<em>magister</em>&#8213;eu se me vejo um dia livre
+d'este amaldi&ccedil;oado
+latim, fa&ccedil;o uma fogueira, na qual me hei de
+regalar de v&ecirc;r arder o Tito Livio e os Virgilios todos
+tres.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de advertir que mestre Bento falava sempre
+no plural, ao referir-se a Virgilio.
+<br />
+
+<br />
+
+Quer-me parecer que para este interprete da litteratura
+latina tinham de facto existido tres Virgilios,
+provavelmente irm&atilde;os, e cada um auctor de
+cada um dos tres volumes da edi&ccedil;&atilde;o, que lhe
+servia
+de texto. Dizia Virgilio 1.&ordm;, 2.&ordm; e 3.&ordm;,
+como quem
+<span class="pagenum">[48]</span>
+se refere aos monarchas homonymos, que succederam
+n'um mesmo reino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me salvo se morro mestre de latim&#8213;proseguia
+elle.&#8213;Afunda-me no inferno o trambolho da syntaxe.
+<br />
+
+<br />
+
+Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique
+viu f&oacute;ra da porta, principiou em desordenada azafama
+a entrar para a loja, que em breve n&atilde;o comportava
+mais ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem.
+Gra&ccedil;as a Deus, que ahi vem!&#8213;diziam todos
+&aacute;
+uma.
+<br />
+
+<br />
+
+O funccionario principiou a impacientar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! ent&atilde;o! Por onde ha de elle entrar, fazem
+favor de me dizer? Saiam, saiam. N&atilde;o ouvem? Ent&atilde;o
+n&atilde;o fazem caso das minhas ordens?
+D&ecirc;em
+logar. N&atilde;o v&ecirc;em que est&atilde;o molestando
+este senhor?<br />
+
+<br />
+
+Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se,
+ao v&ecirc;r que os outros n&atilde;o obedeciam &aacute;s
+ordens, mas, pela sua parte, n&atilde;o cedia um passo,
+como se lhe valesse algum especial privilegio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saia voc&ecirc;, mulher&#8213;dizia um.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; por que n&atilde;o sae? Olha agora!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver
+carta lh'a dar&atilde;o. L&aacute; por estar aqui
+n&atilde;o &eacute; que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o saia tambem. Ora essa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; santinha, n&atilde;o empurre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; filho, quem &eacute; que lhe faz mal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por onde &eacute; que se quer metter, homem de
+Deus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sou menos que os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quereis v&oacute;s d'aqui, canalhada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera que eu te falo.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor
+tumultuoso as agudas declama&ccedil;&otilde;es do
+&laquo;director do
+correio&raquo;, o qual obrigou Henrique a passar para
+dentro da teia, para se salvar das ondas populares.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique estava achando igualmente curiosa a
+<span class="pagenum">[49]</span>
+indigna&ccedil;&atilde;o do homem e a alvoro&ccedil;ada
+anciedade do
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha de facto poucas scenas t&atilde;o animadas, como
+a da chegada do correio e da distribui&ccedil;&atilde;o das
+cartas
+em uma terra pequena. Durante a leitura dos
+sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo,
+um observador, que estude attento as impress&otilde;es
+que essa leitura op&eacute;ra nos semblantes dos
+que &aacute;vidos a escutam, como que v&ecirc; levantar-se
+uma ponta de cortina, corrida a occultar-nos as
+scenas da comedia ou da tragedia da vida de
+cada um.
+<br />
+
+<br />
+
+Que hora de commo&ccedil;&otilde;es aquella, em que se
+abrem as malas, onde veem encerrados porventura
+os destinos de tantas pobres familias! Quantas
+vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham
+as desgra&ccedil;as e os pezares!
+<br />
+
+<br />
+
+Nas grandes cidades dispersam-se estas commo&ccedil;&otilde;es;
+passam-se no recato dos gabinetes de cada
+um. Lembrem-se por&eacute;m das vezes, em que teem
+segurado com m&atilde;o tr&eacute;mula na correspondencia,
+que o correio lhes traz; no anciar do cora&ccedil;&atilde;o com
+que lhe rasgam o s&ecirc;llo; nas lagrimas ou sorrisos
+com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel
+movimento de desespero com que a amarrotam depois,
+ou nas expans&otilde;es apaixonadas com que beijaram
+o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso,
+multipliquem depois esses affectos todos, despojem-os
+das reservas que a etiqueta imp&otilde;e &aacute;s classes
+mais civilisadas, fa&ccedil;am-os manifestarem-se n'um
+mesmo momento e n'um mesmo logar, e digam se
+concebem muitas outras scenas, em que mais sentimentos
+e paix&otilde;es se agitem em lucta travada.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou emfim o homem das cartas, e a custo
+conseguiu romper at&eacute; ao mostrador, onde pousou
+a mala. O &laquo;director&raquo;, depois de tossir, de
+assoar-se,
+de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas,
+que formavam com a anciedade do povo um
+contraste desesperador, abriu fleugmaticamente o
+<span class="pagenum">[50]</span>
+sacco, extrahiu um n&atilde;o muito volumoso masso de
+cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou
+apontamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Era digno do pincel de um artista aquelle grupo
+de physionomias, que seguiam &aacute;vidas todos os movimentos
+de mestre Bento. Olhos e b&ocirc;cas abertas,
+m&atilde;os juntas, pesco&ccedil;os estendidos, a
+cabe&ccedil;a inclinada
+para receber o menor som, tudo caracterisava
+profundamente a anciedade que lhes dominava os animos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mestre Bento Pertunhas achou a occasi&atilde;o apropriada
+para dizer a Henrique:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem
+mestre aprendi a tocar trompa e, n&atilde;o &eacute; por me
+gabar,
+mas prezo-me de tocar com certo mimo e express&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o
+a consterna&ccedil;&atilde;o d'aquellas physionomias. Resolveu
+valer-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem a bondade de v&ecirc;r se ha alguma carta
+para mim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! pois j&aacute; as espera hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; provavel; por&eacute;m...
+<br />
+
+<br />
+
+Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, come&ccedil;ou
+em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescriptos.<br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se novo e n&atilde;o menos interessante espectaculo.
+<br />
+
+<br />
+
+A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre
+uma voz, &aacute;s vezes um grito; estendia-se por cima
+das cabe&ccedil;as um bra&ccedil;o, e, podemos accrescentar
+ainda que se n&atilde;o visse, alvorotava-se um
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Outros, os n&atilde;o nomeados ainda, olhavam com
+anciedade para o masso, que diminuia, e cada vez
+mais se lhes assombrava o semblante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Luiza Escolastica, do logar dos C&oacute;jos&#8213;lia
+mestre Pertunhas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!&#8213;exclamou
+uma mulher joven, apoderando-se &aacute;vidamente da carta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+&#8213;Joanna Pedrosa, de Serzedo&#8213;continuava elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui estou; ser&aacute; do meu Antonio, senhor?&#8213;disse
+uma velha, pobremente vestida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; do seu Antonio, ser&aacute;&#8213;respondeu o
+insensivel
+funccionario;&#8213;o que lhe posso dizer &eacute;
+que traz obreia preta.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher, que j&aacute; tremia ao receber a carta, deixou-a
+cair, ouvindo aquellas sinistras palavras.
+Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da loja, a
+chorar lastimosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se foi o filho que lhe morreu, n&atilde;o sei o que
+ha de ser d'ella&#8213;disse um dos circumstantes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coisas do mundo!&#8213;respondeu outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Estes commentarios foram interrompidos pela
+continua&ccedil;&atilde;o da leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jo&atilde;o Carrasqueiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto, senhor&#8213;bradou um velho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mezada, hein?&#8213;disse Bento Pertunhas,
+fitando-o por cima dos oculos.&#8213;O rapaz n&atilde;o se
+esquece.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom
+filho tem saido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D. Magdalena Adelaide de...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a morgadinha, &eacute; a morgadinha&#8213;disseram
+a um tempo muitas vozes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agradecido pela novidade; era c&aacute; muito precisa
+a explica&ccedil;&atilde;o&#8213;disse o Pertunhas: e passando
+a carta para uma mulher, que era a encarregada de
+fazer a distribui&ccedil;&atilde;o a quem a podia gratificar,
+accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leve-lh'a a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+E proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto Gabriel...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o mestre-escola...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora fazem o favor de estar calados! Esta...
+como elle vem por aqui... pode ficar... ainda
+que... ser&aacute; melhor levar-lh'a a casa, leve, leve
+tambem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jo&atilde;o Cancella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+&#8213;&Eacute; o Jo&atilde;o Herodes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse foi a Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, quando vier, que appare&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tio Z&eacute; P'reira ficou de receber as cartas. &Eacute;
+compadre d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero saber de compadrices. O tio Z&eacute;
+P'reira que se occupe com o seu zabumba e deixe l&aacute;
+os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+A leitura mais ou menos acompanhada d'estes
+dialogos proseguiu, redobrando de momento para
+momento a anciedade dos que iam ficando. Um
+fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de
+desalento, seguiu-se &aacute; leitura do ultimo nome e
+&aacute;s
+poucas palavras, com que o funccionario fechou a
+tarefa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E acabou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos,
+morosos e com t&atilde;o m&aacute; vontade, como se
+ainda tivessem esperan&ccedil;a de commover a inexoravel
+sorte.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, ficando s&oacute; com Bento Pertunhas, teve
+de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narra&ccedil;&atilde;o
+dos seus passados triumphos artisticos, das suas
+amarguras presentes no magisterio, e das suas esperan&ccedil;as
+em melhoramentos futuros. Entre as ambi&ccedil;&otilde;es
+mais inquietas do mestre, a de obter o logar
+de recebedor de comarca, proximo a vagar por a
+morte imminente do respectivo empregado, figurava
+em primeira linha.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu
+deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio
+que este episodio interrompera, t&atilde;o satisfeito e distrahido,
+que nem apprehens&otilde;es lhe causava a ideia
+de trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho,
+ideia que, em outra occasi&atilde;o, bastaria para
+o fazer doente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a
+procurar saida para a deveza, da qual um fundo
+vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um
+<span class="pagenum">[53]</span>
+rumor de vozes, como de alguem, que conversasse
+perto d'alli.
+<br />
+
+<br />
+
+Parou a certificar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se engan&aacute;ra. Era do outro lado da sebe, e
+na deveza, para onde tentava passar, que se estava
+falando.
+<br />
+
+<br />
+
+Espreitou por entre as folhas do silvado que o
+encobria, e viu uma scena, que lhe moveu a curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Um grupo de crean&ccedil;as e de mulheres do povo
+escutavam em pleno ar e com religiosa atten&ccedil;&atilde;o, a
+leitura que uma senhora joven e elegante lhes fazia
+das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A
+senhora estava montada, n&atilde;o como romantica amazona,
+em hacan&ecirc;a fogosa, mas modesta e simplesmente
+n'um digno exemplar d'aquelles pacificos
+animaes, a que Sterne n&atilde;o duvidou dedicar algumas
+palavras de sympathia nas suas paginas mais humoristicas,
+e que Pelletan incluiu entre os collaboradores
+da humanidade na grande obra do progresso,
+ou, deixando a periphrase, em uma possante e bem
+apparelhada jumenta.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade
+&aacute;s ancas e ao pesco&ccedil;o do immovel quadrupede.
+<br />
+
+<br />
+
+A leitora segurava no collo a mais pequena e a
+mais nua das crean&ccedil;as do rancho.
+<br />
+
+<br />
+
+Lia com voz agradavel e sonora; e, gra&ccedil;as &aacute;
+serenidade da manh&atilde; e ao socego do logar, ouviam-se
+distinctas, &aacute; distancia que ficava Henrique, as
+palavras, que ella pronunciava lentamente, como
+para as deixar penetrar bem na intelligencia do auditorio.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente,
+por a mesma que, momentos antes, vira na casa do
+correio.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas as suas atten&ccedil;&otilde;es voltaram-se com
+especialidade
+para a leitora.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa
+<span class="pagenum">[54]</span>
+figura de mulher, suave, elegante, distincta, um
+d'esses typos que insensivelmente desenha uma
+m&atilde;o de artista, quando movida ao grado da livre
+phantasia; a c&ocirc;r, essa c&ocirc;r inimitavel, onde
+nunca
+dominam as rosas, mas que n&atilde;o &eacute; bem o desmaiado
+das pallidas, encarna&ccedil;&atilde;o surprehendente, a que
+ainda
+n&atilde;o ouvi dar nome apropriado.
+<br />
+
+<br />
+
+Os cabellos em fartas tran&ccedil;as, em ondas naturaes,
+n&atilde;o de todo pretos, por&eacute;m, mais distinctos
+ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser alta,
+o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada,
+emfim, com a magestade, com a gra&ccedil;a que deviam
+ter estas crea&ccedil;&otilde;es da poesia popular, se
+f&ocirc;sse
+certo tomarem a f&oacute;rma de virgens, para matar de
+amores.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se concebe atten&ccedil;&atilde;o t&atilde;o
+distrahida, que esta
+mulher n&atilde;o fixasse; olhos, que se n&atilde;o voltassem
+para seguil-a, depois de a v&ecirc;r passar;
+cora&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o se perturbasse na sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Trajava um singelo vestido de xadrez branco e
+preto, adornado no collo e punhos apenas por collarinhos
+lisos. Desca&iacute;a-lhe natural e elegantemente
+dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe
+occultar as bellezas da airosa conforma&ccedil;&atilde;o; o
+chap&eacute;o
+de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabe&ccedil;a,
+espalhava pelo rosto as meias tintas, t&atilde;o favoraveis
+&aacute;s bellezas delicadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique comprehendeu logo a significa&ccedil;&atilde;o da
+scena, a que, t&atilde;o inesperadamente, viera assistir.
+Aquella mulher par&aacute;ra alli, para ler a essa gente
+pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido
+do correio.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem era caridade a ac&ccedil;&atilde;o, muito mais cumprida
+com o bom modo e com o carinho com que
+ella o fazia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique applicou a atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;...&laquo;E por isso, minha m&atilde;e&raquo;&#8213;lia
+ella&#8213;&laquo;se
+Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa
+terra e darei remedio a tudo. E n&atilde;o me fale
+vossemec&ecirc;
+<span class="pagenum">[55]</span>
+mais em vender o cord&atilde;o e as arrecadas.
+Diga ao senhorio que tenha paciencia, que eu satisfarei
+a tudo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui a leitora parou para perguntar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que historia &eacute; esta das arrecadas, Anna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, senhora, que o aluguer estava vencido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o podia falar-me antes de se lembrar do
+seu filho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, senhora, bem basta o que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas!
+Elle que precisa de toda a coragem!
+<br />
+
+<br />
+
+E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas
+e das expans&otilde;es de alegria da ouvinte, mais interessada
+n'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Acabando, deu um beijo na crean&ccedil;a, que tinha ao
+collo, e estendeu a m&atilde;o a receber a carta, que outra
+mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de
+consolar. N&atilde;o se falava alli sen&atilde;o de
+contratempos,
+de revezes e desesperan&ccedil;as. Mais do que uma vez
+teve de suspender a leitura, para mitigar a d&ocirc;r e
+enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na
+pobre mulher, a quem era dirigida.
+<br />
+
+<br />
+
+Ap&oacute;s esta, ainda outra e outra; uma do marido
+para mulher; outra de filho para m&atilde;e; outra de
+noivo para noiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia
+nas inflex&otilde;es da voz e no olhar, que ella decifrou
+os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado,
+pintado e recortado, vinham expressos os
+mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda dictou
+uma paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A noiva c&oacute;rava, sorria; mas, no meio da sua modesta
+turba&ccedil;&atilde;o, era evidente que estava exultando
+de jubilo.
+<br />
+
+<br />
+
+Com esta terminou a leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o resistiu a esbo&ccedil;ar rapidamente o
+gracioso grupo na carteira, que trazia comsigo. N&atilde;o
+p&ocirc;de, por&eacute;m, deixar de dar-lhe um sabor de idade
+m&eacute;dia, substituindo a jumenta por um palafrem de
+<span class="pagenum">[56]</span>
+pura ra&ccedil;a e dando &aacute; donzella, pelos trajes com
+que
+a desenhou, os ares de uma castell&atilde; rodeada dos
+seus vassallos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o
+de um figurino de conven&ccedil;&atilde;o. Perd&ocirc;e-lhe
+a arte,
+que julgou servir.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de distribuir mais alguns beijos pelas
+crean&ccedil;as, a gentil rapariga passou a que tinha no
+collo para os bra&ccedil;os da m&atilde;e e partiu rodeada de
+agradecimentos e ben&ccedil;&atilde;os, perdendo-a Henrique de
+vista, por entre as arvores do caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza
+do apurado g&ocirc;sto, em que n&atilde;o podiam enganar-se
+olhos conhecedores, como os d'elle, aquella
+preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para
+chegar &aacute; qual era necessario fazer uma comprida e
+laboriosa jornada! D'onde viera ella e como? que
+nuvem a trouxera? que vira&ccedil;&atilde;o a
+transport&aacute;ra?
+<br />
+
+<br />
+
+Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando
+se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar
+alguem do grupo, j&aacute; n&atilde;o ia a tempo; tinham
+dispersado.
+<br />
+
+<br />
+
+Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi
+sentar-se no logar, em que lhe apparecera a vis&atilde;o e
+ahi se demorou algum tempo; mas lembrando-se de
+que eram quasi onze horas, levantou-se para n&atilde;o faltar
+&aacute;s promessas feitas &aacute; tia Doroth&eacute;a, e
+que eram:
+a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar
+em casa pouco depois do meio dia, para n&atilde;o transtornar
+a regularidade dos habitos domesticos em
+Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Pediu pois a uma creancinha que passava, que o
+guiasse &aacute; quinta do Mosteiro, e ahi chegou depois
+de um quarto de hora de caminho.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+<h4>IV
+</h4>
+
+<br />
+
+A casa do Mosteiro, com a quinta annexa &aacute; casa,
+como o dava a entender o nome, pelo qual o povo
+a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem
+monastica.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um d'estes conventos campestres, que hoje
+ou se encontram em ruinas ou transformados em
+solar de alguma <em>notabilidade</em>
+provinciana. Ao de que
+falamos coubera o ultimo destino.
+<br />
+
+<br />
+
+Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na
+lista dos bens nacionaes, f&ocirc;ra, por insignificante
+pre&ccedil;o, vendido a um modesto proprietario das
+immedia&ccedil;&otilde;es,
+mais arrojado do que os vizinhos, ou
+mais convencido da estabilidade da nova ordem de
+coisas politicas, que se inaugurava no paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+E em t&atilde;o auspiciosa hora lhe acudira aquella
+inspira&ccedil;&atilde;o,
+que, em pouco tempo, lhe restituia a quinta
+o capital empregado, regalando-o todos os annos
+com n&atilde;o calculados juros, e elle, sem intermittencias,
+cresceu d'ahi por deante em prosperidade a
+ponto de deixar, ao morrer, a familia no numero
+das mais abastadas d'aquella terra.
+<br />
+
+<br />
+
+A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos
+e reformas effectuados n'ella, offerecia,
+ainda claros, muitos vestigios de seus primitivos
+usos. N&atilde;o era raro encontrar-se, aqui e alli, em
+p&eacute;
+uma cruz de pedra marcando antigos logares de
+devo&ccedil;&atilde;o; no alto de algumas portas conservava-se
+visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de
+inscrip&ccedil;&otilde;es latinas; nas paredes da arcaria, em
+que
+se apoiava a face posterior do edificio, mantinha-se
+ainda um azulejo contemporaneo dos frades; finalmente
+resistira a successivas reforma&ccedil;&otilde;es certo
+colorido
+<span class="pagenum">[58]</span>
+monastico, que s&oacute; ap&oacute;s muitos annos se
+dissiparia
+de todo.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrava-se para a propriedade por uma larga,
+comprida e magestosa &aacute;lea de sobreiros seculares,
+alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, por
+pouco trilhada, crescia esp&ecirc;ssa e verdejante. Abria-se,
+ao fim d'esta rua, o alto port&atilde;o do pateo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, deixado s&oacute; pelo guia ao chegar alli, foi
+caminhando vagarosamente por esta avenida, dominado
+por a intima commo&ccedil;&atilde;o e sentimento quasi de
+temor, que se apodera de n&oacute;s, em todos os logares
+a que se ligam memorias do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+A phantasia estava-o transportando a tempos, a
+que n&atilde;o chegavam j&aacute; as suas
+recorda&ccedil;&otilde;es, &aacute;s &eacute;pocas,
+em que, por entre estas arvores gigantes, se via
+passar, como um phantasma, o habito escuro do
+monge, cuja sombra o sol, ao declinar no horizonte,
+tantas vezes projectou, esguia e estirada, ao longo
+d'aquella mesma avenida.
+<br />
+
+<br />
+
+Impressionado por esta ordem de pensamentos,
+chegou Henrique ao port&atilde;o, transpondo o qual se
+introduziu no pateo. Era um largo terreiro de perfeita
+f&oacute;rma rectangular, limitado ao fundo pela fachada
+da casa, e lateralmente por elevadas paredes,
+armadas &aacute; maneira de pannos de Arr&aacute;s, com
+tape&ccedil;arias
+de vigorosas heras. A cada uma das paredes
+encostavam-se dois tanques de vasta capacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as
+feias e enormes carrancas de todos estes quatro
+tanques grossos jorros de fresca e purissima agua;
+por&eacute;m as medidas economicas do ultimo proprietario
+e as exigencias dos seus projectos agricolas haviam
+derivado para outros fins, parte d'esta abundante
+veia, de maneira que tres d'aquellas bacias
+estavam agora completamente a s&ecirc;cco.
+<br />
+
+<br />
+
+Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias,
+os funchos odoriferos, havia muito que tinham
+invadido a b&ocirc;ca dos encanamentos inuteis onde
+encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas
+<span class="pagenum">[59]</span>
+e myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias
+de caracoes.
+<br />
+
+<br />
+
+A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel
+pelo lado architectonico. A arte n&atilde;o tivera fadigas,
+ao concebel-a; o cinzel pouco se embot&aacute;ra a executal-a;
+nem uma columna singela, nem um flor&atilde;o,
+nem um tympano lhe davam a menos pretenciosa
+apparencia monumental. Imagine-se uma vasta casaria
+de um andar al&eacute;m do terreo, com muitas janellas
+de peitoril e uma s&oacute; varanda de pedra sobranceira
+&aacute; porta principal; acima do telhado, uma
+especie de agua furtada, de construc&ccedil;&atilde;o
+evidentemente
+posterior e aconselhada aos proprietarios
+modernos por conveniencias de accommoda&ccedil;&atilde;o
+domestica;
+e ter-se-ha concebido o edificio.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique se occupava a examinar estas
+particularidades, um velhito, que, sentado em
+um banco de pedra, que havia &aacute; porta de casa, se
+estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro
+do recem-chegado, tossindo e arrastando os
+passos.
+<br />
+
+<br />
+
+Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia
+rustica, meia urbana, depois de o saudar com grave
+cortezia, que deixou a descoberto o
+<em>solideo</em> fradesco
+com que resguardava a fronte calva, perguntou se
+havia alguma coisa, em que o pudesse servir.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique,
+que disse procurar as senhoras, com nova cortezia
+lhe fez signal para que o acompanhasse, e ambos
+atravessaram o pateo em direc&ccedil;&atilde;o da casa.
+<br />
+
+<br />
+
+No portal o velho afastou-se de lado com toda a
+deferencia para deixar passar Henrique; em seguida
+abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, voltando-se,
+pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de
+annunciar. Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete
+de visita, cuja significa&ccedil;&atilde;o teve de explicar,
+porque o velho n&atilde;o a comprehendia bem.
+<br />
+
+<br />
+
+A final por&eacute;m retirou-se por outra porta, levando
+o bilhete.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+A sala, em que Henrique ficou esperando, era
+toda mobilada com pesadas cadeiras de couro lavrado
+e alto espaldar, mesas de p&eacute;s em espiral, e
+pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades,
+pertencentes provavelmente aos antigos proprietarios
+do mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento em que o velho servo, que era uma
+especie de feitor honorario da casa, abriu outra porta
+da sala, para ir annunciar &aacute; familia a visita de
+Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura
+com um tinir de lou&ccedil;as e de crystaes, as vozes e
+risos de crean&ccedil;as, que falavam ao mesmo tempo.
+Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio,
+e ap&oacute;s uma voz de mulher, de timbre fresco e
+agradavel, disse audivelmente e como em resposta
+&aacute;s palavras do criado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora as etiquetas com que esteve, Torquato!
+Mande entrar para aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+O feitor parece que resmoneou n&atilde;o sei o qu&ecirc;, a
+que ainda a mesma voz redarguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que n&atilde;o &eacute; bonito &eacute; fazel-o
+esperar. Ande, v&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Torquato&#8213;chamemos-lhe assim, visto que assim
+lhe chamaram&#8213;appareceu outra vez e fez signal
+a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique que presentiu ir achar-se na presen&ccedil;a
+de uma mulher nova e porventura bonita, correu,
+com instincto de perfeito homem de c&ocirc;rte, os dedos
+pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente
+o la&ccedil;o da gravata e entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+Era completo o contraste d'este aposento com o
+primeiro; transpondo aquella porta dissipava-se
+todo o perfume antigo, todo o caracter de vetustez,
+que at&eacute; alli reinava em tudo. Era moderno o estuque
+do tecto, modernissimo o papel que forrava as
+paredes, e a mobilia toda de um cunho de actualidade,
+visivel aos olhos menos pesquizadores. Como
+para tornar mais frizante o contraste, a presen&ccedil;a
+do velho feitor estava aqui substituida por a de
+<span class="pagenum">[61]</span>
+duas crean&ccedil;as, a mais velha das quaes mal passaria
+dos seis annos.
+<br />
+
+<br />
+
+O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como
+que uma cortina corrida sobre o passado. A
+porta, que elle transpuzera, a barreira que separava
+dois seculos.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentadas no t&ocirc;po de uma longa mesa de jantar,
+coberta de lou&ccedil;a fina ingleza, estavam as duas
+crean&ccedil;as que dissemos, com os seus babeiros brancos
+e tendo cada qual defronte de si um prato de
+odorifera s&ocirc;pa. Em p&eacute;, &aacute; cabeceira,
+presidia ao
+<em>lunch</em> infantil uma mulher, de quem
+Henrique s&oacute;
+p&ocirc;de notar vagamente os contornos geraes do corpo
+e n&atilde;o as particularidades das fei&ccedil;&otilde;es,
+porque,
+ficando voltada de costas &aacute; luz das janellas, velavam-lhe
+o rosto umas meias sombras, que n&atilde;o favoreciam
+o exame.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na aldeia a sala de recep&ccedil;&otilde;es &eacute;
+aquella em
+que a gente se acha, quando lhe annunciam uma
+visita. &Eacute; assim pelo menos que eu comprehendo o
+viver do campo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; assim que eu o aprecio, minha senhora&#8213;respondeu
+Henrique, approximando-se da mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as, interrompendo a refei&ccedil;&atilde;o,
+fitavam o
+recem-chegado com aquelles olhos espantados e
+penetrantes, com que ellas, promptamente, e quasi
+sempre com a certeza de um verdadeiro instincto,
+decidem para si das sympathias ou antipathias de
+que lhes &eacute; merecedor um estranho, a quem v&ecirc;em
+pela primeira vez.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher, que presidia ao banquete, n&atilde;o suspendeu
+com a entrada de Henrique a occupa&ccedil;&atilde;o domestica,
+na qual estava empenhada. Mostrava receber-lhe
+a visita com um perfeito &laquo;&aacute; vontade&raquo;,
+que nada
+tinha por&eacute;m de affectado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei se v. ex.<sup>a</sup> sabe...&#8213;ia
+dizendo Henrique,
+quando, ao chegar perto d'ella, parou subitamente
+em meio da phrase.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Na mulher, que estava deante de si, reconheceu
+a leitora da deveza, a interessante rapariga, que
+tanto o preoccup&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a
+mesma cabe&ccedil;a, agora melhor apreciada ainda, porque
+nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso
+modelo, e os cabellos penteados com tanta
+gra&ccedil;a como singeleza. Em vez do longo chale de
+casimira, trazia agora uma especie de jaqueta, curta
+e larga, apertada por alamares, de f&oacute;rma pouco
+mais ou menos similhante &aacute; que, na nomenclatura
+das modistas, nomenclatura quasi sempre absurda,
+e de mau g&ocirc;sto, teve depois a impropria e desastrada
+denomina&ccedil;&atilde;o de
+<em>zuavo</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+A surpreza de Henrique n&atilde;o passou despercebida
+a quem era causa d'ella e que lhe correspondeu
+com um gesto de curiosa interroga&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha senhora&#8213;disse Henrique, comprehendendo
+aquelle gesto&#8213;mas ignorava que vinha
+encontrar aqui uma pessoa, que j&aacute; me n&atilde;o era
+estranha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E sou eu essa pessoa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; v. ex.<sup>a</sup> effectivamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois j&aacute; nos vimos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;... quero dizer, eu j&aacute; vi v. ex.<sup>a</sup>
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que
+me n&atilde;o lembra de o ter visto nunca. Apesar d'isso
+sei que &eacute; o sr. Henrique de Souzellas,
+sobrinho
+d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Doroth&eacute;a;
+n&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.<sup>a</sup>
+n&atilde;o &eacute; antigo tambem; data de algumas horas
+apenas.
+<br />
+
+<br />
+
+A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu
+levemente as sobrancelhas bem desenhadas,
+fez um movimento de labios e deu &aacute; cabe&ccedil;a uma
+ligeira inclina&ccedil;&atilde;o sobre o hombro, d'onde
+resultou
+para aquella gentil physionomia a mais adoravel
+express&atilde;o de estranheza, que pode animar um semblante
+de mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+&#8213;Esta manh&atilde;&#8213;proseguiu Henrique, a quem os
+encantos d'aquelle gesto n&atilde;o tinham passado
+despercebidos&#8213;assisti
+a uma scena commovente. O
+logar era uma deveza; uma joven senhora... joven
+e... e com outras qualidades, al&eacute;m d'esta,
+para excitar atten&ccedil;&otilde;es, lia, em voz alta, as
+cartas
+que algumas pobres mulheres do povo acabavam de
+receber pelo correio...
+<br />
+
+<br />
+
+Ella n&atilde;o o deixou continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! entendo agora. Viu-me? J&aacute; andava por
+f&oacute;ra? N&atilde;o o suppunha assim madrugador. Mas onde
+estava t&atilde;o escondido? Vejo que &eacute; indiscreto...
+N&atilde;o admira, habitos da cidade. &Eacute; verdade,
+&eacute;. Aquella
+gente encontrou-me no caminho quando eu voltava
+de uma visita a uns parentes pobres, e n&atilde;o me deixou
+sem que eu lhe abrandasse a ancia de cora&ccedil;&atilde;o
+que a affligia. Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me,
+j&aacute; pensou no supplicio que deve ser olhar
+a gente para uma folha de papel escripta, na qual
+sabemos que se fala de uma pessoa querida, e n&atilde;o
+ter poder para decifrar aquelle enygma? Que martyrio!
+Eu por mim, confesso que me falta o animo
+para recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria
+para negar uma gotta d'agua ao desgra&ccedil;ado que
+visse a morrer de s&ecirc;de. A crueldade seria quasi
+igual. N&atilde;o lhe parece?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique formulou um galanteio, que ella por&eacute;m
+n&atilde;o ouviu, entretida j&aacute; a escutar o que uma das
+crean&ccedil;as lhe dizia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena, olha a Annica, que est&aacute; a deitar a s&ocirc;pa
+d'ella no meu prato.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro
+a deitou no meu. N&atilde;o tem vergonha de mentir!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o&#8213;disse Magdalena, que a este nome
+correspondia a contrac&ccedil;&atilde;o familiar, de que se
+serviam
+as crean&ccedil;as.&#8213;Olhem agora se teem juizo.
+Vejam se querem que eu v&aacute; dizer &aacute; mam&atilde;
+que venha
+para aqui.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+&#8213;N&atilde;o &eacute; ella a m&atilde;e, visto isso&#8213;pensou
+Henrique,
+como quem modificava uma opini&atilde;o que concebera
+antes e folgava com a
+modifica&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ser&aacute;
+irm&atilde;? Talvez... Ou mestra... &Eacute; mais provavel
+que seja mestra. Esta mulher foi de certo educada
+na cidade. Tem uns ares distinctos...
+<br />
+
+<br />
+
+E elevando a voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;v. ex.<sup>a</sup> est&aacute;-me recordando uma
+scena de um
+precioso livro, que nunca me can&ccedil;o de ler.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Werther.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhe&ccedil;o... quero dizer, li-o, por acaso, ha
+pouco tempo. Compara-me a Carlota? &Eacute; por estar
+a distribuir as ra&ccedil;&otilde;es d'estas
+crean&ccedil;as? Que mulher
+ha que n&atilde;o seja Carlota, n'essa parte? Em todas as
+casas se passa uma scena assim. Bem se v&ecirc; que
+n&atilde;o tem familia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por lhe fazer tanta sensa&ccedil;&atilde;o o espectaculo
+d'esta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo&#8213;respondeu Henrique com melancolia.&#8213;Deve
+ser essa uma das causas; mas n&atilde;o a
+unica&#8213;accrescentou galanteadoramente.
+<br />
+
+<br />
+
+E, de si para si, estava encantado de saber que
+a sua interlocutora tinha lido Werther.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que lhe parece esta nossa aldeia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que
+me foi desagradavel a impress&atilde;o recebida. Nem
+admira; a noite, o frio, a chuva, o cansa&ccedil;o. Esta
+manh&atilde;, por&eacute;m, a
+transforma&ccedil;&atilde;o foi completa. Estou
+encantado, fascinado! N'uma palavra, minha senhora,
+eu, cidad&atilde;o em corpo e alma, reconciliei-me em
+poucas horas com a vida do campo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desconfie da mudan&ccedil;a rapida. Habitos radicados,
+qualidades ou defeitos de educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+se
+<span class="pagenum">[65]</span>
+perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirar&aacute;
+por Lisboa outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez n&atilde;o. Hoje estou at&eacute; em acreditar que
+tinha raz&atilde;o o doutor, que me prometteu a cura das
+minhas doen&ccedil;as, se me costumasse dev&eacute;ras a estes
+habitos campestres.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Hoje j&aacute; almocei &aacute;s sete
+horas,
+j&aacute; andei mais do que uma semana inteira ando em
+Lisboa. E inda tenho por v&ecirc;r as raridades da terra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As raridades?! E que raridades s&atilde;o essas que
+inda tem para v&ecirc;r? A nossa pobre aldeia n&atilde;o lhe
+merece essa ironia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o acha t&atilde;o pouco curiosa esta terra? Do
+quasi nada que d'ella observei esta manh&atilde;, parece-me
+at&eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, se fala da natureza, &eacute; outra coisa. A cada
+passo se encontra um ponto de vista, que nos obriga
+a uma exclama&ccedil;&atilde;o. Mas ha por ahi certos
+cicerones,
+que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas
+da arte. Pe&ccedil;a a Deus que o livre d'esse flagello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;v. ex.<sup>a</sup> assusta-me. Embora; se lhes cair nas
+m&atilde;os, farei por achar curioso o que elles acharem.
+Vae ser esse o meu systema de cura. Interessar-me
+por tudo o que a um homem da aldeia interessa.
+Foi o regimen que me prescreveu o medico, quando
+me receitou o campo, a titulo de emolliente; se o
+seguir, salvo-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o diga a rir. Se quizer prender-se &aacute;
+aldeia,
+abjurar os attractivos da cidade, deve rustificar-se
+em tudo; principiar por cultivar o interesse
+por as quest&otilde;esinhas da terra; deve, por exemplo,
+declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia
+ou pela junta de parochia contra o abbade; ralhar
+do regedor na quest&atilde;o com os taberneiros ou defendel-o.
+Emquanto n&atilde;o chegar a isso, desconfie da
+sua acclima&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span>
+&#8213;Farei por conseguil-o o mais depressa possivel.
+Outra coisa necessaria &eacute; deixar-me convencer
+ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito das
+notabilidades da terra, o que &eacute; de rigor; estar em
+perpetua admira&ccedil;&atilde;o deante de uns certos nomes
+famosos
+que ha sempre em todas as terras pequenas,
+e que nos atiram &aacute; cabe&ccedil;a a cada momento.
+Por exemplo, aqui j&aacute; sei de um, com que encherei
+a b&ocirc;ca a proposito de tudo; &eacute; o de uma celebre
+morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ou&ccedil;o
+falar, desde que puz os p&eacute;s, ou por mim a alimaria
+que me trouxe, n'este productivo torr&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo
+isto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o com que, tem ouvido falar muito n'essa
+morgadinha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas n&atilde;o faz ideia; de uma maneira desesperadora.
+N&atilde;o ha pinhal, quinta, azenha, cho&ccedil;a
+ou lameiro que n&atilde;o perten&ccedil;a a essa entidade, para
+mim desconhecida. Este nome anda-me j&aacute; nos ouvidos,
+como um estribilho de cantiga popular; na
+estrada, nos campos, em casa de minha tia, na loja
+do correio, em toda a parte o ou&ccedil;o pronunciar. Parece
+que voga nos ares.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer
+a pessoa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! tem-me impacientado a ponto de nem
+perguntar por ella. E demais parece-me que a estou
+a v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora diga. Ent&atilde;o como a imagina? Annica, n&atilde;o
+tens ahi um guardanapo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e
+est&aacute; dicto tudo; uma senhora nutrida, a rever saude
+por todos os p&oacute;ros, encarnada como uma rom&atilde;,
+sobre quem os vestidos &aacute; moda assentam como
+pendurados de um cabide, as m&atilde;os cheias de anneis,
+meias luvas de retroz, um chap&eacute;o com uma
+cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabe&ccedil;a...
+v. ex.<sup>a</sup> ri-se? Acertei?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+&#8213;Parece-me que sim; mas julgue-o por si j&aacute;
+que tem &aacute; vista o original.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vossa Excellencia!...
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do
+mundo, esteve por muito tempo sem saber como
+sair da situa&ccedil;&atilde;o em que se puzera.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos
+riam, por contagio, sem saberem de qu&ecirc;. Tudo augmentava
+pois a confus&atilde;o de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora confesse&#8213;insistia cruelmente Magdalena&#8213;confesse
+que o est&aacute; lisonjeando a exactid&atilde;o das
+suas conjecturas.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique teve emfim uma lembran&ccedil;a. Tirou do
+bolso a carteira, em que, horas antes, esbo&ccedil;&aacute;ra
+rapidamente
+a figura esbelta da morgadinha, rodeada
+das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja v. ex.<sup>a</sup> se esse esbo&ccedil;o, apesar
+da sua
+imperfei&ccedil;&atilde;o,
+est&aacute; de accordo com a estupida
+concep&ccedil;&atilde;o,
+que eu form&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena lan&ccedil;ou a vista para a carteira e sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! desenha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias.
+Os resultados s&atilde;o lastimosos, como estes.
+Perd&ocirc;e-me o original, que julguei possivel copiar, o
+desacato, mas...
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo
+advertil-o de uma coisa, sr. Henrique de Souzellas.
+N&atilde;o ha nada t&atilde;o mal empregado como uma fineza
+no campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez
+o achasse pouco delicado... ou pelo menos
+pouco amavel, se me n&atilde;o dirigisse d'essas phrases
+conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso l&aacute;. Aqui acho-as
+affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da
+scena. Ha tanta semceremonia no campo! Aqui todos
+<span class="pagenum">[68]</span>
+nos tratamos como parentes: ha de v&ecirc;r. N&atilde;o
+repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem
+nem sequer tirar os babeiros a estas crean&ccedil;as?
+Olhe l&aacute; que fizesse o mesmo em Lisboa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v. ex.<sup>a</sup> j&aacute;
+l&aacute; esteve?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu nasci l&aacute; e l&aacute; me eduquei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! bem se v&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah? Ahi est&aacute; um <em>ah</em>, que
+eu desejaria muito
+que me explicasse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me ser&aacute; difficil fazel-o. &Eacute; que
+antes j&aacute; de
+ouvir falar v. ex.<sup>a</sup>, s&oacute; ao
+v&ecirc;r certa
+distinc&ccedil;&atilde;o, certa
+elegancia de maneiras, conjecturei...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta. &Eacute; um <em>ah</em>
+portanto, que tem umas poucas
+de m&aacute;s qualidades.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&eacute;ras? Uma interjei&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o innocente!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo contrario, &eacute; a voz mais perfida e inconstante
+da nossa lingua; tudo exprime, a hypocrita.
+O seu <em>ah</em> &eacute; vaidoso,
+adulador e iniquo pelo menos.
+Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia
+que ainda se abrigue no seu cora&ccedil;&atilde;o lisbonense; a
+adula&ccedil;&atilde;o competia-me castigal-a, mas
+perd&ocirc;o-lh'a
+porque quero ainda supp&ocirc;r que &eacute; um symptoma da
+doen&ccedil;a das cidades, a meu v&ecirc;r, a principal
+doen&ccedil;a,
+que o obrigou a procurar a aldeia; da iniquidade,
+da injusti&ccedil;a, que faz &aacute;
+educa&ccedil;&atilde;o que se pode dar na
+provincia, ha de convencer-se dentro em pouco,
+quando eu lhe apresentar minha prima Christina,
+uma rapariga, que tem vivido aqui sempre e que
+protesta contra essa sua opini&atilde;o; possue tudo quanto
+pode dar de bom a educa&ccedil;&atilde;o das cidades, e, o que
+mais vale, aquillo que l&aacute; &eacute; t&atilde;o facil
+perder-se depressa,
+uma candura adoravel. &Eacute; a irm&atilde; mais velha
+d'estas crean&ccedil;as&#8213;accrescentou, pousando a
+m&atilde;o na cabe&ccedil;a dos pequenos, que comiam e
+conversavam
+um com o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas v. ex.<sup>a</sup>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o. Outra coisa. J&aacute; agora que entrei no
+caminho das admoesta&ccedil;&otilde;es, permitta-me mais uma,
+antes de perder o ar grave, que hei de por for&ccedil;a
+<span class="pagenum">[69]</span>
+ter. N&atilde;o me s&ocirc;a bem o impertinente tratamento de
+excellencia, que me d&aacute;. Essa excellencia est&aacute; a
+pedir-me
+uma senhoria, pelo menos, e, confesso-lhe ingenuamente
+que me custaria a voltar na lingua uma
+palavra t&atilde;o comprida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como quer ent&atilde;o que a trate?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco n&atilde;o me
+comparou &aacute; Carlota de Goethe? Deixe-me pois adoptar
+uma lembran&ccedil;a d'ella. Est&aacute; certo de que tratou
+o Werther por primo, a primeira vez que lhe
+falou? &Eacute; um tratamento como outro qualquer; e
+entre n&oacute;s mais justificado, porque sendo o sr. Henrique
+sobrinho direito de D. Doroth&eacute;a, e teimando
+minha tia Victoria, a m&atilde;e d'estes pequenos e de
+Christina, que D. Doroth&eacute;a &eacute; ainda uma especie de
+nossa tia arredada, e como tal a tratamos, n&oacute;s a final
+de contas vimos a ser uma especie de primos
+tambem. Pelo menos assim o sustentou e decidiu
+hontem minha tia Victoria; e ha de v&ecirc;r como por
+primo o tratar&aacute;! &Eacute; um tratamento menos
+inc&oacute;mmodo;
+eu chamar-lhe-hei primo Henrique; chamar-me-ha,
+se quizer, prima Magdalena, e desterraremos
+para sempre a antipathica senhoria e excellencia;
+concorda?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos
+o principio falso, admittido pela fidalguia em
+Portugal, de que &laquo;os primos dos nossos primos,
+nossos primos s&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fica pois ajustado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fica ajustado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem. Mas que ia dizer ha pouco?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu j&aacute; sei... Ah!... Perguntava se tinha
+estado muito tempo em Lisboa e o que a obrigou
+a vir viver para aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; nem mais nem menos do que pedir-me
+a historia da minha vida. Seja; &eacute; um sacrificio inevitavel
+a quem se v&ecirc; pela primeira vez. Deixe-me
+primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[70]</span>
+E, depois de partir a cada crean&ccedil;a uma fatia de
+queijo, a morgadinha principiou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A historia &eacute; curta e sem peripecias, tranquillise-se.
+Eu sou filha de Manuel Bernardo de Mesquita
+e...
+<br />
+
+<br />
+
+Este nome era o de um dos principaes vultos
+politicos da &eacute;poca, e que ent&atilde;o militava no campo
+opposicionista, sendo indigitado para ministro na
+primeira reforma ministerial, homem influente, de
+grande capacidade politica, tendo sempre advogado
+no parlamento as ideias mais liberaes, e militado no
+partido progressista.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, que conhecia todas as
+personagens de importancia no paiz, fitou Magdalena
+com olhar estupefacto: t&atilde;o longe estava de encontrar
+alli a filha de um futuro ministro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha do conselheiro Manuel Bernardo! v. ex.<sup>a</sup>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Excellencia! Esquece-se da nossa conven&ccedil;&atilde;o?
+Repare! &Eacute; verdade. N&atilde;o sabia que meu pae era
+d'aqui? Eu e meu irm&atilde;o Angelo, que estuda actualmente
+n'um collegio em Lisboa, somos os unicos
+filhos de meu pae. Nasci, como disse, em Lisboa,
+mas as continuas enfermidades de minha m&atilde;e fizeram-nos
+vir para aqui viver na companhia d'ella;
+aqui mesmo morreu, e aqui est&aacute; sepultada. O Angelo
+nasceu j&aacute; n'esta casa. A morte de minha m&atilde;e
+deixou-me orph&atilde; aos doze annos, e incompleta a
+educa&ccedil;&atilde;o que ella principi&aacute;ra a dar-me
+e para a
+qual, se vivesse, ella s&oacute; bastaria. Fui pois obrigada
+a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha
+educa&ccedil;&atilde;o. Mas, ao chegar &aacute; idade dos
+quinze
+annos, receiando meu pae que os ares da cidade
+desenvolvessem em mim germens de molestia, que
+porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez
+para aqui, onde sempre passava alguns mezes no
+anno, e para onde me chamavam tambem habitos
+adquiridos em crean&ccedil;a. Eu sou muito alde&atilde;. Para
+aqui vim pois. A morte de meu tio, passado pouco
+tempo, impressionou profundamente a minha tia
+<span class="pagenum">[71]</span>
+Victoria, que ficou desde ent&atilde;o um pouco... um
+pouco... com pouca paciencia para olhar por as
+coisas domesticas. Isto creou-me novos deveres;
+havia aqui muitas crean&ccedil;as, estas duas, outras que
+est&atilde;o l&aacute; dentro, e Christina, que era
+ent&atilde;o crean&ccedil;a
+tambem; occupei-me a ajudar minha tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E t&atilde;o admiravelmente, que a mais carinhosa
+m&atilde;e o n&atilde;o faria melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-me bem com as crean&ccedil;as, dou. E a meu
+pae devo, em parte, o ter aprendido cedo esta sciencia.
+Porque &eacute; uma sciencia tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o como procedeu o conselheiro para a ensinar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas
+umas ideias muito singulares. Excellentes as acho
+eu. Oh! n&atilde;o imagina que boa e excellente alma &eacute; a
+de meu pae! Era eu uma
+crean&ccedil;a, tinha onze
+annos, talvez, quando elle, um dia, vindo de Lisboa
+passar aqui algum tempo comnosco, me trouxe
+uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de
+Nuremberg. Nos primeiros dias n&atilde;o me fartava de
+a v&ecirc;r, de a beijar, at&eacute; commigo a deitava. Oito
+dias
+depois succedia o que era de esperar, j&aacute; nem d'ella
+sabia. Meu pae notou-o.&#8213;Ent&atilde;o, Lena&#8213;aqui todos
+me chamam assim&#8213;j&aacute; n&atilde;o gostas da tua
+boneca?&#8213;Disse-lhe
+eu: Gosto, mas...&#8213;Bem sei, j&aacute;
+fizeste tudo o que tinhas a fazer por ella, e como,
+pela sua parte ella nada faz por ti, enfastias-te, can&ccedil;as-te
+de conceber, a cada momento, brinquedos
+novos. Tens raz&atilde;o; onze annos j&aacute; n&atilde;o
+&eacute; idade em
+que o interesse se sustente com t&atilde;o pouco, &eacute;
+necessario
+mais. Ora dize-me, Lena,&#8213;continuou elle&#8213;se
+eu te mandasse vir uma boneca que movesse
+os bra&ccedil;os e os olhos, que te sorrisse, que chorasse
+tambem, que te beijasse at&eacute;...&#8213;Pois ha bonecas
+assim?&#8213;perguntei eu, admirada.&#8213;E desejaval-a?&#8213;Oh!
+se a houvesse!...&#8213;Trago-t'a &aacute;manh&atilde;.
+N&atilde;o
+dormi aquella noite a pensar na boneca. No dia seguinte
+apresentou-me meu pae uma crean&ccedil;a de um
+<span class="pagenum">[72]</span>
+anno, orph&atilde; de uma pobre familia, que uma epidemia
+extinguira, e disse-me:&#8213;Ahi tens a boneca
+que te prometti, Lena; vou confial-a aos teus onze
+annos. Veremos se tens juizo para brincares com
+ella. &Eacute; assim que eu quero que aprendas os deveres
+de m&atilde;e, que &eacute; a verdadeira sciencia apropriada
+a mulheres. E o que &eacute; certo &eacute; que eu, dissipado o
+desgosto dos primeiros momentos, porque o tive,
+confesso, costumei-me a querer &aacute;quella pobre
+crean&ccedil;a,
+fui avara nas suas caricias, troquei por ella todos
+os meus brinquedos, e senti-lhe do cora&ccedil;&atilde;o a
+morte, quando, um anno depois, ella me expirou
+nos bra&ccedil;os. Quando fui para Lisboa, j&aacute; ia educada
+para amar crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena cont&aacute;ra tudo isto naturalmente, sem
+a menor affecta&ccedil;&atilde;o, sem deixar at&eacute; de
+attender aos
+primos, o que augmentava o interesse com que a
+escutava Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E assim fica sabendo quem &eacute; a morgadinha dos
+Cannaviaes&#8213;concluiu ella, desatando o babeiro das
+crean&ccedil;as, que tinham terminado o
+<em>lunch</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular,
+prima Magdalena?&#8213;perguntou Henrique, tomando
+ao collo uma das crean&ccedil;as, que a morgadinha
+pousou no ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu sou realmente a morgadinha dos
+Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na
+quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
+perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito
+caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes.
+Tomou-me ella affei&ccedil;&atilde;o, e, sempre que passeiasse,
+me havia de levar comsigo; d'ahi come&ccedil;aram
+a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando
+ella morreu deixou-me tudo quanto possuia;
+n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de
+que sou proprietaria ainda. Foi uma como
+confi
+&#8213;&Eacute; que eu sou realmente a morgadinha dos
+Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na
+quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
+perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito
+caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes.
+Tomou-me ella affei&ccedil;&atilde;o, e, sempre que passeiasse,
+me havia de levar comsigo; d'ahi come&ccedil;aram
+a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando
+ella morreu deixou-me tudo quanto possuia;
+n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de
+que sou proprietaria ainda. Foi uma como
+confirma&ccedil;&atilde;o
+do titulo, que j&aacute; desde crean&ccedil;a me tinham
+dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo
+na verdade pouco elegante e que t&atilde;o mau conceito
+<span class="pagenum">[73]</span>
+fez conceber ao primo Henrique da possuidora
+d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei
+a pessoa a quem elle pertence, parece-me outro.
+Acho-o bonito, gracioso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos. Confesse que o titulo n&atilde;o &eacute;
+dos mais romanticos e que, de boa vontade, escreveria
+outro nome debaixo do desenho de phantasia
+que ahi fez, da mesma maneira que deu &aacute; humilde
+e fiel jumenta, que eu montava ha pouco, a
+conforma&ccedil;&atilde;o
+e orelhas elegantes de um palafrem, e quasi
+me transformou em uma amazona ingleza.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na impossibilidade de reproduzir as gra&ccedil;as
+naturaes, soccorri-me ao expediente das bellezas de
+conven&ccedil;&atilde;o. Confesso o meu deploravel erro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que n&atilde;o estamos em Lisboa, primo Henrique.
+Repare para essas arvores e refreie o sestro
+galanteador, com que est&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quem &eacute;! N&atilde;o leve o rigor a tal extremo.
+T&atilde;o injusta &eacute; comsigo, que se recuse a acceitar,
+como naturaes e sinceras, as phrases que a sua
+presen&ccedil;a inspira?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa
+crean&ccedil;a, que tem no collo, o est&aacute; encarando com
+os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim
+aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique beijou as faces da crean&ccedil;a, movimento
+em que n&atilde;o ia uma inten&ccedil;&atilde;o menos
+lisonjeira do
+que nas phrases que dissera, porque elle percebia
+que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos
+primos.
+<br />
+
+<br />
+
+Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e
+entrou, saltando, outra crean&ccedil;a mais crescida, mas
+ainda de vestidos curtos, trazendo na m&atilde;o uma folha
+de papel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena&#8213;dizia ella em alta voz.&#8213;Olha; queres
+v&ecirc;r o que o sr. Augusto s&oacute; me emendou hoje no
+thema francez?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza
+para Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o sr. Henrique de Souzellas&#8213;disse Magdalena.&#8213;O
+hospede da tia Doroth&eacute;a. Esta &eacute; Marianna,
+outra de minhas primas&#8213;accrescentou, voltando-se
+para Henrique.&#8213;J&aacute; v&ecirc; que n&atilde;o faltam
+crean&ccedil;as
+n'esta casa; e ainda ha mais. &Eacute; o que lhe d&aacute; o
+ar alegre que tem.
+<br />
+
+<br />
+
+Marianna cumprimentou Henrique e n&atilde;o se constrangeu
+por mais tempo; mostrando &aacute; prima a
+composi&ccedil;&atilde;o
+que o mestre lhe emend&aacute;ra, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&ecirc; que n&atilde;o tive muitos erros.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sorria, examinando o thema.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ia a fazer n&atilde;o sei que pergunta a Marianna,
+quando &aacute; mesma porta, por onde ella entr&aacute;ra,
+appareceu o mestre, de quem se falava.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, que assim se chamava o recem-chegado,
+era um rapaz de pouco mais de vinte annos de
+idade; de rosto pallido e physionomia intelligente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola
+de aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Trajava com simplicidade, por&eacute;m com asseio e
+g&ocirc;sto, e havia em toda a sua figura certo ar de
+distinc&ccedil;&atilde;o,
+que feria quem pela primeira vez o visse.
+<br />
+
+<br />
+
+N'um leve pendor de cabe&ccedil;a, no olhar penetrante
+e fixo, e nos labios, como habituados a fecharem-se
+&aacute; saida dos pensamentos intimos, lia-se o caracter
+pouco expansivo d'aquelle adolescente.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta
+deferencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como v&atilde;o os seus discipulos, sr. Augusto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Optimamente, minha senhora&#8213;respondeu o
+interrogado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Augusto&#8213;disse Magdalena, apresentando-o
+a Henrique&#8213;o primeiro mestre de meu irm&atilde;o
+Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esquece-se, minha senhora,&#8213;accrescentou
+Augusto&#8213;que de Angelo sou discipulo tambem, e
+mais discipulo do que fui mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+&#8213;Do que me esqueci, e, a falar a verdade, n&atilde;o
+devia, foi de que de Angelo &eacute; effectivamente mais
+do que mestre, &eacute; amigo; assim como de todos n&oacute;s.
+Este senhor&#8213;continuou ella, concluindo a
+apresenta&ccedil;&atilde;o&#8213;&eacute;
+o senhor Henrique de Souzellas, que se
+esperava em Alvapenha; &eacute; ainda nosso primo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teve carta de Angelo?&#8213;perguntou em seguida
+a morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o recebi ainda o correio de hoje.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem n&oacute;s; e &eacute; de estranhar que meu pae pelo
+menos n&atilde;o me escrevesse! Angelo n&atilde;o
+vir&aacute; passar
+a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce
+quando se v&ecirc; aqui. &Eacute; uma perfeita
+crean&ccedil;a
+ent&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique
+ainda n&atilde;o vira, entrou n'este momento na sala,
+trazendo um masso de cartas na m&atilde;o. Depois de
+cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou,
+disse para Augusto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mam&atilde; deu-me essas cartas para o sr. Augusto
+escolher d'ahi aquellas que eu pudesse ler.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu verei devagar&#8213;disse Augusto, guardando-as
+n'uma pasta que trazia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! j&aacute; temos o Eduardo a ler cartas!&#8213;disse
+a morgadinha, afagando o primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo que vejo&#8213;disse Henrique de Souzellas,
+vendo Augusto em disposi&ccedil;&otilde;es de partir&#8213;tem uma
+vida muito occupada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tanto que sou obrigado a pedir licen&ccedil;a para
+me retirar. Tenho de ir esta tarde a casa do Seabra...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?&#8213;perguntou
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda, sim, minha senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como v&atilde;o essas mulatinhas?
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto
+que n&atilde;o devia lisonjear a vaidade do sobredicto
+brazileiro, se tomasse a peito os dotes intellectuaes
+das referidas mulatinhas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+Passados segundos,
+Augusto retirou-se, apertando
+a m&atilde;o a Magdalena que familiarmente lh'a estendeu,
+e a Henrique, que a imitou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ia apostar que vae alli uma intelligencia&#8213;disse
+Henrique ao v&ecirc;l-o sair&#8213;algum d'esses grandes
+espiritos, que vivem e morrem ignorados e
+improductivos, porque os n&atilde;o aquece o sol do favor
+publico, nem os bafeja a aura da moda caprichosa.
+&Eacute; terra de maravilhas esta, ao que estou
+vendo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um rapaz intelligente, &eacute;&#8213;disse a
+morgadinha&#8213;e
+uma alma generosa. Desde tenra idade
+costumou-se a trabalhar. N&atilde;o tem familia. O pae
+foi um pobre e honrado advogado de um logar perto
+d'aqui, que morreu quasi na miseria, deixando-o
+por educar. A m&atilde;e, que era d'estes sitios, para ahi
+veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se,
+mestre de si mesmo. Dirigiu os primeiros estudos
+de Angelo e hoje &eacute; o seu melhor amigo. A morgada,
+minha madrinha, legou-lhe um patrimonio
+para elle se ordenar: n&atilde;o quiz, e preferiu ser
+mestre-escola.
+Meu pae, que lhe reconhecia intelligencia
+para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada
+conseguiu. N&atilde;o ha quem o arranque d'estes sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prende-o talvez alguma paix&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. &Eacute; certo que &eacute; um professor
+modelo.
+O seu primeiro despacho foi temporario; agora,
+por&eacute;m, espera meu pae fazel-o effectivo; para o que
+j&aacute; elle fez novo concurso. J&aacute; v&ecirc; que
+ambi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o
+as d'este rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na verdade! com muito menos fundamentos
+ha quem aspire a ser ministro. Mas com certeza o
+cora&ccedil;&atilde;o entra como elemento no problema d'esse
+caracter.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ainda agora reparo!&#8213;exclamou a morgadinha&#8213;eu
+esquecida a conversar, e sem avisar
+a minha tia e Christina da sua chegada! N&atilde;o o fiz
+logo, porque as sabia occupadas em umas longas
+novenas, em que andam; mas agora &eacute; tempo. Vae,
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos dizer-lhes que
+est&aacute; aqui o... o primo Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Marianna e o irm&atilde;o sairam a correr.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae conhecer duas boas almas&#8213;disse Magdalena,
+voltando-se para Henrique&#8213;minha tia &eacute; uma
+santa senhora, cujo peor defeito &eacute; supp&ocirc;r-se
+victima
+dos criados; e Christina... Christina &eacute; um anjo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>V
+</h4>
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais
+penetrado da sympathia, que logo &aacute; primeira vista,
+aquella mulher lhe despert&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia na morgadinha um mixto de candura e de
+ironia, certa delicada reserva fluctuando, como uma
+sombra diaphana, na conversa familiar, a que t&atilde;o
+espontaneamente se dava; um visivel conhecimento
+dos usos e etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo
+uma coragem para cortar por elles, como quem se
+sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel &aacute;s
+suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas
+n'aquella sympathica indole feminina, que poucos
+seriam impassiveis deante d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas,
+calado, immovel, absorto, seguindo com os olhos
+os movimentos de Magdalena, que, sem o menor
+constrangimento, proseguia nas suas occupa&ccedil;&otilde;es
+domesticas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes
+timbres na sala immediata.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ellas ahi veem&#8213;disse a morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram
+na sala D. Victoria e Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+A m&atilde;e vinha dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo... N&atilde;o que voc&ecirc;s
+n&atilde;o querem
+<span class="pagenum">[78]</span>
+crer! Ora vejam se isto se atura... se isto n&atilde;o
+&eacute; para metter uma pessoa no inferno!... N&atilde;o tem
+que v&ecirc;r!... N&atilde;o ha ninguem que mais dinheiro
+gaste com criados e que seja t&atilde;o mal servida como
+eu!... Eu s&oacute; queria saber o que fazem os criados
+d'esta casa? Sim, s&oacute; queria que me dissessem o
+que elles fazem, esse bando de mandri&otilde;es!... Elle
+&eacute; o Torquato, elle &eacute; o Luiz, elle &eacute; o
+Dami&atilde;o, elle &eacute;
+a Ermelinda, elle &eacute; a Rosa, elle &eacute; a Violante...
+e
+n&atilde;o havia um s&oacute; que me viesse dizer que tinha
+chegado
+o primo! &Eacute; forte coisa!... Compromettem
+uma pessoa! Ent&atilde;o como est&aacute;?&#8213;accrescentou ella,
+mudando de tom para cumprimentar Henrique, a
+quem estendeu a m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, ao ouvil-a, tinha j&aacute; trocado com este
+um olhar malicioso.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique correspondeu delicadamente &aacute;
+sauda&ccedil;&atilde;o
+das senhoras e procurou justificar os criados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o m'os desculpe,&#8213;atalhou D. Victoria, elevando
+outra vez o tom de voz&#8213;aquillo &eacute; de proposito
+para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem
+me tira isto da cabe&ccedil;a... Aquillo &eacute; de proposito!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a mam&atilde; n&atilde;o v&ecirc; que as criadas
+estavam
+comnosco &aacute; novena?&#8213;lembrou timidamente Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que n&atilde;o estivessem. Quem tem servi&ccedil;o a
+fazer n&atilde;o pode ouvir novenas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se a mam&atilde; &eacute; que as mandou!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... pois sim... mas... mas ellas &eacute;
+que me deviam dizer que tinham que fazer. Ent&atilde;o
+eu &eacute; que lhes hei de estar a lembrar as suas
+obriga&ccedil;&otilde;es?
+N&atilde;o me faltava mais nada! Ora tens coisas,
+menina! Mas ent&atilde;o vamos a saber, primo Henrique,
+fez bem a sua jornada?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique principiou a falar para desvanecer a
+irrita&ccedil;&atilde;o
+de D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Como n&oacute;s j&aacute; sabemos dos pormenores da tal
+jornada,
+aproveitaremos a occasi&atilde;o para dizer duas palavras
+<span class="pagenum">[79]</span>
+a respeito das novas personagens, que est&atilde;o
+em scena.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, havendo attingido j&aacute; a idade respeitavel
+dos quarenta e tantos annos, dispensa-nos
+grandes longuras e esmeros de descrip&ccedil;&atilde;o. Basta
+que o leitor saiba que era uma senhora nutrida,
+bondosa no fundo, e que sabia muito bem trazer os
+vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente com
+os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito
+sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente
+sempre que tentava for&ccedil;ar o espirito a abra&ccedil;ar
+alguma
+ideia mais complexa; m&atilde;os rotas com a pobreza;
+intolerante, em theoria, com os ladr&otilde;es e
+malfeitores, por&eacute;m felizes d'elles se d'aquellas
+m&atilde;os
+lhes dependesse a condemna&ccedil;&atilde;o; eis o que era
+D. Victoria. Christina, por&eacute;m, tinha dezenove annos;
+e esta idade gosa de privilegios, que eu n&atilde;o
+posso infringir. O leitor n&atilde;o me perdoaria se me
+visse passar estouvadamente por deante da prima
+de Magdalena, sem um olhar de homenagem &aacute; sua
+juventude e ao seu typo feminino. Reparemos pois.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina era mais bonita do que bella. N&atilde;o havia
+n'aquelle rosto uma s&oacute; fei&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o f&ocirc;sse
+correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos meigos
+e quebrando-se com suavidade infantil; b&ocirc;ca,
+d'onde parecia sempre prestes a sair um afago ou
+uma consola&ccedil;&atilde;o; voz, que da muita piedade
+d'aquelle
+bom cora&ccedil;&atilde;o, tirava &aacute;s vezes
+modula&ccedil;&otilde;es commoventes;
+n'uma palavra, uma figura de cherubim,
+como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja
+m&atilde;o representou na t&eacute;la os augustos mysterios do
+christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria.
+Mas n&atilde;o procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos,
+que fixam de repente e como por magnifico
+influxo, a atten&ccedil;&atilde;o dos olhos, uma d'essas
+particularidades
+physionomicas, pelas quaes a natureza,
+destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um
+semblante, consegue tornal-o mais fascinador; temperavam-se
+alli t&atilde;o completamente todas as
+fei&ccedil;&otilde;es,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+que a atten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se sentia obrigada
+a passar do
+conjuncto d'ellas, o que lhes diminuia muito a intensidade.
+&Eacute; o grande sen&atilde;o dos rostos harmonicamente
+perfeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+Concordava-se em que Christina era galante, ninguem
+lhe negaria sympathias; mas o pensamento
+na ausencia d'ella, n&atilde;o se sentia dominado por a
+sua imagem: perdia-a at&eacute; n'um vago, quando pretendia
+fixal-a: eram suaves de mais as inflex&otilde;es
+d'aquelles contornos, brandas as tintas que lhes davam
+relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir
+facilmente o typo angelico, de que lhe fic&aacute;ra
+uma agradavel, mas vaga impress&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Por um homem, em quem predominasse a raz&atilde;o,
+Christina poderia vir a ser adorada; mas nas
+imagina&ccedil;&otilde;es
+ardentes, nos cora&ccedil;&otilde;es inflammaveis, difficil
+lhe seria produzir alguma impress&atilde;o duradoura.
+<br />
+
+<br />
+
+Para bem se comprehender a belleza de Christina,
+era preciso sondar-lhe primeiro o cora&ccedil;&atilde;o,
+apreciar
+todo o thesouro de sentimentos que alli se continha;
+ent&atilde;o descobrir-se-lhe-hia nas fei&ccedil;&otilde;es
+certa belleza
+ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas
+claridades que as almas puras e generosas vertem
+nas physionomias. Se n&atilde;o f&ocirc;sse receiar-me de
+linguagem
+que saiba a philosophia, diria que a belleza,
+que possuem umas mulheres assim, &eacute; uma
+belleza subjectiva.
+<br />
+
+<br />
+
+De tudo isto &eacute; natural concluir que Henrique de
+Souzellas podia sympathisar com a candida figura
+de Christina, a qual baixava timidamente os olhos
+deante d'elle, c&oacute;rando cheia de enleio e
+confus&atilde;o,
+mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse,
+n&atilde;o conseguiria por muito tempo desviar-lhe o
+sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha&#8213;que
+a muitos respeitos, menos na bondade de cora&ccedil;&atilde;o,
+formava contraste completo com sua
+prima.
+<br />
+
+<br />
+
+Trav&aacute;ra-se animada conversa&ccedil;&atilde;o entre
+as pessoas
+presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria
+e Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[81]</span>
+D. Victoria quiz ser informada da doen&ccedil;a de Henrique.
+Este passou a fazer-lhe uma exposi&ccedil;&atilde;o igual,
+com pequenas variantes, &aacute; que fizera &aacute; tia.
+<br />
+
+<br />
+
+Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas,
+aquellas tristezas, impaciencias e desalentos,
+que t&atilde;o ingenuamente a boa senhora classific&aacute;ra
+como mania.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique tornou para ella os olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina, de que ris tu?&#8213;perguntou D. Victoria,
+com certo tom de severidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rio-me d'aquella doen&ccedil;a, tia. Pois j&aacute; viu
+alguem
+padecer d'aquillo? Ora diga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?... mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode dizer que n&atilde;o. E comtudo o primo Henrique
+n&atilde;o mente. Ha d'aquellas doen&ccedil;as na cidade,
+ha; mas na aldeia s&atilde;o t&atilde;o raras, que eu mesma as
+estranho j&aacute;, eu que as vi em outro tempo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o cr&ecirc; na realidade d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhes estou a dizer que sim? Ou&ccedil;o
+at&eacute; que
+j&aacute; teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos
+da civilisa&ccedil;&atilde;o affei&ccedil;oam a seu modo a
+natureza humana
+e criam molestias novas, que nem por isso
+s&atilde;o menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha
+estranheza, ao v&ecirc;r um d'esses doentes em plena
+aldeia, n&atilde;o &eacute; modificada por todas essas
+considera&ccedil;&otilde;es.
+&Eacute; como um homem de casaca e gravata
+branca; n&atilde;o ha nada mais s&eacute;rio e mais grave n'uma
+sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga
+se o pode olhar a s&eacute;rio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer que n&atilde;o devo queixar-me aqui, sob
+pena de zombarem de mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o digo; mas n&atilde;o o
+entender&atilde;o; isso
+n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m a minha doen&ccedil;a n&atilde;o
+&eacute; s&oacute; d'essas, que
+se n&atilde;o d&atilde;o na aldeia, prima Magdalena; eu creio
+que verdadeiras desordens organicas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! tambem?&#8213;Com esse aspecto de robustez?!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>
+&#8213;Se eu sei o que tu est&aacute;s ahi a dizer Lena!&#8213;disse
+D. Victoria, que n&atilde;o tinha percebido bem o
+dialogo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao
+primo Henrique todos os maus habitos da cidade,
+com que veio para aqui. Sem isso n&atilde;o pode curar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sujeitar-me-hei da melhor vontade a t&atilde;o agradavel
+dominio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Principia mal, se principia com uma fineza. J&aacute;
+o avisei ha pouco...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; necessario tornar-me grosseiro, para me
+salvar? N'esse caso renuncio &aacute; cura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grosseiro, n&atilde;o; basta que seja razoavel e sobretudo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabo? eu sei? Eu &aacute;s vezes sou sincera de mais.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu adoro as sinceridades.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; que o quer... &Eacute; preciso que seja razoavel
+e sobretudo... desaffectado.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os
+labios, c&oacute;rando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o acha?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho que est&aacute; sempre a imaginar-se n'um sal&atilde;o;
+faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e
+perdidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meninos, eu n&atilde;o vos entendo&#8213;repetia D.
+Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo eu que...
+<br />
+
+<br />
+
+Um criado entrando com as cartas do correio
+n&atilde;o a deixou continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre chegou o correio!&#8213;exclamou Magdalena
+com vivacidade, recebendo as cartas.&#8213;Por que
+veio t&atilde;o tarde?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mulher contou-me l&aacute; umas historias de uma
+qu&eacute;da, e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteja descan&ccedil;ada, minha senhora. Ella
+partiu
+j&aacute; e era um g&ocirc;sto v&ecirc;l-a a correr.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; de meu pae&#8213;disse ella, olhando-lhe para a
+lettra e, depois de pedir licen&ccedil;a, come&ccedil;ou a ler
+para si.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois agora&#8213;dizia, n'este meio tempo, D. Victoria
+a Henrique&#8213;o que deve &eacute; aproveitar estes
+bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas
+acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia
+que querias ir, Christina?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu! disse Christina, c&oacute;rando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso.
+Ora onde era?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; Senhora da Saude, mam&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade, &aacute; Senhora da Saude. Ahi
+est&aacute; j&aacute;
+um passeio bonito. V&ecirc;? Saem d'aqui uma manh&atilde;
+c&ecirc;do, levam alguma coisa para l&aacute; comer, porque o
+ar do monte abre o appetite, e a cavallo est&atilde;o l&aacute;
+n'um instante...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A cavallo, mam&atilde;! d'aqui &aacute; Senhora da Saude?
+Ora! Vae-se muito bem a p&eacute;&#8213;notou Christina do
+lado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; por os a&ccedil;udes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois por onde haviamos de ir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por a Granja, que &eacute; melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por a Granja! &Eacute; uma legua!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tem? mas escusam de trepar como cabras
+por o lado dos a&ccedil;udes, que &eacute; at&eacute;
+perigoso; e depois
+para que h&atilde;o de ir a p&eacute;, se para ahi
+est&atilde;o os cavallos
+sem fazerem nada? &Eacute; vontade de se can&ccedil;arem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas appetece ainda mais n'este tempo. S&oacute; se...
+s&oacute; se alli o sr. Henrique...&#8213;disse Christina,
+embara&ccedil;ada
+ao continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu o qu&ecirc;, minha senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o&#8213;interrompeu D. Victoria.&#8213;Por que
+n&atilde;o has de tu chamar primo ao primo Henrique?
+pois n&atilde;o chamamos tia &aacute; tia Doroth&eacute;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso mesmo, mam&atilde;,&#8213;respondeu Christina&#8213;os
+sobrinhos da tia Doroth&eacute;a n&atilde;o s&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+&#8213;N&atilde;o averiguemos d'esses parentescos, priminha,&#8213;acudiu
+Henrique&#8213;eu acceito a proposta da
+mam&atilde;, pe&ccedil;o para ser considerado do numero de
+seus primos.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina baixou os olhos, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas parece que receiava por mim, quando falou
+em ir a p&eacute; &aacute; Senhora da Saude. N&atilde;o sei
+onde
+&eacute; o logar, mas desde j&aacute; me comprometto a
+n&atilde;o
+can&ccedil;ar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem que saber&#8213;disse D. Victoria, caminhando
+para uma janella.&#8213;Ella l&aacute; est&aacute;. Olhe que
+inda &eacute; necessario saber trepar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tendo duas t&atilde;o galantes companheiras de viagem&#8213;tornou
+Henrique, depois de reparar no monte
+escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o
+mesmo que o almocreve lhe mostrou&#8213;parece-me
+que daria a p&eacute; uma volta ao globo e que subiria a
+correr o Pico de Tenerife.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu lhe digo, primo&#8213;accrescentou D. Victoria&#8213;&eacute;
+que se acautele, porque se lhes vae a
+fazer todas as vontades, tem que v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inda que morresse em t&atilde;o agradavel servi&ccedil;o,
+teria de agradecer a Deus a morte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C&aacute; me chegou aos ouvidos o cumprimento&#8213;disse
+Magdalena, que continuava a ler.&#8213;Logo ajustaremos
+contas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; implacavel esta nossa prima, n&atilde;o
+acha?&#8213;perguntou
+Henrique, sorrindo, a Christina, que por
+unica resposta s&oacute; soube sorrir tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o, &eacute; arranjarem, &eacute;
+arranjarem isso e
+quanto antes, que n&atilde;o ha que fiar no tempo. Eu se
+pudesse tambem ia, mas j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o
+passeios para
+mim, e depois estes criados...
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas receiou nova divaga&ccedil;&atilde;o
+sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas
+felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando
+a leitura da carta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco
+<span class="pagenum">[85]</span>
+as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo.
+Promette demorar-se at&eacute; o dia dos Reis.
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as saudaram a nova com gritos de alegria,
+e saltos de causarem inveja a um clown de
+circo.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria zangou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que pouca vergonha &eacute; essa? Parecem-me
+um bando de patetas! Ora vamos! J&aacute; quietos.
+A culpa tem a Ermelinda, que j&aacute; vos devia ter
+levado para a quinta. &Oacute; Senhor, esta praga de criados,
+que nunca ha de fazer a sua obriga&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as reprimiram um pouco mais as expans&otilde;es
+de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando
+a meia voz, em musica de composi&ccedil;&atilde;o d'ellas,
+o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo!
+Ora viva, viva! Ora viva, ol&eacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pschiu! Calae-vos!&#8213;bradou ainda D. Victoria;
+e voltando-se para Magdalena:&#8213;Mas ent&atilde;o como
+se entende isso, Lena? Ent&atilde;o o pae diz que vem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nas vesperas do Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois dos Reis.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; est&aacute; bem; e... sim... e ent&atilde;o o Angelo?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Angelo vem com elle. Quer v&ecirc;r a carta?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, menina. Mas &eacute; preciso n&atilde;o fazer
+confus&atilde;o...
+Ent&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha nada menos confuso... &Eacute; s&oacute;
+isto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; pois agora, sim; agora est&aacute; bem claro.
+Calae-vos, diabretes! &Oacute; meu Deus, que
+consumi&ccedil;&atilde;o!
+Mas ent&atilde;o por que n&atilde;o entregou o criado ha
+mais tempo essa carta? Eh! n&atilde;o que voc&ecirc;s dizem
+que elles...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tia, pois n&atilde;o ouviu que foi a mulher das
+cartas que se demorou, porque...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Historias! N&atilde;o me venham para c&aacute; com esses
+contos. Voc&ecirc;s est&atilde;o sempre promptos para
+desculpal-os.
+S&atilde;o elles...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[86]</span>
+&#8213;&Oacute; Lena, Lena&#8213;diziam as crean&ccedil;as&#8213;o primo
+Angelo n&atilde;o torna para Lisboa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de tornar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;, &oacute; Lena&#8213;disse D. Victoria&#8213;sabes tu
+o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes
+criados que tenho... Mas a mim lembra-me...
+uma vez que teu pae vem com o pequeno... e...
+est&aacute; agora c&aacute; o primo Henrique... lembra-me a
+mim... mas, j&aacute; digo, era se eu pudesse contar com
+os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos
+todos para consoar... A prima Doroth&eacute;a tambem,
+e aqui o primo; mas era se...
+<br />
+
+<br />
+
+Uma perfeita ova&ccedil;&atilde;o acolheu o projecto; as
+crean&ccedil;as levaram as suas demonstra&ccedil;&otilde;es
+de enthusiasmo
+at&eacute; o delirio, penduraram-se ao pesco&ccedil;o,
+&aacute;
+cinta, ao avental da m&atilde;e, gritando todas a um
+tempo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim, mam&atilde;, sim; mande convidar a tia
+Doroth&eacute;a,
+mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe
+e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos
+de cantar as janeiras... Mande, mande, mam&atilde;, por
+as alminhas; ora mande.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada,
+e erguia o bra&ccedil;o, como para a fustigar
+asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe
+o riso dos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiam d'aqui!&#8213;exclamava ella, quando conseguiu
+estar s&eacute;ria.&#8213;Saiam!... N&atilde;o ouvem?...
+Espera que eu vos falo... Ai, n&atilde;o fazem caso? Ora
+esperem... Marianna, j&aacute; devias ter mais juizo...
+Ent&atilde;o, Eduardo! Tu tambem? N&atilde;o tem vergonha!
+Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia das consoadas em familia f&ocirc;ra uma ideia
+que a ninguem deix&aacute;ra impassivel. Christina, a timida
+Christina, n&atilde;o disfar&ccedil;ou um movimento de
+jubilo; as m&atilde;os ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e
+raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+A propria Magdalena n&atilde;o se mostrou superior
+&aacute;quella tocante puerilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a
+nas faces, disse-lhe affectuosamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora ahi est&aacute; o que &eacute; muito bem pensado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, sim, mas o peor &eacute;... os criados&#8213;disse
+D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem
+mais trabalha somos n&oacute;s. Demais, teremos, para
+dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia
+Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que &eacute; a perola das criadas! Oh! aquella
+prima Doroth&eacute;a, aquella sua tia, primo Henrique,
+&eacute;
+que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam
+os de c&aacute; com a Maria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem d&uacute;vida. N'aquella noite quanto mais
+barulho e desordem, melhor&#8213;aventurou-se a dizer
+Christina, com impeto revolucionario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi temos outra! N&atilde;o, filha; isso &eacute; que
+n&atilde;o.
+Para barulhos &eacute; que eu j&aacute; n&atilde;o estou.
+Ent&atilde;o, n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; resolvido&#8213;disse a morgadinha, para cortar
+pelas divaga&ccedil;&otilde;es da tia.&#8213;Aqui o sr. de
+Souzellas&#8213;accrescentou,
+com maliciosa inflex&atilde;o&#8213;fica
+desde j&aacute; encarregado de transmittir &aacute; tia
+Doroth&eacute;a
+o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente
+convidado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceito da melhor vontade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei se o dever&aacute; dizer. &Eacute; preciso
+que o
+avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar
+na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto,
+pelo menos, de collabora&ccedil;&atilde;o nos guisados.
+Por isso veja l&aacute;....<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina, tens coisas!&#8213;disse D. Victoria.&#8213;Deixe-a
+falar, primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; deixe-a falar. Eu n&atilde;o dispenso
+ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu prometto n&atilde;o me recusar. Promptifico-me
+a tornar detestaveis os pratos em que puzer a m&atilde;o.
+Que mais querem?
+<br />
+
+<br />
+
+Foi alegremente acolhida a promessa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+As crean&ccedil;as, familiarisadas j&aacute; com Henrique, em
+quem tinham adivinhado um humor jovial, o que &eacute;
+sempre para ellas um motivo de attrac&ccedil;&atilde;o,
+trepavam-lhe
+j&aacute; aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre
+perguntas, difficultando-lhe as respostas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de jogar o rapa, n&atilde;o havemos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de jogar, havemos&#8213;respondeu Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o par ou pern&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem; tambem havemos de jogar o par ou
+pern&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe: e sabe contar historias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei tambem contar historias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ha de contar-nos, que n&oacute;s tambem lhe
+contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau
+e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, o sr. Henrique j&aacute; as sabe&#8213;disse, fazendo-se
+sisuda, Marianna.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sei, n&atilde;o, senhora; quem lhe disse
+que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meninos!&#8213;exclamou D. Victoria, que at&eacute;
+alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.&#8213;Ent&atilde;o
+isso que &eacute;? J&aacute; para baixo. Ai, se lhes
+d&aacute;
+confian&ccedil;a, est&aacute; arranjado, primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-os estar, minha senhora, este contacto
+de alegrias &eacute; salutar; pegam-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o diga a brincar&#8213;disse Magdalena&#8213;que
+tambem confio n'essas crean&ccedil;as para o curarem
+dos seus males.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o dev&eacute;ras emprehendeu curar-me?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com toda a certeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso havemos de discutir devagar esse
+ponto de pathologia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o havemos, n&atilde;o, senhor. &Eacute; mau
+medico o
+que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia
+e o tratamento. O medico deve ser obedecido
+com f&eacute;, e cega.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[89]</span>
+Christina que, havia muito, defronte de Magdalena,
+fazia esfor&ccedil;os por lhe chamar a
+atten&ccedil;&atilde;o, resolveu-se
+a falar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena&#8213;disse ella&#8213;que te parece a lembran&ccedil;a
+que teve ha pouco a mam&atilde;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A das consoadas? Excellente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, menina, a do passeio &aacute; ermida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Excellente tambem. Marquemos j&aacute; o dia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando queres?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois de &aacute;manh&atilde;, que &eacute; quinta
+feira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz, primo Henrique?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando quizerem, primas; agora mesmo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, veja l&aacute;, atreve-se a fazer uma madrugada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o viu hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, pois n&atilde;o! Na aldeia n&atilde;o se chama isso
+uma madrugada. &Eacute; preciso que se levante &aacute;s horas,
+a que se deitava na cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute;s a dizer, Lena?&#8213;acudiu Christina.&#8213;Deixa-a
+falar. Basta que saiamos d'aqui &aacute;s cinco
+horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta innocente Christina! Pois n&atilde;o &eacute; o mesmo
+que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha
+costume de se deitar mais c&ecirc;do em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de
+que, ha perto de um anno, sou valetudinario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade, que me tinha esquecido. O que
+vejo &eacute; que ha por aqui muita indolencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem a ouvir falar, ha de julgar que ser&aacute; ella
+a mais madrugadora; ora havemos de v&ecirc;r&#8213;disse
+Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena poz-se a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou
+que se convidasse Augusto, por ser conhecedor
+do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos
+de vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro,
+j&aacute; retardado uma boa hora ao que promettera &aacute; tia
+Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+Um criado serviu-lhe de guia at&eacute; Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, ao findar aquella manh&atilde;,
+era inteiramente outro, do que viera para a aldeia.
+Todas aquellas horas se haviam passado, sem que
+o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer
+pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira,
+a troca reciproca de affectos entre os membros
+de t&atilde;o numerosa familia, a franqueza cordial
+com que f&ocirc;ra recebido, produziram n'elle uma
+impress&atilde;o
+profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Costumado ao viver desconsolador e de g&ecirc;lo de
+rapaz solteiro e s&oacute;; n&atilde;o passando, nas casas que
+visitava, al&eacute;m da sala de visitas, esse palco artificioso
+e reservado, onde as familias ante as familias
+representavam a comedia social, Henrique estranh&aacute;ra,
+mas agradavelmente, o espectaculo, quasi
+novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes,
+d'aquellas alegrias, que n&atilde;o se envergonham
+de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma
+revela&ccedil;&atilde;o que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter
+um
+dia uma familia assim; de viver entre crean&ccedil;as
+que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de
+affectos, que alli via manifestarem-se, e at&eacute; com alguem
+que ralhasse com os criados, &aacute; maneira de
+D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que a imagem da morgadinha
+apparecia sempre n'estes quadros que lhe tra&ccedil;ava
+a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes
+mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as
+fei&ccedil;&otilde;es queridas da mulher que elles traziam no
+pensamento e a quem deram assim a immortalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+De manh&atilde; parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal;
+complet&aacute;ra-o a figura de uma mulher; sem o
+sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no
+eden, onde a m&atilde;o de Deus o colloc&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, vagaroso, anda&#8213;disse D. Doroth&eacute;a a
+Henrique, assim que o viu chegar.&#8213;Se o jantar tiver
+esturro, a culpa &eacute; tua.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! foste l&aacute;? E ent&atilde;o gostaste d'aquella gente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma familia para o cora&ccedil;&atilde;o.
+Passa-se o
+tempo alli t&atilde;o depressa! A morgadinha, sobretudo,
+&eacute; adoravel!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, ai; como elle nos vem! Olha l&aacute; no que te
+mettes, menino! A mina boa &eacute;, mas... filho, anda
+alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique fitou os olhos na tia Doroth&eacute;a, que dissera
+isto com certa malicia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer, tia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu bem me percebes. Anda l&aacute;, anda. Se fizesses
+tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande
+coisa seria; mas sempre te digo que n&atilde;o tomes a
+coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique levou o caso a rir, mas &eacute; certo que esteve
+um pouco mais preoccupado e distrahido no
+resto da tarde.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VI
+</h4>
+
+<br />
+
+O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na
+companhia de qualquer amigo, ha de ter observado
+que, durante os primeiros tempos que passam juntos
+n'uma terra para ambos desconhecida, t&atilde;o
+alheios &aacute;s coisas como &aacute;s pessoas, no meio das
+quaes se v&ecirc;em, nem por momentos se soffrem separados;
+um segue sempre o outro em todos os
+passos que d&aacute;, precisa d'elle para communicar-lhe
+as primeiras impress&otilde;es recebidas, e pedir-lhe em
+troca as suas; &aacute; medida por&eacute;m que, pouco a pouco,
+se v&atilde;o familiarisando mais com os logares e
+com as personagens d'aquelle mundo novo, afrouxa
+a constric&ccedil;&atilde;o d'esses la&ccedil;os, e cada um
+principia a
+readquirir a independencia individual, que de motuproprio
+havia abdicado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[92]</span>
+Um facto similhante nos succede com Henrique
+de Souzellas. Encontr&aacute;mol-o na estrada; na companhia
+d'elle entr&aacute;mos em uma terra, onde tudo nos
+era estranho; nada mais natural do que dar o bra&ccedil;o
+um ao outro, passar juntos a manh&atilde;, e fazer, em
+commum, as nossas visitas. Agora, por&eacute;m, que temos
+j&aacute; algum conhecimento da terra e da gente, &eacute;
+tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos
+o jugo de uma companhia for&ccedil;ada, a qual, embora
+seja de um amigo estimavel, se &eacute; for&ccedil;ada,
+&eacute;
+sempre jugo, em certas occasi&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes,
+penso eu, haviam de ter momentos em que se
+desejassem s&oacute;s; se &eacute; que n&atilde;o deviam
+aos deuses a
+felicidade de possuirem curtos espiritos, o que n&atilde;o
+creio.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo
+com a tia Doroth&eacute;a a mais pacifica das conversas
+que podem auxiliar a digest&atilde;o de um jantar; deixemol-o
+no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos
+associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos,
+que &eacute; Augusto, o mestre de Marianna e
+de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos
+na sala da casa do Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao sair d'alli, Augusto seguiu atrav&eacute;s de campos
+e &aacute; beira de vallados, com aquelle ar pensativo que
+lhe era peculiar.
+<br />
+
+<br />
+
+O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas
+palavras da morgadinha, &eacute; j&aacute; bastante para que
+nos
+n&atilde;o admire a quasi incessante melancolia de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia
+e mal podendo, &aacute; custa de sacrificios, cultival-a, e
+eleval-a &aacute; altura das suas aspira&ccedil;&otilde;es!
+Alma generosa
+e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a
+chorar os infortunios que via, porque a pobreza lhe
+negava meios de remedial-os!..
+n&atilde;o ser&atilde;o estas
+ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma
+existencia, embora a juventude as illumine?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Havia alguns annos que esta disposi&ccedil;&atilde;o para a
+tristeza se exacerb&aacute;ra em Augusto. Coincidiu o facto
+com algumas circumstancias, que conv&eacute;m referir.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena
+e de quem viera a esta o nome de morgadinha,
+pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia
+ao morrer instituido um legado a favor de Augusto,
+ent&atilde;o crean&ccedil;a, com a
+condi&ccedil;&atilde;o d'elle abra&ccedil;ar a
+vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de Magdalena,
+devia administrar este legado, educando o rapaz nas
+escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro
+exame at&eacute; o da primeira missa, porque n'esse
+lhe entregaria o capital por inteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto succedeu no tempo em que a m&atilde;e de Augusto,
+que havia dois annos viuv&aacute;ra, luctava com a
+miseria, e o rapaz, pela sua penetra&ccedil;&atilde;o e pelo
+enthusiasmo
+com que aprendia, causava o espanto do
+velho mestre regio da localidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi por todos aben&ccedil;oada a memoria da morgada,
+por t&atilde;o bem cabido legado, que era ao mesmo
+tempo que remedio &aacute;s priva&ccedil;&otilde;es de uma
+familia,
+premio e estimulo &aacute; intelligencia e &aacute;
+applica&ccedil;&atilde;o de
+uma crean&ccedil;a, que promettia vir a ser... Deus sabe
+o qu&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio
+se a clausula, posta pela legataria como condi&ccedil;&atilde;o
+&aacute;
+concess&atilde;o do beneficio, n&atilde;o podia ser uma
+crueldade
+que o annullasse; se comprar um futuro por
+dinheiro, sem querer saber a quantidade de
+aspira&ccedil;&otilde;es,
+de esperan&ccedil;as, de phantasias que sejam, a que
+se tem de renunciar pelo contracto, n&atilde;o &eacute; uma
+iniquidade;
+se n&atilde;o era uma quasi simonia ir a casa do pobre,
+e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da
+miseria, prop&ocirc;r-lhe trocar por estes thesouros, que
+o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por
+mim abomino estes legados condicionaes, que um
+espirito malevolo, egoista e desejoso de dominar
+ainda depois da morte, tantas vezes dicta; essas
+<span class="pagenum">[94]</span>
+meigas generosidades s&atilde;o &aacute;s vezes a causa do
+infortunio
+de uma vida inteira; acceites ou recusadas,
+&eacute; raro que depois, a cada prova&ccedil;&atilde;o que
+nos
+experimenta, uma voz interior nos n&atilde;o exprobre o
+partido que abra&ccedil;amos.&#8213;&laquo;Louco! para que hesitaste
+em trocar meia duzia de phantasmas por um
+bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos
+idolos de poetas o beneficio que te
+offereciam?&raquo;&#8213;dir&aacute;
+ella aos que rejeitaram o
+pacto.&#8213;&laquo;Ambicioso!&#8213;clamar&aacute;
+aos outros&#8213;ahi tens a felicidade
+que julgaste comprar &aacute; custa do que ha de mais
+nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso,
+em que envolveste o altar do bezerro de ouro,
+consumindo ahi as tuas mais santas e generosas
+aspira&ccedil;&otilde;es.&raquo; Augusto n&atilde;o
+adivinhou por&eacute;m logo a
+crueldade da disposi&ccedil;&atilde;o testamentaria. Era muito
+crean&ccedil;a ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou;
+comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella
+pobre m&atilde;e, que s&oacute; podia abrigal-o com os extremos
+do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas
+conseguira deixar uma heran&ccedil;a; foi &aacute; viuva o
+dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo
+que podia inverter aquelle legado, velando elle pela
+fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria
+de certo a vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se
+mais e mais a intelligencia, quasi espontaneamente,
+pois justo &eacute; confessar que bem
+rudes eram os cuidados de cultura que o velho
+<em>magister</em>
+lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes
+effeitos que da intelligencia e do estudo, da
+aptid&atilde;o e da vontade, podem resultar? Dotem um
+homem d'essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe
+embora os meios de progresso, elle caminhar&aacute;,
+inventando-os primeiro, se tanto lhe f&ocirc;r preciso.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois, &eacute; um grande alento aos espiritos superiores
+a consciencia de uma nobre miss&atilde;o a cumprir.
+N&atilde;o ha fadigas que tal estimulo n&atilde;o
+ven&ccedil;a;
+abnega&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o inspire.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua
+m&atilde;e precisava d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ainda aos seus treze annos f&ocirc;sse j&aacute; bem
+conhecida a grandeza dos sacrificios que lhe exigiam,
+n&atilde;o hesitaria talvez, instigado por aquella
+aspira&ccedil;&atilde;o; quanto mais que ainda mais lhe tinham
+animado os sonhos, as doces imagens, t&atilde;o gratas
+ao cora&ccedil;&atilde;o do adolescente, e a que teria de
+renunciar.
+<br />
+
+<br />
+
+Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o
+qual, gra&ccedil;as aos esfor&ccedil;os empregados,
+n&atilde;o se fez
+esperar muito.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando se approximava a occasi&atilde;o, o pae de Magdalena
+mandou vir Augusto para Lisboa e hospedou-o
+em sua casa at&eacute; que chegou o dia.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o confiando demasiadamente no ensino publico
+da aldeia, o conselheiro quiz que o seu pequeno
+hospede recebesse algumas li&ccedil;&otilde;es de um professor
+da cidade, e d'este obteve as melhores
+informa&ccedil;&otilde;es
+da intelligencia do rapaz, que s&oacute; por milagre d'ella
+conseguira sair muito pouco eivado dos vicios do
+ensino de campo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto demorou-se algumas semanas em casa
+do conselheiro. A final fez o exame, no qual foi felicissimo,
+obtendo n'elle as mais distinctas qualifica&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Imagine-se o effeito que a noticia produziu na
+aldeia. Exaggerando-se, dizia-se por l&aacute; que em toda
+Lisboa corria a fama do rapaz, e houve at&eacute; quem
+n&atilde;o hesitasse em affirmar que a crean&ccedil;a
+confundira
+os mestres, que f&ocirc;ra uma maravilha.
+<br />
+
+<br />
+
+O mestre-escola reclamou para si a gloria do
+acontecimento, fundando-se em que, atrav&eacute;s do discipulo,
+resplandecia a sciencia do mestre.<br />
+
+<br />
+
+Os invejosos disputavam-lhe por&eacute;m t&atilde;o
+inquestionavel
+gloria e riam-se d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+A pobre m&atilde;e, essa, levou todo o dia a chorar de
+prazer e a render gra&ccedil;as &aacute; Virgem, a quem tanto
+encommend&aacute;ra o filho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span>
+Voltou Augusto &aacute; terra.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o rapaz o assumpto de todas as conversas:
+olhavam-o como um prodigio. Todos o queriam
+v&ecirc;r, como se at&eacute; alli o n&atilde;o tivessem
+visto bem, e
+de feito todos o foram v&ecirc;r; nem o abbade, nem o
+administrador, nem o presidente da camara faltaram.
+Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram,
+n&atilde;o houve um s&oacute; que n&atilde;o notasse que o
+pequeno
+vinha triste.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem contestava o facto: que elle como que
+saltava aos olhos; as interpreta&ccedil;&otilde;es &eacute;
+que variavam.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo &eacute; dos ares de Lisboa; a quem n&atilde;o
+est&aacute; costumado... dizia um.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o canceiras de estudos&#8213;aventava outro.&#8213;Ha
+l&aacute; coisa que puxe mais por uma pessoa do
+que o estudo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o que voc&ecirc;s cuidam! Um exame sempre
+abala a gente c&aacute; por dentro&#8213;dizia um doutor, que
+lev&aacute;ra dez annos a vencer um curso de cinco.
+<br />
+
+<br />
+
+F&ocirc;sse pelo que f&ocirc;sse, Augusto trouxera de Lisboa
+uma melancolia, que os ares da sua terra n&atilde;o
+dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam
+no futuro e no legado da morgada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita
+melancolia, foi, como era de supp&ocirc;r, a receiosa
+m&atilde;e. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos
+e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas,
+supplicas, argui&ccedil;&otilde;es, lagrimas, promessas,
+nada tiravam de Augusto, que teimava em responder
+que nada tinha que o affligisse, que era a illus&atilde;o
+de quem o via a tristeza que lhe suppunham,
+e, para confirmar o que dizia ria; mas era mais
+triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Para breve estava a entrada de Augusto no collegio
+de Lisboa, onde, &aacute; custa do legado da defuncta
+proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar nos
+seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum
+<span class="pagenum">[97]</span>
+tempo na aldeia. N&atilde;o se p&ocirc;de atinar com os
+motivos d'este pedido. Indolencia n&atilde;o era; pois no
+entretanto come&ccedil;ou a estudar os rudimentos do
+latim com o illustre professor, que o leitor conhece
+j&aacute;, mestre Bento Pertunhas.
+<br />
+
+<br />
+
+A saude vacillante da m&atilde;e de Augusto declinou
+n'esse inverno; o que veio dar outro motivo &aacute; demora
+do filho.
+<br />
+
+<br />
+
+Dias e dias passou o pobre rapaz sentado &aacute; cabeceira
+do leito dividindo os seus cuidados entre o
+estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois
+annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim
+d'elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo
+um beijo nas faces geladas de um cadaver.
+<br />
+
+<br />
+
+Era orph&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A vaga sombra de melancolia, que j&aacute; lhe toldava
+o rosto, condensou-se-lhe mais ent&atilde;o. Era quasi
+um negrume de tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena
+para a aldeia, pois receiava pela saude d'ella
+se persistisse em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto,
+quando voltasse a Lisboa. Uma manh&atilde;, por&eacute;m,
+este, de pouco mais de quinze annos, procurou-o
+e disse-lhe com uma gravidade, que revelava
+uma ten&ccedil;&atilde;o meditada e irrevogavel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho prevenir v. ex.<sup>a</sup> de que desisto do
+legado
+da sr.<sup>a</sup> morgada. N&atilde;o quero
+ordenar-me.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro fitou-o, estupefacto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queres ordenar-te! Por qu&ecirc;?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o tenho m&atilde;e a quem amparar. Por
+ella
+for&ccedil;aria a minha voca&ccedil;&atilde;o sem remorsos;
+por interesse
+proprio n&atilde;o o posso fazer; parece-me um sacrilegio.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro era um homem muito do seculo.
+O seu trato social, a frequencia dos circulos politicos
+e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e
+m&aacute;s qualidades, que caracterisam aquella classe de
+homens, e sabe-se que a candura de sentimentos
+<span class="pagenum">[98]</span>
+n&atilde;o entra no numero das mais habituaes d'essas
+qualidades. Tinha uma raz&atilde;o clara, mas fria; se
+abra&ccedil;ava uma boa causa, n&atilde;o o fazia cedendo ao
+enthusiasmo, mas s&oacute;mente depois de ponderar fleugmaticamente
+os fundamentos em que ella se baseava;
+assim era que, em politica, se costum&aacute;ra a
+contemporisar, espa&ccedil;ando a adop&ccedil;&atilde;o de
+qualquer
+medida, inquestionavelmente boa, para tempos em
+que f&ocirc;sse mais conveniente; n&atilde;o se apaixonava por
+utopias, desconfiava d'ellas; havia muito tempo que
+desvi&aacute;ra dos olhos o prisma encantado, atrav&eacute;s do
+qual olham o mundo os poetas e todos os mais
+sonhadores; costum&aacute;ra-se a marcar por modelo
+nas differentes carreiras da vida, n&atilde;o um typo ideal
+dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos
+e vicios; assent&aacute;ra a menor altura o alvo:
+parecia-lhe que bom fito eram j&aacute; os individuos que
+tinham conseguido maior considera&ccedil;&atilde;o na sua
+classe;
+as maculas que elles tivessem, eram, por esse
+facto, maculas auctorisadas. O pensar de outro
+modo era pensar de romance; agradavel para entreter,
+por&eacute;m mau nas applica&ccedil;&otilde;es
+&aacute;s coisas da
+vida. N'uma palavra, o conselheiro era um homem
+de bem, mas na esphera mundana; n&atilde;o um d'aquelles
+typos de pureza crystallina, atrav&eacute;s da qual parece
+passarem sem desvio os raios da luz celeste,
+mas j&aacute; um tanto embaciado do bafo social, que
+n&atilde;o o fazia ainda totalmente opaco.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso sorriu &aacute; declara&ccedil;&atilde;o de
+Augusto. A carreira
+ecclesiastica n&atilde;o lhe parecia t&atilde;o escabrosa
+como o futuro sacerdote a fazia; nem t&atilde;o dura a
+lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro n&atilde;o
+pensava necessario tomar ao p&eacute; da lettra certos
+deveres impostos; o mundo seria, como elle, tolerante
+em naturaes infrac&ccedil;&otilde;es; por tudo isso se
+riu.
+Fez a Augusto uma longa disserta&ccedil;&atilde;o sobre as
+vantagens da vida ecclesiastica, sobre os muitos
+interesses que lhe promettia, e a leviandade com
+que elle queria renunciar a uma carreira segura
+<span class="pagenum">[99]</span>
+movido pelas instiga&ccedil;&otilde;es de um espirito timorato
+ou de uma vis&atilde;o phantastica.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto insistiu. Sem c&oacute;rar perante o sorriso
+sceptico do conselheiro, declarou que n&atilde;o
+abra&ccedil;aria
+a vida ecclesiastica sem que se sentisse com a coragem
+precisa para cumprir todos os deveres que
+ella lhe impunha; que era precisa uma grande
+abnega&ccedil;&atilde;o,
+e que elle, depois da morte de sua m&atilde;e,
+n&atilde;o tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses
+n&atilde;o pensava, e se pensasse, seria isso a primeira
+prova de n&atilde;o estar preparado para a miss&atilde;o de que
+se queria encarregar.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando alguem abra&ccedil;a com lealdade e franqueza
+uma boa causa, difficilmente &eacute; vencido. O conselheiro,
+costumado a n&atilde;o recuar nas mais acerbas
+luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco &aacute;s
+objec&ccedil;&otilde;es d'aquella crean&ccedil;a. Como que
+teve remorsos
+de tentar sequer desvanecer as illus&otilde;es a que
+o via abra&ccedil;ado,&#8213;illus&otilde;es pelo menos as suppunha
+elle; parecia-lhe uma obra satanica envenenar com
+um sorriso aquelle ideal, em que vivia.&#8213;Respeitou-o
+e calou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguma creancice amorosa dos quinze annos&#8213;pensou
+para si. Deixemos ao tempo convencel-o.
+N&atilde;o me encarregarei eu d'esse papel, que &eacute; pouco
+sympathico. Quem me restituira aquellas canduras!
+Teria alcan&ccedil;ado menos no mundo, mas talvez tivesse
+gosado mais... ou melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro cedeu apparentemente, esperando
+que a reflex&atilde;o modificaria, mais tarde, as ideias do
+rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as
+ten&ccedil;&otilde;es,
+em que estava de n&atilde;o se ordenar, pelo menos
+emquanto n&atilde;o passasse mais tempo sobre aquella
+resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro
+que se encarregasse da primeira educa&ccedil;&atilde;o
+de Angelo, ent&atilde;o de nove annos; pois mais confiava
+para isso em Augusto, do que no professor official.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que,
+sobre adequada aos seus g&ocirc;stos, lhe abria uma
+carreira, que elle j&aacute; imagin&aacute;ra adoptar.
+<br />
+
+<br />
+
+De ent&atilde;o nasceu uma intima amizade entre Angelo
+e Augusto. Foram rapidos os progressos do
+discipulo, e n&atilde;o menos reaes as vantagens que ao
+mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia
+cada vez mais a intelligencia.&#8213;O conselheiro tinha
+motivos para estar satisfeito da escolha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto
+em acceitar o legado eram as mesmas; o egoismo
+paternal do conselheiro n&atilde;o o deixou ser muito ardente
+a combatel-as.&#8213;Espa&ccedil;ou-se mais uma vez a
+decis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Outras li&ccedil;&otilde;es appareceram a Augusto, as quaes
+elle acolheu com g&ocirc;sto; o mestre-escola reclamava
+tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido
+da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho acabou por declinar n'elle o servi&ccedil;o todo,
+sem que Augusto consentisse em receber por isso
+o menor estipendio.
+<br />
+
+<br />
+
+O publico n&atilde;o se can&ccedil;ava de perguntar quando
+seria que o rapaz principiaria os seus estudos em
+Lisboa e por que o n&atilde;o fazia j&aacute;. Como
+n&atilde;o obtivesse
+resposta, commentava o facto, como costuma commentar
+todos os que n&atilde;o entende.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto a educa&ccedil;&atilde;o de Augusto
+n&atilde;o fic&aacute;ra
+estacionaria. Com grandes sacrificios a continu&aacute;ra
+elle; e n'um &ecirc;rmo, como era aquella aldeia, tinha
+muito de milagre o que fazia.
+<br />
+
+<br />
+
+O latim de mestre Bento j&aacute; mal satisfazia &aacute;s
+impaciencias
+do espirito d'este discipulo enthusiasta;
+e n&atilde;o era raro que a intelligencia de Augusto visse
+mais fundo nos textos, do que a experiencia do
+mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+O acaso favoreceu os desejos do estudante.
+<br />
+
+<br />
+
+N'uma freguezia proxima estava, como abbade,
+um doutor em theologia, homem de solido saber e
+de reputa&ccedil;&atilde;o extensa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[101]</span>
+Um dia em que, por convite do seu collega, viera
+assistir e pr&eacute;gar na festa do orago da aldeia, o padre
+encontrou-se com Augusto na sacristia e, conversando-o,
+admirou-lhe a penetra&ccedil;&atilde;o, captivou-se
+da sua modestia e lamentou n&atilde;o estar mais perto
+d'elle, porque o auxiliaria, como pud&eacute;sse, nos estudos.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade;
+affirmando-lhe o padre que sim, respondeu
+que n&atilde;o seria ent&atilde;o estorvo a distancia, porque
+elle
+a venceria.
+<br />
+
+<br />
+
+E d'ahi em deante, duas vezes por semana, &aacute;s
+quintas feiras e domingos, franqueava legua e meia
+dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as
+li&ccedil;&otilde;es
+do erudito abbade. Assim se aperfei&ccedil;oou na
+latinidade, cultivou a philosophia e adquiriu o g&ocirc;sto
+pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de
+l&aacute; carregado de livros para ler durante a semana.
+Toda a bibliotheca do padre lhe passou pelas m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Era por&eacute;m o theologo classico exclusivo e nada
+visto em linguas e litteraturas modernas.
+<br />
+
+<br />
+
+A sorte n&atilde;o recusou ainda a Augusto um novo
+mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os muitos estudos de estradas, de que os
+governos em Portugal fazem preceder, vinte annos
+antes, a construc&ccedil;&atilde;o definitiva de uma
+s&oacute;, que de
+ordinario sae sempre como se n&atilde;o f&ocirc;sse
+t&atilde;o estudada,
+um houve que levou &aacute; aldeia, em que eu e o
+leitor nos achamos, um engenheiro que ahi fez quartel
+e centro de opera&ccedil;&otilde;es, durante tres mezes
+inteiros.
+<br />
+
+<br />
+
+A casa em que elle se alojou ficava proxima da
+de Augusto. C&ecirc;do travaram conhecimento os dois.
+O engenheiro o menos que possuia eram livros de
+mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna,
+trazia nas malas e bah&uacute;s uma excellente provis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tendo que fazer &aacute;s noites, entreteve-se a
+ensinar
+o francez a Augusto e a ler-lhe os livros da
+<span class="pagenum">[102]</span>
+sua bibliotheca portatil. Voavam as horas a Augusto
+n'aquelles ser&otilde;es; n'elles aprendeu todos os nomes
+da nossa litteratura moderna, bem como os principaes
+da de Fran&ccedil;a e de Inglaterra.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o engenheiro partiu da aldeia j&aacute; Augusto
+sabia o francez bastante para se aperfei&ccedil;oar por si;
+este amigo deixou-lhe em lembran&ccedil;a grande parte
+dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar
+do collegio. O conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu
+mais uma vez com Augusto para que viesse
+tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em
+v&atilde;o, encontrou-o ainda inabalavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o
+ambicionado patrimonio foi concedido a outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Mezes depois morria o velho mestre-escola da
+aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe
+que pretendia aquelle logar, que j&aacute; havia muito tempo
+servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por
+que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da
+ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em
+que estava Augusto, o n&atilde;o ter ambi&ccedil;&otilde;es
+era indicio
+de uma profunda doen&ccedil;a moral; que a
+posi&ccedil;&atilde;o a
+que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita
+a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu por&eacute;m
+no intento; o conselheiro empenhou-se por elle em
+Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual
+se faz em Portugal tudo que &eacute; contra lei expressa,
+o dispensasse da idade que ainda n&atilde;o tinha, pois
+mal complet&aacute;ra dezenove annos, e Augusto foi por
+conseguinte admittido a concurso para t&atilde;o pouco
+disputado logar e provido n'elle por tres annos. O
+conselheiro, a quem n&atilde;o f&ocirc;ra impossivel obter-lhe
+despacho vitalicio, quiz v&ecirc;r assim se, no fim de tres
+annos, o obrigava a abandonar t&atilde;o laboriosa e mal
+recompensada carreira, e de proposito o fez despachar
+temporariamente. Comquanto o legado da morgada
+tivesse tido j&aacute; outra applica&ccedil;&atilde;o, o
+conselheiro
+<span class="pagenum">[103]</span>
+n&atilde;o hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o
+mestre de seu filho.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de
+por experiencia conhecer j&aacute; os espinhos da
+profiss&atilde;o,
+apresentou-se novamente ao concurso para obter
+novo despacho. Na &eacute;poca em que abrimos esta
+narra&ccedil;&atilde;o, volt&aacute;ra Augusto de pouco de
+ultimar a
+nova prova; e estava pendente ainda a decis&atilde;o do
+ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor,
+homem muito protegido por influencias da
+localidade, as quaes ainda n&atilde;o tinham podido vencer
+a do conselheiro, que pugnava por Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que f&ocirc;ra para Lisboa, Angelo n&atilde;o se
+esquecera
+de escrever amiudadas vezes a Augusto,
+contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-lhe
+a sua vida na capital; e quando vinha a f&eacute;rias, procurava
+transmittir ao que f&ocirc;ra seu mestre a sciencia
+que durante o anno adquir&iacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi assim que Augusto principiou a estudar a
+lingua ingleza, a geographia e a historia.
+<br />
+
+<br />
+
+Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia
+e applica&ccedil;&atilde;o faziam o resto.
+<br />
+
+<br />
+
+Um homem que havia na aldeia e com quem c&ecirc;do
+teremos de travar conhecimento, um velho herbanario,
+para alguns um sabio, para outros um louco,
+para todos um homem honrado, concorreu tambem,
+com o seu contingente, para a educa&ccedil;&atilde;o de
+Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se
+em casa d'elle com um pacote de livros
+debaixo do bra&ccedil;o e, sorrindo, pousava-lh'os em cima
+da mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava
+ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira
+vez, Augusto fitou o herbanario com espanto.
+Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois
+obter aquelles livros, alguns dos quaes eram de
+pre&ccedil;o? O velho por&eacute;m disse-lhe, ao perceber-lhe a
+surpreza:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+&#8213;N&atilde;o queiras saber da minha vida, rapaz. Supp&otilde;e
+que eu tenho a servir-me uma vara de cond&atilde;o
+ou uma fada qualquer, e deixa correr.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario
+tinha accumulado riquezas, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de
+economias:
+porque de economias vivera sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+De pequeno merecera &aacute;quelle velho uma singular
+sympathia, e com affecto de pae f&ocirc;ra sempre tratado
+por elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Resignou-se a acceitar sem reflex&otilde;es; at&eacute; porque
+sabia ser facil o escandalisar o velho com ellas. O
+que fazia era evitar, na presen&ccedil;a d'elle, qualquer palavra
+que pud&eacute;sse denunciar desejos de possuir um
+livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto
+algum poder occulto a informal-o, &aacute;s vezes parecia
+adivinhar; e trazia-lhe livros que Augusto dev&eacute;ras
+desejava, mas a respeito dos quaes tinha a
+certeza de lhe n&atilde;o ter falado, nem eram d'aquelles
+que o velho conhecia.
+<br />
+
+<br />
+
+A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a
+cren&ccedil;a supersticiosa do povo a respeito d'aquelle
+seu velho amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo
+as informa&ccedil;&otilde;es, pelas quaes o velho se guiava na
+escolha. N&atilde;o lhe attribuia por&eacute;m o presente,
+porque
+as economias de Angelo n&atilde;o chegavam para tanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de tudo quanto temos dito de Augusto,
+poder&aacute; ainda o leitor estranhar os ares pensativos
+com que o vemos?
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos passos andados, depois que saiu do
+Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das
+cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para
+elle. Era de Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda
+pelo caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma extensa carta, em que se succediam os
+periodos em um d'esses longos, incoherentes e diffusos
+arrazoados, que constituem a essencia de uma
+carta de amigo para amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[105]</span>
+Angelo falava dos seus estudos, de saudades da
+terra, de esperan&ccedil;as e de projectos, projectos que,
+n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o instante.
+Terminava esta carta, em que lhe participava
+a sua vinda &aacute; aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pe&ccedil;o-lhe que diga &aacute; Lindita que se
+n&atilde;o esque&ccedil;a
+de mim. Dentro de poucos dias conto ir v&ecirc;r
+os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a
+agua do po&ccedil;o. O pae d'ella chega ahi ao mesmo
+tempo que esta carta; leva um livro para si.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto sorriu, ao ler o
+<em>post-scriptum</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre Angelo!&#8213;murmurou elle,&#8213;Deus n&atilde;o
+permitta que sobreviva &aacute; tua ultima creancice essa
+sympathia por Ermelinda. Estas generosas
+affei&ccedil;&otilde;es
+de crean&ccedil;a muitas vezes, ao crescer, envenenam o
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia tanta amargura n'estas reflex&otilde;es de Augusto!
+<br />
+
+<br />
+
+E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa
+do recoveiro Cancella, que era o pae da pequena, a
+quem na carta se alludia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VII
+</h4>
+
+<br />
+
+A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das
+mais estreitas ruas da aldeia e ao lado de um pequeno
+quintal, objecto dos cuidados e das divers&otilde;es
+do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis
+da sua occupada e laboriosa vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia.
+A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas;
+pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o &aacute;manh&atilde;
+j&aacute; a mais de seis leguas de distancia; acotovelava
+um dia a multid&atilde;o nas ruas e feiras da cidade; no
+<span class="pagenum">[106]</span>
+outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes
+entrever os thesouros da experiencia adquirida
+&aacute; custa de muitos annos de fadigas.
+<br />
+
+<br />
+
+As estradas em Portugal e os novos meios de
+transporte, que conjunctamente vieram, n&atilde;o destruiram
+totalmente esse typo dos antigos tempos, anterior
+a ellas. Al&eacute;m da &eacute;poca, que parecia dever
+marcar-lhes limite &aacute; existencia, passaram, sustentados
+pela f&ocirc;r&ccedil;a dos habitos e justificados pelas
+irregularidades
+do servi&ccedil;o das postas; e Deus sabe
+quando de vez acabar&atilde;o. Mas Cancella era al&eacute;m
+d'isso um recoveiro de uma especie rara e superior.
+Em todas as profiss&otilde;es ha sempre, no meio do vulgo,
+que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia
+dos g&ocirc;sos, superiores aos interesses, que ellas
+podem offerecer, certo grupo de escolhidos, que as
+idealisam, e enxergam um raio de poesia atrav&eacute;s
+das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella
+era d'estes; era o poeta da sua profiss&atilde;o. Tinha em
+si o que quer que era de um
+<em>touriste</em>, e assim aproveitava
+todos os ensejos que se lhe offerecessem de
+explorar algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa.
