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diff --git a/29120-h/29120-h.htm b/29120-h/29120-h.htm new file mode 100644 index 0000000..4a8496c --- /dev/null +++ b/29120-h/29120-h.htm @@ -0,0 +1,42445 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>A Morgadinha dos Cannaviaes</title> + + + <meta content="Júlio Dinis" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%;} +.tinys {font-size: 90%;} +.tinyl {font-size: 95%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic; margin-left:7%;} +.intro1 {margin-left:20%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.quote1 {margin-left:35%;} +.quote2 {margin-left:50%;} +.quote3 {margin-left:10%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.note {font-size: 75%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:25%;} +.poetry1 {margin-left:20%;} +.poetry2 {margin-left:50%;} +.poetry3 {margin-left:30%;} +.poetry4 {margin-left:40%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Morgadinha dos Cannaviaes + +Author: Júlio Dinis + +Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Jun. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>A Morgadinha dos Cannaviaes<br /> + +<br /> + +<a href="#Vol.I">Volume I</a><br /> + +<a href="#Vol.II">Volume II</a></h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4><a name="Vol.I"></a>BIBLIOTHECA ESCOLHIDA<br /> + +<br /> + +XXIII +</h4> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4> +ROMANCE<br /> + +<br /> + +III<br /> + +<br /> + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vol. I</span></h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h5> +CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL<br /> + +LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28<br /> + +TELEPHONE 2337</h5> + +<h5><br /> + +</h5> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<span style="font-weight: bold;" class="quote">JULIO +DINIZ</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A MORGADINHA<br /> + +DOS<br /> + +CANNAVIAES +</h2> + +<br /> + +<h4>(CHRONICA DA ALDEIA) +</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>DECIMA-SETIMA EDIÇÃO +</h3> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<img style="width: 150px; height: 146px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4>LISBOA<br /> + +J. RODRIGUES & C.<sup>a</sup>, EDITORES<br /> + +186―Rua Aurea―188<br /> + +<em>1920</em> +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>OBRAS DE JULIO DINIZ +</h3> + +<br /> + +<div class="quote">A Morgadinha dos Cannaviaes<br /> + +Os Fidalgos da Casa Mourisca<br /> + +As Pupillas do Senhor Reitor<br /> + +Uma Familia Ingleza<br /> + +Ineditos e Esparsos<br /> + +Poesias<br /> + +Serões da Provincia<br /> + +Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças) +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Todos os +direitos d'esta +publicação<br /> + +estão reservados em conformidade com a lei<br /> + +em Portugal e Brasil</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">J. +Rodrigues & +C.</span><sup>a</sup></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A MORGADINHA DOS CANNAVIAES +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4>I +</h4> + +<br /> + +Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e +genuino dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e +sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam +dois viandantes a encosta de um monte por a estreita +e sinuosa vereda, que pretenciosamente gosava +das honras de estrada, á falta de competidora, +em que melhor coubessem. +<br /> + +<br /> + +Era nos extremos do Minho e onde esta risonha +e feracissima provincia começa já a resentir-se, +senão ainda nos valles e planuras, nos visos dos +outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a +alpestre e severa Traz-os-Montes. +<br /> + +<br /> + +O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, +melancolico, e, n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a +qualquer povoação importante, e com nome em +carta corographica, estendiam-se milhas de pouco +transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana +raro se encontravam. Só de longe em longe, +a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, +mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam +do que a absoluta solidão. +<br /> + +<br /> + +Não se moviam em perfeita igualdade de +condições +os dois viandantes, que dissemos. +<br /> + +<br /> + +Um, o mais moço e pela apparencia o de mais +grada posição social, era transportado n'um pouco +<span class="pagenum">[6]</span> +esculptural, mas possante muar, de inquietas orelhas, +musculos de marmore e articulações fieis; o +outro seguia a pé, ao lado d'elle, competindo, nas +grandes passadas que devoravam o caminho, com +a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso, +excitava por estimulos menos brandos do que os +da simples e nobre emulação. +<br /> + +<br /> + +Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual +processo de transporte, dos dois o menos extenuado +e impaciente com as longuras e fadigas da +jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro. +<br /> + +<br /> + +A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, +o olhar melancolico, fito nas orelhas do macho, a +indifferença, a taciturnidade ou o manifesto mau +humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem +natural conseguiam já desvanecer, o obstinado +silencio que apenas de quando em quando interrompia +com uma phrase curta mas energica, com +uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, +contrastavam com a viveza de gestos e desempenado +jôgo de membros do pedestre, com a +sua torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, +e com as joviaes cantigas e minuciosas +informações +a respeito de tudo, por meio das quaes se +encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir +o seu sorumbatico companheiro. +<br /> + +<br /> + +Explica-se bem esta differença, dizendo que o +cavalleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que +fazia então a sua primeira jornada, e o outro um +almocreve de profissão. +<br /> + +<br /> + +O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma +vez; sabe portanto que o grato e quasi voluptuoso +alvoroço, com que se concebe e planisa +qualquer projecto de viagem, assim como a suave +recordação que d'ella guardamos depois, +são coisas +de incomparavelmente muito maiores delicias, do +que as impressões experimentadas no proprio momento +de nos vermos errantes em plena estrada +ou pernoitando nas estalagens, e mórmente nas +<span class="pagenum">[7]</span> +classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas +impertinencias, em que se não pensa antes, +que se esquecem depois, ou que a saudade consegue +até dourar e poetisar a seu modo; esses microscopicos +martyrios, que de longe não avultam, +actuam-nos, na occasião, a ponto de nos inhabilitar +para o gôso do que é realmente bello. A dureza do +colchão, em que se dorme, do albardão ou selim +sobre que se monta, o tempêro ou destempêro do +heteróclito cozinhado com que se enche o estomago, +a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó +que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos +inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o +cerebro, tudo então nos desafina o espirito, que +traziamos na tensão necessaria para vibrar perante +as maravilhas da natureza ou da arte. +<br /> + +<br /> + +Só pelo preço de muitas jornadas se compra o +habito de ficar impassivel no meio dos episodios +d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e exhaurem +o animo dos Ulysses novatos; mas ai, +quando se adquire esse habito, tambem nos achamos +já com a sensibilidade mais embotada para as +commoções do bello. +<br /> + +<br /> + +Examina-se com mais minuciosidade, mas com +menos enthusiasmo; analysa-se mais e melhor; porém +a propria analyse é a prova de que se sente +menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, +mal teem cabida a paciencia e phleúgma, necessarias +aos processos analyticos. O homem positivo e +frio recolhe de qualquer excursão á patria com a +carteira cheia de apontamentos; o enthusiasta e +poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu +mais. +<br /> + +<br /> + +Mas Henrique de Souzellas―que era este o +nome do cavalleiro―fôra educado e passado da +infancia á plena juventude, em Lisboa, levantando-se +por avançada manhã, frequentando o theatro, o +Gremio, +as camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, +e indo alguns dias no anno a Cintra, ou qualquer +<span class="pagenum">[8]</span> +praia de banhos, desenfadar-se da monotonia +da capital. +<br /> + +<br /> + +Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, +fôra esta jornada, em que o encontramos, a +primeira levada a effeito, e logo sob tão maus auspicios, +que era para suffocar-lhe á nascença os +instinctos +de <em>touriste</em>, se porventura quizessem +despertar +n'elle. +<br /> + +<br /> + +Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, +unico vehiculo accommodado aos caminhos por +que passára. E então que dois dias! D'aquelles, +durante +os quaes o céo, uniformemente pardo, parece +desfazer-se em agua, e a chuva cae sem +interrupção +e com uma teimosia e constancia impacientadoras; +d'aquelles em que a terra saciada rejeita já a agua +que recebe, a qual escorre nos declives, transborda +dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos, +transformando em brejos as lezirias; em que as lufadas +do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente +despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam +aos pinheiraes a voz dos mares; em que +os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, +e tão densas nuvens cobrem o firmamento, +que parece tomar-nos a persuasão de que nunca +mais o veremos com as suas formosas vestes de +azul. +<br /> + +<br /> + +Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz +podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao +diabo a viagem que commettera. +<br /> + +<br /> + +E para quê e por quê a commettera elle assim? +<br /> + +<br /> + +Em poucas palavras procuraremos satisfazer a +natural interrogação, que é de +suppôr nos dirigissem +os leitores, se podessem fazel-o. +<br /> + +<br /> + +Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos +vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella +enlanguescedora vida da capital, e dividindo as +attenções +do espiri +Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos +vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella +enlanguescedora vida da capital, e dividindo as +attenções +do espirito pela politica, pela litteratura e pelos +destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava +<span class="pagenum">[9]</span> +habilitado a fazer circumstanciada chronica, que +abrangesse os ultimos dez annos. +<br /> + +<br /> + +Não concebia vida fóra d'aquillo. +<br /> + +<br /> + +O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, +nem imaginava possibilidade de visitar a Europa, +quanto mais a provincia; o que seria maior +façanha. +<br /> + +<br /> + +Não que lhe faltassem recursos para realisar +qualquer projecto d'esta natureza. +<br /> + +<br /> + +Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, +dos quaes vivia folgadamente e sem precisar +de sacrificar nos altares da economia. +<br /> + +<br /> + +Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A +poucos ia tão direita a apostrophe de Garrett aos +seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler no +livro setimo das <em>Viagens</em>. +<br /> + +<br /> + +De certo tempo em deante começou, porém, a +incommodal-o uma especie de vácuo interior, um +mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem familia, +quando chegam á idade a que chegou Henrique, +e passam a vida como elle. +<br /> + +<br /> + +Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, +bocejava nas camaras, bocejava no Gremio, bocejava +no Suisso, no Chiado e nos circulos dos seus +amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o +insupportavel de insipidez; porque poucas coisas +ha que mais perturbem o espirito, do que o espectaculo +d'um homem que boceja ou dorme, onde e +quando os outros forcejam por divertir-se. +<br /> + +<br /> + +O demonio da hypocondria, esse demonio negro +e lugubre, implacavel verdugo dos ociosos e egoistas, +o qual havia muito o espiava, apoderou-se d'elle +em corpo e alma. +<br /> + +<br /> + +Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito +preoccupado com a sua pessoa, imaginando-se victima +de mil e uma molestias, as mais disparatadas +e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente +predestinado para a apoplexia e para a phtisica, para +o cancro e para a alienação, para a cegueira e +para +<span class="pagenum">[10]</span> +as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da +semana, folheando livros de medicina, construindo +theorias physiologicas, consultando todos os medicos +da capital, experimentando todo o arsenal pharmaceutico +e todos os annuncios, em parangona, da +quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças +do seu espirito amedrontado até ás mysteriosas +e nevoentas alturas do credo homoepathico! Ao +mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva +degeneração de gôsto; não +podia ler uma pagina +dos livros que lhe eram predilectos; desfazia-se +sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e +objectos +curiosos que colleccionára com paixão; detestava +a musica, o theatro, n'uma palavra, tornára-se +um dos maiores flagellos, que podem pesar sobre +a humanidade e que muito em especial causam o +supplicio dos medicos que os aturam. +<br /> + +<br /> + +Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte +com o desculpavel intuito de sacudirem de si tal +pesadelo, lhe deram um dia de conselho, que fôsse +viajar. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia +n'esta palavra: viajar. +<br /> + +<br /> + +Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias +apopleticas? E as suas disposições para +tantas outras enfermidades? Pois um homem pode +lá viajar com esta bagagem pathologica? +<br /> + +<br /> + +E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou +com mau humor a receita, e ficou na capital. +<br /> + +<br /> + +Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as +consultas, e os medicos, como se para isso apostados, +a insistirem em que saisse de Lisboa. +<br /> + +<br /> + +―O senhor não tem nada―diziam alguns. +<br /> + +<br /> + +Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto. +<br /> + +<br /> + +Prolongou-se este estado de coisas, até que um +dia o hypocondriaco rapaz persuadiu-se muito sériamente +de que estava chegada a sua hora extrema. +<br /> + +<br /> + +Um medico velho e grave, que por essa occasião +<span class="pagenum">[11]</span> +o escutou, em vez de se rir d'elle, disse-lhe, muito +sisudo: +<br /> + +<br /> + +―Homem! O senhor está realmente mal. Esse +estado de imaginação não pode +prolongar-se mais +tempo, sem romper por ahi em alguma doença que +o sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto +é tempo. Quebre por todos os habitos, e escolha +entre as fortes impressões de uma grande +capital, como Paris ou Londres, ou as mornas +sensações +de um completo viver de aldeia. Os revulsivos +e os emollientes curam por meios oppostos +ás vezes as mesmas molestias. +<br /> + +<br /> + +Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse +Henrique um presente de fructa de uma sua tia, +santa creatura que elle, desde creança, não +tornára +a vêr. +<br /> + +<br /> + +Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho +onde na idade de cinco annos Henrique passára +alguns mezes na companhia de sua mãe. +<br /> + +<br /> + +Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo, +já meio apagado na memoria, e conseguira fazer-lhe +saudades. D'ahi uns vagos desejos de voltar +a vêr aquelles sitios. +<br /> + +<br /> + +Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique +nomeou-lhe a aldeia, em que esta sua parenta vivia. +<br /> + +<br /> + +O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para +que fôsse abraçada. +<br /> + +<br /> + +O sobrinho escreveu então á tia, e, passados +dias, +punha-se a caminho. +<br /> + +<br /> + +Mil vezes se arrependeu, depois da resolução +tomada; +mil vezes mandou ao diabo o conselho do +medico e phantasiou horriveis exacerbações em +todos +os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, +feita ainda segundo os velhos processos, com +malas, coldres e pistolas, botas de montar e almocreve, +ampliava-lh'os a proporções estupendas, o +prisma da hypocondria. +<br /> + +<br /> + +No momento em que nos associámos ao cavalleiro, +caira elle n'um desalento profundo, n'um quasi +<span class="pagenum">[12]</span> +convencimento de proxima anniquilação, do qual +nem a loquacidade do almocreve, condimentada, +como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco +edificantes, o conseguia arrancar. +<br /> + +<br /> + +Havia mais de uma hora que estavam luctando +com as difficuldades da ascensão do ingreme e escabroso +caminho, que torneava o monte como as +voltas de uma helice. +<br /> + +<br /> + +Era este monte uma como irregular pyramide, +levantada no meio da amplissima bacia, onde tinha +assento a aldeia que Henrique demandava; por isso +o estafado rapaz não podia atinar a razão de +conveniencia +pela qual, tendo de procurar o valle, assim +porfiavam em descrever as fastidiosas curvas da +quasi interminavel espiral, que os approximava do +vertice. +<br /> + +<br /> + +Não se concebe uma estrada menos logica do +que aquella. +<br /> + +<br /> + +No nosso paiz são porém frequentes estas faltas +de logica nas estradas. +<br /> + +<br /> + +O almocreve havia-se separado por momentos de +Henrique com o fim de encurtar distancias, seguindo +por um atalho só franqueavel a gente +de pé. +<br /> + +<br /> + +Henrique nem desviára os olhos para o fundo +valle, que se abria á esquerda, velado pela densa +nevoa d'aquella atmosphera saturada de humidade, +nem prestava attenção á agreste e +selvatica paizagem, +do lado direito, toda encrespada de pinheiraes +nascentes e de espinhosas tojeiras. +<br /> + +<br /> + +Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o +mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sitio em +que ella, formando um cotovello, furtava á vista o +seguimento ulterior. +<br /> + +<br /> + +N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe +ao viajante, cançado e aborrecido, que pela primeira +vez as trilha, uma promettedora esperança. +<br /> + +<br /> + +―D'alli verei talvez o termo do caminho―pensa +elle. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[13]</span> +Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança +lhe foge! +<br /> + +<br /> + +Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á +almejada inflexão e quando esperava principiar emfim +a descer para o valle e approximar-se da aldeia, +viu que o macho, pratico no caminho, e á +disposição +de cujo instincto elle collocára a razão, dobrava +ainda para a direita e continuava a contornar +e a subir o monte. A espiral não terminára ainda. +Henrique olhou em torno de si, profundou a vista +nas sombras do valle, nada pôde descobrir, que lhe +promettesse a aldeia procurada. Muita arvore, +povoação +nenhuma! +<br /> + +<br /> + +Teve um paroxismo de impaciencia! +<br /> + +<br /> + +―Isto não é estrada!―exclamou elle, +exasperado.―São +os nove circulos do Inferno de Dante +virados para fóra. +<br /> + +<br /> + +E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva +a augmentar, a calar através do grosso gabão de +jornada que Henrique vestia! O desgraçado vergava +sob o pêso da sua consternação. +<br /> + +<br /> + +Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando +com fleugma desesperadora. +<br /> + +<br /> + +―Com um milhão de demonios!―bradou-lhe +Henrique, não podendo conter-se.―Essa maldicta +terra foge deante de nós, homem! +<br /> + +<br /> + +―Estamos quasi lá, meu patrão. É alli +logo +adeante―respondeu o almocreve, sem se alterar. +Vê aquella capellinha branca em cima d'aquelle +monte? pois fica já para além da +povoação. É a +ermida da Senhora da Saude. É um instante. +<br /> + +<br /> + +―Desde as duas horas da tarde que me dizes +que é um instante, e eu estou acreditando que cada +vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica alli +em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas +que temos dado, estou persuadido de que vamos +tão adeantados como quando principiámos a subir. +<br /> + +<br /> + +―Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito +lá +por baixo, era mais perto, mas... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +―Mas foi então pelo prazer de trepar, que me +trouxeste por aqui? +<br /> + +<br /> + +―Não é isso, patrão; mas bem +vê v. s.<sup>a</sup> que o caminho +lá por baixo é todo cortado por quintas e campos, +e é preciso dar taes voltas, que a final fica mais +longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá +ideia de que o caminho +lá por baixo é todo cortado por quintas e campos, +e é preciso dar taes voltas, que a final fica mais +longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá +ideia de como estão os riachos por lá! +Só o esteiro +do almargeal é para uma pessoa se afogar. Mas tenha +o patrão paciencia, que pouco falta agora. Vê +v. s.<sup>a</sup> aquelle tronco de sobreiro que parece, +visto +d'aqui, um frade de capuz? +<br /> + +<br /> + +―É alli? +<br /> + +<br /> + +―Não, senhor―disse o homem, rindo;―mas +vêem-se d'aquelle sitio as primeiras casas da aldeia. +<br /> + +<br /> + +―As primeiras!―murmurou Henrique em tom +lastimoso; e penderam-lhe os braços com mais +desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna +vertebral. +<br /> + +<br /> + +O almocreve proseguiu, para o distrair: +<br /> + +<br /> + +―Tenho passado por estes sitios muita vez com +neve de se cortar á faca e de noite. E olhe que +nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim! +E vamos lá! o sitio não é dos mais +seguros. Vê o +senhor essa cruz preta, ahi á sua mão direita, +pregada +no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo +mataram um homem, que vinha com uns centos de +mil réis da feira franca de Vizeu, fez pelo S. Miguel +um anno. E ainda hoje se está para saber quem foi. +N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma +creatura. +<br /> + +<br /> + +Henrique sentiu-se pouco á vontade com as +elucidações +do cicerone; olhou para elle com desconfiança +e quasi julgou vêr moverem-se sombras suspeitas +por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou +nos coldres os cabos das pistolas, e approximou as +esporas dos ilhaes da cavalgadura. +<br /> + +<br /> + +Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de +sobreiro, de junto do qual deviam avistar a aldeia. +<br /> + +<br /> + +Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas +<span class="pagenum">[15]</span> +arvores, mas continuou a não enxergar vestigios +de casas. +<br /> + +<br /> + +―Onde está a aldeia que dizias, homem? +<br /> + +<br /> + +―D'ahi já se vê―disse o almocreve, correndo +para alcançar o cavalleiro.―Não vê v. +s.<sup>a</sup>, além, +além, aquelles pinheiraes mansos? +<br /> + +<br /> + +―Vejo, sim. +<br /> + +<br /> + +―Pois já são da freguezia. Se fôsse +mais claro +havia de avistar a casa do guarda. É a tapada dos +Bajuncos, que pertence á morgadinha dos Cannaviaes. +<br /> + +<br /> + +Henrique não respondeu. A distancia a que ficava +ainda a tal tapada fel-o suspirar. +<br /> + +<br /> + +Emfim, passados minutos, principiaram a descer +para o valle, costeando sempre obliquamente o +monte. +<br /> + +<br /> + +Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar +um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe +por entre a rama do arvoredo, mas já indistinctamente, +em virtude do adeantado da hora e da intensidade +da neblina. +<br /> + +<br /> + +―Lá está a capella da freguezia―dizia o homem. +<br /> + +<br /> + +―Alli? É um seculo para lá chegar! +<br /> + +<br /> + +―Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo! +<br /> + +<br /> + +E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas +do macho, que accelerou o passo. +<br /> + +<br /> + +O homem continuou: +<br /> + +<br /> + +―Até se fôsse mais dia podia-se vêr +d'aqui a +pedra, que está no cemiterio novo, e que é da +familia +da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a mãe +d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e +até +hoje mais ninguem. O povo, como o outro que diz, +tem sua aquella em se enterrar fóra da egreja. Elle, +a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do +costume... mas emfim a gente foi creada n'isto... +Mas a pedra é coisa asseada. É como as que +estão +na cidade. +<br /> + +<br /> + +Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, +já nem attendia ao que o homem ia dizendo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim +o valle. O terreno mudava agora de aspecto. +Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de cultura, +annunciando a proximidade de um povoado. Os +caminhos estreitavam, internando-se no valle, e seguiam +tortuosamente por entre muros tôscos de +pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, +que não cessára de cair, transformára +estes caminhos, +onde o declive não dava escoamento ás aguas, +em charcos e tremedaes. +<br /> + +<br /> + +Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente +apparecendo. +<br /> + +<br /> + +Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção +do curral, guiados por uma creança de palhoça e +pernas nuas, os quaes paravam a olhar com aquella +expressão de composta curiosidade, que lhes é +peculiar, +para o recem-chegado visitante da aldeia. +Não faltou receio a Henrique, que suppôz a estes +bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e +bravia +dos touros, a cuja chegada tantas vezes fôra +assistir em Lisboa. +<br /> + +<br /> + +Mais adeante passava por elles uma fileira de +carros a vergarem sob o pêso do matto e atroando +os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o +eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de +Henrique, +cujos nervos se irritavam com elle, mas apparentemente +agradabilissimo para os conductores +aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle +acompanhamento. +<br /> + +<br /> + +N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas +casas de tectos de colmo, de cujas innumeras +fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera +humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado +de Henrique de Souzellas o cheiro resinoso +e activo das pinhas e das agulhas sêccas dos +pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações +muito longe de serem agradaveis. +<br /> + +<br /> + +Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia +que já lhe tomára o animo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +―Tantas fadigas para este resultado!―pensava +elle.―Sair de Lisboa para me enterrar n'esta aldeia +escura e suja! Enganou-se o parvo do doutor. +Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro +por certo aqui. Deus lhe perdôe o homicidio. +<br /> + +<br /> + +Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual +mais tortuoso e incómmodo de trilhar; as curvas +complicavam-se como as ruas de um labyrintho. +Aqui subiam; desciam mais além, para subir outra +vez. Umas vezes caminhavam em terreno descoberto, +outras penetravam em tão estreitas quelhas, +apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas +de ramos entrelaçados, que só o instincto do +animal podia evitar-lhes os perigos. Ora soavam as +patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes +o som um terreno, que a chuva encharcava, +e a agua lamacenta vinha salpicar o rosto do +cavalleiro. +<br /> + +<br /> + +As casas eram já frequentes, e algumas de menos +humilde apparencia. +<br /> + +<br /> + +Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser +gigantes, ladravam raivosos por dentro dos portões +ou de sobre os muros das quintas, ao ouvirem os +passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que +falava ou cantava sempre. +<br /> + +<br /> + +Outras vezes era um inharmonico grunhir suino +que accusava a vizinhança das córtes ou, partindo +de um casebre rustico, o chorar de creanças, entremeado +com os ralhos das mães e com as pragas +dos chefes de familia. +<br /> + +<br /> + +O almocreve não desistira das suas +funcções +de cicerone, que sómente interrompia para saudar +alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam. +<br /> + +<br /> + +―Estes campos e lameiros―ia dizendo―são +da morgadinha dos Cannaviaes; andam arrendados +a um compadre meu. +<br /> + +<br /> + +E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente +allumiada por uma candeia: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[18]</span> +―Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada? +<br /> + +<br /> + +―Ai, é vossemecê, sr. José? +Então não entra?―respondia-lhe +uma voz feminina. +<br /> + +<br /> + +―Agora, não, ámanhã. +<br /> + +<br /> + +E proseguiu para Henrique: +<br /> + +<br /> + +―É uma santa creatura. A morgadinha... +<br /> + +<br /> + +Henrique interrompeu-o: +<br /> + +<br /> + +―Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? +onde mora minha tia? Não me dirás? +<br /> + +<br /> + +―É logo ahi adeante, meu patrão. Em +nós passando +umas casas amarellas que ha ahi... é logo +ao pé. Essas casas que digo são tambem da +morgadinha, +mas ha uma demanda pelos modos. +<br /> + +<br /> + +O almocreve falava pela decima ou undecima vez +na morgadinha. Até esta periodica +referencia a uma +personagem que elle não conhecia, impacientava +Henrique de Souzellas. +<br /> + +<br /> + +E continuavam a succeder-se em enredado dedalo +as quelhas e azinhagas, a ponto de fazer perder +toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido +das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; +adeante, transpunham uma ponte rustica, escutando +das profundezas do despenhadeiro, que ella +atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o +ranger das rodas dos moinhos. +<br /> + +<br /> + +Henrique a cada momento imaginava cair n'um +abysmo. +<br /> + +<br /> + +―São os açudes do Casal―dizia o +almocreve +berrando para se fazer ouvir através do estrondo +da torrente.―Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes. +<br /> + +<br /> + +Henrique nem alento já tinha para falar. +<br /> + +<br /> + +Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia +tão cerrada lhe envolveu o coração a +nuvem de melancolia, +que cedeu sem resistencia ao crescente +torpor que o invadia, como o que desespera da vida +e da salvação. +<br /> + +<br /> + +Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma +<span class="pagenum">[19]</span> +toada plangente, melancolica, monotona, que exacerbou +estes effeitos. +<br /> + +<br /> + +―É uma fiada em casa do Tapadas―disse o +almocreve.―É um dos maiores amigos do pae da +morgadinha. Vê aquelle muro acolá? +<br /> + +<br /> + +―Eu não vejo nada. Deixa-me! +<br /> + +<br /> + +―Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que +a morgadinha... +<br /> + +<br /> + +―Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha―exclamou +Henrique. +<br /> + +<br /> + +Era evidente emfim que estavam em pleno coração +do povoado. As casas appareciam mais juntas. +De algumas saía um surdo rumor de vozes que tinha +o que quer que era de lugubre. Era a corôa +rezada em familia a Nossa Senhora. A voz grave +do lavrador casava-se com a voz quebrada e trémula +do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e +a juvenil das raparigas e creanças n'aquelle piedoso +côro, produzindo um effeito que acabou por levar +ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante. +<br /> + +<br /> + +―Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, +que não a acabamos de attingir? +<br /> + +<br /> + +O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu +uma chicotada sibilante junto ás orelhas do muar, +o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira +orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do +almocreve, +estacou em frente de um portão de quinta +resguardado por um telheiro rustico. +<br /> + +<br /> + +―É aqui―disse o guia. +<br /> + +<br /> + +―Até que emfim!―exclamou Henrique, suspirando. +Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo +tempo, como o do homem cançado da vida, quando +antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima +a convicção de que a quinta de Alvapenha lhe +havia de servir de cemiterio. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +<h4>II +</h4> + +<br /> + +O almocreve assentou duas vigorosas pancadas +no solido portão de castanho, deante do qual tinham +parado. +<br /> + +<br /> + +As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as +de dois cães, que acudiram de longe ao signal e +vieram ladrar á porta com furia, que fez agourar +mal a Henrique da cordialidade da recepção que o +esperava. De facto as intenções dos quadrupedes +não pareciam demasiado hospitaleiras. O almocreve +divertia-se excitando-os de fóra com uma vara de +vime, apesar de quantas recommendações de +prudencia +lhe fazia Henrique, não em demasia socegado. +<br /> + +<br /> + +A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando +os cães á ordem, se é licito, sem +irreverencia, +empregar n'este caso a phrase consagrada para +outro genero de algazarra. +<br /> + +<br /> + +Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, +levantar a aldraba, gemerem os gonzos, e emfim +um homem de lavoura alto e magro, trazendo em +punho um lampeão de frouxissima luz, appareceu-lhes +á porta e saudou-os com a fórmula do estylo: +<br /> + +<br /> + +―Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites. +<br /> + +<br /> + +E, levantando a luz á altura do rosto de Henrique, +poz-se a miral-o com a menos ceremoniosa curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―É o sobrinho cá da senhora, não +é verdade? +<br /> + +<br /> + +―Sou eu mesmo. +<br /> + +<br /> + +―Está um tempo muito azêdo. Eu já +julgava que +não vinham. Entre. +<br /> + +<br /> + +Henrique não se resolvia a acceitar o convite, +porque lhe continuavam a impôr respeito os olhares +ferinos e os rugidos surdos dos dois façanhosos +<span class="pagenum">[21]</span> +quadrupedes, cuja má vontade era a custo refreada. +<br /> + +<br /> + +―Entre, entre―insistia o homem. +<br /> + +<br /> + +―Mas esses animalejos?... +<br /> + +<br /> + +―Ah! isto não faz mal. Sae-te p'ra lá, Lobo: +passa, Tyranno! +<br /> + +<br /> + +Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem +que não faziam mal! +<br /> + +<br /> + +―C'os diabos! ti'Manuel―disse o almocreve―em +occasião de se esperarem hospedes, não se soltam +assim os cães. Os diabos não são +nenhuns +cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joãosinho das +Perdizes, que por pouco lhes deixava nos dentes +as barrigas das pernas. +<br /> + +<br /> + +―Forte perca!―resmoneou o outro.―Não trouxesse +cá os d'elle. Não tem dúvida; entre o +senhor, +que elles não lhe fazem mal. +<br /> + +<br /> + +―Não entro; assim é que não +entro―teimou +Henrique, a quem as palavras do almocreve acabaram +de fortificar na sua resolução. +<br /> + +<br /> + +O homem em vista d'isto encolheu os hombros e +bradou: +<br /> + +<br /> + +―Ó Luiz! +<br /> + +<br /> + +Uma creança de cinco annos, e quasi nua, correu +ao chamamento. +<br /> + +<br /> + +―Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor +tem mêdo. +<br /> + +<br /> + +A creança, á palavra mêdo, fitou +Henrique com +uns olhos espantados, e tomando do chão um tronco +de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas feras, +que, com todos os signaes de respeito, de orelha +baixa e cauda abatida, fugiram deante d'ella. +<br /> + +<br /> + +O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um +tanto maltratado com o desfecho da scena; mas a +prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andára ajuizadamente. +<br /> + +<br /> + +―Agora vossemecê―disse o camponez para o +almocreve―arranje-se +como puder e mais a bêsta ahi +pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao senhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[22]</span> +―Vão, vão com Nossa Senhora, que eu +cá me +arranjarei. Muito boas noites, sr. Henriquinho. +<br /> + +<br /> + +―Adeus, José―disse Henrique, passando para +a mão do guia a esportula da gorgeta, e após +seguiu, +com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem +do lampeão. +<br /> + +<br /> + +Não era para dissipar a impressão penosa, que +subjugava o espirito de Henrique, o aspecto que lhe +offerecia, áquella hora da noite, a parte da quinta, +por onde era conduzido para a casa de Alvapenha. +<br /> + +<br /> + +Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro +ou eido, estradado de altas camadas de matto +e embebido de chuva, d'onde se exhalava um cheiro +de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado +a estes aromas campezinos. A luz do lampeão +a custo conseguiu evitar a Henrique o tropeçar +n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia +para gallinhas, e em outros objectos que atrancavam +o quinteiro. Transpondo a cancella que terminava +este, seguiram por uma rua de folhas; atravessaram +diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia; +ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados +mais alguns rodeios, acharam-se finalmente junto +da escadaria de pedra, por onde se subia para uma +especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia +de um modesto portico á casa de Alvapenha. +<br /> + +<br /> + +A propriedade da tia de Henrique era um genuino +typo de casa rustica, á moda do Minho. +<br /> + +<br /> + +Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar +os objectos á escassa luz que os allumiava, recebeu +Henrique a primeira impressão agradavel de +toda aquella mal estreada excursão. +<br /> + +<br /> + +Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre +avivaram n'elle memorias, quasi apagadas. +Lembrava-se agora vagamente de ter brincado alli, +a cavallo n'esse mesmo parapeito, então, como agora, +enfeitado de uma formidavel cohorte de aboboras meninas, +victimas votadas ás festas do proximo Natal. +<br /> + +<br /> + +A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um +<span class="pagenum">[23]</span> +grande vaso de louça, que elle, havia vinte e tantos +annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia vaga de +haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de +se certificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a +aza, sendo este o unico estrago que após tanto +tempo o velho utensilio soffrêra. +<br /> + +<br /> + +―É admiravel!―não pôde deixar de +exclamar +Henrique ao fazer a descoberta, vendo que em oito +dias operava maior reforma nos seus aposentos em +Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava +em Alvapenha. +<br /> + +<br /> + +O hortelão bateu á porta e disse para dentro que +era o sobrinho da senhora que chegava. +<br /> + +<br /> + +Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de +vozes, um arrastar de passos; moveu-se a chave na +fechadura; abriram-se as portas e no limiar appareceu +de braços abertos a tia Dorothéa, e por traz +d'ella, elevando a luz acima do hombro da ama, a +criada Maria de Jesus, a que, havia trinta annos, +lhe era companheira e interessada em lagrimas e +pesares. Já Henrique lhe andára ao collo no tempo +em que estivera creança na quinta. +<br /> + +<br /> + +Deante da figura esbelta, do typo varonil e do +comprido bigode de Henrique, a sr.<sup>a</sup> +Dorothéa reprimiu +as suas expansões e quasi recuou. +<br /> + +<br /> + +Nunca mais vira Henrique desde que este, aos +cinco annos, deixára Alvapenha, e dir-se-hia que +esperava ainda encontrar os mesmos cabellos louros +e annelados e o mesmo rosto menineiro da travêssa +creança de outros tempos, em vez do homem +feito, em que os vinte e tantos annos volvidos o +tinham transformado. +<br /> + +<br /> + +Ha d'estas illusões na gente. +<br /> + +<br /> + +A mais segura razão não está precavida +contra +ellas; a infundada surpreza invade-nos de subito, e +os labios não podem prender a +exclamação que a +denuncia. +<br /> + +<br /> + +―Pois na verdade tu és o Henriquinho?!―disse +espantada a boa senhora. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +―Eu julgo que sim, tia Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +―Tu! Ai como estás um homem! Ó Maria de +Jesus, você não quer vêr isto!? +<br /> + +<br /> + +―Parece mesmo um soldado!―disse a criada, +igualmente estupefacta. +<br /> + +<br /> + +―Credo, mulher! Santissima Trindade! Você que +está a dizer? Nossa Senhora nos livre de tal!―exclamou +a ama, em cujo conceito o soldado estabelecia +a transição do homem para o diabo. +<br /> + +<br /> + +No entretanto Henrique de Souzellas abraçava a +tia, que havia tanto tempo que não vira, e ella +correspondia-lhe, +beijando-o com todo o carinho e chorando. +<br /> + +<br /> + +Chorando por quê? Por quê? Pela muita bondade +que tinha n'aquella alma. A bondade é um rico manancial, +que brota lagrimas ao toque da menor +commoção. +<br /> + +<br /> + +Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se +dos roxeados amplexos e mais provas de +affecto de sua tia, quando se sentiu prêso em novos +laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava tambem +e lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados, +como aquelles que veem a ferver do coração, e +isto +acompanhado de um―Ai o meu rico filho!―tão +eloquente como os beijos. +<br /> + +<br /> + +Henrique, habituado ás etiquetas da +civilisação +urbana, que estabelece entre amos e criados distancias +desconhecidas na aldeia, extranhou um pouco +a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexões. +<br /> + +<br /> + +Maria de Jesus dizia, ainda admirada: +<br /> + +<br /> + +―Ó senhora! Não que uma coisa assim! Pois +é +este o menino que vinha á cozinha limpar o tacho, +em que se fazia a marmelada! +<br /> + +<br /> + +―É verdade! E que boa marmelada cá se fazia! +<br /> + +<br /> + +―Lambareiro!―disse a tia, sorrindo.―Se eu +soubesse que eras assim, não tinha mandado lavar +o tacho do dôce, que ainda hoje serviu. +<br /> + +<br /> + +―Sim? Então ainda se faz dôce cá em +casa, como +d'antes?―perguntou Henrique. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[25]</span> +―Pois então? todos os annos. Mas valha-me +Deus! E não querem vêr nós aqui postas +á palestra! +Entra, menino, entra cá para dentro, que está +frio +e tu deves vir cançado. +<br /> + +<br /> + +―Um pouco, um pouco, tia Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +E Henrique entrou para a sala. +<br /> + +<br /> + +Demoremo-nos no limiar para informar o leitor +sobre as pessoas, em cuja casa se vae alojar com +Henrique de Souzellas. +<br /> + +<br /> + +Não se imagina a santa paz de espirito, a placidez +de paraiso, que estas duas mulheres―D. Dorothéa +e Maria de Jesus, ama e criada―gosavam na quinta +de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar +allivio aos seus muitos e variados males. +<br /> + +<br /> + +Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas +aos seus habitos, ambas muito tementes a Deus e +amigas do proximo, as duas celibatarias passavam +alli uma vida, rescendente a um suave perfume de +santidade, como o da alfazema e do rosmaninho, +que lhes aromatizava as gavetas e de que se repassava +toda a roupa branca, objecto muito dos seus +cuidados. +<br /> + +<br /> + +A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos +entre as duas, poderia ser exemplo á maior +parte das familias d'este mundo. Entre velhas, que +nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral +faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais +para admirar o caso. +<br /> + +<br /> + +Tinham ellas porém a precisa tolerancia para fazerem +mutuas concessões; cada uma fechava os +olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria +bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu +uma só palavra, que, por mais alto pronunciada +ou por menos expressiva de paciencia, destoasse +da invariavel monotonia dos seus habituaes +dialogos. +<br /> + +<br /> + +Eram um exemplo edificante para os vizinhos, +que, pela maior parte, devorados por demandas entre +primos e irmãos, paes e filhos, marido e mulher, +<span class="pagenum">[26]</span> +mostravam infelizmente ser esta abençoada semente +caída em improductivo terreno. +<br /> + +<br /> + +As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento +affligiam as duas sexagenarias e augmentavam +o numero de Padre-Nossos com que todas +as noites se faziam lembrar dos santos, de quem +eram validas, pedindo-lhes a felicidade dos outros +tanto ou mais do que a sua propria. +<br /> + +<br /> + +Ouvir rezar as duas santas velhas―e era essa a +occupação dos seus curtos +serões―equivalia a escutar +uma resenha das differentes calamidades, que +perseguem e apoquentam o genero humano, e que +ellas, d'esta maneira, pretendiam evitar. +<br /> + +<br /> + +―Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Marçal, +para que nos livre do fogo―dizia D. Dorothéa, +e seguia-se o Padre-Nosso.―Outro a Santa Luzia +milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma +e no corpo; outro a S. Braz, para que nos proteja +da garganta; outro a S. Vicente, por causa das bexigas, +etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os +que andam sobre as aguas do mar; outro por os +pobres sem abrigo nem alimento; outro por os orphãos; +outro pelos doentes; um pelos vivos; outro +pelos mortos; um pelos justos; outro pelas almas +do purgatorio, não hesitando até a sua caridade +em +transpôr as portas do inferno e pedir tambem a +remissão dos condemnados. E ainda depois d'esta +minuciosa e longa enumeração, um ultimo +Padre-Nosso +fechava a primeira serie, comprehendendo +todos os não contemplados por esquecidos, ou por +não terem logar na classificação. +<br /> + +<br /> + +Compunha a segunda serie a menção especial de +cada uma das pessoas fallecidas das suas +relações: +parentes, amigos e conhecidos, por cujo «eterno +descanço entre os resplendores da luz perpetua» +oravam com verdadeira compunção. N'esta phalange +ia tambem D. João VI, por quem, havia quarenta +annos, se costumára a rezar D. Dorothéa, e +não era +ella mulher que rompesse com habitos semi-seculares. +<span class="pagenum">[27]</span> +Era esse talvez o unico Padre-Nosso que a alma +do monarcha recebia no Céo, com procedencia do +seu antigo reino. +<br /> + +<br /> + +Quanto ás qualidades physicas, a +imaginação dos +leitores pintar-lh'as-ha melhor do que a minha +descripção. +Forçosamente conheceram uma d'estas boas +velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem +se estima e com quem se brinca ao mesmo tempo; +que nos podem inspirar sacrificios e simultaneamente +nos tentam a travessura; a quem mystificamos +agora e logo beijamos respeitosamente a mão; +contra quem não reprimimos impaciencias, escutando +depois submissos os seus nunca terminados +sermões. +<br /> + +<br /> + +Ora estas velhas assim teem quasi sempre um +typo uniforme, que é o reflexo exterior da bondade +do coração; esse era o typo da tia +Dorothéa com o +seu vestido rôxo, o seu lenço castamente cruzado +no peito, a sua touca de folhos alvissimos e de fitas +escuras, o mólho de chaves á cinta, o livro de +orações +na algibeira e os oculos a marcarem no livro +a reza habitual. +<br /> + +<br /> + +Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma +edição popular da mesma alma. Succedêra +de mais +com ellas o que é sempre de esperar de uma longa +e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado +maneiras e modos de pensar e de vêr e de +dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer +d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo +de conclusão, se deduzia a outra facilmente. +<br /> + +<br /> + +Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao +primeiro exame que fez das duas santas mulheres. +<br /> + +<br /> + +Entremos agora com elle para dentro da sala. +<br /> + +<br /> + +Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa +de Alvapenha e ahi voltasse de novo com Henrique +julgaria, á vista da uniforme +disposição de coisas +mantida alli dentro em tão distantes épocas, que +todo esse tempo não fôra mais do que um sonho +de momentos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[28]</span> +Encontraria os mesmos móveis, na mesma +collocação; +as mesmas cobertas nos leitos, apenas mais +desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas janellas; +o mesmo cheiro de feno e alfazema na +atmosphera dos quartos, os mesmos quadros na +parede, as mesmas jarras nas cómmodas. +<br /> + +<br /> + +A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana +memoria de rapaz estouvado, sentia-se acordar, +á vista d'aquillo tudo. +<br /> + +<br /> + +A sala tinha uma physionomia caracteristica. +<br /> + +<br /> + +Supponha-se uma não muito ampla quadra de +pouca altura, toda pintada a óca, e alumiada por +duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus +competentes assentos de pedra, um defronte do outro, +com meias cortinas de cambraia sempre corridas―pleonasmo +de discrição que se não justificava, +visto que as janelas, abrindo para a quinta, +não tinham vizinhança de cujos olhares +precisassem +de recatar-se. O tecto era de almofadas de castanho, +em tempos pintado de azul, agora de uma côr duvidosa. +Havia quinze annos que D. Dorothéa falava +em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso +como era, ia sendo adiado de primavera para primavera. +Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija +saliente, onde coroadas maçãs de inverno +aguardavam, +em vistosa fileira, a completa maturação, e +derramavam no aposento o mais agradavel aroma. +O pavimento, apesar de muito picado de caruncho, +andava limpo e <em>escafunado</em>―termo do +vocabulario +de casa―que mettia gôsto vêl-o. Cada parede era +um museu de estampas de devoção. Poucos santos +e santas da côrte celestial não estavam alli +representados +e com um colorido, que era o maior peccado, +a que estes bemaventurados haviam dado logar +cá no mundo. +<br /> + +<br /> + +Cá se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras; +Santa Anna ensinando Nossa Senhora a +ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. João Novo, +no Porto; o Bom Jesus de Bouças, +representação +<span class="pagenum">[29]</span> +da imagem, que, segundo reza a respectiva +chronica, é obra das mãos de José de +Nicodemus; +os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de +S. Francisco, etc., etc. Sobre a cómmoda de pau +preto era devotamente venerado o mais rubicundo, +menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda +modelaram as mãos de santeiro afamado. E seja +dito de passagem que não sei por que a +tradição +popular dá a este austero franciscano o aspecto +chorudo de um moderno reitor de farta abbadia de +aldeia. +<br /> + +<br /> + +No interior da redoma onde se abrigava o santo +estava estabelecido o museu de raridades da tia Dorothéa. +Eram flores artificiaes, concharinhas e caramujos, +um rosario de caroços de azeitonas, uns +poucos de vintens de prata, enfiados e pendentes +do braço do menino Jesus, que o santo sustentava +ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha +benta, uma medida do braço do Senhor de Mattosinhos, +um pão do sacco de Santa Isabel, que vae +na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos +curiosos. +<br /> + +<br /> + +A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha, +que gemiam quando entravam em serviço, +como militar, cujas articulações o rheumatismo +invadiu; +mesas cobertas com colchas de chita; bahús +cravados de pregaria amarella, disposta em lettras +e arabescos; uma papeleira de pau santo, e uma +gaiola com um canario decrepito, objecto, havia +muitos annos, das tentações de um gato, mais +decrepito +do que elle e pertencente ás classes inactivas. +<br /> + +<br /> + +Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de +beatitude e de antiguidade que alli se respirava, os +habitos da casa, sentia já certo desconfôrto, como +de quem é arrancado de subito ao ambiente, em +que se educou e vive, e engolfado n'um ambiente +extranho; especie de asphyxia moral, não menos +angustiosa do que a do peixe fóra da agua. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[30]</span> +A saudade que ao principio sentira, dissipára-se +já. O perfume da saudade é como o de certas +flores, +que só se percebe quando de longe o recebemos. +Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, +dissipa-se. +<br /> + +<br /> + +Acontecera isto com Henrique. +<br /> + +<br /> + +Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a +crença de que não seria por muito tempo que se +demoraria alli. +<br /> + +<br /> + +―Os emollientes do doutor―pensava elle, emquanto +sua tia falava―serão efficazes para quem +os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim... +<br /> + +<br /> + +No entretanto sentou-se. +<br /> + +<br /> + +―Ora o Henriquinho!―dizia ainda D. Dorothéa, +pondo-se de braços cruzados em +contemplação defronte +d'elle.―Ó menino, onde foste tu arranjar +esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se? +<br /> + +<br /> + +Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Quem quer usar, usa, tia. Não é +obrigação―respondeu +elle, com leve mau humor. +<br /> + +<br /> + +―Em nome do Padre e do Filho!―dizia Maria +de Jesus, benzendo-se e tomando logar ao lado da +ama.―Até nem sei que parece, lembrar-se a gente +que trouxe este marmanjão ao collo! +<br /> + +<br /> + +O termo «marmanjão» não soou +bem a Henrique. +Principiava tambem a impaciental-o o vêr as duas +embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito a +uma exposição d'estas, por mais que +faça, não atina +com o modo de arrostar com ella, que não seja ridiculo. +Ora Henrique, como todo o homem da sociedade, +o que mais que tudo temia n'este mundo +era o ridiculo. +<br /> + +<br /> + +Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da +tia Dorothéa, que fez perceber á criada a +conveniencia +de ir preparando a ceia de Henrique, que +havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não +costumar cear, acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas +e a má alimentação dos ultimos dias, +haviam-lhe +<span class="pagenum">[31]</span> +desafiado o appetite. Demais, o espanto de +D. Dorothéa, quando lhe ouviu dizer que as ceias +não entravam nos seus habitos, foi tal que lhe tirou +o animo de rejeitar. +<br /> + +<br /> + +―Não ceias! Ó menino, que me dizes? +então +vaes-te deitar sem ceia? Ora essa! Por isso vocês +são uns pelens. Vejam lá que arranjo este! ficar +toda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento +ao estomago, que aconchegue. Nada, nada; a +ceinha em todo o caso. E tu has de tambem querer +mudar de fato? +<br /> + +<br /> + +―Eu venho bastante molhado. +<br /> + +<br /> + +―Ai, então depressa, menino, que não ha nada +peor do que a roupa molhada no corpo. Ó Maria... +ou deixe estar, eu vou... Anda, Henriquinho, +anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te +arranjares. +<br /> + +<br /> + +Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado +e commodamente vestido, saboreava uma gorda gallinha +de canja, sobre uma mesa coberta de toalha +lavada, e na melhor louça da copeira. +<br /> + +<br /> + +Elle que tinha sempre severidades de critica contra +os mais afamados cozinheiros de Lisboa, estava +achando deliciosa aquella comida primitiva, com +que o regalava a tia. +<br /> + +<br /> + +Esta sentou-se a vêl-o comer, e com a mesma +familiaridade, que Henrique já anteriormente +extranhára, +Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama. +<br /> + +<br /> + +Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao +cerrar da noite. +<br /> + +<br /> + +Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem +de o observar com a natural curiosidade de quem +havia tanto tempo não tivera um hospede, faziam-lhe +perguntas, ás quaes elle ia respondendo conforme +lhe era possivel. +<br /> + +<br /> + +―Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; +pois olha que na cara não o parece. +<br /> + +<br /> + +―Não―concordou a criada―tem boas côres, +e, vamos, a magreza inda não é lá +essas coisas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[32]</span> +Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu +logo ao reclamo. +<br /> + +<br /> + +―Não me digam isso! Então não +vêem como +estou? Pois isto é lá côr de saude? de +febre, será. +Gordo? pois acham-me gordo?! +<br /> + +<br /> + +―Gordo, não digo, mas assim, assim... E depois +como vieste de jornada... Mas a final que molestia +é a tua, menino? +<br /> + +<br /> + +―Eu sei lá, tia Dorothéa? Nem os medicos a +conhecem +bem. É, entre outras coisas, uma tristeza, +uma melancolia, que me não deixa, que me persegue +por toda a parte. Ás vezes parece-me que sinto +apertar-se-me dolorosamente o coração; outras, +são +palpitações, ancias... Tenho quasi vontade de +chorar, +irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem, +nada quero vêr, nada quero ouvir; não leio, +não durmo, não como. Finalmente todo eu sou +doença e tristeza. +<br /> + +<br /> + +A boa tia Dorothéa olhava com sisudez e +attenção +para o sobrinho, emquanto elle falava, e na +physionomia iam-se-lhe desenhando, ao ouvil-o, os +mais expressivos signaes de espanto e +consternação. +<br /> + +<br /> + +Assim que Henrique terminou a exposição, ella +disse-lhe com uma adoravel candura: +<br /> + +<br /> + +―Então é assim uma especie de mania! +<br /> + +<br /> + +Á palavra «mania» Henrique +sobresaltou-se. Seria +a consciencia que se sentiu ferida? +<br /> + +<br /> + +―Mania? Ó tia Dorothéa! Mania! Veja bem, +olhe que o termo é forte? Mania! +<br /> + +<br /> + +―Sim, menino―insistiu ingenuamente a boa senhora―pois +olha que não é outra coisa. Pois isto +de estar triste sem ter de quê... sim... porque +não te morrendo ninguem, nem te doendo nada... +<br /> + +<br /> + +Ó poetas devaneiadores, ó almas melancolicas, +que percebeis no sussurrar das brisas, no ciciar das +folhas, no murmurar dos arroios, queixas occultas +de dryades e de nayades, sentidas vibrações das +harpas de fadas aereas, que vivem em palacios de +<span class="pagenum">[33]</span> +nuvens; ó corações inoculados de +poesia, que vos +confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar +do dia, ao desfolhar das arvores no outomno; +poetas, que escutaes, com Victor Hugo, as vozes +interiores, os cantos do crepusculo, e com elle +adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, +perdoae a involuntaria blasphemia da tia Dorothéa, +que não contem o menor fermento de malicia; perdoae-lhe +a dura expressão de que ella se serviu para +caracterisar os vossos arroubamentos, as vossas +tristezas vagas, os vossos devaneios, e crêde que, +apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada +para sympathisar comvosco, do que tantas +que por ahi fazem gala de vos comprehender melhor. +<br /> + +<br /> + +Henrique não podia porém digerir a +expressão, +de que se servira a tia, para diagnosticar o seu +mal. +<br /> + +<br /> + +―Mania!―repetia elle―essa agora! Sempre é +forte de mais. Mania, não, tia Dorothéa, +lá isso não. +Mania! +<br /> + +<br /> + +―Eu lhe digo―acudiu a criada.―Não vá sem +resposta; que está quasi como o cunhado da Rosa +do Bacello. A senhora não se lembra? Andou aquella +alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só, +até que a final lá foi parar... +<br /> + +<br /> + +―Aonde?―perguntou Henrique, erguendo os +olhos interrogadoramente para a criada. +<br /> + +<br /> + +―Lá foi parar a Rilhafolles―concluiu esta, espevitando +a véla o mais naturalmente d'este mundo. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade. +<br /> + +<br /> + +Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo +de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar +lhe soubera. +<br /> + +<br /> + +―Então não comes mais?―perguntou a tia. +<br /> + +<br /> + +―Muito agradecido; eu o mais que tenho é +somno. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas é preciso fazer por comer―insistiu +ella. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span> +―Ora vá mais este côxão―disse a +criada. +<br /> + +<br /> + +―Não é possivel―teimou Henrique, e insistiu +para se recolher ao quarto. +<br /> + +<br /> + +―Tens razão, tens―concordou a tia +Dorothéa―deves +estar fatigado. Vae com Nossa Senhora, +menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que +isso não é bom. É fazer por +espairecer. Come, bebe, +passeia, que é o que dá saude. Nada de malucar. +<br /> + +<br /> + +―Sim―accrescentou a criada―e não queira +estar doente, que não tem graça nenhuma. +<br /> + +<br /> + +―E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem +te podes distrahir. O brazileiro Seabra, que tem uma +casa como um palacio; o Augustito do doutor, que é +um bom mocinho. E depois vae dar um passeio +por ahi, um dia até os moinhos outro dia até +á ermida +da Senhora da Saude. Agora me lembra: a +Lenita já mandou ahi outra vez saber se tinha chegado +o hospede―disse D. Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +―Não foi só a morgadinha... +<br /> + +<br /> + +―Ahi está você a chamar-lhe tambem a morgadinha. +<br /> + +<br /> + +―Então, senhora?! isto é o costume. Mas todas +as outras senhoras mandaram tambem o Torquato +saber do sr. Henrique. A sr.<sup>a</sup> D. Victoria e a +Christininha. +<br /> + +<br /> + +―Ai, pois cuidadosas são ellas! Tu has de te entender +com aquella gente. É uma gente muito dada +e sem ceremonia. É preciso lá ir. Olha, +ámanhã podes +ir visital-as. É um passeio bonito. +<br /> + +<br /> + +Henrique, que tinha estado distrahido durante a +conversa das duas, nem se dava ao trabalho de intervir +no dialogo em que ellas dispunham já do seu +tempo e traçavam-lhe planos de vida. +<br /> + +<br /> + +―Mas vae descançar, menino, vae e faze por +dormir. Olha lá, tu costumas dormir com luz? +<br /> + +<br /> + +―Não, tia, não costumo. +<br /> + +<br /> + +―É porque n'esse caso... Ó Maria, onde +está +aquella lamparina, que me serviu quando eu estive +doente, ha seis annos? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[35]</span> +―Está lá dentro, senhora; se a senhora quer +eu... +<br /> + +<br /> + +―Vê lá, menino... +<br /> + +<br /> + +―Não tia, não quero. +<br /> + +<br /> + +―Ha pessoas que não podem dormir ás +escuras―dizia +a criada.―Eu, graças a Deus, durmo bem +de qualquer fórma. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, +ó Henriquinho, has de vêr se queres o travesseiro +mais alto ou... +<br /> + +<br /> + +―Muito agradecido, tia Dorothéa, tudo deve estar +bom―disse Henrique, procurando fugir ás +muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que +as duas o iam perseguindo até o quarto. +<br /> + +<br /> + +―Olha, ó menino, tu bebes agua de noite? +<br /> + +<br /> + +―Ás vezes. +<br /> + +<br /> + +―Você poz-lhe agua no quarto, Maria? +<br /> + +<br /> + +―Puz, sim, minha senhora; pois então? Já minha +mãezinha dizia, que antes sem luz do que sem +agua. +<br /> + +<br /> + +―Bem, então está bom. Então muito boa +noite, +menino. +<br /> + +<br /> + +―Boa noite, tia. +<br /> + +<br /> + +―Ai, é verdade. Has de vêr se queres mais roupa +na cama. +<br /> + +<br /> + +―Não hei de querer, não, tia. +<br /> + +<br /> + +―Olha que está muito frio. Você quantos +cobertores +lhe deitou, ó Maria? +<br /> + +<br /> + +―Cinco, senhora. +<br /> + +<br /> + +―Cinco!―exclamou Henrique, quasi horrorisado.―Cinco +cobertores! +<br /> + +<br /> + +―É pouco? +<br /> + +<br /> + +―Pouco?―É de morrer esmagado debaixo +d'elles. +<br /> + +<br /> + +―Ai, quer não! Olha que está muito frio. +<br /> + +<br /> + +―Bem, bem; eu cá me arranjarei. +<br /> + +<br /> + +―Então, muito boa noite. +<br /> + +<br /> + +―Muito boa noite, tia. +<br /> + +<br /> + +E Henrique ia a fechar a porta. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +―Olha...―disse ainda a tia. +<br /> + +<br /> + +Henrique parou. +<br /> + +<br /> + +―Não sei o que é que me esquece... +<br /> + +<br /> + +―Não ha de ser nada, tia; boa noite. +<br /> + +<br /> + +―Não esquecerá?... Eu sei?... Emfim... boa +noite. Ai, é verdade... Sempre é bom ficar com +lumes promptos. +<br /> + +<br /> + +―Ai, sim; lá isso sempre é bom. +<br /> + +<br /> + +―Vês? não que bem me parecia. +<br /> + +<br /> + +―Já lá estão, senhora―disse a criada +de longe. +<br /> + +<br /> + +―Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso +Senhor, menino. +<br /> + +<br /> + +―Muito boa noite, tia. +<br /> + +<br /> + +E Henrique conseguiu fechar a porta. +<br /> + +<br /> + +Estava finalmente só. +<br /> + +<br /> + +―Que desastrada lembrança a minha!―disse o +pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si.―Como +posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que +chama manias aos meus padecimentos? Que futuro +de impertinencias me espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e +pensar eu que só posso voltar para ti á custa de +outra jornada! +<br /> + +<br /> + +O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. +Um alto leito de almofadas na cabeceira e +rodapé de chita, tão alto que se não +dispensava o +auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma +commoda com um pequeno espelho, um bahú, um +lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam a mobilia +toda. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos +objectos de toucador, a que estava habituado. +Aquelle estrictamente necessario não lhe promettia +grandes confortos. +<br /> + +<br /> + +Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo +e respirava um asseio e frescura convidativos: +os travesseiros, de largos folhos engommados, possuiam +uma molleza agradavel ás faces; o colchão +de pennas abatia-se suavemente sob o peso do corpo +fatigado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +Henrique conchegou a roupa a si; á falta de velador, +pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo +um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a ler, para +obedecer a um habito adquirido. +<br /> + +<br /> + +Não teria ainda lido um quarto de pagina, quando +ouviu a voz da tia Dorothéa, que lhe dizia de +fóra +da porta: +<br /> + +<br /> + +―Ó menino, tu já te deitaste? +<br /> + +<br /> + +―Já, sim, tia Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +―Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um +mêdo de fogos! +<br /> + +<br /> + +―Esteja descançada, tia. Eu apago já. +<br /> + +<br /> + +―Então será melhor. S. Marçal nos +acuda. +<br /> + +<br /> + +E afastou-se, rezando ao santo. +<br /> + +<br /> + +Henrique continuou a ler. +<br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco a mesma voz: +<br /> + +<br /> + +―Tu já dormes, Henriquinho? +<br /> + +<br /> + +―Não, tia, ainda não durmo. +<br /> + +<br /> + +―Olha que não vás adormecer sem apagar a +luz. Eu tenho um mêdo de fogos! Não +descanço, +emquanto não vejo tudo apagado em casa. +<br /> + +<br /> + +Henrique perdeu a paciencia. +<br /> + +<br /> + +―Pois pode socegar, olhe. +<br /> + +<br /> + +E apagou a véla, meio zangado. +<br /> + +<br /> + +―Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e +é +melhor fazer por dormir. Então, muito boas noites. +<br /> + +<br /> + +―Muito boas noites―respondeu Henrique quasi +amuado; e ageitando-se na cama, dizia comsigo:―E +esta! Já vejo que nem ler me é permittido aqui. +Olhem que vida me espera! É isto o que me devia +curar? Que fatalidade! +<br /> + +<br /> + +Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de +papa, unicos que conservava dos cinco primitivos, +começaram a fazer o seu effeito, insinuando nos +membros cançados da jornada um agradavel calor. +Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque +que ficava por debaixo das janellas do quarto e as +gottas da chuva, que dos beiraes do telhado caíam +compassadas na taboa do peitoril. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +A noite socegára. De quando em quando apenas +algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam +bater as vidraças. +<br /> + +<br /> + +Eram como estes estados, que succedem a um +choro aberto. Correm ainda algumas lagrimas nas +faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem +ainda do peito os soluços, porém mais +espaçados; +dentro em pouco será completa a serenidade. +<br /> + +<br /> + +Henrique começou a experimentar uma languidez, +um delicioso bem-estar n'aquelle confortavel +leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe +enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente, +no mais profundo, tranquillo e restaurador +somno, que, havia muito tempo, tinha dormido. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>III +</h4> + +<br /> + +Ao romper da manhã, quando a consciencia +principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos, +até então tomados pelo torpôr de um +somno profundo, +Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente +sentado em uma cadeira de S. Carlos, +disposto a assistir ao desempenho de uma opera +favorita. +<br /> + +<br /> + +Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos +e contrabassos; sopravam, a plena bôca, +os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam +descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; +dedos amestrados faziam vibrar as cordas da +harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os +ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique, +de toda esta riqueza de instrumentação, mais +do que uma nota unica, arrastada, continua, plangente, +baixando e subindo na escala dos tons, e sem +formar uma só phrase musical. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +Era de desesperar um <em>dilettante</em> como +elle; torcia-se +na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça, +fazia das mãos cornetas acusticas, e sempre +o mesmo resultado! +<br /> + +<br /> + +Este violento estado de attenção, este +esforço do +sensorio, principiou n'elle a obra de despertar; principiou +pois pelos ouvidos, mas cêdo se transmittiu +a todos os outros orgãos. +<br /> + +<br /> + +Antes de dar a si proprio conta do que era +aquelle som, e quasi esquecido ainda do logar em +que estava, Henrique abriu os olhos. +<br /> + +<br /> + +A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas +das janellas e espalhava no aposento uma tenue +claridade. +<br /> + +<br /> + +Veio então a Henrique a consciencia do logar +em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou +o coração. +<br /> + +<br /> + +O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de +pesadêlos, ou de somnos febris, não avalia por +certo +o contentamento intimo, que se apossa das desgraçadas +victimas d'esses demonios nocturnos, quando +por excepção elles as deixam em paz, e lhes +respeitam +o somno de uma noite completa. Acordar +só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis +prazeres, a que elles aspiram na vida. +<br /> + +<br /> + +Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor; +a arca do peito expande-se-lhes mais livre e +as sombras do espirito dissipam-se-lhes com aquelle +clarão matinal. +<br /> + +<br /> + +Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira +vez depois de muitos mezes, dormira de um somno +a noite inteira. +<br /> + +<br /> + +Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, +tão +contente que teve vontade de cantar. +<br /> + +<br /> + +Mas o som, que o acordára, aquella nota unica, +em que se confundiam todas as notas da sonhada +orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos. +<br /> + +<br /> + +Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu +que era o chiar dos carros―o mesmo som, que +<span class="pagenum">[40]</span> +na vespera o irritára, agora assim a distancia, estava-lhe +agradando, como nota extrahida por mão +habil das cordas de um violino. +<br /> + +<br /> + +Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella +manhã o incitava ao exercicio, rara +disposição no +indolente filho da capital, que tinha por habito ouvir +o meio dia na cama. +<br /> + +<br /> + +Ergueu-se e abriu as janellas. +<br /> + +<br /> + +Não é licita a comparação +entre a mais surprehendente +transmutação de uma d'essas apparatosas +magicas, que tanto extasiam as multidões embasbacadas +nas plateias e camarotes de um theatro, e +as que de instante para instante, realisa a natureza. +Descerrando o véo de nuvens que encobre o fulgor +do sol, elevando, acima do horizonte, esse magestoso +lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor +que illumina as noites desanuviadas, a natureza +opéra, a cada momento, as mais admiraveis e completas +metamorphoses. +<br /> + +<br /> + +Durante o somno de Henrique realisára-se um +d'esses effeitos magicos. +<br /> + +<br /> + +Abrandára gradualmente a violencia do sul; o +vento, mudando, voltou em sentido opposto a +grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens; +luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram +perante o alvor do dia, e quando o sol +assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe +deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, +que tinha a percorrer. Só, muito para o occidente, +ainda algumas nuvens amontoadas formavam +uma como franja, que o astro nascente em breve +tingiu de carmim e de ouro. +<br /> + +<br /> + +Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, +cheia de aromas, que vem dos campos nas alvoradas +serenas que penetraram no quarto de Henrique, +quando elle abriu as janellas. +<br /> + +<br /> + +A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito +uma exclamação de prazer! +<br /> + +<br /> + +A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste +<span class="pagenum">[41]</span> +que, com o coração apertado, +atravessára na vespera, +parecia outra. +<br /> + +<br /> + +O sol da manhã baixára sobre ella, +dissipára-lhe +as sombras, colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe +nas presas, dispersára-se em iris cambiantes na +espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a +de aromas, animára-a de cantos, transformára-a +emfim na mais risonha paizagem, em que +os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas +galas do Minho, tinham nunca repousado. +<br /> + +<br /> + +O inverno despojára parte d'essas galas; embora! +Até da propria nudez de algumas arvores resultavam +encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos, +as moitas sem flores infundem tristeza; mas +não tem a tristeza poesia tambem? Pode haver +completa paizagem onde não haja uns tons escuros +de melancolia? +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de +pedra do quarto, não se cançava de admirar +aquella +scena. +<br /> + +<br /> + +Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, +que, n'um momento, elevam, nos ermos, jardins +e paços, como os de Armida e Alcina. +<br /> + +<br /> + +Pois era esta a mesma aldeia, através da qual +elle cavalgára de noite? +<br /> + +<br /> + +Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que +tão do fundo da alma amaldiçoára na +vespera, produziam, +vistos então d'alli, os mais pittorescos effeitos. +Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo +valle, opulento em vegetação, e que a certa +distancia +se continuava insensivel e gradualmente com +uma amenissima collina. +<br /> + +<br /> + +Além, um bello bosque de carvalhos seculares, +que o inverno, privando-os de folhas, tingira quasi +da côr da violeta, contrastava com a fronde sempre +verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde +por entre a qual se divisavam abundantes os dourados +fructos, poupados pela mão do lavrador. As +copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, +<span class="pagenum">[42]</span> +desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras +as mais suaves ondulações. Dispersos aqui e alli, +e entremeiados com a verdura, grupos de casas +campestres, alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, +noras toldadas de ramadas conicas, eiras, +pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau +humor trilhára na vespera, tão sinistras +então, como +graciosas agora; extensas e virentes campinas e +lameiros, onde pastavam numerosas manadas de +gado. Mais longe a igreja com a sua alameda á +entrada e o cemiterio, onde um só mausoléo +avultava +ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida +pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas +heras, revestidas de musgos, douradas de lichens; +finalmente, tudo o que tenta os paizagistas, +tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende +os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, +um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe +a apparencia de uma das mimosas composições +a pastel da mão de Pillement. +<br /> + +<br /> + +A mudança de aspecto da scena operou não menor +mudança nos sentimentos e disposição +do +enlevado espectador que das varandas de Alvapenha +a estava observando. +<br /> + +<br /> + +―É preciso sair! é preciso sair!―disse Henrique +comsigo.―Quero vêr isto de perto; quero +entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por +aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras. +<br /> + +<br /> + +E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade +de uma escrupulosa <em>toilette</em>, saiu do +quarto. +<br /> + +<br /> + +Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o +saudou amavelmente. +<br /> + +<br /> + +―Muito bons dias, menino, então como passaste +tu a noite? +<br /> + +<br /> + +―Deliciosamente minha querida +tia―respondeu +elle, abraçando-a com maior affecto e bom +humor do que na vespera. +<br /> + +<br /> + +O que é sentir-se a gente bem! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +―Então não estranhaste? +<br /> + +<br /> + +―Estranhei immenso! +<br /> + +<br /> + +―Sim?!―disse a tia, mortificada. +<br /> + +<br /> + +―Dormi a noite de um somno, e acordei bem +disposto; o que para mim é a mais estranha das +occorrencias. +<br /> + +<br /> + +A tia sorriu satisfeita. +<br /> + +<br /> + +―Pois antes assim. E agora... +<br /> + +<br /> + +―E agora quero sair, quero vêr esta terra, que +me está parecendo um paraiso terreal. +<br /> + +<br /> + +―Espera, menino. Não vás sem almoçar. +<br /> + +<br /> + +―Almoçar! Pois que horas são? +<br /> + +<br /> + +―Não é cêdo; são +já sete horas. +<br /> + +<br /> + +―Já sete horas! +<br /> + +<br /> + +E Henrique insensivelmente desviou os olhos +para a janella, para vêr como era a natureza, a uma +hora a que raras vezes a examinava. +<br /> + +<br /> + +―E então acha que se pode almoçar ás +sete +horas? +<br /> + +<br /> + +―Por que não? Se está já prompto. +<br /> + +<br /> + +―Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse +os habitos da aldeia. Principiemos por este. +<br /> + +<br /> + +Entrando para a sala do jantar, Henrique viu +deante de si uma taça de leite espumante, tépido, +odorifero, extrahido de pouco tempo. +<br /> + +<br /> + +Foi por elle que principiou o almoço. +<br /> + +<br /> + +Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido +o leite verdadeiro, o leite que não faz mentir a +analyse dos chimicos, de que os physiologistas exaltam +as qualidades nutritivas, de que os poetas das +georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora +os comprehendeu elle, que bem differente d'aquillo +era o aguado e quantas vezes derrancado sôro, a +que estava habituado na cidade. +<br /> + +<br /> + +D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, +servindo, +falaram, segundo o costume, continuadamente. +<br /> + +<br /> + +Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas. +<br /> + +<br /> + +Ouvia-as já com mais attenção e +respondia-lhes com mais vontade e paciencia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[44]</span> +Falaram em muitas coisas. +<br /> + +<br /> + +A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas +da vizinhança, sabendo-o chegado, lhe tinham +mandado presentes de gallinhas, offerecendo-se, ao +mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da +terra; disse mais que as senhoras da quinta do +Mosteiro tambem tinham já mandado saber d'elle, +Henrique, e lembrou que seria delicado ir visital-as +aquella manhã. +<br /> + +<br /> + +Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar +em quê, e terminando o almoço apressou-se a sair +para o campo. +<br /> + +<br /> + +―E se te perdes, menino?―lembrou a tia. +<br /> + +<br /> + +―Se me perder, farei por achar-me. +<br /> + +<br /> + +Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir. +<br /> + +<br /> + +Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, +que tambem então lhe parecia graciosa, de uma +graça bucolica, a que não estava habituado. O +aspecto +melancolico da vespera desvanecera-se. Até +para ser completa a mudança, estavam encadeados +nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas graças +comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos. +<br /> + +<br /> + +Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo +quanto via lhe era novidade, tudo lhe captivava a +attenção e o distrahia dos seus lugubres +pensamentos. +<br /> + +<br /> + +Depois de muito andar, de subir collinas, de descer +valles e costear ribeiros, foi sair a um pequeno +largo, ao fim do qual havia uma casa terrea, caiada +de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas, +sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos +por papel. Á porta d'esta casa estava muita +gente parada; mulheres, velhos, moços, +creanças, +uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados +á umbreira, e todos apparentemente aguardando +alguma coisa ou alguem do lado de uma das +ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se +dirigiam todos os olhares. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +Henrique approximou-se d'esta casa com alguma +curiosidade, que cêdo satisfez, vendo em uma taboleta, +suspensa no alto da janella, a seguinte pomposa +inscripção: +«Repartição do correio», e, +como +a confirmar o distico, um córte feito na porta para +a recepção das cartas. +<br /> + +<br /> + +Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado +do correio para lhe serem remettidas a Alvapenha +as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique +entrou na repartição. +<br /> + +<br /> + +Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com +um banco de pinho e dividida por um mostrador, +para dentro do qual se alojava todo o pessoal do +serviço, isto é, um homem por junto; e era este o +sr. Bento Pertunhas, personagem importante na +terra, e a cuja intelligencia e solicitude estavam confiadas +mais do que uma funcção. Além de +servir, +em interinidade permanente, como muitas vezes são +as interinidades do nosso paiz, este cargo, dito por +elle, de «director do correio», estava de posse s. +s.<sup>a</sup> de uma das cadeiras de latim e de +latinidade, com +que se procura em Portugal fomentar nos concelhos +ruraes o gôsto pelas lettras antigas; era ainda +regente e director da philarmonica da terra, armador +de igreja em dias festivos, ensaiador de autos +e entremezes populares, e, quando Deus queria, auctor +de alguns tambem. +<br /> + +<br /> + +Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre +funccionario tirou cortezmente o seu bonnet +de pelle de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar +tão honrosa visita. Nos cumprimentos +que formulou disse o nome de Henrique. +<br /> + +<br /> + +Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou +o latinista e, achando-o muito informado de +tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu-se de que +estava na presença de um esmerilhador de vidas +alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar. +<br /> + +<br /> + +Com o fim de cortar a divagação, em que o homem +<span class="pagenum">[46]</span> +entrára a respeito de certa viagem que fizera +a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio não +chegára ainda. +<br /> + +<br /> + +―Saiba v. s.<sup>a</sup> que ainda +não―respondeu o +sr. Bento Pertunhas―mas não deve +tardar; o +homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se +bem andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro +de gente, que v. s.<sup>a</sup> ahi vê +á porta, +está á espera +d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do Brazil, +ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da +paciencia. +Isto é um inferno! Eu sirvo este logar interinamente, +emquanto o empregado está paralytico; +porque eu tenho outro cargo publico; sou professor +de latinidade. +<br /> + +<br /> + +―Ah!... +<br /> + +<br /> + +―É verdade, mas a minha vocação era +para as +artes. Meu pae queria que eu fôsse padre e mandou-me +ensinar latim; mas já então a minha +paixão +era a musica. Eu ainda queria que v. s.<sup>a</sup> me +ouvisse tocar trompa, que é o instrumento que mais +tenho estudado... Se v. s.<sup>a</sup> se demorar +ha de fazer-me +o favor... +<br /> + +<br /> + +―Com muito gôsto. +<br /> + +<br /> + +―Não poder um homem seguir no mundo a sua +vocação! +<br /> + +<br /> + +―Ainda assim não se pode queixar muito. O +cultivo das lettras latinas deve-lhe proporcionar gosos; +porque emfim para quem possue instinctos +de arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo +contra +as agruras da vida. +<br /> + +<br /> + +O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos +muito abertos. +<br /> + +<br /> + +―Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! +Então parece-lhe que pode achar-se gôsto em +lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe +uma vontade!... O latim!... a mais destemperada +e desesperadora lingua que se tem falado +no mundo! Se é que se falou―accrescentou em +voz baixa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +―Então duvida que se falasse latim?―perguntou +Henrique, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Eu duvido. Não sei como os homens se podessem +entender com aquella endiabrada contradança +de palavras, com aquella desafinação que faz +dar volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o +que é uma casa desarranjada, onde ninguem se +lembra onde tem as suas coisas quando precisa +d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é +o que é o latim. Abre a gente um livro e põe-se a +traduzir e vae dizendo: «As armas, o homem e eu, +canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem percebe +isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em +outras, que elles punham ás vezes em casa do diabo, +e façam uma coisa que se entenda! É quasi +uma adivinha. Ora adeus! E depois―continuou +elle, enthusiasmado com o riso de Henrique, suppondo-o +de approvação―e depois as differentes +maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem +tem graça. Nós cá dizemos por exemplo: +«reino e +reinos» e está acabado; lá +não senhor; diz-se <em>regnum</em> +e <em>regna</em> e +<em>regni</em> e +<em>regno</em> e +<em>regnis</em> e até +<em>regnorum</em>. Ora venham-me +cá elogiar a tal lingua! +<br /> + +<br /> + +Henrique estava achando delicioso o odio entranhado +de mestre Bento Pertunhas á latinidade que +ensinava com a proficiencia, que o leitor pode imaginar, +depois do que ouviu. +<br /> + +<br /> + +―Ai, meu caro senhor―continuou o atribulado +<em>magister</em>―eu se me vejo um dia livre +d'este amaldiçoado +latim, faço uma fogueira, na qual me hei de +regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos +tres. +<br /> + +<br /> + +É de advertir que mestre Bento falava sempre +no plural, ao referir-se a Virgilio. +<br /> + +<br /> + +Quer-me parecer que para este interprete da litteratura +latina tinham de facto existido tres Virgilios, +provavelmente irmãos, e cada um auctor de +cada um dos tres volumes da edição, que lhe +servia +de texto. Dizia Virgilio 1.º, 2.º e 3.º, +como quem +<span class="pagenum">[48]</span> +se refere aos monarchas homonymos, que succederam +n'um mesmo reino. +<br /> + +<br /> + +―Não me salvo se morro mestre de latim―proseguia +elle.―Afunda-me no inferno o trambolho da syntaxe. +<br /> + +<br /> + +Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique +viu fóra da porta, principiou em desordenada azafama +a entrar para a loja, que em breve não comportava +mais ninguem. +<br /> + +<br /> + +―Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. +Graças a Deus, que ahi vem!―diziam todos +á +uma. +<br /> + +<br /> + +O funccionario principiou a impacientar-se. +<br /> + +<br /> + +―Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem +favor de me dizer? Saiam, saiam. Não ouvem? Então +não fazem caso das minhas ordens? +Dêem +logar. Não vêem que estão molestando +este senhor?<br /> + +<br /> + +Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, +ao vêr que os outros não obedeciam ás +ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo, +como se lhe valesse algum especial privilegio. +<br /> + +<br /> + +―Saia você, mulher―dizia um. +<br /> + +<br /> + +―E você por que não sae? Olha agora! +<br /> + +<br /> + +―A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver +carta lh'a darão. Lá por estar aqui +não é que... +<br /> + +<br /> + +―Pois então saia tambem. Ora essa! +<br /> + +<br /> + +―Ó santinha, não empurre. +<br /> + +<br /> + +―Ó filho, quem é que lhe faz mal? +<br /> + +<br /> + +―Por onde é que se quer metter, homem de +Deus? +<br /> + +<br /> + +―Eu não sou menos que os outros. +<br /> + +<br /> + +―Que quereis vós d'aqui, canalhada? +<br /> + +<br /> + +―Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.<br /> + +<br /> + +―Espera que eu te falo. +<br /> + +<br /> + +Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor +tumultuoso as agudas declamações do +«director do +correio», o qual obrigou Henrique a passar para +dentro da teia, para se salvar das ondas populares. +<br /> + +<br /> + +Henrique estava achando igualmente curiosa a +<span class="pagenum">[49]</span> +indignação do homem e a alvoroçada +anciedade do +povo. +<br /> + +<br /> + +Ha de facto poucas scenas tão animadas, como +a da chegada do correio e da distribuição das +cartas +em uma terra pequena. Durante a leitura dos +sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, +um observador, que estude attento as impressões +que essa leitura opéra nos semblantes dos +que ávidos a escutam, como que vê levantar-se +uma ponta de cortina, corrida a occultar-nos as +scenas da comedia ou da tragedia da vida de +cada um. +<br /> + +<br /> + +Que hora de commoções aquella, em que se +abrem as malas, onde veem encerrados porventura +os destinos de tantas pobres familias! Quantas +vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham +as desgraças e os pezares! +<br /> + +<br /> + +Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; +passam-se no recato dos gabinetes de cada +um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem +segurado com mão trémula na correspondencia, +que o correio lhes traz; no anciar do coração com +que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos +com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel +movimento de desespero com que a amarrotam depois, +ou nas expansões apaixonadas com que beijaram +o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, +multipliquem depois esses affectos todos, despojem-os +das reservas que a etiqueta impõe ás classes +mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um +mesmo momento e n'um mesmo logar, e digam se +concebem muitas outras scenas, em que mais sentimentos +e paixões se agitem em lucta travada. +<br /> + +<br /> + +Chegou emfim o homem das cartas, e a custo +conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou +a mala. O «director», depois de tossir, de +assoar-se, +de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, +que formavam com a anciedade do povo um +contraste desesperador, abriu fleugmaticamente o +<span class="pagenum">[50]</span> +sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de +cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou +apontamentos. +<br /> + +<br /> + +Era digno do pincel de um artista aquelle grupo +de physionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos +de mestre Bento. Olhos e bôcas abertas, +mãos juntas, pescoços estendidos, a +cabeça inclinada +para receber o menor som, tudo caracterisava +profundamente a anciedade que lhes dominava os animos. +<br /> + +<br /> + +Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada +para dizer a Henrique: +<br /> + +<br /> + +―Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem +mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me +gabar, +mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão. +<br /> + +<br /> + +Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o +a consternação d'aquellas physionomias. Resolveu +valer-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Tem a bondade de vêr se ha alguma carta +para mim? +<br /> + +<br /> + +―Ah! pois já as espera hoje? +<br /> + +<br /> + +―Não é provavel; porém... +<br /> + +<br /> + +Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou +em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescriptos.<br /> + +<br /> + +Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo. +<br /> + +<br /> + +A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre +uma voz, ás vezes um grito; estendia-se por cima +das cabeças um braço, e, podemos accrescentar +ainda que se não visse, alvorotava-se um +coração. +<br /> + +<br /> + +Outros, os não nomeados ainda, olhavam com +anciedade para o masso, que diminuia, e cada vez +mais se lhes assombrava o semblante. +<br /> + +<br /> + +―Luiza Escolastica, do logar dos Cójos―lia +mestre Pertunhas. +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!―exclamou +uma mulher joven, apoderando-se ávidamente da carta. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> +―Joanna Pedrosa, de Serzedo―continuava elle. +<br /> + +<br /> + +―Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?―disse +uma velha, pobremente vestida. +<br /> + +<br /> + +―Será do seu Antonio, será―respondeu o +insensivel +funccionario;―o que lhe posso dizer é +que traz obreia preta. +<br /> + +<br /> + +A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a +cair, ouvindo aquellas sinistras palavras. +Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da loja, a +chorar lastimosamente. +<br /> + +<br /> + +―Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que +ha de ser d'ella―disse um dos circumstantes. +<br /> + +<br /> + +―Coisas do mundo!―respondeu outro. +<br /> + +<br /> + +Estes commentarios foram interrompidos pela +continuação da leitura. +<br /> + +<br /> + +―João Carrasqueiro. +<br /> + +<br /> + +―Prompto, senhor―bradou um velho. +<br /> + +<br /> + +―A mezada, hein?―disse Bento Pertunhas, +fitando-o por cima dos oculos.―O rapaz não se +esquece. +<br /> + +<br /> + +―Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom +filho tem saido. +<br /> + +<br /> + +―D. Magdalena Adelaide de... +<br /> + +<br /> + +―É a morgadinha, é a morgadinha―disseram +a um tempo muitas vozes. +<br /> + +<br /> + +―Agradecido pela novidade; era cá muito precisa +a explicação―disse o Pertunhas: e passando +a carta para uma mulher, que era a encarregada de +fazer a distribuição a quem a podia gratificar, +accrescentou: +<br /> + +<br /> + +―Leve-lh'a a casa. +<br /> + +<br /> + +E proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Augusto Gabriel... +<br /> + +<br /> + +―É o mestre-escola... +<br /> + +<br /> + +―Ora fazem o favor de estar calados! Esta... +como elle vem por aqui... pode ficar... ainda +que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve +tambem... +<br /> + +<br /> + +―João Cancella. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[52]</span> +―É o João Herodes. +<br /> + +<br /> + +―Esse foi a Lisboa. +<br /> + +<br /> + +―Então, quando vier, que appareça. +<br /> + +<br /> + +―O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É +compadre d'elle. +<br /> + +<br /> + +―Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé +P'reira que se occupe com o seu zabumba e deixe lá +os outros. +<br /> + +<br /> + +A leitura mais ou menos acompanhada d'estes +dialogos proseguiu, redobrando de momento para +momento a anciedade dos que iam ficando. Um +fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de +desalento, seguiu-se á leitura do ultimo nome e +ás +poucas palavras, com que o funccionario fechou a +tarefa. +<br /> + +<br /> + +―E acabou-se. +<br /> + +<br /> + +Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, +morosos e com tão má vontade, como se +ainda tivessem esperança de commover a inexoravel +sorte. +<br /> + +<br /> + +Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve +de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narração +dos seus passados triumphos artisticos, das suas +amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças +em melhoramentos futuros. Entre as ambições +mais inquietas do mestre, a de obter o logar +de recebedor de comarca, proximo a vagar por a +morte imminente do respectivo empregado, figurava +em primeira linha. +<br /> + +<br /> + +Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu +deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio +que este episodio interrompera, tão satisfeito e distrahido, +que nem apprehensões lhe causava a ideia +de trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, +ideia que, em outra occasião, bastaria para +o fazer doente. +<br /> + +<br /> + +Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a +procurar saida para a deveza, da qual um fundo +vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um +<span class="pagenum">[53]</span> +rumor de vozes, como de alguem, que conversasse +perto d'alli. +<br /> + +<br /> + +Parou a certificar-se. +<br /> + +<br /> + +Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e +na deveza, para onde tentava passar, que se estava +falando. +<br /> + +<br /> + +Espreitou por entre as folhas do silvado que o +encobria, e viu uma scena, que lhe moveu a curiosidade. +<br /> + +<br /> + +Um grupo de creanças e de mulheres do povo +escutavam em pleno ar e com religiosa attenção, a +leitura que uma senhora joven e elegante lhes fazia +das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A +senhora estava montada, não como romantica amazona, +em hacanêa fogosa, mas modesta e simplesmente +n'um digno exemplar d'aquelles pacificos +animaes, a que Sterne não duvidou dedicar algumas +palavras de sympathia nas suas paginas mais humoristicas, +e que Pelletan incluiu entre os collaboradores +da humanidade na grande obra do progresso, +ou, deixando a periphrase, em uma possante e bem +apparelhada jumenta. +<br /> + +<br /> + +Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade +ás ancas e ao pescoço do immovel quadrupede. +<br /> + +<br /> + +A leitora segurava no collo a mais pequena e a +mais nua das creanças do rancho. +<br /> + +<br /> + +Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á +serenidade da manhã e ao socego do logar, ouviam-se +distinctas, á distancia que ficava Henrique, as +palavras, que ella pronunciava lentamente, como +para as deixar penetrar bem na intelligencia do auditorio. +<br /> + +<br /> + +Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, +por a mesma que, momentos antes, vira na casa do +correio. +<br /> + +<br /> + +Mas as suas attenções voltaram-se com +especialidade +para a leitora. +<br /> + +<br /> + +Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa +<span class="pagenum">[54]</span> +figura de mulher, suave, elegante, distincta, um +d'esses typos que insensivelmente desenha uma +mão de artista, quando movida ao grado da livre +phantasia; a côr, essa côr inimitavel, onde +nunca +dominam as rosas, mas que não é bem o desmaiado +das pallidas, encarnação surprehendente, a que +ainda +não ouvi dar nome apropriado. +<br /> + +<br /> + +Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, +não de todo pretos, porém, mais distinctos +ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser alta, +o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, +emfim, com a magestade, com a graça que deviam +ter estas creações da poesia popular, se +fôsse +certo tomarem a fórma de virgens, para matar de +amores. +<br /> + +<br /> + +Não se concebe attenção tão +distrahida, que esta +mulher não fixasse; olhos, que se não voltassem +para seguil-a, depois de a vêr passar; +coração, que +não se perturbasse na sua presença. +<br /> + +<br /> + +Trajava um singelo vestido de xadrez branco e +preto, adornado no collo e punhos apenas por collarinhos +lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente +dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe +occultar as bellezas da airosa conformação; o +chapéo +de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabeça, +espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis +ás bellezas delicadas. +<br /> + +<br /> + +Henrique comprehendeu logo a significação da +scena, a que, tão inesperadamente, viera assistir. +Aquella mulher parára alli, para ler a essa gente +pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido +do correio. +<br /> + +<br /> + +Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida +com o bom modo e com o carinho com que +ella o fazia. +<br /> + +<br /> + +Henrique applicou a attenção. +<br /> + +<br /> + +―...«E por isso, minha mãe»―lia +ella―«se +Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa +terra e darei remedio a tudo. E não me fale +vossemecê +<span class="pagenum">[55]</span> +mais em vender o cordão e as arrecadas. +Diga ao senhorio que tenha paciencia, que eu satisfarei +a tudo.» +<br /> + +<br /> + +Aqui a leitora parou para perguntar: +<br /> + +<br /> + +―Então que historia é esta das arrecadas, Anna? +<br /> + +<br /> + +―É, senhora, que o aluguer estava vencido... +<br /> + +<br /> + +―E não podia falar-me antes de se lembrar do +seu filho? +<br /> + +<br /> + +―Ora, senhora, bem basta o que... +<br /> + +<br /> + +―Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! +Elle que precisa de toda a coragem! +<br /> + +<br /> + +E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas +e das expansões de alegria da ouvinte, mais interessada +n'ella. +<br /> + +<br /> + +Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao +collo, e estendeu a mão a receber a carta, que outra +mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de +consolar. Não se falava alli senão de +contratempos, +de revezes e desesperanças. Mais do que uma vez +teve de suspender a leitura, para mitigar a dôr e +enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na +pobre mulher, a quem era dirigida. +<br /> + +<br /> + +Após esta, ainda outra e outra; uma do marido +para mulher; outra de filho para mãe; outra de +noivo para noiva. +<br /> + +<br /> + +Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia +nas inflexões da voz e no olhar, que ella decifrou +os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado, +pintado e recortado, vinham expressos os +mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda dictou +uma paixão. +<br /> + +<br /> + +A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta +turbação, era evidente que estava exultando +de jubilo. +<br /> + +<br /> + +Com esta terminou a leitura. +<br /> + +<br /> + +Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o +gracioso grupo na carteira, que trazia comsigo. Não +pôde, porém, deixar de dar-lhe um sabor de idade +média, substituindo a jumenta por um palafrem de +<span class="pagenum">[56]</span> +pura raça e dando á donzella, pelos trajes com +que +a desenhou, os ares de uma castellã rodeada dos +seus vassallos. +<br /> + +<br /> + +Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o +de um figurino de convenção. Perdôe-lhe +a arte, +que julgou servir. +<br /> + +<br /> + +Depois de distribuir mais alguns beijos pelas +creanças, a gentil rapariga passou a que tinha no +collo para os braços da mãe e partiu rodeada de +agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de +vista, por entre as arvores do caminho. +<br /> + +<br /> + +Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza +do apurado gôsto, em que não podiam enganar-se +olhos conhecedores, como os d'elle, aquella +preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para +chegar á qual era necessario fazer uma comprida e +laboriosa jornada! D'onde viera ella e como? que +nuvem a trouxera? que viração a +transportára? +<br /> + +<br /> + +Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando +se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar +alguem do grupo, já não ia a tempo; tinham +dispersado. +<br /> + +<br /> + +Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi +sentar-se no logar, em que lhe apparecera a visão e +ahi se demorou algum tempo; mas lembrando-se de +que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar +ás promessas feitas á tia Dorothéa, e +que eram: +a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar +em casa pouco depois do meio dia, para não transtornar +a regularidade dos habitos domesticos em +Alvapenha. +<br /> + +<br /> + +Pediu pois a uma creancinha que passava, que o +guiasse á quinta do Mosteiro, e ahi chegou depois +de um quarto de hora de caminho.