+As muitas rela&ccedil;&otilde;es do conselheiro, pae de
+Magdalena,
+com as familias da aldeia, e a barateza relativa
+das recovagens operadas por este meio primitivo,
+proporcionavam-lhe algumas occasi&otilde;es d'isso, as
+quaes o Cancella de boamente aproveitava. Era de
+uma d'essas expedi&ccedil;&otilde;es que elle devia voltar
+aquella
+manh&atilde;, como o dava a entender a carta de Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando por&eacute;m Augusto lhe bateu &aacute; porta, achou-a
+ainda fechada; escutou &aacute; fechadura, mas n&atilde;o
+p&ocirc;de
+verificar o menor signal de que alguem estivesse
+dentro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; c&ecirc;do ainda&#8213;pensou comsigo.&#8213;Vejamos
+se estar&aacute; em casa do compadre.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.&#8213;A
+poucos passos mais, e do lado opposto, deparou-se-lhe
+<span class="pagenum">[107]</span>
+outra casa de aspecto n&atilde;o menos rustico
+do que a primeira, uma pequena casa terrea, de
+uma s&oacute; porta e uma s&oacute; janella, e com o respectivo
+quintal ao fundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Do interior vinha um sussurro de vozes, como de
+conversa animada; julgando que seria o Cancella,
+de quem o proprietario era, al&eacute;m de vizinho, confidente
+e compadre, Augusto empurrou a porta, que
+estava apenas cerrada e entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento
+quadrado, todo adornado &aacute; volta de cruzes de pau,
+para as devo&ccedil;&otilde;es da via sacra, e de imagens de
+santos
+e santas em caixilhos de todos os tamanhos.
+Mais do que os outros enramalhetado e enfeitado,
+via-se alli o bento registo de uma confraria, havia
+pouco tempo instituida na terra pelos missionarios,
+o qual occupava o logar de honra n'aquella devota
+exposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta
+confraria, sociedade um tanto mysteriosa, por meio
+da qual seus interessados instituidores s&oacute; visavam
+a dar o reino do c&eacute;o aos filiados, contentando-se
+<em>apenas</em>, em paga, com o do mundo, do
+qual, lembrados
+de antigos tempos, teem saudades j&aacute;. Os
+missionarios, certos evangelisadores em terras onde
+a palavra do Evangelho n&atilde;o &eacute; chave que abra a
+porta, pela qual entraram os martyres no c&eacute;o, l&aacute;
+andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa
+a ac&ccedil;&atilde;o d'esta historia, plantando a vinha, que
+elles
+chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando
+os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto catholico
+era por elles cada vez mais arrebicado com
+ora&ccedil;&otilde;es absurdas e ceremonias ridiculas, e o
+eterno
+anathema da ignorancia contra o progresso da sociedade
+servia de thema predilecto aos seus barbaros
+discursos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ardente proselyta d'estes apostolos de f&eacute; duvidosa,
+a sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o Baptista,
+a metade feminina do casal em quest&atilde;o, tom&aacute;ra
+<span class="pagenum">[108]</span>
+por modo de vida as devo&ccedil;&otilde;es da
+igreja, onde
+ia chorar as desgra&ccedil;as da humanidade, que t&atilde;o
+f&oacute;ra
+via andar da estrada direita.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando
+a alcova conjugal, que era vedada aos olhares
+profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas
+ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia
+&aacute; cozinha d'onde lhe continuava a chegar aos ouvidos
+o som de vozes, que primeiro o attrahira.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao contrario do que esperava, por&eacute;m, s&oacute; uma
+pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse
+com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta pessoa era o dono da casa, o sr. Jos&eacute; do
+Enxerto, ou vulgarmente chamado ti' Z&eacute; P'reira&#8213;nome
+que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento,
+o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem
+ainda hoje aquelle nome.&#8213;Era muito para v&ecirc;r e
+admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia
+tocar nas festas e arraiaes, &aacute; frente das
+prociss&otilde;es
+e c&ecirc;rcos, e finalmente em todas as solemnidades
+publicas.
+<br />
+
+<br />
+
+O ti' Z&eacute; P'reira era homem dos seus quarenta e
+tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz,
+vestigios evidentes das suas sympathias pela
+divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo
+da sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o
+Baptista, vivia em perenne sabatina com a sua cara
+metade, sujeitando-lhe todas as suas ac&ccedil;&otilde;es, mas
+salvando sempre o direito de protestar pela palavra.
+Ganhava a vida no officio de hortel&atilde;o e, aos
+domingos e dias de festa, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de
+rufos e pancadaria
+na retesada pelle do seu companheiro inseparavel&#8213;o
+zabumba. Era aos cuidados e vigilancia
+d'este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava
+o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda,
+uma mimosa crean&ccedil;a, que lhe fic&aacute;ra &aacute;
+sua
+viuvez t&atilde;o cheia de saudades, e a quem elle mais
+queria do que &aacute; menina dos olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+Ermelinda era afilhada da familia Z&eacute; P'reira, e a
+mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim
+da carta.
+<br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira estava, como diss&eacute;mos, s&oacute;
+na cozinha,
+quando Augusto alli chegou: sentado, no meio da
+sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para
+o ar, viradas as costas para a porta e a face para
+o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava
+de tom desde a nota mais grave e rouca da sua
+escala de barytono, at&eacute; o mais agudo e desafinado
+falsete. A lingua pegava-se-lhe ao c&eacute;o da b&ocirc;ca,
+difficultando-lhe suspeitosamente a articula&ccedil;&atilde;o
+de
+algumas syllabas; era evidente que se aposs&aacute;ra do
+hortel&atilde;o o espirito familiar, o qual n'este caso, era
+um verdadeiro espirito, na accep&ccedil;&atilde;o chimica do
+termo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ze P'reira era um homem baixo, j&aacute; grisalho, sufficientemente
+nutrido, de olhos vesgos e que mais
+vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto
+artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas
+que pareciam tentar sumir-se-lhe pela b&ocirc;ca dentro;
+tinha longos bra&ccedil;os, accommodados &aacute;s
+difficuldades
+e evolu&ccedil;&otilde;es da sua arte, e pernas que,
+do joelho para baixo, lhe divergiam em angulo de
+mais de trinta graus.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto deu com elle, o homem monologava,
+gesticulando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!...
+&Eacute; forte desgra&ccedil;a!... Aqui estou eu!...
+Um homem casado... casado &aacute; face da igreja...
+que me casou em dia de S. Thiago o abbade que
+foi... e que Deus tenha em descan&ccedil;o. N&atilde;o faltou
+nada... correram-se banhos deante de quem os
+quiz ouvir, e n&atilde;o houve quem puzesse impedimento...
+porque eu n&atilde;o devia nada a ninguem...
+sempre fui liso de contas... Sou casado com a
+Catharina do Nascimento de S. Jo&atilde;o Baptista, filha
+do Antonio Canhestro, do logar dos F&oacute;jos... E
+casado para qu&ecirc;? Faz favor de me dizer? Para que
+<span class="pagenum">[110]</span>
+casei eu?... Forte desgra&ccedil;a a minha! Casei-me
+para isso!... Para vir para casa e achal-a vazia,
+o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher
+a papar missas e novenas l&aacute; por essas igrejas...
+Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!
+&Eacute;
+forte desgra&ccedil;a!... Bem morria eu de frio e de fraqueza,
+se n&atilde;o f&ocirc;sse aquelle quartilhito... o ultimo,
+que sempre me deu sua aquella... sim... sempre
+me conchegou o estomago. N&atilde;o que dizem que o
+vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois
+casem-se com uma mulher que v&aacute; de madrugada
+para a igreja e venha de l&aacute; quando muito bem lhe
+pare&ccedil;a, e ver&atilde;o depois se o vinho n&atilde;o
+serve de cobrir
+muita lazeira que se soffre... ver&atilde;o depois...
+Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!...
+Diz que Deus que disse, que a mulher que era a
+carne da nossa carne e o osso do nosso osso...
+Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas
+coisas... para n&atilde;o esquecerem... como se faz na
+escola com a taboada. A minha Cath'rina j&aacute; o
+n&atilde;o
+sabe, aposto... e pelos modos os padres n&atilde;o lhe
+dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A
+carne da minha carne e o osso do meu osso!...
+mas &eacute; carne e osso que me n&atilde;o fazem caldo...
+Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!...
+Como ha de um homem, se isto assim continua,
+pegar na enxada para dar uma cavadela, ou fazer
+qualquer sachada?... E tambem quero v&ecirc;r como
+hei de no arraial e prociss&atilde;o de Santo Amaro, que
+n&atilde;o tarda ahi, dar sequer um
+rufo assim mais
+tal... assim mais scientifico? Eu se f&ocirc;sse bispo...
+<br />
+
+<br />
+
+A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida
+pela appari&ccedil;&atilde;o de nova personagem &aacute;
+porta do quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha
+um bocadinho de paciencia. &Eacute; um instante emquanto
+accendo o lume e lhe fa&ccedil;o o caldo. Ver&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha,
+era uma rapariga de doze annos, alva e franzina,
+<span class="pagenum">[111]</span>
+como a mais delicada crean&ccedil;a da cidade, com
+os olhos negros e expressivos de intelligencia e de
+do&ccedil;ura, e com os mais formosos cabellos louros
+que ainda enfeitaram uma cabe&ccedil;a infantil. N&atilde;o
+havia
+n'elles sombra, que desvanecesse aquella c&ocirc;r
+deslumbrante; reflectia-se-lhes a luz nas ondas,
+naturalmente lustrosas, como em tenuissimos fios
+de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre
+de artificio, de um e de outro lado do collo.
+<br />
+
+<br />
+
+Condizia com a express&atilde;o angelica do semblante
+o suave e affectuoso timbre de voz com que fal&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor prev&ecirc; de certo que &eacute; Ermelinda, a filha
+do Cancella, ou Lindita, como geralmente na aldeia
+lhe chamavam, a crean&ccedil;a que tem na sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda sobra&ccedil;ava um m&oacute;lho de
+hortali&ccedil;a,
+que f&ocirc;ra colher ao quintal, e dirigia-se com ella
+para o lar, que o descuido e a indifferen&ccedil;a conjugal
+deixavam ainda apagado &aacute;quella hora do dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Dando, por&eacute;m, com os olhos em Augusto, parou,
+sorrindo-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu
+padrinho talvez sem reparar.
+<br />
+
+<br />
+
+A estas palavras o desditoso marido voltou a
+cabe&ccedil;a e fitou em Augusto um dos seus desemparelhados
+olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem!
+Entre; esta casa &eacute; sua... De jantar n&atilde;o lhe
+offere&ccedil;o...
+porque... porque... Forte desgra&ccedil;a a
+minha... Olhe! repare para este desaforo!...
+Venho para casa, morto de trabalho... e vejo o
+lar apagado! A minha mulher est&aacute; a ouvir missa,
+a confessar-se, a commungar... a tomar todos os
+sacramentos... acho que os est&aacute; a tomar todos...
+Louvado seja Deus! Vem ahi t&atilde;o limpa de
+consciencia,
+como eu estou do estomago... Ora, senhores...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe estar, padrinho... Ver&aacute; como isto se
+arranja depressa... Olhe; o lume j&aacute; est&aacute;
+acc&ecirc;so&#8213;dizia
+<span class="pagenum">[112]</span>
+Ermelinda, accendendo effectivamente o lume
+no lar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; o devias ter feito antes, Lindita,&#8213;disse
+Augusto, sentando-se junto d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se inda agora vim das pr&ecirc;sas, onde fui
+lavar a roupa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre pequena&#8213;disse o Z&eacute; P'reira&#8213;tambem
+n&atilde;o te ha de faltar lazeira, tambem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? Agora. N&atilde;o que eu n&atilde;o sa&iacute; de
+casa
+com as algibeiras vazias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... mas &eacute; sempre preciso coisa que
+conforte... Inda se tu bebesses... j&aacute;
+n&atilde;o digo
+um quartilho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Credo, meu padrinho! Que est&aacute; a dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que espanto!... Ora, senhores, que parece que
+o vinho &eacute; bebida amaldi&ccedil;oada, que todos lhe teem
+m&ecirc;do! &Eacute; v&ecirc;r se o padre na missa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Padrinho! padrinho! que vae dizer?&#8213;interrompeu
+Ermelinda, quasi aterrada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo o que &eacute; verdade, rapariga!... Tenho
+minha presump&ccedil;&atilde;o de nunca dizer sen&atilde;o
+a verdade...
+L&aacute; o pespeguei na cara do sr. juiz de direito
+e mais do sr. doutor delegado e mais doutores,
+quando fui a um juramento, por causa d'aquellas
+pancadas no recebedor... &Eacute; que nenhum d'esses
+santalh&otilde;es, d'esses missionarios me teem que
+ensinar n'esse ponto... Os missionarios!... Eu,
+um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao
+trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem
+no pulpito, se Deus lhes manda que tirem as
+mulheres de casa, para que os maridos n&atilde;o tenham
+que comer, quando voltarem do trabalho... Um
+dia inda lhes vou perguntar... isso vou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe; a agua n&atilde;o tarda a ferver; ver&aacute;
+que
+dentro em pouco...&#8213;continuou Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, Lindita, bem&#8213;disse Augusto&#8213;em paga
+da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma
+alegre nova.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? Diga.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+&#8213;Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias
+te dar&aacute; em vez de visitas, um abra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como adivinhaste depressa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois de quem mais havia de ser? Mas diz
+que... em poucos dias... Ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tel-o-hemos c&aacute; pelo Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fala verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;?&#8213;respondeu a rapariga, fitando por&eacute;m
+o papel com os olhos cheios de curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora l&ecirc;, l&ecirc;... At&eacute; para v&ecirc;r
+se ainda te recordas
+das li&ccedil;&otilde;es, que eu te dei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, l&aacute; isso... mas, o caldo do meu padrinho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa que o lume &eacute; que o ha de aquecer e n&atilde;o
+a tua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda approximou-se; tomando a carta das
+m&atilde;os de Augusto, come&ccedil;ou a l&ecirc;l-a com
+intensa
+curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira proseguiu no seu monologo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A religi&atilde;o, senhores&#8213;dissertava elle&#8213;n&atilde;o
+manda tal... Isso &eacute; que n&atilde;o manda... A
+religi&atilde;o
+&eacute; a palavra de Deus... e Deus disse... sim...
+Deus disse... Deus disse muita coisa... Disse que
+por este deixar&aacute;s pae e m&atilde;e. Ora a santa madre
+igreja &eacute; m&atilde;e, &eacute;, sim, senhores; que
+tem l&aacute; isso?
+mas n&atilde;o &eacute; mais m&atilde;e do que a outra
+m&atilde;e... e ent&atilde;o...
+senhores, uma mulher n&atilde;o deve deixar por
+ella o seu marido; porque o marido, senhores, &eacute; o
+tudo de uma casa, e o ganhap&atilde;o da familia. Ora,
+senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O monologo do desconsolado conjuge e a leitura
+de Ermelinda foram interrompidos por uma voz
+potente, que cantava na rua.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">O dinheiro paga tudo,<br />
+
+N&atilde;o se fica a dever nada;<br />
+
+Toma, toma o lim&atilde;o verde,<br />
+
+&Oacute; da fresca limonada.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span>
+E logo em seguida estalaram as taboas do soalho
+no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e
+no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura
+agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da
+Ermelinda. Cancella, ou o Jo&atilde;o Herodes, que assim
+tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos
+em que era actor applaudido e popular, o typo do
+sanguinario e infanticida rei da Jud&eacute;a, f&ocirc;ra pela
+natureza
+dotado de uma estatura e robustez, dignas
+de Adamastor.
+<br />
+
+<br />
+
+Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas
+realisa&ccedil;&otilde;es
+dos temperamentos sanguineos que, sem
+amea&ccedil;arem de insultos apopleticos, d&atilde;o riqueza ao
+sangue, vigor aos musculos e &aacute; physionomia o aberto
+e colorido da saude e os reflexos da satisfa&ccedil;&atilde;o
+interior.
+<br />
+
+<br />
+
+A barba negra e espessa cercava-lhe as faces
+c&oacute;radas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado
+sob o duplo arco de bastas sobrancelhas,
+que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras
+amea&ccedil;adoras, d'onde fuzilavam relampagos. Era formidavel
+ent&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+O riso pairava-lhe por&eacute;m, nos labios, quando na
+presen&ccedil;a de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras
+de alvissimos e bem dispostos dentes, d'esses que
+os excessos e absurdos culinarios ainda n&atilde;o deterioraram.
+<br />
+
+<br />
+
+Parando &aacute; porta da cozinha, o Herodes (&aacute;s vezes
+lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume
+na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais
+que tudo trazia na memoria&#8213;a filha.&#8213;Esta, pela
+sua parte, mal o reconheceu, correu a lan&ccedil;ar-se-lhe
+nos bra&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+O pae pegou n'ella, como se f&ocirc;sse uma penna,
+levantou-a &aacute; altura dos labios e pousou-lhe nas faces
+dois s&ocirc;fregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes
+de todo aquelle intenso amor paternal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;exclamou, pousando-a no ch&atilde;o e respirando
+como quem acabava de satisfazer uma intensa
+<span class="pagenum">[115]</span>
+necessidade do cora&ccedil;&atilde;o.&#8213;Isto consola que nem o
+copo de agua que a gente, em dias de calma, pede
+&aacute; borda da estrada, quando se leva a b&ocirc;ca secca
+e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem
+estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?...
+&Oacute; sr. Augusto! tambem por c&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava-o, Cancella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim?&#8213;continuou o homem, pousando no
+ch&atilde;o uma mala que trazia.&#8213;Pois aqui me tem. Mas,
+dizia eu, um homem quando anda l&aacute; f&oacute;ra, e pensa
+no que lhe ir&aacute; por casa, sente &aacute;s vezes uns
+sustos,
+que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgra&ccedil;as,
+para succederem, n&atilde;o p&otilde;em muito... De
+um momento para outro... E depois a gente ouve
+por l&aacute; conversas, v&ecirc; coisas que parece que
+s&atilde;o
+agouros... e que nos fazem a noite no cora&ccedil;&atilde;o...
+Umas vezes &eacute; um enterro... outras, um desastre...
+um fogo... um... E as crean&ccedil;as s&oacute;s, e os paes
+f&oacute;ra de casa!... Ai! Isto &eacute; de ralar o
+cora&ccedil;&atilde;o de
+uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia
+me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante l&aacute; a
+sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram j&aacute;
+hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, &eacute; homem
+de bem: a comadre &eacute; uma santa, que s&oacute; tem o
+defeito
+de querer ser santa dev&eacute;ras... mas emfim...
+tudo isso n&atilde;o obsta; uma coisa &eacute; uma pessoa saber
+o que lhe vae por casa, outra... Tremem-me as
+pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma
+de Christo, que encontro, estou sempre a v&ecirc;r quando
+me vem dar alguma nova m&aacute;. Salta-me c&aacute; por dentro
+o cora&ccedil;&atilde;o, que ninguem faz uma ideia; eu bem
+canto a v&ecirc;r se disfar&ccedil;o, mas... Ai, filha da minha
+alma, quando me passa pelo pensamento que te
+posso um dia vir achar doente!... Assim me succedeu
+com tua m&atilde;e... Deixei-a uma vez t&atilde;o satisfeita
+e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa
+que encontro, diz-me &aacute; queima-roupa: &laquo;Venha,
+sr. Jo&atilde;o, venha, que j&aacute; n&atilde;o vem sem
+tempo. Corra
+a casa, se ainda quer v&ecirc;r sua mulher...&raquo; Foi como
+<span class="pagenum">[116]</span>
+se recebesse uma descarga em cheio no peito...
+corri, e...
+<br />
+
+<br />
+
+A commo&ccedil;&atilde;o impediu-o de continuar;
+disfar&ccedil;ou
+como envergonhado d'aquella fraqueza, beijando a
+filha outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda percebeu a perturba&ccedil;&atilde;o do pae e
+disse-lhe
+carinhosamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que est&aacute; agora a pensar n'essas coisas
+que o affligem, meu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-me c&aacute;, rapariga. Isto &aacute;s vezes tambem
+faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te
+vejo, pequena, e te vejo com boas c&ocirc;res e alegre...
+nem eu sei o que tem m&atilde;o em mim, que n&atilde;o me
+ponho a dan&ccedil;ar. Ah!... ah!... Ninguem tem uma
+filha como eu! Olhe que n&atilde;o, sr. Augusto; mal fica
+a mim dizel-o, mas... L&aacute; por Lisboa e por o Porto
+ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha
+loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados?&#8213;e
+passava com orgulho os dedos pelos bastos
+cabellos de Ermelinda&#8213;mas uma pelle assim
+delicada,&#8213;e afagava-lhe com as m&atilde;os a face, quasi
+a m&ecirc;do&#8213;mas olhos assim a metterem-se mesmo
+pelo cora&ccedil;&atilde;o &aacute; gente?&#8213;e beijava-lh'os
+com paix&atilde;o&#8213;isso
+&eacute; que eu ainda n&atilde;o vi, nem tenho de
+v&ecirc;r.
+Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um
+selvagem como eu, &eacute; que n&atilde;o sei... &Eacute; a
+imagem
+da m&atilde;e!... Ella tambem era poucochinho de si...
+miudinha e... Mas n&atilde;o pensemos n'estas coisas.
+Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal
+com a minha vida por arranjar e eu posto &aacute; taramela.
+Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e
+muitos recados, muitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei; Angelo escreveu-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle!
+Aquillo &eacute; uma perola! Com tres milheiros de demonios
+do inferno! d'alli ha de sair coisa grande. Eu
+n&atilde;o queria morrer sem v&ecirc;r o que sa&iacute;a
+d'alli. Brinca
+como uma crean&ccedil;a, mas, quando quer, p&otilde;e-se
+s&eacute;rio,
+e fala como homem. E nada de soberbas, nem de
+<span class="pagenum">[117]</span>
+ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da
+cidade, quando conversam com uma pessoa rustica...
+Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta...
+isso &eacute; um nunca acabar, quando l&aacute; me
+pilha... Ent&atilde;o como vae fulano? e sicrano? e se
+j&aacute;
+se fez aquella casa, e se j&aacute; acabou aquella obra, e
+se j&aacute; casou este, e se inda vive aquelle, e mais para
+aqui, e mais para acol&aacute;, e tudo quer muito explicado...
+Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois
+c&aacute; a respeito da rapariga?... Isso &eacute; uma
+comedia!...
+N&atilde;o se farta de me ouvir falar d'ella... Ah,
+sr. Augusto, &aacute;s vezes chego a ter pena de que isto
+nascesse minha filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, filha,&#8213;proseguiu elle.&#8213;Deus n&atilde;o te devia
+dar a um homem como eu, que emfim... Com
+os diabos! l&aacute; alma e cora&ccedil;&atilde;o...
+n&atilde;o quero que
+haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um
+amigo... e com mil demonios, at&eacute; por um inimigo,
+se n&atilde;o f&ocirc;r soberbo, vamos l&aacute;, dou a
+camisa do corpo...
+Mas o mundo... Bem, bem, eu c&aacute; me entendo.
+Vamos &aacute; minha tarefa. Mas que tem voc&ecirc;
+estado para ahi a pr&eacute;gar, compadre, desde que eu
+entrei? Humh! humh! parece-me que j&aacute; se cantou
+a gloria, hoje, visto que j&aacute; se est&aacute; ao
+serm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente Z&eacute; P'reira tinha apenas concedido
+ao seu compadre um olhar de distrac&ccedil;&atilde;o e um aceno
+de m&atilde;o, e volt&aacute;ra de novo &aacute;s suas
+queixas amargas
+contra a sorte e contra a esposa.
+<br />
+
+<br />
+
+Interrogado pelo Herodes, Z&eacute; P'reira reproduziu
+uma das suas lamenta&ccedil;&otilde;es; o compadre, emquanto
+desenfardelava a mala, ia cortando com reflex&otilde;es
+proprias essa longa jeremiada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo,
+hein? &Eacute; mal feito, a falar a verdade. Lume apagado
+em casa de familia &eacute; coisa triste... Aqui est&aacute; um
+livro para si, sr. Augusto... Mas deixe l&aacute;, compadre,
+que a minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas
+ber&ccedil;as... Tambem eu estou em jejum desde
+<span class="pagenum">[118]</span>
+as cinco horas da manh&atilde;... mas estes missionarios!
+Ah! com seiscentas mil duzias de demonios,
+eu ainda queria um dia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus nosso Senhor seja n'esta casa&#8213;disse
+uma voz gemida &aacute; porta da cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o demo na do abbade&#8213;resmungou Herodes.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o
+Baptista, typo de beata, que dispensa descrip&ccedil;&atilde;o,
+que regressava a casa depois de completar o cyclo
+das suas devo&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva a comadre!&#8213;disse o Jo&atilde;o Cancella, continuando
+a mexer na mala.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda foi beijar a m&atilde;o &aacute; madrinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto saudou-a affavelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+O marido obrigou o corpo a uma meia rota&ccedil;&atilde;o
+sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe,
+agitando os bra&ccedil;os e as m&atilde;os, espalmadamente
+abertas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulher dos meus peccados, mulher de n&atilde;o sei
+que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher!
+Isto n&atilde;o pode continuar assim, mulher! Eu
+n&atilde;o me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias
+na igreja, mulher!... Isto s&atilde;o preparos,
+mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo
+por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir
+nove missas por dia e uma duzia de novenas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te, cala-te,&#8213;retorquiu azedamente a devota
+metade do Z&eacute; P'reira&#8213;cala-te para ahi, desalmado.
+Excommungado seja o mafarrico, que assim
+me quer attentar logo que entro em casa! Olha
+l&aacute; que n&atilde;o morresses de fome! Est&aacute;s
+mal acostumado.
+Louvado seja Deus! J&aacute; n&atilde;o ha quem queira
+soffrer n'este mundo mortifica&ccedil;&otilde;es! cuidas que
+n&atilde;o
+tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira
+dar s&oacute; o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno.
+Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia!
+Ora que n&atilde;o ha de uma pessoa poder
+ter as suas devo&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o venha
+encontrar lamurias
+<span class="pagenum">[119]</span>
+em casa! &Oacute; minha rica M&atilde;e do
+c&eacute;o, seja
+para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo
+mau! E eu que deixei de rezar oito esta&ccedil;&otilde;es,
+que prometti &aacute; Senhora da Rocha, e vae... Ora
+digam como ha de esta gente cumprir os jejuns
+que manda a santa madre igreja, se, por duas horas
+de espera, j&aacute; se choram todos! Bemdito e louvado
+seja o sacratissimo cora&ccedil;&atilde;o de Maria!
+&Oacute; homem
+de Deus, e ent&atilde;o aquelles santos eremitas,
+que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lhes prestasse. Haviam de andar muito
+gordos. Eu queria-os v&ecirc;r com uma enxada a trabalhar
+todo o dia no campo, e que lhes dessem depois
+raizes para roer, a v&ecirc;r se gostavam. Ora, senhores,
+que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha! Mulher, a
+religi&atilde;o manda que olhemos pelo nosso cadaver. &Eacute;
+m&aacute; christ&atilde; a mulher que deixa o seu marido na
+penuria. Isto &eacute; que os padres deviam ensinar. Vae-lhes
+l&aacute; perguntar se, quando chegam a casa, n&atilde;o
+teem a s&ocirc;pa e o toucinho &aacute; espera d'elles?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te,
+tem vergonha n'essa cara. Olha agora! Eu queria
+v&ecirc;r-te com o trabalho do sr. padre Domingos.
+Coitadinho! desde as cinco horas da manh&atilde; at&eacute;
+agora a confessar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confessar &eacute; parolar; ora adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu est&aacute;s doido, alma perdida?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E cuidas que elle n&atilde;o leva marmelada nos bolsos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; chagas do seraphico S. Francisco, ainda
+mais terei de ouvir?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns
+ninguem engorda. S&oacute; os santos... de pau.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos&#8213;disse o Herodes, intervindo.&#8213;N&atilde;o
+vale zangarem-se por causa d'isso. A minha
+pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em
+santa paz e deixem-se de testilhas, que n&atilde;o &eacute;
+bonito;
+e muito menos entre marido e mulher. Voc&ecirc;,
+<span class="pagenum">[120]</span>
+compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos
+l&aacute;. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa
+tambem bastante tempo em devo&ccedil;&atilde;o; emquanto
+&aacute;
+comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus
+n&atilde;o &eacute; t&atilde;o difficil, que uma pessoa
+precise de estar
+tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu c&aacute; penso que,
+fazendo a gente aquillo que lhe diz o cora&ccedil;&atilde;o, e
+que
+n&atilde;o sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho
+direito. E mais vale fazer o que Deus manda,
+do que levar a vida a pedir perd&atilde;o por o n&atilde;o
+ter feito. E tambem n&atilde;o &eacute; bonito estarem agora as
+mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario,
+como lapas nos rochedos, nem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Compadre!&#8213;atalhou escandalisada a sr.<sup>a</sup>
+Catharina&#8213;compadre!
+&Eacute; essa a educa&ccedil;&atilde;o que d&aacute;
+&aacute;
+sua filha? S&atilde;o coisas que se digam deante de uma
+crean&ccedil;a de doze annos? Ande l&aacute;, ande
+l&aacute;... Ora
+Deus queira que lhe n&atilde;o encontre ainda o pago.
+Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse
+ensinar, a doutrina; que &eacute; mesmo uma vergonha o
+pouco que sabe d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda
+n&atilde;o deixa passar pobre &aacute; porta, a quem
+n&atilde;o d&ecirc; esmola; crean&ccedil;a que
+n&atilde;o afague; velho ou
+velha, que n&atilde;o corteje; reza todas as manh&atilde;s a
+ora&ccedil;&atilde;o,
+que a m&atilde;e lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria,
+onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus;
+de dia trabalha, como filha de pobre que &eacute;, e mulher
+de casa que ha de ser... O Senhor me perd&ocirc;e,
+se mais &eacute; preciso ainda, que mais n&atilde;o sei eu
+ensinar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha soberbas, compadre, n&atilde;o tenha
+soberbas!
+E cautela com o mimo que d&aacute; &aacute; pequena,
+que &eacute; o que perde muitas almas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio
+de repentes &eacute; que hei de dar mimo a esta pobre
+crean&ccedil;a, que nem o da m&atilde;e conheceu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora diga, compadre, acha que &eacute; muito bem
+feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses
+<span class="pagenum">[121]</span>
+cabellos soltos? N&atilde;o sabe que o demonio...
+cruzes! arma com elles la&ccedil;os &aacute;s almas das
+creaturas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fracas pris&otilde;es s&atilde;o as do diabo, se as forja
+s&oacute;
+de cabellos!... Ent&atilde;o, por causa das
+tenta&ccedil;&otilde;es &eacute;
+que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas!
+&Eacute; teima velha! Eu j&aacute; lhe disse, comadre:
+Deus, que deu &aacute; pequena esses cabellos t&atilde;o
+bonitos,
+&eacute; porque lh'os quiz dar. Se quizer, que lh'os tire,
+eu &eacute; que n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus cerca-nos de tenta&ccedil;&otilde;es, para que
+n&oacute;s as
+ven&ccedil;amos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Forte tenta&ccedil;&atilde;o venceu a comadre! aposto que
+os n&atilde;o cortaria assim, se os tivesse como os da
+minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos &aacute; minha
+filha, eu?! fazer d'aquella cabe&ccedil;a de cherubim uma
+d'essas cabe&ccedil;as tosquiadas, que por ahi andam!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez ainda se arrependa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, comadre. O que eu vejo &eacute; que, junto
+de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha
+pequena, e n&atilde;o figuras... respeitaveis, como a
+da comadre; ora ent&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+A beata, apesar de trazer sempre na memoria o
+<em>Vanitas vanitatum</em> do
+<em>Ecclesiastes</em>, n&atilde;o foi
+inteiramente
+insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe
+o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe
+como para descarregar sobre ella a m&aacute; vontade
+com que estava ao pae:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sae-te p'ra l&aacute;. O senhor meu homem tinha
+muita pressa de jantar! Deixar assim uma crean&ccedil;a
+fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um
+boi! &Eacute; preciso n&atilde;o ter consciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar
+o dicto.
+<br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira monologava ainda. Augusto continuava
+examinando o livro recebido.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo
+d'aquella crean&ccedil;a, que era de uma
+organisa&ccedil;&atilde;o nervosa,
+excepcional na aldeia, exercia a beata uma
+<span class="pagenum">[122]</span>
+especie de fascina&ccedil;&atilde;o, um mixto de respeito e de
+terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus
+labios infantis. Era outra na presen&ccedil;a da madrinha,
+fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os
+bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o
+movimento dos labios austeramente contrahidos;
+tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando
+nas penas do inferno; chorava &aacute; menor reprehens&atilde;o
+que d'ella recebia, e comtudo amava-a,
+amava-a, porque Ermelinda na sua candura de
+crean&ccedil;a, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe,
+como virtudes beatificantes, os defeitos da
+devota velha; a innocente julgava-se uma grande
+peccadora quando, depois de ter na mente aquelle
+perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo
+da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados
+l&aacute; encontrava! Uma pequena mentira que
+dissera; um domingo em que faltou &aacute; missa; um
+juramento que, sem o sentir, lhe saira da b&ocirc;ca;
+um jejum que n&atilde;o guard&aacute;ra, e outros crimes da
+mesma f&ocirc;r&ccedil;a. A amedrontada crean&ccedil;a
+chegava a
+receiar pela salva&ccedil;&atilde;o da alma.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sempre funesta a influencia que exercem sobre
+a infancia os caracteres como os da beata.
+<br />
+
+<br />
+
+O Herodes percebeu a impress&atilde;o sob a qual estava
+a filha e acudiu-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Toma l&aacute;, Ermelinda&#8213;disse elle, tirando da
+mala uma pequena medalha com um retrato.&#8213;&Eacute;
+um presente do nosso amigo Angelo para n&oacute;s, ou
+antes, para ti...
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda pegou no retrato com n&atilde;o reprimido
+alvoro&ccedil;o. Era outra vez a crean&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+A madrinha lan&ccedil;ou para a medalha um olhar
+obliquo e reconheceu o retrato.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em nome do Padre e do Filho e do Espirito
+Santo!&#8213;rompeu ella, com um espanto exaggerado.&#8213;Este
+homem n&atilde;o tem a cabe&ccedil;a no seu logar, por
+mais que me digam! Elle quer perder a filha de
+certo! A fazer a cabe&ccedil;a doida a uma crean&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com
+impeto a mala no ch&atilde;o, e com os olhos chammejantes
+e as faces injectadas, vociferou, cedendo o
+campo &aacute; c&oacute;lera, que se lhe accumulou no seio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com seiscentos milh&otilde;es de diabos! Voc&ecirc; que
+est&aacute; ahi a dizer, mulher? S&atilde;o os
+serm&otilde;es dos missionarios,
+que lhe teem assim afiado a lingua e deitado
+pe&ccedil;onha na baba? Com effeito! Saiba que dou
+mais pela crean&ccedil;a, de quem &eacute; aquelle retrato, do
+que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados
+todas as semanas e por quantas beatas andam
+comsigo a dar marradas no lag&ecirc;do da igreja. Fazer
+a cabe&ccedil;a doida &aacute; minha filha! Tenha
+m&atilde;o na lingua,
+comadre, que lhe n&atilde;o soffro tanto. Doida lh'a
+trazem a vossemec&ecirc; os missionarios e os serm&otilde;es.
+Seu marido f&ocirc;ra eu, que a mania lhe tirava.
+<br />
+
+<br />
+
+O Z&eacute; P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos,
+zelava a dignidade do casal; e n&atilde;o levava &aacute;
+paciencia que outro, al&eacute;m d'elle, dissesse d'aquellas
+verdades &aacute; mulher; por isso, ouvindo-as, atrav&eacute;s
+dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se,
+e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando
+sempre, bradou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Compadre! Eu sei quaes s&atilde;o os meus deveres!
+Compadre, prudencia!... Compadre, eu n&atilde;o
+consinto... Ora, senhores, que &eacute; forte coisa! Compadre!...
+veja que eu &eacute; que sou aqui o chefe da
+familia e esta &eacute; minha mulher! Pschiu... Basta...
+Compadre... basta. Ent&atilde;o? Ora, senhores.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o Herodes j&aacute; nada attendia; cada vez mais
+lhe crescia a vermelhid&atilde;o nas faces; a
+irrita&ccedil;&atilde;o rompera
+os diques da cordura e amea&ccedil;ava engrossar
+cada vez mais. &Aacute;s exclama&ccedil;&otilde;es de
+Z&eacute; P'reira respondia
+j&aacute; azedamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus, temos conversado... Seja homem,
+que bem precisa... N&atilde;o basta dar &aacute; lingua... Na
+taberna n&atilde;o &eacute; que se governa a casa...
+<br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Catharina abstinha-se agora
+prudentemente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+Ermelinda, pallida, a tremer, abra&ccedil;ou o pae, quasi
+chorando.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, que f&ocirc;ra alheio ao principio da contenda,
+conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe
+difficil a empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um
+o sangue, a outro o vinho.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os.
+Deram-se mutuas satisfa&ccedil;&otilde;es, e separaram-se
+apertando as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto retirou-se com Jo&atilde;o Cancella e Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+O par conjugal ficou, renovando-se c&ecirc;do entre
+elles a interminavel contenda em que viviam.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VIII
+</h4>
+
+<br />
+
+Saindo de casa do Z&eacute; P'reira, Augusto teve de
+escutar, ainda por muito tempo, as vocifera&ccedil;&otilde;es e
+pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
+do compadre, que assim deix&aacute;ra a mulher tomar
+sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil.
+Augusto ouviu tudo com resignado silencio e
+atten&ccedil;&atilde;o um pouco distrahida, conseguindo emfim
+a custo soltar-se das m&atilde;os do seu interlocutor, que,
+no fogo da exposi&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o justos
+aggravos, lhe
+segurava os bra&ccedil;os com pouco affavel vivacidade;
+a final, por&eacute;m p&ocirc;de deixal-o e voltou a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto
+quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras
+e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
+<br />
+
+<br />
+
+Era alli o seu logar de descan&ccedil;o; a escola era
+em outra casa vizinha. N'esta n&atilde;o havia, a amargurar-lhe
+as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem
+as do supplicio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor
+da humanidade, s&oacute; entrev&ecirc;s delicias na tarefa do
+ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito
+infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez
+no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro
+de phantasia, perd&ocirc;a-me a palavra, supplicio,
+de que me servi, e perd&ocirc;a ainda mais ao caracter
+de Augusto o ter saido exacta a express&atilde;o, que te
+feriu os humanitarios instinctos.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu bem sei que &eacute; uma sublime miss&atilde;o a do mestre:
+e que &eacute; uma graciosa e amoravel idade a da
+infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
+presente o ideal de uma e amenisavam &aacute; outra com
+branduras os amargores do penoso tirocinio;&#8213;mas
+que importa? nem por isso &eacute; menos real o
+supplicio. A cultura dos espiritos &eacute; como a cultura
+das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer,
+vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco,
+os rebentos do gr&atilde;o que o calor fez germinar, e volverem-se
+as folhas, estenderem-se e enflorarem-se
+os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das
+tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto
+de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o
+terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados,
+muita vez lhe fallece o alento, e se olha de
+quando em quando para o c&eacute;o, n&atilde;o &eacute;
+para lhe agradecer,
+com risos os g&ocirc;sos que elle lhe d&aacute;; mas para
+lhe pedir, com lagrimas, a f&ocirc;r&ccedil;a que lhe
+ming&uacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+De igual modo, se &eacute; grato ao cultor das intelligencias
+o v&ecirc;l-as desenvolver, florir, fructificar; ardua,
+improba, desesperadora &eacute; muita vez a tarefa
+da sua primeira educa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; mister
+possuir um
+grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho
+typo, que da infancia concebemos, n&atilde;o se transtorne,
+na phantasia d'estas victimas d'ella, em n&atilde;o
+sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena
+todos os momentos de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'isso, o pobre professor de
+instruc&ccedil;&atilde;o primaria,
+sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos
+<span class="pagenum">[126]</span>
+da instruc&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pode ser
+comparado
+absolutamente ao agricultor do nosso simile; &eacute; antes
+o jornaleiro contractado por magro salario, para,
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de bra&ccedil;o, lavrar o
+solo, d'onde, mais tarde,
+romper&aacute; a vegeta&ccedil;&atilde;o, que elle
+n&atilde;o ter&aacute; de v&ecirc;r e que
+a outros conceder&aacute; os g&ocirc;sos e o beneficio. Venceu
+tambem o humilde professor, e por o mesmo pre&ccedil;o
+que o jornaleiro, que n&atilde;o v&atilde;o mais longe com elle
+as liberalidades dos nossos governos, venceu as
+maiores cruezas do magisterio; mas n&atilde;o ver&aacute;
+tambem
+o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias,
+que educou, justamente quando com
+mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva
+a qualquer d'essas intelligencias um futuro
+de glorias, raro &eacute; que volvam um olhar agradecido
+para as humildes m&atilde;os, que as sustentaram, quando
+ainda n&atilde;o tinham azas para voar.
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi todos os grandes homens commettem esta
+ingratid&atilde;o. Falam nos seus mestres de philosophia,
+de mathematica, de litteratura, e n&atilde;o salvam do
+esquecimento,
+pronunciando-o, o nome do primeiro
+mestre, do que os ensinou a ler.
+<br />
+
+<br />
+
+Considera&ccedil;&otilde;es da ordem das que acabamos de
+fazer, quero acreditar, n&atilde;o s&atilde;o as que mais
+preoccupam
+o pensamento da maioria d'esses pobres
+diabos, que, por noventa mil r&eacute;is annuaes, se deixaram
+ligar &aacute; atafona do ensino primario da aldeia;
+por&eacute;m devem ser, al&eacute;m das miserias de
+t&atilde;o mesquinha
+sorte, causas de grandes torturas moraes
+para alguma alma de instinctos e aspira&ccedil;&otilde;es mais
+elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo,
+a este poste de expia&ccedil;&atilde;o. N'esse caso estava
+por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que
+os livros abrem &aacute;s imagina&ccedil;&otilde;es, que na
+vida real
+n&atilde;o encontram deleite, refugiava-se elle nas horas
+em que as suas obriga&ccedil;&otilde;es lhe permittiam
+respirar.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta vez, por&eacute;m, por pouco tempo lhe foi dado
+saborear esse prazer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[127]</span>
+Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas
+e chamou-o de f&oacute;ra uma voz bem conhecida d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. Augusto, &oacute; meu querido sr. Augusto.
+<em>Amice!</em> Pode falar a um amigo e
+colega?&#8213;dizia
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto foi abrir-lhe a porta, n&atilde;o reprimindo um
+gesto de enfado.
+<br />
+
+<br />
+
+O latinista entrou esfregando as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado
+aos livros!&#8213;dizia elle, batendo no hombro a Augusto.&#8213;Invejo-lhe
+mais a pachorra do que o proveito.
+Olhe que n&atilde;o medra com isso; nem ninguem
+lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por
+dois dias que um homem passa c&aacute; n'este mundo,
+tolo &eacute; o que se mata. E ent&atilde;o n'este paiz!...
+Fa&ccedil;a
+como eu.
+<br />
+
+<br />
+
+E, imitando com a b&ocirc;ca os sons da trompa, seu
+instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros
+que via sobre a mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que estava lendo? que estava lendo?...
+Poh! poh! poh!... Versos... Ora que nunca pude
+gostar de versos!... Poh! poh!... E n&atilde;o &eacute; agora
+porque se diga que n&atilde;o tinha qu&eacute;da;
+n&atilde;o, senhores;
+em tempos fiz at&eacute; algumas quadras... Poh!
+poh!... j&aacute; se sabe, at&eacute; certa idade, mas nunca
+fui
+muito para ahi... Poh!... A minha voca&ccedil;&atilde;o
+&eacute; para
+a musica... Poh! poh!... L&aacute; para a musica,
+sim... Poh! poh! poh!... Herman e Doroth&eacute;a&#8213;continuava
+elle, examinando os livros.&#8213;Novellas...
+Poh!... E isto que &eacute;?
+<em>Confessions</em> de Rousseau&#8213;n'este
+nome deixou aos diphtongos o valor portuguez&#8213;Poh!
+poh! As Metamorphoses... Latim!
+Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!...&#8213;E o
+Ovidio, que lhe cheg&aacute;ra &aacute;s m&atilde;os, foi
+arremessado
+como se estivesse em braza.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o p&ocirc;de conservar-se s&eacute;rio,
+ante o instinctivo
+movimento de repuls&atilde;o do mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o que boa fortuna o traz por aqui, sr.
+Pertunhas?&#8213;perguntou elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade; eu lhe digo ao que venho. &Eacute;
+para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu
+bem sei que &eacute; abusar da sua bondade...
+<em>Quousque
+tandem, Catilina</em>... Mas, &eacute; por esta vez...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei; quer que lhe v&aacute; dar
+li&ccedil;&atilde;o aos rapazes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! grande magan&atilde;o, que adivinhou&#8213;exclamou
+o mestre, abra&ccedil;ando Augusto com
+effus&atilde;o.&#8213;&Eacute;
+isso mesmo, se lhe n&atilde;o custasse...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao
+ensaio da philarmonica... Percebe o senhor? Os
+Reis est&atilde;o ahi &aacute; porta e as outras festas do
+Natal, e
+n&atilde;o ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho
+ainda umas pe&ccedil;as do
+<em>Trovador</em> para ensinar &aacute;
+minha
+gente. S&atilde;o muito bonitas... Poh! poh! poh! E
+ent&atilde;o este anno, que pelos modos temos c&aacute; o
+conselheiro
+e mais o pequeno... N&atilde;o contando com
+esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se
+Henrique de Souzellas, &eacute; sobrinho da velha, da
+D. Doroth&eacute;a, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro.
+L&aacute; chamam-lhe primo. Esteve l&aacute; esta
+manh&atilde;
+um par de horas, logo que saiu da minha
+reparti&ccedil;&atilde;o.
+Dizem-me que &eacute; filhote de Lisboa, solteiro, rico
+e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida!
+Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente
+muito feliz! Aqui para n&oacute;s, sabe ao que me cheira
+a visita d'este senhor? Aquillo &eacute; mosca que vem
+ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
+d'isto. Pois n&atilde;o lhe parece, hein?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei bem o que quer dizer com a imagem&#8213;respondeu
+Augusto, levemente enfadado.&#8213;Al&eacute;m
+de que n&atilde;o posso adivinhar as
+inten&ccedil;&otilde;es de um homem
+que pela primeira vez encontrei esta manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; claro que n&atilde;o; nem eu; mas emfim
+uma pessoa logo tira pelo que v&ecirc;... Ora pois diga,
+um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa
+musica, <em>et coetera</em>, andar leguas e
+leguas para se
+<span class="pagenum">[129]</span>
+metter n'este desterro... Porque isto &eacute; um
+desterro. Sim, deve concordar que n&atilde;o &eacute; natural.
+Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, <em>et coetera</em>...
+O senhor
+bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o pre&ccedil;o ao
+dinheiro, meu amigo.<br />
+
+<br />
+
+A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
+Augusto, que n&atilde;o redarguia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, j&aacute;
+depois de &aacute;manh&atilde; vae o rapaz
+acompanhar as pequenas &aacute; ermida da Saude. Ah!... mas agora
+me lembro! o senhor &eacute; tambem da sucia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com certeza. Disse-m'o o Dami&atilde;o, que tem ordem das
+pequenas para o convidar. Se ainda n&atilde;o recebeu o recado, ha
+de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e ver&aacute; se eu tenho
+raz&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou jantar, sr. Pertunhas, que j&aacute; ha muito para isso me
+chamou a criada&#8213;disse Augusto, erguendo-se como para fugir
+&aacute;quella conversa.&#8213;Em seguida irei aos seus rapazes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v&aacute;, v&aacute;. Deus lhe pague o favor
+que me faz e permitta que eu lhe n&atilde;o pe&ccedil;a muitos
+d'estes. E eu tenho esperan&ccedil;as... Sabe que ando com ideias
+de arranjar o lugar de recebedor, que est&aacute;, como diz o
+outro, a encher dias? J&aacute; falei ao conselheiro; mas o
+conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que
+n&atilde;o tenha influencia em elei&ccedil;&otilde;es. O
+sr. Jo&atilde;ozinho das
+Perdizes interessa-se por mim, &eacute; verdade; mas, por outro
+lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a v&ecirc;r se
+consigo p&ocirc;r o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas
+v&aacute;, v&aacute; jantar, que eu espero.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se quizer fazer-me companhia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigado. Eu j&aacute; jantei. O meio dia &eacute; a
+minha hora. Jante &aacute; sua vontade.<br />
+
+<br />
+
+Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando s&oacute;,
+deu algumas voltas cantarolando, sentou-se
+<span class="pagenum">[130]</span>
+depois, e pegando na pasta de Augusto,
+poz-se a examinar os papeis que ella continha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo simulava umas varia&ccedil;&otilde;es de
+trompa, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de
+contrac&ccedil;&otilde;es e esgares dos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+A pasta, victima da indiscre&ccedil;&atilde;o do mestre, era a
+mesma que Augusto trazia, quando o vimos no
+Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os documentos contidos n'ella algum achou
+o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas
+e themas dos discipulos, pois, ao l&ecirc;l-o, desenhou-se-lhe
+no semblante a mais intensa curiosidade
+e cessou de todo a exhibi&ccedil;&atilde;o acustica, que
+com tanto ardor encet&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Leu-o at&eacute; o fim com crescente avidez; e depois,
+olhando em volta de si, para verificar que n&atilde;o era
+observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu
+no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no
+sitio d'onde a tir&aacute;ra, continuou a ler ou a fingir que
+lia com toda a atten&ccedil;&atilde;o um livro e encetou novas
+varia&ccedil;&otilde;es de trompa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o j&aacute;! Apre! Isso &eacute; jantar a
+vapor&#8213;disse
+o latinista, pondo-se a p&eacute;, logo que Augusto voltou.
+<br />
+
+<br />
+
+E momentos depois sairam juntos.
+<br />
+
+<br />
+
+Querendo poupar os leitores &aacute; semsaboria de assistir
+a uma li&ccedil;&atilde;o de latim e a um ensaio da
+philarmonica,
+deixal-os-hemos ambos, para voltarmos
+ao Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as
+duas primas sentadas ao parapeito do muro da
+quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos,
+a vista se espraiava em amplissimo horizonte
+at&eacute; umas nuvens, que pareciam limital-o.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias
+da sesta habitual. As crean&ccedil;as brincavam a alguma
+distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham
+como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas
+raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam
+em meditativo silencio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span>
+A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se
+estreitos e longos tra&ccedil;os nebulosos, a
+que o sol dava um colorido t&atilde;o ardente, que se o
+pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria,
+ao passal-o &aacute; tela, com receio de que o acoimassem
+de exaggerado. O verde dos campos apresentava a
+grada&ccedil;&atilde;o vigorosa, que a luz de um formoso dia de
+inverno costuma dar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina interrompeu o silencio por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu n&atilde;o sei&#8213;principiou ella&#8213;&eacute; como
+o primo Henrique de Souzellas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onze!&#8213;atalhou a morgadinha, sem desviar
+os olhos do ponto da perspectiva, que fitava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onze qu&ecirc;?&#8213;perguntou Christina, erguendo os
+d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com esta s&atilde;o onze as vezes que, esta tarde,
+depois de um longo silencio, abres a b&ocirc;ca para
+me falares no primo Henrique de Souzellas, uma
+vez que est&aacute; decidido que seja primo.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina fez um gesto de despeito e c&oacute;rou levemente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o que queres dizer com isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? Nada. Digo s&oacute; que s&atilde;o onze vezes com esta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabia que era prohibido falar-te no primo
+Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa.
+Est&aacute; um tempo muito bonito: nem parece dezembro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; vae magnifico para os nabaes&#8213;replicou
+Magdalena zombeteiramente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o mudar com a nova lua&#8213;continuou
+Christina, ainda formalisada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; excellente para seccar os milhos, que bem
+precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras
+baixas.
+<br />
+
+<br />
+
+E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha
+desatou a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei de que te ris!&#8213;acudiu Christina, cada
+vez mais s&eacute;ria.&#8213;Pois n&atilde;o &eacute; esta a
+conversa de
+que tu gostas?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[132]</span>
+&#8213;Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de
+lavoura; bem sabes.&#8213;E, mudando repentinamente
+de tom, accrescentou:&#8213;Ora vamos, Christe; n&atilde;o
+te zangues commigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mas &eacute; que &aacute;s vezes
+n&atilde;o te entendo, a falar
+verdade. Vens com umas coisas que mettem
+raiva&#8213;respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; estou arrependida; pe&ccedil;o perd&atilde;o.
+Fala l&aacute; &aacute;
+tua vontade no primo Henrique, fala; que eu n&atilde;o
+contarei as vezes que o fizeres.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o a tua generosidade, mas j&aacute;
+n&atilde;o tenho
+mais que dizer d'elle agora; por isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo menos completa a duzia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena! Ent&atilde;o! Olha que se continuas com isso,
+fazes-me sair d'aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre queria que te vissem agora, Christe,
+esses que andam por ahi a gabar a docilidade do
+teu genio, as branduras da tua indole; queria que
+te vissem essa cara arrenegada, para saberem que
+tambem ha um acidozinho na tal do&ccedil;ura... Mas
+fazes-me a gra&ccedil;a de s&oacute; para mim teres d'essas
+franquezas.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina sorriu, ainda que n&atilde;o de todo aplacada,
+ao ouvir esta reflex&atilde;o da prima.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o sabes a raz&atilde;o d'isso?&#8213;respondeu-lhe
+ella&#8213;a raz&atilde;o &eacute; o genio que tens, Lena. O teu
+g&ocirc;sto
+&eacute; mortificares uma pessoa. N&atilde;o ha santo que
+n&atilde;o
+perdesse a paciencia comtigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que injusti&ccedil;a! que ingratid&atilde;o! Eu, que sou a
+victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo
+te junta no cora&ccedil;&atilde;o a todo o instante! Se
+alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas
+para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar
+as tuas c&oacute;lerazinhas sobre a minha cabe&ccedil;a. E
+pagas-me
+assim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s muito infeliz commigo. Pobre Lena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu
+disse ha pouco. N&atilde;o te posso v&ecirc;r assim.&#8213;E tomando
+<span class="pagenum">[133]</span>
+um tom natural, mas sob o qual transparecia
+ainda certa malicia, Magdalena continuou:&#8213;Pois
+&eacute; verdade, dizias tu que n&atilde;o sabias por que o
+primo Henrique de Souzellas...
+<br />
+
+<br />
+
+Christina fez um movimento impaciente, como
+para levantar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que &eacute; isso? N&atilde;o me acceitas a
+expia&ccedil;&atilde;o?&#8213;perguntou
+Magdalena, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; n&atilde;o quero que se fale mais no sr. Henrique
+de Souzellas. Vejo que te n&atilde;o &eacute; agradavel que
+as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
+raz&otilde;es que tens para isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo! Foi admiravel de maldade o entono
+com que disseste esse: &laquo;Sejam quaes forem as
+raz&otilde;es.&raquo;
+E venham-me falar na candura d'esta crean&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero dizer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que queres dizer, n&atilde;o sei; mas vejo que n&atilde;o
+&eacute;s senhora tua quando se fala n'este assumpto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lembran&ccedil;a!&#8213;tornou Christina, cada vez
+mais embara&ccedil;ada&#8213;pois imaginas dev&eacute;ras que eu?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha nada mais natural.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se queres, juro-te...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a m&atilde;o
+nos labios.&#8213;Isso n&atilde;o, que &eacute; mais
+s&eacute;rio. Jurar n&atilde;o
+te deixo eu. Conhe&ccedil;o os escrupulos da tua consciencia,
+e n&atilde;o quero obrigar-te a remorsos.
+&laquo;Juro!&raquo; E
+com que ousadia ias pronunciar um juramento
+falso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falso, sim; falso como os que o s&atilde;o. Olha, minha
+pobre Christe, queres ent&atilde;o que te fale com
+toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
+proposito para confirmar umas suspeitas, que se
+me formaram e que vejo agora que eram fundadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Suspeitas! que suspeitas?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O primo Henrique de Souzellas deixou em ti
+uma tal ou qual impress&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+&#8213;Lena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheci isso ainda quando elle c&aacute; estava; verifiquei-o
+depois e agora. Ent&atilde;o! tem juizo. Commigo
+s&ecirc; sempre o que tens sido. Eu g&oacute;so ha muito
+do privilegio de conversar &aacute; vontade comtigo e de
+te v&ecirc;r sem aquella timidez que tens deante dos outros.
+Com o teu genio, precisas de uma pessoa,
+como eu, com quem n&atilde;o tenhas acanhamento e em
+quem possas at&eacute; descarregar algumas maldadezitas;
+e acredita que me lisonjeio com me dares a
+preferencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como imaginaste?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Continuas? N&atilde;o tens de que te envergonhar
+pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz.
+Henrique de Souzellas &eacute; elegante, &eacute; espirituoso,
+affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito
+trato do mundo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;a favor de me ouvir&#8213;atalhou Magdalena,
+pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas
+essas qualidades n'aquelle nosso primo, n&atilde;o quero
+por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te
+j&aacute;. E nem receio que isso aconte&ccedil;a,
+para te falar sinceramente, porque te conhe&ccedil;o o genio
+timido e porque... porque te conhe&ccedil;o o genio
+timido e mais nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia mais alguma coisa, havia, mas n&atilde;o era coisa
+que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique
+n&atilde;o sa&iacute;ra d'aquella primeira visita demasiado
+impressionado
+por a imagem de Christina; sabia talvez,
+suspeitava de certo, n&atilde;o me atrevo a dizer que
+lisonjeada algum tanto, que no cora&ccedil;&atilde;o do hospede
+de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente.
+Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu
+pensamento, ella o poderia formular? O remedio
+pois era completar a phrase como a completou.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina j&aacute; n&atilde;o tinha ousadia para negar, nem
+ainda coragem para confessar. Encostando a face
+&aacute; m&atilde;o, calou-se e deixou falar Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+A morgadinha proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso que saibas, Christe, que &eacute; mais facil
+conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas
+boas qualidades. Os defeitos s&atilde;o imprudentes e linguareiros,
+denunciam-se, d&atilde;o signal de si, basta
+meia hora para se descobrirem em qualquer logar
+que habitem. As boas qualidades, n&atilde;o; essas s&atilde;o
+modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se.
+S&atilde;o precisos annos para as descobrir todas. Mas
+com que olhos de espanto me est&aacute;s fitando! Parece
+que te causa estranheza o meu serm&atilde;o? Eu te digo
+a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo...
+e quem sabe se o futuro vir&aacute; confirmar, em
+rela&ccedil;&atilde;o a mim, esse titulo, que por phantasia lhe
+dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...;
+mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me
+aos olhos muitos dos seus defeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quaes s&atilde;o?&#8213;perguntou Christina com viveza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega; s&atilde;o ligeiros felizmente, e parece-me
+que os poder&aacute; ainda perder; sobretudo se continuar
+a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
+que no fundo havia uma mina de bons sentimentos
+por explorar. Nasceu logo em mim a vontade
+de o sondar, a v&ecirc;r se conseguia purifical-o do que
+n'elle houvesse de menos heroico. Ent&atilde;o que queres?
+para a aldeia era um passatempo como outro
+qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
+revestiu em mim mais s&eacute;rio caracter, desde que vi
+a impress&atilde;o que este sobrinho da tia Doroth&eacute;a te
+caus&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena! Como te deu para supp&ocirc;r que eu me
+apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me
+imaginas apaixonada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, ainda n&atilde;o; inclinada, agradada,
+attrahida...
+ou outro qualquer termo d'esta f&ocirc;r&ccedil;a, que
+deixarei &aacute; tua escolha, isso sim. Para isso n&atilde;o
+&eacute;
+preciso muito tempo. As raz&otilde;es, pelas quaes julguei
+isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem.
+Supp&otilde;e que foi por um tacto especial, por uma
+<span class="pagenum">[136]</span>
+qualidade occulta, como a do tino que dizem que
+teem certos medicos para reconhecerem o mal sem
+estudarem muito o doente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois o tino enganou-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este
+senhor primo intruso f&ocirc;r realmente o que eu imagino
+que &eacute;, resta-me preparal-o para o tornar mais
+digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso
+favorecerei; se n&atilde;o f&ocirc;r, declaro-lhe j&aacute;
+guerra e guerra
+de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a
+mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade
+e boa f&eacute; e da tua experiencia. Olha, estou certa que
+o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente
+o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso,
+certo colorido, que &eacute; preciso ter visto muita vez, e
+em muitos individuos differentes, para se ter na
+conta devida. Illude, agrada a quem n&atilde;o est&aacute;
+costumado,
+e pode causar graves enganos e desenganos
+mais graves ainda. Por emquanto o que elle
+nos mostra &eacute; mais da sociedade em que vive, do
+que d'elle proprio. &Eacute; necessario deixar cair a primeira
+capa, para que o natural appare&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabia que era assim facil enganar-se uma
+pessoa a respeito de outra&#8213;notou Christina, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute;! Lembras-te do que tantas vezes conta
+tua m&atilde;e? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou
+l&aacute; por bom pre&ccedil;o um cofrezinho que ella suppunha
+preciosissimo, e que chora hoje a sua tenta&ccedil;&atilde;o,
+desde que o verniz brilhante, que elle tinha,
+caiu e ficou &aacute; vista a realidade? pois o mesmo
+acontece muitas vezes em contractos de outra ordem
+e bem mais s&eacute;rios do que este. Ha vernizes
+maravilhosos, que illudem os inexperientes.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um instante de silencio, no fim do qual
+Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita
+para Magdalena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora dize-me, Lena, qual ser&aacute; a raz&atilde;o pela qual
+eu n&atilde;o devo acreditar que esses pensamentos te
+<span class="pagenum">[137]</span>
+occorreram, porque era o teu destino, e n&atilde;o o meu,
+que vias dependente do estudo que fazias?
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha fixou na prima um olhar triste e
+cheio de amargas recrimina&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por uma raz&atilde;o muito poderosa, Christe, porque
+ias abrir o cora&ccedil;&atilde;o a um sentimento mau, que
+macularia o teu caracter generoso e candido&#8213;a
+desconfian&ccedil;a. Porque me offenderias, duvidando da
+lealdade, com que te falo, quando te falo s&eacute;ria; e
+porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente,
+pois que a consciencia me diz que t'o
+n&atilde;o merecia. Satisfaz-te esta raz&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+A voz de Magdalena perdera o tom de ironia,
+que &aacute;s vezes tinha, e tom&aacute;ra quasi o da
+commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina arrependeu-se logo do que dissera, e,
+tambem commovida, apertou as m&atilde;os da amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fa&ccedil;as caso do que eu disse, Lena;
+perd&ocirc;a-me.
+Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus
+que me tire a vida, porque terei j&aacute;, para tudo e para
+sempre, envenenado o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom
+humor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela!
+Saldemos antes as nossas contas, como mulheres
+de juizo. Em compensa&ccedil;&atilde;o da pequena offensa
+que me fizeste, vaes-me fazer uma confiss&atilde;o
+formal, a qual at&eacute; agora tens evitado. Ora confessa,
+adivinhei o estado do teu cora&ccedil;&atilde;o? Dize.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina hesitou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos,&#8213;insistiu a morgadinha&#8213;acredita que
+preciso de uma declara&ccedil;&atilde;o para me guiar... E
+cr&ecirc;
+que &eacute; para bem teu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres que te diga? Eu n&atilde;o me sinto
+apaixonada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas j&aacute; te disse que me bastava um termo
+menos violento... um &laquo;agradada&raquo;, por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, se queres, podes at&eacute; parar ahi. Esse
+&laquo;confesso que...&raquo; j&aacute; diz muito. Agora
+deixa-te
+<span class="pagenum">[138]</span>
+guiar por mim. Eu vigiarei. Afian&ccedil;o-te que n&atilde;o
+corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que
+ha alli um excellente cora&ccedil;&atilde;o, mas que queres?
+N&atilde;o &eacute; o typo que me agrada... o meu ideal como
+se costuma dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o qual &eacute; o teu ideal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o
+encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo
+S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
+e n&atilde;o sei onde o procure.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este sentido se prolongou o dialogo entre as
+duas primas, at&eacute; que D. Victoria, findando a sua
+sesta, veio ter com ellas &aacute; quinta. Segundo o costume,
+ralhava contra os criados, a quem, n&atilde;o sei
+por que processo, attribuia umas d&ocirc;res de cabe&ccedil;a
+com que acord&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, Henrique voltou de manh&atilde; ao
+Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena,
+a qual redobrou de ironia. Christina j&aacute; mal podia
+disfar&ccedil;ar a pena que lhe causava o pouco que era
+attendida, mas a sua timidez n&atilde;o a deixava luctar.
+<br />
+
+<br />
+
+De tarde, Henrique teve de condescender com o
+padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou
+a mostrar-lhe as raridades e monumentos da
+terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado
+a renunciar &aacute; nova visita &aacute;s senhoras do
+Mosteiro,
+para gastar as express&otilde;es da sua
+admira&ccedil;&atilde;o deante
+das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
+de n&atilde;o sei que imagem de santo, a qual passava
+por um primor; de uma sala nua, com uma
+mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras
+&aacute; volta, que era a sala das sess&otilde;es do corpo
+municipal;
+e de umas pyramides de ripa, que tinham
+servido, havia oito annos, em festejos officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; de supp&ocirc;r, Henrique passou uma tarde
+deliciosa.
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>IX
+</h4>
+
+<br />
+
+Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle
+que se destin&aacute;ra para o passeio &aacute; ermida,
+Christina foi mais madrugadora do que as aves.
+&Aacute; hora, a que estas ainda se n&atilde;o ouvem chilrear,
+j&aacute; a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa
+de se fazer esperar pelos companheiros da
+projectada excurs&atilde;o matinal. Quasi n&atilde;o dormira
+toda a noite aquella rapariga, com tal
+preoccupa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito
+tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem
+discretas ante o apparecimento do dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina vestiu-se &aacute; pressa e dirigiu-se ao quarto
+de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de
+passeio &aacute; ermida n&atilde;o a
+alvoro&ccedil;&aacute;ra tanto. Christina
+foi acordal-a ao leito.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada
+na prima.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres tu, Christina? Que lembran&ccedil;a foi
+essa hoje de andares estremunhando a casa esta
+noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Levanta-te, pregui&ccedil;osa, levanta-te. N&atilde;o o dizia
+eu hontem? Ent&atilde;o s&atilde;o estas as madrugadas em
+que falavas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo que n&atilde;o s&atilde;o madrugadas; isto
+&eacute;
+noite &eacute; o que &eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dentro em pouco &eacute; dia. Queres v&ecirc;r?
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas
+das janellas e correu as cortinas.
+<br />
+
+<br />
+
+A estrella da manh&atilde;, Venus, aquella brilhante e
+ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes
+assiste no crepusculo &aacute;s melancolias da natureza,
+outras vezes na aurora ao renascimento dos seus
+<span class="pagenum">[140]</span>
+jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s?&#8213;disse Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito pouco. &Eacute; esse o teu sol? Como vae
+alto! &Eacute; pena que n&atilde;o alumie melhor do que esta
+lamparina.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina sentia redobrar com estas delongas a
+sua impaciencia, quasi de crean&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, Lena, anda. Assim n&atilde;o chegamos a v&ecirc;r
+do alto da ermida o romper do sol.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois queres v&ecirc;r isso de l&aacute;?! Que crueldade!
+Em uma manh&atilde; de dezembro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; t&atilde;o bonita, que parece de primavera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Triste lembran&ccedil;a a nossa hontem de combinarmos
+este passeio. Isto &eacute; l&aacute; coisa que se
+fa&ccedil;a?
+Vale por uma viagem aos p&oacute;los.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o fazia sen&atilde;o ir do leito de
+Magdalena
+para a janella e voltar da janella para o leito,
+em virtude d'aquella irresistivel necessidade de
+movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
+quando nos deixamos apossar da impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fazes ideia como est&aacute; bonito c&aacute;
+f&oacute;ra; n'alguns
+pontos ainda se v&ecirc; neve.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda
+se v&ecirc; neve!... Parece-me que j&aacute; estou gelada...
+Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando.
+V&ecirc;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o est&aacute; frio; at&eacute; parece que
+aqueceu o
+tempo. Ent&atilde;o, Lena!... Elles... n&atilde;o tardam por
+ahi. Cuidas que te vae custar muito, e &eacute; um engano;
+aqui estou eu, que n&atilde;o sinto frio nenhum.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, mas tu est&aacute;s em condi&ccedil;&otilde;es muito
+particulares.
+Quem tem uma fogueira no cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+precisa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi principias com as tuas coisas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei; o que &eacute; certo &eacute; que esse
+teu enthusiasmo
+pelos passeios matutinos n&atilde;o &eacute; natural.
+Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando
+<span class="pagenum">[141]</span>
+eu t'os propunha? Ora, se me d&aacute;s licen&ccedil;a, eu
+explico
+isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o quero saber de explica&ccedil;&otilde;es;
+veste-te, anda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja! Infeliz lembran&ccedil;a a d'este passeio. E foi
+d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz
+acompanhar. N&atilde;o, que j&aacute; tem juizo; dorme a estas
+horas o somno da madrugada, que &eacute; uma
+consola&ccedil;&atilde;o.
+Que sorte de invejar!
+<br />
+
+<br />
+
+E a morgadinha, continuando assim a exaggerar
+o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos
+secretos a que attribuia o ardor e heroicidade
+da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto
+de proposito para a v&ecirc;r impaciente, principiou a
+vestir-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina fic&aacute;ra &aacute; janella, espiando os
+progressos
+do amanhecer e transmittindo &aacute; prima as
+observa&ccedil;&otilde;es
+que fazia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, eu que digo?... j&aacute; o Manoel vae abrir
+o port&atilde;o... N&atilde;o ouves os pardaes?... &Eacute;
+dia claro
+j&aacute;... Havemos de chegar com sol &aacute; ermida, o que
+n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma... Avia-te, Lena... Has
+de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae j&aacute; o
+Luiz com o almo&ccedil;o. &Eacute; que n&atilde;o chegamos
+l&aacute; sen&atilde;o
+ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle! Quem &eacute; esse elle que vem ahi?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quem ha de ser? Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; o
+primo
+Henrique que nos acompanha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o primo Henrique, &eacute; o sr. Augusto e
+&eacute; o
+Luiz, que tua m&atilde;e teimou em mandar com o almo&ccedil;o.
+N&atilde;o sabia qual dos tres te merecia as honras
+de um &laquo;elle&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu dizia o primo Henrique, que j&aacute; ahi est&aacute; no
+pateo&#8213;disse Christina, que n'esta occasi&atilde;o correspondia
+ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
+fazia de baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, com effeito j&aacute; chegou?&#8213;perguntou a
+morgadinha, admirada.&#8213;Bravo! Nunca o esperei.
+Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem
+alguma coisa no cora&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+&#8213;Tambem o julgo&#8213;respondeu Christina, despeitada;&#8213;&eacute;
+v&ecirc;r como hontem te falou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega. Quando o cora&ccedil;&atilde;o tem alguma coisa,
+n&atilde;o se fala assim com a pessoa que causou esse mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei o que elle me est&aacute; a dizer&#8213;disse
+Christina, olhando para o pateo.&#8213;Posso abrir a janella,
+Lena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; estou preparada para soffrer todas as
+crueldades esta manh&atilde;. Abre l&aacute; a janella, abre.
+Fala-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina correu a vidra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+A voz de Henrique chegou distinctamente aos
+ouvidos de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o aquella grande madrugadora da nossa
+prima, onde est&aacute;?&#8213;perguntou elle a Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina respondeu, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; a fazer a diligencia que pode para ficar
+prompta antes do meio dia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, que vingan&ccedil;a a minha! Ella que tanto falou
+da minha indolencia!&#8213;disse Henrique jovialmente,
+e continuou falando sempre de Magdalena,
+e elevando a voz &aacute;s vezes para se dirigir directamente
+a ella, mas sempre sem receber resposta.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta insistencia impacientou Christina, para quem
+elle nem um galanteio tivera ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De maneira que n&oacute;s, priminha&#8213;continuou
+Henrique&#8213;damos uma li&ccedil;&atilde;o de mestre
+&aacute;quella
+arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella
+nos appare&ccedil;a; quero v&ecirc;r a coragem, com que ousa
+apresentar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou chamal-a&#8213;disse s&ecirc;ccamente Christina,
+e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que
+n&atilde;o podia escapar a esta:&#8213;Olha se appareces alli
+ao sr. Henrique de Souzellas, que n&atilde;o descan&ccedil;a
+emquanto
+te n&atilde;o v&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho
+as tran&ccedil;as, dando ao penteado a mais singela e
+graciosa disposi&ccedil;&atilde;o, voltou-se para a priminha e
+disse-lhe sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[143]</span>
+&#8213;Isso s&atilde;o j&aacute; ciumes? Mal sabes quanto
+g&oacute;sto
+de te v&ecirc;r assim! Ao menos ha j&aacute; vida n'esse teu
+cora&ccedil;&atilde;o, minha pobre pequena. O que te
+pe&ccedil;o &eacute; que
+n&atilde;o me odeies, s&oacute; porque esse rapaz se lembrou de
+perguntar por quem n&atilde;o via.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amores? justo; e com a mesma felicidade em
+acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me
+que ahi est&aacute; mais alguem no pateo. Ou&ccedil;o falar.
+Vae
+v&ecirc;r. Ser&aacute; Augusto? N'esse caso, espera-se
+s&oacute; por
+mim para completar a caravana. E eu estou prompta.
+Marchemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique troc&aacute;ra com elle alguns cumprimentos,
+e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado
+do outro, &aacute; espera das que deviam ser-lhes companheiras
+na romagem.
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa manteve-se pouco animada. Augusto
+n&atilde;o era expansivo com as pessoas, a quem o n&atilde;o
+prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
+talvez por n&atilde;o conhecer a extens&atilde;o e natureza dos
+conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos
+assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram
+pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi
+frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no ver&atilde;o,
+nos pr&oacute;s e contras da vida do campo e de varios
+outros assumptos s&ecirc;ccos de si e j&aacute; al&eacute;m
+d'isso muito
+esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios
+constrangidos e insupportaveis, que o leitor
+ha de conhecer por experiencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Digamos n&oacute;s a verdade; estes dois homens n&atilde;o
+sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel
+sympathia, que abre os cora&ccedil;&otilde;es e d&aacute;
+margens a
+confidencias.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifest&aacute;ra-se
+entre elles certa frieza mais que ceremoniatica,
+uma quasi desconfian&ccedil;a instinctiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com
+<span class="pagenum"><a name="p144">[144]</a></span>
+prazer por ambos. Ainda quando n&atilde;o f&ocirc;ssem senhoras
+o seriam; a chegada de um terceiro, quando
+dois indifferentes est&atilde;o na presen&ccedil;a um do outro,
+em entrevista for&ccedil;ada e fatigadora, &eacute; sempre
+saudada
+interiormente como uma redemp&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Christina vinham ambas formosas,
+com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam,
+adequados aos rigores de uma manh&atilde; de dezembro.
+<br />
+
+<br />
+
+Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando
+proximo do quarto de D. Victoria, p&eacute; ante
+p&eacute;, para n&atilde;o a acordarem, esta presentiu-as, e
+mesmo
+do leito perguntou-lhes:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o j&aacute; v&atilde;o, meninas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, tia; vamos, mam&atilde;&#8213;responderam as
+duas a um tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Luiz j&aacute; partiu com o almo&ccedil;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; partiu, j&aacute;, minha senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ides agasalhadas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se f&ocirc;ssemos para a Siberia&#8213;respondeu
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por
+cautela. E ide com Nossa Senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C&aacute; os levamos. Adeus, tia; adeus, mam&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, filhas; at&eacute; logo, se Deus quizer. Olhae
+l&aacute;, n&atilde;o vos estafeis.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora os taes guarda-chuvas &eacute; que n&atilde;o iam. Para
+qu&ecirc;? Com uma manh&atilde; d'aquellas, que nem de inverno
+parecia, pois que at&eacute; o frio abrand&aacute;ra com o
+vento! Por isso &eacute; que vinham ainda a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois
+companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio
+a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente
+o bra&ccedil;o, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
+porque se lembrou de Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigada, primo,&#8213;disse ella com
+vivacidade.&#8213;Mas
+&eacute; preciso que o advirta de que n&atilde;o
+vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
+trepar montes, atravessar ribeiras, costear <a href="#e1">precipicios</a>,
+<span class="pagenum">[145]</span>
+e para tudo isso &eacute; necessaria a
+completa
+liberdade de movimentos. Ha occasi&otilde;es, em que
+melhor nos servem os nossos dois bra&ccedil;os, do que
+o bra&ccedil;o de outro, embora seja o de um heroe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas de certo que n&atilde;o &eacute; &aacute; borda dos
+precipicios
+que esse auxilio se escusa&#8213;replicou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, muitas vezes &eacute;. Ha bordas t&atilde;o
+estreitas,
+que mal cabe n'ellas uma pessoa s&oacute;; felizmente que
+a natureza nos d&aacute; um bra&ccedil;o ent&atilde;o... um
+bra&ccedil;o
+de giestas, por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; l&aacute;, Lena,&#8213;disse Christina ao ouvido da
+prima.&#8213;Talvez seja melhor que acceites. Resta-me,
+a mim, o bra&ccedil;o de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se continuas com essas loucuras, Christina,
+obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto&#8213;continuou voltando-se
+para este&#8213;espero que tome a direc&ccedil;&atilde;o do
+nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais
+bellos pontos de vista; leve-nos por l&aacute;, embora tenhamos
+de comprar as bellezas &aacute; custa de perigos
+e de fadigas. Partamos!
+<br />
+
+<br />
+
+O monte onde se erigira a capella da Senhora da
+Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria
+n'um circulo de muitas leguas de raio, era
+uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias
+ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe
+aos p&eacute;s as alcatifas da mais rica
+vegeta&ccedil;&atilde;o;
+banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas
+e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas
+e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem,
+recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro
+aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza,
+em vez de cobrir os hombros com o manto
+real, que lhe estendiam aos p&eacute;s, permanecia aspero,
+severo e n&uacute;, como nas &eacute;pocas primitivas, em que
+uma convuls&atilde;o tremenda o evoc&aacute;ra do seio da
+terra,
+para o consolidar em colosso.
+<br />
+
+<br />
+
+Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a
+fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo,
+<span class="pagenum">[146]</span>
+a piedade christ&atilde; plant&aacute;ra em volta da
+ermida,
+para refrigerio e conforto dos devotos christ&atilde;os
+que alli iam. Era custosa a ascen&ccedil;&atilde;o por o lado,
+por onde os nossos romeiros, contra os conselhos
+de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair
+de uma longa rua, apertada entre muros de quintas,
+Henrique achou de subito deante de si a mole
+immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
+tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia
+al&eacute;m do Rocio os seus passeios, com medo das
+ingremes cal&ccedil;adas da cidade alta, julgou ouvir um
+absurdo.
+<br />
+
+<br />
+
+Parou a contemplar o monte, como hesitando em
+atravessar o riacho, que d'elle o separava.
+<br />
+
+<br />
+
+O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos
+dias anteriores, levantava um bramido atordoador
+ao cair em toalha dos a&ccedil;udes e ao escoar rapido
+pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja
+enorme roda movia.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;quella hora, ainda pouco clara da madrugada,
+este sitio da raiz do monte tinha n&atilde;o sei que aspecto
+selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor.
+Os altos choupos, em que se enroscavam, como
+serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos
+das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente
+ao perpassar atrav&eacute;s d'elle a briza da madrugada,
+e, aqui e al&eacute;m, um d'esses degenerados
+aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como
+se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria,
+eram accessorios que concorriam para o effeito geral
+do quadro.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, percebendo a hesita&ccedil;&atilde;o de Henrique,
+deu-lhe alento com lan&ccedil;ar-lhe em rosto a sua
+pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou,
+com n&atilde;o menor denodo do que os outros,
+o riacho, por o passadi&ccedil;o de altas pedras, collocadas
+a pequena distancia umas das outras, e que as
+aguas a cada momento amea&ccedil;avam cobrir.
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte;
+<span class="pagenum">[147]</span>
+para isso tornava-se indispensavel caminhar em
+continuados zigue-zagues, aproveitando os c&oacute;rtes
+que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella
+massa granitica e os toscos degraus, com que uma
+arte rudimentar procur&aacute;ra facilitar, por aquelle lado,
+o accesso da ermida &aacute; piedade dos devotos.
+<br />
+
+<br />
+
+As difficuldades para Henrique eram continuas.
+<br />
+
+<br />
+
+A cada momento os embara&ccedil;os d'este forneciam
+motivo para risos da parte de Magdalena. Christina
+n&atilde;o lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo.
+<br />
+
+<br />
+
+Para compensar as fadigas de t&atilde;o trabalhosa
+ascens&atilde;o,
+havia por&eacute;m, a paizagem, que, a cada passo
+andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia
+mais surprehendente e maravilhosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos peitos teriam f&ocirc;r&ccedil;a para reprimir um
+brado de admira&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+As nevoas d'aquella manh&atilde; de dezembro n&atilde;o eram
+bastantes para velarem a belleza do quadro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que os nossos quatro peregrinos iam
+subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte;
+avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se
+os outeiros vizinhos, e os campos tomavam
+a apparencia dos canteiros de um jardim.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o retinha o enthusiasmo, que aquelle
+espectaculo lhe causava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; magnifico! &eacute; admiravel! &eacute;
+soberbo!&#8213;dizia
+elle, a cada momento e quando n&atilde;o era inquietadoramente
+preoccupado com os perigos do caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+O enthusiasmo de Augusto n&atilde;o era menos vivo!
+Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a
+melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie,
+se ia dissipando &aacute; medida que subia a encosta.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Christina tambem n&atilde;o estavam menos
+impressionadas por o que viam. Esta, por&eacute;m,
+tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
+que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
+<br />
+
+<br />
+
+Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos
+de pela manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique continuava a ser todo atten&ccedil;&otilde;es e
+galanteios
+<span class="pagenum">[148]</span>
+com Magdalena; parava a cada momento
+n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
+mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a m&atilde;o a
+ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as
+reflex&otilde;es que o aspecto da paizagem lhe suscitava e
+nunca &aacute; esquecida Christina que, n'esses momentos,
+quasi achava a manh&atilde; desagradavel e o sitio feio e
+sombrio.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha respondia sempre em curtas phrases
+a Henrique e recusava insistentemente o auxilio,
+que elle lhe offerecia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou a suspeitar que esses offerecimentos do
+primo s&atilde;o mais devidos &aacute; necessidade, que sente,
+de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar&#8213;disse
+ella sorrindo.&#8213;A falar verdade, para
+quem tem passado a vida a trilhar os passeios do
+Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um
+pouco de alpestre. Adeante.
+<br />
+
+<br />
+
+E de uma occasi&atilde;o, em que estava perto d'elle,
+disse-lhe a meia voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ser que Christina care&ccedil;a mais do seu
+bra&ccedil;o, primo. Ainda n&atilde;o teve a
+lembran&ccedil;a de lh'o
+offerecer.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique s&oacute; ent&atilde;o deu por esse esquecimento;
+apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina
+tambem o bra&ccedil;o, que esta recusou, c&oacute;rando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o por que recusas?&#8213;perguntou-lhe a
+morgadinha, em voz baixa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o quero abusar da delicadeza d'elle,
+nem da tua.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha abanou a cabe&ccedil;a em ar de
+reprehens&atilde;o,
+fitando-a, mas n&atilde;o lhe disse nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio
+em torno d'elles. J&aacute; tinham passado acima dos rumores
+do valle, que n&atilde;o subiam a mais de meia
+encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo
+annunciava o proximo apparecimento do sol.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chegamos a tempo!&#8213;exclamou Magdalena
+que, deitando a correr, f&ocirc;ra a primeira que attingira
+<span class="pagenum">[149]</span>
+a planura. Sua Magestade ainda se n&atilde;o levantou.
+<br />
+
+<br />
+
+Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao
+p&eacute; d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um longo espa&ccedil;o de silencio, concedido
+espontaneamente &aacute; contempla&ccedil;&atilde;o
+d'aquella perspectiva
+solemne.
+<br />
+
+<br />
+
+As primeiras palavras, que se disseram, foram
+ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente
+lhes damos, quando na presen&ccedil;a de um espectaculo
+grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco:
+n&atilde;o se formulam longos periodos de aprimorado
+estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples
+phrases, como estas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bello!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; magnifico!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; sublime!
+<br />
+
+<br />
+
+E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na
+occasi&atilde;o de que falamos. E eu, por analogas
+raz&otilde;es,
+os imitarei, desistindo de descrever o que s&oacute; bem
+se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto
+de todo o panorama. O leitor, que nunca visse
+alguma scena similhante, n&atilde;o a imaginaria pela
+descrip&ccedil;&atilde;o,
+for&ccedil;osamente pallida, que ahi lhe deixasse
+d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencher&aacute;
+bem a lacuna.
+<br />
+
+<br />
+
+Desvanecida a primeira impress&atilde;o, que n&atilde;o deixa
+ao espirito a serenidade precisa para os processos
+da analyse, principiaram, como &eacute; costume, a fazerem
+notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada
+familiaridade entre os quatro.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos;
+Magdalena dos seus projectos e desconfian&ccedil;as;
+Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua
+frieza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; est&aacute; o Mosteiro&#8213;disse Magdalena, apontando
+para o logar indicado.&#8213;Como parece pequeno,
+visto d'aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;respondia Christina&#8213;e olha, Lena,
+como se v&ecirc;em bem as janellas do teu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; est&aacute; aquella que tu abriste esta
+manh&atilde; para
+cumprimentares...
+<br />
+
+<br />
+
+Sentindo a m&atilde;o de Christina
+comprimir-lhe o
+bra&ccedil;o, concluiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para cumprimentares a estrella d'alva.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As janellas do quarto da mam&atilde; julgo que ainda
+est&atilde;o fechadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o posso eu distinguir; comtudo
+afian&ccedil;o-te
+que sim. A tia Victoria n&atilde;o &eacute; muito matinal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquella casa acol&aacute; n&atilde;o &eacute; a de
+Alvapenha?&#8213;perguntou
+Henrique, apontando n'outra direc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;&#8213;respondeu Augusto&#8213;e, mais adeante, alli
+tem a deveza, em que passou ante-hontem. N&atilde;o &eacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justamente. Com effeito! Foi um soberbo
+passeio, o que eu dei! D'aqui &eacute; que se v&ecirc;.
+L&aacute; vejo
+umas pr&ecirc;sas, por onde me lembro de ter passado
+tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;, acol&aacute;, aquella casa que tem uma capella
+ao lado?&#8213;perguntou Magdalena, apontando para
+um ponto distante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a minha quinta dos Cannaviaes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &Eacute; verdade, l&aacute; est&atilde;o
+uns cannaviaes, se
+me n&atilde;o engana a vista.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente. N&atilde;o sei se sabe que ha n'aquella
+capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? hei de visital-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coisa que se lhe pe&ccedil;a, fazendo-se o voto da
+meia noite, &eacute; concedido&#8213;disse Christina, fitando
+d'esta vez Henrique, com a express&atilde;o da mais insinuante
+sinceridade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer o voto da meia noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem uma pessoa de rezar &aacute; meia noite, e
+s&oacute;sinha,
+sete esta&ccedil;&otilde;es no altar da Senhora&#8213;continuou
+Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[151]</span>
+&#8213;S&oacute; isso? Boa &eacute; de cumprir a promessa.
+J&aacute; vejo
+que n&atilde;o ha aqui na terra desejo que se n&atilde;o
+satisfa&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais devagar,&#8213;acudiu Magdalena, sorrindo&#8213;pouca
+gente se atreve at&eacute; a ir l&aacute; &aacute; meia
+noite,
+porque a alma de minha madrinha passeia a horas
+mortas por a sua antiga casa, dizem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cada vez sinto mais desejos de l&aacute; ir&#8213;accrescentou
+Henrique, depois de ouvil-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Al&eacute;m, entre aquellas arvores, sr.<sup>a</sup>
+D. Magdalena,
+vive um philosopho&#8213;disse Augusto, indicando
+outro ponto de perspectiva.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade; o bom do tio Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente? Quem &eacute; o tio Vicente? Temos
+mais algum tio, com que eu possa augmentar o
+meu parentesco na aldeia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tio Vicente &eacute; um santo velho, que se occupa
+a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios,
+que dizem milagrosos. Ainda &eacute; nosso parente,
+mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe
+tio, assim como quasi toda a gente por
+aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que sombras negras s&atilde;o aquellas que se v&ecirc;em
+no adro da igreja?&#8213;perguntou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na igreja? Ah! acol&aacute;? &Eacute; verdade, parece um
+cord&atilde;o de formigas&#8213;disse Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o as mulheres que v&atilde;o ouvir o
+missionario&#8213;respondeu
+a morgadinha.&#8213;Escutem, l&aacute; est&aacute; a
+tocar o sino.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis
+mas sonoras badaladas do campanario da aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A estas horas
+principiam as
+lamenta&ccedil;&otilde;es
+d'aquelle pobre Z&eacute; P'reira, que t&atilde;o mal olhado
+anda
+por a mulher, desde que ella deu n'essas
+devo&ccedil;&otilde;es&#8213;notou
+Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena
+domestica a que na vespera assistira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Degenerou aquella mulher!&#8213;disse Magdalena&#8213;e,
+se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto,
+<span class="pagenum">[152]</span>
+custa-me v&ecirc;r o Cancella deixar a Lindita entregue
+assim a essa gente quando s&aacute;e da terra. A pequena
+&eacute; t&atilde;o apprehensiva!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, j&aacute; chegou aqui &aacute; aldeia a
+influencia
+dos missionarios?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o tem lavrado pouco!&#8213;tornou Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina, que era um poucochinho devota, censurou
+timidamente as palavras da morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primo Henrique&#8213;disse ella&#8213;julgo que ainda
+ser&aacute; preciso o seu auxilio para livrar do contagio
+esta innocente Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto, prima Magdalena; para as boas causas
+tenho sempre armada a minha vontade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, Lena, n&atilde;o v&ecirc;s?&#8213;exclamou
+Christina&#8213;s&atilde;o
+os pequenos que nos est&atilde;o a dizer adeus das
+janellas do mirante.
+<br />
+
+<br />
+
+De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se
+uns len&ccedil;os brancos.
+<br />
+
+<br />
+
+Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem,
+de longe, a irm&atilde; e a prima. Estas tiraram
+tambem os len&ccedil;os e corresponderam-lhes aos signaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Annuncio a v. ex.<sup>as</sup>, que chega o rei da
+crea&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente o cume do telhado da ermida e as
+fran&ccedil;as despidas da alameda j&aacute; se tingiam de luz.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o
+uma esplendida faixa de purpura, que,
+em insensivel gradua&ccedil;&atilde;o, desmaiava para as
+extremidades
+at&eacute; se perder de todo no azul-celeste.
+<br />
+
+<br />
+
+Rompia j&aacute;, do meio d'ella, um pequeno segmento
+do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado
+e vermelho, como um escudo de metal candente, e
+logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir,
+e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao
+qual se rompessem as pris&otilde;es que o retinham.
+<br />
+
+<br />
+
+O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo,
+estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Nisto appareceu do outro lado da capella um
+dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que
+o almo&ccedil;o estava prompto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois dev&eacute;ras temos um almo&ccedil;o?&#8213;exclamou
+Henrique, sinceramente surprehendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gra&ccedil;as &aacute; previdencia de minha tia, previdencia
+de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada
+a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares
+do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter
+aberto o appetite&#8213;respondeu Magdalena. E logo
+ap&oacute;s continuou para Henrique:&#8213;Agora &eacute;
+occasi&atilde;o
+mais accommodada de p&ocirc;r em pr&aacute;tica os recursos
+do seu galanteio, primo. Quer dar o bra&ccedil;o a Christina?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, em quem a morgadinha suspeit&aacute;ra a
+inten&ccedil;&atilde;o de lhe render a ella a fineza, que assim
+declinou na prima, teve de condescender, limitando-se
+a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar
+que Magdalena fingiu n&atilde;o perceber.
+<br />
+
+<br />
+
+E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar
+onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre,
+estava disposto o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria n&atilde;o era senhora, que se saisse mal de
+emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia
+da lou&ccedil;a e o bem disposto e apurado das iguarias
+convidavam.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se concebe appetite refractario a um tal conjuncto
+de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria
+um fastio m&oacute;rbido, correspondente a les&atilde;o
+organica
+e como tal sem poesia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique e Augusto principalmente fizeram, como
+era natural, justi&ccedil;a &aacute; cozinha do Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, que parecia haver esquecido as suas
+mil e uma doen&ccedil;as, conversou animada e espirituosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de
+Henrique; este riu com vontade das que ouviu a
+Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, por sua propria m&atilde;o, preparou o
+ch&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[154]</span>
+N'estas alturas do almo&ccedil;o encetou novamente
+Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por
+muito tempo n&atilde;o sabia prescindir.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a
+santa harmonia do congresso. Parecia que todos os
+outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique fic&aacute;ra sentado junto da parede da capella.
+Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a
+saborear um charuto havano, descobriu umas letras
+escriptas na parede, exactamente por cima da cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo!&#8213;exclamou, depois de as ler para si&#8213;n&atilde;o
+imaginava que havia poetas na aldeia! Querem
+ouvir?
+<br />
+
+<br />
+
+E leu:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Se est&aacute;s mais perto do c&eacute;o<br />
+
+N'estas alturas da serra,<br />
+
+Ai, porque tens, peito meu<br />
+
+Inda saudades de terra?
+<br />
+
+<br />
+
+Em vez-de erguer os olhares<br />
+
+&Aacute; luz d'este firmamento,<br />
+
+Des&ccedil;o-os &aacute; sombra dos lares,<br />
+
+Onde tenho o pensamento.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pena que a chuva apagasse o resto. Quem
+&eacute; o bardo, prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei; da aldeia de certo que n&atilde;o
+&eacute;&#8213;respondeu
+Magdalena, com indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a
+alameda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da aldeia, n&atilde;o, diz a prima; e por que n&atilde;o?
+Com esta natureza &eacute; facil crearem-se os poetas. Eu
+estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance.
+Aqui a serra de algum Bernardim inedito,
+t&atilde;o capaz de escrever saudades, como de as sentir.
+Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta
+trocava os esplendores do c&eacute;o... algumas d'essas
+casas, que ahi se v&ecirc;em em baixo. Quem sabe se
+n&atilde;o ser&aacute; at&eacute; o Mosteiro? Eu, por mim,
+confesso que se estivesse hoje aqui s&oacute;, ou em outra
+companhia&#8213;accrescentou,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+olhando significativamente
+para a morgadinha-n&atilde;o teria d&uacute;vida em subscrever
+esta quadra, como a exacta express&atilde;o do meu
+sentir, porque...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Em vez de erguer os olhares.<br />
+
+&Aacute; luz d'este firmamento
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eu tambem...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Os <em>abaixaria</em> aos lares<br />
+
+Onde tenho o pensamento.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter
+com Augusto &aacute; alameda.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, que a seguiu com a vista, n&atilde;o
+disfar&ccedil;ou
+um gesto de despeito ao ficar s&oacute; com Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prima Magdalena,&#8213;disse em tom mais affectuoso
+Henrique, passado tempo, e depois de mais
+algumas palavras&#8213;deixe-me falar-lhe com franqueza,
+agora que estamos s&oacute;s. Conhecemo-nos ha
+dois dias; eu, por&eacute;m, sinto-me t&atilde;o seguro
+j&aacute; do que
+lhe vou dizer, que n&atilde;o hesito. N&atilde;o pode imaginar
+a
+indelevel recorda&ccedil;&atilde;o que me ficar&aacute;
+d'esta manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o,&#8213;atalhou Magdalena&#8213;diga-me primeiro
+o que &eacute; isso que me vae dizer. Prepara-se
+para me agradecer o almo&ccedil;o? Eu sou como os reis;
+gosto de estar prevenida do sentido das
+felicita&ccedil;&otilde;es
+que me dirigem, para ir preparando uma resposta
+adequada.
+<br />
+
+<br />
+
+-Que prazer tem em ser cruel!
+<br />
+
+<br />
+
+-Deixemo-nos de loucuras&#8213;continuou Magdalena,
+s&eacute;ria j&aacute;.&#8213;Quem ouvisse o sr. Henrique de
+Souzellas havia de supp&ocirc;r que se preparava para
+me fazer uma declara&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+-Uma declara&ccedil;&atilde;o do mais puro affecto, do mais
+sincero
+sentimento, por que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas
+inten&ccedil;&otilde;es,
+pe&ccedil;o-lhe desista d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+&#8213;Por qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o posso escutal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou n&atilde;o quer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou n&atilde;o quero; seja.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teria eu a desventura de chegar tarde, prima?
+Acaso o seu cora&ccedil;&atilde;o j&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que impertinente pergunta? Se
+<em>j&aacute;</em>, n&atilde;o tenho
+ainda no sr. Henrique a necessaria confian&ccedil;a para
+o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de
+hontem, que &eacute; o mesmo que n&atilde;o nos conhecermos.&#8213;E
+accrescentou logo depois:&#8213;Christina, anda
+ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
+Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que vae fazer?&#8213;perguntou-lhe Henrique, admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique
+n&atilde;o desviava os olhos da morgadinha que,
+sem lhe dar atten&ccedil;&atilde;o, proseguiu para Christina:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O primo Henrique falava com certa exalta&ccedil;&atilde;o
+da do&ccedil;ura do teu caracter; o meu amor proprio
+disse-me que&#8213;era pouco delicado estar assim a
+lisonjear uma mulher na presen&ccedil;a de outra&#8213;e redargui
+por isso, pondo em d&uacute;vida a asser&ccedil;&atilde;o e
+affirmando que havia um fermentozinho de maldade
+na tua do&ccedil;ura. Elle nega por impossivel, eu
+insisto e estamos n'isto. Agora dize tu.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina c&oacute;rou intensamente e n&atilde;o teve que
+responder.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou
+ouvir algumas que, pelo sentido e inflex&atilde;o, com que
+foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente
+a posi&ccedil;&atilde;o, em que Magdalena o
+colloc&aacute;ra,
+e respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venci eu! O facto de querer a priminha poupar
+uma r&eacute;plica amarga &aacute;
+accusa&ccedil;&atilde;o que lhe fazem,
+&eacute; a mais eloquente prova, j&aacute; n&atilde;o digo
+s&oacute; da do&ccedil;ura,
+mas da natureza angelica do seu caracter. J&aacute; v&ecirc;,
+prima Magdalena, que &laquo;quando uma das mulheres
+que diz, f&ocirc;r como a nossa boa Christina, n&atilde;o se
+podem
+<span class="pagenum">[157]</span>
+admittir essas revoltas de amor proprio, a que
+alludiu.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido
+d'estas ultimas palavras; mas fingiu n&atilde;o comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou
+os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso
+lhe dissipava um pouco dos labios a grave express&atilde;o
+que lhe era habitual, temperando-a com n&atilde;o
+sei que de ironico, que n&atilde;o escapou tambem a Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por
+momentos, sem que nenhum parecesse disposto a
+baixar-se deante do outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Desviou-os por&eacute;m uma dupla exclama&ccedil;&atilde;o
+de Magdalena
+e de Christina, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem o tio Vicente por aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina
+da ermida, e approximava-se da mesa do almo&ccedil;o,
+o velho herbanario, em que j&aacute; temos falado
+no decurso dos passados capitulos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>X
+</h4>
+
+<br />
+
+Era uma expressiva figura de anci&atilde;o o herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+A fronte larga e desaffrontada de c&atilde;s, os olhos
+ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia,
+permanentes indicios de habituaes medita&ccedil;&otilde;es
+e por ventura de passados infortunios, elevavam
+aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os
+annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares
+haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
+os habitos de solid&atilde;o, que adquirira, a pouco
+e pouco lhe amoldaram o caracter at&eacute; fazerem do
+<span class="pagenum">[158]</span>
+velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam
+o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam,
+a ninguem permittindo sondar os mysterios
+que guardam comsigo e para si, e creando para
+uso proprio regras de viver, sem atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s conven&ccedil;&otilde;es
+sociaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um enigma vivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de
+nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas
+com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava
+as maiores atten&ccedil;&otilde;es e canceiras.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera
+nunca. Poucos por&eacute;m ousariam, depois do esconder
+do sol, ir procural-o &aacute; isolada casa em que vivia,
+escondida n'um quintal, que era cultivado com todo
+o amor pelo velho.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todos os casos intrincados vinham consultar
+o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia,
+em caso algum recusava o alvitre.
+<br />
+
+<br />
+
+Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha
+nem methodo, de uns alfarrabios herdados de
+um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal
+digeridas no&ccedil;&otilde;es de sciencia, de que se mostrava
+orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de
+jurisprudencia, outros de logica e de astronomia,
+constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os
+livros mais predilectos e consultados contava um
+exemplar da <em>Polyantheia</em> de Curvo
+Semedo.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario principi&aacute;ra em crean&ccedil;a uma
+educa&ccedil;&atilde;o
+tal ou qual, que rev&eacute;zes de familia haviam interrompido.
+<br />
+
+<br />
+
+Os meios conhecimentos, que das suas habituaes
+leituras extrahira, e os erros, que de taes livros
+assimil&aacute;ra, eram os elementos, com que chegou a
+architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava
+por maravilhosa.
+<br />
+
+<br />
+
+E o caso era que a fama do homem vo&aacute;ra de
+freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e
+de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+Os costumes do velho, que errava por valles e
+montes &aacute; procura dos simplices, cujas occultas virtudes
+conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade
+da physionomia, a franqueza, sem contempla&ccedil;&otilde;es,
+com que dizia quanto pensava, tinham gravado
+fundo na imagina&ccedil;&atilde;o popular aquelle typo,
+para ella quasi lendario.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de se sentar &aacute; mesa, o herbanario estendeu
+familiarmente a m&atilde;o a Augusto, que lh'a apertou
+com affecto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, rapaz,&#8213;disse o velho; e, dirigindo-se
+a Magdalena e Christina, accrescentou com
+maneiras paternaes:&#8213;Adeus, pequenas; grandes
+madrugadas hoje!
+<br />
+
+<br />
+
+Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com
+olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando
+por lhe dizer simplesmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Guarde-o Deus!
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem mais o attender, Vicente voltou-se para
+Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para
+Henrique, e referindo-se a elle:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O homem que, melhor que ninguem, est&aacute; habilitado
+a responder a essa pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho nem sequer o olhou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este senhor&#8213;respondeu Magdalena&#8213;&eacute; sobrinho
+de D. Doroth&eacute;a; est&aacute; hospede em Alvapenha.
+Veio para aqui restabelecer-se da saude.
+<br />
+
+<br />
+
+Vicente tornou a examinar Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; doente?... N&atilde;o parece...
+Olhar vivo...
+C&ocirc;res boas... voz s&atilde;... Umh!...
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes
+do velho estavam desagradando a Henrique;
+por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A doen&ccedil;a d'este senhor &eacute; um pouco de
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[160]</span>
+&#8213;E grandes effeitos nascem d'ahi&#8213;acudiu sentenciosamente
+o velho.&#8213;L&aacute; veem na
+<em>Polyantheia</em>
+muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
+umas amoras, foi atacado de d&ocirc;res de cabe&ccedil;a, de
+que morreu. Pois tanto scismou que das amoras
+lhe viera o mal, que at&eacute; se lhe formou no craneo
+uma pedra do feitio de uma amora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com effeito!&#8213;disse Henrique, com ironica
+express&atilde;o de pasmo&#8213;ahi estava um cerebro de
+concep&ccedil;&otilde;es rijas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; divertido!&#8213;disse Vicente, com ligeiro sarcasmo
+e olhando para Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo contrario&#8213;acudiu a morgadinha&#8213;o seu
+mal &eacute; a melancolia. N&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; n&atilde;o sei qual &eacute; o meu mal.
+Estou quasi
+a dar raz&atilde;o &aacute; tia Doroth&eacute;a, que lhe
+chamou mania.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mania e melancolia n&atilde;o s&atilde;o a mesma
+coisa&#8213;emendou
+o velho.&#8213;Tambem l&aacute; na
+<em>Polyantheia</em> se
+diz isso bem claro. A melancolia &eacute; sem ira nem furia,
+porque procede de humor frio, e a mania de
+sangue quente ou c&oacute;lera requeimada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De c&oacute;lera requeimada? Deve ser uma coisa
+terrivel!&#8213;continuou Henrique, no mesmo tom.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios
+de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou
+a este:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe que ter&aacute; cura a doen&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam.
+Este &eacute; divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas
+e manias n&atilde;o ha como as folhas de ouro em
+caldo de frang&atilde;o com flores de borragem e de herva
+cidreira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este &eacute; como os calvos, que vendem aos outros
+pomadas para fazer nascer o cabello; &eacute; um
+argumento vivo contra a efficacia da beberagem
+que receita para as manias&#8213;disse Henrique a meia
+voz para Augusto, que lhe ficava proximo.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho, que n&atilde;o tinha ainda dado mostras de
+<span class="pagenum">[161]</span>
+offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique,
+c&oacute;rou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago
+de irrita&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso
+da sua dignidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bom, menino,&#8213;replicou elle
+amargamente.&#8213;N&atilde;o
+diga mais, para se n&atilde;o envergonhar
+depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
+costumado a v&ecirc;r pobres e ricos virem a minha
+casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim
+ahi vae mais um conselho, apesar de m'os n&atilde;o pedir.
+Seja attencioso com a velhice que n&atilde;o &eacute; baixeza
+nenhuma. Mas que &eacute; isto?&#8213;exclamou, mudando
+de tom e olhando para um redemoinho de
+folhas s&ecirc;ccas que o vento trouxera at&eacute; perto
+d'elle.&#8213;As
+folhas veem d'este lado! Ent&atilde;o virou o vento?
+&Eacute; verdade. Ah! sim?... Percebo.
+<br />
+
+<br />
+
+E, depois de olhar para o ar, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mudan&ccedil;as t&atilde;o repentinas!... Umh!...
+J&aacute;
+me n&atilde;o agrada aquelle azul e aquellas nuvens.
+<br />
+
+<br />
+
+E levantou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-lhes meia hora, e ver&atilde;o tudo isto coberto
+e quem sabe o mais que vir&aacute;! Aconselho-os a que
+v&atilde;o descendo o monte, que n&atilde;o &eacute; seguro
+descel-o
+quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim,
+j&aacute; me n&atilde;o demoro, que n&atilde;o tenho
+confian&ccedil;a na firmeza
+das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
+Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+E, sem mais palavras, sobra&ccedil;ou a caixa de lata,
+em que archivava as hervas medicinaes e outras
+substancias, que andava colhendo, e partiu, depois
+de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que o herbanario desappareceu, Henrique
+soltou uma risada, em que parecia haver o que
+quer que era de for&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; realmente curiosa esta antigualha&#8213;disse
+elle, que interiormente sentia j&aacute; remorsos pela maneira
+por que trat&aacute;ra o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span>
+&#8213;Ai, primo Henrique; que ainda est&aacute; muito
+pouco preparado para viver na aldeia!&#8213;disse a
+morgadinha.&#8213;Tem uns melindres e uma maneira
+de v&ecirc;r as coisas! Tudo lhe parecem faltas de
+atten&ccedil;&otilde;es,
+propositos de offender! depois ha um sarcasmo
+cruel nas suas palavras, a que os espiritos n&atilde;o
+est&atilde;o aqui habituados e de que <a href="#e2">se
+sentem</a>
+por
+isso feridos. Isso n&atilde;o &eacute; bom! Se vae assim, ou
+ter&aacute;
+de nos deixar c&ecirc;do, ou grandes desaven&ccedil;as
+suscitar&aacute;
+por ahi. N&atilde;o repara que estes modos s&atilde;o proprios
+do campo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, prima Magdalena; mas confesso
+que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos.
+Deve confessar que este homem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um homem de bem&#8213;atalhou Augusto com
+voz firme e com uma severidade de express&atilde;o, que
+at&eacute; alli n&atilde;o mostr&aacute;ra ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio.
+Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o nego&#8213;respondeu Henrique, pouco depois&#8213;mas
+infelizmente os homens de bem envelhecem,
+como os outros, e a extrema velhice traz
+a imbecilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Engana-se; esse homem, apesar de algumas
+phantasias, tem ainda um juizo s&atilde;o e uma raz&atilde;o
+clara.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acha?&#8213;tornou Henrique, j&aacute; algum tanto azedado.&#8213;Ha
+de dar-me licen&ccedil;a de n&atilde;o fazer obra
+por as suas aprecia&ccedil;&otilde;es... se me &eacute;
+permittido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procede mal&#8213;redarguiu Augusto.&#8213;Porque
+eu conhe&ccedil;o aquelle homem ha muito e o senhor
+acaba apenas de o v&ecirc;r pela primeira vez. Foi o
+senhor quem primeiro deu &aacute;s suas palavras um
+tom irritante, que desafiou uma digna correc&ccedil;&atilde;o.
+N&atilde;o lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso.
+A consciencia lh'o est&aacute; dizendo n'este momento melhor
+do que eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&ecirc; fundo nas consciencias dos outros!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; difficil. Em todos os homens a
+consciencia
+<span class="pagenum">[163]</span>
+tem uma s&oacute; maneira de ser. Reprova sempre o
+mal, aponta sempre a culpa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou admirando a subita loquacidade que se
+lhe manifestou! At&eacute; aqui suppunha-o taciturno. Vejo
+que lhe mere&ccedil;o a fineza de abrir uma
+excep&ccedil;&atilde;o aos
+seus habitos de laconismo em meu favor. Muito
+agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos
+moraes? N&atilde;o reparei.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto c&oacute;rou, mas respondeu com firmeza:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem uma nem outra coisa; &eacute; um genero muito
+mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente
+um preceito de civilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e
+tornou com dobrada ironia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, &eacute; verdade... esquecia-me que a
+civilidade entra no seu programma... de mestre-escola.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam
+o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos
+e descal&ccedil;os, mas n'esse ponto podem dar
+li&ccedil;&otilde;es a
+elegantes filhos das cidades.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois estimarei, nas minhas longas horas de
+ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas li&ccedil;&otilde;es
+tambem.
+Comtudo, como, felizmente, as circumstancias
+em que estou me permittem prescindir do beneficio
+do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que
+pague as li&ccedil;&otilde;es que receber.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa
+do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a...
+sem sacrificio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E acceita-a em toda a especie de moeda, n&atilde;o
+&eacute; verdade?&#8213;perguntou Henrique, cada vez mais
+petulantemente.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto respondeu com a mesma serenidade:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fa&ccedil;o tambem escrupulo n'isso, comtanto
+que me fique o direito salvo de pagar na mesma
+especie de tr&oacute;cos, quando julgar que os devo.
+<br />
+
+<br />
+
+O dialogo ia, como vamos vendo, de momento
+para momento adquirindo mais acerbo caracter.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[164]</span>
+Christina, que j&aacute; tremia de assustada, cingiu o
+bra&ccedil;o de Magdalena, como para convidal-a a intervir.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta n&atilde;o o tinha ainda feito por uma simples
+raz&atilde;o.
+Desconhecia Augusto. A audacia com que o
+via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
+inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso,
+que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram
+t&atilde;o novos para a morgadinha, que a surpreza, que
+d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
+de uma interven&ccedil;&atilde;o. O aviso de Christina
+chamou-a, por&eacute;m, &aacute; realidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem-me querido parecer, ainda que me custa
+a acreditar, que isso entre os senhores &eacute; uma
+alterca&ccedil;&atilde;o&#8213;disse
+ella por fim.&#8213;Vejam que s&oacute; teem
+por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem
+servir de padrinhos, se a contenda tomar outra
+fei&ccedil;&atilde;o. Por isso n&atilde;o &eacute;
+muito para louvar a escolha
+que fizeram da occasi&atilde;o, para uma justa t&atilde;o
+pouco... amavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, prima Magdalena; reconhe&ccedil;o a minha
+culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o
+sr. Augusto, costumado a imp&ocirc;r aos discipulos o
+seu pensamento, quiz estender at&eacute; mim este despotismo
+de... <em>magister</em>... Ora o meu
+pensamento
+pugnou pela sua independencia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de
+pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse
+modificar-lhe uma opini&atilde;o desfavoravel, que
+levianamente formou de quem lh'a n&atilde;o merecia.
+Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que
+quizer. Mas o que eu n&atilde;o soffro &eacute; que se diga
+deante de mim uma palavra contra um homem
+que respeito e de quem sou amigo, sem que erga
+a voz a defendel-o. Se n&atilde;o costuma fazer o mesmo
+por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade
+de o fazer, lastimo-o; &eacute; porque n&atilde;o os
+tem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mais paz de espirito se discutir&aacute; tudo
+<span class="pagenum">[165]</span>
+isso depois&#8213;disse Magdalena.&#8213;&Eacute; de cr&ecirc;r que,
+como sempre, haja de parte a parte raz&atilde;o e aggravos.
+Agora convido-os, antes de descermos, a visitar
+a ermida, cuja porta est&aacute; sempre, dia e noite,
+aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal &eacute;
+o prestigio que a defende, que n&atilde;o consta de um
+s&oacute; roubo sacrilego, que se fizesse n'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Entraram na ermida. Era um pequeno santuario,
+todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas
+pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando
+episodios da Paix&atilde;o; os altares, adornados
+de columnas e flor&otilde;es de talha dourada, attestavam
+nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e
+nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de
+vista a dos desenhos chinezes e que representavam
+milagres de todo o genero, a f&eacute; ardente com que era
+adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
+<br />
+
+<br />
+
+E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade
+manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua
+mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em
+torno, da altura a que se erguia, do isolamento em
+que estava.
+<br />
+
+<br />
+
+Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes,
+Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros
+dos milagres; Christina, que prolong&aacute;ra mais
+do que a prima a ora&ccedil;&atilde;o que fizera, contemplando
+a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos
+nas columnas do altar, por&eacute;m, n&atilde;o sei se pensando
+n'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Esperava-os uma surpreza &aacute; saida.
+<br />
+
+<br />
+
+Realis&aacute;ra-se o prognostico do herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+O vento sul que, segundo elle not&aacute;ra, soprava j&aacute;
+havia algum tempo, viera condensar os vapores,
+que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar
+com elles a limpidez do firmamento. O azul do
+c&eacute;o semei&aacute;ra-se, pouco a pouco, de pequenos
+flocos
+brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados
+veios que lhe davam uma apparencia
+quasi marmorea. C&ecirc;do estas massas de nuvens
+<span class="pagenum">[166]</span>
+cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando
+por tingir uniformemente toda a extens&atilde;o do firmamento.
+Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas
+e mais escuras, come&ccedil;aram a erguer-se do
+sul e caminharam impetuosas no espa&ccedil;o, como
+montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira,
+de encontro &aacute;s serras, que as aguardavam
+firmes.
+<br />
+
+<br />
+
+Um denso v&eacute;o de nevoeiro escondia j&aacute; a paizagem,
+quando sairam da ermida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depressa!&#8213;exclamou Augusto&#8213;j&aacute; n&atilde;o ha
+tempo a perder! Des&ccedil;amos antes que a tormenta
+nos colha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem medo?&#8213;disse Henrique em tom de mofa.&#8213;Um
+montanhez!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez tenha; em todo o caso ha de v&ecirc;r que
+n&atilde;o &eacute; de inimigo pouco digno de o inspirar. Por
+agora pe&ccedil;o-lhe tr&eacute;guas &aacute;s zombarias e,
+por amor
+d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por
+apressar a descida. Felizmente que o criado j&aacute; partiu.
+&Eacute; um embara&ccedil;o de menos. Vamos.&#8213;Detendo-se,
+por&eacute;m, disse para Magdalena:&#8213;Se descessemos
+por o outro lado, minha senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;?&#8213;respondeu esta.&#8213;&Eacute; um momento,
+emquanto chegamos abaixo.
+<br />
+
+<br />
+
+A tempestade caracterisava-se cada vez mais;
+crescia a cerra&ccedil;&atilde;o do ar; os &aacute;lamos
+gemiam, vergados
+pela impetuosidade das lufadas do sul; a
+chuva principiou por grossas gottas, e c&ecirc;do augmentou
+assustadoramente; havia na atmosphera
+surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
+nuvens tomavam uma c&ocirc;r terrea, outras um
+carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina, pallida de susto, murmurava em voz
+baixa ora&ccedil;&otilde;es fervorosas; Magdalena sorria para a
+animar, mas ella propria estava inquieta.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era de facto uma empreza de todo facil o
+descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho,
+j&aacute; de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel
+<span class="pagenum">[167]</span>
+quando as correntes se despenhavam por
+elle, como em catadupas, e os ventos vinham despeda&ccedil;ar-se
+furiosos de encontro &aacute;s arestas salientes
+da rocha.&#8213;Era necessario estar muito amestrado
+para o descer sem perigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto era de todos o que melhor o conseguiria;
+assim n&atilde;o tivesse de repartir os seus cuidados
+por tantos. De pequeno se costum&aacute;ra &aacute;quellas
+aventuras;
+e j&aacute; ent&atilde;o seguia, sem vertigem, a mais estreita
+borda dos despenhadeiros do monte.
+<br />
+
+<br />
+
+A tudo por&eacute;m attendia agora, desenvolvendo uma
+actividade e pericia, que inspirava alento e confian&ccedil;a
+aos mais. Agil, como um animal montez, girava
+em volta da pequena caravana, de que tacitamente
+f&ocirc;ra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir
+os passos pelos logares de mais facil transito, ora
+&aacute; retaguarda a dar a m&atilde;o a Magdalena, que vira
+em embara&ccedil;o, ou a amparar Christina, a quem muita
+vez chegou a levantar nos bra&ccedil;os, para a fazer franquear
+um ponto do caminho, em que ella par&aacute;ra,
+sentindo que lhe resvalavam os p&eacute;s no declive e na
+humidade do ch&atilde;o. O proprio Henrique, que n&atilde;o
+era o menos embara&ccedil;ado do rancho, e nem isso
+admira, s&oacute; a custo podia prescindir, em certos lances,
+do auxilio de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha
+iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria.
+Nenhum dos seus muitos talentos e aptid&otilde;es,
+de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das
+salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a
+sua inferioridade n'este momento; ora Henrique n&atilde;o
+era homem que, tendo consciencia disto, ficasse
+indifferente; mas que remedio? Procuraria mais
+tarde uma compensa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa
+descida, alguns dos quaes s&oacute;mente a
+preoccupa&ccedil;&atilde;o,
+em que iam os animos, impedia achar risiveis;
+por&eacute;m que mais tarde deviam, como &eacute; costume,
+vir a ser alimento de animadas e joviaes
+recorda&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em
+que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente
+desciam, uma ribanceira quasi a pique e
+erri&ccedil;ada de fragas salientes e angulos de rocha, em
+cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as
+giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido
+vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo
+a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear
+no espa&ccedil;o arreme&ccedil;ou-a ao abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, por&eacute;m
+em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer
+lado que se tentasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, no momento, n&atilde;o p&ocirc;de reter um grito,
+que fez parar com terror Henrique e Augusto
+que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, com a cabe&ccedil;a descoberta, tran&ccedil;as
+ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas,
+sorria j&aacute; do seu exaggerado susto.
+<br />
+
+<br />
+
+A rir, explicou o succedido, pedindo perd&atilde;o pelo
+sobresalto que involuntariamente caus&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descan&ccedil;a em paz!&#8213;disse ella, olhando para a
+mantilha; e accrescentou:&#8213;Sigamos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o ser&aacute; possivel tiral-a
+d'alli?&#8213;perguntou
+Augusto, examinando o sitio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;? N&atilde;o podemos demorar-nos agora
+com isso&#8213;respondeu Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu des&ccedil;o a cortar uma canna l&aacute; abaixo aos
+Moinhos e volto n'um momento&#8213;insistiu Augusto,
+dispondo-se a executar o que dizia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique notou, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O alvitre &eacute; de homem prudente. Cuidei que os
+montanhezes n&atilde;o eram de t&atilde;o bom aviso.
+<br />
+
+<br />
+
+E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por
+quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo
+&aacute; influencia que sobre elle exercia a fascinadora
+figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a
+uma desnecessaria imprudencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem
+qualquer reflex&atilde;o, deixou-se escorregar no despenhadeiro,
+<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span>
+segurando-se com as m&atilde;os &aacute; borda do
+caminho; tenteou com os p&eacute;s as fendas e as anfractuosidades
+da rocha, at&eacute; conseguir firmal-os; segurou-se
+ora a uma raiz saliente, ora a um ramo
+mais tenaz; &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de vontade dominou
+a sua impericia
+em exercicios d'esta ordem, e finalmente
+conseguiu, estendendo o bra&ccedil;o, segurar a mantilha,
+que o vento arroj&aacute;ra ao precipicio.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, com dobradas difficuldades e por ventura
+redobrados perigos, p&ocirc;de, ro&ccedil;ando-se como reptil,
+e ferindo as m&atilde;os nas asperezas da rocha e nos
+espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar
+outra vez os p&eacute;s em terra, sem acceitar a m&atilde;o que
+Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou
+a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto
+um olhar de triumpho.
+<br />
+
+<br />
+
+Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado
+sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento,
+quasi gelados de susto e de espanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto
+meneou a cabe&ccedil;a murmurando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que imprudencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na verdade!&#8213;disse Magdalena, ainda nervosa
+com a impress&atilde;o que este incidente lhe
+caus&aacute;ra&#8213;foi
+uma loucura; uma loucura imperdoavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E a perturba&ccedil;&atilde;o era tal, que nem acertou com
+uma phrase de agradecimento, com que pagasse a
+imprudente galanteria, que mais desejava reprehender,
+do que recompensar.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta reserva offendeu Henrique; servi&ccedil;os <a href="#e3">a
+seu
+v&ecirc;r</a> de menor importancia, tinham
+merecido a
+Augusto mais calorosas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Revoltou-o esta ingratid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato,
+n&atilde;o concedendo sequer um olhar &aacute;s faces
+desmaiadas pelo terror, aos labios tr&eacute;mulos e aos
+olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava
+Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto
+e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella
+<span class="pagenum">[170]</span>
+que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desesp&ecirc;ro
+de v&ecirc;r que f&ocirc;ra outra a que inspirava aquellas
+loucuras!
+<br />
+
+<br />
+
+Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer.
+Com a f&ocirc;r&ccedil;a das enxurradas, que se precipitavam
+clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel
+que a levada que corria na raiz do monte tivesse
+engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte
+rustica, que &aacute; vinda j&aacute; tinham encontrado quasi
+submersa.<br />
+
+<br />
+
+Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras,
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou adeante assegurar-me do estado da
+ponte, para no caso de estar j&aacute; coberta, como &eacute;
+provavel, v&ecirc;r se o moleiro nos abre a porta do moinho,
+a fim de passarmos por l&aacute;. V&atilde;o descendo devagar,
+que eu volto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o deixa-nos
+s&oacute;s?&#8213;exclamou Christina,
+assustada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um instante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei se nos atreveremos a dar um passo
+sem a sua indica&ccedil;&atilde;o&#8213;disse Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor est&aacute; passado. Al&eacute;m d'aquella pedra
+j&aacute;
+v&ecirc;em o ribeiro e a
+ponte; o caminho indica-se
+por si.
+<br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie
+de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa
+o devia conduzir ao logar que demandava.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ia agora na frente; ap&oacute;s, seguia-se Magdalena.
+Christina fechava o cortejo.
+<br />
+
+<br />
+
+O mau humor de Henrique augment&aacute;ra de ponto,
+em consequencia dos receios com que as duas raparigas
+tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
+a direc&ccedil;&atilde;o do rancho.
+<br />
+
+<br />
+
+Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma
+confian&ccedil;a que lhes estava merecendo o auxilio de
+Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia,
+em vez do papel de protector, o de protegido,
+que o humilhava.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[171]</span>
+Obrigado a digerir, como pud&eacute;sse, o seu fundo
+descontentamento,
+Henrique perdera com isso aquella
+volubilidade de conversa&ccedil;&atilde;o que mantivera todo o
+dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca, na presen&ccedil;a de Magdalena, deix&aacute;ra passar
+tanto tempo sem formular um d'esses galanteios
+que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
+nem sempre demasiado affavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, por seu lado, n&atilde;o se sentia com
+disposi&ccedil;&atilde;o
+para falar. Christina menos.
+<br />
+
+<br />
+
+Este silencio acabou por exasperar Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Haviam j&aacute; percorrido grande parte do caminho,
+que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas
+turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que
+nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que Henrique desafogou o seu resentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou dev&eacute;ras arrependido, prima Magdalena,&#8213;disse
+elle com leve ironia&#8213;do meu espontaneo
+movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
+ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos
+os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas
+como d'aquella vez se me figurou que era demasiado
+cauteloso para heroe...
+<br />
+
+<br />
+
+Uma simultanea exclama&ccedil;&atilde;o de Magdalena e de
+Christina n&atilde;o o deixou proseguir.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltando-se para saber a causa, que a motiv&aacute;ra,
+viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade
+para a base do monte.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguindo a direc&ccedil;&atilde;o do olhar d'ellas, Henrique
+reconheceu a causa d'aquelle duplo grito.
+<br />
+
+<br />
+
+Refiramol-o em poucas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar
+se a ponte estava ou n&atilde;o transitavel, surprehendeu-o
+um espectaculo inesperado.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario que, prevendo tempestade e receioso
+dos perigos de que em taes condi&ccedil;&otilde;es a descida
+era acompanhada, se apress&aacute;ra a partir, n&atilde;o
+conseguira
+chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento
+<span class="pagenum">[172]</span>
+da borrasca. O andar vagaroso e precavido
+do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para
+descan&ccedil;ar ou para colher a rara planta montezinha,
+o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de
+occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia,
+foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o
+a meio caminho, e mais difficil de descer
+lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, n&atilde;o
+obstante haver partido antes dos outros, n&atilde;o lhes
+levava muitos passos de avan&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao chegar &aacute; levada, encontrou j&aacute; as pedras do
+tosco passadi&ccedil;o, a que se dava o nome de ponte,
+cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer
+para a passar ainda a p&eacute; enxuto; mas a levada,
+agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento
+para momento; c&ecirc;do j&aacute; n&atilde;o se viam
+signaes
+de ponte. O herbanario parou, embara&ccedil;ado. Acima
+ficavam-lhe os a&ccedil;udes, transformados em impetuosas
+cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes
+rodas espumava a corrente com espantoso
+fragor.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens
+o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam
+de todo a vista das pedras.
+<br />
+
+<br />
+
+Tenteou com o bord&atilde;o o sitio, em que as supp&ocirc;z.
+Encontrou a primeira, pousou um p&eacute; n'esse
+ponto; firmou-se como p&ocirc;de, para resistir &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a
+da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra
+pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro,
+at&eacute; que de repente, ou por esva&iacute;mento de sentidos
+ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o
+equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o
+pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade
+das aguas; reconheceu a urgente necessidade,
+para evitar uma horrivel desgra&ccedil;a, de acudir,
+sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente
+arrastava para os lados do moinho.
+<br />
+
+<br />
+
+Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou,
+<span class="pagenum">[173]</span>
+quasi de um salto, o espa&ccedil;o, que o separava ainda
+do ribeiro, e lan&ccedil;ou-se &aacute; agua.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique
+tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade
+malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se
+revelava o seu amor de ostenta&ccedil;&atilde;o. Imaginava-se
+sempre n'um palco, deante de espectadores que o
+viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel
+de homem perfeito. Fraco perante doen&ccedil;as imaginarias,
+arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria
+vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso
+generoso, que n&atilde;o pud&eacute;sse harmonisar-se
+com a conven&ccedil;&atilde;o, que se chama elegancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram estes os defeitos que Magdalena adivinh&aacute;ra
+n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto era differente.
+<br />
+
+<br />
+
+As suas grandes qualidades guardava-as com
+modestia dos olhos estranhos, para s&oacute;mente as revelar,
+quando pud&eacute;ssem ser uteis.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r cahir a mantilha de Magdalena, n&atilde;o arriscou
+temerariamente a vida para a buscar. Procurava
+com placidez os meios de o fazer, com mais seguran&ccedil;a,
+embora com menos romanticismo; mas, para
+salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente
+nobre e generoso, nada o fazia recuar.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o
+herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando
+emfim com desafogo, respondeu &aacute;s anteriores
+palavras de Henrique, dizendo em suave tom
+de censura:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem v&ecirc; que nem sempre &eacute; cauteloso o nosso
+guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida,
+quando uma raz&atilde;o de humanidade lh'o pede. A
+sua imprudencia de ha pouco... agrade&ccedil;o-lh'a,
+mas... n&atilde;o posso approval-a. Confesse que n&atilde;o
+foi t&atilde;o justificada como esta.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique tinha a raz&atilde;o clara bastante e a consciencia
+justa para v&ecirc;r que, apesar da sua fa&ccedil;anha
+<span class="pagenum">[174]</span>
+cavalheiresca, fic&aacute;ra, d'esta vez ainda, inferior ao
+seu companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Qualquer que f&ocirc;sse o desgosto, que a descoberta
+lhe produzisse, &eacute; certo que teve sobre a
+rebelli&atilde;o
+dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar
+a ir apertar a m&atilde;o a Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo
+esfor&ccedil;o da lucta com a corrente; ainda assim
+abra&ccedil;ou
+tambem Augusto, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o a Deus o haver-me dado esta occasi&atilde;o
+de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que
+desejava levar da terra, quando a deixasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
+<br />
+
+<br />
+
+Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro,
+os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas
+e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
+o moleiro, a quem mandaram chamar para
+dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a
+ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pud&eacute;ssem
+ahi dentro mudar de fato.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto seguiu o herbanario a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Passada meia hora sa&iacute;am tambem do moinho
+os outros todos, depois de haverem renovado a
+roupa, que a chuva repass&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha
+com muitas exclama&ccedil;&otilde;es e ralhos por
+n&atilde;o
+terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella
+lhes recommend&aacute;ra; estas iras c&ecirc;do se derivaram
+sobre os criados, a quem, entre outros delictos,
+attribuia o de a n&atilde;o haverem avisado de que na
+vespera pass&aacute;ra por alli o caldeireiro ambulante,
+repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico
+infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o,
+se oppuzesse a tal passeio.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Alvapenha, D. Doroth&eacute;a e Maria de Jesus n&atilde;o
+levantaram menor celeuma, ao v&ecirc;rem chegar Henrique.
+Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
+cobertores, emborcaram-o de <em>punch</em> e
+taes m&ecirc;dos
+<span class="pagenum">[175]</span>
+lhe insinuaram, que as apprehens&otilde;es pathologicas
+de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se
+da sua antiga victima.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XI
+</h4>
+
+<br />
+
+Censuravel descuido tem sido o nosso em n&atilde;o
+conduzir o leitor a um dos logares mais importantes
+da aldeia, onde se passam os singelos episodios
+d'esta narra&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Que se diria de um <em>cicerone</em> que, por
+esquecimento
+ou proposito, deixasse de apresentar um viajante,
+recem-chegado a uma cidade, na assembleia,
+club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem
+as principaes personagens d'ella, onde se compendiam
+as grandes quest&otilde;es e interesses locaes,
+as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras,
+os voluveis caprichos que agitam os espiritos,
+onde se commenta o boato de hontem, se d&atilde;o ao
+de hoje mil vers&otilde;es diversas e se adivinha j&aacute; o
+de
+&aacute;manh&atilde;?
+<br />
+
+<br />
+
+Pois no mesmo delicto incorremos n&oacute;s, chegando
+a este undecimo capitulo, sem ter guiado os leitores
+&aacute; venda de Dami&atilde;o Canada, a qual podia dizer-se
+o verdadeiro cora&ccedil;&atilde;o d'aquelle organismo social.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo quanto na terra havia de certa representa&ccedil;&atilde;o
+alli ia falar da coisa publica e tambem da particular;&#8213;da
+particular dos outros mais do que da
+propria, entenda-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza
+ap&oacute;s horas continuadas de chuva e de temporal,
+como que procurou respirar e permittiu que o
+sol, j&aacute; no occaso, levantasse uma ponta do manto
+de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios
+amortecidos &aacute;s cristas das serras fronteiras; aproveitemos
+<span class="pagenum">[176]</span>
+este intervallo de socego para entrarmos
+na taberna.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinham passado dois dias depois do passeio ao
+monte, que descrevemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas teve de condescender com
+uma leve angina, que lhe legaram os rigores
+d'aquella excurs&atilde;o, e ficou em Alvapenha, entretendo-se
+a escrever cartas aos amigos e a scismar
+n'uma imminente desorganisa&ccedil;&atilde;o da larynge, a
+que imaginava conduzirem-o os seus inc&oacute;mmodos
+actuaes.
+<br />
+
+<br />
+
+No Mosteiro nada tambem occorreu, que mere&ccedil;a
+narrar-se ao leitor.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos,
+e vejamos o que dizem os frequentadores do
+estabelecimento de Dami&atilde;o Canada.
+<br />
+
+<br />
+
+Brilhante &eacute; a assembleia alli reunida. Al&eacute;m do
+proprietario, barriguda e rubicunda figura, que, assim
+posta ao p&eacute; das pipas, podia servir de typo para a
+representa&ccedil;&atilde;o de um Sileno, havia varias
+individualidades
+de peso nos destinos de toda a comarca.
+<br />
+
+<br />
+
+D&ecirc;-se primeiro men&ccedil;&atilde;o ao nosso
+j&aacute; conhecido
+Bento Pertunhas, a quem as humanidades n&atilde;o faziam
+soberbo a ponto de recusar-se a entrar em
+communica&ccedil;&atilde;o social com os seus conterraneos.
+<br />
+
+<br />
+
+Observada esta deferencia, mencionemos os mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Um era nem mais nem menos do que o sr. Jo&atilde;ozinho
+das Perdizes, em quem j&aacute; temos ouvido falar
+por mais do que uma vez.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o dicto sr. Jo&atilde;ozinho morgado e proprietario
+em uma das freguezias proximas, chamada de Pinch&otilde;es;
+mas propriedades e morgadia andavam-lhe
+t&atilde;o embara&ccedil;adas em redes de demandas e de
+hypothecas,
+que Deus nos acuda.
+<br />
+
+<br />
+
+Os autos, que diziam respeito &aacute; casa das Perdizes,
+enchiam um cartorio. Gra&ccedil;as, por&eacute;m, ao seu
+genio despreoccupado e folgaz&atilde;o, o sr. Jo&atilde;ozinho
+deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os
+cuidados agricolas aos rendeiros e feitores; os do
+<span class="pagenum">[177]</span>
+futuro, a Deus ou ao diabo; e para si n&atilde;o reservava
+nenhuns.
+<br />
+
+<br />
+
+Proseguia n'aquella vida airada, que j&aacute; lhe era
+necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar
+e fazer trocas de cavallos com os ciganos, e &aacute;s
+vezes para dar e levar sovas monumentaes.&#8213;Nos
+mezes de ca&ccedil;a, a vida do morgado era perfeitamente
+n&oacute;mada: estendia por leguas e leguas as suas
+excurs&otilde;es
+venatorias, contentando-se com qualquer
+cama e comida, de que, de ordinario, participavam
+os c&atilde;es, que o acompanhavam; distrahia-se tambem
+a conquistar os cora&ccedil;&otilde;es femininos da freguezia,
+calando com dinheiro algumas queixas mais
+acerbas e insoffridas de um ou outro pae, marido
+ou irm&atilde;o. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas
+tinha contas em aberto, o que n&atilde;o obstava a
+que entrasse em todas com ares de conquistador e
+expendesse alli as suas opini&otilde;es absolutas, com
+grande exhibi&ccedil;&atilde;o de berros e de punhadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Com todas estas qualidades, era o sr. Jo&atilde;ozinho das
+Perdizes um homem verdadeiramente popular entre
+os da sua freguezia; movia-os no sentido que quizesse.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo por l&aacute; era o sr. Jo&atilde;ozinho; n&atilde;o
+havia func&ccedil;&atilde;o,
+rixa, solemnidade official, para que elle n&atilde;o
+f&ocirc;sse
+consultado. &Eacute; que a superioridade do morgado das
+Perdizes n&atilde;o era d'aquellas que intimidam e acanham
+o povo; ninguem hesitava em falar-lhe e em
+procural-o em casa, porque, falando e vivendo com
+elles, o sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o constrangia ninguem.
+Os
+seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas
+eram outras tantas causas a popularisal-o; justo &eacute;
+por&eacute;m que se diga que algumas boas qualidades
+tambem para isso concorriam. O sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o
+era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com
+dinheiro no bolso, n&atilde;o consentia que pessoa alguma,
+desde o mais rico proprietario at&eacute; o jornaleiro
+mais miseravel, recusasse tomar assento a seu lado.
+N&atilde;o eram poucos os filhos-familias que resgat&aacute;ra
+<span class="pagenum">[178]</span>
+de soldado, sem a menor cau&ccedil;&atilde;o ou interesse,
+chegando
+a ficar empenhado para os livrar; e se algum
+desgra&ccedil;ado se via perseguido pela justi&ccedil;a,
+encontrava,
+f&ocirc;sse qual f&ocirc;sse a enormidade do crime,
+asylo seguro na herdade das Perdizes, que em certas
+&eacute;pocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.
+<br />
+
+<br />
+
+Gra&ccedil;as, pois, a estas e analogas qualidades, era
+o sr. Jo&atilde;ozinho uma verdadeira potencia eleitoral.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis ahi o homem moralmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta
+e cinco annos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas
+melenas em desordem, bigode aparado e
+a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na
+maneira de vestir inculcava os habitos da vida e
+um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar.
+Trazia o collete quasi sempre desapertado e
+com alguns bot&otilde;es de menos de modo que os peitos
+da camisa formavam hernia pela abertura; entre
+as cal&ccedil;as desca&iacute;das e o collete avistava-se o
+c&oacute;z
+das ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar
+a m&atilde;o; ao pesco&ccedil;o trazia um len&ccedil;o de
+seda escarlate,
+negligentemente atado e com longas pontas fluctuantes;
+uma jaqueta de pelles com alamares, cal&ccedil;as
+de fazenda chamada pelle do diabo, botas de
+montar e esporas constituiam o resto do vestuario.
+O cigarro, que quasi sempre fumava at&eacute; &aacute;s
+ultimas,
+crest&aacute;ra-lhe profundamente as pontas dos dedos e
+o canto dos labios. O palito andava-lhe sempre atraz
+da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para
+qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa
+matilha de galgos, podengos e perdigueiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Segunda e n&atilde;o menos importante personalidade
+era a do sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomasia&#8213;o
+Brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um homem de cincoenta annos; bem figurado
+e sisudo, de falar compassado e com seus
+qu&ecirc;s de oraculo, phrases sentenciosas e ares de
+protec&ccedil;&atilde;o
+a todo o mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[179]</span>
+Saira crean&ccedil;a da aldeia e f&ocirc;ra tentar fortuna ao
+Brazil. Por l&aacute; esteve quarenta annos, e voltou o homem
+grave que vemos e rico. Como enriqueceu n&atilde;o
+sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma
+casa no sitio em que nascera, uma casa grande de
+cantaria e azulejo, com tres andares e varandas,
+jardim com estatuas de lou&ccedil;a e alegretes pintados
+de verde e amarello, o qual jardim tinha mais fama
+n'aquellas aldeias vizinhas do que os jardins suspensos
+da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma
+arara, igualmente famosos, e uma botica homoepatica,
+que elle proprio manipulava.
+<br />
+
+<br />
+
+As ambi&ccedil;&otilde;es de Eusebio Seabra limitavam-se a
+vir a ser a primeira personagem de influencia na
+aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos
+na igreja parochial, presenteou com vestidos
+novos todos os santos dos altares, e mandou renovar
+um sino, que havia doze annos tocava a rachado.
+Fez &aacute; sua custa a festa do orago, chegando a
+mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato,
+que ardeu a pouca altura do ch&atilde;o. Apesar, por&eacute;m,
+de todos estes beneficios &aacute; localidade, o conselheiro
+Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto
+vivesse quasi sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe
+sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas.
+Por isso, apesar da apparente amizade com
+que Seabra o acolhia e lisonjeava at&eacute;, conservava
+por elle no fundo uma m&aacute; vontade, um ciume, de
+que eram de receiar, tarde ou c&ecirc;do, explos&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Seabra era t&atilde;o asseiado, quanto o sr. Jo&atilde;ozinho
+das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre
+de suissa irreprehensivelmente talhada em volta
+do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres
+grandes bot&otilde;es de brilhantes; no trajo combinavam-se
+as variegadas c&ocirc;res de uma ave da America;
+e o ouro, distribuido com profus&atilde;o por todos
+os accessorios da sua pessoa, attestava os bons resultados
+dos seus quarenta annos do Brazil. Passeiava
+pela aldeia de chinelos de marroquim verde
+<span class="pagenum">[180]</span>
+ou sapato de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do
+andar, que voltava a casa sem que uma mancha
+ennodoasse a alvura das suas meias de algod&atilde;o fino.
+Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos
+caminhos, calcando-a com bota de polimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'estes dois e do nosso conhecido Z&eacute;
+P'reira,
+que bebia, em silencio, ao p&eacute; do taberneiro, havia
+um padre, coadjuctor da freguezia, dois lavradores
+abastados e j&aacute; de avan&ccedil;ada idade, e outros
+que deixaremos confundidos na massa indistincta
+dos comparsas.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento, em que entramos, usava da palavra
+o brazileiro, que estava sentado &aacute; porta da taberna,
+na mais limpa cadeira do estabelecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade&#8213;disse elle&#8213;f&ocirc;mos todos da
+mesma crea&ccedil;&atilde;o. O conselheiro
+Manoel Bernardo
+saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu ir
+para o Brazil. And&aacute;mos ambos na mesma escola,
+que era a do padre Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura.
+Vossemec&ecirc; ha de estar lembrado, sr. Luiz&#8213;accrescentou,
+dirigindo-se com a affabilidade protectora,
+que o caracterisava, a um dos lavradores.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se estou! muito bem. Era na casa em que
+hoje mora o Chico da Luciana.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro
+e aquelle rat&atilde;o do Vicente, herbanario, que
+era j&aacute; rapaz taludo. Lembra-me, como se f&ocirc;sse
+hoje,
+de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro
+da Corredoura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;, hein!&#8213;diziam dois lavradores com
+um sorriso cortez&atilde;o nos labios&#8213;ent&atilde;o com que o
+sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, como um homem. Eu fui levadinho da
+br&eacute;ca. Boa s&oacute;va levei de minha m&atilde;e,
+por causa de
+umas cal&ccedil;as novas que rompi.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&ecirc;des?&#8213;diziam os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai tempos, tempos!&#8213;disse, suspirando, o brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem havia de dizer ent&atilde;o ao que v. s.<sup>a</sup>
+e o
+<span class="pagenum">[181]</span>
+conselheiro tinham de chegar!&#8213;notou lisonjeiramente o sr. Bento
+Pertunhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sim&#8213;respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.&#8213;A que
+cheguei
+eu? Comi candeias acc&ecirc;sas pelo Brazil, para arranjar um
+boccado de p&atilde;o para o resto da vida; com isso me contento.
+O mais, sou um pobre diabo que ninguem conhece, um homem ignorante, sem
+principios. Elle &eacute; outra coisa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tanto assim&#8213;insistiu
+Pertunhas&#8213;todos sabem que v. s.<sup>a</sup> se quizesse...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe, meu caro amigo, eu conhe&ccedil;o-me; se tivesseo juizo de
+muitos, que por ahi vejo figurando, ent&atilde;o havia de me
+v&ecirc;r na brecha; porque, n&atilde;o &eacute; por me
+gabar, mas n&atilde;o me tenho por menos do que muitos d'elles.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora pois, n&atilde;o, n&atilde;o&#8213;disseram os
+lavradores, Pertunhas e o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguns que at&eacute; ministros teem sido...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por essa estou eu...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O conselheiro mesmo...&#8213;resmungou o padre, fungando uma pitada
+jesuitica&#8213;sim, aqui para n&oacute;s...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o digo&#8213;continuou o brazileiro, mais
+jesuiticamente
+ainda.&#8213;O conselheiro... vamos... Fa&ccedil;a-se-lhe
+justi&ccedil;a. Eu n&atilde;o quero dizer que elle seja uma
+coisa
+por ahi al&eacute;m... sim... Que diabo tem elle feito a final?...
+Mas... N&atilde;o &eacute; dos peores, n&atilde;o
+&eacute; dos peores. Fa&ccedil;a-se-lhe justi&ccedil;a.
+N&atilde;o &eacute; homem de grandes talentos... isso
+n&atilde;o; nem mesmo de grande fundo. Sim... Devemos confessar
+que esta &eacute; a verdade... Mas... emfim, vamos andando...Cada
+um
+faz o que pode&#8213;concluiu o brazileiro, depois de ter feito
+justi&ccedil;a ao conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No que elle tem andado mal &eacute; em prometter mais do que pode
+fazer. Ha quantos annos nos anda a falar na estrada, e at&eacute;
+hoje ainda nem palmo d'ella?&#8213;opinou Pertunhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o p&atilde;o: diz o
+dictado&#8213;ponderou o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>&#8213;A falar
+verdade!...&#8213;disse um dos lavradores&#8213;com a influencia que elle tem,
+podia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! palanfrorio&#8213;atalhou o padre&#8213;bem me fio eu na influencia
+do conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh! eh! eh!&#8213;respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do
+padre,
+e accrescentou com um sorriso velhaco:&#8213;N&atilde;o, elle diz que
+fala com os ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido.
+Emfim... Elle l&aacute; o sabe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para mim &eacute; que elle vem de carrinho...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei&#8213;concluiu com requinte de velhaquez o
+brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu c&aacute;&#8213;disse o sr. Jo&atilde;ozinho, que
+estivera bebendo em silencio, e descarregou um murro na banca, que fez
+tilintar os copos.&#8213;Eu c&aacute; j&aacute; disse; se os taes
+homens das bandeirolas me tornam a passar por as terras, sempre lhes
+me&ccedil;o as costas com um marmeleiro, que l&aacute; tenho, e
+que j&aacute; me serviu para varrer a feira de Santo
+Estev&atilde;o. Uns mariolas!...<br />
+
+<br />
+
+E como para desafogar o p&ecirc;so da sua amabilidade, despediu um
+pontap&eacute; a um podengo, que lhe viera ro&ccedil;ar por as
+pernas, e fel-o sair ganindo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que v&atilde;o principiar outra vez com os trabalhos das
+estradas&#8213;informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr.
+Jo&atilde;ozinho.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!&#8213;resmungou
+este.&#8213;Fa&ccedil;o como d'aquella vez em que eu e a minha gente
+queim&aacute;mos toda a papelada da camara e do escriv&atilde;o
+da fazenda.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora no inverno &eacute; que elles h&atilde;o de
+principiar com os trabalhos. Sempre se fia em boa!&#8213;disse, encolhendo
+os
+hombros, mestre Pertunhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vossemec&ecirc; &eacute; que est&aacute; a
+ler&#8213;veio-lhe &aacute; m&atilde;o
+obrazileiro.&#8213;Ent&atilde;o
+n&atilde;o sabe que as elei&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o
+em fevereiro?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade! n&atilde;o me tinha
+lembrado d'isso!&#8213;exclamou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o sei como ser&aacute; d'esta vez essa <span class="pagenum">[183]</span>historia das
+elei&ccedil;&otilde;es&#8213;acudiu o
+sr. Jo&atilde;ozinho.&#8213;C&aacute;eu e a minha gente ainda
+estamos
+a v&ecirc;r no que param as coisas. Eu j&aacute; n&atilde;o
+estou para ser logrado. At&eacute; agora tenho dado ao conselheiro
+a
+freguezia em p&ecirc;so, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo
+que n&atilde;o pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos
+de
+entrar n'uns ajustes. Se o homem n&atilde;o estiver c&aacute;
+por umas contas, n&atilde;o anda o filho de meu pae.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus!&#8213;disse o padre cura.&#8213;O conselheiro tem artes para o levar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? Est&aacute; enganado. N&atilde;o
+querendo eu?Ent&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o me
+conhece. Em euembirrando, sou como um borrego teimoso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando se fala em estradas, j&aacute; estou a tremer&#8213;disseum dos
+lavradores.&#8213;O que elles veem c&aacute; fazer &eacute;
+cortar-nos os campos, e a final n&atilde;o sei para que servem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o &eacute; assim&#8213;atalhou o brazileiro,
+tomando uns ares cathedraticos, cheios de
+gravidade.&#8213;Vossemec&ecirc; &eacute; ignorante e por isso
+&eacute; que fala d'esse modo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo...&#8213;tartamudeou, intimidado, o lavrador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim: mas n&atilde;o deve metter-se a falar em coisas que
+n&atilde;o entende. As estradas n&atilde;o servem para nada! As
+estradas s&atilde;o meios de communica&ccedil;&atilde;o
+e...
+facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por conseguinte a
+riqueza das na&ccedil;&otilde;es... Porque o trabalho
+representa
+um capital..., sim, senhores, mas... mas um capital...sim... um capital
+morto... quero dizer um capital que n&atilde;o vive... Quero
+dizer... sim... supponhamos: o credito por exemplo... O credito...,
+sim... ahi est&aacute; o credito... Pois que &eacute; o
+credito?... O credito &eacute;... &eacute; o credito... depende
+de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se n&oacute;s
+n&atilde;o tivessemos estradas... Uma
+supposi&ccedil;&atilde;o... Partamos de um principio. A
+produc&ccedil;&atilde;o excede o <span class="pagenum">[184]</span>consumo...
+Quero mesmo que o consumo exceda a produc&ccedil;&atilde;o...
+Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta?
+Est&aacute;
+claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites...
+N&atilde;o havendo estradas... Ahi est&aacute; que se diz por
+ahi que a livre exporta&ccedil;&atilde;o, que tal, que
+sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois n&atilde;o
+&eacute; assim. &Eacute; preciso que se attenda tambem
+&aacute;s condi&ccedil;&otilde;es economicas dos povos.
+Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em termos
+j&aacute; se sabe...Mas... o commercio livre... a livre troca...
+entendamo-nos... &Eacute; preciso clareza de ideias... Quando eu
+digo
+que... Ora supponhamos... supponhamos que n&atilde;o havia
+estradas... Os transportes eram mais difficeis e portanto mais caros...
+E se al&eacute;m d'isso os generos f&ocirc;ssem escassos e...
+Diz
+vossemec&ecirc;, para que servem as estradas? Ora diga-me uma
+coisa,
+sr. Manoel, supponhamos que... os impostos indirectos... n&atilde;o
+precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria
+que me dissesse o que havia de fazer.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Impostos, Deus me livre d'elles!&#8213;murmurouo lavrador, cujos
+instinctos trepidaram &aacute;
+palavra &laquo;impostos&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso tambem n&atilde;o &eacute; assim... Deus me
+livre! N&atilde;o se diz Deus me livre, porque a riqueza...
+a riqueza... sim, a riqueza n&atilde;o est&aacute; na
+terra... isto &eacute;, a riqueza est&aacute; na terra... mas
+&eacute; preciso o capital para a
+explora&ccedil;&atilde;o...
+Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... N&atilde;o... vamos
+c&aacute; por outro lado... Ha um <em>deficit</em>
+n'um or&ccedil;amento... desce o pre&ccedil;o das
+inscrip&ccedil;&otilde;es... Ora bem... Mas... supponhamos que
+ha
+boas estradas, <em>etcoetera</em>... A riqueza tende a
+augmentar... e... e... Emfim l&aacute; que as estradas
+s&atilde;o uteis, isso &eacute; que n&atilde;o tem
+quest&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com
+profunda
+atten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios<span class="pagenum">[185]</span> periodicos politicos,
+conseguira, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de leitura, fixar
+na
+memoria certas phrases de artigo defundo, e acab&aacute;ra por
+convencer-se de que possuia grandes no&ccedil;&otilde;es de
+sciencia politica. Em occasi&otilde;es como esta dava uma
+sacudidela
+ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do
+interior de um kaleidoscopo, tomavam uma
+disposi&ccedil;&atilde;o tal ou qual, mais ou menos regular, e
+assim lhe saia uma disserta&ccedil;&atilde;o, como essa que
+viram. Em permanente indigest&atilde;o economica vivia este
+portento. A doen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; das mais
+raras
+entre politicos.<br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes abriu desmesurada e
+ruidosamente
+a b&ocirc;ca, depois do discurso do brazileiro, e disse:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu c&aacute; por mim n&atilde;o sei d'essas
+coisas. N&atilde;o se me dava das estradas para poder ir
+&aacute;
+feira de Penafiel com menos trabalho, mas, j&aacute; disse, que
+me n&atilde;o venham mexer na quinta; porque ent&atilde;o
+teem que v&ecirc;r.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; arriscado a isso&#8213;disse o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos, depois n&atilde;o se queixem. Temos a historia da
+papelada outra vez.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura f&oacute;ra,
+depois de tomar &aacute; esquerda pelo Castro e vir direito
+&aacute; Palho&ccedil;a. N&atilde;o tinha cruzes nem
+cunhos.
+Ia-me parte da propriedade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah! ah! Tambem n&atilde;o gosta?
+Diga-me d'isso!&#8213;berrou o sr. Jo&atilde;ozinho.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; n&atilde;o gostar, &eacute; que
+o tra&ccedil;ado era pessimo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei por qu&ecirc;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a expropria&ccedil;&atilde;o da minha quinta
+por
+que pre&ccedil;o n&atilde;o lhes ficava?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elles, para esses casos, l&aacute; teem umas leis a seu
+modo&#8213;notou o padre cura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por onde ha de ir ent&atilde;o a estrada?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O outro tra&ccedil;ado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da
+herdade do capit&atilde;o-m&oacute;r, faz um<span class="pagenum">[186]</span> viaducto nos lameiros,
+atravessa o pinhal do Conego, passa o rio n'uma ponte e...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh com os diabos; o que ahi vae!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tanto como parece; sendo as obras
+bem dirigidas... At&eacute; aos lameiros s&oacute; tem a
+deita rabaixoa casa e o quintal do herbanario.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de
+paix&atilde;o, se tal fazem&#8213;disse, com certa
+commisera&ccedil;&atilde;o, o sr. Jo&atilde;ozinhodas
+Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera
+affei&ccedil;&atilde;o e respeito, n'elle excepcional, desde
+que
+lhe attribuia a cura de um typho que o tivera &aacute;s portas da
+morte, e de que o velho, dizia elle, o salv&aacute;ra, com
+uns cozimentos s&oacute;mente d'elle sabidos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Est&aacute;
+maluco de todo&#8213;redarguiu o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem est&aacute; um bom magico, est&aacute;&#8213;notou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer n&atilde;o, que sabe mais do que todos os medicos&#8213;acudiu o
+sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna.
+Oh que excommungada!<br />
+
+<br />
+
+E principiou a fazer a historia da sua doen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas
+attribuiam-lhe
+mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a final por onde devia ir a estrada&#8213;continuou o
+brazileiro;&#8213;tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso
+n&atilde;o se fala, j&aacute; se sabe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! pois est&aacute; de v&ecirc;r&#8213;concordou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o conselheiro n&atilde;o se ha de opp&ocirc;r
+&aacute; expropria&ccedil;&atilde;o da casa do herbanario,
+porque pelos modos elles n&atilde;o andam muito correntes&#8213;lembrou
+um lavrador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade; por que seria aquillo?&#8213;perguntou outro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elles em tempo eram muito um do outro; e s&atilde;o
+at&eacute;
+aparentados;&#8213;explicou o brazileiro&#8213;e o <span class="pagenum">[187]</span>velho
+ainda hoje &eacute; tratado com familiaridade pela gente do
+Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle genio exquisito que tem,
+disse algumas verdades ao conselheiro, por occasi&atilde;o de
+umas elei&ccedil;&otilde;es, quando elle p&ocirc;z as
+auctoridades a trabalhar por si, e o velho entendia que as coisas
+n&atilde;o iam bem assim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte
+conselheiros e toda a familia,&#8213;exclamou o sr. Jo&atilde;ozinho,
+batendo outra punhada&#8213;e queira elle, que o tal senhor n&atilde;o
+p&otilde;e mais o p&eacute; nas camaras, mandado c&aacute;
+pela terra.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu g&oacute;sto de os ouvir,&#8213;disse o padre&#8213;falam assim, mas em
+chegando a occasi&atilde;o, v&atilde;o todos votar n'elle como
+carneiros.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois havemos de v&ecirc;r o que ser&aacute;!&#8213;berrou o sr.
+Jo&atilde;ozinho.&#8213;Isso &eacute; consoante c&aacute; umas
+coisas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A falar a verdade&#8213;disse o Pertunhas&#8213;n&atilde;o tem pago muito
+bem ao circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; s&oacute;
+essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa a falar a verdade!&#8213;disse um lavrador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero v&ecirc;r se me h&atilde;o de enterrar a
+mim!&#8213;disse amea&ccedil;adoramente o sr. Jo&atilde;osinho, como
+se esperasse ainda depois da morte, imp&ocirc;r as suas vontades
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de murros e de pragas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas.
+&Eacute; moda e acabou-se. D'antes enterrava-se l&aacute; toda
+a
+gente e n&atilde;o havia mais doen&ccedil;as do que agora&#8213;isto
+dizia o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os romanos tinham as suas catacumbas&#8213;ponderou o mestre de
+latinidade,
+for&ccedil;ando as suas reminiscencias romanas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos&#8213;ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo
+discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade
+scientifica.&#8213;O enterrar nas igrejas &eacute; anti-hygienico; porque<span class="pagenum">[188]</span> os chimicos sabem que...
+o
+ar que n&atilde;o &eacute; puro... &eacute; mau para a
+saude
+publica. Ora os cadaveres... em putrefac&ccedil;&atilde;o
+produzem uns vapores que corrompem o ar... Ha uns insectozinhos
+invisiveis que a gente respira... e v&atilde;o para a massa do
+sangue
+e corrompem-a... e o resultado &eacute; a febre... porque a febre
+s&atilde;o os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se
+s&aacute;em, muito que bem; e se n&atilde;o s&aacute;em,
+ficam retidos e azedam o corpo todo.<br />
+
+<br />
+
+A theoria physiologica pathologica foi recebida com
+atten&ccedil;&atilde;o igual &aacute; que merecera
+a economica.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo isso ser&aacute; assim,&#8213;disse o padre&#8213;mas o conselheiro
+faz
+aquillo por instiga&ccedil;&otilde;es
+das lojas ma&ccedil;onicas e dos pedreiros livres.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois elle ser&aacute; tambem?...&#8213;disse um dos
+lavradores, arregalando os olhos assustados.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora que d&uacute;vida! Pois aquella gentinha &eacute; toda da
+sucia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Corja!&#8213;resmungou o sr. Jo&atilde;ozinho.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, que se fili&aacute;ra no Brazil
+na ma&ccedil;onaria, fez um discurso sobre os fins da sociedade,
+que ninguem entendeu; vendo, por&eacute;m, que n&atilde;o
+calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle n&atilde;o ser&aacute;
+ma&ccedil;&atilde;o&#8213;disse
+d'ahi a momentoso padre&#8213;mas &eacute; v&ecirc;r o que elle tem
+defendido nas camaras; queria roubar &aacute;s irmandades e
+&aacute;s freiras os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o
+exemplo do cunhado, que se encheu com a compra do Mosteiro; queria
+acabar
+com o santo sacramento do matrimonio; queria que cada qual seguisse
+a religi&atilde;o que muito bem lhe parecesse. Vejam
+que christ&atilde;o aquelle!<br />
+
+<br />
+
+Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras
+de censura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A falar a verdade, os vinculos...&#8213;murmurou <span class="pagenum">[189]</span>o
+sr. Jo&atilde;ozinho, que por vezes trope&ccedil;&aacute;ra
+nas disposi&ccedil;&otilde;es da antiga lei vincular, ao
+caminhar na estrada da dissipa&ccedil;&atilde;o;
+por&eacute;m, recordando-se de um irm&atilde;o que tinha,
+casado
+e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar &aacute; custa
+de muito trabalho, a ideia da aboli&ccedil;&atilde;o dos
+morgados n&atilde;o lhe sorriu e exclamou com nova punhada:&#8213;Acabem
+l&aacute; com os morgados quando quizerem, que o que eu lhes
+digo &eacute;, que tem de se haver commigo quem quizer tirar-me um
+palmo de terra!<br />
+
+<br />
+
+O padre cura continuou a tratar pouco christ&atilde;mente o
+conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+O pae de Magdalena milit&aacute;ra sempre, como
+j&aacute; diss&eacute;mos, nas fileiras do partido mais
+liberal,
+e por isso era-lhe em geral pouco affei&ccedil;oada a maioria
+do clero, que, entre n&oacute;s, n&atilde;o
+esp&oacute;sa ardentemente aquellas ideias.<br />
+
+<br />
+
+No principio da sua carreira parlamentar, cedendoao impulso do
+enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrol&aacute;ra
+desassombradamente a bandeira do partido progressista e
+pronunci&aacute;ra os mais absolutos artigos d'aquelle credo
+politico; liberdade era ent&atilde;o o seu mote favorito; a
+liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as
+reformas
+consequentes nos codigos, a desamortisa&ccedil;&atilde;o
+e desvincula&ccedil;&atilde;o da propriedade, tudo
+advog&aacute;ra com enthusiasmo, no tempo em que estas palavras
+soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados &aacute; lettra
+de
+outro catecismo.<br />
+
+<br />
+
+Com o tempo arrefeceu, por&eacute;m, esse
+enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o fogo da mocidade. Com quanto liberal
+ainda de convic&ccedil;&atilde;o, ensinou-lhe a politica
+pratica
+a rebu&ccedil;ar em formulas mais ordeiras os seus principios
+doutrinarios, a contemporisar, e at&eacute; quando as
+conveniencias,
+infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos
+de retrocesso e a transigir com o partido opposto.<br />
+
+<br />
+
+Se o fizessem ministro n&atilde;o se arrojaria a transformarem
+projecto de lei nenhuma d'aquellas medidas<span class="pagenum">[190]</span>
+por
+que pugn&aacute;ra nos seus primeiros discursos, e que tantas
+malqueren&ccedil;as lhe acarretaram ent&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; atraz diss&eacute;mos, que o conselheiro
+era actualmente um espirito pouco apaixonado do ideal, respirava a
+atmosphera de desillus&atilde;o e de scepticismo, em que nas
+grandes
+cidades se vive. Era um perfeito homem de c&ocirc;rte; tratava
+cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo d'elles
+merc&ecirc;s e empregos para afilhados; fulminava-os &aacute;s
+vezes da tribuna e depois apertava-lhes a m&atilde;o nos
+corredores das camaras e nas pra&ccedil;as. Se o julgava
+vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases sonoras, uma
+d'aquellas sympathicas divisas de politica avan&ccedil;ada, que no
+principio da sua carreira adopt&aacute;ra comsinceridade; mas
+n&atilde;o tinha j&aacute; aos principios o amor preciso para
+cair, abra&ccedil;ado n'elles, dos degraus do poder, se algum dia
+os
+chegasse a subir.<br />
+
+<br />
+
+Por isso os soldados rasos do seu partido, os politico sem abstracto,
+unicos para quem a politica &eacute; sempre ideal e logica, o
+taxavam de frouxo e tibio; e de gazeta na m&atilde;o havia muito
+que
+lhe dictavam, do obscuro canto do paiz em que viviam, a estrada
+direita,
+de que elle, por&eacute;m, a cada passo se desviava.<br />
+
+<br />
+
+Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por
+os
+seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de m&aacute;
+f&eacute;, a acoimal-o de impio, de republicano e de pedreiro livre.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro entrou em disserta&ccedil;&atilde;o a respeito
+de todas as medidas politicas a que alludira.<br />
+
+<br />
+
+Segundo o costume, ninguem o entendeu.<br />
+
+<br />
+
+Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um
+tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que f&ocirc;ra
+espreitar &aacute; porta, voltou-se, exclamando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!<br />
+
+<br />
+
+Todos se levantaram pressurosos para correrem &aacute; porta. O que
+mais de m&aacute; vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[191]</span>Dentro em pouco
+todos se descobriam. Parava &aacute; porta o conselheiro, que
+montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um
+pequeno baio de f&oacute;rmas elegantes e olhar vivo.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e
+patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi
+todo o effeito da conversa que descrevemos.<br />
+
+<br />
+
+Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa,
+dispoz-se
+para entrar na venda.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XII</h4>
+
+<br />
+
+O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade at&eacute; se
+sentar nos bancos de pinho do estabelecimento de Dami&atilde;o
+Canada, envernizados j&aacute; pelo uso de muitos annos.<br />
+
+<br />
+
+Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com
+atten&ccedil;&otilde;es e o flagellava com obsequios.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia
+satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e
+conversando com aquella familiaridade, t&atilde;o sabida de
+candidatos a procuradores do povo, nos circulos que
+pretendem representar. At&eacute; chegou a levar aos labios o copo
+de vinho, que um lavrador lhe offereceu.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se lhe percebia por&eacute;m no rosto, ao
+fazer isto, o menor vestigio de artificio, e, ao mesmo tempo,
+mantinha-se
+ainda n'elle t&atilde;o apparente a superioridade intellectual, que
+os seus interlocutores nunca excediam os limites da deferencia. O pae
+de
+Magdalena era um perfeito homem de c&ocirc;rte:
+presen&ccedil;a agradavel, modos insinuantes, palavras
+t&atilde;o astuciosamente<span class="pagenum">[192]</span>lisonjeiras,
+que desvaneciam os proprios que como taes as tinham.<br />
+
+<br />
+
+Alvejavam-lhe j&aacute; algumas c&atilde;s nos cabellos
+e suissas, que usava talhadas &aacute; moda ingleza; principiava a
+predominar-lhe nas f&oacute;rmas certa
+rotundidade caracteristica; mas no esmero e at&eacute; elegancia
+distincta de casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso,
+nos movimentos ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza
+das conversas, havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que
+ninguem se sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que
+n&atilde;o perdera ainda.<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e
+n&atilde;o obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se
+que assim f&ocirc;sse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro
+olhar lan&ccedil;ado sobre elle.<br />
+
+<br />
+
+Possuia o dom especial de se encontrar &aacute; vontade em toda a
+parte, desde o mais perfumado gabinete da moda, at&eacute; o menos
+asseiado local de um comicio popular. Nas camaras com graves
+diplomatas, nos caf&eacute;s com rapazes estouvados, na sua aldeia
+com eleitores absurdos, com actores e actrizes nos bastidores, com
+padres nas sacristias, com militares nos quarteis, em toda a parte e
+com
+todos se achava este homem &aacute; vontade, acabando, quasi
+sempre,
+por captar sympathias.<br />
+
+<br />
+
+Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da
+opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortez&atilde;o,
+a
+phrase conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho
+popular, a figura oratoria, a maxima moral, e at&eacute; a praga
+energicamente expressiva; mas, como os espadachins de
+profiss&atilde;o, jogava-as todas com frieza de animo, cada qual na
+occasi&atilde;o opportuna e com perfeita observancia do que o mundo
+chama conveniencias sociaes.<br />
+
+<br />
+
+Muito tinham que fazer com elle os La Bruy&egrave;res,que, a cada
+passo, ahi encontramos no mundo; illudia <span class="pagenum">[193]</span>os
+mais atilados. &Aacute;s vezes parecia abrir-se t&atilde;o do
+intimo, t&atilde;o completamente e
+sem condi&ccedil;&otilde;es nem reservas, havia tal
+unc&ccedil;&atilde;o de sinceridade nas palavras, com que
+falava
+de si, dos seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado
+jesuita sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria;
+outras, falava verdade, mas com taes hesita&ccedil;&otilde;es
+na
+voz, com tal mobilidade no olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua
+crean&ccedil;a experimentaria o despontar da primeira
+d&uacute;vida.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se v&ecirc; que um homem d'estes era um contendor de
+muita f&ocirc;r&ccedil;a, para poder ser combatido por qualquer
+dos influentes locaes; o proprio brazileiro, apesar de toda a sua
+economia politica, ainda nada pud&eacute;ra contra elle; nem
+ous&aacute;ra romper hostilidades com receio de ficar vencido.<br />
+
+<br />
+
+Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do
+Dami&atilde;o Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a
+conversa que precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos.
+Tres ou quatro lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos
+modestamente pedidos com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.<br />
+
+<br />
+
+Deixemol-o n&oacute;s na laboriosa e pouco invejada tarefa de
+manter
+a popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae
+&aacute; porta da venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.<br />
+
+<br />
+
+Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com
+aquelle alvoro&ccedil;o do cora&ccedil;&atilde;o, que
+conhece
+quem j&aacute; foi estudante e se recorda ainda do que
+experimentava
+ao v&ecirc;r de longe despontar o telhado da casa paterna, onde
+vinha gosar as delicias de umas almejadas f&eacute;rias.<br />
+
+<br />
+
+Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma
+agradavel
+figura de crean&ccedil;a, expressiva de intelligencia e de vida.
+Tinha nas fei&ccedil;&otilde;es um mixto da delicadeza de
+Magdalena e da energia varonil, e ao mesmo tempo attrahente
+do conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>O cabello louro e
+curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis naturaes, com grande
+vantagem para a espa&ccedil;osa e bem modelada fronte.<br />
+
+<br />
+
+Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do
+Mosteiro estavam todas obscuras, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o das aguas-furtadas, correspondentes aos
+quartos das crean&ccedil;as. Angelo desmontou e cautelosamente se
+dirigiu a p&eacute; para casa.<br />
+
+<br />
+
+Torquato dormia &aacute; porta, como frequentemente lhe
+acontecia.&#8213;Angelo p&ocirc;de assim penetrar sem ser percebido
+at&eacute; o mais intimo da casa, at&eacute; os aposentos onde
+dormiam as crean&ccedil;as, e em cujas janellas avist&aacute;ra
+luz.<br />
+
+<br />
+
+A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe
+no cora&ccedil;&atilde;o uma suave e encantadora alegria.<br />
+
+<br />
+
+O mais novo dos seus primos, crean&ccedil;a de tres annos, estava
+meio n&uacute; e de joelhos sobre o leito com as m&atilde;os
+erguidas e os olhos fitos em um crucifixo que tinha &aacute;
+cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe as palavras da
+ora&ccedil;&atilde;o, que a crean&ccedil;a repetia, cheia
+de
+fervor.<br />
+
+<br />
+
+Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar
+das continuadas advertencias da prima.<br />
+
+<br />
+
+Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para
+beijar a crean&ccedil;a, elle estendeu a cabe&ccedil;a e pousou
+tambem um beijo nas faces da irm&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+Magdalena soltou uma exclama&ccedil;&atilde;o de surpreza e
+cingiu-o nos bra&ccedil;os com effus&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a levantou um brado, que foi o signal de revolta
+dado
+a Marianna e Eduardo, que c&ecirc;do abandonaram os quartos e
+correram a abra&ccedil;ar Angelo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vens s&oacute;?&#8213;perguntou Magdalena ao irm&atilde;o, quando
+uma pergunta lhe foi possivel.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O pae ficou na loja do Canada&#8213;respondeu Angelo.&#8213;Estava em
+sess&atilde;o a assembleia dos notaveis. E como est&aacute;s
+tu,
+minha Lena, tu e Christe e a tia? Como vae toda essa gente?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[195]</span>&#8213;Anda tu mesmo
+sab&ecirc;l-o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou dizer &aacute; mam&atilde;&#8213;disse Marianna, saindo aos
+saltos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou chamar Christe&#8213;disse Eduardo, imitando-a.<br />
+
+<br />
+
+E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.<br />
+
+<br />
+
+O pequeno que Magdalena deit&aacute;ra, pedia, chorando, para se
+tornar a levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize-me&#8213;continuava no entretanto este para a
+irm&atilde;&#8213;tens-te
+enfastiado muito, aqui s&oacute;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tenho-me divertido at&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&eacute;ras? E que fazes?
+Em que passas o tempo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei? O tempo &eacute; que passa, sem eu dar por isso. Leio
+pouco, passeio muito; trabalho mais.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tens lido?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quasi sempre relido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu sei j&aacute;. O primeiro livro em que pouso a
+m&atilde;o, quando os vejo sobre a mesa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todos os dias.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae bom. Caiu no outro dia &aacute; levada da raiz do monte;
+valeu-lhe o Augusto para o salvar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Doroth&eacute;a?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas;
+conheces?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em
+que
+lhe chamemos primo. Aviso-te d'isso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitada! Achei gra&ccedil;a, ha dias, &aacute; Joanna, que
+com
+muita ingenuidade se me veio queixar de que ella at&eacute; o anjo
+da guarda lhe occupava em servi&ccedil;o proprio. Tu sabes que a
+tia, quando est&aacute; com muito<span class="pagenum">[196]</span>
+somno,
+tem aquelle costume de dizer &aacute;s criadas que a encommendem ao
+anjo da guarda d'ellas. Mas vamos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trouxe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade; e a filha d'elle? A Lindita?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; c&aacute; me ia tardando a pergunta&#8213;notou
+a morgadinha, rindo.&#8213;Essa anda contente, como quem nada tem a
+penalisal-a; nem saudades.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos, Lena; n&atilde;o te perd&ocirc;o a malicia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o dev&eacute;ras esse
+cora&ccedil;&atilde;o
+est&aacute; assim tomado?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te informo do meu cora&ccedil;&atilde;o, que
+o n&atilde;o levo commigo, quando d'aqui vou. C&aacute; me
+fica;
+e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que pergunto; em que
+estado m'o entregas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito doente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? E o teu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto
+decora&ccedil;&otilde;es s&atilde;o como
+as crean&ccedil;as. As trav&ecirc;ssas tantos cuidados
+d&atilde;o &aacute;s m&atilde;es, que a todos
+os instantes querem saber o que ellas fazem e onde est&atilde;o;
+as socegadas inspiram tal confian&ccedil;a, que nem sequer n'ellas
+se
+pensa. O meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; um modelo
+de serenidade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sitio &eacute; pouco abundante em heroes. O unico d'estas
+immedia&ccedil;&otilde;es, capaz de ferir
+a imagina&ccedil;&atilde;o e commover os affectos de uma
+mulher,
+&eacute; o sr. Jo&atilde;ozinhodas Perdizes; mas esse
+&eacute; um Act&eacute;on insensivel, que...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse Angelo, rindo&#8213;l&aacute; vi
+tambem esse javali na venda do Dami&atilde;o Canada.
+Mas...N&atilde;o sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei
+de dizer umas coisas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? A respeito de qu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do teu cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[197]</span>&#8213;Que sabes d'elle?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A seu tempo direi.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como te vieram essas presump&ccedil;&otilde;es de
+conhecedor dos cora&ccedil;&otilde;es alheios? N&atilde;o
+tinhas isso, quando d'aqui foste.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes v&ecirc;-se melhor de longe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os de vista can&ccedil;ada... de muito v&ecirc;r.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; depois falaremos. Vamos l&aacute; ter com a nossa
+gente, que o pae n&atilde;o tarda ahi.<br />
+
+<br />
+
+De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das
+salas
+principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de
+bra&ccedil;os, tinha ao collo Marianna; Christina, a p&eacute;,
+encostava-se-lhe familiarmente ao hombro; a morgadinha, sentada
+em tamborete baixo, apoiava o bra&ccedil;o, em que recostava a
+cabe&ccedil;a, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, D.
+Victoria, sentada no sof&aacute;, servia de travesseiro a um dos
+pequenos que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem
+ficara p&eacute;, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia
+frequentemente rir sua tia e Eduardo, com as historias que lhes contava.<br />
+
+<br />
+
+A conversa c&ecirc;do se generalisou. Era uma d'essas conversas
+intimas, familiares, em que se referem as mais insignificantes
+circumstancias da vida domestica; conversas cujo suave perfume
+s&oacute; em familia se aprecia.<br />
+
+<br />
+
+Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos
+apertados pelos estreitos la&ccedil;os da amizade e do parentesco,
+e
+se v&ecirc; obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias
+da casa, que n&atilde;o &eacute; a sua! &Eacute; uma
+pathetica illus&atilde;o a de certas familias, que imaginam que
+para
+todos &eacute; de igual interesse a narra&ccedil;&atilde;o
+dos successos domesticos, que tanto as deleitam, e com ella entreteem
+o primeiro indifferente que se lhes depara; tudo trazem &aacute;
+luz,
+o dicto agudo da crean&ccedil;a de tres annos, os
+inc&oacute;mmodos que soffreu na
+primeira denti&ccedil;&atilde;o, as espertezas do gato
+favorito,
+as raz&otilde;es ponderosas <span class="pagenum">[198]</span>que
+aconselharam a mudan&ccedil;a de um movel,
+a combina&ccedil;&atilde;o economica que favoravelmente
+modificou o or&ccedil;amento domestico, a reforma nos
+processos culinarios consagrados pelo habito de muitos annos, o exame
+comparativo da conserva de um anno e da do anno antecedente, os
+defeitos
+e qualidades de um criado e mil outras pequenas coisas, que
+&eacute;
+for&ccedil;oso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o
+que
+obriga a esfor&ccedil;os sobrehumanos.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; natural aquella illus&atilde;o; e pathetica a
+dissemos n&oacute;s tambem, porque os que mais
+decora&ccedil;&atilde;o se entrega m&aacute; vida
+domestica,
+s&atilde;o os mais sujeitos a ella. Todos estes episodios futeis e
+pueris os preoccupam e deliciam mais do que as mais estranhas
+peripecias,
+que ainda concebeu a imagina&ccedil;&atilde;o
+de romancista fecundo. E quem se lembra de que &eacute;
+individualissimo esse interesse, inherente &aacute; pessoa
+e n&atilde;o aos factos, &aacute;s causas que
+t&atilde;o curiosos lh'os fazem ser?<br />
+
+<br />
+
+Eu e o leitor, estranhos &aacute; familia do
+Mosteiro, v&ecirc;r-nos-iamos, se f&ocirc;ssemos escutar todo o
+dialogo que se travou na sala, na posi&ccedil;&atilde;o da
+pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses
+relatorios domesticos, a que sobre tudo s&atilde;o t&atilde;o
+inclinadas as m&atilde;es de familia.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa;
+e
+o conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle
+achasse curioso &eacute; porque realmente o era. D'esta vez,
+por&eacute;m, damol-o por suspeito, porque o conselheiro tinha
+cora&ccedil;&atilde;o e,quando esta viscera se
+alvoro&ccedil;a com affectos, as intelligencias mais elevadas teem
+d'estas sympathicas fraquezas.<br />
+
+<br />
+
+O politico, o diplomata reservado, fica f&oacute;ra
+do port&atilde;o da quinta do Mosteiro; alli dentro,
+n'aquelle circulo de affectos, era o pae extremoso, o homem de familia,
+ingenuo, sincero, aberto a todos, porque em todos confiava, contente
+por
+n&atilde;o ter de estudar <span class="pagenum">[199]</span>na
+express&atilde;o dos rostos os pensamentos que seguardam; nas
+palavras o sentido, que n'ellas n&atilde;o vem explicito.<br />
+
+<br />
+
+Era um salutar descan&ccedil;o dos continuados
+esfor&ccedil;os da sua vida de Lisboa; l&aacute; a lucta; aqui
+o
+repouso.<br />
+
+<br />
+
+Por isso ouvia com atten&ccedil;&atilde;o e applaudia
+com vontade as narra&ccedil;&otilde;es da cunhada, de
+Magdalena,
+de Christina e at&eacute; da pequena Marianna.<br />
+
+<br />
+
+E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro
+n&atilde;o poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o
+vertiginoso movimento da sua vida politica.<br />
+
+<br />
+
+Eram-lhe j&aacute; necessidade
+aquella conten&ccedil;&atilde;o, aquelle esfor&ccedil;o de
+espirito, aquellas desconfian&ccedil;as continuas, aquelle jogo de
+astucias, que lhe tomavam em Lisboa todo o tempo.<br />
+
+<br />
+
+Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o
+afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.<br />
+
+<br />
+
+A politica &eacute; uma embriaguez; nos intervallos em que o
+espirito se sente desanuviado dos vapores em que ella o envolve,
+pesam-nos os desacertos a que fomos arrastados; o desgosto do mal feito
+insinua-se-nos no cora&ccedil;&atilde;o; c&ecirc;do,
+por&eacute;m, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da
+consciencia, e de novo nos arrasta.<br />
+
+<br />
+
+O caracter intimo da conversa&ccedil;&atilde;o foi
+levemente modificado por a entrada de D. Doroth&eacute;a e de
+Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram visitaro conselheiro,
+mal
+tiveram noticia da sua chegada.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e
+com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa.
+Frequentavam ambos os principaes c&iacute;rculos da capital e,
+por mais de uma vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em
+conversas e discuss&otilde;es communs.<br />
+
+<br />
+
+Passado algum tempo depois dos cumprimentos,<span class="pagenum">[200]</span>
+o
+ser&atilde;o animou-se de novo, fragmentando-se por&eacute;m a
+conversa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria tomou &aacute; sua parte D. Doroth&eacute;a
+e passou a fazer-lhe amargas queixas a respeito dos criados do
+Mosteiro,
+ao que D. Doroth&eacute;a acudiu com conselhos de
+resigna&ccedil;&atilde;o christ&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente
+fazia
+rir.<br />
+
+<br />
+
+Henrique e o conselheiro, proximos do fog&atilde;o,
+estavam empenhados n'um dialogo muito animado.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que
+surprehendiam Henrique, que ainda o n&atilde;o tinha observado por
+esta face.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma triste verdade&#8213;dizia por exemplo o conselheiro n'um
+ponto adeantado da conversa, referindo-se a algumas
+considera&ccedil;&otilde;es de Henrique sobre a felicidade
+d'aquella vida do Mosteiro.&#8213;Tenho esta familia que v&ecirc;; todos
+me querem sinceramente aqui, e n&atilde;o sei resistir &aacute;
+fatal necessidade que me arranca de todos estes bra&ccedil;os para
+me
+lan&ccedil;ar ao turbilh&atilde;o da politica e d'isso que se
+chama o mundo! Pois amo dev&eacute;ras a minha Lena, creia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um dever que cumpre. N'estes tempos de m&aacute;
+f&eacute; politica, quem se sente com a coragem de se votar, corpo
+e
+alma, &aacute; defeza despreoccupada dos bons principios...<br />
+
+<br />
+
+Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de
+descren&ccedil;a, meio de melancolia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Defeza despreoccupada? Isso &eacute; quando Deus quer&#8213;respondeu
+elle.&#8213;Olhe, Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a
+cuja
+porta eu deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso
+no
+mundo, vae v&ecirc;r em mim o homem que talvez n&atilde;o
+esperasse e que, j&aacute; lhe digo,
+debalde procurar&aacute; reconhecer um dia, se me observar outra
+vez
+em Lisboa. O que lhe vou dizer n&atilde;o lh'o diria, nem lh'o
+repetirei l&aacute;. &Eacute; verdade que estes ares do campo
+tambem actuar&atilde;o em si para me apreciar e <span class="pagenum">[201]</span>tomar &aacute; boa
+parte a franqueza. L&aacute; n&atilde;o acreditaria n'ella; se
+por acaso n&atilde;o a aproveitasse como arma politica contra mim...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois julga?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o perd&atilde;o, se o offendi com
+isto. N&atilde;o eraesse o meu intento, mas &eacute; pratica
+t&atilde;o geral!... Se um dia f&ocirc;r politico, o que lhe
+n&atilde;o desejo, dir-me-ha.<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, fez uma curta
+pausa na conversa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e
+atrav&eacute;s de tudo. N&atilde;o sei se quiz ser lisonjeiro e
+disse o que n&atilde;o sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo
+o caso, eu, aqui no Mosteiro, acho-me muito &aacute;s ordens da
+minha consciencia, a qual n&atilde;o me deixa calar
+hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem politico,
+a
+que alludiu. Humildemente o confesso; at&eacute; porque, se
+quizesse
+sel-o, arriscar-me-hia a achar-me s&oacute;, n&atilde;o teria
+partido. Porque, qual &eacute; o que v&ecirc; nas
+condi&ccedil;&otilde;es de constancia de opini&otilde;es
+que
+disse? Tenho cren&ccedil;as politicas, &eacute;
+verdade; esp&oacute;so no cora&ccedil;&atilde;o certos
+principios que quizera v&ecirc;r realisados, mas n&atilde;o
+combato por elles a todo o transe, nem por elles affrontaria o
+supplicio; antes, por vezes, entro em
+transac&ccedil;&otilde;es,
+que s&atilde;o a completa nega&ccedil;&atilde;o da divisa
+da
+minha bandeira. E este peccado n&atilde;o sou eu s&oacute; que
+o
+commetto; &eacute; um peccado venial da nossa &eacute;poca. As
+grandes ideias, que definem e estremam os campos na politica,
+havemol-as
+eu e os mais calcado muitas vezes aos p&eacute;s, para sustentar
+umas
+insignificantes f&oacute;rmulas, um interesse mesquinho, um
+capricho
+pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem &eacute;
+isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que
+de f&oacute;ra nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados
+na
+minha carreira publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro
+n'elles? quando me<span class="pagenum">[202]</span>
+persuado
+de que n&atilde;o s&atilde;o de todo desculpaveis? quando...
+porque o n&atilde;o direi? quando sinto remorsos de os ter
+commettido? &Eacute; aqui, &eacute; perante a boa
+f&eacute;,
+a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que me
+considera um homem perfeito, superior, impeccavel. &Eacute; perante
+os generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella
+crean&ccedil;a&#8213;e indicava Angelo com o gesto.&#8213;Parece-me que tenho
+n'elles juizes inflexiveis, eescondo por isso a minha face politica dos
+seus olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo
+&eacute; j&aacute; indulgente, mas que receio elles
+me n&atilde;o perdoassem.<br />
+
+<br />
+
+Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta
+effus&atilde;o de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou a v&ecirc;r que n&atilde;o esperava estas palavras da
+minha b&ocirc;ca; esta confiss&atilde;o de peccador
+contricto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que n&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que quer? Surprehendeu-me aqui como
+cora&ccedil;&atilde;o aberto. J&aacute; agora
+deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual
+&eacute;? V&ecirc; aquella crean&ccedil;a que alli
+est&aacute;? Angelo? &Eacute; uma intelligencia que, de dia
+para
+dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta.
+N&atilde;o
+&eacute; a vaidade paterna que me cega, pode acreditar.
+Conhecendo-o de perto ha de dar-me raz&atilde;o. Mas o que ha
+al&eacute;m d'isso n'elle &eacute; um senso profundamente
+moral,
+raro at&eacute; em idades menos tenras. Pois bem, quando penso
+n'elle por algum tempo, e conjectura que n&atilde;o
+ser&atilde;o
+poucas as vezes em que o fa&ccedil;o?... quando penso n'elle e no
+futuro, sobresalto-me. De um lado, seduz-me abrir-lhe a carreira
+politica, onde ha grandes triumphos a embriagar as intelligencia se
+onde
+presinto que a d'elle ter&aacute; o direito, sen&atilde;o
+o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que na atmosphera
+d'aquellas regi&otilde;es n&atilde;o duram muito estas
+primitivas canduras da alma, t&atilde;o adoraveis<span class="pagenum">[203]</span> e consoladoras, quando me
+lembro de que Angelo ser&aacute; um dia... o que eu j&aacute;
+hoje sou, um pouco desilludido, um pouco sceptico... com franqueza o
+digo, hesito em impellil-o ao redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais
+n&atilde;o valeria dizer-lhe: Angelo, vive obscuro e tranquillo
+n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a ideal pureza da tua alma e
+procura a felicidade nas satisfa&ccedil;&otilde;es
+do cora&ccedil;&atilde;o. A lucta da vida pode embriagar-te,
+filho, mas n&atilde;o te far&aacute; feliz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o admitte possivel que um homem possa atravessar a
+vida politica, sem sacrificar um s&oacute; artigo do seu primitivo
+credo?<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; difficil. Se um dia a f&ocirc;r&ccedil;a
+das circumstancias realisasse, como um phenomeno natural,
+uma revolu&ccedil;&atilde;o completa nas camadas politicas do
+paiz a ponto de trazer &aacute; superficie de uma s&oacute; vez
+uma gera&ccedil;&atilde;o nova, impolluta, inspirada de
+sentimentos generosos e de sinceras cren&ccedil;as,
+ent&atilde;o
+sim, n&atilde;o bastaria o tempo de uma vida para produzir
+n'esses homens reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo
+exemplo
+e vigilancia, a inquina&ccedil;&atilde;o que eu receio. Mas
+lance esses mesmos homens, um a um, a s&oacute;s com os seus
+principios e com os seus esfor&ccedil;os, insulados no meio de uma
+camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um,
+ap&oacute;s uma lucta impotente de momentos, ou
+se retirar&aacute;, fiel aos principios, mas desanimado
+pela inefficacia da sua interven&ccedil;&atilde;o,
+ou ficar&aacute;, cedendo &aacute; corrente e deixando-se
+penetrar do espirito pouco ideal, que rege as massas. S&oacute; um
+d'esses caracteres de excep&ccedil;&atilde;o, que
+s&atilde;o
+raros na historia do mundo, &eacute; que poderia luctar e vencer na
+lucta. E a esperar tanto de Angelo n&atilde;o chega o meu affecto
+paterno.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o fazia t&atilde;o pessimista,
+sr. conselheiro;&#8213;disse Henrique&#8213;conceda-me que julgue em demasia<span class="pagenum">[204]</span> carregadas as
+c&ocirc;res do quadro que me faz. Eu n&atilde;o creio que a
+corrup&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer,
+relaxa&ccedil;&atilde;o, tibieza de f&eacute; politica,
+indifferentismo... em todo o caso ser&aacute; uma doen&ccedil;a
+social. Assim abrandada a f&ocirc;r&ccedil;a da
+express&atilde;o,n&atilde;oponha difficuldades em adoptal-a.
+N&atilde;o se me pode levar a mal o prop&ocirc;l-a, desde que
+principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca esperei encontral-o t&atilde;o desilludido. Eu, que me
+n&atilde;o tenho ainda assim por demasiado crente, creio que quem
+entrar na politica sob a &eacute;gide de uma
+convic&ccedil;&atilde;o profunda, pode...<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrompeu-o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem?
+&Eacute; aquella de que nos d&aacute; uma eloquente mostra a
+historia do alde&atilde;o do Danubio. Sair um homem de um canto
+retirado da provincia, um pouco montanhez, e escudado s&oacute;
+da sua boa f&eacute;, achar-se de repente no meio de um circulo
+luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir ahi
+aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra;
+v&ecirc;r o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder
+resalvar as suas cren&ccedil;as d'aquelles sorrisos; sentir o
+ridiculo a seu lado, e ousar fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada
+passo, as vozes seductoras da moral elegante e facil, que hoje domina,
+e
+conservar-se fiel &aacute; austera e rude moral que lhe falava
+entre
+o rumorejar das folhas da sua aldeia nas longas horas de vigilia e de
+estudo, que l&aacute; teve; cair embora, mas cair fiel &aacute;
+consciencia, como um leal cavalleiro da idade m&eacute;dia
+ca&iacute;a pela dama de quem trazia a divisa: &eacute; uma
+especie de lucta, para que n&atilde;o abundam lidadores, e nem
+sempre se deve lan&ccedil;ar o lab&eacute;o de traidores aos
+que
+mentem &aacute; sua antiga profiss&atilde;o de f&eacute;. A
+maioria cede com boas inten&ccedil;&otilde;es. O perigo
+est&aacute; em chegar a persuadir-se de que as suas
+convic&ccedil;&otilde;es eram sonhos, em perder o<span class="pagenum">[205]</span>amor &aacute;s
+utopias. Eu confesso que s&oacute; quando aqui estou &eacute;
+que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro tempo lhes tive.<br />
+
+<br />
+
+N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um
+dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do
+conselheiro, e t&atilde;o visto em demandas e subtilezas de
+processos, como o mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e
+officio, levava a sua paix&atilde;o pela arte a ponto de comprar as
+demandas dos outros, s&oacute; por gosto de as tratar; especie
+vulgar no Minho, onde uma legisla&ccedil;&atilde;o
+especialissima, reguladorada propriedade rural, fomenta estas
+disposi&ccedil;&otilde;es no espirito dos camponios, das quaes
+os
+juizes s&atilde;o as miserandas victimas.<br />
+
+<br />
+
+Depois de grande exhibi&ccedil;&atilde;o de cortezias, para
+a direita e para a esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o
+fez sentar ao seu lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e
+de amizade.<br />
+
+<br />
+
+O homem que t&atilde;o judiciosa
+disserta&ccedil;&atilde;o acabava de fazer sobre a politica
+abstracta, sentiu, na presen&ccedil;ado recem-chegado que de novo o
+abandonava o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle
+politica
+pratica, sob a fei&ccedil;&atilde;o mais mexeriqueira que ella
+pode revestir.<br />
+
+<br />
+
+Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por
+f&ocirc;r&ccedil;a ou vontade dos representantes.<br />
+
+<br />
+
+Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao p&eacute; das
+senhoras, no grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.<br />
+
+<br />
+
+Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores;
+reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve
+ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de
+Christina.<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria e D. Doroth&eacute;a entremetteram-se, dentro em pouco
+na conversa, e desviando-lhe o curso,<span class="pagenum">[206]</span>
+fizeram-a
+cair sobre o assumpto das proximas consoadas.<br />
+
+<br />
+
+Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o
+Tapadas:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso
+&eacute; que eu n&atilde;o transijo. Ninguem &eacute; mais
+condescendente do que eu, menos no que pode arriscar a vida de muitos e
+entre essas as dos que me pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes
+dias
+deve chegar uma portaria, mandando expressamente cumprir a lei.
+Consegui
+isso do governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo,
+levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso,
+gra&ccedil;as a um preconceito tolo, &aacute; m&aacute;
+f&eacute; de alguns padres, &aacute; frouxid&atilde;o das
+auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se
+enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos
+d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da
+igreja onde a extrema devo&ccedil;&atilde;o d'este povo
+accumula
+em certos dias, durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de
+fieis. Portanto, com isso n&atilde;o transijo. Hei de acabar com o
+abuso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... mas agora na occasi&atilde;o
+das elei&ccedil;&otilde;es... sr. conselheiro, n&atilde;o
+sei
+se faz bem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para compensa&ccedil;&atilde;o trataremos de apressar
+o principio das estradas; tambem o pude conseguir.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inda assim... Receio alguns motins.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Reprimem-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor &eacute; que ha de haver quem lance m&atilde;o d'essa
+arma contra n&oacute;s.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! n&atilde;o falta quem. Basta o missionario, que
+j&aacute;
+pr&eacute;gou contra isso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho m&ecirc;do. Quando muito, algum motimzito
+sem
+consequencia. Leve-os por bem. E se f&ocirc;r preciso fale ao
+ouvido
+d'esse tal missionario...O homem que quer? Provavelmente alguma
+abbadia? algum canonicato? &Eacute; preciso v&ecirc;r isso.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[207]</span>
+&#8213;Elle diz que
+n&atilde;o quer nada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei, todos dizem o mesmo&#8213;disse o conselheiro,com a sua
+descren&ccedil;a de homem politico.<br />
+
+<br />
+
+Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto aopini&atilde;o publica
+era, por toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo
+n&atilde;o estavade todo limpo do preconceito geral, mas a
+sua affei&ccedil;&atilde;o ao conselheiro obrigava-o a digerir
+a
+disposi&ccedil;&atilde;o legal, conforme podia.<br />
+
+<br />
+
+Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem em m&aacute; occasi&atilde;o a medida, vem;
+&eacute; arrojadapara &eacute;pocas eleitoraes; se houvesse um
+chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso n&atilde;o
+transijo.<br />
+
+<br />
+
+Eram dez horas quando se levantou a sess&atilde;o, e Henrique
+voltou
+com a tia para Alvapenha.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XIII
+</h4>
+
+<br />
+
+Ao outro dia a impaciencia de Angelo n&atilde;o lhe
+permittiu longa demora no leito. Tardava-lhe o v&ecirc;r
+todos aquelles sitios, t&atilde;o seus conhecidos; arvores
+que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos,
+e quebradas de montes. A custo o puderam
+reter para o almo&ccedil;o; resignou-se por&eacute;m a
+n&atilde;o ultrapassar,
+at&eacute; ent&atilde;o, os muros da quinta. Logo
+por&eacute;m
+que sorveu &aacute; pressa o ultimo golo de ch&aacute;, partiu,
+veloz como uma lebre, sem nem sequer dar
+ouvidos &aacute; enfiada de recommenda&ccedil;&otilde;es de
+sua tia
+D. Victoria, que teimava em o querer prevenir, com
+s&oacute;cos, gab&atilde;o e guarda-chuva, de uma hypothetica
+mudan&ccedil;a de tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava
+ligada uma recorda&ccedil;&atilde;o e uma saudade;
+<span class="pagenum">[208]</span>
+mas seguia sempre, como quem n&atilde;o errava ao
+acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio
+por um intento, que tinha pressa de realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessou grande parte da aldeia, cortejado,
+cumprimentado e festejado por quantos encontrava
+pelos caminhos, ou &aacute;s portas e janellas das casas,
+nos campos e nos ribeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou emfim &aacute; casa, onde j&aacute; dissemos morar o
+recoveiro Cancella e a sua filha Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+Era evidentemente aquelle o termo proposto por
+Angelo ao passeio matinal, porque retardou o passo
+&aacute; medida que se approximava, e parou &aacute; porta da
+casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Achou-a fechada, mas n&atilde;o lhe causou isso
+embara&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Como quem estava habituado a vencer estes estorvos,
+sondou resolutamente o muro do quintal,
+construido de pedras soltas, e dispoz-se &aacute; escalada.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a agilidade e destreza proprias de quem
+passou na aldeia os primeiros annos da vida, o irm&atilde;o
+de Magdalena trepou sem vacillar at&eacute; o alto do
+muro, e n'um momento pousou os p&eacute;s no ch&atilde;o do
+quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor
+com precau&ccedil;&atilde;o e, com mais
+precau&ccedil;&atilde;o ainda, se
+dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era
+o logar de recreio do pequeno horto.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi motivo d'estas precau&ccedil;&otilde;es o ter j&aacute;
+avistado,
+por entre os troncos e a rama baixa das laranjeiras,
+um vulto que se lhe figurou conhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim se foi approximando sem que o presentissem
+e, occulto por detraz de uma sebe de roseiras
+silvestres, poz-se &aacute; espreita.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira
+velha, que mezes antes havia sido derrubada, a filha
+do Cancella e afilhada da familia Z&eacute; P'reira, tinha
+todas as faculdades applicadas &aacute;
+decifra&ccedil;&atilde;o dos
+hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto,
+<span class="pagenum">[209]</span>
+que segurava nas m&atilde;os, e lia a meia voz.
+De quando em quando interrompia a leitura e, erguendo
+a cabe&ccedil;a para o c&eacute;o, parecia repetir o que
+lera, como se pretendesse decoral-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo applicou mais o ouvido, a v&ecirc;r se alguma
+das palavras, que ella declamava, lhe revelava a
+natureza do manuscripto.
+<br />
+
+<br />
+
+De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais
+audivel e elle escutou a seguinte quadra:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Que lamentavel tragedia,<br />
+
+Que os meus olhos tristes viram!<br />
+
+E publicam minhas vozes<br />
+
+Aquelles que n&atilde;o ouviram!
+<br />
+
+<br />
+
+E principalmente o rei,<br />
+
+Que se chama o rei tyranno,<br />
+
+N'esta regi&atilde;o remota<br />
+
+Do Egypto dilatado.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabe&ccedil;a
+e repetiu:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Que lamentavel tragedia<br />
+
+Que meus olhos tristes viram...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente,
+e com precau&ccedil;&atilde;o, veio collocar-se por detraz
+d'ella, sem que f&ocirc;sse presentido ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o perto chegou, que, por cima do hombro de
+Ermelinda podia j&aacute; ler as quadras que ella estava
+decorando:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Tenho mil linguas, mil b&ocirc;cas...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+ia Ermelinda continuar a ler, quando uma
+respira&ccedil;&atilde;o
+mais profunda de Angelo a fez desviar a cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de
+sobresalto; depois sorriu e instinctivamente procurou
+esconder no bolso do avental o papel que lia.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo segurou-lhe a m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+&#8213;Que estavas a ler, Linda?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o deixo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o deixas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para n&atilde;o ser curioso. Que modos s&atilde;o esses de
+andar a escutar a gente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, sim; mas deixa-me v&ecirc;r os versos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o s&atilde;o versos. Quem lhe disse que eram versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o ouvi? Que era isso de tyranno e de
+Egypto, que dizias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha de ser?&#8213;disse a final
+Ermelinda, dando-lhe
+o papel.&#8213;S&atilde;o os versos do auto dos Reis.
+Sabe agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do auto dos Reis? Ai, sim; est&aacute; a chegar o
+dia! Mas que tens tu com o auto dos Reis?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que este anno meu pae quer que eu seja a
+Fama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E j&aacute;
+sabes os versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava a decoral-os.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Tenho mil linguas, mil b&ocirc;cas...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+dizia Angelo, lendo no principio.&#8213;O que &eacute; pena &eacute;
+p&ocirc;r
+uma chochice d'estas na b&ocirc;ca de uma Fama como tu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; a dizer? Ent&atilde;o os versos
+n&atilde;o s&atilde;o bonitos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! pois n&atilde;o s&atilde;o!&#8213;exclamou Angelo,
+gracejando.&#8213;S&atilde;o
+uma perfei&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os
+com accentua&ccedil;&atilde;o e emphase comicamente
+exaggeradas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora ouve l&aacute;:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Sabei que aquelle Herodes,<br />
+
+Lobo cruel carniceiro,<br />
+
+Tremendo de inveja pura<br />
+
+Lhe venham tirar o reino...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[211]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o que ha que dizer a isto?
+<br />
+
+<br />
+
+E proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Feria raios de fogo<br />
+
+De seus olhos com mudan&ccedil;a;<br />
+
+E s&oacute; pretende fazer<br />
+
+Alvo da sua vingan&ccedil;a.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &eacute; claro e sublime!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lendo assim, pud&eacute;ra!&#8213;disse Ermelinda, rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que advirta o leitor que estas quadras
+e auto, a que nos estamos referindo, n&atilde;o s&atilde;o obra
+da nossa imagina&ccedil;&atilde;o. Por ahi corre manuscripto o
+auto, mais ou menos extravagantemente orthographado,
+segundo o systema ou o capricho do copista.
+Em quasi todas as aldeias dos arredores do
+Porto podem v&ecirc;r em cada anno representado este
+ou outro analogo, com applauso e gloria da arte.
+&Aacute;s m&atilde;os nos veio uma d'essas c&oacute;pias,
+&aacute; qual, menos
+na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo era talvez em demasia severo na aprecia&ccedil;&atilde;o
+critica sobre o merecimento litterario da obra,
+ao chamar-lhe uma chochice. &Eacute; raro que a musa
+popular n&atilde;o tenha, apesar da sua rudeza, alguma
+inspira&ccedil;&atilde;o. N'este mesmo auto, se encontram
+vestigios
+d'ella. Mas n&atilde;o &eacute; nossa miss&atilde;o
+apreciar as
+opini&otilde;es dos actores que pomos em scena; t&atilde;o
+s&oacute;mente
+as registamos, sem nos responsabilisarmos
+por nenhuma.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo redarguiu &aacute; reflex&atilde;o de Ermelinda:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; para que n&atilde;o digas que &eacute; da maneira
+de ler, que elles parecem ch&ocirc;chos, repara;
+vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora escuta.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Que quantos at&eacute; dois annos<br />
+
+Em Belem f&ocirc;ssem nascidos,<br />
+
+E toda a sua comarca<br />
+
+Matassem a ferro frio
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+<div class="poetry3 tinyl">Sem
+excep&ccedil;&atilde;o a pessoa<br />
+
+Que nos districtos se achasse,<br />
+
+Entendendo d'esta sorte<br />
+
+Que n&oacute;s lhe n&atilde;o escapassemos.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem que semsaboria!
+<br />
+
+<br />
+
+Esta divis&atilde;o administrativa e judicial, em districtos
+e comarcas, que o auctor fez na Jud&eacute;a e que
+tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas liberdades
+shakspeareanas, que se devem perdoar
+aos genios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o foi assim?&#8213;perguntou Ermelinda, que
+n&atilde;o percebia ainda o motivo dos reparos de Angelo.&#8213;Pois
+Herodes mandou matar todas as crean&ccedil;as
+da Jud&eacute;a; ent&atilde;o n&atilde;o mandou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mandou, mandou; mas a Fama &eacute; que devia
+contar isso melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Melhor?! Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; bonito esse
+verso?
+<br />
+
+<br />
+
+E Ermelinda, tirando o manuscripto das m&atilde;os de
+Angelo, leu a seguinte quadra:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Para livrarem seus filhos<br />
+
+Da morte dos innocentes,<br />
+
+Dos bra&ccedil;os faziam cruzes<br />
+
+Aquellas m&atilde;es impacientes.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam
+a belleza, talvez um pouco rude, do tocante
+quadro, que estes versos exprimem.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta pequena contenda litteraria entre duas crean&ccedil;as
+podia dar margem a profundas reflex&otilde;es a
+quem para ellas estivesse disposto.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo estava no principio de uma educa&ccedil;&atilde;o
+esmerada.
+Principi&aacute;ra j&aacute; a desenvolver-se n'elle a
+intelligencia,
+e a acordar os instinctos artisticos que estremeciam
+j&aacute; sob as primeiras seduc&ccedil;&otilde;es da
+f&oacute;rma.
+N'estas &eacute;pocas criticas, em que esses segredos se
+revelam, &eacute; tal o encanto em que elles nos trazem
+que exclusivamente nos votamos ao novo culto,
+com a fanatica intolerancia. Onde as lou&ccedil;anias do
+estylo, os primores e a sonora harmonia do metro,
+<span class="pagenum">[213]</span>
+e o brilhantismo das imagens nos n&atilde;o afagam os
+sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos
+assim na sombra muita belleza real, &aacute;s vezes occulta
+sob a grosseira revestidura da poesia ou narrativa
+popular.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario que passe o enthusiasmo, a violencia
+da paix&atilde;o nascente, que venha a frieza de animo
+necessaria &aacute; imparcialidade do juizo, para que nos
+n&atilde;o cause repuls&atilde;o a aspereza, e grosseria
+at&eacute;, da
+f&oacute;rma e consigamos apreciar o bello que por ventura
+n'ella se envolva.
+<br />
+
+<br />
+
+D&aacute;-se com a belleza da ideia e da f&oacute;rma de
+qualquer
+obra litteraria, o que se d&aacute; com a belleza moral
+e a belleza physica de uma mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+Ambas s&atilde;o feitas para nos commoverem e dominarem.
+Mas, quando o assomar de um sentir novo
+come&ccedil;a a alvoro&ccedil;ar o sangue do adolescente,
+quando
+f&oacute;rmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe
+os sonhos de suas noites febris, a paix&atilde;o da
+f&oacute;rma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma
+modela&ccedil;&atilde;o
+perfeita, um delineamento gracioso poder&aacute;
+decidir da sua vida inteira, e na fascina&ccedil;&atilde;o que
+o
+cega, nunca ver&aacute; a formosura da alma, que se abriga
+n'uma pouco feliz encarna&ccedil;&atilde;o. &Eacute; que
+para apreciar
+a belleza moral, para a v&ecirc;r transparecer, atrav&eacute;s
+do
+involucro exterior &eacute; preciso deixar passar a vertigem
+dos primeiros momentos, ou n&atilde;o a ter ainda
+experimentado.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso na infancia e nas idades viris &eacute; que
+melhor se apreciam essas fealdades, que escondem
+um cora&ccedil;&atilde;o angelico. A adolescencia &eacute;
+impiamente
+cruel para com ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Por uma lei analoga &eacute; o povo, o simile da
+crean&ccedil;a,
+porque n&atilde;o tem os sentidos educados para as
+mais subtis bellezas da f&oacute;rma, e &eacute; o homem a quem
+ella j&aacute; n&atilde;o fascina, embora ainda e sempre o
+deleite,
+como poderosissimo elemento de belleza litteraria,&#8213;s&atilde;o
+estes os leitores que mais aptos est&atilde;o
+para avaliarem uma ou outra inspira&ccedil;&atilde;o que, entre
+<span class="pagenum">[214]</span>
+muitos desvarios, tem a humilde musa que visita
+a cabana do lavrador ou a officina do artista.
+<br />
+
+<br />
+
+Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo n&atilde;o perdoou
+ao auto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes que mais? N&atilde;o decores isso&#8213;disse-lhe
+elle resolutamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae quer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; que quer teu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer que eu entre no auto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E has de entrar. Quem te diz que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quer que seja a Fama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E has de ser a Fama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o hei de falar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Has de falar. Tinha que v&ecirc;r uma Fama que
+n&atilde;o falasse. Para que lhe serviriam as cem b&ocirc;cas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o; &eacute; que n&atilde;o &eacute;
+for&ccedil;oso que digas o que
+ahi est&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que hei de eu dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir
+comprehendel-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, proseguiu Angelo.&#8213;D'aqui at&eacute; chegar
+o dia do auto vae muito tempo. Eu te darei outros
+versos para estudares, em logar d'esses.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E onde os tem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu os procurarei. N&atilde;o digas tu nada. Basta
+que no dia recites, em vez d'esses, os que eu te
+der!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que dir&aacute; meu pae e o sr. Pertunhas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mestre de latim? Pois que tem elle com o
+auto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; quem ensina como a gente ha de dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda
+para a occasi&atilde;o os versos que eu te arranjar. At&eacute;
+ha de ter gra&ccedil;a v&ecirc;r a cara com que elles
+ficar&atilde;o
+todos, quando lhes sair uma coisa bem differente
+do que esperam.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[215]</span>
+&#8213;Mas... diga: onde &eacute; que vae buscar esses
+versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sairei da aldeia para isso. N'uma visita
+que d'aqui vou fazer, conto obtel-os. Agora falemos
+de outra coisa. Que &eacute; de teu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha,
+d'alli defronte, est&aacute; para a igreja e meu padrinho
+nas hortas. E eu vou tratar do jantar de
+meu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois vae, que eu fa&ccedil;o-te companhia.
+<br />
+
+<br />
+
+E Angelo seguiu-a &aacute; cozinha, e ahi, ella sentada
+na soleira da porta a escolher hortali&ccedil;a, elle a dar
+de comer aos coelhos e &aacute;s gallinhas, se entretiveram
+a conversar.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe
+enredos de dramas que o tinham commovido;
+typos e situa&ccedil;&otilde;es de romances, que se lhe haviam
+gravado na memoria; inven&ccedil;&otilde;es da arte moderna,
+versos, anecdotas, contos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se,
+para sair.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde &eacute; que vae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou visitar Augusto, que deve estar agora em
+casa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda o n&atilde;o viu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda n&atilde;o. A minha primeira visita foi esta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v&aacute;, que elle deve estar morto por o
+v&ecirc;r.
+Ah!... j&aacute; sei a pessoa a quem vae pedir os versos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem te disse que Augusto os fazia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vi-o estar a escrever na parede da capella
+da Senhora da Saude de uma vez que eu ia levar
+o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar
+para aquelles sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E leste-os?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, que n&atilde;o quiz que elle me visse. Mas que
+havia elle de escrever na capella? Ent&atilde;o n&atilde;o
+adivinhei?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[216]</span>
+&#8213;N&atilde;o sei. Adeus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E chamavas-me curioso!
+<br />
+
+<br />
+
+E Angelo saiu apressadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Momentos depois estava com Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa entre ambos teve toda a intimidade
+da de dois affectuosos amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo fez a narra&ccedil;&atilde;o dos episodios da sua vida
+de collegio; das difficuldades e das bellezas dos
+seus estudos n'aquelle anno. Augusto, que da aldeia
+com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o
+sobre algumas d&uacute;vidas que tinha, e esclarecia &aacute;s
+vezes tambem, gra&ccedil;as &aacute; sua poderosa
+penetra&ccedil;&atilde;o
+e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia
+deixado no espirito do seu antigo discipulo.
+<br />
+
+<br />
+
+A geographia e a historia, que eram as disciplinas
+estudadas n'aquelle anno por Angelo, deram
+assumpto a grande parte d'este dialogo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto inclin&aacute;ra-se aos estudos historicos,
+inclina&ccedil;&atilde;o
+em que o herbanario o entretinha com frequentes
+presentes de livros d'aquelle genero.
+<br />
+
+<br />
+
+Em exame de livros novos, referencias a outros
+lidos, e leituras de alguns mais apreciados, passaram
+os dois grande parte da manh&atilde;, at&eacute; que por
+fim Angelo disse a Augusto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe que est&aacute; para breve o dia dos Reis?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja;
+aquelle auto em que o Herodes faz tremer
+meio mundo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei&#8213;respondeu Augusto, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este anno teremos a Linda a fazer de Fama.
+Fama bonita, por certo; mas se soubesse os versos
+que lhe deram para recitar!
+<br />
+
+<br />
+
+E Angelo reproduziu, como p&ocirc;de, as quadras do
+monologo da Fama no auto dos Reis.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[217]</span>
+De quando em quando passava um sorriso pelos
+labios de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; conhecia isso. &Eacute; o costume&#8213;disse elle
+no fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o lhe parece que de uma Fama como
+aquella, se devia esperar melhor do que isto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o que quer que eu lhe fa&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outros versos para o logar d'estes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outros!... Eu?...&#8213;perguntou Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lembran&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me venha negar que os faz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer que os leio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em
+recusar, diga-me ent&atilde;o quem &eacute; que os escreveu na
+parede da capella da Senhora da Saude, para eu
+me dirigir a elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o houve quem escrevesse versos na parede
+da capella?&#8213;perguntou Augusto, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o que eu visse; mas j&aacute; duas pessoas m'o
+affirmaram, e as suspeitas de ambas reca&iacute;ram no
+mesmo homem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem foram essas pessoas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A outra foi Lena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Le... A sr.<sup>a</sup> D. Magdalena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, minha irm&atilde;. E estranhou, com
+raz&atilde;o,
+que eu o n&atilde;o soubesse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como o soube ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto calou-se como absorvido por um pensamento,
+que todo o preoccupava.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo continuou falando, sem que f&ocirc;sse escutado;
+a final concluiu, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o quer falar ao poeta da Ermida para que
+me d&ecirc; o que lhe pe&ccedil;o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[218]</span>
+&#8213;Poesia n&atilde;o lhe pode elle dar, agora se... alguns
+versos o satisfazem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu
+a procurarei n'elles, at&eacute; a achar. Desde j&aacute; lh'os
+agrade&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ambos&#8213;respondeu Angelo, rindo.&#8213;E
+agora diga-me, Augusto: Ainda est&aacute; resolvido a
+viver aqui sempre enterrado? N&atilde;o pensa em mudar
+de vida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhuma outra me namora mais; o destino
+que a bondade da morgada me offerecia... n&atilde;o
+tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso
+do crepe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas
+o Augusto n&atilde;o ter&aacute; amigos que ajudem a
+seguir
+outros destinos menos obscuros do que este e menos
+pesados do que o que o legado lhe impunha?
+Meu pae j&aacute; ...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer? N&atilde;o me posso vencer at&eacute; pedir ou
+acceitar de outrem auxilios, quando Deus m'os n&atilde;o
+tem recusado ainda; nem sei at&eacute; se esses destinos,
+que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso.
+Ha indoles que nasceram affei&ccedil;oadas para a obscuridade.
+Incommoda-as a demasiada luz. Umas
+plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi
+em qualquer canto escuso e obscuro, e l&aacute; mesmo
+d&atilde;o fl&ocirc;r. Porque &eacute; isto n&atilde;o
+sei,
+mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei eu&#8213;disse uma voz da parte de f&oacute;ra da
+janella, junto da qual se pass&aacute;ra o dialogo...
+<br />
+
+<br />
+
+Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario
+desenhava-se no v&atilde;o da janella, como um
+retrato de velho n'um caixilho de galeria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! o tio Vicente!&#8213;exclamou Angelo, correndo-lhe
+ao encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario encostou-se, ainda de f&oacute;ra, ao peitoril
+da janella, ficando assim com meio corpo para
+dentro da sala.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o nosso doutor&#8213;disse elle, sorrindo, a
+<span class="pagenum">[219]</span>
+Angelo.&#8213;Por emquanto ainda
+esse cora&ccedil;&atilde;ozito
+est&aacute; como era. N&atilde;o esqueceu os seus amigos da
+aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; como sempre estar&aacute;&#8213;respondeu Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre!&#8213;repetiu o velho.&#8213;Sempre e nunca
+s&atilde;o duas palavras de terrivel
+significa&ccedil;&atilde;o... Mas
+emfim... de bom metal &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o,
+assim o n&atilde;o
+enferrugem os ares da cidade, como ao de...
+como ao de tantos...
+<br />
+
+<br />
+
+E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com que dizias tu que n&atilde;o sabes porque algumas
+plantas vivem de pouca luz e de pouco ar, ahi
+em qualquer buraco do muro? &Eacute; porque vivem
+muito pelas raizes essas. As plantas vivem do ar
+pelas folhas e vivem da terra pelas raizes. L&aacute; diz
+aquelle livro da <em>Historia Natural</em>
+que eu tenho.
+Umas prendem-se pouco ao ch&atilde;o; precisam, pois,
+de se abrirem muito ao ar para poderem viver; outras
+por&eacute;m, profundam tanto a terra, com tantas raizes se
+seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e n&atilde;o
+desdobram muitas folhas, nem crescem em grandes
+ramos para o ar. Como umas e como outras
+ha homens no mundo. Tu &eacute;s dos que deixam ganhar
+raizes ao cora&ccedil;&atilde;o e d'ellas vivem. Que te importa
+o mais? essas grandezas que os outros procuram?
+Mas &eacute; preciso cautela, rapaz! Ha
+cora&ccedil;&otilde;es
+como a hera, que onde quer que se encosta, prende-se
+com raizes. Quem &eacute; assim deve dirigir com
+prudencia as suas inclina&ccedil;&otilde;es. Se para mau lado
+dobra, se se encosta a arvore de pre&ccedil;o... mal
+d'elle! que o separar&atilde;o com f&ocirc;r&ccedil;a,
+fazendo-lhe estalar
+todas as raizes, que o prendiam.
+<br />
+
+<br />
+
+As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas
+pelo herbanario, parecia terem um sentido para Augusto,
+que visivelmente se perturbou ao ouvil-as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; ahi a dizer, tio Vicente!&#8213;disse Augusto,
+sem ousar fitar o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+&#8213;Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que
+os annos d&atilde;o, v&ecirc; longe e fundo, rapaz...
+&Eacute; verdade
+que... &aacute;s vezes... o arrojo dos mocos &eacute; tambem
+guia feliz... Anda l&aacute; com a tua estrella, anda. Ao
+que j&aacute; vejo, n&atilde;o sei se te possa chamar louco...
+como ao principio n&atilde;o duvidei fazel-o.
+&Eacute; certo que
+&eacute; pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus
+castellos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os meus castellos! Que castellos fa&ccedil;o eu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o hei de ser eu que t'os mostre... S&oacute; te
+quero avisar que n&atilde;o ponhas grande f&eacute;
+em sonhos...
+Lembras-te do que se passou no monte
+da ermida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No monte da ermida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o viste por l&aacute; no outro dia uns signaes de
+trovoada? A inconstancia &eacute; sempre de receiar. O
+que n'aquella manh&atilde; se passou, o que ent&atilde;o vi...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que viu?... Que se passou?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario demorou por algum tempo o olhar
+em Augusto e com tal express&atilde;o, que o obrigou a
+desviar o seu; depois accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada; o que todos os dias acontece. O c&eacute;o
+azul fez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras,
+os raios do sol tornaram-se torrentes de chuva. Pois
+n&atilde;o te lembras?... E tudo devido a uma mudan&ccedil;a...
+de vento... a uns ares que vinham do sul...
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o entendia ou fingia n&atilde;o entender estes
+mysteriosos dizeres do herbanario. Angelo estava
+distrahido dev&eacute;ras.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve l&aacute; hontem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; amigo das crean&ccedil;as?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conta muitas historias &aacute;s senhoras?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entretem-as bastante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ao... e a teu pae? Ouve-o com atten&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conversaram muito toda a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+O herbanario parecia ligar grande valor a estas
+perguntas, porque a cada resposta obtida, abanava
+pausadamente a cabe&ccedil;a com certo ar meditativo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto relanceava tambem para a fronte, meio
+contrahida, do velho um olhar entre curioso e timido.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emfim... A desconfian&ccedil;a &eacute; um achaque
+de
+velhice e nem sempre os mais felizes s&atilde;o os mais
+acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem
+ainda a gra&ccedil;a da sua protec&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tio Vicente desconfia do primo Henrique?
+perguntou Angelo, rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primo?!&#8213;repetiu o velho, admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primo lhe chamamos n&oacute;s, porque a tia Victoria
+teima que, sendo elle sobrinho da tia Doroth&eacute;a,
+&eacute; nosso primo tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah? J&aacute; ahi vamos? E Lena?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena, Christe, todos lhe chamam por l&aacute; assim.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras
+inintelligiveis, terminando por estas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E, como no Egypto, &eacute; o vento sul que traz a
+praga dos gafanhotos. Mas Deus que vele, Deus que
+vele. E eu n&atilde;o me demoro mais, que vou ainda
+d'aqui aos pardieiros de Cernuche.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; ca&ccedil;a dos sapos, tio Vicente?&#8213;perguntou
+Angelo, gracejando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; agora o
+tempo&#8213;respondeu,
+sisudo, o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dos sapos! Galante ca&ccedil;a, na verdade!&#8213;continuou
+Angelo no mesmo tom.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Galante n&atilde;o ser&aacute; ella, pequeno,&#8213;respondeu o
+velho;&#8213;mas aben&ccedil;oada a chamarias se te torcesses
+no leito com as dores do carbunculo, que n&atilde;o
+ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle
+d'estes animaes s&ecirc;cca ao ar livre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a das toupeiras? O tio Vicente tambem ca&ccedil;a
+toupeiras?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+&#8213;Em seu tempo. Oh! a toupeira &eacute; animal de
+aben&ccedil;oadas virtudes! Basta que um dente que se
+lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pesco&ccedil;o,
+cura a mais desesperada dor de dentes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o deve ser facil opera&ccedil;&atilde;o a de
+tirar os dentes
+&aacute;s toupeiras&#8213;tornou Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quinta essencia das toupeiras &eacute; milagrosa
+contra cancros e herpes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quinta essencia das toupeiras!&#8213;repetiu Angelo,
+rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o rias, crean&ccedil;a&#8213;acudiu severamente o
+herbanario.&#8213;Que
+n&atilde;o &eacute; bonito rir do que os homens
+doutos asseguram. Eu j&aacute; o experimentei, logo que
+o li n'aquelle grande livro da
+<em>Polyantheia</em>, livro
+como se n&atilde;o faz hoje outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como &eacute; que se tira a quinta essencia a uma
+toupeira, tio Vicente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tomam-se as toupeiras e queimam-se at&eacute; as
+fazer em cinzas. Mistura-se a estas cinzas o sumo
+de celidonia maior, at&eacute; haver quatro dedos de sumo
+acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado,
+que se enterra por dez dias e... e... Bem,
+bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo e paciencia
+com crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere, espere, tio Vicente... N&atilde;o v&aacute; embora...
+Ent&atilde;o depois de enterrar tudo isso, que se
+faz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; logo... Pede a Deus que nunca te seja
+preciso fazer a pergunta com menos vontade de
+rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E assim vae sem me dar um remedio! Olhe,
+tio Vicente, eu pade&ccedil;o &aacute;s vezes de um somno
+t&atilde;o
+pesado que me n&atilde;o deixa estudar.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade,
+respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E julgas que n&atilde;o sei de remedio para isso?
+Experimenta e ver&aacute;s. Mette um ou dois morcegos
+debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que...
+<span class="pagenum">[223]</span>
+Mas adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche
+&eacute; uma legua.
+<br />
+
+<br />
+
+E o herbanario retirou-se, meio agastado com o
+scepticismo de Angelo e sobra&ccedil;ando a caixa de lata
+e o sacco dos seus thesouros medicinaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das
+singularidades do velho, riso em que n&atilde;o entrava,
+por&eacute;m, o menor laivo de malignidade; porque ambos
+tinham pelo velho uma verdadeira estima, que
+elle bem lhes merecia, pois sempre do cora&ccedil;&atilde;o o
+achavam votado a seu favor.
+<br />
+
+<br />
+
+O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se
+ainda, at&eacute; &aacute;s horas do jantar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XIV
+</h4>
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o sei se esta historia ter&aacute; leitor
+t&atilde;o mal
+aventurado, que n&atilde;o possua recorda&ccedil;&otilde;es
+e saudades
+associadas &aacute; noite de Natal, &aacute;quella festiva e
+aben&ccedil;oada
+noite, em que as ruas e os logares publicos
+se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar
+e scintillar o fogo mais acalentador do que
+nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
+n&atilde;o saiba o que &eacute; a festa das consoadas em
+familia,
+esse que n&atilde;o leia este capitulo, que n'elle n&atilde;o
+encontrar&aacute;
+prazer. Se alguns as gosaram j&aacute; n'outros
+tempos, por&eacute;m hoje erram a essas horas pelas ruas
+solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz
+que rompe das frestas de tantas janellas discretamente
+fechadas, ouvindo commovidos o ruido das
+alegrias que v&atilde;o no seio das familias, e pela phant
+Eu n&atilde;o sei se esta historia ter&aacute; leitor
+t&atilde;o mal
+aventurado, que n&atilde;o possua recorda&ccedil;&otilde;es
+e saudades
+associadas &aacute; noite de Natal, &aacute;quella festiva e
+aben&ccedil;oada
+noite, em que as ruas e os logares publicos
+se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar
+e scintillar o fogo mais acalentador do que
+nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
+n&atilde;o saiba o que &eacute; a festa das consoadas em
+familia,
+esse que n&atilde;o leia este capitulo, que n'elle n&atilde;o
+encontrar&aacute;
+prazer. Se alguns as gosaram j&aacute; n'outros
+tempos, por&eacute;m hoje erram a essas horas pelas ruas
+solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz
+que rompe das frestas de tantas janellas discretamente
+fechadas, ouvindo commovidos o ruido das
+alegrias que v&atilde;o no seio das familias, e pela phantasia
+creando em cada morada um mundo intimo
+de affectos e de venturas, como o de que a sorte os
+privou, que esses me perdoem as amargas saudades,
+que por ventura lhes avive assim.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+&Eacute; certo que n&atilde;o ha noite mais alegre; alegre
+d'esta alegria que vae direita ao cora&ccedil;&atilde;o, sem
+perturbar
+os sentidos com fumos de embriaguez; alegre
+d'esta alegria candida a que o homem &eacute; sujeito do
+ber&ccedil;o &aacute; velhice, a qual respeitam os estos das
+paix&otilde;es,
+na idade d'ellas, e o g&ecirc;lo do egoismo, no declinar
+da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas
+tu sempre, noite de vinte e quatro de dezembro,
+que melhor ent&atilde;o se avaliar&aacute; pelo contraste a
+luz,
+o calor, o conch&ecirc;go dos lares, e mais intimos se
+estreitar&atilde;o os circulos da familia em roda da ceia
+patriarchal.
+<br />
+
+<br />
+
+E v&oacute;s todos, a quem uma moda t&ocirc;la n&atilde;o
+constrangeu
+ainda a abandonar os habitos que de pequenos
+contrahistes, e festejaes ainda o Natal de
+Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter
+genuinos esses costumes nacionaes, que n&atilde;o
+resultar&aacute;
+d'ahi desdouro para o vosso nome ou braz&atilde;o.
+A roda da civilisa&ccedil;&atilde;o, a que applicaes hombros
+com
+tanto denodo, n&atilde;o se cravar&aacute; por isso.&#8213;Podeis,
+elegantes meninas, cantar l&ocirc;as sem escrupulo deante
+do presepe armado na sala mais intima da casa,
+que nem por isso cantareis peor na das visitas as
+arias italianas, que aprendestes no collegio; n&atilde;o
+c&oacute;reis de collaborar, por excep&ccedil;&atilde;o,
+esta noite nos
+mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia
+e perfumes tendes no toucador para as ablu&ccedil;&otilde;es
+purificatorias. Homens graves, a republica perdoar-vos-ha
+uma pequena infidelidade, a politica do paiz
+e da Europa n&atilde;o periclitar&aacute; desnorteada se, por
+um
+pouco, lhe negardes a vossa atten&ccedil;&atilde;o;
+humanisae-vos
+pois uma vez por anno, e baixae ao seio da
+familia os olhares, que ponderosos empenhos vos
+trazem sublimados.&#8213;Entrae com as crean&ccedil;as em
+jogos pueris e faceis, que n&atilde;o destemperareis a
+intelligencia
+para as philosophicas cogita&ccedil;&otilde;es do
+<em>boston</em>
+e do <em>whist</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A familia do Mosteiro era fiel &aacute;s classicas
+usan&ccedil;as
+<span class="pagenum">[225]</span>
+d'esta noite tradicional. E n'aquelle anno sobretudo
+as festas das consoadas deviam ser coisa falada,
+gra&ccedil;as ao plano de D. Victoria de reunir no
+Mosteiro a resumida familia de Alvapenha; plano
+que vimos approvado por acclama&ccedil;&atilde;o por toda a
+assembleia presente.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a veio effectivamente na companhia de
+Henrique de Souzellas e de Maria de Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+Foram recebidos no Mosteiro por uma completa
+ova&ccedil;&atilde;o das crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a viu-se litteralmente enla&ccedil;ada em
+bra&ccedil;os
+infantis, que lhe tolhiam os movimentos e que,
+dizia ella, quasi amea&ccedil;avam asphyxial-a.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto dava motivo a exclama&ccedil;&otilde;es e risos, que
+inauguraram um estado de coisas, o qual nunca
+mais devia cessar aquella noite.
+<br />
+
+<br />
+
+A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro
+&eacute; indescriptivel. Na cozinha, nas salas, nos corredores
+tudo era movimento e ruido.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui eram as crean&ccedil;as jogando, a pinh&otilde;es, o
+&laquo;par
+ou pern&atilde;o&raquo; e o &laquo;rapa&raquo;, jogos
+popularissimos e de
+occasi&atilde;o, que, de t&atilde;o conhecidos, dispensam o
+trabalho
+de descrevel-os. Estes jogos, como &eacute; de prever,
+n&atilde;o se executavam sem um concurso de vozearia
+e de algazarra, que desafiava a impaciencia de
+D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que
+se passava na sala, ralhar com os criados &aacute; cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+No aposento immediato ao quarto de D. Victoria,
+arm&aacute;ra-se o presepe, deante do qual ardiam seis
+v&eacute;las de c&ecirc;ra em casti&ccedil;aes de prata
+maci&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+As duas velhas senhoras, D. Doroth&eacute;a e D. Victoria,
+encetaram logo no principio da noite uma
+longa e devota reza, meio recitada, meio cantada, a
+qual se continuava com uma interminavel enfiada
+de Padre-Nossos e Av&eacute;-Marias, a que respondia, em
+c&ocirc;ro, a parte feminina, da familia, as crean&ccedil;as e
+as
+criadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em
+<span class="pagenum">[226]</span>
+voz tr&eacute;mula e quebrada pela idade, entoava em singela
+cantilena coplas como esta:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&Oacute; infante suavissimo,<br />
+
+Vinde, vinde j&aacute; ao mundo<br />
+
+Livrar-nos do captiveiro<br />
+
+D'este jazigo profundo.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E seguia-se um Padre-Nosso e uma Av&eacute;-Maria.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo havia ao principio, com as suas travessuras,
+desordenado um pouco o andamento regular
+das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico expediente
+de o expulsar do congresso, e tudo serenou.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; sala, onde Henrique de Souzellas conversava
+com o conselheiro em assumptos, todos d'esta vez
+longe da politica, chegaram as surdas harmonias
+d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade
+de saber o que era aquillo. O conselheiro,
+sorrindo, convidou-o a seguil-o para por si proprio
+se poder informar.
+<br />
+
+<br />
+
+E, tomando por aposentos interiores, conseguiram
+ambos introduc&ccedil;&atilde;o na sala da novena justamente
+ao lado de D. Victoria e de D. Doroth&eacute;a, que, de
+embebidas que estavam nas suas ora&ccedil;&otilde;es, nem por
+elles deram.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente
+ao lado d'aquellas boas senhoras, e quando ap&oacute;s
+um dos Padre-Nossos, ditos por D. Doroth&eacute;a, se
+devia seguir a resposta do c&ocirc;ro feminino, este emmudecido,
+com a chegada dos dois, a qual desafi&aacute;ra
+risos a custo suffocados, foi substituido por um
+dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro,
+e escandalisaram depois ambas as sisudas
+senhoras.
+<br />
+
+<br />
+
+O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as
+crean&ccedil;as; D. Victoria teve muito que fazer, muito
+que reprehender o cunhado, muito que ralhar com
+os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com
+D. Doroth&eacute;a, muito que recriminar os criados, rindo-se,
+bem a seu pesar, no meio de todas estas tarefas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[227]</span>
+Terminou confusamente a novena com tal occorrencia.