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[57]</span> +<h4>IV +</h4> + +<br /> + +A casa do Mosteiro, com a quinta annexa á casa, +como o dava a entender o nome, pelo qual o povo +a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem +monastica. +<br /> + +<br /> + +Era um d'estes conventos campestres, que hoje +ou se encontram em ruinas ou transformados em +solar de alguma <em>notabilidade</em> +provinciana. Ao de que +falamos coubera o ultimo destino. +<br /> + +<br /> + +Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na +lista dos bens nacionaes, fôra, por insignificante +preço, vendido a um modesto proprietario das +immediações, +mais arrojado do que os vizinhos, ou +mais convencido da estabilidade da nova ordem de +coisas politicas, que se inaugurava no paiz. +<br /> + +<br /> + +E em tão auspiciosa hora lhe acudira aquella +inspiração, +que, em pouco tempo, lhe restituia a quinta +o capital empregado, regalando-o todos os annos +com não calculados juros, e elle, sem intermittencias, +cresceu d'ahi por deante em prosperidade a +ponto de deixar, ao morrer, a familia no numero +das mais abastadas d'aquella terra. +<br /> + +<br /> + +A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos +e reformas effectuados n'ella, offerecia, +ainda claros, muitos vestigios de seus primitivos +usos. Não era raro encontrar-se, aqui e alli, em +pé +uma cruz de pedra marcando antigos logares de +devoção; no alto de algumas portas conservava-se +visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de +inscripções latinas; nas paredes da arcaria, em +que +se apoiava a face posterior do edificio, mantinha-se +ainda um azulejo contemporaneo dos frades; finalmente +resistira a successivas reformações certo +colorido +<span class="pagenum">[58]</span> +monastico, que só após muitos annos se +dissiparia +de todo. +<br /> + +<br /> + +Entrava-se para a propriedade por uma larga, +comprida e magestosa álea de sobreiros seculares, +alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, por +pouco trilhada, crescia espêssa e verdejante. Abria-se, +ao fim d'esta rua, o alto portão do pateo. +<br /> + +<br /> + +Henrique, deixado só pelo guia ao chegar alli, foi +caminhando vagarosamente por esta avenida, dominado +por a intima commoção e sentimento quasi de +temor, que se apodera de nós, em todos os logares +a que se ligam memorias do passado. +<br /> + +<br /> + +A phantasia estava-o transportando a tempos, a +que não chegavam já as suas +recordações, ás épocas, +em que, por entre estas arvores gigantes, se via +passar, como um phantasma, o habito escuro do +monge, cuja sombra o sol, ao declinar no horizonte, +tantas vezes projectou, esguia e estirada, ao longo +d'aquella mesma avenida. +<br /> + +<br /> + +Impressionado por esta ordem de pensamentos, +chegou Henrique ao portão, transpondo o qual se +introduziu no pateo. Era um largo terreiro de perfeita +fórma rectangular, limitado ao fundo pela fachada +da casa, e lateralmente por elevadas paredes, +armadas á maneira de pannos de Arrás, com +tapeçarias +de vigorosas heras. A cada uma das paredes +encostavam-se dois tanques de vasta capacidade. +<br /> + +<br /> + +No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as +feias e enormes carrancas de todos estes quatro +tanques grossos jorros de fresca e purissima agua; +porém as medidas economicas do ultimo proprietario +e as exigencias dos seus projectos agricolas haviam +derivado para outros fins, parte d'esta abundante +veia, de maneira que tres d'aquellas bacias +estavam agora completamente a sêcco. +<br /> + +<br /> + +Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, +os funchos odoriferos, havia muito que tinham +invadido a bôca dos encanamentos inuteis onde +encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas +<span class="pagenum">[59]</span> +e myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias +de caracoes. +<br /> + +<br /> + +A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel +pelo lado architectonico. A arte não tivera fadigas, +ao concebel-a; o cinzel pouco se embotára a executal-a; +nem uma columna singela, nem um florão, +nem um tympano lhe davam a menos pretenciosa +apparencia monumental. Imagine-se uma vasta casaria +de um andar além do terreo, com muitas janellas +de peitoril e uma só varanda de pedra sobranceira +á porta principal; acima do telhado, uma +especie de agua furtada, de construcção +evidentemente +posterior e aconselhada aos proprietarios +modernos por conveniencias de accommodação +domestica; +e ter-se-ha concebido o edificio. +<br /> + +<br /> + +Emquanto Henrique se occupava a examinar estas +particularidades, um velhito, que, sentado em +um banco de pedra, que havia á porta de casa, se +estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro +do recem-chegado, tossindo e arrastando os +passos. +<br /> + +<br /> + +Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia +rustica, meia urbana, depois de o saudar com grave +cortezia, que deixou a descoberto o +<em>solideo</em> fradesco +com que resguardava a fronte calva, perguntou se +havia alguma coisa, em que o pudesse servir. +<br /> + +<br /> + +Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, +que disse procurar as senhoras, com nova cortezia +lhe fez signal para que o acompanhasse, e ambos +atravessaram o pateo em direcção da casa. +<br /> + +<br /> + +No portal o velho afastou-se de lado com toda a +deferencia para deixar passar Henrique; em seguida +abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, voltando-se, +pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de +annunciar. Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete +de visita, cuja significação teve de explicar, +porque o velho não a comprehendia bem. +<br /> + +<br /> + +A final porém retirou-se por outra porta, levando +o bilhete. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[60]</span> +A sala, em que Henrique ficou esperando, era +toda mobilada com pesadas cadeiras de couro lavrado +e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e +pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, +pertencentes provavelmente aos antigos proprietarios +do mosteiro. +<br /> + +<br /> + +No momento em que o velho servo, que era uma +especie de feitor honorario da casa, abriu outra porta +da sala, para ir annunciar á familia a visita de +Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura +com um tinir de louças e de crystaes, as vozes e +risos de creanças, que falavam ao mesmo tempo. +Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, +e após uma voz de mulher, de timbre fresco e +agradavel, disse audivelmente e como em resposta +ás palavras do criado: +<br /> + +<br /> + +―Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! +Mande entrar para aqui. +<br /> + +<br /> + +O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a +que ainda a mesma voz redarguiu: +<br /> + +<br /> + +―O que não é bonito é fazel-o +esperar. Ande, vá. +<br /> + +<br /> + +Torquato―chamemos-lhe assim, visto que assim +lhe chamaram―appareceu outra vez e fez signal +a Henrique, de que o esperavam na sala immediata. +<br /> + +<br /> + +Henrique que presentiu ir achar-se na presença +de uma mulher nova e porventura bonita, correu, +com instincto de perfeito homem de côrte, os dedos +pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente +o laço da gravata e entrou. +<br /> + +<br /> + +Era completo o contraste d'este aposento com o +primeiro; transpondo aquella porta dissipava-se +todo o perfume antigo, todo o caracter de vetustez, +que até alli reinava em tudo. Era moderno o estuque +do tecto, modernissimo o papel que forrava as +paredes, e a mobilia toda de um cunho de actualidade, +visivel aos olhos menos pesquizadores. Como +para tornar mais frizante o contraste, a presença +do velho feitor estava aqui substituida por a de +<span class="pagenum">[61]</span> +duas creanças, a mais velha das quaes mal passaria +dos seis annos. +<br /> + +<br /> + +O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como +que uma cortina corrida sobre o passado. A +porta, que elle transpuzera, a barreira que separava +dois seculos. +<br /> + +<br /> + +Sentadas no tôpo de uma longa mesa de jantar, +coberta de louça fina ingleza, estavam as duas +creanças que dissemos, com os seus babeiros brancos +e tendo cada qual defronte de si um prato de +odorifera sôpa. Em pé, á cabeceira, +presidia ao +<em>lunch</em> infantil uma mulher, de quem +Henrique só +pôde notar vagamente os contornos geraes do corpo +e não as particularidades das feições, +porque, +ficando voltada de costas á luz das janellas, velavam-lhe +o rosto umas meias sombras, que não favoreciam +o exame. +<br /> + +<br /> + +Ao vêr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente: +<br /> + +<br /> + +―Na aldeia a sala de recepções é +aquella em +que a gente se acha, quando lhe annunciam uma +visita. É assim pelo menos que eu comprehendo o +viver do campo. +<br /> + +<br /> + +―E é assim que eu o aprecio, minha senhora―respondeu +Henrique, approximando-se da mesa. +<br /> + +<br /> + +As creanças, interrompendo a refeição, +fitavam o +recem-chegado com aquelles olhos espantados e +penetrantes, com que ellas, promptamente, e quasi +sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, +decidem para si das sympathias ou antipathias de +que lhes é merecedor um estranho, a quem vêem +pela primeira vez. +<br /> + +<br /> + +A mulher, que presidia ao banquete, não suspendeu +com a entrada de Henrique a occupação domestica, +na qual estava empenhada. Mostrava receber-lhe +a visita com um perfeito «á vontade», +que nada +tinha porém de affectado. +<br /> + +<br /> + +―Não sei se v. ex.<sup>a</sup> sabe...―ia +dizendo Henrique, +quando, ao chegar perto d'ella, parou subitamente +em meio da phrase. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[62]</span> +Na mulher, que estava deante de si, reconheceu +a leitora da deveza, a interessante rapariga, que +tanto o preoccupára. +<br /> + +<br /> + +Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a +mesma cabeça, agora melhor apreciada ainda, porque +nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso +modelo, e os cabellos penteados com tanta +graça como singeleza. Em vez do longo chale de +casimira, trazia agora uma especie de jaqueta, curta +e larga, apertada por alamares, de fórma pouco +mais ou menos similhante á que, na nomenclatura +das modistas, nomenclatura quasi sempre absurda, +e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada +denominação de +<em>zuavo</em>! +<br /> + +<br /> + +A surpreza de Henrique não passou despercebida +a quem era causa d'ella e que lhe correspondeu +com um gesto de curiosa interrogação. +<br /> + +<br /> + +―Perdão, minha senhora―disse Henrique, comprehendendo +aquelle gesto―mas ignorava que vinha +encontrar aqui uma pessoa, que já me não era +estranha. +<br /> + +<br /> + +―E sou eu essa pessoa? +<br /> + +<br /> + +―É v. ex.<sup>a</sup> effectivamente. +<br /> + +<br /> + +―Pois já nos vimos? +<br /> + +<br /> + +―Já... quero dizer, eu já vi v. ex.<sup>a</sup> +<br /> + +<br /> + +―Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que +me não lembra de o ter visto nunca. Apesar d'isso +sei que é o sr. Henrique de Souzellas, +sobrinho +d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; +não é verdade? +<br /> + +<br /> + +―Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.<sup>a</sup> +não é antigo tambem; data de algumas horas +apenas. +<br /> + +<br /> + +A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu +levemente as sobrancelhas bem desenhadas, +fez um movimento de labios e deu á cabeça uma +ligeira inclinação sobre o hombro, d'onde +resultou +para aquella gentil physionomia a mais adoravel +expressão de estranheza, que pode animar um semblante +de mulher. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +―Esta manhã―proseguiu Henrique, a quem os +encantos d'aquelle gesto não tinham passado +despercebidos―assisti +a uma scena commovente. O +logar era uma deveza; uma joven senhora... joven +e... e com outras qualidades, além d'esta, +para excitar attenções, lia, em voz alta, as +cartas +que algumas pobres mulheres do povo acabavam de +receber pelo correio... +<br /> + +<br /> + +Ella não o deixou continuar. +<br /> + +<br /> + +―Ah! entendo agora. Viu-me? Já andava por +fóra? Não o suppunha assim madrugador. Mas onde +estava tão escondido? Vejo que é indiscreto... +Não admira, habitos da cidade. É verdade, +é. Aquella +gente encontrou-me no caminho quando eu voltava +de uma visita a uns parentes pobres, e não me deixou +sem que eu lhe abrandasse a ancia de coração +que a affligia. Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, +já pensou no supplicio que deve ser olhar +a gente para uma folha de papel escripta, na qual +sabemos que se fala de uma pessoa querida, e não +ter poder para decifrar aquelle enygma? Que martyrio! +Eu por mim, confesso que me falta o animo +para recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria +para negar uma gotta d'agua ao desgraçado que +visse a morrer de sêde. A crueldade seria quasi +igual. Não lhe parece? +<br /> + +<br /> + +Henrique formulou um galanteio, que ella porém +não ouviu, entretida já a escutar o que uma das +creanças lhe dizia. +<br /> + +<br /> + +―Lena, olha a Annica, que está a deitar a sôpa +d'ella no meu prato. +<br /> + +<br /> + +―Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro +a deitou no meu. Não tem vergonha de mentir! +<br /> + +<br /> + +―Então―disse Magdalena, que a este nome +correspondia a contracção familiar, de que se +serviam +as creanças.―Olhem agora se teem juizo. +Vejam se querem que eu vá dizer á mamã +que venha +para aqui.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +―Não é ella a mãe, visto isso―pensou +Henrique, +como quem modificava uma opinião que concebera +antes e folgava com a +modificação.―Será +irmã? Talvez... Ou mestra... É mais provavel +que seja mestra. Esta mulher foi de certo educada +na cidade. Tem uns ares distinctos... +<br /> + +<br /> + +E elevando a voz: +<br /> + +<br /> + +―v. ex.<sup>a</sup> está-me recordando uma +scena de um +precioso livro, que nunca me canço de ler. +<br /> + +<br /> + +―Qual é? +<br /> + +<br /> + +―Werther. +<br /> + +<br /> + +―Ah! +<br /> + +<br /> + +―Conhece? +<br /> + +<br /> + +―Conheço... quero dizer, li-o, por acaso, ha +pouco tempo. Compara-me a Carlota? É por estar +a distribuir as rações d'estas +creanças? Que mulher +ha que não seja Carlota, n'essa parte? Em todas as +casas se passa uma scena assim. Bem se vê que +não tem familia. +<br /> + +<br /> + +―Por quê? +<br /> + +<br /> + +―Por lhe fazer tanta sensação o espectaculo +d'esta. +<br /> + +<br /> + +―É certo―respondeu Henrique com melancolia.―Deve +ser essa uma das causas; mas não a +unica―accrescentou galanteadoramente. +<br /> + +<br /> + +E, de si para si, estava encantado de saber que +a sua interlocutora tinha lido Werther. +<br /> + +<br /> + +Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Então que lhe parece esta nossa aldeia? +<br /> + +<br /> + +―Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que +me foi desagradavel a impressão recebida. Nem +admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço. Esta +manhã, porém, a +transformação foi completa. Estou +encantado, fascinado! N'uma palavra, minha senhora, +eu, cidadão em corpo e alma, reconciliei-me em +poucas horas com a vida do campo. +<br /> + +<br /> + +―Desconfie da mudança rapida. Habitos radicados, +qualidades ou defeitos de educação não +se +<span class="pagenum">[65]</span> +perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará +por Lisboa outra vez. +<br /> + +<br /> + +―Talvez não. Hoje estou até em acreditar que +tinha razão o doutor, que me prometteu a cura das +minhas doenças, se me costumasse devéras a estes +habitos campestres. +<br /> + +<br /> + +―Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se? +<br /> + +<br /> + +―Por que não? Hoje já almocei ás sete +horas, +já andei mais do que uma semana inteira ando em +Lisboa. E inda tenho por vêr as raridades da terra. +<br /> + +<br /> + +―As raridades?! E que raridades são essas que +inda tem para vêr? A nossa pobre aldeia não lhe +merece essa ironia. +<br /> + +<br /> + +―Então acha tão pouco curiosa esta terra? Do +quasi nada que d'ella observei esta manhã, parece-me +até... +<br /> + +<br /> + +―Ai, se fala da natureza, é outra coisa. A cada +passo se encontra um ponto de vista, que nos obriga +a uma exclamação. Mas ha por ahi certos +cicerones, +que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas +da arte. Peça a Deus que o livre d'esse flagello. +<br /> + +<br /> + +―v. ex.<sup>a</sup> assusta-me. Embora; se lhes cair nas +mãos, farei por achar curioso o que elles acharem. +Vae ser esse o meu systema de cura. Interessar-me +por tudo o que a um homem da aldeia interessa. +Foi o regimen que me prescreveu o medico, quando +me receitou o campo, a titulo de emolliente; se o +seguir, salvo-me. +<br /> + +<br /> + +―E não o diga a rir. Se quizer prender-se á +aldeia, +abjurar os attractivos da cidade, deve rustificar-se +em tudo; principiar por cultivar o interesse +por as questõesinhas da terra; deve, por exemplo, +declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia +ou pela junta de parochia contra o abbade; ralhar +do regedor na questão com os taberneiros ou defendel-o. +Emquanto não chegar a isso, desconfie da +sua acclimação. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[66]</span> +―Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. +Outra coisa necessaria é deixar-me convencer +ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito das +notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em +perpetua admiração deante de uns certos nomes +famosos +que ha sempre em todas as terras pequenas, +e que nos atiram á cabeça a cada momento. +Por exemplo, aqui já sei de um, com que encherei +a bôca a proposito de tudo; é o de uma celebre +morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouço +falar, desde que puz os pés, ou por mim a alimaria +que me trouxe, n'este productivo torrão. +<br /> + +<br /> + +Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo +isto. +<br /> + +<br /> + +―Então com que, tem ouvido falar muito n'essa +morgadinha? +<br /> + +<br /> + +―Oh! mas não faz ideia; de uma maneira desesperadora. +Não ha pinhal, quinta, azenha, choça +ou lameiro que não pertença a essa entidade, para +mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, +como um estribilho de cantiga popular; na +estrada, nos campos, em casa de minha tia, na loja +do correio, em toda a parte o ouço pronunciar. Parece +que voga nos ares. +<br /> + +<br /> + +―Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer +a pessoa. +<br /> + +<br /> + +―Qual! tem-me impacientado a ponto de nem +perguntar por ella. E demais parece-me que a estou +a vêr. +<br /> + +<br /> + +―Ora diga. Então como a imagina? Annica, não +tens ahi um guardanapo? +<br /> + +<br /> + +―Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e +está dicto tudo; uma senhora nutrida, a rever saude +por todos os póros, encarnada como uma romã, +sobre quem os vestidos á moda assentam como +pendurados de um cabide, as mãos cheias de anneis, +meias luvas de retroz, um chapéo com uma +cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça... +v. ex.<sup>a</sup> ri-se? Acertei? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +―Parece-me que sim; mas julgue-o por si já +que tem á vista o original. +<br /> + +<br /> + +―Como?! +<br /> + +<br /> + +―A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu. +<br /> + +<br /> + +―Vossa Excellencia!... +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do +mundo, esteve por muito tempo sem saber como +sair da situação em que se puzera. +<br /> + +<br /> + +Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos +riam, por contagio, sem saberem de quê. Tudo augmentava +pois a confusão de Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Ora confesse―insistia cruelmente Magdalena―confesse +que o está lisonjeando a exactidão das +suas conjecturas. +<br /> + +<br /> + +Henrique teve emfim uma lembrança. Tirou do +bolso a carteira, em que, horas antes, esboçára +rapidamente +a figura esbelta da morgadinha, rodeada +das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse: +<br /> + +<br /> + +―Veja v. ex.<sup>a</sup> se esse esboço, apesar +da sua +imperfeição, +está de accordo com a estupida +concepção, +que eu formára. +<br /> + +<br /> + +Magdalena lançou a vista para a carteira e sorriu. +<br /> + +<br /> + +―Ah! desenha? +<br /> + +<br /> + +―Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. +Os resultados são lastimosos, como estes. +Perdôe-me o original, que julguei possivel copiar, o +desacato, mas... +<br /> + +<br /> + +Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante. +<br /> + +<br /> + +―Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo +advertil-o de uma coisa, sr. Henrique de Souzellas. +Não ha nada tão mal empregado como uma fineza +no campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez +o achasse pouco delicado... ou pelo menos +pouco amavel, se me não dirigisse d'essas phrases +conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso lá. Aqui acho-as +affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da +scena. Ha tanta semceremonia no campo! Aqui todos +<span class="pagenum">[68]</span> +nos tratamos como parentes: ha de vêr. Não +repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem +nem sequer tirar os babeiros a estas creanças? +Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa... +<br /> + +<br /> + +―Então v. ex.<sup>a</sup> já +lá esteve? +<br /> + +<br /> + +―Eu nasci lá e lá me eduquei. +<br /> + +<br /> + +―Ah! bem se vê. +<br /> + +<br /> + +―Ah? Ahi está um <em>ah</em>, que +eu desejaria muito +que me explicasse. +<br /> + +<br /> + +―Não me será difficil fazel-o. É que +antes já de +ouvir falar v. ex.<sup>a</sup>, só ao +vêr certa +distincção, certa +elegancia de maneiras, conjecturei... +<br /> + +<br /> + +―Basta. É um <em>ah</em> +portanto, que tem umas poucas +de más qualidades. +<br /> + +<br /> + +―Devéras? Uma interjeição +tão innocente! +<br /> + +<br /> + +―Pelo contrario, é a voz mais perfida e inconstante +da nossa lingua; tudo exprime, a hypocrita. +O seu <em>ah</em> é vaidoso, +adulador e iniquo pelo menos. +Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia +que ainda se abrigue no seu coração lisbonense; a +adulação competia-me castigal-a, mas +perdôo-lh'a +porque quero ainda suppôr que é um symptoma da +doença das cidades, a meu vêr, a principal +doença, +que o obrigou a procurar a aldeia; da iniquidade, +da injustiça, que faz á +educação que se pode dar na +provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, +quando eu lhe apresentar minha prima Christina, +uma rapariga, que tem vivido aqui sempre e que +protesta contra essa sua opinião; possue tudo quanto +pode dar de bom a educação das cidades, e, o que +mais vale, aquillo que lá é tão facil +perder-se depressa, +uma candura adoravel. É a irmã mais velha +d'estas creanças―accrescentou, pousando a +mão na cabeça dos pequenos, que comiam e +conversavam +um com o outro. +<br /> + +<br /> + +―Mas v. ex.<sup>a</sup>... +<br /> + +<br /> + +―Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no +caminho das admoestações, permitta-me mais uma, +antes de perder o ar grave, que hei de por força +<span class="pagenum">[69]</span> +ter. Não me sôa bem o impertinente tratamento de +excellencia, que me dá. Essa excellencia está a +pedir-me +uma senhoria, pelo menos, e, confesso-lhe ingenuamente +que me custaria a voltar na lingua uma +palavra tão comprida. +<br /> + +<br /> + +―Como quer então que a trate? +<br /> + +<br /> + +―Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco não me +comparou á Carlota de Goethe? Deixe-me pois adoptar +uma lembrança d'ella. Está certo de que tratou +o Werther por primo, a primeira vez que lhe +falou? É um tratamento como outro qualquer; e +entre nós mais justificado, porque sendo o sr. Henrique +sobrinho direito de D. Dorothéa, e teimando +minha tia Victoria, a mãe d'estes pequenos e de +Christina, que D. Dorothéa é ainda uma especie de +nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós a final +de contas vimos a ser uma especie de primos +tambem. Pelo menos assim o sustentou e decidiu +hontem minha tia Victoria; e ha de vêr como por +primo o tratará! É um tratamento menos +incómmodo; +eu chamar-lhe-hei primo Henrique; chamar-me-ha, +se quizer, prima Magdalena, e desterraremos +para sempre a antipathica senhoria e excellencia; +concorda? +<br /> + +<br /> + +―Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos +o principio falso, admittido pela fidalguia em +Portugal, de que «os primos dos nossos primos, +nossos primos são.» +<br /> + +<br /> + +―Fica pois ajustado? +<br /> + +<br /> + +―Fica ajustado. +<br /> + +<br /> + +―Bem. Mas que ia dizer ha pouco? +<br /> + +<br /> + +―Nem eu já sei... Ah!... Perguntava se tinha +estado muito tempo em Lisboa e o que a obrigou +a vir viver para aqui. +<br /> + +<br /> + +―Isso é nem mais nem menos do que pedir-me +a historia da minha vida. Seja; é um sacrificio inevitavel +a quem se vê pela primeira vez. Deixe-me +primeiro attender a estes pequenos, que eu principio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[70]</span> +E, depois de partir a cada creança uma fatia de +queijo, a morgadinha principiou: +<br /> + +<br /> + +―A historia é curta e sem peripecias, tranquillise-se. +Eu sou filha de Manuel Bernardo de Mesquita +e... +<br /> + +<br /> + +Este nome era o de um dos principaes vultos +politicos da época, e que então militava no campo +opposicionista, sendo indigitado para ministro na +primeira reforma ministerial, homem influente, de +grande capacidade politica, tendo sempre advogado +no parlamento as ideias mais liberaes, e militado no +partido progressista. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas, que conhecia todas as +personagens de importancia no paiz, fitou Magdalena +com olhar estupefacto: tão longe estava de encontrar +alli a filha de um futuro ministro. +<br /> + +<br /> + +―Filha do conselheiro Manuel Bernardo! v. ex.<sup>a</sup>? +<br /> + +<br /> + +―Excellencia! Esquece-se da nossa convenção? +Repare! É verdade. Não sabia que meu pae era +d'aqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda actualmente +n'um collegio em Lisboa, somos os unicos +filhos de meu pae. Nasci, como disse, em Lisboa, +mas as continuas enfermidades de minha mãe fizeram-nos +vir para aqui viver na companhia d'ella; +aqui mesmo morreu, e aqui está sepultada. O Angelo +nasceu já n'esta casa. A morte de minha mãe +deixou-me orphã aos doze annos, e incompleta a +educação que ella principiára a dar-me +e para a +qual, se vivesse, ella só bastaria. Fui pois obrigada +a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha +educação. Mas, ao chegar á idade dos +quinze +annos, receiando meu pae que os ares da cidade +desenvolvessem em mim germens de molestia, que +porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez +para aqui, onde sempre passava alguns mezes no +anno, e para onde me chamavam tambem habitos +adquiridos em creança. Eu sou muito aldeã. Para +aqui vim pois. A morte de meu tio, passado pouco +tempo, impressionou profundamente a minha tia +<span class="pagenum">[71]</span> +Victoria, que ficou desde então um pouco... um +pouco... com pouca paciencia para olhar por as +coisas domesticas. Isto creou-me novos deveres; +havia aqui muitas creanças, estas duas, outras que +estão lá dentro, e Christina, que era +então creança +tambem; occupei-me a ajudar minha tia. +<br /> + +<br /> + +―E tão admiravelmente, que a mais carinhosa +mãe o não faria melhor. +<br /> + +<br /> + +―Dou-me bem com as creanças, dou. E a meu +pae devo, em parte, o ter aprendido cedo esta sciencia. +Porque é uma sciencia tambem. +<br /> + +<br /> + +―Então como procedeu o conselheiro para a ensinar? +<br /> + +<br /> + +―Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas +umas ideias muito singulares. Excellentes as acho +eu. Oh! não imagina que boa e excellente alma é a +de meu pae! Era eu uma +creança, tinha onze +annos, talvez, quando elle, um dia, vindo de Lisboa +passar aqui algum tempo comnosco, me trouxe +uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de +Nuremberg. Nos primeiros dias não me fartava de +a vêr, de a beijar, até commigo a deitava. Oito +dias +depois succedia o que era de esperar, já nem d'ella +sabia. Meu pae notou-o.―Então, Lena―aqui todos +me chamam assim―já não gostas da tua +boneca?―Disse-lhe +eu: Gosto, mas...―Bem sei, já +fizeste tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, +pela sua parte ella nada faz por ti, enfastias-te, canças-te +de conceber, a cada momento, brinquedos +novos. Tens razão; onze annos já não +é idade em +que o interesse se sustente com tão pouco, é +necessario +mais. Ora dize-me, Lena,―continuou elle―se +eu te mandasse vir uma boneca que movesse +os braços e os olhos, que te sorrisse, que chorasse +tambem, que te beijasse até...―Pois ha bonecas +assim?―perguntei eu, admirada.―E desejaval-a?―Oh! +se a houvesse!...―Trago-t'a ámanhã. +Não +dormi aquella noite a pensar na boneca. No dia seguinte +apresentou-me meu pae uma creança de um +<span class="pagenum">[72]</span> +anno, orphã de uma pobre familia, que uma epidemia +extinguira, e disse-me:―Ahi tens a boneca +que te prometti, Lena; vou confial-a aos teus onze +annos. Veremos se tens juizo para brincares com +ella. É assim que eu quero que aprendas os deveres +de mãe, que é a verdadeira sciencia apropriada +a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o +desgosto dos primeiros momentos, porque o tive, +confesso, costumei-me a querer áquella pobre +creança, +fui avara nas suas caricias, troquei por ella todos +os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a +morte, quando, um anno depois, ella me expirou +nos braços. Quando fui para Lisboa, já ia educada +para amar creanças. +<br /> + +<br /> + +Magdalena contára tudo isto naturalmente, sem +a menor affectação, sem deixar até de +attender aos +primos, o que augmentava o interesse com que a +escutava Henrique. +<br /> + +<br /> + +―E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos +Cannaviaes―concluiu ella, desatando o babeiro das +creanças, que tinham terminado o +<em>lunch</em>. +<br /> + +<br /> + +―É verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, +prima Magdalena?―perguntou Henrique, tomando +ao collo uma das creanças, que a morgadinha +pousou no chão. +<br /> + +<br /> + +―É que eu sou realmente a morgadinha dos +Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na +quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui +perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito +caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. +Tomou-me ella affeição, e, sempre que passeiasse, +me havia de levar comsigo; d'ahi começaram +a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando +ella morreu deixou-me tudo quanto possuia; +n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de +que sou proprietaria ainda. Foi uma como +confi +―É que eu sou realmente a morgadinha dos +Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na +quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui +perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito +caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. +Tomou-me ella affeição, e, sempre que passeiasse, +me havia de levar comsigo; d'ahi começaram +a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando +ella morreu deixou-me tudo quanto possuia; +n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de +que sou proprietaria ainda. Foi uma como +confirmação +do titulo, que já desde creança me tinham +dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo +na verdade pouco elegante e que tão mau conceito +<span class="pagenum">[73]</span> +fez conceber ao primo Henrique da possuidora +d'elle. +<br /> + +<br /> + +―Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei +a pessoa a quem elle pertence, parece-me outro. +Acho-o bonito, gracioso... +<br /> + +<br /> + +―Vamos, vamos. Confesse que o titulo não é +dos mais romanticos e que, de boa vontade, escreveria +outro nome debaixo do desenho de phantasia +que ahi fez, da mesma maneira que deu á humilde +e fiel jumenta, que eu montava ha pouco, a +conformação +e orelhas elegantes de um palafrem, e quasi +me transformou em uma amazona ingleza. +<br /> + +<br /> + +Henrique respondeu, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―Na impossibilidade de reproduzir as graças +naturaes, soccorri-me ao expediente das bellezas de +convenção. Confesso o meu deploravel erro. +<br /> + +<br /> + +―Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. +Repare para essas arvores e refreie o sestro +galanteador, com que está. +<br /> + +<br /> + +―Por quem é! Não leve o rigor a tal extremo. +Tão injusta é comsigo, que se recuse a acceitar, +como naturaes e sinceras, as phrases que a sua +presença inspira? +<br /> + +<br /> + +―Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa +creança, que tem no collo, o está encarando com +os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim +aqui! +<br /> + +<br /> + +Henrique beijou as faces da creança, movimento +em que não ia uma intenção menos +lisonjeira do +que nas phrases que dissera, porque elle percebia +que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos +primos. +<br /> + +<br /> + +Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e +entrou, saltando, outra creança mais crescida, mas +ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma folha +de papel. +<br /> + +<br /> + +―Lena―dizia ella em alta voz.―Olha; queres +vêr o que o sr. Augusto só me emendou hoje no +thema francez? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> +Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza +para Henrique. +<br /> + +<br /> + +―É o sr. Henrique de Souzellas―disse Magdalena.―O +hospede da tia Dorothéa. Esta é Marianna, +outra de minhas primas―accrescentou, voltando-se +para Henrique.―Já vê que não faltam +creanças +n'esta casa; e ainda ha mais. É o que lhe dá o +ar alegre que tem. +<br /> + +<br /> + +Marianna cumprimentou Henrique e não se constrangeu +por mais tempo; mostrando á prima a +composição +que o mestre lhe emendára, disse: +<br /> + +<br /> + +―Ora vê que não tive muitos erros. +<br /> + +<br /> + +Magdalena sorria, examinando o thema. +<br /> + +<br /> + +Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Marianna, +quando á mesma porta, por onde ella entrára, +appareceu o mestre, de quem se falava. +<br /> + +<br /> + +Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, +era um rapaz de pouco mais de vinte annos de +idade; de rosto pallido e physionomia intelligente. +<br /> + +<br /> + +Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola +de aldeia. +<br /> + +<br /> + +Trajava com simplicidade, porém com asseio e +gôsto, e havia em toda a sua figura certo ar de +distincção, +que feria quem pela primeira vez o visse. +<br /> + +<br /> + +N'um leve pendor de cabeça, no olhar penetrante +e fixo, e nos labios, como habituados a fecharem-se +á saida dos pensamentos intimos, lia-se o caracter +pouco expansivo d'aquelle adolescente. +<br /> + +<br /> + +Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta +deferencia. +<br /> + +<br /> + +―Como vão os seus discipulos, sr. Augusto? +<br /> + +<br /> + +―Optimamente, minha senhora―respondeu o +interrogado. +<br /> + +<br /> + +―O sr. Augusto―disse Magdalena, apresentando-o +a Henrique―o primeiro mestre de meu irmão +Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo. +<br /> + +<br /> + +―Esquece-se, minha senhora,―accrescentou +Augusto―que de Angelo sou discipulo tambem, e +mais discipulo do que fui mestre. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[75]</span> +―Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não +devia, foi de que de Angelo é effectivamente mais +do que mestre, é amigo; assim como de todos nós. +Este senhor―continuou ella, concluindo a +apresentação―é +o senhor Henrique de Souzellas, que se +esperava em Alvapenha; é ainda nosso primo. +<br /> + +<br /> + +Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza. +<br /> + +<br /> + +―Teve carta de Angelo?―perguntou em seguida +a morgadinha. +<br /> + +<br /> + +―Não recebi ainda o correio de hoje. +<br /> + +<br /> + +―Nem nós; e é de estranhar que meu pae pelo +menos não me escrevesse! Angelo não +virá passar +a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce +quando se vê aqui. É uma perfeita +creança +então. +<br /> + +<br /> + +Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique +ainda não vira, entrou n'este momento na sala, +trazendo um masso de cartas na mão. Depois de +cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, +disse para Augusto: +<br /> + +<br /> + +―A mamã deu-me essas cartas para o sr. Augusto +escolher d'ahi aquellas que eu pudesse ler. +<br /> + +<br /> + +―Eu verei devagar―disse Augusto, guardando-as +n'uma pasta que trazia. +<br /> + +<br /> + +―Ah! já temos o Eduardo a ler cartas!―disse +a morgadinha, afagando o primo. +<br /> + +<br /> + +―Pelo que vejo―disse Henrique de Souzellas, +vendo Augusto em disposições de partir―tem uma +vida muito occupada? +<br /> + +<br /> + +―E tanto que sou obrigado a pedir licença para +me retirar. Tenho de ir esta tarde a casa do Seabra... +<br /> + +<br /> + +―Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?―perguntou +Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Ainda, sim, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +―E como vão essas mulatinhas? +<br /> + +<br /> + +Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto +que não devia lisonjear a vaidade do sobredicto +brazileiro, se tomasse a peito os dotes intellectuaes +das referidas mulatinhas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[76]</span> +Passados segundos, +Augusto retirou-se, apertando +a mão a Magdalena que familiarmente lh'a estendeu, +e a Henrique, que a imitou. +<br /> + +<br /> + +―Ia apostar que vae alli uma intelligencia―disse +Henrique ao vêl-o sair―algum d'esses grandes +espiritos, que vivem e morrem ignorados e +improductivos, porque os não aquece o sol do favor +publico, nem os bafeja a aura da moda caprichosa. +É terra de maravilhas esta, ao que estou +vendo. +<br /> + +<br /> + +―É um rapaz intelligente, é―disse a +morgadinha―e +uma alma generosa. Desde tenra idade +costumou-se a trabalhar. Não tem familia. O pae +foi um pobre e honrado advogado de um logar perto +d'aqui, que morreu quasi na miseria, deixando-o +por educar. A mãe, que era d'estes sitios, para ahi +veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, +mestre de si mesmo. Dirigiu os primeiros estudos +de Angelo e hoje é o seu melhor amigo. A morgada, +minha madrinha, legou-lhe um patrimonio +para elle se ordenar: não quiz, e preferiu ser +mestre-escola. +Meu pae, que lhe reconhecia intelligencia +para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada +conseguiu. Não ha quem o arranque d'estes sitios. +<br /> + +<br /> + +―Prende-o talvez alguma paixão? +<br /> + +<br /> + +―Não sei. É certo que é um professor +modelo. +O seu primeiro despacho foi temporario; agora, +porém, espera meu pae fazel-o effectivo; para o que +já elle fez novo concurso. Já vê que +ambições são +as d'este rapaz. +<br /> + +<br /> + +―Na verdade! com muito menos fundamentos +ha quem aspire a ser ministro. Mas com certeza o +coração entra como elemento no problema d'esse +caracter. +<br /> + +<br /> + +―Mas ainda agora reparo!―exclamou a morgadinha―eu +esquecida a conversar, e sem avisar +a minha tia e Christina da sua chegada! Não o fiz +logo, porque as sabia occupadas em umas longas +novenas, em que andam; mas agora é tempo. Vae, +<span class="pagenum">[77]</span> +Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos dizer-lhes que +está aqui o... o primo Henrique de Souzellas. +<br /> + +<br /> + +Marianna e o irmão sairam a correr. +<br /> + +<br /> + +―Vae conhecer duas boas almas―disse Magdalena, +voltando-se para Henrique―minha tia é uma +santa senhora, cujo peor defeito é suppôr-se +victima +dos criados; e Christina... Christina é um anjo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>V +</h4> + +<br /> + +Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais +penetrado da sympathia, que logo á primeira vista, +aquella mulher lhe despertára. +<br /> + +<br /> + +Havia na morgadinha um mixto de candura e de +ironia, certa delicada reserva fluctuando, como uma +sombra diaphana, na conversa familiar, a que tão +espontaneamente se dava; um visivel conhecimento +dos usos e etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo +uma coragem para cortar por elles, como quem se +sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás +suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas +n'aquella sympathica indole feminina, que poucos +seriam impassiveis deante d'ella. +<br /> + +<br /> + +A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, +calado, immovel, absorto, seguindo com os olhos +os movimentos de Magdalena, que, sem o menor +constrangimento, proseguia nas suas occupações +domesticas. +<br /> + +<br /> + +Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes +timbres na sala immediata. +<br /> + +<br /> + +―Ellas ahi veem―disse a morgadinha. +<br /> + +<br /> + +De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram +na sala D. Victoria e Christina. +<br /> + +<br /> + +A mãe vinha dizendo: +<br /> + +<br /> + +―É o que eu digo... Não que vocês +não querem +<span class="pagenum">[78]</span> +crer! Ora vejam se isto se atura... se isto não +é para metter uma pessoa no inferno!... Não tem +que vêr!... Não ha ninguem que mais dinheiro +gaste com criados e que seja tão mal servida como +eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados +d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o +que elles fazem, esse bando de mandriões!... Elle +é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o +Damião, elle é +a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante... +e +não havia um só que me viesse dizer que tinha +chegado +o primo! É forte coisa!... Compromettem +uma pessoa! Então como está?―accrescentou ella, +mudando de tom para cumprimentar Henrique, a +quem estendeu a mão. +<br /> + +<br /> + +Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este +um olhar malicioso. +<br /> + +<br /> + +Henrique correspondeu delicadamente á +saudação +das senhoras e procurou justificar os criados. +<br /> + +<br /> + +―Não m'os desculpe,―atalhou D. Victoria, elevando +outra vez o tom de voz―aquillo é de proposito +para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem +me tira isto da cabeça... Aquillo é de proposito! +<br /> + +<br /> + +―Mas a mamã não vê que as criadas +estavam +comnosco á novena?―lembrou timidamente Christina. +<br /> + +<br /> + +―Pois que não estivessem. Quem tem serviço a +fazer não pode ouvir novenas. +<br /> + +<br /> + +―Mas se a mamã é que as mandou! +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... pois sim... mas... mas ellas é +que me deviam dizer que tinham que fazer. Então +eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas +obrigações? +Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, +menina! Mas então vamos a saber, primo Henrique, +fez bem a sua jornada? +<br /> + +<br /> + +Henrique principiou a falar para desvanecer a +irritação +de D. Victoria. +<br /> + +<br /> + +Como nós já sabemos dos pormenores da tal +jornada, +aproveitaremos a occasião para dizer duas palavras +<span class="pagenum">[79]</span> +a respeito das novas personagens, que estão +em scena. +<br /> + +<br /> + +D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel +dos quarenta e tantos annos, dispensa-nos +grandes longuras e esmeros de descripção. Basta +que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, +bondosa no fundo, e que sabia muito bem trazer os +vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente com +os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito +sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente +sempre que tentava forçar o espirito a abraçar +alguma +ideia mais complexa; mãos rotas com a pobreza; +intolerante, em theoria, com os ladrões e +malfeitores, porém felizes d'elles se d'aquellas +mãos +lhes dependesse a condemnação; eis o que era +D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; +e esta idade gosa de privilegios, que eu não +posso infringir. O leitor não me perdoaria se me +visse passar estouvadamente por deante da prima +de Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua +juventude e ao seu typo feminino. Reparemos pois. +<br /> + +<br /> + +Christina era mais bonita do que bella. Não havia +n'aquelle rosto uma só feição, que +não fôsse +correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos meigos +e quebrando-se com suavidade infantil; bôca, +d'onde parecia sempre prestes a sair um afago ou +uma consolação; voz, que da muita piedade +d'aquelle +bom coração, tirava ás vezes +modulações commoventes; +n'uma palavra, uma figura de cherubim, +como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja +mão representou na téla os augustos mysterios do +christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. +Mas não procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, +que fixam de repente e como por magnifico +influxo, a attenção dos olhos, uma d'essas +particularidades +physionomicas, pelas quaes a natureza, +destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um +semblante, consegue tornal-o mais fascinador; temperavam-se +alli tão completamente todas as +feições, +<span class="pagenum">[80]</span> +que a attenção não se sentia obrigada +a passar do +conjuncto d'ellas, o que lhes diminuia muito a intensidade. +É o grande senão dos rostos harmonicamente +perfeitos. +<br /> + +<br /> + +Concordava-se em que Christina era galante, ninguem +lhe negaria sympathias; mas o pensamento +na ausencia d'ella, não se sentia dominado por a +sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia +fixal-a: eram suaves de mais as inflexões +d'aquelles contornos, brandas as tintas que lhes davam +relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir +facilmente o typo angelico, de que lhe ficára +uma agradavel, mas vaga impressão. +<br /> + +<br /> + +Por um homem, em quem predominasse a razão, +Christina poderia vir a ser adorada; mas nas +imaginações +ardentes, nos corações inflammaveis, difficil +lhe seria produzir alguma impressão duradoura. +<br /> + +<br /> + +Para bem se comprehender a belleza de Christina, +era preciso sondar-lhe primeiro o coração, +apreciar +todo o thesouro de sentimentos que alli se continha; +então descobrir-se-lhe-hia nas feições +certa belleza +ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas +claridades que as almas puras e generosas vertem +nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de +linguagem +que saiba a philosophia, diria que a belleza, +que possuem umas mulheres assim, é uma +belleza subjectiva. +<br /> + +<br /> + +De tudo isto é natural concluir que Henrique de +Souzellas podia sympathisar com a candida figura +de Christina, a qual baixava timidamente os olhos +deante d'elle, córando cheia de enleio e +confusão, +mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, +não conseguiria por muito tempo desviar-lhe o +sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha―que +a muitos respeitos, menos na bondade de coração, +formava contraste completo com sua +prima. +<br /> + +<br /> + +Travára-se animada conversação entre +as pessoas +presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria +e Magdalena. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[81]</span> +D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. +Este passou a fazer-lhe uma exposição igual, +com pequenas variantes, á que fizera á tia. +<br /> + +<br /> + +Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, +aquellas tristezas, impaciencias e desalentos, +que tão ingenuamente a boa senhora classificára +como mania. +<br /> + +<br /> + +Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir. +<br /> + +<br /> + +Henrique tornou para ella os olhos. +<br /> + +<br /> + +―Ó menina, de que ris tu?―perguntou D. Victoria, +com certo tom de severidade. +<br /> + +<br /> + +―Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu +alguem +padecer d'aquillo? Ora diga? +<br /> + +<br /> + +―Eu?... mas... +<br /> + +<br /> + +―Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique +não mente. Ha d'aquellas doenças na cidade, +ha; mas na aldeia são tão raras, que eu mesma as +estranho já, eu que as vi em outro tempo... +<br /> + +<br /> + +―Então não crê na realidade d'ellas. +<br /> + +<br /> + +―Não lhes estou a dizer que sim? Ouço +até que +já teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos +da civilisação affeiçoam a seu modo a +natureza humana +e criam molestias novas, que nem por isso +são menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha +estranheza, ao vêr um d'esses doentes em plena +aldeia, não é modificada por todas essas +considerações. +É como um homem de casaca e gravata +branca; não ha nada mais sério e mais grave n'uma +sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga +se o pode olhar a sério. +<br /> + +<br /> + +―Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob +pena de zombarem de mim. +<br /> + +<br /> + +―Tanto não digo; mas não o +entenderão; isso +não. +<br /> + +<br /> + +―Porém a minha doença não +é só d'essas, que +se não dão na aldeia, prima Magdalena; eu creio +que verdadeiras desordens organicas... +<br /> + +<br /> + +―Ah! tambem?―Com esse aspecto de robustez?!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> +―Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!―disse +D. Victoria, que não tinha percebido bem o +dialogo. +<br /> + +<br /> + +―É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao +primo Henrique todos os maus habitos da cidade, +com que veio para aqui. Sem isso não pode curar-se. +<br /> + +<br /> + +―Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel +dominio. +<br /> + +<br /> + +―Principia mal, se principia com uma fineza. Já +o avisei ha pouco... +<br /> + +<br /> + +―Será necessario tornar-me grosseiro, para me +salvar? N'esse caso renuncio á cura. +<br /> + +<br /> + +―Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo... +<br /> + +<br /> + +―Acabe. +<br /> + +<br /> + +―Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais. +<br /> + +<br /> + +―Eu adoro as sinceridades. +<br /> + +<br /> + +―Já que o quer... É preciso que seja razoavel +e sobretudo... desaffectado. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os +labios, córando. +<br /> + +<br /> + +―Então acha?... +<br /> + +<br /> + +―Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; +faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e +perdidos. +<br /> + +<br /> + +―Ó meninos, eu não vos entendo―repetia D. +Victoria. +<br /> + +<br /> + +Magdalena sorriu. +<br /> + +<br /> + +―Digo eu que... +<br /> + +<br /> + +Um criado entrando com as cartas do correio +não a deixou continuar. +<br /> + +<br /> + +―Sempre chegou o correio!―exclamou Magdalena +com vivacidade, recebendo as cartas.―Por que +veio tão tarde? +<br /> + +<br /> + +―A mulher contou-me lá umas historias de uma +quéda, e... +<br /> + +<br /> + +―Coitada! Aconteceu-lhe algum mal? +<br /> + +<br /> + +―Esteja descançada, minha senhora. Ella +partiu +já e era um gôsto vêl-a a correr. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[83]</span> +Magdalena abriu com pressa a carta recebida. +<br /> + +<br /> + +―É de meu pae―disse ella, olhando-lhe para a +lettra e, depois de pedir licença, começou a ler +para si. +<br /> + +<br /> + +―Pois agora―dizia, n'este meio tempo, D. Victoria +a Henrique―o que deve é aproveitar estes +bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas +acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia +que querias ir, Christina? +<br /> + +<br /> + +―Eu! disse Christina, córando. +<br /> + +<br /> + +―Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. +Ora onde era?... +<br /> + +<br /> + +―Á Senhora da Saude, mamã. +<br /> + +<br /> + +―Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi +está já +um passeio bonito. Vê? Saem d'aqui uma manhã +cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o +ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá +n'um instante... +<br /> + +<br /> + +―A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? +Ora! Vae-se muito bem a pé―notou Christina do +lado. +<br /> + +<br /> + +―Isso é por os açudes. +<br /> + +<br /> + +―Pois por onde haviamos de ir? +<br /> + +<br /> + +―Por a Granja, que é melhor. +<br /> + +<br /> + +―Por a Granja! É uma legua! +<br /> + +<br /> + +―Que tem? mas escusam de trepar como cabras +por o lado dos açudes, que é até +perigoso; e depois +para que hão de ir a pé, se para ahi +estão os cavallos +sem fazerem nada? É vontade de se cançarem. +<br /> + +<br /> + +―Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... +só se alli o sr. Henrique...―disse Christina, +embaraçada +ao continuar. +<br /> + +<br /> + +―Eu o quê, minha senhora? +<br /> + +<br /> + +―Perdão―interrompeu D. Victoria.―Por que +não has de tu chamar primo ao primo Henrique? +pois não chamamos tia á tia Dorothéa? +<br /> + +<br /> + +―Por isso mesmo, mamã,―respondeu Christina―os +sobrinhos da tia Dorothéa não são... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[84]</span> +―Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,―acudiu +Henrique―eu acceito a proposta da +mamã, peço para ser considerado do numero de +seus primos. +<br /> + +<br /> + +Christina baixou os olhos, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +Henrique proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Mas parece que receiava por mim, quando falou +em ir a pé á Senhora da Saude. Não sei +onde +é o logar, mas desde já me comprometto a +não +cançar. +<br /> + +<br /> + +―Não tem que saber―disse D. Victoria, caminhando +para uma janella.―Ella lá está. Olhe que +inda é necessario saber trepar. +<br /> + +<br /> + +―Tendo duas tão galantes companheiras de viagem―tornou +Henrique, depois de reparar no monte +escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o +mesmo que o almocreve lhe mostrou―parece-me +que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a +correr o Pico de Tenerife. +<br /> + +<br /> + +―O que eu lhe digo, primo―accrescentou D. Victoria―é +que se acautele, porque se lhes vae a +fazer todas as vontades, tem que vêr. +<br /> + +<br /> + +―Inda que morresse em tão agradavel serviço, +teria de agradecer a Deus a morte. +<br /> + +<br /> + +―Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento―disse +Magdalena, que continuava a ler.―Logo ajustaremos +contas. +<br /> + +<br /> + +―É implacavel esta nossa prima, não +acha?―perguntou +Henrique, sorrindo, a Christina, que por +unica resposta só soube sorrir tambem. +<br /> + +<br /> + +―Pois então, é arranjarem, é +arranjarem isso e +quanto antes, que não ha que fiar no tempo. Eu se +pudesse tambem ia, mas já não são +passeios para +mim, e depois estes criados... +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas receiou nova divagação +sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas +felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando +a leitura da carta: +<br /> + +<br /> + +―Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco +<span class="pagenum">[85]</span> +as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo. +Promette demorar-se até o dia dos Reis. +<br /> + +<br /> + +As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, +e saltos de causarem inveja a um clown de +circo. +<br /> + +<br /> + +D. Victoria zangou-se. +<br /> + +<br /> + +―Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me +um bando de patetas! Ora vamos! Já quietos. +A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter +levado para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, +que nunca ha de fazer a sua obrigação! +<br /> + +<br /> + +As creanças reprimiram um pouco mais as expansões +de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando +a meia voz, em musica de composição d'ellas, +o seguinte: +<br /> + +<br /> + +―Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! +Ora viva, viva! Ora viva, olé! +<br /> + +<br /> + +―Pschiu! Calae-vos!―bradou ainda D. Victoria; +e voltando-se para Magdalena:―Mas então como +se entende isso, Lena? Então o pae diz que vem... +<br /> + +<br /> + +―Nas vesperas do Natal. +<br /> + +<br /> + +―Sim, nas vesperas do Natal, e vae... +<br /> + +<br /> + +―Depois dos Reis. +<br /> + +<br /> + +―Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?... +<br /> + +<br /> + +―O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta? +<br /> + +<br /> + +―Não, menina. Mas é preciso não fazer +confusão... +Então... +<br /> + +<br /> + +―Não ha nada menos confuso... É só +isto. +<br /> + +<br /> + +―Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. +Calae-vos, diabretes! Ó meu Deus, que +consumição! +Mas então por que não entregou o criado ha +mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem +que elles... +<br /> + +<br /> + +―Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das +cartas que se demorou, porque... +<br /> + +<br /> + +―Historias! Não me venham para cá com esses +contos. Vocês estão sempre promptos para +desculpal-os. +São elles... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[86]</span> +―Ó Lena, Lena―diziam as creanças―o primo +Angelo não torna para Lisboa? +<br /> + +<br /> + +―Ha de tornar. +<br /> + +<br /> + +―Ora! +<br /> + +<br /> + +―Olha lá, ó Lena―disse D. Victoria―sabes tu +o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes +criados que tenho... Mas a mim lembra-me... +uma vez que teu pae vem com o pequeno... e... +está agora cá o primo Henrique... lembra-me a +mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar com +os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos +todos para consoar... A prima Dorothéa tambem, +e aqui o primo; mas era se... +<br /> + +<br /> + +Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as +creanças levaram as suas demonstrações +de enthusiasmo +até o delirio, penduraram-se ao pescoço, +á +cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um +tempo: +<br /> + +<br /> + +―Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia +Dorothéa, +mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe +e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos +de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por +as alminhas; ora mande. +<br /> + +<br /> + +D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, +e erguia o braço, como para a fustigar +asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe +o riso dos labios. +<br /> + +<br /> + +―Saiam d'aqui!―exclamava ella, quando conseguiu +estar séria.―Saiam!... Não ouvem?... +Espera que eu vos falo... Ai, não fazem caso? Ora +esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... +Então, Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! +Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos! +<br /> + +<br /> + +A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia +que a ninguem deixára impassivel. Christina, a timida +Christina, não disfarçou um movimento de +jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e +raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[87]</span> +A propria Magdalena não se mostrou superior +áquella tocante puerilidade. +<br /> + +<br /> + +Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a +nas faces, disse-lhe affectuosamente: +<br /> + +<br /> + +―Ora ahi está o que é muito bem pensado. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, sim, mas o peor é... os criados―disse +D. Victoria. +<br /> + +<br /> + +―Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem +mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para +dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia +Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +―Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella +prima Dorothéa, aquella sua tia, primo Henrique, +é +que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam +os de cá com a Maria. +<br /> + +<br /> + +―Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais +barulho e desordem, melhor―aventurou-se a dizer +Christina, com impeto revolucionario. +<br /> + +<br /> + +―Ahi temos outra! Não, filha; isso é que +não. +Para barulhos é que eu já não estou. +Então, não. +<br /> + +<br /> + +―Está resolvido―disse a morgadinha, para cortar +pelas divagações da tia.―Aqui o sr. de +Souzellas―accrescentou, +com maliciosa inflexão―fica +desde já encarregado de transmittir á tia +Dorothéa +o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente +convidado. +<br /> + +<br /> + +―Acceito da melhor vontade. +<br /> + +<br /> + +―Não sei se o deverá dizer. É preciso +que o +avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar +na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto, +pelo menos, de collaboração nos guisados. +Por isso veja lá....<br /> + +<br /> + +―Ó menina, tens coisas!―disse D. Victoria.―Deixe-a +falar, primo. +<br /> + +<br /> + +―Não é deixe-a falar. Eu não dispenso +ninguem. +<br /> + +<br /> + +―E eu prometto não me recusar. Promptifico-me +a tornar detestaveis os pratos em que puzer a mão. +Que mais querem? +<br /> + +<br /> + +Foi alegremente acolhida a promessa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span> +As creanças, familiarisadas já com Henrique, em +quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é +sempre para ellas um motivo de attracção, +trepavam-lhe +já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre +perguntas, difficultando-lhe as respostas. +<br /> + +<br /> + +―Havemos de jogar o rapa, não havemos? +<br /> + +<br /> + +―Havemos de jogar, havemos―respondeu Henrique. +<br /> + +<br /> + +―E o par ou pernão? +<br /> + +<br /> + +―Tambem; tambem havemos de jogar o par ou +pernão. +<br /> + +<br /> + +―E?... +<br /> + +<br /> + +―Tudo, tudo; havemos de jogar tudo. +<br /> + +<br /> + +―Olhe: e sabe contar historias? +<br /> + +<br /> + +―Sei tambem contar historias. +<br /> + +<br /> + +―Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe +contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau +e a da Menina com as tres estrellinhas na testa. +<br /> + +<br /> + +―Ora, o sr. Henrique já as sabe―disse, fazendo-se +sisuda, Marianna. +<br /> + +<br /> + +―Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse +que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo. +<br /> + +<br /> + +―Ó meninos!―exclamou D. Victoria, que até +alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.―Então +isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes +dá +confiança, está arranjado, primo. +<br /> + +<br /> + +―Deixe-os estar, minha senhora, este contacto +de alegrias é salutar; pegam-se. +<br /> + +<br /> + +―E não o diga a brincar―disse Magdalena―que +tambem confio n'essas creanças para o curarem +dos seus males. +<br /> + +<br /> + +―Então devéras emprehendeu curar-me? +<br /> + +<br /> + +―Com toda a certeza. +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso havemos de discutir devagar esse +ponto de pathologia. +<br /> + +<br /> + +―Não havemos, não, senhor. É mau +medico o +que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia +e o tratamento. O medico deve ser obedecido +com fé, e cega. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[89]</span> +Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, +fazia esforços por lhe chamar a +attenção, resolveu-se +a falar-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Lena―disse ella―que te parece a lembrança +que teve ha pouco a mamã? +<br /> + +<br /> + +―A das consoadas? Excellente. +<br /> + +<br /> + +―Não, menina, a do passeio á ermida. +<br /> + +<br /> + +―Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia. +<br /> + +<br /> + +―Quando queres? +<br /> + +<br /> + +―Depois de ámanhã, que é quinta +feira. +<br /> + +<br /> + +―Seja. +<br /> + +<br /> + +―Que diz, primo Henrique? +<br /> + +<br /> + +―Quando quizerem, primas; agora mesmo... +<br /> + +<br /> + +―Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada? +<br /> + +<br /> + +―Pois não viu hoje? +<br /> + +<br /> + +―Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso +uma madrugada. É preciso que se levante ás horas, +a que se deitava na cidade. +<br /> + +<br /> + +―Que estás a dizer, Lena?―acudiu Christina.―Deixa-a +falar. Basta que saiamos d'aqui ás cinco +horas. +<br /> + +<br /> + +―Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo +que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha +costume de se deitar mais cêdo em Lisboa. +<br /> + +<br /> + +―Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de +que, ha perto de um anno, sou valetudinario. +<br /> + +<br /> + +―Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que +vejo é que ha por aqui muita indolencia. +<br /> + +<br /> + +―Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella +a mais madrugadora; ora havemos de vêr―disse +Christina. +<br /> + +<br /> + +Magdalena poz-se a rir. +<br /> + +<br /> + +E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou +que se convidasse Augusto, por ser conhecedor +do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos +de vista. +<br /> + +<br /> + +Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, +já retardado uma boa hora ao que promettera á tia +Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, +era inteiramente outro, do que viera para a aldeia. +Todas aquellas horas se haviam passado, sem que +o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer +pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira, +a troca reciproca de affectos entre os membros +de tão numerosa familia, a franqueza cordial +com que fôra recebido, produziram n'elle uma +impressão +profunda. +<br /> + +<br /> + +Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de +rapaz solteiro e só; não passando, nas casas que +visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso +e reservado, onde as familias ante as familias +representavam a comedia social, Henrique estranhára, +mas agradavelmente, o espectaculo, quasi +novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes, +d'aquellas alegrias, que não se envergonham +de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma +revelação que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter +um +dia uma familia assim; de viver entre creanças +que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de +affectos, que alli via manifestarem-se, e até com alguem +que ralhasse com os criados, á maneira de +D. Victoria. +<br /> + +<br /> + +Escusado é dizer que a imagem da morgadinha +apparecia sempre n'estes quadros que lhe traçava +a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes +mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as +feições queridas da mulher que elles traziam no +pensamento e a quem deram assim a immortalidade. +<br /> + +<br /> + +De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; +completára-o a figura de uma mulher; sem o +sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no +eden, onde a mão de Deus o collocára. +<br /> + +<br /> + +―Anda, vagaroso, anda―disse D. Dorothéa a +Henrique, assim que o viu chegar.―Se o jantar tiver +esturro, a culpa é tua. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[91]</span> +―Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro... +<br /> + +<br /> + +―Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente? +<br /> + +<br /> + +―É uma familia para o coração. +Passa-se o +tempo alli tão depressa! A morgadinha, sobretudo, +é adoravel! +<br /> + +<br /> + +―Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te +mettes, menino! A mina boa é, mas... filho, anda +alli encanto, que ainda ninguem descobriu. +<br /> + +<br /> + +Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera +isto com certa malicia. +<br /> + +<br /> + +―Que quer dizer, tia? +<br /> + +<br /> + +―Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses +tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande +coisa seria; mas sempre te digo que não tomes a +coisa a peito, que podes aggravar o teu mal. +<br /> + +<br /> + +Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve +um pouco mais preoccupado e distrahido no +resto da tarde. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>VI +</h4> + +<br /> + +O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na +companhia de qualquer amigo, ha de ter observado +que, durante os primeiros tempos que passam juntos +n'uma terra para ambos desconhecida, tão +alheios ás coisas como ás pessoas, no meio das +quaes se vêem, nem por momentos se soffrem separados; +um segue sempre o outro em todos os +passos que dá, precisa d'elle para communicar-lhe +as primeiras impressões recebidas, e pedir-lhe em +troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, +se vão familiarisando mais com os logares e +com as personagens d'aquelle mundo novo, afrouxa +a constricção d'esses laços, e cada um +principia a +readquirir a independencia individual, que de motuproprio +havia abdicado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[92]</span> +Um facto similhante nos succede com Henrique +de Souzellas. Encontrámol-o na estrada; na companhia +d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos +era estranho; nada mais natural do que dar o braço +um ao outro, passar juntos a manhã, e fazer, em +commum, as nossas visitas. Agora, porém, que temos +já algum conhecimento da terra e da gente, é +tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos +o jugo de uma companhia forçada, a qual, embora +seja de um amigo estimavel, se é forçada, +é +sempre jugo, em certas occasiões. +<br /> + +<br /> + +Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, +penso eu, haviam de ter momentos em que se +desejassem sós; se é que não deviam +aos deuses a +felicidade de possuirem curtos espiritos, o que não +creio. +<br /> + +<br /> + +Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo +com a tia Dorothéa a mais pacifica das conversas +que podem auxiliar a digestão de um jantar; deixemol-o +no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos +associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos, +que é Augusto, o mestre de Marianna e +de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos +na sala da casa do Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos +e á beira de vallados, com aquelle ar pensativo que +lhe era peculiar. +<br /> + +<br /> + +O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas +palavras da morgadinha, é já bastante para que +nos +não admire a quasi incessante melancolia de Augusto. +<br /> + +<br /> + +Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia +e mal podendo, á custa de sacrificios, cultival-a, e +eleval-a á altura das suas aspirações! +Alma generosa +e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a +chorar os infortunios que via, porque a pobreza lhe +negava meios de remedial-os!.. +não serão estas +ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma +existencia, embora a juventude as illumine? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[93]</span> +Havia alguns annos que esta disposição para a +tristeza se exacerbára em Augusto. Coincidiu o facto +com algumas circumstancias, que convém referir. +<br /> + +<br /> + +A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena +e de quem viera a esta o nome de morgadinha, +pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia +ao morrer instituido um legado a favor de Augusto, +então creança, com a +condição d'elle abraçar a +vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de Magdalena, +devia administrar este legado, educando o rapaz nas +escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro +exame até o da primeira missa, porque n'esse +lhe entregaria o capital por inteiro. +<br /> + +<br /> + +Isto succedeu no tempo em que a mãe de Augusto, +que havia dois annos viuvára, luctava com a +miseria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo +enthusiasmo +com que aprendia, causava o espanto do +velho mestre regio da localidade. +<br /> + +<br /> + +Foi por todos abençoada a memoria da morgada, +por tão bem cabido legado, que era ao mesmo +tempo que remedio ás privações de uma +familia, +premio e estimulo á intelligencia e á +applicação de +uma creança, que promettia vir a ser... Deus sabe +o quê. +<br /> + +<br /> + +Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio +se a clausula, posta pela legataria como condição +á +concessão do beneficio, não podia ser uma +crueldade +que o annullasse; se comprar um futuro por +dinheiro, sem querer saber a quantidade de +aspirações, +de esperanças, de phantasias que sejam, a que +se tem de renunciar pelo contracto, não é uma +iniquidade; +se não era uma quasi simonia ir a casa do pobre, +e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da +miseria, propôr-lhe trocar por estes thesouros, que +o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por +mim abomino estes legados condicionaes, que um +espirito malevolo, egoista e desejoso de dominar +ainda depois da morte, tantas vezes dicta; essas +<span class="pagenum">[94]</span> +meigas generosidades são ás vezes a causa do +infortunio +de uma vida inteira; acceites ou recusadas, +é raro que depois, a cada provação que +nos +experimenta, uma voz interior nos não exprobre o +partido que abraçamos.―«Louco! para que hesitaste +em trocar meia duzia de phantasmas por um +bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos +idolos de poetas o beneficio que te +offereciam?»―dirá +ella aos que rejeitaram o +pacto.―«Ambicioso!―clamará +aos outros―ahi tens a felicidade +que julgaste comprar á custa do que ha de mais +nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso, +em que envolveste o altar do bezerro de ouro, +consumindo ahi as tuas mais santas e generosas +aspirações.» Augusto não +adivinhou porém logo a +crueldade da disposição testamentaria. Era muito +creança ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou; +comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella +pobre mãe, que só podia abrigal-o com os extremos +do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas +conseguira deixar uma herança; foi á viuva o +dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo +que podia inverter aquelle legado, velando elle pela +fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria +de certo a vida. +<br /> + +<br /> + +Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se +mais e mais a intelligencia, quasi espontaneamente, +pois justo é confessar que bem +rudes eram os cuidados de cultura que o velho +<em>magister</em> +lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes +effeitos que da intelligencia e do estudo, da +aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um +homem d'essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe +embora os meios de progresso, elle caminhará, +inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso. +<br /> + +<br /> + +E depois, é um grande alento aos espiritos superiores +a consciencia de uma nobre missão a cumprir. +Não ha fadigas que tal estimulo não +vença; +abnegação, que não inspire. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> +A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua +mãe precisava d'elle. +<br /> + +<br /> + +Quando ainda aos seus treze annos fôsse já bem +conhecida a grandeza dos sacrificios que lhe exigiam, +não hesitaria talvez, instigado por aquella +aspiração; quanto mais que ainda mais lhe tinham +animado os sonhos, as doces imagens, tão gratas +ao coração do adolescente, e a que teria de +renunciar. +<br /> + +<br /> + +Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o +qual, graças aos esforços empregados, +não se fez +esperar muito. +<br /> + +<br /> + +Quando se approximava a occasião, o pae de Magdalena +mandou vir Augusto para Lisboa e hospedou-o +em sua casa até que chegou o dia. +<br /> + +<br /> + +Não confiando demasiadamente no ensino publico +da aldeia, o conselheiro quiz que o seu pequeno +hospede recebesse algumas lições de um professor +da cidade, e d'este obteve as melhores +informações +da intelligencia do rapaz, que só por milagre d'ella +conseguira sair muito pouco eivado dos vicios do +ensino de campo. +<br /> + +<br /> + +Augusto demorou-se algumas semanas em casa +do conselheiro. A final fez o exame, no qual foi felicissimo, +obtendo n'elle as mais distinctas qualificações. +<br /> + +<br /> + +Imagine-se o effeito que a noticia produziu na +aldeia. Exaggerando-se, dizia-se por lá que em toda +Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até quem +não hesitasse em affirmar que a creança +confundira +os mestres, que fôra uma maravilha. +<br /> + +<br /> + +O mestre-escola reclamou para si a gloria do +acontecimento, fundando-se em que, através do discipulo, +resplandecia a sciencia do mestre.<br /> + +<br /> + +Os invejosos disputavam-lhe porém tão +inquestionavel +gloria e riam-se d'elle. +<br /> + +<br /> + +A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de +prazer e a render graças á Virgem, a quem tanto +encommendára o filho. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> +Voltou Augusto á terra. +<br /> + +<br /> + +Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: +olhavam-o como um prodigio. Todos o queriam +vêr, como se até alli o não tivessem +visto bem, e +de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o +administrador, nem o presidente da camara faltaram. +Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram, +não houve um só que não notasse que o +pequeno +vinha triste. +<br /> + +<br /> + +Ninguem contestava o facto: que elle como que +saltava aos olhos; as interpretações é +que variavam. +<br /> + +<br /> + +―Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem não +está costumado... dizia um. +<br /> + +<br /> + +―São canceiras de estudos―aventava outro.―Ha +lá coisa que puxe mais por uma pessoa do +que o estudo! +<br /> + +<br /> + +―Não que vocês cuidam! Um exame sempre +abala a gente cá por dentro―dizia um doutor, que +levára dez annos a vencer um curso de cinco. +<br /> + +<br /> + +Fôsse pelo que fôsse, Augusto trouxera de Lisboa +uma melancolia, que os ares da sua terra não +dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam +no futuro e no legado da morgada. +<br /> + +<br /> + +Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita +melancolia, foi, como era de suppôr, a receiosa +mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos +e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, +supplicas, arguições, lagrimas, promessas, +nada tiravam de Augusto, que teimava em responder +que nada tinha que o affligisse, que era a illusão +de quem o via a tristeza que lhe suppunham, +e, para confirmar o que dizia ria; mas era mais +triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse. +<br /> + +<br /> + +Para breve estava a entrada de Augusto no collegio +de Lisboa, onde, á custa do legado da defuncta +proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar nos +seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum +<span class="pagenum">[97]</span> +tempo na aldeia. Não se pôde atinar com os +motivos d'este pedido. Indolencia não era; pois no +entretanto começou a estudar os rudimentos do +latim com o illustre professor, que o leitor conhece +já, mestre Bento Pertunhas. +<br /> + +<br /> + +A saude vacillante da mãe de Augusto declinou +n'esse inverno; o que veio dar outro motivo á demora +do filho. +<br /> + +<br /> + +Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira +do leito dividindo os seus cuidados entre o +estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois +annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim +d'elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo +um beijo nas faces geladas de um cadaver. +<br /> + +<br /> + +Era orphão. +<br /> + +<br /> + +A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava +o rosto, condensou-se-lhe mais então. Era quasi +um negrume de tristeza. +<br /> + +<br /> + +Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena +para a aldeia, pois receiava pela saude d'ella +se persistisse em Lisboa. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, +quando voltasse a Lisboa. Uma manhã, porém, +este, de pouco mais de quinze annos, procurou-o +e disse-lhe com uma gravidade, que revelava +uma tenção meditada e irrevogavel: +<br /> + +<br /> + +―Venho prevenir v. ex.<sup>a</sup> de que desisto do +legado +da sr.<sup>a</sup> morgada. Não quero +ordenar-me. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro fitou-o, estupefacto. +<br /> + +<br /> + +―Não queres ordenar-te! Por quê?... +<br /> + +<br /> + +―Já não tenho mãe a quem amparar. Por +ella +forçaria a minha vocação sem remorsos; +por interesse +proprio não o posso fazer; parece-me um sacrilegio. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro era um homem muito do seculo. +O seu trato social, a frequencia dos circulos politicos +e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e +más qualidades, que caracterisam aquella classe de +homens, e sabe-se que a candura de sentimentos +<span class="pagenum">[98]</span> +não entra no numero das mais habituaes d'essas +qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se +abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao +enthusiasmo, mas sómente depois de ponderar fleugmaticamente +os fundamentos em que ella se baseava; +assim era que, em politica, se costumára a +contemporisar, espaçando a adopção de +qualquer +medida, inquestionavelmente boa, para tempos em +que fôsse mais conveniente; não se apaixonava por +utopias, desconfiava d'ellas; havia muito tempo que +desviára dos olhos o prisma encantado, através do +qual olham o mundo os poetas e todos os mais +sonhadores; costumára-se a marcar por modelo +nas differentes carreiras da vida, não um typo ideal +dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos +e vicios; assentára a menor altura o alvo: +parecia-lhe que bom fito eram já os individuos que +tinham conseguido maior consideração na sua +classe; +as maculas que elles tivessem, eram, por esse +facto, maculas auctorisadas. O pensar de outro +modo era pensar de romance; agradavel para entreter, +porém mau nas applicações +ás coisas da +vida. N'uma palavra, o conselheiro era um homem +de bem, mas na esphera mundana; não um d'aquelles +typos de pureza crystallina, através da qual parece +passarem sem desvio os raios da luz celeste, +mas já um tanto embaciado do bafo social, que +não o fazia ainda totalmente opaco. +<br /> + +<br /> + +Por isso sorriu á declaração de +Augusto. A carreira +ecclesiastica não lhe parecia tão escabrosa +como o futuro sacerdote a fazia; nem tão dura a +lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro não +pensava necessario tomar ao pé da lettra certos +deveres impostos; o mundo seria, como elle, tolerante +em naturaes infracções; por tudo isso se +riu. +Fez a Augusto uma longa dissertação sobre as +vantagens da vida ecclesiastica, sobre os muitos +interesses que lhe promettia, e a leviandade com +que elle queria renunciar a uma carreira segura +<span class="pagenum">[99]</span> +movido pelas instigações de um espirito timorato +ou de uma visão phantastica. +<br /> + +<br /> + +Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso +sceptico do conselheiro, declarou que não +abraçaria +a vida ecclesiastica sem que se sentisse com a coragem +precisa para cumprir todos os deveres que +ella lhe impunha; que era precisa uma grande +abnegação, +e que elle, depois da morte de sua mãe, +não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses +não pensava, e se pensasse, seria isso a primeira +prova de não estar preparado para a missão de que +se queria encarregar. +<br /> + +<br /> + +Quando alguem abraça com lealdade e franqueza +uma boa causa, difficilmente é vencido. O conselheiro, +costumado a não recuar nas mais acerbas +luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás +objecções d'aquella creança. Como que +teve remorsos +de tentar sequer desvanecer as illusões a que +o via abraçado,―illusões pelo menos as suppunha +elle; parecia-lhe uma obra satanica envenenar com +um sorriso aquelle ideal, em que vivia.―Respeitou-o +e calou-se. +<br /> + +<br /> + +―Alguma creancice amorosa dos quinze annos―pensou +para si. Deixemos ao tempo convencel-o. +Não me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco +sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! +Teria alcançado menos no mundo, mas talvez tivesse +gosado mais... ou melhor... +<br /> + +<br /> + +O conselheiro cedeu apparentemente, esperando +que a reflexão modificaria, mais tarde, as ideias do +rapaz. +<br /> + +<br /> + +Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as +tenções, +em que estava de não se ordenar, pelo menos +emquanto não passasse mais tempo sobre aquella +resolução. +<br /> + +<br /> + +E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro +que se encarregasse da primeira educação +de Angelo, então de nove annos; pois mais confiava +para isso em Augusto, do que no professor official. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[100]</span> +Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, +sobre adequada aos seus gôstos, lhe abria uma +carreira, que elle já imaginára adoptar. +<br /> + +<br /> + +De então nasceu uma intima amizade entre Angelo +e Augusto. Foram rapidos os progressos do +discipulo, e não menos reaes as vantagens que ao +mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia +cada vez mais a intelligencia.―O conselheiro tinha +motivos para estar satisfeito da escolha. +<br /> + +<br /> + +Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto +em acceitar o legado eram as mesmas; o egoismo +paternal do conselheiro não o deixou ser muito ardente +a combatel-as.―Espaçou-se mais uma vez a +decisão. +<br /> + +<br /> + +Outras lições appareceram a Augusto, as quaes +elle acolheu com gôsto; o mestre-escola reclamava +tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido +da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou. +<br /> + +<br /> + +O velho acabou por declinar n'elle o serviço todo, +sem que Augusto consentisse em receber por isso +o menor estipendio. +<br /> + +<br /> + +O publico não se cançava de perguntar quando +seria que o rapaz principiaria os seus estudos em +Lisboa e por que o não fazia já. Como +não obtivesse +resposta, commentava o facto, como costuma commentar +todos os que não entende. +<br /> + +<br /> + +No entretanto a educação de Augusto +não ficára +estacionaria. Com grandes sacrificios a continuára +elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia, tinha +muito de milagre o que fazia. +<br /> + +<br /> + +O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás +impaciencias +do espirito d'este discipulo enthusiasta; +e não era raro que a intelligencia de Augusto visse +mais fundo nos textos, do que a experiencia do +mestre. +<br /> + +<br /> + +O acaso favoreceu os desejos do estudante. +<br /> + +<br /> + +N'uma freguezia proxima estava, como abbade, +um doutor em theologia, homem de solido saber e +de reputação extensa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[101]</span> +Um dia em que, por convite do seu collega, viera +assistir e prégar na festa do orago da aldeia, o padre +encontrou-se com Augusto na sacristia e, conversando-o, +admirou-lhe a penetração, captivou-se +da sua modestia e lamentou não estar mais perto +d'elle, porque o auxiliaria, como pudésse, nos estudos. +<br /> + +<br /> + +Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; +affirmando-lhe o padre que sim, respondeu +que não seria então estorvo a distancia, porque +elle +a venceria. +<br /> + +<br /> + +E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás +quintas feiras e domingos, franqueava legua e meia +dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as +lições +do erudito abbade. Assim se aperfeiçoou na +latinidade, cultivou a philosophia e adquiriu o gôsto +pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de +lá carregado de livros para ler durante a semana. +Toda a bibliotheca do padre lhe passou pelas mãos. +<br /> + +<br /> + +Era porém o theologo classico exclusivo e nada +visto em linguas e litteraturas modernas. +<br /> + +<br /> + +A sorte não recusou ainda a Augusto um novo +mestre. +<br /> + +<br /> + +Entre os muitos estudos de estradas, de que os +governos em Portugal fazem preceder, vinte annos +antes, a construcção definitiva de uma +só, que de +ordinario sae sempre como se não fôsse +tão estudada, +um houve que levou á aldeia, em que eu e o +leitor nos achamos, um engenheiro que ahi fez quartel +e centro de operações, durante tres mezes +inteiros. +<br /> + +<br /> + +A casa em que elle se alojou ficava proxima da +de Augusto. Cêdo travaram conhecimento os dois. +O engenheiro o menos que possuia eram livros de +mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, +trazia nas malas e bahús uma excellente provisão. +<br /> + +<br /> + +Não tendo que fazer ás noites, entreteve-se a +ensinar +o francez a Augusto e a ler-lhe os livros da +<span class="pagenum">[102]</span> +sua bibliotheca portatil. Voavam as horas a Augusto +n'aquelles serões; n'elles aprendeu todos os nomes +da nossa litteratura moderna, bem como os principaes +da de França e de Inglaterra. +<br /> + +<br /> + +Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto +sabia o francez bastante para se aperfeiçoar por si; +este amigo deixou-lhe em lembrança grande parte +dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes. +<br /> + +<br /> + +Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar +do collegio. O conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu +mais uma vez com Augusto para que viesse +tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em +vão, encontrou-o ainda inabalavel. +<br /> + +<br /> + +E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o +ambicionado patrimonio foi concedido a outro. +<br /> + +<br /> + +Mezes depois morria o velho mestre-escola da +aldeia. +<br /> + +<br /> + +Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe +que pretendia aquelle logar, que já havia muito tempo +servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por +que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da +ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em +que estava Augusto, o não ter ambições +era indicio +de uma profunda doença moral; que a +posição a +que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita +a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu porém +no intento; o conselheiro empenhou-se por elle em +Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual +se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, +o dispensasse da idade que ainda não tinha, pois +mal completára dezenove annos, e Augusto foi por +conseguinte admittido a concurso para tão pouco +disputado logar e provido n'elle por tres annos. O +conselheiro, a quem não fôra impossivel obter-lhe +despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de tres +annos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal +recompensada carreira, e de proposito o fez despachar +temporariamente. Comquanto o legado da morgada +tivesse tido já outra applicação, o +conselheiro +<span class="pagenum">[103]</span> +não hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o +mestre de seu filho. +<br /> + +<br /> + +Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de +por experiencia conhecer já os espinhos da +profissão, +apresentou-se novamente ao concurso para obter +novo despacho. Na época em que abrimos esta +narração, voltára Augusto de pouco de +ultimar a +nova prova; e estava pendente ainda a decisão do +ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, +homem muito protegido por influencias da +localidade, as quaes ainda não tinham podido vencer +a do conselheiro, que pugnava por Augusto. +<br /> + +<br /> + +Desde que fôra para Lisboa, Angelo não se +esquecera +de escrever amiudadas vezes a Augusto, +contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-lhe +a sua vida na capital; e quando vinha a férias, procurava +transmittir ao que fôra seu mestre a sciencia +que durante o anno adquiríra. +<br /> + +<br /> + +Foi assim que Augusto principiou a estudar a +lingua ingleza, a geographia e a historia. +<br /> + +<br /> + +Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia +e applicação faziam o resto. +<br /> + +<br /> + +Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo +teremos de travar conhecimento, um velho herbanario, +para alguns um sabio, para outros um louco, +para todos um homem honrado, concorreu tambem, +com o seu contingente, para a educação de +Augusto. +<br /> + +<br /> + +De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se +em casa d'elle com um pacote de livros +debaixo do braço e, sorrindo, pousava-lh'os em cima +da mesa. +<br /> + +<br /> + +Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava +ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira +vez, Augusto fitou o herbanario com espanto. +Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois +obter aquelles livros, alguns dos quaes eram de +preço? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe a +surpreza: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> +―Não queiras saber da minha vida, rapaz. Suppõe +que eu tenho a servir-me uma vara de condão +ou uma fada qualquer, e deixa correr. +<br /> + +<br /> + +Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario +tinha accumulado riquezas, á fôrça de +economias: +porque de economias vivera sempre. +<br /> + +<br /> + +De pequeno merecera áquelle velho uma singular +sympathia, e com affecto de pae fôra sempre tratado +por elle. +<br /> + +<br /> + +Resignou-se a acceitar sem reflexões; até porque +sabia ser facil o escandalisar o velho com ellas. O +que fazia era evitar, na presença d'elle, qualquer palavra +que pudésse denunciar desejos de possuir um +livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto +algum poder occulto a informal-o, ás vezes parecia +adivinhar; e trazia-lhe livros que Augusto devéras +desejava, mas a respeito dos quaes tinha a +certeza de lhe não ter falado, nem eram d'aquelles +que o velho conhecia. +<br /> + +<br /> + +A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a +crença supersticiosa do povo a respeito d'aquelle +seu velho amigo. +<br /> + +<br /> + +Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo +as informações, pelas quaes o velho se guiava na +escolha. Não lhe attribuia porém o presente, +porque +as economias de Angelo não chegavam para tanto. +<br /> + +<br /> + +Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, +poderá ainda o leitor estranhar os ares pensativos +com que o vemos? +<br /> + +<br /> + +Poucos passos andados, depois que saiu do +Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das +cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para +elle. Era de Angelo. +<br /> + +<br /> + +Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda +pelo caminho. +<br /> + +<br /> + +Era uma extensa carta, em que se succediam os +periodos em um d'esses longos, incoherentes e diffusos +arrazoados, que constituem a essencia de uma +carta de amigo para amigo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[105]</span> +Angelo falava dos seus estudos, de saudades da +terra, de esperanças e de projectos, projectos que, +n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o instante. +Terminava esta carta, em que lhe participava +a sua vinda á aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo: +<br /> + +<br /> + +«Peço-lhe que diga á Lindita que se +não esqueça +de mim. Dentro de poucos dias conto ir vêr +os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a +agua do poço. O pae d'ella chega ahi ao mesmo +tempo que esta carta; leva um livro para si.» +<br /> + +<br /> + +Augusto sorriu, ao ler o +<em>post-scriptum</em>. +<br /> + +<br /> + +―Pobre Angelo!―murmurou elle,―Deus não +permitta que sobreviva á tua ultima creancice essa +sympathia por Ermelinda. Estas generosas +affeições +de creança muitas vezes, ao crescer, envenenam o +coração. +<br /> + +<br /> + +Havia tanta amargura n'estas reflexões de Augusto! +<br /> + +<br /> + +E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa +do recoveiro Cancella, que era o pae da pequena, a +quem na carta se alludia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>VII +</h4> + +<br /> + +A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das +mais estreitas ruas da aldeia e ao lado de um pequeno +quintal, objecto dos cuidados e das diversões +do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis +da sua occupada e laboriosa vida. +<br /> + +<br /> + +Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. +A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas; +pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o ámanhã +já a mais de seis leguas de distancia; acotovelava +um dia a multidão nas ruas e feiras da cidade; no +<span class="pagenum">[106]</span> +outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes +entrever os thesouros da experiencia adquirida +á custa de muitos annos de fadigas. +<br /> + +<br /> + +As estradas em Portugal e os novos meios de +transporte, que conjunctamente vieram, não destruiram +totalmente esse typo dos antigos tempos, anterior +a ellas. Além da época, que parecia dever +marcar-lhes limite á existencia, passaram, sustentados +pela fôrça dos habitos e justificados pelas +irregularidades +do serviço das postas; e Deus sabe +quando de vez acabarão. Mas Cancella era além +d'isso um recoveiro de uma especie rara e superior. +Em todas as profissões ha sempre, no meio do vulgo, +que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia +dos gôsos, superiores aos interesses, que ellas +podem offerecer, certo grupo de escolhidos, que as +idealisam, e enxergam um raio de poesia através +das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella +era d'estes; era o poeta da sua profissão. Tinha em +si o que quer que era de um +<em>touriste</em>, e assim aproveitava +todos os ensejos que se lhe offerecessem de +explorar algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido. +<br /> + +<br /> + +Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. +As muitas relações do conselheiro, pae de +Magdalena, +com as familias da aldeia, e a barateza relativa +das recovagens operadas por este meio primitivo, +proporcionavam-lhe algumas occasiões d'isso, as +quaes o Cancella de boamente aproveitava. Era de +uma d'essas expedições que elle devia voltar +aquella +manhã, como o dava a entender a carta de Angelo. +<br /> + +<br /> + +Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a +ainda fechada; escutou á fechadura, mas não +pôde +verificar o menor signal de que alguem estivesse +dentro. +<br /> + +<br /> + +―É cêdo ainda―pensou comsigo.―Vejamos +se estará em casa do compadre. +<br /> + +<br /> + +Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.―A +poucos passos mais, e do lado opposto, deparou-se-lhe +<span class="pagenum">[107]</span> +outra casa de aspecto não menos rustico +do que a primeira, uma pequena casa terrea, de +uma só porta e uma só janella, e com o respectivo +quintal ao fundo. +<br /> + +<br /> + +Do interior vinha um sussurro de vozes, como de +conversa animada; julgando que seria o Cancella, +de quem o proprietario era, além de vizinho, confidente +e compadre, Augusto empurrou a porta, que +estava apenas cerrada e entrou. +<br /> + +<br /> + +A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento +quadrado, todo adornado á volta de cruzes de pau, +para as devoções da via sacra, e de imagens de +santos +e santas em caixilhos de todos os tamanhos. +Mais do que os outros enramalhetado e enfeitado, +via-se alli o bento registo de uma confraria, havia +pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, +o qual occupava o logar de honra n'aquella devota +exposição. +<br /> + +<br /> + +Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta +confraria, sociedade um tanto mysteriosa, por meio +da qual seus interessados instituidores só visavam +a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se +<em>apenas</em>, em paga, com o do mundo, do +qual, lembrados +de antigos tempos, teem saudades já. Os +missionarios, certos evangelisadores em terras onde +a palavra do Evangelho não é chave que abra a +porta, pela qual entraram os martyres no céo, lá +andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa +a acção d'esta historia, plantando a vinha, que +elles +chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando +os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto catholico +era por elles cada vez mais arrebicado com +orações absurdas e ceremonias ridiculas, e o +eterno +anathema da ignorancia contra o progresso da sociedade +servia de thema predilecto aos seus barbaros +discursos. +<br /> + +<br /> + +Ardente proselyta d'estes apostolos de fé duvidosa, +a sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S. +João Baptista, +a metade feminina do casal em questão, tomára +<span class="pagenum">[108]</span> +por modo de vida as devoções da +igreja, onde +ia chorar as desgraças da humanidade, que tão +fóra +via andar da estrada direita. +<br /> + +<br /> + +Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando +a alcova conjugal, que era vedada aos olhares +profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas +ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia +á cozinha d'onde lhe continuava a chegar aos ouvidos +o som de vozes, que primeiro o attrahira. +<br /> + +<br /> + +Ao contrario do que esperava, porém, só uma +pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse +com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem. +<br /> + +<br /> + +Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do +Enxerto, ou vulgarmente chamado ti' Zé P'reira―nome +que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento, +o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem +ainda hoje aquelle nome.―Era muito para vêr e +admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia +tocar nas festas e arraiaes, á frente das +procissões +e cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades +publicas. +<br /> + +<br /> + +O ti' Zé P'reira era homem dos seus quarenta e +tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz, +vestigios evidentes das suas sympathias pela +divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo +da sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S. +João +Baptista, vivia em perenne sabatina com a sua cara +metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas +salvando sempre o direito de protestar pela palavra. +Ganhava a vida no officio de hortelão e, aos +domingos e dias de festa, á fôrça de +rufos e pancadaria +na retesada pelle do seu companheiro inseparavel―o +zabumba. Era aos cuidados e vigilancia +d'este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava +o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, +uma mimosa creança, que lhe ficára á +sua +viuvez tão cheia de saudades, e a quem elle mais +queria do que á menina dos olhos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +Ermelinda era afilhada da familia Zé P'reira, e a +mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim +da carta. +<br /> + +<br /> + +Zé P'reira estava, como dissémos, só +na cozinha, +quando Augusto alli chegou: sentado, no meio da +sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para +o ar, viradas as costas para a porta e a face para +o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava +de tom desde a nota mais grave e rouca da sua +escala de barytono, até o mais agudo e desafinado +falsete. A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, +difficultando-lhe suspeitosamente a articulação +de +algumas syllabas; era evidente que se apossára do +hortelão o espirito familiar, o qual n'este caso, era +um verdadeiro espirito, na accepção chimica do +termo. +<br /> + +<br /> + +Ze P'reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente +nutrido, de olhos vesgos e que mais +vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto +artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas +que pareciam tentar sumir-se-lhe pela bôca dentro; +tinha longos braços, accommodados ás +difficuldades +e evoluções da sua arte, e pernas que, +do joelho para baixo, lhe divergiam em angulo de +mais de trinta graus. +<br /> + +<br /> + +Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, +gesticulando: +<br /> + +<br /> + +―Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... +É forte desgraça!... Aqui estou eu!... +Um homem casado... casado á face da igreja... +que me casou em dia de S. Thiago o abbade que +foi... e que Deus tenha em descanço. Não faltou +nada... correram-se banhos deante de quem os +quiz ouvir, e não houve quem puzesse impedimento... +porque eu não devia nada a ninguem... +sempre fui liso de contas... Sou casado com a +Catharina do Nascimento de S. João Baptista, filha +do Antonio Canhestro, do logar dos Fójos... E +casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que +<span class="pagenum">[110]</span> +casei eu?... Forte desgraça a minha! Casei-me +para isso!... Para vir para casa e achal-a vazia, +o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher +a papar missas e novenas lá por essas igrejas... +Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! +É +forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de fraqueza, +se não fôsse aquelle quartilhito... o ultimo, +que sempre me deu sua aquella... sim... sempre +me conchegou o estomago. Não que dizem que o +vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois +casem-se com uma mulher que vá de madrugada +para a igreja e venha de lá quando muito bem lhe +pareça, e verão depois se o vinho não +serve de cobrir +muita lazeira que se soffre... verão depois... +Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... +Diz que Deus que disse, que a mulher que era a +carne da nossa carne e o osso do nosso osso... +Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas +coisas... para não esquecerem... como se faz na +escola com a taboada. A minha Cath'rina já o +não +sabe, aposto... e pelos modos os padres não lhe +dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A +carne da minha carne e o osso do meu osso!... +mas é carne e osso que me não fazem caldo... +Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... +Como ha de um homem, se isto assim continua, +pegar na enxada para dar uma cavadela, ou fazer +qualquer sachada?... E tambem quero vêr como +hei de no arraial e procissão de Santo Amaro, que +não tarda ahi, dar sequer um +rufo assim mais +tal... assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo... +<br /> + +<br /> + +A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida +pela apparição de nova personagem á +porta do quintal. +<br /> + +<br /> + +―Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha +um bocadinho de paciencia. É um instante emquanto +accendo o lume e lhe faço o caldo. Verá. +<br /> + +<br /> + +A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, +era uma rapariga de doze annos, alva e franzina, +<span class="pagenum">[111]</span> +como a mais delicada creança da cidade, com +os olhos negros e expressivos de intelligencia e de +doçura, e com os mais formosos cabellos louros +que ainda enfeitaram uma cabeça infantil. Não +havia +n'elles sombra, que desvanecesse aquella côr +deslumbrante; reflectia-se-lhes a luz nas ondas, +naturalmente lustrosas, como em tenuissimos fios +de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre +de artificio, de um e de outro lado do collo. +<br /> + +<br /> + +Condizia com a expressão angelica do semblante +o suave e affectuoso timbre de voz com que falára. +<br /> + +<br /> + +O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha +do Cancella, ou Lindita, como geralmente na aldeia +lhe chamavam, a creança que tem na sua presença. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda sobraçava um mólho de +hortaliça, +que fôra colher ao quintal, e dirigia-se com ella +para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal +deixavam ainda apagado áquella hora do dia. +<br /> + +<br /> + +Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, +sorrindo-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu +padrinho talvez sem reparar. +<br /> + +<br /> + +A estas palavras o desditoso marido voltou a +cabeça e fitou em Augusto um dos seus desemparelhados +olhos. +<br /> + +<br /> + +―Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! +Entre; esta casa é sua... De jantar não lhe +offereço... +porque... porque... Forte desgraça a +minha... Olhe! repare para este desaforo!... +Venho para casa, morto de trabalho... e vejo o +lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, +a confessar-se, a commungar... a tomar todos os +sacramentos... acho que os está a tomar todos... +Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de +consciencia, +como eu estou do estomago... Ora, senhores... +<br /> + +<br /> + +―Deixe estar, padrinho... Verá como isto se +arranja depressa... Olhe; o lume já está +accêso―dizia +<span class="pagenum">[112]</span> +Ermelinda, accendendo effectivamente o lume +no lar. +<br /> + +<br /> + +―Já o devias ter feito antes, Lindita,―disse +Augusto, sentando-se junto d'ella. +<br /> + +<br /> + +―Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui +lavar a roupa? +<br /> + +<br /> + +―Pobre pequena―disse o Zé P'reira―tambem +não te ha de faltar lazeira, tambem! +<br /> + +<br /> + +―A mim? Agora. Não que eu não saí de +casa +com as algibeiras vazias. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... mas é sempre preciso coisa que +conforte... Inda se tu bebesses... já +não digo +um quartilho... +<br /> + +<br /> + +―Credo, meu padrinho! Que está a dizer? +<br /> + +<br /> + +―Que espanto!... Ora, senhores, que parece que +o vinho é bebida amaldiçoada, que todos lhe teem +mêdo! É vêr se o padre na missa... +<br /> + +<br /> + +―Padrinho! padrinho! que vae dizer?