+Os desordeiros s&oacute;mente capitularam, consentindo
+em retirar-se, quando lhes prometteram
+que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique
+voltou com o conselheiro a admirar o primor
+que a paciencia de um artista imaginoso realis&aacute;ra
+na confec&ccedil;&atilde;o do presepe, onde estavam
+representados
+todos os episodios da natividade de Jesus, e
+muitos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+Era effectivamente uma complicada machina
+aquelle presepe, e seria prova de profunda indifferen&ccedil;a
+artistica passar por elle sem um exame, embora
+fugaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Este traste antiquissimo na familia gosava de
+nomeada n'um circulo de leguas em redor. Havia
+empenhos para o v&ecirc;r no tempo do Natal, e se algum
+viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava
+sempre quem lhe recommendasse o visitar o presepe,
+como coisa digna de v&ecirc;r-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Consistia elle n'uma esp&eacute;cie de santuario de pau
+preto, no meio do qual havia uma pequena gruta
+toda cravejada de caramujos, e rosas de papel, com
+estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava
+deitado o menino Deus, n&atilde;o sobre umas palhas,
+como a tradi&ccedil;&atilde;o refere, mas gra&ccedil;as aos
+impulsos
+do compadecido cora&ccedil;&atilde;o de D. Victoria, que,
+ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos
+antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama
+de len&ccedil;oes de renda com cercadura dourada; colcha
+de setim bordado, e colch&atilde;o e travesseiro da mais
+macia penugem de aves americanas. Ao lado,
+Nossa Senhora e S. Jos&eacute;, de propor&ccedil;&otilde;es
+quasi
+iguaes &aacute;s do menino; mais longe a vacca e a mula
+tradicionaes. Os episodios por&eacute;m eram inquestionavelmente
+o mais interessante da obra. Varios
+grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos
+os tamanhos, feitios e vestuarios, ornavam a scena.
+Alli um cego tocador de sanfona; um grupo de
+gallegos dan&ccedil;ando, ao som da gaita de folle; uma
+<span class="pagenum">[228]</span>
+pastora com ovos mais adeante; ao lado, um grupo
+celebrando um <em>pic-nic</em>, perfeita
+actualidade, tudo
+em mangas de camisa, com gravata, e botas de
+cano;&#8213;outros fumando e bebendo cerveja. Uma
+amazona ingleza, com o seu Jockey, galopava pelas
+cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira
+caminhavam a par com offertas para o menino. Ao
+longe, nos visos da serra, appareciam os tres
+Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar
+abaixo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento
+esculptural os muros de Jerusalem. Elles
+l&aacute; estavam coroados de ameias e de milicianos fardados
+&aacute; ingleza e armados de lan&ccedil;as e arcabuz.
+Eram gigantes aquelles guerreiros, pois, n&atilde;o obstante
+estar a muralha no plano do fundo do quadro,
+qualquer d'elles era duas vezes maior do que as
+figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se
+a bandeira portugueza. Havia varios santos
+espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas,
+e, entre os additamentos feitos pela devo&ccedil;&atilde;o
+de D. Victoria ao presepe, contava-se o de um Santo
+Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo,
+parecia muito admirado de se v&ecirc;r n'aquelle
+tempo e logar. Um gallo colossal soltava do telhado
+do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins
+espreitavam do c&eacute;o por entre nuvens de algod&atilde;o e
+estrellas de ouropel. Era um prodigio!
+<br />
+
+<br />
+
+Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica,
+sentia eu vivo orgulho de ter revelado ao
+mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime
+admira&ccedil;&atilde;o faria c&ecirc;do ou tarde
+justi&ccedil;a; tive
+por&eacute;m de abandonar esta lisonjeira id&eacute;a, ao
+achar-me
+precedido por um dos romancistas mais justificadamente
+populares da na&ccedil;&atilde;o vizinha. Das paginas
+de um delicioso quadro de costumes de Fernan
+Caballero, a eminente escriptora de que a Andaluzia
+se ufana, conheci eu serem n&atilde;o s&oacute;mente nacionaes,
+mas peninsulares pelo menos, estes modelos
+<span class="pagenum">[229]</span>
+de presepes, com os seus ingenuos anachronismos,
+cunho irrecusavel que o povo imprime a todas
+as suas obras de arte. Onde falta o anachronismo,
+falta a assignatura do povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todo o caso era digno da men&ccedil;&atilde;o que d'elle
+fizemos o presepe do Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam
+por miudo, D. Victoria fizera desfilar o cortejo
+das criadas para a cozinha, onde urgia o servi&ccedil;o,
+e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram
+as peores criadas do mundo, por isso que, tendo
+tanto que fazer, perdiam tempo a cantar l&ocirc;as deante
+do presepe. D. Doroth&eacute;a c&ecirc;do tomou com Magdalena
+e Christina o mesmo caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com
+os pequenos, e com elles entraram em jogos, como
+se f&ocirc;ssem crean&ccedil;as tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o
+homem grave e s&eacute;rio das salas de Lisboa perdera
+todo o ar diplomatico: agora era s&oacute;mente o homem
+da familia; pueril, travesso, alegre, folgaz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu caro,&#8213;dissera elle a Henrique no principio
+da noite&#8213;vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve
+ser banido o menor assumpto politico, a menor discuss&atilde;o
+s&eacute;ria. Deixe-se correr frivola a conversa da
+noite, o contrario seria uma profana&ccedil;&atilde;o, que
+attrahiria
+sobre nossas cabe&ccedil;as as justas iras dos anjos
+domesticos que n'estas noites andam invisiveis misturados
+com a familia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apoiado,&#8213;respondeu Henrique;&#8213;acceito e
+comprometto-me a cumprir a proposta.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique possuia em alto grau o talento de se
+tornar agradavel. Comprehendendo que eram sinceros
+os desejos do conselheiro, t&atilde;o frio e pueril
+conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como
+membro da familia, e ao proprio conselheiro parecia
+j&aacute; impossivel que ainda f&ocirc;ssem t&atilde;o
+recentes as
+suas rela&ccedil;&otilde;es mais intimas com aquelle rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+&#8213;Animo, sr. conselheiro,&#8213;dizia-lhe Henrique,
+no momento em que elles ambos estavam empenhados
+a jogar a cabra cega com os pequenos.&#8213;Coragem,
+que temos gloriosos exemplos a animar-nos;
+at&eacute;, entre outros, o do meu homonymo Henrique IV.
+&Eacute; sabido o episodio recordado por uma
+gravura celebre.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro secundava-o, rindo: gra&ccedil;as a estes
+jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem;
+os moveis f&oacute;ra da sua posi&ccedil;&atilde;o, o
+ch&atilde;o alastrado
+de cascas de pinh&otilde;es, que estalavam sob os passos,
+os tapetes desviados, as cortinas soltas.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; por noite avan&ccedil;ada, disse o conselheiro para
+Henrique:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falta-nos ainda um artigo importante do ritual
+d'estas festas, o principal. &Eacute; dirigir uma visita
+&aacute; cozinha. Porque a obra principal d'esta noite &eacute;
+fazer uma ceia e n&atilde;o comel-a. Por isso convido-o
+a acompanhar-me l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com tanto mais vontade, que estou ha muitos
+dias compromettido a isso com as senhoras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso &eacute; tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia &aacute;
+cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu
+tumultuariamente, annunciando-os ao longe
+com risadas e gritos de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de
+frades. Occupava um vasto recinto rectangular, rasgado
+em amplas janellas e fornecido de bancas monumentaes,
+condizendo com a estupenda chamin&eacute;,
+que parecia ainda saudosa dos odoriferos vapores
+que outr'ora espalhavam os tachos e as grelhas
+monasticas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ia indizivel anima&ccedil;&atilde;o na cozinha, quando Henrique
+ahi entrou com o pae de Magdalena. Era um
+barafustar de criadas, um chiar de cert&atilde;s, um borbulhar
+de ca&ccedil;arolas e tachos, um tinir de pratos,
+um tilintar de crystaes no meio de uma babel de
+<span class="pagenum">[231]</span>
+ordens, de perguntas, de reclama&ccedil;&otilde;es, de
+conselhos,
+todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria
+ralhava, e a sr.<sup>a</sup> de Alvapenha promulgava
+preceitos,
+e Maria de Jesus desdenhava do servi&ccedil;o das
+collegas, e Magdalena e Christina riam de todos e
+de tudo, e Angelo a todos impacientava.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imagina!
+<br />
+
+<br />
+
+A chegada do conselheiro e do seu hospede veio
+exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e
+exclama&ccedil;&otilde;es,
+as quaes ainda assim eram subjugadas
+pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia
+para o conselheiro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre o mano tem coisas! Olhem agora
+para o que lhe havia de dar! V&atilde;o l&aacute; para dentro,
+v&atilde;o. N&atilde;o venham atrapalhar-nos mais ainda do
+que estamos. E o primo Henrique tambem! Ora
+esta!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se afflija, mana. N&oacute;s n&atilde;o
+podiamos resignar-nos
+a ficar alheios &aacute; tarefa principal do dia. E
+at&eacute; porque &eacute; necessario dar andamento a isto para
+chegarmos a tempo da missa do gallo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois querem ir &aacute; missa do gallo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; de v&ecirc;r que sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tambem vou&#8213;disse Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu&#8213;acudiu Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais um, que ir&aacute; tambem&#8213;disse Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu, e eu&#8213;accrescentaram differentes vozes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, minhas encommendas!&#8213;suspirou D. Victoria.&#8213;Ent&atilde;o
+por que n&atilde;o disseram isso logo?
+Agora como ha de ser?
+<br />
+
+<br />
+
+E saiu em direc&ccedil;&atilde;o &aacute; sala da ceia a
+disp&ocirc;r as
+coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que se diga que D. Victoria vivia na
+candida illus&atilde;o de que era ella quem fazia tudo em
+casa, emquanto que manda a verdade declarar que
+nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas
+do que quanto dormia esta ali&aacute;s excellente senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[232]</span>
+&#8213;M&atilde;os &aacute; obra, sr. Henrique!&#8213;bradou o
+conselheiro,
+insistindo na resolu&ccedil;&atilde;o com que viera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto&#8213;respondeu Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o? ent&atilde;o?... Que v&atilde;o
+fazer?&#8213;perguntava
+D. Victoria, afflicta, voltando &aacute; cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem v&ecirc;r que preparos?!&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a,
+sorrindo e olhando com curiosidade para o
+que faziam os dois.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras,
+minha tia&#8213;dizia Henrique, approximando-se
+da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena e
+Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade que sim,&#8213;acudiu Magdalena&#8213;e
+eu exijo o cumprimento da promessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;, sr. Henrique,&#8213;tornou o conselheiro&#8213;acceite-me
+alguns preceitos da pratica. A regra &eacute;
+fazer tudo o mais indigesto possivel; porque essa
+qualidade &eacute; o caracteristico dos manjares d'esta noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a
+ceia do Natal, pois desafio o melhor estomago do
+mundo a que subjugue os meus guisados com os
+seus succos digestivos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; escolhi tarefa&#8213;disse o conselheiro, tirando
+das m&atilde;os de Christina a colh&eacute;r com que ella
+mexia o vaso onde se preparava o vinho quente,
+esse <em>punch</em> nacional, que n'esta
+noite seria uma
+falta imperdoavel se esquecesse no programma
+d'aquelle banquete.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu,
+e c&ecirc;do principiou a desempenhar-se d'este trabalho,
+no meio de hilaridade geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo dispensou a tia Doroth&eacute;a do trabalho da
+prepara&ccedil;&atilde;o dos mexidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e
+no seguimento do seu constante proposito, approximou-se
+da morgadinha, que n'aquelle momento se
+occupava a regar de calda de mel umas recentes
+rabanadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o trabalho, prima Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+&#8213;N&atilde;o ha falta de bra&ccedil;os n'esta
+reparti&ccedil;&atilde;o, primo
+Henrique. V&aacute; a outra porta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance
+das minhas f&ocirc;r&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta? Como se engana! N&atilde;o sabe que as rabanadas
+s&atilde;o a essencia da ceia de Natal? E logo
+havia de confiar-lh'as?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n&atilde;o ligava tanta importancia a estas representantes
+da pastelaria primitiva, notaveis porque
+recordam a infancia da arte! Emquanto a mim,
+j&aacute; no tempo da peregrina&ccedil;&atilde;o dos
+hebreus, Moys&eacute;s
+lhes ensinava a cozinhar d'isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena abanou a cabe&ccedil;a em signal de
+reprehens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e &aacute;s pobres rabanadas o pouco ar de
+moda que teem. A sua elegancia &eacute; implacavel, primo
+Henrique. Um indigesto manjar francez seria de
+melhor tom, bem sei. At&eacute; n'isso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para provar que estou arrependido da minha
+irreverencia, consinta-me que a coadjuve, prima.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pode ser; pesa sobre mim uma tremenda
+responsabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso equivale a recusar-me o f&ocirc;ro de familia,
+que t&atilde;o humildemente reclamo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente&#8213;respondeu Magdalena.&#8213;Eu sou
+muito escrupulosa n'isso. Faz mal em n&atilde;o reclamar
+esse f&ocirc;ro de Christina, que talvez encontrasse mais
+disposta a conceder-lh'o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, se me n&atilde;o engano, foi a prima Magdalena
+que primeiro me conferiu o apreciavel titulo
+de parentesco com que nos tratamos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O de primos? Esse sim; mas n&atilde;o tem os privilegios,
+que lhe quer dar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que privilegios s&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas,
+por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe, priminha, que ser&aacute; muito exigir o
+que eu pe&ccedil;o?&#8213;perguntou Henrique a Christina,
+que principi&aacute;ra a escutal-os.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[234]</span>
+&#8213;N&atilde;o ouvi&#8213;respondeu esta, c&oacute;rando e sorrindo,
+como sempre que lhe falava Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escusado &eacute; consultar Christina&#8213;acudiu a
+morgadinha&#8213;porque
+em muitas coisas pensa ella em
+opposi&ccedil;&atilde;o commigo. E n'isto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n'isto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'isto de attender a requerimentos, &eacute; talvez
+mais condescendente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao que estou vendo&#8213;disse o conselheiro jovialmente&#8213;grandes
+coisas se tinham passado aqui,
+antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade
+entre Lena e o sr. de Souzellas, que me d&aacute; s&eacute;rias
+inquieta&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu julgo que n&atilde;o. Ao que ouvi ao Henriquinho,
+a primeira vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!...&#8213;disse
+D. Doroth&eacute;a, com toda a indiscre&ccedil;&atilde;o
+da sua ingenuidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena procurou acudir a tempo &aacute; corrente
+das revela&ccedil;&otilde;es, a que viu disposta a boa senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que
+tendo feito uma digress&atilde;o pela sala do refeitorio,
+voltou com a alegre nova de que a ceia estava na
+mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo.
+Suspenderam-se trabalhos, quasi completos,
+ultimaram-se &aacute; pressa outros, e a companhia dirigiu-se
+para o corredor.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o
+e pretendendo suster a corrente, que
+amea&ccedil;ava invadir a sala, que ella ainda n&atilde;o dera
+por prompta. J&aacute; n&atilde;o era tempo. O conselheiro,
+tomando
+duas crean&ccedil;as ao collo, rompia a marcha, e
+atraz d'elle at&eacute; a pacifica D. Doroth&eacute;a clamava
+insubordinada
+que n&atilde;o recuaria um passo.
+<br />
+
+<br />
+
+E falando e rindo assim entraram na sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava offuscante de luzes, esplendida de lou&ccedil;as
+e baixellas, enfeitada de flores e de crystaes e ennevoada
+dos vapores das iguarias.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas,
+<span class="pagenum">[235]</span>
+uma confus&atilde;o e incoherencia de ordens de D. Victoria
+para marcar logares, infrac&ccedil;&otilde;es d'estas ordens,
+que a impacientavam, como se com isso pud&eacute;sse
+perigar a ordem natural e social do mundo,
+e, como justa consequencia, ca&iacute;a s&ocirc;bre a
+cabe&ccedil;a dos
+criados uma enfiada de recrimina&ccedil;&otilde;es, que elles
+por
+habito j&aacute; soffriam com exemplar paciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se &aacute; ceia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ceia de Natal! aben&ccedil;oado banquete, ao qual todos
+se devem sentar nas mesmas disposi&ccedil;&otilde;es de
+animo em que ordenava Christo estivessem os que
+f&ocirc;ssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada,
+e com t&atilde;o pouca vontade comida, falem embora
+contra ti os medicos e os gastronomos em&eacute;ritos,
+condemnando uns a indigestibilidade dos teus
+cozinhados, outros o pouco delicado d'elles; reage
+contra as ideias novas, que veem da Fran&ccedil;a e da Allemanha;
+cerra as fornalhas &aacute;s iguarias exoticas e
+furta-te &aacute;s m&atilde;os da extranha
+gera&ccedil;&atilde;o de Vateis,
+que aspiram a dominar pelos paladares o espirito
+nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas
+as outras refei&ccedil;&otilde;es, mas respeitem esta,
+consagrada
+pelas memorias da familia, justificada pelo
+facto de que quasi n&atilde;o &eacute; feita para ser comida.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das
+instiga&ccedil;&otilde;es do conselheiro, das instancias de D.
+Victoria,
+das garantias de D. Doroth&eacute;a sobre a innocuidade
+dos guisados, os pratos corriam &aacute; roda da
+mesa quasi intactos e intactos voltavam &aacute; cozinha
+d'onde sairam.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas se se comia pouco&#8213;e de facto, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o
+de Henrique, do conselheiro e das crean&ccedil;as, quasi
+ninguem parecia haver-se sentado alli para ceiar&#8213;mas,
+diziamos n&oacute;s, se se comia pouco, em
+compensa&ccedil;&atilde;o
+falava-se muito.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando
+uma iniciativa efficaz para baralhar e generalisar
+as conversas e assim conservar constante a
+<span class="pagenum">[236]</span>
+anima&ccedil;&atilde;o. Tudo desafiava risos, o dito de uma
+crean&ccedil;a, a anecdota contada por Henrique, as
+distrac&ccedil;&otilde;es
+de D. Victoria, as canduras de D. Doroth&eacute;a,
+os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as allus&otilde;es
+da morgadinha a Christina, a confus&atilde;o d'esta,
+as maliciosas insinua&ccedil;&otilde;es de Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim procedeu o repasto nocturno at&eacute; &aacute; altura
+das sauda&ccedil;&otilde;es e dos
+<em>toasts</em>. N'esta parte, justo
+&eacute;
+confessar que Henrique e o conselheiro f&ocirc;ram menos
+abstinentes. Era difficil resistir &aacute; preciosidade
+dos vinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Passados os reciprocos brindes entre os parentes,
+o conselheiro, voltando-se para Angelo, auctorisou-o
+a prop&ocirc;r tambem um brinde.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo levantou-se ent&atilde;o para brindar Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro secundou-o, levando o copo aos
+labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! o sr. Augusto&#8213;disse Henrique, antes de
+beber e com certo tom de ironia.&#8213;Conhe&ccedil;o; &eacute; uma
+ave rara d'estas immedia&ccedil;&otilde;es, que tem brios de
+cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Brios de cavalleiro?&#8213;disse Angelo, com vivacidade.&#8213;Inda
+isso n&atilde;o &eacute; tudo, sr. Henrique; pode
+accrescentar, e alma de heroe tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois d&ecirc;-se-lhe tambem alma de heroe, e se f&ocirc;r
+preciso at&eacute; consciencia de santo. V&aacute; &aacute;
+saude da
+phenix!
+<br />
+
+<br />
+
+E bebeu.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo
+tom anterior:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que vejo &eacute; que &eacute; perigoso falar com a mais
+ligeira irreverencia d'esta personagem; corre-se o
+risco de v&ecirc;r voltar contra o impio, que tanto ousa,
+os poderes conspirados do c&eacute;o e da terra. Bem;
+prometto acatar essa preciosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E creia&#8213;disse-lhe o conselheiro&#8213;que lhe &eacute;
+merecedor de toda a considera&ccedil;&atilde;o. Augusto
+&eacute; um
+d'estes caracteres excepcionaes que vivem &aacute; sombra
+<span class="pagenum">[237]</span>
+de uma modestia impenetravel e &aacute; sombra d'ella
+muitas vezes morrem. &Eacute; necessario ter a vista
+muita
+exercitada n'estas explora&ccedil;&otilde;es de almas modestas,
+para descobrir uma assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Felizmente para os myopes como eu&#8213;proseguiu
+Henrique&#8213;ellas fazem &aacute;s vezes a fineza de
+se despojarem da sua timidez e de se mostrarem &aacute;
+luz. N&atilde;o &eacute; verdade, prima Magdalena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que admira;&#8213;respondeu Magdalena&#8213;bem
+occulto est&aacute; o fogo na pederneira, primo Henrique,
+mas, percutindo-a, salta a faisca.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz;&#8213;notou a sr.<sup>a</sup> de
+Alvapenha&#8213;aquillo
+nem parece d'este tempo. O que eu n&atilde;o sei,
+primo Manuel, &eacute; porque elle se n&atilde;o resolveu a
+tomar
+ordens. Recusar o legado da D. Rosa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o seja isso a d&uacute;vida. Elle sabe que,
+adoptando
+essa ou outra qualquer carreira, n&atilde;o lhe faltar&atilde;o
+recursos para seguil-a at&eacute; o fim. Devo-lhe esse
+auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio
+singular aquelle rapaz!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma phenix&#8213;insistiu Henrique, ironicamente.&#8213;Vejo
+que n&atilde;o &eacute; susceptivel de discuss&atilde;o,
+imp&otilde;e-se &aacute; gente como um axioma. Eu tenho habitos
+de livre pensador, mas... for&ccedil;ar-me-hei a incluir
+no meu credo esse dogma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o&#8213;replicou Angelo.&#8213;Um axioma n&atilde;o
+se demonstra, e a boa alma de Augusto est&aacute; todos
+os dias a demonstrar-se por ac&ccedil;&otilde;es generosas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por favor!! D&ecirc;em como n&atilde;o ditas as minhas
+palavras! Arrependo-me da minha irreverencia, e se
+elle aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na
+sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; certo que nos falta aqui Augusto. Como
+te n&atilde;o lembraste d'elle, Angelo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o viria. N'esta noite n&atilde;o deixaria o tio
+Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do herbanario que falam?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[238]</span>
+&#8213;Justamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra phenix; e quer-me parecer que tambem
+pertence ao numero dos inviolaveis; n&atilde;o &eacute;
+verdade,
+prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que
+&eacute; justo considerar-se uma especie de inviolabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+A resposta collocou Henrique em mau terreno, e
+por isso apressou-se a desviar do ponto principal
+da quest&atilde;o, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios
+como elle teem em si os elementos da propria
+felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh'a.
+Al&eacute;m de que o herbanario gosa aqui na terra
+de uma certa soberania, que deve lisonjeal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E olha que nem em Lisboa ha talvez quem
+saiba tanto como elle em coisas de doen&ccedil;as e de
+remedios, menino,&#8213;disse D. Doroth&eacute;a, que era
+uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; na verdade um homem singular!&#8213;disse o
+conselheiro.&#8213;D'antes, na noite de Natal, e em todas
+as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem
+por commensal, que ainda &eacute; parente arredado da
+casa. Ha annos por&eacute;m deu em tomar a peito o meu
+procedimento politico e em pr&eacute;gar-me serm&otilde;es e
+dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com
+a possivel resigna&ccedil;&atilde;o. Mas um dia foi mais amargo
+nas suas recrimina&ccedil;&otilde;es e eu achava-me com maior
+susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante
+acrimonia, e o homem saiu de minha casa
+offendido e protestando n&atilde;o voltar mais a ella. Procurei-o,
+escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito.
+N&atilde;o houve de qu&ecirc;. Havia-o ferido no seu orgulho,
+e &eacute; intolerante n'estas condi&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei-o j&aacute; por experiencia;&#8213;disse Henrique&#8213;que
+n'uma unica entrevista que tive com elle, e que
+durou minutos, deu-me occasi&atilde;o de lhe conhecer a
+irritabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, primo Henrique; talvez possa haver
+<span class="pagenum">[239]</span>
+quem supponha que n'essa entrevista n&atilde;o demonstrou
+o primo peor do que elle possuir as qualidades
+de que o accusa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora&#8213;continuou o conselheiro&#8213;v&atilde;o consideravelmente
+exacerbar-se os despeites do herbanario
+contra mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porqu&ecirc;?&#8213;perguntou Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porqu&ecirc;?... por causa do tra&ccedil;ado que se adoptou
+para a estrada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;disseram simultaneamente Angelo e
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A casa e o quintal do herbanario s&atilde;o os primeiros
+cortados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pode ser!&#8213;exclamou Magdalena, com evidente
+express&atilde;o de susto.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o exprimiu menos apprehensiva tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; inevitavel. Os dois primeiros tra&ccedil;ados tinham
+certas durezas. O primeiro era uma luva lan&ccedil;ada
+a uma influencia eleitoral, poderosissima; o
+brazileiro Seabra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse Magdalena, com certa amargura
+na express&atilde;o e no olhar.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em
+cuja physionomia se n&atilde;o lia menos intenso desgosto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou adivinhando que meus filhos votariam
+por que antes se arrostasse com os despeites d'esse
+influente. A logica do sentimentalismo tem d'essas
+exigencias absolutas.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julguei que era a da consciencia, meu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A consciencia diz-me que ha interesses superiores
+&aacute;s contempla&ccedil;&otilde;es com as singularidades
+de
+um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira
+politica ceder ao cora&ccedil;&atilde;o &eacute; morrer ou
+ser vencido.
+O sentimentalismo exaggerado, Lena, tem o inconveniente
+de dar tanto vulto &aacute;s vezes a um sacrificio
+individual, que, para o evitar, n&atilde;o duvida prejudicar
+<span class="pagenum">[240]</span>
+maiores e mais geraes interesses e operar sacrificios
+mais custosos. &Eacute; muito tocante na verdade o amor
+de um velho pelas suas arvores e pela sua casa;
+por&eacute;m, mais respeitavel &eacute; o bem-estar e a
+conveniencia
+de uma localidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; t&atilde;o necessario para a felicidade d'esta
+terra
+o sacrificio a que se quer obrigar o herbanario?&#8213;perguntou
+Angelo, e Magdalena secundou com o
+olhar a pergunta do irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu te digo, Angelo&#8213;respondeu o conselheiro,
+levemente despeitado.&#8213;Eu tinha a vaidade de me
+supp&ocirc;r ainda prestavel para esta gente, que me tem
+elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me
+dizel-o aqui em familia, n&atilde;o vejo ainda quem d&ecirc;
+garantias de desempenhar o mandato, muito melhor
+do que eu. Chamasse eu contra mim a animadvers&atilde;o
+d'este povo, e elles, &aacute; falta de outros, acceitariam
+&aacute;manh&atilde; qualquer nome inscripto na carteira
+do ministro; um homem que nunca tivessem visto,
+e que nem soubesse em que ponto da carta estava
+o circulo de que se propunha ser representante.
+Mas perd&ocirc;a-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo
+um censuravel excesso de vaidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pae, ninguem acredita mais do que
+eu no muito valor da sua influencia, mas... &Oacute;
+meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio
+Vicente! Imagine bem o que &eacute; n'aquellas idades e
+com aquelle genio, a grandeza do sacrificio que v&atilde;o
+exigir d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custa-me ser obrigado a isso; por&eacute;m...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle
+n&atilde;o pode ser muito longa. Deixem-o morrer em paz,
+&aacute; sombra d'aquellas arvores a que elle quer tanto.
+Que importa passar mais alguns annos sem uma
+estrada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Poesia!&#8213;disse o conselheiro, sorrindo para
+Henrique, que lhe correspondeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o!&#8213;acudiu Magdalena,
+c&oacute;rando&#8213;&eacute; caridade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[241]</span>
+&#8213;Ora vamos, Lena. S&ecirc; razoavel. Todos soffrem
+no mundo sacrificios maiores do que esse; eu mesmo,
+que me n&atilde;o tenho ainda assim por victima da
+sorte...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o haveria outro meio?&#8213;perguntou Angelo.&#8213;Acaso
+ha s&oacute; esses dois logares para dirigir
+a estrada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que antes nunca se fizesse!&#8213;exclamou Magdalena,
+apaixonadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi temos como o sentimento me torna retrograda
+a minha Lena. J&aacute; clama contra as estradas
+como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro
+tra&ccedil;ado, mas esse ia destruir completamente os
+campos do Brejo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o esse, esse! S&atilde;o bens
+nossos!&#8213;exclamou
+Magdalena com vivacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles
+que um dia mais valiosos se tornar&atilde;o para teu
+irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os charcos?&#8213;disse Angelo, encolhendo os
+hombros&#8213;ora! S&oacute; para viveiro de r&atilde;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje pouco mais s&atilde;o do que isso, e como tal
+nol-os pagariam agora. Dentro, por&eacute;m, de alguns
+annos, operados alli os trabalhos de esgoto, que eu
+projecto, ver&atilde;o em que se transforma aquillo. &Eacute;
+exigir a um homem muita abnega&ccedil;&atilde;o pretender
+d'elle que sacrifique assim os elementos da riqueza
+futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens
+n&atilde;o seriam taes que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pediriamos esmola, meu pae&#8213;notou timidamente
+Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem o Vicente a pedir&aacute;. Visto que estaes t&atilde;o
+desprendidos de interesse, que n&atilde;o hesitaes em fazer-lhe
+sacrificio dos vossos bens, podeis ceder-lhe
+o sufficiente para o compensar da perda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem o compensar&aacute; dos golpes nos seus
+affectos?&#8213;perguntou Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem tu! S&atilde;o segredos do cora&ccedil;&atilde;o
+feminino
+essas compensa&ccedil;&otilde;es. Deixo-as &aacute; tua
+disposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+&#8213;Meu pae! meu pae! se &eacute; ainda possivel atalhar-se!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; impossivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu tio!&#8213;secundou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mano! Primo!&#8213;disseram a um tempo as senhoras
+mais idosas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que posso fazer &eacute; ir eu proprio falar com o
+Vicente, para o mover a consentir na expropria&ccedil;&atilde;o
+amigavel, que farei que lhe seja o mais vantajosa
+possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tem cora&ccedil;&atilde;o para lhe ir prop&ocirc;r
+isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize antes se tenho coragem para arrostar
+com as iras do velho, e com as maldi&ccedil;&otilde;es que
+j&aacute;
+sei vae sacudir sobre mim.
+<br />
+
+<br />
+
+Lena calou-se, suspirando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!&#8213;continuou
+o conselheiro.&#8213;Eu, que tinha
+feito voto de n&atilde;o me entreter de negocios publicos
+esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada &eacute;s tu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?! Eu, que abomino a politica! que s&oacute; ella
+podia fazer entrar uma crueldade no cora&ccedil;&atilde;o de
+meu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio, veja se faz com que a estrada v&aacute; por
+outro sitio!&#8213;implorou meigamente Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem tu, Christe! tambem tu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pudera, mano! N&atilde;o, que uma coisa assim! Isso
+&eacute; at&eacute; uma ingratid&atilde;o para com um homem
+a quem
+esta aldeia tanto deve&#8213;disse D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o &eacute;! E logo um quintal onde cresciam
+tantas plantas de virtudes!&#8213;accrescentou D. Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; vendo, sr. Henrique, como se conspiram
+todos contra mim. Veja como um sentimento insignificante
+organisa uma opposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma li&ccedil;&atilde;o que estou recebendo, sr.
+conselheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae,&#8213;insistiu Magdalena&#8213;eu espero
+ainda que, ouvindo o tio Vicente, se commover&aacute; e
+trabalhar&aacute; por alterar esse fatal plano que principia
+<span class="pagenum">[243]</span>
+por arrancar arvores, mas que, pode estar certo,
+com ellas arrancar&aacute; uma vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Romances! Lena, romances! Os romances, lidos
+em plena aldeia, s&atilde;o perigosos. Falta aqui nos
+ares um certo scepticismo que, n&atilde;o sendo em d&oacute;ses
+exaggeradas, tem a vantagem de n&atilde;o deixar v&ecirc;r as
+coisas da vida atrav&eacute;s do prisma dos livros de
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+Mas basta de falar em politica. &Aacute;manh&atilde;
+procurarei o herbanario. Espero uma recep&ccedil;&atilde;o de
+g&ecirc;lo, e vou preparado para uma ladainha de
+recrimina&ccedil;&otilde;es,
+mas irei. Nada esperes, por&eacute;m, da entrevista,
+Lena; nem o mal, se mal &eacute;, se poderia j&aacute; atalhar;
+nem o orgulho de Vicente lhe permittiria
+expans&otilde;es &aacute; sensibilidade, que cheguem a
+commover-me.
+Conhe&ccedil;o-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o instou. Ficou, por&eacute;m, pensativa e
+sem o menor vestigio da alegria, com que principiara
+o ser&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; toca para a missa do gallo! Ouvem?&#8213;disse
+D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos! N&atilde;o ha tempo para demoras&#8213;exclamou
+o conselheiro, levantando-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos o imitaram, menos Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vens, Lena?&#8213;perguntou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o am&uacute;os, filha!&#8213;disse-lhe o conselheiro,
+indo por traz d'ella; e, tomando-lhe a cabe&ccedil;a entre
+as m&atilde;os, beijou-a na fronte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pae, &eacute; uma d&ocirc;r de
+cabe&ccedil;a t&atilde;o violenta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A maldita politica &eacute; o que faz! Pois fica; fica,
+porque est&aacute; fria a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o. Se insistes, obrigas-me a sair.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aviem-se!&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a.&#8213;Henriquinho,
+vens?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia
+noite esfriou desde que viu Magdalena ficar, respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+&#8213;&Oacute; tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem d'ahi, pregui&ccedil;oso! anda!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que... para um homem doente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, n&atilde;o; se te ha de &aacute;s vezes fazer mal,
+ent&atilde;o
+n&atilde;o&#8213;apressou-se a dizer a precavida senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+E foi deferido por unanimidade o requerimento de
+Henrique, a quem c&ecirc;do depois Torquato foi ensinar.
+o caminho para o quarto onde devia pernoitar.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, D. Doroth&eacute;a, Christina e Angelo
+f&ocirc;ram para a missa do gallo.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no
+Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XV
+</h4>
+
+<br />
+
+Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar,
+Henrique de Souzellas sentiu poucas disposi&ccedil;&otilde;es
+de dormir. Uma profunda excita&ccedil;&atilde;o impedia-lhe
+o repouso; em parte era devida &aacute;s occorrencias
+d'aquella noite, t&atilde;o f&oacute;ra dos seus habitos de
+vida;
+em parte, digamol-o em verdade, &aacute; influencia dos
+vinhos, com que secund&aacute;ra os brindes do conselheiro,
+e com que elle proprio inici&aacute;ra outros.
+<br />
+
+<br />
+
+A imagina&ccedil;&atilde;o, excitada como estava, cada vez,
+entre outras imagens, lhe representava mais bella
+a de Magdalena. A especie de hostilidade permanente,
+com que a morgadinha o tratava, ainda mais
+parecia seduzil-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos poucos dias que pass&aacute;ra na aldeia, havia Henrique,
+com novos habitos, adquirido uma maneira
+de v&ecirc;r e de julgar as coisas e as pessoas, differente
+da que lhe era habitual na cidade, no circulo de
+amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou
+tacitamente, e sem dar por isso, certo scepticismo
+<span class="pagenum">[245]</span>
+convencional, que uma antipathica escola conseguiu
+p&ocirc;r muito na moda.
+<br />
+
+<br />
+
+Gra&ccedil;as a estas melhoras moraes, t&atilde;o verdadeiras
+n'elle como as physicas, as quaes at&eacute; o constante
+pensamento das doen&ccedil;as lhe haviam dissipado,
+pud&eacute;ra
+elle considerar Magdalena como uma mulher
+superior ao typo, pelo qual a mencionada escola
+costuma modelar o sexo: e acceitou sem m&aacute;
+preven&ccedil;&atilde;o
+a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico,
+que descrevia com enthusiasmo nas suas
+cartas a um dos seus mais intimos amigos de
+Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Taes estados de convalescen&ccedil;a s&atilde;o
+por&eacute;m sujeitos
+a reca&iacute;das.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta
+&aacute;quellas cartas, e sob as impress&otilde;es com que
+ficou da leitura, tinha vindo para o Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo
+de um homem da moda, da candura e da ingenuidade
+de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado
+&aacute; vista dos profundos estragos que alguns dias de
+provincia tinham operado n'elle. Via-o disposto a
+idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania
+que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro
+de qualquer homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos
+os dias caracteres, ali&aacute;s n&atilde;o pervertidos,
+levianamente
+calumniam ou ferem de suspeitas reputa&ccedil;&otilde;es
+de todo o genero, elle fazia irreverentes allus&otilde;es
+&aacute; morgadinha e zombava de Henrique, que ainda
+tomava a s&eacute;rio as isen&ccedil;&otilde;es de uma
+rapariga de vinte
+e tres annos. Acabava por o aconselhar a que indagasse
+de algum primo timido e modesto, ainda que
+menos ingenuo de certo do que elle Henrique se
+estava mostrando.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a
+doen&ccedil;a, que estava em via de cura. Um espirito
+mephistophelico
+parecia havel-a dictado. Henrique transportou-se
+pela imagina&ccedil;&atilde;o, depois de lel-a, a
+<span class="pagenum">[246]</span>
+um dos circulos que habitualmente frequentava em
+Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narra&ccedil;&atilde;o da sua
+vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos
+com que o escutariam, e elle proprio construia os
+epigrammas, com que lhe seria por certo commentada
+a narra&ccedil;&atilde;o. E ent&atilde;o uma vergonha de
+m&aacute; indole,
+vergonha do homem que p&otilde;e um preceito de
+elegancia acima de um dictame de moral, fazia-o
+c&oacute;rar, apesar de a s&oacute;s comsigo mesmo. Voltava a
+ler a carta, que lhe parecia dictada pela experiencia
+e pelo bom senso, emquanto que a ingenuidade
+das suas cren&ccedil;as se lhe figurava ridicula e
+desarrazoada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem ha que n&atilde;o tenha tido momentos d'estes?
+Quem se pode gabar de n&atilde;o ter perguntado um
+dia aos seus escrupulos mais nobres se n&atilde;o s&atilde;o
+meros preconceitos, que ficaram de uma educa&ccedil;&atilde;o
+acanhada? Quem n&atilde;o poz um momento em d&uacute;vida
+as sublimes verdades que a m&atilde;e lhe ensinou em
+crean&ccedil;a? Henrique estava passando por um d'esses
+accessos de scepticismo. Magdalena era j&aacute; para
+elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da
+sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia,
+que promettia a si proprio ser d'ahi por deante mais
+arrojado. Esta ordem de reflex&otilde;es estavam acudindo
+outra vez a Henrique e recebiam da excita&ccedil;&atilde;o, que
+se apoder&aacute;ra d'elle aquella noite, uma tenacidade
+maior. Sentindo a cabe&ccedil;a em fogo, Henrique levantou-se,
+apagou a luz, e abrindo a janella do quarto,
+saiu &aacute; varanda que deitava para a quinta, a respirar
+o ar livre.
+<br />
+
+<br />
+
+A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se
+muitas estrellas no c&eacute;o, que com forte
+scintilla&ccedil;&atilde;o
+parecia illuminarem a terra de um tenue crepusculo,
+que mal deixava distinguir os objectos.
+<br />
+
+<br />
+
+O ar frio da noite estava produzindo em Henrique
+um prazer, que elle procurava prolongar.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia passado muito tempo, depois que assim
+se encost&aacute;ra &aacute; varanda do quarto, quando lhe
+<span class="pagenum">[247]</span>
+attrahiu a atten&ccedil;&atilde;o certo vulto alvacento, que
+furtivamente
+se movia n'uma das ruas da quinta.
+<br />
+
+<br />
+
+Pareceu-lhe uma figura de mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+Justamente n'aquella occasi&atilde;o tinha Henrique na
+memoria o periodo final da carta do seu amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... Querem v&ecirc;r que... A d&ocirc;r de
+cabe&ccedil;a
+subita... A insistencia em ficar s&oacute;... Percebo...
+Um primo timido e modesto...
+<br />
+
+<br />
+
+E murmurando estas palavras, um sorriso maligno
+encrespava os labios de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu pud&eacute;sse averiguar isto... Mas ella corre
+com uma ligeireza que, antes que eu ache meio de
+sair para a quinta... j&aacute; a levar&aacute; bem longe.
+<br />
+
+<br />
+
+O meio por&eacute;m n&atilde;o era difficil de encontrar. Da
+varanda em que estava Henrique passava-se com
+grande facilidade para outra immediata, na qual havia
+uma escada de communica&ccedil;&atilde;o para a quinta.
+<br />
+
+<br />
+
+Reconhecendo esta disposi&ccedil;&atilde;o do terreno, Henrique
+operou n'um momento a descida, e pouco depois
+procurava atrav&eacute;s da quinta os vestigios da
+mulher que tinha perdido de vista.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esta opera&ccedil;&atilde;o esfor&ccedil;ava-se por
+combinar com
+a maxima ligeireza a possivel precau&ccedil;&atilde;o, para
+n&atilde;o
+ser por causa alguma frustrada a sua pesquiza.
+<br />
+
+<br />
+
+A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda
+em volta por um solido muro de alvenaria. Aqui e
+alli abriam-se n'elle differentes portas que deitavam
+para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto
+havia pomares, lameiros, vinhedos e hortas,
+por onde Henrique errava &aacute; t&ocirc;a, j&aacute;
+desanimado de
+ser bem succedido no empenho.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar
+de uma chave na fechadura. Parou por precau&ccedil;&atilde;o
+e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o bater
+de uma porta e mais nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o adeantou-se rapidamente; n'um momento
+deu com a porta, que ainda se conservava aberta.
+<br />
+
+<br />
+
+Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[248]</span>
+Dirigiu-se &aacute; esquina que d'alli avistava; dobrou-a,
+mas nada viu; as ruas eram solitarias, e uma s&oacute;
+casa terrea que havia ao lado de um quintal estava
+discretamente fechada e silenciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza,
+Henrique voltou para a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperemos aqui por esta donzella destemida
+que assim anda de noite a correr aventuras. Ha de
+ser curioso observar como ella fica, quando me encontrar
+por guarda port&atilde;o. Veremos se ainda depois
+d'isto durar&atilde;o aquelles ares de soberania, com
+que me trata. Um primo timido e modesto!...
+<br />
+
+<br />
+
+E, sorrindo &aacute; lembran&ccedil;a da scena que se
+preparava,
+Henrique fechou a porta por dentro, e accendendo
+um charuto, poz-se a passeiar, aguardando o
+regresso da morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Para n&atilde;o perdermos muito tempo &aacute; espera tambem,
+aproveital-o-hemos a inquirir de coisas e de
+pessoas, cujo conhecimento &eacute; util &aacute;
+continua&ccedil;&atilde;o da
+nossa historia.
+<br />
+
+<br />
+
+A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro
+e n'um sitio a que a abundancia de vegeta&ccedil;&atilde;o
+e a suavidade de perspectiva davam o mais pittoresco
+aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario,
+casa e quintal j&aacute; condemnados pelos lapis e
+tira-linhas dos engenheiros e offerecidos em sacrificio
+aos melhoramentos municipaes e concelhios.
+<br />
+
+<br />
+
+Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena
+e Angelo escutaram a nova d'esta expropria&ccedil;&atilde;o,
+quem conhecesse a vivenda rustica do herbanario
+e soubesse do amor que elle votava a cada
+objecto d'ella, assim como da vida que, havia tantos
+annos, alli vivia escondido e obscuro.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o quintal, que a abundancia das arvores de
+espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas
+da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se
+entregava &aacute;s suas leituras e
+lucubra&ccedil;&otilde;es scientificas.
+Logo ao p&eacute; da porta se estendiam o jardim, em
+parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em
+<span class="pagenum">[249]</span>
+parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de
+virtudes mais ou menos problematicas, que o velho
+n'elle cultivava.
+<br />
+
+<br />
+
+Vicente tinha entranhada a paix&atilde;o vegetal, deixem-me
+assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas
+suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes
+curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem
+a responsabilidade dos effeitos produzidos,
+assim lhes queria e as amimava, quando salutares;
+assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas.
+A vida isolada e o genio do velho, que sempre
+f&ocirc;ra dado a singularidades, augmentaram estas
+disposic&otilde;es, que tinham o que quer que era de
+pantheistico; e n&atilde;o era raro surprehenderem-o conversando
+com ellas, como se convencido de que o
+estavam comprehendendo.
+<br />
+
+<br />
+
+A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre,
+a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas,
+as violetas, t&atilde;o boa camaradagem lhe faziam,
+que nem lhe deixavam sentir a solid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario n&atilde;o tinha pessoa alguma ao seu
+servi&ccedil;o. Elle proprio cozinhava e por suas m&atilde;os
+fazia todos os mesteres domesticos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pois de imaginar que n&atilde;o seria muito complicado
+o banquete das consoadas n'aquella casa, e que
+devia formar em tudo contraste com o que &aacute; mesma
+hora se celebrava no Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas
+e mais espontaneos os risos, dois homens
+apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena
+mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta
+sala o santo anniversario. Um era o proprietario
+da casa, o outro Augusto, um dos poucos que
+se atrevia a frequentar &aacute;quellas horas mortas a
+habita&ccedil;&atilde;o
+do velho.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m da mesa, sobre a qual estava uma ceia
+composta de queijo, ma&ccedil;&atilde;s, nozes, castanhas, duas
+sopeiras com escabeche, especialidade na
+confec&ccedil;&atilde;o
+da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa
+<span class="pagenum">[250]</span>
+de vinho do Porto de promettedora c&ocirc;r de topazio,
+consistia o resto da mobilia n'uma estante
+de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas
+encaderna&ccedil;&otilde;es e folhas vermelhas nos aparos,
+em algumas cadeiras e bancos tambem occupados
+com livros e com varios utensilios empregados nas
+explora&ccedil;&otilde;es scientificas do velho, taes como
+caixas
+de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes
+ainda sobravam para alastrarem o ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro
+de azeite, e a escassa luz, que dos tres lumes
+que, em atten&ccedil;&atilde;o &aacute; solemnidade da
+noite, o velho
+accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um
+Christo de marfim pendente de um crucifixo negro,
+que sobresa&iacute;a n'aquellas paredes nuas e caiadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia bastante tempo que aquelles dois homens,
+sentados defronte um do outro, guardavam silencio;
+um d'esses silencios, durante os quaes os
+espiritos, como se impacientes com as longuras da
+palavra, tendo-se desembara&ccedil;ado d'ella, voam a
+par, para adeantarem caminho e voltarem mais
+longe a associarem-se &aacute; sua mais lenta companheira.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava
+a scena, parecia alheio a quanto o rodeava.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com
+o bra&ccedil;o estendido para o calice que tinha defronte
+de si, e a cabe&ccedil;a inclinada, parecia espiar, um por
+um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles
+os pensamentos que o preoccupavam. Emfim rompeu
+o primeiro o silencio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens.
+Para que te mettes a esconder de mim aquillo que
+eu ha tanto te leio nos olhos, crean&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;, tio Vicente?&#8213;perguntou Augusto, inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho,
+sem te esfriar o cora&ccedil;&atilde;o:
+s&atilde;o dons do C&eacute;o,
+<span class="pagenum">[251]</span>
+que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. Bondade
+de cora&ccedil;&atilde;o, com a cabe&ccedil;a... assim,
+assim...
+a dar esmolas aos pobres se satisfaz; cabe&ccedil;a de
+fogo, mas cora&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;lo... todos os
+meios de
+levar ao fim ambi&ccedil;&otilde;es, tanto os bons como os
+maus, todos lhe servem; mas cora&ccedil;&atilde;o como o teu,
+com o espirito que tens!... ai, pobre Augusto, se
+se escapa ao infortunio, &eacute; por milagroso poder do
+Senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o entendo, tio Vicente,&#8213;disse Augusto,
+com manifesta confus&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Olha para mim. E v&ecirc; se te atreves a
+repetil-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto baixou a cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho sorriu com ar de commisera&ccedil;&atilde;o e
+sympathia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu ainda n&atilde;o sabes fingir. Vamos l&aacute;; e cuidas
+que me n&atilde;o havia de custar, se n&atilde;o tivesse
+acertado?&#8213;E,
+depois de breve pausa, continuou:&#8213;Mas
+ainda quando penso em como tu, uma cabe&ccedil;a
+forte, assim te deixaste enfeiti&ccedil;ar!...&#8213;E tomando
+o calice, que tinha defronte de si, disse com
+resolu&ccedil;&atilde;o&#8213;Quero
+beber &aacute; tua saude, Augusto, e para
+que em breve se te desfa&ccedil;a essa loucura.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ia a levantar o calice aos labios, a m&atilde;o
+de Augusto susteve-lhe o bra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o beba. Loucura embora, deixe-me viver e
+morrer com ella. Sou feliz assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse o velho herbanario, tomando um
+ar mais grave; e pousou o copo, sem desviar de
+Augusto o olhar penetrante e fixo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu
+com maior vehemencia e colorindo-lhe as faces um
+n&atilde;o costumado rubor:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim. Por que o n&atilde;o hei de confessar? Essa
+loucura que diz, trago-a commigo, vivo com ella e
+quasi que para ella. Quero-lhe assim, e n&atilde;o a desejaria
+perder. Amor? n&atilde;o &eacute;; a tanto n&atilde;o
+chega...
+antes um culto, isso sim. &Eacute; uma
+adora&ccedil;&atilde;o como
+<span class="pagenum">[252]</span>
+aquella, em que de pequenos nos educam para com
+a Virgem. Que esperan&ccedil;as tenho? Nenhumas. Nem
+procuro alimental-as. Quer que lhe diga? V&ecirc;l-a;
+respirar estes ares que ella respira; atravessar estas
+devezas em que ella passeia; amimar as mesmas
+cren&ccedil;as que ella amima; soccorrer, com o meu
+&oacute;bulo
+de pobre, a miseria sobre a qual ella espalha caridosa
+as dadivas da sua aben&ccedil;oada opulencia... e,
+ahi est&aacute;; s&atilde;o as minhas
+aspira&ccedil;&otilde;es; &eacute; o futuro que
+desejo, e com que me contento. Leu no meu
+cora&ccedil;&atilde;o,
+disse; e ha muito que m'o d&aacute; a entender; mas
+n&atilde;o viu claro de todo, confesse. Julgou talvez que
+haveria em volta d'este sentimento um enxame de
+esperan&ccedil;as loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por certo
+foi que se riu; &eacute; muito generoso para se rir do mais.
+Enganou-se, por&eacute;m, tio Vicente; v&ecirc; agora que se
+enganou, n&atilde;o &eacute; verdade? Essas
+esperan&ccedil;as n&atilde;o
+existem. Se existissem, bem v&ecirc; que n&atilde;o estaria
+aqui.
+N&atilde;o me teria impellido a ambi&ccedil;&atilde;o pelo
+caminho de
+realisal-as? N&atilde;o se me teem offerecido os meios
+para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto
+me satisfaz esta felicidade a meu modo, que n&atilde;o
+arrisco um instante d'ella para tentar uma ventura
+maior.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario escutava silencioso, por&eacute;m meneando
+a cabe&ccedil;a com ares de quem n&atilde;o punha demasiada
+f&eacute; n'aquellas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aos vinte annos!...&#8213;disse elle por fim&#8213;sentir
+o que dizes... ser feliz assim!... Deixa passar
+mais tempo; deixa tomar corpo &aacute; paix&atilde;o e
+ver&aacute;s...
+ver&aacute;s depois...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem dez annos&#8213;disse Augusto, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dez annos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. De crean&ccedil;a a conhe&ccedil;o, a
+paix&atilde;o
+que diz; por isso confio n'ella. Tenho f&eacute; em que se
+n&atilde;o transviar&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dez annos!&#8213;repetia o velho, admirado.&#8213;Por&eacute;m...
+ha dez annos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha dez annos sa&iacute; eu d'aqui, tio Vicente. N&atilde;o
+<span class="pagenum">[253]</span>
+se lembra? Era ent&atilde;o uma pobre crean&ccedil;a da aldeia,
+educada entre os bra&ccedil;os de minha m&atilde;e, e
+conhecendo,
+uma por uma, as arvores d'estes sitios e
+mais nada. Sa&iacute; d'aqui e fui para Lisboa. N&atilde;o
+imagina
+as fortes impress&otilde;es que recebi na noite que
+alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de
+fadas e de encantamentos que ouvia, quando era
+pequeno, nunca me feria a imagina&ccedil;&atilde;o assim! Tudo
+era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes,
+os palacios, os edificios, os carros produziam-me
+quasi uma vertigem; sentia-me vacillar. Achei-me,
+nem sei bem como, de t&atilde;o atordoado que ia, n'uma
+casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia,
+n'aquella noite, uma companhia numerosa de homens,
+de senhoras e de crean&ccedil;as, muitas da mesma
+idade que eu, e que formavam uma assembleia &aacute;
+parte. A sala era magnifica; muitas luzes, muitos
+espelhos, muitas flores, moveis dourados, tapetes,
+quadros, crystaes, e para acabar de me confundir,
+o piano, objecto novo para mim, e que eu me n&atilde;o
+fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como
+imagina, e por f&ocirc;r&ccedil;a me havia de dar uns ares de
+estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto;
+deu explica&ccedil;&otilde;es &aacute;s pessoas presentes a
+respeito da
+minha vida, e deixou-me entregue &aacute;s crean&ccedil;as. Ahi
+fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta
+mal talhada, o meu olhar timido, os meus
+modos acanhados, no meio de uma turba de crean&ccedil;as
+elegantes, que se me figuravam de uma essencia
+superior &aacute; minha. As crean&ccedil;as s&atilde;o
+desapiedadas,
+quando assim em companhia. C&ecirc;do percebi que estava
+sendo o alvo da zombaria d'ellas; riam ao
+principio com disfarce e falavam-se ao ouvido,
+olhando-me de relance; redobravam as risadas e
+transmittiam reflex&otilde;es a meu respeito, cujo sentido
+julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas,
+dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfar&ccedil;ados;
+formaram grupos em volta de mim; se
+eu falava, respondiam-me rindo. Ent&atilde;o apoderou-se
+<span class="pagenum">[254]</span>
+de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me
+o cora&ccedil;&atilde;o de tristeza. Lembrei-me, com saudades,
+das arvores da minha aldeia, do meu pobre quarto,
+de minha m&atilde;e; e achei-me alli t&atilde;o s&oacute;,
+t&atilde;o sem conforto
+nem amizades, que as lagrimas me vieram
+ferventes aos olhos. Ainda hoje n&atilde;o hesito em dizel-o,
+foi aquelle um dos mais amargos momentos
+da minha vida. N&oacute;s, quando adultos, esquecemos
+facilmente os martyrios da infancia, quando n'esta
+idade uma sensibilidade exaggerada t&atilde;o dolorosos
+os faz. Foi ent&atilde;o que se deu um facto que, na minha
+piedosa supersti&ccedil;&atilde;o de rapaz alde&atilde;o,
+quasi me
+pareceu de interven&ccedil;&atilde;o divina. Abriu-se a porta e
+entrou na sala uma crean&ccedil;a, que eu n&atilde;o tinha
+ainda
+visto. Era uma menina pallida, de gesto affavel e
+angelico. Vestia toda de branco. Entrou e approximou-se
+do conselheiro, que jogava com uns amigos.
+O conselheiro, depois de beijal-a, n&atilde;o sei que lhe
+disse ao ouvido. Ella correu ent&atilde;o a sala com a
+vista; viu-me e veio direita a mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o conhecias j&aacute; da aldeia,
+Magdalena?&#8213;perguntou
+o herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; minha m&atilde;e veio para aqui no anno em
+que, por morte da sua, Magdalena voltou a Lisboa.
+A affabilidade, a singeleza desaffectada com que me
+falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje
+sinto como que os reflexos d'aquella suave impress&atilde;o.
+Parecia-me ouvir a voz de minha m&atilde;e; tinha o
+timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confian&ccedil;a
+o cora&ccedil;&atilde;o. Com ella n&atilde;o senti mais
+aquelle
+acanhamento que me enleiava. Depois falava-me de
+coisas que eu sabia t&atilde;o bem! Perguntava-me a respeito
+dos campos, das arvores, das abelhas, dos
+ninhos dos passaros, das flores, dos trabalhos do
+linho... interrogando-me e escutando-me com tanta
+deferencia e atten&ccedil;&atilde;o, que me inspirava coragem,
+e
+julgo que me estava dando ares de mais importancia
+junto d'aquelles pequenos senhores e senhoras
+que, pouco a pouco, se f&ocirc;ram despojando dos seus
+<span class="pagenum">[255]</span>
+desdens e acabaram por me escutar e interrogar
+tambem com curiosidade. J&aacute; uns me lan&ccedil;avam os
+bra&ccedil;os ao hombro, outros formavam circulo em
+volta de mim, e c&ecirc;do fui eu a principal personagem
+d'aquella noite. Essa crean&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se j&aacute; o
+n&atilde;o soubesse. N&atilde;o podia deixar de ser
+ella&#8213;exclamou
+o herbanario, com um fulgor de sympathia a
+illuminar-lhe o olhar.&#8213;Era ella; sempre assim foi!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia
+no meu espirito. Hoje ainda, se penso n'ella,
+acho-a de uma grande significa&ccedil;&atilde;o moral. Pois
+n&atilde;o
+&eacute; mais apreciavel n'uma crean&ccedil;a esta prova de
+superioridade
+de caracter, do que nas idades em que
+muitas vezes a raz&atilde;o e o calculo a imp&otilde;em a uma
+indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo
+espontaneidade. Desde ent&atilde;o a adoro.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario parecia n&atilde;o ter j&aacute; animo para
+sorrir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella
+grande tristeza. T&atilde;o novo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi
+sempre para mim affavel; inclinava-se sobre o livro
+em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos
+da minha educa&ccedil;&atilde;o alde&atilde;, e, se
+reconhecia
+progressos no discipulo, manifestava uma alegria
+que era para mim o maior incentivo e o maior premio.
+Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena
+com certo ar de gravidade, que aquella crean&ccedil;a
+j&aacute; ent&atilde;o tomava, perguntou-me, no meio de uma
+conversa propria de crean&ccedil;as: &laquo;E sente-se com
+genio
+para ser padre, Augusto?&raquo; J&aacute; me n&atilde;o
+lembro
+do que lhe respondi. Trouxe por&eacute;m commigo aquella
+pergunta; trouxe-a para a solid&atilde;o da minha aldeia.
+Procurei cerrar os ouvidos &aacute; voz interior, que desde
+ent&atilde;o m'a repetia sempre, at&eacute; junto da cabeceira
+de
+minha m&atilde;e, cuja maior aspira&ccedil;&atilde;o era,
+como sabe,
+v&ecirc;r-me padre. Mas em v&atilde;o! foi desde
+ent&atilde;o uma
+d&uacute;vida constante com que luctava. Com a morte de
+<span class="pagenum">[256]</span>
+minha m&atilde;e tudo mudou. Pela primeira vez respondi
+&aacute; interroga&ccedil;&atilde;o, que havia tanto tempo
+dirigia a mim
+proprio, e consegui por fim responder:
+&laquo;N&atilde;o&raquo;. Eis
+o segredo do meu passado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que disseste &laquo;N&atilde;o&raquo;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque vi que toda a minha vida era para a
+consagrar a um sonho; que o sonharia no altar, no
+pulpito e no confessionario; que para toda a parte
+me seguiria a imagem, a que eu j&aacute; n&atilde;o podia
+renunciar,
+e a qual ent&atilde;o j&aacute; n&atilde;o contemplaria sem
+remorsos,
+como agora o fa&ccedil;o. Foi por isto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute;? N&atilde;o te illudir&aacute;s a ti mesmo,
+Augusto? Repara
+bem, que n'isso pode ir a tua felicidade! Est&aacute;s
+bem certo de que n&atilde;o ha uma esperan&ccedil;a dentro do
+teu cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se a tivesse...
+<br />
+
+<br />
+
+Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de
+passos na rua. C&ecirc;do batiam na porta duas leves
+pancadas, e uma voz dizia de f&oacute;ra:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; acordado ainda, tio Vicente?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario trocou um olhar com Augusto. A
+voz era de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario
+quiz ret&ecirc;l-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde vaes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me sair. N&atilde;o poderia v&ecirc;l-a agora.
+N&atilde;o
+estou preparado com a minha indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre mascara!&#8213;N'esse caso sae pelo quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente!&#8213;repetiu Magdalena, de f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou, minha ave nocturna; eu vou j&aacute;. Espera&#8213;continuou
+em voz baixa para Augusto:&#8213;d&aacute;-me
+a tua palavra que n&atilde;o escutar&aacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou; mas... promette que nada lhe dir&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?!... Louco! Assim te pud&eacute;sse fazer esquecer,
+quanto mais... Adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo
+lado do quintal, o herbanario foi abrir a porta da
+rua &aacute; morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[257]</span>
+<h4>XVI
+</h4>
+
+<br />
+
+&#8213;Ora com Deus venha a minha fada; esta querida
+Lena, que se n&atilde;o esquece dos seus amigos velhos...
+Boas festas me trazes pela noite, filha!
+<br />
+
+<br />
+
+No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes
+indicios de preoccupa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar;
+eu venho...
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario conduziu-a para junto da mesa,
+onde estavam ainda os signaes de refei&ccedil;&atilde;o, que
+havia
+pouco find&aacute;ra. Vendo os dois talheres, a morgadinha
+olhou interrogadamente para Vicente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava alguem comsigo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porqu&ecirc;? Temos
+por ahi mais alguns livros a comprar-lhe?&#8213;continuou,
+sorrindo com benevola malicia.&#8213;Tenho
+eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada
+que, de vez em quando, me ensina em segredo quaes
+os livros, que o rapaz mais deseja e de que eu mal
+sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos,
+que n&atilde;o mere&ccedil;o, e que elle mais de
+cora&ccedil;&atilde;o
+daria, a quem s&atilde;o de justi&ccedil;a devidos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tio Vicente; n&atilde;o se trata agora d'isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, Lena, Lena, que n&atilde;o sei bem o que devo
+pensar de todas estas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha parecia um pouco perturbada com
+as palavras do herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha de pensar? Ha nada mais natural?
+Angelo foi que me deu o exemplo. Elle sabia o amor
+que Augusto tem &aacute; leitura. Por&eacute;m o cofre de
+Angelo
+&eacute; pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego
+a nem saber em que hei de consumir o que me sobra.
+Por isso foi que me lembrei... por&eacute;m como
+n&atilde;o conviria que eu propria fizesse o presente, nem
+<span class="pagenum">[258]</span>
+elle de mim o acceitaria, &eacute; que eu lhe pedi que o
+fizesse em seu nome. Mas falemos de outra coisa,
+porque me n&atilde;o posso demorar. Venho &aacute;s occultas
+e emquanto a minha gente foi &aacute; missa do gallo. Tio
+Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procural-o
+a estas horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse o velho, sentando-se em tom de
+gracejo.&#8213;Adivinho a gravidade do caso. O filhito
+do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum principio
+de sarampo ou de garrotilho, e vens...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor
+a esta casa e a este quintal?
+<br />
+
+<br />
+
+O velho tornou-se immediatamente s&eacute;rio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nasci aqui, filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custar-lhe-ia a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A... a...
+<br />
+
+<br />
+
+E Magdalena hesitava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fala!&#8213;insistiu o velho, j&aacute; inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A separar-se d'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario respondeu simplesmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! morreria.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena fez um gesto de afflic&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Vicente crescia o desassocego.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... Dize, Magdalena; o que
+significam
+essas palavras?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Explica-te!&#8213;exclamou o herbanario, quasi
+imperiosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;a-me, tio Vicente; ou&ccedil;a-me, mas
+n&atilde;o se
+afflija. Eu vim de proposito para o prevenir. Mas,
+por amor de Deus, socegue; sen&atilde;o tira-me o animo
+de continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que socegue, e tu a atormentares-me com essas
+demoras!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e... Fala-se em deitar abaixo estas arvores
+e esta casa, para...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span>
+O herbanario de um impeto poz-se a p&eacute;. Fulgurou-lhe
+nos olhos um relampago de ira terrivel!
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena calou-se, assustada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deitar abaixo estas arvores e esta casa?!
+Quem?... Quem se atreve? Pois que venham! que
+venham!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas reparando no terror que estava causando a
+Magdalena, procurou reprimir-se, e com uma voz
+que elle se esfor&ccedil;ava por tornar tranquilla, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vejamos. Ent&atilde;o querem, dizes tu... Fala,
+Lena, fala... Dize o que sabes. Quem &eacute;?... Para
+que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala,
+bem v&ecirc;s que eu estou socegado, filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha um projecto de estrada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse Vicente, com um grito de raiva.&#8213;N&atilde;o
+digas mais. J&aacute; sei&#8213;continuou com renascente
+exalta&ccedil;&atilde;o.&#8213;J&aacute; sei. Adivinho o resto.
+&Eacute; teu pae que
+o determina; &eacute; teu pae que o resolveu?
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena abaixou a cabe&ccedil;a com dolorosa
+express&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O furor do velho exaltou-se outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu pae! Teu pae, Lena! Ent&atilde;o esse homem
+jurou matar-me?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle n&atilde;o sabe o que s&atilde;o para mim estas arvores
+e estas paredes? Elle n&atilde;o sabe que a minha
+alma est&aacute; n'ellas, presa a estas raizes? que com
+ellas se despeda&ccedil;ar&aacute;? Esse homem sem
+cora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o v&ecirc; que s&atilde;o estas as minhas
+affei&ccedil;&otilde;es, as unicas?
+a minha unica familia? Elle, o companheiro
+dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou,
+&aacute; sombra d'essas mesmas arvores e sob os
+olhares de meu pae, que tambem o aben&ccedil;oava, t&atilde;o
+duro de cora&ccedil;&atilde;o se fez que, sem respeito por
+estas
+memorias todas, assim me quer separar do que me
+d&aacute; vida, do que ainda me prende ao mundo? E &eacute;
+teu pae este homem, Lena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quem &eacute;, tio Vicente; ou&ccedil;a-me. Deixe-me
+<span class="pagenum">[260]</span>
+dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie
+ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, sim; tudo se remediar&aacute;... com a minha
+morte. Talvez que ella seja util a teu pae... Talvez
+precise d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o creia, n&atilde;o creia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; duas vezes doloroso o golpe; porque me
+separa do que amo deveras e por vir da m&atilde;o de
+quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita
+que o era... ainda. Conheci-o t&atilde;o generoso e
+t&atilde;o innocente, como teu irm&atilde;o Angelo. Muitas
+vezes
+me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus projectos.
+E acreditei n'elle. Tinha ent&atilde;o no olhar um
+fogo, que n&atilde;o mentia. Vi-o seguir a carreira publica
+e acompanhei-o com a minha f&eacute;. N&atilde;o tardaram os
+primeiros desenganos; n&atilde;o lhes quiz dar credito ao
+principio. Vieram outros e outros. Fui vendo ent&atilde;o
+que os maus ares d'aquella terra tinham emba&ccedil;ado
+o brilho do caracter, que eu julguei melhor do que
+os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me
+reservado ainda. Para teu pae hoje os homens s&atilde;o
+medidos pelos votos, que podem lan&ccedil;ar na urna
+eleitoral!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus, tio Vicente, n&atilde;o fale assim!
+N&atilde;o duvide de meu pae!&#8213;exclamou Magdalena, a
+quem cruelmente estavam affligindo as
+recrimina&ccedil;&otilde;es
+amargas do herbanario.&#8213;Meu pae estima-o
+e respeita-o. N&atilde;o tem o cora&ccedil;&atilde;o
+endurecido que
+diz. Elle mesmo &aacute;manh&atilde; aqui ha de vir.
+Ver&aacute;
+ent&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle? &Aacute;manh&atilde;?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso venho prevenil-o. N&atilde;o o receba com
+asperezas, tio Vicente; fale-lhe com brandura. Talvez
+o commova, talvez seja ainda possivel valer a
+tudo. Ainda n&atilde;o est&aacute; decidido... Julgo... E que
+estivesse...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;manh&atilde;! Teu pae vem aqui
+&aacute;manh&atilde;? E ousa
+vir elle proprio annunciar-me o que sabe que vae
+ser uma senten&ccedil;a de morte?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[261]</span>
+&#8213;N&atilde;o; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia.
+Sabendo-o, ver&aacute; como...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me,
+e ha muito. N&atilde;o julgues que pode errar,
+calculando o effeito d'este golpe. Mas que queres
+tu? ensinaram-lhe j&aacute; a avaliar em pouco as venetas
+de um velho quasi tonto. Homens que trazem o
+pensamento em interesses t&atilde;o altos, n&atilde;o teem
+vista
+para estas pequenas desgra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sentia-se possuir de uma profunda
+tristeza, ao ouvir falar o herbanario. Era uma dolorosa
+prova&ccedil;&atilde;o para o seu amor de filha v&ecirc;r
+assim
+uma nuvem de desconfian&ccedil;a offuscar a ideal
+concep&ccedil;&atilde;o
+que ella form&aacute;ra do pae, e n&atilde;o ter
+f&ocirc;r&ccedil;as
+para a afugentar. &Aacute;s vezes uma d&uacute;vida cruel
+fazia-lhe,
+a seu pesar, supp&ocirc;r que o herbanario tinha
+raz&atilde;o. Agora s&oacute; conseguia opp&ocirc;r um
+gesto supplicante
+&aacute;quellas acerbas accusa&ccedil;&otilde;es, que por
+muito
+tempo ainda desattenderam esta supplica muda.
+<br />
+
+<br />
+
+A final serenou a violencia da irrita&ccedil;&atilde;o do
+velho;
+succedeu-lhe, por&eacute;m, uma commo&ccedil;&atilde;o
+profunda, dominado
+por a qual disse a Magdalena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, Lena; &aacute;manh&atilde; eu receberei teu pae sem
+a menor aspereza. Fizeste bem em vir primeiro, filha.
+Se o n&atilde;o esperasse, talvez n&atilde;o soubesse
+conter-me.
+Agradecido. Uma noite &eacute; bastante para me preparar.
+Agora vae, deixa-me s&oacute;; deixa-me... chorar.
+<br />
+
+<br />
+
+E cobrindo o rosto com as m&atilde;os, deixou-se cair,
+solu&ccedil;ando, sobre a mesa, junto da qual se achava.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena correu para elle, commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, tio Vicente, ent&atilde;o! Socegue!
+&Aacute;manh&atilde;
+meu pae vir&aacute;. Fale-lhe, e eu espero que ainda
+ser&aacute;
+tempo de evitar... o mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ser, pode ser...&#8213;respondia o velho.&#8213;E
+se n&atilde;o pud&eacute;r, Deus me acudir&aacute;, para
+n&atilde;o viver
+por muito tempo f&oacute;ra da casa em que nasci.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena j&aacute; n&atilde;o tinha que lhe dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos,
+como j&aacute; pedimos. Tenho esperan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+&#8213;N&atilde;o, filha, n&atilde;o pe&ccedil;as tu. Deixa-me
+s&oacute; com teu
+pae &aacute;manh&atilde;. Disseste que tinhas vindo, sem
+ninguem
+saber?&#8213;continuou elle.&#8213;Olha que te n&atilde;o
+d&ecirc;em pela falta. Vae, que &eacute; tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae, filha. Eu estou j&aacute; tranquillo. Bem v&ecirc;s.
+Deus te recompense a bondade que tiveste. Vae.
+Queres que te acompanhe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; preciso. Vim pela porta das prezas, que
+deixei aberta. S&atilde;o dois passos e estou na quinta.
+Mas, tio Vicente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae ent&atilde;o; e Deus te aben&ccedil;oe.
+<br />
+
+<br />
+
+E o velho pousou a m&atilde;o sobre a cabe&ccedil;a de
+Magdalena,
+que saiu commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o
+pranto que lhe rebentava dos olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sombria a saudade n'aquellas idades, porque
+as esperan&ccedil;as s&atilde;o j&aacute; muito debeis para
+lhe darem
+luz.
+<br />
+
+<br />
+
+Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda
+pelos sentimentos que alli a tinham agitado, a morgadinha
+dirigiu-se &aacute; pressa para a porta da quinta,
+por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta
+resistiu. Este facto surprehendeu e inquietou um
+pouco Magdalena. Quem poderia ter fechado a porta?
+E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe
+necessario um longo rodeio pela aldeia para
+chegar a outra, que pudesse encontrar aberta.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esta hesita&ccedil;&atilde;o impelliu outra vez
+instinctivamente
+a porta, que lhe oppoz a mesma resistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do, por&eacute;m, sentiu o rodar da chave na fechadura
+e viu mover-se lentamente a porta, e no v&atilde;o,
+que augmentava, desenhar-se uma figura de homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes que pud&eacute;sse, atrav&eacute;s da obscuridade da
+noite, reconhecer a pessoa, que assim t&atilde;o a proposito
+lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas palavras:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boas noites, prima Magdalena. Espero
+<span class="pagenum">[263]</span>
+que pelo menos me conceder&aacute; licen&ccedil;a para exercer,
+junto de si, as humildes func&ccedil;&otilde;es de porteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o foi superior a um vago sentimento
+de receio, ao encontrar-se ahi com o hospede de
+Alvapenha; comtudo esfor&ccedil;ou-se por dominar-se e
+respondeu, com apparente presen&ccedil;a de espirito:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &Eacute; o primo Henrique. Muito boas noites.
+Ahi temos um requinte de galanteria, que eu estava
+muito longe de esperar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E de desejar, n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E de desejar tambem; confesso-o. Por mais
+diligente que seja um porteiro, nunca o &eacute; tanto
+como uma porta aberta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; mais discreto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Duvido. Em todo o caso, agrade&ccedil;o o inc&oacute;mmodo.
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem
+mais explica&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma palavra, prima Magdalena&#8213;disse Henrique,
+retendo-a por o bra&ccedil;o e com certa express&atilde;o
+nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto
+da morgadinha.&#8213;N&atilde;o ha mais accommodado terreno
+para um dialogo solemne do que o limiar de
+uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o
+homem muda de mascara; dep&otilde;e a que apresenta
+na sociedade e afivela a que traz na familia, e vice-versa.
+Ora n'estas mudan&ccedil;as &eacute; facil surprehender o
+verdadeiro rosto da pessoa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; tudo o que quizer o limiar de uma porta,
+primo; menos um logar muito confortavel para ser&otilde;es
+n'uma noite de dezembro.
+<br />
+
+<br />
+
+E Magdalena tentou de novo seguir para deante.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique susteve-a outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um momento s&oacute;, prima
+Magdalena; tenho
+necessidade de saber se me quer para alliado ou
+para inimigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vejo a necessidade da allian&ccedil;a que
+prop&otilde;e,
+nem as raz&otilde;es para a lucta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p264">[264]</a></span>
+&#8213;Sejamos francos. A prima deve confessar que
+a minha presen&ccedil;a aqui foi um desagradavel contratempo.
+Uma certa altivez e consciencia de invulnerabilidade,
+de que tinha o inc&oacute;mmodo de se revestir,
+sempre que tratava commigo, depois d'esta importuna
+occorrencia ter&aacute; de se modificar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o havia dado por essa...
+<em>revestidura</em> que
+diz; mas, se ella existiu, far-me-ha o favor de dizer:
+por que n&atilde;o pode continuar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa &eacute; boa! porque eu fa&ccedil;o a justi&ccedil;a
+&aacute; prima
+de supp&ocirc;r que n&atilde;o vae t&atilde;o longe a sua
+hypocrisia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hypocrisia!&#8213;disse Magdalena, com accento
+mais severo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o; n&atilde;o tive tempo para inventar
+outro
+termo mais... brando.
+Dissimula&ccedil;&atilde;o talvez lhe
+agrade mais. Seja dissimula&ccedil;&atilde;o. Mas depois do
+occorrido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora exijo eu que se explique, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar
+<a href="#e4">uma explica&ccedil;&atilde;o</a>...
+edificante... d'esta sua
+excurs&atilde;o nocturna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obsta apenas a que eu lh'a d&ecirc;, sr. Henrique de
+Souzellas, a falta de uma pequena formalidade: a
+de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha
+ideia. A prima &eacute; uma mulher admiravel, uma mulher
+superior, educada na alta escola de uma sociedade
+distincta, sobranceira por isso a pieguices
+provincianas. Tanto mais me encanta! E creia que
+me envergonho s&oacute; ao lembrar-me do que ter&aacute;
+pensado
+de mim, vendo-me tomar a s&eacute;rio as suas profiss&otilde;es
+de f&eacute;, t&atilde;o cheias de franqueza e de candura.
+Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, n&atilde;o &eacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; que me est&aacute; parecendo bem enygmatico!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima n&atilde;o
+ignora que eu a amo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ignorava!&#8213;atalhou Magdalena, com ironia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[265]</span>
+&#8213;E sabe de certo, por experiencia do mundo,
+que para homens como eu, a indifferenca, a frieza
+e os desdens redobram o ardor da paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; j&aacute; li isso n'um romance.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prima tem sido para commigo de uma crueldade
+revoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me
+a soffrer, porque um resto de ingenuidade que
+me ficou dos quinze annos, illudia-me na
+interpreta&ccedil;&atilde;o
+de taes resistencias. Tive a puerilidade de a
+supp&ocirc;r uma mulher de excep&ccedil;&atilde;o; pouco me
+faltou
+para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel
+noite de Natal o desengano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o parece-lhe...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que a prima representa admiravelmente o
+seu papel. Pode gabar-se de ter illudido um homem
+habituado &aacute;s scenas da comedia social.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio
+de severidade e de nobreza:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas,
+sem que eu propria bem saiba o que me retem
+aqui: se &eacute; a compaix&atilde;o que me inspira a profunda
+doen&ccedil;a moral de que o vejo tomado, se a
+curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados.
+Vejo-o inclinado a imaginar que por um
+facto, que a sua pouco delicada indiscre&ccedil;&atilde;o
+preparou,
+eu ficarei de hoje em deante &aacute; merc&ecirc; da sua
+generosidade. Conhece-me muito pouco, sr. Henrique!
+Ainda quando esse facto n&atilde;o pud&eacute;sse ter uma
+explica&ccedil;&atilde;o natural, e que me n&atilde;o
+repugnar&aacute; declarar
+quando quizer, saiba que tenho orgulho de mais
+para arrostar com tudo, at&eacute; com a calumnia, de
+preferencia a resignar-me ao menor predominio que
+me seja odioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se
+eu n&atilde;o lhe fizesse a justi&ccedil;a de acreditar que
+d'esses
+seus actos e palavras n&atilde;o &eacute; absolutamente
+irresponsavel
+talvez a m&aacute; influencia da ceia d'esta
+noite, bastariam elles para me inspirarem por si e
+<span class="pagenum">[266]</span>
+pelo seu caracter o mais completo desprezo; e ent&atilde;o
+seria, como nunca, manifesta a minha independencia,
+porque eu nunca temi os seres que desprezo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique principiava a ser de novo subjugado
+pelo tom de severidade e de energia, com que a
+morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de
+scepticismo obrigou-o a replicar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santo Deus! prima Magdalena; n&atilde;o d&ecirc; um
+colorido t&atilde;o pavoroso &aacute;s minhas
+supposi&ccedil;&otilde;es. Despojal-a
+de uma crueza deshumana, para a dotar de
+uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, &eacute; uma
+justi&ccedil;a feita ao seu cora&ccedil;&atilde;o. E o
+facto que o acaso
+me revelou a nada mais me auctorisa. O pequeno
+e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se
+j&aacute;, creia; e agora s&oacute; me resta invejar a
+sorte de quem tem a felicidade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem
+mais um instante o escutarei; poupar-lhe-hei assim
+os remorsos, que &aacute;manh&atilde; teria da sua infamia...
+<br />
+
+<br />
+
+E animada por uma resolu&ccedil;&atilde;o
+mais energica,
+Magdalena caminhou soberanamente para a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um momento mais.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me passar, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, sem que me ou&ccedil;a antes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma violencia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma supplica.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira
+um vulto que avan&ccedil;ou para elles.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;sr.<sup>a</sup> D. Magdalena, se f&ocirc;r preciso
+reter o insolente,
+que se lhe atravessa no caminho, ponho um
+bra&ccedil;o &aacute; sua disposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio
+collocar-se entre Henrique e Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu
+de c&oacute;lera. O olhar que fixou no recem-chegado
+trahiu a vehemencia da impress&atilde;o recebida. Depois
+succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias.
+<span class="pagenum">[267]</span>
+Olhou para Magdalena, em quem n&atilde;o era menor a
+surpreza causada pela inesperada presen&ccedil;a de Augusto,
+olhou outra vez para este e soltou uma risada
+cheia de malignidade e de ironia, que a ambos
+fez estremecer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; uma appari&ccedil;&atilde;o tanto a
+tempo, prima
+Magdalena, que aos mais incredulos infundiria f&eacute; na
+interven&ccedil;&atilde;o da Providencia. Que foi sem
+d&uacute;vida
+providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas
+horas mortas, um t&atilde;o generoso e intrepido salvador.
+N&atilde;o &eacute; verdade, prima? O que vale estar de
+bem com Deus!
+<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras mostraram a Augusto que a sua
+interven&ccedil;&atilde;o, ainda que generosa e devida a um
+espontaneo
+impulso da alma, n&atilde;o f&ocirc;ra porventura das
+mais convenientes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor!&#8213;exclamou elle, indignado, dando um
+passo para Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue&#8213;tornou este, com dobrado sarcasmo.&#8213;O
+senhor &eacute; um perfeito heroe de romance; enthusiasta,
+cavalheiresco, mas, em certas occasi&otilde;es,
+inc&oacute;mmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse
+o transtorno que veio causar a um bello dialogo
+que eu sustentava aqui com a sr.<sup>a</sup> D. Magdalena!
+N&atilde;o v&ecirc; como a deixou embara&ccedil;ada? Perdeu
+com a sua vinda o fio da comedia, que desempenhava
+com perfeita sciencia de actriz. As almas ingenuas
+e generosas, como a sua, sr. Augusto, s&atilde;o
+&aacute;s vezes de uma impertinencia! Vamos, sr.<sup>a</sup>
+D. Magdalena;
+n&atilde;o descoro&ccedil;&ocirc;e. Assim exgotou todos os
+recursos da sua imagina&ccedil;&atilde;o? Vamos, introduza
+mais este elemento de appari&ccedil;&atilde;o de um heroe no
+enredo, e organise a comedia com o superior talento
+que tem! Eu por mim acceito todos os papeis
+que me distribuir.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou,
+dizendo com voz firme:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o; vejo n'esta noite em todos uma notavel
+disposi&ccedil;&atilde;o para usurparem direitos, que
+n&atilde;o
+<span class="pagenum">[268]</span>
+possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar; o
+sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que
+j&aacute; ha pouco lhe disse; se algum dia tiver necessidade
+de explicar as minhas ac&ccedil;&otilde;es, fal-o-hei deante
+de outros juizes, em quem reconhe&ccedil;a o direito de o
+serem. Ao outro pe&ccedil;o licen&ccedil;a para lhe lembrar
+que,
+se o titulo de hospede e de parente n&atilde;o f&ocirc;sse
+bastante
+para me assegurar da parte do sr. Henrique
+de Souzellas os respeitos que me s&atilde;o devidos, tinha
+ainda na minha familia defensores legitimos e n&atilde;o
+seria por isso obrigada a recorrer &aacute;
+protec&ccedil;&atilde;o de
+um estranho. Meus senhores...
+<br />
+
+<br />
+
+E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha
+passou por entre elles e entrou para a quinta, sem
+que nenhum a procurasse reter.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se esta senhora acceitasse a sua protec&ccedil;&atilde;o e
+eu teimasse n'aquillo que chamou a minha insolencia,
+qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento?
+Poder-se-ha saber?&#8213;perguntou Henrique,
+logo que a morgadinha desappareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, em quem a fria altivez da resposta
+d'ella deix&aacute;ra o desespero no cora&ccedil;&atilde;o,
+respondeu
+acerbamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem v&ecirc; que
+n&atilde;o me esque&ccedil;o facilmente do meu programma de
+mestre-escola.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo; &eacute; a segunda tentativa de
+li&ccedil;&atilde;o que lhe
+mere&ccedil;o. Permitte-me que &aacute;manh&atilde; o
+procure para
+dar principio a um curso de educa&ccedil;&atilde;o mais
+regular?
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto respondeu, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um cartel em f&oacute;rma?
+N&atilde;o sei se estarei ensaiado
+para essa comedia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha
+esse sabor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem ouviu que se me negou o direito de tomar
+partido por esta causa. Qualquer scena d'essas
+entre n&oacute;s seria pouco delicada...
+&aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, contemporisemos; e at&eacute; l&aacute;
+&eacute; de esperar
+<span class="pagenum">[269]</span>
+que algum motivo occorra que a explique
+melhor... aos olhos dos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como queira; a minha porta n&atilde;o se fecha a
+quem me procura.
+<br />
+
+<br />
+
+E separaram-se depois de se cortejarem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se me n&atilde;o engano&#8213;dizia comsigo Henrique,
+em caminho do quarto&#8213;&eacute; um verdadeiro desafio
+o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me
+parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando
+um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas,
+decide-se pela f&eacute;rula. Tem gra&ccedil;a! Veremos o
+que &aacute;manh&atilde;, &aacute; luz do dia, eu penso
+d'isto tudo. Eu
+j&aacute; n&atilde;o fico por mim esta noite. Estou a querer
+convencer-me
+de que tenho andado estouvadamente e
+com n&atilde;o demasiado cavalheirismo. Que diabo! &Eacute;
+que esta mulher e este creancelho s&atilde;o irritantes.
+Ella com a sua altivez, elle com os seus brios. Mas,
+na verdade, ser&aacute; este o Endymi&atilde;o d'esta esquiva
+Diana? Caprichos feminis... &Eacute; o tal primo ingenuo
+e timido... A ociosidade da aldeia para alguma
+coisa ha de dar. Mas da maneira por que ella
+lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias...
+O que &eacute; certo &eacute; que estou em lucta com
+uma mulher superior... Pois luctemos, priminha,
+mas com armas leaes. N&atilde;o me prevalecerei do segredo
+que o acaso me revelou, se segredo existe...
+Veremos como ella &aacute;manh&atilde; me trata...
+<br />
+
+<br />
+
+Esta scena deixou em Augusto uma perturba&ccedil;&atilde;o
+de espirito mais profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+As opera&ccedil;&otilde;es mentaes, que o preoccuparam toda
+a noite, eram d'aquellas a que repugna chamar pensar.
+&Eacute; mais uma febre intellectual, um succeder
+de imagens sem ordem nem filia&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o conduz
+a nenhum resultado, que n&atilde;o aconselha nenhum
+partido, que n&atilde;o esclarece, offusca.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se explica esta differen&ccedil;a entre os dois?
+Por um apparente parodoxo; porque Augusto tinha
+mais habitos de reflectir. Quando n'uma vida de
+episodios uniformes e apparentemente vulgares, o
+<span class="pagenum">[270]</span>
+espirito exerce demasiado a analyse, habitua-se a
+estudar factos que para outros passam por insignificantes,
+e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.
+Costumado assim a ligar valor a tudo, quando
+succede que no decurso da vida se lhe depara um
+facto de maior vulto, a confus&atilde;o do primeiro momento
+&eacute; inevitavel. Assim como a balan&ccedil;a de
+precis&atilde;o,
+apropriada para oscillar com pesos tenuissimos,
+n&atilde;o &eacute; a que pode servir para os grandes
+pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar
+subtis accidentes, de que se comp&otilde;e o drama habitual
+da vida, n&atilde;o &eacute; a que de subito pode avaliar algum
+mais complexo e importante.
+<br />
+
+<br />
+
+A resolu&ccedil;&atilde;o n'estes espiritos, depois de formada,
+&eacute; mais tenaz; mas, emquanto se n&atilde;o
+f&oacute;rma, vae
+n'elles um tumulto de ideias, que se n&atilde;o podem
+analysar.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o analysemos, pois, as de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o socegou emquanto n&atilde;o viu Henrique
+voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por
+que sa&iacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que resultar&aacute; d'isto?&#8213;pensava ella.&#8213;Que
+far&aacute; elle &aacute;manh&atilde;?... &Eacute;
+preciso n&atilde;o me acobardar,
+ou estou vencida... Mas que se passaria depois
+que os deixei?... Veremos &aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena
+sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que lhe occorrera ent&atilde;o este pensamento:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que n&oacute;s, as mulheres, temos filtros
+subtis para nos tornar amadas. Pois ser&aacute; mais difficil
+fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM DO PRIMEIRO VOLUME</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><a name="Vol.II"></a>BIBLIOTHECA ESCOLHIDA<br />
+
+<br />
+
+XXIII</h4>
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>
+ROMANCE<br />
+
+<br />
+
+III<br />
+
+<br />
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vol. II</span></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h5>
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL<br />
+
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28<br />
+
+TELEPHONE 2337</h5>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<span style="font-weight: bold;" class="quote">JULIO
+DINIZ</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA<br />
+
+DOS<br />
+
+CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<h4>(CHRONICA DA ALDEIA)
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>DECIMA-SETIMA EDI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<img style="width: 150px; height: 146px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+J. RODRIGUES &amp; C.<sup>a</sup>, EDITORES<br />
+
+186&#8213;Rua Aurea&#8213;188<br />
+
+<em>1920</em>
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>XVII
+</h4>
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia mentido a grande
+scintilla&ccedil;&atilde;o das estrellas
+na noite de Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; do dia seguinte correspondeu ao augurio
+meteorologico, rompendo pura, desennevoada,
+com um c&eacute;o azul sem manchas, e um sol de fundir
+os g&ecirc;los dos montes e os g&ecirc;los da velhice.
+<br />
+
+<br />
+
+O frio intenso convidava a sair, e desde pela manh&atilde;
+alde&otilde;es de ambos os sexos, de camisas lavadas
+e roupas domingueiras, atravessavam os campos,
+saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas
+e quelhas na direc&ccedil;&atilde;o da igreja matriz, onde
+se deviam celebrar as festas da Natividade.
+<br />
+
+<br />
+
+Era dia santo entre os que mais o s&atilde;o; e os dias
+santos na aldeia teem uma fei&ccedil;&atilde;o solemne e
+festiva,
+que mal avaliamos n&oacute;s, os que passamos a vida nos
+apertados horizontes das cidades, phantasiando o
+campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente
+nas c&oacute;pas das enfezadas arvores das
+nossas pra&ccedil;as e jardins.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que a moda estabeleceu a lei de n&atilde;o solemnisar
+o domingo nem o dia santo, com um vestuario
+mais asseiado, com um prato mais exquisito
+na lista do jantar, com uma divers&atilde;o excepcional,
+que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar
+n'esses dias, exactamente como em todos os da semana,
+<span class="pagenum">[4]</span>
+perderam nas cidades os dias do Senhor a
+fei&ccedil;&atilde;o typica e interessante, que por muito tempo
+tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem
+de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer
+no domingo ao som do sino, que chama para
+a missa matinal.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir&aacute; ent&atilde;o se n&atilde;o parece que
+at&eacute; o sol tem outra
+luz e que as arvores e as plantas se toucaram de
+flores novas, que guardam de reserva para os dias
+de festa.
+<br />
+
+<br />
+
+Este particular aspecto do domingo estava-o logo
+pela manh&atilde; sentindo Henrique de Souzellas, encostado
+&aacute; varanda do quarto em que pernoit&aacute;ra, e
+emquanto esperava que o chamassem para o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+De vez em quando a recorda&ccedil;&atilde;o das scenas
+nocturnas
+da vespera desviava-lhe para outra ordem
+de reflex&otilde;es o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles
+incidentes &aacute; memoria, mas vagos e confusos,
+como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a
+duvidar da realidade d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora estava experimentando certa curiosidade e
+tambem receio de saber como seria recebido pela
+morgadinha, e que posi&ccedil;&atilde;o deveria tomar na
+presen&ccedil;a
+d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Formava a este respeito varias conjecturas, sem
+se fixar em nenhuma.
+<br />
+
+<br />
+
+D'estas cogita&ccedil;&otilde;es veio por fim arrancal-o o
+toque
+da campainha annunciando o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos,&#8213;disse Henrique&#8213;preparemo-nos
+para o primeiro embate. Apuremos a vista para
+n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle
+regular o meu plano de tactica.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois de uma rapida consulta ao toucador,
+desceu para a sala do almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro,
+e a morgadinha presidindo &aacute; mesa e preparando
+o ch&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram
+<span class="pagenum">[5]</span>
+da maneira por que elle tinha passado a
+noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente;
+e, falando, desviava o olhar para Magdalena,
+que o encontrou do modo mais natural, sem
+timidez nem audacia.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando
+portanto a vez de cumprimentar Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, prima Magdalena,&#8213;disse Henrique,
+estendendo a m&atilde;o e fixando-a com olhar investigador.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com
+sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer
+horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma
+indiscre&ccedil;&atilde;o mandar tocar a campainha. Esqueci-me
+de prevenir que respeitassem a indolencia cidad&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu &eacute; que n&atilde;o consentia:&#8213;disse o
+conselheiro&#8213;na
+aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as
+minhas alvoradas s&atilde;o mais tardias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, sr. conselheiro. Eu proprio n&atilde;o
+esperei
+que me acordasse o toque da sineta. Ha muito
+que eu namorava a manh&atilde; da janella do meu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o pude dormir toda a santa noite&#8213;disse
+D. Doroth&eacute;a.&#8213;Estranhei a cama e a casa. Eu c&aacute;
+sou assim, quem me tira do meu ninho!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; prima, n&atilde;o v&aacute; sem resposta&#8213;disse
+D. Victoria&#8213;que
+tambem eu n&atilde;o puz olho, e mais sou
+de casa. E por signal que sempre hei de querer saber
+quem foi o criado que lhe deu para andar toda
+a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda
+ouvia p&eacute;s nas escadas de pedra. &Eacute; verdade; o
+primo
+Henrique n&atilde;o ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora; eu n&atilde;o senti rumor.
+<br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da
+morgadinha, que justamente n'aquella occasi&atilde;o lhe
+servia uma chavena de ch&aacute;, e que de novo o fixou
+sem perturba&ccedil;&atilde;o nem affectada
+indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+Henrique sentiu-se embara&ccedil;ado com isto. Custava
+um pouco &aacute; sua vaidade este nenhum vestigio de
+resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto D. Victoria continuava a commentar
+com D. Doroth&eacute;a o facto das passadas que ouvira
+de noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-se d'isso, prima. &Eacute; porque n&atilde;o sabe o
+que vae. S&atilde;o coisas d'estes criados. N&atilde;o faz
+ideia!
+&Eacute; uma pouca vergonha! &Eacute; preciso paciencia de
+santa para os aturar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Angelo,&#8213;disse a morgadinha ao irm&atilde;o&#8213;entretido
+como est&aacute;s a conversar com as crean&ccedil;as,
+esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece
+de se fazer lembrar. Que distrac&ccedil;&otilde;es por aqui
+v&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle
+tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas
+abstrac&ccedil;&otilde;es, a que ultimamente era sujeita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei que tem hoje esta Christe&#8213;disse
+Angelo.&#8213;Julgo que lhe fez mal o frio na noite de
+hontem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, at&eacute; est&aacute; falta de
+c&ocirc;r! Ora queira
+Deus que n&atilde;o seja coisa de cuidado. D&oacute;e-te alguma
+coisa, menina?&#8213;perguntou D. Victoria, apprehensiva.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mam&atilde;&#8213;respondeu Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meninas, voc&ecirc;s tambem s&atilde;o umas
+desacauteladas.
+Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses
+mais roupa. Tudo &eacute; n&atilde;o faz mal, tudo &eacute;
+n&atilde;o tem
+d&uacute;vida, e depois &eacute; que vem o queixarem-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas
+mais n'este sentido. Estas reflex&otilde;es fizeram Henrique
+desviar os olhos para a pessoa que era objecto
+d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina estava effectivamnte pallida e pensativa;
+e d'esta c&ocirc;r e d'esta express&atilde;o recebia uns ares
+de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta
+<span class="pagenum">[7]</span>
+crean&ccedil;a, em que mal fix&aacute;ra a
+atten&ccedil;&atilde;o at&eacute; alli, e pela
+primeira vez se demorou a observal-a com alguma
+insistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; interessante esta pequenita&#8213;pensava elle
+comsigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina ia a levantar os olhos para responder a
+D. Doroth&eacute;a, quando encontrou os de Henrique a
+fital-a. Assomou-lhe ent&atilde;o &aacute;s faces um mal
+pronunciado
+rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e
+os olhos baixaram-se de novo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de ser adoravel esta mulher&#8213;pensou
+d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro disse, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, que est&atilde;o a dizer? A Christe at&eacute;
+est&aacute; com
+umas c&ocirc;res muito bonitas. Triste? Melancolias dos
+dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente
+est&aacute; agora n'algum episodio sentimental no
+romance da sua imagina&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o
+sondemos aquelles
+mysterios, mana. J&aacute; n&atilde;o &eacute; para
+n&oacute;s comprehendel-os,
+prima Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou
+o enleio de Christina.<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, a quem n&atilde;o pass&aacute;ra despercebida
+a impress&atilde;o, que a prima d'est&aacute; vez parecia ter
+causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que
+havia tanto procurava, e para isso propoz que se
+d&eacute;sse uma volta pela aldeia antes da missa do dia.
+Esperava ella que as atten&ccedil;&otilde;es de Henrique,
+durante
+o passeio, seriam para Christina, se n&atilde;o decorresse
+o tempo preciso para que se dissipasse no espirito
+do voluvel rapaz a impress&atilde;o que o dominava.
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; convidava &aacute; excurs&atilde;o
+campestre. A
+proposta da morgadinha foi acolhida com applauso.
+O conselheiro prometteu acompanhal-os at&eacute; &aacute; casa
+do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Levantaram-se todos da mesa, e &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o de
+D. Victoria e D. Doroth&eacute;a, todos sa&iacute;ram.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, sob n&atilde;o sei que pretexto, deixou-se
+<span class="pagenum">[8]</span>
+ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique
+de offerecer o bra&ccedil;o a Christina, o que effectivamente
+aconteceu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem,&#8213;disse Magdalena comsigo ao v&ecirc;l-os&#8213;agora
+que os anjos bons de um e de outro se conven&ccedil;am
+da obra meritoria que fazem entendendo-se.
+<br />
+
+<br />
+
+E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe
+no bra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo ia com as crean&ccedil;as adeante.
+<br />
+
+<br />
+
+Approximemo-nos n&oacute;s de Henrique e de Christina,
+para v&ecirc;r se os anjos bons d'elles ambos accederam
+ao convite de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha prazer que se compare ao de um passeio
+assim pelos campos, n'uma manh&atilde; como a de
+hoje, e em companhia t&atilde;o amavel&#8213;dizia Henrique,
+procurando aquilatar o espirito da sua
+<em>partner</em>,
+n'um certame de galanteria, f&oacute;ra do qual n&atilde;o
+concebia
+que se pudesse temperar uma paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas
+respostas lhe estava porventura ditando a alma!
+mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, n&atilde;o
+lhe deixando formulal-as; apenas p&ocirc;de responder:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; muito agradavel a manh&atilde;, est&aacute;;
+nem parece
+de inverno!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo que vejo, n&atilde;o gosta do inverno? &Eacute; natural
+em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as
+aves, suas irm&atilde;s. Eu prefiro o inverno, porque prepara
+a vida intima, as scenas ao canto do fog&atilde;o, as
+leituras em commum, e traz-me &aacute; ideia as imagens
+de um viver a que a phantasia de todos sorri; de
+todos os que teem um resto de cora&ccedil;&atilde;o; refiro-me
+&aacute;s imagens de uma familia.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha quem sustente mais tremendas luctas do
+que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda
+a violencia dos seus instinctos, contra n&atilde;o sei que
+mysterio de temperamento, que lhes reprime as
+expans&otilde;es. Na apparencia &eacute; fraqueza e serenidade,
+mas no intimo ha esfor&ccedil;os realisados, que os fortes
+nem concebem sequer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas.
+Os labios s&oacute; puderam responder:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na cidade o inverno &eacute; mais facil de passar,
+julgo eu; por&eacute;m na aldeia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a
+felicidade que eu imagino. N&atilde;o &eacute; f&oacute;ra
+das portas de
+casa que devemos procurar os elementos para instituir
+a nossa ventura, e por isso... Mas a prima
+ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem
+que completou os seus vinte e sete annos sem
+familia. N&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+Christina s&oacute; p&ocirc;de sorrir:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se
+a morrer apaixonado do ideal e abra&ccedil;ado &aacute; peor
+das realidades. &Eacute; a consequencia legitima e triste
+do aspirar demasiado. At&eacute; hoje tenho encontrado
+na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes;
+por&eacute;m nenhuma que satisfizesse &aacute;s necessidades do
+meu cora&ccedil;&atilde;o, de quem me affirmasse a consciencia
+poder esperar a realisa&ccedil;&atilde;o do meu sonho.
+Perd&ocirc;e-me
+falar-lhe n'isto, priminha; &eacute; uma ousadia que
+tomei, porque um instincto me disse que possue no
+cora&ccedil;&atilde;o bastante bondade para m'a perdoar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; a gracejar?&#8213;disse Christina, em quem
+redobrava a turba&ccedil;&atilde;o, e que, ao mesmo tempo que
+estava sendo feliz, desejava v&ecirc;r interrompida a sua
+felicidade: contradic&ccedil;&otilde;es proprias dos timidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prima &eacute; muito mo&ccedil;a&#8213;continuou Henrique,
+que n&atilde;o desesperava ainda de animar esta Galatheia&#8213;e
+talvez por isso lhe causar&aacute; estranheza este meu
+modo de falar. Um dia vir&aacute;, por&eacute;m, em que o
+comprehender&aacute;
+melhor. Se ent&atilde;o encontrar um desconfortado
+como eu, pe&ccedil;o-lhe que tenha misericordia
+d'elle e o salve do desalento, em atten&ccedil;&atilde;o a quem
+a
+conheceu n'uma &eacute;poca, em que s&oacute; podia
+v&ecirc;r em si,
+priminha, a aurora de uma esperan&ccedil;a que j&aacute;
+n&atilde;o
+tinha de luzir para elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... salval-o!... como salval-o!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como as mulheres salvam; amando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[10]</span>
+&#8213;Bem digo eu que est&aacute; a gracejar&#8213;balbuciou
+Christina, com voz tr&eacute;mula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem o defeito da innocencia&#8213;disse Henrique
+para si.&#8213;N&atilde;o se lhe tira uma resposta de geito.
+<br />
+
+<br />
+
+N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena
+tinha sa&iacute;do da quinta na noite passada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora deixo-os por aqui&#8213;disse o conselheiro&#8213;irei
+encontral-os &aacute; igreja. Vou arrostar com a fera
+silvestre ao proprio covil.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei&#8213;disse
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, filha; serei de cera. At&eacute; logo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; logo.
+<br />
+
+<br />
+
+E o conselheiro tomou a direc&ccedil;&atilde;o da casa do
+herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era tempo!&#8213;disse Henrique comsigo.&#8213;A
+minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este
+g&ecirc;lo.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando
+as physionomias de Christina e de Henrique,
+conheceu que se n&atilde;o haviam entendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda n&atilde;o!&#8213;murmurou ella.&#8213;Pobre Christe!
+como se deve estar odiando a si mesma! Como ha
+de esta crean&ccedil;a vencer este obstinado? Mas n&atilde;o
+perco ainda as esperan&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, na presen&ccedil;a d'estes sitios, recordou-se
+da scena da vespera e tentou outra vez experimentar
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta porta &eacute; da quinta do Mosteiro, n&atilde;o
+&eacute;,
+prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;&#8213;respondeu Magdalena, imperturbavel; e
+voltando-se para Angelo:&#8213;O que te faz lembrar
+esta porta, Angelo?&#8213;perguntou ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que muitas vezes por aqui sa&iacute;mos, eu e v&oacute;s
+ambas j&aacute; de noite, e sem a tia saber, para irmos
+ter com o tio Vicente, que voltava da ca&ccedil;a das borboletas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fica perto a casa d'elle?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span>
+&#8213;&Eacute; alli, logo ao dobrar d'aquella esquina&#8213;respondeu
+Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique pensava:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seria para provocar uma explica&ccedil;&atilde;o que ella
+fez a pergunta? Esta mulher &eacute; admiravel! N&atilde;o lhe
+sei resistir.
+<br />
+
+<br />
+
+E j&aacute; lhe n&atilde;o restavam vestigios da
+impress&atilde;o
+causada por Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este herbanario&#8213;continuou elle em voz alta&#8213;deve,
+pelos seus habitos excentricos e at&eacute; pelo
+solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa
+famazinha de feiticeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tem,&#8213;affirmou Magdalena&#8213;mas de feiticeiro
+bem intencionado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle,
+do seu viver.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo que poucos se atrevem a passar aqui
+de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o temem-se de passar aqui de
+noite!... Pobre homem!... O que lhe valer&aacute; &eacute;
+algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia.
+Que diz, prima Magdalena? haver&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Antes que a morgadinha respondesse, Angelo
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; excep&ccedil;&atilde;o de Augusto, que ahi vem
+quasi
+todas as noites, ninguem mais o visita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas
+as noites?!
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; me parecia que havia de existir algum de
+coragem. Para tanto n&atilde;o chegava o seu animo n&atilde;o,
+prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto chega, que j&aacute; muita vez alli tenho ido
+s&oacute;, e a altas horas&#8213;respondeu Magdalena com a
+maior firmeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?! E n&atilde;o tem m&ecirc;do?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De qu&ecirc;? De almas do outro mundo? n&atilde;o tenho
+cren&ccedil;a para tanto. De malfeitores? n&atilde;o os ha
+aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com
+<span class="pagenum">[12]</span>
+uma suspeita me offendem&#8213;disse a morgadinha,
+accentuando com express&atilde;o as ultimas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique acudiu immediatamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Longe de mim duvidal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+E calaram-se por muito tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho
+para casa do herbanario. Cruzou-se com varios
+homens, mulheres e crean&ccedil;as de aspecto doentio e
+soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito
+dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos,
+crean&ccedil;as de aspecto rachitico e enfezado,
+os mais melancolicos exemplares do infortunio
+humano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o os peregrinos que veem de Meca&#8213;disse
+comsigo o conselheiro.&#8213;Pelo que vejo a clientela
+do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel,
+como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo
+censor n&atilde;o trata com muito respeito o codigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrou emfim a porta do quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos passos andados encontrou-se com o Z&eacute;
+P'reira, que vinha virando e revirando nas m&atilde;os
+um papel e monologando, segundo o costume:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso
+Senhor com esta mexerofada! Isso at&eacute; era um peccado.
+N'essa n&atilde;o caio eu!
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrogou-o sobre as causas
+d'aquelle aranzel.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando
+uma receita que lhe dera o herbanario no
+virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho,
+causa dos seus males. A receita era extrahida da
+<em>Polyantheia</em>, e tinha por
+ingredientes uma cabe&ccedil;a
+e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado
+de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe
+a efficacia.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de se separar do Z&eacute; P'reira, o conselheiro
+seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem
+a quem era familiar a topographia do quintal. C&ecirc;do
+<span class="pagenum">[13]</span>
+chegou &aacute; vista do herbanario, que dera audiencia
+<em>sub tegmine fagi</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava sentado &aacute; borda de um tanque, a que uma
+d'essas arvores dava sombra.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros
+e veio ter com elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabe&ccedil;a, e,
+depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira
+posi&ccedil;&atilde;o e ficou silencioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, Vicente&#8213;disse o conselheiro com
+familiariedade e parando defronte d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, Manoel&#8213;respondeu o herbanario,
+deixando-se ficar sentado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sa&iacute;a agora d'aqui um homem, que julgo ser&aacute;
+rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que
+se n&atilde;o cura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os vicios s&atilde;o enfermidades mais rebeldes do
+que os achaques do corpo, s&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; que tu n&atilde;o appareces no Mosteiro, como
+d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal,
+vim eu v&ecirc;r-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente&#8213;continuou
+o conselheiro, sentando-se &aacute; beira do
+tanque.&#8213;Cada vez te est&aacute;s a sequestrar mais dos
+homens, cada vez mais os aborreces.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o aborre&ccedil;o os homens, enganas-te.
+N&atilde;o
+os aborrece quem passa a vida a procurar os
+meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes.
+Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro
+j&aacute; no mundo pouca gente com quem me
+entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por
+isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s um homem singular; um verdadeiro philosopho.
+Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando
+assim passas uma manh&atilde; inteira, sentado n'esse
+banco, com os joelhos ao sol, os bra&ccedil;os cruzados,
+e os olhos no ch&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No passado. Pois n&atilde;o t'o disse j&aacute;? O domingo
+<span class="pagenum">[14]</span>
+reservo-o eu para me recordar. Ahi est&aacute; que ha
+pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques
+na igreja, lembrei-me de que era, dia de
+Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos
+atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle,
+Manoel?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do dia de Natal de ha quarenta annos? N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e
+dois annos que, mais c&ecirc;do do que estas horas,
+vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais
+ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo.
+Meu pae sa&iacute;ra; julg&aacute;mos n&oacute;s ambos boa
+a
+occasi&atilde;o de levar a cabo um projecto que havia
+muito tempo traziamos na cabe&ccedil;a. Crescia a um
+canto do muro, al&eacute;m, &aacute; beira do po&ccedil;o,
+uma pequena
+faia que alli n&atilde;o podia durar muito tempo; meu
+pae todos os dias a amea&ccedil;ava com a enxada e a
+custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a.
+Deit&aacute;mos m&atilde;os &aacute; obra essa
+manh&atilde;, e, no fim
+de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a
+para onde a deixassem em paz os hortel&otilde;es,
+e para junto da agua que ella j&aacute; tinha procurado.
+Conheces a arvore hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;disse o conselheiro, olhando em roda,
+como &aacute; procura de algum pequeno arbusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que ha quarenta annos; a planta &eacute; hoje
+arvore. &Eacute; esta a que me encosto.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro levantou ent&atilde;o os olhos para os
+ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse
+impossivel ter sido removida para alli por suas
+m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular como os annos correm, e as arvores
+crescem depressa&#8213;disse elle, distrahidamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois da nossa tarefa, sent&aacute;mo-nos&#8213;proseguiu
+o herbanario.&#8213;Tu ficaste, exactamente como
+est&aacute;s agora, &aacute; beira d'este tanque.
+Ent&atilde;o, lembra-me
+bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto,
+que ainda n&atilde;o sabiamos se viveria, tu disseste:
+&laquo;Fizemos uma obra que durar&aacute; mais do que
+<span class="pagenum">[15]</span>
+n&oacute;s.&raquo; E eu respondi: &laquo;Quem sabe? O
+machado vem,
+quando menos se espera.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como te lembras bem d'essas coisas!&#8213;disse
+o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque
+n&atilde;o agourava bem do exordio que abrira a entrevista.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, eu tenho boa memoria!
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu
+subitamente, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro respondeu com resolu&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;r-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te
+de um objecto grave.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? E commigo &eacute; que vens tratar os objectos
+graves?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? sempre foste homem de bom
+conselho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste
+assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o poder&aacute;s dizer que deixasse alguma vez de
+te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos
+diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar
+diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi
+procedem divergencias naturaes, que comtudo nos
+n&atilde;o obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, ent&atilde;o dizias tu que vinhas?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trata-se de um negocio de muita importancia,
+Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Responde-me primeiro: tens ainda animo para
+sacrificios?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouco tenho que sacrificar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens, e &eacute; um sacrificio doloroso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acaba.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este
+quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario, contra a expectativa do conselheiro,
+acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu,
+com certa ironia:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+&#8213;E para que me vens consultar? Posso eu opp&ocirc;r-me
+a isso? Avisas-me para eu me arredar a
+tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do
+que eu, a fim de que n&atilde;o me esmaguem ao ca&iacute;rem
+decepadas? &Eacute;s generoso, Manoel, em teres ainda
+em conta a vida de um homem inutil.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute;s j&aacute; com as tuas
+recrimina&ccedil;&otilde;es. Acredita
+que eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o mintas, Manoel, n&atilde;o mintas. Ias dizer que
+n&atilde;o tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem
+e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares
+o cora&ccedil;&atilde;o de um velho e pobre amigo e offenderes
+os interesses de algum rico e poderoso
+influente, tomaste o primeiro partido; e, como os
+differentes habitos de vida te ensinaram em muitas
+coisas, como dizes, a pensar differente de mim, n&atilde;o
+d&eacute;ste a isso o nome de ingratid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouve.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&ecirc; franco, que eu te ouvirei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era
+indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes.
+Estava n'isso empenhada a minha palavra e a
+minha honra. Ha muito que os meus adversarios
+me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui,
+apesar d'esta situa&ccedil;&atilde;o politica me ser contraria.
+Tres tra&ccedil;ados se offereciam. Um sacrificava
+uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo
+que n&atilde;o &eacute; muito rico, que est&aacute; no
+principio da
+existencia e que s&oacute; Deus sabe se no decurso d'ella
+n&atilde;o teria occasi&atilde;o de maldizer a imprevidencia de
+quem devera olhar por os seus interesses. Querias
+que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos
+hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo,
+convenientemente trabalhados, podem ser de um
+valor importante. Querias que o fizesse? ou n&atilde;o me
+desculpas por o n&atilde;o ter feito?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fizeste bem&#8213;respondeu o herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O outro tra&ccedil;ado cortava os bens do brazileiro
+Seabra. Conheces este homem? Um elemento que,
+<span class="pagenum">[17]</span>
+nas m&atilde;os de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a
+vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas
+tambem uma cabe&ccedil;a que, entregue a si, n&atilde;o faz
+coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente
+a esse tra&ccedil;ado; se o n&atilde;o attendesse,
+declarava-se,
+por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia
+(e algumas armas tem para luctar), imagina a
+calamidade que seria para este circulo o confiar
+&aacute;quellas m&atilde;os os seus destinos; vencido, era
+perder
+a esperan&ccedil;a de tirar dos bem fornecidos cofres,
+que o homem possue, alguma coisa mais util do
+que um sino para a igreja ou vestimentas novas
+para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar
+o homem, para v&ecirc;r se consigo d'elle uma casa para
+escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos,
+e um estabecimento sericicola; se o desattendesse,
+l&aacute; iam as esperan&ccedil;as d'estes melhoramentos
+t&atilde;o uteis, e que o mais que nos poder&atilde;o custar
+&eacute; um diploma de visconde ou uma commenda. Sei
+que te n&atilde;o agradam estes meios, por&eacute;m olha que
+em politica s&atilde;o dos mais innocentes que podem
+empregar-se. J&aacute; v&ecirc;s pois que o segundo
+tra&ccedil;ado tinha
+desvantagens para o circulo, por cujo interesse
+me empenho dev&eacute;ras; podes crel-o. Resta pois o
+terceiro tra&ccedil;ado que, lealmente o confesso, n&atilde;o
+era
+o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado;
+eu sabia de mais o que valia para o teu
+cora&ccedil;&atilde;o o sacrificio que se te vinha exigir; eu
+mesmo
+possuo memorias ligadas a estas arvores, e n&atilde;o ha
+homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia
+desapparecerem os vestigios dos seus tempos
+de infancia e de juventude; mas sabia tambem
+que tu eras uma alma generosa e heroica, e que n&atilde;o
+duvidarias comprar, &aacute; custa das tuas dores e saudades,
+um melhoramento para esta terra, que tanto
+amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida
+ainda agora de m&aacute; vontade, corre risco de se
+n&atilde;o fazer, se, quanto antes, n&atilde;o principiarem os
+trabalhos;
+a menor opposi&ccedil;&atilde;o dos proprietarios, o menor
+<span class="pagenum">[18]</span>
+embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura
+indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente.
+Enganei-me?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario estava cada vez mais
+pensativo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pensaste bem. A velhice &eacute; assim; e eu queria dar mais
+importancia a dois annos de vida que me restam, do que &aacute;
+vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Al&eacute;m de que,
+dissipa as apprehens&otilde;es com que est&aacute;s; em
+toda a parte ter&aacute;s arvores... <br />
+
+<br />
+
+O herbanario interrompeu-o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o entendes o amor que eu tenho a estas,
+n&atilde;o fa&ccedil;as por consolar-me, Manoel, porque me
+affliges mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em
+qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago
+&aacute; tua espera, tanto &aacute; mesa, como ao canto do
+fog&atilde;o, e amigos que te receber&atilde;o
+com prazer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de
+pobre teria tecto e p&atilde;o. Conto com a colheita de algum bem
+que semeei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu farei com que o contracto da expropria&ccedil;&atilde;o
+seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero,
+ninguem m'o pagaria; a n&atilde;o attender a isso, tudo
+ser&aacute; pagal-o bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores
+me ou&ccedil;am prop&ocirc;r o pre&ccedil;o
+por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, ent&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo. Dize em que te posso servir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Peco-te que decidas a preten&ccedil;&atilde;o d'aquelle pobre
+rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um
+homem, que tem vinte annos, um cora&ccedil;&atilde;o e uma
+cabe&ccedil;a como tu sabes, e
+<span class="pagenum">[19]</span>
+que de ti e dos teus, da gente que d&aacute; e vende
+gra&ccedil;as, honras e empregos, s&oacute; quer um favor...
+mais uma justi&ccedil;a: lembra-te d'isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falas do despacho effectivo para professor? &Eacute; uma coisa
+facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse
+rapaz perde por modesto. Acredita, &aacute;s vezes &eacute;
+mais facil servir os
+ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. &Eacute;
+certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas
+n&atilde;o importa; conta com isso, como negocio concluido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emquanto n&atilde;o vir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje mesmo escrevo para Lisboa. &Eacute; s&oacute; isso que
+pedes? V&ecirc; l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que me deixes agora s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o me ficas querendo mal, Vicente? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Estou a acreditar que tiveste raz&atilde;o, ou
+pelo menos que supp&otilde;es que a tens. Basta-me isso para te
+perdoar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;r-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de
+Reis volto a Lisboa, e s&oacute; tornarei para a campanha
+eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o prometto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro estendeu a m&atilde;o ao herbanario, que
+n&atilde;o retirou a sua, e partiu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; feito!&#8213;ia pensando o conselheiro &aacute;
+sa&iacute;da&#8213;n&atilde;o foi t&atilde;o difficil como
+julgava. Est&aacute; razoavel o homem. Quem o viu e quem o
+v&ecirc;! O que faz a idade! Bem! Agora &eacute; apressar os
+trabalhos para antes das elei&ccedil;&otilde;es, a
+v&ecirc;r se acalmam algum
+fermentosito de opposic&atilde;o, que por ahi possa haver, que
+pequeno ser&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+N'estas cogita&ccedil;&otilde;es chegou &aacute; igreja.
+Magdalena esperava-o no adro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;perguntou ella, com anciedade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo est&aacute; remediado; entendemo-nos
+perfeitamente&#8213;respondeu o conselheiro, com manifesta
+satisfa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+&#8213;Dev&eacute;ras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!&#8213;exclamou
+Magdalena, com alegria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como ceder?&#8213;tornou o pae.&#8213;Elle &eacute; que foi mais
+condescendente do que eu esperava. N&atilde;o opp&ocirc;z a
+menor resistencia, nem se queixou muito amargamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois consentiu?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem grande custo, ao que parecia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! meu Deus! agora &eacute; que eu temo
+dev&eacute;ras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu
+pae! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos; a tua imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; que te
+illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o
+brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu
+vou j&aacute; ter comvosco. <br />
+
+<br />
+
+E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que
+estavam aquellas duas notabilidades. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-lhes uma boa nova, meus senhores&#8213;disse o conselheiro, depois de
+cumprimental-os&#8213;dentro em pouco temos os alvi&otilde;es a
+trabalhar c&aacute; na
+terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do
+homem, que nos obrigassem a
+expropria&ccedil;&otilde;es judiciaes, sempre demoradas. Mas
+n&atilde;o, achei-o nas melhores disposi&ccedil;&otilde;es;
+e assim, dentro em
+poucos dias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios
+n&atilde;o sejam t&atilde;o doceis&#8213;lembrou o brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sabe que s&atilde;o terras insignificantes, cujos possuidores
+com pouco se contentam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco&#8213;disse o
+brazileiro, sorrindo velhacamente&#8213;mas os modernos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois mudaram de senhorio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem os comprou?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+&#8213;Este seu criado. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, por&eacute;m,
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e
+independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos
+publicos, do que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar est&atilde;o os
+melhoramentos particulares. Eh, eh, eh. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo que n&atilde;o ha de querer p&ocirc;r estorvos a uma
+empreza como esta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estorvos, n&atilde;o, mas emfim... Amigos, amigos, negocios
+&aacute; parte. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o
+espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?&#8213;requereu do lado o sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mil que pretenda&#8213;acudiu o conselheiro; e tomando o bra&ccedil;o
+do morgado afastou-se do grupo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tenho a pedir-lhe um favor&#8213;principiou o morgado.&#8213; Eu, como sabe,
+interesso-me muito pelo mestre-escola do Ch&atilde;o do Pereiro,
+que quer vir ensinar para aqui. Este negocio est&aacute; empatado,
+como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este
+respeito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas...&#8213;fez-lhe notar o conselheiro&#8213;n&atilde;o sabe
+que &eacute; Augusto o outro concorrente? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que tem isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe parece que seria uma injusti&ccedil;a? Um
+rapaz de merecimento, como elle &eacute;, aqui da terra, que
+j&aacute; exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia?
+e haviamos de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade,&#8213;atalhou o outro&#8213;pois isso &eacute;
+verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se o rapaz quer isto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa &eacute; fresca. E
+vamos, sr. conselheiro, a gente tambem
+<span class="pagenum">[22]</span>
+n&atilde;o ha de estar s&oacute; a
+fazer favores, sem os
+receber quando os pede. Com este j&aacute; s&atilde;o tres.
+Pedi-lhe
+para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas
+caudelarias l&aacute; para a freguezia... estou &aacute; espera
+d'ellas... Ora isto n&atilde;o se faz. O
+senhor sabe que eu lhe tenho vencido as elei&ccedil;&otilde;es
+com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora
+n&atilde;o sei o que ser&aacute;. A
+n&atilde;o se decidir este negocio depressa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora n&atilde;o ser&aacute; isso motivo para tanto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com certeza que &eacute;&#8213;insistiu o sr.
+Jo&atilde;ozinho.&#8213;Ent&atilde;o digo-lhe mais: a mim
+j&aacute; me falaram. Ha ahi alguem que n&atilde;o desgostaria
+dos votos de que eu disponho, e votar pelos que j&aacute;
+est&atilde;o no
+poleiro n&atilde;o sei se lhe diga que n&atilde;o &eacute;
+peor. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de
+fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em
+rela&ccedil;&atilde;o ao que me diz, eu verei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! N&atilde;o &eacute; &laquo;eu verei&raquo;.
+Ent&atilde;o falo-lhe claro. Se d'aqui at&eacute; &aacute;s
+elei&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o estiver feito o despacho, n&atilde;o conte commigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem lhe diz que n&atilde;o ha de estar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois l&aacute; isso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem. <br />
+
+<br />
+
+O sino tocava a chamar para a festa. <br />
+
+<br />
+
+Terminou o dialogo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor&#8213;ia pensando o conselheiro&#8213;o peor &eacute; que prometti
+ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. N&atilde;o tem
+d&uacute;vida; &eacute;
+t&atilde;o magra a posta, que n&atilde;o vale a pena
+disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. &Eacute;
+preciso ter
+ambi&ccedil;&atilde;o por elle. Se elle quizesse ir para
+Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, j&aacute; se
+maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a v&ecirc;r o
+que sabe.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado
+o pae de Magdalena a ponto de n&atilde;o conter um movimento de
+impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e,
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de cortezias e
+cumprimentos, lhe pedia um momento de atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o
+latinista com tanto ardor namorava. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau
+humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! O senhor &eacute; uma sanguesuga que se n&atilde;o
+farta de chupar. Contente-se com o que tem; v&aacute; conjugando o <em>laudo,
+laudas</em>, que outros, com mais merecimentos, nem isso
+conseguem; e deixe-me. <br />
+
+<br />
+
+O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a
+admoesta&ccedil;&atilde;o, e curvou-se para deixar passar o
+conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Mas l&aacute; comsigo dizia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Elle &eacute; isso?! Pois veremos se a sanguesuga te
+n&atilde;o pica. <br />
+
+<br />
+
+E entrou tambem para a igreja, com n&atilde;o muito
+christ&atilde;s disposi&ccedil;&otilde;es de espirito. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XVIII </h4>
+
+<br />
+
+Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em
+visitas &aacute;s freguezias e aos influentes d'aquelle circulo
+eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que
+tomava parte, com g&ocirc;sto, n'estas excurs&otilde;es
+politicas. <br />
+
+<br />
+
+Em casa do sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, na freguezia de
+Pinch&otilde;es, passaram elles um dia. Nos solares
+<span class="pagenum">[24]</span>
+do morgado tudo era desordem e
+desmazelo; a cada passo se trope&ccedil;ava n'um podengo ou se
+trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira
+lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes
+d&oacute;ses de carne de porco e de vinho, com que elle,
+&aacute; viva f&ocirc;r&ccedil;a, o queria regalar. <br />
+
+<br />
+
+No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do
+ch&atilde;o uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos
+p&eacute;s dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles
+n&atilde;o conseguiram desalojar, e que toda a noite os
+incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam f&oacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o
+obrigava a esta noitada. <br />
+
+<br />
+
+Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua
+propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em
+affectadas exclama&ccedil;&otilde;es, deante dos prodigios de
+mau g&ocirc;sto reunidos alli. <br />
+
+<br />
+
+As estatuas de lou&ccedil;a, os alegretes de azulejo, os arcos
+feitos de cana, por onde se entrela&ccedil;avam magras trepadeiras;
+um pequeno modelo de fragata brazileira com
+tripula&ccedil;&atilde;o de altura dos cestos de
+gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e
+com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra,
+eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas
+vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas;
+bordados, diplomas de socio de n&atilde;o sei quantas sociedades
+brazileiras; tudo
+encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus
+de Braga. &Aacute; impertinencia de admirar estas preciosidades
+accrescia a de ouvir e de ter de achar gra&ccedil;a a um papagaio
+que cantava o hymno brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique sa&iacute;u de l&aacute; exhausto de paciencia. <br />
+
+<br />
+
+Com estas visitas politicas, passou, como dissemos,
+<span class="pagenum">[25]</span>
+todo o periodo das festas do
+Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa
+que mere&ccedil;a nota. <br />
+
+<br />
+
+Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem
+outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que t&atilde;o
+acerbas palavras se haviam trocado. Augusto n&atilde;o
+volt&aacute;ra ao Mosteiro desde ent&atilde;o. Era tempo de
+f&eacute;rias para as crean&ccedil;as, o que fazia natural esta
+ausencia, contra a qual Angelo em v&atilde;o protestava. Magdalena
+nunca por&eacute;m alludia a ella. Christina passava o tempo,
+querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de
+ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra. <br />
+
+<br />
+
+Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo
+do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique e D. Doroth&eacute;a vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram
+para assistir &aacute; solemnidade popular. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia
+ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia
+mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia
+dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipa&ccedil;&atilde;o
+andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia
+desempenhar. <br />
+
+<br />
+
+Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam,
+s&atilde;o como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a
+varredura estrangeira deixou ficar pelo ch&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante as extravagancias e as
+modela&ccedil;&otilde;es toscas e risiveis de muitos,
+&eacute; certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado
+mais fiel a indole peninsular, do que sua irm&atilde;, a civilisada
+musa das cidades, a cujo paladar j&aacute; sabem mal as
+popularissimas redondilhas, t&atilde;o apreciadas ainda na
+Hespanha. <br />
+
+<br />
+
+Em occasi&otilde;es de festa levanta-se em qualquer terreiro ou
+pateo de quinta um tablado; veem adornal-o
+<span class="pagenum">[26]</span>
+as mais vistosas colchas de
+chita, das quaes tambem se formam os bastidores; alugam-se
+nos depositos mais modestos da cidade ou villa proxima vestidos de
+reis, de principes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de
+&eacute;pocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma
+plateia rustica, ao ar livre, como no theatro antigo, desfiam-se em
+cantada choradeira as sentimentaes peripecias da vida de qualquer
+santo, ou, entre gargalhadas, os episodios comicos do
+algum enredo popular.
+<br />
+
+<br />
+
+A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do
+Mosteiro, e que f&ocirc;ra em parte por deferencia ao deputado do
+circulo, em parte por conveniencia dos emprezarios, pela
+apropria&ccedil;&atilde;o do
+terreno a todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes
+casos recebiam de s. ex.<sup>a</sup>, essa circumstancia,
+dizemos, augmentava o
+numero de espectadores. <br />
+
+<br />
+
+Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do
+espectaculo popular. <br />
+
+<br />
+
+O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem
+pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava
+p&ocirc;r &aacute;
+disposi&ccedil;&atilde;o dos seus representados. <br />
+
+<br />
+
+Desde a vespera havia grande agita&ccedil;&atilde;o e azafama
+no pateo do Mosteiro. Os artifices levantavam o tablado scenico;
+pregavam e despregavam taboas; serravam barrotes; os directores, e
+&aacute; frente d'elles o infatigavel e imaginoso Pertunhas, davam
+ordens contradictorias; e os curiosos estacionavam em magotes,
+difficultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres
+absurdos. <br />
+
+<br />
+
+Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora
+dos seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida
+e de enthusiasmo. <br />
+
+<br />
+
+Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir
+a espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia
+chorar
+<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span>
+as crean&ccedil;as e estremecer as m&atilde;es; ia
+resuscitar Herodes, o d&eacute;spota legendario. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e
+insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos
+scenicos futuros. <br />
+
+<br />
+
+Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com
+a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a
+ausencia de voca&ccedil;&otilde;es dramaticas que auxiliassem a
+d'elle. <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o sorriam os leitores a esta velleidade artistica do
+recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio
+de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de
+rusticidade continha abafado mineral de lei. <br />
+
+<br />
+
+Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, v&ecirc;l-o-hiam
+porventura arrebatar plateias inteiras com as
+revela&ccedil;&otilde;es do genio, que &aacute;s
+vezes n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda
+assim inculto, n&atilde;o mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o
+sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava
+o gesto no calor do desempenho; n&atilde;o mentia aquella
+embriaguez que lhe causavam os applausos da multid&atilde;o.
+N&atilde;o ha verdadeiro genio artistico, que se n&atilde;o
+namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O
+homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca ser&aacute;
+poeta nem artista de verdadeira inspira&ccedil;&atilde;o. O
+amor vivo da <a href="#e5">gloria</a> adeantou a
+meio caminho os emprehendedores d'esta
+nova conquista de vellocino. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, essa tremia com a commo&ccedil;&atilde;o de artista
+novel, &aacute; lembran&ccedil;a do espectaculo, em que pela
+primeira vez ia entrar. <br />
+
+<br />
+
+As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido
+encarregar-se da
+<em>toilette</em> da Fama. <br />
+
+<br />
+
+Logo de manh&atilde; f&ocirc;ra pois a pequena Linda para o
+Mosteiro, e passava das m&atilde;os de Magdalena para as de
+Christina e das d'esta para as d'aquella, e
+<span class="pagenum">[28]</span>
+sempre com recato preciso para que ninguem
+mais lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a
+occasi&atilde;o a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo
+&eacute; que mais tiveram que luctar. <br />
+
+<br />
+
+Logo depois da uma hora da tarde come&ccedil;ou a povoar-se o pateo
+de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado,
+occulto por as colchas de chita aos olhares da multid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica,
+dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de
+batuta. <br />
+
+<br />
+
+Chiava j&aacute; o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle,
+uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das
+torturas. <br />
+
+<br />
+
+Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos,
+deu o signal de principiar. <br />
+
+<br />
+
+Um, dois, tres; um, dois&#8213;dizia ou fazia elle com os olhos e com os
+movimentos da cabe&ccedil;a e p&eacute;s, porque a
+b&ocirc;ca, essa j&aacute; estava applicada
+&aacute; embocadura da trompa. O segundo &laquo;tres&raquo;
+era o tempo fatal. Os musicos, por&eacute;m, ou por distrahidos, ou
+por a commo&ccedil;&atilde;o propria dos actos solemnes,
+n&atilde;o corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da
+trompa do mestre Pertunhas, achou-se s&oacute; no
+espa&ccedil;o, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade
+dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue. <br />
+
+<br />
+
+Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando
+as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota
+chefe e reconhecendo a falta, sa&iacute;ram alvoro&ccedil;adas
+atraz d'ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de
+indescriptivel effeito. <br />
+
+<br />
+
+O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e
+o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a
+v&ecirc;r o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre
+os da banda, berrando, ralhando, cheio de c&oacute;lera e de
+raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade! <br />
+
+<br />
+
+Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia. <br />
+
+<br />
+
+Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que
+f&ocirc;ram de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de
+um Cham ou Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que
+amea&ccedil;ava estalar todas as costuras da farda, primitivamente
+feita para um individuo de metade das dimens&otilde;es d'elle, com
+as faces insufladas, a testa contrahida e os olhos injectados para
+extrahir de um obsoleto serpent&atilde;o, que embocava com
+arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acol&aacute; um
+flautim, de bra&ccedil;os compridos e tibias
+esquinadas, com meio bra&ccedil;o f&oacute;ra das mangas, com
+meia perna de f&oacute;ra das cal&ccedil;as, figura em que
+havia n&atilde;o sei o que de onomatopaico, t&atilde;o bem se
+casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exiguo
+instrumento. O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz
+adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em tufos no meio das
+faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os
+pulm&otilde;es dentro de um figle; um corcovado e
+semi-an&atilde;o repicava os ferrinhos com uma prodigalidade
+assustadora; as baquetas da caixa estavam confiadas &aacute;s
+m&atilde;os callosas de um
+mo&ccedil;o de lavoura, de r&ecirc;pas hirsutas a cobrir-lhe a
+testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, no meio d'estas e
+analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo
+com o p&eacute;, suando, arregalando os olhos, piscando-os,
+marcando o compasso com a cabe&ccedil;a armada de enorme trompa,
+que lhe dava ent&atilde;o n&atilde;o sei que apparencias de
+proboscidiano. <br />
+
+<br />
+
+Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a
+familia do Mosteiro escutavam das janellas, e &aacute; qual tiveram
+de dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista
+<span class="pagenum">[30]</span>
+que se conhece. Henrique foi quem mais
+sublimes esfor&ccedil;os fez para soffrer com paciencia aquellas
+torturas acusticas. Elle que nem &aacute; orchestra de S. Carlos
+perdoava uma desafinac&atilde;o, obrigado a escutar com um sorriso
+aquella banda pandemonica! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coragem! coragem!&#8213;murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como
+perfeito politico.&#8213;Nas occasi&otilde;es &eacute; que os homens
+se conhecem! Coragem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; em extremo forte a
+prova&ccedil;&atilde;o!&#8213;respondia-lhe, gemendo, Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Firmeza; que a pallidez do susto nos n&atilde;o
+atrai&ccedil;oe&#8213;continuava aquelle. <br />
+
+<br />
+
+Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a
+seriedade. <br />
+
+<br />
+
+A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido
+tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o
+estremecimento que precede as occasi&otilde;es solemnes. Os olhares
+de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que j&aacute;
+se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade,
+como se f&ocirc;ra a resultante do palpitar de tantos
+cora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes. <br />
+
+<br />
+
+A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros
+largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas
+negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as
+juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho
+selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na
+multid&atilde;o um quasi pavor, que nem o conhecimento intimo que
+tinha do homem conseguia dissipar. <br />
+
+<br />
+
+Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos,
+corpete de velludilho azul, cal&ccedil;&otilde;es golpeados.
+Pendia-lhe &aacute; cinta
+um alfange e uma pistola; ao peito algumas
+condecora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Apparencia geral, a dos prophetas nas prociss&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+O auto rompe com um monologo de Herodes. <br />
+
+<br />
+
+O tyranno da Jud&eacute;a, sobresaltado e meditabundo, faz
+considera&ccedil;&otilde;es substanciosas sobre a
+condi&ccedil;&atilde;o dos reis em geral e a sua em particular.
+Principia elle assim: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+N&atilde;o ha vida mais inquieta,<br />
+
+Nem mais cheia de cuidados,<br />
+
+Do
+que a de um rei que pretende<br />
+
+Conservar os seus estados.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cancella dizia isto em tom pausado, com os bra&ccedil;os
+cruzados, medindo o palco a passos largos. <br />
+
+<br />
+
+Continuavam varias proposi&ccedil;&otilde;es de physiologia do
+throno, e, do caso generico baixando ao particular, da these
+&aacute; hypothese, principia a falar de si. Cancella, conhecedor
+dos segredos da arte, come&ccedil;ava aqui a dar mais vida
+&aacute; recita&ccedil;&atilde;o, como
+para mostrar o maior empenho que tomava a alma n'este capitulo da
+especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda do Messias, e
+inquietava-se; a mar&eacute; das paix&otilde;es subia; a voz
+traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de
+desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos
+paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a
+f&ocirc;r&ccedil;a &aacute; sua voz potente, soltava
+berros, que participavam da natureza dos do tigre.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Come&ccedil;arei desde logo<br />
+
+A publicar leis tyrannas,<br />
+
+Que
+aterrem os meus montes,<br />
+
+Os palacios e as choupanas. <br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; tal o meu furor,<br />
+
+Tal a minha
+indigna&ccedil;&atilde;o,<br />
+
+Que ninguem se atrever&aacute;<br />
+
+A
+conquistar meu braz&atilde;o.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam
+a fixar-se. A excita&ccedil;&atilde;o
+de animos a que os transportes de Herodes, inquieto
+<span class="pagenum">[32]</span>
+pelo seu braz&atilde;o, lev&aacute;ra o publico,
+foi serenada
+por um chorado c&ocirc;ro de anjos que cantavam atraz da cortina: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">N&atilde;o temas,
+&oacute; rei cruel,<br />
+
+Que te conquiste o
+docel.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Herodes p&aacute;ra aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe
+afian&ccedil;arem a seguran&ccedil;a do docel,
+pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o m&ecirc;do no
+cora&ccedil;&atilde;o, m&ecirc;do que procura afugentar
+com bravatas, em que amea&ccedil;ava p&ocirc;r tudo por terra.
+O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui &eacute; que subia a toda a altura o genio dramatico do
+Herodes. Para este final do monologo reservava todos os segredos da
+arte; apoderava-se d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos
+olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da
+individualidade propria; suppunha-se Herodes; e at&eacute;...
+&oacute; f&ocirc;r&ccedil;a da
+arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi
+chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era
+dominado por o artista, e n'um d'estes silencios que todos
+prev&ecirc;em se desencadeiar&aacute; em brados de enthusiasmo
+e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Por&eacute;m o furor me
+incita!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dava, ao dizer isto, tres passos &aacute; frente, desembainhava o
+alfange e abria os bra&ccedil;os. Tinha o que quer que era de
+Adamastor, visto assim. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">O brio d&aacute;-me ousadia.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Levantava os bra&ccedil;os acima da cabe&ccedil;a, espalmando a
+m&atilde;o esquerda. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Para defender o sceptro<br />
+
+A favor da tyrannia!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+Aqui agitava os bra&ccedil;os como azas de moinhos. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Ser&aacute; cada
+lan&ccedil;a um raio!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Cada espada um corisco,</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E o bra&ccedil;o, armado do alfange, baixava com a rapidez do
+simile. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Cada soldado um
+trov&atilde;o,</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E trovejava-lhe a voz. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Cada golpe um basilisco!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E na posi&ccedil;&atilde;o e gesto em que ficava,
+n&atilde;o era menos terrivel e pavoroso do que a fera da
+compara&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; s&oacute; as
+mulheres e as crean&ccedil;as ficaram
+silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um peccado applaudirem
+Herodes. E n&atilde;o sei se, o que fizera menos escrupulosa n'este
+ponto a parte masculina, f&ocirc;ra o exemplo partido das janellas
+do Mosteiro; porque &eacute; certo que em geral os tyrannos no
+palco s&atilde;o admirados, mas raras vezes applaudidos. <br />
+
+<br />
+
+Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o
+auto. <br />
+
+<br />
+
+Dariamos de bom grado na integra t&atilde;o importante
+pe&ccedil;a dramatica ou pelo menos circumstanciada noticia d'ella,
+se n&atilde;o receiassemos o recheio excessivo para esta ordem de
+alimentos litterarios, que se querem leves. N&atilde;o podemos
+comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente. <br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m do Herodes, s&atilde;o figuras do auto: o caixeiro
+do dito&#8213;assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que d&aacute;
+a entender que Herodes era homem de
+<span class="pagenum">[34]</span>
+escripturac&atilde;o regular,&#8213;o capit&atilde;o das tropas
+reaes, os tres reis magos, o anjo, a Virgem, S. Jos&eacute; e o
+menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidad&atilde;os de
+differentes cidades, o criado de um d'elles, a Fama e duas
+crean&ccedil;as, chamadas Giraldinho e Amorzinho. <br />
+
+<br />
+
+As scenas passam-se successivamente nos pa&ccedil;os de Herodes, na
+lapa de Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto. <br />
+
+<br />
+
+A imagina&ccedil;&atilde;o do espectador era a encarregada da
+mudan&ccedil;a do scenario. <br />
+
+<br />
+
+O poeta corre toda a clave das paix&otilde;es humanas, vibra todas
+as cordas do cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ao terror despertado por Herodes e suas amea&ccedil;as, succede a
+sympathia pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres
+mo&ccedil;os de lavoura, de manto, luvas de algod&atilde;o e
+turbante, os quaes, em lamuria nasal e com profus&atilde;o de
+<em>xes</em>, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma
+das quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao
+Deus nascido a protec&ccedil;&atilde;o para Portugal. <br />
+
+<br />
+
+Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. Jos&eacute;, como
+carpinteiro que era, apparelhava um madeiro a enx&oacute; e plaina,
+emquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem
+principiava a despontar o bu&ccedil;o da puberdade. O anjo
+apparecia, como nas prociss&otilde;es, carregado de
+cord&otilde;es de ouro. <br />
+
+<br />
+
+No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica
+simplicidade. Quando os sagrados esposos est&atilde;o para partir,
+chega a elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro
+mocet&atilde;o em trajes femininos, e da parte da ama offerece aos
+foragidos algum dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por
+n&atilde;o poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece
+com as phrases da tarifa, recommendando-se muito a sua prima. <br />
+
+<br />
+
+O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha
+personagens, reflex&otilde;es e scenas
+<span class="pagenum">[35]</span>
+sempre apreciadas e j&aacute;
+aguardadas pelo publico, que as sa&uacute;da com sinceras
+gargalhadas. D'estas a principal &eacute; evidentemente a que se
+passa entre um cidad&atilde;o, de quem a sacra familia recebe
+gasalhado, e o criado do mesmo. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma scena de disputa domestica, cheia de
+allus&otilde;es satyricas &aacute; classe dos criados de
+servir, a qual era sempre applaudida. O cidad&atilde;o, depois de
+mostrar ao criado, de relogio em punho&#8213;anachronismo shakspeareano&#8213;a
+demora excessiva que elle tivera f&oacute;ra de casa, diz para o
+auditorio: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+N&atilde;o se pode ter criados<br />
+
+Hoje em dia, n'esta vida,<br />
+
+Ou quem
+houver de os ter<br />
+
+N&atilde;o lhes deve dar guarida.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso
+episodio. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa
+de toda a pe&ccedil;a, de afinada que estava pelo seu modo de
+sentir, n&atilde;o p&ocirc;de
+conter-se, que n&atilde;o exclamasse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo &eacute; que &eacute; uma verdade! <br />
+
+<br />
+
+A espontaneidade da reflex&atilde;o fez rir a familia do Mosteiro,
+riso que teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo. <br />
+
+<br />
+
+A scena comica prolonga-se, mandando o patr&atilde;o distribuir
+pelo caixeiro o rap&eacute; ao auditorio; outra liberdade que
+produzia sempre o maior effeito. <br />
+
+<br />
+
+O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia
+pitadas ao publico, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+O meu amo, com ser rico,<br />
+
+Gosta d'estas patuscadas.<br />
+
+Nunca os senhores
+tiveram<br />
+
+As pitadas t&atilde;o baratas.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo
+a regularidade do espectaculo.
+<span class="pagenum">[36]</span>
+Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam,
+todos fingiam espirrar e n&atilde;o se ouvia sen&atilde;o:
+&laquo;Dominus tecum&raquo; e &laquo;Deus
+te salve&raquo; no meio de toda aquella confus&atilde;o.
+Por&eacute;m a um signal de mestre Pertunhas, que deixou por um
+pouco folgar o espirito das massas, tudo entrou na ordem. <br />
+
+<br />
+
+Preparava-se nova transi&ccedil;&atilde;o dramatica. O criado,
+que vae a sa&iacute;r, volta, dizendo com gesto espantado e tom
+exclamatorio: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Jesus, Jesus, que &eacute;
+isto?<br />
+
+Jesus do meu
+cora&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+O signal da cruz me livre<br />
+
+De
+t&atilde;o terrivel vis&atilde;o.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era a Fama que apparecia. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda entrava em scena. <br />
+
+<br />
+
+No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que
+entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia
+t&atilde;o completo contraste, que um murmurio significativo de
+profunda sensa&ccedil;&atilde;o correu o auditorio. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao
+que era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina,
+para lhe darem a apparencia superior. <br />
+
+<br />
+
+O proprio Henrique, que at&eacute; alli estivera commentando
+maliciosamente o espectaculo, n&atilde;o p&ocirc;de reter uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de surpreza, que foi secundada por
+o conselheiro. &Eacute; que parecia que um verdadeiro anjo occupava
+agora a scena. <br />
+
+<br />
+
+A simplicidade do vestir concorria para esse effeito. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe
+descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos
+contornos e esbeltas propor&ccedil;&otilde;es d'aquella
+crean&ccedil;a, que promettia ser uma mulher esculptural. Os
+cabellos, cuja c&ocirc;r loura era de uma pureza rara,
+ca&iacute;am-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando
+<span class="pagenum">[37]</span>
+como fios de ouro, na
+alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das faces
+sobresa&iacute;a n'aquella moldura natural. Com os
+bra&ccedil;os desca&iacute;dos, os dedos encruzados, e a
+cabe&ccedil;a ligeiramente pendida, em express&atilde;o de
+melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de
+Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem
+o c&eacute;o, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no
+gesto o encanto da innocencia, tendo nos passos a
+hesita&ccedil;&atilde;o da timidez. Havia tanto de sobrenatural
+no vulto candido, franzino e melancolicamente suave d'aquella
+crean&ccedil;a, que o actor que estava em scena n&atilde;o teve
+de simular espanto, porque o sentia real, e n&atilde;o podia
+desviar os olhos d'aquella appari&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a
+f&ocirc;r&ccedil;a de um encantamento. <br />
+
+<br />
+
+Como na antiga tragedia, o facto principal da
+ac&ccedil;&atilde;o, a carnificina dos innocentes, passava-se
+f&oacute;ra de scena. &Aacute; Fama competia narral-o. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor
+de commo&ccedil;&atilde;o, principiou lentamente e no meio de
+um religioso silencio a recitar os versos da
+narra&ccedil;&atilde;o, os quaes, como o leitor j&aacute;
+sabe, n&atilde;o eram os do auto, que mestre
+Pertunhas se estaf&aacute;ra a ensaiar. <br />
+
+<br />
+
+Os versos que Ermelinda recitou diziam assim: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Desci dos celestes
+c&oacute;ros,<br />
+
+Por Deus mandada a escutar<br />
+
+Da
+infancia as queixas e os choros,<br />
+
+Para lh'os ir confiar. <br />
+
+<br />
+
+Desci. Na terra, nos mares<br />
+
+Tanta miseria encontrei.<br />
+
+Que os meus
+magoados olhares<br />
+
+Da terra e mar desviei. <br />
+
+<br />
+
+Desci. E tantos gemidos,<br />
+
+T&atilde;o dolorosos ouvi!<br />
+
+Que, turbados
+os sentidos,<br />
+
+Quiz recuar... mas desci.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+<div class="poetry3 tinyl">N'esta colheita de
+d&ocirc;res<br />
+
+Pelo mundo todo andei,<br />
+
+No pranto dos peccadores <br />
+
+As minhas vestes
+molhei. <br />
+
+<br />
+
+Vagueando dias e dias,<br />
+
+Cheg&aacute;ra &aacute; Jud&eacute;a
+emfim,<br />
+
+Quando um clamor de agonias<br />
+
+Veio de longe at&eacute; mim. <br />
+
+<br />
+
+O sol, o sol inflammado<br />
+
+D'estas terras orientaes,<br />
+
+Tinha no disco
+afogueado<br />
+
+N&atilde;o sei que estranhos signaes. <br />
+
+<br />
+
+Soavam menos distantes<br />
+
+Sinistros brados de d&ocirc;r,<br />
+
+Choros de
+m&atilde;es e de infantes,<br />
+
+Cantos de morte e terror. <br />
+
+<br />
+
+Vi anjos de azas nevadas<br />
+
+Em bandos subir ao c&eacute;o,<br />
+
+Quaes
+pombas amedrontadas<br />
+
+Fugindo &aacute; voz de escarc&eacute;o. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Onde &iacute;des? Quem vos persegue?<br />
+
+A que tormentas
+fugis?&raquo;<br />
+
+Um, que triste o bando segue,<br />
+
+Estas palavras me diz: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Somos as almas de infantes<br />
+
+Mortos em guerra feroz;<br />
+
+Inda das
+m&atilde;es delirantes<br />
+
+Nos chama a sentida voz. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;S&oacute; a materna saudade<br />
+
+Nossa carreira detem,<br />
+
+Embora
+no c&eacute;o, quem ha de<br />
+
+Esquecer, o amor de
+m&atilde;e?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Disse e o semblante formoso<br />
+
+Com as azas encobriu,<br />
+
+E ao bando silencioso<br />
+
+Silencioso se uniu. <br />
+
+<br />
+
+Eu segui. Na impia cidade<br />
+
+Aterrada penetrei...<br />
+
+Ai, da fera humanidade<br />
+
+Os meus olhos desviei!</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+<div class="poetry3 tinyl">Que scena! Corre nas
+pra&ccedil;as<br />
+
+Sanguinaria
+multid&atilde;o,<br />
+
+Como nuvem de desgra&ccedil;as<br />
+
+Semeando a
+desola&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+C&aacute;em por terra sem vida<br />
+
+Tenras crean&ccedil;as
+&aacute;s mil,<br />
+
+E uma turba enfurecida<br />
+
+Corre &aacute;
+matan&ccedil;a febril, <br />
+
+<br />
+
+As m&atilde;es pallidas, chorosas,<br />
+
+Supplicam, pedem em
+v&atilde;o!<br />
+
+N'essas feras sanguinosas<br />
+
+N&atilde;o palpita um
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Outras tentam em delirio,<br />
+
+Os seus filhos disputar,<br />
+
+E com elles no
+martyrio<br />
+
+Gostosas se v&atilde;o juntar. <br />
+
+<br />
+
+Sobre a terra ensanguentada<br />
+
+Eu solu&ccedil;ando, ajoelhei,<br />
+
+E de
+intensa d&ocirc;r magoada,<br />
+
+A Deus piedade implorei. <br />
+
+<br />
+
+Findava a prece, e uma estrella<br />
+
+No horisonte despontou,<br />
+
+Pura,
+scintillante, bella<br />
+
+O caminho me tra&ccedil;ou. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; humilde e escondida estancia<br />
+
+Da venturosa Belem<br />
+
+Cheguei;
+vi um Deus na infancia<br />
+
+Nos ternos bra&ccedil;os da m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+Minha colheita de d&ocirc;res<br />
+
+N'aquelle ber&ccedil;o depuz,<br />
+
+Da
+humanidade aos rigores<br />
+
+Pedi remedio a Jesus. <br />
+
+<br />
+
+No olhar do divino infante<br />
+
+Raiou a luz e fulgor,<br />
+
+Foi a aurora radiante<br />
+
+Que annuncia um redemptor.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se descreve a impress&atilde;o causada por estes
+versos, que assim transformavam a Fama do auto
+<span class="pagenum">[40]</span>
+no Anjo da guarda da infancia. Muitas
+causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto
+de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e
+depois aquellas palavras inesperadas, aquella
+exposi&ccedil;&atilde;o
+desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram
+recitados, parecia augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da
+impress&atilde;o d'aquella voz sonora e infantil, ninguem procurava
+explicar o mysterio. Milagre lhes parecia e quasi como milagre o
+acceitavam, e de ouvidos attentos, collos estendidos e b&ocirc;cas
+semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, aquellas palavras, como se
+de um verdadeiro emissario celeste as escutassem. O tablado enchera-se
+pouco a pouco de gente, e ninguem dera por isso. Os actores que estavam
+atraz da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos,
+differentes dos que elles esperavam; isto obrigou-os a espreitar.
+Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz e d'aquelle gesto,
+vieram adeantando-se, adeantando-se, e c&ecirc;do formaram circulo
+&aacute; volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O
+espanto, os affectos, o orgulho de pae, a
+exalta&ccedil;&atilde;o de artista combinavam-se para dar-lhe
+ao rosto uma express&atilde;o quasi de extase. Olhava para a filha
+como se a visse animada de inspira&ccedil;&atilde;o divina. <br />
+
+<br />
+
+Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo
+trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de
+b&ocirc;ca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro
+s&oacute; Angelo sorria, elle s&oacute; interpretava o milagre.
+Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de
+crean&ccedil;a, que, em campo descoberto e no meio de tantos
+espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse
+alguma coisa de sobrehumana. <br />
+
+<br />
+
+Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que
+os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem
+de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro
+<span class="pagenum">[41]</span>
+rompeu este quasi encantamento.
+Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um
+&laquo;bravo&raquo; todo o enthusiasmo que sentia. Foi o
+signal. <br />
+
+<br />
+
+O silencio degenerou na mais altisona ova&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a
+sustentar, a logica da
+situa&ccedil;&atilde;o, e tomando nos bra&ccedil;os
+musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para
+a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo
+estendiam-se centenas de bra&ccedil;os para a receberem; das
+janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os len&ccedil;os
+das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia
+devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de
+paix&atilde;o; e Ermelinda foi de bra&ccedil;os em
+bra&ccedil;os, entre beijos e afagos, transportada do tablado para
+a sala do Mosteiro, onde n&atilde;o foi menos calorosa a
+recep&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esfor&ccedil;os do
+mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de
+v&ecirc;r as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que
+entravam n'ellas. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do
+Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se n&atilde;o
+f&ocirc;sse bastante pathetico para commover. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai
+que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os
+dizia!&#8213;exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena
+que vira. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi Augusto que fez aquelles versos? <br />
+
+<br />
+
+Angelo sorriu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que me perguntas isso a mim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque o deves saber.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[42]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o cr&ecirc;s no milagre? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Responde. <br />
+
+<br />
+
+Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o
+conselheiro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu digo a v. ex.<sup>a</sup> que o Bernardim existe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem &eacute;?&#8213;perguntou o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei; por&eacute;m posso afian&ccedil;ar a v.
+ex.<sup>a</sup> que n&atilde;o s&atilde;o estes os
+primeiros vestigios
+que encontro
+d'elle. As paredes das capellas dos montes s&atilde;o as suas
+confidentes. N&atilde;o est&aacute; certa, prima
+Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora
+da Saude? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; recordo-me. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que
+a levem a attribuil-as &aacute; mesma pessoa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou pouco habituada a analysar estylos, primo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas talvez este lhe seja habitual. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a
+accrescentar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por muito o v&ecirc;r por ahi desperdi&ccedil;ado por paredes
+de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda foi de uma discre&ccedil;&atilde;o impenetravel.
+Quando lhe perguntavam quem lhe ensin&aacute;ra os versos, sorria,
+respondendo que n&atilde;o sabia, ou que n&atilde;o podia
+dizel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apostemos que n'isto entra Angelo?&#8213;disse o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes cada vez parecia mais convencido de que f&ocirc;ra pura
+inspira&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, aproveitando uma occasi&atilde;o em que estava proximo da
+morgadinha, disse-lhe ao ouvido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me que ia p&ocirc;r o dedo no rouxinol silvestre, que
+t&atilde;o bem canta sem se mostrar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas
+immedia&ccedil;&otilde;es. Estas aves melancolicas amam as
+inspira&ccedil;&otilde;es nocturnas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+&#8213;Pois as noites nem sempre s&atilde;o boas conselheiras, primo.
+&Eacute; a hora favoravel &aacute; espionagem e
+&aacute;s... calumnias... Mas se sabe quem &eacute;, diga-o.
+Aqui em minha casa e no seio de minha familia, &eacute; sempre bem
+recebida a verdade. N&atilde;o ha quem se tema d'ella. <br />
+
+<br />
+
+E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'esta vez foi de uma severidade!!&#8213;pensou Henrique.&#8213;Cada vez me
+conven&ccedil;o mais de que o idyllio existe e que vae
+j&aacute; muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com
+o Romeu, que nunca mais vi? N&atilde;o foi m&aacute; tolice
+aquella
+minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso
+n&atilde;o vale a pena. <br />
+
+<br />
+
+O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique f&ocirc;ra
+d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da
+ten&ccedil;&atilde;o que alimentava
+ainda, pois disse a Christina: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, filha, que n&atilde;o sei se deva curar-te antes a ti do que
+a elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que dizes?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada. Ha doen&ccedil;as que fazem desesperar os medicos. <br />
+
+<br />
+
+Era j&aacute; noite. Os grupos, que ainda depois do auto se
+conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos
+proprietarios, f&ocirc;ram dispersando pouco a pouco. <br />
+
+<br />
+
+A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para
+as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a
+quem era devido o cantar os Reis. <br />
+
+<br />
+
+Angelo sa&iacute;ra da sala. F&ocirc;ra para o fim da rua de
+sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe
+dizer adeus. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as
+sombras &aacute; fronte e ao
+cora&ccedil;&atilde;o do pobre rapaz. <br />
+
+<br />
+
+Era a noite de Reis, a ultima dos dias de f&eacute;rias;
+<span class="pagenum">[44]</span>
+na manh&atilde; seguinte devia
+partir com o pae para Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades
+n&atilde;o se amontoam no
+cora&ccedil;&atilde;o das crean&ccedil;as ao expirar o
+termo d'esse feliz
+espa&ccedil;o de tempo, que viveram para os carinhos da familia e
+para os folguedos despreoccupados! <br />
+
+<br />
+
+Percebe-se em n&oacute;s mesmos aquella imminencia de lagrimas, que
+&aacute; menor palavra rebentam. <br />
+
+<br />
+
+Quem n&atilde;o ter&aacute; recorda&ccedil;&otilde;es
+de infancia a falar-lhe d'isto? <br />
+
+<br />
+
+O pateo despovo&aacute;ra-se de gente; atrav&eacute;s das
+vidra&ccedil;as da casa viam-se j&aacute; brilhar as luzes
+interiores. Com o olhar fito no ch&atilde;o, a cabe&ccedil;a
+inclinada,
+Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres,
+sem que elle d&eacute;sse por isso. <br />
+
+<br />
+
+De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos.
+Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae fic&aacute;ra atraz a
+p&ocirc;r em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus&#8213;disse Angelo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o vae-se embora? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou &aacute;manh&atilde;&#8213;respondeu Angelo, com a voz presa
+de commo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito c&ecirc;do? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De madrugada. <br />
+
+<br />
+
+Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora quando volta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute;? agora... s&oacute; para agosto. <br />
+
+<br />
+
+Novo silencio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o... adeus... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo
+estreitou contra o peito aquella que de pequena trat&aacute;ra como
+irm&atilde;, e que
+chorava ainda mais do que elle. <br />
+
+<br />
+
+Que melancolico fim de dia t&atilde;o alegre!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ermelinda&#8213;disse logo a voz esgani&ccedil;ada e colerica, que
+saiu d'aquelle vulto. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda estremeceu ao ouvil-a. <br />
+
+<br />
+
+Era a mulher do Z&eacute; P'reira que voltava das suas
+devo&ccedil;&otilde;es e fic&aacute;ra surprehendida com o
+espectaculo
+que vira. A assustadi&ccedil;a castidade d'aquella matrona toda se
+alvoro&ccedil;ou com a tocante despedida das duas
+crean&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou
+pelo bra&ccedil;o e a levou comsigo. <br />
+
+<br />
+
+Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das m&atilde;os d'aquella
+harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o. <br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o Baptista ia
+dizendo, ao levar comsigo a afilhada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ter&atilde;o ainda de v&ecirc;r
+meus olhos, meu Divino Pae do C&eacute;o? Que mundo este de
+abomina&ccedil;&atilde;o, meu doce Jesus! &Oacute; Virgem
+das Dores, isto &eacute; para se v&ecirc;r e n&atilde;o se
+crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e
+j&aacute; assim com a alma perdida! &Oacute; meu Jesus
+crucificado!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha madrinha&#8213;dizia Ermelinda, chorando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, anda, anda, minha amiga, que j&aacute; os demonios saltam e
+riem de contentes. Teu pae &eacute; que tem a culpa. Isto
+s&atilde;o l&aacute; modos? trazer-te por
+entremezes, que s&atilde;o artes do demonio, e arredar-te da
+igreja, que &eacute; a casa do Senhor! &Eacute; a missa dos
+domingos, e acabou-se. Os resultados s&atilde;o estes!... Ai,
+filha, que muita penitencia te &eacute; j&aacute; precisa
+para salvares a alma! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha madrinha, minha madrinha, por as almas n&atilde;o me diga
+isso&#8213;exclamava Ermelinda, aterrada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os tres inimigos da alma te far&atilde;o guerra, creatura,
+assanhados como c&atilde;es raivosos... Eu previa isto...
+&Eacute; o lucro de andar por essas casas de Satanaz,
+<span class="pagenum">[46]</span>
+onde n&atilde;o ha
+religi&atilde;o nem temor de Deus...
+&Oacute; meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por
+n&oacute;s! E n&oacute;s t&atilde;o pouco caso fazemos dos
+vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois
+queixamo-nos da vossa justi&ccedil;a, quando j&aacute; ardemos
+nos fogos do inferno...! <br />
+
+<br />
+
+A pequena Ermelinda tremia cada vez mais. <br />
+
+<br />
+
+A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas
+exclama&ccedil;&otilde;es, bramando contra o peccado, contra a
+familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda
+e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do
+peccado disserta&ccedil;&otilde;es n&atilde;o em demasia
+apropriadas aos ouvidos de uma crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das
+palavras da madrinha, que nem bem entendia, fic&aacute;ra-lhe uma
+horrivel
+convic&ccedil;&atilde;o de que tinha a alma perdida, e com
+lagrimas ardentes pagava a pobre crean&ccedil;a bem caro as
+alegrias d'aquella tarde, de que j&aacute; tinha remorsos. Este
+desalento e pavor quasi a fizeram doente. <br />
+
+<br />
+
+Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os
+triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao
+abra&ccedil;al-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada p&ocirc;de
+saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se
+instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois. <br />
+
+<br />
+
+Pobre pae! n&atilde;o p&ocirc;de dormir aquella noite! Logo de
+madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em
+recovagem. <br />
+
+<br />
+
+Deixou Ermelinda a dormir; n&atilde;o a quiz acordar; beijou-a na
+fronte desmaiada, aben&ccedil;oou-a e saiu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comadre,&#8213;disse ao passar por casa do Z&eacute; P'reira&#8213;ahi lhe
+deixo a pequena. Olhe-me por ella, que n&atilde;o est&aacute;
+l&aacute; muito boa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; com Deus&#8213;disse uma voz de dentro. <br />
+
+<br />
+
+Era a sr.<sup>a</sup> Catharina. <br />
+
+<br />
+
+O recoveiro partiu, silencioso e triste.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+<h4>XIX </h4>
+
+<br />
+
+No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
+determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
+muitas saudades. O conselheiro devia voltar s&oacute;mente por
+occasi&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es geraes que
+estavam proximas. <br />
+
+<br />
+
+Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
+padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro,
+estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando
+sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas
+conferencias de coisas de pouco interesse e &aacute;s quaes elle
+ligava a minima
+atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
+posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
+cadeira; D. Doroth&eacute;a, de m&atilde;os cruzadas deante da
+cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de p&ocirc;r em arranjo a
+cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na
+conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta
+emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes
+inexactid&otilde;es em que a via cair. <br />
+
+<br />
+
+Henrique habitu&aacute;ra-se j&aacute; a estes placidissimos
+habitos; e apesar de n&atilde;o ligar
+atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute; conversa, ou por isso mesmo que lh'a n&atilde;o
+ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam
+agradavel. <br />
+
+<br />
+
+Depois de muitas voltas a conversa ca&iacute;u sobre as
+occorrencias do auto dos Reis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu ainda estou para saber como aquillo foi!&#8213;dizia D.
+Doroth&eacute;a.&#8213;Quando me lembro! Como aquella rapariga falava! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhora; olhe que j&aacute; me disseram que a
+<span class="pagenum">[48]</span>
+pequena tinha espirito&#8213;disse
+Maria de Jesus, com ar de mysterio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem o milagre!&#8213;respondeu D. Doroth&eacute;a.&#8213;Por essa estou
+eu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
+mesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; mais do que certo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, a tia Doroth&eacute;a tambem com crendices!&#8213;disse Henrique,
+rindo.&#8213;Ent&atilde;o parece-lhe que traz espirito aquella
+crean&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, menino, aquillo a falar a verdade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o &eacute; mais natural supp&ocirc;r que
+alguem lhe ensinou os taes versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e
+at&eacute; que aquelles n&atilde;o calhavam bem nas
+l&ocirc;as? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Pertunhas &eacute; um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo
+&aacute; pequena e at&eacute; suspeito com que fim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim.
+Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas
+t&atilde;o bonitas, que nem um livro. A senhora n&atilde;o se
+lembra? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se lembra! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digam-me&#8213;insistiu Henrique.&#8213;Quem ha aqui na aldeia que
+fa&ccedil;a versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos!&#8213;repetiu a D. Doroth&eacute;a, admirada.&#8213;Ninguem, que eu
+saiba. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhora! Ent&atilde;o o Jo&atilde;o do Trolha?
+N&atilde;o deita t&atilde;o bonitos versos nos desafios? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem ser o Jo&atilde;o do Trolha&#8213;tornou Henrique, sorrindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, n&atilde;o se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito
+bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, n&atilde;o se
+lembra, senhora, dos versos que elle botou? <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Viva a senhora D.
+Doroth&eacute;a,<br />
+
+Raminho de bem-me-queres,<br />
+
+Quando p&otilde;e a sua touca<br />
+
+&Eacute; a rainha das mulheres.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[49]</span>
+&#8213;E depois a mim: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Viva a senhora Maria,<br />
+
+A perola das criadas,<br />
+
+Quando se chega
+&aacute; janella<br />
+
+Ficam as estrellas pasmadas.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora com o que voc&ecirc; vem, mulher! N&atilde;o tinham as
+estrellas mais que fazer do que pasmarem&#8213;disse D. Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; por dizer, senhora; j&aacute; se sabe que...
+sim... como o outro que diz... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E al&eacute;m do Jo&atilde;o do Trolha, quem ha mais que
+fa&ccedil;a versos?&#8213;perguntou Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que eu saiba...&#8213;disseram as duas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E aquelle Augusto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
+Credo! N&atilde;o, aquillo &eacute; um rapaz de muito juizo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o tira. Ent&atilde;o a tia julga que
+s&oacute; os tolos fazem versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tolos n&atilde;o digo, mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas um pouco feridos na aza, n&atilde;o &eacute; verdade? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora pois ent&atilde;o dize-me tu, menino, se um homem
+s&eacute;rio... sim... um homem de respeito, faz versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos, sim, senhora. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a fez um gesto de incredulidade. <br />
+
+<br />
+
+Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da
+entrada e ap&oacute;s algumas pancadas &aacute; porta da sala. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abra, tia Doroth&eacute;a&#8213;disseram de f&oacute;ra as vozes
+de Magdalena e de Christina, que f&ocirc;ram logo reconhecidas. <br />
+
+<br />
+
+E c&ecirc;do depois entravam alegremente na sala, em companhia de
+D. Victoria, que vinha mais retardada. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a levantou-se para recebel-as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[50]</span>
+&#8213;Bons dias ou boas tardes, tia Doroth&eacute;a, porque me parece
+que j&aacute; jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a
+tia Victoria, que n&atilde;o nos quer acompanhar a ouvir a palavra
+eloquente do missionario&#8213;disse a morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o; para apertos e barafundas &eacute; que
+n&atilde;o estou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu vaes, Lena? perguntou D. Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o? N&atilde;o quero passar por impenitente. Ainda
+o n&atilde;o ouvi. Pode crer? Al&eacute;m de que percebi na
+Christe um fervor, com o qual quiz condescender. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que pr&eacute;ga t&atilde;o bem&#8213;atalhou Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois pr&eacute;gar&aacute;, mas eu
+&eacute; que j&aacute; n&atilde;o estou para
+serm&otilde;es&#8213;ponderou D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou eu tambem ouvir o missionario&#8213;disse Henrique,
+levantando-se.&#8213;J&aacute; m'o mostraram ha dias. Se os dotes
+oratorios do homem corresponderem &aacute; figura... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;interrogou D. Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral,
+typo da grossura do pulso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bom &eacute; que v&aacute;s, menino&#8213;disse D.
+Doroth&eacute;a&#8213;para acompanhares as pequenas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como quizer, primo,&#8213;acudiu Magdalena&#8213;mas n&atilde;o se
+constranja. O Torquato tambem vae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer? Que me dispensa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; mas que se &eacute; s&oacute; por
+condescendencia que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; por prazer. &Eacute; por
+devo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso... <br />
+
+<br />
+
+E Henrique foi procurar o chap&eacute;o para acompanhar as duas
+primas &aacute; igreja. <br />
+
+<br />
+
+O Santo Amaro f&ocirc;ra festejado com espavento na freguezia da
+sua invoca&ccedil;&atilde;o. Vesperas, missa
+cantada, duplo serm&atilde;o, e prociss&atilde;o &aacute;
+volta da
+igreja, nada falt&aacute;ra para solemnisar a festa. <br />
+
+<br />
+
+O serm&atilde;o da manh&atilde; f&ocirc;ra
+pr&eacute;gado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao
+missionario, que o aproveit&aacute;ra para uma das suas
+catech&eacute;ses.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+A prociss&atilde;o j&aacute; tinha recolhido, quando chegaram
+&aacute; igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique
+e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e
+de caf&eacute;, como n'um arraial. <br />
+
+<br />
+
+Pela porta principal da igreja engolfava-se a multid&atilde;o, como
+em b&ocirc;ca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio,
+se precipitam as aguas impetuosas. <br />
+
+<br />
+
+A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
+missionario, attrahira immensa gente a escutar o serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
+popular, que se amontoava &aacute; porta da igreja, e conseguiram,
+por deferencia excepcional
+dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-m&oacute;r. <br />
+
+<br />
+
+Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella
+occasi&atilde;o. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e
+lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia,
+na maior parte mulheres de roupas escuras e em que s&oacute;
+alvejava o len&ccedil;o branco que usavam &aacute;
+cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
+dentro uma atmosphera quente, abafadi&ccedil;a e pouco salutar. <br />
+
+<br />
+
+Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
+ora&ccedil;&otilde;es e ladainhas,
+contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam l&aacute;
+f&oacute;ra, e requintava a triste
+impress&atilde;o que se recebia ao entrar. Alli um grupo de
+mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias
+ora&ccedil;&otilde;es, que
+uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em c&ocirc;ro com
+Padre-Nossos e Ave-Marias; al&eacute;m viam-se outras com as faces
+rojadas no ch&atilde;o, batendo no peito e desentranhando
+exclama&ccedil;&otilde;es, para
+commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de
+bra&ccedil;os abertos deante da imagem da Virgem; outras
+amortalhadas, em cumprimento de
+<span class="pagenum">[52]</span>
+promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia
+uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. &Aacute;s
+portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as
+lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para
+dentro a circumstanciada exposi&ccedil;&atilde;o dos peccados
+da semana, e recebendo de l&aacute; regras de bem viver, preceitos
+de
+devo&ccedil;&atilde;o, &aacute;s vezes exaggerada e
+inspirada de certa moral de conven&ccedil;&atilde;o, com que a
+ignorancia ou a
+m&aacute; f&eacute; porfiam em falsificar os simples e
+luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o
+Evangelho apreg&ocirc;a. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das
+confessadas; e exhausta de f&ocirc;r&ccedil;as, abatida
+de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos
+degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, sen&atilde;o
+hypocrita, lhe pint&aacute;ra
+inexoravel verdugo. Quando outra se n&atilde;o succedia a esta,
+via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de
+l&aacute; um padre de batina, s&oacute;cos
+e capote de cabe&ccedil;&atilde;o, satisfeito de si, e
+revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos,
+n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios
+de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos
+que dirigia pela intimida&ccedil;&atilde;o cruel. <br />
+
+<br />
+
+De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre &aacute; igreja, que
+nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com
+tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar. <br />
+
+<br />
+
+Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via. <br />
+
+<br />
+
+Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
+sentia exacerbarem-se-lhe as preven&ccedil;&otilde;es que
+nutria contra o clero, cuja influencia moral, ali&aacute;s justa e
+vantajosa, &eacute; cada
+vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam
+augmental-a por meios improprios
+<span class="pagenum">[53]</span>
+da sublimidade da sua miss&atilde;o e at&eacute; dos preceitos
+da religi&atilde;o, de que se dizem ministros. <br />
+
+<br />
+
+Henrique fez algumas reflex&otilde;es n'este mesmo sentido a
+Magdalena, que n&atilde;o p&ocirc;de deixar de apoial-as, tanto
+mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, n&atilde;o de
+todo superior a este apparato terrorifico. <br />
+
+<br />
+
+A hora marcada para o serm&atilde;o approximava-se; haviam-se
+j&aacute; evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada
+vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para
+f&oacute;ra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a
+porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a
+multid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
+hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a
+cabe&ccedil;a coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo
+do confessionario. <br />
+
+<br />
+
+Nem o menor movimento revelava anima&ccedil;&atilde;o n'aquelle
+vulto. <br />
+
+<br />
+
+Henrique not&aacute;ra essa immobilidade, que ao principio o fez
+sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar.
+Qual, por&eacute;m, n&atilde;o foi a sua surpreza e a de
+Magdalena, quando, ao terminar a confiss&atilde;o, reconheceram as
+fei&ccedil;&otilde;es
+da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e
+amoravel crean&ccedil;a, que, dias antes, tanto enthusiasmo
+caus&aacute;ra, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
+labios, que tanta gra&ccedil;a lhe davam! <br />
+
+<br />
+
+E era esta crean&ccedil;a que t&atilde;o longos peccados tinha
+a narrar, para assim ficar tanto tempo aos p&eacute;s do confessor?
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, vagarosa, tr&eacute;mula, tendo claros os vestigios de
+lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os
+grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado
+da madrinha e c&ecirc;do rojava com ella a fronte no
+ch&atilde;o, que regava de lagrimas ferventes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[54]</span>
+Pobre crean&ccedil;a! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas?
+Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor? <br />
+
+<br />
+
+O confessionario d'onde ella se afast&aacute;ra, abriu-se, emfim, e
+&aacute;s vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre
+gordo, c&oacute;rado, de olhos e fronte pequenos, cabellos
+grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum
+tempo a fitar o auditorio. <br />
+
+<br />
+
+Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum
+animou aquellas cabe&ccedil;as todas, quando este homem appareceu. <br />
+
+<br />
+
+Era o missionario. <br />
+
+<br />
+
+A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
+triumphal. Curvaram-se at&eacute; ao ch&atilde;o as beatas,
+beijando-lhe a m&atilde;o ou as
+borlas da batina, e pedindo-lhe a ben&ccedil;&atilde;o, que
+elle
+distribuia com profus&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
+do ch&atilde;o um estorvo. <br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle,
+gesticulando e realisando um triplice e admiravel esfor&ccedil;o
+para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para
+desembara&ccedil;ar a lingua. <br />
+
+<br />
+
+Dizia o homem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. aquelle... &oacute; sr. padre, ou missionario,
+ou l&aacute; o que &eacute;... eu quero-lhe perguntar uma
+coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religi&atilde;o manda...
+Quando um homem se casa... <br />
+
+<br />
+
+O missionario n&atilde;o esperou pelo fim da inesperada
+interpella&ccedil;&atilde;o; com modos rudes e pulso vigoroso
+arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de c&oacute;lera: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que desaf&ocirc;ro &eacute; este? Deixam um
+homem n'este estado vir ter commigo?! <br />
+
+<br />
+
+E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo,
+que rira do desengano do Z&eacute; P'reira. Os mordomos acudiram
+logo para afastarem o Z&eacute; P'reira d'alli para
+f&oacute;ra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[55]</span>
+&#8213;Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!
+Ent&atilde;o uma pessoa n&atilde;o pode dizer o que sente? <br />
+
+<br />
+
+Ia elle j&aacute; f&oacute;ra da igreja e ainda se lhe ouvia a
+voz repetir: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha! <br />
+
+<br />
+
+Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
+este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas
+n&atilde;o
+&eacute; mais de magarefe do que de pastor? <br />
+
+<br />
+
+O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
+vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio
+pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora. <br />
+
+<br />
+
+O padre entrou para a sacristia. <br />
+
+<br />
+
+No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o serm&atilde;o,
+o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto. <br />
+
+<br />
+
+No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
+pouco attrahente do famigerado educador dos povos. <br />
+
+<br />
+
+Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
+Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
+firmeza. <br />
+
+<br />
+
+Esta tacita provoca&ccedil;&atilde;o durou alguns minutos, no
+fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos
+labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de
+cabe&ccedil;a quasi amea&ccedil;ador: <br />
+
+<br />
+
+Emfim soltou o texto latino do serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se nova pausa, e principiou. <br />
+
+<br />
+
+Apesar do exemplo de Sterne, que n&atilde;o duvidou entresachar nas
+paginas humoristicas da <em>Vida e opini&otilde;es de
+Tristam Shandy</em>, um
+serm&atilde;o sobre a consciencia, eu n&atilde;o ouso
+transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo
+missionario n'aquelle dia. <br />
+
+<br />
+
+Ainda se eu pud&eacute;sse transmittir aos leitores o
+<span class="pagenum">[56]</span>
+tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o
+decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a
+recita&ccedil;&atilde;o dos descosidos periodos d'aquella
+indigesta pr&aacute;tica, talvez me animasse &aacute; empreza,
+para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda
+atrazando a
+civilisa&ccedil;&atilde;o do povo e prejudicando a verdadeira
+religi&atilde;o, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz
+&eacute; abafada por aquella gritaria. <br />
+
+<br />
+
+As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso. <br />
+
+<br />
+
+Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
+fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
+um jejum mal guardado, uma confiss&atilde;o mal feita, uma
+involuntaria falta &aacute; missa, uma penitencia esquecida, uma
+ora&ccedil;&atilde;o supprimida, arriscava as almas por toda a
+eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem
+fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde
+os autos de f&eacute;, os p&ocirc;tros, e cavalletes aguardavam
+os delinquentes arrastados at&eacute; alli; eis o resumo da
+ora&ccedil;&atilde;o. A fatal e desesperadora
+senten&ccedil;a, que o poeta florentino esculpiu no portico do
+inferno, tra&ccedil;ava-a este sobre os umbraes do tribunal do
+Eterno. <br />
+
+<br />
+
+Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
+de um accusador, surgindo alli a pedir vingan&ccedil;a, e
+n&atilde;o o do Redemptor
+sublime a implorar e prometter perd&atilde;o. E tudo isto de
+mistura com impreca&ccedil;&otilde;es contra as modernas
+institui&ccedil;&otilde;es sociaes, contra a obra do seculo,
+contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se
+descobrisse o cunho da &eacute;poca e que tendesse a modificar os
+costumes e as ideias em sentido menos favoravel &aacute; propaganda
+reaccionaria. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que a ora&ccedil;&atilde;o progredia,
+animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava
+a selvageria das imagens. <br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo os gemidos, os solu&ccedil;os e os
+<span class="pagenum">[57]</span>
+ais do auditorio, e principalmente da parte
+feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos.
+C&ecirc;do era j&aacute; um angustioso clamor em toda a igreja.
+Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este
+espectaculo de desola&ccedil;&atilde;o, voltou os olhos para
+Christina. Viu-a
+tr&eacute;mula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo
+no gesto todos os signaes de um intenso pavor. <br />
+
+<br />
+
+Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
+tacitamente lhe communicou as apprehens&otilde;es que sentia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia
+que se estava exercendo no animo timido de Christina. <br />
+
+<br />
+
+Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
+com commentarios satyricos &aacute;s palavras do serm&atilde;o
+e &aacute; figura do
+orador, que ambas offereciam farto alimento para elles. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco Magdalena instava j&aacute; com Henrique para que se
+calasse. <br />
+
+<br />
+
+Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles
+commentarios improprios do logar. <br />
+
+<br />
+
+Effectivamente n&atilde;o tinham passado despercebidos, do padre os
+commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfar&ccedil;ados de
+Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava
+mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; n&atilde;o podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e
+por vezes a c&oacute;lera, estrangulando-lhe quasi a larynge,
+interrompera-lhe o discurso. <br />
+
+<br />
+
+Alguns ouvintes, seguindo a direc&ccedil;&atilde;o d'aquelles
+olhares faiscantes, haviam attingido j&aacute; a causa d'elles. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi algumas murmura&ccedil;&otilde;es que principiaram a
+sussurrar pela igreja. <br />
+
+<br />
+
+No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, f&ocirc;ram ellas
+mais acerbas do que nenhumas. A sr.<sup>a</sup>
+<span class="pagenum">[58]</span>
+Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a
+impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no
+cora&ccedil;&atilde;o da filha do Cancella,
+dominado pelo terror que o serm&atilde;o lev&aacute;ra ao
+cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
+f&ocirc;ssem j&aacute; prezas do inferno, para
+Magdalena e Christina, a irm&atilde; e a prima de Angelo, do seu
+amigo de infancia, em quem j&aacute; n&atilde;o se atrevia a
+pensar. <br />
+
+<br />
+
+N'uma occasi&atilde;o em que o missionario fulminava com mais
+vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do
+demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e
+&aacute;s vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das
+duas primas, fez n&atilde;o sei que reflex&atilde;o tanto a
+proposito, que a morgadinha n&atilde;o conteve o riso; a propria
+Christina sorriu tambem. <br />
+
+<br />
+
+Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as
+faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os
+bra&ccedil;os hirtos e estendidos na direc&ccedil;&atilde;o
+de Henrique, rompeu
+n'estes violentos termos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;F&oacute;ra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui
+escarnecer da palavra do Senhor! F&oacute;ra do templo, impios
+libertinos, que n&atilde;o respeitaes os ministros de Deus, nem o
+seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas
+na casa do Senhor! Escorra&ccedil;ae-os, irm&atilde;os, se
+n&atilde;o quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus
+arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. S&atilde;o
+esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; s&atilde;o
+estas as pragas que nos veem com as estradas e com a
+civilisa&ccedil;&atilde;o. Fugi
+d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religi&atilde;o,
+mulheres sem temor de Deus,
+ma&ccedil;&otilde;es, pedreiros livres, vindes para aqui
+tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
+requeiro! Vade retr&oacute;, Satanaz, vade retr&oacute;! vade
+retr&oacute;!... <br />
+
+<br />
+
+E de cada vez que repetia a f&oacute;rmula exorcista, o
+<span class="pagenum">[59]</span>
+missionario estendia o bra&ccedil;o na
+direc&ccedil;&atilde;o de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Este, desde que viu que a impreca&ccedil;&atilde;o lhe era
+dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente.
+Preparava-se para lhe responder alli mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
+desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
+m&aacute; vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que
+se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As
+amea&ccedil;as soavam j&aacute; distinctas, os varapaus
+mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tom&aacute;ra
+propor&ccedil;&otilde;es assustadoras. <br />
+
+<br />
+
+Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
+presen&ccedil;a de espirito, que nunca a abandonava, segurou o
+bra&ccedil;o de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique resistia e procurava falar. <br />
+
+<br />
+
+O velho Torquato, tr&eacute;mulo e enfiado, puxava tambem por elle
+como podia. <br />
+
+<br />
+
+O alarido, a confus&atilde;o, a desordem recrudesciam. O padre
+tinha perdido a cabe&ccedil;a, e do pulpito animava a anarchia,
+berrando e bracejando. <br />
+
+<br />
+
+Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
+havia na freguezia, obrigaram, quasi &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a, Henrique a sair da
+igreja por a porta da sacristia. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;l-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo
+precipitou-se em confus&atilde;o para a porta principal, para os
+vir esperar &aacute; sa&iacute;da da sacristia, e correu
+clamando atordoadoramente. <br />
+
+<br />
+
+E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma
+impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam
+furiosos, de bra&ccedil;os que os amea&ccedil;avam, e de
+b&ocirc;cas d'onde partiam gritos de &laquo;morte aos pedreiros
+livres, aos libertinos e aos herejes.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+Henrique parou &aacute; porta, pallido, mas sem recuar deante
+d'aquella gente furiosa e amea&ccedil;adora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querem de mim e d'estas senhoras?&#8213;perguntou elle, com voz firme.
+<br />
+
+<br />
+
+Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morra o pedreiro livre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ensinem esses senhores da cidade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouca vergonha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto n&atilde;o fica assim! Isto &eacute; de mais! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ma&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hereje! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero passar!&#8213;repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de ensinar estes fidalgos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Excommungados! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de lhes dar os risinhos na egreja. <br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o podia j&aacute; reprimir a impetuosidade do
+genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na
+m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
+varapaus cruzou-se sobre a cabe&ccedil;a d'elle. <br />
+
+<br />
+
+E os gritos de &laquo;morra! mata! abaixo os pedreiros livres e
+herejes!&raquo; levantaram-se mais amea&ccedil;adores do que
+antes. Magdalena susteve, a tremer, o bra&ccedil;o de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo. <br />
+
+<br />
+
+Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
+sacristia, e na qu&eacute;da amea&ccedil;ava ferir a
+cabe&ccedil;a de uma crean&ccedil;a
+que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se
+junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia &aacute;quillo
+tudo com infantil curiosidade, emquanto a m&atilde;e afflicta a
+chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo
+as m&atilde;os para proteger a cabe&ccedil;a da
+crean&ccedil;a, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto
+<span class="pagenum">[61]</span>
+sereno, e em tom desaffectadamente
+reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o v&ecirc;em que iam matando esta
+crean&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+Esta simples ac&ccedil;&atilde;o, e estas palavras da
+morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas
+as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa,
+e a generosidade foi e ser&aacute; sempre um dos mais poderosos
+elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores
+politicos, que tanto se esfor&ccedil;am por simulal-a, quando
+precisam do povo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem foi que atirou a pedra?&#8213;perguntou um. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos tolice! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada de pedra, ol&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o isto &eacute; coisa de garotos! <br />
+
+<br />
+
+Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
+&laquo;morra&raquo; achavam j&aacute;
+reprehensivel a primeira tentativa de lapida&ccedil;&atilde;o.
+E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a
+senten&ccedil;a. Era evidente que o maior perigo
+pass&aacute;ra e que um pouco de prudencia resolveria a crise. <br />
+
+<br />
+
+O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
+irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
+apesar dos esfor&ccedil;os de Christina e de Torquato para o
+reprimirem. <br />
+
+<br />
+
+Uma circumstancia, por&eacute;m, veio inesperadamente em auxilio
+d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade. <br />
+
+<br />
+
+Foi o caso que, depois de ser posto f&oacute;ra da igreja o
+Z&eacute;-P'reira, que,
+pelas raz&otilde;es que o leitor j&aacute; sabe, e inda mais
+depois do mallogro da
+interpella&ccedil;&atilde;o ao missionario, n&atilde;o
+olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no
+adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular
+tambor, instrumento das
+<span class="pagenum">[62]</span>
+suas
+glorias, e que ainda n'aquelle dia servira &aacute; frente da
+prociss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ahi se conservou em quanto durou o serm&atilde;o. Junto do artista
+deit&aacute;ra-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o
+que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e
+febris que o outro executava na caixa&#8213;pancadas que eram, por assim
+dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos. <br />
+
+<br />
+
+Em posi&ccedil;&atilde;o de cansa&ccedil;o e desalento o
+Z&eacute; P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha
+o cerebro repassado do espirito familiar. <br />
+
+<br />
+
+Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmaz&ecirc;lo domestico da
+sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das
+familias, e sobre tudo a indifferen&ccedil;a que principiava a
+perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que
+elle conhecia a preceito. <br />
+
+<br />
+
+Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do
+hortel&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
+philarmonica na aldeia, Z&eacute; P'reira andava triste e
+desassocegado. <br />
+
+<br />
+
+N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um <em>ceci tuera cela</em>,
+como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de
+Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e
+g&ocirc;sto publico entravam em nova phase, preparava-se uma
+revolu&ccedil;&atilde;o na arte. O reformador era o mestre
+Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia
+romantica comparada &aacute; simplicidade e nobreza classica dos
+portentosos rufos do Z&eacute; P'reira, o mestre de latim realisou
+um commetimento digno de men&ccedil;&atilde;o na historia da
+arte. <br />
+
+<br />
+
+Pobre Z&eacute; P'reira! <br />
+
+<br />
+
+Estas reflex&otilde;es estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o,
+havia perto de uma hora, em uma posi&ccedil;&atilde;o
+contemplativa deante do tombado
+instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se
+<span class="pagenum">[63]</span>
+n'aquelles olhares fixos uma melancolia
+quasi poetica. <br />
+
+<br />
+
+N'esta contempla&ccedil;&atilde;o o surprehendeu a tumultuosa e
+subita sa&iacute;da do povo pela porta da igreja, e as scenas de
+motim que se lhe seguiram. A intelligencia p&ecirc;rra de
+Z&eacute; P'reira n&atilde;o achou logo a
+explica&ccedil;&atilde;o do que via. Pouco a pouco
+por&eacute;m os varapaus no ar, os gritos, a confus&atilde;o,
+principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular. <br />
+
+<br />
+
+Os instinctos ordeiros e pacificos de Z&eacute; P'reira acordaram,
+e o homem ergueu-se. <br />
+
+<br />
+
+Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
+tiracollo a al&ccedil;a do tambor. <br />
+
+<br />
+
+Olhou outra vez, e com um pontap&eacute; acordou o seu satellite,
+que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do
+acompanhamento. <br />
+
+<br />
+
+Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena.
+Ent&atilde;o o Z&eacute; P'reira n&atilde;o
+esperou mais nada, tomou uma resolu&ccedil;&atilde;o, fez um
+signal ao rapaz, e... <br />
+
+<br />
+
+<em>Pom</em>&#8213;fez a baqueta d'este, caindo
+com toda a f&ocirc;r&ccedil;a sobre a retesada superficie do
+bombo. <br />
+
+<br />
+
+<em>Tapl&atilde;o, tapl&atilde;o,
+ratapl&atilde;o,
+ratapl&atilde;o</em>...&#8213;responderam as baquetas movidas
+pelas amestradas m&atilde;os do Z&eacute; P'reira. <br />
+
+<br />
+
+Muitas cabe&ccedil;as de amotinados voltaram-se na
+direc&ccedil;&atilde;o do som. <br />
+
+<br />
+
+O Z&eacute; P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o
+jogo das baquetas; come&ccedil;ava a ganhal-o o vapor do
+enthusiasmo. <br />
+
+<br />
+
+Principiou a acudir o povo para junto do artista. <br />
+
+<br />
+
+Este tom&aacute;ra-se j&aacute; do
+<em>raptus</em>, do phrenesi musical. J&aacute;
+n&atilde;o eram s&oacute; as m&atilde;os,
+eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabe&ccedil;a que
+rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas
+offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do
+pesco&ccedil;o, a vergal-o para traz, Z&eacute; P'reira
+<span class="pagenum">[64]</span>
+parecia endemoninhado.
+N&atilde;o via, n&atilde;o ouvia,
+n&atilde;o sentia, n&atilde;o tinha consciencia de si, nem dos
+seus actos; todo elle era fogo, delirio, convuls&atilde;o, febre,
+loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do
+tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles
+movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens
+extravagantes, aquellas contrac&ccedil;&otilde;es geraes, que o
+torciam, desconjunctavam e desfiguravam. <br />
+
+<br />
+
+Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro,
+tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou,
+rufou com desespero, rufou at&eacute; as baquetas se n&atilde;o
+avistarem, de rapidas que se moviam; rufou at&eacute; o ouvido
+quasi n&atilde;o perceber a descontinuidade dos sons; rufou
+finalmente at&eacute; cair por terra exhausto, no collapso que
+succede &aacute;s convuls&otilde;es do espasmo. Se tinha de ser
+aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam
+t&atilde;o esplendido crepusculo. <br />
+
+<br />
+
+O povo inteiro applaudiu o artista. <br />
+
+<br />
+
+E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam
+j&aacute; fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da
+familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XX </h4>
+
+<br />
+
+Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da
+aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos. <br />
+
+<br />
+
+O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe
+&eacute; impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma
+terra, mal pode fazer ideia da sensa&ccedil;&atilde;o que
+produz no habitante de
+<span class="pagenum">[65]</span>
+uma aldeia, villa ou cidade
+pequena, a presen&ccedil;a de uma cara estranha. <br />
+
+<br />
+
+Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta
+curiosidade instiga-o a decifrar a significa&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle apparecimento. <br />
+
+<br />
+
+Isto aconteceu com o Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, n&atilde;o tirou
+mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e
+largos chap&eacute;os, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas
+escuras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Passaros de arriba&ccedil;&atilde;o...&#8213;pensava o Herodes
+comsigo&#8213;que vento traria isto para aqui? <br />
+
+<br />
+
+E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente. <br />
+
+<br />
+
+Um d'elles dirigiu-lhe a palavra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, &oacute; amigo, onde ha por aqui uma casa
+habitavel, em que nos alojemos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por pouco ou por muito tempo, meu amo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o v. sr.<sup>as</sup> s&atilde;o
+engenheiros? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que sim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, visto isso, as estradas sempre v&atilde;o
+principiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que
+n&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, n&atilde;o tem nada que
+saber; os meus amos v&atilde;o por ahi sempre a direito, e
+l&aacute; adeante, chegando ao
+p&eacute; de uma oliveira, tomam &aacute; sua m&atilde;o
+esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois,
+logo que virem uma nora, carregam &aacute;
+direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, at&eacute;
+chegarem &aacute; eira; ahi tomam por um outro
+atalho, que est&aacute; ao lado e v&atilde;o dar a um
+larguinho... Depois n&atilde;o tem que saber, deitam pela rua em
+frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span>
+Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a
+explica&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma
+rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os
+engenheiros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se v. s.<sup>as</sup> querem, esta pequena vae
+ensinar-lhes o caminho. <br />
+
+<br />
+
+Acceitaram contentes, e c&ecirc;do partiam, precedidos por a
+pequena cicerone. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grande novidade!&#8213;ficou dizendo o Cancella comsigo&#8213;sim, senhor; com
+que v&atilde;o principiar as estradas! Pois nunca cuidei que
+f&ocirc;sse nos meus dias. Ent&atilde;o... querem v&ecirc;r
+que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o
+quintal do tio Vicente?... Pois se querem v&ecirc;r... O
+pobre homem estala de paix&atilde;o, se isso assim &eacute;;
+isso
+&eacute; com certeza... Pois, senhores... isto de estradas...
+&eacute; bom, &eacute;; pois n&atilde;o &eacute;?
+Sempre
+&eacute; outro arranjo para quem tem de ir &aacute; cidade... <br />
+
+<br />
+
+Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe
+ainda, divisou affixado &aacute; porta da igreja um edital. Outra
+circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a
+cabe&ccedil;a, por&eacute;m que nas aldeias toma as
+propor&ccedil;&otilde;es de um grande successo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ui! Temos novidade&#8213;disse o Herodes ao v&ecirc;l-o.&#8213;Edital
+&aacute; porta da igreja!&#8213;e approximou-se
+para ler. <br />
+
+<br />
+
+Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens
+terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente
+prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da
+igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim j&aacute;
+construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e
+murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de
+opposi&ccedil;&atilde;o e motim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom, mais outra!&#8213;dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.&#8213;Grandes
+coisas se passaram c&aacute;
+<span class="pagenum">[67]</span>
+na terra, emquanto eu andei por f&oacute;ra! O peor &eacute;
+que n&atilde;o sei se a coisa ir&aacute; assim &aacute;s
+m&atilde;os
+lavadas; ao que j&aacute; ou&ccedil;o por ahi rosnar!...
+&Eacute; o
+diabo!... Eu digo, n&atilde;o sei se &eacute; do costume em que
+uma pessoa se p&otilde;e... mas... lembrar-se, a gente de que fica
+assim &aacute; chuva e ao sol... Mas &eacute; do costume,
+&eacute;... Bem sente l&aacute; uma pessoa o frio depois de
+morta. <br />
+
+<br />
+
+E fazendo estas reflex&otilde;es proseguiu no seu caminho. <br />
+
+<br />
+
+Passou por uma pequena capella, erecta &aacute; borda de um
+pinheiral, sob a invoca&ccedil;&atilde;o da Virgem da
+Esperan&ccedil;a, e reteve-se a fazer ora&ccedil;&atilde;o.
+&Aacute;quella imagem costumava encommendar a filha, sempre que
+sa&iacute;a da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas
+ora&ccedil;&otilde;es a protec&ccedil;&atilde;o obtida,
+e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez,
+por&eacute;m, ficou triste e sobresaltado. Porqu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que se lembr&aacute;ra de que tinha, ao partir,
+deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a
+iria achar. <br />
+
+<br />
+
+Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,
+tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros
+da casa parou irresoluto. <br />
+
+<br />
+
+Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para n&oacute;s
+um mesmo aspecto. Ha occasi&otilde;es em que as casas, as arvores,
+os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e
+quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o
+cora&ccedil;&atilde;o; outras em que umas apparencias de
+sorrisos lhes d&atilde;o uns ares de festa que alegram e convidam. <br />
+
+<br />
+
+Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao
+avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas. <br />
+
+<br />
+
+Seria o effeito das tintas desmaiadas, que d&aacute; aos objectos o
+sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe
+estavam confrangendo o cora&ccedil;&atilde;o? Mas como lhe
+acudiram t&atilde;o de subito
+<span class="pagenum">[68]</span>
+esses presentimentos, a
+elle, ainda pouco tempo havia t&atilde;o despreoccupado! Como lhe
+occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de
+f&oacute;ra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava
+ainda, a m&atilde;e de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte
+obscura da vida moral, da qual ainda a analyse n&atilde;o conseguiu
+devassar as sombras. <br />
+
+<br />
+
+Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os p&eacute;s nos
+primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre,
+n&atilde;o tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza. <br />
+
+<br />
+
+Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que
+encontrou aberta. <br />
+
+<br />
+
+Logo ao entrar, recuou espantado e n&atilde;o reprimiu uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de surpreza. <br />
+
+<br />
+
+F&ocirc;ra a causa o achar novidades na primeira sala. <br />
+
+<br />
+
+Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que
+cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que
+n&atilde;o deix&aacute;ra alli ao partir. E ninguem a
+recebel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&eacute;do!&#8213;disse o Cancella, desgostoso.&#8213;Para longe o
+agouro! Cruzes negras &aacute; chegada! S&atilde;o
+coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na
+cabe&ccedil;a da rapariga, e se n&atilde;o lhe
+acudo...&#8213;Ermelinda!&#8213;exclamou, chamando por a filha. <br />
+
+<br />
+
+Como n&atilde;o recebesse resposta, passou para os aposentos
+interiores. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; entrada do corredor descobriu uma pequena pia de
+lou&ccedil;a cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de
+alecrim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau!&#8213;disse o Herodes, cada vez mais descontente.&#8213;Vou vendo que a
+minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...
+Ermelinda! <br />
+
+<br />
+
+E correu toda a casa, que n&atilde;o tinha muito que correr, e
+explorou o quintal, e sem achar a filha; j&aacute; inquieto, chegou
+a um quarto mais retirado, o
+<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span>
+unico
+que ainda n&atilde;o revist&aacute;ra. A porta estava
+fechada por dentro, por&eacute;m a p&eacute;quena cravelha
+fraca resistencia oppoz &aacute; press&atilde;o que na porta
+exerceu o Herodes. <br />
+
+<br />
+
+Franqueando assim a passagem, parou no limiar. <br />
+
+<br />
+
+Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um
+canto escuro do quarto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tu, Linda? Est&aacute;s ahi?&#8213;perguntou o Cancella,
+affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer, <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae... respondeu com voz fraca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este
+quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa?
+Chega-te c&aacute;, rapariga, quero-te abra&ccedil;ar e
+beijar... Ent&atilde;o que &eacute;
+isso?... Tens hoje t&atilde;o pouca pressa de abra&ccedil;ar
+teu pae?... D'antes, at&eacute; ao caminho me vinhas esperar... Vem
+c&aacute;, minha
+filha, vem c&aacute;... Se soubesses como me consola... <br />
+
+<br />
+
+E estendia os bra&ccedil;os para a filha, que lhe viera emfim ao
+encontro. Quando, por&eacute;m, a viu mais perto da luz, calou-se
+subitamente e principiou a <a href="#e6">examinal-a</a>
+com inquieta anciedade. Depois, como se lhe
+n&atilde;o bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer
+n&atilde;o sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe,
+silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a
+com os olhos eloquentes de paix&atilde;o e de espanto, bradando
+emfim, com voz consternada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isto!... Que tens tu, filha?... Est&aacute;s
+doente? Estas n&atilde;o s&atilde;o as tuas
+fei&ccedil;&otilde;es... Os olhos pisados... as faces
+abatidas... sem c&ocirc;r... sem risos... sem saude!... Linda, tu
+que tens? Dize: choraste, filha? Est&aacute;s doente? Fala! Anda,
+fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala! <br />
+
+<br />
+
+A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! Isto que &eacute;, meu Deus?&#8213;exclamava, mais
+assustado, o pae.&#8213;Choras ainda mais?
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Que te fizeram, filha? &Oacute; Linda, tu
+n&atilde;o tens pena de mim? n&atilde;o chores!... Ou chora,
+chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me
+por que choras, filha... Ent&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+E com voz tr&eacute;mula, com as m&atilde;os unidas e o susto
+no gesto, como no cora&ccedil;&atilde;o, o pobre homem quasi
+ajoelhava a implorar da filha a explica&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle doloroso mysterio. <br />
+
+<br />
+
+Como ella n&atilde;o respondesse ainda, continuou o afflicto pae,
+cada vez mais commovido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai os presentimentos do meu cora&ccedil;&atilde;o!
+N&atilde;o sei o que me dizia isto! N&atilde;o sei! Meu Deus,
+meu Deus! E como te pareces com tua m&atilde;e n'aquelle dia em
+que... Nem quero imaginar... &Oacute; filha, filha, n&atilde;o
+v&ecirc;s que me matas assim? Fala! <br />
+
+<br />
+
+E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais
+lagrimas desafiavam &aacute; crean&ccedil;a, sem que a fizessem
+falar. <br />
+
+<br />
+
+Nos movimentos desordenados que fazia, o desgra&ccedil;ado parecia
+louco. Elle apertava as m&atilde;os da filha, levava-as aos labios,
+abra&ccedil;ava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no ch&atilde;o;
+ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse,
+n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto. <br />
+
+<br />
+
+Como para melhor examinar aquellas fei&ccedil;&otilde;es
+queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da
+fronte da crean&ccedil;a, com as m&atilde;os
+tr&eacute;mulas, o len&ccedil;o que lhe envolvia a
+cabe&ccedil;a; mas de repente retirou-as, soltando um grito
+medonho, ergueu-se e recuou com terror. <br />
+
+<br />
+
+Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma
+palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no
+corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril
+o len&ccedil;o da cabe&ccedil;a de Ermelinda; um novo grito,
+mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos
+solu&ccedil;os, sa&iacute;u-lhe do seio, e elle, o
+desgra&ccedil;ado pae, desatou a chorar como uma
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda,
+<span class="pagenum">[71]</span>
+que com tanto amor beijava, que com
+tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu
+cora&ccedil;&atilde;o de pae, aquelles cabellos
+louros haviam ca&iacute;do aos golpes de uma tesoura desapiedada e
+quasi irreverente. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; quem f&ocirc;r pae pode conceber toda a desesperadora
+afflic&ccedil;&atilde;o em que esta descoberta
+lan&ccedil;ou o cora&ccedil;&atilde;o d'aquelle. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda caiu-lhe aos p&eacute;s, de joelhos, chorando tambem. <br />
+
+<br />
+
+Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro sen&atilde;o os
+solu&ccedil;os de ambos. <br />
+
+<br />
+
+A reac&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se fez,
+por&eacute;m, esperar muito no animo violento do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Afastou com vivacidade as m&atilde;os do rosto, ergueu a
+cabe&ccedil;a, e, com os olhos inflammados de raiva e de
+c&oacute;lera, disse para a filha, tremendo e
+gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe
+amontoavam no cora&ccedil;&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem foi?!... Responde! De quem foi essa m&atilde;o atrevida que
+fez isto?... Fala! N&atilde;o ouves? Quero sabel-o, para cortal-a
+mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgra&ccedil;ada,
+tu, consentiste! M&aacute; filha, filha desagradecida e sem
+cora&ccedil;&atilde;o, que assim deixas que me roubem as minhas
+riquezas e alegrias! A teu pae!... &Eacute; assim que pagas o amor
+com que te tenho creado?... a adora&ccedil;&atilde;o com que de
+pequenina te tratei? &Eacute; assim? &Eacute; com este
+desamor?! e com esta ingratid&atilde;o?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae! meu pae!&#8213;implorava Ermelinda, suffocada pelo
+pranto.&#8213;Perd&ocirc;e! N&atilde;o se affiija
+assim, meu pae, que me mata! N&atilde;o v&ecirc;?... Escute...
+Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A
+vaidade &eacute; um peccado grande. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?
+Fala!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por alma de minha m&atilde;e, n&atilde;o me fale assim, que
+me assusta! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;! Pois j&aacute; n&atilde;o falo... Eu estou
+socegado...
+<span class="pagenum">[72]</span>
+Mas ent&atilde;o? eu n&atilde;o hei de saber?... Bem
+v&ecirc;s que eu prec&iacute;so de saber!... V&aacute;!...
+Eu sou teu
+pae. Ordeno... Pe&ccedil;o... Dize, filha, quem foi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O missionario...&#8213;ia a dizer Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+O pae n&atilde;o a deixou proseguir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! J&aacute; sei! O missionario! &Eacute; isso! Os padres...
+as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a
+entrega assim! Vendeu-m'a &aacute;s m&atilde;os d'esses
+malvados sem
+d&oacute;, sem consciencia, sem religi&atilde;o, sem Deus... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae, n&atilde;o diga isso! N&atilde;o fale assim, que
+&eacute; peccado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu
+pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...
+Deus? Se Deus &eacute; assim, se Deus quer estas crueldades... Deus
+n&atilde;o &eacute; Deus, e eu n&atilde;o o
+reconhe&ccedil;o nem adoro! <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a
+irrita&ccedil;&atilde;o e o desespero estavam dictando ao pae.
+A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases
+audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava v&ecirc;r
+cair um raio fulminador a castigal-as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus&#8213;murmurava ella, com a voz chorosa e quasi
+sumida&#8213;por alma de minha m&atilde;e!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te! n&atilde;o fales em tua m&atilde;e, que
+n&atilde;o mereces dizer esse nome! Tua m&atilde;e! Aquella
+sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me
+n&atilde;o causar penas, e que s&oacute; com a sua morte me fez
+chorar lagrimas, t&atilde;o amargas e tantas, como eu choro agora! <br />
+
+<br />
+
+E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e
+valente, chorava, porque tinha um cora&ccedil;&atilde;o de pae.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda lan&ccedil;ou-se-lhe nos bra&ccedil;os, cobrindo-o de
+afagos e beijos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, meu pae! perd&ocirc;e-me!&#8213;dizia ella.&#8213;Se
+soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que
+<span class="pagenum">[73]</span>
+sonhei... N&atilde;o chore assim, meu
+pae! N&atilde;o culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha
+madrinha!... Foi por a salva&ccedil;&atilde;o da minha alma,
+porque... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E foi tua madrinha que t'os cortou? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, mas... &Eacute; que o missionario tinha dicto... O
+missionario &eacute; um santo!... N&atilde;o olhe para mim
+d'esse modo, meu pae, que me faz m&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+E cobria os olhos com as m&atilde;os, para n&atilde;o ver a
+express&atilde;o do rosto do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem matar-me a filha&#8213;bradava elle.&#8213;&Oacute; meu Deus! pois
+n&atilde;o &eacute; isto um grande peccado? fazer da
+crean&ccedil;a, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta
+desgra&ccedil;ada rapariga, sem c&ocirc;r, sem risos, sem
+alegria! N&atilde;o &eacute; isto um crime, meu Deus?
+N&atilde;o se vos pode amar e servir, Senhor, sen&atilde;o com
+lagrimas, com penitencias e com tristezas? N&atilde;o! Mentem
+elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e
+maldicto seja quem traz assim o desespero ao
+cora&ccedil;&atilde;o de um pae. <br />
+
+<br />
+
+E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,
+cada vez mais gelada de terror e afflic&ccedil;&atilde;o. Deu
+alguns passos no
+corredor, e voltou ao quarto onde a encontr&aacute;ra. Ella
+seguiu-o de m&atilde;os postas, chorando, pedindo-lhe que se
+n&atilde;o affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela
+impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os
+olhos no registo do Cora&ccedil;&atilde;o de Maria, que alli
+f&ocirc;ra introduzido por a mulher do Z&eacute; P'reira.
+Estava adornado com jarras de flores e v&eacute;las de
+c&ecirc;ra; era a esta imagem que Ermelinda fazia
+ora&ccedil;&atilde;o, quasi extatica, quando o pae
+entrou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cora&ccedil;&atilde;o de Maria!&#8213;disse o Cancella, quasi
+desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para
+si.&#8213;Cora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e,
+e de m&atilde;e extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores.
+Soube o que &eacute; querer a um filho, o que &eacute;
+v&ecirc;l-o padecer... o que &eacute; perdel-o... E
+ser&aacute; ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte
+d'esta
+<span class="pagenum">[74]</span>
+crean&ccedil;a?... as
+desventuras de um pae?... Ella! N&atilde;o! E se tu o
+queres&#8213;continuou allucinado, voltando-se para a imagem&#8213;e se
+n&atilde;o podes ser adorada sen&atilde;o assim, &eacute;
+porque &eacute;s falsa, falsa
+como a m&atilde;o que ahi te pintou, falsa como as b&ocirc;cas
+que te pr&eacute;gam os milagres. Vae-te! <br />
+
+<br />
+
+E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o
+caixilho, as jarras e os casti&ccedil;aes pelo ar, e tudo veio
+fazer-se peda&ccedil;os no pavimento. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao v&ecirc;r
+aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as
+faces quasi lividas, as m&atilde;os juntas, quiz falar, mas
+n&atilde;o p&ocirc;de;
+moviam-se-lhe os labios desc&oacute;rados, mas n&atilde;o lhe
+sa&iacute;a
+a voz da garganta. <br />
+
+<br />
+
+Cada vez mais cego pelo desespero, o pae j&aacute; n&atilde;o a
+attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso
+de furia o vaso da agua benta, bradando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae-te, que est&aacute;s empestada tambem pelo bafo maldicto da
+impostura. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda lan&ccedil;ou-se-lhe aos p&eacute;s,
+abra&ccedil;ou-o pelos joelhos para o reter, mas elle
+n&atilde;o a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi
+a levou de rastos &aacute; outra sala. <br />
+
+<br />
+
+Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lan&ccedil;ou por terra,
+tudo despeda&ccedil;ava ou rasgava. <br />
+
+<br />
+
+N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, n&atilde;o viu
+a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com
+os bra&ccedil;os estendidos, fazendo esfor&ccedil;os para
+falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver. <br />
+
+<br />
+
+Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a
+madrinha de Ermelinda acudiu a v&ecirc;r o que era aquillo. <br />
+
+<br />
+
+Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que
+descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o
+Cancella cortou-lhe a fala na garganta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Era de facto um olhar selvagem e sinistro. <br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Catharina parou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que vem fazer aqui, mulher?&#8213;dizia-lhe o Cancella com voz cavada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empe&ccedil;onhar
+estes ares, onde metteu a tristeza? <br />
+
+<br />
+
+E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava
+outro. <br />
+
+<br />
+
+Crescia outra vez a impetuosidade nas paix&otilde;es e nas palavras
+do Herodes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saia! saia da minha vista, se n&atilde;o quer que eu lhe
+fa&ccedil;a como fiz a esses feiti&ccedil;os com que me
+enfeiti&ccedil;ou a filha, com que m'a quiz matar. <br />
+
+<br />
+
+A velha ganhou animo ao v&ecirc;r-se f&oacute;ra da porta e por
+isso disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; se v&ecirc; quem a matou. Repare e diga se
+n&atilde;o tem remorsos, carrasco! <br />
+
+<br />
+
+Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Voltou-se, e vendo a filha estendida no ch&atilde;o, quasi como
+morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um
+cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a
+chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus,
+pedindo perd&atilde;o a ella, soltando palavras sem nexo,
+arrepellando-se, ferindo-se. <br />
+
+<br />
+
+A velha, que j&aacute; n&atilde;o o temia, ao v&ecirc;l-o
+assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino
+da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgra&ccedil;ado, tudo
+escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! ella n&atilde;o ha de morrer-me assim... Deus
+n&atilde;o pode consentir n'isto. N&atilde;o deixar&aacute;
+que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o!... vive!... senti-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o bater... Olhe! venha
+v&ecirc;r... pouse aqui a m&atilde;o, comadre, no peito d'ella,
+aqui... N&atilde;o sente? &Eacute; o
+cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute;?
+N&atilde;o lhe
+<span class="pagenum">[76]</span>
+parece que
+n&atilde;o morreu? Ar, ar, &eacute; do que ella
+precisa. <br />
+
+<br />
+
+E erguendo-se, correu, com a filha nos bra&ccedil;os, para o meio
+da rua. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda ainda estava sem acc&ocirc;rdo. Juntaram-se algumas
+mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas
+argui&ccedil;&otilde;es da beata, que n&atilde;o
+cess&aacute;ra de falar. <br />
+
+<br />
+
+Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e
+pedia por amor de Deus que lhe n&atilde;o dissessem aquillo. <br />
+
+<br />
+
+Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.
+Ermelinda tinha aberto os olhos. <br />
+
+<br />
+
+Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabe&ccedil;a,
+como se o aspecto d'elle lhe causasse terror. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com
+maior consterna&ccedil;&atilde;o na voz e no olhar. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, sempre com os olhos fechados, come&ccedil;ou a tremer
+convulsivamente e n'uma anciedade extrema. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe a pequena!&#8213;disse a beata&#8213;n&atilde;o v&ecirc; que lhe
+faz m&ecirc;do? E com raz&atilde;o, pobre
+crean&ccedil;a! depois do que viu! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu hei de fazer m&ecirc;do a minha filha?&#8213;repetiu
+timidamente o pae.&#8213;Eu?! &Oacute; Ermelinda... pois tu... <br />
+
+<br />
+
+Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.
+Commovido, consternado, passou-a para os bra&ccedil;os da velha, e
+sentou-se a
+solu&ccedil;ar como uma crean&ccedil;a, dizendo entre gemidos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que
+desgra&ccedil;ado que eu sou!... <br />
+
+<br />
+
+A scena era bastante commovente, para que se n&atilde;o sentissem
+impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli. <br />
+
+<br />
+
+Houve um longo silencio, s&oacute; interrompido pelos roucos
+solu&ccedil;os do infeliz, em quem entr&aacute;ra o
+desespero no cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,
+que, a pouco e pouco, se percebeu ser um c&ocirc;ro de vozes
+femininas; c&ecirc;do a toada e depois da toada a lettra,
+principiou a tornar-se distincta. <br />
+
+<br />
+
+Ouviram-se perfeitamente estas palavras: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Vinde, vinde, &oacute; missionarios,<br />
+
+Com a palavra de Deus<br />
+
+Libertar-nos do peccado,<br />
+
+Encaminhar-nos aos c&eacute;os.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cancella ergueu a cabe&ccedil;a e poz-se a escutar. <br />
+
+<br />
+
+As vozes continuaram: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Minha alma por v&oacute;s
+anceia,<br />
+
+&Oacute; ministros do
+Senhor!<br />
+
+E o meu peito em chammas arde,<br />
+
+Em chammas do vosso amor.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cancella principiou a abanar a cabe&ccedil;a, e os olhos
+animaram-se-lhe de um fulgor extranho. <br />
+
+<br />
+
+O c&ocirc;ro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco
+desembocou na rua, em que se passavam estas scenas, um singular
+cortejo. <br />
+
+<br />
+
+O missionario, que n&oacute;s j&aacute; conhecemos, por o
+termos visto em pleno exercicio de suas func&ccedil;&otilde;es
+predicatorias, vinha seguido por uma cohorte de mulheres de roupas
+escuras e cabellos cortados, que cantavam em chorada cantilena estas e
+analogas quadras, que os missionarios ou os agentes seus teem quasi
+sempre o cuidado de vulgarisar como preparatorios dos animos
+impressionaveis das mulheres e das crean&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a
+prociss&atilde;o da casa do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Este j&aacute; estava em p&eacute; no meio da rua, &aacute;
+espera d'ella. <br />
+
+<br />
+
+O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu
+caminho, aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente,
+se lhe
+<span class="pagenum">[78]</span>
+apresentava escuro como um
+phantasma, e n&atilde;o conjecturou bem do que via. Por isso parou
+tambem, olhando para elle. O c&ocirc;ro suspendeu-se. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe quem sou? <br />
+
+<br />
+
+O padre fez um signal negativo com a cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve
+Deus. <br />
+
+<br />
+
+O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem
+procurava uma sa&iacute;da para caso de necessidade, pois dizia-lhe
+a raz&atilde;o que um homem que n&atilde;o ouve Deus
+n&atilde;o estaria muito disposto a escutal-o, a elle, humilde
+creatura. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de
+minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;
+perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella
+crean&ccedil;a sem culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno
+lhe envenenou o cora&ccedil;&atilde;o, e depois... depois
+matal-o. <br />
+
+<br />
+
+O padre enfiou; ia a abrir a b&ocirc;ca para falar, mas viu
+caminhar para elle o Cancella, viu no ar aquella m&atilde;o
+musculosa e larga, e, calculando a violencia do embate pelo volume do
+bra&ccedil;o, julgou-se de antem&atilde;o
+esmagado, e s&oacute; p&ocirc;de encolher os hombros, fechar os
+olhos, contrahir comicamente as fei&ccedil;&otilde;es, e
+suspender a respira&ccedil;&atilde;o, aguardando n'esta postura
+o golpe, que n&atilde;o podia evitar. <br />
+
+<br />
+
+Este de facto n&atilde;o foi suave. A m&atilde;o do Cancella
+ca&iacute;u em parte sobre o cabe&ccedil;&atilde;o, em
+parte sobre o pesco&ccedil;o do padre, e com tal
+f&ocirc;r&ccedil;a, que
+este foi constrangido a ajoelhar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, meu impostor do inferno! <br />
+
+<br />
+
+E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo
+&aacute; primeira posi&ccedil;&atilde;o.
+O chap&eacute;o rolou a alguns passos de distancia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, meu envenenador de almas! <br />
+
+<br />
+
+Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o
+caminho do chap&eacute;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[79]</span>
+&#8213;Anda, meu calumniador de Deus! <br />
+
+<br />
+
+E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em
+p&eacute;, e ap&oacute;s, dando-lhe um forte impulso e
+soltando-o das m&atilde;os, deixou-o ir &aacute;
+merc&ecirc; da f&ocirc;r&ccedil;a transmittida. <br />
+
+<br />
+
+O padre estendeu os bra&ccedil;os instinctivamente para se amparar
+na qu&eacute;da provavel, e, p&eacute; aqui,
+p&eacute; acol&aacute;, a passos descommunaes, escapou
+miraculosamente de cair, por&eacute;m n&atilde;o conseguiu
+parar
+sen&atilde;o a muitos metros de distancia. <br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que esta scena n&atilde;o correu entre
+o silencio dos espectadores. Mal o Cancella levantou a m&atilde;o
+sobre a cabe&ccedil;a do padre, as beatas ergueram um alarido de
+atroar c&eacute;o e terra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui d'El-rei! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui d'El-rei sobre o Herodes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. Jos&eacute;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem acode ao sr. fr. Jos&eacute;?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, que matam o santinho do missionario! <br />
+
+<br />
+
+E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas
+esgani&ccedil;adas mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse,
+por&eacute;m, a intervir mais activamente. <br />
+
+<br />
+
+A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que,
+em cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com
+respeito. <br />
+
+<br />
+
+Este, por&eacute;m, n&atilde;o oppoz resistencia. <br />
+
+<br />
+
+Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento. <br />
+
+<br />
+
+Assim deixou-se levar em pris&atilde;o, acompanhado das
+impreca&ccedil;&otilde;es das beatas e dos gritos de
+indigna&ccedil;&atilde;o dos homens. <br />
+
+<br />
+
+As devotas mulheres correram para o missionario. <br />
+
+<br />
+
+Umas levavam-lhe o chap&eacute;o, outras os oculos, outras o
+capote. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magoou-se, sr. fr. Jos&eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Doe-lhe alguma coisa? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[80]</span>
+Mas o padre n&atilde;o se demorou a informal-as. Limitou-se a
+abanar com a cabe&ccedil;a negativamente e deitou a correr, como se
+visse atraz de si ainda a m&atilde;o espalmada do Cancella, prompta
+a cair-lhe outra vez sobre a cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Quando o Cancella chegou a casa do regedor, j&aacute; a
+multid&atilde;o engross&aacute;ra e em altos gritos pedia o
+castigo do criminoso. <br />
+
+<br />
+
+O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a
+multid&atilde;o. In continenti, redigiu um officio ao
+administrador, no qual foi t&atilde;o feliz que escreveu tres
+palavras com boa orthographia; e, falando &aacute;s turbas, disse
+que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de ser punido
+com todo o rigor das leis. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXI </h4>
+
+<br />
+
+O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi
+assumpto das conversa&ccedil;&otilde;es geraes
+de toda a aldeia. Era com indigna&ccedil;&atilde;o que se
+commentava a fa&ccedil;anha. Dizia-se que o Cancella f&ocirc;ra
+apenas o
+instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do
+padre, pela occorrencia da tarde do serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes
+offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual
+havia muito suspiravam. <br />
+
+<br />
+
+O missionario e os seus ardentes sequazes f&ocirc;ram dos mais
+acerbos propugnadores d'estas ideias, que refor&ccedil;avam com
+muitas accusa&ccedil;&otilde;es, de
+hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do
+conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+A politica viu n'isto uma arma favoravel para
+<span class="pagenum">[81]</span>
+combater o adversario, e n&atilde;o a
+desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio,
+manifestamente devida &aacute; iniciativa do pae de Magdalena, e
+impopularissima na aldeia, augmentar a irrita&ccedil;&atilde;o
+dos animos e servir de thema a uma violenta diatribe do missionario
+contra a impiedade da &eacute;poca, que nem aos fieis concedia a
+santa consola&ccedil;&atilde;o de repousar &aacute; sombra
+dos templos. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto come&ccedil;ou pois a fomentar uma
+reac&ccedil;&atilde;o contra o conselheiro, a qual
+amea&ccedil;ava o resultado da sua candidatura. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o pequena parte n'esta guerra surda, que
+principi&aacute;ra a lavrar, tomava o seu companheiro de infancia e
+particular amigo o brazileiro Seabra. <br />
+
+<br />
+
+Nunca elle sentira entranhada no cora&ccedil;&atilde;o metade
+da bem-queren&ccedil;a que apparentemente ostentava para com o
+conselheiro: mas depois de uma conferencia que tivera com mestre
+Pertunhas torn&aacute;ra-se mais manifesta a sua hostilidade e
+menos observadora de etiquetas e rebu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do
+conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o
+missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos
+bens da Igreja. <br />
+
+<br />
+
+Foi tambem o brazileiro quem trouxe &aacute; flor de agua os
+antigos excessos demagogicos, que caracterisaram o principio de
+carreira politica do conselheiro, e referira, com modos de horrorisado,
+a substancia dos exaltados discursos que elle proferira nas camaras,
+advogando ideias cuja s&oacute;
+exposi&ccedil;&atilde;o ferira de pavor a
+imagina&ccedil;&atilde;o dos povos. <br />
+
+<br />
+
+Finalmente, at&eacute; o principio dos trabalhos para as estradas,
+cujo protrahido adiamento f&ocirc;ra at&eacute;
+aquelle tempo um capitulo de accusa&ccedil;&atilde;o contra o
+pae de Magdalena, servia agora de arma &aacute;
+opposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, em atten&ccedil;&atilde;o a quem se
+adopt&aacute;ra o tra&ccedil;ado que ia ser posto em
+execu&ccedil;&atilde;o,
+era o que provava &aacute; saciedade com grande
+exhibi&ccedil;&atilde;o de cifras
+<span class="pagenum">[82]</span>
+e de raz&otilde;es economicas, ser
+esse tra&ccedil;ado,
+sobre dispendioso, irracional. <br />
+
+<br />
+
+E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio
+conselheiro, quando este os allegava para v&ecirc;r se conseguia
+demovel-o do empenho que mostrava em que o tra&ccedil;ado em
+quest&atilde;o f&ocirc;sse preferido aos outros. Tal era o
+estado das coisas publicas na terra no dia em que principiaram os
+primeiros trabalhos de campo. <br />
+
+<br />
+
+Tinham-se passado alguns dias depois da pris&atilde;o do Herodes. <br />
+
+<br />
+
+A aldeia vira-se invadida por um bando de s&ecirc;res
+desconhecidos, que vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma
+popula&ccedil;&atilde;o habituada a considerar como
+occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros ou das cancellas
+de qualquer proprietario da localidade. <br />
+
+<br />
+
+A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais
+operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou
+maiores mudan&ccedil;as na vida moral da aldeia do que nas
+condi&ccedil;&otilde;es physicas d'ella as bandeirolas, os
+niveladores, as enxadas, as p&aacute;s, alvi&otilde;es,
+picaretas, carros de m&atilde;o e padiolas, de que era armada essa
+cohorte. <br />
+
+<br />
+
+Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior
+actividade tinham come&ccedil;ado os trabalhos. Era como
+j&aacute; dissemos, na casa do herbanario. Pela
+demoli&ccedil;&atilde;o d'ella, e do
+quintal que a rodeava, principiaram as obras. <br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente assign&aacute;ra dias antes o auto de
+expropria&ccedil;&atilde;o e recebera o pre&ccedil;o da
+venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro,
+n&atilde;o lhe foi muito regateado. <br />
+
+<br />
+
+Elle, por&eacute;m, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por
+as arvores nada quiz; n&atilde;o podia resignar-se a vendel-as.
+Podia v&ecirc;l-as cair, como amigos sacrificados no cadafalso, mas
+mercadejar-lhes com os restos, isso n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu &aacute; Fazenda
+Nacional de compensa&ccedil;&atilde;o ao
+excessivo pre&ccedil;o por que f&ocirc;ram expropriados os bens
+de que o brazileiro se aposs&aacute;ra, com o patriotico intuito de
+promover os seus melhoramentos particulares, pre&ccedil;o que por
+empenho do conselheiro n&atilde;o foi litigado. <br />
+
+<br />
+
+Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram
+resistir, mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido &aacute;
+cohorte de operarios melhor armados do que elles, em parte cedendo
+&aacute;s imperiosas ordens do herbanario, que, ao sair pela ultima
+vez da casa, onde envelhecera, lhes disse, com voz irritada e severa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes
+v&oacute;s, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz! <br />
+
+<br />
+
+Os instigadores das massas conheceram que n&atilde;o era aquella a
+occasi&atilde;o nem aquelle o pretexto proprio para os seus
+projectos, e adiaram, em vista d'isso, a empresa prudentemente. <br />
+
+<br />
+
+Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em
+que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Na baixa em que ficava a habita&ccedil;&atilde;o do herbanario,
+ia uma azafama extraordinaria. <br />
+
+<br />
+
+O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de
+destrui&ccedil;&atilde;o; desconjuntavam-se as
+pedras dos muros, desfazia-se em p&oacute; a argamassa secular,
+ca&iacute;am a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos
+das arvores, alastrava-se de tijolo e cali&ccedil;a a verdura dos
+taboleiros, e c&ecirc;do, de toda aquella vivenda t&atilde;o
+amena e virente, s&oacute; restavam ruinas. <br />
+
+<br />
+
+Numerosos grupos de j&aacute; pacificados espectadores seguiam com
+curiosidade as opera&ccedil;&otilde;es de
+devasta&ccedil;&atilde;o; mas, longe d'alli, a maior distancia
+do que os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que
+elle orvalhava de lagrimas, o unico
+cora&ccedil;&atilde;o que elle dev&eacute;ras apertava de
+dor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se
+divisava toda a scena. Com a cabe&ccedil;a pousada na
+m&atilde;o e o bra&ccedil;o
+apoiado sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore,
+que d'alli via vacillar e cair, como se f&ocirc;sse um amigo que o
+precedesse no tumulo. Parecia ter fugido para longe, para pelo menos
+n&atilde;o lhes ouvir o estertor da agonia. <br />
+
+<br />
+
+Ao lado do velho estava Augusto. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da
+demoli&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mais do que uma vez tent&aacute;ra arrancar o herbanario d'aquelle
+sitio. O velho, por&eacute;m, resistiu; queria estar alli
+at&eacute; v&ecirc;r cair a ultima arvore. <br />
+
+<br />
+
+Ao pinheiral d'onde assistia &aacute; scena, chegava em
+confus&atilde;o o alarido dos trabalhadores, o rumor do manobrar
+dos instrumentos, e at&eacute; o da qu&eacute;da das arvores
+cortadas. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore,
+recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava
+ligada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; vae aquella faia!&#8213;dizia elle, com intensa
+melancolia&#8213;pobre velha! Era &aacute; tua sombra que meu pae me
+ensinava a ler! Encostava-se &aacute;quelle tronco sobre a grossa
+raiz que elle tem &aacute; flor da terra e pegando em mim ao collo,
+guiava-me nas primeiras li&ccedil;&otilde;es! E viver eu para
+te
+v&ecirc;r cair! <br />
+
+<br />
+
+E, ao perceber-lhe balan&ccedil;ar as sumidades, o velho fechou os
+olhos instinctivamente. C&ecirc;do ouviu um estrondo... Quando os
+abriu, estava por terra a faia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; a tua vez, pobre carvalho!&#8213;dizia algum tempo
+depois&#8213;muito queria minha m&atilde;e &aacute;quella arvore!
+Por suas m&atilde;os a plantou bem
+tenra. Nunca me sentei &aacute;quella sombra, que me n&atilde;o
+lembrasse da santa mulher! Parecia que eram vozes tuas, que m'a
+recordavam, infeliz! Barbaros! Olha com que desamor a decepam!
+Perd&ocirc;a-me,
+<span class="pagenum">[85]</span>
+meu velho
+amigo, mas bem v&ecirc;s que te n&atilde;o posso valer. <br />
+
+<br />
+
+E o carvalho ca&iacute;u. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno
+passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto
+cubi&ccedil;avam as crean&ccedil;as, que pela ultima vez o
+fazias!... Adeus, pobre amiga, adeus. <br />
+
+<br />
+
+E ca&iacute;a a cerdeira tambem. <br />
+
+<br />
+
+E ca&iacute;am, uma ap&oacute;s outra, todas as arvores do
+quintal, os limoeiros, as nogueiras, os salgueiros e toda a familia
+vegetal do velho Vicente, que sentia ir-se-lhe com ella a alma.
+Memorias de infancia, sonhos de juventude, e reminiscencias de velho,
+como aves invisiveis, occultas nas copas d'aquellas arvores, surgiam
+agora, espavoridas e desnorteadas, a procurar o refugio que
+n&atilde;o encontravam f&oacute;ra dalli. <br />
+
+<br />
+
+Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram
+dolorosamente feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena
+casa, onde elle envelhec&ecirc;ra e contava morrer, e ao
+patentear-se indiscretamente aos olhos irreverentes e curiosos do povo
+aquelle recatado asylo. <br />
+
+<br />
+
+A demoli&ccedil;&atilde;o proseguia com ardor e actividade. Em
+pouco tempo, s&oacute; restavam da casa os muros, meio derrocados;
+e, no quintal, a serra e o machado principiavam a exercer no tronco da
+ultima arvore a sua obra destruidora. Era o castanheiro da entrada,
+gigante de outro seculo, que desafi&aacute;ra os raios de muitos
+invernos successivos. <br />
+
+<br />
+
+A exalta&ccedil;&atilde;o do herbanario cresceu n'aquelle
+momento. Ergueu-se, pallido e tr&eacute;mulo, apoiou-se no hombro
+de Augusto, murmurando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem o castanheiro! J&aacute; era arvore quando eu nasci! Como
+elles se encarni&ccedil;am contra elle! Mas n&atilde;o te
+parece, Augusto, que n&atilde;o soffre muito o castanheiro?...
+Sabes? &Eacute; que elle j&aacute;
+n&atilde;o agradeceria a vida, porque tinha de viver assim
+desamparado
+<span class="pagenum">[86]</span>
+dos seus outros
+companheiros, que v&ecirc;
+ca&iacute;dos no ch&atilde;o... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao
+lado d'elles... &Eacute; como eu. <br />
+
+<br />
+
+O castanheiro principiou a oscillar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repara&#8213;disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o
+bra&ccedil;o de Augusto.&#8213;Elle j&aacute; treme! N&atilde;o
+v&ecirc;s!... L&aacute; lhe deitam a corda... Vae cair!...