―interrompeu +Ermelinda, quasi aterrada. +<br /> + +<br /> + +―Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho +minha presumpção de nunca dizer senão +a verdade... +Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito +e mais do sr. doutor delegado e mais doutores, +quando fui a um juramento, por causa d'aquellas +pancadas no recebedor... É que nenhum d'esses +santalhões, d'esses missionarios me teem que +ensinar n'esse ponto... Os missionarios!... Eu, +um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao +trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem +no pulpito, se Deus lhes manda que tirem as +mulheres de casa, para que os maridos não tenham +que comer, quando voltarem do trabalho... Um +dia inda lhes vou perguntar... isso vou... +<br /> + +<br /> + +―Olhe; a agua não tarda a ferver; verá +que +dentro em pouco...―continuou Ermelinda. +<br /> + +<br /> + +―Bem, Lindita, bem―disse Augusto―em paga +da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma +alegre nova. +<br /> + +<br /> + +―A mim? Diga. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[113]</span> +―Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias +te dará em vez de visitas, um abraço. +<br /> + +<br /> + +―De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe? +<br /> + +<br /> + +―Como adivinhaste depressa! +<br /> + +<br /> + +―Pois de quem mais havia de ser? Mas diz +que... em poucos dias... Então? +<br /> + +<br /> + +―Tel-o-hemos cá pelo Natal. +<br /> + +<br /> + +―Fala verdade? +<br /> + +<br /> + +―Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler? +<br /> + +<br /> + +―Para quê?―respondeu a rapariga, fitando porém +o papel com os olhos cheios de curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―Ora lê, lê... Até para vêr +se ainda te recordas +das lições, que eu te dei. +<br /> + +<br /> + +―Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho... +<br /> + +<br /> + +―Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não +a tua presença. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda approximou-se; tomando a carta das +mãos de Augusto, começou a lêl-a com +intensa +curiosidade. +<br /> + +<br /> + +Zé P'reira proseguiu no seu monologo: +<br /> + +<br /> + +―A religião, senhores―dissertava elle―não +manda tal... Isso é que não manda... A +religião +é a palavra de Deus... e Deus disse... sim... +Deus disse... Deus disse muita coisa... Disse que +por este deixarás pae e mãe. Ora a santa madre +igreja é mãe, é, sim, senhores; que +tem lá isso? +mas não é mais mãe do que a outra +mãe... e então... +senhores, uma mulher não deve deixar por +ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o +tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, +senhores, que é forte desgraça. +<br /> + +<br /> + +O monologo do desconsolado conjuge e a leitura +de Ermelinda foram interrompidos por uma voz +potente, que cantava na rua. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">O dinheiro paga tudo,<br /> + +Não se fica a dever nada;<br /> + +Toma, toma o limão verde,<br /> + +Ó da fresca limonada.</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> +E logo em seguida estalaram as taboas do soalho +no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e +no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura +agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da +Ermelinda. Cancella, ou o João Herodes, que assim +tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos +em que era actor applaudido e popular, o typo do +sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela +natureza +dotado de uma estatura e robustez, dignas +de Adamastor. +<br /> + +<br /> + +Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas +realisações +dos temperamentos sanguineos que, sem +ameaçarem de insultos apopleticos, dão riqueza ao +sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto +e colorido da saude e os reflexos da satisfação +interior. +<br /> + +<br /> + +A barba negra e espessa cercava-lhe as faces +córadas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado +sob o duplo arco de bastas sobrancelhas, +que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras +ameaçadoras, d'onde fuzilavam relampagos. Era formidavel +então! +<br /> + +<br /> + +O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na +presença de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras +de alvissimos e bem dispostos dentes, d'esses que +os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram. +<br /> + +<br /> + +Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes +lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume +na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais +que tudo trazia na memoria―a filha.―Esta, pela +sua parte, mal o reconheceu, correu a lançar-se-lhe +nos braços. +<br /> + +<br /> + +O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna, +levantou-a á altura dos labios e pousou-lhe nas faces +dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes +de todo aquelle intenso amor paternal. +<br /> + +<br /> + +―Ah!―exclamou, pousando-a no chão e respirando +como quem acabava de satisfazer uma intensa +<span class="pagenum">[115]</span> +necessidade do coração.―Isto consola que nem o +copo de agua que a gente, em dias de calma, pede +á borda da estrada, quando se leva a bôca secca +e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem +estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... +Ó sr. Augusto! tambem por cá? +<br /> + +<br /> + +―Esperava-o, Cancella. +<br /> + +<br /> + +―A mim?―continuou o homem, pousando no +chão uma mala que trazia.―Pois aqui me tem. Mas, +dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa +no que lhe irá por casa, sente ás vezes uns +sustos, +que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgraças, +para succederem, não põem muito... De +um momento para outro... E depois a gente ouve +por lá conversas, vê coisas que parece que +são +agouros... e que nos fazem a noite no coração... +Umas vezes é um enterro... outras, um desastre... +um fogo... um... E as creanças sós, e os paes +fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o +coração de +uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia +me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante lá a +sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram já +hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem +de bem: a comadre é uma santa, que só tem o +defeito +de querer ser santa devéras... mas emfim... +tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber +o que lhe vae por casa, outra... Tremem-me as +pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma +de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando +me vem dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro +o coração, que ninguem faz uma ideia; eu bem +canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha +alma, quando me passa pelo pensamento que te +posso um dia vir achar doente!... Assim me succedeu +com tua mãe... Deixei-a uma vez tão satisfeita +e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa +que encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, +sr. João, venha, que já não vem sem +tempo. Corra +a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como +<span class="pagenum">[116]</span> +se recebesse uma descarga em cheio no peito... +corri, e... +<br /> + +<br /> + +A commoção impediu-o de continuar; +disfarçou +como envergonhado d'aquella fraqueza, beijando a +filha outra vez. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda percebeu a perturbação do pae e +disse-lhe +carinhosamente: +<br /> + +<br /> + +―Para que está agora a pensar n'essas coisas +que o affligem, meu pae? +<br /> + +<br /> + +―Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem +faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te +vejo, pequena, e te vejo com boas côres e alegre... +nem eu sei o que tem mão em mim, que não me +ponho a dançar. Ah!... ah!... Ninguem tem uma +filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto; mal fica +a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto +ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha +loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados?―e +passava com orgulho os dedos pelos bastos +cabellos de Ermelinda―mas uma pelle assim +delicada,―e afagava-lhe com as mãos a face, quasi +a mêdo―mas olhos assim a metterem-se mesmo +pelo coração á gente?―e beijava-lh'os +com paixão―isso +é que eu ainda não vi, nem tenho de +vêr. +Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um +selvagem como eu, é que não sei... É a +imagem +da mãe!... Ella tambem era poucochinho de si... +miudinha e... Mas não pensemos n'estas coisas. +Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal +com a minha vida por arranjar e eu posto á taramela. +Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e +muitos recados, muitos. +<br /> + +<br /> + +―Já sei; Angelo escreveu-me. +<br /> + +<br /> + +―Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! +Aquillo é uma perola! Com tres milheiros de demonios +do inferno! d'alli ha de sair coisa grande. Eu +não queria morrer sem vêr o que saía +d'alli. Brinca +como uma creança, mas, quando quer, põe-se +sério, +e fala como homem. E nada de soberbas, nem de +<span class="pagenum">[117]</span> +ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da +cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... +Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta... +isso é um nunca acabar, quando lá me +pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se +já +se fez aquella casa, e se já acabou aquella obra, e +se já casou este, e se inda vive aquelle, e mais para +aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... +Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois +cá a respeito da rapariga?... Isso é uma +comedia!... +Não se farta de me ouvir falar d'ella... Ah, +sr. Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto +nascesse minha filha. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda fitou o pae com olhos espantados. +<br /> + +<br /> + +―Sim, filha,―proseguiu elle.―Deus não te devia +dar a um homem como eu, que emfim... Com +os diabos! lá alma e coração... +não quero que +haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um +amigo... e com mil demonios, até por um inimigo, +se não fôr soberbo, vamos lá, dou a +camisa do corpo... +Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. +Vamos á minha tarefa. Mas que tem você +estado para ahi a prégar, compadre, desde que eu +entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou +a gloria, hoje, visto que já se está ao +sermão. +<br /> + +<br /> + +Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido +ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno +de mão, e voltára de novo ás suas +queixas amargas +contra a sorte e contra a esposa. +<br /> + +<br /> + +Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu +uma das suas lamentações; o compadre, emquanto +desenfardelava a mala, ia cortando com reflexões +proprias essa longa jeremiada. +<br /> + +<br /> + +―Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, +hein? É mal feito, a falar a verdade. Lume apagado +em casa de familia é coisa triste... Aqui está um +livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, +que a minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas +berças... Tambem eu estou em jejum desde +<span class="pagenum">[118]</span> +as cinco horas da manhã... mas estes missionarios! +Ah! com seiscentas mil duzias de demonios, +eu ainda queria um dia... +<br /> + +<br /> + +―Deus nosso Senhor seja n'esta casa―disse +uma voz gemida á porta da cozinha. +<br /> + +<br /> + +―E o demo na do abbade―resmungou Herodes. +<br /> + +<br /> + +Era a sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S. +João +Baptista, typo de beata, que dispensa descripção, +que regressava a casa depois de completar o cyclo +das suas devoções. +<br /> + +<br /> + +―Viva a comadre!―disse o João Cancella, continuando +a mexer na mala. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda foi beijar a mão á madrinha. +<br /> + +<br /> + +Augusto saudou-a affavelmente. +<br /> + +<br /> + +O marido obrigou o corpo a uma meia rotação +sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe, +agitando os braços e as mãos, espalmadamente +abertas: +<br /> + +<br /> + +―Mulher dos meus peccados, mulher de não sei +que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher! +Isto não pode continuar assim, mulher! Eu +não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias +na igreja, mulher!... Isto são preparos, +mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo +por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir +nove missas por dia e uma duzia de novenas! +<br /> + +<br /> + +―Cala-te, cala-te,―retorquiu azedamente a devota +metade do Zé P'reira―cala-te para ahi, desalmado. +Excommungado seja o mafarrico, que assim +me quer attentar logo que entro em casa! Olha +lá que não morresses de fome! Estás +mal acostumado. +Louvado seja Deus! Já não ha quem queira +soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que +não +tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira +dar só o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno. +Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! +Ora que não ha de uma pessoa poder +ter as suas devoções, que não venha +encontrar lamurias +<span class="pagenum">[119]</span> +em casa! Ó minha rica Mãe do +céo, seja +para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo +mau! E eu que deixei de rezar oito estações, +que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora +digam como ha de esta gente cumprir os jejuns +que manda a santa madre igreja, se, por duas horas +de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado +seja o sacratissimo coração de Maria! +Ó homem +de Deus, e então aquelles santos eremitas, +que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes... +<br /> + +<br /> + +―Que lhes prestasse. Haviam de andar muito +gordos. Eu queria-os vêr com uma enxada a trabalhar +todo o dia no campo, e que lhes dessem depois +raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, +que é forte desgraça a minha! Mulher, a +religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É +má christã a mulher que deixa o seu marido na +penuria. Isto é que os padres deviam ensinar. Vae-lhes +lá perguntar se, quando chegam a casa, não +teem a sôpa e o toucinho á espera d'elles? +<br /> + +<br /> + +―Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, +tem vergonha n'essa cara. Olha agora! Eu queria +vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos. +Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até +agora a confessar! +<br /> + +<br /> + +―Confessar é parolar; ora adeus! +<br /> + +<br /> + +―Tu estás doido, alma perdida?! +<br /> + +<br /> + +―E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos? +<br /> + +<br /> + +―Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda +mais terei de ouvir?! +<br /> + +<br /> + +―Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns +ninguem engorda. Só os santos... de pau. +<br /> + +<br /> + +―Vamos, vamos―disse o Herodes, intervindo.―Não +vale zangarem-se por causa d'isso. A minha +pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em +santa paz e deixem-se de testilhas, que não é +bonito; +e muito menos entre marido e mulher. Você, +<span class="pagenum">[120]</span> +compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos +lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa +tambem bastante tempo em devoção; emquanto +á +comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus +não é tão difficil, que uma pessoa +precise de estar +tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, +fazendo a gente aquillo que lhe diz o coração, e +que +não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho +direito. E mais vale fazer o que Deus manda, +do que levar a vida a pedir perdão por o não +ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as +mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, +como lapas nos rochedos, nem... +<br /> + +<br /> + +―Compadre!―atalhou escandalisada a sr.<sup>a</sup> +Catharina―compadre! +É essa a educação que dá +á +sua filha? São coisas que se digam deante de uma +creança de doze annos? Ande lá, ande +lá... Ora +Deus queira que lhe não encontre ainda o pago. +Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse +ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o +pouco que sabe d'ella. +<br /> + +<br /> + +―Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda +não deixa passar pobre á porta, a quem +não dê esmola; creança que +não afague; velho ou +velha, que não corteje; reza todas as manhãs a +oração, +que a mãe lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria, +onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus; +de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher +de casa que ha de ser... O Senhor me perdôe, +se mais é preciso ainda, que mais não sei eu +ensinar-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Não tenha soberbas, compadre, não tenha +soberbas! +E cautela com o mimo que dá á pequena, +que é o que perde muitas almas. +<br /> + +<br /> + +―Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio +de repentes é que hei de dar mimo a esta pobre +creança, que nem o da mãe conheceu! +<br /> + +<br /> + +―Ora diga, compadre, acha que é muito bem +feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses +<span class="pagenum">[121]</span> +cabellos soltos? Não sabe que o demonio... +cruzes! arma com elles laços ás almas das +creaturas? +<br /> + +<br /> + +―Fracas prisões são as do diabo, se as forja +só +de cabellos!... Então, por causa das +tentações é +que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas! +É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: +Deus, que deu á pequena esses cabellos tão +bonitos, +é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que lh'os tire, +eu é que não. +<br /> + +<br /> + +―Deus cerca-nos de tentações, para que +nós as +vençamos. +<br /> + +<br /> + +―Forte tentação venceu a comadre! aposto que +os não cortaria assim, se os tivesse como os da +minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha +filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma +d'essas cabeças tosquiadas, que por ahi andam! +<br /> + +<br /> + +―Talvez ainda se arrependa! +<br /> + +<br /> + +―Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto +de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha +pequena, e não figuras... respeitaveis, como a +da comadre; ora então... +<br /> + +<br /> + +A beata, apesar de trazer sempre na memoria o +<em>Vanitas vanitatum</em> do +<em>Ecclesiastes</em>, não foi +inteiramente +insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe +o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe +como para descarregar sobre ella a má vontade +com que estava ao pae: +<br /> + +<br /> + +―Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha +muita pressa de jantar! Deixar assim uma creança +fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um +boi! É preciso não ter consciencia. +<br /> + +<br /> + +E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar +o dicto. +<br /> + +<br /> + +Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava +examinando o livro recebido. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo +d'aquella creança, que era de uma +organisação nervosa, +excepcional na aldeia, exercia a beata uma +<span class="pagenum">[122]</span> +especie de fascinação, um mixto de respeito e de +terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus +labios infantis. Era outra na presença da madrinha, +fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os +bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o +movimento dos labios austeramente contrahidos; +tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando +nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão +que d'ella recebia, e comtudo amava-a, +amava-a, porque Ermelinda na sua candura de +creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, +como virtudes beatificantes, os defeitos da +devota velha; a innocente julgava-se uma grande +peccadora quando, depois de ter na mente aquelle +perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo +da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados +lá encontrava! Uma pequena mentira que +dissera; um domingo em que faltou á missa; um +juramento que, sem o sentir, lhe saira da bôca; +um jejum que não guardára, e outros crimes da +mesma fôrça. A amedrontada creança +chegava a +receiar pela salvação da alma. +<br /> + +<br /> + +É sempre funesta a influencia que exercem sobre +a infancia os caracteres como os da beata. +<br /> + +<br /> + +O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava +a filha e acudiu-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Toma lá, Ermelinda―disse elle, tirando da +mala uma pequena medalha com um retrato.―É +um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou +antes, para ti... +<br /> + +<br /> + +Ermelinda pegou no retrato com não reprimido +alvoroço. Era outra vez a creança. +<br /> + +<br /> + +A madrinha lançou para a medalha um olhar +obliquo e reconheceu o retrato. +<br /> + +<br /> + +―Em nome do Padre e do Filho e do Espirito +Santo!―rompeu ella, com um espanto exaggerado.―Este +homem não tem a cabeça no seu logar, por +mais que me digam! Elle quer perder a filha de +certo! A fazer a cabeça doida a uma creança! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com +impeto a mala no chão, e com os olhos chammejantes +e as faces injectadas, vociferou, cedendo o +campo á cólera, que se lhe accumulou no seio: +<br /> + +<br /> + +―Com seiscentos milhões de diabos! Você que +está ahi a dizer, mulher? São os +sermões dos missionarios, +que lhe teem assim afiado a lingua e deitado +peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou +mais pela creança, de quem é aquelle retrato, do +que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados +todas as semanas e por quantas beatas andam +comsigo a dar marradas no lagêdo da igreja. Fazer +a cabeça doida á minha filha! Tenha +mão na lingua, +comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a +trazem a vossemecê os missionarios e os sermões. +Seu marido fôra eu, que a mania lhe tirava. +<br /> + +<br /> + +O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, +zelava a dignidade do casal; e não levava á +paciencia que outro, além d'elle, dissesse d'aquellas +verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através +dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, +e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando +sempre, bradou: +<br /> + +<br /> + +―Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! +Compadre, prudencia!... Compadre, eu não +consinto... Ora, senhores, que é forte coisa! Compadre!... +veja que eu é que sou aqui o chefe da +familia e esta é minha mulher! Pschiu... Basta... +Compadre... basta. Então? Ora, senhores. +<br /> + +<br /> + +Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais +lhe crescia a vermelhidão nas faces; a +irritação rompera +os diques da cordura e ameaçava engrossar +cada vez mais. Ás exclamações de +Zé P'reira respondia +já azedamente. +<br /> + +<br /> + +―Ora adeus, temos conversado... Seja homem, +que bem precisa... Não basta dar á lingua... Na +taberna não é que se governa a casa... +<br /> + +<br /> + +A sr.<sup>a</sup> Catharina abstinha-se agora +prudentemente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi +chorando. +<br /> + +<br /> + +Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, +conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe +difficil a empreza. +<br /> + +<br /> + +Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um +o sangue, a outro o vinho. +<br /> + +<br /> + +Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. +Deram-se mutuas satisfações, e separaram-se +apertando as mãos. +<br /> + +<br /> + +Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda. +<br /> + +<br /> + +O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre +elles a interminavel contenda em que viviam. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>VIII +</h4> + +<br /> + +Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de +escutar, ainda por muito tempo, as vociferações e +pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza +do compadre, que assim deixára a mulher tomar +sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil. +Augusto ouviu tudo com resignado silencio e +attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim +a custo soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, +no fogo da exposição de tão justos +aggravos, lhe +segurava os braços com pouco affavel vivacidade; +a final, porém pôde deixal-o e voltou a casa. +<br /> + +<br /> + +Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto +quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras +e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou. +<br /> + +<br /> + +Era alli o seu logar de descanço; a escola era +em outra casa vizinha. N'esta não havia, a amargurar-lhe +as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem +as do supplicio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[125]</span> +Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor +da humanidade, só entrevês delicias na tarefa do +ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito +infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez +no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro +de phantasia, perdôa-me a palavra, supplicio, +de que me servi, e perdôa ainda mais ao caracter +de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te +feriu os humanitarios instinctos. +<br /> + +<br /> + +Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: +e que é uma graciosa e amoravel idade a da +infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam +presente o ideal de uma e amenisavam á outra com +branduras os amargores do penoso tirocinio;―mas +que importa? nem por isso é menos real o +supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura +das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer, +vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco, +os rebentos do grão que o calor fez germinar, e volverem-se +as folhas, estenderem-se e enflorarem-se +os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das +tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto +de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o +terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados, +muita vez lhe fallece o alento, e se olha de +quando em quando para o céo, não é +para lhe agradecer, +com risos os gôsos que elle lhe dá; mas para +lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que lhe +mingúa. +<br /> + +<br /> + +De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias +o vêl-as desenvolver, florir, fructificar; ardua, +improba, desesperadora é muita vez a tarefa +da sua primeira educação. É mister +possuir um +grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho +typo, que da infancia concebemos, não se transtorne, +na phantasia d'estas victimas d'ella, em não +sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena +todos os momentos de alegria. +<br /> + +<br /> + +Além d'isso, o pobre professor de +instrucção primaria, +sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos +<span class="pagenum">[126]</span> +da instrucção, não pode ser +comparado +absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes +o jornaleiro contractado por magro salario, para, +á fôrça de braço, lavrar o +solo, d'onde, mais tarde, +romperá a vegetação, que elle +não terá de vêr e que +a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu +tambem o humilde professor, e por o mesmo preço +que o jornaleiro, que não vão mais longe com elle +as liberalidades dos nossos governos, venceu as +maiores cruezas do magisterio; mas não verá +tambem +o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias, +que educou, justamente quando com +mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva +a qualquer d'essas intelligencias um futuro +de glorias, raro é que volvam um olhar agradecido +para as humildes mãos, que as sustentaram, quando +ainda não tinham azas para voar. +<br /> + +<br /> + +Quasi todos os grandes homens commettem esta +ingratidão. Falam nos seus mestres de philosophia, +de mathematica, de litteratura, e não salvam do +esquecimento, +pronunciando-o, o nome do primeiro +mestre, do que os ensinou a ler. +<br /> + +<br /> + +Considerações da ordem das que acabamos de +fazer, quero acreditar, não são as que mais +preoccupam +o pensamento da maioria d'esses pobres +diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram +ligar á atafona do ensino primario da aldeia; +porém devem ser, além das miserias de +tão mesquinha +sorte, causas de grandes torturas moraes +para alguma alma de instinctos e aspirações mais +elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo, +a este poste de expiação. N'esse caso estava +por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que +os livros abrem ás imaginações, que na +vida real +não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas +em que as suas obrigações lhe permittiam +respirar. +<br /> + +<br /> + +D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado +saborear esse prazer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[127]</span> +Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas +e chamou-o de fóra uma voz bem conhecida d'elle. +<br /> + +<br /> + +Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas. +<br /> + +<br /> + +―Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. +<em>Amice!</em> Pode falar a um amigo e +colega?―dizia +elle. +<br /> + +<br /> + +Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um +gesto de enfado. +<br /> + +<br /> + +O latinista entrou esfregando as mãos. +<br /> + +<br /> + +―A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado +aos livros!―dizia elle, batendo no hombro a Augusto.―Invejo-lhe +mais a pachorra do que o proveito. +Olhe que não medra com isso; nem ninguem +lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por +dois dias que um homem passa cá n'este mundo, +tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... +Faça +como eu. +<br /> + +<br /> + +E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu +instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros +que via sobre a mesa. +<br /> + +<br /> + +―Então que estava lendo? que estava lendo?... +Poh! poh! poh!... Versos... Ora que nunca pude +gostar de versos!... Poh! poh!... E não é agora +porque se diga que não tinha quéda; +não, senhores; +em tempos fiz até algumas quadras... Poh! +poh!... já se sabe, até certa idade, mas nunca +fui +muito para ahi... Poh!... A minha vocação +é para +a musica... Poh! poh!... Lá para a musica, +sim... Poh! poh! poh!... Herman e Dorothéa―continuava +elle, examinando os livros.―Novellas... +Poh!... E isto que é? +<em>Confessions</em> de Rousseau―n'este +nome deixou aos diphtongos o valor portuguez―Poh! +poh! As Metamorphoses... Latim! +Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!...―E o +Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi +arremessado +como se estivesse em braza. +<br /> + +<br /> + +Augusto não pôde conservar-se sério, +ante o instinctivo +movimento de repulsão do mestre. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> +―Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. +Pertunhas?―perguntou elle. +<br /> + +<br /> + +―Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É +para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu +bem sei que é abusar da sua bondade... +<em>Quousque +tandem, Catilina</em>... Mas, é por esta vez... +<br /> + +<br /> + +―Já sei; quer que lhe vá dar +lição aos rapazes. +<br /> + +<br /> + +―Ah! grande maganão, que adivinhou―exclamou +o mestre, abraçando Augusto com +effusão.―É +isso mesmo, se lhe não custasse... +<br /> + +<br /> + +―Irei. +<br /> + +<br /> + +―É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao +ensaio da philarmonica... Percebe o senhor? Os +Reis estão ahi á porta e as outras festas do +Natal, e +não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho +ainda umas peças do +<em>Trovador</em> para ensinar á +minha +gente. São muito bonitas... Poh! poh! poh! E +então este anno, que pelos modos temos cá o +conselheiro +e mais o pequeno... Não contando com +esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se +Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da +D. Dorothéa, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro. +Lá chamam-lhe primo. Esteve lá esta +manhã +um par de horas, logo que saiu da minha +repartição. +Dizem-me que é filhote de Lisboa, solteiro, rico +e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida! +Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente +muito feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira +a visita d'este senhor? Aquillo é mosca que vem +ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira +d'isto. Pois não lhe parece, hein? +<br /> + +<br /> + +―Não sei bem o que quer dizer com a imagem―respondeu +Augusto, levemente enfadado.―Além +de que não posso adivinhar as +intenções de um homem +que pela primeira vez encontrei esta manhã. +<br /> + +<br /> + +―Pois está claro que não; nem eu; mas emfim +uma pessoa logo tira pelo que vê... Ora pois diga, +um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa +musica, <em>et coetera</em>, andar leguas e +leguas para se +<span class="pagenum">[129]</span> +metter n'este desterro... Porque isto é um +desterro. Sim, deve concordar que não é natural. +Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, <em>et coetera</em>... +O senhor +bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao +dinheiro, meu amigo.<br /> + +<br /> + +A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando +Augusto, que não redarguia.<br /> + +<br /> + +―Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já +depois de ámanhã vae o rapaz +acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas agora +me lembro! o senhor é tambem da sucia.<br /> + +<br /> + +―Eu?!<br /> + +<br /> + +―Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das +pequenas para o convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha +de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e verá se eu tenho +razão.<br /> + +<br /> + +―Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me +chamou a criada―disse Augusto, erguendo-se como para fugir +áquella conversa.―Em seguida irei aos seus rapazes.<br /> + +<br /> + +―Então vá, vá. Deus lhe pague o favor +que me faz e permitta que eu lhe não peça muitos +d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com ideias +de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o +outro, a encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o +conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que +não tenha influencia em eleições. O +sr. Joãozinho das +Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por outro +lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se +consigo pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas +vá, vá jantar, que eu espero.<br /> + +<br /> + +―Se quizer fazer-me companhia...<br /> + +<br /> + +―Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a +minha hora. Jante á sua vontade.<br /> + +<br /> + +Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, +deu algumas voltas cantarolando, sentou-se +<span class="pagenum">[130]</span> +depois, e pegando na pasta de Augusto, +poz-se a examinar os papeis que ella continha. +<br /> + +<br /> + +Ao mesmo tempo simulava umas variações de +trompa, á fôrça de +contracções e esgares dos labios. +<br /> + +<br /> + +A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a +mesma que Augusto trazia, quando o vimos no +Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +Entre os documentos contidos n'ella algum achou +o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas +e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o, desenhou-se-lhe +no semblante a mais intensa curiosidade +e cessou de todo a exhibição acustica, que +com tanto ardor encetára. +<br /> + +<br /> + +Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, +olhando em volta de si, para verificar que não era +observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu +no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no +sitio d'onde a tirára, continuou a ler ou a fingir que +lia com toda a attenção um livro e encetou novas +variações de trompa. +<br /> + +<br /> + +―Então já! Apre! Isso é jantar a +vapor―disse +o latinista, pondo-se a pé, logo que Augusto voltou. +<br /> + +<br /> + +E momentos depois sairam juntos. +<br /> + +<br /> + +Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir +a uma lição de latim e a um ensaio da +philarmonica, +deixal-os-hemos ambos, para voltarmos +ao Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as +duas primas sentadas ao parapeito do muro da +quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos, +a vista se espraiava em amplissimo horizonte +até umas nuvens, que pareciam limital-o. +<br /> + +<br /> + +D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias +da sesta habitual. As creanças brincavam a alguma +distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham +como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas +raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam +em meditativo silencio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[131]</span> +A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se +estreitos e longos traços nebulosos, a +que o sol dava um colorido tão ardente, que se o +pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, +ao passal-o á tela, com receio de que o acoimassem +de exaggerado. O verde dos campos apresentava a +gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de +inverno costuma dar-lhe. +<br /> + +<br /> + +Christina interrompeu o silencio por fim. +<br /> + +<br /> + +―O que eu não sei―principiou ella―é como +o primo Henrique de Souzellas... +<br /> + +<br /> + +―Onze!―atalhou a morgadinha, sem desviar +os olhos do ponto da perspectiva, que fitava. +<br /> + +<br /> + +―Onze quê?―perguntou Christina, erguendo os +d'ella. +<br /> + +<br /> + +―Com esta são onze as vezes que, esta tarde, +depois de um longo silencio, abres a bôca para +me falares no primo Henrique de Souzellas, uma +vez que está decidido que seja primo. +<br /> + +<br /> + +Christina fez um gesto de despeito e córou levemente. +<br /> + +<br /> + +―E então que queres dizer com isso? +<br /> + +<br /> + +―Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta. +<br /> + +<br /> + +―Não sabia que era prohibido falar-te no primo +Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa. +Está um tempo muito bonito: nem parece dezembro. +<br /> + +<br /> + +―Não; vae magnifico para os nabaes―replicou +Magdalena zombeteiramente. +<br /> + +<br /> + +―Se não mudar com a nova lua―continuou +Christina, ainda formalisada. +<br /> + +<br /> + +―É excellente para seccar os milhos, que bem +precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras +baixas. +<br /> + +<br /> + +E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha +desatou a rir. +<br /> + +<br /> + +―Não sei de que te ris!―acudiu Christina, cada +vez mais séria.―Pois não é esta a +conversa de +que tu gostas? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[132]</span> +―Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de +lavoura; bem sabes.―E, mudando repentinamente +de tom, accrescentou:―Ora vamos, Christe; não +te zangues commigo. +<br /> + +<br /> + +―Não, mas é que ás vezes +não te entendo, a falar +verdade. Vens com umas coisas que mettem +raiva―respondeu-lhe Christina, sempre agastada. +<br /> + +<br /> + +―Já estou arrependida; peço perdão. +Fala lá á +tua vontade no primo Henrique, fala; que eu não +contarei as vezes que o fizeres. +<br /> + +<br /> + +Christina reproduziu o gesto de impaciencia. +<br /> + +<br /> + +―Agradeço a tua generosidade, mas já +não tenho +mais que dizer d'elle agora; por isso... +<br /> + +<br /> + +―Pelo menos completa a duzia. +<br /> + +<br /> + +―Lena! Então! Olha que se continuas com isso, +fazes-me sair d'aqui. +<br /> + +<br /> + +―Sempre queria que te vissem agora, Christe, +esses que andam por ahi a gabar a docilidade do +teu genio, as branduras da tua indole; queria que +te vissem essa cara arrenegada, para saberem que +tambem ha um acidozinho na tal doçura... Mas +fazes-me a graça de só para mim teres d'essas +franquezas. +<br /> + +<br /> + +Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, +ao ouvir esta reflexão da prima. +<br /> + +<br /> + +―E não sabes a razão d'isso?―respondeu-lhe +ella―a razão é o genio que tens, Lena. O teu +gôsto +é mortificares uma pessoa. Não ha santo que +não +perdesse a paciencia comtigo. +<br /> + +<br /> + +―Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a +victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo +te junta no coração a todo o instante! Se +alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas +para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar +as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E +pagas-me +assim! +<br /> + +<br /> + +―És muito infeliz commigo. Pobre Lena! +<br /> + +<br /> + +―Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu +disse ha pouco. Não te posso vêr assim.―E tomando +<span class="pagenum">[133]</span> +um tom natural, mas sob o qual transparecia +ainda certa malicia, Magdalena continuou:―Pois +é verdade, dizias tu que não sabias por que o +primo Henrique de Souzellas... +<br /> + +<br /> + +Christina fez um movimento impaciente, como +para levantar-se. +<br /> + +<br /> + +―Então que é isso? Não me acceitas a +expiação?―perguntou +Magdalena, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique +de Souzellas. Vejo que te não é agradavel que +as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as +razões que tens para isso... +<br /> + +<br /> + +―Bravo! Foi admiravel de maldade o entono +com que disseste esse: «Sejam quaes forem as +razões.» +E venham-me falar na candura d'esta creança! +<br /> + +<br /> + +―Eu não quero dizer... +<br /> + +<br /> + +―O que queres dizer, não sei; mas vejo que não +és senhora tua quando se fala n'este assumpto. +<br /> + +<br /> + +―Que lembrança!―tornou Christina, cada vez +mais embaraçada―pois imaginas devéras que eu?... +<br /> + +<br /> + +―E por que não? +<br /> + +<br /> + +―Lena! +<br /> + +<br /> + +―Não ha nada mais natural. +<br /> + +<br /> + +―Se queres, juro-te... +<br /> + +<br /> + +―Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão +nos labios.―Isso não, que é mais +sério. Jurar não +te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua consciencia, +e não quero obrigar-te a remorsos. +«Juro!» E +com que ousadia ias pronunciar um juramento +falso! +<br /> + +<br /> + +―Falso! +<br /> + +<br /> + +―Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha +pobre Christe, queres então que te fale com +toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de +proposito para confirmar umas suspeitas, que se +me formaram e que vejo agora que eram fundadas. +<br /> + +<br /> + +―Suspeitas! que suspeitas?... +<br /> + +<br /> + +―O primo Henrique de Souzellas deixou em ti +uma tal ou qual impressão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[134]</span> +―Lena! +<br /> + +<br /> + +―Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o +depois e agora. Então! tem juizo. Commigo +sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito +do privilegio de conversar á vontade comtigo e de +te vêr sem aquella timidez que tens deante dos outros. +Com o teu genio, precisas de uma pessoa, +como eu, com quem não tenhas acanhamento e em +quem possas até descarregar algumas maldadezitas; +e acredita que me lisonjeio com me dares a +preferencia. +<br /> + +<br /> + +―Mas como imaginaste?... +<br /> + +<br /> + +―Continuas? Não tens de que te envergonhar +pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz. +Henrique de Souzellas é elegante, é espirituoso, +affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito +trato do mundo... +<br /> + +<br /> + +―Mas... +<br /> + +<br /> + +―Faça favor de me ouvir―atalhou Magdalena, +pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas +essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero +por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te +já. E nem receio que isso aconteça, +para te falar sinceramente, porque te conheço o genio +timido e porque... porque te conheço o genio +timido e mais nada. +<br /> + +<br /> + +Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa +que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique +não saíra d'aquella primeira visita demasiado +impressionado +por a imagem de Christina; sabia talvez, +suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que +lisonjeada algum tanto, que no coração do hospede +de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente. +Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu +pensamento, ella o poderia formular? O remedio +pois era completar a phrase como a completou. +<br /> + +<br /> + +Christina já não tinha ousadia para negar, nem +ainda coragem para confessar. Encostando a face +á mão, calou-se e deixou falar Magdalena. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[135]</span> +A morgadinha proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―É preciso que saibas, Christe, que é mais facil +conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas +boas qualidades. Os defeitos são imprudentes e linguareiros, +denunciam-se, dão signal de si, basta +meia hora para se descobrirem em qualquer logar +que habitem. As boas qualidades, não; essas são +modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se. +São precisos annos para as descobrir todas. Mas +com que olhos de espanto me estás fitando! Parece +que te causa estranheza o meu sermão? Eu te digo +a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo... +e quem sabe se o futuro virá confirmar, em +relação a mim, esse titulo, que por phantasia lhe +dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...; +mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me +aos olhos muitos dos seus defeitos. +<br /> + +<br /> + +―Quaes são?―perguntou Christina com viveza. +<br /> + +<br /> + +―Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me +que os poderá ainda perder; sobretudo se continuar +a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer +que no fundo havia uma mina de bons sentimentos +por explorar. Nasceu logo em mim a vontade +de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que +n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? +para a aldeia era um passatempo como outro +qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e +revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi +a impressão que este sobrinho da tia Dorothéa te +causára. +<br /> + +<br /> + +―Lena! Como te deu para suppôr que eu me +apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me +imaginas apaixonada? +<br /> + +<br /> + +―Não, ainda não; inclinada, agradada, +attrahida... +ou outro qualquer termo d'esta fôrça, que +deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não +é +preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei +isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem. +Suppõe que foi por um tacto especial, por uma +<span class="pagenum">[136]</span> +qualidade occulta, como a do tino que dizem que +teem certos medicos para reconhecerem o mal sem +estudarem muito o doente. +<br /> + +<br /> + +―Pois o tino enganou-te. +<br /> + +<br /> + +―Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este +senhor primo intruso fôr realmente o que eu imagino +que é, resta-me preparal-o para o tornar mais +digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso +favorecerei; se não fôr, declaro-lhe já +guerra e guerra +de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a +mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade +e boa fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que +o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente +o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso, +certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e +em muitos individuos differentes, para se ter na +conta devida. Illude, agrada a quem não está +costumado, +e pode causar graves enganos e desenganos +mais graves ainda. Por emquanto o que elle +nos mostra é mais da sociedade em que vive, do +que d'elle proprio. É necessario deixar cair a primeira +capa, para que o natural appareça. +<br /> + +<br /> + +―Não sabia que era assim facil enganar-se uma +pessoa a respeito de outra―notou Christina, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta +tua mãe? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou +lá por bom preço um cofrezinho que ella suppunha +preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, +desde que o verniz brilhante, que elle tinha, +caiu e ficou á vista a realidade? pois o mesmo +acontece muitas vezes em contractos de outra ordem +e bem mais sérios do que este. Ha vernizes +maravilhosos, que illudem os inexperientes. +<br /> + +<br /> + +Houve um instante de silencio, no fim do qual +Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita +para Magdalena: +<br /> + +<br /> + +―Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual +eu não devo acreditar que esses pensamentos te +<span class="pagenum">[137]</span> +occorreram, porque era o teu destino, e não o meu, +que vias dependente do estudo que fazias? +<br /> + +<br /> + +A morgadinha fixou na prima um olhar triste e +cheio de amargas recriminações. +<br /> + +<br /> + +―Por uma razão muito poderosa, Christe, porque +ias abrir o coração a um sentimento mau, que +macularia o teu caracter generoso e candido―a +desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da +lealdade, com que te falo, quando te falo séria; e +porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente, +pois que a consciencia me diz que t'o +não merecia. Satisfaz-te esta razão? +<br /> + +<br /> + +A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, +que ás vezes tinha, e tomára quasi o da +commoção. +<br /> + +<br /> + +Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, +tambem commovida, apertou as mãos da amiga. +<br /> + +<br /> + +―Não faças caso do que eu disse, Lena; +perdôa-me. +Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus +que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para +sempre, envenenado o coração. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom +humor. +<br /> + +<br /> + +―Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! +Saldemos antes as nossas contas, como mulheres +de juizo. Em compensação da pequena offensa +que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão +formal, a qual até agora tens evitado. Ora confessa, +adivinhei o estado do teu coração? Dize. +<br /> + +<br /> + +Christina hesitou. +<br /> + +<br /> + +―Vamos,―insistiu a morgadinha―acredita que +preciso de uma declaração para me guiar... E +crê +que é para bem teu. +<br /> + +<br /> + +―Que queres que te diga? Eu não me sinto +apaixonada. +<br /> + +<br /> + +―Mas já te disse que me bastava um termo +menos violento... um «agradada», por exemplo. +<br /> + +<br /> + +―Confesso que... +<br /> + +<br /> + +―Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse +«confesso que...» já diz muito. Agora +deixa-te +<span class="pagenum">[138]</span> +guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não +corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que +ha alli um excellente coração, mas que queres? +Não é o typo que me agrada... o meu ideal como +se costuma dizer. +<br /> + +<br /> + +―E então qual é o teu ideal? +<br /> + +<br /> + +―Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o +encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo +S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim; +e não sei onde o procure. +<br /> + +<br /> + +N'este sentido se prolongou o dialogo entre as +duas primas, até que D. Victoria, findando a sua +sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o costume, +ralhava contra os criados, a quem, não sei +por que processo, attribuia umas dôres de cabeça +com que acordára. +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao +Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena, +a qual redobrou de ironia. Christina já mal podia +disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era +attendida, mas a sua timidez não a deixava luctar. +<br /> + +<br /> + +De tarde, Henrique teve de condescender com o +padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou +a mostrar-lhe as raridades e monumentos da +terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado +a renunciar á nova visita ás senhoras do +Mosteiro, +para gastar as expressões da sua +admiração deante +das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura +de não sei que imagem de santo, a qual passava +por um primor; de uma sala nua, com uma +mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras +á volta, que era a sala das sessões do corpo +municipal; +e de umas pyramides de ripa, que tinham +servido, havia oito annos, em festejos officiaes. +<br /> + +<br /> + +Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde +deliciosa. +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>IX +</h4> + +<br /> + +Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle +que se destinára para o passeio á ermida, +Christina foi mais madrugadora do que as aves. +Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, +já a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa +de se fazer esperar pelos companheiros da +projectada excursão matinal. Quasi não dormira +toda a noite aquella rapariga, com tal +preoccupação. +<br /> + +<br /> + +As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito +tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem +discretas ante o apparecimento do dia. +<br /> + +<br /> + +Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto +de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de +passeio á ermida não a +alvoroçára tanto. Christina +foi acordal-a ao leito. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada +na prima. +<br /> + +<br /> + +―Que queres tu, Christina? Que lembrança foi +essa hoje de andares estremunhando a casa esta +noite? +<br /> + +<br /> + +―Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia +eu hontem? Então são estas as madrugadas em +que falavas? +<br /> + +<br /> + +―De certo que não são madrugadas; isto +é +noite é o que é. +<br /> + +<br /> + +―Dentro em pouco é dia. Queres vêr? +<br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas +das janellas e correu as cortinas. +<br /> + +<br /> + +A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e +ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes +assiste no crepusculo ás melancolias da natureza, +outras vezes na aurora ao renascimento dos seus +<span class="pagenum">[140]</span> +jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Vês?―disse Christina. +<br /> + +<br /> + +―Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae +alto! É pena que não alumie melhor do que esta +lamparina. +<br /> + +<br /> + +Christina sentia redobrar com estas delongas a +sua impaciencia, quasi de creança. +<br /> + +<br /> + +―Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr +do alto da ermida o romper do sol. +<br /> + +<br /> + +―Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! +Em uma manhã de dezembro! +<br /> + +<br /> + +―Está tão bonita, que parece de primavera. +<br /> + +<br /> + +―Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos +este passeio. Isto é lá coisa que se +faça? +Vale por uma viagem aos pólos. +<br /> + +<br /> + +Christina não fazia senão ir do leito de +Magdalena +para a janella e voltar da janella para o leito, +em virtude d'aquella irresistivel necessidade de +movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos +quando nos deixamos apossar da impaciencia. +<br /> + +<br /> + +―Não fazes ideia como está bonito cá +fóra; n'alguns +pontos ainda se vê neve. +<br /> + +<br /> + +―Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda +se vê neve!... Parece-me que já estou gelada... +Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando. +Vês? +<br /> + +<br /> + +―Mas não está frio; até parece que +aqueceu o +tempo. Então, Lena!... Elles... não tardam por +ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um engano; +aqui estou eu, que não sinto frio nenhum. +<br /> + +<br /> + +―Ora, mas tu estás em condições muito +particulares. +Quem tem uma fogueira no coração, não +precisa... +<br /> + +<br /> + +―Ahi principias com as tuas coisas! +<br /> + +<br /> + +―Eu não sei; o que é certo é que esse +teu enthusiasmo +pelos passeios matutinos não é natural. +Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando +<span class="pagenum">[141]</span> +eu t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu +explico +isso. +<br /> + +<br /> + +―Não quero saber de explicações; +veste-te, anda. +<br /> + +<br /> + +―Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi +d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz +acompanhar. Não, que já tem juizo; dorme a estas +horas o somno da madrugada, que é uma +consolação. +Que sorte de invejar! +<br /> + +<br /> + +E a morgadinha, continuando assim a exaggerar +o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos +secretos a que attribuia o ardor e heroicidade +da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto +de proposito para a vêr impaciente, principiou a +vestir-se. +<br /> + +<br /> + +Christina ficára á janella, espiando os +progressos +do amanhecer e transmittindo á prima as +observações +que fazia. +<br /> + +<br /> + +―Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir +o portão... Não ouves os pardaes?... É +dia claro +já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que +não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has +de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae já o +Luiz com o almoço. É que não chegamos +lá senão +ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo. +<br /> + +<br /> + +―Elle! Quem é esse elle que vem ahi? +<br /> + +<br /> + +―Pois quem ha de ser? Então não é o +primo +Henrique que nos acompanha? +<br /> + +<br /> + +―É o primo Henrique, é o sr. Augusto e +é o +Luiz, que tua mãe teimou em mandar com o almoço. +Não sabia qual dos tres te merecia as honras +de um «elle». +<br /> + +<br /> + +―Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no +pateo―disse Christina, que n'esta occasião correspondia +ao cumprimento, que o recem-chegado lhe +fazia de baixo. +<br /> + +<br /> + +―Então, com effeito já chegou?―perguntou a +morgadinha, admirada.―Bravo! Nunca o esperei. +Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem +alguma coisa no coração! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[142]</span> +―Tambem o julgo―respondeu Christina, despeitada;―é +vêr como hontem te falou. +<br /> + +<br /> + +―Socega. Quando o coração tem alguma coisa, +não se fala assim com a pessoa que causou esse mal. +<br /> + +<br /> + +―Não sei o que elle me está a dizer―disse +Christina, olhando para o pateo.―Posso abrir a janella, +Lena? +<br /> + +<br /> + +―Eu já estou preparada para soffrer todas as +crueldades esta manhã. Abre lá a janella, abre. +Fala-lhe. +<br /> + +<br /> + +Christina correu a vidraça. +<br /> + +<br /> + +A voz de Henrique chegou distinctamente aos +ouvidos de Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Então aquella grande madrugadora da nossa +prima, onde está?―perguntou elle a Christina. +<br /> + +<br /> + +Christina respondeu, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―Está a fazer a diligencia que pode para ficar +prompta antes do meio dia. +<br /> + +<br /> + +―Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou +da minha indolencia!―disse Henrique jovialmente, +e continuou falando sempre de Magdalena, +e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente +a ella, mas sempre sem receber resposta. +<br /> + +<br /> + +Esta insistencia impacientou Christina, para quem +elle nem um galanteio tivera ainda. +<br /> + +<br /> + +―De maneira que nós, priminha―continuou +Henrique―damos uma lição de mestre +áquella +arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella +nos appareça; quero vêr a coragem, com que ousa +apresentar-se. +<br /> + +<br /> + +―Eu vou chamal-a―disse sêccamente Christina, +e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que +não podia escapar a esta:―Olha se appareces alli +ao sr. Henrique de Souzellas, que não descança +emquanto +te não vê. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho +as tranças, dando ao penteado a mais singela e +graciosa disposição, voltou-se para a priminha e +disse-lhe sorrindo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[143]</span> +―Isso são já ciumes? Mal sabes quanto +gósto +de te vêr assim! Ao menos ha já vida n'esse teu +coração, minha pobre pequena. O que te +peço é que +não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de +perguntar por quem não via. +<br /> + +<br /> + +―Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas... +<br /> + +<br /> + +―Amores? justo; e com a mesma felicidade em +acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me +que ahi está mais alguem no pateo. Ouço falar. +Vae +vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se +só por +mim para completar a caravana. E eu estou prompta. +Marchemos. +<br /> + +<br /> + +Augusto havia effectivamente chegado ao pateo. +<br /> + +<br /> + +Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, +e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado +do outro, á espera das que deviam ser-lhes companheiras +na romagem. +<br /> + +<br /> + +A conversa manteve-se pouco animada. Augusto +não era expansivo com as pessoas, a quem o não +prendiam habitos de longa intimidade; Henrique, +talvez por não conhecer a extensão e natureza dos +conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos +assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram +pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi +frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no verão, +nos prós e contras da vida do campo e de varios +outros assumptos sêccos de si e já além +d'isso muito +esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios +constrangidos e insupportaveis, que o leitor +ha de conhecer por experiencia. +<br /> + +<br /> + +Digamos nós a verdade; estes dois homens não +sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel +sympathia, que abre os corações e dá +margens a +confidencias. +<br /> + +<br /> + +Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se +entre elles certa frieza mais que ceremoniatica, +uma quasi desconfiança instinctiva. +<br /> + +<br /> + +Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com +<span class="pagenum"><a name="p144">[144]</a></span> +prazer por ambos. Ainda quando não fôssem senhoras +o seriam; a chegada de um terceiro, quando +dois indifferentes estão na presença um do outro, +em entrevista forçada e fatigadora, é sempre +saudada +interiormente como uma redempção. +<br /> + +<br /> + +Magdalena e Christina vinham ambas formosas, +com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam, +adequados aos rigores de uma manhã de dezembro. +<br /> + +<br /> + +Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando +proximo do quarto de D. Victoria, pé ante +pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e +mesmo +do leito perguntou-lhes: +<br /> + +<br /> + +―Então já vão, meninas? +<br /> + +<br /> + +―Vamos, tia; vamos, mamã―responderam as +duas a um tempo. +<br /> + +<br /> + +―O Luiz já partiu com o almoço? +<br /> + +<br /> + +―Já partiu, já, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +―E ides agasalhadas? +<br /> + +<br /> + +―Como se fôssemos para a Siberia―respondeu +Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por +cautela. E ide com Nossa Senhora. +<br /> + +<br /> + +―Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã. +<br /> + +<br /> + +―Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae +lá, não vos estafeis. +<br /> + +<br /> + +Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para +quê? Com uma manhã d'aquellas, que nem de inverno +parecia, pois que até o frio abrandára com o +vento! Por isso é que vinham ainda a rir. +<br /> + +<br /> + +Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois +companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio +a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente +o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia, +porque se lembrou de Christina. +<br /> + +<br /> + +―Muito obrigada, primo,―disse ella com +vivacidade.―Mas +é preciso que o advirta de que não +vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos +trepar montes, atravessar ribeiras, costear <a href="#e1">precipicios</a>, +<span class="pagenum">[145]</span> +e para tudo isso é necessaria a +completa +liberdade de movimentos. Ha occasiões, em que +melhor nos servem os nossos dois braços, do que +o braço de outro, embora seja o de um heroe. +<br /> + +<br /> + +―Mas de certo que não é á borda dos +precipicios +que esse auxilio se escusa―replicou Henrique. +<br /> + +<br /> + +―É, muitas vezes é. Ha bordas tão +estreitas, +que mal cabe n'ellas uma pessoa só; felizmente que +a natureza nos dá um braço então... um +braço +de giestas, por exemplo. +<br /> + +<br /> + +―Vê lá, Lena,―disse Christina ao ouvido da +prima.―Talvez seja melhor que acceites. Resta-me, +a mim, o braço de Augusto. +<br /> + +<br /> + +―Se continuas com essas loucuras, Christina, +obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto―continuou voltando-se +para este―espero que tome a direcção do +nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais +bellos pontos de vista; leve-nos por lá, embora tenhamos +de comprar as bellezas á custa de perigos +e de fadigas. Partamos! +<br /> + +<br /> + +O monte onde se erigira a capella da Senhora da +Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria +n'um circulo de muitas leguas de raio, era +uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias +ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe +aos pés as alcatifas da mais rica +vegetação; +banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas +e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas +e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem, +recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro +aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, +em vez de cobrir os hombros com o manto +real, que lhe estendiam aos pés, permanecia aspero, +severo e nú, como nas épocas primitivas, em que +uma convulsão tremenda o evocára do seio da +terra, +para o consolidar em colosso. +<br /> + +<br /> + +Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a +fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo, +<span class="pagenum">[146]</span> +a piedade christã plantára em volta da +ermida, +para refrigerio e conforto dos devotos christãos +que alli iam. Era custosa a ascenção por o lado, +por onde os nossos romeiros, contra os conselhos +de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair +de uma longa rua, apertada entre muros de quintas, +Henrique achou de subito deante de si a mole +immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram +tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia +além do Rocio os seus passeios, com medo das +ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um +absurdo. +<br /> + +<br /> + +Parou a contemplar o monte, como hesitando em +atravessar o riacho, que d'elle o separava. +<br /> + +<br /> + +O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos +dias anteriores, levantava um bramido atordoador +ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido +pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja +enorme roda movia. +<br /> + +<br /> + +Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, +este sitio da raiz do monte tinha não sei que aspecto +selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor. +Os altos choupos, em que se enroscavam, como +serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos +das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente +ao perpassar através d'elle a briza da madrugada, +e, aqui e além, um d'esses degenerados +aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como +se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria, +eram accessorios que concorriam para o effeito geral +do quadro. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, +deu-lhe alento com lançar-lhe em rosto a sua +pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou, +com não menor denodo do que os outros, +o riacho, por o passadiço de altas pedras, collocadas +a pequena distancia umas das outras, e que as +aguas a cada momento ameaçavam cobrir. +<br /> + +<br /> + +Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; +<span class="pagenum">[147]</span> +para isso tornava-se indispensavel caminhar em +continuados zigue-zagues, aproveitando os córtes +que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella +massa granitica e os toscos degraus, com que uma +arte rudimentar procurára facilitar, por aquelle lado, +o accesso da ermida á piedade dos devotos. +<br /> + +<br /> + +As difficuldades para Henrique eram continuas. +<br /> + +<br /> + +A cada momento os embaraços d'este forneciam +motivo para risos da parte de Magdalena. Christina +não lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo. +<br /> + +<br /> + +Para compensar as fadigas de tão trabalhosa +ascensão, +havia porém, a paizagem, que, a cada passo +andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia +mais surprehendente e maravilhosa. +<br /> + +<br /> + +Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um +brado de admiração. +<br /> + +<br /> + +As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram +bastantes para velarem a belleza do quadro. +<br /> + +<br /> + +Á medida que os nossos quatro peregrinos iam +subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte; +avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se +os outeiros vizinhos, e os campos tomavam +a apparencia dos canteiros de um jardim. +<br /> + +<br /> + +Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle +espectaculo lhe causava. +<br /> + +<br /> + +―É magnifico! é admiravel! é +soberbo!―dizia +elle, a cada momento e quando não era inquietadoramente +preoccupado com os perigos do caminho. +<br /> + +<br /> + +O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! +Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a +melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie, +se ia dissipando á medida que subia a encosta. +<br /> + +<br /> + +Magdalena e Christina tambem não estavam menos +impressionadas por o que viam. Esta, porém, +tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, +que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar. +<br /> + +<br /> + +Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos +de pela manhã. +<br /> + +<br /> + +Henrique continuava a ser todo attenções e +galanteios +<span class="pagenum">[148]</span> +com Magdalena; parava a cada momento +n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam +mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a +ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as +reflexões que o aspecto da paizagem lhe suscitava e +nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, +quasi achava a manhã desagradavel e o sitio feio e +sombrio. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha respondia sempre em curtas phrases +a Henrique e recusava insistentemente o auxilio, +que elle lhe offerecia. +<br /> + +<br /> + +―Estou a suspeitar que esses offerecimentos do +primo são mais devidos á necessidade, que sente, +de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar―disse +ella sorrindo.―A falar verdade, para +quem tem passado a vida a trilhar os passeios do +Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um +pouco de alpestre. Adeante. +<br /> + +<br /> + +E de uma occasião, em que estava perto d'elle, +disse-lhe a meia voz: +<br /> + +<br /> + +―Pode ser que Christina careça mais do seu +braço, primo. Ainda não teve a +lembrança de lh'o +offerecer. +<br /> + +<br /> + +Henrique só então deu por esse esquecimento; +apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina +tambem o braço, que esta recusou, córando. +<br /> + +<br /> + +―Então por que recusas?―perguntou-lhe a +morgadinha, em voz baixa. +<br /> + +<br /> + +―Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, +nem da tua. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha abanou a cabeça em ar de +reprehensão, +fitando-a, mas não lhe disse nada. +<br /> + +<br /> + +Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio +em torno d'elles. Já tinham passado acima dos rumores +do valle, que não subiam a mais de meia +encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo +annunciava o proximo apparecimento do sol. +<br /> + +<br /> + +―Chegamos a tempo!―exclamou Magdalena +que, deitando a correr, fôra a primeira que attingira +<span class="pagenum">[149]</span> +a planura. Sua Magestade ainda se não levantou. +<br /> + +<br /> + +Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao +pé d'ella. +<br /> + +<br /> + +Houve um longo espaço de silencio, concedido +espontaneamente á contemplação +d'aquella perspectiva +solemne. +<br /> + +<br /> + +As primeiras palavras, que se disseram, foram +ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente +lhes damos, quando na presença de um espectaculo +grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: +não se formulam longos periodos de aprimorado +estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples +phrases, como estas: +<br /> + +<br /> + +―É bello! +<br /> + +<br /> + +―É magnifico! +<br /> + +<br /> + +―É sublime! +<br /> + +<br /> + +E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na +occasião de que falamos. E eu, por analogas +razões, +os imitarei, desistindo de descrever o que só bem +se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto +de todo o panorama. O leitor, que nunca visse +alguma scena similhante, não a imaginaria pela +descripção, +forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse +d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá +bem a lacuna. +<br /> + +<br /> + +Desvanecida a primeira impressão, que não deixa +ao espirito a serenidade precisa para os processos +da analyse, principiaram, como é costume, a fazerem +notar uns aos outros os sitios mais conhecidos. +<br /> + +<br /> + +Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada +familiaridade entre os quatro. +<br /> + +<br /> + +Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; +Magdalena dos seus projectos e desconfianças; +Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua +frieza. +<br /> + +<br /> + +―Lá está o Mosteiro―disse Magdalena, apontando +para o logar indicado.―Como parece pequeno, +visto d'aqui! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span> +―É verdade―respondia Christina―e olha, Lena, +como se vêem bem as janellas do teu quarto. +<br /> + +<br /> + +―Lá está aquella que tu abriste esta +manhã para +cumprimentares... +<br /> + +<br /> + +Sentindo a mão de Christina +comprimir-lhe o +braço, concluiu: +<br /> + +<br /> + +―Para cumprimentares a estrella d'alva. +<br /> + +<br /> + +―As janellas do quarto da mamã julgo que ainda +estão fechadas. +<br /> + +<br /> + +―Tanto não posso eu distinguir; comtudo +afianço-te +que sim. A tia Victoria não é muito matinal. +<br /> + +<br /> + +―Aquella casa acolá não é a de +Alvapenha?―perguntou +Henrique, apontando n'outra direcção. +<br /> + +<br /> + +―É―respondeu Augusto―e, mais adeante, alli +tem a deveza, em que passou ante-hontem. Não é +verdade? +<br /> + +<br /> + +―É justamente. Com effeito! Foi um soberbo +passeio, o que eu dei! D'aqui é que se vê. +Lá vejo +umas prêsas, por onde me lembro de ter passado +tambem. +<br /> + +<br /> + +―Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella +ao lado?―perguntou Magdalena, apontando para +um ponto distante. +<br /> + +<br /> + +―Perfeitamente. +<br /> + +<br /> + +―É a minha quinta dos Cannaviaes. +<br /> + +<br /> + +―Ah! É verdade, lá estão +uns cannaviaes, se +me não engana a vista. +<br /> + +<br /> + +―Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella +capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa. +<br /> + +<br /> + +―Sim? hei de visital-a. +<br /> + +<br /> + +―Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da +meia noite, é concedido―disse Christina, fitando +d'esta vez Henrique, com a expressão da mais insinuante +sinceridade. +<br /> + +<br /> + +―Que quer dizer o voto da meia noite? +<br /> + +<br /> + +―Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e +sósinha, +sete estações no altar da Senhora―continuou +Christina. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[151]</span> +―Só isso? Boa é de cumprir a promessa. +Já vejo +que não ha aqui na terra desejo que se não +satisfaça. +<br /> + +<br /> + +―Mais devagar,―acudiu Magdalena, sorrindo―pouca +gente se atreve até a ir lá á meia +noite, +porque a alma de minha madrinha passeia a horas +mortas por a sua antiga casa, dizem. +<br /> + +<br /> + +―Cada vez sinto mais desejos de lá ir―accrescentou +Henrique, depois de ouvil-a. +<br /> + +<br /> + +―Além, entre aquellas arvores, sr.<sup>a</sup> +D. Magdalena, +vive um philosopho―disse Augusto, indicando +outro ponto de perspectiva. +<br /> + +<br /> + +―É verdade; o bom do tio Vicente. +<br /> + +<br /> + +―Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos +mais algum tio, com que eu possa augmentar o +meu parentesco na aldeia? +<br /> + +<br /> + +―O tio Vicente é um santo velho, que se occupa +a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios, +que dizem milagrosos. Ainda é nosso parente, +mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe +tio, assim como quasi toda a gente por +aqui. +<br /> + +<br /> + +―Que sombras negras são aquellas que se vêem +no adro da igreja?―perguntou Christina. +<br /> + +<br /> + +―Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um +cordão de formigas―disse Henrique de Souzellas. +<br /> + +<br /> + +―São as mulheres que vão ouvir o +missionario―respondeu +a morgadinha.―Escutem, lá está a +tocar o sino. +<br /> + +<br /> + +Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis +mas sonoras badaladas do campanario da aldeia. +<br /> + +<br /> + +―A estas horas +principiam as +lamentações +d'aquelle pobre Zé P'reira, que tão mal olhado +anda +por a mulher, desde que ella deu n'essas +devoções―notou +Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena +domestica a que na vespera assistira. +<br /> + +<br /> + +―Degenerou aquella mulher!―disse Magdalena―e, +se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto, +<span class="pagenum">[152]</span> +custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue +assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena +é tão apprehensiva! +<br /> + +<br /> + +―Visto isso, já chegou aqui á aldeia a +influencia +dos missionarios?―perguntou Henrique. +<br /> + +<br /> + +―E não tem lavrado pouco!―tornou Magdalena. +<br /> + +<br /> + +Christina, que era um poucochinho devota, censurou +timidamente as palavras da morgadinha. +<br /> + +<br /> + +―Primo Henrique―disse ella―julgo que ainda +será preciso o seu auxilio para livrar do contagio +esta innocente Christina. +<br /> + +<br /> + +―Prompto, prima Magdalena; para as boas causas +tenho sempre armada a minha vontade. +<br /> + +<br /> + +―Olha, Lena, não vês?―exclamou +Christina―são +os pequenos que nos estão a dizer adeus das +janellas do mirante. +<br /> + +<br /> + +De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se +uns lenços brancos. +<br /> + +<br /> + +Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, +de longe, a irmã e a prima. Estas tiraram +tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes. +<br /> + +<br /> + +Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Annuncio a v. ex.<sup>as</sup>, que chega o rei da +creação. +<br /> + +<br /> + +Effectivamente o cume do telhado da ermida e as +franças despidas da alameda já se tingiam de luz. +<br /> + +<br /> + +Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o +uma esplendida faixa de purpura, que, +em insensivel graduação, desmaiava para as +extremidades +até se perder de todo no azul-celeste. +<br /> + +<br /> + +Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento +do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado +e vermelho, como um escudo de metal candente, e +logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, +e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao +qual se rompessem as prisões que o retinham. +<br /> + +<br /> + +O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, +estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +Nisto appareceu do outro lado da capella um +dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que +o almoço estava prompto. +<br /> + +<br /> + +―Pois devéras temos um almoço?―exclamou +Henrique, sinceramente surprehendido. +<br /> + +<br /> + +―Graças á previdencia de minha tia, previdencia +de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada +a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares +do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter +aberto o appetite―respondeu Magdalena. E logo +após continuou para Henrique:―Agora é +occasião +mais accommodada de pôr em prática os recursos +do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina? +<br /> + +<br /> + +Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a +intenção de lhe render a ella a fineza, que assim +declinou na prima, teve de condescender, limitando-se +a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar +que Magdalena fingiu não perceber. +<br /> + +<br /> + +E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar +onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre, +estava disposto o almoço. +<br /> + +<br /> + +D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de +emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia +da louça e o bem disposto e apurado das iguarias +convidavam. +<br /> + +<br /> + +Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto +de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria +um fastio mórbido, correspondente a lesão +organica +e como tal sem poesia. +<br /> + +<br /> + +Henrique e Augusto principalmente fizeram, como +era natural, justiça á cozinha do Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +Henrique, que parecia haver esquecido as suas +mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente. +<br /> + +<br /> + +Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de +Henrique; este riu com vontade das que ouviu a +Augusto. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha, por sua propria mão, preparou o +chá. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[154]</span> +N'estas alturas do almoço encetou novamente +Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por +muito tempo não sabia prescindir. +<br /> + +<br /> + +Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a +santa harmonia do congresso. Parecia que todos os +outros, mais ou menos, se sentiam contrariados. +<br /> + +<br /> + +Henrique ficára sentado junto da parede da capella. +Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a +saborear um charuto havano, descobriu umas letras +escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça. +<br /> + +<br /> + +―Bravo!―exclamou, depois de as ler para si―não +imaginava que havia poetas na aldeia! Querem +ouvir? +<br /> + +<br /> + +E leu: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Se estás mais perto do céo<br /> + +N'estas alturas da serra,<br /> + +Ai, porque tens, peito meu<br /> + +Inda saudades de terra? +<br /> + +<br /> + +Em vez-de erguer os olhares<br /> + +Á luz d'este firmamento,<br /> + +Desço-os á sombra dos lares,<br /> + +Onde tenho o pensamento. +</div> + +<br /> + +<br /> + +―É pena que a chuva apagasse o resto. Quem +é o bardo, prima? +<br /> + +<br /> + +―Não sei; da aldeia de certo que não +é―respondeu +Magdalena, com indifferença. +<br /> + +<br /> + +Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a +alameda. +<br /> + +<br /> + +―Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? +Com esta natureza é facil crearem-se os poetas. Eu +estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance. +Aqui a serra de algum Bernardim inedito, +tão capaz de escrever saudades, como de as sentir. +Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta +trocava os esplendores do céo... algumas d'essas +casas, que ahi se vêem em baixo. Quem sabe se +não será até o Mosteiro? Eu, por mim, +confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra +companhia―accrescentou, +<span class="pagenum">[155]</span> +olhando significativamente +para a morgadinha-não teria dúvida em subscrever +esta quadra, como a exacta expressão do meu +sentir, porque... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Em vez de erguer os olhares.<br /> + +Á luz d'este firmamento +</div> + +<br /> + +<br /> + +Eu tambem... +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Os <em>abaixaria</em> aos lares<br /> + +Onde tenho o pensamento. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter +com Augusto á alameda. +<br /> + +<br /> + +Magdalena, que a seguiu com a vista, não +disfarçou +um gesto de despeito ao ficar só com Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Prima Magdalena,―disse em tom mais affectuoso +Henrique, passado tempo, e depois de mais +algumas palavras―deixe-me falar-lhe com franqueza, +agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha +dois dias; eu, porém, sinto-me tão seguro +já do que +lhe vou dizer, que não hesito. Não pode imaginar +a +indelevel recordação que me ficará +d'esta manhã. +<br /> + +<br /> + +―Perdão,―atalhou Magdalena―diga-me primeiro +o que é isso que me vae dizer. Prepara-se +para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; +gosto de estar prevenida do sentido das +felicitações +que me dirigem, para ir preparando uma resposta +adequada. +<br /> + +<br /> + +-Que prazer tem em ser cruel! +<br /> + +<br /> + +-Deixemo-nos de loucuras―continuou Magdalena, +séria já.―Quem ouvisse o sr. Henrique de +Souzellas havia de suppôr que se preparava para +me fazer uma declaração. +<br /> + +<br /> + +-Uma declaração do mais puro affecto, do mais +sincero +sentimento, por que não? +<br /> + +<br /> + +-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas +intenções, +peço-lhe desista d'ellas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[156]</span> +―Por quê? +<br /> + +<br /> + +―Porque não posso escutal-o. +<br /> + +<br /> + +―Ou não quer. +<br /> + +<br /> + +―Ou não quero; seja. +<br /> + +<br /> + +―Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? +Acaso o seu coração já... +<br /> + +<br /> + +―Que impertinente pergunta? Se +<em>já</em>, não tenho +ainda no sr. Henrique a necessaria confiança para +o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de +hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.―E +accrescentou logo depois:―Christina, anda +ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo +Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Que vae fazer?―perguntou-lhe Henrique, admirado. +<br /> + +<br /> + +Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique +não desviava os olhos da morgadinha que, +sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina: +<br /> + +<br /> + +―O primo Henrique falava com certa exaltação +da doçura do teu caracter; o meu amor proprio +disse-me que―era pouco delicado estar assim a +lisonjear uma mulher na presença de outra―e redargui +por isso, pondo em dúvida a asserção e +affirmando que havia um fermentozinho de maldade +na tua doçura. Elle nega por impossivel, eu +insisto e estamos n'isto. Agora dize tu. +<br /> + +<br /> + +Christina córou intensamente e não teve que +responder. +<br /> + +<br /> + +Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou +ouvir algumas que, pelo sentido e inflexão, com que +foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente +a posição, em que Magdalena o +collocára, +e respondeu: +<br /> + +<br /> + +―Venci eu! O facto de querer a priminha poupar +uma réplica amarga á +accusação que lhe fazem, +é a mais eloquente prova, já não digo +só da doçura, +mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, +prima Magdalena, que «quando uma das mulheres +que diz, fôr como a nossa boa Christina, não se +podem +<span class="pagenum">[157]</span> +admittir essas revoltas de amor proprio, a que +alludiu.» +<br /> + +<br /> + +A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido +d'estas ultimas palavras; mas fingiu não comprehender. +<br /> + +<br /> + +Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou +os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso +lhe dissipava um pouco dos labios a grave expressão +que lhe era habitual, temperando-a com não +sei que de ironico, que não escapou tambem a Henrique. +<br /> + +<br /> + +Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por +momentos, sem que nenhum parecesse disposto a +baixar-se deante do outro. +<br /> + +<br /> + +Desviou-os porém uma dupla exclamação +de Magdalena +e de Christina, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Olhem o tio Vicente por aqui! +<br /> + +<br /> + +Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina +da ermida, e approximava-se da mesa do almoço, +o velho herbanario, em que já temos falado +no decurso dos passados capitulos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>X +</h4> + +<br /> + +Era uma expressiva figura de ancião o herbanario. +<br /> + +<br /> + +A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos +ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia, +permanentes indicios de habituaes meditações +e por ventura de passados infortunios, elevavam +aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os +annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares +haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos; +os habitos de solidão, que adquirira, a pouco +e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem do +<span class="pagenum">[158]</span> +velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam +o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, +a ninguem permittindo sondar os mysterios +que guardam comsigo e para si, e creando para +uso proprio regras de viver, sem attenção +ás convenções +sociaes. +<br /> + +<br /> + +Era um enigma vivo. +<br /> + +<br /> + +Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de +nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas +com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava +as maiores attenções e canceiras. +<br /> + +<br /> + +Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera +nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder +do sol, ir procural-o á isolada casa em que vivia, +escondida n'um quintal, que era cultivado com todo +o amor pelo velho. +<br /> + +<br /> + +Em todos os casos intrincados vinham consultar +o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia, +em caso algum recusava o alvitre. +<br /> + +<br /> + +Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha +nem methodo, de uns alfarrabios herdados de +um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal +digeridas noções de sciencia, de que se mostrava +orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de +jurisprudencia, outros de logica e de astronomia, +constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os +livros mais predilectos e consultados contava um +exemplar da <em>Polyantheia</em> de Curvo +Semedo. +<br /> + +<br /> + +O herbanario principiára em creança uma +educação +tal ou qual, que revézes de familia haviam interrompido. +<br /> + +<br /> + +Os meios conhecimentos, que das suas habituaes +leituras extrahira, e os erros, que de taes livros +assimilára, eram os elementos, com que chegou a +architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava +por maravilhosa. +<br /> + +<br /> + +E o caso era que a fama do homem voára de +freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e +de muito longe o vinham ouvir como a oraculo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> +Os costumes do velho, que errava por valles e +montes á procura dos simplices, cujas occultas virtudes +conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade +da physionomia, a franqueza, sem contemplações, +com que dizia quanto pensava, tinham gravado +fundo na imaginação popular aquelle typo, +para ella quasi lendario. +<br /> + +<br /> + +Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu +familiarmente a mão a Augusto, que lh'a apertou +com affecto. +<br /> + +<br /> + +―Bons dias, rapaz,―disse o velho; e, dirigindo-se +a Magdalena e Christina, accrescentou com +maneiras paternaes:―Adeus, pequenas; grandes +madrugadas hoje! +<br /> + +<br /> + +Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com +olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando +por lhe dizer simplesmente: +<br /> + +<br /> + +―Guarde-o Deus! +<br /> + +<br /> + +Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom. +<br /> + +<br /> + +Sem mais o attender, Vicente voltou-se para +Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para +Henrique, e referindo-se a elle: +<br /> + +<br /> + +―Quem é? +<br /> + +<br /> + +Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa: +<br /> + +<br /> + +―O homem que, melhor que ninguem, está habilitado +a responder a essa pergunta. +<br /> + +<br /> + +O velho nem sequer o olhou. +<br /> + +<br /> + +―Este senhor―respondeu Magdalena―é sobrinho +de D. Dorothéa; está hospede em Alvapenha. +Veio para aqui restabelecer-se da saude. +<br /> + +<br /> + +Vicente tornou a examinar Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Então é doente?... Não parece... +Olhar vivo... +Côres boas... voz sã... Umh!... +<br /> + +<br /> + +Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes +do velho estavam desagradando a Henrique; +por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente: +<br /> + +<br /> + +―A doença d'este senhor é um pouco de +imaginação. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[160]</span> +―E grandes effeitos nascem d'ahi―acudiu sentenciosamente +o velho.―Lá veem na +<em>Polyantheia</em> +muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido +umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de +que morreu. Pois tanto scismou que das amoras +lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo +uma pedra do feitio de uma amora. +<br /> + +<br /> + +―Com effeito!―disse Henrique, com ironica +expressão de pasmo―ahi estava um cerebro de +concepções rijas! +<br /> + +<br /> + +―É divertido!―disse Vicente, com ligeiro sarcasmo +e olhando para Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Pelo contrario―acudiu a morgadinha―o seu +mal é a melancolia. Não é verdade? +<br /> + +<br /> + +―Eu já não sei qual é o meu mal. +Estou quasi +a dar razão á tia Dorothéa, que lhe +chamou mania. +<br /> + +<br /> + +―Mania e melancolia não são a mesma +coisa―emendou +o velho.―Tambem lá na +<em>Polyantheia</em> se +diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem furia, +porque procede de humor frio, e a mania de +sangue quente ou cólera requeimada. +<br /> + +<br /> + +―De cólera requeimada? Deve ser uma coisa +terrivel!―continuou Henrique, no mesmo tom. +<br /> + +<br /> + +Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios +de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou +a este: +<br /> + +<br /> + +―Parece-lhe que terá cura a doença? +<br /> + +<br /> + +―Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. +Este é divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas +e manias não ha como as folhas de ouro em +caldo de frangão com flores de borragem e de herva +cidreira. +<br /> + +<br /> + +―Este é como os calvos, que vendem aos outros +pomadas para fazer nascer o cabello; é um +argumento vivo contra a efficacia da beberagem +que receita para as manias―disse Henrique a meia +voz para Augusto, que lhe ficava proximo. +<br /> + +<br /> + +O velho, que não tinha ainda dado mostras de +<span class="pagenum">[161]</span> +offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique, +córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago +de irritação. +<br /> + +<br /> + +Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso +da sua dignidade. +<br /> + +<br /> + +―Está bom, menino,―replicou elle +amargamente.―Não +diga mais, para se não envergonhar +depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou +costumado a vêr pobres e ricos virem a minha +casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim +ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não pedir. +Seja attencioso com a velhice que não é baixeza +nenhuma. Mas que é isto?―exclamou, mudando +de tom e olhando para um redemoinho de +folhas sêccas que o vento trouxera até perto +d'elle.―As +folhas veem d'este lado! Então virou o vento? +É verdade. Ah! sim?... Percebo. +<br /> + +<br /> + +E, depois de olhar para o ar, continuou: +<br /> + +<br /> + +―Mudanças tão repentinas!... Umh!... +Já +me não agrada aquelle azul e aquellas nuvens. +<br /> + +<br /> + +E levantou-se. +<br /> + +<br /> + +―Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto +e quem sabe o mais que virá! Aconselho-os a que +vão descendo o monte, que não é seguro +descel-o +quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, +já me não demoro, que não tenho +confiança na firmeza +das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!... +Emfim tudo tem de acabar. Adeus! +<br /> + +<br /> + +E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, +em que archivava as hervas medicinaes e outras +substancias, que andava colhendo, e partiu, depois +de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina. +<br /> + +<br /> + +Logo que o herbanario desappareceu, Henrique +soltou uma risada, em que parecia haver o que +quer que era de forçado. +<br /> + +<br /> + +―É realmente curiosa esta antigualha―disse +elle, que interiormente sentia já remorsos pela maneira +por que tratára o velho. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span> +―Ai, primo Henrique; que ainda está muito +pouco preparado para viver na aldeia!―disse a +morgadinha.―Tem uns melindres e uma maneira +de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de +attenções, +propositos de offender! depois ha um sarcasmo +cruel nas suas palavras, a que os espiritos não +estão aqui habituados e de que <a href="#e2">se +sentem</a> +por +isso feridos. Isso não é bom! Se vae assim, ou +terá +de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças +suscitará +por ahi. Não repara que estes modos são proprios +do campo? +<br /> + +<br /> + +―Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso +que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos. +Deve confessar que este homem... +<br /> + +<br /> + +―É um homem de bem―atalhou Augusto com +voz firme e com uma severidade de expressão, que +até alli não mostrára ainda. +<br /> + +<br /> + +Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. +Augusto arrostou firmemente aquelle olhar. +<br /> + +<br /> + +―Não o nego―respondeu Henrique, pouco depois―mas +infelizmente os homens de bem envelhecem, +como os outros, e a extrema velhice traz +a imbecilidade. +<br /> + +<br /> + +―Engana-se; esse homem, apesar de algumas +phantasias, tem ainda um juizo são e uma razão +clara. +<br /> + +<br /> + +―Acha?―tornou Henrique, já algum tanto azedado.―Ha +de dar-me licença de não fazer obra +por as suas apreciações... se me é +permittido. +<br /> + +<br /> + +―Procede mal―redarguiu Augusto.―Porque +eu conheço aquelle homem ha muito e o senhor +acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o +senhor quem primeiro deu ás suas palavras um +tom irritante, que desafiou uma digna correcção. +Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. +A consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor +do que eu. +<br /> + +<br /> + +―Lê fundo nas consciencias dos outros! +<br /> + +<br /> + +―Não é difficil. Em todos os homens a +consciencia +<span class="pagenum">[163]</span> +tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o +mal, aponta sempre a culpa. +<br /> + +<br /> + +―Estou admirando a subita loquacidade que se +lhe manifestou! Até aqui suppunha-o taciturno. Vejo +que lhe mereço a fineza de abrir uma +excepção aos +seus habitos de laconismo em meu favor. Muito +agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos +moraes? Não reparei. +<br /> + +<br /> + +Augusto córou, mas respondeu com firmeza: +<br /> + +<br /> + +―Nem uma nem outra coisa; é um genero muito +mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente +um preceito de civilidade. +<br /> + +<br /> + +Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e +tornou com dobrada ironia: +<br /> + +<br /> + +―É verdade, é verdade... esquecia-me que a +civilidade entra no seu programma... de mestre-escola. +<br /> + +<br /> + +―Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam +o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos +e descalços, mas n'esse ponto podem dar +lições a +elegantes filhos das cidades. +<br /> + +<br /> + +―Pois estimarei, nas minhas longas horas de +ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas lições +tambem. +Comtudo, como, felizmente, as circumstancias +em que estou me permittem prescindir do beneficio +do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que +pague as lições que receber. +<br /> + +<br /> + +―Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa +do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a... +sem sacrificio. +<br /> + +<br /> + +―E acceita-a em toda a especie de moeda, não +é verdade?―perguntou Henrique, cada vez mais +petulantemente. +<br /> + +<br /> + +Augusto respondeu com a mesma serenidade: +<br /> + +<br /> + +―Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto +que me fique o direito salvo de pagar na mesma +especie de trócos, quando julgar que os devo. +<br /> + +<br /> + +O dialogo ia, como vamos vendo, de momento +para momento adquirindo mais acerbo caracter. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[164]</span> +Christina, que já tremia de assustada, cingiu o +braço de Magdalena, como para convidal-a a intervir. +<br /> + +<br /> + +Esta não o tinha ainda feito por uma simples +razão. +Desconhecia Augusto. A audacia com que o +via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza +inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, +que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram +tão novos para a morgadinha, que a surpreza, que +d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade +de uma intervenção. O aviso de Christina +chamou-a, porém, á realidade. +<br /> + +<br /> + +―Tem-me querido parecer, ainda que me custa +a acreditar, que isso entre os senhores é uma +altercação―disse +ella por fim.―Vejam que só teem +por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem +servir de padrinhos, se a contenda tomar outra +feição. Por isso não é +muito para louvar a escolha +que fizeram da occasião, para uma justa tão +pouco... amavel. +<br /> + +<br /> + +―Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha +culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o +sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o +seu pensamento, quiz estender até mim este despotismo +de... <em>magister</em>... Ora o meu +pensamento +pugnou pela sua independencia... +<br /> + +<br /> + +―Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de +pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse +modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que +levianamente formou de quem lh'a não merecia. +Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que +quizer. Mas o que eu não soffro é que se diga +deante de mim uma palavra contra um homem +que respeito e de quem sou amigo, sem que erga +a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo +por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade +de o fazer, lastimo-o; é porque não os +tem. +<br /> + +<br /> + +―Com mais paz de espirito se discutirá tudo +<span class="pagenum">[165]</span> +isso depois―disse Magdalena.―É de crêr que, +como sempre, haja de parte a parte razão e aggravos. +Agora convido-os, antes de descermos, a visitar +a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite, +aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal é +o prestigio que a defende, que não consta de um +só roubo sacrilego, que se fizesse n'ella. +<br /> + +<br /> + +Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, +todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas +pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando +episodios da Paixão; os altares, adornados +de columnas e florões de talha dourada, attestavam +nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e +nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de +vista a dos desenhos chinezes e que representavam +milagres de todo o genero, a fé ardente com que era +adorada a imperfeita esculptura da Virgem. +<br /> + +<br /> + +E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade +manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua +mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em +torno, da altura a que se erguia, do isolamento em +que estava. +<br /> + +<br /> + +Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, +Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros +dos milagres; Christina, que prolongára mais +do que a prima a oração que fizera, contemplando +a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos +nas columnas do altar, porém, não sei se pensando +n'ellas. +<br /> + +<br /> + +Esperava-os uma surpreza á saida. +<br /> + +<br /> + +Realisára-se o prognostico do herbanario. +<br /> + +<br /> + +O vento sul que, segundo elle notára, soprava já +havia algum tempo, viera condensar os vapores, +que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar +com elles a limpidez do firmamento. O azul do +céo semeiára-se, pouco a pouco, de pequenos +flocos +brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados +veios que lhe davam uma apparencia +quasi marmorea. Cêdo estas massas de nuvens +<span class="pagenum">[166]</span> +cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando +por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. +Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas +e mais escuras, começaram a erguer-se do +sul e caminharam impetuosas no espaço, como +montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira, +de encontro ás serras, que as aguardavam +firmes. +<br /> + +<br /> + +Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, +quando sairam da ermida. +<br /> + +<br /> + +―Depressa!―exclamou Augusto―já não ha +tempo a perder! Desçamos antes que a tormenta +nos colha. +<br /> + +<br /> + +―Tem medo?―disse Henrique em tom de mofa.―Um +montanhez! +<br /> + +<br /> + +―Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que +não é de inimigo pouco digno de o inspirar. Por +agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, +por amor +d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por +apressar a descida. Felizmente que o criado já partiu. +É um embaraço de menos. Vamos.―Detendo-se, +porém, disse para Magdalena:―Se descessemos +por o outro lado, minha senhora? +<br /> + +<br /> + +―Para quê?