+Parece-me que estou a
+sentir aquelle estalar de fibras... <br />
+
+<br />
+
+E a arvore ca&iacute;u com fragor no ch&atilde;o, que por tanto
+tempo
+cobrira de sombras. <br />
+
+<br />
+
+Estava ultimada a obra. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario encostou a cabe&ccedil;a ao hombro de Augusto e rompeu
+em solu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, tio Vicente, tenha animo&#8213;dizia-lhe Augusto,
+igualmente commovido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para
+acol&aacute; e n&atilde;o ver em p&eacute; uma
+s&oacute; das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um sonho
+isto, um sonho de afflic&ccedil;&atilde;o! Sinto-me
+t&atilde;o s&oacute; no mundo! Ai! se a morte me ferisse agora!
+<br />
+
+<br />
+
+A dor, a saudade e o desalento davam uma
+unc&ccedil;&atilde;o de poesia
+elegiaca &aacute; figura, ao gesto e &aacute;s
+palavras do velho, que desvanecia tudo o que n'elle pud&eacute;sse
+haver, nas situa&ccedil;&otilde;es ordinarias da vida, capaz de
+desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente. <br />
+
+<br />
+
+Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos
+materiaes, lagrima que n&atilde;o importa uma ironia &aacute;
+civilisa&ccedil;&atilde;o.
+Exalte-se embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como
+meteoro, as povoa&ccedil;&otilde;es e os &ecirc;rmos; mas
+n&atilde;o seja isso motivo para condemnar a compaix&atilde;o
+pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada &aacute;
+beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a
+cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de
+redemp&ccedil;&atilde;o, o vencido, desde que
+c&aacute;e, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima
+<span class="pagenum">[87]</span>
+de saudade. N&atilde;o tenteis
+a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos &aacute;ridos
+que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida &aacute; vossa
+alma s&ecirc;cca e esteril. Quem dev&eacute;ras confia nos
+destinos da humanidade n&atilde;o tem m&ecirc;do das lagrimas.
+Pode-se triumphar com ellas nos olhos. <br />
+
+<br />
+
+Passado algum tempo, e quando j&aacute; as sombras da noite se
+condensavam nos valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o
+velho disse para Augusto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora que n&atilde;o tenho casa, d&aacute;-me por alguns dias
+o abrigo da tua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por alguns dias?&#8213;repetiu Augusto, admirado.&#8213;Pois quer deixar-me
+depois! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero. Vou com ellas. <br />
+
+<br />
+
+E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas. <br />
+
+<br />
+
+Atravessaram a aldeia &aacute; hora a que vibravam nos ares os sons
+melancolicos das Av&eacute;-Marias. <br />
+
+<br />
+
+Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!&#8213;disse o
+herbanario, ao transpor o limiar.&#8213;M&aacute; companhia te
+far&aacute; a minha velhice. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua
+presen&ccedil;a podia desalentar quem na mocidade &eacute; mais
+fraco e desalentado do que ninguem o pode ser na velhice. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custou-me muito este golpe de hoje! N&atilde;o contava com elle!
+Desde hontem envelheci muitos annos. Podes cr&ecirc;l-o. <br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de
+f&oacute;ra da porta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&atilde;o licen&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes
+sorrisos. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario e Augusto n&atilde;o reprimiram um gesto de
+impaciencia. <br />
+
+<br />
+
+O homem entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+&#8213;Ora Deus seja aqui! T&atilde;o grande &eacute; o dia como a
+romaria, sr. Augusto! Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que
+tinha ido de manh&atilde; para casa do tio Vicente; vou
+l&aacute;... estava um mundo de gente no sitio... Mas qual sr.
+Augusto, nem tio Vicente! Ent&atilde;o com que
+escorra&ccedil;aram-n'o do seu ninho?... Pobre homem! A falar
+verdade, n'essa idade! J&aacute; sei que vem para casa do nosso
+Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda bem que o temos
+por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que tambem fizeram-n'a
+fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa assim!... Coisas
+c&aacute; do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheir&atilde;o
+na tal estrada! E j&aacute; por ahi se rosnam coisas! Emfim,
+politicos! politicos! Todos s&atilde;o os mesmos... Vae por ahi uma
+poeira dos meus peccados com a ordem a respeito do cemiterio; e com a
+historia do Herodes! Sabem que elle esteve hontem para matar o
+missionario?... E valha a verdade, dizem que por ordem de alguem do
+Mosteiro... Que eu n&atilde;o acredito, mas emfim, aquella historia
+no serm&atilde;o do outro dia... E o tal sr. Henrique, que
+&eacute; unha e carne com elles... Elle ser&aacute; muito boa
+pessoa, mas n&atilde;o me calha... L&aacute; feliz, isso como
+n&atilde;o sei de outro, com dinheiro e sem cuidados! E sempre se
+faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi dizer que sim. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente
+impassibilidade d'este n&atilde;o illudiu o velho. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas n&atilde;o se exgot&aacute;ra ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora agora, quem anda fulo &eacute; o brazileiro, o Seabra. Pelos
+modos, eu n&atilde;o sei o que ahi houve; o conselheiro
+n&atilde;o o tratou muito bem, dizem, n'uma carta que escreveu ao
+ministro, ou creatura do ministro. Umas historias muito complicadas,
+que eu n&atilde;o entendo, mas que promettem dar de si... Veremos
+em que ficam as elei&ccedil;&otilde;es este anno... O
+conselheiro bem pode trabalhar, sen&atilde;o... Elle cuidava
+<span class="pagenum">[89]</span>
+que era s&oacute;
+apresentar-se, e emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes? Ser&aacute; fiel esse?
+J&aacute; me disseram tambem que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. Pertunhas,&#8213;atalhou o herbanario, enfastiado&#8213;antes
+queremos n&atilde;o saber. Importa-nos pouco a politica. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&atilde;o como eu... Isto tambem n&atilde;o &eacute;
+politica, mas emfim... Pelo que vejo est&atilde;o
+can&ccedil;ados? Eu tambem n&atilde;o os ma&ccedil;o
+mais... E antes que me
+esque&ccedil;a, ha muitas horas que estou de posse de uma carta
+para vossemec&ecirc;, tio Vicente. &Eacute; de Lisboa, veio por
+o correio de hoje. N&atilde;o lh'a mandei a casa, porque...
+n&atilde;o sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como o
+vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso... <br />
+
+<br />
+
+O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando
+para o sobrescripto, disse com indifferen&ccedil;a: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do Manoel. <br />
+
+<br />
+
+E abriu-a lentamente. <br />
+
+<br />
+
+O mestre de latim deixou-se ficar, na esperan&ccedil;a de ouvir
+novidades. <br />
+
+<br />
+
+A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio
+de indigna&ccedil;&atilde;o e de
+colera: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem
+sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos
+amigos, com a justi&ccedil;a das causas e com a voz da propria
+consciencia, do que com os caprichos e interesses dos poderosos com
+quem vive! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que &eacute;?&#8213;perguntou Augusto, sem atinar com a
+significa&ccedil;&atilde;o d'aquellas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&ecirc;. <br />
+
+<br />
+
+E passou a carta para as m&atilde;os de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira
+obrigado a ceder, na quest&atilde;o do despacho de Augusto, a
+fortes influencias que se
+<span class="pagenum">[90]</span>
+empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que mais tarde lhe
+explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle, talvez
+f&ocirc;sse isto at&eacute; uma vantagem; que o logar que pedia
+era a sua
+annulla&ccedil;&atilde;o perpetua, e que elle, conselheiro,
+havia de luctar contra a grande modestia do rapaz, trazendo-lhe
+&aacute; luz os merecimentos reaes, dando-lhe melhor
+colloca&ccedil;&atilde;o, e que esperava ainda empregal-o na
+capital. <br />
+
+<br />
+
+Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia. <br />
+
+<br />
+
+Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria
+despachar, e breve; e quebrou-a como um p&ecirc;rro! Oh! o que
+fizeram d'aquelle homem! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qu&ecirc;?! Pois &eacute; possivel?&#8213;perguntou, exaggerando a
+sua consterna&ccedil;&atilde;o e espanto, o officioso
+Pertunhas.&#8213;&Eacute; poss&iacute;vel que o sr. Augusto
+n&atilde;o f&ocirc;sse despachado?! <br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, passou a desfiar uma s&eacute;rie de
+consola&ccedil;&otilde;es, qual d'ellas mais t&ocirc;la e
+sem cabimento. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que emfim, tendo j&aacute; novidades para contar, e
+almejando communical-as aos frequentadores da taberna do Canada, onde
+devia estar reunida grande e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a
+pretexto de n&atilde;o ser mais tempo inc&oacute;mmodo, e
+deixou-os outra vez s&oacute;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&atilde;o-me guardados para o fim da vida todos os desenganos!
+todas as amarguras! todos os desesperos!...&#8213;disse o herbanario
+momentos depois.&#8213;&Eacute; para se odiar o mundo e os homens
+v&ecirc;r um, que conhecemos generoso e innocente, contaminado
+tambem!... Pobre Augusto! N&atilde;o basta que sejam modestos os
+teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que te n&atilde;o fazes politico? Por que n&atilde;o vaes
+tambem para a taberna do Canada dizer tolices sobre a
+governan&ccedil;a do paiz? Talvez levasses comtigo alguns
+t&ocirc;los, e tinhas n'isso uma
+recommenda&ccedil;&atilde;o poderosa. Olha para
+aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um influente...
+Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficar&#8213;respondeu Augusto, com firmeza. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario fixou-o com um olhar penetrante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda?... Mas... n&atilde;o te vae ser suave agora a vida, rapaz.
+Para se viver n&atilde;o basta uma... uma loucura. Repara bem. Se
+quizeres... O Manoel &eacute; leviano, mas creio que ainda
+n&atilde;o perverso; eu lhe escreverei... talvez que em Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe escreva. Sabe que n&atilde;o partiria para
+Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... repara!... Est&aacute;s muito novo, Augusto... Tens um
+longo futuro deante de ti. E, ficando, o que te espera?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morte que f&ocirc;sse, a morte de miseria e de fome, ficava.
+Mas resta-me ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario baixou a cabe&ccedil;a, pensativo. <br />
+
+<br />
+
+Soaram n'isto &aacute; porta da sala duas pancadas lentas. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario fez um gesto de enfado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o abras sem eu sair,&#8213;disse elle a Augusto, que se
+erguera&#8213;n&atilde;o estou de animo para aturar importunos. <br />
+
+<br />
+
+E passou para uma sala contigua. <br />
+
+<br />
+
+Augusto foi abrir ao novo visitante. <br />
+
+<br />
+
+Achou-se na presen&ccedil;a do brazileiro Seabra. <br />
+
+<br />
+
+A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer
+valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro. <br />
+
+<br />
+
+Augusto offereceu-lhe cadeira Augusto offereceu-lhe cadeira para se
+sentar,
+<span class="pagenum">[92]</span>
+sem inquirir do motivo de t&atilde;o
+inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabo agora mesmo de saber da injusti&ccedil;a que lhe fizeram.
+Senti-a como se f&ocirc;ra propria, e venho aqui declarar-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto curvou-se, em signal de agradecimento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o que quer?&#8213;proseguiu o homem.&#8213;Hoje em dia
+&eacute; tudo assim. Padrinhos e mais padrinhos, e o mais
+s&atilde;o historias. Estamos n'uma &eacute;poca de
+corrup&ccedil;&atilde;o e de immoralidades, e ninguem sabe onde
+isto ir&aacute; parar. <br />
+
+<br />
+
+Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&ocirc;lo &eacute; quem n&atilde;o faz como os mais. O
+mundo est&aacute; para os velhacos. <br />
+
+<br />
+
+Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de
+Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias n&atilde;o pode
+receber as offensas e ficar-se com ellas assim. O perd&atilde;o
+evangelico &eacute; muito
+bonito, mas n&atilde;o &eacute; para homens. N&atilde;o lhe
+parece?
+Eu por mim n&atilde;o g&oacute;sto de genios de lama. Falemos
+como amigos. N&oacute;s ambos somos victimas de um mesmo homem. O
+sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se
+apregoava seu protector. Ahi temos a protec&ccedil;&atilde;o
+que elle lhe
+deu. Eu tambem lhe devo finezas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup>?&#8213;perguntou Augusto, que n&atilde;o
+podia saber o que lhe
+queria no fim de tudo o brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi. <br />
+
+<br />
+
+E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu
+principio &aacute;
+exposi&ccedil;&atilde;o dos seus aggravos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a
+causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me
+visconde por f&ocirc;r&ccedil;a. Coisas de que eu me estou
+rindo... Mas... emfim, para me livrar d'aquelle importuno,
+<span class="pagenum">[93]</span>
+disse-lhe que... fizesse l&aacute; o que quizesse...
+Pois, senhores, n&atilde;o teve o petulante o atrevimento de
+escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da
+opposi&ccedil;&atilde;o, mantem aturada
+correspondencia; n&atilde;o teve a audacia de lhe dizer que eu
+andava sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel,
+pois promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao
+Estado, visto que com t&atilde;o pouco me contentava, e outras
+coisas n'este g&ocirc;sto? O petulante!... <br />
+
+<br />
+
+Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam,
+luctava para se conservar s&eacute;rio perante aquella
+indigna&ccedil;&atilde;o do sr. Seabra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tem a certeza d'isso?&#8213;perguntou elle.&#8213;&Aacute;s vezes
+s&atilde;o calumnias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro
+n&atilde;o, mas do secretario, que &eacute; o
+mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse &aacute;
+m&atilde;o... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo;
+mas era de parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo
+quanto eu pud&eacute;sse dar, porque... porque... por umas tolices
+de que eu me lembrei a tempo... Ora ahi tem como elles
+s&atilde;o!... Que venham para c&aacute; com os seus
+melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se h&atilde;o
+de arrepender. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... talvez haja equivoco. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Equivoco? Ora essa! Pois eu n&atilde;o li a carta? Ella ha de
+apparecer em publico; oh! se ha de! Isto &eacute;, n&atilde;o a
+parte que me diz respeito,
+porque... porque emfim s&atilde;o negocios particulares, que
+n&atilde;o interessam a terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella,
+umas promessas do ministro, que p&otilde;em a calva &aacute;
+mostra a este Cat&atilde;o, que nos anda aqui a pr&eacute;gar
+liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com
+muita vontade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acaso tenciona?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tenciono?! Pud&eacute;ra n&atilde;o! Eu lhe
+afian&ccedil;o que o homem ha de saber com quem se metteu. Deixe
+<span class="pagenum">[94]</span>
+vir as
+elei&ccedil;&otilde;es, deixe-as vir. J&aacute; ha
+de achar o caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto
+eu... A li&ccedil;&atilde;o ha de leval-a breve. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&atilde;o guerrear a elei&ccedil;&atilde;o do
+conselheiro? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;o essa ten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem lhe opp&otilde;em? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que nem o circulo conhece? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que importa? &Eacute; uma li&ccedil;&atilde;o. Aqui
+n&atilde;o ha politica nem meia politica. Eu n&atilde;o morro
+pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro. Mas
+&eacute; preciso aproveitar tudo. E assim temos por n&oacute;s
+a auctoridade, al&eacute;m dos padres. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o se sentia com disposi&ccedil;&otilde;es
+para discutir esta quest&atilde;o politica; por isso nada mais lhe
+replicou. <br />
+
+<br />
+
+O Seabra proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu quero saber &eacute; se o amigo quer entrar na nossa
+allian&ccedil;a e acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A
+vingan&ccedil;a &eacute; o prazer dos deuses, e
+visto que foi tambem offendido... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor, n&atilde;o acceito&#8213;acudiu com vivacidade
+Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escute. Deixe-me concluir. N&atilde;o sabe do que falo. Pouco se
+exige. A coisa &eacute; esta: na carta a que me referi, e que por
+acaso me chegou &aacute;s m&atilde;os, fala-se n'uma outra, ou
+em outras anteriores, em que se tratava, mais por miudo, de uma curiosa
+transac&ccedil;&atilde;o politica que n'esta se revela claro. O
+conselheiro &eacute; pouco acautelado; haja vista ao extravio
+d'esta, e por isso... <br />
+
+<br />
+
+Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se n&atilde;o
+pud&eacute;sse comprehender onde elle queria
+chegar. <br />
+
+<br />
+
+O Seabra proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro...
+sim, porque julgo que contin&uacute;a a ensinar os pequenos, e,
+j&aacute; se sabe... como
+<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span>
+mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais
+como a D. Victoria &eacute;... um tanto descuidada, como todos
+n&oacute;s sabemos... N&atilde;o sei se me percebe?... Dizia
+eu... sim, que se &aacute;s vezes, por acaso, <a href="#e7">encontrasse</a>
+coisa que
+valesse... <br />
+
+<br />
+
+Augusto levantou-se, indignado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. Seabra!&#8213;exclamou, cheio de c&oacute;lera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valha-me Deus, eu n&atilde;o quero dizer... N&atilde;o me
+entendeu... Bem v&ecirc; que se o senhor devesse
+obriga&ccedil;&otilde;es ao conselheiro, eu n&atilde;o
+ousava... Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se n&atilde;o insistir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entendamo-nos. O senhor est&aacute; no principio da vida. Precisa
+do auxilio de alguem. Offerece-se-lhe occasi&atilde;o para fazer
+servi&ccedil;os ao governo, que
+&eacute; finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para
+isso? Quasi nada... O senhor sabe perfeitamente que se n&atilde;o
+trata aqui de desgra&ccedil;ar ninguem, de levar ninguem
+&aacute; forca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto que v. s.<sup>a</sup> insiste, sou obrigado a
+retirar-me. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere, sr. Augusto&#8213;acudiu o brazileiro, segurando-o.&#8213;Repare no que
+faz. N&atilde;o seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns
+sacrificios, se vir que nas suas circumstancias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto que v. s.<sup>a</sup> n&atilde;o se cala, nem
+quer que eu me retire,
+ou&ccedil;a ent&atilde;o o que tenho para lhe dizer.
+A sua proposta seria para mim o maior dos insultos, se n&atilde;o
+f&ocirc;sse tal a baixeza d'ella, que
+at&eacute; despe de toda a imputa&ccedil;&atilde;o a pessoa
+que a faz. Os
+homens, faltos de sentimentos de honra, n&atilde;o offendem, quando
+insultam; n&atilde;o se lhes pode pedir raz&atilde;o da
+infamia, porque n&atilde;o a conhecem como tal; identificaram-se
+com ella. Por isso, s&oacute; me resta um partido, &eacute;
+convidal-o a sair. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro f&ocirc;ra erguendo-se &aacute; medida que Augusto
+falava. Estava espantado por v&ecirc;r que um rapaz, sem um vintem
+de seu, ousasse falar com tal
+<span class="pagenum">[96]</span>
+irreverencia a um homem que tinha dinheiro e cr&eacute;dito em
+tantos bancos! A ordem do mundo estava perturbada! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora esta!&#8213;disse elle no fim.&#8213;Ent&atilde;o o senhor
+ordena-me?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que saia!&#8213;respondeu Augusto, indicando-lhe a porta. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do
+que ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra
+vez, e, no limiar, parou para dizer: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja l&aacute; o que faz! Eu s&oacute; lhe digo que me
+n&atilde;o convem dar a minhas filhas um mestre de soberbas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto que lhe n&atilde;o poder&aacute; convir a
+educa&ccedil;&atilde;o que eu d&eacute;sse a suas filhas;
+&eacute; natural
+n&atilde;o querer educar consciencias que sejam juizes da sua
+corrup&ccedil;&atilde;o. Deixe-as ignorantes, para
+n&atilde;o ser castigado pelo desprezo d'ellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer ent&atilde;o dizer... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro saiu, bufando. <br />
+
+<br />
+
+Augusto, que fic&aacute;ra s&oacute;, sentiu-se apertar nos
+bra&ccedil;os de alguem que entrou, sem elle sentir. <br />
+
+<br />
+
+Era o herbanario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; assim, &eacute; assim que te vingas de todos, rapaz!
+Esmaga-m'os com a tua nobreza! <br />
+
+<br />
+
+Augusto sorriu-se tristemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor &eacute;, meu amigo&#8213;disse elle&#8213;que &eacute; a
+segunda subtrac&ccedil;&atilde;o que hoje se op&eacute;ra
+no meu or&ccedil;amento, e... a nobreza n&atilde;o nutre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas consola!&#8213;replicou o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[97]</span>
+<h4>XXII </h4>
+
+<br />
+
+Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
+morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando
+ouviu atraz de si correr o reposteiro da entrada. <br />
+
+<br />
+
+Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Retiro-me, se sou importuno&#8213;disse a pessoa que entr&aacute;ra, e
+que fic&aacute;ra no limiar da porta. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena voltou-se ent&atilde;o e reconheceu Henrique de
+Souzellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; o primo Henrique? Pode entrar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei? Ha correspondencias t&atilde;o delicadas, que demandam a
+applica&ccedil;&atilde;o de todas as nossas
+faculdades, e a presen&ccedil;a de um importuno... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o se d&aacute; agora esse caso; nem quanto
+&aacute; delicadeza da correspondencia, nem quanto &aacute;
+importunidade do visitante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o utiliso-me da concess&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Occupava-me a escrever &aacute;quelle pobre Cancella, para o
+tranquillisar em rela&ccedil;&atilde;o &aacute;
+filha. Pobre homem! Ainda se lhe n&atilde;o p&ocirc;de obter
+fian&ccedil;a, apesar de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha
+quem trabalhe contra elle. E como ha de ter padecido na cadeia na
+incerteza em que est&aacute;? Quem ha de dizer que n'aquelle corpo,
+robusto e forte, se aloja uma alma de t&atilde;o delicados
+sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
+a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa
+da madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... &Eacute; um modelo
+para seguir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como vae a pequena? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber
+<span class="pagenum">[98]</span>
+&aacute;quelle pobre homem
+esperan&ccedil;as, que eu mesma n&atilde;o tenho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que disse o cirurgi&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada animador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como capitulou a molestia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei qu&ecirc; de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca
+pude comprehender a necessidade que tem certa gente de conhecer a
+natureza da doen&ccedil;a que lhes amea&ccedil;a roubar uma
+pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, &eacute; a quest&atilde;o
+que me interessa. Tudo o
+mais me &eacute; indifferente. N'uma pessoa doente vejo um espirito
+que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos pe&ccedil;o
+que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas n&atilde;o
+quero saber o que &eacute;. Julgo natural ao sentimento o
+considerar assim a molestia e a morte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na
+litteratura, prima. Mas a proposito do Herodes;
+deixe-me dizer-lhe
+que est&aacute; sendo muito commentada na
+aldeia a violencia d'elle contra o missionario. &Eacute; voz
+constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
+d'aquella bem empregada s&oacute;va s&atilde;o-nos tambem
+concedidas
+inteiras. Imagine o clamor que por ahi vae! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe clamar&#8213;respondeu Magdalena, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
+quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia
+n&atilde;o sou muito bem tratado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bom acautelar-se. N&atilde;o os irrite. Viu que
+n&atilde;o era prudente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o receie. Esta gente a final &eacute; cobarde. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto peor. O inimigo cobarde &eacute; mais para temer. Bem sabe.
+Foi uma desastrada ideia aquella da nossa ida ao serm&atilde;o do
+missionario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe? Eu n&atilde;o estou arrependido. Bastava-me, como
+recompensa, o ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+&#8213;Vamos, primo Henrique; confessemos que a
+situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi das mais agradaveis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto-a, principalmente por o inc&oacute;mmodo que tiveram as
+senhoras e talvez por esse episodio dar vigor &aacute;
+opposi&ccedil;&atilde;o, que alguem por ahi
+se interessa em organisar contra o sr. conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! pois trata-se d'isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se trata?! E muito s&eacute;riamente. A portaria a respeito do
+cemiterio, a historia do serm&atilde;o, e agora o episodio do
+Cancella, teem feito um grande mal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! se meu pae perdia!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o entendo essa exclama&ccedil;&atilde;o, prima
+Magdalena. Ia jurar que era a express&atilde;o de um desejo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que n&atilde;o? Se isso f&ocirc;sse motivo para meu pae
+abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece pouco ainda o cora&ccedil;&atilde;o humano, prima.
+Seu pae est&aacute; votado &aacute; politica para toda a vida.
+Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia, aqui mesmo faria a mais
+deploravel, impertinente e inutil de todas as politicas, a politica
+local. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
+dizia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; organisado um club opposicionista na taberna de um
+tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres
+s&atilde;o os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente.
+&Eacute; preciso olhar por isto e sobretudo n&atilde;o perder
+de vista o sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande
+conta, porque representa o de uma freguezia inteira. &Eacute; de
+suppor que o requestem muito e... o homem &eacute; fragil.
+J&aacute; v&ecirc;, prima,
+que eu tomo muito a s&eacute;rio os preceitos hygienicos, que me
+deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou
+a interessar-me pelas quest&otilde;es locaes, como se aqui
+estivesse, ha annos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; um bom indicio de cura, pode crer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+&#8213;E ainda tem empenho de me curar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Empenho, todo; esperan&ccedil;a &eacute; que menos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! que sinceridade de medico t&atilde;o
+cruel! Seja; escutarei a senten&ccedil;a com coragem. Diga-me o que
+pensa de mim. Ha muito que n&atilde;o falamos n'isto. A ultima vez
+que o fizemos, um tanto categoricamente, foi n'uma occasi&atilde;o
+bem critica. Julgo que o meu procedimento de ent&atilde;o
+at&eacute; hoje
+lhe ter&aacute; feito conceber do meu caracter um n&atilde;o
+muito desfavoravel conceito. Bem v&ecirc; que n&atilde;o
+abusei... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De qu&ecirc;?&#8213;perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um
+gesto de altivez.&#8213;&Eacute; certo que tem em todo esse tempo dado
+provas de discre&ccedil;&atilde;o, no que se mostrou mais
+contricto que generoso. Pelo menos &eacute; assim que eu
+interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja contric&ccedil;&atilde;o, visto que assim o quer. Mas
+n&atilde;o lhe merecer&aacute; ella alguma misericordia para
+com o pecc&aacute;dor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella
+s&oacute; me obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem
+sempre demasiado delicadas, com que me mortifica. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; sendo t&atilde;o amavel!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e, mas a sinceridade tem d'estas exigencias. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
+Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
+do mal, inda n&atilde;o desisti de cural-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha j&aacute; agora uma unica maneira de o salvar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute;?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apaixonal-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n'esse caso estou salvo!&#8213;exclamou Henrique, n'um impeto, que
+n&atilde;o p&ocirc;de passar sem um sorriso da morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[101]</span>
+&#8213;Ou&ccedil;a. &Eacute; preciso andar com tento na escolha do
+objecto d'essa paix&atilde;o, sob pena de aggravar o mal em vez de
+minoral-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como hei de escolher? <br />
+
+<br />
+
+-De modo que lisonjeie a opini&atilde;o que o primo tem de si
+proprio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A opini&atilde;o que eu tenho de mim! Se pud&eacute;sse ser
+mais clara... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
+persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma
+miss&atilde;o heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de
+uma vaidade de boa indole, que se lhe n&atilde;o pode levar a mal.
+Repugna-lhe a ideia da inutilidade, da insignificancia da sua
+existencia. N&atilde;o se resigna ao papel de comparsa, ambiciona o
+de protector. Se o acaso, ou uma inconsidera&ccedil;&atilde;o
+de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter igualmente
+forte, que, em constante opposic&atilde;o, pretendesse provar-lhe
+que prescindia da sua protec&ccedil;&atilde;o, grandes
+desgostos e amarguras o esperavam no futuro. Uma indole branda, docil,
+fraca, um d'estes seres nervosamente delicados, que tremem ao verem-se
+s&oacute;s, cheios de poeticas supersti&ccedil;&otilde;es,
+que tenha a
+dissipar; que se lhe apoie ao bra&ccedil;o, como se n'elle
+encontrasse a coragem que n&atilde;o sente em si, e que, ao mesmo
+tempo, domine pela fraqueza e pela do&ccedil;ura, domine sem
+consciencia do imperio que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter
+d'estes &eacute; que deve procurar para salvar-se; s&oacute;
+d'elle pode esperar a realisa&ccedil;&atilde;o da vaga ideia de
+felicidade, que
+todos concebem na vida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se essa theoria engenhosa f&ocirc;sse verdadeira, parece-lhe
+que poderia encontrar &aacute; m&atilde;o o tal anjo salvador,
+que precisa do meu bra&ccedil;o para se apoiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que pode, e que j&aacute; o teria encontrado, se pensasse
+s&eacute;riamente nas necessidades do seu
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
+do correio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tr&eacute;goas &aacute; nossa conferencia, emquanto eu leio a
+carta de meu pae&#8213;disse Magdalena, examinando a carta recebida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos
+periodicos que chegaram. <br />
+
+<br />
+
+E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as
+folhas de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha
+interrompeu a leitura, exclamando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto? <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos. <br />
+
+<br />
+
+Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commo&ccedil;&atilde;o a
+carta do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha alguma m&aacute; nova?&#8213;perguntou Henrique, ferido por aquella
+express&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Antes, por&eacute;m, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com
+ardor a leitura at&eacute; o fim. <br />
+
+<br />
+
+Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
+n'ella os signaes de uma funda agita&ccedil;&atilde;o. Ao
+findar a leitura, passou a
+m&atilde;o pela fronte como para desviar uma ideia amarga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
+perturbar?&#8213;perguntou Henrique, j&aacute; assustado tambem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei bem; n&atilde;o posso ainda dizer a que se
+refere meu pae; mas sinto-me interiormente sobresaltada, como se o
+adivinhasse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a final o que se diz ahi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
+certo doloroso. <br />
+
+<br />
+
+Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as
+m&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+N'esta carta queixava-se o conselheiro &aacute; filha de ter sido
+victima de um abuso de confian&ccedil;a commettido por alguem, que
+elle ainda n&atilde;o sabia dizer
+<span class="pagenum">[103]</span>
+quem f&ocirc;sse. N'um periodico de Lisboa f&ocirc;ra publicada
+por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por
+n&atilde;o menor personagem politica do que o secretario intimo do
+ministro. <br />
+
+<br />
+
+O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
+compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional
+irrita&ccedil;&atilde;o que transparecia em todos os periodos,
+da que escrev&ecirc;ra &aacute; filha. O periodico que, para
+fins politicos, fizera a
+publica&ccedil;&atilde;o, havia occultado os nomes,
+por&eacute;m muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
+discre&ccedil;&atilde;o; e em Lisboa ninguem hesitou em
+aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das
+suas demoras na aldeia, receb&ecirc;ra o conselheiro essa carta;
+alli, no seio da familia, a confian&ccedil;a que depositava em
+quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por
+h&aacute;bito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro
+dizia &aacute; filha que era preciso descobrir o traidor, para
+evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da
+carta n&atilde;o era para todos comprehendel-o, e portanto
+n&atilde;o se limitasse a indagar entre os da baixa classe.
+&laquo;A vingan&ccedil;a, concluia o conselheiro,
+de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo
+tempo, fazer uma allus&atilde;o&#8213;a vingan&ccedil;a, bem ou mal
+fundada, obriga &aacute;s vezes os mais nobres caracteres a uma
+ac&ccedil;&atilde;o baixa e vil; entre os que por mim se possam
+julgar offendidos, &eacute; natural encontrar o
+criminoso.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esclare&ccedil;a-me este mysterio! disse Magdalena,
+consternada.&#8213;De que se trata aqui? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem;
+&eacute; necessario descobrir o traidor por cautela.
+Al&eacute;m de que, para todos os que, como eu, teem entrada n'esta
+casa, &eacute; isto um mysterio em que a nossa honra
+est&aacute; empenhada, porque v. ex.<sup>as</sup> teem
+direito a alimentar
+suspeitas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus!&#8213;acudiu, interrompendo-o, a
+morgadinha.&#8213;N&atilde;o pronuncie essa palavra! Suspeitas!
+<span class="pagenum">[104]</span>
+Esse envenenamento moral, que eu
+at&eacute; aqui n&atilde;o conheci, quer meu pae que
+voluntariamente o contraia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja envenenamento, muito embora, mas &eacute; um envenenamento
+salvador, prima, como o da vaccina; &eacute; um preservativo de
+trai&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
+occulto! nos gestos uma express&atilde;o denunciadora! nos affectos
+uma
+inten&ccedil;&atilde;o egoista! Oh! isto &eacute; horrivel!
+Mas... que carta &eacute; essa, meu Deus? Que correspondencia pode
+ter meu pae, que n&atilde;o deva v&ecirc;r a luz do dia? Meu
+pae!... Ha por f&ocirc;r&ccedil;a illus&atilde;o n'isto!
+Meu pae
+n&atilde;o tem crimes; meu pae n&atilde;o tem
+ac&ccedil;&otilde;es que o
+envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem
+receiar-se de indiscre&ccedil;&otilde;es. Pois
+n&atilde;o &eacute; assim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
+criminosos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A politica! Sim, &eacute; isso! Eu devia
+prev&ecirc;r que essa palavra viria para explicar este mysterio!
+Por politica &eacute;-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo,
+por politica for&ccedil;a-se a consciencia, e depois... ella
+justifica tudo. Que obras s&atilde;o as obras politicas que
+precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou
+salvar uma na&ccedil;&atilde;o, pois para
+se tratar dos interesses de um povo, &eacute; sempre necessario o
+disfarce, a dissimula&ccedil;&atilde;o, o mysterio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando se n&atilde;o pode contar com a boa f&eacute; dos
+outros, perde sempre quem f&ocirc;r escrupulosamente fiel
+&aacute; sua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais valeria ent&atilde;o abandonar por uma vez essa carreira
+cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa...
+deixe-m'as v&ecirc;r... quero saber que carta &eacute; esta. <br />
+
+<br />
+
+Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que
+n&atilde;o costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe j&aacute; feito
+suspeitar que era esse o que publicava a carta em quest&atilde;o.
+N&atilde;o fazendo do conselheiro
+<span class="pagenum">[105]</span>
+t&atilde;o
+subido e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
+effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
+Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso
+cora&ccedil;&atilde;o de filha, e para o seu
+caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente nobre, generoso e
+justo, o descobrir no pae uma d'essas m&aacute;culas frequentes na
+vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
+f&ocirc;sse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. N&atilde;o o
+conseguiu, por&eacute;m.
+Magdalena, com aquella firmeza de resolu&ccedil;&atilde;o que
+energicamente se lhe revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a
+m&atilde;o para receber os periodicos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me v&ecirc;r, primo Henrique. N&atilde;o &eacute;
+possivel que de meu pae se diga ahi alguma coisa que n&atilde;o
+devam ler os olhos de uma filha. <br />
+
+<br />
+
+E quasi arrebatou das m&atilde;os de Henrique a folha, justamente
+aquella de que elle mais receiava. <br />
+
+<br />
+
+E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril. <br />
+
+<br />
+
+Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
+Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+Viu-a tornar-se de repente mais attenta &aacute; leitura; os olhos,
+que at&eacute; alli vagueavam por diversas
+sec&ccedil;&otilde;es do periodico, fixaram-se n'um ponto;
+contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios;
+c&oacute;rou e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de
+si a folha com um movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o
+dominio de uma commo&ccedil;&atilde;o profunda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! E n&atilde;o ter um
+cora&ccedil;&atilde;o, como o d'elle, a
+f&ocirc;r&ccedil;a precisa para fugir d'estes
+enredos! Isto &eacute; de enlouquecer!... <br />
+
+<br />
+
+Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
+examinou-a. <br />
+
+<br />
+
+Tinha conjecturado bem. <br />
+
+<br />
+
+O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
+t&atilde;o perfeito na vida politica e na vida social, como na vida
+de familia.
+<span class="pagenum">[106]</span>
+Para Henrique, em quem
+havia muito se inocul&aacute;ra o scepticismo da &eacute;poca,
+impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
+lhe apparecessem, n&atilde;o tinha o facto de que se tratava grande
+significa&ccedil;&atilde;o nem gravidade. O caso era o
+seguinte: <br />
+
+<br />
+
+Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante
+quest&atilde;o politica; uma d'estas quest&otilde;es
+que servem para estremar os campos e descriminar os programmas dos
+partidos. Vacillar n'ellas &eacute; j&aacute; trahir os
+principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
+inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais
+avan&ccedil;adas ideias liberaes, tinha de antem&atilde;o
+tra&ccedil;ado por
+elle o caminho a seguir n'esta conjunctura, o circulo, f&oacute;ra
+do qual n&atilde;o poderia combater sem apostasia; mas, como
+j&aacute; atraz dissemos, o conselheiro n&atilde;o era
+j&aacute; o homem que f&ocirc;ra nos primeiros tempos da sua
+carreira publica; perdera a f&eacute; nas utopias e nos principios
+abstractos, e trocava-os de barato por qualquer pequena vantagem
+positiva que pud&eacute;sse obter, se n&atilde;o para si, para
+a localidade de que era representante. A logica partidaria
+sacrific&aacute;ra-a, sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em
+linguagem n&atilde;o sei se parlamentar, se chama conveniencias
+politicas. <br />
+
+<br />
+
+D&eacute;ra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios
+no conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Comquanto membro da opposic&atilde;o, e dos mais temidos pela sua
+eloquencia, variados conhecimentos e vigor de discuss&atilde;o,
+n&atilde;o era elle de
+t&atilde;o espinhosa moral que n&atilde;o tivesse amigos no
+seio da maioria, sendo at&eacute; o proprio ministro um dos mais
+intimos. No tempo da discuss&atilde;o, de que falamos, o ministro,
+que desejava afastar das camaras todos os adversarios de importancia,
+n&atilde;o duvidou entrar em ajustes com o conselheiro. Este, que
+j&aacute; n&atilde;o era
+homem para repellir com indigna&ccedil;&atilde;o taes factos,
+teve a astucia precisa para se aproveitar das contingencias.
+Entenderam-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+Chegada a &eacute;poca da discuss&atilde;o, o conselheiro, que
+sempre se mostrou ardente adversario da medida ministerial, e de quem
+se esperava uma opposic&atilde;o vigorosa e efficaz, pretextou
+subitos negocios a chamal-o &aacute; provincia, e partiu,
+promettendo voltar a tempo ainda de discutir a quest&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
+inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
+contava, e alentando-os de longe &aacute; lucta. No entretanto, a
+quest&atilde;o foi apresentada nas camaras: oradores tibios e mal
+escutados acharam-se s&oacute;s a combatel-a; apagadores officiaes
+e officiosos abafaram a tempo a discuss&atilde;o; e, quando o
+conselheiro voltou a Lisboa, s&oacute; p&ocirc;de protestar nos
+circulos politicos contra o resultado da vota&ccedil;&atilde;o
+e expender as
+raz&otilde;es que deveriam fazer repellir a medida. <br />
+
+<br />
+
+Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o
+elegia; e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal
+f&ocirc;ra o pre&ccedil;o d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto trazia agora &aacute; luz a carta desencaminhada, que era
+do secretario do ministro, e que no seu conte&uacute;do deixava
+v&ecirc;r claramente as
+condi&ccedil;&otilde;es do pacto. <br />
+
+<br />
+
+Esta publica&ccedil;&atilde;o causou profunda
+sensa&ccedil;&atilde;o em Lisboa. A importancia politica do
+conselheiro soffreu com isso. <br />
+
+<br />
+
+Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
+possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
+declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio. <br />
+
+<br />
+
+Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que
+pertencem, invejosos que s&oacute; almejam o primeiro pretexto para
+os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam. <br />
+
+<br />
+
+Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas
+m&atilde;os dos taes; originou discuss&otilde;es e ataques
+violentos; e o conselheiro correu
+<span class="pagenum">[108]</span>
+risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a
+consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma
+significa&ccedil;&atilde;o
+dolorosa e triste que s&oacute; desillus&otilde;es, como as de
+Henrique
+de Souzellas, velhas desillus&otilde;es de sceptico impenitente,
+poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto. <br />
+
+<br />
+
+A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de
+familia. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a moral &eacute; uma. O homem n&atilde;o pode
+dividir-se; os peccados sociaes de quem &eacute; virtuoso nos lares
+domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que
+creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude,
+ser&atilde;o mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel
+julgamento para o cora&ccedil;&atilde;o de um pae! &Eacute;
+justo que a
+patria pe&ccedil;a contas dos crimes de familia e desconfie dos
+tribunos que n&atilde;o sabem ser paes, filhos, irm&atilde;os e
+esposos;
+&eacute; justo que a familia exija que se seja fiel &aacute;
+pr&aacute;tica e &aacute;s cren&ccedil;as que se professam,
+e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do
+homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os
+actos civicos, outra para os actos domesticos. <br />
+
+<br />
+
+Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no
+animo da morgadinha por meio de algumas
+consola&ccedil;&otilde;es, que uma
+indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava. <br />
+
+<br />
+
+Percebeu por&eacute;m, que, embora as
+manifesta&ccedil;&otilde;es do sentimento tivessem cessado
+j&aacute; em Magdalena, n&atilde;o se lhe tinha ainda dissipado
+a profunda e penosa impress&atilde;o que lhe fic&aacute;ra da
+leitura. <br />
+
+<br />
+
+Como para fazer cessar aquelle genero de
+consola&ccedil;&otilde;es, a que Henrique se julgava obrigado,
+e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom
+j&aacute; apparentemente sereno:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+&#8213;Bem; visto que &eacute; necessario precavermo-nos, vejamos de
+quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar
+de alguem, mas n&atilde;o se pronuncia claramente. <br />
+
+<br />
+
+N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma
+viagem aos p&oacute;los, e queixando-se do frio, cuja intensidade
+attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de
+accender logo de manh&atilde; os fog&otilde;es da casa. <br />
+
+<br />
+
+Quando D. Victoria foi informada do conte&uacute;do da carta do seu
+cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo
+alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa,
+aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e
+Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e
+inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de
+usar de toda a prudencia e
+dissimula&ccedil;&atilde;o n'esta pesquisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui entre n&oacute;s&#8213;dizia Henrique&#8213;vejamos em quem se pode,
+com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz
+bem; um criado bo&ccedil;al pode roubar uma joia, subtrahir
+qualquer objecto de valor intrinseco; por&eacute;m os
+ladr&otilde;es de cartas como estas, s&atilde;o de outra
+especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que
+frequenta o Mosteiro... <br />
+
+<br />
+
+E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para
+elle com um gesto espantado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, minha senhora, eu mesmo n&atilde;o me devo
+excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.<sup>as</sup>
+livres
+para me instaurarem processo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa, primo Henrique!&#8213;exclamou D. Victoria.&#8213;Era o que faltava!
+Nada, nada; n&atilde;o se cance; n&atilde;o tem que
+v&ecirc;r. Aquillo foram os criados. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena estava t&atilde;o abatida de animo, que nem deu
+atten&ccedil;&atilde;o a este episodio. <br />
+
+<br />
+
+Henrique proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[110]</span>
+&#8213;Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem
+deve excluir da possibilidade de ser r&eacute;o. O sr. conselheiro,
+por&eacute;m, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo,
+vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar
+offendido por elle, e que por vingan&ccedil;a... Ora actos capazes
+de trazer estas
+animadvers&otilde;es a seu pae, prima Magdalena, s&oacute; a
+quest&atilde;o do cemiterio, mas essa n&atilde;o importa a
+ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das
+expropria&ccedil;&otilde;es, por&eacute;m... <br />
+
+<br />
+
+Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,
+antes de enuncial-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, primo, diga&#8213;acudiu logo D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A expropria&ccedil;&atilde;o da casa do herbanario... O muito
+amor que o velho tinha &aacute;quella vivenda... A repugnancia com
+que viu cortar aquellas arvores velhas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o julga que foi o Vicente?&#8213;perguntou D.
+Victoria.&#8213;Mas elle n&atilde;o vem ao Mosteiro ha muitos annos,
+primo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que f&ocirc;sse elle, minha senhora&#8213;disse
+Henrique, cujo embara&ccedil;o augmentava, sentindo que a
+morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse
+lendo o pensamento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;insistia D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;proseguiu Henrique&#8213;o velho exerce certa
+fascina&ccedil;&atilde;o na gente da terra; um verdadeiro
+prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui
+entrada a todo o momento... Emfim... eu n&atilde;o quero seguir
+mais adeante este antipathico pensamento, que talvez f&ocirc;sse
+rejeitado com indigna&ccedil;&atilde;o por quem me escuta e
+attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz bem em o abandonar, primo Henrique&#8213;disse Magdalena, com
+severidade.&#8213;Entre ser victima de uma trai&ccedil;&atilde;o e
+culpada de uma suspeita injusta,
+<span class="pagenum">[111]</span>
+cruel e maligna, prefiro arriscar-me &aacute; primeira sorte. Se um
+passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas
+mais tentadoras situa&ccedil;&otilde;es da vida, se um nome
+ennobrecido pelo infortunio, n&atilde;o s&atilde;o garantias
+bastantes para
+proteger um homem contra os ataques da suspeita, n&atilde;o quero
+entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que
+&eacute; capaz de lan&ccedil;ar sacrilegamente a
+d&uacute;vida entre paes e filhos, entre irm&atilde;s e
+irm&atilde;os. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o
+castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento
+sinceramente ter j&aacute; perdido no uso do mundo uma
+t&atilde;o sympathica e adoravel boa f&eacute; nos outros, que
+&eacute; a maior prova de candura
+que se pode dar do proprio caracter. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria n&atilde;o percebeu nada d'este rapido dialogo; por
+isso exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que est&atilde;o voss&ecirc;s ahi a dizer? De quem falam?
+Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto
+&eacute; que ninguem me tira. <br />
+
+<br />
+
+Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora
+das li&ccedil;&otilde;es dos pequenos. <br />
+
+<br />
+
+Comquanto, desde o termo das f&eacute;rias, Augusto viesse todos os
+dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com
+Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se
+pass&aacute;ra na noite de Natal. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais
+pallido e triste do que de costume. Desviou-os, por&eacute;m, como
+se at&eacute; sentisse remorsos de ter escutado as
+allus&otilde;es de Henrique sobre o caracter de um homem que ella
+se costum&aacute;ra a respeitar. Porque o leitor, cuja
+intelligencia &eacute;, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que
+a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam
+os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[112]</span>
+&#8213;Muito bons dias, sr. Augusto,&#8213;disse D. Victoria
+affavelmente&#8213;ent&atilde;o s&atilde;o horas de me vir aturar a
+pequenada? N&atilde;o lhe invejo a vida. Sabe? De manh&atilde;
+at&eacute; &aacute; noite a aturar
+crean&ccedil;as! Deus me livre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora j&aacute; n&atilde;o succede assim, minha senhora.
+Estou dispensado de parte das minhas
+obriga&ccedil;&otilde;es&#8213;disse Augusto, depois de cortejar as
+senhoras e Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v. ex.<sup>a</sup> n&atilde;o sabe que
+j&aacute; foi nomeado outro
+professor para o meu logar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que me diz? <br />
+
+<br />
+
+Em todas as pessoas presentes produziu sensa&ccedil;&atilde;o
+esta noticia. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O
+gesto de Henrique tinha uma express&atilde;o particular. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Recebi ha dias a participa&ccedil;&atilde;o
+official&#8213;continuou placidamente Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;proseguiu D. Victoria&#8213;o mano tinha aqui dito que o seu despacho
+estava seguro, que, al&eacute;m de ser de toda a
+justi&ccedil;a, elle o tomaria a
+seu cuidado. E ent&atilde;o agora... Olhem, sabem que mais? eu cada
+vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos... <br />
+
+<br />
+
+Magdalena inclinou a cabe&ccedil;a, suspirando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem v&ecirc; v. ex.<sup>a</sup>&#8213;disse Augusto, com
+leve tom de
+amargura&#8213;que &aacute;s vezes ha grandes interesses sociaes
+dependentes do despacho de um modesto professor de
+instruc&ccedil;&atilde;o primaria da aldeia, e
+portanto n&atilde;o se deve extranhar que um homem politico
+attendesse a elles antes de tudo. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levant&aacute;ra os olhos,
+encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com
+inten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desg&ocirc;sto, que
+se lhe manifestou na
+contrac&ccedil;&atilde;o da fronte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> d&aacute;-me licen&ccedil;a
+que
+principie os meus
+trabalhos?&#8213;disse Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, quando quizer&#8213;respondeu D. Victoria.&#8213;Os pequenos
+est&atilde;o na sala verde. <br />
+
+<br />
+
+Augusto saiu. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e
+n&atilde;o se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes,
+apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob t&atilde;o
+intelligente
+direc&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que o Eduardito j&aacute; escreve e j&aacute;
+l&ecirc; manuscripto como um homem&#8213;dizia ella.&#8213;Quer
+v&ecirc;r? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter
+alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou v&ecirc;r. <br />
+
+<br />
+
+E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de
+m&atilde;e, foi buscar a pasta de Augusto e p&ocirc;z-se a
+procurar n'ella a escripta do filho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vejo ...&#8213;disse ella, remexendo os papeis.&#8213;Isto que
+&eacute;?... Ai, isto &eacute; uma escripta de Marianna... Ora
+veja. <br />
+
+<br />
+
+Henrique fingiu examinar com atten&ccedil;&atilde;o a escripta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui est&atilde;o os themas francezes d'elle. Quer v&ecirc;r?
+Eu d'isso n&atilde;o entendo, mas
+h&atilde;o de estar bons. <br />
+
+<br />
+
+E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma
+atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora onde estar&aacute; a escripta de Eduardo? Eu sempre queria
+que
+a visse. Isto... isto &eacute;... Ha de ser alguma carta, que
+elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda
+n&atilde;o &eacute; das mais faceis... Eu por mim
+n&atilde;o a leio... Quer v&ecirc;r? <br />
+
+<br />
+
+Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe
+ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade
+dos filhos. <br />
+
+<br />
+
+Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e p&ocirc;z-se a
+l&ecirc;l-a no fim; c&ecirc;do,
+por&eacute;m, come&ccedil;ou a examinal-a com grande
+curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a
+leitura, estava-lhe
+<span class="pagenum">[114]</span>
+nos labios um
+sorriso entre de ironia e de triumpho. <br />
+
+<br />
+
+Offerecendo &aacute; morgadinha a carta que l&ecirc;ra,
+disse-lhe, com um modo que a impressionou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja se comprehende a significa&ccedil;&atilde;o d'esta
+carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu
+irm&atilde;o. A mim parece-me que as crean&ccedil;as
+n&atilde;o a comprehenderiam bem. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a
+ler. <br />
+
+<br />
+
+Succedeu-lhe como a Henrique; c&ecirc;do a dominava uma anciosa
+curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez at&eacute; o fim. <br />
+
+<br />
+
+Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao ch&atilde;o;
+escondeu o rosto entre as m&atilde;os e
+n&atilde;o p&ocirc;de reter o pranto que lhe rebentava dos
+olhos. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que ha momentos, minha tia,&#8213;respondeu Magdalena,
+fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas&#8213;em que eu n&atilde;o
+sei como se resiste &aacute; loucura; em que, para n&atilde;o
+duvidarmos de n&oacute;s
+mesmos, &eacute; necessario duvidar da Providencia, que dizem que
+protege os bons. <br />
+
+<br />
+
+E levantando-se n'esta agita&ccedil;&atilde;o nervosa, saiu da
+sala, suffocada pelos solu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio,
+que ella n&atilde;o podia comprehender. <br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu simplesmente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr.
+Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro
+se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira
+significa&ccedil;&atilde;o da resposta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... n'esse caso... visto isso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, s&oacute; o sr. Augusto pode explicar o
+<span class="pagenum">[115]</span>
+mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a
+todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de
+verdade. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta
+n&atilde;o esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma
+coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi est&aacute; o pago
+que se tira de bem fazer! Ahi est&aacute;! Veremos a cara com que
+elle me responde. Ora deixa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu retiro-me&#8213;disse Henrique, pegando no chap&eacute;o para sair.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fique, primo, fique... At&eacute; &eacute; bom que
+ou&ccedil;a... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha senhora. &Eacute; melhor que eu
+n&atilde;o fique. Ha raz&otilde;es para isso... Tudo deve
+passar-se entre v. ex.<sup>a</sup> e elle, e, se me
+&eacute; licito um
+conselho, bom ser&aacute; que n&atilde;o seja demasiado
+violenta. <br />
+
+<br />
+
+Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por
+qu&ecirc;? N&atilde;o tinha feito o seu dever? Por acaso
+n&atilde;o era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as
+provas que o acaso contra elle ministr&aacute;ra? <br />
+
+<br />
+
+Mas em n&oacute;s todos se deve ter j&aacute; passado um
+phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique.
+Occasi&otilde;es ha em que, apesar de todos os argumentos da
+raz&atilde;o, apesar da
+conspira&ccedil;&atilde;o de todas as provas a justificar-nos,
+persiste em n&oacute;s uma voz instinctiva a avisar-nos de que
+commettemos um mal, formulando uma accusa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Isto s&oacute;mente n&atilde;o succede a quem tenha adormecidos
+os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso n&atilde;o
+se dava com Henrique. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria ficou s&oacute; na sala, meditando na maneira de
+confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo
+o dialogo que se ia seguir,
+<span class="pagenum">[116]</span>
+encarregando-se ella propria de responder por Augusto. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se passou muito tempo que Augusto n&atilde;o viesse
+procurar a pasta que lhe esquec&ecirc;ra na sala. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que procura?&#8213;disse D. Victoria, que, ao
+v&ecirc;l-o, parou junto da mesa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma pasta que deixei aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; esta?&#8213;disse D. Victoria, mostrando-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; essa mesma&#8213;respondeu Augusto, indo para
+buscal-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como v&atilde;o na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr.
+Augusto?&#8213;perguntou D. Victoria, retendo a pasta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem, minha senhora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; entenderam esta carta? <br />
+
+<br />
+
+Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; provavel que j&aacute;, minha senhora; ainda que
+n&atilde;o me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.<sup>a</sup>
+me deu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe
+pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a
+imprimir para elles lerem melhor. N&atilde;o posso consentir que
+entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a
+despeza que fez, para se mandar pagar. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria tirava da raiva, que se aposs&aacute;ra d'ella, uma
+ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito. <br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque n&atilde;o
+podia comprehender aquellas singulares palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz v. ex.<sup>a</sup> que... <br />
+
+<br />
+
+Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que
+Henrique deix&aacute;ra sobre a mesa, e mais exaltada
+j&aacute;, accrescentou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que
+fazia nem o que queria dizer tudo aquillo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, por amor de Deus, minha senhora,&#8213;disse elle,
+j&aacute; sobresaltado&#8213;que quer dizer tudo isto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de
+atrai&ccedil;oar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais
+cuidadoso em esconder as provas da sua villeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora!&#8213;exclamou Augusto, fazendo-se pallido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fez mal em n&atilde;o nos ter prevenido antes do que tinha
+descoberto; n&oacute;s ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir
+o lan&ccedil;o e ficarmos com a carta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, meu Deus! pois suspeita-se... <br />
+
+<br />
+
+E Augusto, quasi como louco, arrancou das m&atilde;os de D.
+Victoria a folha, e come&ccedil;ava a lel-a; mas as nuvens que lhe
+passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabe&ccedil;a
+n&atilde;o o deixavam
+comprehender o que lia. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; que eu entendo o que queria dizer o primo
+Henrique. Sempre &eacute; um homem que sabe o que &eacute; o
+mundo... <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e
+scintillou-lhe o olhar de c&oacute;lera: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar
+que o fizesse. &Eacute; o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma
+trai&ccedil;&atilde;o infame, uma trai&ccedil;&atilde;o
+que eu n&atilde;o ousaria suspeitar
+de ninguem! Mas juro-lhe que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de dar-me licen&ccedil;a de ir accommodar meus
+filhos&#8213;disse D. Victoria, interrompendo-o
+friamente. E encaminhou-se para a porta. <br />
+
+<br />
+
+Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;, minha senhora, v&aacute;; mas se tem a essas
+<span class="pagenum">[118]</span>
+crean&ccedil;as amor de
+m&atilde;e, n&atilde;o lhes ensine
+por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e
+a venerar. Pe&ccedil;o-lhe por ellas, mais do que por mim.
+&Eacute; uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar;
+vae-lhes envenenar para toda a vida o cora&ccedil;&atilde;o e
+talvez que contra si
+mesma veja voltar-se a desconfian&ccedil;a que lhes semeia
+t&atilde;o
+c&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; &eacute; certo,
+por&eacute;m, que n&atilde;o ousou dizer aos filhos
+coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio
+d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente
+calaram as reflex&otilde;es de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os
+olhos, commovida. <br />
+
+<br />
+
+Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento
+tivesse visto dissiparem-se todas as esperan&ccedil;as da sua vida.
+Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao
+v&ecirc;r-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava,
+da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se,
+engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios. <br />
+
+<br />
+
+Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu,
+por&eacute;m, a reac&ccedil;&atilde;o; n'aquelle
+caracter havia latente uma energia de homem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, mais do que nunca, preciso de alento para n&atilde;o
+succumbir;&#8213;exclamou elle, erguendo a cabe&ccedil;a e vindo-lhe
+&aacute;s faces o rubor da
+exalta&ccedil;&atilde;o&#8213;obriga-me a isso o nome honrado de meu
+pae, a santa memoria de minha m&atilde;e. A consciencia
+me dar&aacute; for&ccedil;as para luctar com a intriga e com a
+calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a
+descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha
+justi&ccedil;a no C&eacute;o, hei de
+vencer! N&atilde;o voltarei mais a esta casa, sem ser com a
+cabe&ccedil;a erguida; n&atilde;o pensarei mais em ti,
+Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia
+<span class="pagenum">[119]</span>
+vida, emquanto n&atilde;o saiba que no
+teu pensamento o meu nome n&atilde;o &eacute; o de um infame. <br />
+
+<br />
+
+Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta. <br />
+
+<br />
+
+Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a
+turba&ccedil;&atilde;o, curvou-se respeitosamente perante a
+morgadinha, e ia a retirar-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere,&#8213;disse-lhe ella, estendendo-lhe a m&atilde;o, e com
+profunda melancolia&#8213;n&atilde;o saia sem se despedir de uma amiga
+que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente. <br />
+
+<br />
+
+Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a
+estender-lhe a m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!&#8213;exclamou elle&#8213;precisava
+d'essas palavras para n&atilde;o enlouquecer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;, Augusto, v&aacute;. Dentro em pouco tempo todos
+lhe pedir&atilde;o perd&atilde;o. Creio-o firmemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu n&atilde;o procurarei tornar a v&ecirc;l-a,
+sen&atilde;o quando pud&eacute;r justificar essa generosa
+confian&ccedil;a. Juro-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+As lagrimas de Magdalena n&atilde;o podiam mais tempo conter-se-lhe
+nos olhos; iam soltar-se e j&aacute; ella, para as occultar,
+desviava o rosto, quando Christina entrou na sala. <br />
+
+<br />
+
+Christina, a quem a m&atilde;e acab&aacute;ra de contar o
+acontecido, parou a ver a scena e a commo&ccedil;&atilde;o dos
+dois. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena deu largas &aacute; tristeza, que lhe pesava no
+cora&ccedil;&atilde;o, deixando correr livremente o pranto. <br />
+
+<br />
+
+Christina correu a abra&ccedil;al-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?&#8213;exclamou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel
+ingenuidade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois tu... amaval-o? <br />
+
+<br />
+
+Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio. <br />
+
+<br />
+
+E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXIII </h4>
+
+<br />
+
+Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu
+do Mosteiro, ainda sem plano formado, sem ten&ccedil;&atilde;o
+definida, mas
+comprehendendo vagamente a necessidade de abra&ccedil;ar uma
+resolu&ccedil;&atilde;o qualquer. <br />
+
+<br />
+
+As palavras que D. Victoria inconsideradamente solt&aacute;ra,
+tinham-lhe feito conceber a suspeita de que Henrique n&atilde;o
+f&ocirc;ra alheio &aacute; calumnia que
+pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga
+n&atilde;o ia longe, e justo &eacute; confessar que
+n&atilde;o era destituida de plausibilidade a ideia. <br />
+
+<br />
+
+A especie de avers&atilde;o reciproca que, desde o primeiro
+encontro, os dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de
+Natal, em que fic&aacute;ra pendente entre elles uma
+provoca&ccedil;&atilde;o, s&oacute;
+&aacute; espera de pretexto, concorriam para dar vigor a esta
+supposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Por isso, depois de por muito tempo percorrer &aacute;
+t&ocirc;a os caminhos dos campos, sem consciencia nem destino,
+Augusto encaminhou-se resolutamente para Alvapenha. <br />
+
+<br />
+
+Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que
+occasionaram a sua
+accusa&ccedil;&atilde;o. Mal poderia at&eacute; dizer de
+que era accusado. Percebeu que se tratava de um abuso de
+confian&ccedil;a, de uma infamia, mas a impress&atilde;o
+recebida f&ocirc;ra tal que n&atilde;o o deix&aacute;ra
+investigar os pormenores do facto.
+<span class="pagenum">[121]</span>
+Previa em tudo isto
+uma trai&ccedil;&atilde;o, e, para a
+esclarecer, dirigiu-se &aacute; unica pessoa de quem lhe parecia
+provavel que ella partisse. <br />
+
+<br />
+
+Quando chegou a Alvapenha j&aacute; tinha alli passado a hora de
+jantar. <br />
+
+<br />
+
+Henrique retir&aacute;ra-se para o quarto, D. Doroth&eacute;a e
+Maria de Jesus, aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a
+rezar parte das suas longas ora&ccedil;&otilde;es quotidianas. <br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto bateu &aacute; porta, estavam ellas de volta com a
+ladainha, que D. Doroth&eacute;a dizia em latim, a seu modo, e a
+que Maria de Jesus respondia no mesmo idioma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Turris e burris, fedilisarca, espeque da
+justi&ccedil;a, Joannes asellis</em>&#8213;dizia D.
+Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Or&aacute; p&eacute;r
+n&oacute;s</em>&#8213;respondia invariavelmente a
+criada. <br />
+
+<br />
+
+A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala. <br />
+
+<br />
+
+Poucas situa&ccedil;&otilde;es se podem conceber mais
+exasperadoras de animo do que a de Augusto n'aquelle momento. <br />
+
+<br />
+
+Vir com o espirito dominado por as mais violentas paix&otilde;es,
+trazer no cora&ccedil;&atilde;o uma
+verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na
+presen&ccedil;a de duas indoles essencialmente pacificas, de dois
+cora&ccedil;&otilde;es a que a paix&atilde;o nunca alterou
+o rithmo, de duas consciencias de que nunca a d&uacute;vida, o
+remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, &eacute; um
+martyrio cruel. <br />
+
+<br />
+
+Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ditosos olhos que o v&ecirc;em!&#8213;disse D. Doroth&eacute;a,
+arredando deante de si a dobadoura, para mais &aacute; vontade
+contemplar o recem-chegado.&#8213;N&atilde;o sei, que mal lhe fizeram
+n'esta casa! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As minhas occupa&ccedil;&otilde;es...&#8213;balbuciou Augusto, sem
+saber o que dizia. <br />
+
+<br />
+
+Maria de Jesus veio de refor&ccedil;o &aacute; ama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso! fale-nos nas suas occupa&ccedil;&otilde;es, nem que
+<span class="pagenum">[122]</span>
+se n&atilde;o soubesse
+c&aacute; que todos os dias
+d&aacute; o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas
+quintas-feiras e domingos... <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o respondeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois olhe que todos aqui lhe querem bem&#8213;disse D.
+Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim o creio, minha senhora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu fui muito amiga de sua m&atilde;e, que era uma santa creatura.
+Inda me parece que a estou a v&ecirc;r ahi sentada, com aquella
+capa r&ocirc;xa que trazia. A alegria d'ella, quando o Augustito
+veio de Lisboa! Vi-a chorar e agradecer a Deus o filho que lhe tinha
+dado... Todo o seu desejo era n&atilde;o morrer antes de o
+v&ecirc;r padre; queria pelo menos uma vez commungar
+das suas m&atilde;os... Coitada!... N&atilde;o lhe
+concedeu isso o
+Senhor, que bem c&ecirc;do a chamou a si. <br />
+
+<br />
+
+E continuou para Augusto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui
+do legado que ella deix&aacute;ra, eu disse logo: &laquo;Ora a
+alma tem ella no
+C&eacute;o por isto, quando por mais n&atilde;o
+seja&raquo;. Porque,
+emfim... s&oacute; quem n&atilde;o conheceu sua m&atilde;e
+&eacute; que n&atilde;o diria outro tanto. Verdade &eacute;
+que elle n&atilde;o chegou
+a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o que lhe
+n&atilde;o convem. E eu digo, a vida de sacerdote &eacute;
+muito bonita, isso &eacute;, mas... n&atilde;o havendo
+inclina&ccedil;&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Henrique de Souzellas est&aacute; em casa?&#8213;perguntou elle,
+logo que p&ocirc;de.&#8213;Desejava muito falar-lhe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle
+deve estar no quarto... Ha de estar a ler. N&atilde;o tem outra
+vida aquelle rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga:
+&laquo;Henriquinho, olha que isso faz-te mal...&raquo;
+&Eacute; o mesmo que nada. S&oacute; ler, ler, ler, que
+&eacute; uma coisa por maior.
+<span class="pagenum">[123]</span>
+Ao principio ainda por ahi
+dava alguns passeios... Agora, tirando l&aacute; as suas visitas ao
+Mosteiro, elle para ahi fica. L&aacute; ao Mosteiro sim, para ahi
+ainda elle vae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que os ares s&atilde;o por alli muito
+saudaveis&#8213;disse maliciosam&ecirc;nte Maria de Jesus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus! ahi vem voss&ecirc; com as suas coisas. E ent&atilde;o
+que tem? Pois est&aacute; claro que um rapaz, como
+elle, d&aacute;-se com a gente nova. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, senhora, eu n&atilde;o digo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as raparigas de l&aacute; j&aacute; n&atilde;o
+est&atilde;o bem sem elle... Ora eu confesso, quando elle
+est&aacute; de
+mar&eacute;, &eacute; um g&ocirc;sto ouvil-o. Sempre
+&aacute;s vezes tem
+coisas que fazem rir as pedras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pondo-se a contar historias? Ih! isso ent&atilde;o &eacute;
+que &eacute;! Eu n&atilde;o sei onde elle as vae
+buscar!&#8213;accrescentou a criada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com esta&#8213;continuou D. Doroth&eacute;a, apontando para Maria de
+Jesus&#8213;&eacute; &aacute;s vezes um passo. Eu ainda queria que o
+Augustito os ouvisse a ambos. &Eacute; perdido em pouca gente. Elle
+p&otilde;e-se
+l&aacute; a inventar patranhas, e ella a t&ocirc;la, que sabe
+j&aacute; como elle
+&eacute;, ouve tudo muito s&eacute;ria e fiada, e no fim
+ent&atilde;o
+&eacute; que s&atilde;o os escarc&eacute;os. Emfim, uma
+coisa &eacute;
+dizer, outra &eacute; v&ecirc;r! <br />
+
+<br />
+
+E D. Doroth&eacute;a ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em
+que ha n&atilde;o sei que indicios de uma existencia placida, que
+consola ouvir. <br />
+
+<br />
+
+Augusto for&ccedil;ava-se a sorrir &aacute;quellas
+narra&ccedil;&otilde;es das duas velhas, a que elle mal
+attendia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo&#8213;continuou D. Doroth&eacute;a&#8213;que j&aacute; nos
+havia de fazer falta se saisse d'aqui; quando c&aacute;
+n&atilde;o est&aacute; parece-me a casa morta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, senhora, que este j&aacute; d'aqui
+n&atilde;o sae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora bem sabe voss&ecirc; d'isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a senhora ver&aacute;. Ora! Os passeios ao Mosteiro
+s&atilde;o muito bonitos. <br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu-se, dev&eacute;ras resolvido a cortar a conversa por
+uma vez.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+&#8213;Se me d&aacute; licen&ccedil;a, eu vou procural-o ao quarto.
+Desejava falar-lhe, quanto antes, para um negocio de urgencia. <br />
+
+<br />
+
+Depois de mais algumas reflex&otilde;es, resignaram-se a deixal-o
+partir. <br />
+
+<br />
+
+Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto
+de Henrique, e bateu &aacute; porta d'este. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entre quem &eacute;&#8213;disse de dentro Henrique.<br />
+
+<br />
+
+Augusto entrou. <br />
+
+<br />
+
+O sobrinho de D. Doroth&eacute;a estava sentado junto da janella,
+lendo uma folha e fumando. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r Augusto levantou-se. <br />
+
+<br />
+
+A lembran&ccedil;a das scenas d'aquella manh&atilde; no
+Mosteiro, e a express&atilde;o de physionomia de Augusto,
+fizeram-lhe prev&ecirc;r a indole da entrevista que se ia seguir. <br />
+
+<br />
+
+Evitando por&eacute;m o menor indicio, que pudesse revelar a
+preven&ccedil;&atilde;o em que estava, disse
+naturalmente, estendendo a m&atilde;o a Augusto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita? <br />
+
+<br />
+
+Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim estende a m&atilde;o a um miseravel? Ou &eacute;
+tibieza de pundonor, ou excesso de magnanimidade! <br />
+
+<br />
+
+Henrique retirou logo a m&atilde;o e respondeu com orgulhoso
+desdem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para
+n&atilde;o me arvorar em superintendente de negocios que me
+n&atilde;o dizem respeito; &eacute; um sentido especial, que se
+chama delicadeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso
+sentido&#8213;replicou Augusto no mesmo tom.&#8213;Nem sempre s&atilde;o
+t&atilde;o observadas pelo senhor, essas delicadas
+absten&ccedil;&otilde;es, como agora. Sei-o por
+experiencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o s&atilde;o desde que os interessados me ordenam
+<span class="pagenum">[125]</span>
+que intervenha, e desde que a minha
+interven&ccedil;&atilde;o pode ser util a amigos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em
+rela&ccedil;&atilde;o ao objecto que me traz aqui, espero que
+me explique a natureza da sua interven&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui
+explica&ccedil;&otilde;es? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com o direito que me d&aacute; a consciencia, senhor!&#8213;respondeu
+energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de
+ironia.&#8213;Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e
+infamemente, como eu fui, de provocar uma
+accusa&ccedil;&atilde;o aberta e leal. Direito? &Eacute;
+mais ainda do que direito, &eacute; dever. &Eacute; um dever
+para com a moral,
+&eacute; um dever para com a consciencia, &eacute; um dever
+para com a memoria d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e
+n&atilde;o lh'o contestarei, por que singularidade acontece que
+seja eu a pessoa que tem de responder por tudo isso? Por acaso
+ser&aacute; este o pretexto, para depois do qual tinhamos adiado
+uma entrevista que suppuzemos necesssaria? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem
+infame e vil. N&atilde;o lh'o invejo. Da minha n&atilde;o
+&eacute; pretexto; &eacute; uma
+interroga&ccedil;&atilde;o bem positiva e terminante. Todos os
+motivos anteriores, que podiam auctorisar-me a procural-o, cessaram
+ante a impreterivel exigencia d'este. Preciso de justificar-me, e por
+isso preciso de conhecer e de ouvir os meus accusadores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia
+escolher uma hora mais c&oacute;mmoda. Sabe que na Alvapenha se
+janta patriarchalmente ao meio dia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o julgue que com essas ironias de mau g&ocirc;sto,
+se esquivar&aacute; a responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a
+falar com seriedade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+&#8213;E tem meios para isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;o-lhe a justi&ccedil;a de acreditar que sim; creio
+que ainda n&atilde;o estar&aacute; t&atilde;o envilecido
+que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe infligir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; provavel que n&atilde;o risse, no caso que diz; mas
+tambem n&atilde;o falava, acredite. Ha, para
+interroga&ccedil;&otilde;es d'essas, respostas mais adequadas e
+discretas. N&atilde;o tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus,
+quem lhe disse que eu n&atilde;o queria dar-lhe todas as
+explica&ccedil;&otilde;es que souber? Sente-se, conversemos
+placidamente, que &eacute; a melhor maneira de v&ecirc;r claro
+nas coisas. N&atilde;o fuma? <br />
+
+<br />
+
+Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;-me causando tedio e compaix&atilde;o ao mesmo
+tempo, senhor. Deve ter j&aacute; uma alma bem corrompida para me
+receber assim. Ainda quando eu f&ocirc;sse um criminoso, se no seu
+caracter houvesse brio, dignidade e sentimento moral, devia a minha
+presen&ccedil;a ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto, para o
+n&atilde;o deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza
+em que est&aacute;, em que deve estar por
+f&ocirc;r&ccedil;a, a s&oacute; ideia de que pode
+calumniar um homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a
+gravidade d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser
+attendido. Para n&atilde;o comprehender isto, para n&atilde;o
+respeitar esse sagrado direito, que tem todo o accusado de se defender,
+&eacute; necessario estar corrompido at&eacute; o fundo da
+alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, s&oacute;
+se d&aacute; em quem duv&iacute;da de si
+proprio, e a si proprio se n&atilde;o respeita, porque se conhece.
+O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia, cujos amigos
+generosos n&atilde;o a receberam sem dor; e quando o calumniado lhe
+vem pedir explica&ccedil;&otilde;es, porque se trata da sua
+unica riqueza, porque, sem familia e pobre, e
+&aacute;manh&atilde; talvez na miseria,
+precisa de defender o unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um
+sorriso ultrajante, para occultar
+<span class="pagenum">[127]</span>
+talvez a cobardia, que n&atilde;o ousa
+repetir na face do accusado as insinua&ccedil;&otilde;es que
+contra elle fez na
+ausencia. Se a consciencia lhe n&atilde;o exprobra esta infamia,
+teve raz&atilde;o ao dizer-me que me enganei procurando-o. A
+caracteres d'esses n&atilde;o se pede a
+explica&ccedil;&atilde;o da calumnia; &eacute; a sua
+manifesta&ccedil;&atilde;o
+natural. <br />
+
+<br />
+
+E terminando estas palavras, que a mais violenta paix&atilde;o lhe
+dict&aacute;ra, Augusto caminhou para a porta
+do quarto. <br />
+
+<br />
+
+Henrique deteve-o. <br />
+
+<br />
+
+No espirito do leviano hospede de Alvapenha pass&aacute;ra-se
+n'este curto intervallo de tempo uma profunda
+revolu&ccedil;&atilde;o moral. <br />
+
+<br />
+
+Na voz, no gesto e na indigna&ccedil;&atilde;o de Augusto
+pareceu-lhe perceber vestigios de sinceridade, em que at&eacute;
+alli n&atilde;o acredit&aacute;ra, e desde
+esse momento, al&eacute;m dos remorsos pelos desdens com que o
+receb&ecirc;ra, sentia viva a necessidade de uma
+repara&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena tinha raz&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um n&atilde;o
+exgotado fundo de pundonor e de moralidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o saia&#8213;disse elle para Augusto, j&aacute; sem a
+menor sombra de ironia.&#8213;Se para isso f&ocirc;r necessario
+pedir-lhe perd&atilde;o, pedir-lh'o-hei. Que mais quer?...
+Reconhe&ccedil;o-lhe o direito que tem de ser escutado. Fique. E
+creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu, que em
+bem pouco concorri para ellas, sinto-me j&aacute; movido a
+n&atilde;o
+lhes dar f&eacute;. &Eacute; j&aacute; um convencimento
+t&atilde;o intimo como o que at&eacute; agora tinha da sua
+culpa, confesso-o. Se na minha m&atilde;o estiver esclarecer o
+mysterio, conte commigo. Fale. <br />
+
+<br />
+
+Augusto fitava-o ainda com desconfian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Henrique percebeu-o e continuou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justa a d&uacute;vida que lhe leio no olhar, mas,
+como s&oacute;mente o meu procedimento futuro a pode desvanecer,
+pe&ccedil;o-lhe que n&atilde;o deixe por
+isso de falar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+&#8213;Antes de mais nada: de que me accusam?&#8213;perguntou Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sabe?!&#8213;exclamou Henrique, admirado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a
+conclus&atilde;o em que fiquei, mal me deixou comprehender... <br />
+
+<br />
+
+Henrique contou ent&atilde;o tudo o que se pass&aacute;ra no
+Mosteiro, e terminou dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; v&ecirc; que eu n&atilde;o fiz mais do que
+faria outro qualquer em meu logar. Pesava sobre todos quantos
+frequentavam aquella casa uma desconfian&ccedil;a odiosa:
+esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lan&ccedil;ar aos
+hombros do culpado toda a responsabilidade da
+trai&ccedil;&atilde;o, era o natural empenho de todos. A
+descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta foi
+occasionalmente feita por D. Victoria. Eu n&atilde;o o conhecia
+bastante para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das
+apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por
+aquella occasi&atilde;o confirmaram, explicavam muito bem
+certas tenta&ccedil;&otilde;es
+de vingan&ccedil;a... Nada mais natural do que
+supp&ocirc;r... <br />
+
+<br />
+
+Augusto cobriu o rosto com as m&atilde;os, murmurando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de... <br />
+
+<br />
+
+Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a
+indiscre&ccedil;&atilde;o da sua dor. <br />
+
+<br />
+
+Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas
+disposi&ccedil;&otilde;es para com Augusto; por isso, quando
+este cortou assim em meio a express&atilde;o do pensamento, elle,
+que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto,
+advogados eloquentes. <br />
+
+<br />
+
+Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz que...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[129]</span>
+&#8213;Que n&atilde;o deve temer da impress&atilde;o produzida, por
+todas as provas d'este mundo, no animo de quem, atrav&eacute;s de
+tudo, acreditar&aacute; sempre na sua
+innocencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Refere-se a... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao seu segredo, que ha muito o n&atilde;o &eacute; para mim.
+Veja como eu estou virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com
+elle, quando ha pouco tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a
+causa occulta de tal ou qual antipathia, que sentia pelo senhor... que
+sentiamos um pelo outro, digamos assim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos... eu sei que &eacute; discreto; nem esta era
+occasi&atilde;o para entrar em confidencias. Tratemos do que mais
+importa... N&atilde;o sei como &eacute; que iria jurar agora a
+sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e com o tempo... porque
+francamente lhe declaro que me &eacute; necessario algum tempo para
+desvanecer em mim todos os restos de despeito e de...
+paix&atilde;o... por&eacute;m, com o tempo, talvez venha a ser
+seu verdadeiro amigo... sem a menor preven&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes
+inimigos aqui na terra para o enredarem assim! &Eacute; preciso
+esclarecer isto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inimigos?!... N&atilde;o os conhe&ccedil;o, nem vejo
+motivos...&#8213;disse Augusto, pensativo. Mas de repente, como se lhe
+acudisse um pensamento luminoso, fez um gesto que Henrique percebeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;?&#8213;perguntou este logo.&#8213;Descobriu?... Diga... Uma
+suspeita &eacute; j&aacute; um rasto precioso... guia os
+primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei a seguil-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi.
+&Eacute; isso... <br />
+
+<br />
+
+E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+&#8213;E ainda agora se lembra d'elle?&#8213;exclamou Henrique, ao ouvil-o&#8213;e
+inda hesita?! O senhor &eacute; de uma boa f&eacute;!... Temos
+o fio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como p&ocirc;de elle...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso depois; o mais vir&aacute; a seu tempo. Agora trata-se de
+vigiar esse senhor... E agora me lembra; elle &eacute; um dos
+oradores do club do Canada... Sondarei esse antro tenebroso... Eu
+j&aacute; devia suppor que andava aqui miseria politica... Estou a
+achar raz&atilde;o &aacute;quella adoravel Magdalena...
+Perd&atilde;o... inda n&atilde;o perdi o habito de a adorar...
+Tambem, desde que o consiga, serei seu amigo sem
+restric&ccedil;&otilde;es. At&eacute; l&aacute;,
+por&eacute;m, n&atilde;o ser&aacute; isso motivo para de
+corpo e alma me n&atilde;o dedicar &aacute; sua causa... Eu
+posso ter todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma
+velhacaria; e, f&ocirc;sse o meu maior inimigo que eu visse victima
+d'ella, creia que procuraria desfazel-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o-lhe essas palavras, que acredito s&atilde;o
+sinceras; n&atilde;o posso, por&eacute;m, acceitar a
+interven&ccedil;&atilde;o que me offerece. Eu sou que devo
+justificar-me. Est&aacute; empenhada n'isso a minha dignidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como queira. Em todo o caso espero que uma m&aacute;
+preven&ccedil;&atilde;o o n&atilde;o
+constranja a n&atilde;o recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio
+lhe puder servir. Agora pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o, se
+alguma vez o offendi de
+mais; mas vamos l&aacute;, o senhor tambem n&atilde;o
+est&aacute; de todo isento de culpa... E quanto ao pretexto...
+adiado mais uma vez, n&atilde;o lhe parece? <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o podia fechar-se &aacute;quelle caracter, que
+se lhe estava mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso
+respondeu, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adiado para sempre. <br />
+
+<br />
+
+E estenderam as m&atilde;os um ao outro, apertando-as j&aacute;
+sem o menor resentimento. <br />
+
+<br />
+
+Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; notavel;&#8213;pensava comsigo Henrique&#8213;estou sympathisando
+&aacute; ultima hora com este rapaz!
+<span class="pagenum">[131]</span>
+Mas como se combina isto com a minha
+paix&atilde;o por Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha
+que ella acertasse, e que n&atilde;o f&ocirc;sse
+paix&atilde;o o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista
+t&atilde;o apurada para estas discrimina&ccedil;&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXIV </h4>
+
+<br />
+
+O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites
+normaes; por&eacute;m, gra&ccedil;as ao
+empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrev&ecirc;ra a favor
+do pr&ecirc;so, e apesar da
+persegui&ccedil;&atilde;o que lhe moviam os padres, contava-se
+que elle f&ocirc;sse s&ocirc;lto, e era esperado na aldeia
+dentro em poucos dias. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o se descuid&aacute;ra de mandar todos os
+dias ao pobre homem noticias da filha, a qual, depois de ter por algum
+tempo inspirado s&eacute;rios cuidados &aacute; medicina da
+terra, parecia haver entrado n'um periodo de convalescen&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber
+por qu&ecirc;, ella propria n&atilde;o
+sentia as esperan&ccedil;as que dava. <br />
+
+<br />
+
+Ha espiritos t&atilde;o instinctivamente sensiveis e perspicazes,
+que, &aacute; maneira dos medicos experientes, presentem a
+gravidade ou a approxima&ccedil;&atilde;o do mal, ainda quando
+os symptomas tenham perdido toda a fei&ccedil;&atilde;o
+assustadora. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado
+rubor de saude principia a tingir as faces, at&eacute;
+ent&atilde;o pallidas, e elles sentem-se
+ainda estremecer de secretas apprehens&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as
+fei&ccedil;&otilde;es da pequena Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de
+vida principi&aacute;ra j&aacute; a animar-lhe
+<span class="pagenum">[132]</span>
+o rosto infantil, havia pouco
+gelado de terror e pela doen&ccedil;a; &aacute;s vezes
+at&eacute; um
+sorriso, ainda que melancolico, distendia-lhe os labios desmaiados, e
+s&oacute; de quando em quando raras nuvens de tristeza, evocadas
+por uma recorda&ccedil;&atilde;o penosa, parecia
+assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as
+vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar
+n'ella. <br />
+
+<br />
+
+O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado
+pulso da crean&ccedil;a,
+assegur&aacute;ra que ella estava j&aacute; livre da febre; e
+apesar d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao
+Herodes a dar-lhe a boa nova. <br />
+
+<br />
+
+E &eacute; certo que mais do que justificadas tinham de ser estas
+apprehens&otilde;es da morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acord&aacute;ra mais
+tranquilla e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como
+nunca, os indicios do mal profundo. <br />
+
+<br />
+
+Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores,
+gritos angustiosissimos,
+contrac&ccedil;&otilde;es espasmodicas, que parecia
+despeda&ccedil;arem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de
+novo, e, ao dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma
+prostra&ccedil;&atilde;o extrema, uma quasi completa
+insensibilidade de funesta significa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, assustada, tomou nos bra&ccedil;os a debil e emmagrecida
+crean&ccedil;a, e trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda
+se avistava o sol, j&aacute; quasi a esconder-se por detraz de uma
+collina distante. <br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de
+inverno, um pouco de calor para fundir os g&ecirc;los da morte, que
+principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa
+crean&ccedil;a; ao clar&atilde;o levemente afogueado do
+horisonte, um pouco das suas tintas para aquellas faces morbidamente
+pallidas; &aacute; amenidade da paizagem, um reflexo de sorriso
+para aquelles labios, onde elle se apag&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[133]</span>
+Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol j&aacute;
+vacillante, com a express&atilde;o, cheia de
+saudade e de poesia, de uma alma joven que se despede da vida, e,
+quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente para o rosto de
+Magdalena, que a observava com anciedade. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes
+lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha apertou-a ao seio, commovida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tens tu, minha filha?&#8213;disse-lhe com meiguice, afagando-a. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda n&atilde;o respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com
+a mesma express&atilde;o de affecto e de tristeza. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a. <br />
+
+<br />
+
+A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a
+como d'antes. E durou, e durou este olhar at&eacute; que pareceu a
+Magdalena haver n'elle n&atilde;o sei que estranha fixidez, que a
+inquietou. <br />
+
+<br />
+
+Palpou as m&atilde;os da crean&ccedil;a; estavam frias; o
+cora&ccedil;&atilde;o, parado; chamou-a pelo nome... a mesma
+fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas
+fei&ccedil;&otilde;es... estava morta. <br />
+
+<br />
+
+Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o
+adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella,
+arrebatasse nas azas para o throno de Deus. <br />
+
+<br />
+
+A morte de uma crean&ccedil;a como Ermelinda &eacute; um facto
+de ordinario indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no
+mundo; uma voz que emmudece nos festivos c&oacute;ros da infancia;
+algumas sentidas lagrimas de m&atilde;e sobre um ber&ccedil;o
+vazio; algumas flores sobre um tumulo; e &aacute; superficie das
+ondas sociaes nem sequer a leve vibra&ccedil;&atilde;o que a
+rosa desfolhada imprime &aacute; agua tranquilla do lago... eis
+tudo. <br />
+
+<br />
+
+A multid&atilde;o segue no delirio das festas, na lucta das
+paix&otilde;es, na febre da ambi&ccedil;&atilde;o e das
+glorias, e o
+<span class="pagenum">[134]</span>
+perfume da flor
+pendida n&atilde;o lhe affecta os sentidos embriagados. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, por&eacute;m, n&atilde;o succede assim, e
+assim n&atilde;o devia succeder com Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+As paix&otilde;es humanas, que ante o cadaver de uma
+crean&ccedil;a, coroada de flores candidas e cingida da alva tunica
+da pureza, deviam abrandar-se, como deante de uma vis&atilde;o do
+C&eacute;o, tomam-n'o
+&aacute;s vezes por estimulo para mais furiosas se desencadearem, e
+proclamarem a lucta, a sedi&ccedil;&atilde;o e a
+vingan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Desde que f&ocirc;ra publicada a portaria, prohibindo expressamente
+os enterramentos na igreja, medida t&atilde;o adversa ao espirito
+do povo, n&atilde;o tinha havido
+na terra uma morte que obrigasse a p&ocirc;r a medida em
+execu&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A ira popular, exacerbada de cont&iacute;nuo pelas secretas
+instiga&ccedil;&otilde;es de alguns padres fanaticos ou
+hypocritas, e dos adversarios politicos do conselheiro, rugia, havia
+muito, surdamente, mas n&atilde;o romp&ecirc;ra em
+explos&atilde;o por falta de pretexto. <br />
+
+<br />
+
+Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um
+maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia &aacute;
+forma&ccedil;&atilde;o
+de magotes nas encruzilhadas e nos largos. <br />
+
+<br />
+
+Quando por&eacute;m se espalhou a noticia da morte de Ermelinda,
+augmentou a effervescencia dos animos. Era chegado o momento. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella,
+quiz que ella f&ocirc;sse sepultada no mausol&eacute;o da casa
+do Mosteiro. Cumprindo assim a lei, prestava-se tambem culto
+&aacute;
+affei&ccedil;&atilde;o que todos sentiam pela
+crean&ccedil;a, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria
+como irm&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo-se d'esta resolu&ccedil;&atilde;o, rebentou a
+indigna&ccedil;&atilde;o popular. <br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde
+do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada
+extraordinario ajuntamento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+O brazileiro, o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, o latinista
+Pertunhas, alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr.
+Jo&atilde;ozinho, falavam, berravam e gesticulavam a um tempo. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e
+guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que
+pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o
+atrai&ccedil;oar, achava-se agora muito abalado, porque na
+quest&atilde;o dos cemiterios era intolerante, n&atilde;o
+podendo levar &aacute; paciencia que quizessem enterrar um homem,
+como elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de
+centeio. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr.
+Jo&atilde;ozinho, n&atilde;o se can&ccedil;ava de o
+catechisar, usando para isso de todas as armas e atacando-o por todos
+os pontos vulneraveis que lhe conhecia. <br />
+
+<br />
+
+Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratid&atilde;o
+do morgado para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do
+cora&ccedil;&atilde;o do conselheiro, que priv&aacute;ra
+cruelmente o pobre velho da sua propriedade, golpe fatal, que dentro em
+pouco o levaria ao tumulo; e a proposito contava como o herbanario
+pedira de joelhos ao conselheiro para lhe poupar a casa, e como este se
+rira das lagrimas do velho, porque tinha interesse em que
+n&atilde;o f&ocirc;sse adoptado o outro plano, que lhe cortava
+uma grande por&ccedil;&atilde;o dos proprios bens. <br />
+
+<br />
+
+Ouvindo estas coisas, o sr. Jo&atilde;ozinho, que tinha mais de
+grosseiro e bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa,
+despejava copos de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes. <br />
+
+<br />
+
+Outras vezes era no t&oacute;pico do cemiterio que ardilosamente o
+espirito tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao
+morgado de que elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na
+freguezia de Pinch&otilde;es iam tambem ser prohibidos os enterros
+na igreja, o que este negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que
+o brazileiro dizia, o que dava
+<span class="pagenum">[136]</span>
+logar a novas punhadas, novas irrita&ccedil;&otilde;es e a
+novas pragas do sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+No dia que dissemos, multiplic&aacute;ra o morgado, mais que de
+costume, as suas liba&ccedil;&otilde;es de vinho; e
+com as faces injectadas, os olhos meio fechados, ouvia com
+irrita&ccedil;&atilde;o os commentarios dos
+circumstantes e distribuia com profus&atilde;o pragas e murros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com os diabos!&#8213;berrava elle, acabando de despejar um copo de
+quartilho.&#8213;Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir
+&aacute; igreja e obrigal-os a enterrar l&aacute; a pequena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o se faz assim com essa facilidade e
+arreganhos&#8213;disse velhacamente o brazileiro, de proposito para o
+irritar ainda mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe diria se se fazia ou n&atilde;o, se se tratasse de coisa
+que me dissesse respeito!... Mas, l&aacute; com a filha do
+Cancella... n&atilde;o tenho eu nada... l&aacute; se
+avenham. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; ser filha do
+Cancella ou deixar de ser;&#8213;tornava o brazileiro&#8213;a quest&atilde;o
+&eacute; do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os outros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos eu&#8213;exclamou o morgado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se Deus quizer tambem vmc. se ha de l&aacute; enterrar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabos me levem se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelos modos&#8213;disse um padre do lado&#8213;elles enterram a rapariga no
+tumulo da familia do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&ecirc;des; se elles s&atilde;o todos da mesma
+confraria!&#8213;ponderou o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se n&atilde;o, &eacute; v&ecirc;r no outro dia o que o
+Herodes fez ao missionario! Ent&atilde;o julgam que aquillo
+n&atilde;o foi combina&ccedil;&atilde;o?&#8213;disse o padre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe
+bater&#8213;accrescentou um lavrador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim me disseram que trinta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre uma pouca vergonha como aquella! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ver&atilde;o que n&atilde;o lhe succede mal.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[137]</span>
+&#8213;Pois n&atilde;o, n&atilde;o; elle est&aacute; alli,
+est&aacute; na rua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz-se que o soltam &aacute; fian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pode ser; aquelle crime n&atilde;o tem
+fian&ccedil;a&#8213;ponderou um fazendeiro, que se tinha por muito visto
+em demandas e coisas de justi&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! com o que voss&ecirc; vem! Querendo elles... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo parece uma seita. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda ahi est&aacute;? Pois j&aacute; se sabe que elles
+s&atilde;o pedreiros-livres. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o tal lisboeta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse, ent&atilde;o, &eacute; que &eacute; d'aquelles! <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; do tal petimetre que falam? No tal que foi para a
+igreja ca&ccedil;oar com o missionario? Sempre voss&ecirc;s
+s&atilde;o uns homens de lama, tambem!
+&Oacute; Cosme&#8213;continuou, voltando-se para um alentado camarada
+que estava ao lado d'elle&#8213;olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o
+amigo? <br />
+
+<br />
+
+O valent&atilde;o sorriu modestamente, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, senhores&#8213;proseguiu o brazileiro, que n&atilde;o
+queria deixar arrefecer o enthusiasmo e a
+irrita&ccedil;&atilde;o do publico&#8213;hoje decide-se a coisa...
+D'aqui a uma hora est&aacute; enterrada a pequena e depois... o uso
+faz lei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que &eacute; verdade&#8213;secundou o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz lei emquanto eu me n&atilde;o lembrar de ir
+desenterral-a&#8213;respondeu, cada vez mais azedado, o sr.
+Jo&atilde;ozinho <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; isso l&aacute; mais devagar&#8213;acudiu o
+brazileiro&#8213;vossemec&ecirc; bem sabe que, estando ella no
+mausol&eacute;o do conselheiro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Importa-me c&aacute; o mausol&eacute;o? O senhor
+est&aacute; a ler. Eu com um empurr&atilde;o arrumo aquella
+plataf&oacute;rma
+a terra. &Oacute; Cosme, olha n&oacute;s, hein? <br />
+
+<br />
+
+O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[138]</span>
+&#8213;Ahi est&aacute; quando era preciso que houvesse n'esta terra um
+homem de vontade, que n&atilde;o deixasse fazer o enterro&#8213;disse o
+padre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era bem feito, para elles saberem tambem que se n&atilde;o brinca
+assim com o povo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso era!&#8213;repetiram algumas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu por mim... se alguem f&ocirc;r...&#8213;aventurou um. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu, eu&#8213;ouviu-se dizer de alguns pontos da sala. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixem-se de contos,&#8213;continuou o padre&#8213;elles fazem o que querem,
+porque sabem que n&atilde;o ha um homem de coragem, que se ponha
+&aacute; frente do povo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso &eacute; que &eacute; verdade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o ha homens para as occasi&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, que tinha presump&ccedil;&otilde;es de
+valente, e se gabava de ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com
+estas palavras, e protestou dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o julgam voss&ecirc;s que eu, se me der para ahi,
+n&atilde;o vou ao cemiterio, eu s&oacute;, e ponho tudo
+aquillo em cacos? hein? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o se faz com essa facilidade&#8213;disse o brazileiro
+impertinentemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quanto aposta voss&ecirc;?&#8213;bradou, cada vez mais afogueado, o
+sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos&#8213;continuava o brazileiro com os mesmos
+modos&#8213;n&atilde;o que a auctoridade... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A auctoridade! Para mim &eacute; que elles veem! Olha o regedor!
+O regedor commigo! E os cabos? &Oacute; Cosme, hein? Que te parece?
+Os cabos comnosco? <br />
+
+<br />
+
+O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se queres tentar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mil demonios!&#8213;disse o morgado, exgotando mais um copo&#8213;vamos a
+isto! anda d'ahi, &oacute; Cosme! <br />
+
+<br />
+
+O Cosme levantou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+&#8213;Nada de imprudencias&#8213;aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a
+significa&ccedil;&atilde;o contraria ao pensamento que
+exprimia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem tiver m&ecirc;do, que fique em casa. Ora quero mostrar a
+esta gente se ha ou n&atilde;o ha um homem para as
+occasi&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+E estavam no meio da sala o sr. Jo&atilde;ozinho e os seus
+arrojados camaradas, e o brazileiro j&aacute; conferenciava com o
+padre, que lhe respondia com signaes de intelligencia, como quem tinha
+projectos filiados n'aquelle movimento, quando entrou na taberna uma
+nova personagem que, por n&atilde;o habitual alli, e por outras
+circumstancias faceis de conjecturar, causou geral extranheza. <br />
+
+<br />
+
+Era Henrique de Souzellas. <br />
+
+<br />
+
+Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos
+occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a
+cavallo e deu um longo passeio pelos arredores. <br />
+
+<br />
+
+Na volta achou-se defronte da taberna do Canada. <br />
+
+<br />
+
+Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das alterca&ccedil;&otilde;es e
+das pragas que iam l&aacute; dentro, e isto resolveu-o a entrar,
+cumprindo assim a promessa que fizera a si mesmo de estudar aquelle
+terreno, a v&ecirc;r se encontrava vestigios que o levassem a
+provar a innocencia de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Apeou-se, prendeu o cavallo ao pe&atilde;o da porta e entrou. <br />
+
+<br />
+
+Ao entrar, percebeu que havia causado sensa&ccedil;&atilde;o a
+sua presen&ccedil;a, e at&eacute;, pela express&atilde;o
+com que o fitavam, suspeitou que talvez n&atilde;o f&ocirc;sse
+demasiado prudente o passo que dera. <br />
+
+<br />
+
+Era tarde, por&eacute;m, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a
+menor manifesta&ccedil;&atilde;o de receio. <br />
+
+<br />
+
+Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia. <br />
+
+<br />
+
+O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente
+do que desejava o recem-chegado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e n&atilde;o
+obstante estar firmemente resolvido a n&atilde;o
+lhe tocar. <br />
+
+<br />
+
+O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio
+associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da
+s&ecirc;de. <br />
+
+<br />
+
+Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu
+a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos
+havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se
+lan&ccedil;asse uma pedra de g&ecirc;lo. <br />
+
+<br />
+
+Reinava, por&eacute;m, um rumor surdo, um cochichar pouco
+tranquillisador, e que amea&ccedil;ava degenerar em maior tormenta.
+<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para
+n&atilde;o ser visto; o sr. Jo&atilde;ozinho olhou para
+Henrique, como se o n&atilde;o conhecesse, e conversava em voz
+baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no recem-chegado olhares
+sombrios e amea&ccedil;adores. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, ainda que interiormente n&atilde;o tranquillo,
+sustentava-os sem desviar os seus, e continuava fumando quasi
+provocadoramente. Pouco a pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim
+como a dos outros grupos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso ensinar estes espi&otilde;es&#8213;dizia uma voz
+audivelmente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querer&aacute; d'aqui este figur&atilde;o?&#8213;perguntava
+outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era bem feito que lhe ensinassem a n&atilde;o se metter com a
+nossa vida... <br />
+
+<br />
+
+O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os
+bra&ccedil;os sobre a mesa, e com o corpo inclinado para deante e
+os olhos abertos para Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe
+j&aacute; algum tanto a voz nas fauces: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar,
+sempre lhe dou uma li&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[141]</span>
+que lhe ha de lembrar toda a vida!
+N&atilde;o, que isto aqui n&atilde;o &eacute; Lisboa! Eu
+n&atilde;o admitto
+que se olhe para mim com falta de respeito... J&aacute; disse! Eu
+n&atilde;o gosto de repetir as coisas... Tenho dicto! O senhor
+n&atilde;o ouve? <br />
+
+<br />
+
+Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhor l&aacute;... Faz favor de n&atilde;o
+olhar para mim d'essa maneira? <br />
+
+<br />
+
+Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voss&ecirc; ri-se!... Elle riu-se, &oacute; Cosme? Pois elle
+riu-se de mim? Espera! <br />
+
+<br />
+
+E o sr. Jo&atilde;ozinho executou um movimento para levantar-se. <br />
+
+<br />
+
+O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos. <br />
+
+<br />
+
+Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! ent&atilde;o! isso o que &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero perguntar &aacute;quelle senhor de que &eacute; que se
+ri&#8213;bradava o morgado, furioso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso n&atilde;o se incommode&#8213;respondeu Henrique&#8213;eu mesmo
+d'aqui lhe respondo. Rio-me da ridicula figura que est&aacute;
+fazendo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... &Oacute;
+Cosme!... <br />
+
+<br />
+
+E o morgado barafustava entre os bra&ccedil;os debeis que o
+retinham. No povo principiou a subir a mar&eacute; das
+murmura&ccedil;&otilde;es contra Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor vem para aqui armar desordens? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; para espiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois queixe-se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se metta com a gente. <br />
+
+<br />
+
+O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas
+m&atilde;os que o retinham, conseguiu, gra&ccedil;as aos seus
+musculos robustos, sacudir de si todos os obstaculos, e correu para
+Henrique, que por preven&ccedil;&atilde;o se collocou a
+p&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+O sr. Jo&atilde;ozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava,
+voltado para elle: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para
+mim... Quero v&ecirc;r agora se ainda se ri. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Se cada vez est&aacute; mais ridiculo! <br />
+
+<br />
+
+O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a
+Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante
+de si, despejou-o todo sobre aquella figura j&aacute; avinhada,
+dizendo motejadoramente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi tem; &eacute; isso provavelmente que vem buscar. <br />
+
+<br />
+
+O rosto, as m&atilde;os e a camisa do sr. Jo&atilde;ozinho
+ficaram litteralmente tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a
+m&atilde;o &aacute; faxa da cinta, como a
+procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se a
+segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si. <br />
+
+<br />
+
+O morgado torcia-se e espumava sob a constric&ccedil;&atilde;o
+de Henrique, e j&aacute; congestionado e rouco bradou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Cosme!... &Oacute; Cosme!... Mata esse
+maldito!... <br />
+
+<br />
+
+A phalange do sr. Jo&atilde;ozinho correu em soccorro do chefe. O
+varapau do Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme
+zang&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O bra&ccedil;o diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o
+cr&eacute;dito do estabelecimento, afastou a tempo Henrique do
+terrivel embate, que infallivelmente lhe seria fatal. <br />
+
+<br />
+
+A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido. <br />
+
+<br />
+
+Henrique estava inc&oacute;lume, e o morgado s&ocirc;lto. <br />
+
+<br />
+
+Mas o perigo n&atilde;o passara para Henrique. O morgado
+preparava-se com os seus para nova investida, quando se ouviu a voz do
+brazileiro e do padre bradarem:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[143]</span>
+&#8213;J&aacute; est&aacute; a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto
+&eacute; tempo! <br />
+
+<br />
+
+E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por
+varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e
+t&atilde;o convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa o homem para outra vez, Jo&atilde;o, deixa-o e vamos a
+elles ao cemiterio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E queime-se a papelada da camara! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E mate-se o escriv&atilde;o de fazenda! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quebrem-se os vidros do Mosteiro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pegue-se fogo &aacute; casa! <br />
+
+<br />
+
+Eram de bastante f&ocirc;r&ccedil;a estes argumentos para
+convencer o sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&aacute; l&aacute;, rapazes! Com este faremos contas
+depois. Ao cemiterio! Atiremos a terra com o tal mausol&eacute;o! <br />
+
+<br />
+
+E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto,
+percebeu do que se tratava, e prevendo s&eacute;rios riscos para as
+senhoras do Mosteiro, desembara&ccedil;ou-se dos bra&ccedil;os
+do Canada, que teimava em segural-o e em dar-lhe conselhos de
+prudencia, e correu a montar a cavallo para se anticipar aos
+desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar por entre o
+grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no ar, caiu
+sobre a cabe&ccedil;a do cavallo. O animal, atordoado por a
+pancada, partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de
+Henrique, acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou
+como morto. <br />
+
+<br />
+
+Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do
+cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se
+pacificamente aos lares. <br />
+
+<br />
+
+O sino da igreja continuava a repicar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+<h4>XXV </h4>
+
+<br />
+
+Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia
+por aquella tarde de inverno! <br />
+
+<br />
+
+Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de
+toda a esta&ccedil;&atilde;o, e a murta e a alfazema, vivendo a
+custo n'aquelle solo ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes,
+tojeiras e pinheiraes. No centro d'este espa&ccedil;o elevava-se,
+singello, mas elegante, o tumulo da familia do Mosteiro, sobre o
+marmore do qual pousavam tristemente os ramos flexiveis de um salgueiro
+chor&atilde;o, e nos cantos principiavam a erguer-se, como
+obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes ponteagudos. Para
+al&eacute;m do muro, que circumdava este terreno, estendia-se um
+vasto pinheiral, atrav&eacute;s de cujos troncos, confusamente
+cruzados, se podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia,
+e o verdor dos campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena
+distancia d'alli, a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados
+&aacute;lamos do adro, agitados pelo vento, ainda chegava
+&aacute;quella estancia mortuaria. <br />
+
+<br />
+
+A tarde tinha um d'estes aspectos amea&ccedil;adores, que deixam
+presentir a tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas,
+de quando em quando, por uma subita vira&ccedil;&atilde;o, que
+faz
+revolutear na estrada as folhas s&ecirc;ccas como em espiraes
+phantasticas. O c&eacute;o pint&aacute;ra-se do colorido
+melancolico e triste, que em alguns quadros de
+Annuncia&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fielmente se
+v&ecirc; reproduzido. Estava quasi todo coberto; s&oacute;
+muito para o occidente uma estreita zona se conservava limpa de nuvens,
+mas n'ella mesmo o azul recebia, do contraste das c&ocirc;res
+<span class="pagenum">[145]</span>
+vizinhas, um cambiante quasi
+esverdeado. As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do
+sol, tinham o aspecto r&ocirc;xo-livido, que o avizinhar da noite
+ia tornando mais carregado; no mais alto da abobada, as superiores,
+illuminadas ainda, apresentavam reflexos amarellados que cada vez se
+afogueavam mais. <br />
+
+<br />
+
+Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica,
+uniforme, cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De
+quando em quando cruzava os ares uma ave de v&ocirc;o rapido,
+soltando pios angustiosos. <br />
+
+<br />
+
+Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+Estava j&aacute; aberto o jazigo da familia do conselheiro,
+aguardando a infeliz crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa,
+saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam
+alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela
+curiosidade que a nova f&oacute;rma de enterro lhes suscitava. <br />
+
+<br />
+
+As murmura&ccedil;&otilde;es, comquanto menos manifestas aqui
+do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; da porta da igreja para dentro, at&eacute; de
+joelhos, at&eacute; de contas na m&atilde;o e olhos fitos no
+altar, os
+murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a
+justi&ccedil;a celeste sobre os impios do seculo, que
+n&atilde;o queriam enterrar-se no ch&atilde;o sagrado da
+igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre
+a b&ocirc;ca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa
+mesma occasi&atilde;o, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam
+dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno. <br />
+
+<br />
+
+Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
+entreolhavam de maneira
+<span class="pagenum">[146]</span>
+mysteriosa, fitando &aacute;s vezes os caminhos proximos, como se
+d'alli aguardassem alguma coisa. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Christina fic&aacute;ra a fazer companhia a D. Victoria, que se
+ach&aacute;ra adoentada. <br />
+
+<br />
+
+Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada
+&aacute; campa por crean&ccedil;as quasi da mesma idade,
+vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a
+irm&atilde; mais nova de Christina; as outras, raparigas das
+vizinhan&ccedil;as, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas
+proprias m&atilde;os vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
+extraordinario apparato, n&atilde;o s&oacute; em honra da
+familia do Mosteiro, mas para desvanecer a m&aacute;
+impress&atilde;o dos animos populares por meio da pompa religiosa. <br />
+
+<br />
+
+Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas
+campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e
+risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo
+onde Ermelinda devia ser sepultada. <br />
+
+<br />
+
+O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
+que as nuvens n&atilde;o toldavam. <br />
+
+<br />
+
+A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
+que d&aacute; ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
+intensidade. <br />
+
+<br />
+
+A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
+reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
+verdadeira aur&eacute;ola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e
+batina, recitando as ora&ccedil;&otilde;es da
+occasi&atilde;o; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado
+pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e
+respeitavel anci&atilde;o que, em vez de exacerbar os preconceitos
+do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os
+combatia e censurava. <br />
+
+<br />
+
+Depois vinha em caix&atilde;o aberto, e no meio de uma
+<span class="pagenum">[147]</span>
+numerosa companhia de crean&ccedil;as,
+Ermelinda, a quem a pallidez da morte n&atilde;o
+dissip&aacute;ra a
+formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
+innocencia. As m&atilde;os cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a
+tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparec&ecirc;ra no
+auto, e a cabe&ccedil;a, cercada por uma singella cor&ocirc;a
+de flores, conservava a graciosa inclina&ccedil;&atilde;o que
+lhe era habitual em vida. <br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as do acompanhamento tinham sido escolhidas, por
+Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia. <br />
+
+<br />
+
+Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
+formoso. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha preced&ecirc;ra o cortejo e viera esperal-o junto do
+tumulo. Com o bra&ccedil;o apoiado na pedra sepulcral, e a fronte
+encostada &aacute; m&atilde;o, seguindo melancolicamente com a
+vista a vagarosa prociss&atilde;o que entr&aacute;ra no
+cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por
+m&atilde;o de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a
+saudade pelos que morrem. <br />
+
+<br />
+
+Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera
+j&aacute; occupar a posi&ccedil;&atilde;o
+que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da
+campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas
+e as crean&ccedil;as encaminharam-se, por entre elles, para a borda
+da sepultura. <br />
+
+<br />
+
+O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova. <br />
+
+<br />
+
+Uma imprevista occorrencia mudou, por&eacute;m, o aspecto da scena.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia j&aacute; alguns momentos que come&ccedil;&aacute;ra
+a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos
+pinheiraes, como de multid&atilde;o que se approximasse em tropel. <br />
+
+<br />
+
+As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
+activado ao ouvil-o. Pouco
+<span class="pagenum"><a name="p148">[148]</a></span>
+a
+pouco principiou a mover-se alguma <a href="#e8">coisa por</a>
+entre os
+troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas
+figuras de homens, correndo em direc&ccedil;&atilde;o ao
+cemiterio, gesticulando, berrando, soltando amea&ccedil;as, algumas
+das quaes j&aacute; a distancia a que elles vinham permittia ouvir
+claramente. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era difficil adivinhar a
+significa&ccedil;&atilde;o d'aquillo. A quest&atilde;o
+vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo
+descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e
+a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasi&atilde;o
+da crise popular j&aacute; antevista. <br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados,
+de aspecto feroz, berrando e brandindo amea&ccedil;adoramente paus,
+fouces, chu&ccedil;os, e todas as pe&ccedil;as do extravagante
+arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da
+arrua&ccedil;a ou da sedi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
+estavamos prevenidos; agora, por&eacute;m, j&aacute;
+engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos
+algares. <br />
+
+<br />
+
+Entre os primeiros vinha o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, e ao
+seu lado o <em>factotum</em> Cosme. <br />
+
+<br />
+
+Estes, enraivados, correram para o logar onde par&aacute;ra o
+enterro, bradando em confus&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alto l&aacute;! alto l&aacute;! Ninguem se enterra aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperem! Isso n&atilde;o vae assim! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fa&ccedil;am a festa sem n&oacute;s! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;F&oacute;ra com os do cemiterio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morram os pedreiros-livres! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para a igreja! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enterre-se na igreja! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, sr. abbade, espere por n&oacute;s! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui vamos para aben&ccedil;oar a cova! <br />
+
+<br />
+
+E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
+gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+O cruciferario e os padres, &aacute; excep&ccedil;&atilde;o
+do velho que dissemos, abandonaram o posto; as crean&ccedil;as,
+pousando no ch&atilde;o e abandonando o esquife de Ermelinda,
+correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha conservou-se junto do tumulo da m&atilde;e, olhando
+com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no
+meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos
+l&aacute;bios, como de anjo que j&aacute; de longe estivesse
+vendo o desencadear das paix&otilde;es humanas, e rindo de piedade.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querem d'aqui?&#8213;perguntou elle, fitando-os&#8213;com que fins vieram
+perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queremos que ninguem se enterre no
+cemiterio&#8213;respondeu o sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! &eacute; verdade! ninguem se enterra
+aqui!&#8213;confirmaram differentes vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por qu&ecirc;?&#8213;continuou o padre&#8213;julgam que Deus n&atilde;o
+receber&aacute; as almas, cujos corpos
+n&atilde;o estejam l&aacute; dentro, a apodrecer sob os
+telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira l&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queremos saber de contos. N&atilde;o queremos.
+J&aacute; disse! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o lhes reconhe&ccedil;o o direito de querer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o padre mestre tem vagares!&#8213;disse o fa&ccedil;anhudo
+Cosme&#8213;e tu pachorra para escutal-o, Jo&atilde;o. Para isso
+n&atilde;o foi que viemos.
+Serm&otilde;es para a quaresma. Vamos! cante l&aacute; os seus
+reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos n&oacute;s
+fazer o enterro. &Oacute; Manoel coveiro, traze a enxada e vem
+d'ahi. <br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, o Cosme j&aacute; se abaixava para levantar o
+caix&atilde;o em que jazia Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A justi&ccedil;a de Deus caia sobre o impio, que com as
+m&atilde;os impuras tocar n'esse cadaver, que est&aacute;
+<span class="pagenum">[150]</span>
+aben&ccedil;oado pela
+Igreja!&#8213;exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e
+terrivel. <br />
+
+<br />
+
+Na aldeia os homens mais endurecidos n&atilde;o s&atilde;o
+superiores &aacute; intima&ccedil;&atilde;o religiosa. O
+Cosme retirou a m&atilde;o, como se receiasse que a
+impreca&ccedil;&atilde;o do padre se cumprisse alli mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
+hesita&ccedil;&atilde;o, que
+t&atilde;o fataes s&atilde;o ao exito das
+revolu&ccedil;&otilde;es
+democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e
+quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados j&aacute; do
+primeiro impeto. <br />
+
+<br />
+
+Mas a primeira onda n&atilde;o &eacute; a mais temivel; os
+primeiros bandos populares, que s&aacute;em
+&aacute; rua,
+soltando o grito de revolta, s&atilde;o ingenuos no meio da sua
+quasi selvagem ferocidade; entregues a si, c&ecirc;do
+espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas,
+quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os
+dirija, n&atilde;o s&atilde;o os precisos para ficarem
+esmagados sob a
+repress&atilde;o do poder; quando o grito sedicioso, em vez de
+sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os
+cautos para tentar a opportunidade da occasi&atilde;o, apparenta
+sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspira&ccedil;&atilde;o
+legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas,
+vem ent&atilde;o a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel,
+porque n&atilde;o &eacute; a embriaguez do motim que a impelle,
+&eacute; a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de
+antem&atilde;o tra&ccedil;ado e urdido no mysterio e na sombra.
+Vem ent&atilde;o refor&ccedil;ar-a primeira,
+insufflar-lhe o alento que esta n&atilde;o tem de si, e amparar-se
+com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa n&atilde;o vinga,
+retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas
+se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
+campo da victoria adeantam-se ent&atilde;o a colher os
+troph&eacute;os conquistados. <br />
+
+<br />
+
+Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado
+<span class="pagenum">[151]</span>
+pelo morgado das Perdizes, ia
+ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do
+venerando cura, saiu da igreja uma singular prociss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo
+missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e
+sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres. <br />
+
+<br />
+
+A hoste do sr. Jo&atilde;ozinho sentiu-se reanimar com este
+ref&ocirc;r&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a
+prociss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o missionario! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o santo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo os pedreiros-livres! <br />
+
+<br />
+
+E os do bando do estandarte correspondiam a estas
+sauda&ccedil;&otilde;es, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo os ma&ccedil;onicos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morram os jacobinos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva a santa religi&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o
+perd&atilde;o das injurias, o amor reciproco, a caridade
+indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e
+manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os
+feitos de armas dos passados guerreiros da christandade. <br />
+
+<br />
+
+A embriaguez da revolu&ccedil;&atilde;o apoderou-se de novo do
+morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora
+o cerebro, que n&atilde;o f&ocirc;ra nunca dotado, de grande
+fortaleza contra as paix&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Palpitava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, quando se imaginava
+caudilho de um movimento popular. <br />
+
+<br />
+
+Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se consentem aqui enterros, e principiemos
+j&aacute; por deitar abaixo estas pedras&#8213;bradou elle, apontando
+para o tumulo da familia do conselheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+&#8213;&Eacute; verdade! &eacute; verdade! Abaixo! abaixo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o inven&ccedil;&otilde;es dos pedreiros-livres! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; isso, &eacute; isso... Pois n&atilde;o
+v&ecirc;em que s&atilde;o de pedra! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo! Abaixo! <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado
+das m&atilde;os de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns
+passos para o tumulo. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena collocou-se deante d'elle. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; n&atilde;o estava pallida; tinha nas faces o rubor,
+nos olhos o lampejar da indigna&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Afaste-se, senhor!&#8213;bradou ella, estendendo a m&atilde;o para o
+&eacute;brio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer
+pouse os p&eacute;s nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa
+minha m&atilde;e. Atraz! <br />
+
+<br />
+
+A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
+resolu&ccedil;&otilde;es energicas e potentes
+d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher
+sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis. <br />
+
+<br />
+
+O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
+ficou enleado. <br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m o Cosme, o seu genio mau, n&atilde;o sei que lhe
+murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que
+ainda escancarou b&ocirc;ca humana. <br />
+
+<br />
+
+Estendendo para Magdalena a m&atilde;o callosa e grosseira,
+disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena repelliu-o com despreso e avers&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah! Faz-se fidalga!&#8213;disse o sr. Jo&atilde;ozinho,
+despeitado.&#8213;Pois n&atilde;o anda bem. <br />
+
+<br />
+
+O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
+escutal-o, bradou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo!...&#8213;repetiram muitas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&aacute; abaixo!&#8213;repetiu tambem o sr.
+Jo&atilde;ozinho, adeantando-se com o machado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+&#8213;Para traz!&#8213;exclamou outra vez Magdalena, j&aacute;
+tr&eacute;mula de exalta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho sorriu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que &eacute; mandar! Socegue que n&atilde;o
+fazemos mal a sua m&atilde;e; s&oacute; lhe queremos tirar
+essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!&#8213;e soltou, ao dizer isto,
+uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo, abaixo!&#8213;repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
+para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a raz&atilde;o se lhe
+perturbava. Era-lhe preciso defender de uma
+profana&ccedil;&atilde;o as cinzas de sua m&atilde;e, ainda
+que f&ocirc;sse &aacute; custa da
+propria vida. <br />
+
+<br />
+
+Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens;
+j&aacute; as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios
+principiavam a murmurar a palavra
+&laquo;piedade&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
+achavam caminho para chegar ao cora&ccedil;&atilde;o, hesitou,
+resmungando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! se temos ch&ocirc;ro, nada feito. <br />
+
+<br />
+
+Mas j&aacute; n&atilde;o podia hesitar; a onda impellia-o, os
+gritos redobravam, e outros bra&ccedil;os se agitavam ao seu lado,
+preparando-se para a obra de
+profana&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho cedeu outra vez e levantou o machado. <br />
+
+<br />
+
+Imitaram-n'o muitos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena ent&atilde;o correu a abra&ccedil;ar-se ao tumulo da
+m&atilde;e para o proteger da violencia. <br />
+
+<br />
+
+Antes de o abater haviam de a ferir a ella. <br />
+
+<br />
+
+Os machados, que j&aacute; se brandiam no ar, suspenderam-se.
+Alguns baixaram-n'os, como arrependidos. <br />
+
+<br />
+
+O morgado formulou n'uma jura a impress&atilde;o que lhe estava
+causando a scena. <br />
+
+<br />
+
+Desviando os olhos, disse, com modo desabrido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tirem essa mulher d'ahi.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[154]</span>
+Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
+facto n&atilde;o viesse desviar as atten&ccedil;&otilde;es
+e modificar diversamente o animo
+popular. <br />
+
+<br />
+
+Um homem, que parecia chegar de longa jornada,
+approxim&aacute;ra-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso
+&aacute; medida que se affirmava nos grupos alli reunidos. <br />
+
+<br />
+
+Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa. <br />
+
+<br />
+
+A figura da morgadinha, em p&eacute; sobre os degraus do tumulo,
+abra&ccedil;ada a elle, dominava toda aquella multid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma
+exclama&ccedil;&atilde;o, como de quem tinha comprehendido ou
+adivinhado a significa&ccedil;&atilde;o
+d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em
+pouco, no logar do motim. <br />
+
+<br />
+
+Era tempo. <br />
+
+<br />
+
+A popula&ccedil;a allucinada ia talvez exercer algumas d'essas
+irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa
+do povo nas luctas em que elle toma parte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isto aqui?&#8213;disse o homem, rompendo com os
+bra&ccedil;os potentes a onda que se lhe antolhava. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu
+caminho at&eacute; ao meio do circulo. <br />
+
+<br />
+
+Uma s&oacute; voz correu por as differentes pessoas do grupo dos
+amotinados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Herodes... &Eacute; o Herodes!...&#8213;diziam, afastando-se. <br />
+
+<br />
+
+Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado. <br />
+
+<br />
+
+Obtendo fian&ccedil;a, gra&ccedil;as &aacute;
+interven&ccedil;&atilde;o do conselheiro, voltava &aacute;
+terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia f&ocirc;ra a
+unica dor que o atormentara. <br />
+
+<br />
+
+O desgra&ccedil;ado n&atilde;o sabia ainda da sorte d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[155]</span>
+Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, j&aacute;
+n&atilde;o o encontr&aacute;ra na
+pris&atilde;o, para onde f&ocirc;ra dirigida. <br />
+
+<br />
+
+Vinha cheio de esperan&ccedil;as o pobre homem, porque eram para
+animar as ultimas noticias recebidas. <br />
+
+<br />
+
+Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos
+sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos
+enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da
+terra. <br />
+
+<br />
+
+Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
+m&atilde;e, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se
+logo a acudir-lhe. <br />
+
+<br />
+
+Ao chegar, por&eacute;m, ao meio do circulo, que conseguiu romper,
+e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da
+crean&ccedil;a do esquife, o qual continuava ainda pousado no
+ch&atilde;o; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia,
+ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil
+claridade da hora, reconheceu a filha. <br />
+
+<br />
+
+Nem um s&oacute; grito de dor lhe saiu dos labios, nem um
+s&oacute; movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos
+fitos n'aquella crean&ccedil;a morta, com as m&atilde;os juntas
+e com as faces extremamente pallidas. <br />
+
+<br />
+
+Perante esta terrivel manifesta&ccedil;&atilde;o de dor, que
+toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o
+perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que
+dominavam os cora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
+fervoroso, ajoelhou junto do caix&atilde;o de Ermelinda, e
+tr&eacute;mulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou
+a m&ecirc;do as m&atilde;os das m&atilde;os cruzadas da
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de
+g&ecirc;lo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+&#8213;Jesus, meu Deus! Est&aacute; morta!... Ermelinda!...
+Filha!... Isto n&atilde;o pode ser, Senhor!... Pois minha filha
+est&aacute; morta? <br />
+
+<br />
+
+A paix&atilde;o principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa;
+mas havia no tom de voz, com que estas palavras f&ocirc;ram
+pronunciadas, n&atilde;o sei
+qu&ecirc; t&atilde;o intimamente doloroso, que presentia-se
+que, no curto espa&ccedil;o de tempo que as precedera, se tinha
+operado n'aquelle peito uma revolu&ccedil;&atilde;o tremenda,
+como se uma intima dilacera&ccedil;&atilde;o o tivesse
+destruido. Adivinhava-se l&aacute; dentro
+j&aacute; um desalento mortal, um mal de que se n&atilde;o
+convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
+tinha eu feito para m'a matarem?... &Oacute; anjo do
+C&eacute;o! viver eu para te
+v&ecirc;r assim! <br />
+
+<br />
+
+E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
+que n&atilde;o conseguiam aquecer o g&ecirc;lo d'aquellas
+faces. <br />
+
+<br />
+
+Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
+ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
+fazia j&aacute; renegar aos mais atrevidos os
+seus
+excessos passados. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella continuava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
+despeda&ccedil;a-me o
+cora&ccedil;&atilde;o!... N&atilde;o me morras assim,
+filha! N&atilde;o me morras antes de dizer-me uma palavra de
+amor... de perd&atilde;o. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de
+morrer! Por que n&atilde;o esperaste ao menos?... Pensar eu que hei
+de v&ecirc;r-te partir, sem que me d&ecirc;s um beijo de
+despedida!... que te n&atilde;o hei de ouvir falar! S&oacute;!
+s&oacute;! Ficar s&oacute;! S&oacute; n'este
+mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me
+castigardes assim!? Em qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+O Cancella voltou para ella os olhos j&aacute; marejados de
+lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale,
+diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou
+em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e n&atilde;o
+responde... Ent&atilde;o n&atilde;o me perdoou? Pois minha
+filha
+n&atilde;o me perdoou? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu a custo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tinha ella a perdoar-lhe? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; verdade que eu lhe queria muito?
+n&atilde;o &eacute; verdade que eu vivia por ella? Agora... que
+me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora,
+assim! abra&ccedil;ado a este anjo! Se Deus me matasse! <br />
+
+<br />
+
+E outra vez a estreitava nos bra&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
+voz alterada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao
+p&eacute; de minha filha morta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queremos que elles a enterrem na igreja&#8213;responderam, j&aacute;
+tibiamente, algumas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na igreja?... Isso &eacute; que n&atilde;o! Sabem
+quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de
+m&ecirc;dos, que lhe roubaram
+as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi
+v&ecirc;des... Pois n&atilde;o a conheciam? N&atilde;o a
+tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a
+nunca com estas c&ocirc;res desmaiadas? viram-n'a sem aquelles
+cabellos louros, que t&atilde;o bem lhe ficavam? e que elles
+cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar,
+desgra&ccedil;adinha! N&atilde;o, n&atilde;o
+te entregarei. N&atilde;o, n&atilde;o ir&aacute;s
+l&aacute; para
+dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de
+Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias
+no ber&ccedil;o, que ficar&aacute; sempre vazio!
+&Oacute; meu Deus, que vida vae ser a minha, se te n&atilde;o
+compadeces de mim, Senhor!... <br />
+
+<br />
+
+E suffocado de pranto, que rompia agora abundante,
+<span class="pagenum">[158]</span>
+o desesperado pae ajoelhou junto do
+esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, menina Magdalena, por dar &aacute; minha pequena um
+logar ao p&eacute; de sua m&atilde;e; obrigado. Junto d'aquella
+santa parece-me que dormir&aacute; em soc&ecirc;go... A minha
+pobre filha! <br />
+
+<br />
+
+E pousando nos labios frios da crean&ccedil;a um beijo prolongado,
+cheio de paix&atilde;o e saudade, levantou o esquife nos
+bra&ccedil;os para, por suas proprias m&atilde;os,
+o descer ao jazigo. Antes, por&eacute;m, de fazel-o, beijou ainda
+uma vez aquella de que mal podia separar-se. <br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular. <br />
+
+<br />
+
+Nem um s&oacute; movimento, nem uma s&oacute; voz tentou
+opp&ocirc;r-se &aacute;quelle acto, contra o qual momentos
+antes se erguia irreprimivel a resistencia popular. <br />
+
+<br />
+
+Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro que o fizera f&ocirc;ra o missionario. Desde que vira
+assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias
+pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo. <br />
+
+<br />
+
+Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme
+j&aacute; n&atilde;o estavam presentes.
+Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os. <br />
+
+<br />
+
+Os circumstantes quasi faziam j&aacute; c&ocirc;ro com as
+argui&ccedil;&otilde;es do Cancella contra os excessos do
+fanatismo e do beaterio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A falar verdade&#8213;dizia um&#8213;este pobre homem tem alguma
+raz&atilde;o. Isto de metter scismas &aacute;s
+crean&ccedil;as!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem &eacute; de mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu por mim se f&ocirc;sse a elle... N&atilde;o sei o que
+faria. <br />
+
+<br />
+
+N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+N&atilde;o seria difficil a um especulador aproveitar aquelles
+mesmos bra&ccedil;os e armas para organisar uma
+sedi&ccedil;&atilde;o sobre uma divisa opposta &aacute;
+que primeiro os convoc&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella
+caiu de joelhos, suffocado em pranto. <br />
+
+<br />
+
+As creancas presentes, por contagio da commo&ccedil;&atilde;o,
+a que &eacute; t&atilde;o sujeita aquella idade, choraram
+tambem. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio n&atilde;o a
+deixou falar. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; p&ocirc;de pousar-lhe em silencio a m&atilde;o no
+hombro. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
+desafogado pranto do que nunca. <br />
+
+<br />
+
+A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento. <br />
+
+<br />
+
+Os sons das Av&eacute;-Marias vibraram nos ares, prolongados e
+tristes. <br />
+
+<br />
+
+O padre velho pronunciou em voz alta a sauda&ccedil;&atilde;o
+angelica. Responderam-lhe as creancas! <br />
+
+<br />
+
+Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha voltou a casa com o cora&ccedil;&atilde;o oppresso
+de tristeza. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXVI </h4>
+
+<br />
+
+Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa
+agita&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Momentos antes havia sido para l&aacute; transportado, quasi sem
+acc&ocirc;rdo, Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se
+encarreg&aacute;ra de trazer da taberna,
+<span class="pagenum">[160]</span>
+onde o Canada o recolhera, at&eacute;
+o Mosteiro, sobre um carro de herva que vinha guiando. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha,
+D. Victoria perdeu totalmente a cabe&ccedil;a, e em vez de tomar as
+providencias que o caso pedia, deu em ralhar, em fazer
+exclama&ccedil;&otilde;es, em andar de sala em sala, de
+corredor em corredor, sem ten&ccedil;&atilde;o formada, sem
+methodo, sem
+direc&ccedil;&atilde;o. Levava as m&atilde;os &aacute;
+cabe&ccedil;a, ajuntava-as
+consternada; dava uma ordem ociosa; mandava logo suspender a
+execu&ccedil;&atilde;o d'ella; impacientava-se; chamava a
+toda a pressa um criado e n&atilde;o sabia depois o que tinha para
+dizer-lhe; extranhava a tardan&ccedil;a de outro que n&atilde;o
+mand&aacute;ra chamar, e sem dar a final expediente a coisa
+nenhuma, nem saber o que fizesse. <br />
+
+<br />
+
+Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente
+direc&ccedil;&atilde;o; paravam embara&ccedil;ados, ou
+corriam sem saber para onde, nem para qu&ecirc;, e sem adeantarem
+servi&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as concorriam tambem para esta desordem, porque,
+cheias de susto, andavam agarradas &aacute;s saias de D. Victoria,
+que nem sequer dava por ellas. <br />
+
+<br />
+
+Christina foi a unica pessoa que conservou a presen&ccedil;a de
+espirito n'aquella occasi&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Nada do que fazia era inutil: nem uma s&oacute; ordem dava que
+pudesse dizer-se ociosa; gra&ccedil;as ao methodo com que procedia
+&aacute;s instruc&ccedil;&otilde;es que
+ordenava, a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria
+o percebesse at&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+Christina tambem, ao v&ecirc;r chegar Henrique n'aquelle estado
+assustador, sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe
+era precisa toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem
+s&oacute;mente poderia descan&ccedil;ar, e logo achou na
+necessidade valor, e, com serenidade apparente, s&oacute; trahida
+pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, tudo previu, tudo
+providenciou. <br />
+
+<br />
+
+Sem uma exclama&ccedil;&atilde;o, sem uma palavra de desespero
+<span class="pagenum">[161]</span>
+ou de susto, sem nem ao
+menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflex&atilde;o affavel,
+que lhe era natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os
+aprestes que o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros
+com intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgi&atilde;o,
+enviou a Alvapenha parte do succedido, e ordenou que procurassem
+Magdalena, occupando n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra
+toda como alimento &aacute; impaciencia de sua m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e
+sympathicas. N&atilde;o era para o sal&atilde;o que se
+form&aacute;ra e educ&aacute;ra o
+ingenuo e meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um
+acanhamento, que j&aacute; n&atilde;o conseguiria vencer, mas
+nas lides domesticas, na vida do lar era d'essas corajosas luctadoras,
+a quem a desventura n&atilde;o derruba, cuja intelligencia por tudo
+se reparte; d'estes genios providenciaes, que pairam sobre o estreito
+horisonte da familia, activos, laboriosos, achando nas fadigas um
+prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, nos sorrisos que
+provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que enxugam, premio
+bastante para compensar as penas que soffrem. <br />
+
+<br />
+
+Mulheres s&atilde;o estas nascidas para serem esposas e
+m&atilde;es, o que &eacute; quasi o mesmo que dizer: nascidas
+para serem mulheres. <br />
+
+<br />
+
+A chegada de D. Doroth&eacute;a, que acudiu apressada logo que
+soube o que succedera ao sobrinho, n&atilde;o dispensou Christina
+d'estes cuidados, que voluntariamente tom&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Comquanto a senhora de Alvapenha f&ocirc;sse mais razoavel do que
+D. Victoria, e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis
+effervescencias, em que esta se deixava arrebatar, n&atilde;o era
+tambem mulher para casos d'estes. <br />
+
+<br />
+
+Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Doroth&eacute;a
+perdera ou embot&aacute;ra a faculdade preciosa
+<span class="pagenum">[162]</span>
+de acertar bom caminho
+em qualquer imprevista occorrencia. <br />
+
+<br />
+
+Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos
+j&aacute; a lan&ccedil;ava em
+s&eacute;rios embara&ccedil;os. Ella propria confessava que
+inda havia pouco tempo principi&aacute;ra a afazer-se &aacute;
+estada de Henrique em Alvapenha, e a fazer o que era seu costume fazer
+antes de elle vir. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pois evidente que D. Doroth&eacute;a pouco mais podia
+fazer do que rezar, e para isso ninguem estava mais habilitado do que
+ella. Em rela&ccedil;&atilde;o
+&aacute; c&ocirc;rte celestial era a boa senhora como esses
+almanachs vivos, que nos sabem dizer todos os canaes por onde os
+differentes negocios poder&atilde;o ser melhor conduzidos nas
+c&ocirc;rtes... terrestres... Conhecia a especialidade de cada
+santo e para cada um tinha uma f&oacute;rmula de requerimento
+particular. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o a consentiu por muito tempo no quarto de
+Henrique, onde, com as melhores
+inten&ccedil;&otilde;es, mais embara&ccedil;ava o
+servi&ccedil;o do que
+auxili&agrave;va; usando de uma debil violencia foi-a levando para
+a sala do oratorio, onde ella encetou uma reza sem fim. <br />
+
+<br />
+
+Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do
+cemiterio, e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para
+verificar a realidade do que lhe diziam. <br />
+
+<br />
+
+Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido,
+uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D.
+Victoria tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena dirigiu-se para l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas
+interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que s&oacute; a
+fecunda verbosidade feminina &eacute; capaz. Em geral as mulheres,
+seja dito antes em honra do que em censura do sexo, s&atilde;o
+oradoras de muito mais folego que os homens que blasonam de eloquentes.
+O assumpto mais simples, uma colh&eacute;r
+<span class="pagenum">[163]</span>
+que se perdeu, uma pe&ccedil;a de lou&ccedil;a que se
+quebrou, por exemplo, fornecem-lhes thema para uma pr&eacute;dica
+de duas horas. <br />
+
+<br />
+
+Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil
+f&oacute;rmas e estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo
+que a um homem a custo daria para uma magra
+ora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde &eacute; que tu
+estavas. Fa&ccedil;a favor de me dizer onde &eacute; que
+estava? <br />
+
+<br />
+
+Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara
+e postura de r&eacute;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... senhora...&#8213;ia elle a dizer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora &eacute; o que
+&eacute;. Um desaf&ocirc;ro assim!... Eu s&oacute;
+quero saber se vossemec&ecirc; ganha soldada para andar
+l&aacute; por onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as
+vendas... Porque elle n&atilde;o ha mais... Como o dinheiro se vae
+roubar &aacute; estrada... O que tu merecias... Estou eu aqui a
+chamar ha mais de duas horas e vossemec&ecirc; apparece-me
+l&aacute; quando
+&eacute; muito do seu g&ocirc;sto? Isto atura-se? A culpa tem
+quem eu sei... Tu cuidas que mandriar n&atilde;o &eacute;
+roubar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cale-se! Ou&ccedil;a e cale-se. Tens a lingua muito prompta para
+responder. Ora toma-me cautela, sen&atilde;o vaes j&aacute;,
+j&aacute; pela porta f&oacute;ra. Pouca
+vergonha! Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer
+mandar onde &eacute; preciso e n&atilde;o apparecer um criado
+n'esta casa! A pagar-se aqui umas soldadas por ahi al&eacute;m, e,
+quando se quer o servi&ccedil;o feito, tem uma pessoa de o fazer
+por suas m&atilde;os!... Tu cuidas que isso n&atilde;o
+&eacute; peccado tambem? Deixa, meu amigo, que tens boas contas a
+dar de ti. Quem &eacute; que lhe deu licen&ccedil;a para sair
+sem ordem de seus
+amos? Faz favor de me dizer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A sr.<sup>a</sup> Christininha... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero saber da sr.<sup>a</sup>
+Christininha, quero saber quem
+lhe deu licen&ccedil;a para sair?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[164]</span>
+&#8213;Mas &eacute; o que eu estou dizendo &aacute; senhora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; muito padre-mestre. Ora n&atilde;o seja confiado, e
+veja como responde. <br />
+
+<br />
+
+Emfim, este dialogo promettia ser eterno, n&atilde;o obstante a
+urgencia do servi&ccedil;o de que falava D. Victoria,
+servi&ccedil;o que ella propria adiava com este importuno
+serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A entrada da morgadinha operou uma divers&atilde;o. D. Victoria
+esqueceu-se do criado, o qual p&ocirc;de retirar-se sem ser
+percebido e sem receber as ordens urgentes para que f&ocirc;ra
+chamado. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella
+propria o soubera do mo&ccedil;o do carro em que viera Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Andam desaforados&#8213;concluiu ella.&#8213;J&aacute; nem attendem a uma
+pessoa de respeito. &Eacute; porque n&atilde;o ha
+justi&ccedil;a n'esta terra. Est&atilde;o para ahi uns
+patetas de umas auctoridades, que s&atilde;o outros que taes. Era
+preciso um exemplo. Ahi est&aacute; quando eu, se f&ocirc;sse
+rei, n&atilde;o tinha pena nenhuma: havia de os esquartejar e era
+bem feito! <br />
+
+<br />
+
+Cumpre dizer que D. Victoria n&atilde;o era capaz de bater n'um
+gato. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o &eacute; que trasbordou a
+indigna&ccedil;&atilde;o da tia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu que dizes, menina?... Tu est&aacute;s a falar
+s&eacute;rio?... Pois elles?... Em nome do Padre... Que mais
+teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E esses malvados ainda
+est&atilde;o na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda saber...
+N&atilde;o, isso n&atilde;o
+fica assim... D'aqui a pouco p&otilde;em-nos o p&eacute; no
+pesco&ccedil;o. Nada, nada; para os malvados &eacute; que se
+fizeram as forcas... Ora deixa que... Isto aqui anda trama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falemos mais n'isso. Agora vou v&ecirc;r o estado
+do ferido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae, e v&ecirc; se encontras por ahi alguns criados. Eu
+n&atilde;o sei onde elles se metteram. Ha de ser preciso
+<span class="pagenum">[165]</span>
+ir &aacute; botica, e muitas
+mais coisas, e n&atilde;o
+vejo nenhum! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha. <br />
+
+<br />
+
+Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em
+direc&ccedil;&atilde;o ao quarto de Henrique, com um copo de
+agua acidulada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha, Christe?&#8213;perguntou-lhe Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha de haver, Lena?&#8213;respondeu Christina com tristeza, mas com
+serenidade ao mesmo tempo&#8213;uma desgra&ccedil;a, mas que Deus ha de
+permittir que n&atilde;o seja sem remedio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como est&aacute; elle? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou.
+Os balan&ccedil;os do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas
+calmantes que lhe tenho dado, achou-se bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda n&atilde;o mandaram chamar o cirurgi&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; mandei, j&aacute; veio, j&aacute; o sangrou,
+j&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tua m&atilde;e n&atilde;o o sabe e ia mandar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-a l&aacute;, Lena. Deixa-a l&aacute; com os criados,
+que por ora n&atilde;o convem que venha. Elle precisa de
+soc&ecirc;go. J&aacute; mandei sair d'aqui a tia
+Doroth&eacute;a, que n&atilde;o adeantava servi&ccedil;o.
+Queres vir
+v&ecirc;l-o? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda
+commo&ccedil;&atilde;o cerebral, que lhe produzira a
+qu&eacute;da. A tendencia ao estado comatoso, que apresentava,
+tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso. <br />
+
+<br />
+
+Volt&aacute;ra-lhe a raz&atilde;o e os sentidos; mas tardia
+aquella, e estes sem possibilidade de longa
+fixa&ccedil;&atilde;o em qualquer objecto. Sobretudo, o que
+n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma
+indifferen&ccedil;a morbida pelo seu estado e por tudo quanto o
+cercava. <br />
+
+<br />
+
+Acceitou das m&atilde;os de Christina a bebida refrigerante, que
+ella mesma prepar&aacute;ra, com os movimentos quasi instinctivos
+do somnambulo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe
+caus&aacute;ra lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em
+Christina um olhar de gratid&atilde;o, sorriu-lhe, e, pousando a
+cabe&ccedil;a outra vez no travesseiro, fechou os olhos para
+dormir. Esta somnolencia era habitual. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava
+um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor
+mandar calar os irm&atilde;os ou os criados, ou desfazer alguma
+d&uacute;vida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de
+qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a
+escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem
+ruido, diligente e sem confus&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, que se sent&aacute;ra a um canto da sala, quasi
+subjugada pelas muitas e violentas
+commo&ccedil;&otilde;es d'aquelle dia, contemplava a actividade
+da prima e extranhava-a. <br />
+
+<br />
+
+Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a
+suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito
+methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.
+<br />
+
+<br />
+
+Apreci&aacute;ra-lhe at&eacute; ent&atilde;o os dotes de
+crean&ccedil;a, a bondade do cora&ccedil;&atilde;o, os
+extremos de affecto que possuia; mas ainda a n&atilde;o tinha visto
+tomando assim tanto a s&eacute;rio a sua miss&atilde;o de
+mulher e
+desempenhando-se d'ella t&atilde;o dignamente. <br />
+
+<br />
+
+Esta ordem de reflex&otilde;es conduzia naturalmente a outras o
+espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no
+leito, e como que sob a protec&ccedil;&atilde;o de uma timida e
+debil
+crean&ccedil;a que, mais do que elle, parecia carecer de amparo,
+Magdalena n&atilde;o p&ocirc;de reprimir um sorriso benigno e
+pensou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; aquella cabe&ccedil;a estouvada p&ocirc;de
+at&eacute; hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas
+&eacute; preciso n&atilde;o ter cora&ccedil;&atilde;o
+para que, ao erguer-se d'aquelle
+<span class="pagenum">[167]</span>
+leito, n&atilde;o
+seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella para a
+adorar. E Henrique n&atilde;o &eacute; falto de
+cora&ccedil;&atilde;o. Lida, lida, minha boa
+Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz
+que tu vencesses com as mais aben&ccedil;oadas armas que concedeu
+&aacute; mulher. Confio em Deus que vencer&aacute;s.
+Deixar-te-hei todas as fadigas, para te pertencer todo o prazer. <br />
+
+<br />
+
+E em harmonia com esta resolu&ccedil;&atilde;o, a morgadinha
+absteve-se de intervir no tratamento de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXVII </h4>
+
+<br />
+
+Foi opini&atilde;o do facultativo, que tratou de Henrique, que a
+vida d'este correra s&eacute;rios riscos durante a primeira semana,
+por n&atilde;o sei que
+complica&ccedil;&atilde;o que se lhe manifestou no decurso da
+molestia. Se se enganou o pr&aacute;tico, n&atilde;o nos
+compete a
+n&oacute;s decidir; acceitemos-lhe a opini&atilde;o, como de
+legitima fonte, e n&atilde;o profundemos materia alheia ao nosso
+intento. <br />
+
+<br />
+
+Ao fim dos oito dias, por&eacute;m, come&ccedil;aram a
+manifestar-se melhoras evidentes, e o proprio facultativo foi o
+primeiro a assegurar &aacute;s senhoras, que sempre o vinham
+consultar &aacute; saida com anciosa curiosidade, que &laquo;o
+homem estava salvo&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+De facto, nos primeiros periodos da doen&ccedil;a, Henrique caira,
+como j&aacute; diss&eacute;mos, n'um d'aquelles estados de
+indifferen&ccedil;a para tudo e para todos, de que se
+n&atilde;o pode agourar nunca bem. Agora, por&eacute;m,
+come&ccedil;ava j&aacute; a manifestar
+atten&ccedil;&atilde;o para os cuidados de que era objecto, e a
+agradecer, com palavras de sincera gratid&atilde;o, o tratamento
+affectuoso que recebia n'aquella casa e especialmente os desvelos de
+Christina.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+Esta f&ocirc;ra effectivamente sempre incan&ccedil;avel,
+sol&iacute;cita e carinhosa enfermeira. <br />
+
+<br />
+
+Os cuidados de que o rodeava, como a um irm&atilde;o, absorviam-lhe
+todos os instantes; prev&ecirc;r-lhe os desejos, adivinhar-lhe as
+penas, procurar-lhe allivio &aacute;s dores physicas ou moraes, era
+agora para ella a tarefa de cada momento, a preoccupac&atilde;o
+permanente de todos os seus pensamentos. <br />
+
+<br />
+
+Henrique costum&aacute;ra-se a v&ecirc;r mover-se no seu quarto
+aquella meiga e delicada figura de mulher, crean&ccedil;a de
+hontem, a ouvir-lhe o timbre suave e ainda um pouco infantil da voz, a
+cruzar o olhar com aquelle olhar brando que o fitava com sympathia e
+meiguice; j&aacute; se n&atilde;o sentia bem, longe d'ella, e a
+cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas para a porta
+&aacute; espera de a v&ecirc;r apparecer. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
+Christina sobre o animo do rebelde, que at&eacute; alli
+f&ocirc;ra insensivel, e exultava.
+Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
+cabeceira do enfermo, por uma raz&atilde;o analoga &aacute; que
+obriga os pintores a deixar em meias tintas os accessorios de um
+quadro, para que a
+atten&ccedil;&atilde;o se fixe no objecto principal. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
+devia ser a figura principal. <br />
+
+<br />
+
+N'este intento a morgadinha conservava &aacute;s visitas que vinha
+fazer a Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
+familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os
+impulsos da sua indole de mulher, e de mulher que t&atilde;o bem
+comprehendia os deveres da sua miss&atilde;o, ao mesmo tempo
+carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais extranha que lhe era
+possivel a estes pequenos cuidados, que t&atilde;o irresistivel
+influencia exercem no cora&ccedil;&atilde;o do homem que
+experimenta a ventura de ser objecto d'elles. <br />
+
+<br />
+
+De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
+crescia &aacute; custa de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[169]</span>
+Esta percebia-o e n&atilde;o cabia em si de contente com a
+descoberta. &Eacute; necessario ser dotado de um grande fundo de
+generosidade, para que um cora&ccedil;&atilde;o
+de mulher fa&ccedil;a d'estas descobertas, com o intimo
+contentamento que Magdalena sentia. &Eacute; t&atilde;o natural
+defeito a vaidade! N&atilde;o se exprime o prazer que Henrique
+experimentava a cada pequeno incidente da vida domestica, que punha em
+rel&ecirc;vo o predominio de Christina. <br />
+
+<br />
+
+Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
+placidos, de que t&atilde;o pouco abundante era todo o seu passado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
+a propria tia Doroth&eacute;a, reuniam-se no quarto do doente para
+tomarem o ch&aacute;. N&atilde;o era, por&eacute;m, a
+presen&ccedil;a de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, que o
+consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
+circumstancia, que far&aacute; sorrir um homem de sensibilidade
+embotada, emquanto o facto se n&atilde;o der com elle. Era que
+Christina, que em outra qualquer occasi&atilde;o cedia sempre a
+Magdalena a
+direc&ccedil;&atilde;o dos trabalhos domesticos, alli dentro
+n&atilde;o resignava em ninguem essas
+func&ccedil;&otilde;es. Tomava naturalmente as maneiras de dona
+de casa, e recebia a m&atilde;e, a prima e todas as outras como
+visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, visitas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imaginam os encantos que Henrique achava
+&aacute;quillo. A elle proprio parecia j&aacute; que de facto o
+prendiam a Christina la&ccedil;os mais intimos, la&ccedil;os
+mais de familia, do que &aacute;s outras senhoras.
+Era assim que qualquer pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar
+a ella, como o faria a uma irm&atilde;; emtanto que naturalmente
+custava-lhe a incommodar outra qualquer pessoa, e n&atilde;o o
+fazia sem as desculpas e cumprimentos do estylo, que para ella
+n&atilde;o usava j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
+despotica por que o governava Christina,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+fazendo-o cumprir &aacute;
+risca as dietas e as
+prescrip&ccedil;&otilde;es do facultativo, recusando-se
+obstinadamente a deixal-o l&ecirc;r, e at&eacute; ralhando-lhe
+&aacute;s
+vezes com severidade quasi maternal: apparencias de dureza, que
+occultavam thesouros de sensibilidade e de affecto. <br />
+
+<br />
+
+O pobre rapaz, que n&atilde;o conhecera familia, que nunca vira do
+seu leito de doen&ccedil;a, nas vezes que caira n'elle, o vulto
+suave e consolador de uma m&atilde;e, de uma irm&atilde; ou de
+uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o com essas
+entona&ccedil;&otilde;es
+carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a m&atilde;o que
+nos estende a ta&ccedil;a do mais amargo
+remedio; elle, que n&atilde;o sabia ainda o que era sentir-se
+amparar a fronte, que escalda de febre, pelo apoio de uma debil
+m&atilde;o de mulher, a que o amor d&aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;as extraordinarias, commovia-se
+at&eacute; &aacute;s lagrimas agora, e quasi n&atilde;o
+pensava sem tristeza na convalescen&ccedil;a, que havia de o privar
+d'aquelles cuidados affectuosos. <br />
+
+<br />
+
+O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
+approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que
+todas as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia
+dizer. <br />
+
+<br />
+
+Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa. <br />
+
+<br />
+
+Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
+se agitava no leito com a inquieta&ccedil;&atilde;o da febre,
+Christina, depois de lhe dar a beber o calmante que lhe prescrevera o
+medico, perguntou-lhe, com a mais adoravel candura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabe rezar? <br />
+
+<br />
+
+Henrique sorriu, respondendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que desapprendi j&aacute; as ora&ccedil;&otilde;es
+que minha m&atilde;e me ensinou. <br />
+
+<br />
+
+Christina calou-se e ficou tristemente pensativa. <br />
+
+<br />
+
+Aquella alma innocente perguntava a si mesma
+<span class="pagenum">[171]</span>
+que consola&ccedil;&atilde;o encontraria nas
+prova&ccedil;&otilde;es da vida um espirito que n&atilde;o
+soubesse recolher-se na
+ora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer-me ensinar a rezar, Christina? <br />
+
+<br />
+
+Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
+inten&ccedil;&atilde;o d'aquellas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda f&ocirc;r capaz
+a minha alma, as
+ora&ccedil;&otilde;es que me ensinar. <br />
+
+<br />
+
+Christina respondeu-lhe gravemente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Reze, reze e ver&aacute; como n'isso acha
+consola&ccedil;&atilde;o. Vou emprestar-lhe o meu livro de
+ora&ccedil;&otilde;es, quer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que me n&atilde;o ha de antes ensinar, como minha
+m&atilde;e o fazia? <br />
+
+<br />
+
+Christina ouviu com seriedade a proposta. <br />
+
+<br />
+
+E o certo &eacute; que um dia, em que Henrique pass&aacute;ra
+peor, Magdalena ouviu, na sala proxima, Christina, recitando uma
+singela prece &aacute; Virgem, e o doente repetindo-a com
+docilidade de crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
+vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
+modifica&ccedil;&otilde;es a que todos os caracteres
+est&atilde;o sujeitos, quando se d&atilde;o a actual-os dois
+elementos t&atilde;o
+poderosos, como se davam em Henrique: a doen&ccedil;a, que quebra a
+inteireza das indoles mais rijas, e abre o
+cora&ccedil;&atilde;o &aacute;s doces influencias; e a
+catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e irresistivel de todas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o direi que f&ocirc;sse com inteira f&eacute; que
+o doente orava; talvez que houvesse mescla de sentimento profano no
+prazer suave que experimentava ao orar assim. &Eacute; certo,
+por&eacute;m, que, desde
+ent&atilde;o, frequentes vezes se lhe desviavam os olhos para o
+pequeno crucifixo, que Christina trouxera do seu quarto para a
+cabeceira do leito de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
+Henrique, obedecendo aos impulsos
+<span class="pagenum">[172]</span>
+da sua gratid&atilde;o, beijou-lhe, commovido, a
+m&atilde;o, que ella ia a retirar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que faz?&#8213;disse Christina, c&oacute;rando e
+afastando-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me beijar a m&atilde;o piedosa que me prendeu &aacute;
+vida, &aacute; vida que s&oacute; agora comecei a
+amar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos&#8213;acudiu ella, com um meigo tom de reprehens&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como n&atilde;o quer que a adore, Christina, depois de se fazer
+anjo para me salvar? N&atilde;o costuma rezar ao seu anjo da
+guarda? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repare que eu n&atilde;o tenho azas de anjo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas v&ocirc;a mais alto ao c&eacute;o, quando desce assim a
+velar por um pobre doente como eu, que nenhuns titulos possue
+para lhe merecer essa
+dedica&ccedil;&atilde;o, pobre menina! Que vida tem sido a sua
+ha tantos dias? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhuns titulos! que diz?&#8213;tornou Christina, com um sorriso adoravel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quaes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o somos primos? disse ella,
+jovialmente. <br />
+
+<br />
+
+E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
+Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Estava j&aacute; Henrique em convalescen&ccedil;a, e o
+facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda
+n&atilde;o a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de
+Henrique n'estes passeios era &aacute; sombra de umas laranjeiras,
+que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D.
+Victoria descobria-se o logar. Quando as manh&atilde;s estavam
+serenas, Henrique ia para alli, com um livro que n&atilde;o fazia
+ten&ccedil;&atilde;o de ler, e apoiando-se
+ao bra&ccedil;o de Christina, que levava a costura para junto
+d'elle, para lhe fazer companhia. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria seguia-os da janella com as suas
+recommenda&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por ahi n&atilde;o, Christe!... Olha que &eacute; muito
+humido... D&aacute; antes a volta pela nora... Assim...
+<span class="pagenum">[173]</span>
+Cautela com essas hervas, que
+h&atilde;o de estar molhadas... V&ecirc; l&aacute; que
+n&atilde;o esteja frio... Olha se
+esses troncos est&atilde;o molhados... <br />
+
+<br />
+
+Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de
+uma manh&atilde; Christina o interrogar, n'aquelle tom de
+familiaridade affectuosa, que principi&aacute;ra a poder ter para
+com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e
+protec&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isso! Por que est&aacute; sempre triste, agora
+que vae melhor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou triste, porque estou melhor&#8213;respondeu Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; a dizer?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A verdade. A poucos doentes ter&aacute; succedido o que succede
+commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos
+circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos
+accumular-se em n&oacute;s, que tantos g&oacute;sos
+d&aacute; aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que
+estou presentindo j&aacute; as saudades d'este tempo, que passei
+prostrado no leito da doen&ccedil;a, Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida!
+N&atilde;o sabe que me eram desconhecidos inteiramente os
+ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude
+v&atilde;o voltar para mim os dias da solid&atilde;o, do
+desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que
+principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina!
+Quando penso em voltar para Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tenciona voltar? <br />
+
+<br />
+
+A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma
+intima commo&ccedil;&atilde;o. Ha d'estes effeitos.
+&Aacute;s vezes o olhar menos significativo, a palavra menos
+pensada, &eacute; pelo cora&ccedil;&atilde;o
+interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span>
+&#8213;E queria que eu ficasse, Christina?&#8213;perguntou Henrique, sob o
+dominio d'essa impress&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o respondeu logo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me acreditar que sim; &eacute; bastante generosa para isso,
+para n&atilde;o v&ecirc;r partir sem saudade o homem a quem
+salvou com os seus extremos de irm&atilde;. Esta ideia
+ser&aacute; a minha
+consola&ccedil;&atilde;o; deixe-me partir com ella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Partir?... mas... para que ha de partir? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia
+Doroth&eacute;a, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos
+cidad&atilde;os? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o lhe custaria a ella mesma v&ecirc;l-o partir!
+E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar
+que est&aacute; doente, que &eacute; quasi a mesma coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que havia de lh'a negar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tempo vir&aacute; em que outros me disputar&atilde;o a menor
+por&ccedil;&atilde;o de affecto que me conceder,
+Christina... e ent&atilde;o... ent&atilde;o &eacute; que eu
+ficarei mais
+s&oacute; do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o
+estou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda s&oacute;, por que quer... N&atilde;o ha tanta gente por
+esse mundo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o a menina n&atilde;o sabe que se est&aacute;
+s&oacute; mesmo em companhia? Quem est&aacute; s&oacute;
+&eacute; a alma.
+Ai, a alma est&aacute; s&oacute; quasi sempre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que quer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que
+n&atilde;o obteve a que desejava. Al&eacute;m de que, ha almas
+t&atilde;o tristes, que intimidam outras. E a minha &eacute;
+d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia &aacute;
+minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci,
+n&atilde;o hesitaria? Confesse. <br />
+
+<br />
+
+Depois de um momento de silencio e hesita&ccedil;&atilde;o,
+Christina respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[175]</span>
+&#8213;Se a companhia da minha f&ocirc;sse bastante para desfazer essa
+tristeza... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Concedia-m'a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que havia de negar-lh'a? <br />
+
+<br />
+
+Henrique tornou-lhe a m&atilde;o, apaixonado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras?
+Se o meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute;
+t&atilde;o ousado... <br />
+
+<br />
+
+Christina, c&oacute;rando, retirou a m&atilde;o de que Henrique
+se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que s&atilde;o horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+E fugiu, correndo em direc&ccedil;&atilde;o de casa. <br />
+
+<br />
+
+Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias
+durante a convalescen&ccedil;a de Henrique. Reinava o idyllio e uma
+como perfumada atmosphera, que exercia profundas
+revolu&ccedil;&otilde;es no caracter de Henrique e de
+Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades
+artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em
+v&atilde;o; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo
+uma d'essas metamorphoses analogas &aacute;s da vida de borboletas,
+da infancia, estado de chrysalida para a
+imagina&ccedil;&atilde;o, passava &aacute;
+verdadeira juventude, ao periodo em que a
+imagina&ccedil;&atilde;o ganha azas, em que o
+cora&ccedil;&atilde;o se completa. <br />
+
+<br />
+
+Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, n&atilde;o
+havia raz&atilde;o possivel para permanecer no Mosteiro; portanto
+tornou-se inevitavel a mudan&ccedil;a para Alvapenha. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se n&atilde;o fez sem lagrimas a despedida. <br />
+
+<br />
+
+Choraram as crean&ccedil;as, chorou D. Victoria e a propria
+Magdalena se sentiu commovida; s&oacute; Christina n&atilde;o
+se achava na sala em que se passou a scena. <br />
+
+<br />
+
+Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair. <br />
+
+<br />
+
+Seria casual esta circumstancia? <br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o pergunt&aacute;ra por Christina; dizia-lhe
+o cora&ccedil;&atilde;o que a encontraria alli.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[176]</span>
+&#8213;Volto &aacute; minha solid&atilde;o, Christina&#8213;disse-lhe,
+commovido.&#8213;N&atilde;o lh'o tinha eu dicto? <br />
+
+<br />
+
+A pobre menina quiz sorrir, mas do esfor&ccedil;o que para isso fez
+s&oacute; lhe resultaram lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga mais nada&#8213;disse Henrique, levando aos labios a
+m&atilde;o que ella n&atilde;o retirou.&#8213;Essas
+lagrimas bastam-me. <br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que estas palavras mais lagrimas
+produziram. <br />
+
+<br />
+
+E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas. <br />
+
+<br />
+
+Christina ficou a chorar na varanda. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha veio, sem ser sentida, abra&ccedil;al-a, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pago-te hoje o abra&ccedil;o que me d&eacute;ste no outro
+dia; mas eu escuso de te perguntar... &laquo;Pois tu
+amaval-o?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, Lena!...&#8213;exclamou Christina, cada vez chorando mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faltava aos vossos amores este arrem&ecirc;do de infelicidade, e
+imaginaram uma separa&ccedil;&atilde;o de
+duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e
+chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!&#8213;dizia Magdalena, para
+consolal-a. <br />
+
+<br />
+
+Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia.
+Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual
+taes mudan&ccedil;as notava n'elle, que chegou a aventar
+&aacute; ama a ideia de que a doen&ccedil;a tinha transtornado
+o juizo ao rapaz, opini&atilde;o que D. Doroth&eacute;a levou
+muito a mal. <br />
+
+<br />
+
+Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a
+indigna&ccedil;&atilde;o que lhe causou a carta de um
+amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus
+habitos pastoris e das Tirces e Galat&eacute;as que o traziam
+enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do
+cora&ccedil;&atilde;o, contra aquelle tom frio e sarcastico da
+epistola, e nem lhe respondeu. <br />
+
+<br />
+
+Depois teve Henrique uma vis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+N&atilde;o se assustem os leitores que antipathisam com o
+maravilhoso. Nada ha aqui que se pare&ccedil;a com as
+vis&otilde;es &eacute;picas; foi uma vis&atilde;o
+como muitas, que n&oacute;s todos, uma ou outra vez na vida,
+experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em
+quando a imagina&ccedil;&atilde;o, esta fertil e poderosissima
+creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem n&atilde;o
+ter&aacute; de facto
+succedido v&ecirc;r transformar-se pouco a pouco uma perspectiva,
+desvanecerem-se os effeitos da vis&atilde;o exterior, enfraquecerem
+as impress&otilde;es dos sentidos, e avultarem, tomarem
+f&oacute;rma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima,
+espontanea e mysteriosa vis&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Estava Henrique &aacute; janella do quarto que habitava em
+Alvapenha. Sabemos j&aacute; que se gosava d'alli um panorama
+extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com
+prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as
+suas noras e m&ecirc;das, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma
+verdadeira quinta rural, resentindo-se, por&eacute;m, um pouco de
+ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade
+para tratar da lavoura. <br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco deix&aacute;ra Henrique de v&ecirc;r a quinta
+como ella era. <br />
+
+<br />
+
+Principiava a vis&atilde;o interior. <br />
+
+<br />
+
+As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos
+campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se
+de cereaes os celleiros; alastrava-se de gr&atilde;o o
+ch&atilde;o das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se
+&aacute;s pr&ecirc;sas os diques, e uma verdadeira rede liquida
+envolvia em suas malhas a vegeta&ccedil;&atilde;o dos campos;
+alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos
+as cantilenas alde&atilde;s; e os mais caracteristicos e poeticos
+episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente
+allucinados, do sobrinho de D. Doroth&eacute;a. Era
+<span class="pagenum">[178]</span>
+uma perfeita georgica! E elle a dirigir
+todos os trabalhos, a regular o servi&ccedil;o, verdadeiro
+patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte,
+&aacute; sombra de uma arvore, &aacute; borda do tanque,
+debru&ccedil;ada no muro, por entre os silvados das
+s&eacute;bes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura
+de Christina! <br />
+
+<br />
+
+Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem
+elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as
+qualidades boas e m&aacute;s da sociedade que frequentava, havia de
+ter uma vis&atilde;o como esta! <br />
+
+<br />
+
+No quasi extase, em que a imagina&ccedil;&atilde;o o
+lan&ccedil;&aacute;ra permanecia ainda, quando soube que o
+procuravam de mando das senhoras do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Apressou-se logo a receber a visita. <br />
+
+<br />
+
+Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e
+das meninas. <br />
+
+<br />
+
+O pobre homem era um dos que fic&aacute;ra com
+affei&ccedil;&atilde;o a Henrique depois que estivera no
+Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle j&aacute; em poucos
+encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso
+era o bastante para o velho lhe querer bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga &aacute;s senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo
+inc&oacute;mmodo que est&atilde;o tendo
+commigo. E voss&ecirc; tambem, Torquato, na sua idade, estes
+passeios. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, n&atilde;o tem d&uacute;vida! Isto faz bem...
+&Eacute; exercicio a final... Pois &eacute; verdade. Eu d'antes
+corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu j&aacute;
+tenho os meus annos! Veja l&aacute;, se no tempo dos francezes eu
+era j&aacute; homem feito... Inda me lembra... <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se um episodio da &eacute;poca, e depois, sem
+transi&ccedil;&atilde;o sensivel: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas l&aacute; emquanto &aacute;s senhoras... Isso sempre devo
+dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... At&eacute; a
+Christininha!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[179]</span>
+&#8213;Sim? Tambem essa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se tambem!... Pois a sr.<sup>a</sup> D. Victoria? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... mas... Christina... a sr.<sup>a</sup> D.
+Christina, ent&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; um cora&ccedil;&atilde;o de pomba. Inda ha
+pouco, ao sair, j&aacute; vinha no pateo, e ella veio ter commigo a
+correr, e disse-me: &laquo;Olhe, &oacute; Torquato, ha de
+reparar-lhe para a cara e v&ecirc;r se tem ar mais
+triste.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella disse-lhe isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. E eu l&aacute; lhe vou dizer que o
+encontrei alegre como... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o; n&atilde;o lhe diga isso,
+homem&#8213;atalhou Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o por qu&ecirc;?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque... porque... porque n&atilde;o &eacute; verdade...
+Ent&atilde;o eu estou assim t&atilde;o alegre como isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que esteja, mas para a socegar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga que me achou com saude, mas triste. E n&atilde;o lhe disse
+ella mais nada? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A sr.<sup>a</sup> D. Victoria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falo de Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso &eacute; segredo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, diga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; nada; &eacute; uma promessa que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma promessa? Que promessa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve
+muito mal, que nem o cirurgi&atilde;o dava nada por si, a
+Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as
+esta&ccedil;&otilde;es da
+meia noite... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As esta&ccedil;&otilde;es da meia noite? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; as esta&ccedil;&otilde;es rezadas &aacute; meia
+noite &aacute; Senhora que est&aacute; na capella da casa dos
+Canaviaes; &Eacute; t&atilde;o milagrosa que, dizem, nunca
+recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae... <br />
+
+<br />
+
+E vinha um caso comprovativo da tradi&ccedil;&atilde;o popular.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+&#8213;Sim, lembra-me que j&aacute; me falaram n'isso&#8213;disse Henrique,
+pensativo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. O peor &eacute; que &eacute; este seu
+criado quem tem de a acompanhar at&eacute; &aacute; quinta,
+depois d'&aacute;manh&atilde; &aacute; meia noite... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o depois de &aacute;manh&atilde; &aacute;
+meia noite? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, mas n&atilde;o diga nada, que isto &eacute; segredo da
+pequena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteja descan&ccedil;ado. <br />
+
+<br />
+
+E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que
+Henrique n&atilde;o ligou
+atten&ccedil;&atilde;o, aquelle retirou-se. <br />
+
+<br />
+
+Ao ficar s&oacute;, Henrique caiu em nova e profunda
+abstrac&ccedil;&atilde;o. Elaborava-se-lhe na ideia um
+projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de
+fervorosa devo&ccedil;&atilde;o de Christina, que
+supplic&aacute;ra por elle, enfermo, com o ardor da mais pura
+cren&ccedil;a, com a effus&atilde;o do mais generoso affecto. <br />
+
+<br />
+
+N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que
+conduziam &aacute; quinta, que elle ainda n&atilde;o
+visit&aacute;ra, e sobre como penetrar
+at&eacute; &aacute; capella da casa, onde devia ser cumprida a
+promessa. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os
+esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das
+inten&ccedil;&otilde;es com que elle lh'os pedia. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXVIII</h4>
+
+<br />
+
+A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha
+morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada
+n'um dos mais &ecirc;rmos e melancolicos logares da aldeia. <br />
+
+<br />
+
+O tempo, cuja ac&ccedil;&atilde;o n&atilde;o contrastada se
+exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que
+desde a origem apresentava esta casa,
+<span class="pagenum">[181]</span>
+ennegrecendo-lhe as paredes,
+revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as
+junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos
+dos muros. Emfim a supersti&ccedil;&atilde;o popular
+termin&aacute;ra a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por
+aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta,
+entregue &aacute; natureza. <br />
+
+<br />
+
+A defuncta morgada, que n&atilde;o se recolhera &aacute; aldeia
+sen&atilde;o depois de ter gosado na capital de todos os
+esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e
+elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde
+pass&aacute;ra o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que
+em grande parte concorrera para generalisar a opini&atilde;o de que
+a sua alma andava ainda penando por c&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em
+rela&ccedil;&atilde;o aos annos da mocidade da morgada. A
+imagina&ccedil;&atilde;o popular fazia a biographia d'aquella
+senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma
+phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada. <br />
+
+<br />
+
+A morgada, que s&oacute; renunciou ao mundo quando os espelhos
+come&ccedil;aram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam
+nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um
+extremo a outro extremo, e da vida elegante &aacute;s
+pr&aacute;ticas de devo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as
+semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente
+os habitos de elegancia de que j&aacute; fizera uma necessidade
+natural. Trajava sempre com distinc&ccedil;&atilde;o e esmero,
+e ao corrente das modas. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto e as proprias devo&ccedil;&otilde;es da morgada,
+acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado
+d'ella, as quaes procurava remir &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a de missas. Dizia-se que a
+morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua
+alma voltava &aacute; terra penando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+J&aacute; se v&ecirc; que o logar era para apavorar as
+imagina&ccedil;&otilde;es timidas, e de noite pouca gente da
+aldeia gostava de passar por l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao
+Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais c&ecirc;do do que a hora
+devida, e fazendo obra pelas informa&ccedil;&otilde;es da
+morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher
+posi&ccedil;&atilde;o d'onde
+pudesse, sem ser visto, observar Christina, n&atilde;o tendo ainda
+resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua
+piedosa tarefa. <br />
+
+<br />
+
+A noite fizera-se escura e amea&ccedil;ava chuva. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, j&aacute; um
+pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo,
+atravessou a aldeia, examinando com atten&ccedil;&atilde;o
+todos os objectos que lhe
+deviam servir de indicadores da estrada. <br />
+
+<br />
+
+Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que
+por apparencia, julgou ser a demandada propriedade. <br />
+
+<br />
+
+Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a
+um lado um alto port&atilde;o da quinta, do outro a capella, cuja
+porta Henrique achou ainda fechada. <br />
+
+<br />
+
+O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver
+acertado. <br />
+
+<br />
+
+Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a
+escurid&atilde;o a fazer receiar grandes aguaceiros. <br />
+
+<br />
+
+Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se.
+N'este intento approximou-se do port&atilde;o. Com grande espanto
+seu, achou-o aberto. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na
+casa?... Estaria habitada a quinta? <br />
+
+<br />
+
+Estas tres explica&ccedil;&otilde;es do inesperado facto
+debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar. <br />
+
+<br />
+
+Transpoz o port&atilde;o e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de
+vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+A chuva ca&iacute;a com mais f&ocirc;r&ccedil;a. Para se
+abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no t&ocirc;po dos
+quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado. <br />
+
+<br />
+
+Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim
+de um corredor pareceu-lhe divisar luz. <br />
+
+<br />
+
+Henrique parou indeciso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decididamente enganei-me. N&atilde;o &eacute; aqui a casa dos
+Cannaviaes. Sempre perguntarei. <br />
+
+<br />
+
+E bateu as palmas. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem lhe respondeu. <br />
+
+<br />
+
+Bateu outra vez; o mesmo resultado. <br />
+
+<br />
+
+Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu. <br />
+
+<br />
+
+O mesmo silencio; seguiu at&eacute; o fim do corredor em
+direc&ccedil;&atilde;o &aacute; luz; chegou a uma sala
+mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um
+candieiro de metal, pousando na pedra da chamin&eacute;, em cujo
+f&oacute;co brilhavam ainda uns carv&otilde;es
+candentes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece uma historia de fadas!&#8213;pensava Henrique.&#8213;Dar-se-ha que a
+alma da morgada goste ainda das commodidades? <br />
+
+<br />
+
+Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado
+opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do
+campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na m&atilde;o. Henrique
+voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella
+primeiro lhe disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procurava alguem, o senhor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o perd&atilde;o pelo meu atrevimento. Bati muito
+tempo &aacute; porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a
+entrar. Desejava saber onde &eacute; aqui a casa dos Cannaviaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A casa dos Cannaviaes &eacute; esta mesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que n&atilde;o
+morava aqui ninguem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o enganaram. Hoje por acaso &eacute; que
+est&aacute; c&aacute; a sr.<sup>a</sup> morgada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+&#8213;A sr.<sup>a</sup> morgada?&#8213;perguntou Henrique, sem bem
+saber o que devia
+pensar da resposta e de tudo que via. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, senhor; a sr.<sup>a</sup> morgada, e n&atilde;o
+tarda aqui. Ella
+esperava-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! A sr.<sup>a</sup> morgada esperava-me? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse a mulher, sorrindo.&#8213;Adivinhou que o
+senhor vinha aqui. E o que &eacute; que ella n&atilde;o
+adivinha? <br />
+
+<br />
+
+Henrique dava tratos &aacute; imagina&ccedil;&atilde;o para
+comprehender esta scena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; a sr.<sup>a</sup> morgada
+em pessoa que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que o convida para tomar uma chavena de ch&aacute;&#8213;disse uma voz
+por traz d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz. <br />
+
+<br />
+
+Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos
+labios e a m&atilde;o estendida, com aquella habitual franqueza de
+maneiras, que de tantos encantos a revestia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique exclamou, admirado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prima Magdalena! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as
+honras da minha propriedade, que pelos modos est&aacute; para ser
+muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu
+muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do
+rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida
+&eacute; quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as
+janellas d'esta casa, para que os ratos n&atilde;o a destruam de
+todo, e os tortulhos lhe n&atilde;o enfeitem as paredes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como soube que eu?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; um segredo. N&atilde;o o esperava,
+por&eacute;m, t&atilde;o c&ecirc;do, nem imaginei que nos
+viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embara&ccedil;ada quando
+o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas
+fez bem em recolher-se... Ouve? <br />
+
+<br />
+
+E com o gesto indicava a chuva, que j&aacute; batia com
+f&ocirc;r&ccedil;a nas vidra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[185]</span>
+&#8213;O peor &eacute; se isto n&atilde;o espalha e a Christina muda
+de ten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O vento &eacute; do mar, menina; isto s&atilde;o
+aguaceiros&#8213;notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sabe que Christina vem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei tudo. Ora sente-se ao fog&atilde;o, que deve vir muito
+frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento,
+muito pouco hospitaleiro.&#8213;Brizida, olhe que se n&atilde;o percebam
+l&aacute; f&oacute;ra as luzes, que podem amedrontar Christina.
+E feche a porta da sala. Abra o c&ocirc;ro da capella e prepare
+ch&aacute; para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a
+cozinha est&aacute; pouco habitavel. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta,
+chegando uma cadeira para o fog&atilde;o, sentou-se defronte de
+Henrique de Souzellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais
+nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o diz que sabe tudo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; certo ponto, entendamo-nos. N&atilde;o
+v&atilde;o t&atilde;o longe as minhas faculdades que cheguem a
+devassar inten&ccedil;&otilde;es, que por ventura &aacute;
+propria
+consciencia de quem as f&oacute;rma, repugne acceitar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; esse o meu caso; as minhas
+inten&ccedil;&otilde;es s&atilde;o reconhecidas e
+approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo
+commovente de um anjo que ora por mim. &Eacute; um espectaculo a
+que ainda n&atilde;o assistira, prima. Admira-se da minha
+curiosidade? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho-a natural e at&eacute;... louvavel. O ponto est&aacute;
+que a sua convalescen&ccedil;a esteja bastante segura
+j&aacute;. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas
+doen&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De duas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; e a mais rebelde n&atilde;o foi a de que o
+cirurgi&atilde;o o tratou.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[186]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A peor, aquella de que eu havia chegado j&aacute; a desesperar,
+era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma
+doen&ccedil;a moral; revelava-se por uma maneira de v&ecirc;r
+as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou curado d'isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estar&aacute;? eu sei!... &Eacute; certo que j&aacute;
+&eacute; bom signal admittir que era doen&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou pelo seu diagnostico, prima, e at&eacute; pelo tratamento que
+me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos
+negocios locaes... e sobretudo em uma paix&atilde;o sincera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! e experimentou a receita? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Experimentei e curei-me. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou tomou por f&ocirc;r&ccedil;as de saude o que era apenas o
+falso vigor da convalescen&ccedil;a? Convem n&atilde;o abusar;
+ou&ccedil;o dizer aos medicos que s&atilde;o perigosas as
+recaidas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois teme que eu recaia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas
+mortas... comquanto motivada por louvaveis
+inten&ccedil;&otilde;es... tem ainda assim uma certa
+fei&ccedil;&atilde;o romantica... que era bom vigiar... Sempre
+vim para acudir a algum accidente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um perfeito medico da &eacute;poca; n&atilde;o
+tem f&eacute; na efficacia dos remedios que prescreve. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho; mas n&atilde;o desacompanho a ac&ccedil;&atilde;o
+d'elles, isso n&atilde;o. Agora fale-me com franqueza: ao
+recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa n&atilde;o se
+lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis j&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que algumas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do
+cora&ccedil;&atilde;o que o minava,
+tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os
+p&eacute;s no Mosteiro, e teimava em ser cego para o n&atilde;o
+v&ecirc;r. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desde o primeiro dia? Pois Christina...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[187]</span>
+&#8213;Christina deixou de ser crean&ccedil;a desde aquelle dia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querido anjo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella &eacute;
+ingenua, timida, supersticiosa at&eacute;,
+se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para
+acalmar as paix&otilde;es demasiado violentas de um caracter como o
+seu; para lhe fazer ter mais esperan&ccedil;a na vida, mais coragem
+e mais f&eacute; no futuro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para
+Magdalena: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo t&atilde;o bem
+as necessidades do cora&ccedil;&atilde;o dos outros,
+n&atilde;o pensou ainda nas do seu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem lhe disse que as tinha? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e
+n&atilde;o se julgue t&atilde;o impenetravel, que
+n&atilde;o offere&ccedil;a leitura aos olhos que a
+observam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o leu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que
+eu s&oacute; agora estou habilitado para a apreciar como merece;
+pagina, por&eacute;m, t&atilde;o recatada, que julgo que ainda
+a n&atilde;o leu bem o
+principal interessado n'ella. Cego, como eu fui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o leria?&#8213;perguntou Magdalena,
+sorrindo.&#8213;Est&aacute; certo d'isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por
+inspira&ccedil;&atilde;o a adivinhasse. Ha casos d'esses. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena tornou, mudando de tom: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ainda c&ecirc;do para tratar de mim. Quando me
+resolver a isso, ver&aacute; que sou um doente modelo.
+N&atilde;o hesitarei ante a violencia do remedio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que demora o tratamento? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois parece-lhe que ser&aacute; urgente o caso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prima Magdalena, o que vejo &eacute; que ha mais fortaleza da sua
+parte do que.... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Silencio!&#8213;disse a morgadinha, escutando.&#8213;Pareceu-me ouvir...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+N'este momento a Brizida, que f&ocirc;ra a uma sala immediata,
+voltou, dizendo em voz baixa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o depressa&#8213;disse Magdalena.&#8213;Abra-nos o
+c&ocirc;ro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz
+lembran&ccedil;a em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo.
+Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. N&atilde;o fa&ccedil;a
+barulho. <br />
+
+<br />
+
+Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um
+corredor estreito, no c&ocirc;ro da capella, d'onde a morgada
+costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento
+inferior. <br />
+
+<br />
+
+Quando alli chegaram, com as precisas precau&ccedil;&otilde;es
+para n&atilde;o fazer estalar as t&aacute;buas do soalho, havia
+j&aacute; em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no
+pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do
+c&ocirc;ro. <br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu
+serem Christina e Torquato. <br />
+
+<br />
+
+Caminharam silenciosos at&eacute; ao altar principal. Torquato
+subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas
+v&eacute;las de cera que, em ennegrecidos casti&ccedil;aes de
+madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se
+no recinto uma frouxa claridade, que n&atilde;o dissipou as sombras
+dos recantos, nem as que se condensavam no tecto. <br />
+
+<br />
+
+Christina fez signal ent&atilde;o a Torquato, para que se
+retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou
+para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e
+fechar-se com estrondo. <br />
+
+<br />
+
+Tudo ficou depois em silencio. <br />
+
+<br />
+
+Christina ent&atilde;o ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a
+de que a tradi&ccedil;&atilde;o popular contava
+milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a
+devo&ccedil;&atilde;o promettida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[189]</span>
+Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella
+angelica creatura viera alli agradecer &aacute; Virgem o tel-o
+salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um
+amor puro e candido, em que elle j&aacute; nem acreditava. E
+cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena via com alegria a commo&ccedil;&atilde;o de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+A ora&ccedil;&atilde;o de Christina prolongou-se por alguns
+minutos. <br />
+
+<br />
+
+Henrique murmurou, ajuntando as m&atilde;os: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus te recompense, anjo, a consola&ccedil;&atilde;o que me
+d&aacute;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pe&ccedil;a a Deus o que est&aacute; na sua
+m&atilde;o&#8213;respondeu-lhe em voz baixa Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; ou n&atilde;o sinceramente apaixonado? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como nunca imaginei que f&ocirc;sse possivel estar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&ecirc; na pureza d'aquelle cora&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como na dos anjos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; convencido de que o pode salvar, ella? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha cr&eacute;do que professe com mais
+f&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o vae ent&atilde;o ajoelhar ao lado d'ella e
+jurar-lh'o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E consente? <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas
+escadas que pela espessura da parede iam do c&ocirc;ro para a
+capella-m&oacute;r. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui tem o caminho&#8213;disse ella.&#8213;Siga-me. E, servindo-se da lanterna
+de furta-fogo, foi descendo com precau&ccedil;&atilde;o.
+Henrique seguiu-a. <br />
+
+<br />
+
+No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais
+alguns passos, parou junto de um reposteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora fa&ccedil;a o que lhe dictar o
+cora&ccedil;&atilde;o&#8213;disse ella para Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Este correu o reposteiro com precau&ccedil;&atilde;o, e
+achou-se na capella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[190]</span>
+Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique
+entr&aacute;ra ficava por detraz d'ella, n&atilde;o o
+viu chegar. <br />
+
+<br />
+
+Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a
+ora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ao levantar-se, Christina, voltando a cabe&ccedil;a, descobriu-o, e
+soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella
+n&atilde;o lhe deixou perceber logo quem f&ocirc;sse, o que
+mais lhe augmentou o terror. <br />
+
+<br />
+
+Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha receio, Christina. Sou eu. <br />
+
+<br />
+
+Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a
+presen&ccedil;a de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de
+imaginar
+explica&ccedil;&otilde;es. Henrique accrescentou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto
+fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado,
+Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os
+castos e aben&ccedil;oados prazeres da familia; depois de me
+dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas
+ora&ccedil;&otilde;es. Deixe-me beijar-lhe a m&atilde;o com
+todo o affecto, com toda a paix&atilde;o que pode haver na minha
+alma. <br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, levou aos labios a m&atilde;o, que ella, de
+enleiada, nem ous&aacute;ra retirar das suas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora pe&ccedil;o-lhe, Christina, que, j&aacute; que me fez
+antever as delicias do viver da familia, n&atilde;o me condemne
+para sempre ao supplicio de n&atilde;o as v&ecirc;r realisadas.
+Lembre-se de que n&atilde;o conheci m&atilde;e, de que
+n&atilde;o tenho irm&atilde;s, de que tenho vivido
+s&oacute;, e de que c&ecirc;do voltarei a essa vida solitaria e
+gelada, que me ser&aacute; agora uma tortura.
+Compade&ccedil;a-se de mim. Quer vir occupar no meu
+cora&ccedil;&atilde;o o logar vago que ha n'elle para as
+affei&ccedil;&otilde;es de
+m&atilde;e, de irm&atilde;, e de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Henrique!...&#8213;murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor,
+&eacute; pousando a m&atilde;o sobre os Evangelhos
+<span class="pagenum">[191]</span>
+d'esse altar, que eu lhe prometto
+mais do que uma paix&atilde;o ephemera de rapaz, prometto-lhe a
+constante adora&ccedil;&atilde;o, rodeada de respeito, do homem
+que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina,
+acceite o offerecimento do meu cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Christina tremia sem poder responder. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena entrou por sua vez na capella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se pode exigir assim uma resposta directa, primo
+Henrique&#8213;disse ella. <br />
+
+<br />
+
+Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e
+inesperadas appari&ccedil;&otilde;es, correu para
+a prima. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, Lena! Tu tambem aqui?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o me competia receber em minha casa as
+visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu
+d&ecirc; por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba
+de te pedir, muito terminantemente, a tua m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o respondeu, sen&atilde;o cingindo-a mais
+intimamente ao seio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o responderam os labios, primo,&#8213;continuou a
+morgadinha&#8213;mas falou o cora&ccedil;&atilde;o ao meu na
+linguagem das pulsa&ccedil;&otilde;es. Estou-o sentindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E disse?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que havia de dizer? Que sim. <br />
+
+<br />
+
+E Magdalena, que tinha a m&atilde;o de Christina na sua, extendeu-a
+a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo. <br />
+
+<br />
+
+Parece-me poder affirmar que d'esta vez j&aacute; houve
+correspondencia. <br />
+
+<br />
+
+O velho Torquato, farto de esperar de f&oacute;ra da capella, e
+achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao entrar divisou por&eacute;m tres pessoas em logar de uma
+s&oacute;, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado. <br />
+
+<br />
+
+Supp&ocirc;z que almas penadas andavam na capella. <br />
+
+<br />
+
+O bom do homem n&atilde;o ousava approximar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[192]</span>
+Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha m&ecirc;do, Torquato. A alma de minha
+madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu. <br />
+
+<br />
+
+O espanto do feitor n&atilde;o era agora menor. Esfregava os olhos,
+como se receiasse estar dormindo, e n&atilde;o passava de olhar
+para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na
+explica&ccedil;&atilde;o do que
+via. <br />
+
+<br />
+
+Custou a fazel-o voltar da sua estupefac&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique
+f&ocirc;ra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes
+serviu o ch&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como
+j&aacute; percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e
+Henrique, soltou algumas insinua&ccedil;&otilde;es, que a
+obrigaram a c&oacute;rar,
+e a rir Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita
+intimidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso
+ser&atilde;o!&#8213;disse Henrique.&#8213;Decididamente &eacute; de
+maravilhas esta casa; o povo tem raz&atilde;o. A morgada defuncta
+foi decerto quem se encarregou de fazer os convites. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, como foi que vieram aqui?&#8213;perguntou Christina,
+j&aacute; mais desenleiada.&#8213;J&aacute; sei, foi este Torquato
+que me n&atilde;o guardou segredo. O que merecia!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, menina?! Ora essa! Eu at&eacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a
+indiscre&ccedil;&atilde;o&#8213;disse Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;?&#8213;tornou a prima. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a discre&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o por qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Torquato &eacute; discreto, com umas meias palavras, que exprimem
+mais do que a verdade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu...&#8213;ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o
+interrompeu.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[193]</span>
+&#8213;Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presen&ccedil;a aqui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso &eacute; justo que fale primeiro Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que hei de eu dizer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Explica a tua presen&ccedil;a aqui. Ent&atilde;o
+n&atilde;o ouviste o primo Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, j&aacute; o sabem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas talvez n&atilde;o lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da
+tua b&ocirc;ca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o, a minha vinda, essa n&atilde;o
+tem que explicar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz, primo Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido
+j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida
+por um sentimento de piedade e de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a
+narra&ccedil;&atilde;o dos sustos que ella sentiu por o caminho
+desde o Mosteiro at&eacute; aqui. O Torquato n&atilde;o era
+decerto bastante para lhe limpar a estrada de vis&otilde;es e
+malfeitores. <br />
+
+<br />
+
+Christina poz-se a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vamos &aacute;s explica&ccedil;&otilde;es da
+presen&ccedil;a dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato
+avisou o primo Henrique... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?! <br />
+
+<br />
+
+Christina olhou para o velho com um meigo gesto de
+reprehens&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu o soubesse!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... eu n&atilde;o disse... eu... s&oacute; disse... <br />
+
+<br />
+
+Henrique tomou a palavra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Torquato n&atilde;o &eacute; de todo o culpado. Pois acha que
+n&atilde;o haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar?
+Torquato atrai&ccedil;oou-se involuntaria, inconscientemente. Mas
+quanto &aacute; prima... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? Soube-o tambem do Torquato.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+&#8213;Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que n&atilde;o. Eu n&atilde;o disse
+&aacute; sr.<sup>a</sup> D. Magdalena... Ella
+&eacute; que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi o que eu disse ha pouco. A discre&ccedil;&atilde;o do
+Torquato &eacute; que revelou o segredo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu a esse n&atilde;o disse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, a esse quiz occultar, e d'ahi &eacute; que veio o
+mal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, ora... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu sei &eacute; que Vicente veio procurar-me &aacute;
+porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como
+ainda lhe n&atilde;o tinha merecido nunca. Estava o homem
+convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se
+verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E
+t&atilde;o irritado estava, que me n&atilde;o quiz ouvir,
+quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma.
+Ao retirar-se, por&eacute;m, disse-me que n&atilde;o lhe
+quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o disse... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois a prima... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu ent&atilde;o chamei este senhor, armei-me de toda a minha
+gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o
+que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava
+p&ecirc;rro, mas a final falou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas sabia tambem que eu vinha?&#8213;perguntou Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o se lembra de que pela manh&atilde; me tinha
+can&ccedil;ado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos
+Cannaviaes? Eu j&aacute; extranhava a insistencia; depois do que
+soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe
+fal&aacute;ra n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua
+hesita&ccedil;&atilde;o e ambiguidade,
+<span class="pagenum">[195]</span>
+habilitou-me a concluir que teria o
+g&ocirc;sto de receber o primo em minha casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite.
+Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para
+p&ocirc;r a casa em arranjo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o mesmo coisas tuas&#8213;disse Christina, rindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o disse nada&#8213;insistiu Torquato. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, por que motivo se irritou tanto o
+herbanario?&#8213;perguntou Henrique.&#8213;Que imaginava elle a final? <br />
+
+<br />
+
+-Ah!... &Eacute; porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as
+suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de
+arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se
+de que havia aqui um romance em que entrava eu... A
+discre&ccedil;&atilde;o do Torquato &eacute; das que
+respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura
+f&ocirc;ram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que
+entrava tambem o primo Henrique... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! percebo agora&#8213;disse Henrique, rindo.&#8213;O velho &eacute;
+ciumento por procura&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena abanou a cabe&ccedil;a, sorrindo tambem. <br />
+
+<br />
+
+Christina, que j&aacute; estava habilitada para entender a
+allus&atilde;o de Henrique, sorriu com elles. <br />
+
+<br />
+
+O Torquato foi o unico que nada percebeu. <br />
+
+<br />
+
+Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de
+voltarem a casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chover&aacute;?&#8213;perguntou Brizida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que n&atilde;o&#8213;respondeu Magdalena, e como para
+assegurar-se correu a vidra&ccedil;a da janella e examinou o
+firmamento. <br />
+
+<br />
+
+Henrique acompanhou-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A noite est&aacute; serena&#8213;disse ella.&#8213;S&atilde;o horas de
+voltarmos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas
+horas&#8213;disse Henrique, &#8213;Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda
+parte da familia a estas
+horas&#8213;disse Henrique, debru&ccedil;ando-se &aacute; janella, e
+continuou:&#8213;Mas que
+<span class="pagenum">[196]</span>
+agradavel
+noite! N&atilde;o poder prolongal-a por toda a eternidade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos,&#8213;respondeu Magdalena&#8213;o dia
+d'&aacute;manh&atilde; deve ser feliz ainda, porque... <br />
+
+<br />
+
+N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe
+attrahisse a atten&ccedil;&atilde;o, calou-se,
+mal podendo reter um leve grito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que foi?&#8213;perguntou Henrique, que o percebeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada&#8213;respondeu ella, correndo a vidra&ccedil;a e afastando-se da
+janella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viu a alma da morgada?&#8213;perguntou jovialmente Henrique, vendo-a
+preoccupada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio
+s&eacute;ria.&#8213;Pode por&eacute;m haver
+appari&ccedil;&otilde;es peores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;, Lena? Que viste tu?&#8213;perguntou Christina,
+assustada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos. <br />
+
+<br />
+
+E, passados poucos minutos, sairam todos os que at&eacute; alli
+animavam aquella habita&ccedil;&atilde;o
+solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua
+quasi desola&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXIX </h4>
+
+<br />
+
+No dia seguinte, pela manh&atilde;, recebeu-se na Alvapenha noticia
+da chegada do conselheiro e de Angelo. A impress&atilde;o profunda
+que a este ultimo caus&aacute;ra a morte de Ermelinda, tinha
+resolvido o pae a trazel-o comsigo para a aldeia a distrahir e
+robustecer com ares livres do campo. D. Doroth&eacute;a
+apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; Henrique
+acompanhou-a e de caminho p&ocirc;l-a ao facto do estado do seu
+cora&ccedil;&atilde;o, e encarregou-a
+<span class="pagenum">[197]</span>
+de communicar isto mesmo a D.
+Victoria e de fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da
+m&atilde;o de Christina. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a ficou a principio admirada. Ainda se
+n&atilde;o desacostum&aacute;ra de considerar Christina como
+uma creanca. Havia t&atilde;o pouco tempo que usava ainda vestidos
+curtos! <br />
+
+<br />
+
+Reflectindo por&eacute;m, acabou por achar a coisa natural,
+vantajosa e agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que
+fizera. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, n&atilde;o
+se fartou de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta
+vez as habituaes prolixidades da boa senhora n&atilde;o conseguiram
+enfastial-o. Estava dev&eacute;ras apaixonado! <br />
+
+<br />
+
+Chegaram ao Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro recebeu-os com ar de satisfa&ccedil;&atilde;o e
+apparente tranquillidade de espirito; mas um exame attento conseguiria
+descobrir-lhe no sorriso o que quer que era for&ccedil;ado a
+revelar certa
+preoccupa&ccedil;&atilde;o interior. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que, desde que cheg&aacute;ra, tinha sondado melhor o
+animo do publico da terra, ou dos influentes que o representavam, e
+reconhecera que estava muito arriscada d'esta vez a sua candidatura. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a
+dois dias realisavam-se as elei&ccedil;&otilde;es. Tudo
+estava por fazer, emquanto que os seus adversarios havia muito que
+tinham tudo feito. Algumas das personagens politicas, com que contava,
+falharam-lhe, e at&eacute; nem o visitaram. As auctoridades locaes
+eram-lhe manifestamente hostis, desde o administrador at&eacute; o
+cabo de policia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o
+conselheiro para conversar em assumptos alheios &aacute;
+quest&atilde;o que o interessava, para sorrir e prestar
+atten&ccedil;&atilde;o ao que se dizia. <br />
+
+<br />
+
+De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
+escrevia um bilhete, retirava-se
+<span class="pagenum">[198]</span>
+por momentos para receber algum agente eleitoral que o
+procurava, despachava um emissario; finalmente n&atilde;o podia
+socegar. <br />
+
+<br />
+
+Foi na occasi&atilde;o em que elle consultava mais uma vez a lista
+dos recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e
+Magdalena faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos,
+que entrou D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D.
+Doroth&eacute;a, e em nome de Henrique, o pedido da m&atilde;o
+de Christina. D. Victoria trazia bem visivel na physionomia todo o
+jubilo que a nova lhe caus&aacute;ra. Era muito amiga de Magdalena,
+mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais que tudo a
+lisonje&aacute;ra, f&ocirc;ra a preferencia
+dada por Henrique a sua filha sobre a morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique&#8213;dizia ella.&#8213;Estou mesmo
+muito arrenegada comsigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por qu&ecirc;, minha senhora?&#8213;perguntou Henrique, sorrindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o isso &eacute; coisa que se fa&ccedil;a?
+J&aacute; precisa de embaixadores para se dirigir a mim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha senhora! Era meu dever deixar completa
+liberdade a v. ex.<sup>a</sup> para fazer todas as
+reflex&otilde;es que a
+proposta lhe suggerisse e discutil-a &aacute; vontade, e, por
+delicadeza, podia v. ex.<sup>a</sup> &aacute;s vezes,
+sendo eu mesmo quem a
+fizesse, cohibir-se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, eu havia de p&ocirc;r muitas d&uacute;vidas! Na verdade
+um rapaz de t&atilde;o m&aacute; nota! Ora sempre tem coisas! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, posso esperar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da minha parte uma guerra de morte&#8213;disse D. Victoria, n&atilde;o
+resistindo a dar um abra&ccedil;o a
+Henrique, j&aacute; com familiaridade de m&atilde;e;
+abra&ccedil;o
+que Henrique retribuiu com affecto. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro n&atilde;o dava atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute; scena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, mano!&#8213;bradou-lhe
+D. Victoria.&#8213;Deixe l&aacute; essas politicas
+que temos negocios s&eacute;rios em casa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[199]</span>
+&#8213;Sim?&#8213;disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
+ar de interesse, que realmente estava muito longe de
+sentir.&#8213;Ent&atilde;o de que se trata? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De um negocio importante, em que &eacute; preciso que seja
+ouvido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o &eacute; um caso de consciencia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o diga a rir, que &eacute;. Aqui o sr. Henrique
+de Souzellas acaba de me fazer um pedido... Isto &eacute;, a prima
+Doroth&eacute;a foi que m'o fez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas por ordem d'elle&#8213;acudiu esta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, o que era escusado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o que pede de n&oacute;s este caro sr.
+Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. J&aacute;, por
+mais de uma vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe
+tinha passado pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique
+tinha um bom nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro
+na sociedade, e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
+tiral-o quanto antes da illus&atilde;o e disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem mais raz&atilde;o tinha para protestar era eu. Ha de
+fazer-me falta a amizade de Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse o conselheiro, com um sorriso um tanto
+contrafeito.&#8213;Ent&atilde;o quer-nos roubar a nossa Christina, sr.
+Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; apenas uma restitui&ccedil;&atilde;o que
+pe&ccedil;o, sr. conselheiro, porque n&atilde;o me posso
+resignar a viver sem cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz madrigal? Est&aacute; ent&atilde;o apaixonado
+dev&eacute;ras, j&aacute; vejo&#8213;disse o conselheiro.&#8213;Pela
+minha parte folgo de o v&ecirc;r assim associado &aacute; minha
+familia,
+por t&atilde;o bom caminho. Mas onde est&aacute; a thaumaturga,
+que fez o milagre de converter este celibatario emerito,
+<span class="pagenum"><a name="p200">[200]</a></span>
+que eu conheci em Lisboa a rir-se
+do casamento? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por piedade, n&atilde;o me recorde esses peccados deante da prima
+Magdalena, que &eacute; t&atilde;o rigorosa nos
+castigos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga antes, que sou t&atilde;o excessiva nas recompensas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o mano tem raz&atilde;o&#8213;disse D. Victoria.&#8213;Onde
+est&aacute; a Christe? Admira-me n&atilde;o a v&ecirc;r
+aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admirar, n&atilde;o me admiro eu&#8213;tornou o
+conselheiro.&#8213;&Eacute; provavel que soubesse do que se
+tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi decerto discutido
+por as partes interessadas, antes de subir ao nosso tribunal. <br />
+
+<br />
+
+Henrique e Magdalena sorriram. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
+Gon&ccedil;alo. Deus queira que te n&atilde;o queimes ainda no
+fogo ao ateares d'estes fachos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou buscar a Christe&#8213;disse a morgadinha, rindo das palavras do
+pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a
+direc&ccedil;&atilde;o
+que elle lhe deu. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
+emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Doroth&eacute;a
+tentava distrahir Angelo, contando-lhe v&aacute;rias historias de
+crean&ccedil;as, que
+elle mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento
+accommodado &aacute; intelligencia d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
+j&aacute; vinha com o rubor nas faces e com os olhos no
+ch&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui est&aacute; a accusada&#8213;disse a morgadinha ao entrar. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse <a href="#e9">jovialmente</a>
+para a sobrinha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora venha c&aacute;, venha c&aacute;, que temos muito que
+falar. <br />
+
+<br />
+
+E passando-lhe a m&atilde;o por baixo do queixo, para a obrigar a
+fital-o, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o assim se trama uma conspira&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal
+ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e
+j&aacute; um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora,
+&eacute; energia. Nunca o esperei. Ora d&ecirc; c&aacute;
+um beijo, emquanto n&atilde;o tenho quem me
+pe&ccedil;a explica&ccedil;&otilde;es por os que lhe
+roubar. <br />
+
+<br />
+
+E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
+tingidas pelo pejo e pela alegria. <br />
+
+<br />
+
+Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o os penultimos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os penultimos?&#8213;disse D. Victoria, rindo.&#8213;Ora essa! Ent&atilde;o
+para quando ficam os ultimos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para quando a vir com a grinalda de noiva. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu nunca esperei &eacute; que f&ocirc;sse a nossa
+Christe que d&eacute;sse o exemplo &aacute; prima.
+N&atilde;o tens vergonha, Lena&#8213;disse D. Doroth&eacute;a para a
+morgadinha, em quem esta reflex&atilde;o fez nascer um gesto de
+contrariedade, que trouxe aos labios d'Angelo o primeiro sorriso
+d'aquella manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique sorriram tambem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia&#8213;disse
+Henrique com
+inten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem
+sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha
+coisas no mundo que se devem decidir pelo cora&ccedil;&atilde;o
+s&oacute;mente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Deus me livre de o n&atilde;o consultar. Seria abjurar os meus
+proprios actos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O <em>s&oacute;mente</em> &eacute;
+que veio de mais, filha&#8213;disse o conselheiro.&#8213;Attende-se ao
+cora&ccedil;&atilde;o, embora. Mas s&oacute; ao
+cora&ccedil;&atilde;o? Isso era bom se
+vivessemos em um mundo de cora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+A chegada de novas personagens desviou a direc&ccedil;&atilde;o
+da conversa e modificou a scena. <br />
+
+<br />
+
+Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
+Henrique ficou, a pedido do
+<span class="pagenum">[202]</span>
+conselheiro. O mestre Bento Pertunhas entrava no numero dos
+recemchegados. O papel que alli desempenhava o latinista era de
+suspeitosa natureza. <br />
+
+<br />
+
+Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
+n'estas &eacute;pocas n&atilde;o comia, n&atilde;o dormia,
+n&atilde;o respirava, por assim dizer,
+sen&atilde;o elei&ccedil;&otilde;es, e desenvolvia uma
+miraculosa
+actividade, correndo a todos os pontos perigosos, conquistando votos,
+um a um, e lidando por desenredar as meadas politicas dos adversarios e
+enredar as suas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que novas temos da campanha, meus
+senhores?&#8213;perguntou o conselheiro, puxando cadeiras para os seus
+constituintes, e affectando um tom de confian&ccedil;a que
+n&atilde;o sentia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;M&aacute;s, sr. conselheiro,&#8213;respondeu o Tapadas&#8213;muito
+m&aacute;s. Vejo isto muito feio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora a coisa ainda n&atilde;o ha de ser t&atilde;o
+m&aacute; como diz. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, nada; n&atilde;o me agrada. V. ex.<sup>a</sup>
+descuidou-se. Tenha
+paciencia, mas eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas
+s&atilde;o. &Eacute; preciso n&atilde;o
+as desacompanhar. V. ex.<sup>a</sup> devia vir ha mais
+tempo. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas acudiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos
+decididos, e os servi&ccedil;os que fez &aacute;
+terra... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora com o que vmc.<sup>&ecirc;</sup> vem!&#8213;replicou o
+Tapadas, com modo
+azedo.&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o sabe como &eacute;
+esta gente? Ent&atilde;o n&atilde;o os ouve ahi berrar
+j&aacute; contra as estradas, quando at&eacute; agora berravam
+por n&atilde;o as
+terem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meia duzia de garotos&#8213;tornou o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor, n&atilde;o &eacute; assim;
+n&atilde;o estejamos a enganar-nos. Os que n&atilde;o dizem mal
+das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as devem, e
+estamos na mesma. A coisa vae mal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o decididamente o Seabra?...&#8213;perguntou o conselheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse &eacute; o chefe de todos elles&#8213;disse um
+merceeiro.&#8213;&Aacute; porta da minha loja o ouvi eu estar a
+<span class="pagenum">[203]</span>
+dizer ao cunhado do
+administrador que o tra&ccedil;ado da estrada era o peor que podia
+ser, que se gastava alli um dinheiro louco, sem utilidade para o povo. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro olhou para Henrique, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
+tra&ccedil;ado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar?
+Admire agora o velhaco. <br />
+
+<br />
+
+Henrique sorriu, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arremedos do que se faz em terras maiores&#8213;disse
+elle.&#8213;N&atilde;o extranho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tem raz&atilde;o&#8213;respondeu o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, a final&#8213;continuou o conselheiro&#8213;o homem n&atilde;o tinha
+na freguezia grande influencia. Como &eacute; que...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
+por ahi a toda a gente, e depois os padres est&atilde;o bem com
+elle e de mal com v. ex.<sup>a</sup>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como se lhe desenfreou t&atilde;o de repente esse odio contra
+mim? Deix&aacute;mo-nos em janeiro nas melhores
+disposi&ccedil;&otilde;es um para com outro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
+ministro...&#8213;disse o Tapadas, com maneiras de quem n&atilde;o dera
+grande importancia ao objecto a que se referia. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro mudou logo de assumpto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
+commetti, para me terem esse odio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que v. ex.<sup>a</sup> &eacute;
+ma&ccedil;&atilde;o&#8213;respondeu um lavrador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O diacho da quest&atilde;o do cemiterio...&#8213;acudiu o Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso acalmou j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o acalmou, n&atilde;o senhor. O povo n&atilde;o
+est&aacute; contente. &Eacute; certo que lhe passou a furia do
+principio, depois d'aquella historia com o Cancella, mas...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[204]</span>
+&#8213;Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
+filha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; melhor n&atilde;o falar n'isso&#8213;aconselhou
+prudentemente o Tapadas.&#8213;O que l&aacute; vae, l&aacute; vae.
+Os homens est&atilde;o meio arrependidos, e at&eacute; o
+missionario perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi
+berrado que foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette
+pena. At&eacute; me dizem que por causa d'isso o padre
+j&aacute; se retirou da aldeia. O que era bom era v&ecirc;r
+at&eacute; se se falava
+ao Herodes; porque talvez elle possa agora ainda arranjar
+alguns votos&#8213;accrescentou o Tapadas, disposto a servir-se da
+d&ocirc;r de um pae como arma eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
+politicos. Discutiram-se os diversos processos de
+angariar as potencias eleitoraes do circulo. Estudaram-se as
+ambi&ccedil;&otilde;es de cada uma; ponderaram-se as exigencias
+feitas por uns, os desejos adivinhados em outros, para este o emprego
+de um afilhado, &aacute;quelle o bom exito de uma demanda, a outro
+o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma hypotheca, e a alguns
+at&eacute; nua e descaradamente o dinheiro. N'esta empresa de
+subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o conciliabulo,
+sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o que estava
+fazendo alli. <br />
+
+<br />
+
+Entre os discutidos foi o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes um dos
+principaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o sempre &eacute; certo que me roeu a corda esse
+basbaque?&#8213;perguntou, ao falar-se n'elle, o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; dos mais assanhados&#8213;responderam-lhe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem diabo lhe virou a cabe&ccedil;a? Um velhaco a quem
+tantas vezes tenho tirado de apuros! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
+cemiterios...&#8213;disse o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, alli andou tambem um presente que
+<span class="pagenum">[205]</span>
+lhe fez o brazileiro. O morgado
+est&aacute; muitas vezes com a corda na garganta&#8213;explicou
+malignamente o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das
+demandas e da politica, n&atilde;o achava
+explica&ccedil;&otilde;es t&atilde;o plausiveis como a
+corrup&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario&#8213;insistiu o
+tendeiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus!&#8213;disse o Tapadas.&#8213;Bem me fio eu
+n'essas compaix&otilde;es. Quem n&atilde;o os
+conhecer... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que tem o t&ocirc;lo com os negocios do herbanario?&#8213;insistiu o
+conselheiro, de mau humor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o? Deu-lhe para alli. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual historia! Para mim &eacute; que vem com isso?!&#8213;teimava o
+sceptico Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
+taberna com este senhor&#8213;disse o Pertunhas, designando Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto, sr. conselheiro&#8213;disse este&#8213;se de alguma maneira concorri... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram.
+&Aacute; ultima hora &eacute; capaz de mudar de
+ten&ccedil;&atilde;o. E por causa d'elle &eacute; que
+ficou despachado professor um pateta em vez de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
+despeito: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas at&eacute; certo ponto foi bom para me desenganar a respeito
+do caracter de certos homens. Ha vingan&ccedil;as t&atilde;o
+torpes e mesquinhas, que nenhum aggravo as justifica. <br />
+
+<br />
+
+Henrique procurou defender Augusto; achou por&eacute;m o
+conselheiro obstinado na sua cren&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor
+da intriga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Embora o f&ocirc;sse&#8213;respondeu o conselheiro&#8213;mas que tem isso?
+O Seabra n&atilde;o veio a minha casa, n&atilde;o suspeitava da
+existencia de tal carta. Alguem houve que a leu primeiro e que lh'a foi
+entregar depois, e j&aacute; &eacute; ser muito indulgente
+supp&ocirc;r que
+<span class="pagenum">[206]</span>
+f&ocirc;ram s&oacute; cegueiras de vingan&ccedil;a e
+n&atilde;o a sordidez da cubi&ccedil;a quem o moveu a essa
+infamia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
+pela innocencia d'elle. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma
+alterca&ccedil;&atilde;o travada entre Pertunhas e o Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
+eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, &oacute; sr. Pertunhas, &eacute; melhor
+parolar menos e fazer coisa que se veja; ou deixa s&oacute; as
+obras para o seu amigo Seabra? <br />
+
+<br />
+
+D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a
+alterca&ccedil;&atilde;o virulenta, que o conselheiro teve de
+apaziguar. <br />
+
+<br />
+
+A conferencia durou at&eacute; &aacute;s horas do jantar. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXX </h4>
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a
+batalha eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+A az&aacute;fama politica activ&aacute;ra-se n'estes ultimos
+dias consideravelmente. De parte a parte tinham-se posto em campo todos
+os influentes e em exercicio todas as armas. Promessas,
+allicia&ccedil;&otilde;es,
+press&atilde;o de auctoridades, exigencias a dependentes, subornos,
+amea&ccedil;as mais ou menos declaradas; de tudo se
+lan&ccedil;ava m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes at&eacute; o calor das discuss&otilde;es
+degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que
+figuram no catalogo das raz&otilde;es mais convincentes, haviam
+j&aacute; sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se
+depois, de um lado contr
+&Aacute;s vezes at&eacute; o calor das discuss&otilde;es
+degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que
+figuram no catalogo das raz&otilde;es mais convincentes, haviam
+j&aacute; sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se
+depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do governo, do
+outro,
+<span class="pagenum">[207]</span>
+contra os manejos
+sediciosos e anarchicos da opposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os
+padres que arvorando a cruz e o estandarte, pr&eacute;gavam a
+cruzada contra o conselheiro e instavam com o povo para que
+n&atilde;o elegesse para representante um atheu e um
+pedreiro-livre; em outras eram os agentes do brazileiro e os da
+auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos populares, resgatando
+penhores, levantando hypothecas, remindo dividas, empregando afilhados,
+e conquistando assim para o seu partido. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e os seus parciaes n&atilde;o desprezavam tambem
+nenhum d'estes mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater
+as do brazileiro Seabra. <br />
+
+<br />
+
+Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha.
+Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores
+dos dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas,
+assignando-se: o <em>Amigo da
+verdade</em>; o <em>Epaminondas</em>; o
+<em>V&iacute;gilante</em>; a
+<em>Sentinella</em>; o
+<em>Alerta</em>, etc., e pondo ao soalheiro as
+m&aacute;culas da vida privada uns dos outros, e todas as
+bisbilhotices da terra, correspondencias que, felizmente para
+cr&eacute;dito da humanidade, por ninguem mais, al&eacute;m dos
+interessados e dos que j&aacute; os conheciam, eram lidas. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta
+sec&ccedil;&atilde;o periodistica. Os
+seus communicados eram estirados, compactos, obscuros e enrevezados
+tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se em minuciosos
+incidentes; em labyrinthos de ora&ccedil;&otilde;es
+secundarias, d'onde a
+grammatica da principal sa&iacute;a frequentemente maltratada,
+deixando ficar por l&aacute; o sujeito, o verbo ou qualquer
+complemento necessario. Mas o brazileiro imaginava que o paiz inteiro
+aguardava com ancia os seus escriptos. Era frequente abrir uma resposta
+a alguma zargunchada de um seu adversario, por estas
+<span class="pagenum">[208]</span>
+palavras: &laquo;Os leitores
+h&atilde;o de ter notado o
+meu silencio, depois das calumniosas
+asser&ccedil;&otilde;es...&raquo; Os leitores
+n&atilde;o tinham notado nada. <br />
+
+<br />
+
+Finalmente a aldeia achava-se em plena
+fermenta&ccedil;&atilde;o politica. <br />
+
+<br />
+
+Eu tenho a fraqueza de a n&atilde;o amar debaixo d'aquelle aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado
+&eacute; o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e
+conhecidos s&atilde;o os que vivem d'ella, tanto mais acanhada,
+mexeriqueira e antipathica se torna. Se a politica do nosso paiz
+&eacute; j&aacute; pequena, como elle, e degenera em
+desaven&ccedil;a de senhoras vizinhas, que far&aacute; das
+terras pequenas d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos
+partidos est&atilde;o os mexericos e as vaidadesinhas que brotam
+como tortulhos &aacute; sombra das arvores do campanario?! <br />
+
+<br />
+
+Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos! <br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas n&atilde;o fic&aacute;ra indifferente ao
+movimento politico da aldeia. Peg&aacute;ra-se-lhe a febre
+eleitoral. Impedido de votar, auxiliava, por&eacute;m, os parciaes
+do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um dia lembrou um <em>meeting</em>.
+O
+conselheiro poz-se a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que est&aacute;
+tratando? Um
+<em>meeting</em>, para qu&ecirc;? N&atilde;o se
+esque&ccedil;a de ir domingo &aacute; igreja
+e l&aacute; se desenganar&aacute; por os seus olhos. O
+espectaculo n&atilde;o &eacute; muito para alegrar, porque
+mostra como em geral o nosso paiz est&aacute; ainda pouco educado
+no regimen constitucional. Mas em todo o caso &eacute; instructivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel
+Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em
+rela&ccedil;&atilde;o ao tempo em que
+principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com
+que j&aacute; se podia contar. <br />
+
+<br />
+
+A elei&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, estava muito
+arriscada ainda.
+<span class="pagenum">[209]</span>
+O sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes devia decidir a contenda. Para onde
+se inclinasse o morgado, com todo o peso dos seus comparochianos,
+desceria o prato da balan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o
+menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e
+aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte
+nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, n&atilde;o se
+descuidava de o manter nas disposi&ccedil;&otilde;es hostis
+contra o conselheiro. A
+todo o momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a
+necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma
+li&ccedil;&atilde;o ao conselheiro, com quem Henrique estava
+ligado. Depois disse-lhe que o conselheiro se gabava de ter dinheiro
+para comprar o morgado e toda a freguezia. <br />
+
+<br />
+
+O morgado, sob estas e analogas instiga&ccedil;&otilde;es,
+praguejava e jurava despejar na urna ministerial o suffragio da sua
+freguezia. <br />
+
+<br />
+
+Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do
+governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido
+para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que
+era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser
+representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o
+custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa
+fei&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Logo pela manh&atilde; do domingo, marcado para a grande
+solemnidade civil, o adro da igreja parochial apresentava uma
+anima&ccedil;&atilde;o f&oacute;ra do
+costume. Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se
+com desconfian&ccedil;a, ou correspondendo-se por signaes de
+intelligencia, conforme pertenciam &aacute; mesma ou a opposta
+parcialidade. Os agentes eleitoraes, os influentes dos dois campos
+acercavam-se d'este, apertavam a m&atilde;o &aacute;quelle,
+segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam
+<span class="pagenum">[210]</span>
+com um terceiro, e, sempre que era
+possivel, distribuiam listas ao maior numero. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava
+a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as
+m&atilde;os e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por
+entre os grupos, recommendava ordem e respeito &aacute;s
+auctoridades, e dava de olho aos cabos, seus subordinados, para que se
+n&atilde;o esquecessem de cumprir as
+instruc&ccedil;&otilde;es recebidas, votando no candidato
+ministerial. <br />
+
+<br />
+
+Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a
+constitui&ccedil;&atilde;o da mesa. O parocho, o administrador
+e o regedor foram occupar o seu logar. Ficou presidente o brazileiro, e
+o resto da mesa formou-se d'entre as duas parcialidades. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as
+probabilidades da victoria. <br />
+
+<br />
+
+N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios
+do brazileiro, dizia-se: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; ver&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a freguezia de Pinch&otilde;es enche-nos ahi a
+urna. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E estar&aacute; bem seguro o morgado? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Jo&atilde;ozinho!? Ora! Est&aacute; de ferro e fogo
+contra o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram
+na taberna, e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; s&oacute; por isso. Elle
+j&aacute; estava do nosso lado, desde que soube tinham deitado
+abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava succumbido de
+todo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro
+d'esta vez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem? O Vicente? Esse sim. Ent&atilde;o n&atilde;o sabes que
+o pobre velho j&aacute; se n&atilde;o levanta da cama?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[211]</span>
+&#8213;Ai, n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Andava j&aacute; muito fraco e doente; mas ha tres dias,
+sobretudo, tem ido de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi
+dizer, aquillo est&aacute; por pouco tempo: nem deita a semana
+f&oacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitado! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vem quem ainda hoje o viu. N&atilde;o &eacute; verdade,
+sr. Pertunhas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;, meus amigos, o qu&ecirc;? o que &eacute; que
+&eacute; verdade? o que &eacute; que dizem?&#8213;perguntou o mestre
+de latim, esfregando sempre as m&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; verdade que o Vicente herbanario
+est&aacute; a ajustar contas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o
+cora&ccedil;&atilde;o! Sempre eu digo que uma crueldade assim,
+como a do conselheiro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, s&oacute;
+por causa do mal que fez &aacute;quelle santo velho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E com raz&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o para qu&ecirc;? senhores, para
+qu&ecirc;?&#8213;continuava Pertunhas.&#8213;Para fazer uma estrada em que se
+gastam rios de dinheiro, e que a final n&atilde;o presta! Pois eu
+passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer, por a casa do
+Augusto, que &eacute; onde vive agora o Vicente. O rapaz estava
+&aacute; porta. Ent&atilde;o, sr. Augusto, disse-lhe eu,
+&aacute; urna! vamos
+&aacute; urna! Elle encolheu os hombros como quem diz:
+&laquo;bem me importa a mim com isso.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; outro, que tambem n&atilde;o
+&eacute; pelo conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Pois n&atilde;o &eacute; elle todo do
+Mosteiro? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, foi&#8213;replicou o Pertunhas.&#8213;Ent&atilde;o vmc.<sup>&ecirc;</sup>
+n&atilde;o sabe que o conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de
+lhe arranjar a demiss&atilde;o, inda por cima o poz f&oacute;ra
+de casa, porque pelos modos o rapaz... fez publicar umas certas
+cartas... que compromettiam o homem? A falar verdade, tambem
+n&atilde;o foi bonito.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+&#8213;Fez elle muito bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o
+povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar
+a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o
+Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi
+ent&atilde;o que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem
+voss&ecirc;s, outro tanto de magro e outro tanto de velho... Mettia
+d&oacute;! Poz-se a perguntar-me muitas coisas, o que havia, o que
+n&atilde;o havia, por quem estava este, por quem estava aquelle...
+Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que fizesse,
+j&aacute; n&atilde;o podia
+vencer; que n&atilde;o arranjaria os votos precisos para cobrir a
+freguezia de Pinch&otilde;es. O velho ficou admirado quando eu lhe
+disse que o sr. Jo&atilde;ozinho era dos nossos. E l&aacute; o
+deixei a remoer a noticia. Ao menos resta-me a
+consola&ccedil;&atilde;o de lhe ter
+ado&ccedil;ado com ella os ultimos momentos. <br />
+
+<br />
+
+N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter
+com um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer
+n&atilde;o sei que eleitor recalcitrante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi anda este&#8213;disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.&#8213;Era
+bem feito que lhe dessem outra li&ccedil;&atilde;o, como a da
+taberna do Canada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ordem, ordem e prudencia!&#8213;disse o Pertunhas.&#8213;&Eacute; preciso
+manter a liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que tem este senhor com as nossas elei&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem o manda metter-se c&aacute; n'estas coisas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora &eacute; boa! Ent&atilde;o n&atilde;o sabem que elle
+casa no Mosteiro?&#8213;disse o Pertunhas, que andava sempre informado das
+vidas alheias. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o
+Augusto, veio a n&oacute;s o Jos&eacute; Barbeiro, que nos deu
+essa novidade, que lh'a dissera o Manoel
+<span class="pagenum">[213]</span>
+da Quinta, que a ouvira &aacute;
+Gertrudes, criada do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Casa com a morgadinha, j&aacute; se sabe? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&ecirc;des! n&atilde;o que a bolada convida! A mim logo
+me farejou isso, quando vi chegar esse figur&atilde;o c&aacute;
+&aacute; terra. Mas querem voss&ecirc;s saber uma
+coisa engra&ccedil;ada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor
+n&atilde;o gostou da novidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o? Ent&atilde;o por qu&ecirc;?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vi-o fazer-se de mil c&ocirc;res quando a ouviu... Pois
+ter-se-lhe-ha mettido na cabe&ccedil;a... Hein?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tinha gra&ccedil;a. Mas olha o milagre!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah!... Este mundo &eacute; muito divertido! <br />
+
+<br />
+
+N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a
+olhar para todos os lados, como procurando alguem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que temos n&oacute;s l&aacute;, &oacute; sr.
+Luiz?&#8213;perguntou-lhe o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde diabo est&atilde;o os de Pinch&otilde;es?&#8213;perguntou o
+interpellado. <br />
+
+<br />
+
+-Inda n&atilde;o vieram. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles n&atilde;o
+apparecem. O morgado &eacute; homem para se esquecer a catar os
+c&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vamos n&oacute;s principiando, e no emtanto elles
+vir&atilde;o&#8213;disse o Pertunhas, que f&ocirc;ra nomeado para
+revezador do secretario da mesa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a primeira freguezia que vota &eacute; justamente a d'elle. O
+sr. Seabra est&aacute; como uma bicha! <br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, o homem voltou para dentro. <br />
+
+<br />
+
+A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do
+beaterio, que pela voz dos padres chamava &aacute;quillo artes do
+demonio, ia principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais
+tarde, de proposito para n&atilde;o formar parte da mesa, requereu,
+com o relogio na m&atilde;o, que se abrisse a urna aos eleitores,
+visto ser a hora marcada no edital. <br />
+
+<br />
+
+Este requerimento, simples e justo como era, suscitou
+discuss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[214]</span>
+O brazileiro allegou que, sendo os de Pinch&otilde;es os primeiros
+a votar, em virtude do artigo 62.&ordm; do decreto eleitoral, que
+manda
+votar primeiro a freguezia mais distante, e n&atilde;o estando na
+assembl&eacute;a ninguem d'aquella freguezia, convinha esperar. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro insistiu, dizendo que a lei n&atilde;o mandava
+esperar por os eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que
+portanto votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas
+horas de espera, votariam os ausentes que depois viessem. <br />
+
+<br />
+
+Esta quest&atilde;o n&atilde;o se resolveu de prompto. Trocados
+alguns alvitres, lida a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados
+os recenseamentos e mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao
+administrador, e ao parocho, &eacute; que se approvou a proposta do
+conselheiro e principiou a chamada. <br />
+
+<br />
+
+A freguezia de Pinch&otilde;es faltou em p&ecirc;so. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a
+lista dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os
+adversarios, e sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em
+principiar a vota&ccedil;&atilde;o julgou descobrir
+cavilla&ccedil;&atilde;o. Na urna n&atilde;o tinha entrado
+uma s&oacute; lista. Pregoou-se o
+ultimo nome dos eleitores de Pinch&otilde;es. Ninguem ainda! <br />
+
+<br />
+
+Passou-se a outra freguezia. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro j&aacute; n&atilde;o estava em si. <br />
+
+<br />
+
+Os primeiros votos recolhidos mal os p&ocirc;de introduzir na urna,
+de tr&eacute;mulo e sobresaltado que estava. <br />
+
+<br />
+
+O homem suppunha que lhe tinha sido roubada &aacute; ultima hora
+uma freguezia inteira. N&atilde;o estava muito longe de acreditar
+que os agentes do conselheiro a haviam arrasado completamente. <br />
+
+<br />
+
+A freguezia que se seguia na vota&ccedil;&atilde;o era uma das
+que se conservavam fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a
+indisposi&ccedil;&atilde;o do Seabra. <br />
+
+<br />
+
+A vota&ccedil;&atilde;o ia, por&eacute;m, correndo,
+interrompida apenas
+<span class="pagenum"><a name="p215">[215]</a></span>
+por
+algumas questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e
+sobre a regularidade d'esta ou d'aquella lista, gra&ccedil;as aos
+futeis pretextos de que os contendores lan&ccedil;avam
+m&atilde;o para
+disputarem, voto a voto, o suffragio popular. <br />
+
+<br />
+
+Ia adeantada a vota&ccedil;&atilde;o, quando correu na igreja
+uma voz, que veio infundir alento no animo desfallecido do brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+-Veem ahi os de Pinch&otilde;es!... Ahi est&atilde;o os de
+Pinch&otilde;es... Ahi vem o sr. Jo&atilde;ozinho e toda a sua
+gente!&#8213;dizia-se de toda a parte. <br />
+
+<br />
+
+Esta nova passou de b&ocirc;ca em b&ocirc;ca, a ponto de
+produzir um sussurro na assembl&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados. <br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra de facto alli o sr. Jo&atilde;ozinho das
+Perdizes, &aacute; frente da sua <a href="#e10">freguezia</a>.
+<br />
+
+<br />
+
+Leitor, se tens, como eu, esperan&ccedil;a e sincera f&eacute;
+no systema representativo, perd&ocirc;a-me o obrigar-te a assistir
+a uma scena que faz subir a c&ocirc;r ao rosto de quem, como
+n&oacute;s, aben&ccedil;&ocirc;a os
+sacrificios por cujo pre&ccedil;o nossos paes nos compraram a nobre
+regalia de intervir, como povo, na governa&ccedil;&atilde;o do
+Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa tutela de um
+homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos, contra os
+quaes o instincto e a raz&atilde;o igualmente se revoltam. A scena,
+por&eacute;m, humilhante como &eacute;, n&atilde;o envolve
+a minima censura &aacute; excellencia do systema; mas apenas aos
+que nos quarenta annos que elle quasi tem de vida entre n&oacute;s,
+n&atilde;o souberam ou n&atilde;o
+quizeram ainda fazer comprehender ao povo toda a grandeza da augusta
+miss&atilde;o que lhe cabe executar. <br />
+
+<br />
+
+Depois das nossas luctas civis, j&aacute; muitas
+crean&ccedil;as se fizeram homens; se a escola f&ocirc;sse
+entre n&oacute;s o que devia ser, j&aacute; haveria sobra de
+eleitores com perfeita consciencia dos seus direitos civis. <br />
+
+<br />
+
+O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, s&oacute;mente devem
+impellir os homens de inten&ccedil;&otilde;es sinceras
+<span class="pagenum">[216]</span>
+e puras a applicar os
+esfor&ccedil;os de intelligencia e de ac&ccedil;&atilde;o
+para ministrar com a
+educa&ccedil;&atilde;o a moralidade, e para acordar a
+consciencia d'esta entidade social. <br />
+
+<br />
+
+Era o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes &aacute; frente da sua
+freguezia, disse eu. <br />
+
+<br />
+
+E &eacute; justamente este o espectaculo humilhante de que falava. <br />
+
+<br />
+
+Tendes visto um guardador de cabras &aacute; frente do seu rebanho,
+conduzindo com acenos e assobios todas as barbudas cabe&ccedil;as
+d'aquelle regimento quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da
+scena que se presenciava agora no adro da igreja matriz. <br />
+
+<br />
+
+O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas m&atilde;os o
+sceptro da sua soberania, n&atilde;o era
+menos docil do que os irracionaes que recordamos. <br />
+
+<br />
+
+O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava;
+quando podia disp&ocirc;r dos destinos dos seus senhores, era
+quando mais vergava a cabe&ccedil;a sob o p&ecirc;so que estes
+lhe
+assentavam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; similhante esta f&ocirc;r&ccedil;a
+inconsciente do povo &aacute; do boi robusto e v&aacute;lido,
+que uma
+crean&ccedil;a dirige e subjuga? Forte como elle, como elle docil,
+como elle laborioso, como elle util, n&atilde;o v&ecirc; que a
+mesma
+f&ocirc;r&ccedil;a que emprega no trabalho lhe poderia servir
+para repellir o jugo. Ou quando o v&ecirc;, &eacute; quando o
+desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas tremendas. <br />
+
+<br />
+
+Mas o povo de Pinch&otilde;es, o povo do sr. Jo&atilde;ozinho,
+estava muito longe d'esses excessos. <br />
+
+<br />
+
+O morgado vinha, como j&aacute; disse, &aacute; frente. <br />
+
+<br />
+
+A barba por fazer, as melenas despenteadas, o len&ccedil;o do
+pesco&ccedil;o s&ocirc;lto, sem
+bot&otilde;es o collarinho da camisa, com as m&atilde;os
+mettidas no c&oacute;s das ceroulas,
+o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas
+at&eacute; o joelho, a ponta do cigarro ao canto da b&ocirc;ca,
+o palito atraz da orelha, o chap&eacute;o sobre o occiput, dois
+galgos adeante de si, e o inseparavel
+<span class="pagenum">[217]</span>
+Cosme quasi <em>&agrave;
+latere</em>. Entrou no adro com ares triumphantes, sorrindo e
+piscando os olhos para os seus amigos e partidarios, como para lhes
+fazer notar a numerosa prociss&atilde;o que o seguia e a docilidade
+dos membros d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Atraz vinham os eleitores de Pinch&otilde;es, velhos e
+mo&ccedil;os, ricos e pobres, mas todos com o olhar timido e
+estupido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no
+caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle parava a cumprimentar
+um amigo, paravam todos com elle; a direc&ccedil;&atilde;o que
+tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo,
+segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se
+praguejava, tudo ficava s&eacute;rio. O cortejo parou &aacute;
+porta da
+igreja. <br />
+
+<br />
+
+O morgado passou revista &aacute; sua tropa, &aacute; qual deu
+instruc&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os bra&ccedil;os
+estendidos e a cabe&ccedil;a baixa,
+n&atilde;o ousavam fazer um movimento, e conservaram-se
+enfileirados at&eacute; nova ordem do sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem. <br />
+
+<br />
+
+No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel
+alma&ccedil;o dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de
+um homem que elles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido,
+cada um d'elles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral,
+responderia: &laquo;presente&raquo;;
+approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle
+papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um
+p&ecirc;so que o opprimia. <br />
+
+<br />
+
+Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto
+que acabavam de executar, n&atilde;o saberiam dizel-o; se lhes
+perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e
+defensor das suas liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a
+resigna&ccedil;&atilde;o do direito de
+votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem
+<span class="pagenum"><a name="p218">[218]</a></span>
+que n'aquelle dia estavam nas suas
+m&atilde;os e dos seus pares os destinos do paiz, abririam os olhos
+de espantados, ou sorririam com a desconfian&ccedil;a propria dos
+ignorantes. <br />
+
+<br />
+
+Innocente povo! <br />
+
+<br />
+
+Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de c&oacute;mmodo
+degrau. <br />
+
+<br />
+
+Quando disseram ao sr. Jo&atilde;ozinho que j&aacute; tinha
+passado a sua vez de votar, o homem rompeu pela igreja dentro,
+berrando, bracejando, amea&ccedil;ando c&eacute;os e terra, sem
+attender a quantos lhe clamavam que tinha de se proceder a nova
+chamada, e que portanto socegasse. <br />
+
+<br />
+
+O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justi&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Custou a serenar o morgado, e n&atilde;o o fez sen&atilde;o
+depois de duas pragas contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas
+que raz&otilde;es politicas fizeram engulir ao brazileiro, sem nem
+sequer lhe tirarem dos labios o sorriso com que saud&aacute;ra a
+vinda do morgado. <br />
+
+<br />
+
+Caindo em si, o sr. Jo&atilde;ozinho deu ordem &aacute; sua
+gente para que entrasse para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos
+lados d'ella, promptos &aacute; primeira voz. <br />
+
+<br />
+
+A chamada proseguia, e a vota&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+ia j&aacute; muito favoravel ao conselheiro, a julgar pelos
+indicios, que n&atilde;o escapam aos olhos amestrados dos mirones. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro exultava comsigo mesmo, <a href="#e11">principalmente</a>
+quando, por sobre as cabe&ccedil;as dos que se agrupavam em volta
+da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr.
+Jo&atilde;ozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este,
+por&eacute;m, grunhiu-lhe um monosyllabo s&ecirc;cco, e
+voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+Era caso desesperado. <br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;ra j&aacute; a votar a ultima freguezia, que era
+<span class="pagenum">[219]</span>
+justamente aquella onde estava
+constituida a unica assembl&eacute;a de que se compunha o circulo
+eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a
+nossa narra&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que votou o conselheiro e os outros conhecidos
+nossos, entre os quaes o Z&eacute; P'reira. <br />
+
+<br />
+
+Com este deu-se um episodio comico, que merece
+men&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o
+parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que
+era contra a expressa determina&ccedil;&atilde;o do artigo
+61.&ordm;, &sect;
+unico, da lei eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi
+impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das m&atilde;os
+do Z&eacute; P'reira.