―respondeu esta.―É um momento, +emquanto chegamos abaixo. +<br /> + +<br /> + +A tempestade caracterisava-se cada vez mais; +crescia a cerração do ar; os álamos +gemiam, vergados +pela impetuosidade das lufadas do sul; a +chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou +assustadoramente; havia na atmosphera +surdos rumores de tempestades longinquas; algumas +nuvens tomavam uma côr terrea, outras um +carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras. +<br /> + +<br /> + +Christina, pallida de susto, murmurava em voz +baixa orações fervorosas; Magdalena sorria para a +animar, mas ella propria estava inquieta. +<br /> + +<br /> + +Não era de facto uma empreza de todo facil o +descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho, +já de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel +<span class="pagenum">[167]</span> +quando as correntes se despenhavam por +elle, como em catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se +furiosos de encontro ás arestas salientes +da rocha.―Era necessario estar muito amestrado +para o descer sem perigo. +<br /> + +<br /> + +Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; +assim não tivesse de repartir os seus cuidados +por tantos. De pequeno se costumára áquellas +aventuras; +e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita +borda dos despenhadeiros do monte. +<br /> + +<br /> + +A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma +actividade e pericia, que inspirava alento e confiança +aos mais. Agil, como um animal montez, girava +em volta da pequena caravana, de que tacitamente +fôra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir +os passos pelos logares de mais facil transito, ora +á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira +em embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita +vez chegou a levantar nos braços, para a fazer franquear +um ponto do caminho, em que ella parára, +sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na +humidade do chão. O proprio Henrique, que não +era o menos embaraçado do rancho, e nem isso +admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, +do auxilio de Augusto. +<br /> + +<br /> + +O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha +iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria. +Nenhum dos seus muitos talentos e aptidões, +de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das +salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a +sua inferioridade n'este momento; ora Henrique não +era homem que, tendo consciencia disto, ficasse +indifferente; mas que remedio? Procuraria mais +tarde uma compensação. +<br /> + +<br /> + +Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa +descida, alguns dos quaes sómente a +preoccupação, +em que iam os animos, impedia achar risiveis; +porém que mais tarde deviam, como é costume, +vir a ser alimento de animadas e joviaes +recordações. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> +Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em +que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente +desciam, uma ribanceira quasi a pique e +erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em +cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as +giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido +vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo +a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear +no espaço arremeçou-a ao abysmo. +<br /> + +<br /> + +Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém +em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer +lado que se tentasse. +<br /> + +<br /> + +Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, +que fez parar com terror Henrique e Augusto +que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças +ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas, +sorria já do seu exaggerado susto. +<br /> + +<br /> + +A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo +sobresalto que involuntariamente causára. +<br /> + +<br /> + +―Descança em paz!―disse ella, olhando para a +mantilha; e accrescentou:―Sigamos. +<br /> + +<br /> + +―Mas não será possivel tiral-a +d'alli?―perguntou +Augusto, examinando o sitio. +<br /> + +<br /> + +―Para quê? Não podemos demorar-nos agora +com isso―respondeu Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos +Moinhos e volto n'um momento―insistiu Augusto, +dispondo-se a executar o que dizia. +<br /> + +<br /> + +Henrique notou, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os +montanhezes não eram de tão bom aviso. +<br /> + +<br /> + +E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por +quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo +á influencia que sobre elle exercia a fascinadora +figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a +uma desnecessaria imprudencia. +<br /> + +<br /> + +Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem +qualquer reflexão, deixou-se escorregar no despenhadeiro, +<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span> +segurando-se com as mãos á borda do +caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades +da rocha, até conseguir firmal-os; segurou-se +ora a uma raiz saliente, ora a um ramo +mais tenaz; á fôrça de vontade dominou +a sua impericia +em exercicios d'esta ordem, e finalmente +conseguiu, estendendo o braço, segurar a mantilha, +que o vento arrojára ao precipicio. +<br /> + +<br /> + +Depois, com dobradas difficuldades e por ventura +redobrados perigos, pôde, roçando-se como reptil, +e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e nos +espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar +outra vez os pés em terra, sem acceitar a mão que +Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou +a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto +um olhar de triumpho. +<br /> + +<br /> + +Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado +sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento, +quasi gelados de susto e de espanto. +<br /> + +<br /> + +Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto +meneou a cabeça murmurando: +<br /> + +<br /> + +―Que imprudencia! +<br /> + +<br /> + +―Na verdade!―disse Magdalena, ainda nervosa +com a impressão que este incidente lhe +causára―foi +uma loucura; uma loucura imperdoavel. +<br /> + +<br /> + +E a perturbação era tal, que nem acertou com +uma phrase de agradecimento, com que pagasse a +imprudente galanteria, que mais desejava reprehender, +do que recompensar. +<br /> + +<br /> + +Esta reserva offendeu Henrique; serviços <a href="#e3">a +seu +vêr</a> de menor importancia, tinham +merecido a +Augusto mais calorosas palavras. +<br /> + +<br /> + +Revoltou-o esta ingratidão. +<br /> + +<br /> + +Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, +não concedendo sequer um olhar ás faces +desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e aos +olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava +Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto +e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella +<span class="pagenum">[170]</span> +que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desespêro +de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas +loucuras! +<br /> + +<br /> + +Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. +Com a fôrça das enxurradas, que se precipitavam +clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel +que a levada que corria na raiz do monte tivesse +engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte +rustica, que á vinda já tinham encontrado quasi +submersa.<br /> + +<br /> + +Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, +dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Eu vou adeante assegurar-me do estado da +ponte, para no caso de estar já coberta, como é +provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do moinho, +a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, +que eu volto. +<br /> + +<br /> + +―Então deixa-nos +sós?―exclamou Christina, +assustada. +<br /> + +<br /> + +―É um instante. +<br /> + +<br /> + +―Não sei se nos atreveremos a dar um passo +sem a sua indicação―disse Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―O peor está passado. Além d'aquella pedra +já +vêem o ribeiro e a +ponte; o caminho indica-se +por si. +<br /> + +<br /> + +E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie +de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa +o devia conduzir ao logar que demandava. +<br /> + +<br /> + +Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. +Christina fechava o cortejo. +<br /> + +<br /> + +O mau humor de Henrique augmentára de ponto, +em consequencia dos receios com que as duas raparigas +tinham visto Augusto abandonar, por momentos, +a direcção do rancho. +<br /> + +<br /> + +Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma +confiança que lhes estava merecendo o auxilio de +Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia, +em vez do papel de protector, o de protegido, +que o humilhava. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[171]</span> +Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo +descontentamento, +Henrique perdera com isso aquella +volubilidade de conversação que mantivera todo o +dia. +<br /> + +<br /> + +Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar +tanto tempo sem formular um d'esses galanteios +que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, +nem sempre demasiado affavel. +<br /> + +<br /> + +Magdalena, por seu lado, não se sentia com +disposição +para falar. Christina menos. +<br /> + +<br /> + +Este silencio acabou por exasperar Henrique. +<br /> + +<br /> + +Haviam já percorrido grande parte do caminho, +que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas +turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que +nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito. +<br /> + +<br /> + +Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento. +<br /> + +<br /> + +―Estou devéras arrependido, prima Magdalena,―disse +elle com leve ironia―do meu espontaneo +movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que +ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos +os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas +como d'aquella vez se me figurou que era demasiado +cauteloso para heroe... +<br /> + +<br /> + +Uma simultanea exclamação de Magdalena e de +Christina não o deixou proseguir. +<br /> + +<br /> + +Voltando-se para saber a causa, que a motivára, +viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade +para a base do monte. +<br /> + +<br /> + +Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique +reconheceu a causa d'aquelle duplo grito. +<br /> + +<br /> + +Refiramol-o em poucas palavras. +<br /> + +<br /> + +Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar +se a ponte estava ou não transitavel, surprehendeu-o +um espectaculo inesperado. +<br /> + +<br /> + +O herbanario que, prevendo tempestade e receioso +dos perigos de que em taes condições a descida +era acompanhada, se apressára a partir, não +conseguira +chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento +<span class="pagenum">[172]</span> +da borrasca. O andar vagaroso e precavido +do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para +descançar ou para colher a rara planta montezinha, +o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de +occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia, +foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o +a meio caminho, e mais difficil de descer +lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, não +obstante haver partido antes dos outros, não lhes +levava muitos passos de avanço. +<br /> + +<br /> + +Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do +tosco passadiço, a que se dava o nome de ponte, +cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer +para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, +agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento +para momento; cêdo já não se viam +signaes +de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima +ficavam-lhe os açudes, transformados em impetuosas +cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes +rodas espumava a corrente com espantoso +fragor. +<br /> + +<br /> + +O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens +o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam +de todo a vista das pedras. +<br /> + +<br /> + +Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. +Encontrou a primeira, pousou um pé n'esse +ponto; firmou-se como pôde, para resistir á +fôrça +da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra +pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro, +até que de repente, ou por esvaímento de sentidos +ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o +equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos. +<br /> + +<br /> + +Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o +pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade +das aguas; reconheceu a urgente necessidade, +para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, +sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente +arrastava para os lados do moinho. +<br /> + +<br /> + +Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, +<span class="pagenum">[173]</span> +quasi de um salto, o espaço, que o separava ainda +do ribeiro, e lançou-se á agua. +<br /> + +<br /> + +Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique +tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade +malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se +revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se +sempre n'um palco, deante de espectadores que o +viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel +de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, +arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria +vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso +generoso, que não pudésse harmonisar-se +com a convenção, que se chama elegancia. +<br /> + +<br /> + +Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára +n'elle. +<br /> + +<br /> + +Augusto era differente. +<br /> + +<br /> + +As suas grandes qualidades guardava-as com +modestia dos olhos estranhos, para sómente as revelar, +quando pudéssem ser uteis. +<br /> + +<br /> + +Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou +temerariamente a vida para a buscar. Procurava +com placidez os meios de o fazer, com mais segurança, +embora com menos romanticismo; mas, para +salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente +nobre e generoso, nada o fazia recuar. +<br /> + +<br /> + +Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o +herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando +emfim com desafogo, respondeu ás anteriores +palavras de Henrique, dizendo em suave tom +de censura: +<br /> + +<br /> + +―Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso +guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida, +quando uma razão de humanidade lh'o pede. A +sua imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, +mas... não posso approval-a. Confesse que não +foi tão justificada como esta. +<br /> + +<br /> + +Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia +justa para vêr que, apesar da sua façanha +<span class="pagenum">[174]</span> +cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda, inferior ao +seu companheiro. +<br /> + +<br /> + +Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta +lhe produzisse, é certo que teve sobre a +rebellião +dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar +a ir apertar a mão a Augusto. +<br /> + +<br /> + +O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo +esforço da lucta com a corrente; ainda assim +abraçou +tambem Augusto, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião +de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que +desejava levar da terra, quando a deixasse. +<br /> + +<br /> + +Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados. +<br /> + +<br /> + +Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, +os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas +e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem +o moleiro, a quem mandaram chamar para +dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a +ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem +ahi dentro mudar de fato. +<br /> + +<br /> + +Augusto seguiu o herbanario a casa. +<br /> + +<br /> + +Passada meia hora saíam tambem do moinho +os outros todos, depois de haverem renovado a +roupa, que a chuva repassára. +<br /> + +<br /> + +No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha +com muitas exclamações e ralhos por +não +terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella +lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram +sobre os criados, a quem, entre outros delictos, +attribuia o de a não haverem avisado de que na +vespera passára por alli o caldeireiro ambulante, +repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico +infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o, +se oppuzesse a tal passeio. +<br /> + +<br /> + +Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não +levantaram menor celeuma, ao vêrem chegar Henrique. +Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de +cobertores, emborcaram-o de <em>punch</em> e +taes mêdos +<span class="pagenum">[175]</span> +lhe insinuaram, que as apprehensões pathologicas +de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se +da sua antiga victima. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XI +</h4> + +<br /> + +Censuravel descuido tem sido o nosso em não +conduzir o leitor a um dos logares mais importantes +da aldeia, onde se passam os singelos episodios +d'esta narração. +<br /> + +<br /> + +Que se diria de um <em>cicerone</em> que, por +esquecimento +ou proposito, deixasse de apresentar um viajante, +recem-chegado a uma cidade, na assembleia, +club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem +as principaes personagens d'ella, onde se compendiam +as grandes questões e interesses locaes, +as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras, +os voluveis caprichos que agitam os espiritos, +onde se commenta o boato de hontem, se dão ao +de hoje mil versões diversas e se adivinha já o +de +ámanhã? +<br /> + +<br /> + +Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando +a este undecimo capitulo, sem ter guiado os leitores +á venda de Damião Canada, a qual podia dizer-se +o verdadeiro coração d'aquelle organismo social. +<br /> + +<br /> + +Tudo quanto na terra havia de certa representação +alli ia falar da coisa publica e tambem da particular;―da +particular dos outros mais do que da +propria, entenda-se. +<br /> + +<br /> + +Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza +após horas continuadas de chuva e de temporal, +como que procurou respirar e permittiu que o +sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto +de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios +amortecidos ás cristas das serras fronteiras; aproveitemos +<span class="pagenum">[176]</span> +este intervallo de socego para entrarmos +na taberna. +<br /> + +<br /> + +Tinham passado dois dias depois do passeio ao +monte, que descrevemos. +<br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas teve de condescender com +uma leve angina, que lhe legaram os rigores +d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha, entretendo-se +a escrever cartas aos amigos e a scismar +n'uma imminente desorganisação da larynge, a +que imaginava conduzirem-o os seus incómmodos +actuaes. +<br /> + +<br /> + +No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça +narrar-se ao leitor. +<br /> + +<br /> + +Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, +e vejamos o que dizem os frequentadores do +estabelecimento de Damião Canada. +<br /> + +<br /> + +Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do +proprietario, barriguda e rubicunda figura, que, assim +posta ao pé das pipas, podia servir de typo para a +representação de um Sileno, havia varias +individualidades +de peso nos destinos de toda a comarca. +<br /> + +<br /> + +Dê-se primeiro menção ao nosso +já conhecido +Bento Pertunhas, a quem as humanidades não faziam +soberbo a ponto de recusar-se a entrar em +communicação social com os seus conterraneos. +<br /> + +<br /> + +Observada esta deferencia, mencionemos os mais. +<br /> + +<br /> + +Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho +das Perdizes, em quem já temos ouvido falar +por mais do que uma vez. +<br /> + +<br /> + +Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario +em uma das freguezias proximas, chamada de Pinchões; +mas propriedades e morgadia andavam-lhe +tão embaraçadas em redes de demandas e de +hypothecas, +que Deus nos acuda. +<br /> + +<br /> + +Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes, +enchiam um cartorio. Graças, porém, ao seu +genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho +deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os +cuidados agricolas aos rendeiros e feitores; os do +<span class="pagenum">[177]</span> +futuro, a Deus ou ao diabo; e para si não reservava +nenhuns. +<br /> + +<br /> + +Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era +necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar +e fazer trocas de cavallos com os ciganos, e ás +vezes para dar e levar sovas monumentaes.―Nos +mezes de caça, a vida do morgado era perfeitamente +nómada: estendia por leguas e leguas as suas +excursões +venatorias, contentando-se com qualquer +cama e comida, de que, de ordinario, participavam +os cães, que o acompanhavam; distrahia-se tambem +a conquistar os corações femininos da freguezia, +calando com dinheiro algumas queixas mais +acerbas e insoffridas de um ou outro pae, marido +ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas +tinha contas em aberto, o que não obstava a +que entrasse em todas com ares de conquistador e +expendesse alli as suas opiniões absolutas, com +grande exhibição de berros e de punhadas. +<br /> + +<br /> + +Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das +Perdizes um homem verdadeiramente popular entre +os da sua freguezia; movia-os no sentido que quizesse. +<br /> + +<br /> + +Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não +havia funcção, +rixa, solemnidade official, para que elle não +fôsse +consultado. É que a superioridade do morgado das +Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham +o povo; ninguem hesitava em falar-lhe e em +procural-o em casa, porque, falando e vivendo com +elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem. +Os +seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas +eram outras tantas causas a popularisal-o; justo é +porém que se diga que algumas boas qualidades +tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não +era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com +dinheiro no bolso, não consentia que pessoa alguma, +desde o mais rico proprietario até o jornaleiro +mais miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. +Não eram poucos os filhos-familias que resgatára +<span class="pagenum">[178]</span> +de soldado, sem a menor caução ou interesse, +chegando +a ficar empenhado para os livrar; e se algum +desgraçado se via perseguido pela justiça, +encontrava, +fôsse qual fôsse a enormidade do crime, +asylo seguro na herdade das Perdizes, que em certas +épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores. +<br /> + +<br /> + +Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era +o sr. Joãozinho uma verdadeira potencia eleitoral. +<br /> + +<br /> + +Eis ahi o homem moralmente. +<br /> + +<br /> + +Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta +e cinco annos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas +melenas em desordem, bigode aparado e +a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na +maneira de vestir inculcava os habitos da vida e +um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar. +Trazia o collete quasi sempre desapertado e +com alguns botões de menos de modo que os peitos +da camisa formavam hernia pela abertura; entre +as calças descaídas e o collete avistava-se o +cóz +das ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar +a mão; ao pescoço trazia um lenço de +seda escarlate, +negligentemente atado e com longas pontas fluctuantes; +uma jaqueta de pelles com alamares, calças +de fazenda chamada pelle do diabo, botas de +montar e esporas constituiam o resto do vestuario. +O cigarro, que quasi sempre fumava até ás +ultimas, +crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e +o canto dos labios. O palito andava-lhe sempre atraz +da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para +qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa +matilha de galgos, podengos e perdigueiros. +<br /> + +<br /> + +Segunda e não menos importante personalidade +era a do sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomasia―o +Brazileiro. +<br /> + +<br /> + +Era um homem de cincoenta annos; bem figurado +e sisudo, de falar compassado e com seus +quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de +protecção +a todo o mundo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[179]</span> +Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao +Brazil. Por lá esteve quarenta annos, e voltou o homem +grave que vemos e rico. Como enriqueceu não +sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma +casa no sitio em que nascera, uma casa grande de +cantaria e azulejo, com tres andares e varandas, +jardim com estatuas de louça e alegretes pintados +de verde e amarello, o qual jardim tinha mais fama +n'aquellas aldeias vizinhas do que os jardins suspensos +da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma +arara, igualmente famosos, e uma botica homoepatica, +que elle proprio manipulava. +<br /> + +<br /> + +As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a +vir a ser a primeira personagem de influencia na +aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos +na igreja parochial, presenteou com vestidos +novos todos os santos dos altares, e mandou renovar +um sino, que havia doze annos tocava a rachado. +Fez á sua custa a festa do orago, chegando a +mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato, +que ardeu a pouca altura do chão. Apesar, porém, +de todos estes beneficios á localidade, o conselheiro +Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto +vivesse quasi sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe +sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas. +Por isso, apesar da apparente amizade com +que Seabra o acolhia e lisonjeava até, conservava +por elle no fundo uma má vontade, um ciume, de +que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões. +<br /> + +<br /> + +Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho +das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre +de suissa irreprehensivelmente talhada em volta +do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres +grandes botões de brilhantes; no trajo combinavam-se +as variegadas côres de uma ave da America; +e o ouro, distribuido com profusão por todos +os accessorios da sua pessoa, attestava os bons resultados +dos seus quarenta annos do Brazil. Passeiava +pela aldeia de chinelos de marroquim verde +<span class="pagenum">[180]</span> +ou sapato de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do +andar, que voltava a casa sem que uma mancha +ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino. +Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos +caminhos, calcando-a com bota de polimento. +<br /> + +<br /> + +Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé +P'reira, +que bebia, em silencio, ao pé do taberneiro, havia +um padre, coadjuctor da freguezia, dois lavradores +abastados e já de avançada idade, e outros +que deixaremos confundidos na massa indistincta +dos comparsas. +<br /> + +<br /> + +No momento, em que entramos, usava da palavra +o brazileiro, que estava sentado á porta da taberna, +na mais limpa cadeira do estabelecimento. +<br /> + +<br /> + +―Pois é verdade―disse elle―fômos todos da +mesma creação. O conselheiro +Manoel Bernardo +saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu ir +para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola, +que era a do padre Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. +Vossemecê ha de estar lembrado, sr. Luiz―accrescentou, +dirigindo-se com a affabilidade protectora, +que o caracterisava, a um dos lavradores. +<br /> + +<br /> + +―Ora se estou! muito bem. Era na casa em que +hoje mora o Chico da Luciana. +<br /> + +<br /> + +―É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro +e aquelle ratão do Vicente, herbanario, que +era já rapaz taludo. Lembra-me, como se fôsse +hoje, +de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro +da Corredoura. +<br /> + +<br /> + +―Olha lá, hein!―diziam dois lavradores com +um sorriso cortezão nos labios―então com que o +sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!... +<br /> + +<br /> + +―Ora, como um homem. Eu fui levadinho da +bréca. Boa sóva levei de minha mãe, +por causa de +umas calças novas que rompi. +<br /> + +<br /> + +―Ora vêdes?―diziam os outros. +<br /> + +<br /> + +―Ai tempos, tempos!―disse, suspirando, o brazileiro. +<br /> + +<br /> + +―Quem havia de dizer então ao que v. s.<sup>a</sup> +e o +<span class="pagenum">[181]</span> +conselheiro tinham de chegar!―notou lisonjeiramente o sr. Bento +Pertunhas.<br /> + +<br /> + +―Eu sim―respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.―A que +cheguei +eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um +boccado de pão para o resto da vida; com isso me contento. +O mais, sou um pobre diabo que ninguem conhece, um homem ignorante, sem +principios. Elle é outra coisa.<br /> + +<br /> + +―Não é tanto assim―insistiu +Pertunhas―todos sabem que v. s.<sup>a</sup> se quizesse...<br /> + +<br /> + +―Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesseo juizo de +muitos, que por ahi vejo figurando, então havia de me +vêr na brecha; porque, não é por me +gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles.<br /> + +<br /> + +―Ora pois, não, não―disseram os +lavradores, Pertunhas e o padre.<br /> + +<br /> + +―Alguns que até ministros teem sido...<br /> + +<br /> + +―Por essa estou eu...<br /> + +<br /> + +―O conselheiro mesmo...―resmungou o padre, fungando uma pitada +jesuitica―sim, aqui para nós...<br /> + +<br /> + +―Tanto não digo―continuou o brazileiro, mais +jesuiticamente +ainda.―O conselheiro... vamos... Faça-se-lhe +justiça. Eu não quero dizer que elle seja uma +coisa +por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a final?... +Mas... Não é dos peores, não +é dos peores. Faça-se-lhe justiça. +Não é homem de grandes talentos... isso +não; nem mesmo de grande fundo. Sim... Devemos confessar +que esta é a verdade... Mas... emfim, vamos andando...Cada +um +faz o que pode―concluiu o brazileiro, depois de ter feito +justiça ao conselheiro.<br /> + +<br /> + +―No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode +fazer. Ha quantos annos nos anda a falar na estrada, e até +hoje ainda nem palmo d'ella?―opinou Pertunhas.<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o +dictado―ponderou o brazileiro.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[182]</span>―A falar +verdade!...―disse um dos lavradores―com a influencia que elle tem, +podia...<br /> + +<br /> + +―Ora adeus! palanfrorio―atalhou o padre―bem me fio eu na influencia +do conselheiro.<br /> + +<br /> + +―Eh! eh! eh!―respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do +padre, +e accrescentou com um sorriso velhaco:―Não, elle diz que +fala com os ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. +Emfim... Elle lá o sabe.<br /> + +<br /> + +―Para mim é que elle vem de carrinho...<br /> + +<br /> + +―Eu não sei―concluiu com requinte de velhaquez o +brazileiro.<br /> + +<br /> + +―Pois eu cá―disse o sr. Joãozinho, que +estivera bebendo em silencio, e descarregou um murro na banca, que fez +tilintar os copos.―Eu cá já disse; se os taes +homens das bandeirolas me tornam a passar por as terras, sempre lhes +meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e +que já me serviu para varrer a feira de Santo +Estevão. Uns mariolas!...<br /> + +<br /> + +E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um +pontapé a um podengo, que lhe viera roçar por as +pernas, e fel-o sair ganindo.<br /> + +<br /> + +―Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das +estradas―informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr. +Joãozinho.<br /> + +<br /> + +―Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!―resmungou +este.―Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente +queimámos toda a papelada da camara e do escrivão +da fazenda.<br /> + +<br /> + +―Agora no inverno é que elles hão de +principiar com os trabalhos. Sempre se fia em boa!―disse, encolhendo +os +hombros, mestre Pertunhas.<br /> + +<br /> + +―Vossemecê é que está a +ler―veio-lhe á mão +obrazileiro.―Então +não sabe que as eleições +são +em fevereiro?<br /> + +<br /> + +―Ai, é verdade! não me tinha +lembrado d'isso!―exclamou o padre.<br /> + +<br /> + +―Tambem não sei como será d'esta vez essa <span class="pagenum">[183]</span>historia das +eleições―acudiu o +sr. Joãozinho.―Cáeu e a minha gente ainda +estamos +a vêr no que param as coisas. Eu já não +estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao conselheiro +a +freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo +que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos +de +entrar n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá +por umas contas, não anda o filho de meu pae.<br /> + +<br /> + +―Ora adeus!―disse o padre cura.―O conselheiro tem artes para o levar.<br /> + +<br /> + +―A mim? Está enganado. Não +querendo eu?Então você não me +conhece. Em euembirrando, sou como um borrego teimoso.<br /> + +<br /> + +―Quando se fala em estradas, já estou a tremer―disseum dos +lavradores.―O que elles veem cá fazer é +cortar-nos os campos, e a final não sei para que servem.<br /> + +<br /> + +―Isso não é assim―atalhou o brazileiro, +tomando uns ares cathedraticos, cheios de +gravidade.―Vossemecê é ignorante e por isso +é que fala d'esse modo.<br /> + +<br /> + +―Eu digo...―tartamudeou, intimidado, o lavrador.<br /> + +<br /> + +―Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que +não entende. As estradas não servem para nada! As +estradas são meios de communicação +e... +facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por conseguinte a +riqueza das nações... Porque o trabalho +representa +um capital..., sim, senhores, mas... mas um capital...sim... um capital +morto... quero dizer um capital que não vive... Quero +dizer... sim... supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., +sim... ahi está o credito... Pois que é o +credito?... O credito é... é o credito... depende +de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós +não tivessemos estradas... Uma +supposição... Partamos de um principio. A +producção excede o <span class="pagenum">[184]</span>consumo... +Quero mesmo que o consumo exceda a producção... +Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta? +Está +claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... +Não havendo estradas... Ahi está que se diz por +ahi que a livre exportação, que tal, que +sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não +é assim. É preciso que se attenda tambem +ás condições economicas dos povos. +Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em termos +já se sabe...Mas... o commercio livre... a livre troca... +entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu +digo +que... Ora supponhamos... supponhamos que não havia +estradas... Os transportes eram mais difficeis e portanto mais caros... +E se além d'isso os generos fôssem escassos e... +Diz +vossemecê, para que servem as estradas? Ora diga-me uma +coisa, +sr. Manoel, supponhamos que... os impostos indirectos... não +precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria +que me dissesse o que havia de fazer.<br /> + +<br /> + +―Impostos, Deus me livre d'elles!―murmurouo lavrador, cujos +instinctos trepidaram á +palavra «impostos».<br /> + +<br /> + +―Isso tambem não é assim... Deus me +livre! Não se diz Deus me livre, porque a riqueza... +a riqueza... sim, a riqueza não está na +terra... isto é, a riqueza está na terra... mas +é preciso o capital para a +exploração... +Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não... vamos +cá por outro lado... Ha um <em>deficit</em> +n'um orçamento... desce o preço das +inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que +ha +boas estradas, <em>etcoetera</em>... A riqueza tende a +augmentar... e... e... Emfim lá que as estradas +são uteis, isso é que não tem +questão.<br /> + +<br /> + +Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com +profunda +attenção.<br /> + +<br /> + +O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios<span class="pagenum">[185]</span> periodicos politicos, +conseguira, á fôrça de leitura, fixar +na +memoria certas phrases de artigo defundo, e acabára por +convencer-se de que possuia grandes noções de +sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma +sacudidela +ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do +interior de um kaleidoscopo, tomavam uma +disposição tal ou qual, mais ou menos regular, e +assim lhe saia uma dissertação, como essa que +viram. Em permanente indigestão economica vivia este +portento. A doença não é das mais +raras +entre politicos.<br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e +ruidosamente +a bôca, depois do discurso do brazileiro, e disse:<br /> + +<br /> + +―Eu cá por mim não sei d'essas +coisas. Não se me dava das estradas para poder ir +á +feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que +me não venham mexer na quinta; porque então +teem que vêr.<br /> + +<br /> + +―Pois está arriscado a isso―disse o brazileiro.<br /> + +<br /> + +―Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da +papelada outra vez.<br /> + +<br /> + +―Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, +depois de tomar á esquerda pelo Castro e vir direito +á Palhoça. Não tinha cruzes nem +cunhos. +Ia-me parte da propriedade.<br /> + +<br /> + +―Ah! ah! ah! Tambem não gosta? +Diga-me d'isso!―berrou o sr. Joãozinho.<br /> + +<br /> + +―Não é não gostar, é que +o traçado era pessimo.<br /> + +<br /> + +―Não sei por quê.<br /> + +<br /> + +―Só a expropriação da minha quinta +por +que preço não lhes ficava?<br /> + +<br /> + +―Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu +modo―notou o padre cura.<br /> + +<br /> + +―E por onde ha de ir então a estrada?<br /> + +<br /> + +―O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da +herdade do capitão-mór, faz um<span class="pagenum">[186]</span> viaducto nos lameiros, +atravessa o pinhal do Conego, passa o rio n'uma ponte e...<br /> + +<br /> + +―Oh com os diabos; o que ahi vae!<br /> + +<br /> + +―Não é tanto como parece; sendo as obras +bem dirigidas... Até aos lameiros só tem a +deita rabaixoa casa e o quintal do herbanario.<br /> + +<br /> + +―Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de +paixão, se tal fazem―disse, com certa +commiseração, o sr. Joãozinhodas +Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera +affeição e respeito, n'elle excepcional, desde +que +lhe attribuia a cura de um typho que o tivera ás portas da +morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com +uns cozimentos sómente d'elle sabidos.<br /> + +<br /> + +―Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está +maluco de todo―redarguiu o brazileiro.<br /> + +<br /> + +―Tambem está um bom magico, está―notou o padre.<br /> + +<br /> + +―Quer não, que sabe mais do que todos os medicos―acudiu o +sr. Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. +Oh que excommungada!<br /> + +<br /> + +E principiou a fazer a historia da sua doença.<br /> + +<br /> + +Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas +attribuiam-lhe +mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.<br /> + +<br /> + +―Pois a final por onde devia ir a estrada―continuou o +brazileiro;―tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso +não se fala, já se sabe.<br /> + +<br /> + +―Ora! pois está de vêr―concordou o padre.<br /> + +<br /> + +―E o conselheiro não se ha de oppôr +á expropriação da casa do herbanario, +porque pelos modos elles não andam muito correntes―lembrou +um lavrador.<br /> + +<br /> + +―É verdade; por que seria aquillo?―perguntou outro.<br /> + +<br /> + +―Elles em tempo eram muito um do outro; e são +até +aparentados;―explicou o brazileiro―e o <span class="pagenum">[187]</span>velho +ainda hoje é tratado com familiaridade pela gente do +Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle genio exquisito que tem, +disse algumas verdades ao conselheiro, por occasião de +umas eleições, quando elle pôz as +auctoridades a trabalhar por si, e o velho entendia que as coisas +não iam bem assim.<br /> + +<br /> + +―Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte +conselheiros e toda a familia,―exclamou o sr. Joãozinho, +batendo outra punhada―e queira elle, que o tal senhor não +põe mais o pé nas camaras, mandado cá +pela terra.<br /> + +<br /> + +―Eu gósto de os ouvir,―disse o padre―falam assim, mas em +chegando a occasião, vão todos votar n'elle como +carneiros.<br /> + +<br /> + +O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.<br /> + +<br /> + +―Pois havemos de vêr o que será!―berrou o sr. +Joãozinho.―Isso é consoante cá umas +coisas.<br /> + +<br /> + +―A falar a verdade―disse o Pertunhas―não tem pago muito +bem ao circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só +essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!<br /> + +<br /> + +―Essa a falar a verdade!―disse um lavrador.<br /> + +<br /> + +―Quero vêr se me hão de enterrar a +mim!―disse ameaçadoramente o sr. Joãosinho, como +se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas vontades +á fôrça de murros e de pragas.<br /> + +<br /> + +―Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. +É moda e acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda +a +gente e não havia mais doenças do que agora―isto +dizia o padre.<br /> + +<br /> + +―Os romanos tinham as suas catacumbas―ponderou o mestre de +latinidade, +forçando as suas reminiscencias romanas.<br /> + +<br /> + +―Vamos―ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo +discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade +scientifica.―O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque<span class="pagenum">[188]</span> os chimicos sabem que... +o +ar que não é puro... é mau para a +saude +publica. Ora os cadaveres... em putrefacção +produzem uns vapores que corrompem o ar... Ha uns insectozinhos +invisiveis que a gente respira... e vão para a massa do +sangue +e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a febre +são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se +sáem, muito que bem; e se não sáem, +ficam retidos e azedam o corpo todo.<br /> + +<br /> + +A theoria physiologica pathologica foi recebida com +attenção igual á que merecera +a economica.<br /> + +<br /> + +―Tudo isso será assim,―disse o padre―mas o conselheiro +faz +aquillo por instigações +das lojas maçonicas e dos pedreiros livres.<br /> + +<br /> + +―Pois elle será tambem?...―disse um dos +lavradores, arregalando os olhos assustados.<br /> + +<br /> + +―Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da +sucia.<br /> + +<br /> + +―Corja!―resmungou o sr. Joãozinho.<br /> + +<br /> + +O brazileiro, que se filiára no Brazil +na maçonaria, fez um discurso sobre os fins da sociedade, +que ninguem entendeu; vendo, porém, que não +calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.<br /> + +<br /> + +―Elle não será +mação―disse +d'ahi a momentoso padre―mas é vêr o que elle tem +defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e +ás freiras os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o +exemplo do cunhado, que se encheu com a compra do Mosteiro; queria +acabar +com o santo sacramento do matrimonio; queria que cada qual seguisse +a religião que muito bem lhe parecesse. Vejam +que christão aquelle!<br /> + +<br /> + +Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras +de censura.<br /> + +<br /> + +―E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.<br /> + +<br /> + +―A falar a verdade, os vinculos...―murmurou <span class="pagenum">[189]</span>o +sr. Joãozinho, que por vezes tropeçára +nas disposições da antiga lei vincular, ao +caminhar na estrada da dissipação; +porém, recordando-se de um irmão que tinha, +casado +e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa +de muito trabalho, a ideia da abolição dos +morgados não lhe sorriu e exclamou com nova punhada:―Acabem +lá com os morgados quando quizerem, que o que eu lhes +digo é, que tem de se haver commigo quem quizer tirar-me um +palmo de terra!<br /> + +<br /> + +O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o +conselheiro.<br /> + +<br /> + +O pae de Magdalena militára sempre, como +já dissémos, nas fileiras do partido mais +liberal, +e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a maioria +do clero, que, entre nós, não +espósa ardentemente aquellas ideias.<br /> + +<br /> + +No principio da sua carreira parlamentar, cedendoao impulso do +enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára +desassombradamente a bandeira do partido progressista e +pronunciára os mais absolutos artigos d'aquelle credo +politico; liberdade era então o seu mote favorito; a +liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as +reformas +consequentes nos codigos, a desamortisação +e desvinculação da propriedade, tudo +advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas palavras +soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra +de +outro catecismo.<br /> + +<br /> + +Com o tempo arrefeceu, porém, esse +enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o fogo da mocidade. Com quanto liberal +ainda de convicção, ensinou-lhe a politica +pratica +a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios +doutrinarios, a contemporisar, e até quando as +conveniencias, +infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos +de retrocesso e a transigir com o partido opposto.<br /> + +<br /> + +Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformarem +projecto de lei nenhuma d'aquellas medidas<span class="pagenum">[190]</span> +por +que pugnára nos seus primeiros discursos, e que tantas +malquerenças lhe acarretaram então.<br /> + +<br /> + +Já atraz dissémos, que o conselheiro +era actualmente um espirito pouco apaixonado do ideal, respirava a +atmosphera de desillusão e de scepticismo, em que nas +grandes +cidades se vive. Era um perfeito homem de côrte; tratava +cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo d'elles +mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás +vezes da tribuna e depois apertava-lhes a mão nos +corredores das camaras e nas praças. Se o julgava +vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases sonoras, uma +d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no +principio da sua carreira adoptára comsinceridade; mas +não tinha já aos principios o amor preciso para +cair, abraçado n'elles, dos degraus do poder, se algum dia +os +chegasse a subir.<br /> + +<br /> + +Por isso os soldados rasos do seu partido, os politico sem abstracto, +unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o +taxavam de frouxo e tibio; e de gazeta na mão havia muito +que +lhe dictavam, do obscuro canto do paiz em que viviam, a estrada +direita, +de que elle, porém, a cada passo se desviava.<br /> + +<br /> + +Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por +os +seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má +fé, a acoimal-o de impio, de republicano e de pedreiro livre.<br /> + +<br /> + +O brazileiro entrou em dissertação a respeito +de todas as medidas politicas a que alludira.<br /> + +<br /> + +Segundo o costume, ninguem o entendeu.<br /> + +<br /> + +Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um +tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra +espreitar á porta, voltou-se, exclamando:<br /> + +<br /> + +―Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!<br /> + +<br /> + +Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que +mais de má vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[191]</span>Dentro em pouco +todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que +montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um +pequeno baio de fórmas elegantes e olhar vivo.<br /> + +<br /> + +O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e +patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi +todo o effeito da conversa que descrevemos.<br /> + +<br /> + +Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, +dispoz-se +para entrar na venda.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XII</h4> + +<br /> + +O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se +sentar nos bancos de pinho do estabelecimento de Damião +Canada, envernizados já pelo uso de muitos annos.<br /> + +<br /> + +Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com +attenções e o flagellava com obsequios.<br /> + +<br /> + +O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia +satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e +conversando com aquella familiaridade, tão sabida de +candidatos a procuradores do povo, nos circulos que +pretendem representar. Até chegou a levar aos labios o copo +de vinho, que um lavrador lhe offereceu.<br /> + +<br /> + +Não se lhe percebia porém no rosto, ao +fazer isto, o menor vestigio de artificio, e, ao mesmo tempo, +mantinha-se +ainda n'elle tão apparente a superioridade intellectual, que +os seus interlocutores nunca excediam os limites da deferencia. O pae +de +Magdalena era um perfeito homem de côrte: +presença agradavel, modos insinuantes, palavras +tão astuciosamente<span class="pagenum">[192]</span>lisonjeiras, +que desvaneciam os proprios que como taes as tinham.<br /> + +<br /> + +Alvejavam-lhe já algumas cãs nos cabellos +e suissas, que usava talhadas á moda ingleza; principiava a +predominar-lhe nas fórmas certa +rotundidade caracteristica; mas no esmero e até elegancia +distincta de casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, +nos movimentos ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza +das conversas, havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que +ninguem se sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que +não perdera ainda.<br /> + +<br /> + +Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e +não obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se +que assim fôsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro +olhar lançado sobre elle.<br /> + +<br /> + +Possuia o dom especial de se encontrar á vontade em toda a +parte, desde o mais perfumado gabinete da moda, até o menos +asseiado local de um comicio popular. Nas camaras com graves +diplomatas, nos cafés com rapazes estouvados, na sua aldeia +com eleitores absurdos, com actores e actrizes nos bastidores, com +padres nas sacristias, com militares nos quarteis, em toda a parte e +com +todos se achava este homem á vontade, acabando, quasi +sempre, +por captar sympathias.<br /> + +<br /> + +Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da +opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezão, +a +phrase conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho +popular, a figura oratoria, a maxima moral, e até a praga +energicamente expressiva; mas, como os espadachins de +profissão, jogava-as todas com frieza de animo, cada qual na +occasião opportuna e com perfeita observancia do que o mundo +chama conveniencias sociaes.<br /> + +<br /> + +Muito tinham que fazer com elle os La Bruyères,que, a cada +passo, ahi encontramos no mundo; illudia <span class="pagenum">[193]</span>os +mais atilados. Ás vezes parecia abrir-se tão do +intimo, tão completamente e +sem condições nem reservas, havia tal +uncção de sinceridade nas palavras, com que +falava +de si, dos seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado +jesuita sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; +outras, falava verdade, mas com taes hesitações +na +voz, com tal mobilidade no olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua +creança experimentaria o despontar da primeira +dúvida.<br /> + +<br /> + +Já se vê que um homem d'estes era um contendor de +muita fôrça, para poder ser combatido por qualquer +dos influentes locaes; o proprio brazileiro, apesar de toda a sua +economia politica, ainda nada pudéra contra elle; nem +ousára romper hostilidades com receio de ficar vencido.<br /> + +<br /> + +Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do +Damião Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a +conversa que precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. +Tres ou quatro lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos +modestamente pedidos com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.<br /> + +<br /> + +Deixemol-o nós na laboriosa e pouco invejada tarefa de +manter +a popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae +á porta da venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.<br /> + +<br /> + +Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com +aquelle alvoroço do coração, que +conhece +quem já foi estudante e se recorda ainda do que +experimentava +ao vêr de longe despontar o telhado da casa paterna, onde +vinha gosar as delicias de umas almejadas férias.<br /> + +<br /> + +Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma +agradavel +figura de creança, expressiva de intelligencia e de vida. +Tinha nas feições um mixto da delicadeza de +Magdalena e da energia varonil, e ao mesmo tempo attrahente +do conselheiro.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span>O cabello louro e +curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis naturaes, com grande +vantagem para a espaçosa e bem modelada fronte.<br /> + +<br /> + +Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do +Mosteiro estavam todas obscuras, á +excepção das aguas-furtadas, correspondentes aos +quartos das creanças. Angelo desmontou e cautelosamente se +dirigiu a pé para casa.<br /> + +<br /> + +Torquato dormia á porta, como frequentemente lhe +acontecia.―Angelo pôde assim penetrar sem ser percebido +até o mais intimo da casa, até os aposentos onde +dormiam as creanças, e em cujas janellas avistára +luz.<br /> + +<br /> + +A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe +no coração uma suave e encantadora alegria.<br /> + +<br /> + +O mais novo dos seus primos, creança de tres annos, estava +meio nú e de joelhos sobre o leito com as mãos +erguidas e os olhos fitos em um crucifixo que tinha á +cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe as palavras da +oração, que a creança repetia, cheia +de +fervor.<br /> + +<br /> + +Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar +das continuadas advertencias da prima.<br /> + +<br /> + +Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para +beijar a creança, elle estendeu a cabeça e pousou +tambem um beijo nas faces da irmã.<br /> + +<br /> + +Magdalena soltou uma exclamação de surpreza e +cingiu-o nos braços com effusão.<br /> + +<br /> + +A creança levantou um brado, que foi o signal de revolta +dado +a Marianna e Eduardo, que cêdo abandonaram os quartos e +correram a abraçar Angelo.<br /> + +<br /> + +―Vens só?―perguntou Magdalena ao irmão, quando +uma pergunta lhe foi possivel.<br /> + +<br /> + +―O pae ficou na loja do Canada―respondeu Angelo.―Estava em +sessão a assembleia dos notaveis. E como estás +tu, +minha Lena, tu e Christe e a tia? Como vae toda essa gente?<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[195]</span>―Anda tu mesmo +sabêl-o.<br /> + +<br /> + +―Eu vou dizer á mamã―disse Marianna, saindo aos +saltos.<br /> + +<br /> + +―Eu vou chamar Christe―disse Eduardo, imitando-a.<br /> + +<br /> + +E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.<br /> + +<br /> + +O pequeno que Magdalena deitára, pedia, chorando, para se +tornar a levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.<br /> + +<br /> + +―Dize-me―continuava no entretanto este para a +irmã―tens-te +enfastiado muito, aqui só?<br /> + +<br /> + +―Não, tenho-me divertido até.<br /> + +<br /> + +―Devéras? E que fazes? +Em que passas o tempo?<br /> + +<br /> + +―Eu sei? O tempo é que passa, sem eu dar por isso. Leio +pouco, passeio muito; trabalho mais.<br /> + +<br /> + +―Que tens lido?<br /> + +<br /> + +―Quasi sempre relido.<br /> + +<br /> + +―O quê?<br /> + +<br /> + +―Nem eu sei já. O primeiro livro em que pouso a +mão, quando os vejo sobre a mesa.<br /> + +<br /> + +―O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?<br /> + +<br /> + +―Todos os dias.<br /> + +<br /> + +―E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?<br /> + +<br /> + +―Vae bom. Caiu no outro dia á levada da raiz do monte; +valeu-lhe o Augusto para o salvar.<br /> + +<br /> + +―Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorothéa?<br /> + +<br /> + +―Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas; +conheces?<br /> + +<br /> + +―Eu não.<br /> + +<br /> + +―É provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em +que +lhe chamemos primo. Aviso-te d'isso.<br /> + +<br /> + +―Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?<br /> + +<br /> + +―Coitada! Achei graça, ha dias, á Joanna, que +com +muita ingenuidade se me veio queixar de que ella até o anjo +da guarda lhe occupava em serviço proprio. Tu sabes que a +tia, quando está com muito<span class="pagenum">[196]</span> +somno, +tem aquelle costume de dizer ás criadas que a encommendem ao +anjo da guarda d'ellas. Mas vamos.<br /> + +<br /> + +―Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?<br /> + +<br /> + +―Trouxe.<br /> + +<br /> + +―É verdade; e a filha d'elle? A Lindita?<br /> + +<br /> + +―Já cá me ia tardando a pergunta―notou +a morgadinha, rindo.―Essa anda contente, como quem nada tem a +penalisal-a; nem saudades.<br /> + +<br /> + +―Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia.<br /> + +<br /> + +―Então devéras esse +coração +está assim tomado?<br /> + +<br /> + +―Não te informo do meu coração, que +o não levo commigo, quando d'aqui vou. Cá me +fica; +e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que pergunto; em que +estado m'o entregas?<br /> + +<br /> + +―Muito doente.<br /> + +<br /> + +―Sim? E o teu?<br /> + +<br /> + +―O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto +decorações são como +as creanças. As travêssas tantos cuidados +dão ás mães, que a todos +os instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; +as socegadas inspiram tal confiança, que nem sequer n'ellas +se +pensa. O meu coração é um modelo +de serenidade.<br /> + +<br /> + +―Então ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...<br /> + +<br /> + +―O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d'estas +immediações, capaz de ferir +a imaginação e commover os affectos de uma +mulher, +é o sr. Joãozinhodas Perdizes; mas esse +é um Actéon insensivel, que...<br /> + +<br /> + +―É verdade―disse Angelo, rindo―lá vi +tambem esse javali na venda do Damião Canada. +Mas...Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei +de dizer umas coisas.<br /> + +<br /> + +―A mim? A respeito de quê?<br /> + +<br /> + +―Do teu coração.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[197]</span>―Que sabes d'elle?<br /> + +<br /> + +―A seu tempo direi.<br /> + +<br /> + +―Como te vieram essas presumpções de +conhecedor dos corações alheios? Não +tinhas isso, quando d'aqui foste.<br /> + +<br /> + +―Ás vezes vê-se melhor de longe.<br /> + +<br /> + +―Os de vista cançada... de muito vêr.<br /> + +<br /> + +―Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa +gente, que o pae não tarda ahi.<br /> + +<br /> + +De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das +salas +principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de +braços, tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, +encostava-se-lhe familiarmente ao hombro; a morgadinha, sentada +em tamborete baixo, apoiava o braço, em que recostava a +cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, D. +Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos +pequenos que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem +ficara pé, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia +frequentemente rir sua tia e Eduardo, com as historias que lhes contava.<br /> + +<br /> + +A conversa cêdo se generalisou. Era uma d'essas conversas +intimas, familiares, em que se referem as mais insignificantes +circumstancias da vida domestica; conversas cujo suave perfume +só em familia se aprecia.<br /> + +<br /> + +Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos +apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, +e +se vê obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias +da casa, que não é a sua! É uma +pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que +para +todos é de igual interesse a narração +dos successos domesticos, que tanto as deleitam, e com ella entreteem +o primeiro indifferente que se lhes depara; tudo trazem á +luz, +o dicto agudo da creança de tres annos, os +incómmodos que soffreu na +primeira dentição, as espertezas do gato +favorito, +as razões ponderosas <span class="pagenum">[198]</span>que +aconselharam a mudança de um movel, +a combinação economica que favoravelmente +modificou o orçamento domestico, a reforma nos +processos culinarios consagrados pelo habito de muitos annos, o exame +comparativo da conserva de um anno e da do anno antecedente, os +defeitos +e qualidades de um criado e mil outras pequenas coisas, que +é +forçoso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o +que +obriga a esforços sobrehumanos.<br /> + +<br /> + +É natural aquella illusão; e pathetica a +dissemos nós tambem, porque os que mais +decoração se entrega má vida +domestica, +são os mais sujeitos a ella. Todos estes episodios futeis e +pueris os preoccupam e deliciam mais do que as mais estranhas +peripecias, +que ainda concebeu a imaginação +de romancista fecundo. E quem se lembra de que é +individualissimo esse interesse, inherente á pessoa +e não aos factos, ás causas que +tão curiosos lh'os fazem ser?<br /> + +<br /> + +Eu e o leitor, estranhos á familia do +Mosteiro, vêr-nos-iamos, se fôssemos escutar todo o +dialogo que se travou na sala, na posição da +pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses +relatorios domesticos, a que sobre tudo são tão +inclinadas as mães de familia.<br /> + +<br /> + +É verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; +e +o conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle +achasse curioso é porque realmente o era. D'esta vez, +porém, damol-o por suspeito, porque o conselheiro tinha +coração e,quando esta viscera se +alvoroça com affectos, as intelligencias mais elevadas teem +d'estas sympathicas fraquezas.<br /> + +<br /> + +O politico, o diplomata reservado, fica fóra +do portão da quinta do Mosteiro; alli dentro, +n'aquelle circulo de affectos, era o pae extremoso, o homem de familia, +ingenuo, sincero, aberto a todos, porque em todos confiava, contente +por +não ter de estudar <span class="pagenum">[199]</span>na +expressão dos rostos os pensamentos que seguardam; nas +palavras o sentido, que n'ellas não vem explicito.<br /> + +<br /> + +Era um salutar descanço dos continuados +esforços da sua vida de Lisboa; lá a lucta; aqui +o +repouso.<br /> + +<br /> + +Por isso ouvia com attenção e applaudia +com vontade as narrações da cunhada, de +Magdalena, +de Christina e até da pequena Marianna.<br /> + +<br /> + +E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro +não poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o +vertiginoso movimento da sua vida politica.<br /> + +<br /> + +Eram-lhe já necessidade +aquella contenção, aquelle esforço de +espirito, aquellas desconfianças continuas, aquelle jogo de +astucias, que lhe tomavam em Lisboa todo o tempo.<br /> + +<br /> + +Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o +afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.<br /> + +<br /> + +A politica é uma embriaguez; nos intervallos em que o +espirito se sente desanuviado dos vapores em que ella o envolve, +pesam-nos os desacertos a que fomos arrastados; o desgosto do mal feito +insinua-se-nos no coração; cêdo, +porém, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da +consciencia, e de novo nos arrasta.<br /> + +<br /> + +O caracter intimo da conversação foi +levemente modificado por a entrada de D. Dorothéa e de +Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram visitaro conselheiro, +mal +tiveram noticia da sua chegada.<br /> + +<br /> + +O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e +com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa. +Frequentavam ambos os principaes círculos da capital e, +por mais de uma vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em +conversas e discussões communs.<br /> + +<br /> + +Passado algum tempo depois dos cumprimentos,<span class="pagenum">[200]</span> +o +serão animou-se de novo, fragmentando-se porém a +conversação.<br /> + +<br /> + +D. Victoria tomou á sua parte D. Dorothéa +e passou a fazer-lhe amargas queixas a respeito dos criados do +Mosteiro, +ao que D. Dorothéa acudiu com conselhos de +resignação christã.<br /> + +<br /> + +Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente +fazia +rir.<br /> + +<br /> + +Henrique e o conselheiro, proximos do fogão, +estavam empenhados n'um dialogo muito animado.<br /> + +<br /> + +O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que +surprehendiam Henrique, que ainda o não tinha observado por +esta face.<br /> + +<br /> + +―É uma triste verdade―dizia por exemplo o conselheiro n'um +ponto adeantado da conversa, referindo-se a algumas +considerações de Henrique sobre a felicidade +d'aquella vida do Mosteiro.―Tenho esta familia que vê; todos +me querem sinceramente aqui, e não sei resistir á +fatal necessidade que me arranca de todos estes braços para +me +lançar ao turbilhão da politica e d'isso que se +chama o mundo! Pois amo devéras a minha Lena, creia.<br /> + +<br /> + +―É um dever que cumpre. N'estes tempos de má +fé politica, quem se sente com a coragem de se votar, corpo +e +alma, á defeza despreoccupada dos bons principios...<br /> + +<br /> + +Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de +descrença, meio de melancolia.<br /> + +<br /> + +―Defeza despreoccupada? Isso é quando Deus quer―respondeu +elle.―Olhe, Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a +cuja +porta eu deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso +no +mundo, vae vêr em mim o homem que talvez não +esperasse e que, já lhe digo, +debalde procurará reconhecer um dia, se me observar outra +vez +em Lisboa. O que lhe vou dizer não lh'o diria, nem lh'o +repetirei lá. É verdade que estes ares do campo +tambem actuarão em si para me apreciar e <span class="pagenum">[201]</span>tomar á boa +parte a franqueza. Lá não acreditaria n'ella; se +por acaso não a aproveitasse como arma politica contra mim...<br /> + +<br /> + +―Pois julga?...<br /> + +<br /> + +―Peço perdão, se o offendi com +isto. Não eraesse o meu intento, mas é pratica +tão geral!... Se um dia fôr politico, o que lhe +não desejo, dir-me-ha.<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, fez uma curta +pausa na conversação.<br /> + +<br /> + +Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:<br /> + +<br /> + +―Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e +através de tudo. Não sei se quiz ser lisonjeiro e +disse o que não sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo +o caso, eu, aqui no Mosteiro, acho-me muito ás ordens da +minha consciencia, a qual não me deixa calar +hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem politico, +a +que alludiu. Humildemente o confesso; até porque, se +quizesse +sel-o, arriscar-me-hia a achar-me só, não teria +partido. Porque, qual é o que vê nas +condições de constancia de opiniões +que +disse? Tenho crenças politicas, é +verdade; espóso no coração certos +principios que quizera vêr realisados, mas não +combato por elles a todo o transe, nem por elles affrontaria o +supplicio; antes, por vezes, entro em +transacções, +que são a completa negação da divisa +da +minha bandeira. E este peccado não sou eu só que +o +commetto; é um peccado venial da nossa época. As +grandes ideias, que definem e estremam os campos na politica, +havemol-as +eu e os mais calcado muitas vezes aos pés, para sustentar +umas +insignificantes fórmulas, um interesse mesquinho, um +capricho +pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem é +isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que +de fóra nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados +na +minha carreira publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro +n'elles? quando me<span class="pagenum">[202]</span> +persuado +de que não são de todo desculpaveis? quando... +porque o não direi? quando sinto remorsos de os ter +commettido? É aqui, é perante a boa +fé, +a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que me +considera um homem perfeito, superior, impeccavel. É perante +os generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella +creança―e indicava Angelo com o gesto.―Parece-me que tenho +n'elles juizes inflexiveis, eescondo por isso a minha face politica dos +seus olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo +é já indulgente, mas que receio elles +me não perdoassem.<br /> + +<br /> + +Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta +effusão de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:<br /> + +<br /> + +―Estou a vêr que não esperava estas palavras da +minha bôca; esta confissão de peccador +contricto.<br /> + +<br /> + +―Confesso que não.<br /> + +<br /> + +―Então que quer? Surprehendeu-me aqui como +coração aberto. Já agora +deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual +é? Vê aquella creança que alli +está? Angelo? É uma intelligencia que, de dia +para +dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. +Não +é a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. +Conhecendo-o de perto ha de dar-me razão. Mas o que ha +além d'isso n'elle é um senso profundamente +moral, +raro até em idades menos tenras. Pois bem, quando penso +n'elle por algum tempo, e conjectura que não +serão +poucas as vezes em que o faço?... quando penso n'elle e no +futuro, sobresalto-me. De um lado, seduz-me abrir-lhe a carreira +politica, onde ha grandes triumphos a embriagar as intelligencia se +onde +presinto que a d'elle terá o direito, senão +o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que na atmosphera +d'aquellas regiões não duram muito estas +primitivas canduras da alma, tão adoraveis<span class="pagenum">[203]</span> e consoladoras, quando me +lembro de que Angelo será um dia... o que eu já +hoje sou, um pouco desilludido, um pouco sceptico... com franqueza o +digo, hesito em impellil-o ao redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais +não valeria dizer-lhe: Angelo, vive obscuro e tranquillo +n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a ideal pureza da tua alma e +procura a felicidade nas satisfações +do coração. A lucta da vida pode embriagar-te, +filho, mas não te fará feliz.<br /> + +<br /> + +―Mas não admitte possivel que um homem possa atravessar a +vida politica, sem sacrificar um só artigo do seu primitivo +credo?<br /> + +<br /> + +O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:<br /> + +<br /> + +―É difficil. Se um dia a fôrça +das circumstancias realisasse, como um phenomeno natural, +uma revolução completa nas camadas politicas do +paiz a ponto de trazer á superficie de uma só vez +uma geração nova, impolluta, inspirada de +sentimentos generosos e de sinceras crenças, +então +sim, não bastaria o tempo de uma vida para produzir +n'esses homens reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo +exemplo +e vigilancia, a inquinação que eu receio. Mas +lance esses mesmos homens, um a um, a sós com os seus +principios e com os seus esforços, insulados no meio de uma +camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, +após uma lucta impotente de momentos, ou +se retirará, fiel aos principios, mas desanimado +pela inefficacia da sua intervenção, +ou ficará, cedendo á corrente e deixando-se +penetrar do espirito pouco ideal, que rege as massas. Só um +d'esses caracteres de excepção, que +são +raros na historia do mundo, é que poderia luctar e vencer na +lucta. E a esperar tanto de Angelo não chega o meu affecto +paterno.<br /> + +<br /> + +―Não o fazia tão pessimista, +sr. conselheiro;―disse Henrique―conceda-me que julgue em demasia<span class="pagenum">[204]</span> carregadas as +côres do quadro que me faz. Eu não creio que a +corrupção...<br /> + +<br /> + +―Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, +relaxação, tibieza de fé politica, +indifferentismo... em todo o caso será uma doença +social. Assim abrandada a fôrça da +expressão,nãoponha difficuldades em adoptal-a. +Não se me pode levar a mal o propôl-a, desde que +principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.<br /> + +<br /> + +―Nunca esperei encontral-o tão desilludido. Eu, que me +não tenho ainda assim por demasiado crente, creio que quem +entrar na politica sob a égide de uma +convicção profunda, pode...<br /> + +<br /> + +O conselheiro interrompeu-o.<br /> + +<br /> + +―Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? +É aquella de que nos dá uma eloquente mostra a +historia do aldeão do Danubio. Sair um homem de um canto +retirado da provincia, um pouco montanhez, e escudado só +da sua boa fé, achar-se de repente no meio de um circulo +luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir ahi +aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra; +vêr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder +resalvar as suas crenças d'aquelles sorrisos; sentir o +ridiculo a seu lado, e ousar fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada +passo, as vozes seductoras da moral elegante e facil, que hoje domina, +e +conservar-se fiel á austera e rude moral que lhe falava +entre +o rumorejar das folhas da sua aldeia nas longas horas de vigilia e de +estudo, que lá teve; cair embora, mas cair fiel á +consciencia, como um leal cavalleiro da idade média +caía pela dama de quem trazia a divisa: é uma +especie de lucta, para que não abundam lidadores, e nem +sempre se deve lançar o labéo de traidores aos +que +mentem á sua antiga profissão de fé. A +maioria cede com boas intenções. O perigo +está em chegar a persuadir-se de que as suas +convicções eram sonhos, em perder o<span class="pagenum">[205]</span>amor ás +utopias. Eu confesso que só quando aqui estou é +que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro tempo lhes tive.<br /> + +<br /> + +N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um +dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do +conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de +processos, como o mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e +officio, levava a sua paixão pela arte a ponto de comprar as +demandas dos outros, só por gosto de as tratar; especie +vulgar no Minho, onde uma legislação +especialissima, reguladorada propriedade rural, fomenta estas +disposições no espirito dos camponios, das quaes +os +juizes são as miserandas victimas.<br /> + +<br /> + +Depois de grande exhibição de cortezias, para +a direita e para a esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o +fez sentar ao seu lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e +de amizade.<br /> + +<br /> + +O homem que tão judiciosa +dissertação acabava de fazer sobre a politica +abstracta, sentiu, na presençado recem-chegado que de novo o +abandonava o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle +politica +pratica, sob a feição mais mexeriqueira que ella +pode revestir.<br /> + +<br /> + +Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por +fôrça ou vontade dos representantes.<br /> + +<br /> + +Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das +senhoras, no grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.<br /> + +<br /> + +Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores; +reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve +ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de +Christina.<br /> + +<br /> + +D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco +na conversa, e desviando-lhe o curso,<span class="pagenum">[206]</span> +fizeram-a +cair sobre o assumpto das proximas consoadas.<br /> + +<br /> + +Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o +Tapadas:<br /> + +<br /> + +―Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso +é que eu não transijo. Ninguem é mais +condescendente do que eu, menos no que pode arriscar a vida de muitos e +entre essas as dos que me pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes +dias +deve chegar uma portaria, mandando expressamente cumprir a lei. +Consegui +isso do governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo, +levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, +graças a um preconceito tolo, á má +fé de alguns padres, á frouxidão das +auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se +enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos +d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da +igreja onde a extrema devoção d'este povo +accumula +em certos dias, durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de +fieis. Portanto, com isso não transijo. Hei de acabar com o +abuso.<br /> + +<br /> + +―Pois sim... mas agora na occasião +das eleições... sr. conselheiro, não +sei +se faz bem.<br /> + +<br /> + +―Para compensação trataremos de apressar +o principio das estradas; tambem o pude conseguir.<br /> + +<br /> + +―Inda assim... Receio alguns motins.<br /> + +<br /> + +―Reprimem-se.<br /> + +<br /> + +―O peor é que ha de haver quem lance mão d'essa +arma contra nós.<br /> + +<br /> + +―Quem?<br /> + +<br /> + +―Ora! não falta quem. Basta o missionario, que +já +prégou contra isso.<br /> + +<br /> + +―Não tenho mêdo. Quando muito, algum motimzito +sem +consequencia. Leve-os por bem. E se fôr preciso fale ao +ouvido +d'esse tal missionario...O homem que quer? Provavelmente alguma +abbadia? algum canonicato? É preciso vêr isso.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[207]</span> +―Elle diz que +não quer nada.<br /> + +<br /> + +―Bem sei, todos dizem o mesmo―disse o conselheiro,com a sua +descrença de homem politico.<br /> + +<br /> + +Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto aopinião publica +era, por toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo +não estavade todo limpo do preconceito geral, mas a +sua affeição ao conselheiro obrigava-o a digerir +a +disposição legal, conforme podia.<br /> + +<br /> + +Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:<br /> + +<br /> + +―Vem em má occasião a medida, vem; +é arrojadapara épocas eleitoraes; se houvesse um +chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso não +transijo.<br /> + +<br /> + +Eram dez horas quando se levantou a sessão, e Henrique +voltou +com a tia para Alvapenha.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XIII +</h4> + +<br /> + +Ao outro dia a impaciencia de Angelo não lhe +permittiu longa demora no leito. Tardava-lhe o vêr +todos aquelles sitios, tão seus conhecidos; arvores +que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos, +e quebradas de montes. A custo o puderam +reter para o almoço; resignou-se porém a +não ultrapassar, +até então, os muros da quinta. Logo +porém +que sorveu á pressa o ultimo golo de chá, partiu, +veloz como uma lebre, sem nem sequer dar +ouvidos á enfiada de recommendações de +sua tia +D. Victoria, que teimava em o querer prevenir, com +sócos, gabão e guarda-chuva, de uma hypothetica +mudança de tempo. +<br /> + +<br /> + +Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava +ligada uma recordação e uma saudade; +<span class="pagenum">[208]</span> +mas seguia sempre, como quem não errava ao +acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio +por um intento, que tinha pressa de realisar. +<br /> + +<br /> + +Atravessou grande parte da aldeia, cortejado, +cumprimentado e festejado por quantos encontrava +pelos caminhos, ou ás portas e janellas das casas, +nos campos e nos ribeiros. +<br /> + +<br /> + +Chegou emfim á casa, onde já dissemos morar o +recoveiro Cancella e a sua filha Ermelinda. +<br /> + +<br /> + +Era evidentemente aquelle o termo proposto por +Angelo ao passeio matinal, porque retardou o passo +á medida que se approximava, e parou á porta da +casa. +<br /> + +<br /> + +Achou-a fechada, mas não lhe causou isso +embaraço. +<br /> + +<br /> + +Como quem estava habituado a vencer estes estorvos, +sondou resolutamente o muro do quintal, +construido de pedras soltas, e dispoz-se á escalada. +<br /> + +<br /> + +Com a agilidade e destreza proprias de quem +passou na aldeia os primeiros annos da vida, o irmão +de Magdalena trepou sem vacillar até o alto do +muro, e n'um momento pousou os pés no chão do +quintal. +<br /> + +<br /> + +Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor +com precaução e, com mais +precaução ainda, se +dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era +o logar de recreio do pequeno horto. +<br /> + +<br /> + +Foi motivo d'estas precauções o ter já +avistado, +por entre os troncos e a rama baixa das laranjeiras, +um vulto que se lhe figurou conhecido. +<br /> + +<br /> + +Assim se foi approximando sem que o presentissem +e, occulto por detraz de uma sebe de roseiras +silvestres, poz-se á espreita. +<br /> + +<br /> + +Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal. +<br /> + +<br /> + +Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira +velha, que mezes antes havia sido derrubada, a filha +do Cancella e afilhada da familia Zé P'reira, tinha +todas as faculdades applicadas á +decifração dos +hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto, +<span class="pagenum">[209]</span> +que segurava nas mãos, e lia a meia voz. +De quando em quando interrompia a leitura e, erguendo +a cabeça para o céo, parecia repetir o que +lera, como se pretendesse decoral-o. +<br /> + +<br /> + +Angelo applicou mais o ouvido, a vêr se alguma +das palavras, que ella declamava, lhe revelava a +natureza do manuscripto. +<br /> + +<br /> + +De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais +audivel e elle escutou a seguinte quadra: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +―Que lamentavel tragedia,<br /> + +Que os meus olhos tristes viram!<br /> + +E publicam minhas vozes<br /> + +Aquelles que não ouviram! +<br /> + +<br /> + +E principalmente o rei,<br /> + +Que se chama o rei tyranno,<br /> + +N'esta região remota<br /> + +Do Egypto dilatado. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabeça +e repetiu: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +―Que lamentavel tragedia<br /> + +Que meus olhos tristes viram... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, +e com precaução, veio collocar-se por detraz +d'ella, sem que fôsse presentido ainda. +<br /> + +<br /> + +Tão perto chegou, que, por cima do hombro de +Ermelinda podia já ler as quadras que ella estava +decorando: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +―Tenho mil linguas, mil bôcas... +</div> + +<br /> + +<br /> + +ia Ermelinda continuar a ler, quando uma +respiração +mais profunda de Angelo a fez desviar a cabeça. +<br /> + +<br /> + +Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de +sobresalto; depois sorriu e instinctivamente procurou +esconder no bolso do avental o papel que lia. +<br /> + +<br /> + +Angelo segurou-lhe a mão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +―Que estavas a ler, Linda? +<br /> + +<br /> + +―Não é nada... +<br /> + +<br /> + +―Deixa vêr. +<br /> + +<br /> + +―Não deixo. +<br /> + +<br /> + +―Por que não deixas? +<br /> + +<br /> + +―Para não ser curioso. Que modos são esses de +andar a escutar a gente? +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, sim; mas deixa-me vêr os versos. +<br /> + +<br /> + +―Não são versos. Quem lhe disse que eram versos? +<br /> + +<br /> + +―Pois não ouvi? Que era isso de tyranno e de +Egypto, que dizias? +<br /> + +<br /> + +―Que ha de ser?―disse a final +Ermelinda, dando-lhe +o papel.―São os versos do auto dos Reis. +Sabe agora? +<br /> + +<br /> + +―Do auto dos Reis? Ai, sim; está a chegar o +dia! Mas que tens tu com o auto dos Reis? +<br /> + +<br /> + +―É que este anno meu pae quer que eu seja a +Fama. +<br /> + +<br /> + +―Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E já +sabes os versos? +<br /> + +<br /> + +―Estava a decoral-os. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +―Tenho mil linguas, mil bôcas... +</div> + +<br /> + +<br /> + +dizia Angelo, lendo no principio.―O que é pena é +pôr +uma chochice d'estas na bôca de uma Fama como tu. +<br /> + +<br /> + +―Que está a dizer? Então os versos +não são bonitos? +<br /> + +<br /> + +―Oh! pois não são!―exclamou Angelo, +gracejando.―São +uma perfeição! +<br /> + +<br /> + +E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os +com accentuação e emphase comicamente +exaggeradas. +<br /> + +<br /> + +―Ora ouve lá: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Sabei que aquelle Herodes,<br /> + +Lobo cruel carniceiro,<br /> + +Tremendo de inveja pura<br /> + +Lhe venham tirar o reino... +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[211]</span> +―Então que ha que dizer a isto? +<br /> + +<br /> + +E proseguiu: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Feria raios de fogo<br /> + +De seus olhos com mudança;<br /> + +E só pretende fazer<br /> + +Alvo da sua vingança. +</div> + +<br /> + +<br /> + +―Isto é claro e sublime! +<br /> + +<br /> + +―Lendo assim, pudéra!―disse Ermelinda, rindo. +<br /> + +<br /> + +É preciso que advirta o leitor que estas quadras +e auto, a que nos estamos referindo, não são obra +da nossa imaginação. Por ahi corre manuscripto o +auto, mais ou menos extravagantemente orthographado, +segundo o systema ou o capricho do copista. +Em quasi todas as aldeias dos arredores do +Porto podem vêr em cada anno representado este +ou outro analogo, com applauso e gloria da arte. +Ás mãos nos veio uma d'essas cópias, +á qual, menos +na orthographia, escrupulosamente nos cingimos. +<br /> + +<br /> + +Angelo era talvez em demasia severo na apreciação +critica sobre o merecimento litterario da obra, +ao chamar-lhe uma chochice. É raro que a musa +popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma +inspiração. N'este mesmo auto, se encontram +vestigios +d'ella. Mas não é nossa missão +apreciar as +opiniões dos actores que pomos em scena; tão +sómente +as registamos, sem nos responsabilisarmos +por nenhuma. +<br /> + +<br /> + +Angelo redarguiu á reflexão de Ermelinda: +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; para que não digas que é da maneira +de ler, que elles parecem chôchos, repara; +vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora escuta.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Que quantos até dois annos<br /> + +Em Belem fôssem nascidos,<br /> + +E toda a sua comarca<br /> + +Matassem a ferro frio +</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +<div class="poetry3 tinyl">Sem +excepção a pessoa<br /> + +Que nos districtos se achasse,<br /> + +Entendendo d'esta sorte<br /> + +Que nós lhe não escapassemos. +</div> + +<br /> + +<br /> + +―Olhem que semsaboria! +<br /> + +<br /> + +Esta divisão administrativa e judicial, em districtos +e comarcas, que o auctor fez na Judéa e que +tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas liberdades +shakspeareanas, que se devem perdoar +aos genios. +<br /> + +<br /> + +―E não foi assim?―perguntou Ermelinda, que +não percebia ainda o motivo dos reparos de Angelo.―Pois +Herodes mandou matar todas as creanças +da Judéa; então não mandou? +<br /> + +<br /> + +―Mandou, mandou; mas a Fama é que devia +contar isso melhor. +<br /> + +<br /> + +―Melhor?! Então não é bonito esse +verso? +<br /> + +<br /> + +E Ermelinda, tirando o manuscripto das mãos de +Angelo, leu a seguinte quadra: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Para livrarem seus filhos<br /> + +Da morte dos innocentes,<br /> + +Dos braços faziam cruzes<br /> + +Aquellas mães impacientes. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam +a belleza, talvez um pouco rude, do tocante +quadro, que estes versos exprimem. +<br /> + +<br /> + +Esta pequena contenda litteraria entre duas creanças +podia dar margem a profundas reflexões a +quem para ellas estivesse disposto. +<br /> + +<br /> + +Angelo estava no principio de uma educação +esmerada. +Principiára já a desenvolver-se n'elle a +intelligencia, +e a acordar os instinctos artisticos que estremeciam +já sob as primeiras seducções da +fórma. +N'estas épocas criticas, em que esses segredos se +revelam, é tal o encanto em que elles nos trazem +que exclusivamente nos votamos ao novo culto, +com a fanatica intolerancia. Onde as louçanias do +estylo, os primores e a sonora harmonia do metro, +<span class="pagenum">[213]</span> +e o brilhantismo das imagens nos não afagam os +sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos +assim na sombra muita belleza real, ás vezes occulta +sob a grosseira revestidura da poesia ou narrativa +popular. +<br /> + +<br /> + +É necessario que passe o enthusiasmo, a violencia +da paixão nascente, que venha a frieza de animo +necessaria á imparcialidade do juizo, para que nos +não cause repulsão a aspereza, e grosseria +até, da +fórma e consigamos apreciar o bello que por ventura +n'ella se envolva. +<br /> + +<br /> + +Dá-se com a belleza da ideia e da fórma de +qualquer +obra litteraria, o que se dá com a belleza moral +e a belleza physica de uma mulher. +<br /> + +<br /> + +Ambas são feitas para nos commoverem e dominarem. +Mas, quando o assomar de um sentir novo +começa a alvoroçar o sangue do adolescente, +quando +fórmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe +os sonhos de suas noites febris, a paixão da +fórma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma +modelação +perfeita, um delineamento gracioso poderá +decidir da sua vida inteira, e na fascinação que +o +cega, nunca verá a formosura da alma, que se abriga +n'uma pouco feliz encarnação. É que +para apreciar +a belleza moral, para a vêr transparecer, através +do +involucro exterior é preciso deixar passar a vertigem +dos primeiros momentos, ou não a ter ainda +experimentado. +<br /> + +<br /> + +Por isso na infancia e nas idades viris é que +melhor se apreciam essas fealdades, que escondem +um coração angelico. A adolescencia é +impiamente +cruel para com ellas. +<br /> + +<br /> + +Por uma lei analoga é o povo, o simile da +creança, +porque não tem os sentidos educados para as +mais subtis bellezas da fórma, e é o homem a quem +ella já não fascina, embora ainda e sempre o +deleite, +como poderosissimo elemento de belleza litteraria,―são +estes os leitores que mais aptos estão +para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre +<span class="pagenum">[214]</span> +muitos desvarios, tem a humilde musa que visita +a cabana do lavrador ou a officina do artista. +<br /> + +<br /> + +Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo não perdoou +ao auto. +<br /> + +<br /> + +―Sabes que mais? Não decores isso―disse-lhe +elle resolutamente. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae quer. +<br /> + +<br /> + +―O que é que quer teu pae? +<br /> + +<br /> + +―Quer que eu entre no auto. +<br /> + +<br /> + +―E has de entrar. Quem te diz que não? +<br /> + +<br /> + +―E quer que seja a Fama. +<br /> + +<br /> + +―E has de ser a Fama. +<br /> + +<br /> + +―E não hei de falar? +<br /> + +<br /> + +―Has de falar. Tinha que vêr uma Fama que +não falasse. Para que lhe serviriam as cem bôcas? +<br /> + +<br /> + +―Então? +<br /> + +<br /> + +―Então; é que não é +forçoso que digas o que +ahi está. +<br /> + +<br /> + +―E que hei de eu dizer? +<br /> + +<br /> + +―Outra coisa. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir +comprehendel-o. +<br /> + +<br /> + +―Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente. +<br /> + +<br /> + +―Olha, proseguiu Angelo.―D'aqui até chegar +o dia do auto vae muito tempo. Eu te darei outros +versos para estudares, em logar d'esses. +<br /> + +<br /> + +―E onde os tem? +<br /> + +<br /> + +―Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta +que no dia recites, em vez d'esses, os que eu te +der!... +<br /> + +<br /> + +―Mas que dirá meu pae e o sr. Pertunhas? +<br /> + +<br /> + +―O mestre de latim? Pois que tem elle com o +auto? +<br /> + +<br /> + +―É quem ensina como a gente ha de dizer. +<br /> + +<br /> + +―Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda +para a occasião os versos que eu te arranjar. Até +ha de ter graça vêr a cara com que elles +ficarão +todos, quando lhes sair uma coisa bem differente +do que esperam. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[215]</span> +―Mas... diga: onde é que vae buscar esses +versos? +<br /> + +<br /> + +―Não sairei da aldeia para isso. N'uma visita +que d'aqui vou fazer, conto obtel-os. Agora falemos +de outra coisa. Que é de teu pae? +<br /> + +<br /> + +―Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, +d'alli defronte, está para a igreja e meu padrinho +nas hortas. E eu vou tratar do jantar de +meu pae. +<br /> + +<br /> + +―Pois vae, que eu faço-te companhia. +<br /> + +<br /> + +E Angelo seguiu-a á cozinha, e ahi, ella sentada +na soleira da porta a escolher hortaliça, elle a dar +de comer aos coelhos e ás gallinhas, se entretiveram +a conversar. +<br /> + +<br /> + +Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe +enredos de dramas que o tinham commovido; +typos e situações de romances, que se lhe haviam +gravado na memoria; invenções da arte moderna, +versos, anecdotas, contos. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o. +<br /> + +<br /> + +Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, +para sair. +<br /> + +<br /> + +―Onde é que vae? +<br /> + +<br /> + +―Vou visitar Augusto, que deve estar agora em +casa. +<br /> + +<br /> + +―E ainda o não viu? +<br /> + +<br /> + +―Ainda não. A minha primeira visita foi esta. +<br /> + +<br /> + +―Então vá, que elle deve estar morto por o +vêr. +Ah!... já sei a pessoa a quem vae pedir os versos! +<br /> + +<br /> + +―Quem te disse que Augusto os fazia? +<br /> + +<br /> + +―Eu vi-o estar a escrever na parede da capella +da Senhora da Saude de uma vez que eu ia levar +o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar +para aquelles sitios. +<br /> + +<br /> + +―E leste-os? +<br /> + +<br /> + +―Não, que não quiz que elle me visse. Mas que +havia elle de escrever na capella? Então não +adivinhei? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[216]</span> +―Não sei. Adeus. +<br /> + +<br /> + +―Diga. +<br /> + +<br /> + +―E chamavas-me curioso! +<br /> + +<br /> + +E Angelo saiu apressadamente. +<br /> + +<br /> + +Momentos depois estava com Augusto. +<br /> + +<br /> + +A conversa entre ambos teve toda a intimidade +da de dois affectuosos amigos. +<br /> + +<br /> + +Angelo fez a narração dos episodios da sua vida +de collegio; das difficuldades e das bellezas dos +seus estudos n'aquelle anno. Augusto, que da aldeia +com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o +sobre algumas dúvidas que tinha, e esclarecia ás +vezes tambem, graças á sua poderosa +penetração +e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia +deixado no espirito do seu antigo discipulo. +<br /> + +<br /> + +A geographia e a historia, que eram as disciplinas +estudadas n'aquelle anno por Angelo, deram +assumpto a grande parte d'este dialogo. +<br /> + +<br /> + +Augusto inclinára-se aos estudos historicos, +inclinação +em que o herbanario o entretinha com frequentes +presentes de livros d'aquelle genero. +<br /> + +<br /> + +Em exame de livros novos, referencias a outros +lidos, e leituras de alguns mais apreciados, passaram +os dois grande parte da manhã, até que por +fim Angelo disse a Augusto: +<br /> + +<br /> + +―Ah! é verdade! Tenho um favor a pedir-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Qual é? +<br /> + +<br /> + +―Sabe que está para breve o dia dos Reis? +<br /> + +<br /> + +―Sim. +<br /> + +<br /> + +―E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; +aquelle auto em que o Herodes faz tremer +meio mundo? +<br /> + +<br /> + +―Bem sei―respondeu Augusto, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. +Fama bonita, por certo; mas se soubesse os versos +que lhe deram para recitar! +<br /> + +<br /> + +E Angelo reproduziu, como pôde, as quadras do +monologo da Fama no auto dos Reis. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[217]</span> +De quando em quando passava um sorriso pelos +labios de Augusto. +<br /> + +<br /> + +―Eu já conhecia isso. É o costume―disse elle +no fim. +<br /> + +<br /> + +―Mas não lhe parece que de uma Fama como +aquella, se devia esperar melhor do que isto? +<br /> + +<br /> + +―E então que quer que eu lhe faça? +<br /> + +<br /> + +―Outros versos para o logar d'estes. +<br /> + +<br /> + +―Outros!... Eu?...―perguntou Augusto. +<br /> + +<br /> + +―Por que não? +<br /> + +<br /> + +―Que lembrança! +<br /> + +<br /> + +―Não me venha negar que os faz. +<br /> + +<br /> + +―Versos? +<br /> + +<br /> + +―Sim. +<br /> + +<br /> + +―Quer dizer que os leio. +<br /> + +<br /> + +―E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em +recusar, diga-me então quem é que os escreveu na +parede da capella da Senhora da Saude, para eu +me dirigir a elle. +<br /> + +<br /> + +―Então houve quem escrevesse versos na parede +da capella?―perguntou Augusto, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Não que eu visse; mas já duas pessoas m'o +affirmaram, e as suspeitas de ambas recaíram no +mesmo homem. +<br /> + +<br /> + +―Quem foram essas pessoas? +<br /> + +<br /> + +―De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda. +<br /> + +<br /> + +―Ah! +<br /> + +<br /> + +―A outra foi Lena. +<br /> + +<br /> + +―Le... A sr.<sup>a</sup> D. Magdalena? +<br /> + +<br /> + +―É verdade, minha irmã. E estranhou, com +razão, +que eu o não soubesse. +<br /> + +<br /> + +―E como o soube ella? +<br /> + +<br /> + +―Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor. +<br /> + +<br /> + +Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, +que todo o preoccupava. +<br /> + +<br /> + +Angelo continuou falando, sem que fôsse escutado; +a final concluiu, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Então quer falar ao poeta da Ermida para que +me dê o que lhe peço? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[218]</span> +―Poesia não lhe pode elle dar, agora se... alguns +versos o satisfazem... +<br /> + +<br /> + +―Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu +a procurarei n'elles, até a achar. Desde já lh'os +agradeço. +<br /> + +<br /> + +―A elle? +<br /> + +<br /> + +―A ambos―respondeu Angelo, rindo.―E +agora diga-me, Augusto: Ainda está resolvido a +viver aqui sempre enterrado? Não pensa em mudar +de vida? +<br /> + +<br /> + +―Nenhuma outra me namora mais; o destino +que a bondade da morgada me offerecia... não +tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso +do crepe. +<br /> + +<br /> + +―Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas +o Augusto não terá amigos que ajudem a +seguir +outros destinos menos obscuros do que este e menos +pesados do que o que o legado lhe impunha? +Meu pae já ... +<br /> + +<br /> + +―Que quer? Não me posso vencer até pedir ou +acceitar de outrem auxilios, quando Deus m'os não +tem recusado ainda; nem sei até se esses destinos, +que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. +Ha indoles que nasceram affeiçoadas para a obscuridade. +Incommoda-as a demasiada luz. Umas +plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi +em qualquer canto escuso e obscuro, e lá mesmo +dão flôr. Porque é isto não +sei, +mas... +<br /> + +<br /> + +―Sei eu―disse uma voz da parte de fóra da +janella, junto da qual se passára o dialogo... +<br /> + +<br /> + +Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario +desenhava-se no vão da janella, como um +retrato de velho n'um caixilho de galeria. +<br /> + +<br /> + +―Ah! o tio Vicente!―exclamou Angelo, correndo-lhe +ao encontro. +<br /> + +<br /> + +O herbanario encostou-se, ainda de fóra, ao peitoril +da janella, ficando assim com meio corpo para +dentro da sala. +<br /> + +<br /> + +―Viva o nosso doutor―disse elle, sorrindo, a +<span class="pagenum">[219]</span> +Angelo.―Por emquanto ainda +esse coraçãozito +está como era. Não esqueceu os seus amigos da +aldeia. +<br /> + +<br /> + +―Está como sempre estará―respondeu Angelo. +<br /> + +<br /> + +―Sempre!―repetiu o velho.―Sempre e nunca +são duas palavras de terrivel +significação... Mas +emfim... de bom metal é o coração, +assim o não +enferrugem os ares da cidade, como ao de... +como ao de tantos... +<br /> + +<br /> + +E mudando subitamente de tom, disse para Augusto: +<br /> + +<br /> + +―Com que dizias tu que não sabes porque algumas +plantas vivem de pouca luz e de pouco ar, ahi +em qualquer buraco do muro? É porque vivem +muito pelas raizes essas. As plantas vivem do ar +pelas folhas e vivem da terra pelas raizes. Lá diz +aquelle livro da <em>Historia Natural</em> +que eu tenho. +Umas prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, +de se abrirem muito ao ar para poderem viver; outras +porém, profundam tanto a terra, com tantas raizes se +seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e não +desdobram muitas folhas, nem crescem em grandes +ramos para o ar. Como umas e como outras +ha homens no mundo. Tu és dos que deixam ganhar +raizes ao coração e d'ellas vivem. Que te importa +o mais? essas grandezas que os outros procuram? +Mas é preciso cautela, rapaz! Ha +corações +como a hera, que onde quer que se encosta, prende-se +com raizes. Quem é assim deve dirigir com +prudencia as suas inclinações. Se para mau lado +dobra, se se encosta a arvore de preço... mal +d'elle! que o separarão com fôrça, +fazendo-lhe estalar +todas as raizes, que o prendiam. +<br /> + +<br /> + +As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas +pelo herbanario, parecia terem um sentido para Augusto, +que visivelmente se perturbou ao ouvil-as. +<br /> + +<br /> + +―Que está ahi a dizer, tio Vicente!―disse Augusto, +sem ousar fitar o velho. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[220]</span> +―Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que +os annos dão, vê longe e fundo, rapaz... +É verdade +que... ás vezes... o arrojo dos mocos é tambem +guia feliz... Anda lá com a tua estrella, anda. Ao +que já vejo, não sei se te possa chamar louco... +como ao principio não duvidei fazel-o. +É certo que +é pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus +castellos. +<br /> + +<br /> + +―Os meus castellos! Que castellos faço eu? +<br /> + +<br /> + +―Não hei de ser eu que t'os mostre... Só te +quero avisar que não ponhas grande fé +em sonhos... +Lembras-te do que se passou no monte +da ermida? +<br /> + +<br /> + +―No monte da ermida? +<br /> + +<br /> + +―Não viste por lá no outro dia uns signaes de +trovoada? A inconstancia é sempre de receiar. O +que n'aquella manhã se passou, o que então vi... +<br /> + +<br /> + +―Que viu?... Que se passou? +<br /> + +<br /> + +O herbanario demorou por algum tempo o olhar +em Augusto e com tal expressão, que o obrigou a +desviar o seu; depois accrescentou: +<br /> + +<br /> + +―Nada; o que todos os dias acontece. O céo +azul fez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras, +os raios do sol tornaram-se torrentes de chuva. Pois +não te lembras?... E tudo devido a uma mudança... +de vento... a uns ares que vinham do sul... +<br /> + +<br /> + +Augusto não entendia ou fingia não entender estes +mysteriosos dizeres do herbanario. Angelo estava +distrahido devéras. +<br /> + +<br /> + +O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha? +<br /> + +<br /> + +―Esteve lá hontem. +<br /> + +<br /> + +―É amigo das creanças? +<br /> + +<br /> + +―Parece-o. +<br /> + +<br /> + +―Conta muitas historias ás senhoras? +<br /> + +<br /> + +―Entretem-as bastante. +<br /> + +<br /> + +―E ao... e a teu pae? Ouve-o com attenção? +<br /> + +<br /> + +―Conversaram muito toda a noite. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[221]</span> +O herbanario parecia ligar grande valor a estas +perguntas, porque a cada resposta obtida, abanava +pausadamente a cabeça com certo ar meditativo. +<br /> + +<br /> + +Augusto relanceava tambem para a fronte, meio +contrahida, do velho um olhar entre curioso e timido. +<br /> + +<br /> + +O herbanario proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Emfim... A desconfiança é um achaque +de +velhice e nem sempre os mais felizes são os mais +acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem +ainda a graça da sua protecção. +<br /> + +<br /> + +―O tio Vicente desconfia do primo Henrique? +perguntou Angelo, rindo. +<br /> + +<br /> + +―Primo?!―repetiu o velho, admirado. +<br /> + +<br /> + +―Primo lhe chamamos nós, porque a tia Victoria +teima que, sendo elle sobrinho da tia Dorothéa, +é nosso primo tambem. +<br /> + +<br /> + +―Ah? Já ahi vamos? E Lena?... +<br /> + +<br /> + +―Lena, Christe, todos lhe chamam por lá assim. +<br /> + +<br /> + +O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras +inintelligiveis, terminando por estas: +<br /> + +<br /> + +―E, como no Egypto, é o vento sul que traz a +praga dos gafanhotos. Mas Deus que vele, Deus que +vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda +d'aqui aos pardieiros de Cernuche. +<br /> + +<br /> + +―Á caça dos sapos, tio Vicente?―perguntou +Angelo, gracejando. +<br /> + +<br /> + +―Não, que não é agora o +tempo―respondeu, +sisudo, o velho. +<br /> + +<br /> + +―Dos sapos! Galante caça, na verdade!―continuou +Angelo no mesmo tom. +<br /> + +<br /> + +―Galante não será ella, pequeno,―respondeu o +velho;―mas abençoada a chamarias se te torcesses +no leito com as dores do carbunculo, que não +ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle +d'estes animaes sêcca ao ar livre. +<br /> + +<br /> + +―E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caça +toupeiras? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> +―Em seu tempo. Oh! a toupeira é animal de +abençoadas virtudes! Basta que um dente que se +lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoço, +cura a mais desesperada dor de dentes. +<br /> + +<br /> + +―Não deve ser facil operação a de +tirar os dentes +ás toupeiras―tornou Angelo. +<br /> + +<br /> + +O herbanario continuou: +<br /> + +<br /> + +―A quinta essencia das toupeiras é milagrosa +contra cancros e herpes. +<br /> + +<br /> + +―A quinta essencia das toupeiras!―repetiu Angelo, +rindo. +<br /> + +<br /> + +―Não rias, creança―acudiu severamente o +herbanario.