+Era uma n&oacute;doa de vinho. <br />
+
+<br />
+
+Discutiu-se, ainda assim, se a n&oacute;doa era marca ou
+n&atilde;o era marca, e se lhe deviam ser applicadas as
+disposi&ccedil;&otilde;es do &sect; unico do artigo
+61.&ordm;.<br />
+
+<br />
+
+A discuss&atilde;o intrincada foi cortada por o Z&eacute;
+P'reira, que disse com a maior candura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se essa est&aacute; suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais
+d'aquellas que vocemec&ecirc; me deu. <br />
+
+<br />
+
+O proprio conselheiro desatou a rir. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro resmungou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ha suborno aos eleitores? Como se entende isso? <br />
+
+<br />
+
+-Ora, n&atilde;o bula na chaga, sen&atilde;o temos muito que
+ouvir&#8213;disse o Tapadas, e accrescentou:&#8213;ande para deante; deite a sua
+lista, sr. Z&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista
+caiu na urna. <br />
+
+<br />
+
+Estava a findar a primeira chamada. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica. <br />
+
+<br />
+
+A gente de Pinch&otilde;es, &aacute; voz do sr.
+Jo&atilde;ozinho, apromptava-se para breve entrar em
+ac&ccedil;&atilde;o na segunda chamada, que ia principiar.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do
+herbanario, cuja inicial era um V. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque
+a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram
+affectas, at&eacute; deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes,
+mancos e paralyticos f&ocirc;ram transportados em cadeiras e em
+padiolas at&eacute; a urna para votarem. Mas a freguezia de
+Pinch&otilde;es ia abafar a elei&ccedil;&atilde;o
+inevitavelmente. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro perdeu as esperan&ccedil;as, e o proprio Tapadas
+sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de
+contentamento. <br />
+
+<br />
+
+O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vicente Rodrigues da Fragosa&#8213;disse elle, preparando-se j&aacute;
+para voltar o caderno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeante. Esse vae votar a uma assembl&eacute;a mais
+longe&#8213;disseram alguns. <br />
+
+<br />
+
+E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja
+uma voz tr&eacute;mula, mas sonora ainda, responder: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Presente. <br />
+
+<br />
+
+Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra. <br />
+
+<br />
+
+Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o
+velho herbanario, a quem o bra&ccedil;o de Augusto servia de apoio.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo. <br />
+
+<br />
+
+Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o
+herbanario adeantava-se e trazia j&aacute; de longe o
+bra&ccedil;o estendido, segurando a lista que vinha
+lan&ccedil;ar na urna. <br />
+
+<br />
+
+Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor,
+perante aquella figura anci&atilde; e alquebrada, que se dissera
+erguida do tumulo para responder &aacute; voz que a
+evoc&aacute;ra. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito,
+sen&atilde;o com supersticioso terror. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio s&oacute;
+interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o
+lag&ecirc;do da igreja.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+O conselheiro n&atilde;o p&ocirc;de mais desviar os olhos do
+vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que f&ocirc;ra seu
+companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo
+accusador da sua insensibilidade politica, a
+personifica&ccedil;&atilde;o de um remorso pungente, a primeira
+appari&ccedil;&atilde;o de um espectro,
+que devia perseguil-o no futuro. <br />
+
+<br />
+
+Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam
+approximar-se o velho eleitor, que j&aacute; suppunham &aacute;
+borda da sepultura. <br />
+
+<br />
+
+Aquella assembl&eacute;a, erguendo-se silenciosa e reverente,
+&aacute; chegada de um pobre velho, tr&eacute;mulo e enfermo,
+que seguia apoiado ao bra&ccedil;o de um pallido mancebo, tinha uma
+apparencia profundamente solemne. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, dev&eacute;ras affei&ccedil;oado ao
+herbanario, n&atilde;o teve m&atilde;o em si, ao
+v&ecirc;l-o assim doente e enfraquecido, que lhe n&atilde;o
+viesse ao encontro, dizendo commovido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio Vicente! pois n'esse estado?!... <br />
+
+<br />
+
+O velho fez um gesto energico para afastal-o de si. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arreda-te!&#8213;disse com severidade&#8213;deixa-me, serpente, que mordes a
+m&atilde;o do teu bemfeitor! N&atilde;o me
+appare&ccedil;as, que n&atilde;o quero ter-te
+na ideia, quando estiver a expirar! <br />
+
+<br />
+
+O morgado ficou transido de espanto e de
+consterna&ccedil;&atilde;o ao ouvir estas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio Vicente!...&#8213;exclamou, ajuntando as
+m&atilde;os&#8213;pois eu que lhe fiz? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar
+contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle
+a quem deveis tudo. Vendei-vos como c&atilde;es, e ficae-vos com
+esse remorso: eu n&atilde;o o quero para mim. <br />
+
+<br />
+
+E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro,
+que n&atilde;o p&ocirc;de sustentar-lhe o olhar com firmeza, e
+disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos
+pela assembl&eacute;a a procurar alguem. Viu o conselheiro que
+n&atilde;o ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma
+express&atilde;o singular e no fim estendeu-lhe a m&atilde;o. O
+conselheiro apertou-a nas suas, commovido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manoel,&#8213;disse-lhe o velho em voz sumida&#8213;n&atilde;o me cegava
+tanto o resentimento, que te negasse esta justi&ccedil;a. Eu era
+ainda teu amigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E sel-o-has sempre, Vicente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre que o seja... por pouco tempo ser&aacute;&#8213;respondeu o
+velho, sorrindo tristemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e
+outros mais. <br />
+
+<br />
+
+A physionomia do herbanario transtorn&aacute;ra-se
+assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a
+voz embargava-se-lhe na garganta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o posso...&#8213;murmurou
+elle.&#8213;Queria dizer-te... <br />
+
+<br />
+
+E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe
+ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era... d'este... Elle &eacute;... elle est&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+Os bra&ccedil;os de Augusto, do conselheiro e do morgado das
+Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra. <br />
+
+<br />
+
+Foi nos bra&ccedil;os dos tres que expirou o herbanario, porque
+estava dev&eacute;ras morto, quando o f&ocirc;ram a erguer. <br />
+
+<br />
+
+O alvoro&ccedil;o foi geral na igreja. Todos a abandonaram,
+correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a v&ecirc;r se
+era possivel reanimal-o. Todos, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o do brazileiro, que ficou a vigiar a
+urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[223]</span>
+Os soccorros prestados ao herbanario f&ocirc;ram inuteis. <br />
+
+<br />
+
+Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver. <br />
+
+<br />
+
+Os indifferentes voltaram a continuar a elei&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ia principiar a segunda chamada. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, impressionado dev&eacute;ras por a scena,
+andava desconsolado por o adro, e s&oacute; de m&aacute;
+vontade entrou na igreja. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo,
+acharam-se s&oacute;s junto do cadaver. <br />
+
+<br />
+
+A commo&ccedil;&atilde;o tirava a Augusto a frieza de animo
+para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve
+assim um momento em que o conselheiro esteve s&oacute; com Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquelle instante o cora&ccedil;&atilde;o do homem politico
+era superior ao resentimento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto&#8213;disse elle a meia voz&#8213;a morte
+n&atilde;o deixou este infeliz completar a ultima
+recommenda&ccedil;&atilde;o, que parecia querer fazer-me. Eu
+adivinhei-lhe por&eacute;m o sentido, e para prova
+offere&ccedil;o-lhe a m&atilde;o de amigo. <br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, estendia-lhe a m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz
+commovida: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A m&atilde;o que v. ex.<sup>a</sup> me estende
+&eacute; a
+m&atilde;o do homem que esquece e perd&ocirc;a as injurias, e
+eu n&atilde;o posso ser perdoado, porque me n&atilde;o julgo
+criminoso. Desde que uma vez v. ex.<sup>a</sup> formulou a
+accusa&ccedil;&atilde;o e se fez juiz, prefiro, a ter de ser
+julgado sem provas, uma condemna&ccedil;&atilde;o a uma
+absolvi&ccedil;&atilde;o. Fico mais em paz com o meu orgulho. <br />
+
+<br />
+
+A presen&ccedil;a de alguns curiosos obrigou a interromper este
+curto dialogo. <br />
+
+<br />
+
+Henrique voltou com os aprestes para a conduc&ccedil;&atilde;o
+do cadaver. <br />
+
+<br />
+
+Augusto acompanhou a casa o herbanario. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco
+disposto a permanecer alli.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+&#8213;Fique se quizer&#8213;disse elle para Henrique.&#8213;N&atilde;o estou em
+estado de receber &aacute; queima-roupa a noticia da minha derrota;
+haviam de attribuir a mortifica&ccedil;&atilde;o que estou
+sentindo a essa causa, e
+eu n&atilde;o lhes quero dar esse g&ocirc;sto. Vou para casa;
+l&aacute; me levar&aacute; a noticia, e n&atilde;o me
+dar&aacute;
+grande novidade. Adeus. <br />
+
+<br />
+
+E, apertando a m&atilde;o de Henrique, retirou-se para o Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias
+circumstancias que a acompanharam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o houve quem f&ocirc;sse indifferente ao successo, que
+o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe
+deix&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha absteve-se da menor allus&atilde;o &aacute; causa
+que apress&aacute;ra o fim da vida do herbanario, e evitou sempre
+que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a
+consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto
+abstinha-se de se applaudir das suas previs&otilde;es, infelizmente
+realisadas. <br />
+
+<br />
+
+Passada a primeira commo&ccedil;&atilde;o, que a
+lembran&ccedil;a d'aquella scena produzira, o conselheiro
+principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que
+se lhe preparava na urna. <br />
+
+<br />
+
+Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a
+affecta&ccedil;&atilde;o era demasiado
+transparente, para at&eacute; nem D. Victoria se illudir. <br />
+
+<br />
+
+Assim, por exemplo, dizia elle &aacute; filha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&atilde;o realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter
+a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade,
+est&aacute;-me a appetecer; a vida politica ia-me
+can&ccedil;ando j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal
+simulada satisfa&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco, por&eacute;m, a impaciencia come&ccedil;ou a
+apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia
+j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[225]</span>
+&Aacute;quella hora devia estar a proceder-se na
+assembl&eacute;a ao apuramento de votos. <br />
+
+<br />
+
+Esta ideia lan&ccedil;ava o conselheiro em um d'aquelles estados
+febris, que s&oacute; pode conceber quem j&aacute; alguma vez
+soube o que &eacute; ter a sorte dependente de uma
+vota&ccedil;&atilde;o, e aguardar a cada momento a
+noticia do resultado d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos
+afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se
+nos tentam alentar com esperan&ccedil;as, revoltamo-nos contra
+ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o,
+repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio n&atilde;o nos
+&eacute; mais agradavel; as
+apprehens&otilde;es ganham corpo no meio d'elle; falam os
+presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos
+labios. A quieta&ccedil;&atilde;o &eacute;-nos
+t&atilde;o intoleravel como o movimento. Anciamos sair da
+incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova
+fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito;
+chegamos quasi a querer mal a todos quantos est&atilde;o assistindo
+n'aquelle momento &aacute; decis&atilde;o lenta da sorte. O
+nosso egoismo,
+exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos
+amigos tenham cora&ccedil;&atilde;o para assistir
+&aacute;quillo; e comtudo n&atilde;o lhes perdoariamos se se
+retirassem. Sensa&ccedil;&otilde;es d'aquellas exgotam mais
+vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava
+preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que
+esperava elle! N&atilde;o lhe era quasi possivel contar, um por um,
+os votos de que dispunha? N&atilde;o ficava, por mais alto que
+elevasse o c&aacute;lculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo
+isto era assim, mas o convencimento pr&eacute;vio recusava
+estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da
+certeza. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um vivedouro sentimento o da esperan&ccedil;a!
+N&atilde;o
+<span class="pagenum">[226]</span>
+succumbe
+sen&atilde;o perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam
+verde, sen&atilde;o talvez por, como as plantas exuberantes de
+seiva, resistir &aacute;s
+mutila&ccedil;&otilde;es e renovar os ramos cortados? <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos,
+passeiava agitado na sala, olhando &aacute;s vezes para a janella,
+&aacute; espera de
+v&ecirc;r assomar ao port&atilde;o do pateo um dos seus
+partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe
+dar o desengano. <br />
+
+<br />
+
+Apesar de todas as preven&ccedil;&otilde;es, o que &eacute;
+certo &eacute; que a nova, quando viesse, feril-o-ia como
+imprevista. <br />
+
+<br />
+
+Sempre assim succede. <br />
+
+<br />
+
+No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as
+direc&ccedil;&otilde;es por o meio da sala,
+ouviu-se a detona&ccedil;&atilde;o de algumas duzias de
+foguetes. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido. <br />
+
+<br />
+
+Os cora&ccedil;&otilde;es de Magdalena, de Christina, de D.
+Victoria e de Angelo bateram precipitados. <br />
+
+<br />
+
+A causa estava, emfim, decidida. <br />
+
+<br />
+
+A girandola apregoava uma victoria, mas n&atilde;o proclamava o
+nome do vencedor; por&eacute;m, que d&uacute;vida podia haver a
+respeito d'elle? <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um
+sorriso amargo, disse para a familia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem sabe, mano? &Aacute;s vezes... <br />
+
+<br />
+
+Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando
+Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vem um homem a correr a toda a pressa! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A correr?!&#8213;disse o conselheiro, em quem esta simples noticia
+infundira novo alento a todas as esperan&ccedil;as, e
+dissip&aacute;ra a sombra das pesadas
+apprehens&otilde;es; e caminhou pressuroso para a janella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[227]</span>
+As senhoras seguiram-n'o alli. <br />
+
+<br />
+
+O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os
+silvados de um atalho, que vinha dar &aacute; avenida da entrada do
+Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece o Domingos, o criado do Tapadas...&#8213;disse o conselheiro,
+affirmando-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que pressa elle traz!&#8213;notou D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; nos viu&#8213;disse Angelo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; acenou com o chap&eacute;o&#8213;exclamaram todos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer elle dizer com aquelles signaes?&#8213;tornou o conselheiro,
+nervoso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem v&ecirc;r que &eacute; o que eu digo! Olhe que venceu,
+mano. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! &Eacute; impossivel. Pois eu n&atilde;o sei como a
+vota&ccedil;&atilde;o correu? &Eacute; boa!&#8213;disse o
+conselheiro com certo tom irritado, como de quem n&atilde;o quer
+que lhe descubram uma esperan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia
+n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros. <br />
+
+<br />
+
+Os olhos fitavam-se todos no port&atilde;o do pateo &aacute;
+espera de o v&ecirc;r surgir alli. Mal se respirava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eil-o&#8213;disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle
+appareceu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva! sr. conselheiro, viva!&#8213;bradou elle de l&aacute;, apesar de
+esfalfado. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro teve quasi uma vertigem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle que diz?... Como pode... <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o deixaram continuar as senhoras, que j&aacute; o
+beijavam e abra&ccedil;avam com frenetico enthusiasmo. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram
+v&ecirc;r o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela
+febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua
+felicidade. &Eacute; que, na occasi&atilde;o da lucta,
+n&atilde;o ha
+animo t&atilde;o indifferente a estimulos, que n&atilde;o
+abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza
+augmenta o ardor com que se esposa a causa; os
+<span class="pagenum">[228]</span>
+g&ecirc;los da indifferen&ccedil;a
+fundem-se nos momentos
+decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a
+commo&ccedil;&atilde;o que esta produz, se se realisa. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro queria acalmar aquellas effus&otilde;es, mas em
+v&atilde;o bradava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto n&atilde;o pode ser... Ha
+engano... <br />
+
+<br />
+
+Mas o animo feminino n&atilde;o entra facilmente na ordem, se chega
+alguma vez a sair d'ella. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; a entrada do mensageiro na sala, &eacute; que serenou
+o tumulto. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrogou o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que dizes tu? Que vivas s&atilde;o esses? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo que vencemos&#8213;respondeu o mo&ccedil;o, usando ingenuamente o
+verbo na primeira pessoa do plural. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s a sonhar? <br />
+
+<br />
+
+-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para
+lh'o dizer. Quando eu sa&iacute; da igreja tinha
+vmc.<sup>&ecirc;</sup>... tinha v. s.<sup>a</sup>
+mais cento e cinco votos do que o outro, e s&oacute; havia na caixa
+uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; impossivel! Cem votos!... ahi ha engano.
+N&atilde;o pode ser! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cento e cinco! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s bem certo no que te disse teu amo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se estou. E l&aacute; vi a cara do brazileiro. Mettia
+m&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel
+aquillo que lhe annunciavam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&ocirc;de mais tempo conter-se. Sobresaltado,
+ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do
+facto. <br />
+
+<br />
+
+Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo &aacute; frente
+a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e
+atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o
+fizesse, uma onda popular, trazendo &aacute; frente
+a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e
+atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. &Aacute; frente da
+musica estava
+<span class="pagenum">[229]</span>
+radiante mestre
+Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca! <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro chegou &aacute; janella, e ent&atilde;o
+&eacute; que as acclama&ccedil;&otilde;es f&ocirc;ram
+estrondosas. <br />
+
+<br />
+
+A desafina&ccedil;&atilde;o da banda chegou a ro&ccedil;ar
+pelo sublime. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro agradeceu ao povo aquella
+manifesta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes
+eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobra&ccedil;ando a trompa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer isto?&#8213;perguntou o conselheiro,
+abra&ccedil;ando-os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem
+menos&#8213;respondeu o Tapadas, rindo &aacute;s gargalhadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cento e trinta e cinco&#8213;repetiu o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas d'onde vieram! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa &eacute; boa! De Pinch&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De Pinch&otilde;es&#8213;repetiu o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?... Pois o morgado?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Votou comnosco como um homem. Ora pud&eacute;ra! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade... votou... comnosco&#8213;dizia mestre Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o se viu ainda ha pouco... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que estavam com metralha inimiga?&#8213;concluiu o Tapadas.&#8213;Que tem
+l&aacute; isso? Mas v&atilde;o
+l&aacute; &aacute; igreja e ver&atilde;o as buxas que
+est&atilde;o pelo
+ch&atilde;o. &Eacute; um destr&ocirc;&ccedil;o! Parece
+a loja de um farrapeiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas explica-me isso, Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o ouviu a rabecada que aquelle santo do
+herbanario, que inda que n&atilde;o f&ocirc;sse
+sen&atilde;o por isso deve estar assentadinho no C&eacute;o,
+deu ao morgado? Pois aquillo l&aacute; resentiu o homem. E quando,
+depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer:
+&laquo;Diabos me levem, que se tivesse aqui listas &aacute;
+m&atilde;o, havia de ensinar os tratantes
+que me metteram n'esta dan&ccedil;a&raquo;. Vieram-me dizer
+isto,
+<span class="pagenum">[230]</span>
+e eu que, para o que
+d&eacute;sse e viesse, sempre levava um sortimento de listas,
+cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim
+&aacute; cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se
+senta e abre cadernos, sim, senhores, e se p&otilde;e tudo em
+ordem, estava armada a freguezia de Pinch&otilde;es &aacute;
+nossa moda. Agora se se queria rir,
+era v&ecirc;r o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as
+listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a
+v&ecirc;l-o enterrar at&eacute; &aacute;s
+orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim ent&atilde;o &eacute;
+que f&ocirc;ram
+ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas &aacute;s
+cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no
+fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia
+contra o morgado, e se o encontra &eacute; capaz de o comer... Para
+coroar a festa, &aacute; girandola, que aqui o mestre Pertunhas
+tinha preparada para elles, pegamos-lhe n&oacute;s o fogo e,
+estourou que foi um g&ocirc;sto! <br />
+
+<br />
+
+E o Tapadas terminou com outra gargalhada. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas quiz protestar contra a accusa&ccedil;&atilde;o,
+mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus, meu amigo! O melhor &eacute; calar-se. <br />
+
+<br />
+
+E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que
+estavam proximos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este Tapadas tem cada gra&ccedil;a! <br />
+
+<br />
+
+Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario.
+Tinham-lhe falhado todos os seus c&aacute;lculos politicos,
+transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe
+servira, e salv&aacute;ra-o o elemento que desprezava. Acontece
+&aacute;s vezes d'isto aos homens que muito calculam. <br />
+
+<br />
+
+As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as
+suas demonstra&ccedil;&otilde;es de alegria. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, por&eacute;m, ficou preoccupado no meio das festas
+de familia e das festas populares que se faziam no pateo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[231]</span>
+<h4>XXXI </h4>
+
+<br />
+
+A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, n&atilde;o
+s&oacute; pela qualidade de homem que era aquelle, como pelas
+circumstancias, no meio das quaes o facto succed&ecirc;ra. <br />
+
+<br />
+
+O resultado da elei&ccedil;&atilde;o, comquanto momentoso,
+n&atilde;o distra&iacute;a do assumpto as
+atten&ccedil;&otilde;es; pois que, tendo sido successos
+simultaneos, associavam-se naturalmente nas conversas e
+discuss&otilde;es, e um chamava o outro. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario n&atilde;o f&ocirc;ra colhido desprevenidamente
+pela morte; havia muito tempo que fizera as suas
+disposi&ccedil;&otilde;es e por ellas leg&aacute;ra a
+Augusto tudo quanto possuia, isto &eacute;, alguns livros, entre os
+quaes a
+<em>Polyanthea</em>, e o pre&ccedil;o, quasi intacto,
+que receb&ecirc;ra pela casa expropriada. <br />
+
+<br />
+
+Logo que estas disposi&ccedil;&otilde;es f&ocirc;ram
+sabidas, n&atilde;o faltou quem achasse n'ellas a
+explica&ccedil;&atilde;o da
+amizade desvelada com que Augusto sempre trat&aacute;ra o velho, e
+do piedoso acatamento com que o receb&ecirc;ra em casa, assim que
+da sua o expelliram. <br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos
+julgar a fundo do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos
+taes juizos. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma f&eacute;
+que se tem no desinteresse dos outros! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha explica&ccedil;&atilde;o mais difficil de ser
+recebida do que a que se fundamenta n'um sentimento nobre de
+abnega&ccedil;&atilde;o ou de generosidade. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que duvidemos muito de n&oacute;s mesmos, para
+assim desconfiarmos do proximo. Porque a final o que &eacute;
+verdade &eacute; que a mais exacta e
+infallivel sciencia do cora&ccedil;&atilde;o humano
+s&oacute; se
+adquire pelo estudo do proprio cora&ccedil;&atilde;o: esse
+&eacute; o unico que nos
+<span class="pagenum">[232]</span>
+est&aacute;
+bem patente. &Eacute; por isso que as melhores
+almas s&atilde;o de ordinario as mais crentes. <br />
+
+<br />
+
+Um homem, a quem a desconfian&ccedil;a tenazmente escuda contra
+todas as apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem
+j&aacute; t&atilde;o inquinado o
+cora&ccedil;&atilde;o como supp&otilde;e o dos outros. <br />
+
+<br />
+
+O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi
+muito concorrido. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se no cemiterio, e, por expressa determina&ccedil;&atilde;o
+do fallecido, em campa rasa, e n&atilde;o no tumulo da familia do
+Mosteiro, como o conselheiro desej&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Tudo se passou sem o menor signal de opposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se explicam bem estas versatilidades da
+opini&atilde;o publica. Uma medida que hoje ateia uma
+revolu&ccedil;&atilde;o,
+&aacute;manh&atilde; executa-se no meio do indifferentismo
+geral, e sem apostolado pr&eacute;vio, sem providencias
+repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao
+legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia
+das leis naturaes. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do
+herbanario, e receberam as visitas de p&ecirc;sames, que em parte
+eram tambem de parabens pelo exito do suffragio popular. <br />
+
+<br />
+
+Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam
+na igreja matriz as badaladas das Av&eacute;-Marias, Augusto entrou
+no cemiterio, j&aacute; deserto, e approximou-se lentamente da
+sepultura, inda coberta de pouco, como o denunciava a terra revolvida. <br />
+
+<br />
+
+Elle, cujo cora&ccedil;&atilde;o era decerto o que a morte do
+herbanario mais dolorosamente ferira, n&atilde;o receb&ecirc;ra
+p&ecirc;sames de ninguem. Pass&aacute;ra a tarde s&oacute;
+com o seu pensamento, o qual, como o leitor prev&ecirc;, lhe
+n&atilde;o devia ser muito jovial companheiro. <br />
+
+<br />
+
+Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado
+pelo ar abatido, revelador de uma profunda
+prostra&ccedil;&atilde;o de animo, que lhe quebr&aacute;ra
+as f&ocirc;r&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+Que era feito d'aquella energia, com que se revolt&aacute;ra contra
+as persegui&ccedil;&otilde;es da sorte, e que lhe
+anim&aacute;ra os primeiros passos para obter a
+justifica&ccedil;&atilde;o devida ao bom credito do nome que
+lhe haviam legado sem mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a
+luctar, vimol-o repellir nobremente as ironias de Henrique, vencel-o,
+obrigal-o a pedir-lhe perd&atilde;o; vimol-o recusar o auxilio que
+este j&aacute; lhe
+offerecia, e considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle
+proprio as provas da sua innocencia. <br />
+
+<br />
+
+Que &eacute; feito d'essa energia? <br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; feito d'ella? leitor, talvez o teu
+cora&ccedil;&atilde;o te possa responder por mim, se
+&eacute;s uma d'essas victimas, para quem a sorte parece
+personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios
+lentos. <br />
+
+<br />
+
+Quando, uns ap&oacute;s outros, se repetem os golpes da
+adversidade, quando todos os males parece cairem sobre uma existencia,
+como uma maldi&ccedil;&atilde;o de Deus, &eacute; raro
+encontrar-se t&ecirc;mpera de alma
+t&atilde;o rija que resista e n&atilde;o ceda, quasi
+convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta com um poder
+superior. <br />
+
+<br />
+
+A raz&atilde;o mais clara deixa-se tomar ent&atilde;o da
+cegueira do fatalismo, e eivado d'esta grave doen&ccedil;a
+dissipa-se a fortaleza do espirito, como se extinguem as
+f&ocirc;r&ccedil;as do corpo, quando gira no sangue um
+veneno enervador. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a
+que &eacute; t&atilde;o sujeita a natureza humana; sente-se uma
+especie de g&ocirc;so em succumbir sem lucta. Experimenta-se, por
+assim dizer, o orgulho da extrema infelicidade. <br />
+
+<br />
+
+Em poucos dias Augusto conheceu as maiores
+prova&ccedil;&otilde;es da vida: a miseria em perspectiva, a
+ingratid&atilde;o, o insulto que avilta, a calumnia que
+ennod&ocirc;a, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com
+dignidade o insulto e a calumnia: sorrira
+<span class="pagenum">[234]</span>
+&aacute; miseria e &aacute;
+ingratid&atilde;o, e dera
+&aacute; amizade as consola&ccedil;&otilde;es que a amizade
+lhe inspir&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o desfallec&ecirc;ra com tudo isto. <br />
+
+<br />
+
+Maior prova&ccedil;&atilde;o lhe estava reservada, porque ha
+maiores prova&ccedil;&otilde;es para a alma humana, do que
+todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de subito a estrella que a
+guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia, dormindo no meio de uma
+desencantada realidade; privae-a da ideia querida, que havia muito
+conceb&ecirc;ra, que comsigo vivia, que para si guardava, ciosa dos
+olhares extranhos, e v&ecirc;l-a-heis desnorteada, perdida, louca,
+contorcer-se em desespero e succumbir. <br />
+
+<br />
+
+Se resiste e sobrevive, se n&atilde;o desfallece, nem vacilla,
+&eacute; porque &eacute; de essencia mais elevada do que a
+humana. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes aquella ideia era t&atilde;o irrealisavel,
+aquelle sonho t&atilde;o chimerico, que a pobre devia estar
+prevenida para o perder um dia, e julgou que o estava. <br />
+
+<br />
+
+Mas illudira-se. Se nos dermos de cora&ccedil;&atilde;o a uma
+chimera, se ella, nas f&oacute;rmas vagas e aereas que reveste, nos
+sorrir e namorar, em v&atilde;o julgamos t&ecirc;l-a por o que
+verdadeiramente &eacute;; ha sempre um ou outro momento em que a
+acreditamos realisavel e at&eacute; realisada. <br />
+
+<br />
+
+E, ao convencermo-nos dev&eacute;ras da sua impossibilidade,
+sentimos a dor profunda que nos causa a perda de um objecto querido. <br />
+
+<br />
+
+Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes
+vestiam a f&oacute;rma humana, assim o impossivel, quando nos
+apaixonamos d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a
+fei&ccedil;&atilde;o da
+realidade aos nossos olhos namorados. <br />
+
+<br />
+
+E ao revelar-se como impossivel, destr&oacute;e o
+cora&ccedil;&atilde;o que o abra&ccedil;a, como Jupiter
+sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua gloria
+de deus. <br />
+
+<br />
+
+Qual f&ocirc;sse a ideia constante, o pensamento recatado de
+Augusto, sabem-n'o os leitores: era o amor
+<span class="pagenum">[235]</span>
+de Magdalena. A natureza d'esta
+paix&atilde;o dizia elle conhecel-a. N&atilde;o tinha outra
+aspira&ccedil;&atilde;o
+al&eacute;m de existir, era como o culto pela Virgem do
+Christianismo, era que se adora por adorar, em que na mesma
+adora&ccedil;&atilde;o se acha o premio do culto, em que o
+deixar-se adorar &eacute; o mais que pode pedir-se ao objecto
+d'elle. <br />
+
+<br />
+
+De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique,
+sentiu quasi avers&atilde;o para elle? por que foi que, amavel e
+bondoso para com todos, s&oacute; para com um desconhecido se
+mostrou frio e irritante? por que foi emfim que, ao persuadir-se, por
+certos indicios, de que Magdalena e Henrique se amavam, caiu no
+desalento, em que tantas causas de infortunio o n&atilde;o tinham
+lan&ccedil;ado ainda? Porque a verdade era que foi este o golpe que
+o venceu. <br />
+
+<br />
+
+Por qu&ecirc;? porque amava Magdalena, porque este amor
+n&atilde;o tinha nada excepcional; era inconscientemente
+apprehensivo, ambicioso, devaneador e ciumento, como todos os amores
+verdadeiros; porque era aquelle o seu sonho mais querido, e desde que
+era obrigado a convencer-se de que n&atilde;o pass&aacute;ra de
+um sonho, n&atilde;o se sentia de animo para fitar a realidade;
+porque era aquella a luz da sua alma, e ao v&ecirc;l-a apagar,
+vacillou nas trevas e parou. Desde que n&atilde;o avistava um alvo,
+n&atilde;o havia para elle
+retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que n&atilde;o
+valia mais do que a
+quieta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Esta f&ocirc;ra a causa do desalento de Augusto, que s&oacute;
+ent&atilde;o conheceu que se illudira com o estado do
+seu cora&ccedil;&atilde;o, que o que em si se passava era o
+verdadeiro amor. <br />
+
+<br />
+
+Desde que teve de renunciar a elle, n&atilde;o fez mais um
+esfor&ccedil;o para justificar-se da calumnia que pesava sobre si.
+Sentia-se indifferente &aacute;
+condemna&ccedil;&atilde;o do mundo. J&aacute; nem lhe
+importava justificar-se para
+<span class="pagenum">[236]</span>
+com Magdalena; era quasi uma vingan&ccedil;a, que tirava d'aquella
+por quem soffria, obrigal-a a ser injusta. <br />
+
+<br />
+
+E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto! <br />
+
+<br />
+
+O herbanario f&ocirc;ra victima da mesma illus&atilde;o de
+Augusto, e concorr&ecirc;ra involuntariamente para o levar a este
+estado moral. <br />
+
+<br />
+
+Das explica&ccedil;&otilde;es dadas por Magdalena na casa dos
+Cannaviaes, sabemos como das meias palavras e meias
+revela&ccedil;&otilde;es de Torquato, o herbanario
+acredit&aacute;ra que a morgadinha combin&aacute;ra
+imprudentemente com Henrique uma visita nocturna &aacute; quinta
+dos Cannaviaes. O velho, que suspeit&aacute;ra sempre da natureza
+dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou v&ecirc;r
+n'aquillo a
+confirma&ccedil;&atilde;o das suas suspeitas, e encontrando
+Magdalena, reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a
+quiz. <br />
+
+<br />
+
+Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a d&uacute;vida,
+se deveria ou n&atilde;o revelar tudo a Augusto. <br />
+
+<br />
+
+A noite cerrou de todo e deslizou com a lentid&atilde;o de uma
+noite de inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia
+seguinte passou-o na mesma indecis&atilde;o. Mas a
+inquieta&ccedil;&atilde;o do
+herbanario crescia; desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha
+exposta Magdalena, cuja confian&ccedil;a em Henrique a podia
+perder. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario continuava a desconfiar de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com
+uma das meninas de visitar &aacute; meia noite, por causa de
+Henrique, a casa dos Cannaviaes. O velho n&atilde;o p&ocirc;de
+mais tempo conter-se e disse a Augusto, depois de muito luctar comsigo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o devo calar-me. &Eacute; preciso coragem, meu
+filho. Arranca do cora&ccedil;&atilde;o a loucura que
+l&aacute; tens ainda, embora o deixes em sangue, ou
+est&aacute;s perdido.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[237]</span>
+Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto. <br />
+
+<br />
+
+O velho proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que
+vires te n&atilde;o curar, se
+&eacute; sem remedio esse mal, ao menos s&ecirc; generoso, e
+acode e salva, se f&ocirc;r possivel, quem, perdendo-te, se perde
+tambem. <br />
+
+<br />
+
+E ap&oacute;s estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto
+tremeu de investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma
+noite, recommendando-lhe que f&ocirc;sse preparado para receber uma
+grande dor. <br />
+
+<br />
+
+Augusto seguiu as indica&ccedil;&otilde;es do herbanario, e
+foi. <br />
+
+<br />
+
+Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da
+piedosa devo&ccedil;&atilde;o de Christina, a vimos chegar
+&aacute; janella dos Cannaviaes. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha reconhec&ecirc;ra Augusto atrav&eacute;s das
+sombras nocturnas, e tivera um presentimento do que significava a
+presen&ccedil;a d'elle n'aquelle logar e n'aquella
+occasi&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Por concentrada e discreta que f&ocirc;sse a paix&atilde;o de
+Augusto, n&atilde;o era um mysterio para Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+A extranhar alguem esta penetra&ccedil;&atilde;o de vista
+n&atilde;o ser&aacute; decerto nenhuma das minhas leitoras. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena adivinh&aacute;ra havia muito Augusto, e n&atilde;o
+lhe f&ocirc;ra difficil explicar at&eacute; a instinctiva
+hostilidade com que elle sempre acolh&ecirc;ra Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Por isso, ao v&ecirc;l-o alli, previu que pesava s&ocirc;bre
+ella uma suspeita, que era victima de uma illus&atilde;o, e que as
+apparencias a podiam condemnar. <br />
+
+<br />
+
+De feito Augusto cheg&aacute;ra tarde aos Cannaviaes, porque
+s&oacute; tarde o herbanario venc&ecirc;ra a
+hesita&ccedil;&atilde;o que experiment&aacute;ra ao
+dizer-lhe que f&ocirc;sse. Por isso
+s&oacute; p&ocirc;de reconhecer a voz e a figura da morgadinha
+e de Henrique no curto dialogo, que entre os dois se
+troc&aacute;ra, quando vieram examinar &aacute; janella o
+estado da noite. <br />
+
+<br />
+
+As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas
+<span class="pagenum">[238]</span>
+de uma maneira cruel para o
+seu
+cora&ccedil;&atilde;o. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais
+querer v&ecirc;r nem ouvir, retirou-se como um louco. <br />
+
+<br />
+
+Foi n'essa occasi&atilde;o que Magdalena o viu. <br />
+
+<br />
+
+Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava,
+viu-o pallido, e com uma express&atilde;o singular no rosto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;interrogou-o anciosamente o velho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tinha raz&atilde;o, tio Vicente. Tem sido uma longa e
+m&aacute; loucura a minha. Verei se me curo d'ella. <br />
+
+<br />
+
+E, sentando-se, encostou a cabe&ccedil;a &aacute;s
+m&atilde;os e permaneceu silencioso. <br />
+
+<br />
+
+O velho n&atilde;o lhe perguntou o que se tinha passado. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi em deante foi em rapido progresso a
+prostra&ccedil;&atilde;o de animo em Augusto. <br />
+
+<br />
+
+A doen&ccedil;a do herbanario que se exacerbou consideravelmente
+tambem, era o unico motivo de uma f&ocirc;r&ccedil;a ficticia
+que ainda o sustentava. Os seus
+desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes. <br />
+
+<br />
+
+A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a
+do cirurgi&atilde;o que tratava do herbanario. <br />
+
+<br />
+
+Falador por indole e por c&aacute;lculo profissional, o facultativo
+contava &aacute; cabeceira do leito as novidades do dia. Entre
+essas trouxe uma das que mais vogavam, que era a de que Henrique casava
+no Mosteiro com a morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+Um equivoco dizer do Torquato, na presen&ccedil;a dos criados do
+mosteiro, uma das meias discre&ccedil;&otilde;es do velho, mais
+perigosas do que a propria
+indiscre&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ra esta
+vers&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario,
+que o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto
+impassivel. <br />
+
+<br />
+
+No dia das elei&ccedil;&otilde;es, o estado do velho Vicente
+era mais grave ainda. O cirurgi&atilde;o prolongou a sua visita e
+falou da campanha eleitoral. Assegurou que era certa a derrota do
+conselheiro, desde que contra elle se manifest&aacute;ra o sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+O herbanario escutou-o com admira&ccedil;&atilde;o e
+sobresalto. <br />
+
+<br />
+
+Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma
+predilec&ccedil;&atilde;o que a tudo
+sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o affecto que alguns
+paes sentem pelos filhos, de quem s&oacute; teem recebido
+desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais
+motivos ha para a esfriar. <br />
+
+<br />
+
+Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que o herbanario, dominado por energia febril,
+quiz erguer-se do leito, e, apoiado no bra&ccedil;o de Augusto, que
+em v&atilde;o tentou dissuadil-o, se dirigiu &aacute; igreja
+para votar. O resultado sabem-n'o os leitores. <br />
+
+<br />
+
+Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar
+o alento a Augusto. Facil &eacute;, pois, de conceber qual o estado
+do seu espirito ao entrar no cemiterio. <br />
+
+<br />
+
+Ora&ccedil;&atilde;o ou medita&ccedil;&atilde;o, por
+muito tempo durou aquelle tributo de saudade, que o aspecto sombrio da
+tarde e a melancolia do logar e da hora mais solemne faziam. <br />
+
+<br />
+
+Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava
+d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do
+tumulo da filha. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era o Cancella j&aacute; o mesmo robusto e alegre
+alde&atilde;o que vimos, dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado
+rustico, representar com applauso o tyranno perseguidor do Messias.
+Desde a morte da filha parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido,
+nem tinha f&ocirc;r&ccedil;as para o trabalho, nem
+cora&ccedil;&atilde;o para alegrias. <br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o
+que se movia alli. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! logo vi que era o sr. Augusto&#8213;disse o pobre homem, estendendo a
+m&atilde;o, que Augusto apertou com affecto.&#8213;S&oacute;
+n&oacute;s temos amigos aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[240]</span>
+&#8213;&Eacute; verdade, Cancella. Ou s&oacute; n&oacute;s,
+f&oacute;ra d'aqui, n&atilde;o temos outros, pelos quaes
+esque&ccedil;amos estes, que ahi dormem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu decerto que n&atilde;o! Est&aacute;-me toda a alegria,
+est&aacute;-me todo o cora&ccedil;&atilde;o debaixo
+d'aquella pedra&#8213;disse o Herodes, apontando para o tumulo da
+filha.&#8213;Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha quem aos vinte j&aacute; n&atilde;o tenha coragem para
+principiar outra! <br />
+
+<br />
+
+O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fala de si, sr. Augusto?... N&atilde;o tem raz&atilde;o. Que
+s&atilde;o as suas dores ao lado da minha? Se ainda n&atilde;o
+experimentou o amor e as alegrias de pae, como ha de imaginar a dor,
+que a morte de uma filha unica nos traz ao
+cora&ccedil;&atilde;o?... A minha pobre
+Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o t&ecirc;l-a
+perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com
+raz&atilde;o, que era seu amigo e quasi um pae para si... mas
+n&atilde;o &eacute; sem remedio a sua saudade,
+ver&aacute;... A minha por&eacute;m... <br />
+
+<br />
+
+Augusto sorriu amargamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu sabes l&aacute;, homem, o que eu tenho no
+cora&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de
+acclama&ccedil;&otilde;es e applausos. Eram os clamores dos
+grupos populares, celebrando a victoria do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uns riem, emquanto outros choram&#8213;disse o Cancella.&#8213;Ha alegria
+acol&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha...&#8213;respondeu Augusto, pensativo.&#8213;Somos de mais n'esta terra, meu
+pobre Cancella; n&oacute;s, os infelizes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso parto &aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[241]</span>
+&#8213;Partes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu n&atilde;o posso viver aqui! Se tudo isto me
+est&aacute; falando na filha!... A cada passo estou &aacute;
+espera de v&ecirc;l-a... &Eacute; como se a todo o instante me
+morresse. Vou para a cidade; dizem que est&atilde;o engajando por
+l&aacute; trabalhadores para o Brazil... Quero v&ecirc;r se o
+trabalho me mata, antes que o desg&ocirc;sto me n&atilde;o
+tente a morrer de outra sorte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E dizes que partes &aacute;manh&atilde;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De madrugada. J&aacute; tenho tudo prompto. <br />
+
+<br />
+
+Augusto reflectiu por algum tempo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Far-te-hei companhia. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes olhou-o, admirado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Augusto?! Pois quer?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero que me batas &aacute; porta, quando passares. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que ten&ccedil;&otilde;es s&atilde;o as suas, sr.
+Augusto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As mesmas talvez que as tuas. N&atilde;o dizes,que queres
+v&ecirc;r se o trabalho te mata? Por que n&atilde;o hei de eu
+tentar o mesmo tambem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... n&atilde;o lhe morreu uma filha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E cuidas tu que s&oacute; um amor de filha nos pode prender
+&aacute; vida? que s&oacute; a morte de uma
+crean&ccedil;a nos pode ferir no cora&ccedil;&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois
+disse, com hesita&ccedil;&atilde;o ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; por certo a morte d'este santo velho que
+o faz falar assim, sr. Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez
+que lhe fizesse bem. Bem v&ecirc; que eu sou infeliz e... havia de
+entendel-o... <br />
+
+<br />
+
+Augusto apertou-lhe a m&atilde;o, commovido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre amigo! N&atilde;o, n&atilde;o me entenderias; porque
+n&atilde;o basta ser infeliz para me entender. &Eacute;
+necessario ter sido louco como eu fui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Louco?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, louco, meu bom Cancella, louco. N&atilde;o te lembras
+d'aquelle desgra&ccedil;ado do P&eacute; do Monte, que se
+suppunha rei? Como ria n'aquelle tempo! Um
+<span class="pagenum">[242]</span>
+dia voltou-lhe o juizo, mas ficou
+t&atilde;o triste at&eacute;
+morrer, que parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe
+devesse os unicos instantes de felicidade que sentiu na vida. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes j&aacute; n&atilde;o comprehendia Augusto, o que lhe
+fez cr&ecirc;r que o n&atilde;o entenderia se elle o
+tomasse por confidente. <br />
+
+<br />
+
+Augusto mudou de tom, dizendo-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Promettes passar por minha casa esta madrugada? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sempre quer?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o partir comtigo, partirei s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espero-te. Aonde vaes agora? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... vaes ao Mosteiro?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou despedir-me d'aquella santa familia, que t&atilde;o bem me
+tratou da filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se
+n&atilde;o consolou tambem da morte da minha pobre Linda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Angelo?... &Eacute; um nobre cora&ccedil;&atilde;o...
+Espera... N&atilde;o quero partir sem lhe dirigir
+algumas palavras... Devo-lh'as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a elle? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; elle m'as agradecer&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E Augusto approximou-se do tumulo da m&atilde;e de Magdalena, e
+&aacute; frouxa claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em
+um quarto de papel estas palavras: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Angelo.&#8213;Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que
+repousam sua m&atilde;e e Ermelinda, duas imagens que
+ser&atilde;o sempre para o seu cora&ccedil;&atilde;o
+rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ou&ccedil;a-me, que em
+nome d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre
+estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as sombras
+de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem custo.
+N&atilde;o o tornando talvez a v&ecirc;r, Angelo, tinha um
+dever
+<span class="pagenum">[243]</span>
+a cumprir para com a
+sua generosidade. H&atilde;o de ensinal-o a desprezar-me, Angelo. O
+seu nobre instincto de crean&ccedil;a recusar-se-ha a isso ao
+principio talvez: mas a raz&atilde;o do adolescente talvez venha a
+ser mais docil. N&atilde;o podendo justificar-me, deixe-me ao menos
+jurar-lhe que parto com a consciencia tranquilla. N&atilde;o
+&eacute; por mim que fa&ccedil;o
+este protesto, &eacute; para lhe evitar, se f&ocirc;r
+possivel, a
+d&uacute;vida no caracter dos homens. Para um
+cora&ccedil;&atilde;o, como eu lhe
+conhe&ccedil;o, deve ser um martyrio. Os mais que me condemnem; nem
+necessidade sinto j&aacute; de me justificar. Parto com um
+desalentado como eu. O que vou procurar n&atilde;o sei. Tudo
+acceito com
+indifferen&ccedil;a.&#8213;Seu amigo, <em>Augusto</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora
+a que deviam encontrar-se, separaram-se. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que
+ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&ocirc;de, por&eacute;m, chegar t&atilde;o
+depressa ao Mosteiro como esperava; distrahiu-o no caminho o seu
+compadre Z&eacute; P'reira. <br />
+
+<br />
+
+A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso
+Z&eacute; P'reira, estava cada vez mais transtornada. <br />
+
+<br />
+
+A beatice azed&aacute;ra o animo da sr.<sup>a</sup>
+Catharina do Nascimento
+de S. Jo&atilde;o Baptista. <br />
+
+<br />
+
+A saida precipitada do missionario, que n&atilde;o se sentiu seguro
+na terra depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com
+quem elle imaginava a cada passo esbarrar, rode&aacute;ra aquelle
+santo var&atilde;o do prestigio dos martyres perseguidos; e as
+saudades por elle e devo&ccedil;&atilde;o pela sua memoria
+augmentaram consideravelmente na aldeia. <br />
+
+<br />
+
+Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia
+Z&eacute; P'reira, peor se tornou depois d'essa &eacute;poca.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+A mulher passava todo o tempo em devo&ccedil;&otilde;es na
+igreja. O marido, desconsolado, procurava lenitivo na taberna. <br />
+
+<br />
+
+Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado
+habitual, e j&aacute; menos inoffensiva e pacifica do que nos
+primeiros tempos. <br />
+
+<br />
+
+A miseria amea&ccedil;ava invadir aquelle lar, at&eacute; alli
+remediado. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto exacerb&aacute;ra a acrimonia das discuss&otilde;es
+conjugaes. <br />
+
+<br />
+
+Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e
+attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal. <br />
+
+<br />
+
+De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais
+amea&ccedil;adora. <br />
+
+<br />
+
+Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais al&eacute;m do que
+a sua timidez habitual o permittira
+at&eacute; alli, e a sr.<sup>a</sup> Catharina soube,
+pela primeira vez, que
+o osso de que ella era osso n&atilde;o tinha a brandura que lhe
+suspeitava. <br />
+
+<br />
+
+Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhan&ccedil;a.
+D'ahi por deante f&ocirc;ram frequentes iguaes espectaculos. <br />
+
+<br />
+
+Na noite em que o Herodes o encontrou, o Z&eacute; P'reira, em
+completa embriaguez, acab&aacute;ra de fazer sentir mais uma vez a
+sua mulher toda a f&ocirc;r&ccedil;a da auctoridade marital.
+Ella revoltou-se e abandonou os penates, jurando que nunca mais
+voltaria a elles. <br />
+
+<br />
+
+O pobre do homem andava agora perdido nas ruas &aacute; procura
+d'ella, arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia
+d&oacute;. O Cancella condoeu-se d'elle, e dando-lhe o
+bra&ccedil;o, para lhe firmar os passos cambaleantes, conduziu-o a
+casa, promettendo restituir-lhe a mulher fugida. <br />
+
+<br />
+
+E n'esta tarefa de reconcilia&ccedil;&atilde;o passou grande
+parte da noite, conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de
+que n&atilde;o seria muito duradoura a paz. <br />
+
+<br />
+
+E tinha raz&atilde;o o Cancella em pensar assim. Ao
+<span class="pagenum">[245]</span>
+lar domestico, onde uma vez se passa uma
+scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia. <br />
+
+<br />
+
+O pobre do Z&eacute; P'reira estava condemnado a levar assim o
+resto da sua vida de familia. <br />
+
+<br />
+
+Esta occorrencia demorou o Herodes, que s&oacute; tarde entrou no
+Mosteiro a despedir-se da familia que tanto lhe estim&aacute;ra a
+filha. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXXII </h4>
+
+<br />
+
+Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada
+&aacute; insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na
+aldeia, n&atilde;o porque os preparativos da jornada lhe impedissem
+o repouso, mas a lucta de tantos pensamentos e paix&otilde;es
+encontradas, decerto lhe disputaria o espirito. <br />
+
+<br />
+
+Partir &eacute; j&aacute; uma palavra, que quasi nunca se
+pronuncia com indifferen&ccedil;a; partir para n&atilde;o
+voltar
+&eacute; uma ideia afflictiva, que mais violenta
+commo&ccedil;&atilde;o desafia; partir sem
+esperan&ccedil;as no futuro... poucas torturas de alma se podem
+comparar a esta! <br />
+
+<br />
+
+Experimentava-a Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Era quasi uma resolu&ccedil;&atilde;o de suicida a sua. Nenhuma
+ambi&ccedil;&atilde;o tivera poder sobre elle para o arrancar
+d'alli; tivera-o o desespero. <br />
+
+<br />
+
+A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os
+olhos fitos na chamma da v&eacute;la, com a cabe&ccedil;a entre
+as m&atilde;os, sem
+saber em que pensava, sem consciencia de si. <br />
+
+<br />
+
+A noite estava socegada, e apenas o som mon&oacute;tono de uma
+fonte proxima interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas. <br />
+
+<br />
+
+Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se
+costuma ler em situa&ccedil;&otilde;es
+identicas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[246]</span>
+Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os
+seus movimentos uma indecis&atilde;o, uma falta de consciencia, que
+n&atilde;o deixava d&uacute;vidas sobre o estado do animo que
+os regia. <br />
+
+<br />
+
+Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as
+suas ac&ccedil;&otilde;es; e no meio do cumprimento de uma
+ten&ccedil;&atilde;o, perdia a
+consciencia d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria
+comsigo; mas c&ecirc;do afastava-o de si com enfado. <br />
+
+<br />
+
+Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de
+passados devaneios, effus&atilde;o de uma alma sensivel, fructos da
+juventude e da solid&atilde;o, a que a primeira
+inspir&aacute;ra o enthusiasmo, e a segunda a melancolia, tudo
+consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a chamma, desapparecerem
+as lettras, reduzir-se tudo a cinzas. <br />
+
+<br />
+
+Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em
+algumas de Magdalena. O sobresalto do seu
+cora&ccedil;&atilde;o, ao ler aquelle nome,
+era ent&atilde;o mais violento que nunca. <br />
+
+<br />
+
+N'estas pesquizas veio-lhe &aacute;s m&atilde;os um pequeno
+masso, que pertenc&ecirc;ra ao herbanario. <br />
+
+<br />
+
+Ia para as queimar tambem, quando a inscrip&ccedil;&atilde;o,
+que viu por f&oacute;ra da cinta que as enfeixava, o fez hesitar. <br />
+
+<br />
+
+Liam-se estas palavras:&#8213;<em>Cartas de
+Magdalena</em>. <br />
+
+<br />
+
+Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma
+tenta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que
+j&aacute; tinha renunciado; era entrar em communh&atilde;o de
+pensamentos com ella, e infeliz de quem n&atilde;o concebe a casta
+voluptuosidade d'este g&ocirc;so. <br />
+
+<br />
+
+Mas ao mesmo tempo hesitava. <br />
+
+<br />
+
+Pertencia-lhe tambem aquelle legado? N&atilde;o seria um abuso
+lel-as? Devia antes queimal-as, mas...
+<span class="pagenum">[247]</span>
+eram cartas de Magdalena. E depois, que
+mal poderia vir da indiscre&ccedil;&atilde;o? N&atilde;o
+tinha elle um
+cora&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o devia abrir-se mais a
+ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o quasi em um
+tumulo. <br />
+
+<br />
+
+E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente? <br />
+
+<br />
+
+De que se poderia tratar alli, a n&atilde;o ser de algum affectuoso
+cumprimento da morgadinha ao velho, que sempre trat&aacute;ra com
+intima familiaridade, ou algumas meigas reprehens&otilde;es por a
+sua porfiada ausencia do Mosteiro? <br />
+
+<br />
+
+Augusto recordava-se at&eacute; do velho lhe ter falado na indole
+d'estas cartas. <br />
+
+<br />
+
+Nas vesperas de renunciar para sempre &aacute; felicidade, devia-se
+perdoar a tenta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Abriu-as. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ia muito adeantado na leitura, quando j&aacute;
+todos os signaes de hesita&ccedil;&atilde;o cediam o logar aos
+da mais irreprimivel avidez. E terminada a primeira, abriu, leu ou
+devorou outra, e ap&oacute;s outra e outra, at&eacute; a
+ultima; da ultima voltava de novo &aacute;
+primeira, e cada vez mais profunda commo&ccedil;&atilde;o
+parecia
+dominal-o. <br />
+
+<br />
+
+Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de
+todas. <br />
+
+<br />
+
+Dizia uma: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu bom amigo.&#8213;Hontem, depois que nos
+separ&aacute;mos,
+recebi de Lisboa a encommenda que esperava. O
+Angelo n&atilde;o se esqueceu.
+Mando-lh'a, para que mais uma vez fa&ccedil;a de feiticeiro,
+<em>adivinhando</em> os gostos do seu amigo. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Afian&ccedil;o-lhe que vae acertar com os desejos
+d'elle. Ha tempos que o vejo, emquanto espera na sala por os pequenos,
+procurar de preferencia na estante os livros de historia franceza.
+Custa-me a perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a
+Revolu&ccedil;&atilde;o, mas emfim seja feita a sua vontade.
+Escuso
+<span class="pagenum"><a name="p248">[248]</a></span>
+de lhe
+recommendar discre&ccedil;&atilde;o. E, quando nos
+virmos, pe&ccedil;o-lhe que me n&atilde;o torne a falar nos
+la&ccedil;os em que diz que eu estou a prender o
+cora&ccedil;&atilde;o. Mette-me m&ecirc;do.&#8213;Sua amiga,
+<em>Lena</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu amigo.&#8213;Hontem <a href="#e12">separ&aacute;mo-nos</a>
+de t&atilde;o mau humor, que hoje
+acordei com remorsos, e n&atilde;o pude socegar emquanto lhe
+n&atilde;o escrevi para lhe pedir perd&atilde;o. Espero que
+perdoar&aacute; a este rebelde genio que tenho. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas tambem para que me est&aacute; sempre a ralhar?
+N&atilde;o se assuste pelo meu cora&ccedil;&atilde;o; o
+maior perigo que o tio Vicente receia para elle, faz-me
+sorrir.&#8213;&Eacute; o de me apaixonar?&#8213;Ent&atilde;o que tinha?
+N&atilde;o sonhe com nuvens, e v&aacute; representando o seu
+papel de <em>adivinho</em>, que &eacute; uma
+generosa ac&ccedil;&atilde;o que pratica.&#8213;Sua arrependida
+inimiga,
+<em>Lena</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu bom tio.&#8213;Ahi v&atilde;o uns livros, de que eu
+n&atilde;o entendo nada. Augusto falou d'elles ao filho do
+administrador, que veio de Coimbra. Conheci n'elle desejos de
+possuil-os. Tomei nota. O Angelo remetteu-m'os hontem. Para Augusto
+n&atilde;o desconfiar, finja atrai&ccedil;oar um pouco o
+mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, j&aacute; nada
+digo.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A de mais recente data dizia apenas: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tio Vicente.&#8213;Pensei no que me disse do estado do
+cora&ccedil;&atilde;o do seu... do nosso amigo. Parece-me que
+exaggera. Mas, se f&ocirc;sse verdade, podia tranquillisar-se. Eu
+lhe afian&ccedil;o que d'ahi nunca para elle vir&aacute; a
+infelicidade. No entretanto,
+discre&ccedil;&atilde;o por ora.&#8213;Sua affei&ccedil;oada
+sobrinha,
+<em>Magdalena</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Por a amostra, que lhe damos, o leitor n&atilde;o deve
+<span class="pagenum">[249]</span>
+estranhar que estas cartas estivessem
+causando a Augusto o effeito que dissemos. <br />
+
+<br />
+
+Cada uma era uma revela&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha;
+d'ella lhe viera pois grande parte da instruc&ccedil;&atilde;o
+que recebera, alli, na
+solid&atilde;o d'aquella aldeia! <br />
+
+<br />
+
+O mysterio dos presentes do herbanario, a que t&atilde;o diversas
+explica&ccedil;&otilde;es dera,
+esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo;
+suspeit&aacute;ra, pelo menos, que era a elle que o herbanario se
+dirigia para escolher os livros. <br />
+
+<br />
+
+Nunca, por&eacute;m, se lembr&aacute;ra de Magdalena; agora,
+que sabia de que origem provinham, beijava-os, como sagradas reliquias,
+venerava-os com expans&otilde;es de verdadeira idolatria.
+J&aacute; n&atilde;o tinha
+cora&ccedil;&atilde;o para se separar d'elles. <br />
+
+<br />
+
+Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos
+cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella
+por Augusto, n&atilde;o havia para elle menor encanto. Pelo que
+tantas vezes lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza
+deviam ser as reflex&otilde;es a que Magdalena alludia. <br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois
+cora&ccedil;&otilde;es, estudando-os a ambos, receiando por
+ambos, lidando por extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer
+e que amea&ccedil;ava degenerar em paix&atilde;o. Toda a sua
+interven&ccedil;&atilde;o consistia em fazer com que elles se
+n&atilde;o revelassem; era o meio isolador que impedia que se
+ateasse o incendio. Nas suas m&atilde;os paravam os dois fios da
+corrente, s&oacute; elle a interrompia. <br />
+
+<br />
+
+Esta situa&ccedil;&atilde;o do herbanario era para elle causa
+de grandes iuctas. <br />
+
+<br />
+
+Amando Augusto com sentimento paterno, tinha
+ambi&ccedil;&otilde;es por o amigo; e, &aacute;s vezes,
+movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella
+paix&atilde;o. Por outro lado, n&atilde;o estimava menos
+Magdalena, e prevendo
+<span class="pagenum">[250]</span>
+as
+resistencias e repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos
+a soffrer, hesitava e desejava poder abafar no
+cora&ccedil;&atilde;o dos dois os
+germens de pesares futuros. <br />
+
+<br />
+
+Tivemos occasi&atilde;o de o v&ecirc;r sob estas diversos
+impress&otilde;es. Umas vezes reprehendendo Augusto, outras quasi
+deixando-lhe entrever esperan&ccedil;as. A chegada de Henrique de
+Souzellas e os successos subsequentes despertaram no velho uma especie
+de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao
+cora&ccedil;&atilde;o, e t&atilde;o enlevado estava pelo
+perfume do affecto que rescendia de todas, que nem se lembrava
+j&aacute; da hora proxima da partida do motivo que a
+origin&aacute;ra. Motivo que era o desmentido da sua
+illus&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impress&atilde;o que
+produziu foi dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as
+lagrimas aos olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os
+bra&ccedil;os, e assim permaneceu por muito tempo. <br />
+
+<br />
+
+Depois levantou a cabe&ccedil;a n'um impeto de
+desespera&ccedil;&atilde;o, exclamando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que me haviam de vir &aacute; m&atilde;o estas cartas?
+Que espirito diabolico se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um
+anjo me acompanhava com a sua vista protectora s&oacute; quando
+elle me vae deixar para sempre! E dizia ella que me n&atilde;o
+podia vir o infortunio d'aqui!... N&atilde;o contava com as
+mudan&ccedil;as
+do proprio cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Na vidra&ccedil;a da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram
+algumas leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Cancella j&aacute;?... &Eacute; pois certo que vou partir? <br />
+
+<br />
+
+Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe
+<span class="pagenum">[251]</span>
+como os do condemnado ao caminhar
+para o supplicio. <br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra o momento de romper com todas as
+esperan&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou prompto&#8213;disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro,
+sem reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis
+que tinha dispersos na mesa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei que era mais c&ecirc;do&#8213;continuou elle.&#8213;Distrahi-me a
+ler umas cartas que estive a p&ocirc;r em ordem, e o tempo correu.
+Vamos l&aacute;, meu pobre amigo, deixemos esta terra para os
+venturosos. <br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia
+estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e
+Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico
+sorriso. <br />
+
+<br />
+
+Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito
+em Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda
+contempla&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena foi a primeira que falou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admira-se de nos v&ecirc;r aqui?&#8213;disse ella.&#8213;Que ha de mais
+natural? Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o
+mesmo pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe
+deviamos... visto que vae partir. <br />
+
+<br />
+
+E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de
+recrimina&ccedil;&atilde;o, que feriu
+Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; certo que quer partir?&#8213;perguntou Angelo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... parto...&#8213;respondeu Augusto, perturbado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas por qu&ecirc;? Que significa essa
+resolu&ccedil;&atilde;o? Lena contou-me ha pouco tudo. Eu nada
+sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame, e em nossa
+casa! Mas, j&aacute; resolvemos;
+&aacute;manh&atilde;, eu e Lena, havemos de falar, havemos de
+conseguir...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[252]</span>
+&#8213;N&atilde;o, Angelo. &Eacute; inutil. Deixe-me com
+o meu destino. &Eacute; a elle que eu obede&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fala verdade,&#8213;acudiu a morgadinha&#8213;diga que obedece
+&aacute; sua phantasia, e commette uma ingratid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; palavra &laquo;ingratid&atilde;o&raquo;,
+Augusto n&atilde;o p&ocirc;de reprimir um sorriso de amargura. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma ingratid&atilde;o, sim&#8213;repetiu Magdalena, respondendo com
+firmeza e serenidade &aacute;quelle sorriso.&#8213;Ha dias, depois de
+uma scena dolorosa para todos n&oacute;s, quando sa&iacute;a do
+Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel fatalidade, encontrou
+alguem no limiar da porta, que lhe pediu que n&atilde;o partisse
+sem se despedir... de quem atrav&eacute;s de tudo, o acreditaria
+innocente. E para esta pessoa n&atilde;o houve uma s&oacute;
+palavra na carta de despedida que mandou a meu irm&atilde;o! E
+escreveu-a sobre o tumulo de minha m&atilde;e! <br />
+
+<br />
+
+Estas palavras f&ocirc;ram ditas com t&atilde;o sentida
+commo&ccedil;&atilde;o, que Augusto esteve quasi a
+lan&ccedil;ar-se-lhe aos p&eacute;s, para pedir
+perd&atilde;o; reteve-se,
+por&eacute;m, e respondeu turbamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, minha senhora, por essa occasi&atilde;o eu
+jurei tambem &aacute; pessoa de quem fala, e a
+quem serei sempre grato, que n&atilde;o procuraria tornar a
+v&ecirc;l-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de
+todos digno da sua generosa confian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi isso que jurou, ou antes que n&atilde;o procuraria ser
+visto?&#8213;perguntou Magdalena, sorrindo.&#8213;Veja qual d'esses juramentos
+ser&aacute; mais em harmonia com os seus actos. <br />
+
+<br />
+
+A lembran&ccedil;a da excurs&atilde;o nocturna aos Cannaviaes,
+para espiar Magdalena, tirou a Augusto o animo de responder. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena comprehendeu aquelle embara&ccedil;o, e n&atilde;o
+insistiu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as
+provas da sua justifica&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora, parto, porque desisto
+<span class="pagenum">[253]</span>
+d'ella. Basta-me estar justificado para
+com a consciencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem direito para o fazer. Uma alma, que &eacute;
+nobre, deve homenagem a si propria. Resignar-se &aacute; suspeita,
+&eacute; como um suicidio moral. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente, minha senhora; e n&atilde;o concebe que
+haja casos em que o suicidio seja natural? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus, Augusto&#8213;exclamou Angelo&#8213;como eu o estranho! o que o levou
+a esse desespero? <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha sorria, ao responder ao irm&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma febre que passa, ver&aacute;s. Quer que lhe fale
+com franqueza, sr. Augusto? Tenho um secreto presentimento a
+dizer-me que, apesar d'essa descren&ccedil;a, apesar d'essa carta,
+e apesar de estar por minutos o momento da partida, n&atilde;o
+s&oacute;
+n&atilde;o partir&aacute;, mas at&eacute; ha de tomar parte
+na nossa
+primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina. <br />
+
+<br />
+
+Estas ultimas palavras fizeram impress&atilde;o em Augusto, que
+instinctivamente repetiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do proximo casamento de Christina?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sabia que Christina vae casar?-perguntou
+Magdalena com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em
+Augusto.&#8213;&Eacute; verdade, o sr. Henrique de Souzellas teve pressa
+de legitimar o titulo de primos, com que arbitrariamente nos
+tratavamos. <br />
+
+<br />
+
+Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel express&atilde;o,
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qu&ecirc;?... pois &eacute; com Christina... pois Henrique
+vae casar com... <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; depois de lhe romperem dos labios estas palavras,
+&eacute; que, reconhecendo a indiscre&ccedil;&atilde;o da
+sua surpresa, accrescentou com mal simulada indifferen&ccedil;a: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n&atilde;o sabia! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&eacute;ras? Pois n&atilde;o tinha ouvido falar d'este
+casamento? Oh... querem v&ecirc;r que suppunha tambem
+<span class="pagenum">[254]</span>
+que era eu a que me casava?... Digo
+isto, porque o Cancella tambem estava na mesma cren&ccedil;a.
+Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos!... E acham logo
+quem se fie n'elles! <br />
+
+<br />
+
+E, mudando de inflex&atilde;o, proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos
+um por o outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio
+sobre aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso
+encontral-o doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de
+alguma maneira, aquella sympathia. F&ocirc;ram singulares as
+circumstancias em que isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e
+noite de chuva, na capella-m&oacute;r da minha propriedade dos
+Cannaviaes, onde Christina f&ocirc;ra rezar, pela saude de
+Henrique, as esta&ccedil;&otilde;es da meia noite; onde
+Henrique foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a
+Brizida, para os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro;
+interven&ccedil;&atilde;o algum tanto perigosa, porque podia
+haver quem me seguisse a mim com menos generosas
+inten&ccedil;&otilde;es de que as de qualquer dos tres, e que,
+ao v&ecirc;r-me em t&atilde;o extraordinario
+sitio, a taes horas, n&atilde;o me concedesse a
+confian&ccedil;a precisa para acreditar, atrav&eacute;s de
+tudo, na minha innocencia. <br />
+
+<br />
+
+A allus&atilde;o era clara, e mais clara a fazia a
+inflex&atilde;o com que foi pronunciada. <br />
+
+<br />
+
+Augusto curvou a cabe&ccedil;a e murmurou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, algum miseravel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou algum infeliz&#8213;corrigiu delicadamente Magdalena.&#8213;Os infelizes
+s&atilde;o tambem sujeitos a perderem a f&eacute;. Mas quem
+lhes pode levar a mal isso? <br />
+
+<br />
+
+Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse
+mais jovialmente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas afiancei ha pouco que n&atilde;o partiria. Acaso me enganei? <br />
+
+<br />
+
+Augusto, como o leitor concebe decerto, j&aacute; n&atilde;o
+tinha animo nem raz&atilde;o para dizer que partia. Calou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[255]</span>
+Angelo, a cuja prompta intelligencia n&atilde;o tinha ficado
+latente o verdadeiro sentido d'este dialogo, gra&ccedil;as tambem
+ao conhecimento que elle tinha, havia muito, do
+cora&ccedil;&atilde;o de sua irm&atilde; e
+do de Augusto, respondeu por elle: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te enganaste, n&atilde;o, Lena. Tambem eu
+j&aacute; digo que Augusto n&atilde;o partir&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E Augusto sem protestar! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena tornou-se de subito mais s&eacute;ria e grave do que
+at&eacute; alli, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de novo
+se dirigiu ao irm&atilde;o, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para vir aqui, pedi o auxilio do teu bra&ccedil;o de creanca,
+Angelo, como se f&ocirc;ra o de um homem. Deixa-me considerar-te
+por mais algum tempo ainda da mesma maneira, emquanto n&atilde;o
+termino a minha miss&atilde;o. Ha pouco, depois que me leste a
+carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: &laquo;Que
+tencionas fazer?&raquo; N&atilde;o &eacute;
+assim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te
+acompanhasse aqui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Has de j&aacute; ter percebido que o pensamento que me obrigou a
+este passo, que n&atilde;o sei se me
+dever&atilde;o censurar, creio at&eacute; que devem, que esse
+pensamento n&atilde;o est&aacute; cumprido ainda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo que n&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; deante de ti, Angelo, que considero como um homem,
+como um bom conselheiro, &eacute; deante de ti, como seria deante
+de quem quer que ahi estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou
+concluir o meu pensamento. <br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que
+s&oacute; um demasiado rubor trahiria, se a luz f&ocirc;sse
+bastante para o denunciar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto, est&aacute; pobre, sem familia, sem amigos, e, para
+ultima prova&ccedil;&atilde;o, at&eacute; as
+trai&ccedil;&otilde;es e as suspeitas lhe n&atilde;o
+pouparam o nome honrado que herdou. Essa posi&ccedil;&atilde;o
+d&aacute;-lhe direitos que eu
+sei comprehender, creia. &Eacute; uma especie de
+nobreza, de que se n&atilde;o pode exigir
+humilha&ccedil;&atilde;o alguma. Por isso, sem
+<span class="pagenum">[256]</span>
+hesitar, com toda a
+lealdade, vim aqui em companhia de Angelo para estender-lhe a
+m&atilde;o e dizer-lhe que se, como tenho raz&atilde;o para
+crer, as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se
+essas sympathias podem bastar &aacute;s
+aspira&ccedil;&otilde;es da sua, se, para ganhar coragem, os
+meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e
+dos meus affectos. &Eacute; deante de ti, que fa&ccedil;o esta
+confiss&atilde;o, Angelo.
+Ter&aacute;s que me ralhar por causa d'ella? <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a
+hesita&ccedil;&atilde;o, e tomando entre as suas a
+m&atilde;o que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos
+apaixonados. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o teve pressa de retiral-a. <br />
+
+<br />
+
+Angelo veio tambem beijar as faces da irm&atilde;. Era assim que
+respondia &aacute; pergunta d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Pobres crean&ccedil;as! Porque a final eram crean&ccedil;as
+todos tres, crean&ccedil;as a quem ainda os romances namoram, sem
+que se lembrem de que, ao transplantal-os para a vida real, todos os
+desconhecem e censuram, e s&oacute; regando-os de lagrimas
+&eacute; que as mais das vezes se consegue nutril-os. <br />
+
+<br />
+
+O olhar de Augusto radiava j&aacute; com o vivo fulgor da alegria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas.
+Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que
+tenho a cumprir. Hei de ter f&ocirc;r&ccedil;a para conquistar
+as
+provas da minha innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e
+depois... <br />
+
+<br />
+
+Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o
+rosto. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois sou eu quem tem o direito de exigir que n&atilde;o pare.
+Bem v&ecirc; que, depois do passo que dei, se algum escrupulo ou
+orgulho pesasse no seu cora&ccedil;&atilde;o, Augusto, seria
+uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a m&atilde;o, que eu
+com lealdade lhe
+<span class="pagenum">[257]</span>
+offereci; a
+lealdade obriga-o agora a seguir o caminho do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Depois de alguns instantes de reflex&atilde;o, Augusto respondeu
+outra vez com firmeza: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu
+dever. <br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que o Herodes teve de partir s&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto
+t&atilde;o inesperada companhia, mas n&atilde;o lhe foi
+difficil, depois do que viu e ouviu, conjecturar
+qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de
+resolu&ccedil;&atilde;o o seu companheiro de
+jornada. <br />
+
+<br />
+
+Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos. <br />
+
+<br />
+
+Estes n&atilde;o conseguiram dissuadil-o de partir. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia j&aacute; estimulo para arrancar aquelle
+cora&ccedil;&atilde;o ao desalento. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de t&atilde;o
+violentas paix&otilde;es, que desisto de descrevel-as. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXXIII </h4>
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena,
+na qual incluimos j&aacute; D. Doroth&eacute;a e Henrique,
+reunida em uma das salas do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e
+Henrique jogavam o xadrez; D. Doroth&eacute;a e D. Victoria
+conversavam a respeito do pre&ccedil;o de umas meadas de linho, que
+esta tinha dado a c&oacute;rar, e da pessima qualidade do fiado,
+effeito evidente, segundo D. Victoria, das criadas que tinha, que nem
+para fiar serviam. O conselheiro
+<span class="pagenum">[258]</span>
+examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que
+recebera, j&aacute; a pedir empregos e gra&ccedil;as em paga
+dos servi&ccedil;os eleitoraes,
+&aacute;s vezes hypotheticos. <br />
+
+<br />
+
+A cada passo, por&eacute;m, Magdalena suspendia o trabalho, para
+olhar para a porta da sala, principalmente quando nos immediatos
+aposentos se escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que
+n&atilde;o com menor frequencia os desviava das pedras do taboleiro
+para encontrar os da irm&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina,
+e esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os
+olhos da costura. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria e D. Doroth&eacute;a n&atilde;o era raro
+metterem-se na conversa dos outros, d'onde facil
+transi&ccedil;&atilde;o achavam logo para voltarem aos seus
+assumptos favoritos: meadas e criados. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou
+fazia notar alguma mais exorbitante pretens&atilde;o de tantas que
+examinava. <br />
+
+<br />
+
+Era evidente que todas aquellas cabe&ccedil;as estavam pouco
+preoccupadas com os assumptos apparentes das suas
+cogita&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Lena!&#8213;dizia Christina, que pela terceira vez chamava a
+prima, sem conseguir ser ouvida&#8213;que tens tu esta manh&atilde;? Que
+distrac&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o essas, que n&atilde;o respondes quando te chamam? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois falaste-me? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo! &Oacute; menina, ha que seculos te
+estou eu a perguntar em que tempo &eacute; que as laranjeiras teem
+flor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Christe!&#8213;acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.&#8213;Esse
+pensamento &eacute; linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em
+que tens estado a scismar. <br />
+
+<br />
+
+Christina c&oacute;rou intensamente, ao perceber o sentido das
+palavras do conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span>
+&#8213;Ora, n&atilde;o era isso, tio. Eu perguntava, porque... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, quando o v&eacute;o estiver prompto, a laranjeira
+n&atilde;o nos faltar&aacute; com ramos e flores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mano&#8213;disse D. Victoria&#8213;olhe que se n&atilde;o
+trata de v&ecirc;r o que &eacute; que
+est&aacute; dando nas laranjeiras, dentro em pouco n&atilde;o
+ha uma s&oacute; na quinta. Que tambem para serem comidas as
+laranjas pelos criados... Porque quasi que s&atilde;o s&oacute;
+para elles.
+N&atilde;o que n&atilde;o faz ideia!... <br />
+
+<br />
+
+E continuou com D. Doroth&eacute;a a narra&ccedil;&atilde;o
+dos abusos de que os criados eram culpados. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta &eacute; galante!&#8213;disse elle, examinando uns papeis e
+rindo.&#8213;Ora ou&ccedil;a isto, Henrique. Aqui
+est&aacute; um homem que deseja que eu lhe empregue nada menos do
+que sete sobrinhos que tem. Sete! &Eacute; uma
+gera&ccedil;&atilde;o como a de Jacob; se
+estivessemos na c&ocirc;rte de Phara&oacute;!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio
+completo&#8213;disse Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! oh!&#8213;disse o conselheiro, passados alguns
+momentos.&#8213;C&aacute; est&aacute; o meu amigo Pertunhas,
+teimando com o logar de recebedor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois o maroto ainda se atreve? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que despeza de estylo que faz! &Eacute; uma ode congratulatoria
+em prosa. <br />
+
+<br />
+
+N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos
+passou-se o tempo at&eacute; a chegada do correio, successo que
+marca &eacute;poca n'uma manh&atilde; passada na aldeia. <br />
+
+<br />
+
+N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os
+periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das
+elei&ccedil;&otilde;es dos differentes
+circulos do paiz. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro j&aacute; por tres vezes consult&aacute;ra o
+relogio, extranhando que o correio se demorasse.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[260]</span>
+Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos;
+Henrique deu subito desfecho ao j&ocirc;go com um lan&ccedil;o
+absurdo, e ambos se precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo
+veio encostar-se ao espaldar da cadeira de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro principiou por ler uma carta. <br />
+
+<br />
+
+Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! oh!&#8213;disse o conselheiro, logo &aacute;s primeiras linhas que
+leu.&#8213;Temos crise ministerial. As elei&ccedil;&otilde;es
+f&ocirc;ram pouco favoraveis ao
+governo; perderam-se em quasi toda a parte! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo
+de fundo&#8213;disse Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem-me n'esta carta que j&aacute; se fala em que o ministerio
+vae pedir a sua demiss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este artigo allude apenas a uma reconstruc&ccedil;&atilde;o
+do gabinete. <br />
+
+<br />
+
+-&laquo;O governo&#8213;proseguiu o conselheiro, lendo,&#8213;nem espera pela
+constitui&ccedil;&atilde;o da camara e
+c&aacute;e por estes dias, infallivelmente. Quando voss&ecirc;
+receber esta, j&aacute; talvez elle perten&ccedil;a aos livros
+findos.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para
+resolver sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na
+futura camara&raquo;&#8213;lia Henrique no periodico, que logo em
+seguida p&ocirc;z de lado, para consultar outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o imagina&#8213;continuava o conselheiro, lendo a
+carta&#8213;o movimento de ambi&ccedil;&otilde;es que vae
+j&aacute; por aqui&raquo;. Ora se n&atilde;o imagino! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um numero do <em>Suffragio
+Nacional</em>!&#8213;exclamou Henrique, abrindo segundo
+periodico.&#8213;Provavelmente &eacute; alguma amabilidade que lhe
+dirigem, sr. conselheiro; elles que lh'o mandam! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, decerto. Como da outra vez. Veja l&aacute;,&#8213;disse o
+conselheiro, sorrindo&#8213;aos moribundos tudo se perd&ocirc;a. <br />
+
+<br />
+
+Henrique correu a vista pela folha, para saber o
+<span class="pagenum">[261]</span>
+que motiv&aacute;ra a
+remessa d'ella para o Mosteiro, onde n&atilde;o costumava vir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! temos correspondencia c&aacute; da terra!&#8213;exclamou por fim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deve ser isso. J&aacute; tardava. &Eacute; communicado do
+Seabra. Leia, que s&atilde;o curiosos. O homem a apreciar as
+elei&ccedil;&otilde;es de domingo deve ser soberbo. Isso
+n&atilde;o se pode perder. Leia, leia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assigna-se <em>um eleitor indignado</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justo. &Eacute; o estylo do homem. Vamos l&aacute; a
+v&ecirc;r isso. <br />
+
+<br />
+
+Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+A pe&ccedil;a litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra
+contava ao mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu
+transcrevel-a aqui, se, pela sua extens&atilde;o, n&atilde;o
+tomasse demasiado
+espa&ccedil;o, e se, pela sua unidade e estreita
+liga&ccedil;&atilde;o logica,
+se n&atilde;o subtrahisse &aacute; menor tentativa de
+fragmenta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle communicado era indivisivel. <br />
+
+<br />
+
+Apesar d'esta for&ccedil;ada omiss&atilde;o, espero que os
+leitores far&atilde;o a justi&ccedil;a de supp&ocirc;r o
+escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar com tanta
+proficiencia na taberna do Canada. <br />
+
+<br />
+
+O homem escrevia recheado de indigna&ccedil;&atilde;o pela
+serie de illegalidades, escandalos, subornos e press&otilde;es de
+todo o genero, de que, dizia elle, f&ocirc;ra theatro aquella
+pacifica aldeia do Minho. <br />
+
+<br />
+
+Em <em>linguagem ch&atilde; e rude</em>
+ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de todos uma <em>pestifera
+chaga do organismo social</em>. <em>Sophism&aacute;ra-se
+a urna e
+calc&aacute;ra-se aos p&eacute;s a Carta</em>.
+As phrases em italico s&atilde;o d'elle. Depois de um exordio por
+esta
+afina&ccedil;&atilde;o, em que fazia a conveniente
+raz&atilde;o de ordem, entrava o homem na materia. Era um
+mod&ecirc;lo de impertinente bisbilhotice o escripto; desfiava-se
+alli a vida de todos os eleitores com uma minuciosidade esmagadora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho
+de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse
+que havia de fazer, e n&atilde;o fez; e como aquelle nem disse nem
+fez; e como aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos
+mais maltratados era o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes. Dizia o
+auctor da
+correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera
+press&atilde;o sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem
+de pessimos costumes e moral depravada; jogador, bulhento,
+beberr&atilde;o cheio de dividas, amigo de malfeitores, <em>et
+coetera</em>. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas. <br />
+
+<br />
+
+O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro n&atilde;o lhe perdo&aacute;ra a pressa com que
+este celebr&aacute;ra a victoria do conselheiro, &aacute;
+frente da philarmonica que regia. <br />
+
+<br />
+
+Por vingan&ccedil;a chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a
+raiva lhe suggeria, inclusiv&eacute; o de estafador de trompa, e
+fechava por estas memoraveis palavras: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Para levar &aacute; evidencia o caracter infame e
+intriguista d'este sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos
+dias antes, subtrahiu de uma pasta aquella celebre carta politica, que
+tanto deu que falar no paiz. E este homem exerce o cargo de
+administrador do correio. <em>Proh
+pudor!</em>&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu
+sensa&ccedil;&atilde;o no auditorio. <br />
+
+<br />
+
+Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as
+b&ocirc;cas uma exclama&ccedil;&atilde;o de
+surpresa ou de alegria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute;?... como &eacute;?...&#8213;perguntou o
+conselheiro.&#8213;Diz que...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o mysterio que se explica&#8213;respondeu Henrique.&#8213;A
+trai&ccedil;&atilde;o encarrega-se de a si propria se
+desmascarar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[263]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta
+de uma pasta! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era a de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como estava ella ahi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso sei eu como foi,&#8213;disse D. Victoria&#8213;fui eu que,
+por engano, lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma
+para a leitura dos pequenos. <br />
+
+<br />
+
+Christina celebrou a descoberta, beijando com effus&atilde;o a
+morgadinha, e dizia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venceste, Lena! agora est&aacute; bem provada a innocencia
+d'elle, at&eacute; para os que mais duvidavam! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem n&atilde;o duvidaria?&#8213;acudiu o conselheiro, como para se
+desculpar da desconfian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem o conhecesse bem, meu pae&#8213;respondeu Magdalena, a quem a
+commo&ccedil;&atilde;o recebida dava
+anima&ccedil;&atilde;o ao olhar e ao semblante.&#8213;Eu e Angelo,
+por exemplo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o eu?&#8213;accrescentou Christina.&#8213;Eu
+n&atilde;o entro na conta? <br />
+
+<br />
+
+Esta reclama&ccedil;&atilde;o valeu-lhe da parte da prima a
+paga do beijo que recebera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem o pobre rapaz!&#8213;dizia D. Victoria, sinceramente
+consternada.&#8213;E eu que o tratei t&atilde;o mal! Bem me
+dizia elle: &laquo;N&atilde;o tenha pressa de dizer
+nada a seus filhos, minha senhora, n&atilde;o lhes ensine a duvidar
+de um homem que elles se costumaram a amar e a respeitar.&raquo; E
+o caso &eacute; que eu, desde que lhe ouvi dizer aquillo, de um
+modo t&atilde;o s&eacute;rio e triste, fiquei resentida, e
+n&atilde;o disse
+nada &aacute;s crean&ccedil;as, que todos os dias me
+perguntavam ainda por elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a, deveras
+embara&ccedil;ada&#8213;eu n&atilde;o sei ainda bem do que se trata.
+Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o qu&ecirc;?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tia Doroth&eacute;a&#8213;atalhou &#8213;&Oacute; tia
+Doroth&eacute;a&#8213;atalhou Henrique&#8213;por quem
+&eacute;, n&atilde;o insista na pergunta. Depois que se sabe
+que uma suspeita &eacute; falsa, n&atilde;o ha nada que mais
+escalde
+<span class="pagenum">[264]</span>
+os labios do que
+obrigal-a de novo a passar por elles. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens raz&atilde;o, menino. E que precis&atilde;o tenho eu de
+saber uma coisa que n&atilde;o &eacute; verdadeira? Mas na
+verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique, est&aacute;-me a
+parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na consciencia. Ora
+anda l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tia. Ha muito que lhe fa&ccedil;o
+justi&ccedil;a. Ao principio n&atilde;o digo que
+n&atilde;o. Mas durou pouco tempo
+e j&aacute; estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira
+com que me falou, convenceu-me sem provas: e at&eacute; se, em
+expia&ccedil;&atilde;o, me
+n&atilde;o puz em campo a auxilial-o a justificar-se, &eacute;
+porque elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu
+desastre... quero dizer&#8213;emendou, olhando para Christina&#8213;a felicidade
+que me procurou sob a f&oacute;rma de doen&ccedil;a... <br />
+
+<br />
+
+Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, que fic&aacute;ra pensativo depois das primeiras
+reflex&otilde;es que lhe ouvimos fazer, disse, suspirando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei
+&aacute;quelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de
+fazer? As apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de
+politica, apprende-se tanto e t&atilde;o depressa a duvidar!
+&Eacute; sorte minha! Homens, a quem eu estimava
+dev&eacute;ras, f&ocirc;ram exactamente os que mais fiz
+padecer! Sen&atilde;o, vejam: o herbanario, meu companheiro de
+infancia, e que sempre me teve amizade, apesar das apparencias rudes de
+que a revestia, dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em
+que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte... E
+elle, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais
+me sair&aacute; da ideia aquella scena da igreja. Augusto, um rapaz
+que conheci pequeno, e j&aacute; ent&atilde;o de viva
+intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou para o
+perder, e n&atilde;o s&oacute; o privei do
+<span class="pagenum">[265]</span>
+modesto logar que elle exercia, mas
+at&eacute; levantei contra elle uma accusa&ccedil;&atilde;o
+infamante, e quasi o
+expulsei de minha casa... &Eacute; triste que a vida politica me
+tenha obrigado a estas crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte
+o mal que fiz. De que maneira lhes parece melhor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu se f&ocirc;sse&#8213;disse D. Doroth&eacute;a&#8213;fazia como a
+morgada, e o rapaz, em vez de vir a ser s&oacute; padre havia de se
+formar em Coimbra, como o reitor de Friande... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso era se elle quizesse ser padre;&#8213;acudiu D. Victoria&#8213;mas
+parece-me que n&atilde;o quer. Nada, nada, eu o que fazia era
+demittir aquelle velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre
+de latim, e arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda,
+j&aacute; que o outro foi tratante!... <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e n&atilde;o
+p&ocirc;de deixar de dizer: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso deixava s&oacute; ao Pertunhas a regencia da
+philarmonica? E tu, Lena, qual &eacute; a tua
+opini&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu sem vacillar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha opini&atilde;o &eacute; que o pae deve ir a casa de
+Augusto, pedir-lhe humildemente perd&atilde;o pela offensa que lhe
+fez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas involuntaria&#8213;ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que
+n&atilde;o p&ocirc;de bem
+disfar&ccedil;ar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas offensa&#8213;repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse
+totalmente a f&ocirc;r&ccedil;a da
+express&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um pouco dura de cumprir a senten&ccedil;a,
+sobretudo esse adverbio humildemente... N&atilde;o lhe
+parece?&#8213;perguntou o conselheiro, voltando-se para Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tinha vontade de dizer tambem a minha
+opini&atilde;o&#8213;respondeu Henrique;&#8213;mas receio certos melindres...
+Comtudo, parece-me que encontraria uma recompensa, que poderia fazer
+esquecer a Augusto a offensa e dores muito mais pungentes do
+<span class="pagenum">[266]</span>
+que as que soffreu em virtude d'esta
+desagradavel occorrencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?&#8213;perguntou o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique olhou para Magdalena, respondendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repito que tenho escrupulos em diz&ecirc;l-o, porque talvez
+n&atilde;o seja eu o mais competente para o fazer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, primo&#8213;disse Magdalena.&#8213;Elle proprio o
+dir&aacute;. &Eacute; mais natural. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas s&aacute;bel-o tambem tu, Lena? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir
+desejos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena hesitou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, Henrique&#8213;disse Cristina, sorrindo&#8213;n&atilde;o esteja com
+tantos escrupulos. Diga o que pensa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quer? mas se sua prima me n&atilde;o perd&ocirc;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu o protegerei. Fale. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, Christe?&#8213;tornou Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fale, fale&#8213;disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D.
+Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falarei. A recompensa a que Augusto aspira &eacute; a de fazer
+parte da familia de... da nossa
+familia&#8213;respondeu Henrique, olhando para Magdalena, que j&aacute;
+n&atilde;o tentava ret&ecirc;l-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De fazer parte da nossa familia?&#8213;repetiu o conselheiro.&#8213;Mas como? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como ha de ser? visto eu n&atilde;o estar resolvido a
+prescindir de Christina, e Marianna ser ainda crean&ccedil;a, facil
+&eacute; de conjecturar o unico meio que ainda resta de realisar
+aquella pretens&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir,
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabe&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que &eacute; a final? eu n&atilde;o entendo&#8213;dizia,
+embara&ccedil;ada, D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[267]</span>
+&#8213;&Eacute; uma coisa muito simples&#8213;respondeu Henrique.&#8213;Augusto
+sentiu o effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a
+ponto de ligar a elles a sua felicidade, e de cair em
+adora&ccedil;&atilde;o para com a magnetisadora. <br />
+
+<br />
+
+Esta explica&ccedil;&atilde;o foi recebida com espanto por D.
+Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! est&aacute; a brincar, primo Henrique? N&atilde;o ouve
+aquillo, prima Doroth&eacute;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que &eacute;, que &eacute;?&#8213;perguntou esta. <br />
+
+<br />
+
+-Diz que o Augusto aspirava... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, eu disse que o Augusto adorava e n&atilde;o
+aspirava. Quem pode tomar contas a um cora&ccedil;&atilde;o do
+culto que elle guarda religiosamente em si? A prima Lena &eacute;
+adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, por&eacute;m... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; possivel!&#8213;exclamou tambem D. Doroth&eacute;a,
+espantada.&#8213;Por essa n&atilde;o esperava eu. Olhem para o que lhe
+havia de dar! Pobre Augusto! <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro ria ainda da noticia que recebera. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena c&oacute;rou ao ouvir todas aquellas
+exclama&ccedil;&otilde;es de estranheza. Cedendo ao impulso
+energico do seu caracter impetuoso e apaixonado, disse com vivacidade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei que haja no que diz o primo Henrique nada que
+mere&ccedil;a esses espantos. Pois quem sou eu a final? Que
+distancia me separa da humanidade, para que se tenha por um desacato
+uma affei&ccedil;&atilde;o que inspire? &Eacute; verdade.
+Julgo que n&atilde;o se enganou o primo Henrique. Tambem
+eu descobri esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no
+cora&ccedil;&atilde;o e
+n&atilde;o na cabe&ccedil;a, meu pae. Ha muito que o sei, e
+nunca a descoberta me causou o espanto que vejo nos outros. Digo mais,
+causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque &eacute; natural sentil-o
+por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter generoso
+que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais nobre e
+mais puro do que d'antes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[268]</span>
+O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom
+profundamente irritado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. V&ecirc;
+l&aacute; se me queres fazer acreditar que a vida da aldeia te
+estragou o natural bom senso, at&eacute; o ponto de tomares a
+s&eacute;rio phantasias e
+creancices. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; phantasia nem creancice, &eacute; uma
+resolu&ccedil;&atilde;o de mulher&#8213;respondeu Magdalena, com
+firmeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma resolu&ccedil;&atilde;o de crean&ccedil;a, que
+est&aacute; na minha m&atilde;o remediar&#8213;tornou o conselheiro,
+como quem desejava cortar o incidente. <br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m para o g&eacute;nio de Magdalena j&aacute;
+n&atilde;o era possivel recuar nem parar; replicou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez n&atilde;o. E deixe-me ent&atilde;o dizer-lhe tudo,
+meu pae. Augusto nunca me revelou esse segredo do seu
+cora&ccedil;&atilde;o. Adivinhei-lh'o eu. Longe de
+procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem
+estava resolvido a deixar a aldeia para sempre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ficou&#8213;notou o conselheiro com ironia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficou&#8213;respondeu tranquillamente Magdalena&#8213;porque eu lhe pedi que
+ficasse. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a
+filha com olhar severo e interrogador. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um
+esf&ocirc;r&ccedil;o interior: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava
+a affei&ccedil;&atilde;o desinteressada e pura que elle
+guardava no cora&ccedil;&atilde;o; ficou, porque eu, que
+s&oacute; tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e que o
+sabia t&atilde;o leal como pobre, t&atilde;o innocente como
+perseguido pelo infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa,
+sob o p&ecirc;so de uma accusa&ccedil;&atilde;o em cuja
+verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir eu propria
+procural-o para lhe estender a m&atilde;o e dizer-lhe:
+&laquo;fique,
+<span class="pagenum">[269]</span>
+e
+prometto-lhe que todos lhe far&atilde;o justi&ccedil;a em
+breve.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e
+exalta&ccedil;&atilde;o crescentes, ninguem ousou falar na
+sala; e os olhos de todos dirigiram-se quasi instinctivamente para o
+conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo
+sentiram-se profundamente inquietos. <br />
+
+<br />
+
+Todos viram passar por differentes c&ocirc;res as faces do
+conselheiro, os labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz
+evidentemente alterada pela c&oacute;lera, disse para a filha,
+passados alguns instantes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga
+estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem
+naturalissimos &aacute; sua raz&atilde;o estragada pelos
+romances. Eu ainda n&atilde;o prescindi da minha auctoridade
+paterna, e ella me servir&aacute; para corrigir essas levezas, de
+que deveria envergonhar-se. <br />
+
+<br />
+
+Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da
+posi&ccedil;&atilde;o de todos os que estavam
+presentes. Ninguem ousava intervir, ou, desejando-o, ninguem sabia a
+maneira de o fazer. <br />
+
+<br />
+
+Entre as falsas situa&ccedil;&otilde;es, em que nos achamos
+&aacute;s vezes n'esta vida, poucas se podem comparar no
+inc&oacute;mmodo que produzem, &aacute; de assistir a uma
+quest&atilde;o domestica, por qualquer motivo que seja originada. <br />
+
+<br />
+
+Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que
+prendeu Lena nos bra&ccedil;os, n&atilde;o
+sei se para instinctivamente a defender, se para reprimir-lhe o impeto
+de reac&ccedil;&atilde;o que receiava n'ella. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu
+ao pae: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes aos caracteres levianos est&atilde;o
+confiadas tarefas generosas. Cabe-lhes sanar muitas
+injusti&ccedil;as que por c&aacute;lculo os mais reflectidos, e
+por
+<span class="pagenum">[270]</span>
+isso mais desconfiados,
+praticam sem piedade. N&atilde;o me envergonho nem arrependo do
+passo que dei. N&atilde;o fiz mais do que salvar do
+desesp&ecirc;ro uma alma nobre e magnanima, que, se se perdesse,
+talvez um dia a sua consciencia, senhor, o accusasse de n&atilde;o
+ser innocente n'essa perda. Quiz evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto
+foi leviandade, que os annos m'a n&atilde;o dissipem, como dizem
+que costumam fazer, porque prefiro ser leviana assim, a ser cruel
+como... <br />
+
+<br />
+
+O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas ter&aacute;
+de escolher entre os seus caprichos e a minha
+approva&ccedil;&atilde;o. Fique certa que, com o
+consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem
+posi&ccedil;&atilde;o, especular&aacute; com o
+estouvamento de uma herdeira rica, que, t&atilde;o esquecida do que
+deve a si e aos seus, n&atilde;o hesitou em o procurar na propria
+casa, sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada
+&aacute; sua credula sensibilidade. <br />
+
+<br />
+
+Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na
+sala. <br />
+
+<br />
+
+Era Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Da sala proxima, onde cheg&aacute;ra muito antes, ouvira elle o que
+o conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu
+venceu-lhe toda a hesita&ccedil;&atilde;o e obrigou-o a entrar.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou. <br />
+
+<br />
+
+Augusto, respondeu-lhe ent&atilde;o com dignidade e tristeza: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse rapaz pobre, sem posi&ccedil;&atilde;o e sem familia,
+tem n'esse triplice infortunio outros tantos titulos para ser
+respeitado dos felizes, como v. ex.<sup>a</sup>, e eu
+n&atilde;o prescindo
+d'esses direitos. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse
+responder a Augusto. A irrita&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[271]</span>
+dictava-lhe uma violenta resposta, mas
+j&aacute; lh'o n&atilde;o permittia a consciencia. <br />
+
+<br />
+
+Augusto continuou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei que v. ex.<sup>a</sup> est&aacute; j&aacute;
+convencido de que as
+suspeitas, que pesavam sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que
+ainda tem na m&atilde;o, veem as provas da minha innocencia. Vi-o
+em casa do Seabra, d'onde venho agora. Procurei-o, decidido a saber
+toda a verdade por qualquer pre&ccedil;o que f&ocirc;sse; elle
+n&atilde;o m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, sr.
+conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo, antes
+que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a receber-me
+a justi&ccedil;a e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o
+insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu
+encontrei! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos justificado?&#8213;repetiu o conselheiro, azedadamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.<sup>a</sup>
+podia julgar-me
+criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas
+n&atilde;o tem o de duvidar de sua filha; porque a sr.<sup>a</sup>
+D.
+Magdalena pedindo a seu irm&atilde;o que a acompanhasse a casa de
+um pobre, que ella sabia ser victima de uma immerecida
+accusa&ccedil;&atilde;o, e a quem o desalento e o
+desesp&ecirc;ro faziam succumbir, n&atilde;o se esqueceu do que
+devia a si e aos seus; pelo contrario, aos seus devia aquelle acto de
+sublime generosidade, porque das m&atilde;os dos seus viera o golpe
+que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr. conselheiro, como
+um miseravel e infame; os filhos de v. ex.<sup>a</sup>, que
+sempre
+f&ocirc;ram meus amigos, a quem v. ex.<sup>a</sup>
+ensin&aacute;ra
+a sel-o, vieram &aacute; minha dizer-me: &laquo;N&atilde;o
+parta, deve &aacute; nossa confian&ccedil;a a
+justi&ccedil;a de ficar&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse Angelo&#8213;eu acompanhei Magdalena. O pae
+diz-me muitas vezes que n&atilde;o tenha pressa de principiar a
+duvidar; eu n&atilde;o podia principiar por Augusto. N&atilde;o
+duvidei. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro respondeu a Augusto com reserva
+<span class="pagenum">[272]</span>
+e mal disfar&ccedil;ado despeito,
+ainda que em tom moderado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do
+cora&ccedil;&atilde;o, creia. Ainda que as apparencias o
+culpassem, arrependo-me de n&atilde;o ter tido mais
+f&ocirc;r&ccedil;a
+a minha confian&ccedil;a para n&atilde;o ceder.
+Pe&ccedil;o-lhe por isso... humildemente... perd&atilde;o. Iria
+a sua casa pedir-lh'o se n&atilde;o viesse aqui. Que mais quer?
+Acha-se com direitos a exigir mais? Ser&aacute; isso motivo para
+antev&ecirc;r realisadas loucuras de rapaz?... <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o o deixou continuar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;a-me, sr. conselheiro&#8213;disse elle placidamente&#8213;deante
+de todas as pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar,
+patentearei o meu cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade
+que essas loucuras
+se apoderaram de mim, que desde crean&ccedil;a at&eacute; hoje,
+tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros, se eu commigo as
+guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha vida?
+Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz sempre
+por suffocar. Nem ambi&ccedil;&otilde;es me despertou, como
+meio de realisal-o, porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a
+morrer com elle, sem o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o
+fizera nascer, e, deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e
+correspondido, que muito era que me tomasse a vertigem, e que eu por
+momentos me deixasse cegar pelo fulgor de imprevistas
+esperan&ccedil;as?
+Perd&ocirc;e-se-me a fraqueza. As illus&otilde;es duraram
+pouco; as palavras de v. ex.<sup>a</sup> dissiparam-n'as...
+um tanto cruelmente,
+mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, que o ser pobre,
+sem familia e sem nome, imp&otilde;e tambem uma certa ordem de
+deveres, a que eu serei fiel. N&atilde;o &eacute; o de
+humilhar-me,
+&eacute; o de manter a unica dignidade que me resta, a dignidade
+moral. J&aacute; v&ecirc; v. ex.<sup>a</sup> que se
+enganou de duas
+maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve
+especula&ccedil;&atilde;o, nem da parte da herdeira rica
+estouvamento. <br />
+
+<br />
+
+E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se
+<span class="pagenum">[273]</span>
+respeitosamente deante do
+conselheiro, e ia a sair, depois de lan&ccedil;ar a Magdalena um
+extremo olhar de despedida. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, por&eacute;m, ergueu-se, e, apesar dos
+esfor&ccedil;os de Christina para a reter, veio collocar-se no
+caminho de Augusto, e estendendo-lhe a m&atilde;o disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe pe&ccedil;o
+que n&atilde;o saia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magdalena!&#8213;disse o conselheiro com severidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de
+remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do
+cora&ccedil;&atilde;o,
+que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente depois. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magdalena!&#8213;repetiu o conselheiro com mais
+f&ocirc;r&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora! disse Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m a morgadinha obedecia agora inteiramente &aacute;
+vehemencia do caracter apaixonado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu
+cora&ccedil;&atilde;o; todos me ouviram; todos ouviram agora
+Augusto. Fale, senhor, com a mesma franqueza e lealdade, com que
+n&oacute;s o fazemos; poder&aacute; confessar a natureza dos
+escrupulos que o obrigam a essa resistencia? N&atilde;o se
+envergonharia d'elles? E quer que lhe obede&ccedil;a! mas
+obedecer-lhe seria offendel-o, porque seria acreditar na constancia
+d'essa m&aacute; paix&atilde;o que o domina, e no seu bom
+cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ella durar muito
+tempo. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, no auge da irrita&ccedil;&atilde;o, ia talvez a
+responder violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de
+Magdalena; as outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as
+primeiras tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de
+interven&ccedil;&atilde;o, que elle suppunha
+j&aacute; indispensavel, quando um incidente veio interromper esta
+scena e modificar a fei&ccedil;&atilde;o critica do caso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[274]</span>
+O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao
+servi&ccedil;o de um proprietario da villa proxima. Este criado era
+portador de uma mensagem para o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio
+dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar
+&aacute;
+presen&ccedil;a do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a
+carregar-se. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.
+<br />
+
+<br />
+
+O criado respondeu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho para entregar a v. ex.<sup>a</sup> esta parte
+telegraphica, que chegou a
+meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira
+que n&atilde;o p&ocirc;de mandal-a com ellas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu,
+e correu-o com a vista. <br />
+
+<br />
+
+Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos. <br />
+
+<br />
+
+Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim. <br />
+
+<br />
+
+O criado saiu. <br />
+
+<br />
+
+N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e
+combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique
+desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que
+uma visivel satisfa&ccedil;&atilde;o se lhe
+desenh&aacute;ra no semblante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leia e admire&#8213;disse elle. <br />
+
+<br />
+
+Henrique leu, e n&atilde;o reteve uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de surpresa. <br />
+
+<br />
+
+A parte dizia: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Avise o conselheiro Manuel Bernardo para
+<span class="pagenum">[275]</span>
+quanto antes se apresentar em Lisboa.
+Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle acceite uma
+das pastas.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a
+surpresa da noticia n&atilde;o fez esquecer a crise domestica a que
+assistira, disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os
+emboras pela sua
+nomea&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A palavra &laquo;ministro&raquo; produziu
+sensa&ccedil;&atilde;o na sala. D. Victoria exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ministro! Pois quem &eacute; que est&aacute; ministro? O
+mano?... Ora, sim senhor! acertou sua magestade!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... valha-nos Deus! O ponto est&aacute; que n&atilde;o
+fa&ccedil;am por ahi alguma revolu&ccedil;&atilde;o para o
+deitar abaixo&#8213;acudiu D. Doroth&eacute;a, em cujo animo os factos
+das nossas dissen&ccedil;&otilde;es civis tinham deixado
+sinistras ideias ligadas &aacute; palavra ministro. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, Angelo e Christina correram a abra&ccedil;ar o
+conselheiro; Henrique reteve, por&eacute;m, os dois ultimos
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma merc&ecirc; a s.
+ex.<sup>a</sup>, e &aacute; primeira n&atilde;o ha
+caracter de ministro que n&atilde;o ceda. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sorriu j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena beijou-lhe a m&atilde;o, e o pranto, provocado pela
+violencia das scenas anteriores, e at&eacute; alli a custo
+reprimido, rebentou agora abundante, banhando as m&atilde;os do
+pae. <br />
+
+<br />
+
+Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o n&atilde;o
+deixar sair da sala. <br />
+
+<br />
+
+O cora&ccedil;&atilde;o do conselheiro n&atilde;o era de
+pedra. Duas causas poderosissimas conspiravam-se para abrandal-o. Como
+homem politico, havia a satisfa&ccedil;&atilde;o da maxima
+ambi&ccedil;&atilde;o de todos, a noticia de ser chamado
+<span class="pagenum">[276]</span>
+ao ministerio. Nos
+momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso
+cora&ccedil;&atilde;o, abrimo-nos &aacute;s sympathias para
+com os desejos dos outros; se de n&oacute;s depende realisal-os,
+cedemos de boa vontade. Como pae, havia as lagrimas da filha a
+convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das lagrimas em olhos de
+mulher, &eacute; geralmente sabida: quanto mais se a mulher
+&eacute; joven e bella! quanto mais se a mulher &eacute; filha!
+<br />
+
+<br />
+
+Sem o menor vestigio da irrita&ccedil;&atilde;o anterior, o
+conselheiro ergueu Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que choras tu, Lena? Crean&ccedil;a! Ent&atilde;o
+promettes-me ser muito feliz, se eu te deixar fazer as tuas loucuras? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu-lhe, abra&ccedil;ando-o affectuosamente, e
+beijando-o. <br />
+
+<br />
+
+Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa
+contra as severidades de um pae? <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e
+voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi
+affectuoso: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a
+felicidade da minha Lena. Vingue-se da injusti&ccedil;a e do mal
+que lhe fiz, tornando-m'a venturosa. &Eacute; a unica
+vingan&ccedil;a &aacute; altura
+da sua alma. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o teve tempo para responder. Se uns restos de
+orgulho tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os
+esfor&ccedil;os combinados de Christina, de D. Victoria e de D.
+Doroth&eacute;a, que o arrastaram quasi para junto do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+E toda aquella familia, em que n&atilde;o havia n'aquelle momento
+um s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o triste,
+confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e pathetico
+grupo, que pode desenhar um artista. <br />
+
+<br />
+
+Para mais tocante confus&atilde;o ainda, as crean&ccedil;as,
+que voltavam dos seus brinquedos na quinta, entraram
+<span class="pagenum">[277]</span>
+ent&atilde;o na sala, e de boa
+vontade se associaram &aacute;quella
+manifesta&ccedil;&atilde;o de alegria, sem
+querer saber o que a motiv&aacute;ra, <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o assim as crean&ccedil;as. Alegres por instincto,
+saudam as scenas alegres sempre que as v&ecirc;em, sentem-as antes
+de as explicarem. <br />
+
+<br />
+
+F&ocirc;ram innumeraveis os beijos, os abra&ccedil;os, as
+palavras de affecto, os sorrisos, as lagrimas, as
+exclama&ccedil;&otilde;es pueris que se trocaram entre os
+diversos actores d'esta scena de familia. <br />
+
+<br />
+
+Chegado a este ponto da minha narra&ccedil;&atilde;o, nada
+melhor posso fazer do que deixar &aacute;
+imagina&ccedil;&atilde;o dos leitores concluil-a. <br />
+
+<br />
+
+Haver&aacute; algum t&atilde;o malfadado, que na sua vida
+n&atilde;o tenha visto representada uma scena assim? <br />
+
+<br />
+
+Esse mesmo, se existe, obriga-me a n&atilde;o proseguir. <br />
+
+<br />
+
+O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de
+que por certo &eacute; victima. <br />
+
+<br />
+
+Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de
+beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a
+narra&ccedil;&atilde;o, v&ecirc;l-o-hiamos abafado pelos
+sons revolucionados e anarchicos da philarmonica da terra, que
+n&atilde;o
+tardar&aacute; a festejar a nomea&ccedil;&atilde;o do
+conselheiro, e sobretudo
+pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba verdadeiramente
+&eacute;pica, e capaz de mudar a c&ocirc;r ao gesto, como a de
+que fala o poeta. <br />
+
+<br />
+
+Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos
+acontecimentos ulteriores. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>CONCLUS&Atilde;O </h4>
+
+<br />
+
+O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na
+pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para
+satisfa&ccedil;&atilde;o de animo dos
+<span class="pagenum">[278]</span>
+meus leitores, que, sob a
+direc&ccedil;&atilde;o dos talentos e
+aptid&otilde;es do novo estadista, se locupletou a fazenda publica,
+prosperou a agricultura e a industria, refulgiram as artes e as
+lettras; e que Portugal, como a Grecia, sob Pericles, causou o assombro
+das
+na&ccedil;&otilde;es do mundo. <br />
+
+<br />
+
+Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e
+prospero, a inverosimilhan&ccedil;a do facto prejudicasse no
+espirito dos leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse
+com isto a desconfian&ccedil;a no chronista. Resolvi pois ser
+franco, declarando que sob a direc&ccedil;&atilde;o do
+conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se tem regido
+sob as duzias de ministerios, que n&oacute;s todos havemos
+j&aacute; conhecido. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, j&aacute; ministro, voltou tempos depois
+&aacute; aldeia, para assistir aos casamentos de Magdalena e de
+Christina, que se verificaram no mesmo dia. <br />
+
+<br />
+
+Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com
+D. Doroth&eacute;a, que n&atilde;o podia resignar-se a viver
+s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se
+completamente a quinta, e &eacute; hoje uma das mais rendosas e bem
+geridas propriedades d'aquelles sitios. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S.
+Carlos, est&aacute; um rico e laborioso proprietario rural.
+Apaixonou-se pela agricultura, e promette realisar o typo do antigo
+patriarcha. <br />
+
+<br />
+
+Cumpriu-se a sua vis&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, j&aacute; nem
+memoria lhe resta. <br />
+
+<br />
+
+Christina, al&eacute;m de ser adorada pelo marido, v&ecirc;-se
+rodeada pelo amor e carinhos de D. Doroth&eacute;a e de Maria de
+Jesus, as quaes, sem o menor despeito, a viram tomar o sceptro da
+realeza domestica, que usa com adoravel brandura, desenvolvendo de dia
+para dia os seus talentos de mulher. <br />
+
+<br />
+
+No Mosteiro n&atilde;o correm peor as coisas, sob os
+<span class="pagenum">[279]</span>
+cuidados de Augusto e de Magdalena, que
+ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, al&eacute;m de
+se occupar de agricultura, alimenta a
+imagina&ccedil;&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o a fazer
+versos, mas em outra
+f&oacute;rma de poesia: a organisar a escola sob bases mais
+racionaes, e dota&ccedil;&atilde;o mais fecunda; a generalisar
+e educar os processos agricolas; a implantar industrias novas. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim que a sericultura, gra&ccedil;as aos seus
+cuidados, &eacute; hoje alli cultivada com bons resultados, e
+outras j&aacute; principiam a ensaiar-se. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena &eacute; sempre a mulher que foi; se &eacute; que as
+nobres qualidades j&aacute; reveladas nos seus actos de juventude,
+n&atilde;o se v&atilde;o caracterisando inda
+melhor, &aacute; medida que de mais graves deveres se incumbe a sua
+miss&atilde;o de mulher. Intelligencia temperada por um bom senso
+natural, que a educa&ccedil;&atilde;o esmerada
+n&atilde;o estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado,
+mas de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem
+severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que
+n&atilde;o faz sentir a ninguem o peso da obediencia. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos,
+querida por D. Victoria, adorada pelo marido e aben&ccedil;oada
+pelo povo, que soccorre com esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que
+reina n'aquelles sitios. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o
+direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do
+mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando
+despedidos. <br />
+
+<br />
+
+Em rela&ccedil;&atilde;o &aacute;s personagens secundarias
+d'esta historia pouco teremos a dizer. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que
+entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava
+visconde de n&atilde;o sei qu&ecirc; o seu antigo inimigo. Foi
+este o
+primeiro acto politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a
+sem-raz&atilde;o de n&atilde;o applaudir.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[280]</span>
+O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de
+melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho, em vista d'esta fus&atilde;o de
+partidos, achou-se encorporado na liga, e em pouco tempo teve
+occasi&atilde;o de demonstrar de novo a sua influencia eleitoral,
+trazendo compacta &aacute; urna a freguezia de Pinch&otilde;es,
+para reeleger o conselheiro que, pela sua
+nomea&ccedil;&atilde;o, perdera o logar de deputado. D'esta
+vez ninguem lh'o disputou, e era edificante v&ecirc;r o brazileiro
+ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de commum accordo
+e de boa harmonia. <br />
+
+<br />
+
+A reconcilia&ccedil;&atilde;o entre dois adversarios commove
+sempre a alma. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o mudou de habitos, e cada vez
+tem mais dividas, mais c&atilde;es e mais bebedeiras. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas
+func&ccedil;&otilde;es de ensino e na
+commiss&atilde;o do correio, odiando os irm&atilde;os Virgilios
+e desafogando as suas m&aacute;goas na embocadura da trompa. <br />
+
+<br />
+
+O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingan&ccedil;a.
+Confessa que por brincadeira tir&aacute;ra uma
+carta da pasta de Augusto, mas que a torn&aacute;ra a collocar no
+seu logar e por isso... <br />
+
+<br />
+
+A familia Z&eacute; P'reira vae em rapida decadencia; o homem
+j&aacute; nem tem f&ocirc;r&ccedil;a para fazer
+resoar o zabumba. &Eacute; esta uma das que mais deve &aacute;
+caridade de Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, ainda hoje no g&ocirc;so imperturbado dos votos
+unanimes d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando
+retemperar o animo exhausto nas fadigas parlamentares e nas
+divers&otilde;es da capital, no seio da sua feliz familia, e volta
+melhor. <br />
+
+<br />
+
+Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores,
+corre com alvoro&ccedil;o de crean&ccedil;a
+a gosar na aldeia os dias que elle j&aacute; presente terem de ser
+os mais felizes de toda a sua vida. <br />
+
+<br />
+
+A quinta dos Cannaviaes, &aacute; qual andam ligadas
+<span class="pagenum">[281]</span>
+suaves recorda&ccedil;&otilde;es
+dos dois venturosos pares, que
+os incidentes d'esta historia reuniram, foi transformada por Magdalena
+n'uma habita&ccedil;&atilde;o de recreio, onde as duas familias
+celebram, durante o anno, algumas festas em commum. <br />
+
+<br />
+
+Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia
+muito estava de posse. <br />
+
+<br />
+
+E hoje &eacute; ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo
+nome de &laquo;Morgadinha dos Cannaviaes&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM DO SEGUNDO E
+ULTIMO VOLUME
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Volume I</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#p144">#p&aacute;g.
+144</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">precipios</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">precipicios</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p162">#p&aacute;g.
+162</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">se se
+sentem</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">se
+sentem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p169">#p&aacute;g. 169</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a seu seu
+v&ecirc;r</td>
+
+ <td>...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a seu
+v&ecirc;r</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p264">#p&aacute;g.
+264</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma
+uma explica&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma
+explica&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Volume II</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p27">#p&aacute;g. 27</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">glo&#341;ia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">gloria</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p68">#p&aacute;g. 68</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">examimal-a</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">examinal-a</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p95">#p&aacute;g. 95</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">encontrassse</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">encontrasse</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p148">#p&aacute;g. 148</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">coisapor</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">coisa por</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p200">#p&aacute;g. 200</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ovialmente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">jovialmente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p215">#p&aacute;g. 215</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fregrezia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">freguezia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p218">#p&aacute;g. 218</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">principalte</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">principalmente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p248">#p&aacute;g. 248</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">sapar&aacute;mo-nos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">separ&aacute;mo-nos</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
+
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+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+
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+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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