―Que +não é bonito rir do que os homens +doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que +o li n'aquelle grande livro da +<em>Polyantheia</em>, livro +como se não faz hoje outro. +<br /> + +<br /> + +―E como é que se tira a quinta essencia a uma +toupeira, tio Vicente? +<br /> + +<br /> + +―Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as +fazer em cinzas. Mistura-se a estas cinzas o sumo +de celidonia maior, até haver quatro dedos de sumo +acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, +que se enterra por dez dias e... e... Bem, +bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo e paciencia +com creanças. +<br /> + +<br /> + +―Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... +Então depois de enterrar tudo isso, que se +faz? +<br /> + +<br /> + +―Até logo... Pede a Deus que nunca te seja +preciso fazer a pergunta com menos vontade de +rir. +<br /> + +<br /> + +―E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, +tio Vicente, eu padeço ás vezes de um somno +tão +pesado que me não deixa estudar. +<br /> + +<br /> + +O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, +respondeu: +<br /> + +<br /> + +―E julgas que não sei de remedio para isso? +Experimenta e verás. Mette um ou dois morcegos +debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... +<span class="pagenum">[223]</span> +Mas adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche +é uma legua. +<br /> + +<br /> + +E o herbanario retirou-se, meio agastado com o +scepticismo de Angelo e sobraçando a caixa de lata +e o sacco dos seus thesouros medicinaes. +<br /> + +<br /> + +Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das +singularidades do velho, riso em que não entrava, +porém, o menor laivo de malignidade; porque ambos +tinham pelo velho uma verdadeira estima, que +elle bem lhes merecia, pois sempre do coração o +achavam votado a seu favor. +<br /> + +<br /> + +O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se +ainda, até ás horas do jantar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XIV +</h4> + +<br /> + +Eu não sei se esta historia terá leitor +tão mal +aventurado, que não possua recordações +e saudades +associadas á noite de Natal, áquella festiva e +abençoada +noite, em que as ruas e os logares publicos +se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar +e scintillar o fogo mais acalentador do que +nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que +não saiba o que é a festa das consoadas em +familia, +esse que não leia este capitulo, que n'elle não +encontrará +prazer. Se alguns as gosaram já n'outros +tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas +solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz +que rompe das frestas de tantas janellas discretamente +fechadas, ouvindo commovidos o ruido das +alegrias que vão no seio das familias, e pela phant +Eu não sei se esta historia terá leitor +tão mal +aventurado, que não possua recordações +e saudades +associadas á noite de Natal, áquella festiva e +abençoada +noite, em que as ruas e os logares publicos +se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar +e scintillar o fogo mais acalentador do que +nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que +não saiba o que é a festa das consoadas em +familia, +esse que não leia este capitulo, que n'elle não +encontrará +prazer. Se alguns as gosaram já n'outros +tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas +solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz +que rompe das frestas de tantas janellas discretamente +fechadas, ouvindo commovidos o ruido das +alegrias que vão no seio das familias, e pela phantasia +creando em cada morada um mundo intimo +de affectos e de venturas, como o de que a sorte os +privou, que esses me perdoem as amargas saudades, +que por ventura lhes avive assim. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> +É certo que não ha noite mais alegre; alegre +d'esta alegria que vae direita ao coração, sem +perturbar +os sentidos com fumos de embriaguez; alegre +d'esta alegria candida a que o homem é sujeito do +berço á velhice, a qual respeitam os estos das +paixões, +na idade d'ellas, e o gêlo do egoismo, no declinar +da vida. +<br /> + +<br /> + +Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas +tu sempre, noite de vinte e quatro de dezembro, +que melhor então se avaliará pelo contraste a +luz, +o calor, o conchêgo dos lares, e mais intimos se +estreitarão os circulos da familia em roda da ceia +patriarchal. +<br /> + +<br /> + +E vós todos, a quem uma moda tôla não +constrangeu +ainda a abandonar os habitos que de pequenos +contrahistes, e festejaes ainda o Natal de +Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter +genuinos esses costumes nacionaes, que não +resultará +d'ahi desdouro para o vosso nome ou brazão. +A roda da civilisação, a que applicaes hombros +com +tanto denodo, não se cravará por isso.―Podeis, +elegantes meninas, cantar lôas sem escrupulo deante +do presepe armado na sala mais intima da casa, +que nem por isso cantareis peor na das visitas as +arias italianas, que aprendestes no collegio; não +córeis de collaborar, por excepção, +esta noite nos +mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia +e perfumes tendes no toucador para as abluções +purificatorias. Homens graves, a republica perdoar-vos-ha +uma pequena infidelidade, a politica do paiz +e da Europa não periclitará desnorteada se, por +um +pouco, lhe negardes a vossa attenção; +humanisae-vos +pois uma vez por anno, e baixae ao seio da +familia os olhares, que ponderosos empenhos vos +trazem sublimados.―Entrae com as creanças em +jogos pueris e faceis, que não destemperareis a +intelligencia +para as philosophicas cogitações do +<em>boston</em> +e do <em>whist</em>. +<br /> + +<br /> + +A familia do Mosteiro era fiel ás classicas +usanças +<span class="pagenum">[225]</span> +d'esta noite tradicional. E n'aquelle anno sobretudo +as festas das consoadas deviam ser coisa falada, +graças ao plano de D. Victoria de reunir no +Mosteiro a resumida familia de Alvapenha; plano +que vimos approvado por acclamação por toda a +assembleia presente. +<br /> + +<br /> + +D. Dorothéa veio effectivamente na companhia de +Henrique de Souzellas e de Maria de Jesus. +<br /> + +<br /> + +Foram recebidos no Mosteiro por uma completa +ovação das creanças. +<br /> + +<br /> + +D. Dorothéa viu-se litteralmente enlaçada em +braços +infantis, que lhe tolhiam os movimentos e que, +dizia ella, quasi ameaçavam asphyxial-a. +<br /> + +<br /> + +Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que +inauguraram um estado de coisas, o qual nunca +mais devia cessar aquella noite. +<br /> + +<br /> + +A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro +é indescriptivel. Na cozinha, nas salas, nos corredores +tudo era movimento e ruido. +<br /> + +<br /> + +Aqui eram as creanças jogando, a pinhões, o +«par +ou pernão» e o «rapa», jogos +popularissimos e de +occasião, que, de tão conhecidos, dispensam o +trabalho +de descrevel-os. Estes jogos, como é de prever, +não se executavam sem um concurso de vozearia +e de algazarra, que desafiava a impaciencia de +D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que +se passava na sala, ralhar com os criados á cozinha. +<br /> + +<br /> + +No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, +armára-se o presepe, deante do qual ardiam seis +vélas de cêra em castiçaes de prata +maciça. +<br /> + +<br /> + +As duas velhas senhoras, D. Dorothéa e D. Victoria, +encetaram logo no principio da noite uma +longa e devota reza, meio recitada, meio cantada, a +qual se continuava com uma interminavel enfiada +de Padre-Nossos e Avé-Marias, a que respondia, em +côro, a parte feminina, da familia, as creanças e +as +criadas. +<br /> + +<br /> + +Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em +<span class="pagenum">[226]</span> +voz trémula e quebrada pela idade, entoava em singela +cantilena coplas como esta: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Ó infante suavissimo,<br /> + +Vinde, vinde já ao mundo<br /> + +Livrar-nos do captiveiro<br /> + +D'este jazigo profundo. +</div> + +<br /> + +<br /> + +E seguia-se um Padre-Nosso e uma Avé-Maria. +<br /> + +<br /> + +Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, +desordenado um pouco o andamento regular +das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico expediente +de o expulsar do congresso, e tudo serenou. +<br /> + +<br /> + +Á sala, onde Henrique de Souzellas conversava +com o conselheiro em assumptos, todos d'esta vez +longe da politica, chegaram as surdas harmonias +d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade +de saber o que era aquillo. O conselheiro, +sorrindo, convidou-o a seguil-o para por si proprio +se poder informar. +<br /> + +<br /> + +E, tomando por aposentos interiores, conseguiram +ambos introducção na sala da novena justamente +ao lado de D. Victoria e de D. Dorothéa, que, de +embebidas que estavam nas suas orações, nem por +elles deram. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente +ao lado d'aquellas boas senhoras, e quando após +um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorothéa, se +devia seguir a resposta do côro feminino, este emmudecido, +com a chegada dos dois, a qual desafiára +risos a custo suffocados, foi substituido por um +dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, +e escandalisaram depois ambas as sisudas +senhoras. +<br /> + +<br /> + +O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as +creanças; D. Victoria teve muito que fazer, muito +que reprehender o cunhado, muito que ralhar com +os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com +D. Dorothéa, muito que recriminar os criados, rindo-se, +bem a seu pesar, no meio de todas estas tarefas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[227]</span> +Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. +Os desordeiros sómente capitularam, consentindo +em retirar-se, quando lhes prometteram +que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique +voltou com o conselheiro a admirar o primor +que a paciencia de um artista imaginoso realisára +na confecção do presepe, onde estavam +representados +todos os episodios da natividade de Jesus, e +muitos outros. +<br /> + +<br /> + +Era effectivamente uma complicada machina +aquelle presepe, e seria prova de profunda indifferença +artistica passar por elle sem um exame, embora +fugaz. +<br /> + +<br /> + +Este traste antiquissimo na familia gosava de +nomeada n'um circulo de leguas em redor. Havia +empenhos para o vêr no tempo do Natal, e se algum +viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava +sempre quem lhe recommendasse o visitar o presepe, +como coisa digna de vêr-se. +<br /> + +<br /> + +Consistia elle n'uma espécie de santuario de pau +preto, no meio do qual havia uma pequena gruta +toda cravejada de caramujos, e rosas de papel, com +estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava +deitado o menino Deus, não sobre umas palhas, +como a tradição refere, mas graças aos +impulsos +do compadecido coração de D. Victoria, que, +ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos +antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama +de lençoes de renda com cercadura dourada; colcha +de setim bordado, e colchão e travesseiro da mais +macia penugem de aves americanas. Ao lado, +Nossa Senhora e S. José, de proporções +quasi +iguaes ás do menino; mais longe a vacca e a mula +tradicionaes. Os episodios porém eram inquestionavelmente +o mais interessante da obra. Varios +grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos +os tamanhos, feitios e vestuarios, ornavam a scena. +Alli um cego tocador de sanfona; um grupo de +gallegos dançando, ao som da gaita de folle; uma +<span class="pagenum">[228]</span> +pastora com ovos mais adeante; ao lado, um grupo +celebrando um <em>pic-nic</em>, perfeita +actualidade, tudo +em mangas de camisa, com gravata, e botas de +cano;―outros fumando e bebendo cerveja. Uma +amazona ingleza, com o seu Jockey, galopava pelas +cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira +caminhavam a par com offertas para o menino. Ao +longe, nos visos da serra, appareciam os tres +Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar +abaixo. +<br /> + +<br /> + +Não esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento +esculptural os muros de Jerusalem. Elles +lá estavam coroados de ameias e de milicianos fardados +á ingleza e armados de lanças e arcabuz. +Eram gigantes aquelles guerreiros, pois, não obstante +estar a muralha no plano do fundo do quadro, +qualquer d'elles era duas vezes maior do que as +figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se +a bandeira portugueza. Havia varios santos +espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, +e, entre os additamentos feitos pela devoção +de D. Victoria ao presepe, contava-se o de um Santo +Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, +parecia muito admirado de se vêr n'aquelle +tempo e logar. Um gallo colossal soltava do telhado +do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins +espreitavam do céo por entre nuvens de algodão e +estrellas de ouropel. Era um prodigio! +<br /> + +<br /> + +Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, +sentia eu vivo orgulho de ter revelado ao +mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime +admiração faria cêdo ou tarde +justiça; tive +porém de abandonar esta lisonjeira idéa, ao +achar-me +precedido por um dos romancistas mais justificadamente +populares da nação vizinha. Das paginas +de um delicioso quadro de costumes de Fernan +Caballero, a eminente escriptora de que a Andaluzia +se ufana, conheci eu serem não sómente nacionaes, +mas peninsulares pelo menos, estes modelos +<span class="pagenum">[229]</span> +de presepes, com os seus ingenuos anachronismos, +cunho irrecusavel que o povo imprime a todas +as suas obras de arte. Onde falta o anachronismo, +falta a assignatura do povo. +<br /> + +<br /> + +Em todo o caso era digno da menção que d'elle +fizemos o presepe do Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam +por miudo, D. Victoria fizera desfilar o cortejo +das criadas para a cozinha, onde urgia o serviço, +e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram +as peores criadas do mundo, por isso que, tendo +tanto que fazer, perdiam tempo a cantar lôas deante +do presepe. D. Dorothéa cêdo tomou com Magdalena +e Christina o mesmo caminho. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com +os pequenos, e com elles entraram em jogos, como +se fôssem creanças tambem. +<br /> + +<br /> + +O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o +homem grave e sério das salas de Lisboa perdera +todo o ar diplomatico: agora era sómente o homem +da familia; pueril, travesso, alegre, folgazão. +<br /> + +<br /> + +―Meu caro,―dissera elle a Henrique no principio +da noite―vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve +ser banido o menor assumpto politico, a menor discussão +séria. Deixe-se correr frivola a conversa da +noite, o contrario seria uma profanação, que +attrahiria +sobre nossas cabeças as justas iras dos anjos +domesticos que n'estas noites andam invisiveis misturados +com a familia. +<br /> + +<br /> + +―Apoiado,―respondeu Henrique;―acceito e +comprometto-me a cumprir a proposta. +<br /> + +<br /> + +Henrique possuia em alto grau o talento de se +tornar agradavel. Comprehendendo que eram sinceros +os desejos do conselheiro, tão frio e pueril +conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como +membro da familia, e ao proprio conselheiro parecia +já impossivel que ainda fôssem tão +recentes as +suas relações mais intimas com aquelle rapaz. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[230]</span> +―Animo, sr. conselheiro,―dizia-lhe Henrique, +no momento em que elles ambos estavam empenhados +a jogar a cabra cega com os pequenos.―Coragem, +que temos gloriosos exemplos a animar-nos; +até, entre outros, o do meu homonymo Henrique IV. +É sabido o episodio recordado por uma +gravura celebre. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes +jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem; +os moveis fóra da sua posição, o +chão alastrado +de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, +os tapetes desviados, as cortinas soltas. +<br /> + +<br /> + +Já por noite avançada, disse o conselheiro para +Henrique: +<br /> + +<br /> + +―Falta-nos ainda um artigo importante do ritual +d'estas festas, o principal. É dirigir uma visita +á cozinha. Porque a obra principal d'esta noite é +fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o +a acompanhar-me lá. +<br /> + +<br /> + +―Com tanto mais vontade, que estou ha muitos +dias compromettido a isso com as senhoras. +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso é tempo. +<br /> + +<br /> + +E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á +cozinha. +<br /> + +<br /> + +Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu +tumultuariamente, annunciando-os ao longe +com risadas e gritos de alegria. +<br /> + +<br /> + +A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de +frades. Occupava um vasto recinto rectangular, rasgado +em amplas janellas e fornecido de bancas monumentaes, +condizendo com a estupenda chaminé, +que parecia ainda saudosa dos odoriferos vapores +que outr'ora espalhavam os tachos e as grelhas +monasticas. +<br /> + +<br /> + +Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique +ahi entrou com o pae de Magdalena. Era um +barafustar de criadas, um chiar de certãs, um borbulhar +de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, +um tilintar de crystaes no meio de uma babel de +<span class="pagenum">[231]</span> +ordens, de perguntas, de reclamações, de +conselhos, +todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria +ralhava, e a sr.<sup>a</sup> de Alvapenha promulgava +preceitos, +e Maria de Jesus desdenhava do serviço das +collegas, e Magdalena e Christina riam de todos e +de tudo, e Angelo a todos impacientava. +<br /> + +<br /> + +Não se imagina! +<br /> + +<br /> + +A chegada do conselheiro e do seu hospede veio +exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e +exclamações, +as quaes ainda assim eram subjugadas +pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia +para o conselheiro: +<br /> + +<br /> + +―Sempre o mano tem coisas! Olhem agora +para o que lhe havia de dar! Vão lá para dentro, +vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do +que estamos. E o primo Henrique tambem! Ora +esta!... +<br /> + +<br /> + +―Não se afflija, mana. Nós não +podiamos resignar-nos +a ficar alheios á tarefa principal do dia. E +até porque é necessario dar andamento a isto para +chegarmos a tempo da missa do gallo. +<br /> + +<br /> + +―Pois querem ir á missa do gallo? +<br /> + +<br /> + +―Está de vêr que sim. +<br /> + +<br /> + +―Eu tambem vou―disse Christina. +<br /> + +<br /> + +―E eu―acudiu Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Mais um, que irá tambem―disse Henrique. +<br /> + +<br /> + +―E eu, e eu―accrescentaram differentes vozes. +<br /> + +<br /> + +―Ai, minhas encommendas!―suspirou D. Victoria.―Então +por que não disseram isso logo? +Agora como ha de ser? +<br /> + +<br /> + +E saiu em direcção á sala da ceia a +dispôr as +coisas. +<br /> + +<br /> + +É preciso que se diga que D. Victoria vivia na +candida illusão de que era ella quem fazia tudo em +casa, emquanto que manda a verdade declarar que +nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas +do que quanto dormia esta aliás excellente senhora. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[232]</span> +―Mãos á obra, sr. Henrique!―bradou o +conselheiro, +insistindo na resolução com que viera. +<br /> + +<br /> + +―Prompto―respondeu Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Então? então?... Que vão +fazer?―perguntava +D. Victoria, afflicta, voltando á cozinha. +<br /> + +<br /> + +―Querem vêr que preparos?!―dizia D. Dorothéa, +sorrindo e olhando com curiosidade para o +que faziam os dois. +<br /> + +<br /> + +―Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, +minha tia―dizia Henrique, approximando-se +da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena e +Christina. +<br /> + +<br /> + +―É verdade que sim,―acudiu Magdalena―e +eu exijo o cumprimento da promessa. +<br /> + +<br /> + +―Vamos lá, sr. Henrique,―tornou o conselheiro―acceite-me +alguns preceitos da pratica. A regra é +fazer tudo o mais indigesto possivel; porque essa +qualidade é o caracteristico dos manjares d'esta noite. +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a +ceia do Natal, pois desafio o melhor estomago do +mundo a que subjugue os meus guisados com os +seus succos digestivos. +<br /> + +<br /> + +―Eu já escolhi tarefa―disse o conselheiro, tirando +das mãos de Christina a colhér com que ella +mexia o vaso onde se preparava o vinho quente, +esse <em>punch</em> nacional, que n'esta +noite seria uma +falta imperdoavel se esquecesse no programma +d'aquelle banquete. +<br /> + +<br /> + +Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, +e cêdo principiou a desempenhar-se d'este trabalho, +no meio de hilaridade geral. +<br /> + +<br /> + +Angelo dispensou a tia Dorothéa do trabalho da +preparação dos mexidos. +<br /> + +<br /> + +Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e +no seguimento do seu constante proposito, approximou-se +da morgadinha, que n'aquelle momento se +occupava a regar de calda de mel umas recentes +rabanadas. +<br /> + +<br /> + +―Peço trabalho, prima Magdalena. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[233]</span> +―Não ha falta de braços n'esta +repartição, primo +Henrique. Vá a outra porta. +<br /> + +<br /> + +―Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance +das minhas fôrças. +<br /> + +<br /> + +―Esta? Como se engana! Não sabe que as rabanadas +são a essencia da ceia de Natal? E logo +havia de confiar-lh'as? +<br /> + +<br /> + +―Ah! não ligava tanta importancia a estas representantes +da pastelaria primitiva, notaveis porque +recordam a infancia da arte! Emquanto a mim, +já no tempo da peregrinação dos +hebreus, Moysés +lhes ensinava a cozinhar d'isto. +<br /> + +<br /> + +Magdalena abanou a cabeça em signal de +reprehensão. +<br /> + +<br /> + +―Perdôe ás pobres rabanadas o pouco ar de +moda que teem. A sua elegancia é implacavel, primo +Henrique. Um indigesto manjar francez seria de +melhor tom, bem sei. Até n'isso! +<br /> + +<br /> + +―Para provar que estou arrependido da minha +irreverencia, consinta-me que a coadjuve, prima. +<br /> + +<br /> + +―Não pode ser; pesa sobre mim uma tremenda +responsabilidade. +<br /> + +<br /> + +―Isso equivale a recusar-me o fôro de familia, +que tão humildemente reclamo. +<br /> + +<br /> + +―Justamente―respondeu Magdalena.―Eu sou +muito escrupulosa n'isso. Faz mal em não reclamar +esse fôro de Christina, que talvez encontrasse mais +disposta a conceder-lh'o. +<br /> + +<br /> + +―Mas, se me não engano, foi a prima Magdalena +que primeiro me conferiu o apreciavel titulo +de parentesco com que nos tratamos. +<br /> + +<br /> + +―O de primos? Esse sim; mas não tem os privilegios, +que lhe quer dar. +<br /> + +<br /> + +―Que privilegios são? +<br /> + +<br /> + +―Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, +por exemplo. +<br /> + +<br /> + +―Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o +que eu peço?―perguntou Henrique a Christina, +que principiára a escutal-os. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[234]</span> +―Não ouvi―respondeu esta, córando e sorrindo, +como sempre que lhe falava Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Escusado é consultar Christina―acudiu a +morgadinha―porque +em muitas coisas pensa ella em +opposição commigo. E n'isto... +<br /> + +<br /> + +―E n'isto... +<br /> + +<br /> + +―N'isto de attender a requerimentos, é talvez +mais condescendente. +<br /> + +<br /> + +―Ao que estou vendo―disse o conselheiro jovialmente―grandes +coisas se tinham passado aqui, +antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade +entre Lena e o sr. de Souzellas, que me dá sérias +inquietações. +<br /> + +<br /> + +―E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, +a primeira vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!...―disse +D. Dorothéa, com toda a indiscreção +da sua ingenuidade. +<br /> + +<br /> + +Magdalena procurou acudir a tempo á corrente +das revelações, a que viu disposta a boa senhora. +<br /> + +<br /> + +Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que +tendo feito uma digressão pela sala do refeitorio, +voltou com a alegre nova de que a ceia estava na +mesa. +<br /> + +<br /> + +O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. +Suspenderam-se trabalhos, quasi completos, +ultimaram-se á pressa outros, e a companhia dirigiu-se +para o corredor. +<br /> + +<br /> + +Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o +e pretendendo suster a corrente, que +ameaçava invadir a sala, que ella ainda não dera +por prompta. Já não era tempo. O conselheiro, +tomando +duas creanças ao collo, rompia a marcha, e +atraz d'elle até a pacifica D. Dorothéa clamava +insubordinada +que não recuaria um passo. +<br /> + +<br /> + +E falando e rindo assim entraram na sala. +<br /> + +<br /> + +Estava offuscante de luzes, esplendida de louças +e baixellas, enfeitada de flores e de crystaes e ennevoada +dos vapores das iguarias. +<br /> + +<br /> + +Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, +<span class="pagenum">[235]</span> +uma confusão e incoherencia de ordens de D. Victoria +para marcar logares, infracções d'estas ordens, +que a impacientavam, como se com isso pudésse +perigar a ordem natural e social do mundo, +e, como justa consequencia, caía sôbre a +cabeça dos +criados uma enfiada de recriminações, que elles +por +habito já soffriam com exemplar paciencia. +<br /> + +<br /> + +Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se á ceia. +<br /> + +<br /> + +Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos +se devem sentar nas mesmas disposições de +animo em que ordenava Christo estivessem os que +fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, +e com tão pouca vontade comida, falem embora +contra ti os medicos e os gastronomos eméritos, +condemnando uns a indigestibilidade dos teus +cozinhados, outros o pouco delicado d'elles; reage +contra as ideias novas, que veem da França e da Allemanha; +cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e +furta-te ás mãos da extranha +geração de Vateis, +que aspiram a dominar pelos paladares o espirito +nacional. +<br /> + +<br /> + +Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas +as outras refeições, mas respeitem esta, +consagrada +pelas memorias da familia, justificada pelo +facto de que quasi não é feita para ser comida. +<br /> + +<br /> + +Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das +instigações do conselheiro, das instancias de D. +Victoria, +das garantias de D. Dorothéa sobre a innocuidade +dos guisados, os pratos corriam á roda da +mesa quasi intactos e intactos voltavam á cozinha +d'onde sairam. +<br /> + +<br /> + +Mas se se comia pouco―e de facto, á +excepção +de Henrique, do conselheiro e das creanças, quasi +ninguem parecia haver-se sentado alli para ceiar―mas, +diziamos nós, se se comia pouco, em +compensação +falava-se muito. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando +uma iniciativa efficaz para baralhar e generalisar +as conversas e assim conservar constante a +<span class="pagenum">[236]</span> +animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma +creança, a anecdota contada por Henrique, as +distracções +de D. Victoria, as canduras de D. Dorothéa, +os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as allusões +da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, +as maliciosas insinuações de Angelo. +<br /> + +<br /> + +Assim procedeu o repasto nocturno até á altura +das saudações e dos +<em>toasts</em>. N'esta parte, justo +é +confessar que Henrique e o conselheiro fôram menos +abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade +dos vinhos. +<br /> + +<br /> + +Passados os reciprocos brindes entre os parentes, +o conselheiro, voltando-se para Angelo, auctorisou-o +a propôr tambem um brinde. +<br /> + +<br /> + +Angelo levantou-se então para brindar Augusto. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro secundou-o, levando o copo aos +labios. +<br /> + +<br /> + +―Ah! o sr. Augusto―disse Henrique, antes de +beber e com certo tom de ironia.―Conheço; é uma +ave rara d'estas immediações, que tem brios de +cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho. +<br /> + +<br /> + +―Brios de cavalleiro?―disse Angelo, com vivacidade.―Inda +isso não é tudo, sr. Henrique; pode +accrescentar, e alma de heroe tambem. +<br /> + +<br /> + +―Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr +preciso até consciencia de santo. Vá á +saude da +phenix! +<br /> + +<br /> + +E bebeu. +<br /> + +<br /> + +Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo +tom anterior: +<br /> + +<br /> + +―O que vejo é que é perigoso falar com a mais +ligeira irreverencia d'esta personagem; corre-se o +risco de vêr voltar contra o impio, que tanto ousa, +os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; +prometto acatar essa preciosidade. +<br /> + +<br /> + +―E creia―disse-lhe o conselheiro―que lhe é +merecedor de toda a consideração. Augusto +é um +d'estes caracteres excepcionaes que vivem á sombra +<span class="pagenum">[237]</span> +de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella +muitas vezes morrem. É necessario ter a vista +muita +exercitada n'estas explorações de almas modestas, +para descobrir uma assim. +<br /> + +<br /> + +―Felizmente para os myopes como eu―proseguiu +Henrique―ellas fazem ás vezes a fineza de +se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á +luz. Não é verdade, prima Magdalena? +<br /> + +<br /> + +―Que admira;―respondeu Magdalena―bem +occulto está o fogo na pederneira, primo Henrique, +mas, percutindo-a, salta a faisca. +<br /> + +<br /> + +―Pobre rapaz;―notou a sr.<sup>a</sup> de +Alvapenha―aquillo +nem parece d'este tempo. O que eu não sei, +primo Manuel, é porque elle se não resolveu a +tomar +ordens. Recusar o legado da D. Rosa! +<br /> + +<br /> + +―Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, +adoptando +essa ou outra qualquer carreira, não lhe faltarão +recursos para seguil-a até o fim. Devo-lhe esse +auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio +singular aquelle rapaz! +<br /> + +<br /> + +―É uma phenix―insistiu Henrique, ironicamente.―Vejo +que não é susceptivel de discussão, +impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho habitos +de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir +no meu credo esse dogma. +<br /> + +<br /> + +―Perdão―replicou Angelo.―Um axioma não +se demonstra, e a boa alma de Augusto está todos +os dias a demonstrar-se por acções generosas. +<br /> + +<br /> + +―Por favor!! Dêem como não ditas as minhas +palavras! Arrependo-me da minha irreverencia, e se +elle aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na +sua presença. +<br /> + +<br /> + +―E é certo que nos falta aqui Augusto. Como +te não lembraste d'elle, Angelo? +<br /> + +<br /> + +―Não viria. N'esta noite não deixaria o tio +Vicente. +<br /> + +<br /> + +―Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente. +<br /> + +<br /> + +―É do herbanario que falam?―perguntou Henrique. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[238]</span> +―Justamente. +<br /> + +<br /> + +―Outra phenix; e quer-me parecer que tambem +pertence ao numero dos inviolaveis; não é +verdade, +prima? +<br /> + +<br /> + +―Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que +é justo considerar-se uma especie de inviolabilidade. +<br /> + +<br /> + +A resposta collocou Henrique em mau terreno, e +por isso apressou-se a desviar do ponto principal +da questão, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios +como elle teem em si os elementos da propria +felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh'a. +Além de que o herbanario gosa aqui na terra +de uma certa soberania, que deve lisonjeal-o. +<br /> + +<br /> + +―E olha que nem em Lisboa ha talvez quem +saiba tanto como elle em coisas de doenças e de +remedios, menino,―disse D. Dorothéa, que era +uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario. +<br /> + +<br /> + +―É na verdade um homem singular!―disse o +conselheiro.―D'antes, na noite de Natal, e em todas +as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem +por commensal, que ainda é parente arredado da +casa. Ha annos porém deu em tomar a peito o meu +procedimento politico e em prégar-me sermões e +dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com +a possivel resignação. Mas um dia foi mais amargo +nas suas recriminações e eu achava-me com maior +susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante +acrimonia, e o homem saiu de minha casa +offendido e protestando não voltar mais a ella. Procurei-o, +escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. +Não houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, +e é intolerante n'estas condições. +<br /> + +<br /> + +―Sei-o já por experiencia;―disse Henrique―que +n'uma unica entrevista que tive com elle, e que +durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer a +irritabilidade. +<br /> + +<br /> + +―Vamos, primo Henrique; talvez possa haver +<span class="pagenum">[239]</span> +quem supponha que n'essa entrevista não demonstrou +o primo peor do que elle possuir as qualidades +de que o accusa. +<br /> + +<br /> + +―Agora―continuou o conselheiro―vão consideravelmente +exacerbar-se os despeites do herbanario +contra mim. +<br /> + +<br /> + +―Porquê?―perguntou Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Porquê?... por causa do traçado que se adoptou +para a estrada. +<br /> + +<br /> + +―Então?―disseram simultaneamente Angelo e +Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―A casa e o quintal do herbanario são os primeiros +cortados. +<br /> + +<br /> + +―Não pode ser!―exclamou Magdalena, com evidente +expressão de susto. +<br /> + +<br /> + +Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto. +<br /> + +<br /> + +Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza. +<br /> + +<br /> + +―É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham +certas durezas. O primeiro era uma luva lançada +a uma influencia eleitoral, poderosissima; o +brazileiro Seabra. +<br /> + +<br /> + +―Ah!―disse Magdalena, com certa amargura +na expressão e no olhar. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em +cuja physionomia se não lia menos intenso desgosto. +<br /> + +<br /> + +―Estou adivinhando que meus filhos votariam +por que antes se arrostasse com os despeites d'esse +influente. A logica do sentimentalismo tem d'essas +exigencias absolutas. +<br /> + +<br /> + +Magdalena respondeu: +<br /> + +<br /> + +―Julguei que era a da consciencia, meu pae. +<br /> + +<br /> + +―A consciencia diz-me que ha interesses superiores +ás contemplações com as singularidades +de +um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira +politica ceder ao coração é morrer ou +ser vencido. +O sentimentalismo exaggerado, Lena, tem o inconveniente +de dar tanto vulto ás vezes a um sacrificio +individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar +<span class="pagenum">[240]</span> +maiores e mais geraes interesses e operar sacrificios +mais custosos. É muito tocante na verdade o amor +de um velho pelas suas arvores e pela sua casa; +porém, mais respeitavel é o bem-estar e a +conveniencia +de uma localidade. +<br /> + +<br /> + +―E é tão necessario para a felicidade d'esta +terra +o sacrificio a que se quer obrigar o herbanario?―perguntou +Angelo, e Magdalena secundou com o +olhar a pergunta do irmão. +<br /> + +<br /> + +―Eu te digo, Angelo―respondeu o conselheiro, +levemente despeitado.―Eu tinha a vaidade de me +suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem +elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me +dizel-o aqui em familia, não vejo ainda quem dê +garantias de desempenhar o mandato, muito melhor +do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão +d'este povo, e elles, á falta de outros, acceitariam +ámanhã qualquer nome inscripto na carteira +do ministro; um homem que nunca tivessem visto, +e que nem soubesse em que ponto da carta estava +o circulo de que se propunha ser representante. +Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo +um censuravel excesso de vaidade. +<br /> + +<br /> + +―Não, meu pae, ninguem acredita mais do que +eu no muito valor da sua influencia, mas... Ó +meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio +Vicente! Imagine bem o que é n'aquellas idades e +com aquelle genio, a grandeza do sacrificio que vão +exigir d'elle? +<br /> + +<br /> + +―Custa-me ser obrigado a isso; porém... +<br /> + +<br /> + +―Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle +não pode ser muito longa. Deixem-o morrer em paz, +á sombra d'aquellas arvores a que elle quer tanto. +Que importa passar mais alguns annos sem uma +estrada? +<br /> + +<br /> + +―Poesia!―disse o conselheiro, sorrindo para +Henrique, que lhe correspondeu. +<br /> + +<br /> + +―Perdão!―acudiu Magdalena, +córando―é caridade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[241]</span> +―Ora vamos, Lena. Sê razoavel. Todos soffrem +no mundo sacrificios maiores do que esse; eu mesmo, +que me não tenho ainda assim por victima da +sorte... +<br /> + +<br /> + +―E não haveria outro meio?―perguntou Angelo.―Acaso +ha só esses dois logares para dirigir +a estrada? +<br /> + +<br /> + +―Que antes nunca se fizesse!―exclamou Magdalena, +apaixonadamente. +<br /> + +<br /> + +―Ahi temos como o sentimento me torna retrograda +a minha Lena. Já clama contra as estradas +como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro +traçado, mas esse ia destruir completamente os +campos do Brejo. +<br /> + +<br /> + +―Ah! então esse, esse! São bens +nossos!―exclamou +Magdalena com vivacidade. +<br /> + +<br /> + +―São bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles +que um dia mais valiosos se tornarão para teu +irmão. +<br /> + +<br /> + +―Os charcos?―disse Angelo, encolhendo os +hombros―ora! Só para viveiro de rãs. +<br /> + +<br /> + +―Hoje pouco mais são do que isso, e como tal +nol-os pagariam agora. Dentro, porém, de alguns +annos, operados alli os trabalhos de esgoto, que eu +projecto, verão em que se transforma aquillo. É +exigir a um homem muita abnegação pretender +d'elle que sacrifique assim os elementos da riqueza +futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens +não seriam taes que... +<br /> + +<br /> + +―Não pediriamos esmola, meu pae―notou timidamente +Angelo. +<br /> + +<br /> + +―Nem o Vicente a pedirá. Visto que estaes tão +desprendidos de interesse, que não hesitaes em fazer-lhe +sacrificio dos vossos bens, podeis ceder-lhe +o sufficiente para o compensar da perda. +<br /> + +<br /> + +―Mas quem o compensará dos golpes nos seus +affectos?―perguntou Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Tambem tu! São segredos do coração +feminino +essas compensações. Deixo-as á tua +disposição. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[242]</span> +―Meu pae! meu pae! se é ainda possivel atalhar-se! +<br /> + +<br /> + +―É impossivel. +<br /> + +<br /> + +―Meu tio!―secundou Christina. +<br /> + +<br /> + +―Mano! Primo!―disseram a um tempo as senhoras +mais idosas. +<br /> + +<br /> + +―O que posso fazer é ir eu proprio falar com o +Vicente, para o mover a consentir na expropriação +amigavel, que farei que lhe seja o mais vantajosa +possivel. +<br /> + +<br /> + +―E tem coração para lhe ir propôr +isso? +<br /> + +<br /> + +―Dize antes se tenho coragem para arrostar +com as iras do velho, e com as maldições que +já +sei vae sacudir sobre mim. +<br /> + +<br /> + +Lena calou-se, suspirando. +<br /> + +<br /> + +―Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!―continuou +o conselheiro.―Eu, que tinha +feito voto de não me entreter de negocios publicos +esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu! +<br /> + +<br /> + +―Eu?! Eu, que abomino a politica! que só ella +podia fazer entrar uma crueldade no coração de +meu pae! +<br /> + +<br /> + +―Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por +outro sitio!―implorou meigamente Christina. +<br /> + +<br /> + +―Tambem tu, Christe! tambem tu! +<br /> + +<br /> + +―Pudera, mano! Não, que uma coisa assim! Isso +é até uma ingratidão para com um homem +a quem +esta aldeia tanto deve―disse D. Victoria. +<br /> + +<br /> + +―Pois não é! E logo um quintal onde cresciam +tantas plantas de virtudes!―accrescentou D. Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +―Vá vendo, sr. Henrique, como se conspiram +todos contra mim. Veja como um sentimento insignificante +organisa uma opposição. +<br /> + +<br /> + +―É uma lição que estou recebendo, sr. +conselheiro. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae,―insistiu Magdalena―eu espero +ainda que, ouvindo o tio Vicente, se commoverá e +trabalhará por alterar esse fatal plano que principia +<span class="pagenum">[243]</span> +por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, +com ellas arrancará uma vida. +<br /> + +<br /> + +―Romances! Lena, romances! Os romances, lidos +em plena aldeia, são perigosos. Falta aqui nos +ares um certo scepticismo que, não sendo em dóses +exaggeradas, tem a vantagem de não deixar vêr as +coisas da vida através do prisma dos livros de +imaginação. +Mas basta de falar em politica. Ámanhã +procurarei o herbanario. Espero uma recepção de +gêlo, e vou preparado para uma ladainha de +recriminações, +mas irei. Nada esperes, porém, da entrevista, +Lena; nem o mal, se mal é, se poderia já atalhar; +nem o orgulho de Vicente lhe permittiria +expansões á sensibilidade, que cheguem a +commover-me. +Conheço-o. +<br /> + +<br /> + +Magdalena não instou. Ficou, porém, pensativa e +sem o menor vestigio da alegria, com que principiara +o serão. +<br /> + +<br /> + +N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo. +<br /> + +<br /> + +―Já toca para a missa do gallo! Ouvem?―disse +D. Victoria. +<br /> + +<br /> + +―Vamos! Não ha tempo para demoras―exclamou +o conselheiro, levantando-se. +<br /> + +<br /> + +Todos o imitaram, menos Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Não vens, Lena?―perguntou Christina. +<br /> + +<br /> + +―Não. +<br /> + +<br /> + +―São amúos, filha!―disse-lhe o conselheiro, +indo por traz d'ella; e, tomando-lhe a cabeça entre +as mãos, beijou-a na fronte. +<br /> + +<br /> + +―Não, meu pae, é uma dôr de +cabeça tão violenta! +<br /> + +<br /> + +―A maldita politica é o que faz! Pois fica; fica, +porque está fria a noite. +<br /> + +<br /> + +―Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina. +<br /> + +<br /> + +―Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair. +<br /> + +<br /> + +―Aviem-se!―dizia D. Dorothéa.―Henriquinho, +vens? +<br /> + +<br /> + +Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia +noite esfriou desde que viu Magdalena ficar, respondeu: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[244]</span> +―Ó tia... a falar verdade!... se me dispensassem!... +<br /> + +<br /> + +―Vem d'ahi, preguiçoso! anda! +<br /> + +<br /> + +―É que... para um homem doente... +<br /> + +<br /> + +―Ai, não; se te ha de ás vezes fazer mal, +então +não―apressou-se a dizer a precavida senhora. +<br /> + +<br /> + +E foi deferido por unanimidade o requerimento de +Henrique, a quem cêdo depois Torquato foi ensinar. +o caminho para o quarto onde devia pernoitar. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro, D. Dorothéa, Christina e Angelo +fôram para a missa do gallo. +<br /> + +<br /> + +D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no +Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XV +</h4> + +<br /> + +Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, +Henrique de Souzellas sentiu poucas disposições +de dormir. Uma profunda excitação impedia-lhe +o repouso; em parte era devida ás occorrencias +d'aquella noite, tão fóra dos seus habitos de +vida; +em parte, digamol-o em verdade, á influencia dos +vinhos, com que secundára os brindes do conselheiro, +e com que elle proprio iniciára outros. +<br /> + +<br /> + +A imaginação, excitada como estava, cada vez, +entre outras imagens, lhe representava mais bella +a de Magdalena. A especie de hostilidade permanente, +com que a morgadinha o tratava, ainda mais +parecia seduzil-o. +<br /> + +<br /> + +Nos poucos dias que passára na aldeia, havia Henrique, +com novos habitos, adquirido uma maneira +de vêr e de julgar as coisas e as pessoas, differente +da que lhe era habitual na cidade, no circulo de +amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou +tacitamente, e sem dar por isso, certo scepticismo +<span class="pagenum">[245]</span> +convencional, que uma antipathica escola conseguiu +pôr muito na moda. +<br /> + +<br /> + +Graças a estas melhoras moraes, tão verdadeiras +n'elle como as physicas, as quaes até o constante +pensamento das doenças lhe haviam dissipado, +pudéra +elle considerar Magdalena como uma mulher +superior ao typo, pelo qual a mencionada escola +costuma modelar o sexo: e acceitou sem má +prevenção +a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, +que descrevia com enthusiasmo nas suas +cartas a um dos seus mais intimos amigos de +Lisboa. +<br /> + +<br /> + +Taes estados de convalescença são +porém sujeitos +a recaídas. +<br /> + +<br /> + +N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta +áquellas cartas, e sob as impressões com que +ficou da leitura, tinha vindo para o Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo +de um homem da moda, da candura e da ingenuidade +de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado +á vista dos profundos estragos que alguns dias de +provincia tinham operado n'elle. Via-o disposto a +idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania +que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro +de qualquer homem. +<br /> + +<br /> + +Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos +os dias caracteres, aliás não pervertidos, +levianamente +calumniam ou ferem de suspeitas reputações +de todo o genero, elle fazia irreverentes allusões +á morgadinha e zombava de Henrique, que ainda +tomava a sério as isenções de uma +rapariga de vinte +e tres annos. Acabava por o aconselhar a que indagasse +de algum primo timido e modesto, ainda que +menos ingenuo de certo do que elle Henrique se +estava mostrando. +<br /> + +<br /> + +Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a +doença, que estava em via de cura. Um espirito +mephistophelico +parecia havel-a dictado. Henrique transportou-se +pela imaginação, depois de lel-a, a +<span class="pagenum">[246]</span> +um dos circulos que habitualmente frequentava em +Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração da sua +vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos +com que o escutariam, e elle proprio construia os +epigrammas, com que lhe seria por certo commentada +a narração. E então uma vergonha de +má indole, +vergonha do homem que põe um preceito de +elegancia acima de um dictame de moral, fazia-o +córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a +ler a carta, que lhe parecia dictada pela experiencia +e pelo bom senso, emquanto que a ingenuidade +das suas crenças se lhe figurava ridicula e +desarrazoada. +<br /> + +<br /> + +Quem ha que não tenha tido momentos d'estes? +Quem se pode gabar de não ter perguntado um +dia aos seus escrupulos mais nobres se não são +meros preconceitos, que ficaram de uma educação +acanhada? Quem não poz um momento em dúvida +as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em +creança? Henrique estava passando por um d'esses +accessos de scepticismo. Magdalena era já para +elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da +sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, +que promettia a si proprio ser d'ahi por deante mais +arrojado. Esta ordem de reflexões estavam acudindo +outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que +se apoderára d'elle aquella noite, uma tenacidade +maior. Sentindo a cabeça em fogo, Henrique levantou-se, +apagou a luz, e abrindo a janella do quarto, +saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar +o ar livre. +<br /> + +<br /> + +A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se +muitas estrellas no céo, que com forte +scintillação +parecia illuminarem a terra de um tenue crepusculo, +que mal deixava distinguir os objectos. +<br /> + +<br /> + +O ar frio da noite estava produzindo em Henrique +um prazer, que elle procurava prolongar. +<br /> + +<br /> + +Não havia passado muito tempo, depois que assim +se encostára á varanda do quarto, quando lhe +<span class="pagenum">[247]</span> +attrahiu a attenção certo vulto alvacento, que +furtivamente +se movia n'uma das ruas da quinta. +<br /> + +<br /> + +Pareceu-lhe uma figura de mulher. +<br /> + +<br /> + +Justamente n'aquella occasião tinha Henrique na +memoria o periodo final da carta do seu amigo. +<br /> + +<br /> + +Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica. +<br /> + +<br /> + +―Ah!... Querem vêr que... A dôr de +cabeça +subita... A insistencia em ficar só... Percebo... +Um primo timido e modesto... +<br /> + +<br /> + +E murmurando estas palavras, um sorriso maligno +encrespava os labios de Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Se eu pudésse averiguar isto... Mas ella corre +com uma ligeireza que, antes que eu ache meio de +sair para a quinta... já a levará bem longe. +<br /> + +<br /> + +O meio porém não era difficil de encontrar. Da +varanda em que estava Henrique passava-se com +grande facilidade para outra immediata, na qual havia +uma escada de communicação para a quinta. +<br /> + +<br /> + +Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique +operou n'um momento a descida, e pouco depois +procurava através da quinta os vestigios da +mulher que tinha perdido de vista. +<br /> + +<br /> + +N'esta operação esforçava-se por +combinar com +a maxima ligeireza a possivel precaução, para +não +ser por causa alguma frustrada a sua pesquiza. +<br /> + +<br /> + +A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda +em volta por um solido muro de alvenaria. Aqui e +alli abriam-se n'elle differentes portas que deitavam +para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto +havia pomares, lameiros, vinhedos e hortas, +por onde Henrique errava á tôa, já +desanimado de +ser bem succedido no empenho. +<br /> + +<br /> + +De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar +de uma chave na fechadura. Parou por precaução +e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o bater +de uma porta e mais nada. +<br /> + +<br /> + +Então adeantou-se rapidamente; n'um momento +deu com a porta, que ainda se conservava aberta. +<br /> + +<br /> + +Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[248]</span> +Dirigiu-se á esquina que d'alli avistava; dobrou-a, +mas nada viu; as ruas eram solitarias, e uma só +casa terrea que havia ao lado de um quintal estava +discretamente fechada e silenciosa. +<br /> + +<br /> + +Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, +Henrique voltou para a porta. +<br /> + +<br /> + +―Esperemos aqui por esta donzella destemida +que assim anda de noite a correr aventuras. Ha de +ser curioso observar como ella fica, quando me encontrar +por guarda portão. Veremos se ainda depois +d'isto durarão aquelles ares de soberania, com +que me trata. Um primo timido e modesto!... +<br /> + +<br /> + +E, sorrindo á lembrança da scena que se +preparava, +Henrique fechou a porta por dentro, e accendendo +um charuto, poz-se a passeiar, aguardando o +regresso da morgadinha. +<br /> + +<br /> + +Para não perdermos muito tempo á espera tambem, +aproveital-o-hemos a inquirir de coisas e de +pessoas, cujo conhecimento é util á +continuação da +nossa historia. +<br /> + +<br /> + +A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro +e n'um sitio a que a abundancia de vegetação +e a suavidade de perspectiva davam o mais pittoresco +aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, +casa e quintal já condemnados pelos lapis e +tira-linhas dos engenheiros e offerecidos em sacrificio +aos melhoramentos municipaes e concelhios. +<br /> + +<br /> + +Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena +e Angelo escutaram a nova d'esta expropriação, +quem conhecesse a vivenda rustica do herbanario +e soubesse do amor que elle votava a cada +objecto d'ella, assim como da vida que, havia tantos +annos, alli vivia escondido e obscuro. +<br /> + +<br /> + +Para o quintal, que a abundancia das arvores de +espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas +da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se +entregava ás suas leituras e +lucubrações scientificas. +Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em +parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em +<span class="pagenum">[249]</span> +parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de +virtudes mais ou menos problematicas, que o velho +n'elle cultivava. +<br /> + +<br /> + +Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me +assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas +suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes +curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem +a responsabilidade dos effeitos produzidos, +assim lhes queria e as amimava, quando salutares; +assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas. +A vida isolada e o genio do velho, que sempre +fôra dado a singularidades, augmentaram estas +disposicões, que tinham o que quer que era de +pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando +com ellas, como se convencido de que o +estavam comprehendendo. +<br /> + +<br /> + +A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, +a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas, +as violetas, tão boa camaradagem lhe faziam, +que nem lhe deixavam sentir a solidão. +<br /> + +<br /> + +O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu +serviço. Elle proprio cozinhava e por suas mãos +fazia todos os mesteres domesticos. +<br /> + +<br /> + +É pois de imaginar que não seria muito complicado +o banquete das consoadas n'aquella casa, e que +devia formar em tudo contraste com o que á mesma +hora se celebrava no Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas +e mais espontaneos os risos, dois homens +apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena +mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta +sala o santo anniversario. Um era o proprietario +da casa, o outro Augusto, um dos poucos que +se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a +habitação +do velho. +<br /> + +<br /> + +Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia +composta de queijo, maçãs, nozes, castanhas, duas +sopeiras com escabeche, especialidade na +confecção +da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa +<span class="pagenum">[250]</span> +de vinho do Porto de promettedora côr de topazio, +consistia o resto da mobilia n'uma estante +de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas +encadernações e folhas vermelhas nos aparos, +em algumas cadeiras e bancos tambem occupados +com livros e com varios utensilios empregados nas +explorações scientificas do velho, taes como +caixas +de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes +ainda sobravam para alastrarem o chão. +<br /> + +<br /> + +Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro +de azeite, e a escassa luz, que dos tres lumes +que, em attenção á solemnidade da +noite, o velho +accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um +Christo de marfim pendente de um crucifixo negro, +que sobresaía n'aquellas paredes nuas e caiadas. +<br /> + +<br /> + +Havia bastante tempo que aquelles dois homens, +sentados defronte um do outro, guardavam silencio; +um d'esses silencios, durante os quaes os +espiritos, como se impacientes com as longuras da +palavra, tendo-se desembaraçado d'ella, voam a +par, para adeantarem caminho e voltarem mais +longe a associarem-se á sua mais lenta companheira. +<br /> + +<br /> + +Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava +a scena, parecia alheio a quanto o rodeava. +<br /> + +<br /> + +O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com +o braço estendido para o calice que tinha defronte +de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar, um por +um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles +os pensamentos que o preoccupavam. Emfim rompeu +o primeiro o silencio: +<br /> + +<br /> + +―Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. +Para que te mettes a esconder de mim aquillo que +eu ha tanto te leio nos olhos, creança? +<br /> + +<br /> + +―O quê, tio Vicente?―perguntou Augusto, inquieto. +<br /> + +<br /> + +―O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, +sem te esfriar o coração: +são dons do Céo, +<span class="pagenum">[251]</span> +que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. Bondade +de coração, com a cabeça... assim, +assim... +a dar esmolas aos pobres se satisfaz; cabeça de +fogo, mas coração de gêlo... todos os +meios de +levar ao fim ambições, tanto os bons como os +maus, todos lhe servem; mas coração como o teu, +com o espirito que tens!... ai, pobre Augusto, se +se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do +Senhor. +<br /> + +<br /> + +―Não o entendo, tio Vicente,―disse Augusto, +com manifesta confusão. +<br /> + +<br /> + +―Não! Olha para mim. E vê se te atreves a +repetil-o. +<br /> + +<br /> + +Augusto baixou a cabeça. +<br /> + +<br /> + +O velho sorriu com ar de commiseração e +sympathia. +<br /> + +<br /> + +―Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas +que me não havia de custar, se não tivesse +acertado?―E, +depois de breve pausa, continuou:―Mas +ainda quando penso em como tu, uma cabeça +forte, assim te deixaste enfeitiçar!...―E tomando +o calice, que tinha defronte de si, disse com +resolução―Quero +beber á tua saude, Augusto, e para +que em breve se te desfaça essa loucura. +<br /> + +<br /> + +Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão +de Augusto susteve-lhe o braço. +<br /> + +<br /> + +―Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e +morrer com ella. Sou feliz assim. +<br /> + +<br /> + +―Ah!―disse o velho herbanario, tomando um +ar mais grave; e pousou o copo, sem desviar de +Augusto o olhar penetrante e fixo. +<br /> + +<br /> + +Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu +com maior vehemencia e colorindo-lhe as faces um +não costumado rubor: +<br /> + +<br /> + +―Sim. Por que o não hei de confessar? Essa +loucura que diz, trago-a commigo, vivo com ella e +quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a desejaria +perder. Amor? não é; a tanto não +chega... +antes um culto, isso sim. É uma +adoração como +<span class="pagenum">[252]</span> +aquella, em que de pequenos nos educam para com +a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem +procuro alimental-as. Quer que lhe diga? Vêl-a; +respirar estes ares que ella respira; atravessar estas +devezas em que ella passeia; amimar as mesmas +crenças que ella amima; soccorrer, com o meu +óbulo +de pobre, a miseria sobre a qual ella espalha caridosa +as dadivas da sua abençoada opulencia... e, +ahi está; são as minhas +aspirações; é o futuro que +desejo, e com que me contento. Leu no meu +coração, +disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas +não viu claro de todo, confesse. Julgou talvez que +haveria em volta d'este sentimento um enxame de +esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por certo +foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. +Enganou-se, porém, tio Vicente; vê agora que se +enganou, não é verdade? Essas +esperanças não +existem. Se existissem, bem vê que não estaria +aqui. +Não me teria impellido a ambição pelo +caminho de +realisal-as? Não se me teem offerecido os meios +para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto +me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não +arrisco um instante d'ella para tentar uma ventura +maior. +<br /> + +<br /> + +O herbanario escutava silencioso, porém meneando +a cabeça com ares de quem não punha demasiada +fé n'aquellas palavras. +<br /> + +<br /> + +―Aos vinte annos!...―disse elle por fim―sentir +o que dizes... ser feliz assim!... Deixa passar +mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e +verás... +verás depois... +<br /> + +<br /> + +―Tem dez annos―disse Augusto, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Dez annos! +<br /> + +<br /> + +―É verdade. De creança a conheço, a +paixão +que diz; por isso confio n'ella. Tenho fé em que se +não transviará. +<br /> + +<br /> + +―Dez annos!―repetia o velho, admirado.―Porém... +ha dez annos... +<br /> + +<br /> + +―Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não +<span class="pagenum">[253]</span> +se lembra? Era então uma pobre creança da aldeia, +educada entre os braços de minha mãe, e +conhecendo, +uma por uma, as arvores d'estes sitios e +mais nada. Saí d'aqui e fui para Lisboa. Não +imagina +as fortes impressões que recebi na noite que +alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de +fadas e de encantamentos que ouvia, quando era +pequeno, nunca me feria a imaginação assim! Tudo +era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, +os palacios, os edificios, os carros produziam-me +quasi uma vertigem; sentia-me vacillar. Achei-me, +nem sei bem como, de tão atordoado que ia, n'uma +casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, +n'aquella noite, uma companhia numerosa de homens, +de senhoras e de creanças, muitas da mesma +idade que eu, e que formavam uma assembleia á +parte. A sala era magnifica; muitas luzes, muitos +espelhos, muitas flores, moveis dourados, tapetes, +quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, +o piano, objecto novo para mim, e que eu me não +fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como +imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares de +estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; +deu explicações ás pessoas presentes a +respeito da +minha vida, e deixou-me entregue ás creanças. Ahi +fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta +mal talhada, o meu olhar timido, os meus +modos acanhados, no meio de uma turba de creanças +elegantes, que se me figuravam de uma essencia +superior á minha. As creanças são +desapiedadas, +quando assim em companhia. Cêdo percebi que estava +sendo o alvo da zombaria d'ellas; riam ao +principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, +olhando-me de relance; redobravam as risadas e +transmittiam reflexões a meu respeito, cujo sentido +julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas, +dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; +formaram grupos em volta de mim; se +eu falava, respondiam-me rindo. Então apoderou-se +<span class="pagenum">[254]</span> +de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me +o coração de tristeza. Lembrei-me, com saudades, +das arvores da minha aldeia, do meu pobre quarto, +de minha mãe; e achei-me alli tão só, +tão sem conforto +nem amizades, que as lagrimas me vieram +ferventes aos olhos. Ainda hoje não hesito em dizel-o, +foi aquelle um dos mais amargos momentos +da minha vida. Nós, quando adultos, esquecemos +facilmente os martyrios da infancia, quando n'esta +idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos +os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha +piedosa superstição de rapaz aldeão, +quasi me +pareceu de intervenção divina. Abriu-se a porta e +entrou na sala uma creança, que eu não tinha +ainda +visto. Era uma menina pallida, de gesto affavel e +angelico. Vestia toda de branco. Entrou e approximou-se +do conselheiro, que jogava com uns amigos. +O conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe +disse ao ouvido. Ella correu então a sala com a +vista; viu-me e veio direita a mim. +<br /> + +<br /> + +―Não conhecias já da aldeia, +Magdalena?―perguntou +o herbanario. +<br /> + +<br /> + +―Não; minha mãe veio para aqui no anno em +que, por morte da sua, Magdalena voltou a Lisboa. +A affabilidade, a singeleza desaffectada com que me +falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje +sinto como que os reflexos d'aquella suave impressão. +Parecia-me ouvir a voz de minha mãe; tinha o +timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança +o coração. Com ella não senti mais +aquelle +acanhamento que me enleiava. Depois falava-me de +coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a respeito +dos campos, das arvores, das abelhas, dos +ninhos dos passaros, das flores, dos trabalhos do +linho... interrogando-me e escutando-me com tanta +deferencia e attenção, que me inspirava coragem, +e +julgo que me estava dando ares de mais importancia +junto d'aquelles pequenos senhores e senhoras +que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus +<span class="pagenum">[255]</span> +desdens e acabaram por me escutar e interrogar +tambem com curiosidade. Já uns me lançavam os +braços ao hombro, outros formavam circulo em +volta de mim, e cêdo fui eu a principal personagem +d'aquella noite. Essa creança... +<br /> + +<br /> + +―Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o +não soubesse. Não podia deixar de ser +ella―exclamou +o herbanario, com um fulgor de sympathia a +illuminar-lhe o olhar.―Era ella; sempre assim foi! +<br /> + +<br /> + +―Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia +no meu espirito. Hoje ainda, se penso n'ella, +acho-a de uma grande significação moral. Pois +não +é mais apreciavel n'uma creança esta prova de +superioridade +de caracter, do que nas idades em que +muitas vezes a razão e o calculo a impõem a uma +indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo +espontaneidade. Desde então a adoro. +<br /> + +<br /> + +O herbanario parecia não ter já animo para +sorrir. +<br /> + +<br /> + +―Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella +grande tristeza. Tão novo! +<br /> + +<br /> + +―É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi +sempre para mim affavel; inclinava-se sobre o livro +em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos +da minha educação aldeã, e, se +reconhecia +progressos no discipulo, manifestava uma alegria +que era para mim o maior incentivo e o maior premio. +Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena +com certo ar de gravidade, que aquella creança +já então tomava, perguntou-me, no meio de uma +conversa propria de creanças: «E sente-se com +genio +para ser padre, Augusto?» Já me não +lembro +do que lhe respondi. Trouxe porém commigo aquella +pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia. +Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde +então m'a repetia sempre, até junto da cabeceira +de +minha mãe, cuja maior aspiração era, +como sabe, +vêr-me padre. Mas em vão! foi desde +então uma +dúvida constante com que luctava. Com a morte de +<span class="pagenum">[256]</span> +minha mãe tudo mudou. Pela primeira vez respondi +á interrogação, que havia tanto tempo +dirigia a mim +proprio, e consegui por fim responder: +«Não». Eis +o segredo do meu passado. +<br /> + +<br /> + +―E por que disseste «Não»? +<br /> + +<br /> + +―Porque vi que toda a minha vida era para a +consagrar a um sonho; que o sonharia no altar, no +pulpito e no confessionario; que para toda a parte +me seguiria a imagem, a que eu já não podia +renunciar, +e a qual então já não contemplaria sem +remorsos, +como agora o faço. Foi por isto. +<br /> + +<br /> + +―Só? Não te illudirás a ti mesmo, +Augusto? Repara +bem, que n'isso pode ir a tua felicidade! Estás +bem certo de que não ha uma esperança dentro do +teu coração? +<br /> + +<br /> + +―Se a tivesse... +<br /> + +<br /> + +Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de +passos na rua. Cêdo batiam na porta duas leves +pancadas, e uma voz dizia de fóra: +<br /> + +<br /> + +―Está acordado ainda, tio Vicente? +<br /> + +<br /> + +O herbanario trocou um olhar com Augusto. A +voz era de Magdalena. +<br /> + +<br /> + +Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario +quiz retêl-o. +<br /> + +<br /> + +―Onde vaes? +<br /> + +<br /> + +―Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora. +Não +estou preparado com a minha indifferença. +<br /> + +<br /> + +―Pobre mascara!―N'esse caso sae pelo quintal. +<br /> + +<br /> + +―Tio Vicente!―repetiu Magdalena, de fóra. +<br /> + +<br /> + +―Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera―continuou +em voz baixa para Augusto:―dá-me +a tua palavra que não escutarás. +<br /> + +<br /> + +―Dou; mas... promette que nada lhe dirá? +<br /> + +<br /> + +―Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer, +quanto mais... Adeus! +<br /> + +<br /> + +Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo +lado do quintal, o herbanario foi abrir a porta da +rua á morgadinha. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[257]</span> +<h4>XVI +</h4> + +<br /> + +―Ora com Deus venha a minha fada; esta querida +Lena, que se não esquece dos seus amigos velhos... +Boas festas me trazes pela noite, filha! +<br /> + +<br /> + +No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes +indicios de preoccupação. +<br /> + +<br /> + +―Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; +eu venho... +<br /> + +<br /> + +O herbanario conduziu-a para junto da mesa, +onde estavam ainda os signaes de refeição, que +havia +pouco findára. Vendo os dois talheres, a morgadinha +olhou interrogadamente para Vicente: +<br /> + +<br /> + +―Estava alguem comsigo? +<br /> + +<br /> + +―Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porquê? Temos +por ahi mais alguns livros a comprar-lhe?―continuou, +sorrindo com benevola malicia.―Tenho +eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada +que, de vez em quando, me ensina em segredo quaes +os livros, que o rapaz mais deseja e de que eu mal +sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos, +que não mereço, e que elle mais de +coração +daria, a quem são de justiça devidos? +<br /> + +<br /> + +―Não, tio Vicente; não se trata agora d'isso. +<br /> + +<br /> + +―Ai, Lena, Lena, que não sei bem o que devo +pensar de todas estas coisas. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha parecia um pouco perturbada com +as palavras do herbanario. +<br /> + +<br /> + +―Que ha de pensar? Ha nada mais natural? +Angelo foi que me deu o exemplo. Elle sabia o amor +que Augusto tem á leitura. Porém o cofre de +Angelo +é pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego +a nem saber em que hei de consumir o que me sobra. +Por isso foi que me lembrei... porém como +não conviria que eu propria fizesse o presente, nem +<span class="pagenum">[258]</span> +elle de mim o acceitaria, é que eu lhe pedi que o +fizesse em seu nome. Mas falemos de outra coisa, +porque me não posso demorar. Venho ás occultas +e emquanto a minha gente foi á missa do gallo. Tio +Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procural-o +a estas horas. +<br /> + +<br /> + +―Ah!―disse o velho, sentando-se em tom de +gracejo.―Adivinho a gravidade do caso. O filhito +do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum principio +de sarampo ou de garrotilho, e vens... +<br /> + +<br /> + +―Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor +a esta casa e a este quintal? +<br /> + +<br /> + +O velho tornou-se immediatamente sério. +<br /> + +<br /> + +―Se lhe tenho amor?! Que pergunta! +<br /> + +<br /> + +―Tem? +<br /> + +<br /> + +―Nasci aqui, filha. +<br /> + +<br /> + +―Custar-lhe-ia a... +<br /> + +<br /> + +―A quê? +<br /> + +<br /> + +―A... a... +<br /> + +<br /> + +E Magdalena hesitava. +<br /> + +<br /> + +―Fala!―insistiu o velho, já inquieto. +<br /> + +<br /> + +―A separar-se d'ella? +<br /> + +<br /> + +O herbanario respondeu simplesmente: +<br /> + +<br /> + +―Ah! morreria. +<br /> + +<br /> + +Magdalena fez um gesto de afflicção. +<br /> + +<br /> + +Em Vicente crescia o desassocego. +<br /> + +<br /> + +―Mas... Dize, Magdalena; o que +significam +essas palavras? +<br /> + +<br /> + +―É que... +<br /> + +<br /> + +―Explica-te!―exclamou o herbanario, quasi +imperiosamente. +<br /> + +<br /> + +―Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas +não se +afflija. Eu vim de proposito para o prevenir. Mas, +por amor de Deus, socegue; senão tira-me o animo +de continuar. +<br /> + +<br /> + +―Que socegue, e tu a atormentares-me com essas +demoras! +<br /> + +<br /> + +―Perdôe... Fala-se em deitar abaixo estas arvores +e esta casa, para... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[259]</span> +O herbanario de um impeto poz-se a pé. Fulgurou-lhe +nos olhos um relampago de ira terrivel! +<br /> + +<br /> + +Magdalena calou-se, assustada. +<br /> + +<br /> + +―Deitar abaixo estas arvores e esta casa?! +Quem?... Quem se atreve? Pois que venham! que +venham! +<br /> + +<br /> + +Mas reparando no terror que estava causando a +Magdalena, procurou reprimir-se, e com uma voz +que elle se esforçava por tornar tranquilla, continuou: +<br /> + +<br /> + +―Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, +Lena, fala... Dize o que sabes. Quem é?... Para +que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala, +bem vês que eu estou socegado, filha. +<br /> + +<br /> + +―Ha um projecto de estrada... +<br /> + +<br /> + +―Ah!―disse Vicente, com um grito de raiva.―Não +digas mais. Já sei―continuou com renascente +exaltação.―Já sei. Adivinho o resto. +É teu pae que +o determina; é teu pae que o resolveu? +<br /> + +<br /> + +Magdalena abaixou a cabeça com dolorosa +expressão. +<br /> + +<br /> + +O furor do velho exaltou-se outra vez. +<br /> + +<br /> + +―Teu pae! Teu pae, Lena! Então esse homem +jurou matar-me? +<br /> + +<br /> + +―Tio Vicente! +<br /> + +<br /> + +―Elle não sabe o que são para mim estas arvores +e estas paredes? Elle não sabe que a minha +alma está n'ellas, presa a estas raizes? que com +ellas se despedaçará? Esse homem sem +coração +não vê que são estas as minhas +affeições, as unicas? +a minha unica familia? Elle, o companheiro +dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou, +á sombra d'essas mesmas arvores e sob os +olhares de meu pae, que tambem o abençoava, tão +duro de coração se fez que, sem respeito por +estas +memorias todas, assim me quer separar do que me +dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é +teu pae este homem, Lena? +<br /> + +<br /> + +―Por quem é, tio Vicente; ouça-me. Deixe-me +<span class="pagenum">[260]</span> +dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie +ainda. +<br /> + +<br /> + +―Sim, sim; tudo se remediará... com a minha +morte. Talvez que ella seja util a teu pae... Talvez +precise d'ella. +<br /> + +<br /> + +―Oh! não creia, não creia. +<br /> + +<br /> + +―É duas vezes doloroso o golpe; porque me +separa do que amo deveras e por vir da mão de +quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita +que o era... ainda. Conheci-o tão generoso e +tão innocente, como teu irmão Angelo. Muitas +vezes +me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus projectos. +E acreditei n'elle. Tinha então no olhar um +fogo, que não mentia. Vi-o seguir a carreira publica +e acompanhei-o com a minha fé. Não tardaram os +primeiros desenganos; não lhes quiz dar credito ao +principio. Vieram outros e outros. Fui vendo então +que os maus ares d'aquella terra tinham embaçado +o brilho do caracter, que eu julguei melhor do que +os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me +reservado ainda. Para teu pae hoje os homens são +medidos pelos votos, que podem lançar na urna +eleitoral! +<br /> + +<br /> + +―Por amor de Deus, tio Vicente, não fale assim! +Não duvide de meu pae!―exclamou Magdalena, a +quem cruelmente estavam affligindo as +recriminações +amargas do herbanario.―Meu pae estima-o +e respeita-o. Não tem o coração +endurecido que +diz. Elle mesmo ámanhã aqui ha de vir. +Verá +então... +<br /> + +<br /> + +―Elle? Ámanhã?... +<br /> + +<br /> + +―Para isso venho prevenil-o. Não o receba com +asperezas, tio Vicente; fale-lhe com brandura. Talvez +o commova, talvez seja ainda possivel valer a +tudo. Ainda não está decidido... Julgo... E que +estivesse... +<br /> + +<br /> + +―Ámanhã! Teu pae vem aqui +ámanhã? E ousa +vir elle proprio annunciar-me o que sabe que vae +ser uma sentença de morte? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[261]</span> +―Não; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia. +Sabendo-o, verá como... +<br /> + +<br /> + +―Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me, +e ha muito. Não julgues que pode errar, +calculando o effeito d'este golpe. Mas que queres +tu? ensinaram-lhe já a avaliar em pouco as venetas +de um velho quasi tonto. Homens que trazem o +pensamento em interesses tão altos, não teem +vista +para estas pequenas desgraças. +<br /> + +<br /> + +Magdalena sentia-se possuir de uma profunda +tristeza, ao ouvir falar o herbanario. Era uma dolorosa +provação para o seu amor de filha vêr +assim +uma nuvem de desconfiança offuscar a ideal +concepção +que ella formára do pae, e não ter +fôrças +para a afugentar. Ás vezes uma dúvida cruel +fazia-lhe, +a seu pesar, suppôr que o herbanario tinha +razão. Agora só conseguia oppôr um +gesto supplicante +áquellas acerbas accusações, que por +muito +tempo ainda desattenderam esta supplica muda. +<br /> + +<br /> + +A final serenou a violencia da irritação do +velho; +succedeu-lhe, porém, uma commoção +profunda, dominado +por a qual disse a Magdalena: +<br /> + +<br /> + +―Socega, Lena; ámanhã eu receberei teu pae sem +a menor aspereza. Fizeste bem em vir primeiro, filha. +Se o não esperasse, talvez não soubesse +conter-me. +Agradecido. Uma noite é bastante para me preparar. +Agora vae, deixa-me só; deixa-me... chorar. +<br /> + +<br /> + +E cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair, +soluçando, sobre a mesa, junto da qual se achava. +<br /> + +<br /> + +Magdalena correu para elle, commovida. +<br /> + +<br /> + +―Então, tio Vicente, então! Socegue! +Ámanhã +meu pae virá. Fale-lhe, e eu espero que ainda +será +tempo de evitar... o mal. +<br /> + +<br /> + +―Pode ser, pode ser...―respondia o velho.―E +se não pudér, Deus me acudirá, para +não viver +por muito tempo fóra da casa em que nasci. +<br /> + +<br /> + +Magdalena já não tinha que lhe dizer. +<br /> + +<br /> + +―Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos, +como já pedimos. Tenho esperança. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[262]</span> +―Não, filha, não peças tu. Deixa-me +só com teu +pae ámanhã. Disseste que tinhas vindo, sem +ninguem +saber?―continuou elle.―Olha que te não +dêem pela falta. Vae, que é tempo. +<br /> + +<br /> + +―Mas... +<br /> + +<br /> + +―Vae, filha. Eu estou já tranquillo. Bem vês. +Deus te recompense a bondade que tiveste. Vae. +Queres que te acompanhe? +<br /> + +<br /> + +―Não é preciso. Vim pela porta das prezas, que +deixei aberta. São dois passos e estou na quinta. +Mas, tio Vicente... +<br /> + +<br /> + +―Vae então; e Deus te abençoe. +<br /> + +<br /> + +E o velho pousou a mão sobre a cabeça de +Magdalena, +que saiu commovida. +<br /> + +<br /> + +E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o +pranto que lhe rebentava dos olhos. +<br /> + +<br /> + +É sombria a saudade n'aquellas idades, porque +as esperanças são já muito debeis para +lhe darem +luz. +<br /> + +<br /> + +Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda +pelos sentimentos que alli a tinham agitado, a morgadinha +dirigiu-se á pressa para a porta da quinta, +por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta +resistiu. Este facto surprehendeu e inquietou um +pouco Magdalena. Quem poderia ter fechado a porta? +E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe +necessario um longo rodeio pela aldeia para +chegar a outra, que pudesse encontrar aberta. +<br /> + +<br /> + +N'esta hesitação impelliu outra vez +instinctivamente +a porta, que lhe oppoz a mesma resistencia. +<br /> + +<br /> + +Cêdo, porém, sentiu o rodar da chave na fechadura +e viu mover-se lentamente a porta, e no vão, +que augmentava, desenhar-se uma figura de homem. +<br /> + +<br /> + +Antes que pudésse, através da obscuridade da +noite, reconhecer a pessoa, que assim tão a proposito +lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas palavras: +<br /> + +<br /> + +―Muito boas noites, prima Magdalena. Espero +<span class="pagenum">[263]</span> +que pelo menos me concederá licença para exercer, +junto de si, as humildes funcções de porteiro. +<br /> + +<br /> + +Era Henrique de Souzellas. +<br /> + +<br /> + +Magdalena não foi superior a um vago sentimento +de receio, ao encontrar-se ahi com o hospede de +Alvapenha; comtudo esforçou-se por dominar-se e +respondeu, com apparente presença de espirito: +<br /> + +<br /> + +―Ah! É o primo Henrique. Muito boas noites. +Ahi temos um requinte de galanteria, que eu estava +muito longe de esperar. +<br /> + +<br /> + +―E de desejar, não? +<br /> + +<br /> + +―E de desejar tambem; confesso-o. Por mais +diligente que seja um porteiro, nunca o é tanto +como uma porta aberta. +<br /> + +<br /> + +―Mas é mais discreto. +<br /> + +<br /> + +―Duvido. Em todo o caso, agradeço o incómmodo. +<br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem +mais explicações. +<br /> + +<br /> + +―Uma palavra, prima Magdalena―disse Henrique, +retendo-a por o braço e com certa expressão +nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto +da morgadinha.―Não ha mais accommodado terreno +para um dialogo solemne do que o limiar de +uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o +homem muda de mascara; depõe a que apresenta +na sociedade e afivela a que traz na familia, e vice-versa. +Ora n'estas mudanças é facil surprehender o +verdadeiro rosto da pessoa. +<br /> + +<br /> + +―Será tudo o que quizer o limiar de uma porta, +primo; menos um logar muito confortavel para serões +n'uma noite de dezembro. +<br /> + +<br /> + +E Magdalena tentou de novo seguir para deante. +<br /> + +<br /> + +Henrique susteve-a outra vez. +<br /> + +<br /> + +―Um momento só, prima +Magdalena; tenho +necessidade de saber se me quer para alliado ou +para inimigo. +<br /> + +<br /> + +―Não vejo a necessidade da alliança que +propõe, +nem as razões para a lucta. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p264">[264]</a></span> +―Sejamos francos. A prima deve confessar que +a minha presença aqui foi um desagradavel contratempo. +Uma certa altivez e consciencia de invulnerabilidade, +de que tinha o incómmodo de se revestir, +sempre que tratava commigo, depois d'esta importuna +occorrencia terá de se modificar. +<br /> + +<br /> + +―Não havia dado por essa... +<em>revestidura</em> que +diz; mas, se ella existiu, far-me-ha o favor de dizer: +por que não pode continuar? +<br /> + +<br /> + +―Essa é boa! porque eu faço a justiça +á prima +de suppôr que não vae tão longe a sua +hypocrisia. +<br /> + +<br /> + +―Hypocrisia!―disse Magdalena, com accento +mais severo. +<br /> + +<br /> + +―Perdão; não tive tempo para inventar +outro +termo mais... brando. +Dissimulação talvez lhe +agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do +occorrido... +<br /> + +<br /> + +―Agora exijo eu que se explique, senhor. +<br /> + +<br /> + +―Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar +<a href="#e4">uma explicação</a>... +edificante... d'esta sua +excursão nocturna? +<br /> + +<br /> + +―Obsta apenas a que eu lh'a dê, sr. Henrique de +Souzellas, a falta de uma pequena formalidade: a +de lhe reconhecer o direito de interrogar-me. +<br /> + +<br /> + +―Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha +ideia. A prima é uma mulher admiravel, uma mulher +superior, educada na alta escola de uma sociedade +distincta, sobranceira por isso a pieguices +provincianas. Tanto mais me encanta! E creia que +me envergonho só ao lembrar-me do que terá +pensado +de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões +de fé, tão cheias de franqueza e de candura. +Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, não é +verdade? +<br /> + +<br /> + +―Agora é que me está parecendo bem enygmatico! +<br /> + +<br /> + +―Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima não +ignora que eu a amo. +<br /> + +<br /> + +―Pois ignorava!―atalhou Magdalena, com ironia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[265]</span> +―E sabe de certo, por experiencia do mundo, +que para homens como eu, a indifferenca, a frieza +e os desdens redobram o ardor da paixão. +<br /> + +<br /> + +―Sim; já li isso n'um romance. +<br /> + +<br /> + +―A prima tem sido para commigo de uma crueldade +revoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me +a soffrer, porque um resto de ingenuidade que +me ficou dos quinze annos, illudia-me na +interpretação +de taes resistencias. Tive a puerilidade de a +suppôr uma mulher de excepção; pouco me +faltou +para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel +noite de Natal o desengano. +<br /> + +<br /> + +―Ah! então parece-lhe... +<br /> + +<br /> + +―Que a prima representa admiravelmente o +seu papel. Pode gabar-se de ter illudido um homem +habituado ás scenas da comedia social. +<br /> + +<br /> + +Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio +de severidade e de nobreza: +<br /> + +<br /> + +―Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas, +sem que eu propria bem saiba o que me retem +aqui: se é a compaixão que me inspira a profunda +doença moral de que o vejo tomado, se a +curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados. +Vejo-o inclinado a imaginar que por um +facto, que a sua pouco delicada indiscreção +preparou, +eu ficarei de hoje em deante á mercê da sua +generosidade. Conhece-me muito pouco, sr. Henrique! +Ainda quando esse facto não pudésse ter uma +explicação natural, e que me não +repugnará declarar +quando quizer, saiba que tenho orgulho de mais +para arrostar com tudo, até com a calumnia, de +preferencia a resignar-me ao menor predominio que +me seja odioso. +<br /> + +<br /> + +―Bravo! +<br /> + +<br /> + +―Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se +eu não lhe fizesse a justiça de acreditar que +d'esses +seus actos e palavras não é absolutamente +irresponsavel +talvez a má influencia da ceia d'esta +noite, bastariam elles para me inspirarem por si e +<span class="pagenum">[266]</span> +pelo seu caracter o mais completo desprezo; e então +seria, como nunca, manifesta a minha independencia, +porque eu nunca temi os seres que desprezo. +<br /> + +<br /> + +Henrique principiava a ser de novo subjugado +pelo tom de severidade e de energia, com que a +morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de +scepticismo obrigou-o a replicar: +<br /> + +<br /> + +―Santo Deus! prima Magdalena; não dê um +colorido tão pavoroso ás minhas +supposições. Despojal-a +de uma crueza deshumana, para a dotar de +uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma +justiça feita ao seu coração. E o +facto que o acaso +me revelou a nada mais me auctorisa. O pequeno +e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se +já, creia; e agora só me resta invejar a +sorte de quem tem a felicidade... +<br /> + +<br /> + +―Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem +mais um instante o escutarei; poupar-lhe-hei assim +os remorsos, que ámanhã teria da sua infamia... +<br /> + +<br /> + +E animada por uma resolução +mais energica, +Magdalena caminhou soberanamente para a porta. +<br /> + +<br /> + +Henrique collocou-se-lhe outra vez deante. +<br /> + +<br /> + +―Um momento mais. +<br /> + +<br /> + +―Deixe-me passar, senhor. +<br /> + +<br /> + +―Não, sem que me ouça antes. +<br /> + +<br /> + +―É uma violencia? +<br /> + +<br /> + +―É uma supplica. +<br /> + +<br /> + +N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira +um vulto que avançou para elles. +<br /> + +<br /> + +―sr.<sup>a</sup> D. Magdalena, se fôr preciso +reter o insolente, +que se lhe atravessa no caminho, ponho um +braço á sua disposição. +<br /> + +<br /> + +E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio +collocar-se entre Henrique e Magdalena. +<br /> + +<br /> + +Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu +de cólera. O olhar que fixou no recem-chegado +trahiu a vehemencia da impressão recebida. Depois +succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias. +<span class="pagenum">[267]</span> +Olhou para Magdalena, em quem não era menor a +surpreza causada pela inesperada presença de Augusto, +olhou outra vez para este e soltou uma risada +cheia de malignidade e de ironia, que a ambos +fez estremecer. +<br /> + +<br /> + +―Ahi está uma apparição tanto a +tempo, prima +Magdalena, que aos mais incredulos infundiria fé na +intervenção da Providencia. Que foi sem +dúvida +providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas +horas mortas, um tão generoso e intrepido salvador. +Não é verdade, prima? O que vale estar de +bem com Deus! +<br /> + +<br /> + +Estas palavras mostraram a Augusto que a sua +intervenção, ainda que generosa e devida a um +espontaneo +impulso da alma, não fôra porventura das +mais convenientes. +<br /> + +<br /> + +―Senhor!―exclamou elle, indignado, dando um +passo para Henrique. +<br /> + +<br /> + +―Socegue―tornou este, com dobrado sarcasmo.―O +senhor é um perfeito heroe de romance; enthusiasta, +cavalheiresco, mas, em certas occasiões, +incómmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse +o transtorno que veio causar a um bello dialogo +que eu sustentava aqui com a sr.<sup>a</sup> D. Magdalena! +Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu +com a sua vinda o fio da comedia, que desempenhava +com perfeita sciencia de actriz. As almas ingenuas +e generosas, como a sua, sr. Augusto, são +ás vezes de uma impertinencia! Vamos, sr.<sup>a</sup> +D. Magdalena; +não descoroçôe. Assim exgotou todos os +recursos da sua imaginação? Vamos, introduza +mais este elemento de apparição de um heroe no +enredo, e organise a comedia com o superior talento +que tem! Eu por mim acceito todos os papeis +que me distribuir. +<br /> + +<br /> + +Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou, +dizendo com voz firme: +<br /> + +<br /> + +―Perdão; vejo n'esta noite em todos uma notavel +disposição para usurparem direitos, que +não +<span class="pagenum">[268]</span> +possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar; o +sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que +já ha pouco lhe disse; se algum dia tiver necessidade +de explicar as minhas acções, fal-o-hei deante +de outros juizes, em quem reconheça o direito de o +serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar +que, +se o titulo de hospede e de parente não fôsse +bastante +para me assegurar da parte do sr. Henrique +de Souzellas os respeitos que me são devidos, tinha +ainda na minha familia defensores legitimos e não +seria por isso obrigada a recorrer á +protecção de +um estranho. Meus senhores... +<br /> + +<br /> + +E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha +passou por entre elles e entrou para a quinta, sem +que nenhum a procurasse reter. +<br /> + +<br /> + +―Se esta senhora acceitasse a sua protecção e +eu teimasse n'aquillo que chamou a minha insolencia, +qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento? +Poder-se-ha saber?―perguntou Henrique, +logo que a morgadinha desappareceu. +<br /> + +<br /> + +Augusto, em quem a fria altivez da resposta +d'ella deixára o desespero no coração, +respondeu +acerbamente: +<br /> + +<br /> + +―Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem vê que +não me esqueço facilmente do meu programma de +mestre-escola. +<br /> + +<br /> + +―Vejo; é a segunda tentativa de +lição que lhe +mereço. Permitte-me que ámanhã o +procure para +dar principio a um curso de educação mais +regular? +<br /> + +<br /> + +Augusto respondeu, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―É um cartel em fórma? +Não sei se estarei ensaiado +para essa comedia. +<br /> + +<br /> + +―Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha +esse sabor. +<br /> + +<br /> + +―Bem ouviu que se me negou o direito de tomar +partido por esta causa. Qualquer scena d'essas +entre nós seria pouco delicada... +ámanhã. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, contemporisemos; e até lá +é de esperar +<span class="pagenum">[269]</span> +que algum motivo occorra que a explique +melhor... aos olhos dos outros. +<br /> + +<br /> + +―Como queira; a minha porta não se fecha a +quem me procura. +<br /> + +<br /> + +E separaram-se depois de se cortejarem. +<br /> + +<br /> + +―Se me não engano―dizia comsigo Henrique, +em caminho do quarto―é um verdadeiro desafio +o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me +parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando +um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas, +decide-se pela férula. Tem graça! Veremos o +que ámanhã, á luz do dia, eu penso +d'isto tudo. Eu +já não fico por mim esta noite. Estou a querer +convencer-me +de que tenho andado estouvadamente e +com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É +que esta mulher e este creancelho são irritantes. +Ella com a sua altivez, elle com os seus brios. Mas, +na verdade, será este o Endymião d'esta esquiva +Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo +e timido... A ociosidade da aldeia para alguma +coisa ha de dar. Mas da maneira por que ella +lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... +O que é certo é que estou em lucta com +uma mulher superior... Pois luctemos, priminha, +mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo +que o acaso me revelou, se segredo existe... +Veremos como ella ámanhã me trata... +<br /> + +<br /> + +Esta scena deixou em Augusto uma perturbação +de espirito mais profunda. +<br /> + +<br /> + +As operações mentaes, que o preoccuparam toda +a noite, eram d'aquellas a que repugna chamar pensar. +É mais uma febre intellectual, um succeder +de imagens sem ordem nem filiação, que +não conduz +a nenhum resultado, que não aconselha nenhum +partido, que não esclarece, offusca. +<br /> + +<br /> + +Como se explica esta differença entre os dois? +Por um apparente parodoxo; porque Augusto tinha +mais habitos de reflectir. Quando n'uma vida de +episodios uniformes e apparentemente vulgares, o +<span class="pagenum">[270]</span> +espirito exerce demasiado a analyse, habitua-se a +estudar factos que para outros passam por insignificantes, +e descobre-lhes faces novas e desconhecidas. +Costumado assim a ligar valor a tudo, quando +succede que no decurso da vida se lhe depara um +facto de maior vulto, a confusão do primeiro momento +é inevitavel. Assim como a balança de +precisão, +apropriada para oscillar com pesos tenuissimos, +não é a que pode servir para os grandes +pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar +subtis accidentes, de que se compõe o drama habitual +da vida, não é a que de subito pode avaliar algum +mais complexo e importante. +<br /> + +<br /> + +A resolução n'estes espiritos, depois de formada, +é mais tenaz; mas, emquanto se não +fórma, vae +n'elles um tumulto de ideias, que se não podem +analysar. +<br /> + +<br /> + +Não analysemos, pois, as de Augusto. +<br /> + +<br /> + +Magdalena não socegou emquanto não viu Henrique +voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por +que saíra. +<br /> + +<br /> + +―Que resultará d'isto?―pensava ella.―Que +fará elle ámanhã?... É +preciso não me acobardar, +ou estou vencida... Mas que se passaria depois +que os deixei?... Veremos ámanhã. +<br /> + +<br /> + +No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena +sorriu. +<br /> + +<br /> + +É que lhe occorrera então este pensamento: +<br /> + +<br /> + +―Dizem que nós, as mulheres, temos filtros +subtis para nos tornar amadas. Pois será mais difficil +fazer-se aborrecida? Como o conseguirei? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>FIM DO PRIMEIRO VOLUME</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4><a name="Vol.II"></a>BIBLIOTHECA ESCOLHIDA<br /> + +<br /> + +XXIII</h4> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4> +ROMANCE<br /> + +<br /> + +III<br /> + +<br /> + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Vol. II</span></h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h5> +CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL<br /> + +LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28<br /> + +TELEPHONE 2337</h5> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<span style="font-weight: bold;" class="quote">JULIO +DINIZ</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A MORGADINHA<br /> + +DOS<br /> + +CANNAVIAES +</h2> + +<br /> + +<h4>(CHRONICA DA ALDEIA) +</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>DECIMA-SETIMA EDIÇÃO +</h3> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<img style="width: 150px; height: 146px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4>LISBOA<br /> + +J. RODRIGUES & C.<sup>a</sup>, EDITORES<br /> + +186―Rua Aurea―188<br /> + +<em>1920</em> +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A MORGADINHA DOS CANNAVIAES +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4>XVII +</h4> + +<br /> + +Não havia mentido a grande +scintillação das estrellas +na noite de Natal. +<br /> + +<br /> + +A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio +meteorologico, rompendo pura, desennevoada, +com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir +os gêlos dos montes e os gêlos da velhice. +<br /> + +<br /> + +O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã +aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas +e roupas domingueiras, atravessavam os campos, +saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas +e quelhas na direcção da igreja matriz, onde +se deviam celebrar as festas da Natividade. +<br /> + +<br /> + +Era dia santo entre os que mais o são; e os dias +santos na aldeia teem uma feição solemne e +festiva, +que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos +apertados horizontes das cidades, phantasiando o +campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente +nas cópas das enfezadas arvores das +nossas praças e jardins. +<br /> + +<br /> + +Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar +o domingo nem o dia santo, com um vestuario +mais asseiado, com um prato mais exquisito +na lista do jantar, com uma diversão excepcional, +que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar +n'esses dias, exactamente como em todos os da semana, +<span class="pagenum">[4]</span> +perderam nas cidades os dias do Senhor a +feição typica e interessante, que por muito tempo +tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem +de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer +no domingo ao som do sino, que chama para +a missa matinal. +<br /> + +<br /> + +Dirá então se não parece que +até o sol tem outra +luz e que as arvores e as plantas se toucaram de +flores novas, que guardam de reserva para os dias +de festa. +<br /> + +<br /> + +Este particular aspecto do domingo estava-o logo +pela manhã sentindo Henrique de Souzellas, encostado +á varanda do quarto em que pernoitára, e +emquanto esperava que o chamassem para o almoço. +<br /> + +<br /> + +De vez em quando a recordação das scenas +nocturnas +da vespera desviava-lhe para outra ordem +de reflexões o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles +incidentes á memoria, mas vagos e confusos, +como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a +duvidar da realidade d'elles. +<br /> + +<br /> + +Agora estava experimentando certa curiosidade e +tambem receio de saber como seria recebido pela +morgadinha, e que posição deveria tomar na +presença +d'ella. +<br /> + +<br /> + +Formava a este respeito varias conjecturas, sem +se fixar em nenhuma. +<br /> + +<br /> + +D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o +toque +da campainha annunciando o almoço. +<br /> + +<br /> + +―Vamos,―disse Henrique―preparemo-nos +para o primeiro embate. Apuremos a vista para +n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle +regular o meu plano de tactica. +<br /> + +<br /> + +E depois de uma rapida consulta ao toucador, +desceu para a sala do almoço. +<br /> + +<br /> + +Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, +e a morgadinha presidindo á mesa e preparando +o chá. +<br /> + +<br /> + +Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram +<span class="pagenum">[5]</span> +da maneira por que elle tinha passado a +noite. +<br /> + +<br /> + +Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; +e, falando, desviava o olhar para Magdalena, +que o encontrou do modo mais natural, sem +timidez nem audacia. +<br /> + +<br /> + +Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando +portanto a vez de cumprimentar Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Bons dias, prima Magdalena,―disse Henrique, +estendendo a mão e fixando-a com olhar investigador. +<br /> + +<br /> + +Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com +sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido: +<br /> + +<br /> + +―Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer +horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma +indiscreção mandar tocar a campainha. Esqueci-me +de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã. +<br /> + +<br /> + +―Eu é que não consentia:―disse o +conselheiro―na +aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as +minhas alvoradas são mais tardias. +<br /> + +<br /> + +―Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não +esperei +que me acordasse o toque da sineta. Ha muito +que eu namorava a manhã da janella do meu quarto. +<br /> + +<br /> + +―Eu não pude dormir toda a santa noite―disse +D. Dorothéa.―Estranhei a cama e a casa. Eu cá +sou assim, quem me tira do meu ninho!... +<br /> + +<br /> + +―Ó prima, não vá sem resposta―disse +D. Victoria―que +tambem eu não puz olho, e mais sou +de casa. E por signal que sempre hei de querer saber +quem foi o criado que lhe deu para andar toda +a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda +ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o +primo +Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto. +<br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora; eu não senti rumor. +<br /> + +<br /> + +E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da +morgadinha, que justamente n'aquella occasião lhe +servia uma chavena de chá, e que de novo o fixou +sem perturbação nem affectada +indifferença. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[6]</span> +Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava +um pouco á sua vaidade este nenhum vestigio de +resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena. +<br /> + +<br /> + +No entretanto D. Victoria continuava a commentar +com D. Dorothéa o facto das passadas que ouvira +de noite. +<br /> + +<br /> + +―Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o +que vae. São coisas d'estes criados. Não faz +ideia! +É uma pouca vergonha! É preciso paciencia de +santa para os aturar. +<br /> + +<br /> + +―Angelo,―disse a morgadinha ao irmão―entretido +como estás a conversar com as creanças, +esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece +de se fazer lembrar. Que distracções por aqui +vão! +<br /> + +<br /> + +Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle +tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas +abstracções, a que ultimamente era sujeita. +<br /> + +<br /> + +―Eu não sei que tem hoje esta Christe―disse +Angelo.―Julgo que lhe fez mal o frio na noite de +hontem. +<br /> + +<br /> + +―É verdade, até está falta de +côr! Ora queira +Deus que não seja coisa de cuidado. Dóe-te alguma +coisa, menina?―perguntou D. Victoria, apprehensiva. +<br /> + +<br /> + +―Não, mamã―respondeu Christina. +<br /> + +<br /> + +―Ó meninas, vocês tambem são umas +desacauteladas. +Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses +mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é +não tem +dúvida, e depois é que vem o queixarem-se. +<br /> + +<br /> + +Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas +mais n'este sentido. Estas reflexões fizeram Henrique +desviar os olhos para a pessoa que era objecto +d'ellas. +<br /> + +<br /> + +Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; +e d'esta côr e d'esta expressão recebia uns ares +de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa. +<br /> + +<br /> + +Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta +<span class="pagenum">[7]</span> +creança, em que mal fixára a +attenção até alli, e pela +primeira vez se demorou a observal-a com alguma +insistencia. +<br /> + +<br /> + +―É interessante esta pequenita―pensava elle +comsigo. +<br /> + +<br /> + +Christina ia a levantar os olhos para responder a +D. Dorothéa, quando encontrou os de Henrique a +fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal +pronunciado +rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e +os olhos baixaram-se de novo. +<br /> + +<br /> + +―Ha de ser adoravel esta mulher―pensou +d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro disse, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―Ora, que estão a dizer? A Christe até +está com +umas côres muito bonitas. Triste? Melancolias dos +dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente +está agora n'algum episodio sentimental no +romance da sua imaginação. Não +sondemos aquelles +mysterios, mana. Já não é para +nós comprehendel-os, +prima Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou +o enleio de Christina.<br /> + +<br /> + +A morgadinha, a quem não passára despercebida +a impressão, que a prima d'está vez parecia ter +causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que +havia tanto procurava, e para isso propoz que se +désse uma volta pela aldeia antes da missa do dia. +Esperava ella que as attenções de Henrique, +durante +o passeio, seriam para Christina, se não decorresse +o tempo preciso para que se dissipasse no espirito +do voluvel rapaz a impressão que o dominava. +<br /> + +<br /> + +A manhã convidava á excursão +campestre. A +proposta da morgadinha foi acolhida com applauso. +O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa +do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã. +<br /> + +<br /> + +Levantaram-se todos da mesa, e á +excepção de +D. Victoria e D. Dorothéa, todos saíram. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se +<span class="pagenum">[8]</span> +ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique +de offerecer o braço a Christina, o que effectivamente +aconteceu. +<br /> + +<br /> + +―Bem,―disse Magdalena comsigo ao vêl-os―agora +que os anjos bons de um e de outro se convençam +da obra meritoria que fazem entendendo-se. +<br /> + +<br /> + +E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe +no braço. +<br /> + +<br /> + +Angelo ia com as creanças adeante. +<br /> + +<br /> + +Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, +para vêr se os anjos bons d'elles ambos accederam +ao convite de Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Não ha prazer que se compare ao de um passeio +assim pelos campos, n'uma manhã como a de +hoje, e em companhia tão amavel―dizia Henrique, +procurando aquilatar o espirito da sua +<em>partner</em>, +n'um certame de galanteria, fóra do qual não +concebia +que se pudesse temperar uma paixão. +<br /> + +<br /> + +Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas +respostas lhe estava porventura ditando a alma! +mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, não +lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder: +<br /> + +<br /> + +―Está muito agradavel a manhã, está; +nem parece +de inverno! +<br /> + +<br /> + +―Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural +em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as +aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque prepara +a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as +leituras em commum, e traz-me á ideia as imagens +de um viver a que a phantasia de todos sorri; de +todos os que teem um resto de coração; refiro-me +ás imagens de uma familia. +<br /> + +<br /> + +Não ha quem sustente mais tremendas luctas do +que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda +a violencia dos seus instinctos, contra não sei que +mysterio de temperamento, que lhes reprime as +expansões. Na apparencia é fraqueza e serenidade, +mas no intimo ha esforços realisados, que os fortes +nem concebem sequer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. +Os labios só puderam responder: +<br /> + +<br /> + +―Na cidade o inverno é mais facil de passar, +julgo eu; porém na aldeia... +<br /> + +<br /> + +―Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a +felicidade que eu imagino. Não é fóra +das portas de +casa que devemos procurar os elementos para instituir +a nossa ventura, e por isso... Mas a prima +ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem +que completou os seus vinte e sete annos sem +familia. Não é verdade? +<br /> + +<br /> + +Christina só pôde sorrir: +<br /> + +<br /> + +―Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se +a morrer apaixonado do ideal e abraçado á peor +das realidades. É a consequencia legitima e triste +do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado +na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes; +porém nenhuma que satisfizesse ás necessidades do +meu coração, de quem me affirmasse a consciencia +poder esperar a realisação do meu sonho. +Perdôe-me +falar-lhe n'isto, priminha; é uma ousadia que +tomei, porque um instincto me disse que possue no +coração bastante bondade para m'a perdoar. +<br /> + +<br /> + +―Está a gracejar?―disse Christina, em quem +redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que +estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a sua +felicidade: contradicções proprias dos timidos. +<br /> + +<br /> + +―A prima é muito moça―continuou Henrique, +que não desesperava ainda de animar esta Galatheia―e +talvez por isso lhe causará estranheza este meu +modo de falar. Um dia virá, porém, em que o +comprehenderá +melhor. Se então encontrar um desconfortado +como eu, peço-lhe que tenha misericordia +d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem +a +conheceu n'uma época, em que só podia +vêr em si, +priminha, a aurora de uma esperança que já +não +tinha de luzir para elle. +<br /> + +<br /> + +―Mas... salval-o!... como salval-o!... +<br /> + +<br /> + +―Como as mulheres salvam; amando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[10]</span> +―Bem digo eu que está a gracejar―balbuciou +Christina, com voz trémula. +<br /> + +<br /> + +―Tem o defeito da innocencia―disse Henrique +para si.―Não se lhe tira uma resposta de geito. +<br /> + +<br /> + +N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena +tinha saído da quinta na noite passada. +<br /> + +<br /> + +―Agora deixo-os por aqui―disse o conselheiro―irei +encontral-os á igreja. Vou arrostar com a fera +silvestre ao proprio covil. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei―disse +Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Socega, filha; serei de cera. Até logo. +<br /> + +<br /> + +―Até logo. +<br /> + +<br /> + +E o conselheiro tomou a direcção da casa do +herbanario. +<br /> + +<br /> + +―Era tempo!―disse Henrique comsigo.―A +minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este +gêlo. +<br /> + +<br /> + +A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando +as physionomias de Christina e de Henrique, +conheceu que se não haviam entendido. +<br /> + +<br /> + +―Ainda não!―murmurou ella.―Pobre Christe! +como se deve estar odiando a si mesma! Como ha +de esta creança vencer este obstinado? Mas não +perco ainda as esperanças. +<br /> + +<br /> + +Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se +da scena da vespera e tentou outra vez experimentar +Magdalena. +<br /> + +<br /> + +―Esta porta é da quinta do Mosteiro, não +é, +prima? +<br /> + +<br /> + +―É―respondeu Magdalena, imperturbavel; e +voltando-se para Angelo:―O que te faz lembrar +esta porta, Angelo?―perguntou ella. +<br /> + +<br /> + +―Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós +ambas já de noite, e sem a tia saber, para irmos +ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas. +<br /> + +<br /> + +―Fica perto a casa d'elle?―perguntou Henrique. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> +―É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina―respondeu +Angelo. +<br /> + +<br /> + +Henrique pensava: +<br /> + +<br /> + +―Seria para provocar uma explicação que ella +fez a pergunta? Esta mulher é admiravel! Não lhe +sei resistir. +<br /> + +<br /> + +E já lhe não restavam vestigios da +impressão +causada por Christina. +<br /> + +<br /> + +―Este herbanario―continuou elle em voz alta―deve, +pelos seus habitos excentricos e até pelo +solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa +famazinha de feiticeiro. +<br /> + +<br /> + +―E tem,―affirmou Magdalena―mas de feiticeiro +bem intencionado. +<br /> + +<br /> + +―Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, +do seu viver. +<br /> + +<br /> + +―É certo que poucos se atrevem a passar aqui +de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia. +<br /> + +<br /> + +―Ah! Então temem-se de passar aqui de +noite!... Pobre homem!... O que lhe valerá é +algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. +Que diz, prima Magdalena? haverá? +<br /> + +<br /> + +Antes que a morgadinha respondesse, Angelo +disse: +<br /> + +<br /> + +―Á excepção de Augusto, que ahi vem +quasi +todas as noites, ninguem mais o visita. +<br /> + +<br /> + +―Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas +as noites?! +<br /> + +<br /> + +Magdalena luctava para reprimir a impaciencia. +<br /> + +<br /> + +―Lá me parecia que havia de existir algum de +coragem. Para tanto não chegava o seu animo não, +prima? +<br /> + +<br /> + +―Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido +só, e a altas horas―respondeu Magdalena com a +maior firmeza. +<br /> + +<br /> + +―Sim?! E não tem mêdo? +<br /> + +<br /> + +―De quê? De almas do outro mundo? não tenho +crença para tanto. De malfeitores? não os ha +aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com +<span class="pagenum">[12]</span> +uma suspeita me offendem―disse a morgadinha, +accentuando com expressão as ultimas palavras. +<br /> + +<br /> + +Henrique acudiu immediatamente: +<br /> + +<br /> + +―Longe de mim duvidal-o. +<br /> + +<br /> + +E calaram-se por muito tempo. +<br /> + +<br /> + +Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho +para casa do herbanario. Cruzou-se com varios +homens, mulheres e creanças de aspecto doentio e +soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito +dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, +creanças de aspecto rachitico e enfezado, +os mais melancolicos exemplares do infortunio +humano. +<br /> + +<br /> + +―São os peregrinos que veem de Meca―disse +comsigo o conselheiro.―Pelo que vejo a clientela +do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, +como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo +censor não trata com muito respeito o codigo. +<br /> + +<br /> + +Entrou emfim a porta do quintal. +<br /> + +<br /> + +Poucos passos andados encontrou-se com o Zé +P'reira, que vinha virando e revirando nas mãos +um papel e monologando, segundo o costume: +<br /> + +<br /> + +―Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso +Senhor com esta mexerofada! Isso até era um peccado. +N'essa não caio eu! +<br /> + +<br /> + +O conselheiro interrogou-o sobre as causas +d'aquelle aranzel. +<br /> + +<br /> + +O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando +uma receita que lhe dera o herbanario no +virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, +causa dos seus males. A receita era extrahida da +<em>Polyantheia</em>, e tinha por +ingredientes uma cabeça +e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado +de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe +a efficacia. +<br /> + +<br /> + +Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro +seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem +a quem era familiar a topographia do quintal. Cêdo +<span class="pagenum">[13]</span> +chegou á vista do herbanario, que dera audiencia +<em>sub tegmine fagi</em>. +<br /> + +<br /> + +Estava sentado á borda de um tanque, a que uma +d'essas arvores dava sombra. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros +e veio ter com elle. +<br /> + +<br /> + +Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, +depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira +posição e ficou silencioso. +<br /> + +<br /> + +―Bons dias, Vicente―disse o conselheiro com +familiariedade e parando defronte d'elle. +<br /> + +<br /> + +―Bons dias, Manoel―respondeu o herbanario, +deixando-se ficar sentado. +<br /> + +<br /> + +―Saía agora d'aqui um homem, que julgo será +rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que +se não cura. +<br /> + +<br /> + +―Os vicios são enfermidades mais rebeldes do +que os achaques do corpo, são. +<br /> + +<br /> + +―Já que tu não appareces no Mosteiro, como +d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal, +vim eu vêr-te. +<br /> + +<br /> + +―Obrigado. +<br /> + +<br /> + +―A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente―continuou +o conselheiro, sentando-se á beira do +tanque.―Cada vez te estás a sequestrar mais dos +homens, cada vez mais os aborreces. +<br /> + +<br /> + +―Eu não aborreço os homens, enganas-te. +Não +os aborrece quem passa a vida a procurar os +meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes. +Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro +já no mundo pouca gente com quem me +entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por +isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle. +<br /> + +<br /> + +―És um homem singular; um verdadeiro philosopho. +Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando +assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse +banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados, +e os olhos no chão? +<br /> + +<br /> + +―No passado. Pois não t'o disse já? O domingo +<span class="pagenum">[14]</span> +reservo-o eu para me recordar. Ahi está que ha +pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques +na igreja, lembrei-me de que era, dia de +Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos +atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle, +Manoel? +<br /> + +<br /> + +―Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não. +<br /> + +<br /> + +―Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e +dois annos que, mais cêdo do que estas horas, +vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais +ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. +Meu pae saíra; julgámos nós ambos boa +a +occasião de levar a cabo um projecto que havia +muito tempo traziamos na cabeça. Crescia a um +canto do muro, além, á beira do poço, +uma pequena +faia que alli não podia durar muito tempo; meu +pae todos os dias a ameaçava com a enxada e a +custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a. +Deitámos mãos á obra essa +manhã, e, no fim +de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a +para onde a deixassem em paz os hortelões, +e para junto da agua que ella já tinha procurado. +Conheces a arvore hoje? +<br /> + +<br /> + +―Não―disse o conselheiro, olhando em roda, +como á procura de algum pequeno arbusto. +<br /> + +<br /> + +―Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje +arvore. É esta a que me encosto. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro levantou então os olhos para os +ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse +impossivel ter sido removida para alli por suas +mãos. +<br /> + +<br /> + +―É singular como os annos correm, e as arvores +crescem depressa―disse elle, distrahidamente. +<br /> + +<br /> + +―Depois da nossa tarefa, sentámo-nos―proseguiu +o herbanario.―Tu ficaste, exactamente como +estás agora, á beira d'este tanque. +Então, lembra-me +bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, +que ainda não sabiamos se viveria, tu disseste: +«Fizemos uma obra que durará mais do que +<span class="pagenum">[15]</span> +nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O +machado vem, +quando menos se espera.» +<br /> + +<br /> + +―Como te lembras bem d'essas coisas!―disse +o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque +não agourava bem do exordio que abrira a entrevista. +<br /> + +<br /> + +―Ai, eu tenho boa memoria! +<br /> + +<br /> + +Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu +subitamente, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Mas a final o que te trouxe hoje aqui? +<br /> + +<br /> + +O conselheiro respondeu com resolução: +<br /> + +<br /> + +―Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te +de um objecto grave. +<br /> + +<br /> + +―Sim? E commigo é que vens tratar os objectos +graves? +<br /> + +<br /> + +―Por que não? sempre foste homem de bom +conselho. +<br /> + +<br /> + +―Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste +assim. +<br /> + +<br /> + +―Não poderás dizer que deixasse alguma vez de +te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos +diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar +diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi +procedem divergencias naturaes, que comtudo nos +não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu. +<br /> + +<br /> + +―Bem, então dizias tu que vinhas?... +<br /> + +<br /> + +―Trata-se de um negocio de muita importancia, +Vicente. +<br /> + +<br /> + +―Dize. +<br /> + +<br /> + +―Responde-me primeiro: tens ainda animo para +sacrificios? +<br /> + +<br /> + +―Pouco tenho que sacrificar. +<br /> + +<br /> + +―Tens, e é um sacrificio doloroso. +<br /> + +<br /> + +―Acaba. +<br /> + +<br /> + +―Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este +quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto. +<br /> + +<br /> + +O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, +acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu, +com certa ironia: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +―E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me +a isso? Avisas-me para eu me arredar a +tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do +que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem +decepadas? És generoso, Manoel, em teres ainda +em conta a vida de um homem inutil. +<br /> + +<br /> + +―Ahi estás já com as tuas +recriminações. Acredita +que eu... +<br /> + +<br /> + +―Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que +não tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem +e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares +o coração de um velho e pobre amigo e offenderes +os interesses de algum rico e poderoso +influente, tomaste o primeiro partido; e, como os +differentes habitos de vida te ensinaram em muitas +coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não +déste a isso o nome de ingratidão. +<br /> + +<br /> + +―Ouve. +<br /> + +<br /> + +―Sê franco, que eu te ouvirei. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era +indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. +Estava n'isso empenhada a minha palavra e a +minha honra. Ha muito que os meus adversarios +me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui, +apesar d'esta situação politica me ser contraria. +Tres traçados se offereciam. Um sacrificava +uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo +que não é muito rico, que está no +principio da +existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella +não teria occasião de maldizer a imprevidencia de +quem devera olhar por os seus interesses. Querias +que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos +hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, +convenientemente trabalhados, podem ser de um +valor importante. Querias que o fizesse? ou não me +desculpas por o não ter feito? +<br /> + +<br /> + +―Fizeste bem―respondeu o herbanario. +<br /> + +<br /> + +―O outro traçado cortava os bens do brazileiro +Seabra. Conheces este homem? Um elemento que, +<span class="pagenum">[17]</span> +nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a +vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas +tambem uma cabeça que, entregue a si, não faz +coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente +a esse traçado; se o não attendesse, +declarava-se, +por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia +(e algumas armas tem para luctar), imagina a +calamidade que seria para este circulo o confiar +áquellas mãos os seus destinos; vencido, era +perder +a esperança de tirar dos bem fornecidos cofres, +que o homem possue, alguma coisa mais util do +que um sino para a igreja ou vestimentas novas +para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar +o homem, para vêr se consigo d'elle uma casa para +escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, +e um estabecimento sericicola; se o desattendesse, +lá iam as esperanças d'estes melhoramentos +tão uteis, e que o mais que nos poderão custar +é um diploma de visconde ou uma commenda. Sei +que te não agradam estes meios, porém olha que +em politica são dos mais innocentes que podem +empregar-se. Já vês pois que o segundo +traçado tinha +desvantagens para o circulo, por cujo interesse +me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois o +terceiro traçado que, lealmente o confesso, não +era +o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado; +eu sabia de mais o que valia para o teu +coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu +mesmo +possuo memorias ligadas a estas arvores, e não ha +homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia +desapparecerem os vestigios dos seus tempos +de infancia e de juventude; mas sabia tambem +que tu eras uma alma generosa e heroica, e que não +duvidarias comprar, á custa das tuas dores e saudades, +um melhoramento para esta terra, que tanto +amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida +ainda agora de má vontade, corre risco de se +não fazer, se, quanto antes, não principiarem os +trabalhos; +a menor opposição dos proprietarios, o menor +<span class="pagenum">[18]</span> +embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura +indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. +Enganei-me? +<br /> + +<br /> + +O herbanario estava cada vez mais +pensativo. <br /> + +<br /> + +―Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais +importancia a dois annos de vida que me restam, do que á +vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem. <br /> + +<br /> + +―Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, +dissipa as apprehensões com que estás; em +toda a parte terás arvores... <br /> + +<br /> + +O herbanario interrompeu-o: <br /> + +<br /> + +―Se não entendes o amor que eu tenho a estas, +não faças por consolar-me, Manoel, porque me +affliges mais. <br /> + +<br /> + +―Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em +qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago +á tua espera, tanto á mesa, como ao canto do +fogão, e amigos que te receberão +com prazer. <br /> + +<br /> + +―Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de +pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem +que semeei. <br /> + +<br /> + +―Eu farei com que o contracto da expropriação +seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias... <br /> + +<br /> + +―Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, +ninguem m'o pagaria; a não attender a isso, tudo +será pagal-o bem. <br /> + +<br /> + +―Mas... <br /> + +<br /> + +―Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores +me ouçam propôr o preço +por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então... <br /> + +<br /> + +―Tudo. Dize em que te posso servir. <br /> + +<br /> + +―Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre +rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um +homem, que tem vinte annos, um coração e uma +cabeça como tu sabes, e +<span class="pagenum">[19]</span> +que de ti e dos teus, da gente que dá e vende +graças, honras e empregos, só quer um favor... +mais uma justiça: lembra-te d'isso. <br /> + +<br /> + +―Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa +facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse +rapaz perde por modesto. Acredita, ás vezes é +mais facil servir os +ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. É +certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas +não importa; conta com isso, como negocio concluido. <br /> + +<br /> + +―Emquanto não vir... <br /> + +<br /> + +―Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que +pedes? Vê lá. <br /> + +<br /> + +―E que me deixes agora só. <br /> + +<br /> + +―E não me ficas querendo mal, Vicente? <br /> + +<br /> + +―Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou +pelo menos que suppões que a tens. Basta-me isso para te +perdoar. <br /> + +<br /> + +―Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de +Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha +eleitoral. <br /> + +<br /> + +―Não prometto. <br /> + +<br /> + +―Adeus. <br /> + +<br /> + +O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que +não retirou a sua, e partiu. <br /> + +<br /> + +―Está feito!―ia pensando o conselheiro á +saída―não foi tão difficil como +julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o +vê! O que faz a idade! Bem! Agora é apressar os +trabalhos para antes das eleições, a +vêr se acalmam algum +fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que +pequeno será. <br /> + +<br /> + +N'estas cogitações chegou á igreja. +Magdalena esperava-o no adro. <br /> + +<br /> + +―Então?―perguntou ella, com anciedade. <br /> + +<br /> + +―Tudo está remediado; entendemo-nos +perfeitamente―respondeu o conselheiro, com manifesta +satisfação. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +―Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!―exclamou +Magdalena, com alegria. <br /> + +<br /> + +―Como ceder?―tornou o pae.―Elle é que foi mais +condescendente do que eu esperava. Não oppôz a +menor resistencia, nem se queixou muito amargamente. <br /> + +<br /> + +―Pois consentiu?! <br /> + +<br /> + +―Sem grande custo, ao que parecia. <br /> + +<br /> + +―Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo +devéras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu +pae! <br /> + +<br /> + +―Ora vamos; a tua imaginação é que te +illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o +brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu +vou já ter comvosco. <br /> + +<br /> + +E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que +estavam aquellas duas notabilidades. <br /> + +<br /> + +―Dou-lhes uma boa nova, meus senhores―disse o conselheiro, depois de +cumprimental-os―dentro em pouco temos os alviões a +trabalhar cá na +terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do +homem, que nos obrigassem a +expropriações judiciaes, sempre demoradas. Mas +não, achei-o nas melhores disposições; +e assim, dentro em +poucos dias... <br /> + +<br /> + +―Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios +não sejam tão doceis―lembrou o brazileiro. <br /> + +<br /> + +―Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores +com pouco se contentam. <br /> + +<br /> + +―Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco―disse o +brazileiro, sorrindo velhacamente―mas os modernos... <br /> + +<br /> + +―Pois mudaram de senhorio? <br /> + +<br /> + +―Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo. <br /> + +<br /> + +―E quem os comprou? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[21]</span> +―Este seu criado. <br /> + +<br /> + +O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, +dizendo: <br /> + +<br /> + +―Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e +independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos +publicos, do que... <br /> + +<br /> + +―Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os +melhoramentos particulares. Eh, eh, eh. <br /> + +<br /> + +―De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma +empreza como esta. <br /> + +<br /> + +―Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios +á parte. <br /> + +<br /> + +O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o +espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo. <br /> + +<br /> + +―Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?―requereu do lado o sr. +Joãozinho das Perdizes. <br /> + +<br /> + +―Mil que pretenda―acudiu o conselheiro; e tomando o braço +do morgado afastou-se do grupo. <br /> + +<br /> + +―Eu tenho a pedir-lhe um favor―principiou o morgado.― Eu, como sabe, +interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, +que quer vir ensinar para aqui. Este negocio está empatado, +como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este +respeito. <br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas...―fez-lhe notar o conselheiro―não sabe +que é Augusto o outro concorrente? <br /> + +<br /> + +―Então que tem isso? <br /> + +<br /> + +―Não lhe parece que seria uma injustiça? Um +rapaz de merecimento, como elle é, aqui da terra, que +já exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia? +e haviamos de... <br /> + +<br /> + +―É verdade,―atalhou o outro―pois isso é +verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte. <br /> + +<br /> + +―Mas se o rapaz quer isto? <br /> + +<br /> + +―Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E +vamos, sr. conselheiro, a gente tambem +<span class="pagenum">[22]</span> +não ha de estar só a +fazer favores, sem os +receber quando os pede. Com este já são tres. +Pedi-lhe +para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas +caudelarias lá para a freguezia... estou á espera +d'ellas... Ora isto não se faz. O +senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições +com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora +não sei o que será. A +não se decidir este negocio depressa... <br /> + +<br /> + +―Ora não será isso motivo para tanto. <br /> + +<br /> + +―Com certeza que é―insistiu o sr. +Joãozinho.―Então digo-lhe mais: a mim +já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria +dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já +estão no +poleiro não sei se lhe diga que não é +peor. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo: <br /> + +<br /> + +―Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de +fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em +relação ao que me diz, eu verei. <br /> + +<br /> + +―Mau! Não é «eu verei». +Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás +eleições +não estiver feito o despacho, não conte commigo. <br /> + +<br /> + +―Mas quem lhe diz que não ha de estar? <br /> + +<br /> + +―Pois lá isso... <br /> + +<br /> + +―Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa. <br /> + +<br /> + +―Bem. <br /> + +<br /> + +O sino tocava a chamar para a festa. <br /> + +<br /> + +Terminou o dialogo. <br /> + +<br /> + +―O peor―ia pensando o conselheiro―o peor é que prometti +ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem +dúvida; é +tão magra a posta, que não vale a pena +disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É +preciso ter +ambição por elle. Se elle quizesse ir para +Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se +maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o +que sabe. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[23]</span> +Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado +o pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de +impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, +á fôrça de cortezias e +cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção. <br /> + +<br /> + +Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o +latinista com tanto ardor namorava. <br /> + +<br /> + +O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau +humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: <br /> + +<br /> + +―Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não +farta de chupar. Contente-se com o que tem; vá conjugando o <em>laudo, +laudas</em>, que outros, com mais merecimentos, nem isso +conseguem; e deixe-me. <br /> + +<br /> + +O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a +admoestação, e curvou-se para deixar passar o +conselheiro. <br /> + +<br /> + +Mas lá comsigo dizia: <br /> + +<br /> + +―Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te +não pica. <br /> + +<br /> + +E entrou tambem para a igreja, com não muito +christãs disposições de espirito. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XVIII </h4> + +<br /> + +Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em +visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo +eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que +tomava parte, com gôsto, n'estas excursões +politicas. <br /> + +<br /> + +Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de +Pinchões, passaram elles um dia. Nos solares +<span class="pagenum">[24]</span> +do morgado tudo era desordem e +desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se +trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira +lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes +dóses de carne de porco e de vinho, com que elle, +á viva fôrça, o queria regalar. <br /> + +<br /> + +No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do +chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos +pés dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles +não conseguiram desalojar, e que toda a noite os +incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fóra. <br /> + +<br /> + +Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o +obrigava a esta noitada. <br /> + +<br /> + +Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua +propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em +affectadas exclamações, deante dos prodigios de +mau gôsto reunidos alli. <br /> + +<br /> + +As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos +feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; +um pequeno modelo de fragata brazileira com +tripulação de altura dos cestos de +gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e +com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, +eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas +vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas; +bordados, diplomas de socio de não sei quantas sociedades +brazileiras; tudo +encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus +de Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades +accrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio +que cantava o hymno brazileiro. <br /> + +<br /> + +Henrique saíu de lá exhausto de paciencia. <br /> + +<br /> + +Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, +<span class="pagenum">[25]</span> +todo o periodo das festas do +Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa +que mereça nota. <br /> + +<br /> + +Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem +outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão +acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não +voltára ao Mosteiro desde então. Era tempo de +férias para as creanças, o que fazia natural esta +ausencia, contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena +nunca porém alludia a ella. Christina passava o tempo, +querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de +ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra. <br /> + +<br /> + +Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo +do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando. +<br /> + +<br /> + +Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram +para assistir á solemnidade popular. <br /> + +<br /> + +Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia +ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia +mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia +dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipação +andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia +desempenhar. <br /> + +<br /> + +Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, +são como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a +varredura estrangeira deixou ficar pelo chão. <br /> + +<br /> + +Não obstante as extravagancias e as +modelações toscas e risiveis de muitos, +é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado +mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada +musa das cidades, a cujo paladar já sabem mal as +popularissimas redondilhas, tão apreciadas ainda na +Hespanha. <br /> + +<br /> + +Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou +pateo de quinta um tablado; veem adornal-o +<span class="pagenum">[26]</span> +as mais vistosas colchas de +chita, das quaes tambem se formam os bastidores; alugam-se +nos depositos mais modestos da cidade ou villa proxima vestidos de +reis, de principes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de +épocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma +plateia rustica, ao ar livre, como no theatro antigo, desfiam-se em +cantada choradeira as sentimentaes peripecias da vida de qualquer +santo, ou, entre gargalhadas, os episodios comicos do +algum enredo popular. +<br /> + +<br /> + +A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do +Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do +circulo, em parte por conveniencia dos emprezarios, pela +apropriação do +terreno a todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes +casos recebiam de s. ex.<sup>a</sup>, essa circumstancia, +dizemos, augmentava o +numero de espectadores. <br /> + +<br /> + +Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do +espectaculo popular. <br /> + +<br /> + +O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem +pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava +pôr á +disposição dos seus representados. <br /> + +<br /> + +Desde a vespera havia grande agitação e azafama +no pateo do Mosteiro. Os artifices levantavam o tablado scenico; +pregavam e despregavam taboas; serravam barrotes; os directores, e +á frente d'elles o infatigavel e imaginoso Pertunhas, davam +ordens contradictorias; e os curiosos estacionavam em magotes, +difficultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres +absurdos. <br /> + +<br /> + +Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora +dos seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida +e de enthusiasmo. <br /> + +<br /> + +Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir +a espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia +chorar +<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span> +as creanças e estremecer as mães; ia +resuscitar Herodes, o déspota legendario. <br /> + +<br /> + +Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e +insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos +scenicos futuros. <br /> + +<br /> + +Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com +a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a +ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a +d'elle. <br /> + +<br /> + +E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do +recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio +de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de +rusticidade continha abafado mineral de lei. <br /> + +<br /> + +Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam +porventura arrebatar plateias inteiras com as +revelações do genio, que ás +vezes n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda +assim inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o +sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava +o gesto no calor do desempenho; não mentia aquella +embriaguez que lhe causavam os applausos da multidão. +Não ha verdadeiro genio artistico, que se não +namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O +homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será +poeta nem artista de verdadeira inspiração. O +amor vivo da <a href="#e5">gloria</a> adeantou a +meio caminho os emprehendedores d'esta +nova conquista de vellocino. <br /> + +<br /> + +Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista +novel, á lembrança do espectaculo, em que pela +primeira vez ia entrar. <br /> + +<br /> + +As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido +encarregar-se da +<em>toilette</em> da Fama. <br /> + +<br /> + +Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o +Mosteiro, e passava das mãos de Magdalena para as de +Christina e das d'esta para as d'aquella, e +<span class="pagenum">[28]</span> +sempre com recato preciso para que ninguem +mais lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a +occasião a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo +é que mais tiveram que luctar. <br /> + +<br /> + +Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo +de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, +occulto por as colchas de chita aos olhares da multidão. <br /> + +<br /> + +Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica, +dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de +batuta. <br /> + +<br /> + +Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, +uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das +torturas. <br /> + +<br /> + +Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos, +deu o signal de principiar. <br /> + +<br /> + +Um, dois, tres; um, dois―dizia ou fazia elle com os olhos e com os +movimentos da cabeça e pés, porque a +bôca, essa já estava applicada +á embocadura da trompa. O segundo «tres» +era o tempo fatal. Os musicos, porém, ou por distrahidos, ou +por a commoção propria dos actos solemnes, +não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da +trompa do mestre Pertunhas, achou-se só no +espaço, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade +dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue. <br /> + +<br /> + +Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando +as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota +chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas +atraz d'ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de +indescriptivel effeito. <br /> + +<br /> + +O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e +o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a +vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre +os da banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de +razão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade! <br /> + +<br /> + +Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia. <br /> + +<br /> + +Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que +fôram de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de +um Cham ou Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que +ameaçava estalar todas as costuras da farda, primitivamente +feita para um individuo de metade das dimensões d'elle, com +as faces insufladas, a testa contrahida e os olhos injectados para +extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava com +arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um +flautim, de braços compridos e tibias +esquinadas, com meio braço fóra das mangas, com +meia perna de fóra das calças, figura em que +havia não sei o que de onomatopaico, tão bem se +casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exiguo +instrumento. O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz +adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em tufos no meio das +faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os +pulmões dentro de um figle; um corcovado e +semi-anão repicava os ferrinhos com uma prodigalidade +assustadora; as baquetas da caixa estavam confiadas ás +mãos callosas de um +moço de lavoura, de rêpas hirsutas a cobrir-lhe a +testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, no meio d'estas e +analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo +com o pé, suando, arregalando os olhos, piscando-os, +marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa, +que lhe dava então não sei que apparencias de +proboscidiano. <br /> + +<br /> + +Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a +familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram +de dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista +<span class="pagenum">[30]</span> +que se conhece. Henrique foi quem mais +sublimes esforços fez para soffrer com paciencia aquellas +torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de S. Carlos +perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso +aquella banda pandemonica! <br /> + +<br /> + +―Coragem! coragem!―murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como +perfeito politico.―Nas occasiões é que os homens +se conhecem! Coragem. <br /> + +<br /> + +―É em extremo forte a +provação!―respondia-lhe, gemendo, Henrique. <br /> + +<br /> + +―Firmeza; que a pallidez do susto nos não +atraiçoe―continuava aquelle. <br /> + +<br /> + +Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a +seriedade. <br /> + +<br /> + +A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido +tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o +estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares +de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que já +se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, +como se fôra a resultante do palpitar de tantos +corações. <br /> + +<br /> + +Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes. <br /> + +<br /> + +A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros +largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas +negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as +juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho +selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na +multidão um quasi pavor, que nem o conhecimento intimo que +tinha do homem conseguia dissipar. <br /> + +<br /> + +Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos, +corpete de velludilho azul, calções golpeados. +Pendia-lhe á cinta +um alfange e uma pistola; ao peito algumas +condecorações. <br /> + +<br /> + +Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> +O auto rompe com um monologo de Herodes. <br /> + +<br /> + +O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz +considerações substanciosas sobre a +condição dos reis em geral e a sua em particular. +Principia elle assim: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Não ha vida mais inquieta,<br /> + +Nem mais cheia de cuidados,<br /> + +Do +que a de um rei que pretende<br /> + +Conservar os seus estados.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços +cruzados, medindo o palco a passos largos. <br /> + +<br /> + +Continuavam varias proposições de physiologia do +throno, e, do caso generico baixando ao particular, da these +á hypothese, principia a falar de si. Cancella, conhecedor +dos segredos da arte, começava aqui a dar mais vida +á recitação, como +para mostrar o maior empenho que tomava a alma n'este capitulo da +especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda do Messias, e +inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz +traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de +desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos +paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a +fôrça á sua voz potente, soltava +berros, que participavam da natureza dos do tigre.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Começarei desde logo<br /> + +A publicar leis tyrannas,<br /> + +Que +aterrem os meus montes,<br /> + +Os palacios e as choupanas. <br /> + +<br /> + +Será tal o meu furor,<br /> + +Tal a minha +indignação,<br /> + +Que ninguem se atreverá<br /> + +A +conquistar meu brazão.</div> + +<br /> + +<br /> + +O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam +a fixar-se. A excitação +de animos a que os transportes de Herodes, inquieto +<span class="pagenum">[32]</span> +pelo seu brazão, levára o publico, +foi serenada +por um chorado côro de anjos que cantavam atraz da cortina: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Não temas, +ó rei cruel,<br /> + +Que te conquiste o +docel.</div> + +<br /> + +<br /> + +Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe +afiançarem a segurança do docel, +pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o mêdo no +coração, mêdo que procura afugentar +com bravatas, em que ameaçava pôr tudo por terra. +O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos. +<br /> + +<br /> + +Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do +Herodes. Para este final do monologo reservava todos os segredos da +arte; apoderava-se d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos +olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da +individualidade propria; suppunha-se Herodes; e até... +ó fôrça da +arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi +chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era +dominado por o artista, e n'um d'estes silencios que todos +prevêem se desencadeiará em brados de enthusiasmo +e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Porém o furor me +incita!</div> + +<br /> + +<br /> + +Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o +alfange e abria os braços. Tinha o que quer que era de +Adamastor, visto assim. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">O brio dá-me ousadia.</div> + +<br /> + +<br /> + +Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a +mão esquerda. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Para defender o sceptro<br /> + +A favor da tyrannia!</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[33]</span> +Aqui agitava os braços como azas de moinhos. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Será cada +lança um raio!</div> + +<br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Cada espada um corisco,</div> + +<br /> + +<br /> + +E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do +simile. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Cada soldado um +trovão,</div> + +<br /> + +<br /> + +E trovejava-lhe a voz. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Cada golpe um basilisco!</div> + +<br /> + +<br /> + +E na posição e gesto em que ficava, +não era menos terrivel e pavoroso do que a fera da +comparação. <br /> + +<br /> + +Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as +mulheres e as creanças ficaram +silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um peccado applaudirem +Herodes. E não sei se, o que fizera menos escrupulosa n'este +ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das janellas +do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no +palco são admirados, mas raras vezes applaudidos. <br /> + +<br /> + +Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o +auto. <br /> + +<br /> + +Dariamos de bom grado na integra tão importante +peça dramatica ou pelo menos circumstanciada noticia d'ella, +se não receiassemos o recheio excessivo para esta ordem de +alimentos litterarios, que se querem leves. Não podemos +comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente. <br /> + +<br /> + +Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro +do dito―assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que dá +a entender que Herodes era homem de +<span class="pagenum">[34]</span> +escripturacão regular,―o capitão das tropas +reaes, os tres reis magos, o anjo, a Virgem, S. José e o +menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidadãos de +differentes cidades, o criado de um d'elles, a Fama e duas +creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho. <br /> + +<br /> + +As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na +lapa de Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto. <br /> + +<br /> + +A imaginação do espectador era a encarregada da +mudança do scenario. <br /> + +<br /> + +O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas +as cordas do coração. <br /> + +<br /> + +Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a +sympathia pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres +moços de lavoura, de manto, luvas de algodão e +turbante, os quaes, em lamuria nasal e com profusão de +<em>xes</em>, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma +das quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao +Deus nascido a protecção para Portugal. <br /> + +<br /> + +Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como +carpinteiro que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina, +emquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem +principiava a despontar o buço da puberdade. O anjo +apparecia, como nas procissões, carregado de +cordões de ouro. <br /> + +<br /> + +No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica +simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, +chega a elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro +mocetão em trajes femininos, e da parte da ama offerece aos +foragidos algum dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por +não poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece +com as phrases da tarifa, recommendando-se muito a sua prima. <br /> + +<br /> + +O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha +personagens, reflexões e scenas +<span class="pagenum">[35]</span> +sempre apreciadas e já +aguardadas pelo publico, que as saúda com sinceras +gargalhadas. D'estas a principal é evidentemente a que se +passa entre um cidadão, de quem a sacra familia recebe +gasalhado, e o criado do mesmo. <br /> + +<br /> + +É uma scena de disputa domestica, cheia de +allusões satyricas á classe dos criados de +servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois de +mostrar ao criado, de relogio em punho―anachronismo shakspeareano―a +demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o +auditorio: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Não se pode ter criados<br /> + +Hoje em dia, n'esta vida,<br /> + +Ou quem +houver de os ter<br /> + +Não lhes deve dar guarida.</div> + +<br /> + +<br /> + +N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso +episodio. <br /> + +<br /> + +D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa +de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de +sentir, não pôde +conter-se, que não exclamasse: <br /> + +<br /> + +―Aquillo é que é uma verdade! <br /> + +<br /> + +A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro, +riso que teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo. <br /> + +<br /> + +A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir +pelo caixeiro o rapé ao auditorio; outra liberdade que +produzia sempre o maior effeito. <br /> + +<br /> + +O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia +pitadas ao publico, dizendo: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +O meu amo, com ser rico,<br /> + +Gosta d'estas patuscadas.<br /> + +Nunca os senhores +tiveram<br /> + +As pitadas tão baratas.</div> + +<br /> + +<br /> + +Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo +a regularidade do espectaculo. +<span class="pagenum">[36]</span> +Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam, +todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: +«Dominus tecum» e «Deus +te salve» no meio de toda aquella confusão. +Porém a um signal de mestre Pertunhas, que deixou por um +pouco folgar o espirito das massas, tudo entrou na ordem. <br /> + +<br /> + +Preparava-se nova transição dramatica. O criado, +que vae a saír, volta, dizendo com gesto espantado e tom +exclamatorio: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Jesus, Jesus, que é +isto?<br /> + +Jesus do meu +coração!<br /> + +O signal da cruz me livre<br /> + +De +tão terrivel visão.</div> + +<br /> + +<br /> + +Era a Fama que apparecia. <br /> + +<br /> + +Ermelinda entrava em scena. <br /> + +<br /> + +No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que +entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia +tão completo contraste, que um murmurio significativo de +profunda sensação correu o auditorio. <br /> + +<br /> + +Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao +que era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, +para lhe darem a apparencia superior. <br /> + +<br /> + +O proprio Henrique, que até alli estivera commentando +maliciosamente o espectaculo, não pôde reter uma +exclamação de surpreza, que foi secundada por +o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo occupava +agora a scena. <br /> + +<br /> + +A simplicidade do vestir concorria para esse effeito. <br /> + +<br /> + +Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe +descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos +contornos e esbeltas proporções d'aquella +creança, que promettia ser uma mulher esculptural. Os +cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara, +caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando +<span class="pagenum">[37]</span> +como fios de ouro, na +alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das faces +sobresaía n'aquella moldura natural. Com os +braços descaídos, os dedos encruzados, e a +cabeça ligeiramente pendida, em expressão de +melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de +Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem +o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no +gesto o encanto da innocencia, tendo nos passos a +hesitação da timidez. Havia tanto de sobrenatural +no vulto candido, franzino e melancolicamente suave d'aquella +creança, que o actor que estava em scena não teve +de simular espanto, porque o sentia real, e não podia +desviar os olhos d'aquella apparição. <br /> + +<br /> + +O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a +fôrça de um encantamento. <br /> + +<br /> + +Como na antiga tragedia, o facto principal da +acção, a carnificina dos innocentes, passava-se +fóra de scena. Á Fama competia narral-o. <br /> + +<br /> + +Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor +de commoção, principiou lentamente e no meio de +um religioso silencio a recitar os versos da +narração, os quaes, como o leitor já +sabe, não eram os do auto, que mestre +Pertunhas se estafára a ensaiar. <br /> + +<br /> + +Os versos que Ermelinda recitou diziam assim: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Desci dos celestes +córos,<br /> + +Por Deus mandada a escutar<br /> + +Da +infancia as queixas e os choros,<br /> + +Para lh'os ir confiar. <br /> + +<br /> + +Desci. Na terra, nos mares<br /> + +Tanta miseria encontrei.<br /> + +Que os meus +magoados olhares<br /> + +Da terra e mar desviei. <br /> + +<br /> + +Desci. E tantos gemidos,<br /> + +Tão dolorosos ouvi!<br /> + +Que, turbados +os sentidos,<br /> + +Quiz recuar... mas desci.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +<div class="poetry3 tinyl">N'esta colheita de +dôres<br /> + +Pelo mundo todo andei,<br /> + +No pranto dos peccadores <br /> + +As minhas vestes +molhei. <br /> + +<br /> + +Vagueando dias e dias,<br /> + +Chegára á Judéa +emfim,<br /> + +Quando um clamor de agonias<br /> + +Veio de longe até mim. <br /> + +<br /> + +O sol, o sol inflammado<br /> + +D'estas terras orientaes,<br /> + +Tinha no disco +afogueado<br /> + +Não sei que estranhos signaes. <br /> + +<br /> + +Soavam menos distantes<br /> + +Sinistros brados de dôr,<br /> + +Choros de +mães e de infantes,<br /> + +Cantos de morte e terror. <br /> + +<br /> + +Vi anjos de azas nevadas<br /> + +Em bandos subir ao céo,<br /> + +Quaes +pombas amedrontadas<br /> + +Fugindo á voz de escarcéo. <br /> + +<br /> + +«Onde ídes? Quem vos persegue?<br /> + +A que tormentas +fugis?»<br /> + +Um, que triste o bando segue,<br /> + +Estas palavras me diz: <br /> + +<br /> + +«Somos as almas de infantes<br /> + +Mortos em guerra feroz;<br /> + +Inda das +mães delirantes<br /> + +Nos chama a sentida voz. <br /> + +<br /> + +«Só a materna saudade<br /> + +Nossa carreira detem,<br /> + +Embora +no céo, quem ha de<br /> + +Esquecer, o amor de +mãe?» <br /> + +<br /> + +Disse e o semblante formoso<br /> + +Com as azas encobriu,<br /> + +E ao bando silencioso<br /> + +Silencioso se uniu. <br /> + +<br /> + +Eu segui. Na impia cidade<br /> + +Aterrada penetrei...<br /> + +Ai, da fera humanidade<br /> + +Os meus olhos desviei!</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +<div class="poetry3 tinyl">Que scena! Corre nas +praças<br /> + +Sanguinaria +multidão,<br /> + +Como nuvem de desgraças<br /> + +Semeando a +desolação. <br /> + +<br /> + +Cáem por terra sem vida<br /> + +Tenras creanças +ás mil,<br /> + +E uma turba enfurecida<br /> + +Corre á +matança febril, <br /> + +<br /> + +As mães pallidas, chorosas,<br /> + +Supplicam, pedem em +vão!<br /> + +N'essas feras sanguinosas<br /> + +Não palpita um +coração. <br /> + +<br /> + +Outras tentam em delirio,<br /> + +Os seus filhos disputar,<br /> + +E com elles no +martyrio<br /> + +Gostosas se vão juntar. <br /> + +<br /> + +Sobre a terra ensanguentada<br /> + +Eu soluçando, ajoelhei,<br /> + +E de +intensa dôr magoada,<br /> + +A Deus piedade implorei. <br /> + +<br /> + +Findava a prece, e uma estrella<br /> + +No horisonte despontou,<br /> + +Pura, +scintillante, bella<br /> + +O caminho me traçou. <br /> + +<br /> + +Á humilde e escondida estancia<br /> + +Da venturosa Belem<br /> + +Cheguei; +vi um Deus na infancia<br /> + +Nos ternos braços da mãe. <br /> + +<br /> + +Minha colheita de dôres<br /> + +N'aquelle berço depuz,<br /> + +Da +humanidade aos rigores<br /> + +Pedi remedio a Jesus. <br /> + +<br /> + +No olhar do divino infante<br /> + +Raiou a luz e fulgor,<br /> + +Foi a aurora radiante<br /> + +Que annuncia um redemptor.</div> + +<br /> + +<br /> + +Não se descreve a impressão causada por estes +versos, que assim transformavam a Fama do auto +<span class="pagenum">[40]</span> +no Anjo da guarda da infancia. Muitas +causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto +de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e +depois aquellas palavras inesperadas, aquella +exposição +desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram +recitados, parecia augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da +impressão d'aquella voz sonora e infantil, ninguem procurava +explicar o mysterio. Milagre lhes parecia e quasi como milagre o +acceitavam, e de ouvidos attentos, collos estendidos e bôcas +semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, aquellas palavras, como se +de um verdadeiro emissario celeste as escutassem. O tablado enchera-se +pouco a pouco de gente, e ninguem dera por isso. Os actores que estavam +atraz da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos, +differentes dos que elles esperavam; isto obrigou-os a espreitar. +Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz e d'aquelle gesto, +vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram circulo +á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O +espanto, os affectos, o orgulho de pae, a +exaltação de artista combinavam-se para dar-lhe +ao rosto uma expressão quasi de extase. Olhava para a filha +como se a visse animada de inspiração divina. <br /> + +<br /> + +Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo +trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de +bôca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro +só Angelo sorria, elle só interpretava o milagre. +Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de +creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos +espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse +alguma coisa de sobrehumana. <br /> + +<br /> + +Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que +os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem +de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro +<span class="pagenum">[41]</span> +rompeu este quasi encantamento. +Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um +«bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o +signal. <br /> + +<br /> + +O silencio degenerou na mais altisona ovação. <br /> + +<br /> + +O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a +sustentar, a logica da +situação, e tomando nos braços +musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para +a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo +estendiam-se centenas de braços para a receberem; das +janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os lenços +das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia +devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de +paixão; e Ermelinda foi de braços em +braços, entre beijos e afagos, transportada do tablado para +a sala do Mosteiro, onde não foi menos calorosa a +recepção. <br /> + +<br /> + +Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do +mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de +vêr as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que +entravam n'ellas. <br /> + +<br /> + +O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do +Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não +fôsse bastante pathetico para commover. <br /> + +<br /> + +―Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai +que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os +dizia!―exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena +que vira. <br /> + +<br /> + +Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe: <br /> + +<br /> + +―Foi Augusto que fez aquelles versos? <br /> + +<br /> + +Angelo sorriu. <br /> + +<br /> + +―Por que me perguntas isso a mim? <br /> + +<br /> + +―Porque o deves saber. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +―Então não crês no milagre? <br /> + +<br /> + +―Responde. <br /> + +<br /> + +Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o +conselheiro: <br /> + +<br /> + +―Se eu digo a v. ex.<sup>a</sup> que o Bernardim existe. <br /> + +<br /> + +―Mas quem é?―perguntou o conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Não sei; porém posso afiançar a v. +ex.<sup>a</sup> que não são estes os +primeiros vestigios +que encontro +d'elle. As paredes das capellas dos montes são as suas +confidentes. Não está certa, prima +Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora +da Saude? <br /> + +<br /> + +―Sim; recordo-me. <br /> + +<br /> + +―Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que +a levem a attribuil-as á mesma pessoa? <br /> + +<br /> + +―Estou pouco habituada a analysar estylos, primo. <br /> + +<br /> + +―Mas talvez este lhe seja habitual. <br /> + +<br /> + +Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a +accrescentar: <br /> + +<br /> + +―Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes +de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores. <br /> + +<br /> + +Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. +Quando lhe perguntavam quem lhe ensinára os versos, sorria, +respondendo que não sabia, ou que não podia +dizel-o. <br /> + +<br /> + +―Apostemos que n'isto entra Angelo?―disse o conselheiro. <br /> + +<br /> + +O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura +inspiração. <br /> + +<br /> + +Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da +morgadinha, disse-lhe ao ouvido: <br /> + +<br /> + +―Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que +tão bem canta sem se mostrar. <br /> + +<br /> + +―Sim? <br /> + +<br /> + +―Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas +immediações. Estas aves melancolicas amam as +inspirações nocturnas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +―Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. +É a hora favoravel á espionagem e +ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o. +Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem +recebida a verdade. Não ha quem se tema d'ella. <br /> + +<br /> + +E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente. <br /> + +<br /> + +―D'esta vez foi de uma severidade!!―pensou Henrique.―Cada vez me +convenço mais de que o idyllio existe e que vae +já muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com +o Romeu, que nunca mais vi? Não foi má tolice +aquella +minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso +não vale a pena. <br /> + +<br /> + +O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra +d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da +tenção que alimentava +ainda, pois disse a Christina: <br /> + +<br /> + +―Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que +a elle. <br /> + +<br /> + +―Que dizes?! <br /> + +<br /> + +―Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos. <br /> + +<br /> + +Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se +conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos +proprietarios, fôram dispersando pouco a pouco. <br /> + +<br /> + +A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para +as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a +quem era devido o cantar os Reis. <br /> + +<br /> + +Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de +sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe +dizer adeus. <br /> + +<br /> + +Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as +sombras á fronte e ao +coração do pobre rapaz. <br /> + +<br /> + +Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; +<span class="pagenum">[44]</span> +na manhã seguinte devia +partir com o pae para Lisboa. <br /> + +<br /> + +Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades +não se amontoam no +coração das creanças ao expirar o +termo d'esse feliz +espaço de tempo, que viveram para os carinhos da familia e +para os folguedos despreoccupados! <br /> + +<br /> + +Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que +á menor palavra rebentam. <br /> + +<br /> + +Quem não terá recordações +de infancia a falar-lhe d'isto? <br /> + +<br /> + +O pateo despovoára-se de gente; através das +vidraças da casa viam-se já brilhar as luzes +interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça +inclinada, +Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres, +sem que elle désse por isso. <br /> + +<br /> + +De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos. +Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a +pôr em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto. <br /> + +<br /> + +―Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus―disse Angelo. <br /> + +<br /> + +―Então vae-se embora? <br /> + +<br /> + +―Vou ámanhã―respondeu Angelo, com a voz presa +de commoção. <br /> + +<br /> + +―Muito cêdo? <br /> + +<br /> + +―De madrugada. <br /> + +<br /> + +Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado. <br /> + +<br /> + +―E agora quando volta? <br /> + +<br /> + +―Eu sei lá? agora... só para agosto. <br /> + +<br /> + +Novo silencio. <br /> + +<br /> + +―Então... adeus... <br /> + +<br /> + +―Adeus, Ermelinda. <br /> + +<br /> + +E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo +estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como +irmã, e que +chorava ainda mais do que elle. <br /> + +<br /> + +Que melancolico fim de dia tão alegre! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou. <br /> + +<br /> + +―Ermelinda―disse logo a voz esganiçada e colerica, que +saiu d'aquelle vulto. <br /> + +<br /> + +Ermelinda estremeceu ao ouvil-a. <br /> + +<br /> + +Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas +devoções e ficára surprehendida com o +espectaculo +que vira. A assustadiça castidade d'aquella matrona toda se +alvoroçou com a tocante despedida das duas +creanças. <br /> + +<br /> + +Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou +pelo braço e a levou comsigo. <br /> + +<br /> + +Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella +harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o. <br /> + +<br /> + +A sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S. +João Baptista ia +dizendo, ao levar comsigo a afilhada: <br /> + +<br /> + +―Que terão ainda de vêr +meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo este de +abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem +das Dores, isto é para se vêr e não se +crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e +já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus +crucificado!... <br /> + +<br /> + +―Minha madrinha―dizia Ermelinda, chorando. <br /> + +<br /> + +―Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e +riem de contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto +são lá modos? trazer-te por +entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da +igreja, que é a casa do Senhor! É a missa dos +domingos, e acabou-se. Os resultados são estes!... Ai, +filha, que muita penitencia te é já precisa +para salvares a alma! <br /> + +<br /> + +―Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga +isso―exclamava Ermelinda, aterrada. <br /> + +<br /> + +―Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, +assanhados como cães raivosos... Eu previa isto... +É o lucro de andar por essas casas de Satanaz, +<span class="pagenum">[46]</span> +onde não ha +religião nem temor de Deus... +Ó meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por +nós! E nós tão pouco caso fazemos dos +vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois +queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos +nos fogos do inferno...! <br /> + +<br /> + +A pequena Ermelinda tremia cada vez mais. <br /> + +<br /> + +A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas +exclamações, bramando contra o peccado, contra a +familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda +e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do +peccado dissertações não em demasia +apropriadas aos ouvidos de uma creança. <br /> + +<br /> + +O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das +palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma +horrivel +convicção de que tinha a alma perdida, e com +lagrimas ardentes pagava a pobre creança bem caro as +alegrias d'aquella tarde, de que já tinha remorsos. Este +desalento e pavor quasi a fizeram doente. <br /> + +<br /> + +Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os +triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao +abraçal-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde +saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se +instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois. <br /> + +<br /> + +Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de +madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em +recovagem. <br /> + +<br /> + +Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na +fronte desmaiada, abençoou-a e saiu. <br /> + +<br /> + +―Comadre,―disse ao passar por casa do Zé P'reira―ahi lhe +deixo a pequena. Olhe-me por ella, que não está +lá muito boa. <br /> + +<br /> + +―Vá com Deus―disse uma voz de dentro. <br /> + +<br /> + +Era a sr.<sup>a</sup> Catharina. <br /> + +<br /> + +O recoveiro partiu, silencioso e triste. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +<h4>XIX </h4> + +<br /> + +No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava +determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a +muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por +occasião das eleições geraes que +estavam proximas. <br /> + +<br /> + +Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o +padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, +estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando +sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas +conferencias de coisas de pouco interesse e ás quaes elle +ligava a minima +attenção. <br /> + +<br /> + +Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda +posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da +cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da +cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de pôr em arranjo a +cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na +conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta +emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes +inexactidões em que a via cair. <br /> + +<br /> + +Henrique habituára-se já a estes placidissimos +habitos; e apesar de não ligar +attenção +á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não +ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam +agradavel. <br /> + +<br /> + +Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as +occorrencias do auto dos Reis. <br /> + +<br /> + +―Eu ainda estou para saber como aquillo foi!―dizia D. +Dorothéa.―Quando me lembro! Como aquella rapariga falava! <br /> + +<br /> + +―Ó senhora; olhe que já me disseram que a +<span class="pagenum">[48]</span> +pequena tinha espirito―disse +Maria de Jesus, com ar de mysterio. <br /> + +<br /> + +―Olhem o milagre!―respondeu D. Dorothéa.―Por essa estou +eu. <br /> + +<br /> + +―Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a +mesma. <br /> + +<br /> + +―Então é mais do que certo. <br /> + +<br /> + +―Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!―disse Henrique, +rindo.―Então parece-lhe que traz espirito aquella +creança? <br /> + +<br /> + +―Pois, menino, aquillo a falar a verdade! <br /> + +<br /> + +―E não é mais natural suppôr que +alguem lhe ensinou os taes versos? <br /> + +<br /> + +―Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e +até que aquelles não calhavam bem nas +lôas? <br /> + +<br /> + +―O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo +á pequena e até suspeito com que fim. <br /> + +<br /> + +―Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. +Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas +tão bonitas, que nem um livro. A senhora não se +lembra? <br /> + +<br /> + +―Ora se lembra! <br /> + +<br /> + +―Digam-me―insistiu Henrique.―Quem ha aqui na aldeia que +faça versos? <br /> + +<br /> + +―Versos!―repetiu a D. Dorothéa, admirada.―Ninguem, que eu +saiba. <br /> + +<br /> + +―Ó senhora! Então o João do Trolha? +Não deita tão bonitos versos nos desafios? <br /> + +<br /> + +―Sem ser o João do Trolha―tornou Henrique, sorrindo. <br /> + +<br /> + +―Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito +bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se +lembra, senhora, dos versos que elle botou? <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Viva a senhora D. +Dorothéa,<br /> + +Raminho de bem-me-queres,<br /> + +Quando põe a sua touca<br /> + +É a rainha das mulheres.</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[49]</span> +―E depois a mim: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Viva a senhora Maria,<br /> + +A perola das criadas,<br /> + +Quando se chega +á janella<br /> + +Ficam as estrellas pasmadas.</div> + +<br /> + +<br /> + +―Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as +estrellas mais que fazer do que pasmarem―disse D. Dorothéa. +<br /> + +<br /> + +―Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... +sim... como o outro que diz... <br /> + +<br /> + +―E além do João do Trolha, quem ha mais que +faça versos?―perguntou Henrique. <br /> + +<br /> + +―Que eu saiba...―disseram as duas. <br /> + +<br /> + +―E aquelle Augusto? <br /> + +<br /> + +―O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim! +Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo. <br /> + +<br /> + +―Isso não tira. Então a tia julga que +só os tolos fazem versos? <br /> + +<br /> + +―Tolos não digo, mas... <br /> + +<br /> + +―Mas um pouco feridos na aza, não é verdade? <br /> + +<br /> + +―Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem +sério... sim... um homem de respeito, faz versos? <br /> + +<br /> + +―Por que não? <br /> + +<br /> + +―Versos?! <br /> + +<br /> + +―Versos, sim, senhora. <br /> + +<br /> + +D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade. <br /> + +<br /> + +Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da +entrada e após algumas pancadas á porta da sala. <br /> + +<br /> + +―Abra, tia Dorothéa―disseram de fóra as vozes +de Magdalena e de Christina, que fôram logo reconhecidas. <br /> + +<br /> + +E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de +D. Victoria, que vinha mais retardada. <br /> + +<br /> + +D. Dorothéa levantou-se para recebel-as. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> +―Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece +que já jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a +tia Victoria, que não nos quer acompanhar a ouvir a palavra +eloquente do missionario―disse a morgadinha. <br /> + +<br /> + +―Eu não; para apertos e barafundas é que +não estou. <br /> + +<br /> + +―E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa. <br /> + +<br /> + +―Então? Não quero passar por impenitente. Ainda +o não ouvi. Pode crer? Além de que percebi na +Christe um fervor, com o qual quiz condescender. <br /> + +<br /> + +―Dizem que préga tão bem―atalhou Christina. <br /> + +<br /> + +―Pois prégará, mas eu +é que já não estou para +sermões―ponderou D. Victoria. <br /> + +<br /> + +―Vou eu tambem ouvir o missionario―disse Henrique, +levantando-se.―Já m'o mostraram ha dias. Se os dotes +oratorios do homem corresponderem á figura... <br /> + +<br /> + +―Então?―interrogou D. Dorothéa. <br /> + +<br /> + +―É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, +typo da grossura do pulso. <br /> + +<br /> + +―Pois bom é que vás, menino―disse D. +Dorothéa―para acompanhares as pequenas. <br /> + +<br /> + +―Como quizer, primo,―acudiu Magdalena―mas não se +constranja. O Torquato tambem vae. <br /> + +<br /> + +―Que quer dizer? Que me dispensa? <br /> + +<br /> + +―Não; mas que se é só por +condescendencia que... <br /> + +<br /> + +―É por prazer. É por +devoção. <br /> + +<br /> + +―N'esse caso... <br /> + +<br /> + +E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas +primas á igreja. <br /> + +<br /> + +O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da +sua invocação. Vesperas, missa +cantada, duplo sermão, e procissão á +volta da +igreja, nada faltára para solemnisar a festa. <br /> + +<br /> + +O sermão da manhã fôra +prégado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao +missionario, que o aproveitára para uma das suas +catechéses. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> +A procissão já tinha recolhido, quando chegaram +á igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique +e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e +de café, como n'um arraial. <br /> + +<br /> + +Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como +em bôca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, +se precipitam as aguas impetuosas. <br /> + +<br /> + +A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do +missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão. <br /> + +<br /> + +As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa +popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, +por deferencia excepcional +dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-mór. <br /> + +<br /> + +Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella +occasião. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e +lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia, +na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só +alvejava o lenço branco que usavam á +cabeça. <br /> + +<br /> + +Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli +dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar. <br /> + +<br /> + +Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, +orações e ladainhas, +contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá +fóra, e requintava a triste +impressão que se recebia ao entrar. Alli um grupo de +mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias +orações, que +uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com +Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces +rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando +exclamações, para +commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de +braços abertos deante da imagem da Virgem; outras +amortalhadas, em cumprimento de +<span class="pagenum">[52]</span> +promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia +uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás +portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as +lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para +dentro a circumstanciada exposição dos peccados +da semana, e recebendo de lá regras de bem viver, preceitos +de +devoção, ás vezes exaggerada e +inspirada de certa moral de convenção, com que a +ignorancia ou a +má fé porfiam em falsificar os simples e +luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o +Evangelho apregôa. <br /> + +<br /> + +Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das +confessadas; e exhausta de fôrças, abatida +de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos +degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, senão +hypocrita, lhe pintára +inexoravel verdugo. Quando outra se não succedia a esta, +via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de +lá um padre de batina, sócos +e capote de cabeção, satisfeito de si, e +revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos, +n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios +de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos +que dirigia pela intimidação cruel. <br /> + +<br /> + +De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que +nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com +tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar. <br /> + +<br /> + +Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via. <br /> + +<br /> + +Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e +sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que +nutria contra o clero, cuja influencia moral, aliás justa e +vantajosa, é cada +vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam +augmental-a por meios improprios +<span class="pagenum">[53]</span> +da sublimidade da sua missão e até dos preceitos +da religião, de que se dizem ministros. <br /> + +<br /> + +Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a +Magdalena, que não pôde deixar de apoial-as, tanto +mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, não de +todo superior a este apparato terrorifico. <br /> + +<br /> + +A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se +já evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada +vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para +fóra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a +porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a +multidão. <br /> + +<br /> + +Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma +hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a +cabeça coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo +do confessionario. <br /> + +<br /> + +Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle +vulto. <br /> + +<br /> + +Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez +sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. +Qual, porém, não foi a sua surpreza e a de +Magdalena, quando, ao terminar a confissão, reconheceram as +feições +da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e +amoravel creança, que, dias antes, tanto enthusiasmo +causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos +labios, que tanta graça lhe davam! <br /> + +<br /> + +E era esta creança que tão longos peccados tinha +a narrar, para assim ficar tanto tempo aos pés do confessor? +<br /> + +<br /> + +Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de +lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os +grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado +da madrinha e cêdo rojava com ella a fronte no +chão, que regava de lagrimas ferventes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[54]</span> +Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? +Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor? <br /> + +<br /> + +O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e +ás vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre +gordo, córado, de olhos e fronte pequenos, cabellos +grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum +tempo a fitar o auditorio. <br /> + +<br /> + +Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum +animou aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu. <br /> + +<br /> + +Era o missionario. <br /> + +<br /> + +A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente +triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, +beijando-lhe a mão ou as +borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que +elle +distribuia com profusão. <br /> + +<br /> + +Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi +do chão um estorvo. <br /> + +<br /> + +Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, +gesticulando e realisando um triplice e admiravel esforço +para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para +desembaraçar a lingua. <br /> + +<br /> + +Dizia o homem: <br /> + +<br /> + +―Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, +ou lá o que é... eu quero-lhe perguntar uma +coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religião manda... +Quando um homem se casa... <br /> + +<br /> + +O missionario não esperou pelo fim da inesperada +interpellação; com modos rudes e pulso vigoroso +arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de cólera: <br /> + +<br /> + +―Então que desafôro é este? Deixam um +homem n'este estado vir ter commigo?! <br /> + +<br /> + +E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, +que rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram +logo para afastarem o Zé P'reira d'alli para +fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[55]</span> +―Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! +Então uma pessoa não pode dizer o que sente? <br /> + +<br /> + +Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a +voz repetir: <br /> + +<br /> + +―Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! <br /> + +<br /> + +Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou +este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha: <br /> + +<br /> + +―Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas +não +é mais de magarefe do que de pastor? <br /> + +<br /> + +O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma +vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio +pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora. <br /> + +<br /> + +O padre entrou para a sacristia. <br /> + +<br /> + +No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, +o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto. <br /> + +<br /> + +No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e +pouco attrahente do famigerado educador dos povos. <br /> + +<br /> + +Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em +Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com +firmeza. <br /> + +<br /> + +Esta tacita provocação durou alguns minutos, no +fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos +labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de +cabeça quasi ameaçador: <br /> + +<br /> + +Emfim soltou o texto latino do sermão. <br /> + +<br /> + +Seguiu-se nova pausa, e principiou. <br /> + +<br /> + +Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas +paginas humoristicas da <em>Vida e opiniões de +Tristam Shandy</em>, um +sermão sobre a consciencia, eu não ouso +transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo +missionario n'aquelle dia. <br /> + +<br /> + +Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o +<span class="pagenum">[56]</span> +tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o +decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a +recitação dos descosidos periodos d'aquella +indigesta prática, talvez me animasse á empreza, +para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda +atrazando a +civilisação do povo e prejudicando a verdadeira +religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz +é abafada por aquella gritaria. <br /> + +<br /> + +As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso. <br /> + +<br /> + +Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as +fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como +um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma +involuntaria falta á missa, uma penitencia esquecida, uma +oração supprimida, arriscava as almas por toda a +eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem +fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde +os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam +os delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da +oração. A fatal e desesperadora +sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do +inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do +Eterno. <br /> + +<br /> + +Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto +de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e +não o do Redemptor +sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de +mistura com imprecações contra as modernas +instituições sociaes, contra a obra do seculo, +contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se +descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os +costumes e as ideias em sentido menos favoravel á propaganda +reaccionaria. <br /> + +<br /> + +Á medida que a oração progredia, +animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava +a selvageria das imagens. <br /> + +<br /> + +Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os +<span class="pagenum">[57]</span> +ais do auditorio, e principalmente da parte +feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. +Cêdo era já um angustioso clamor em toda a igreja. +Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este +espectaculo de desolação, voltou os olhos para +Christina. Viu-a +trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo +no gesto todos os signaes de um intenso pavor. <br /> + +<br /> + +Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e +tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia. <br /> + +<br /> + +Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia +que se estava exercendo no animo timido de Christina. <br /> + +<br /> + +Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as +com commentarios satyricos ás palavras do sermão +e á figura do +orador, que ambas offereciam farto alimento para elles. <br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se +calasse. <br /> + +<br /> + +Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles +commentarios improprios do logar. <br /> + +<br /> + +Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os +commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de +Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava +mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase. <br /> + +<br /> + +Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e +por vezes a cólera, estrangulando-lhe quasi a larynge, +interrompera-lhe o discurso. <br /> + +<br /> + +Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles +olhares faiscantes, haviam attingido já a causa d'elles. <br /> + +<br /> + +D'ahi algumas murmurações que principiaram a +sussurrar pela igreja. <br /> + +<br /> + +No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas +mais acerbas do que nenhumas. A sr.<sup>a</sup> +<span class="pagenum">[58]</span> +Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a +impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no +coração da filha do Cancella, +dominado pelo terror que o sermão levára ao +cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se +fôssem já prezas do inferno, para +Magdalena e Christina, a irmã e a prima de Angelo, do seu +amigo de infancia, em quem já não se atrevia a +pensar. <br /> + +<br /> + +N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais +vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do +demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e +ás vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das +duas primas, fez não sei que reflexão tanto a +proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria +Christina sorriu tambem. <br /> + +<br /> + +Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as +faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os +braços hirtos e estendidos na direcção +de Henrique, rompeu +n'estes violentos termos: <br /> + +<br /> + +―Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui +escarnecer da palavra do Senhor! Fóra do templo, impios +libertinos, que não respeitaes os ministros de Deus, nem o +seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas +na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, se +não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus +arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São +esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; são +estas as pragas que nos veem com as estradas e com a +civilisação. Fugi +d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religião, +mulheres sem temor de Deus, +mações, pedreiros livres, vindes para aqui +tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos +requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade +retró!... <br /> + +<br /> + +E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o +<span class="pagenum">[59]</span> +missionario estendia o braço na +direcção de Henrique. <br /> + +<br /> + +Este, desde que viu que a imprecação lhe era +dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente. +Preparava-se para lhe responder alli mesmo. <br /> + +<br /> + +Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em +desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja +má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que +se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As +ameaças soavam já distinctas, os varapaus +mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára +proporções assustadoras. <br /> + +<br /> + +Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a +presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o +braço de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja. +<br /> + +<br /> + +Henrique resistia e procurava falar. <br /> + +<br /> + +O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle +como podia. <br /> + +<br /> + +O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre +tinha perdido a cabeça, e do pulpito animava a anarchia, +berrando e bracejando. <br /> + +<br /> + +Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que +havia na freguezia, obrigaram, quasi á +fôrça, Henrique a sair da +igreja por a porta da sacristia. <br /> + +<br /> + +Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo +precipitou-se em confusão para a porta principal, para os +vir esperar á saída da sacristia, e correu +clamando atordoadoramente. <br /> + +<br /> + +E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma +impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam +furiosos, de braços que os ameaçavam, e de +bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos pedreiros +livres, aos libertinos e aos herejes.» <br /> + +<br /> + +Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[60]</span> +Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante +d'aquella gente furiosa e ameaçadora. <br /> + +<br /> + +―Que querem de mim e d'estas senhoras?―perguntou elle, com voz firme. +<br /> + +<br /> + +Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia: <br /> + +<br /> + +―Morra o pedreiro livre! <br /> + +<br /> + +―Ensinem esses senhores da cidade! <br /> + +<br /> + +―Pouca vergonha! <br /> + +<br /> + +―Isto não fica assim! Isto é de mais! <br /> + +<br /> + +―Mação! <br /> + +<br /> + +―Hereje! <br /> + +<br /> + +―Quero passar!―repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso. <br /> + +<br /> + +―Havemos de ensinar estes fidalgos. <br /> + +<br /> + +―Excommungados! <br /> + +<br /> + +―Havemos de lhes dar os risinhos na egreja. <br /> + +<br /> + +Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do +genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na +mão. <br /> + +<br /> + +Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de +varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle. <br /> + +<br /> + +E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e +herejes!» levantaram-se mais ameaçadores do que +antes. Magdalena susteve, a tremer, o braço de Henrique. <br /> + +<br /> + +E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo. <br /> + +<br /> + +Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da +sacristia, e na quéda ameaçava ferir a +cabeça de uma creança +que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se +junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo +tudo com infantil curiosidade, emquanto a mãe afflicta a +chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo +as mãos para proteger a cabeça da +creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto +<span class="pagenum">[61]</span> +sereno, e em tom desaffectadamente +reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente: <br /> + +<br /> + +―Não vêem que iam matando esta +creança? <br /> + +<br /> + +Esta simples acção, e estas palavras da +morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas +as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa, +e a generosidade foi e será sempre um dos mais poderosos +elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores +politicos, que tanto se esforçam por simulal-a, quando +precisam do povo. <br /> + +<br /> + +―Quem foi que atirou a pedra?―perguntou um. <br /> + +<br /> + +―Temos tolice! <br /> + +<br /> + +―Nada de pedra, olá! <br /> + +<br /> + +―Então isto é coisa de garotos! <br /> + +<br /> + +Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam +«morra» achavam já +reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. +E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a +sentença. Era evidente que o maior perigo +passára e que um pouco de prudencia resolveria a crise. <br /> + +<br /> + +O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e, +irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido, +apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o +reprimirem. <br /> + +<br /> + +Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio +d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade. <br /> + +<br /> + +Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o +Zé-P'reira, que, +pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais +depois do mallogro da +interpellação ao missionario, não +olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no +adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular +tambor, instrumento das +<span class="pagenum">[62]</span> +suas +glorias, e que ainda n'aquelle dia servira á frente da +procissão. <br /> + +<br /> + +Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista +deitára-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o +que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e +febris que o outro executava na caixa―pancadas que eram, por assim +dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos. <br /> + +<br /> + +Em posição de cansaço e desalento o +Zé P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha +o cerebro repassado do espirito familiar. <br /> + +<br /> + +Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da +sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das +familias, e sobre tudo a indifferença que principiava a +perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que +elle conhecia a preceito. <br /> + +<br /> + +Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do +hortelão. <br /> + +<br /> + +Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a +philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e +desassocegado. <br /> + +<br /> + +N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um <em>ceci tuera cela</em>, +como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de +Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e +gôsto publico entravam em nova phase, preparava-se uma +revolução na arte. O reformador era o mestre +Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia +romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos +portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou +um commetimento digno de menção na historia da +arte. <br /> + +<br /> + +Pobre Zé P'reira! <br /> + +<br /> + +Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, +havia perto de uma hora, em uma posição +contemplativa deante do tombado +instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se +<span class="pagenum">[63]</span> +n'aquelles olhares fixos uma melancolia +quasi poetica. <br /> + +<br /> + +N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e +subita saída do povo pela porta da igreja, e as scenas de +motim que se lhe seguiram. A intelligencia pêrra de +Zé P'reira não achou logo a +explicação do que via. Pouco a pouco +porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão, +principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular. <br /> + +<br /> + +Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, +e o homem ergueu-se. <br /> + +<br /> + +Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao +tiracollo a alça do tambor. <br /> + +<br /> + +Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, +que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do +acompanhamento. <br /> + +<br /> + +Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. +Então o Zé P'reira não +esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um +signal ao rapaz, e... <br /> + +<br /> + +<em>Pom</em>―fez a baqueta d'este, caindo +com toda a fôrça sobre a retesada superficie do +bombo. <br /> + +<br /> + +<em>Taplão, taplão, +rataplão, +rataplão</em>...―responderam as baquetas movidas +pelas amestradas mãos do Zé P'reira. <br /> + +<br /> + +Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na +direcção do som. <br /> + +<br /> + +O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o +jogo das baquetas; começava a ganhal-o o vapor do +enthusiasmo. <br /> + +<br /> + +Principiou a acudir o povo para junto do artista. <br /> + +<br /> + +Este tomára-se já do +<em>raptus</em>, do phrenesi musical. Já +não eram só as mãos, +eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que +rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas +offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do +pescoço, a vergal-o para traz, Zé P'reira +<span class="pagenum">[64]</span> +parecia endemoninhado. +Não via, não ouvia, +não sentia, não tinha consciencia de si, nem dos +seus actos; todo elle era fogo, delirio, convulsão, febre, +loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do +tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles +movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens +extravagantes, aquellas contracções geraes, que o +torciam, desconjunctavam e desfiguravam. <br /> + +<br /> + +Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, +tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, +rufou com desespero, rufou até as baquetas se não +avistarem, de rapidas que se moviam; rufou até o ouvido +quasi não perceber a descontinuidade dos sons; rufou +finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que +succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser +aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam +tão esplendido crepusculo. <br /> + +<br /> + +O povo inteiro applaudiu o artista. <br /> + +<br /> + +E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam +já fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da +familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XX </h4> + +<br /> + +Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da +aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos. <br /> + +<br /> + +O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe +é impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma +terra, mal pode fazer ideia da sensação que +produz no habitante de +<span class="pagenum">[65]</span> +uma aldeia, villa ou cidade +pequena, a presença de uma cara estranha. <br /> + +<br /> + +Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta +curiosidade instiga-o a decifrar a significação +d'aquelle apparecimento. <br /> + +<br /> + +Isto aconteceu com o Cancella. <br /> + +<br /> + +Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou +mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e +largos chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas +escuras. <br /> + +<br /> + +―Passaros de arribação...―pensava o Herodes +comsigo―que vento traria isto para aqui? <br /> + +<br /> + +E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente. <br /> + +<br /> + +Um d'elles dirigiu-lhe a palavra: <br /> + +<br /> + +―Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa +habitavel, em que nos alojemos? <br /> + +<br /> + +―Por pouco ou por muito tempo, meu amo? <br /> + +<br /> + +―Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada. <br /> + +<br /> + +―Ah! então v. sr.<sup>as</sup> são +engenheiros? <br /> + +<br /> + +―Julgo que sim. <br /> + +<br /> + +―Então, visto isso, as estradas sempre vão +principiar? <br /> + +<br /> + +―Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que +não. <br /> + +<br /> + +―Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que +saber; os meus amos vão por ahi sempre a direito, e +lá adeante, chegando ao +pé de uma oliveira, tomam á sua mão +esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois, +logo que virem uma nora, carregam á +direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até +chegarem á eira; ahi tomam por um outro +atalho, que está ao lado e vão dar a um +larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em +frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[66]</span> +Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a +explicação. <br /> + +<br /> + +Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma +rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os +engenheiros. <br /> + +<br /> + +―Se v. s.<sup>as</sup> querem, esta pequena vae +ensinar-lhes o caminho. <br /> + +<br /> + +Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a +pequena cicerone. <br /> + +<br /> + +―Grande novidade!―ficou dizendo o Cancella comsigo―sim, senhor; com +que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que +fôsse nos meus dias. Então... querem vêr +que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o +quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O +pobre homem estala de paixão, se isso assim é; +isso +é com certeza... Pois, senhores... isto de estradas... +é bom, é; pois não é? +Sempre +é outro arranjo para quem tem de ir á cidade... <br /> + +<br /> + +Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe +ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra +circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a +cabeça, porém que nas aldeias toma as +proporções de um grande successo. <br /> + +<br /> + +―Ui! Temos novidade―disse o Herodes ao vêl-o.―Edital +á porta da igreja!―e approximou-se +para ler. <br /> + +<br /> + +Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens +terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente +prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da +igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já +construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e +murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de +opposição e motim. <br /> + +<br /> + +―Bom, mais outra!―dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.―Grandes +coisas se passaram cá +<span class="pagenum">[67]</span> +na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é +que não sei se a coisa irá assim ás +mãos +lavadas; ao que já ouço por ahi rosnar!... +É o +diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que +uma pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica +assim á chuva e ao sol... Mas é do costume, +é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois de +morta. <br /> + +<br /> + +E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho. <br /> + +<br /> + +Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um +pinheiral, sob a invocação da Virgem da +Esperança, e reteve-se a fazer oração. +Áquella imagem costumava encommendar a filha, sempre que +saía da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas +orações a protecção obtida, +e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, +porém, ficou triste e sobresaltado. Porquê? <br /> + +<br /> + +É que se lembrára de que tinha, ao partir, +deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a +iria achar. <br /> + +<br /> + +Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes, +tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros +da casa parou irresoluto. <br /> + +<br /> + +Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós +um mesmo aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, +os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e +quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o +coração; outras em que umas apparencias de +sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam. <br /> + +<br /> + +Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao +avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas. <br /> + +<br /> + +Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o +sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe +estavam confrangendo o coração? Mas como lhe +acudiram tão de subito +<span class="pagenum">[68]</span> +esses presentimentos, a +elle, ainda pouco tempo havia tão despreoccupado! Como lhe +occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de +fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava +ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte +obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu +devassar as sombras. <br /> + +<br /> + +Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos +primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, +não tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza. <br /> + +<br /> + +Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que +encontrou aberta. <br /> + +<br /> + +Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma +exclamação de surpreza. <br /> + +<br /> + +Fôra a causa o achar novidades na primeira sala. <br /> + +<br /> + +Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que +cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que +não deixára alli ao partir. E ninguem a +recebel-o. <br /> + +<br /> + +―Crédo!―disse o Cancella, desgostoso.―Para longe o +agouro! Cruzes negras á chegada! São +coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na +cabeça da rapariga, e se não lhe +acudo...―Ermelinda!―exclamou, chamando por a filha. <br /> + +<br /> + +Como não recebesse resposta, passou para os aposentos +interiores. <br /> + +<br /> + +Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de +louça cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de +alecrim. <br /> + +<br /> + +―Mau!―disse o Herodes, cada vez mais descontente.―Vou vendo que a +minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus... +Ermelinda! <br /> + +<br /> + +E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e +explorou o quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou +a um quarto mais retirado, o +<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span> +unico +que ainda não revistára. A porta estava +fechada por dentro, porém a péquena cravelha +fraca resistencia oppoz á pressão que na porta +exerceu o Herodes. <br /> + +<br /> + +Franqueando assim a passagem, parou no limiar. <br /> + +<br /> + +Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um +canto escuro do quarto. <br /> + +<br /> + +―És tu, Linda? Estás ahi?―perguntou o Cancella, +affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer, <br /> + +<br /> + +―Meu pae... respondeu com voz fraca. <br /> + +<br /> + +―Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este +quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa? +Chega-te cá, rapariga, quero-te abraçar e +beijar... Então que é +isso?... Tens hoje tão pouca pressa de abraçar +teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas esperar... Vem +cá, minha +filha, vem cá... Se soubesses como me consola... <br /> + +<br /> + +E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao +encontro. Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se +subitamente e principiou a <a href="#e6">examinal-a</a> +com inquieta anciedade. Depois, como se lhe +não bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer +não sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe, +silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a +com os olhos eloquentes de paixão e de espanto, bradando +emfim, com voz consternada: <br /> + +<br /> + +―Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás +doente? Estas não são as tuas +feições... Os olhos pisados... as faces +abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu +que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda, +fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala! <br /> + +<br /> + +A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar. <br /> + +<br /> + +―Meu Deus! Isto que é, meu Deus?―exclamava, mais +assustado, o pae.―Choras ainda mais? +<span class="pagenum">[70]</span> +Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu +não tens pena de mim? não chores!... Ou chora, +chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me +por que choras, filha... Então? <br /> + +<br /> + +E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto +no gesto, como no coração, o pobre homem quasi +ajoelhava a implorar da filha a explicação +d'aquelle doloroso mysterio. <br /> + +<br /> + +Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, +cada vez mais commovido: <br /> + +<br /> + +―Ai os presentimentos do meu coração! +Não sei o que me dizia isto! Não sei! Meu Deus, +meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em +que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não +vês que me matas assim? Fala! <br /> + +<br /> + +E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais +lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem +falar. <br /> + +<br /> + +Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia +louco. Elle apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, +abraçava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no chão; +ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse, +n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto. <br /> + +<br /> + +Como para melhor examinar aquellas feições +queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da +fronte da creança, com as mãos +trémulas, o lenço que lhe envolvia a +cabeça; mas de repente retirou-as, soltando um grito +medonho, ergueu-se e recuou com terror. <br /> + +<br /> + +Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma +palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no +corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril +o lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, +mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos +soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o +desgraçado pae, desatou a chorar como uma +creança. <br /> + +<br /> + +É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, +<span class="pagenum">[71]</span> +que com tanto amor beijava, que com +tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu +coração de pae, aquelles cabellos +louros haviam caído aos golpes de uma tesoura desapiedada e +quasi irreverente. <br /> + +<br /> + +Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora +afflicção em que esta descoberta +lançou o coração d'aquelle. <br /> + +<br /> + +Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem. <br /> + +<br /> + +Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os +soluços de ambos. <br /> + +<br /> + +A reacção não se fez, +porém, esperar muito no animo violento do Cancella. <br /> + +<br /> + +Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a +cabeça, e, com os olhos inflammados de raiva e de +cólera, disse para a filha, tremendo e +gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe +amontoavam no coração: <br /> + +<br /> + +―Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que +fez isto?... Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a +mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgraçada, +tu, consentiste! Má filha, filha desagradecida e sem +coração, que assim deixas que me roubem as minhas +riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor +com que te tenho creado?... a adoração com que de +pequenina te tratei? É assim? É com este +desamor?! e com esta ingratidão?! <br /> + +<br /> + +―Meu pae! meu pae!―implorava Ermelinda, suffocada pelo +pranto.―Perdôe! Não se affiija +assim, meu pae, que me mata! Não vê?... Escute... +Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A +vaidade é um peccado grande. <br /> + +<br /> + +―Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses? +Fala!... <br /> + +<br /> + +―Por alma de minha mãe, não me fale assim, que +me assusta! <br /> + +<br /> + +―Vá! Pois já não falo... Eu estou +socegado... +<span class="pagenum">[72]</span> +Mas então? eu não hei de saber?... Bem +vês que eu precíso de saber!... Vá!... +Eu sou teu +pae. Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi? <br /> + +<br /> + +―O missionario...―ia a dizer Ermelinda. <br /> + +<br /> + +O pae não a deixou proseguir. <br /> + +<br /> + +―Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... +as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a +entrega assim! Vendeu-m'a ás mãos d'esses +malvados sem +dó, sem consciencia, sem religião, sem Deus... <br /> + +<br /> + +―Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que +é peccado. <br /> + +<br /> + +―Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu +pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou... +Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus +não é Deus, e eu não o +reconheço nem adoro! <br /> + +<br /> + +Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a +irritação e o desespero estavam dictando ao pae. +A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases +audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava vêr +cair um raio fulminador a castigal-as. <br /> + +<br /> + +―Por amor de Deus―murmurava ella, com a voz chorosa e quasi +sumida―por alma de minha mãe!... <br /> + +<br /> + +―Cala-te! não fales em tua mãe, que +não mereces dizer esse nome! Tua mãe! Aquella +sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me +não causar penas, e que só com a sua morte me fez +chorar lagrimas, tão amargas e tantas, como eu choro agora! <br /> + +<br /> + +E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e +valente, chorava, porque tinha um coração de pae. +<br /> + +<br /> + +Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de +afagos e beijos. <br /> + +<br /> + +―Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!―dizia ella.―Se +soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que +<span class="pagenum">[73]</span> +sonhei... Não chore assim, meu +pae! Não culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha +madrinha!... Foi por a salvação da minha alma, +porque... <br /> + +<br /> + +―E foi tua madrinha que t'os cortou? <br /> + +<br /> + +―Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O +missionario é um santo!... Não olhe para mim +d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo. <br /> + +<br /> + +E cobria os olhos com as mãos, para não ver a +expressão do rosto do Cancella. <br /> + +<br /> + +―Querem matar-me a filha―bradava elle.―Ó meu Deus! pois +não é isto um grande peccado? fazer da +creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta +desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem +alegria! Não é isto um crime, meu Deus? +Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com +lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem +elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e +maldicto seja quem traz assim o desespero ao +coração de um pae. <br /> + +<br /> + +E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, +cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu +alguns passos no +corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella +seguiu-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se +não affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela +impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os +olhos no registo do Coração de Maria, que alli +fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. +Estava adornado com jarras de flores e vélas de +cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia +oração, quasi extatica, quando o pae +entrou. <br /> + +<br /> + +―Coração de Maria!―disse o Cancella, quasi +desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para +si.―Coração de mãe, +e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. +Soube o que é querer a um filho, o que é +vêl-o padecer... o que é perdel-o... E +será ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte +d'esta +<span class="pagenum">[74]</span> +creança?... as +desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o +queres―continuou allucinado, voltando-se para a imagem―e se +não podes ser adorada senão assim, é +porque és falsa, falsa +como a mão que ahi te pintou, falsa como as bôcas +que te prégam os milagres. Vae-te! <br /> + +<br /> + +E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o +caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio +fazer-se pedaços no pavimento. <br /> + +<br /> + +Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr +aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as +faces quasi lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas +não pôde; +moviam-se-lhe os labios descórados, mas não lhe +saía +a voz da garganta. <br /> + +<br /> + +Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a +attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso +de furia o vaso da agua benta, bradando: <br /> + +<br /> + +―Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da +impostura. <br /> + +<br /> + +Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, +abraçou-o pelos joelhos para o reter, mas elle +não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi +a levou de rastos á outra sala. <br /> + +<br /> + +Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, +tudo despedaçava ou rasgava. <br /> + +<br /> + +N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu +a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com +os braços estendidos, fazendo esforços para +falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver. <br /> + +<br /> + +Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a +madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo. <br /> + +<br /> + +Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que +descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o +Cancella cortou-lhe a fala na garganta. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[75]</span> +Era de facto um olhar selvagem e sinistro. <br /> + +<br /> + +A sr.<sup>a</sup> Catharina parou. <br /> + +<br /> + +―Que vem fazer aqui, mulher?―dizia-lhe o Cancella com voz cavada. <br /> + +<br /> + +―Eu... <br /> + +<br /> + +―Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar +estes ares, onde metteu a tristeza? <br /> + +<br /> + +E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava +outro. <br /> + +<br /> + +Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras +do Herodes. <br /> + +<br /> + +―Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe +faça como fiz a esses feitiços com que me +enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar. <br /> + +<br /> + +A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por +isso disse: <br /> + +<br /> + +―Lá se vê quem a matou. Repare e diga se +não tem remorsos, carrasco! <br /> + +<br /> + +Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella. <br /> + +<br /> + +Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como +morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um +cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a +chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, +pedindo perdão a ella, soltando palavras sem nexo, +arrepellando-se, ferindo-se. <br /> + +<br /> + +A velha, que já não o temia, ao vêl-o +assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino +da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgraçado, tudo +escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia. <br /> + +<br /> + +―Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus +não pode consentir n'isto. Não deixará +que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o +coração!... vive!... senti-lhe o +coração bater... Olhe! venha +vêr... pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, +aqui... Não sente? É o +coração, não é? +Não lhe +<span class="pagenum">[76]</span> +parece que +não morreu? Ar, ar, é do que ella +precisa. <br /> + +<br /> + +E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio +da rua. <br /> + +<br /> + +Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas +mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas +arguições da beata, que não +cessára de falar. <br /> + +<br /> + +Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e +pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo. <br /> + +<br /> + +Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido. +Ermelinda tinha aberto os olhos. <br /> + +<br /> + +Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, +como se o aspecto d'elle lhe causasse terror. <br /> + +<br /> + +―Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com +maior consternação na voz e no olhar. <br /> + +<br /> + +Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer +convulsivamente e n'uma anciedade extrema. <br /> + +<br /> + +―Deixe a pequena!―disse a beata―não vê que lhe +faz mêdo? E com razão, pobre +creança! depois do que viu! <br /> + +<br /> + +―Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?―repetiu +timidamente o pae.―Eu?! Ó Ermelinda... pois tu... <br /> + +<br /> + +Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar. +Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e +sentou-se a +soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos: <br /> + +<br /> + +―Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que +desgraçado que eu sou!... <br /> + +<br /> + +A scena era bastante commovente, para que se não sentissem +impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli. <br /> + +<br /> + +Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos +soluços do infeliz, em quem entrára o +desespero no coração. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[77]</span> +Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua, +que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes +femininas; cêdo a toada e depois da toada a lettra, +principiou a tornar-se distincta. <br /> + +<br /> + +Ouviram-se perfeitamente estas palavras: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl"> +Vinde, vinde, ó missionarios,<br /> + +Com a palavra de Deus<br /> + +Libertar-nos do peccado,<br /> + +Encaminhar-nos aos céos.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar. <br /> + +<br /> + +As vozes continuaram: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry3 tinyl">Minha alma por vós +anceia,<br /> + +Ó ministros do +Senhor!<br /> + +E o meu peito em chammas arde,<br /> + +Em chammas do vosso amor.</div> + +<br /> + +<br /> + +O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos +animaram-se-lhe de um fulgor extranho. <br /> + +<br /> + +O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco +desembocou na rua, em que se passavam estas scenas, um singular +cortejo. <br /> + +<br /> + +O missionario, que nós já conhecemos, por o +termos visto em pleno exercicio de suas funcções +predicatorias, vinha seguido por uma cohorte de mulheres de roupas +escuras e cabellos cortados, que cantavam em chorada cantilena estas e +analogas quadras, que os missionarios ou os agentes seus teem quasi +sempre o cuidado de vulgarisar como preparatorios dos animos +impressionaveis das mulheres e das creanças. <br /> + +<br /> + +Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a +procissão da casa do Cancella. <br /> + +<br /> + +Este já estava em pé no meio da rua, á +espera d'ella. <br /> + +<br /> + +O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu +caminho, aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, +se lhe +<span class="pagenum">[78]</span> +apresentava escuro como um +phantasma, e não conjecturou bem do que via. Por isso parou +tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se. <br /> + +<br /> + +O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe: <br /> + +<br /> + +―Sabe quem sou? <br /> + +<br /> + +O padre fez um signal negativo com a cabeça. <br /> + +<br /> + +―Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve +Deus. <br /> + +<br /> + +O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem +procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe +a razão que um homem que não ouve Deus +não estaria muito disposto a escutal-o, a elle, humilde +creatura. <br /> + +<br /> + +―Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de +minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou; +perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella +creança sem culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno +lhe envenenou o coração, e depois... depois +matal-o. <br /> + +<br /> + +O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu +caminhar para elle o Cancella, viu no ar aquella mão +musculosa e larga, e, calculando a violencia do embate pelo volume do +braço, julgou-se de antemão +esmagado, e só pôde encolher os hombros, fechar os +olhos, contrahir comicamente as feições, e +suspender a respiração, aguardando n'esta postura +o golpe, que não podia evitar. <br /> + +<br /> + +Este de facto não foi suave. A mão do Cancella +caíu em parte sobre o cabeção, em +parte sobre o pescoço do padre, e com tal +fôrça, que +este foi constrangido a ajoelhar. <br /> + +<br /> + +―Anda, meu impostor do inferno! <br /> + +<br /> + +E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo +á primeira posição. +O chapéo rolou a alguns passos de distancia. <br /> + +<br /> + +―Anda, meu envenenador de almas! <br /> + +<br /> + +Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o +caminho do chapéo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[79]</span> +―Anda, meu calumniador de Deus! <br /> + +<br /> + +E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em +pé, e após, dando-lhe um forte impulso e +soltando-o das mãos, deixou-o ir á +mercê da fôrça transmittida. <br /> + +<br /> + +O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar +na quéda provavel, e, pé aqui, +pé acolá, a passos descommunaes, escapou +miraculosamente de cair, porém não conseguiu +parar +senão a muitos metros de distancia. <br /> + +<br /> + +Escusado é dizer que esta scena não correu entre +o silencio dos espectadores. Mal o Cancella levantou a mão +sobre a cabeça do padre, as beatas ergueram um alarido de +atroar céo e terra. <br /> + +<br /> + +―Aqui d'El-rei! <br /> + +<br /> + +―Aqui d'El-rei sobre o Herodes! <br /> + +<br /> + +―Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José! <br /> + +<br /> + +―Quem acode ao sr. fr. José?! <br /> + +<br /> + +―Ai, que matam o santinho do missionario! <br /> + +<br /> + +E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas +esganiçadas mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, +porém, a intervir mais activamente. <br /> + +<br /> + +A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, +em cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com +respeito. <br /> + +<br /> + +Este, porém, não oppoz resistencia. <br /> + +<br /> + +Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento. <br /> + +<br /> + +Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das +imprecações das beatas e dos gritos de +indignação dos homens. <br /> + +<br /> + +As devotas mulheres correram para o missionario. <br /> + +<br /> + +Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o +capote. <br /> + +<br /> + +―Magoou-se, sr. fr. José? <br /> + +<br /> + +―Doe-lhe alguma coisa? <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[80]</span> +Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a +abanar com a cabeça negativamente e deitou a correr, como se +visse atraz de si ainda a mão espalmada do Cancella, prompta +a cair-lhe outra vez sobre a cabeça. <br /> + +<br /> + +Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a +multidão engrossára e em altos gritos pedia o +castigo do criminoso. <br /> + +<br /> + +O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a +multidão. In continenti, redigiu um officio ao +administrador, no qual foi tão feliz que escreveu tres +palavras com boa orthographia; e, falando ás turbas, disse +que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de ser punido +com todo o rigor das leis. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXI </h4> + +<br /> + +O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi +assumpto das conversações geraes +de toda a aldeia. Era com indignação que se +commentava a façanha. Dizia-se que o Cancella fôra +apenas o +instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do +padre, pela occorrencia da tarde do sermão. <br /> + +<br /> + +Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes +offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual +havia muito suspiravam. <br /> + +<br /> + +O missionario e os seus ardentes sequazes fôram dos mais +acerbos propugnadores d'estas ideias, que reforçavam com +muitas accusações, de +hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do +conselheiro. <br /> + +<br /> + +A politica viu n'isto uma arma favoravel para +<span class="pagenum">[81]</span> +combater o adversario, e não a +desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio, +manifestamente devida á iniciativa do pae de Magdalena, e +impopularissima na aldeia, augmentar a irritação +dos animos e servir de thema a uma violenta diatribe do missionario +contra a impiedade da época, que nem aos fieis concedia a +santa consolação de repousar á sombra +dos templos. <br /> + +<br /> + +Tudo isto começou pois a fomentar uma +reacção contra o conselheiro, a qual +ameaçava o resultado da sua candidatura. <br /> + +<br /> + +Não pequena parte n'esta guerra surda, que +principiára a lavrar, tomava o seu companheiro de infancia e +particular amigo o brazileiro Seabra. <br /> + +<br /> + +Nunca elle sentira entranhada no coração metade +da bem-querença que apparentemente ostentava para com o +conselheiro: mas depois de uma conferencia que tivera com mestre +Pertunhas tornára-se mais manifesta a sua hostilidade e +menos observadora de etiquetas e rebuços. <br /> + +<br /> + +Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do +conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o +missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos +bens da Igreja. <br /> + +<br /> + +Foi tambem o brazileiro quem trouxe á flor de agua os +antigos excessos demagogicos, que caracterisaram o principio de +carreira politica do conselheiro, e referira, com modos de horrorisado, +a substancia dos exaltados discursos que elle proferira nas camaras, +advogando ideias cuja só +exposição ferira de pavor a +imaginação dos povos. <br /> + +<br /> + +Finalmente, até o principio dos trabalhos para as estradas, +cujo protrahido adiamento fôra até +aquelle tempo um capitulo de accusação contra o +pae de Magdalena, servia agora de arma á +opposição. <br /> + +<br /> + +O brazileiro, em attenção a quem se +adoptára o traçado que ia ser posto em +execução, +era o que provava á saciedade com grande +exhibição de cifras +<span class="pagenum">[82]</span> +e de razões economicas, ser +esse traçado, +sobre dispendioso, irracional. <br /> + +<br /> + +E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio +conselheiro, quando este os allegava para vêr se conseguia +demovel-o do empenho que mostrava em que o traçado em +questão fôsse preferido aos outros. Tal era o +estado das coisas publicas na terra no dia em que principiaram os +primeiros trabalhos de campo. <br /> + +<br /> + +Tinham-se passado alguns dias depois da prisão do Herodes. <br /> + +<br /> + +A aldeia vira-se invadida por um bando de sêres +desconhecidos, que vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma +população habituada a considerar como +occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros ou das cancellas +de qualquer proprietario da localidade. <br /> + +<br /> + +A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais +operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou +maiores mudanças na vida moral da aldeia do que nas +condições physicas d'ella as bandeirolas, os +niveladores, as enxadas, as pás, alviões, +picaretas, carros de mão e padiolas, de que era armada essa +cohorte. <br /> + +<br /> + +Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior +actividade tinham começado os trabalhos. Era como +já dissemos, na casa do herbanario. Pela +demolição d'ella, e do +quintal que a rodeava, principiaram as obras. <br /> + +<br /> + +O velho Vicente assignára dias antes o auto de +expropriação e recebera o preço da +venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro, +não lhe foi muito regateado. <br /> + +<br /> + +Elle, porém, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por +as arvores nada quiz; não podia resignar-se a vendel-as. +Podia vêl-as cair, como amigos sacrificados no cadafalso, mas +mercadejar-lhes com os restos, isso não. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[83]</span> +O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu á Fazenda +Nacional de compensação ao +excessivo preço por que fôram expropriados os bens +de que o brazileiro se apossára, com o patriotico intuito de +promover os seus melhoramentos particulares, preço que por +empenho do conselheiro não foi litigado. <br /> + +<br /> + +Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram +resistir, mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido á +cohorte de operarios melhor armados do que elles, em parte cedendo +ás imperiosas ordens do herbanario, que, ao sair pela ultima +vez da casa, onde envelhecera, lhes disse, com voz irritada e severa: <br /> + +<br /> + +―Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes +vós, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz! <br /> + +<br /> + +Os instigadores das massas conheceram que não era aquella a +occasião nem aquelle o pretexto proprio para os seus +projectos, e adiaram, em vista d'isso, a empresa prudentemente. <br /> + +<br /> + +Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em +que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda. +<br /> + +<br /> + +Na baixa em que ficava a habitação do herbanario, +ia uma azafama extraordinaria. <br /> + +<br /> + +O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de +destruição; desconjuntavam-se as +pedras dos muros, desfazia-se em pó a argamassa secular, +caíam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos +das arvores, alastrava-se de tijolo e caliça a verdura dos +taboleiros, e cêdo, de toda aquella vivenda tão +amena e virente, só restavam ruinas. <br /> + +<br /> + +Numerosos grupos de já pacificados espectadores seguiam com +curiosidade as operações de +devastação; mas, longe d'alli, a maior distancia +do que os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que +elle orvalhava de lagrimas, o unico +coração que elle devéras apertava de +dor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[84]</span> +O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se +divisava toda a scena. Com a cabeça pousada na +mão e o braço +apoiado sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore, +que d'alli via vacillar e cair, como se fôsse um amigo que o +precedesse no tumulo. Parecia ter fugido para longe, para pelo menos +não lhes ouvir o estertor da agonia. <br /> + +<br /> + +Ao lado do velho estava Augusto. <br /> + +<br /> + +Não era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da +demolição. <br /> + +<br /> + +Mais do que uma vez tentára arrancar o herbanario d'aquelle +sitio. O velho, porém, resistiu; queria estar alli +até vêr cair a ultima arvore. <br /> + +<br /> + +Ao pinheiral d'onde assistia á scena, chegava em +confusão o alarido dos trabalhadores, o rumor do manobrar +dos instrumentos, e até o da quéda das arvores +cortadas. <br /> + +<br /> + +O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore, +recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava +ligada. <br /> + +<br /> + +―Lá vae aquella faia!―dizia elle, com intensa +melancolia―pobre velha! Era á tua sombra que meu pae me +ensinava a ler! Encostava-se áquelle tronco sobre a grossa +raiz que elle tem á flor da terra e pegando em mim ao collo, +guiava-me nas primeiras lições! E viver eu para +te +vêr cair! <br /> + +<br /> + +E, ao perceber-lhe balançar as sumidades, o velho fechou os +olhos instinctivamente. Cêdo ouviu um estrondo... Quando os +abriu, estava por terra a faia. <br /> + +<br /> + +―Agora é a tua vez, pobre carvalho!―dizia algum tempo +depois―muito queria minha mãe áquella arvore! +Por suas mãos a plantou bem +tenra. Nunca me sentei áquella sombra, que me não +lembrasse da santa mulher! Parecia que eram vozes tuas, que m'a +recordavam, infeliz! Barbaros! Olha com que desamor a decepam! +Perdôa-me, +<span class="pagenum">[85]</span> +meu velho +amigo, mas bem vês que te não posso valer. <br /> + +<br /> + +E o carvalho caíu. <br /> + +<br /> + +―Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno +passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto +cubiçavam as creanças, que pela ultima vez o +fazias!... Adeus, pobre amiga, adeus. <br /> + +<br /> + +E caía a cerdeira tambem. <br /> + +<br /> + +E caíam, uma após outra, todas as arvores do +quintal, os limoeiros, as nogueiras, os salgueiros e toda a familia +vegetal do velho Vicente, que sentia ir-se-lhe com ella a alma. +Memorias de infancia, sonhos de juventude, e reminiscencias de velho, +como aves invisiveis, occultas nas copas d'aquellas arvores, surgiam +agora, espavoridas e desnorteadas, a procurar o refugio que +não encontravam fóra dalli. <br /> + +<br /> + +Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram +dolorosamente feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena +casa, onde elle envelhecêra e contava morrer, e ao +patentear-se indiscretamente aos olhos irreverentes e curiosos do povo +aquelle recatado asylo. <br /> + +<br /> + +A demolição proseguia com ardor e actividade. Em +pouco tempo, só restavam da casa os muros, meio derrocados; +e, no quintal, a serra e o machado principiavam a exercer no tronco da +ultima arvore a sua obra destruidora. Era o castanheiro da entrada, +gigante de outro seculo, que desafiára os raios de muitos +invernos successivos. <br /> + +<br /> + +A exaltação do herbanario cresceu n'aquelle +momento. Ergueu-se, pallido e trémulo, apoiou-se no hombro +de Augusto, murmurando: <br /> + +<br /> + +―Tambem o castanheiro! Já era arvore quando eu nasci! Como +elles se encarniçam contra elle! Mas não te +parece, Augusto, que não soffre muito o castanheiro?... +Sabes? É que elle já +não agradeceria a vida, porque tinha de viver assim +desamparado +<span class="pagenum">[86]</span> +dos seus outros +companheiros, que vê +caídos no chão... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao +lado d'elles... É como eu. <br /> + +<br /> + +O castanheiro principiou a oscillar. <br /> + +<br /> + +―Repara―disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o +braço de Augusto.―Elle já treme! Não +vês!... Lá lhe deitam a corda... Vae cair!... +Parece-me que estou a +sentir aquelle estalar de fibras... <br /> + +<br /> + +E a arvore caíu com fragor no chão, que por tanto +tempo +cobrira de sombras. <br /> + +<br /> + +Estava ultimada a obra. <br /> + +<br /> + +O herbanario encostou a cabeça ao hombro de Augusto e rompeu +em soluços. <br /> + +<br /> + +―Então, tio Vicente, tenha animo―dizia-lhe Augusto, +igualmente commovido. <br /> + +<br /> + +―Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para +acolá e não ver em pé uma +só das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um sonho +isto, um sonho de afflicção! Sinto-me +tão só no mundo! Ai! se a morte me ferisse agora! +<br /> + +<br /> + +A dor, a saudade e o desalento davam uma +uncção de poesia +elegiaca á figura, ao gesto e ás +palavras do velho, que desvanecia tudo o que n'elle pudésse +haver, nas situações ordinarias da vida, capaz de +desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente. <br /> + +<br /> + +Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos +materiaes, lagrima que não importa uma ironia á +civilisação. +Exalte-se embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como +meteoro, as povoações e os êrmos; mas +não seja isso motivo para condemnar a compaixão +pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada á +beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a +cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de +redempção, o vencido, desde que +cáe, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima +<span class="pagenum">[87]</span> +de saudade. Não tenteis +a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos áridos +que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida á vossa +alma sêcca e esteril. Quem devéras confia nos +destinos da humanidade não tem mêdo das lagrimas. +Pode-se triumphar com ellas nos olhos. <br /> + +<br /> + +Passado algum tempo, e quando já as sombras da noite se +condensavam nos valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o +velho disse para Augusto: <br /> + +<br /> + +―Agora que não tenho casa, dá-me por alguns dias +o abrigo da tua. <br /> + +<br /> + +―Por alguns dias?―repetiu Augusto, admirado.―Pois quer deixar-me +depois! <br /> + +<br /> + +―Quero. Vou com ellas. <br /> + +<br /> + +E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas. <br /> + +<br /> + +Atravessaram a aldeia á hora a que vibravam nos ares os sons +melancolicos das Avé-Marias. <br /> + +<br /> + +Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois. <br /> + +<br /> + +―Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!―disse o +herbanario, ao transpor o limiar.―Má companhia te +fará a minha velhice. <br /> + +<br /> + +―Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua +presença podia desalentar quem na mocidade é mais +fraco e desalentado do que ninguem o pode ser na velhice. <br /> + +<br /> + +―Custou-me muito este golpe de hoje! Não contava com elle! +Desde hontem envelheci muitos annos. Podes crêl-o. <br /> + +<br /> + +Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de +fóra da porta: <br /> + +<br /> + +―Dão licença? <br /> + +<br /> + +E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes +sorrisos. <br /> + +<br /> + +O herbanario e Augusto não reprimiram um gesto de +impaciencia. <br /> + +<br /> + +O homem entrou. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span> +―Ora Deus seja aqui! Tão grande é o dia como a +romaria, sr. Augusto! Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que +tinha ido de manhã para casa do tio Vicente; vou +lá... estava um mundo de gente no sitio... Mas qual sr. +Augusto, nem tio Vicente! Então com que +escorraçaram-n'o do seu ninho?... Pobre homem! A falar +verdade, n'essa idade! Já sei que vem para casa do nosso +Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda bem que o temos +por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que tambem fizeram-n'a +fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa assim!... Coisas +cá do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheirão +na tal estrada! E já por ahi se rosnam coisas! Emfim, +politicos! politicos! Todos são os mesmos... Vae por ahi uma +poeira dos meus peccados com a ordem a respeito do cemiterio; e com a +historia do Herodes! Sabem que elle esteve hontem para matar o +missionario?... E valha a verdade, dizem que por ordem de alguem do +Mosteiro... Que eu não acredito, mas emfim, aquella historia +no sermão do outro dia... E o tal sr. Henrique, que +é unha e carne com elles... Elle será muito boa +pessoa, mas não me calha... Lá feliz, isso como +não sei de outro, com dinheiro e sem cuidados! E sempre se +faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi dizer que sim. <br /> + +<br /> + +O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente +impassibilidade d'este não illudiu o velho. <br /> + +<br /> + +O Pertunhas não se exgotára ainda: <br /> + +<br /> + +―Ora agora, quem anda fulo é o brazileiro, o Seabra. Pelos +modos, eu não sei o que ahi houve; o conselheiro +não o tratou muito bem, dizem, n'uma carta que escreveu ao +ministro, ou creatura do ministro. Umas historias muito complicadas, +que eu não entendo, mas que promettem dar de si... Veremos +em que ficam as eleições este anno... O +conselheiro bem pode trabalhar, senão... Elle cuidava +<span class="pagenum">[89]</span> +que era só +apresentar-se, e emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr. +Joãozinho das Perdizes? Será fiel esse? +Já me disseram tambem que... <br /> + +<br /> + +―Ó sr. Pertunhas,―atalhou o herbanario, enfastiado―antes +queremos não saber. Importa-nos pouco a politica. <br /> + +<br /> + +―Estão como eu... Isto tambem não é +politica, mas emfim... Pelo que vejo estão +cançados? Eu tambem não os maço +mais... E antes que me +esqueça, ha muitas horas que estou de posse de uma carta +para vossemecê, tio Vicente. É de Lisboa, veio por +o correio de hoje. Não lh'a mandei a casa, porque... +não sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como o +vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso... <br /> + +<br /> + +O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando +para o sobrescripto, disse com indifferença: <br /> + +<br /> + +―É do Manoel. <br /> + +<br /> + +E abriu-a lentamente. <br /> + +<br /> + +O mestre de latim deixou-se ficar, na esperança de ouvir +novidades. <br /> + +<br /> + +A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio +de indignação e de +colera: <br /> + +<br /> + +―Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem +sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos +amigos, com a justiça das causas e com a voz da propria +consciencia, do que com os caprichos e interesses dos poderosos com +quem vive! <br /> + +<br /> + +―Mas que é?―perguntou Augusto, sem atinar com a +significação d'aquellas palavras. <br /> + +<br /> + +―Lê. <br /> + +<br /> + +E passou a carta para as mãos de Augusto. <br /> + +<br /> + +O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira +obrigado a ceder, na questão do despacho de Augusto, a +fortes influencias que se +<span class="pagenum">[90]</span> +empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que mais tarde lhe +explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle, talvez +fôsse isto até uma vantagem; que o logar que pedia +era a sua +annullação perpetua, e que elle, conselheiro, +havia de luctar contra a grande modestia do rapaz, trazendo-lhe +á luz os merecimentos reaes, dando-lhe melhor +collocação, e que esperava ainda empregal-o na +capital. <br /> + +<br /> + +Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia. <br /> + +<br /> + +Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios: <br /> + +<br /> + +―Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui. <br /> + +<br /> + +―A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria +despachar, e breve; e quebrou-a como um pêrro! Oh! o que +fizeram d'aquelle homem! <br /> + +<br /> + +―Quê?! Pois é possivel?―perguntou, exaggerando a +sua consternação e espanto, o officioso +Pertunhas.―É possível que o sr. Augusto +não fôsse despachado?! <br /> + +<br /> + +E dizendo isto, passou a desfiar uma série de +consolações, qual d'ellas mais tôla e +sem cabimento. <br /> + +<br /> + +Até que emfim, tendo já novidades para contar, e +almejando communical-as aos frequentadores da taberna do Canada, onde +devia estar reunida grande e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a +pretexto de não ser mais tempo incómmodo, e +deixou-os outra vez sós. <br /> + +<br /> + +―Estão-me guardados para o fim da vida todos os desenganos! +todas as amarguras! todos os desesperos!...―disse o herbanario +momentos depois.―É para se odiar o mundo e os homens +vêr um, que conhecemos generoso e innocente, contaminado +tambem!... Pobre Augusto! Não basta que sejam modestos os +teus desejos... nem assim t'os deixam realisar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[91]</span> +Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo: <br /> + +<br /> + +―Por que te não fazes politico? Por que não vaes +tambem para a taberna do Canada dizer tolices sobre a +governança do paiz? Talvez levasses comtigo alguns +tôlos, e tinhas n'isso uma +recommendação poderosa. Olha para +aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um influente... +Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer? <br /> + +<br /> + +―Ficar―respondeu Augusto, com firmeza. <br /> + +<br /> + +O herbanario fixou-o com um olhar penetrante. <br /> + +<br /> + +―Ainda?... Mas... não te vae ser suave agora a vida, rapaz. +Para se viver não basta uma... uma loucura. Repara bem. Se +quizeres... O Manoel é leviano, mas creio que ainda +não perverso; eu lhe escreverei... talvez que em Lisboa... <br /> + +<br /> + +―Não lhe escreva. Sabe que não partiria para +Lisboa... <br /> + +<br /> + +―Mas... repara!... Estás muito novo, Augusto... Tens um +longo futuro deante de ti. E, ficando, o que te espera?... <br /> + +<br /> + +―A morte que fôsse, a morte de miseria e de fome, ficava. +Mas resta-me ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o. <br /> + +<br /> + +O herbanario baixou a cabeça, pensativo. <br /> + +<br /> + +Soaram n'isto á porta da sala duas pancadas lentas. <br /> + +<br /> + +O herbanario fez um gesto de enfado. <br /> + +<br /> + +―Não abras sem eu sair,―disse elle a Augusto, que se +erguera―não estou de animo para aturar importunos. <br /> + +<br /> + +E passou para uma sala contigua. <br /> + +<br /> + +Augusto foi abrir ao novo visitante. <br /> + +<br /> + +Achou-se na presença do brazileiro Seabra. <br /> + +<br /> + +A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer +valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro. <br /> + +<br /> + +Augusto offereceu-lhe cadeira Augusto offereceu-lhe cadeira para se +sentar, +<span class="pagenum">[92]</span> +sem inquirir do motivo de tão +inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou: <br /> + +<br /> + +―Acabo agora mesmo de saber da injustiça que lhe fizeram. +Senti-a como se fôra propria, e venho aqui declarar-lh'o. <br /> + +<br /> + +Augusto curvou-se, em signal de agradecimento. <br /> + +<br /> + +―Mas então que quer?―proseguiu o homem.―Hoje em dia +é tudo assim. Padrinhos e mais padrinhos, e o mais +são historias. Estamos n'uma época de +corrupção e de immoralidades, e ninguem sabe onde +isto irá parar. <br /> + +<br /> + +Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu: <br /> + +<br /> + +―Tôlo é quem não faz como os mais. O +mundo está para os velhacos. <br /> + +<br /> + +Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de +Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo: <br /> + +<br /> + +―Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias não pode +receber as offensas e ficar-se com ellas assim. O perdão +evangelico é muito +bonito, mas não é para homens. Não lhe +parece? +Eu por mim não gósto de genios de lama. Falemos +como amigos. Nós ambos somos victimas de um mesmo homem. O +sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se +apregoava seu protector. Ahi temos a protecção +que elle lhe +deu. Eu tambem lhe devo finezas. <br /> + +<br /> + +―V. s.<sup>a</sup>?―perguntou Augusto, que não +podia saber o que lhe +queria no fim de tudo o brazileiro. <br /> + +<br /> + +―Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi. <br /> + +<br /> + +E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu +principio á +exposição dos seus aggravos: <br /> + +<br /> + +―O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a +causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me +visconde por fôrça. Coisas de que eu me estou +rindo... Mas... emfim, para me livrar d'aquelle importuno, +<span class="pagenum">[93]</span> +disse-lhe que... fizesse lá o que quizesse... +Pois, senhores, não teve o petulante o atrevimento de +escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da +opposição, mantem aturada +correspondencia; não teve a audacia de lhe dizer que eu +andava sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel, +pois promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao +Estado, visto que com tão pouco me contentava, e outras +coisas n'este gôsto? O petulante!... <br /> + +<br /> + +Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam, +luctava para se conservar sério perante aquella +indignação do sr. Seabra. <br /> + +<br /> + +―Mas tem a certeza d'isso?―perguntou elle.―Ás vezes +são calumnias... <br /> + +<br /> + +―Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro +não, mas do secretario, que é o +mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse á +mão... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo; +mas era de parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo +quanto eu pudésse dar, porque... porque... por umas tolices +de que eu me lembrei a tempo... Ora ahi tem como elles +são!... Que venham para cá com os seus +melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se hão +de arrepender. <br /> + +<br /> + +―Mas... talvez haja equivoco. <br /> + +<br /> + +―Equivoco? Ora essa! Pois eu não li a carta? Ella ha de +apparecer em publico; oh! se ha de! Isto é, não a +parte que me diz respeito, +porque... porque emfim são negocios particulares, que +não interessam a terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella, +umas promessas do ministro, que põem a calva á +mostra a este Catão, que nos anda aqui a prégar +liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com +muita vontade. <br /> + +<br /> + +―Acaso tenciona?... <br /> + +<br /> + +―Se tenciono?! Pudéra não! Eu lhe +afianço que o homem ha de saber com quem se metteu. Deixe +<span class="pagenum">[94]</span> +vir as +eleições, deixe-as vir. Já ha +de achar o caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto +eu... A lição ha de leval-a breve. <br /> + +<br /> + +―Vão guerrear a eleição do +conselheiro? <br /> + +<br /> + +―Faço essa tenção. <br /> + +<br /> + +―E quem lhe oppõem? <br /> + +<br /> + +―O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa. <br /> + +<br /> + +―Que nem o circulo conhece? <br /> + +<br /> + +―Que importa? É uma lição. Aqui +não ha politica nem meia politica. Eu não morro +pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro. Mas +é preciso aproveitar tudo. E assim temos por nós +a auctoridade, além dos padres. <br /> + +<br /> + +Augusto não se sentia com disposições +para discutir esta questão politica; por isso nada mais lhe +replicou. <br /> + +<br /> + +O Seabra proseguiu: <br /> + +<br /> + +―O que eu quero saber é se o amigo quer entrar na nossa +alliança e acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A +vingança é o prazer dos deuses, e +visto que foi tambem offendido... <br /> + +<br /> + +―Não, senhor, não acceito―acudiu com vivacidade +Augusto. <br /> + +<br /> + +―Escute. Deixe-me concluir. Não sabe do que falo. Pouco se +exige. A coisa é esta: na carta a que me referi, e que por +acaso me chegou ás mãos, fala-se n'uma outra, ou +em outras anteriores, em que se tratava, mais por miudo, de uma curiosa +transacção politica que n'esta se revela claro. O +conselheiro é pouco acautelado; haja vista ao extravio +d'esta, e por isso... <br /> + +<br /> + +Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se não +pudésse comprehender onde elle queria +chegar. <br /> + +<br /> + +O Seabra proseguiu: <br /> + +<br /> + +―Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro... +sim, porque julgo que continúa a ensinar os pequenos, e, +já se sabe... como +<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span> +mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais +como a D. Victoria é... um tanto descuidada, como todos +nós sabemos... Não sei se me percebe?... Dizia +eu... sim, que se ás vezes, por acaso, <a href="#e7">encontrasse</a> +coisa que +valesse... <br /> + +<br /> + +Augusto levantou-se, indignado. <br /> + +<br /> + +―Sr. Seabra!―exclamou, cheio de cólera. <br /> + +<br /> + +―Valha-me Deus, eu não quero dizer... Não me +entendeu... Bem vê que se o senhor devesse +obrigações ao conselheiro, eu não +ousava... Mas... <br /> + +<br /> + +―Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se não insistir... <br /> + +<br /> + +―Entendamo-nos. O senhor está no principio da vida. Precisa +do auxilio de alguem. Offerece-se-lhe occasião para fazer +serviços ao governo, que +é finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para +isso? Quasi nada... O senhor sabe perfeitamente que se não +trata aqui de desgraçar ninguem, de levar ninguem +á forca. <br /> + +<br /> + +―Visto que v. s.<sup>a</sup> insiste, sou obrigado a +retirar-me. <br /> + +<br /> + +―Espere, sr. Augusto―acudiu o brazileiro, segurando-o.―Repare no que +faz. Não seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns +sacrificios, se vir que nas suas circumstancias... <br /> + +<br /> + +―Visto que v. s.<sup>a</sup> não se cala, nem +quer que eu me retire, +ouça então o que tenho para lhe dizer. +A sua proposta seria para mim o maior dos insultos, se não +fôsse tal a baixeza d'ella, que +até despe de toda a imputação a pessoa +que a faz. Os +homens, faltos de sentimentos de honra, não offendem, quando +insultam; não se lhes pode pedir razão da +infamia, porque não a conhecem como tal; identificaram-se +com ella. Por isso, só me resta um partido, é +convidal-o a sair. <br /> + +<br /> + +O brazileiro fôra erguendo-se á medida que Augusto +falava. Estava espantado por vêr que um rapaz, sem um vintem +de seu, ousasse falar com tal +<span class="pagenum">[96]</span> +irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crédito em +tantos bancos! A ordem do mundo estava perturbada! <br /> + +<br /> + +―Ora esta!―disse elle no fim.―Então o senhor +ordena-me?... <br /> + +<br /> + +―Que saia!―respondeu Augusto, indicando-lhe a porta. <br /> + +<br /> + +O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do +que ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra +vez, e, no limiar, parou para dizer: <br /> + +<br /> + +―Veja lá o que faz! Eu só lhe digo que me +não convem dar a minhas filhas um mestre de soberbas. <br /> + +<br /> + +―Decerto que lhe não poderá convir a +educação que eu désse a suas filhas; +é natural +não querer educar consciencias que sejam juizes da sua +corrupção. Deixe-as ignorantes, para +não ser castigado pelo desprezo d'ellas. <br /> + +<br /> + +―Quer então dizer... <br /> + +<br /> + +―Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra. <br /> + +<br /> + +O brazileiro saiu, bufando. <br /> + +<br /> + +Augusto, que ficára só, sentiu-se apertar nos +braços de alguem que entrou, sem elle sentir. <br /> + +<br /> + +Era o herbanario. <br /> + +<br /> + +―É assim, é assim que te vingas de todos, rapaz! +Esmaga-m'os com a tua nobreza! <br /> + +<br /> + +Augusto sorriu-se tristemente. <br /> + +<br /> + +―O peor é, meu amigo―disse elle―que é a +segunda subtracção que hoje se opéra +no meu orçamento, e... a nobreza não nutre! <br /> + +<br /> + +―Mas consola!―replicou o velho. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[97]</span> +<h4>XXII </h4> + +<br /> + +Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a +morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando +ouviu atraz de si correr o reposteiro da entrada. <br /> + +<br /> + +Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta. <br /> + +<br /> + +―Retiro-me, se sou importuno―disse a pessoa que entrára, e +que ficára no limiar da porta. <br /> + +<br /> + +Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de +Souzellas. <br /> + +<br /> + +―Ah! é o primo Henrique? Pode entrar. <br /> + +<br /> + +―Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a +applicação de todas as nossas +faculdades, e a presença de um importuno... <br /> + +<br /> + +―Mas não se dá agora esse caso; nem quanto +á delicadeza da correspondencia, nem quanto á +importunidade do visitante. <br /> + +<br /> + +―Então utiliso-me da concessão. <br /> + +<br /> + +―Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o +tranquillisar em relação á +filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter +fiança, apesar de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha +quem trabalhe contra elle. E como ha de ter padecido na cadeia na +incerteza em que está? Quem ha de dizer que n'aquelle corpo, +robusto e forte, se aloja uma alma de tão delicados +sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve +a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa +da madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo +para seguir. <br /> + +<br /> + +―E como vae a pequena? <br /> + +<br /> + +―Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber +<span class="pagenum">[98]</span> +áquelle pobre homem +esperanças, que eu mesma não tenho. <br /> + +<br /> + +―Que disse o cirurgião? <br /> + +<br /> + +―Nada animador. <br /> + +<br /> + +―Como capitulou a molestia? <br /> + +<br /> + +―Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca +pude comprehender a necessidade que tem certa gente de conhecer a +natureza da doença que lhes ameaça roubar uma +pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão +que me interessa. Tudo o +mais me é indifferente. N'uma pessoa doente vejo um espirito +que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos peço +que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não +quero saber o que é. Julgo natural ao sentimento o +considerar assim a molestia e a morte. <br /> + +<br /> + +―Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na +litteratura, prima. Mas a proposito do Herodes; +deixe-me dizer-lhe +que está sendo muito commentada na +aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É voz +constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras +d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem +concedidas +inteiras. Imagine o clamor que por ahi vae! <br /> + +<br /> + +―Deixe clamar―respondeu Magdalena, encolhendo os hombros. <br /> + +<br /> + +―Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me, +quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia +não sou muito bem tratado. <br /> + +<br /> + +―É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que +não era prudente. <br /> + +<br /> + +―Não receie. Esta gente a final é cobarde. <br /> + +<br /> + +―Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. +Foi uma desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do +missionario. <br /> + +<br /> + +―Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como +recompensa, o ter presenciado o accesso de furor rabico do homem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[99]</span> +―Vamos, primo Henrique; confessemos que a +situação não foi das mais agradaveis. <br /> + +<br /> + +―Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as +senhoras e talvez por esse episodio dar vigor á +opposição, que alguem por ahi +se interessa em organisar contra o sr. conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Ah! pois trata-se d'isso? <br /> + +<br /> + +―Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do +cemiterio, a historia do sermão, e agora o episodio do +Cancella, teem feito um grande mal. <br /> + +<br /> + +―Oh! se meu pae perdia!... <br /> + +<br /> + +―Não entendo essa exclamação, prima +Magdalena. Ia jurar que era a expressão de um desejo. <br /> + +<br /> + +―E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae +abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus. <br /> + +<br /> + +―Conhece pouco ainda o coração humano, prima. +Seu pae está votado á politica para toda a vida. +Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia, aqui mesmo faria a mais +deploravel, impertinente e inutil de todas as politicas, a politica +local. <br /> + +<br /> + +A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique +dizia. <br /> + +<br /> + +Henrique proseguiu: <br /> + +<br /> + +―Está organisado um club opposicionista na taberna de um +tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres +são os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente. +É preciso olhar por isto e sobretudo não perder +de vista o sr. +Joãozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande +conta, porque representa o de uma freguezia inteira. É de +suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. +Já vê, prima, +que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me +deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou +a interessar-me pelas questões locaes, como se aqui +estivesse, ha annos. <br /> + +<br /> + +―E é um bom indicio de cura, pode crer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[100]</span> +―E ainda tem empenho de me curar? <br /> + +<br /> + +―Empenho, todo; esperança é que menos. <br /> + +<br /> + +―Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão +cruel! Seja; escutarei a sentença com coragem. Diga-me o que +pensa de mim. Ha muito que não falamos n'isto. A ultima vez +que o fizemos, um tanto categoricamente, foi n'uma occasião +bem critica. Julgo que o meu procedimento de então +até hoje +lhe terá feito conceber do meu caracter um não +muito desfavoravel conceito. Bem vê que não +abusei... <br /> + +<br /> + +―De quê?―perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um +gesto de altivez.―É certo que tem em todo esse tempo dado +provas de discreção, no que se mostrou mais +contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu +interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o. <br /> + +<br /> + +―Seja contricção, visto que assim o quer. Mas +não lhe merecerá ella alguma misericordia para +com o peccádor? <br /> + +<br /> + +―Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella +só me obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem +sempre demasiado delicadas, com que me mortifica. <br /> + +<br /> + +―Está sendo tão amavel!... <br /> + +<br /> + +―Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias. <br /> + +<br /> + +―Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima +Magdalena. <br /> + +<br /> + +―Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia +do mal, inda não desisti de cural-o. <br /> + +<br /> + +―Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento? +<br /> + +<br /> + +―Ha já agora uma unica maneira de o salvar. <br /> + +<br /> + +―E é?... <br /> + +<br /> + +―Apaixonal-o. <br /> + +<br /> + +―Ah! n'esse caso estou salvo!―exclamou Henrique, n'um impeto, que +não pôde passar sem um sorriso da morgadinha. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[101]</span> +―Ouça. É preciso andar com tento na escolha do +objecto d'essa paixão, sob pena de aggravar o mal em vez de +minoral-o. <br /> + +<br /> + +―E como hei de escolher? <br /> + +<br /> + +-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si +proprio. <br /> + +<br /> + +―A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser +mais clara... <br /> + +<br /> + +―De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de +persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma +missão heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de +uma vaidade de boa indole, que se lhe não pode levar a mal. +Repugna-lhe a ideia da inutilidade, da insignificancia da sua +existencia. Não se resigna ao papel de comparsa, ambiciona o +de protector. Se o acaso, ou uma inconsideração +de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter igualmente +forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe +que prescindia da sua protecção, grandes +desgostos e amarguras o esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, +fraca, um d'estes seres nervosamente delicados, que tremem ao verem-se +sós, cheios de poeticas superstições, +que tenha a +dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se n'elle +encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo +tempo, domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem +consciencia do imperio que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter +d'estes é que deve procurar para salvar-se; só +d'elle pode esperar a realisação da vaga ideia de +felicidade, que +todos concebem na vida. <br /> + +<br /> + +―E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe +que poderia encontrar á mão o tal anjo salvador, +que precisa do meu braço para se apoiar? <br /> + +<br /> + +―Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse +sériamente nas necessidades do seu +coração. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[102]</span> +Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas +do correio. <br /> + +<br /> + +―Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a +carta de meu pae―disse Magdalena, examinando a carta recebida. <br /> + +<br /> + +―Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos +periodicos que chegaram. <br /> + +<br /> + +E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as +folhas de Lisboa. <br /> + +<br /> + +Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha +interrompeu a leitura, exclamando: <br /> + +<br /> + +―Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto? <br /> + +<br /> + +Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos. <br /> + +<br /> + +Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a +carta do conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Ha alguma má nova?―perguntou Henrique, ferido por aquella +expressão. <br /> + +<br /> + +Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com +ardor a leitura até o fim. <br /> + +<br /> + +Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria +n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao +findar a leitura, passou a +mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga. <br /> + +<br /> + +―Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a +perturbar?―perguntou Henrique, já assustado tambem. <br /> + +<br /> + +―Não sei bem; não posso ainda dizer a que se +refere meu pae; mas sinto-me interiormente sobresaltada, como se o +adivinhasse. <br /> + +<br /> + +―Mas a final o que se diz ahi? <br /> + +<br /> + +―Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por +certo doloroso. <br /> + +<br /> + +Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as +mãos. <br /> + +<br /> + +N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido +victima de um abuso de confiança commettido por alguem, que +elle ainda não sabia dizer +<span class="pagenum">[103]</span> +quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada +por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por +não menor personagem politica do que o secretario intimo do +ministro. <br /> + +<br /> + +O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado +compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional +irritação que transparecia em todos os periodos, +da que escrevêra á filha. O periodico que, para +fins politicos, fizera a +publicação, havia occultado os nomes, +porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a +discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em +aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das +suas demoras na aldeia, recebêra o conselheiro essa carta; +alli, no seio da familia, a confiança que depositava em +quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por +hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro +dizia á filha que era preciso descobrir o traidor, para +evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da +carta não era para todos comprehendel-o, e portanto +não se limitasse a indagar entre os da baixa classe. +«A vingança, concluia o conselheiro, +de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo +tempo, fazer uma allusão―a vingança, bem ou mal +fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres a uma +acção baixa e vil; entre os que por mim se possam +julgar offendidos, é natural encontrar o +criminoso.» <br /> + +<br /> + +―Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, +consternada.―De que se trata aqui? <br /> + +<br /> + +―Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; +é necessario descobrir o traidor por cautela. +Além de que, para todos os que, como eu, teem entrada n'esta +casa, é isto um mysterio em que a nossa honra +está empenhada, porque v. ex.<sup>as</sup> teem +direito a alimentar +suspeitas. <br /> + +<br /> + +―Por amor de Deus!―acudiu, interrompendo-o, a +morgadinha.―Não pronuncie essa palavra! Suspeitas! +<span class="pagenum">[104]</span> +Esse envenenamento moral, que eu +até aqui não conheci, quer meu pae que +voluntariamente o contraia. <br /> + +<br /> + +―Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento +salvador, prima, como o da vaccina; é um preservativo de +traição. <br /> + +<br /> + +―Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido +occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos +uma +intenção egoista! Oh! isto é horrivel! +Mas... que carta é essa, meu Deus? Que correspondencia pode +ter meu pae, que não deva vêr a luz do dia? Meu +pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! +Meu pae +não tem crimes; meu pae não tem +acções que o +envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem +receiar-se de indiscreções. Pois +não é assim? <br /> + +<br /> + +―Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem +criminosos... <br /> + +<br /> + +―A politica! Sim, é isso! Eu devia +prevêr que essa palavra viria para explicar este mysterio! +Por politica é-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo, +por politica força-se a consciencia, e depois... ella +justifica tudo. Que obras são as obras politicas que +precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou +salvar uma nação, pois para +se tratar dos interesses de um povo, é sempre necessario o +disfarce, a dissimulação, o mysterio? <br /> + +<br /> + +―Quando se não pode contar com a boa fé dos +outros, perde sempre quem fôr escrupulosamente fiel +á sua. <br /> + +<br /> + +―Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira +cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... +deixe-m'as vêr... quero saber que carta é esta. <br /> + +<br /> + +Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que +não costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito +suspeitar que era esse o que publicava a carta em questão. +Não fazendo do conselheiro +<span class="pagenum">[105]</span> +tão +subido e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que +effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante +Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso +coração de filha, e para o seu +caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente nobre, generoso e +justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas frequentes na +vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que +fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o +conseguiu, porém. +Magdalena, com aquella firmeza de resolução que +energicamente se lhe revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a +mão para receber os periodicos: <br /> + +<br /> + +―Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é +possivel que de meu pae se diga ahi alguma coisa que não +devam ler os olhos de uma filha. <br /> + +<br /> + +E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente +aquella de que elle mais receiava. <br /> + +<br /> + +E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril. <br /> + +<br /> + +Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de +Magdalena. <br /> + +<br /> + +Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, +que até alli vagueavam por diversas +secções do periodico, fixaram-se n'um ponto; +contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; +córou e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de +si a folha com um movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o +dominio de uma commoção profunda: <br /> + +<br /> + +―Ó meu Deus! E não ter um +coração, como o d'elle, a +fôrça precisa para fugir d'estes +enredos! Isto é de enlouquecer!... <br /> + +<br /> + +Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e +examinou-a. <br /> + +<br /> + +Tinha conjecturado bem. <br /> + +<br /> + +O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem +tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida +de familia. +<span class="pagenum">[106]</span> +Para Henrique, em quem +havia muito se inoculára o scepticismo da época, +impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que +lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande +significação nem gravidade. O caso era o +seguinte: <br /> + +<br /> + +Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante +questão politica; uma d'estas questões +que servem para estremar os campos e descriminar os programmas dos +partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os +principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico +inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais +avançadas ideias liberaes, tinha de antemão +traçado por +elle o caminho a seguir n'esta conjunctura, o circulo, fóra +do qual não poderia combater sem apostasia; mas, como +já atraz dissemos, o conselheiro não era +já o homem que fôra nos primeiros tempos da sua +carreira publica; perdera a fé nas utopias e nos principios +abstractos, e trocava-os de barato por qualquer pequena vantagem +positiva que pudésse obter, se não para si, para +a localidade de que era representante. A logica partidaria +sacrificára-a, sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em +linguagem não sei se parlamentar, se chama conveniencias +politicas. <br /> + +<br /> + +Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios +no conselheiro. <br /> + +<br /> + +Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua +eloquencia, variados conhecimentos e vigor de discussão, +não era elle de +tão espinhosa moral que não tivesse amigos no +seio da maioria, sendo até o proprio ministro um dos mais +intimos. No tempo da discussão, de que falamos, o ministro, +que desejava afastar das camaras todos os adversarios de importancia, +não duvidou entrar em ajustes com o conselheiro. Este, que +já não era +homem para repellir com indignação taes factos, +teve a astucia precisa para se aproveitar das contingencias. +Entenderam-se. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[107]</span> +Chegada a época da discussão, o conselheiro, que +sempre se mostrou ardente adversario da medida ministerial, e de quem +se esperava uma opposicão vigorosa e efficaz, pretextou +subitos negocios a chamal-o á provincia, e partiu, +promettendo voltar a tempo ainda de discutir a questão. <br /> + +<br /> + +Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que +inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que +contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a +questão foi apresentada nas camaras: oradores tibios e mal +escutados acharam-se sós a combatel-a; apagadores officiaes +e officiosos abafaram a tempo a discussão; e, quando o +conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar nos +circulos politicos contra o resultado da votação +e expender as +razões que deveriam fazer repellir a medida. <br /> + +<br /> + +Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o +elegia; e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal +fôra o preço d'ella. <br /> + +<br /> + +Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era +do secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava +vêr claramente as +condições do pacto. <br /> + +<br /> + +Esta publicação causou profunda +sensação em Lisboa. A importancia politica do +conselheiro soffreu com isso. <br /> + +<br /> + +Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto +possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas +declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio. <br /> + +<br /> + +Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que +pertencem, invejosos que só almejam o primeiro pretexto para +os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam. <br /> + +<br /> + +Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas +mãos dos taes; originou discussões e ataques +violentos; e o conselheiro correu +<span class="pagenum">[108]</span> +risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos. <br /> + +<br /> + +Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a +consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma +significação +dolorosa e triste que só desillusões, como as de +Henrique +de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, +poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto. <br /> + +<br /> + +A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de +familia. <br /> + +<br /> + +É que a moral é uma. O homem não pode +dividir-se; os peccados sociaes de quem é virtuoso nos lares +domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que +creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude, +serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel +julgamento para o coração de um pae! É +justo que a +patria peça contas dos crimes de familia e desconfie dos +tribunos que não sabem ser paes, filhos, irmãos e +esposos; +é justo que a familia exija que se seja fiel á +prática e ás crenças que se professam, +e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do +homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os +actos civicos, outra para os actos domesticos. <br /> + +<br /> + +Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no +animo da morgadinha por meio de algumas +consolações, que uma +indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava. <br /> + +<br /> + +Percebeu porém, que, embora as +manifestações do sentimento tivessem cessado +já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado +a profunda e penosa impressão que lhe ficára da +leitura. <br /> + +<br /> + +Como para fazer cessar aquelle genero de +consolações, a que Henrique se julgava obrigado, +e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom +já apparentemente sereno: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +―Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de +quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar +de alguem, mas não se pronuncia claramente. <br /> + +<br /> + +N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma +viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade +attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de +accender logo de manhã os fogões da casa. <br /> + +<br /> + +Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu +cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo +alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, +aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e +Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e +inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de +usar de toda a prudencia e +dissimulação n'esta pesquisa. <br /> + +<br /> + +―Aqui entre nós―dizia Henrique―vejamos em quem se pode, +com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz +bem; um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir +qualquer objecto de valor intrinseco; porém os +ladrões de cartas como estas, são de outra +especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que +frequenta o Mosteiro... <br /> + +<br /> + +E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para +elle com um gesto espantado: <br /> + +<br /> + +―Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo +excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.<sup>as</sup> +livres +para me instaurarem processo. <br /> + +<br /> + +―Ora essa, primo Henrique!―exclamou D. Victoria.―Era o que faltava! +Nada, nada; não se cance; não tem que +vêr. Aquillo foram os criados. <br /> + +<br /> + +Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu +attenção a este episodio. <br /> + +<br /> + +Henrique proseguiu: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[110]</span> +―Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem +deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, +porém, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, +vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar +offendido por elle, e que por vingança... Ora actos capazes +de trazer estas +animadversões a seu pae, prima Magdalena, só a +questão do cemiterio, mas essa não importa a +ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das +expropriações, porém... <br /> + +<br /> + +Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, +antes de enuncial-a. <br /> + +<br /> + +―Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o. <br /> + +<br /> + +―Diga, primo, diga―acudiu logo D. Victoria. <br /> + +<br /> + +―A expropriação da casa do herbanario... O muito +amor que o velho tinha áquella vivenda... A repugnancia com +que viu cortar aquellas arvores velhas... <br /> + +<br /> + +―Então julga que foi o Vicente?―perguntou D. +Victoria.―Mas elle não vem ao Mosteiro ha muitos annos, +primo. <br /> + +<br /> + +―Não digo que fôsse elle, minha senhora―disse +Henrique, cujo embaraço augmentava, sentindo que a +morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse +lendo o pensamento. <br /> + +<br /> + +―Então?―insistia D. Victoria. <br /> + +<br /> + +―Mas―proseguiu Henrique―o velho exerce certa +fascinação na gente da terra; um verdadeiro +prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui +entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero seguir +mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse +rejeitado com indignação por quem me escuta e +attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte. <br /> + +<br /> + +―Faz bem em o abandonar, primo Henrique―disse Magdalena, com +severidade.―Entre ser victima de uma traição e +culpada de uma suspeita injusta, +<span class="pagenum">[111]</span> +cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um +passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas +mais tentadoras situações da vida, se um nome +ennobrecido pelo infortunio, não são garantias +bastantes para +proteger um homem contra os ataques da suspeita, não quero +entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que +é capaz de lançar sacrilegamente a +dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e +irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o +castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar. <br /> + +<br /> + +―Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento +sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma +tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que +é a maior prova de candura +que se pode dar do proprio caracter. <br /> + +<br /> + +D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por +isso exclamou: <br /> + +<br /> + +―Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? +Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto +é que ninguem me tira. <br /> + +<br /> + +Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora +das lições dos pequenos. <br /> + +<br /> + +Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os +dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com +Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se +passára na noite de Natal. <br /> + +<br /> + +A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais +pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como +se até sentisse remorsos de ter escutado as +allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella +se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja +intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que +a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam +os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[112]</span> +―Muito bons dias, sr. Augusto,―disse D. Victoria +affavelmente―então são horas de me vir aturar a +pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De manhã +até á noite a aturar +creanças! Deus me livre! <br /> + +<br /> + +―Agora já não succede assim, minha senhora. +Estou dispensado de parte das minhas +obrigações―disse Augusto, depois de cortejar as +senhoras e Henrique. <br /> + +<br /> + +―Como? <br /> + +<br /> + +―Pois v. ex.<sup>a</sup> não sabe que +já foi nomeado outro +professor para o meu logar? <br /> + +<br /> + +―Que me diz? <br /> + +<br /> + +Em todas as pessoas presentes produziu sensação +esta noticia. <br /> + +<br /> + +D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O +gesto de Henrique tinha uma expressão particular. <br /> + +<br /> + +―Recebi ha dias a participação +official―continuou placidamente Augusto. <br /> + +<br /> + +―Mas―proseguiu D. Victoria―o mano tinha aqui dito que o seu despacho +estava seguro, que, além de ser de toda a +justiça, elle o tomaria a +seu cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada +vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos... <br /> + +<br /> + +Magdalena inclinou a cabeça, suspirando. <br /> + +<br /> + +―Bem vê v. ex.<sup>a</sup>―disse Augusto, com +leve tom de +amargura―que ás vezes ha grandes interesses sociaes +dependentes do despacho de um modesto professor de +instrucção primaria da aldeia, e +portanto não se deve extranhar que um homem politico +attendesse a elles antes de tudo. <br /> + +<br /> + +Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, +encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com +intenção. <br /> + +<br /> + +A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que +se lhe manifestou na +contracção da fronte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[113]</span> +―V. ex.<sup>a</sup> dá-me licença +que +principie os meus +trabalhos?―disse Augusto. <br /> + +<br /> + +―Ai, quando quizer―respondeu D. Victoria.―Os pequenos +estão na sala verde. <br /> + +<br /> + +Augusto saiu. <br /> + +<br /> + +D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e +não se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, +apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob tão +intelligente +direcção. <br /> + +<br /> + +―Olhe que o Eduardito já escreve e já +lê manuscripto como um homem―dizia ella.―Quer +vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter +alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr. <br /> + +<br /> + +E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de +mãe, foi buscar a pasta de Augusto e pôz-se a +procurar n'ella a escripta do filho. <br /> + +<br /> + +―Não vejo ...―disse ella, remexendo os papeis.―Isto que +é?... Ai, isto é uma escripta de Marianna... Ora +veja. <br /> + +<br /> + +Henrique fingiu examinar com attenção a escripta. +<br /> + +<br /> + +―Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? +Eu d'isso não entendo, mas +hão de estar bons. <br /> + +<br /> + +E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma +attenção. <br /> + +<br /> + +―Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria +que +a visse. Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que +elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda +não é das mais faceis... Eu por mim +não a leio... Quer vêr? <br /> + +<br /> + +Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe +ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade +dos filhos. <br /> + +<br /> + +Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a +lêl-a no fim; cêdo, +porém, começou a examinal-a com grande +curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a +leitura, estava-lhe +<span class="pagenum">[114]</span> +nos labios um +sorriso entre de ironia e de triumpho. <br /> + +<br /> + +Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, +disse-lhe, com um modo que a impressionou: <br /> + +<br /> + +―Veja se comprehende a significação d'esta +carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu +irmão. A mim parece-me que as creanças +não a comprehenderiam bem. <br /> + +<br /> + +Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a +ler. <br /> + +<br /> + +Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa +curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez até o fim. <br /> + +<br /> + +Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; +escondeu o rosto entre as mãos e +não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos +olhos. <br /> + +<br /> + +D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta. <br /> + +<br /> + +―Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina? +<br /> + +<br /> + +―É que ha momentos, minha tia,―respondeu Magdalena, +fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas―em que eu não +sei como se resiste á loucura; em que, para não +duvidarmos de nós +mesmos, é necessario duvidar da Providencia, que dizem que +protege os bons. <br /> + +<br /> + +E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da +sala, suffocada pelos soluços. <br /> + +<br /> + +D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, +que ella não podia comprehender. <br /> + +<br /> + +Henrique respondeu simplesmente: <br /> + +<br /> + +―Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. +Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro +se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa. <br /> + +<br /> + +D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira +significação da resposta. <br /> + +<br /> + +―Mas... n'esse caso... visto isso... <br /> + +<br /> + +―Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o +<span class="pagenum">[115]</span> +mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a +todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de +verdade. <br /> + +<br /> + +D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou: <br /> + +<br /> + +―Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta +não esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma +coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi está o pago +que se tira de bem fazer! Ahi está! Veremos a cara com que +elle me responde. Ora deixa... <br /> + +<br /> + +―Eu retiro-me―disse Henrique, pegando no chapéo para sair. +<br /> + +<br /> + +―Fique, primo, fique... Até é bom que +ouça... <br /> + +<br /> + +―Perdão, minha senhora. É melhor que eu +não fique. Ha razões para isso... Tudo deve +passar-se entre v. ex.<sup>a</sup> e elle, e, se me +é licito um +conselho, bom será que não seja demasiado +violenta. <br /> + +<br /> + +Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se. <br /> + +<br /> + +Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por +quê? Não tinha feito o seu dever? Por acaso +não era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as +provas que o acaso contra elle ministrára? <br /> + +<br /> + +Mas em nós todos se deve ter já passado um +phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique. +Occasiões ha em que, apesar de todos os argumentos da +razão, apesar da +conspiração de todas as provas a justificar-nos, +persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que +commettemos um mal, formulando uma accusação. <br /> + +<br /> + +Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos +os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso não +se dava com Henrique. <br /> + +<br /> + +D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de +confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo +o dialogo que se ia seguir, +<span class="pagenum">[116]</span> +encarregando-se ella propria de responder por Augusto. <br /> + +<br /> + +Não se passou muito tempo que Augusto não viesse +procurar a pasta que lhe esquecêra na sala. <br /> + +<br /> + +―Que procura?―disse D. Victoria, que, ao +vêl-o, parou junto da mesa. <br /> + +<br /> + +―Uma pasta que deixei aqui! <br /> + +<br /> + +―Será esta?―disse D. Victoria, mostrando-a. <br /> + +<br /> + +―É essa mesma―respondeu Augusto, indo para +buscal-a. <br /> + +<br /> + +―Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. +Augusto?―perguntou D. Victoria, retendo a pasta. <br /> + +<br /> + +―Muito bem, minha senhora. <br /> + +<br /> + +―Já entenderam esta carta? <br /> + +<br /> + +Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente. <br /> + +<br /> + +―É provavel que já, minha senhora; ainda que +não me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.<sup>a</sup> +me deu. <br /> + +<br /> + +―Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe +pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a +imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que +entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a +despeza que fez, para se mandar pagar. <br /> + +<br /> + +D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma +ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito. <br /> + +<br /> + +Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não +podia comprehender aquellas singulares palavras. <br /> + +<br /> + +―Diz v. ex.<sup>a</sup> que... <br /> + +<br /> + +Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que +Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada +já, accrescentou: <br /> + +<br /> + +―Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[117]</span> +Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que +fazia nem o que queria dizer tudo aquillo. <br /> + +<br /> + +―Mas, por amor de Deus, minha senhora,―disse elle, +já sobresaltado―que quer dizer tudo isto? <br /> + +<br /> + +―Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de +atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais +cuidadoso em esconder as provas da sua villeza. <br /> + +<br /> + +―Minha senhora!―exclamou Augusto, fazendo-se pallido. <br /> + +<br /> + +―Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha +descoberto; nós ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir +o lanço e ficarmos com a carta. <br /> + +<br /> + +―Oh, meu Deus! pois suspeita-se... <br /> + +<br /> + +E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. +Victoria a folha, e começava a lel-a; mas as nuvens que lhe +passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabeça +não o deixavam +comprehender o que lia. <br /> + +<br /> + +Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia: <br /> + +<br /> + +―Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo +Henrique. Sempre é um homem que sabe o que é o +mundo... <br /> + +<br /> + +Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e +scintillou-lhe o olhar de cólera: <br /> + +<br /> + +―Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar +que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma +traição infame, uma traição +que eu não ousaria suspeitar +de ninguem! Mas juro-lhe que... <br /> + +<br /> + +―Ha de dar-me licença de ir accommodar meus +filhos―disse D. Victoria, interrompendo-o +friamente. E encaminhou-se para a porta. <br /> + +<br /> + +Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido: <br /> + +<br /> + +―Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas +<span class="pagenum">[118]</span> +creanças amor de +mãe, não lhes ensine +por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e +a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. +É uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; +vae-lhes envenenar para toda a vida o coração e +talvez que contra si +mesma veja voltar-se a desconfiança que lhes semeia +tão +cêdo. <br /> + +<br /> + +D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, +porém, que não ousou dizer aos filhos +coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio +d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente +calaram as reflexões de Augusto. <br /> + +<br /> + +É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os +olhos, commovida. <br /> + +<br /> + +Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento +tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. +Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao +vêr-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava, +da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se, +engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios. <br /> + +<br /> + +Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, +porém, a reacção; n'aquelle +caracter havia latente uma energia de homem. <br /> + +<br /> + +―Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não +succumbir;―exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe +ás faces o rubor da +exaltação―obriga-me a isso o nome honrado de meu +pae, a santa memoria de minha mãe. A consciencia +me dará forças para luctar com a intriga e com a +calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a +descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha +justiça no Céo, hei de +vencer! Não voltarei mais a esta casa, sem ser com a +cabeça erguida; não pensarei mais em ti, +Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia +<span class="pagenum">[119]</span> +vida, emquanto não saiba que no +teu pensamento o meu nome não é o de um infame. <br /> + +<br /> + +Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta. <br /> + +<br /> + +Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a +turbação, curvou-se respeitosamente perante a +morgadinha, e ia a retirar-se. <br /> + +<br /> + +―Espere,―disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com +profunda melancolia―não saia sem se despedir de uma amiga +que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente. <br /> + +<br /> + +Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no +coração. <br /> + +<br /> + +Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a +estender-lhe a mão. <br /> + +<br /> + +Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas. <br /> + +<br /> + +―Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!―exclamou elle―precisava +d'essas palavras para não enlouquecer. <br /> + +<br /> + +―Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos +lhe pedirão perdão. Creio-o firmemente. <br /> + +<br /> + +―E eu não procurarei tornar a vêl-a, +senão quando pudér justificar essa generosa +confiança. Juro-lh'o. <br /> + +<br /> + +As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe +nos olhos; iam soltar-se e já ella, para as occultar, +desviava o rosto, quando Christina entrou na sala. <br /> + +<br /> + +Christina, a quem a mãe acabára de contar o +acontecido, parou a ver a scena e a commoção dos +dois. <br /> + +<br /> + +Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra. <br /> + +<br /> + +Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no +coração, deixando correr livremente o pranto. <br /> + +<br /> + +Christina correu a abraçal-a. <br /> + +<br /> + +―Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?―exclamou Christina. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel +ingenuidade: <br /> + +<br /> + +―Pois tu... amaval-o? <br /> + +<br /> + +Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio. <br /> + +<br /> + +E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXIII </h4> + +<br /> + +Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu +do Mosteiro, ainda sem plano formado, sem tenção +definida, mas +comprehendendo vagamente a necessidade de abraçar uma +resolução qualquer. <br /> + +<br /> + +As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltára, +tinham-lhe feito conceber a suspeita de que Henrique não +fôra alheio á calumnia que +pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga +não ia longe, e justo é confessar que +não era destituida de plausibilidade a ideia. <br /> + +<br /> + +A especie de aversão reciproca que, desde o primeiro +encontro, os dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de +Natal, em que ficára pendente entre elles uma +provocação, só +á espera de pretexto, concorriam para dar vigor a esta +supposição. <br /> + +<br /> + +Por isso, depois de por muito tempo percorrer á +tôa os caminhos dos campos, sem consciencia nem destino, +Augusto encaminhou-se resolutamente para Alvapenha. <br /> + +<br /> + +Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que +occasionaram a sua +accusação. Mal poderia até dizer de +que era accusado. Percebeu que se tratava de um abuso de +confiança, de uma infamia, mas a impressão +recebida fôra tal que não o deixára +investigar os pormenores do facto. +<span class="pagenum">[121]</span> +Previa em tudo isto +uma traição, e, para a +esclarecer, dirigiu-se á unica pessoa de quem lhe parecia +provavel que ella partisse. <br /> + +<br /> + +Quando chegou a Alvapenha já tinha alli passado a hora de +jantar. <br /> + +<br /> + +Henrique retirára-se para o quarto, D. Dorothéa e +Maria de Jesus, aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a +rezar parte das suas longas orações quotidianas. <br /> + +<br /> + +Quando Augusto bateu á porta, estavam ellas de volta com a +ladainha, que D. Dorothéa dizia em latim, a seu modo, e a +que Maria de Jesus respondia no mesmo idioma. <br /> + +<br /> + +―<em>Turris e burris, fedilisarca, espeque da +justiça, Joannes asellis</em>―dizia D. +Dorothéa. <br /> + +<br /> + +―<em>Orá pér +nós</em>―respondia invariavelmente a +criada. <br /> + +<br /> + +A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala. <br /> + +<br /> + +Poucas situações se podem conceber mais +exasperadoras de animo do que a de Augusto n'aquelle momento. <br /> + +<br /> + +Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixões, +trazer no coração uma +verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na +presença de duas indoles essencialmente pacificas, de dois +corações a que a paixão nunca alterou +o rithmo, de duas consciencias de que nunca a dúvida, o +remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, é um +martyrio cruel. <br /> + +<br /> + +Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava. +<br /> + +<br /> + +―Ditosos olhos que o vêem!―disse D. Dorothéa, +arredando deante de si a dobadoura, para mais á vontade +contemplar o recem-chegado.―Não sei, que mal lhe fizeram +n'esta casa! <br /> + +<br /> + +―As minhas occupações...―balbuciou Augusto, sem +saber o que dizia. <br /> + +<br /> + +Maria de Jesus veio de reforço á ama. <br /> + +<br /> + +―Isso! fale-nos nas suas occupações, nem que +<span class="pagenum">[122]</span> +se não soubesse +cá que todos os dias +dá o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas +quintas-feiras e domingos... <br /> + +<br /> + +Augusto não respondeu. <br /> + +<br /> + +―Pois olhe que todos aqui lhe querem bem―disse D. +Dorothéa. <br /> + +<br /> + +―Assim o creio, minha senhora. <br /> + +<br /> + +―Eu fui muito amiga de sua mãe, que era uma santa creatura. +Inda me parece que a estou a vêr ahi sentada, com aquella +capa rôxa que trazia. A alegria d'ella, quando o Augustito +veio de Lisboa! Vi-a chorar e agradecer a Deus o filho que lhe tinha +dado... Todo o seu desejo era não morrer antes de o +vêr padre; queria pelo menos uma vez commungar +das suas mãos... Coitada!... Não lhe +concedeu isso o +Senhor, que bem cêdo a chamou a si. <br /> + +<br /> + +E continuou para Augusto: <br /> + +<br /> + +―Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui +do legado que ella deixára, eu disse logo: «Ora a +alma tem ella no +Céo por isto, quando por mais não +seja». Porque, +emfim... só quem não conheceu sua mãe +é que não diria outro tanto. Verdade é +que elle não chegou +a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o que lhe +não convem. E eu digo, a vida de sacerdote é +muito bonita, isso é, mas... não havendo +inclinação... <br /> + +<br /> + +Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha. <br /> + +<br /> + +―O sr. Henrique de Souzellas está em casa?―perguntou elle, +logo que pôde.―Desejava muito falar-lhe. <br /> + +<br /> + +―Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle +deve estar no quarto... Ha de estar a ler. Não tem outra +vida aquelle rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: +«Henriquinho, olha que isso faz-te mal...» +É o mesmo que nada. Só ler, ler, ler, que +é uma coisa por maior. +<span class="pagenum">[123]</span> +Ao principio ainda por ahi +dava alguns passeios... Agora, tirando lá as suas visitas ao +Mosteiro, elle para ahi fica. Lá ao Mosteiro sim, para ahi +ainda elle vae. <br /> + +<br /> + +―É que os ares são por alli muito +saudaveis―disse maliciosamênte Maria de Jesus. <br /> + +<br /> + +―Adeus! ahi vem vossê com as suas coisas. E então +que tem? Pois está claro que um rapaz, como +elle, dá-se com a gente nova. <br /> + +<br /> + +―Pois sim, senhora, eu não digo... <br /> + +<br /> + +―E as raparigas de lá já não +estão bem sem elle... Ora eu confesso, quando elle +está de +maré, é um gôsto ouvil-o. Sempre +ás vezes tem +coisas que fazem rir as pedras. <br /> + +<br /> + +―E pondo-se a contar historias? Ih! isso então é +que é! Eu não sei onde elle as vae +buscar!―accrescentou a criada. <br /> + +<br /> + +―Com esta―continuou D. Dorothéa, apontando para Maria de +Jesus―é ás vezes um passo. Eu ainda queria que o +Augustito os ouvisse a ambos. É perdido em pouca gente. Elle +põe-se +lá a inventar patranhas, e ella a tôla, que sabe +já como elle +é, ouve tudo muito séria e fiada, e no fim +então +é que são os escarcéos. Emfim, uma +coisa é +dizer, outra é vêr! <br /> + +<br /> + +E D. Dorothéa ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em +que ha não sei que indicios de uma existencia placida, que +consola ouvir. <br /> + +<br /> + +Augusto forçava-se a sorrir áquellas +narrações das duas velhas, a que elle mal +attendia. <br /> + +<br /> + +―Eu digo―continuou D. Dorothéa―que já nos +havia de fazer falta se saisse d'aqui; quando cá +não está parece-me a casa morta. <br /> + +<br /> + +―Deixe lá, senhora, que este já d'aqui +não sae. <br /> + +<br /> + +―Ora bem sabe vossê d'isso. <br /> + +<br /> + +―Pois a senhora verá. Ora! Os passeios ao Mosteiro +são muito bonitos. <br /> + +<br /> + +Augusto ergueu-se, devéras resolvido a cortar a conversa por +uma vez. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +―Se me dá licença, eu vou procural-o ao quarto. +Desejava falar-lhe, quanto antes, para um negocio de urgencia. <br /> + +<br /> + +Depois de mais algumas reflexões, resignaram-se a deixal-o +partir. <br /> + +<br /> + +Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto +de Henrique, e bateu á porta d'este. <br /> + +<br /> + +―Entre quem é―disse de dentro Henrique.<br /> + +<br /> + +Augusto entrou. <br /> + +<br /> + +O sobrinho de D. Dorothéa estava sentado junto da janella, +lendo uma folha e fumando. <br /> + +<br /> + +Ao vêr Augusto levantou-se. <br /> + +<br /> + +A lembrança das scenas d'aquella manhã no +Mosteiro, e a expressão de physionomia de Augusto, +fizeram-lhe prevêr a indole da entrevista que se ia seguir. <br /> + +<br /> + +Evitando porém o menor indicio, que pudesse revelar a +prevenção em que estava, disse +naturalmente, estendendo a mão a Augusto: <br /> + +<br /> + +―Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita? <br /> + +<br /> + +Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente: +<br /> + +<br /> + +―Assim estende a mão a um miseravel? Ou é +tibieza de pundonor, ou excesso de magnanimidade! <br /> + +<br /> + +Henrique retirou logo a mão e respondeu com orgulhoso +desdem: <br /> + +<br /> + +―Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para +não me arvorar em superintendente de negocios que me +não dizem respeito; é um sentido especial, que se +chama delicadeza. <br /> + +<br /> + +―É um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso +sentido―replicou Augusto no mesmo tom.―Nem sempre são +tão observadas pelo senhor, essas delicadas +abstenções, como agora. Sei-o por +experiencia. <br /> + +<br /> + +―Não o são desde que os interessados me ordenam +<span class="pagenum">[125]</span> +que intervenha, e desde que a minha +intervenção pode ser util a amigos. <br /> + +<br /> + +―Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em +relação ao objecto que me traz aqui, espero que +me explique a natureza da sua intervenção. <br /> + +<br /> + +―Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui +explicações? <br /> + +<br /> + +―Com o direito que me dá a consciencia, senhor!―respondeu +energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de +ironia.―Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e +infamemente, como eu fui, de provocar uma +accusação aberta e leal. Direito? É +mais ainda do que direito, é dever. É um dever +para com a moral, +é um dever para com a consciencia, é um dever +para com a memoria d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado. <br /> + +<br /> + +―Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e +não lh'o contestarei, por que singularidade acontece que +seja eu a pessoa que tem de responder por tudo isso? Por acaso +será este o pretexto, para depois do qual tinhamos adiado +uma entrevista que suppuzemos necesssaria? <br /> + +<br /> + +―Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem +infame e vil. Não lh'o invejo. Da minha não +é pretexto; é uma +interrogação bem positiva e terminante. Todos os +motivos anteriores, que podiam auctorisar-me a procural-o, cessaram +ante a impreterivel exigencia d'este. Preciso de justificar-me, e por +isso preciso de conhecer e de ouvir os meus accusadores. <br /> + +<br /> + +―E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia +escolher uma hora mais cómmoda. Sabe que na Alvapenha se +janta patriarchalmente ao meio dia. <br /> + +<br /> + +―Não julgue que com essas ironias de mau gôsto, +se esquivará a responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a +falar com seriedade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[126]</span> +―E tem meios para isso? <br /> + +<br /> + +―Faço-lhe a justiça de acreditar que sim; creio +que ainda não estará tão envilecido +que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe infligir... <br /> + +<br /> + +―É provavel que não risse, no caso que diz; mas +tambem não falava, acredite. Ha, para +interrogações d'essas, respostas mais adequadas e +discretas. Não tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, +quem lhe disse que eu não queria dar-lhe todas as +explicações que souber? Sente-se, conversemos +placidamente, que é a melhor maneira de vêr claro +nas coisas. Não fuma? <br /> + +<br /> + +Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia: <br /> + +<br /> + +―Está-me causando tedio e compaixão ao mesmo +tempo, senhor. Deve ter já uma alma bem corrompida para me +receber assim. Ainda quando eu fôsse um criminoso, se no seu +caracter houvesse brio, dignidade e sentimento moral, devia a minha +presença ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto, para o +não deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza +em que está, em que deve estar por +fôrça, a só ideia de que pode +calumniar um homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a +gravidade d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser +attendido. Para não comprehender isto, para não +respeitar esse sagrado direito, que tem todo o accusado de se defender, +é necessario estar corrompido até o fundo da +alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, só +se dá em quem duvída de si +proprio, e a si proprio se não respeita, porque se conhece. +O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia, cujos amigos +generosos não a receberam sem dor; e quando o calumniado lhe +vem pedir explicações, porque se trata da sua +unica riqueza, porque, sem familia e pobre, e +ámanhã talvez na miseria, +precisa de defender o unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um +sorriso ultrajante, para occultar +<span class="pagenum">[127]</span> +talvez a cobardia, que não ousa +repetir na face do accusado as insinuações que +contra elle fez na +ausencia. Se a consciencia lhe não exprobra esta infamia, +teve razão ao dizer-me que me enganei procurando-o. A +caracteres d'esses não se pede a +explicação da calumnia; é a sua +manifestação +natural. <br /> + +<br /> + +E terminando estas palavras, que a mais violenta paixão lhe +dictára, Augusto caminhou para a porta +do quarto. <br /> + +<br /> + +Henrique deteve-o. <br /> + +<br /> + +No espirito do leviano hospede de Alvapenha passára-se +n'este curto intervallo de tempo uma profunda +revolução moral. <br /> + +<br /> + +Na voz, no gesto e na indignação de Augusto +pareceu-lhe perceber vestigios de sinceridade, em que até +alli não acreditára, e desde +esse momento, além dos remorsos pelos desdens com que o +recebêra, sentia viva a necessidade de uma +reparação. <br /> + +<br /> + +Magdalena tinha razão. <br /> + +<br /> + +No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um não +exgotado fundo de pundonor e de moralidade. <br /> + +<br /> + +―Não saia―disse elle para Augusto, já sem a +menor sombra de ironia.―Se para isso fôr necessario +pedir-lhe perdão, pedir-lh'o-hei. Que mais quer?... +Reconheço-lhe o direito que tem de ser escutado. Fique. E +creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu, que em +bem pouco concorri para ellas, sinto-me já movido a +não +lhes dar fé. É já um convencimento +tão intimo como o que até agora tinha da sua +culpa, confesso-o. Se na minha mão estiver esclarecer o +mysterio, conte commigo. Fale. <br /> + +<br /> + +Augusto fitava-o ainda com desconfiança. <br /> + +<br /> + +Henrique percebeu-o e continuou: <br /> + +<br /> + +―É justa a dúvida que lhe leio no olhar, mas, +como sómente o meu procedimento futuro a pode desvanecer, +peço-lhe que não deixe por +isso de falar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> +―Antes de mais nada: de que me accusam?―perguntou Augusto. <br /> + +<br /> + +―Pois não sabe?!―exclamou Henrique, admirado. <br /> + +<br /> + +―Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a +conclusão em que fiquei, mal me deixou comprehender... <br /> + +<br /> + +Henrique contou então tudo o que se passára no +Mosteiro, e terminou dizendo: <br /> + +<br /> + +―Já vê que eu não fiz mais do que +faria outro qualquer em meu logar. Pesava sobre todos quantos +frequentavam aquella casa uma desconfiança odiosa: +esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lançar aos +hombros do culpado toda a responsabilidade da +traição, era o natural empenho de todos. A +descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta foi +occasionalmente feita por D. Victoria. Eu não o conhecia +bastante para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das +apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por +aquella occasião confirmaram, explicavam muito bem +certas tentações +de vingança... Nada mais natural do que +suppôr... <br /> + +<br /> + +Augusto cobriu o rosto com as mãos, murmurando: <br /> + +<br /> + +―Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de... <br /> + +<br /> + +Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a +indiscreção da sua dor. <br /> + +<br /> + +Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas +disposições para com Augusto; por isso, quando +este cortou assim em meio a expressão do pensamento, elle, +que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo: <br /> + +<br /> + +―D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto, +advogados eloquentes. <br /> + +<br /> + +Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador. <br /> + +<br /> + +―Diz que... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[129]</span> +―Que não deve temer da impressão produzida, por +todas as provas d'este mundo, no animo de quem, através de +tudo, acreditará sempre na sua +innocencia. <br /> + +<br /> + +―Refere-se a... <br /> + +<br /> + +―Ao seu segredo, que ha muito o não é para mim. +Veja como eu estou virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com +elle, quando ha pouco tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a +causa occulta de tal ou qual antipathia, que sentia pelo senhor... que +sentiamos um pelo outro, digamos assim. <br /> + +<br /> + +―Mas... <br /> + +<br /> + +―Vamos, vamos... eu sei que é discreto; nem esta era +occasião para entrar em confidencias. Tratemos do que mais +importa... Não sei como é que iria jurar agora a +sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e com o tempo... porque +francamente lhe declaro que me é necessario algum tempo para +desvanecer em mim todos os restos de despeito e de... +paixão... porém, com o tempo, talvez venha a ser +seu verdadeiro amigo... sem a menor prevenção. <br /> + +<br /> + +E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom: <br /> + +<br /> + +―Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes +inimigos aqui na terra para o enredarem assim! É preciso +esclarecer isto. <br /> + +<br /> + +―Inimigos?!... Não os conheço, nem vejo +motivos...―disse Augusto, pensativo. Mas de repente, como se lhe +acudisse um pensamento luminoso, fez um gesto que Henrique percebeu. <br /> + +<br /> + +―Que é?―perguntou este logo.―Descobriu?... Diga... Uma +suspeita é já um rasto precioso... guia os +primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei a seguil-o. <br /> + +<br /> + +―Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi. +É isso... <br /> + +<br /> + +E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[130]</span> +―E ainda agora se lembra d'elle?―exclamou Henrique, ao ouvil-o―e +inda hesita?! O senhor é de uma boa fé!... Temos +o fio! <br /> + +<br /> + +―Mas como pôde elle...? <br /> + +<br /> + +―Isso depois; o mais virá a seu tempo. Agora trata-se de +vigiar esse senhor... E agora me lembra; elle é um dos +oradores do club do Canada... Sondarei esse antro tenebroso... Eu +já devia suppor que andava aqui miseria politica... Estou a +achar razão áquella adoravel Magdalena... +Perdão... inda não perdi o habito de a adorar... +Tambem, desde que o consiga, serei seu amigo sem +restricções. Até lá, +porém, não será isso motivo para de +corpo e alma me não dedicar á sua causa... Eu +posso ter todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma +velhacaria; e, fôsse o meu maior inimigo que eu visse victima +d'ella, creia que procuraria desfazel-a. <br /> + +<br /> + +―Agradeço-lhe essas palavras, que acredito são +sinceras; não posso, porém, acceitar a +intervenção que me offerece. Eu sou que devo +justificar-me. Está empenhada n'isso a minha dignidade. <br /> + +<br /> + +―Como queira. Em todo o caso espero que uma má +prevenção o não +constranja a não recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio +lhe puder servir. Agora peço-lhe perdão, se +alguma vez o offendi de +mais; mas vamos lá, o senhor tambem não +está de todo isento de culpa... E quanto ao pretexto... +adiado mais uma vez, não lhe parece? <br /> + +<br /> + +Augusto não podia fechar-se áquelle caracter, que +se lhe estava mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso +respondeu, sorrindo: <br /> + +<br /> + +―Adiado para sempre. <br /> + +<br /> + +E estenderam as mãos um ao outro, apertando-as já +sem o menor resentimento. <br /> + +<br /> + +Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender. <br /> + +<br /> + +―É notavel;―pensava comsigo Henrique―estou sympathisando +á ultima hora com este rapaz! +<span class="pagenum">[131]</span> +Mas como se combina isto com a minha +paixão por Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha +que ella acertasse, e que não fôsse +paixão o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista +tão apurada para estas discriminações! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXIV </h4> + +<br /> + +O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites +normaes; porém, graças ao +empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a favor +do prêso, e apesar da +perseguição que lhe moviam os padres, contava-se +que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia +dentro em poucos dias. <br /> + +<br /> + +Magdalena não se descuidára de mandar todos os +dias ao pobre homem noticias da filha, a qual, depois de ter por algum +tempo inspirado sérios cuidados á medicina da +terra, parecia haver entrado n'um periodo de convalescença. <br /> + +<br /> + +Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber +por quê, ella propria não +sentia as esperanças que dava. <br /> + +<br /> + +Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, +que, á maneira dos medicos experientes, presentem a +gravidade ou a approximação do mal, ainda quando +os symptomas tenham perdido toda a feição +assustadora. <br /> + +<br /> + +Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado +rubor de saude principia a tingir as faces, até +então pallidas, e elles sentem-se +ainda estremecer de secretas apprehensões. <br /> + +<br /> + +Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as +feições da pequena Ermelinda. <br /> + +<br /> + +A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de +vida principiára já a animar-lhe +<span class="pagenum">[132]</span> +o rosto infantil, havia pouco +gelado de terror e pela doença; ás vezes +até um +sorriso, ainda que melancolico, distendia-lhe os labios desmaiados, e +só de quando em quando raras nuvens de tristeza, evocadas +por uma recordação penosa, parecia +assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as +vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar +n'ella. <br /> + +<br /> + +O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado +pulso da creança, +assegurára que ella estava já livre da febre; e +apesar d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao +Herodes a dar-lhe a boa nova. <br /> + +<br /> + +E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas +apprehensões da morgadinha. <br /> + +<br /> + +Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais +tranquilla e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como +nunca, os indicios do mal profundo. <br /> + +<br /> + +Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores, +gritos angustiosissimos, +contracções espasmodicas, que parecia +despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de +novo, e, ao dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma +prostração extrema, uma quasi completa +insensibilidade de funesta significação. <br /> + +<br /> + +Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida +creança, e trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda +se avistava o sol, já quasi a esconder-se por detraz de uma +collina distante. <br /> + +<br /> + +Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de +inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que +principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa +creança; ao clarão levemente afogueado do +horisonte, um pouco das suas tintas para aquellas faces morbidamente +pallidas; á amenidade da paizagem, um reflexo de sorriso +para aquelles labios, onde elle se apagára. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[133]</span> +Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já +vacillante, com a expressão, cheia de +saudade e de poesia, de uma alma joven que se despede da vida, e, +quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente para o rosto de +Magdalena, que a observava com anciedade. <br /> + +<br /> + +Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes +lagrimas. <br /> + +<br /> + +A morgadinha apertou-a ao seio, commovida. <br /> + +<br /> + +―Que tens tu, minha filha?―disse-lhe com meiguice, afagando-a. <br /> + +<br /> + +Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com +a mesma expressão de affecto e de tristeza. <br /> + +<br /> + +A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a. <br /> + +<br /> + +A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a +como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a +Magdalena haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a +inquietou. <br /> + +<br /> + +Palpou as mãos da creança; estavam frias; o +coração, parado; chamou-a pelo nome... a mesma +fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas +feições... estava morta. <br /> + +<br /> + +Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o +adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella, +arrebatasse nas azas para o throno de Deus. <br /> + +<br /> + +A morte de uma creança como Ermelinda é um facto +de ordinario indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no +mundo; uma voz que emmudece nos festivos córos da infancia; +algumas sentidas lagrimas de mãe sobre um berço +vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á superficie das +ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a +rosa desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis +tudo. <br /> + +<br /> + +A multidão segue no delirio das festas, na lucta das +paixões, na febre da ambição e das +glorias, e o +<span class="pagenum">[134]</span> +perfume da flor +pendida não lhe affecta os sentidos embriagados. <br /> + +<br /> + +Ás vezes, porém, não succede assim, e +assim não devia succeder com Ermelinda. <br /> + +<br /> + +As paixões humanas, que ante o cadaver de uma +creança, coroada de flores candidas e cingida da alva tunica +da pureza, deviam abrandar-se, como deante de uma visão do +Céo, tomam-n'o +ás vezes por estimulo para mais furiosas se desencadearem, e +proclamarem a lucta, a sedição e a +vingança. <br /> + +<br /> + +Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente +os enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito +do povo, não tinha havido +na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em +execução. <br /> + +<br /> + +A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas +instigações de alguns padres fanaticos ou +hypocritas, e dos adversarios politicos do conselheiro, rugia, havia +muito, surdamente, mas não rompêra em +explosão por falta de pretexto. <br /> + +<br /> + +Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um +maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á +formação +de magotes nas encruzilhadas e nos largos. <br /> + +<br /> + +Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, +augmentou a effervescencia dos animos. Era chegado o momento. <br /> + +<br /> + +A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, +quiz que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa +do Mosteiro. Cumprindo assim a lei, prestava-se tambem culto +á +affeição que todos sentiam pela +creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria +como irmã. <br /> + +<br /> + +Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a +indignação popular. <br /> + +<br /> + +No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde +do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada +extraordinario ajuntamento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[135]</span> +O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista +Pertunhas, alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. +Joãozinho, falavam, berravam e gesticulavam a um tempo. <br /> + +<br /> + +O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e +guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que +pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o +atraiçoar, achava-se agora muito abalado, porque na +questão dos cemiterios era intolerante, não +podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, +como elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de +centeio. <br /> + +<br /> + +O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. +Joãozinho, não se cançava de o +catechisar, usando para isso de todas as armas e atacando-o por todos +os pontos vulneraveis que lhe conhecia. <br /> + +<br /> + +Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão +do morgado para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do +coração do conselheiro, que privára +cruelmente o pobre velho da sua propriedade, golpe fatal, que dentro em +pouco o levaria ao tumulo; e a proposito contava como o herbanario +pedira de joelhos ao conselheiro para lhe poupar a casa, e como este se +rira das lagrimas do velho, porque tinha interesse em que +não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava +uma grande porção dos proprios bens. <br /> + +<br /> + +Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de +grosseiro e bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, +despejava copos de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes. <br /> + +<br /> + +Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o +espirito tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao +morgado de que elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na +freguezia de Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros +na igreja, o que este negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que +o brazileiro dizia, o que dava +<span class="pagenum">[136]</span> +logar a novas punhadas, novas irritações e a +novas pragas do sr. Joãozinho. <br /> + +<br /> + +No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de +costume, as suas libações de vinho; e +com as faces injectadas, os olhos meio fechados, ouvia com +irritação os commentarios dos +circumstantes e distribuia com profusão pragas e murros. <br /> + +<br /> + +―Com os diabos!―berrava elle, acabando de despejar um copo de +quartilho.―Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir +á igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena. <br /> + +<br /> + +―Isso não se faz assim com essa facilidade e +arreganhos―disse velhacamente o brazileiro, de proposito para o +irritar ainda mais. <br /> + +<br /> + +―Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa +que me dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do +Cancella... não tenho eu nada... lá se +avenham. <br /> + +<br /> + +―A questão não é ser filha do +Cancella ou deixar de ser;―tornava o brazileiro―a questão +é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os outros. <br /> + +<br /> + +―Menos eu―exclamou o morgado. <br /> + +<br /> + +―Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar. <br /> + +<br /> + +―Diabos me levem se... <br /> + +<br /> + +―Pelos modos―disse um padre do lado―elles enterram a rapariga no +tumulo da familia do conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Pois vêdes; se elles são todos da mesma +confraria!―ponderou o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―E se não, é vêr no outro dia o que o +Herodes fez ao missionario! Então julgam que aquillo +não foi combinação?―disse o padre. <br /> + +<br /> + +―Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe +bater―accrescentou um lavrador. <br /> + +<br /> + +―A mim me disseram que trinta. <br /> + +<br /> + +―Sempre uma pouca vergonha como aquella! <br /> + +<br /> + +―E verão que não lhe succede mal. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[137]</span> +―Pois não, não; elle está alli, +está na rua. <br /> + +<br /> + +―Diz-se que o soltam á fiança. <br /> + +<br /> + +―Não pode ser; aquelle crime não tem +fiança―ponderou um fazendeiro, que se tinha por muito visto +em demandas e coisas de justiça. <br /> + +<br /> + +―Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles... <br /> + +<br /> + +―Aquillo parece uma seita. <br /> + +<br /> + +―E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles +são pedreiros-livres. <br /> + +<br /> + +―E o tal lisboeta? <br /> + +<br /> + +―Esse, então, é que é d'aquelles! <br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique. <br /> + +<br /> + +―Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a +igreja caçoar com o missionario? Sempre vossês +são uns homens de lama, tambem! +Ó Cosme―continuou, voltando-se para um alentado camarada +que estava ao lado d'elle―olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o +amigo? <br /> + +<br /> + +O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros. <br /> + +<br /> + +―Pois, senhores―proseguiu o brazileiro, que não +queria deixar arrefecer o enthusiasmo e a +irritação do publico―hoje decide-se a coisa... +D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso +faz lei. <br /> + +<br /> + +―Isso é que é verdade―secundou o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir +desenterral-a―respondeu, cada vez mais azedado, o sr. +Joãozinho <br /> + +<br /> + +―Não; isso lá mais devagar―acudiu o +brazileiro―vossemecê bem sabe que, estando ella no +mausoléo do conselheiro... <br /> + +<br /> + +―Importa-me cá o mausoléo? O senhor +está a ler. Eu com um empurrão arrumo aquella +platafórma +a terra. Ó Cosme, olha nós, hein? <br /> + +<br /> + +O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[138]</span> +―Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um +homem de vontade, que não deixasse fazer o enterro―disse o +padre. <br /> + +<br /> + +―Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca +assim com o povo. <br /> + +<br /> + +―Lá isso era!―repetiram algumas vozes. <br /> + +<br /> + +―Eu por mim... se alguem fôr...―aventurou um. <br /> + +<br /> + +―E eu, eu―ouviu-se dizer de alguns pontos da sala. <br /> + +<br /> + +―Deixem-se de contos,―continuou o padre―elles fazem o que querem, +porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha +á frente do povo... <br /> + +<br /> + +―Lá isso é que é verdade. <br /> + +<br /> + +―Já não ha homens para as occasiões. <br /> + +<br /> + +O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de +valente, e se gabava de ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com +estas palavras, e protestou dizendo: <br /> + +<br /> + +―Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, +não vou ao cemiterio, eu só, e ponho tudo +aquillo em cacos? hein? <br /> + +<br /> + +―Isso não se faz com essa facilidade―disse o brazileiro +impertinentemente. <br /> + +<br /> + +―A quanto aposta vossê?―bradou, cada vez mais afogueado, o +sr. Joãozinho. <br /> + +<br /> + +―Ora vamos―continuava o brazileiro com os mesmos +modos―não que a auctoridade... <br /> + +<br /> + +―A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! +O regedor commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? +Os cabos comnosco? <br /> + +<br /> + +O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes: <br /> + +<br /> + +―Se queres tentar... <br /> + +<br /> + +―Com mil demonios!―disse o morgado, exgotando mais um copo―vamos a +isto! anda d'ahi, ó Cosme! <br /> + +<br /> + +O Cosme levantou-se. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> +―Nada de imprudencias―aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a +significação contraria ao pensamento que +exprimia. <br /> + +<br /> + +―Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a +esta gente se ha ou não ha um homem para as +occasiões. <br /> + +<br /> + +E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus +arrojados camaradas, e o brazileiro já conferenciava com o +padre, que lhe respondia com signaes de intelligencia, como quem tinha +projectos filiados n'aquelle movimento, quando entrou na taberna uma +nova personagem que, por não habitual alli, e por outras +circumstancias faceis de conjecturar, causou geral extranheza. <br /> + +<br /> + +Era Henrique de Souzellas. <br /> + +<br /> + +Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos +occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a +cavallo e deu um longo passeio pelos arredores. <br /> + +<br /> + +Na volta achou-se defronte da taberna do Canada. <br /> + +<br /> + +Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e +das pragas que iam lá dentro, e isto resolveu-o a entrar, +cumprindo assim a promessa que fizera a si mesmo de estudar aquelle +terreno, a vêr se encontrava vestigios que o levassem a +provar a innocencia de Augusto. <br /> + +<br /> + +Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou. <br /> + +<br /> + +Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a +sua presença, e até, pela expressão +com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse +demasiado prudente o passo que dera. <br /> + +<br /> + +Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a +menor manifestação de receio. <br /> + +<br /> + +Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia. <br /> + +<br /> + +O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente +do que desejava o recem-chegado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[140]</span> +Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não +obstante estar firmemente resolvido a não +lhe tocar. <br /> + +<br /> + +O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio +associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da +sêde. <br /> + +<br /> + +Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu +a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos +havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se +lançasse uma pedra de gêlo. <br /> + +<br /> + +Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco +tranquillisador, e que ameaçava degenerar em maior tormenta. +<br /> + +<br /> + +O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para +não ser visto; o sr. Joãozinho olhou para +Henrique, como se o não conhecesse, e conversava em voz +baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no recem-chegado olhares +sombrios e ameaçadores. <br /> + +<br /> + +Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, +sustentava-os sem desviar os seus, e continuava fumando quasi +provocadoramente. Pouco a pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim +como a dos outros grupos. <br /> + +<br /> + +―É preciso ensinar estes espiões―dizia uma voz +audivelmente. <br /> + +<br /> + +―Que quererá d'aqui este figurão?―perguntava +outro. <br /> + +<br /> + +―Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a +nossa vida... <br /> + +<br /> + +O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os +braços sobre a mesa, e com o corpo inclinado para deante e +os olhos abertos para Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe +já algum tanto a voz nas fauces: <br /> + +<br /> + +―Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar, +sempre lhe dou uma lição, +<span class="pagenum">[141]</span> +que lhe ha de lembrar toda a vida! +Não, que isto aqui não é Lisboa! Eu +não admitto +que se olhe para mim com falta de respeito... Já disse! Eu +não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto! O senhor +não ouve? <br /> + +<br /> + +Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado. <br /> + +<br /> + +―Ó senhor lá... Faz favor de não +olhar para mim d'essa maneira? <br /> + +<br /> + +Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu. <br /> + +<br /> + +―Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle +riu-se de mim? Espera! <br /> + +<br /> + +E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se. <br /> + +<br /> + +O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos. <br /> + +<br /> + +Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos. <br /> + +<br /> + +―Então! então! isso o que é? <br /> + +<br /> + +―Quero perguntar áquelle senhor de que é que se +ri―bradava o morgado, furioso. <br /> + +<br /> + +―Para isso não se incommode―respondeu Henrique―eu mesmo +d'aqui lhe respondo. Rio-me da ridicula figura que está +fazendo. <br /> + +<br /> + +―Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó +Cosme!... <br /> + +<br /> + +E o morgado barafustava entre os braços debeis que o +retinham. No povo principiou a subir a maré das +murmurações contra Henrique. <br /> + +<br /> + +―O senhor vem para aqui armar desordens? <br /> + +<br /> + +―É para espiar? <br /> + +<br /> + +―Depois queixe-se... <br /> + +<br /> + +―Não se metta com a gente. <br /> + +<br /> + +O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas +mãos que o retinham, conseguiu, graças aos seus +musculos robustos, sacudir de si todos os obstaculos, e correu para +Henrique, que por prevenção se collocou a +pé. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[142]</span> +O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, +voltado para elle: <br /> + +<br /> + +―O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para +mim... Quero vêr agora se ainda se ri. <br /> + +<br /> + +―Por que não? Se cada vez está mais ridiculo! <br /> + +<br /> + +O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a +Henrique. <br /> + +<br /> + +Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante +de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, +dizendo motejadoramente: <br /> + +<br /> + +―Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar. <br /> + +<br /> + +O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho +ficaram litteralmente tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a +mão á faxa da cinta, como a +procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se a +segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si. <br /> + +<br /> + +O morgado torcia-se e espumava sob a constricção +de Henrique, e já congestionado e rouco bradou: <br /> + +<br /> + +―Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse +maldito!... <br /> + +<br /> + +A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O +varapau do Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme +zangão. <br /> + +<br /> + +O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o +crédito do estabelecimento, afastou a tempo Henrique do +terrivel embate, que infallivelmente lhe seria fatal. <br /> + +<br /> + +A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido. <br /> + +<br /> + +Henrique estava incólume, e o morgado sôlto. <br /> + +<br /> + +Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado +preparava-se com os seus para nova investida, quando se ouviu a voz do +brazileiro e do padre bradarem: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[143]</span> +―Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto +é tempo! <br /> + +<br /> + +E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por +varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e +tão convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco: <br /> + +<br /> + +―Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a +elles ao cemiterio! <br /> + +<br /> + +―Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes. <br /> + +<br /> + +―E queime-se a papelada da camara! <br /> + +<br /> + +―E mate-se o escrivão de fazenda! <br /> + +<br /> + +―E quebrem-se os vidros do Mosteiro! <br /> + +<br /> + +―E pegue-se fogo á casa! <br /> + +<br /> + +Eram de bastante fôrça estes argumentos para +convencer o sr. Joãozinho. <br /> + +<br /> + +―Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas +depois. Ao cemiterio! Atiremos a terra com o tal mausoléo! <br /> + +<br /> + +E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto, +percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as +senhoras do Mosteiro, desembaraçou-se dos braços +do Canada, que teimava em segural-o e em dar-lhe conselhos de +prudencia, e correu a montar a cavallo para se anticipar aos +desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar por entre o +grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no ar, caiu +sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a +pancada, partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de +Henrique, acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou +como morto. <br /> + +<br /> + +Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do +cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se +pacificamente aos lares. <br /> + +<br /> + +O sino da igreja continuava a repicar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[144]</span> +<h4>XXV </h4> + +<br /> + +Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia +por aquella tarde de inverno! <br /> + +<br /> + +Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de +toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a +custo n'aquelle solo ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, +tojeiras e pinheiraes. No centro d'este espaço elevava-se, +singello, mas elegante, o tumulo da familia do Mosteiro, sobre o +marmore do qual pousavam tristemente os ramos flexiveis de um salgueiro +chorão, e nos cantos principiavam a erguer-se, como +obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes ponteagudos. Para +além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se um +vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente +cruzados, se podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, +e o verdor dos campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena +distancia d'alli, a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados +álamos do adro, agitados pelo vento, ainda chegava +áquella estancia mortuaria. <br /> + +<br /> + +A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam +presentir a tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, +de quando em quando, por uma subita viração, que +faz +revolutear na estrada as folhas sêccas como em espiraes +phantasticas. O céo pintára-se do colorido +melancolico e triste, que em alguns quadros de +Annunciação tão fielmente se +vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só +muito para o occidente uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, +mas n'ella mesmo o azul recebia, do contraste das côres +<span class="pagenum">[145]</span> +vizinhas, um cambiante quasi +esverdeado. As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do +sol, tinham o aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite +ia tornando mais carregado; no mais alto da abobada, as superiores, +illuminadas ainda, apresentavam reflexos amarellados que cada vez se +afogueavam mais. <br /> + +<br /> + +Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, +uniforme, cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De +quando em quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, +soltando pios angustiosos. <br /> + +<br /> + +Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda. <br /> + +<br /> + +Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, +aguardando a infeliz creança. <br /> + +<br /> + +Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, +saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos. <br /> + +<br /> + +Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam +alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela +curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava. <br /> + +<br /> + +As murmurações, comquanto menos manifestas aqui +do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam. <br /> + +<br /> + +Até da porta da igreja para dentro, até de +joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no +altar, os +murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a +justiça celeste sobre os impios do seculo, que +não queriam enterrar-se no chão sagrado da +igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre +a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa +mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam +dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno. <br /> + +<br /> + +Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se +entreolhavam de maneira +<span class="pagenum">[146]</span> +mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se +d'alli aguardassem alguma coisa. <br /> + +<br /> + +A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella. <br /> + +<br /> + +Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se +achára adoentada. <br /> + +<br /> + +Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada +á campa por creanças quasi da mesma idade, +vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a +irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das +vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas +proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com +extraordinario apparato, não só em honra da +familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má +impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa. <br /> + +<br /> + +Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas +campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e +risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo +onde Ermelinda devia ser sepultada. <br /> + +<br /> + +O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, +que as nuvens não toldavam. <br /> + +<br /> + +A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, +que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior +intensidade. <br /> + +<br /> + +A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, +reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma +verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e +batina, recitando as orações da +occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado +pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e +respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos +do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os +combatia e censurava. <br /> + +<br /> + +Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma +<span class="pagenum">[147]</span> +numerosa companhia de creanças, +Ermelinda, a quem a pallidez da morte não +dissipára a +formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da +innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a +tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no +auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa +de flores, conservava a graciosa inclinação que +lhe era habitual em vida. <br /> + +<br /> + +As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por +Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia. <br /> + +<br /> + +Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais +formoso. <br /> + +<br /> + +A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do +tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte +encostada á mão, seguindo melancolicamente com a +vista a vagarosa procissão que entrára no +cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por +mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a +saudade pelos que morrem. <br /> + +<br /> + +Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera +já occupar a posição +que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da +campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas +e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda +da sepultura. <br /> + +<br /> + +O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova. <br /> + +<br /> + +Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena. +<br /> + +<br /> + +Havia já alguns momentos que começára +a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos +pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel. <br /> + +<br /> + +As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se +activado ao ouvil-o. Pouco +<span class="pagenum"><a name="p148">[148]</a></span> +a +pouco principiou a mover-se alguma <a href="#e8">coisa por</a> +entre os +troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas +figuras de homens, correndo em direcção ao +cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas +das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir +claramente. <br /> + +<br /> + +Não era difficil adivinhar a +significação d'aquillo. A questão +vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo +descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e +a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião +da crise popular já antevista. <br /> + +<br /> + +Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, +de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, +fouces, chuços, e todas as peças do extravagante +arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da +arruaça ou da sedição. <br /> + +<br /> + +Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito +estavamos prevenidos; agora, porém, já +engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos +algares. <br /> + +<br /> + +Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao +seu lado o <em>factotum</em> Cosme. <br /> + +<br /> + +Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o +enterro, bradando em confusão: <br /> + +<br /> + +―Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui! <br /> + +<br /> + +―Esperem! Isso não vae assim! <br /> + +<br /> + +―Não façam a festa sem nós! <br /> + +<br /> + +―Fóra com os do cemiterio! <br /> + +<br /> + +―Morram os pedreiros-livres! <br /> + +<br /> + +―Para a igreja! <br /> + +<br /> + +―Enterre-se na igreja! <br /> + +<br /> + +―Olá, sr. abbade, espere por nós! <br /> + +<br /> + +―Aqui vamos para abençoar a cova! <br /> + +<br /> + +E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, +gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +O cruciferario e os padres, á excepção +do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, +pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, +correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas. <br /> + +<br /> + +A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando +com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no +meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos +lábios, como de anjo que já de longe estivesse +vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade. +<br /> + +<br /> + +O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados. <br /> + +<br /> + +―Que querem d'aqui?―perguntou elle, fitando-os―com que fins vieram +perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas? <br /> + +<br /> + +―Não queremos que ninguem se enterre no +cemiterio―respondeu o sr. Joãozinho. <br /> + +<br /> + +―É verdade! é verdade! ninguem se enterra +aqui!―confirmaram differentes vozes. <br /> + +<br /> + +―Por quê?―continuou o padre―julgam que Deus não +receberá as almas, cujos corpos +não estejam lá dentro, a apodrecer sob os +telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá? <br /> + +<br /> + +―Não queremos saber de contos. Não queremos. +Já disse! <br /> + +<br /> + +―Eu não lhes reconheço o direito de querer. <br /> + +<br /> + +―Ora o padre mestre tem vagares!―disse o façanhudo +Cosme―e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso +não foi que viemos. +Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus +reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós +fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem +d'ahi. <br /> + +<br /> + +E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o +caixão em que jazia Ermelinda. <br /> + +<br /> + +―A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as +mãos impuras tocar n'esse cadaver, que está +<span class="pagenum">[150]</span> +abençoado pela +Igreja!―exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e +terrivel. <br /> + +<br /> + +Na aldeia os homens mais endurecidos não são +superiores á intimação religiosa. O +Cosme retirou a mão, como se receiasse que a +imprecação do padre se cumprisse alli mesmo. <br /> + +<br /> + +Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de +hesitação, que +tão fataes são ao exito das +revoluções +democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e +quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do +primeiro impeto. <br /> + +<br /> + +Mas a primeira onda não é a mais temivel; os +primeiros bandos populares, que sáem +á rua, +soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua +quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo +espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, +quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os +dirija, não são os precisos para ficarem +esmagados sob a +repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de +sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os +cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta +sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração +legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, +vem então a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, +porque não é a embriaguez do motim que a impelle, +é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de +antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. +Vem então reforçar-a primeira, +insufflar-lhe o alento que esta não tem de si, e amparar-se +com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga, +retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas +se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no +campo da victoria adeantam-se então a colher os +trophéos conquistados. <br /> + +<br /> + +Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado +<span class="pagenum">[151]</span> +pelo morgado das Perdizes, ia +ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do +venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão. <br /> + +<br /> + +Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo +missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e +sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres. <br /> + +<br /> + +A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este +refôrço. <br /> + +<br /> + +Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a +procissão. <br /> + +<br /> + +―Viva o missionario! <br /> + +<br /> + +―Viva o santo! <br /> + +<br /> + +―Abaixo os pedreiros-livres! <br /> + +<br /> + +E os do bando do estandarte correspondiam a estas +saudações, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Abaixo os maçonicos! <br /> + +<br /> + +―Morram os jacobinos! <br /> + +<br /> + +―Viva a santa religião! <br /> + +<br /> + +Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o +perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade +indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e +manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os +feitos de armas dos passados guerreiros da christandade. <br /> + +<br /> + +A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do +morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora +o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande +fortaleza contra as paixões. <br /> + +<br /> + +Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava +caudilho de um movimento popular. <br /> + +<br /> + +Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico. <br /> + +<br /> + +―Não se consentem aqui enterros, e principiemos +já por deitar abaixo estas pedras―bradou elle, apontando +para o tumulo da familia do conselheiro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[152]</span> +―É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo! <br /> + +<br /> + +―São invenções dos pedreiros-livres! <br /> + +<br /> + +―É isso, é isso... Pois não +vêem que são de pedra! <br /> + +<br /> + +―Abaixo! Abaixo! <br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado +das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns +passos para o tumulo. <br /> + +<br /> + +Magdalena collocou-se deante d'elle. <br /> + +<br /> + +Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, +nos olhos o lampejar da indignação. <br /> + +<br /> + +―Afaste-se, senhor!―bradou ella, estendendo a mão para o +ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer +pouse os pés nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa +minha mãe. Atraz! <br /> + +<br /> + +A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das +resoluções energicas e potentes +d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher +sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis. <br /> + +<br /> + +O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e +ficou enleado. <br /> + +<br /> + +Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe +murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que +ainda escancarou bôca humana. <br /> + +<br /> + +Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, +disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido: <br /> + +<br /> + +―Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque! <br /> + +<br /> + +Magdalena repelliu-o com despreso e aversão. <br /> + +<br /> + +―Ah! ah! Faz-se fidalga!―disse o sr. Joãozinho, +despeitado.―Pois não anda bem. <br /> + +<br /> + +O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de +escutal-o, bradou: <br /> + +<br /> + +―Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres. <br /> + +<br /> + +―Abaixo!...―repetiram muitas vozes. <br /> + +<br /> + +―Pois vá abaixo!―repetiu tambem o sr. +Joãozinho, adeantando-se com o machado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +―Para traz!―exclamou outra vez Magdalena, já +trémula de exaltação. <br /> + +<br /> + +O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella. <br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho sorriu. <br /> + +<br /> + +―Isso é que é mandar! Socegue que não +fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar +essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!―e soltou, ao dizer isto, +uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava. <br /> + +<br /> + +―Abaixo, abaixo!―repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se +para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe +perturbava. Era-lhe preciso defender de uma +profanação as cinzas de sua mãe, ainda +que fôsse á custa da +propria vida. <br /> + +<br /> + +Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; +já as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios +principiavam a murmurar a palavra +«piedade». <br /> + +<br /> + +O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda +achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, +resmungando: <br /> + +<br /> + +―Mau! se temos chôro, nada feito. <br /> + +<br /> + +Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os +gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado, +preparando-se para a obra de +profanação. <br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado. <br /> + +<br /> + +Imitaram-n'o muitos. <br /> + +<br /> + +Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da +mãe para o proteger da violencia. <br /> + +<br /> + +Antes de o abater haviam de a ferir a ella. <br /> + +<br /> + +Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. +Alguns baixaram-n'os, como arrependidos. <br /> + +<br /> + +O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava +causando a scena. <br /> + +<br /> + +Desviando os olhos, disse, com modo desabrido: <br /> + +<br /> + +―Tirem essa mulher d'ahi. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[154]</span> +Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo +facto não viesse desviar as attenções +e modificar diversamente o animo +popular. <br /> + +<br /> + +Um homem, que parecia chegar de longa jornada, +approximára-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso +á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos. <br /> + +<br /> + +Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa. <br /> + +<br /> + +A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, +abraçada a elle, dominava toda aquella multidão. <br /> + +<br /> + +Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma +exclamação, como de quem tinha comprehendido ou +adivinhado a significação +d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em +pouco, no logar do motim. <br /> + +<br /> + +Era tempo. <br /> + +<br /> + +A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas +irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa +do povo nas luctas em que elle toma parte. <br /> + +<br /> + +―Que é isto aqui?―disse o homem, rompendo com os +braços potentes a onda que se lhe antolhava. <br /> + +<br /> + +Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu +caminho até ao meio do circulo. <br /> + +<br /> + +Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos +amotinados. <br /> + +<br /> + +―O Herodes... É o Herodes!...―diziam, afastando-se. <br /> + +<br /> + +Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado. <br /> + +<br /> + +Obtendo fiança, graças á +intervenção do conselheiro, voltava á +terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a +unica dor que o atormentara. <br /> + +<br /> + +O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[155]</span> +Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já +não o encontrára na +prisão, para onde fôra dirigida. <br /> + +<br /> + +Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para +animar as ultimas noticias recebidas. <br /> + +<br /> + +Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos +sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos +enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da +terra. <br /> + +<br /> + +Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da +mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se +logo a acudir-lhe. <br /> + +<br /> + +Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, +e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da +creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no +chão; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia, +ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil +claridade da hora, reconheceu a filha. <br /> + +<br /> + +Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um +só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos +fitos n'aquella creança morta, com as mãos juntas +e com as faces extremamente pallidas. <br /> + +<br /> + +Perante esta terrivel manifestação de dor, que +toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o +perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que +dominavam os corações. <br /> + +<br /> + +Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento +fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e +trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou +a mêdo as mãos das mãos cruzadas da +creança. <br /> + +<br /> + +Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de +gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[156]</span> +―Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... +Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha +está morta? <br /> + +<br /> + +A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; +mas havia no tom de voz, com que estas palavras fôram +pronunciadas, não sei +quê tão intimamente doloroso, que presentia-se +que, no curto espaço de tempo que as precedera, se tinha +operado n'aquelle peito uma revolução tremenda, +como se uma intima dilaceração o tivesse +destruido. Adivinhava-se lá dentro +já um desalento mortal, um mal de que se não +convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido. <br /> + +<br /> + +―Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes +tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do +Céo! viver eu para te +vêr assim! <br /> + +<br /> + +E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, +que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas +faces. <br /> + +<br /> + +Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a +ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, +fazia já renegar aos mais atrevidos os +seus +excessos passados. <br /> + +<br /> + +O Cancella continuava: <br /> + +<br /> + +―Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me, +despedaça-me o +coração!... Não me morras assim, +filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de +amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de +morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei +de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de +despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só! +só! Ficar só! Só n'este +mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me +castigardes assim!? Em quê? <br /> + +<br /> + +Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de +lagrimas. <br /> + +<br /> + +―Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, +diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou +em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não +responde... Então não me perdoou? Pois minha +filha +não me perdoou? <br /> + +<br /> + +Magdalena respondeu a custo: <br /> + +<br /> + +―Que tinha ella a perdoar-lhe? <br /> + +<br /> + +―Não é verdade que eu lhe queria muito? +não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que +me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora, +assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse! <br /> + +<br /> + +E outra vez a estreitava nos braços. <br /> + +<br /> + +Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com +voz alterada: <br /> + +<br /> + +―Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao +pé de minha filha morta? <br /> + +<br /> + +―Queremos que elles a enterrem na igreja―responderam, já +tibiamente, algumas vozes. <br /> + +<br /> + +―Na igreja?... Isso é que não! Sabem +quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de +mêdos, que lhe roubaram +as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi +vêdes... Pois não a conheciam? Não a +tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a +nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem aquelles +cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles +cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar, +desgraçadinha! Não, não +te entregarei. Não, não irás +lá para +dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de +Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias +no berço, que ficará sempre vazio! +Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não +compadeces de mim, Senhor!... <br /> + +<br /> + +E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, +<span class="pagenum">[158]</span> +o desesperado pae ajoelhou junto do +esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha. <br /> + +<br /> + +―Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um +logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d'aquella +santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha +pobre filha! <br /> + +<br /> + +E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, +cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos +braços para, por suas proprias mãos, +o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda +uma vez aquella de que mal podia separar-se. <br /> + +<br /> + +Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular. <br /> + +<br /> + +Nem um só movimento, nem uma só voz tentou +oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos +antes se erguia irreprimivel a resistencia popular. <br /> + +<br /> + +Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo. <br /> + +<br /> + +O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira +assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias +pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo. <br /> + +<br /> + +Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme +já não estavam presentes. +Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os. <br /> + +<br /> + +Os circumstantes quasi faziam já côro com as +arguições do Cancella contra os excessos do +fanatismo e do beaterio. <br /> + +<br /> + +―A falar verdade―dizia um―este pobre homem tem alguma +razão. Isto de metter scismas ás +creanças!... <br /> + +<br /> + +―E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma. <br /> + +<br /> + +―Tambem é de mais. <br /> + +<br /> + +―Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que +faria. <br /> + +<br /> + +N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> +Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles +mesmos braços e armas para organisar uma +sedição sobre uma divisa opposta á +que primeiro os convocára. <br /> + +<br /> + +Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella +caiu de joelhos, suffocado em pranto. <br /> + +<br /> + +As creancas presentes, por contagio da commoção, +a que é tão sujeita aquella idade, choraram +tambem. <br /> + +<br /> + +Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a +deixou falar. <br /> + +<br /> + +Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no +hombro. <br /> + +<br /> + +O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais +desafogado pranto do que nunca. <br /> + +<br /> + +A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento. <br /> + +<br /> + +Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e +tristes. <br /> + +<br /> + +O padre velho pronunciou em voz alta a saudação +angelica. Responderam-lhe as creancas! <br /> + +<br /> + +Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro. <br /> + +<br /> + +O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli. <br /> + +<br /> + +A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso +de tristeza. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXVI </h4> + +<br /> + +Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa +agitação. <br /> + +<br /> + +Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem +accôrdo, Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se +encarregára de trazer da taberna, +<span class="pagenum">[160]</span> +onde o Canada o recolhera, até +o Mosteiro, sobre um carro de herva que vinha guiando. <br /> + +<br /> + +Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, +D. Victoria perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as +providencias que o caso pedia, deu em ralhar, em fazer +exclamações, em andar de sala em sala, de +corredor em corredor, sem tenção formada, sem +methodo, sem +direcção. Levava as mãos á +cabeça, ajuntava-as +consternada; dava uma ordem ociosa; mandava logo suspender a +execução d'ella; impacientava-se; chamava a +toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para +dizer-lhe; extranhava a tardança de outro que não +mandára chamar, e sem dar a final expediente a coisa +nenhuma, nem saber o que fizesse. <br /> + +<br /> + +Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente +direcção; paravam embaraçados, ou +corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem adeantarem +serviço. <br /> + +<br /> + +As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque, +cheias de susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria, +que nem sequer dava por ellas. <br /> + +<br /> + +Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de +espirito n'aquella occasião. <br /> + +<br /> + +Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que +pudesse dizer-se ociosa; graças ao methodo com que procedia +ás instrucções que +ordenava, a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria +o percebesse até. <br /> + +<br /> + +Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado +assustador, sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe +era precisa toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem +sómente poderia descançar, e logo achou na +necessidade valor, e, com serenidade apparente, só trahida +pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, tudo previu, tudo +providenciou. <br /> + +<br /> + +Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero +<span class="pagenum">[161]</span> +ou de susto, sem nem ao +menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel, +que lhe era natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os +aprestes que o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros +com intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião, +enviou a Alvapenha parte do succedido, e ordenou que procurassem +Magdalena, occupando n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra +toda como alimento á impaciencia de sua mãe. <br /> + +<br /> + +A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e +sympathicas. Não era para o salão que se +formára e educára o +ingenuo e meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um +acanhamento, que já não conseguiria vencer, mas +nas lides domesticas, na vida do lar era d'essas corajosas luctadoras, +a quem a desventura não derruba, cuja intelligencia por tudo +se reparte; d'estes genios providenciaes, que pairam sobre o estreito +horisonte da familia, activos, laboriosos, achando nas fadigas um +prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, nos sorrisos que +provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que enxugam, premio +bastante para compensar as penas que soffrem. <br /> + +<br /> + +Mulheres são estas nascidas para serem esposas e +mães, o que é quasi o mesmo que dizer: nascidas +para serem mulheres. <br /> + +<br /> + +A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que +soube o que succedera ao sobrinho, não dispensou Christina +d'estes cuidados, que voluntariamente tomára. <br /> + +<br /> + +Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que +D. Victoria, e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis +effervescencias, em que esta se deixava arrebatar, não era +tambem mulher para casos d'estes. <br /> + +<br /> + +Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa +perdera ou embotára a faculdade preciosa +<span class="pagenum">[162]</span> +de acertar bom caminho +em qualquer imprevista occorrencia. <br /> + +<br /> + +Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos +já a lançava em +sérios embaraços. Ella propria confessava que +inda havia pouco tempo principiára a afazer-se á +estada de Henrique em Alvapenha, e a fazer o que era seu costume fazer +antes de elle vir. <br /> + +<br /> + +É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia +fazer do que rezar, e para isso ninguem estava mais habilitado do que +ella. Em relação +á côrte celestial era a boa senhora como esses +almanachs vivos, que nos sabem dizer todos os canaes por onde os +differentes negocios poderão ser melhor conduzidos nas +côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade de cada +santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento +particular. <br /> + +<br /> + +Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de +Henrique, onde, com as melhores +intenções, mais embaraçava o +serviço do que +auxiliàva; usando de uma debil violencia foi-a levando para +a sala do oratorio, onde ella encetou uma reza sem fim. <br /> + +<br /> + +Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do +cemiterio, e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para +verificar a realidade do que lhe diziam. <br /> + +<br /> + +Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido, +uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. +Victoria tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos. <br /> + +<br /> + +Magdalena dirigiu-se para lá. <br /> + +<br /> + +Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas +interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a +fecunda verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres, +seja dito antes em honra do que em censura do sexo, são +oradoras de muito mais folego que os homens que blasonam de eloquentes. +O assumpto mais simples, uma colhér +<span class="pagenum">[163]</span> +que se perdeu, uma peça de louça que se +quebrou, por exemplo, fornecem-lhes thema para uma prédica +de duas horas. <br /> + +<br /> + +Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil +fórmas e estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo +que a um homem a custo daria para uma magra +oração. <br /> + +<br /> + +―Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu +estavas. Faça favor de me dizer onde é que +estava? <br /> + +<br /> + +Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara +e postura de réo. <br /> + +<br /> + +―Eu... senhora...―ia elle a dizer. <br /> + +<br /> + +―Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que +é. Um desafôro assim!... Eu só +quero saber se vossemecê ganha soldada para andar +lá por onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as +vendas... Porque elle não ha mais... Como o dinheiro se vae +roubar á estrada... O que tu merecias... Estou eu aqui a +chamar ha mais de duas horas e vossemecê apparece-me +lá quando +é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem +quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é +roubar? <br /> + +<br /> + +―Mas... <br /> + +<br /> + +―Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para +responder. Ora toma-me cautela, senão vaes já, +já pela porta fóra. Pouca +vergonha! Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer +mandar onde é preciso e não apparecer um criado +n'esta casa! A pagar-se aqui umas soldadas por ahi além, e, +quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa de o fazer +por suas mãos!... Tu cuidas que isso não +é peccado tambem? Deixa, meu amigo, que tens boas contas a +dar de ti. Quem é que lhe deu licença para sair +sem ordem de seus +amos? Faz favor de me dizer? <br /> + +<br /> + +―A sr.<sup>a</sup> Christininha... <br /> + +<br /> + +―Eu não quero saber da sr.<sup>a</sup> +Christininha, quero saber quem +lhe deu licença para sair? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[164]</span> +―Mas é o que eu estou dizendo á senhora. <br /> + +<br /> + +―É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e +veja como responde. <br /> + +<br /> + +Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a +urgencia do serviço de que falava D. Victoria, +serviço que ella propria adiava com este importuno +sermão. <br /> + +<br /> + +A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria +esqueceu-se do criado, o qual pôde retirar-se sem ser +percebido e sem receber as ordens urgentes para que fôra +chamado. <br /> + +<br /> + +D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella +propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique. <br /> + +<br /> + +―Andam desaforados―concluiu ella.―Já nem attendem a uma +pessoa de respeito. É porque não ha +justiça n'esta terra. Estão para ahi uns +patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era +preciso um exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse +rei, não tinha pena nenhuma: havia de os esquartejar e era +bem feito! <br /> + +<br /> + +Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um +gato. <br /> + +<br /> + +A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio. <br /> + +<br /> + +Então é que trasbordou a +indignação da tia. <br /> + +<br /> + +―Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar +sério?... Pois elles?... Em nome do Padre... Que mais +teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E esses malvados ainda +estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda saber... +Não, isso não +fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no +pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se +fizeram as forcas... Ora deixa que... Isto aqui anda trama. <br /> + +<br /> + +―Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado +do ferido. <br /> + +<br /> + +―Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu +não sei onde elles se metteram. Ha de ser preciso +<span class="pagenum">[165]</span> +ir á botica, e muitas +mais coisas, e não +vejo nenhum! <br /> + +<br /> + +Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha. <br /> + +<br /> + +Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em +direcção ao quarto de Henrique, com um copo de +agua acidulada. <br /> + +<br /> + +―Que ha, Christe?―perguntou-lhe Magdalena. <br /> + +<br /> + +―Que ha de haver, Lena?―respondeu Christina com tristeza, mas com +serenidade ao mesmo tempo―uma desgraça, mas que Deus ha de +permittir que não seja sem remedio. <br /> + +<br /> + +―Como está elle? <br /> + +<br /> + +―Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou. +Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas +calmantes que lhe tenho dado, achou-se bem. <br /> + +<br /> + +―E ainda não mandaram chamar o cirurgião? <br /> + +<br /> + +―Já mandei, já veio, já o sangrou, +já... <br /> + +<br /> + +―Mas tua mãe não o sabe e ia mandar... <br /> + +<br /> + +―Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados, +que por ora não convem que venha. Elle precisa de +socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia +Dorothéa, que não adeantava serviço. +Queres vir +vêl-o? <br /> + +<br /> + +Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique. <br /> + +<br /> + +Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda +commoção cerebral, que lhe produzira a +quéda. A tendencia ao estado comatoso, que apresentava, +tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso. <br /> + +<br /> + +Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia +aquella, e estes sem possibilidade de longa +fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que +n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma +indifferença morbida pelo seu estado e por tudo quanto o +cercava. <br /> + +<br /> + +Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que +ella mesma preparára, com os movimentos quasi instinctivos +do somnambulo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> +No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe +causára lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em +Christina um olhar de gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a +cabeça outra vez no travesseiro, fechou os olhos para +dormir. Esta somnolencia era habitual. <br /> + +<br /> + +Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava +um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor +mandar calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma +dúvida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de +qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a +escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem +ruido, diligente e sem confusão. <br /> + +<br /> + +Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi +subjugada pelas muitas e violentas +commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade +da prima e extranhava-a. <br /> + +<br /> + +Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a +suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito +methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas. +<br /> + +<br /> + +Apreciára-lhe até então os dotes de +creança, a bondade do coração, os +extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto +tomando assim tanto a sério a sua missão de +mulher e +desempenhando-se d'ella tão dignamente. <br /> + +<br /> + +Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o +espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no +leito, e como que sob a protecção de uma timida e +debil +creança que, mais do que elle, parecia carecer de amparo, +Magdalena não pôde reprimir um sorriso benigno e +pensou: <br /> + +<br /> + +―Sim; aquella cabeça estouvada pôde +até hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas +é preciso não ter coração +para que, ao erguer-se d'aquelle +<span class="pagenum">[167]</span> +leito, não +seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella para a +adorar. E Henrique não é falto de +coração. Lida, lida, minha boa +Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz +que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu +á mulher. Confio em Deus que vencerás. +Deixar-te-hei todas as fadigas, para te pertencer todo o prazer. <br /> + +<br /> + +E em harmonia com esta resolução, a morgadinha +absteve-se de intervir no tratamento de Henrique. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXVII </h4> + +<br /> + +Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a +vida d'este correra sérios riscos durante a primeira semana, +por não sei que +complicação que se lhe manifestou no decurso da +molestia. Se se enganou o prático, não nos +compete a +nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como de +legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso +intento. <br /> + +<br /> + +Ao fim dos oito dias, porém, começaram a +manifestar-se melhoras evidentes, e o proprio facultativo foi o +primeiro a assegurar ás senhoras, que sempre o vinham +consultar á saida com anciosa curiosidade, que «o +homem estava salvo». <br /> + +<br /> + +De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, +como já dissémos, n'um d'aquelles estados de +indifferença para tudo e para todos, de que se +não pode agourar nunca bem. Agora, porém, +começava já a manifestar +attenção para os cuidados de que era objecto, e a +agradecer, com palavras de sincera gratidão, o tratamento +affectuoso que recebia n'aquella casa e especialmente os desvelos de +Christina.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> +Esta fôra effectivamente sempre incançavel, +solícita e carinhosa enfermeira. <br /> + +<br /> + +Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe +todos os instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as +penas, procurar-lhe allivio ás dores physicas ou moraes, era +agora para ella a tarefa de cada momento, a preoccupacão +permanente de todos os seus pensamentos. <br /> + +<br /> + +Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto +aquella meiga e delicada figura de mulher, creança de +hontem, a ouvir-lhe o timbre suave e ainda um pouco infantil da voz, a +cruzar o olhar com aquelle olhar brando que o fitava com sympathia e +meiguice; já se não sentia bem, longe d'ella, e a +cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas para a porta +á espera de a vêr apparecer. <br /> + +<br /> + +Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de +Christina sobre o animo do rebelde, que até alli +fôra insensivel, e exultava. +Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da +cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que +obriga os pintores a deixar em meias tintas os accessorios de um +quadro, para que a +attenção se fixe no objecto principal. <br /> + +<br /> + +Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina +devia ser a figura principal. <br /> + +<br /> + +N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha +fazer a Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante +familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os +impulsos da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem +comprehendia os deveres da sua missão, ao mesmo tempo +carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais extranha que lhe era +possivel a estes pequenos cuidados, que tão irresistivel +influencia exercem no coração do homem que +experimenta a ventura de ser objecto d'elles. <br /> + +<br /> + +De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e +crescia á custa de Magdalena. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[169]</span> +Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a +descoberta. É necessario ser dotado de um grande fundo de +generosidade, para que um coração +de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo +contentamento que Magdalena sentia. É tão natural +defeito a vaidade! Não se exprime o prazer que Henrique +experimentava a cada pequeno incidente da vida domestica, que punha em +relêvo o predominio de Christina. <br /> + +<br /> + +Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres +placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado. +<br /> + +<br /> + +Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e +a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para +tomarem o chá. Não era, porém, a +presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, que o +consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena +circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade +embotada, emquanto o facto se não der com elle. Era que +Christina, que em outra qualquer occasião cedia sempre a +Magdalena a +direcção dos trabalhos domesticos, alli dentro +não resignava em ninguem essas +funcções. Tomava naturalmente as maneiras de dona +de casa, e recebia a mãe, a prima e todas as outras como +visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, visitas. <br /> + +<br /> + +Não se imaginam os encantos que Henrique achava +áquillo. A elle proprio parecia já que de facto o +prendiam a Christina laços mais intimos, laços +mais de familia, do que ás outras senhoras. +Era assim que qualquer pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar +a ella, como o faria a uma irmã; emtanto que naturalmente +custava-lhe a incommodar outra qualquer pessoa, e não o +fazia sem as desculpas e cumprimentos do estylo, que para ella +não usava já. <br /> + +<br /> + +Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira +despotica por que o governava Christina, +<span class="pagenum">[170]</span> +fazendo-o cumprir á +risca as dietas e as +prescripções do facultativo, recusando-se +obstinadamente a deixal-o lêr, e até ralhando-lhe +ás +vezes com severidade quasi maternal: apparencias de dureza, que +occultavam thesouros de sensibilidade e de affecto. <br /> + +<br /> + +O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do +seu leito de doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto +suave e consolador de uma mãe, de uma irmã ou de +uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o com essas +entonações +carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a mão que +nos estende a taça do mais amargo +remedio; elle, que não sabia ainda o que era sentir-se +amparar a fronte, que escalda de febre, pelo apoio de uma debil +mão de mulher, a que o amor dá +fôrças extraordinarias, commovia-se +até ás lagrimas agora, e quasi não +pensava sem tristeza na convalescença, que havia de o privar +d'aquelles cuidados affectuosos. <br /> + +<br /> + +O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe +approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que +todas as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia +dizer. <br /> + +<br /> + +Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa. <br /> + +<br /> + +Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que +se agitava no leito com a inquietação da febre, +Christina, depois de lhe dar a beber o calmante que lhe prescrevera o +medico, perguntou-lhe, com a mais adoravel candura: <br /> + +<br /> + +―Não sabe rezar? <br /> + +<br /> + +Henrique sorriu, respondendo: <br /> + +<br /> + +―Julgo que desapprendi já as orações +que minha mãe me ensinou. <br /> + +<br /> + +Christina calou-se e ficou tristemente pensativa. <br /> + +<br /> + +Aquella alma innocente perguntava a si mesma +<span class="pagenum">[171]</span> +que consolação encontraria nas +provações da vida um espirito que não +soubesse recolher-se na +oração. <br /> + +<br /> + +Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe: <br /> + +<br /> + +―Quer-me ensinar a rezar, Christina? <br /> + +<br /> + +Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a +intenção d'aquellas palavras. <br /> + +<br /> + +―Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz +a minha alma, as +orações que me ensinar. <br /> + +<br /> + +Christina respondeu-lhe gravemente: <br /> + +<br /> + +―Reze, reze e verá como n'isso acha +consolação. Vou emprestar-lhe o meu livro de +orações, quer? <br /> + +<br /> + +―Por que me não ha de antes ensinar, como minha +mãe o fazia? <br /> + +<br /> + +Christina ouviu com seriedade a proposta. <br /> + +<br /> + +E o certo é que um dia, em que Henrique passára +peor, Magdalena ouviu, na sala proxima, Christina, recitando uma +singela prece á Virgem, e o doente repetindo-a com +docilidade de creança. <br /> + +<br /> + +Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o +vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas +modificações a que todos os caracteres +estão sujeitos, quando se dão a actual-os dois +elementos tão +poderosos, como se davam em Henrique: a doença, que quebra a +inteireza das indoles mais rijas, e abre o +coração ás doces influencias; e a +catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e irresistivel de todas. <br /> + +<br /> + +Não direi que fôsse com inteira fé que +o doente orava; talvez que houvesse mescla de sentimento profano no +prazer suave que experimentava ao orar assim. É certo, +porém, que, desde +então, frequentes vezes se lhe desviavam os olhos para o +pequeno crucifixo, que Christina trouxera do seu quarto para a +cabeceira do leito de Henrique. <br /> + +<br /> + +Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio, +Henrique, obedecendo aos impulsos +<span class="pagenum">[172]</span> +da sua gratidão, beijou-lhe, commovido, a +mão, que ella ia a retirar. <br /> + +<br /> + +―Que faz?―disse Christina, córando e +afastando-a. <br /> + +<br /> + +―Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á +vida, á vida que só agora comecei a +amar. <br /> + +<br /> + +―Ora vamos―acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão. <br /> + +<br /> + +―Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer +anjo para me salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da +guarda? <br /> + +<br /> + +―Repare que eu não tenho azas de anjo. <br /> + +<br /> + +―Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a +velar por um pobre doente como eu, que nenhuns titulos possue +para lhe merecer essa +dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua +ha tantos dias? <br /> + +<br /> + +―Nenhuns titulos! que diz?―tornou Christina, com um sorriso adoravel. +<br /> + +<br /> + +―Pois quaes? <br /> + +<br /> + +―Então não somos primos? disse ella, +jovialmente. <br /> + +<br /> + +E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava +Henrique. <br /> + +<br /> + +Estava já Henrique em convalescença, e o +facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda +não a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de +Henrique n'estes passeios era á sombra de umas laranjeiras, +que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D. +Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam +serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia +tenção de ler, e apoiando-se +ao braço de Christina, que levava a costura para junto +d'elle, para lhe fazer companhia. <br /> + +<br /> + +D. Victoria seguia-os da janella com as suas +recommendações. <br /> + +<br /> + +―Por ahi não, Christe!... Olha que é muito +humido... Dá antes a volta pela nora... Assim... +<span class="pagenum">[173]</span> +Cautela com essas hervas, que +hão de estar molhadas... Vê lá que +não esteja frio... Olha se +esses troncos estão molhados... <br /> + +<br /> + +Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de +uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de +familiaridade affectuosa, que principiára a poder ter para +com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e +protecção. <br /> + +<br /> + +―Que é isso! Por que está sempre triste, agora +que vae melhor? <br /> + +<br /> + +―Estou triste, porque estou melhor―respondeu Henrique. <br /> + +<br /> + +―Que está a dizer?! <br /> + +<br /> + +―A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede +commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos +circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos +accumular-se em nós, que tantos gósos +dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que +estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei +prostrado no leito da doença, Christina. <br /> + +<br /> + +―Não diga isso. <br /> + +<br /> + +―E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! +Não sabe que me eram desconhecidos inteiramente os +ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude +vão voltar para mim os dias da solidão, do +desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que +principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina! +Quando penso em voltar para Lisboa... <br /> + +<br /> + +―E tenciona voltar? <br /> + +<br /> + +A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma +intima commoção. Ha d'estes effeitos. +Ás vezes o olhar menos significativo, a palavra menos +pensada, é pelo coração +interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> +―E queria que eu ficasse, Christina?―perguntou Henrique, sob o +dominio d'essa impressão. <br /> + +<br /> + +Christina não respondeu logo. <br /> + +<br /> + +―Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, +para não vêr partir sem saudade o homem a quem +salvou com os seus extremos de irmã. Esta ideia +será a minha +consolação; deixe-me partir com ella. <br /> + +<br /> + +―Partir?... mas... para que ha de partir? <br /> + +<br /> + +―Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia +Dorothéa, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos +cidadãos? <br /> + +<br /> + +―Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! +E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar +que está doente, que é quasi a mesma coisa. <br /> + +<br /> + +―E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar? <br /> + +<br /> + +―Por que havia de lh'a negar? <br /> + +<br /> + +―Tempo virá em que outros me disputarão a menor +porção de affecto que me conceder, +Christina... e então... então é que eu +ficarei mais +só do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o +estou. <br /> + +<br /> + +―Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por +esse mundo? <br /> + +<br /> + +―Então a menina não sabe que se está +só mesmo em companhia? Quem está só +é a alma. +Ai, a alma está só quasi sempre! <br /> + +<br /> + +―Por que quer. <br /> + +<br /> + +―Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que +não obteve a que desejava. Além de que, ha almas +tão tristes, que intimidam outras. E a minha é +d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia á +minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci, +não hesitaria? Confesse. <br /> + +<br /> + +Depois de um momento de silencio e hesitação, +Christina respondeu: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[175]</span> +―Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa +tristeza... <br /> + +<br /> + +―Concedia-m'a? <br /> + +<br /> + +―E por que havia de negar-lh'a? <br /> + +<br /> + +Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado. <br /> + +<br /> + +―Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras? +Se o meu coração é +tão ousado... <br /> + +<br /> + +Christina, córando, retirou a mão de que Henrique +se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse: <br /> + +<br /> + +―Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o. <br /> + +<br /> + +E fugiu, correndo em direcção de casa. <br /> + +<br /> + +Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias +durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma +como perfumada atmosphera, que exercia profundas +revoluções no caracter de Henrique e de +Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades +artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em +vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo +uma d'essas metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, +da infancia, estado de chrysalida para a +imaginação, passava á +verdadeira juventude, ao periodo em que a +imaginação ganha azas, em que o +coração se completa. <br /> + +<br /> + +Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não +havia razão possivel para permanecer no Mosteiro; portanto +tornou-se inevitavel a mudança para Alvapenha. <br /> + +<br /> + +Já se não fez sem lagrimas a despedida. <br /> + +<br /> + +Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria +Magdalena se sentiu commovida; só Christina não +se achava na sala em que se passou a scena. <br /> + +<br /> + +Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair. <br /> + +<br /> + +Seria casual esta circumstancia? <br /> + +<br /> + +Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe +o coração que a encontraria alli. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[176]</span> +―Volto á minha solidão, Christina―disse-lhe, +commovido.―Não lh'o tinha eu dicto? <br /> + +<br /> + +A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez +só lhe resultaram lagrimas. <br /> + +<br /> + +―Não diga mais nada―disse Henrique, levando aos labios a +mão que ella não retirou.―Essas +lagrimas bastam-me. <br /> + +<br /> + +Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas +produziram. <br /> + +<br /> + +E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas. <br /> + +<br /> + +Christina ficou a chorar na varanda. <br /> + +<br /> + +A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Pago-te hoje o abraço que me déste no outro +dia; mas eu escuso de te perguntar... «Pois tu +amaval-o?» <br /> + +<br /> + +―Ai, Lena!...―exclamou Christina, cada vez chorando mais. <br /> + +<br /> + +―Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e +imaginaram uma separação de +duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e +chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!―dizia Magdalena, para +consolal-a. <br /> + +<br /> + +Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia. +Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual +taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar +á ama a ideia de que a doença tinha transtornado +o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa levou +muito a mal. <br /> + +<br /> + +Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a +indignação que lhe causou a carta de um +amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus +habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam +enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do +coração, contra aquelle tom frio e sarcastico da +epistola, e nem lhe respondeu. <br /> + +<br /> + +Depois teve Henrique uma visão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +Não se assustem os leitores que antipathisam com o +maravilhoso. Nada ha aqui que se pareça com as +visões épicas; foi uma visão +como muitas, que nós todos, uma ou outra vez na vida, +experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em +quando a imaginação, esta fertil e poderosissima +creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem não +terá de facto +succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma perspectiva, +desvanecerem-se os effeitos da visão exterior, enfraquecerem +as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem +fórma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima, +espontanea e mysteriosa visão? <br /> + +<br /> + +Estava Henrique á janella do quarto que habitava em +Alvapenha. Sabemos já que se gosava d'alli um panorama +extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com +prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as +suas noras e mêdas, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma +verdadeira quinta rural, resentindo-se, porém, um pouco de +ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade +para tratar da lavoura. <br /> + +<br /> + +Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta +como ella era. <br /> + +<br /> + +Principiava a visão interior. <br /> + +<br /> + +As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos +campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se +de cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o +chão das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se +ás prêsas os diques, e uma verdadeira rede liquida +envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; +alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos +as cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos +episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente +allucinados, do sobrinho de D. Dorothéa. Era +<span class="pagenum">[178]</span> +uma perfeita georgica! E elle a dirigir +todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro +patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, +á sombra de uma arvore, á borda do tanque, +debruçada no muro, por entre os silvados das +sébes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura +de Christina! <br /> + +<br /> + +Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem +elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as +qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de +ter uma visão como esta! <br /> + +<br /> + +No quasi extase, em que a imaginação o +lançára permanecia ainda, quando soube que o +procuravam de mando das senhoras do Mosteiro. <br /> + +<br /> + +Apressou-se logo a receber a visita. <br /> + +<br /> + +Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e +das meninas. <br /> + +<br /> + +O pobre homem era um dos que ficára com +affeição a Henrique depois que estivera no +Mosteiro. <br /> + +<br /> + +Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos +encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso +era o bastante para o velho lhe querer bem. <br /> + +<br /> + +―Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo +incómmodo que estão tendo +commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes +passeios. <br /> + +<br /> + +―Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... +É exercicio a final... Pois é verdade. Eu d'antes +corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu já +tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu +era já homem feito... Inda me lembra... <br /> + +<br /> + +Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem +transição sensivel: <br /> + +<br /> + +―Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo +dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... Até a +Christininha! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[179]</span> +―Sim? Tambem essa? <br /> + +<br /> + +―Ora se tambem!... Pois a sr.<sup>a</sup> D. Victoria? <br /> + +<br /> + +―Mas... mas... Christina... a sr.<sup>a</sup> D. +Christina, então... <br /> + +<br /> + +―Isso é um coração de pomba. Inda ha +pouco, ao sair, já vinha no pateo, e ella veio ter commigo a +correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de +reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais +triste.» <br /> + +<br /> + +―Ella disse-lhe isso? <br /> + +<br /> + +―É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o +encontrei alegre como... <br /> + +<br /> + +―Não, não; não lhe diga isso, +homem―atalhou Henrique. <br /> + +<br /> + +―Então por quê?! <br /> + +<br /> + +―Porque... porque... porque não é verdade... +Então eu estou assim tão alegre como isso? <br /> + +<br /> + +―Não digo que esteja, mas para a socegar... <br /> + +<br /> + +―Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse +ella mais nada? <br /> + +<br /> + +―A sr.<sup>a</sup> D. Victoria... <br /> + +<br /> + +―Falo de Christina. <br /> + +<br /> + +―Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo. <br /> + +<br /> + +―Diga, diga. <br /> + +<br /> + +―Não é nada; é uma promessa que... <br /> + +<br /> + +―Uma promessa? Que promessa? <br /> + +<br /> + +―Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve +muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a +Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as +estações da +meia noite... <br /> + +<br /> + +―As estações da meia noite? <br /> + +<br /> + +―Sim; as estações rezadas á meia +noite á Senhora que está na capella da casa dos +Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca +recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae... <br /> + +<br /> + +E vinha um caso comprovativo da tradição popular. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[180]</span> +―Sim, lembra-me que já me falaram n'isso―disse Henrique, +pensativo. <br /> + +<br /> + +―É verdade. O peor é que é este seu +criado quem tem de a acompanhar até á quinta, +depois d'ámanhã á meia noite... <br /> + +<br /> + +―Então depois de ámanhã á +meia noite? <br /> + +<br /> + +―Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da +pequena. <br /> + +<br /> + +―Esteja descançado. <br /> + +<br /> + +E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que +Henrique não ligou +attenção, aquelle retirou-se. <br /> + +<br /> + +Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda +abstracção. Elaborava-se-lhe na ideia um +projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de +fervorosa devoção de Christina, que +supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura +crença, com a effusão do mais generoso affecto. <br /> + +<br /> + +N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que +conduziam á quinta, que elle ainda não +visitára, e sobre como penetrar +até á capella da casa, onde devia ser cumprida a +promessa. <br /> + +<br /> + +D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os +esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das +intenções com que elle lh'os pedia. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXVIII</h4> + +<br /> + +A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha +morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada +n'um dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia. <br /> + +<br /> + +O tempo, cuja acção não contrastada se +exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que +desde a origem apresentava esta casa, +<span class="pagenum">[181]</span> +ennegrecendo-lhe as paredes, +revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as +junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos +dos muros. Emfim a superstição popular +terminára a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por +aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, +entregue á natureza. <br /> + +<br /> + +A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia +senão depois de ter gosado na capital de todos os +esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e +elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde +passára o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que +em grande parte concorrera para generalisar a opinião de que +a sua alma andava ainda penando por cá. <br /> + +<br /> + +Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em +relação aos annos da mocidade da morgada. A +imaginação popular fazia a biographia d'aquella +senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma +phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada. <br /> + +<br /> + +A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos +começaram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam +nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um +extremo a outro extremo, e da vida elegante ás +práticas de devoção. <br /> + +<br /> + +Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as +semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente +os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade +natural. Trajava sempre com distincção e esmero, +e ao corrente das modas. <br /> + +<br /> + +Tudo isto e as proprias devoções da morgada, +acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado +d'ella, as quaes procurava remir á +fôrça de missas. Dizia-se que a +morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua +alma voltava á terra penando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[182]</span> +Já se vê que o logar era para apavorar as +imaginações timidas, e de noite pouca gente da +aldeia gostava de passar por lá. <br /> + +<br /> + +Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao +Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora +devida, e fazendo obra pelas informações da +morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher +posição d'onde +pudesse, sem ser visto, observar Christina, não tendo ainda +resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua +piedosa tarefa. <br /> + +<br /> + +A noite fizera-se escura e ameaçava chuva. <br /> + +<br /> + +Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um +pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, +atravessou a aldeia, examinando com attenção +todos os objectos que lhe +deviam servir de indicadores da estrada. <br /> + +<br /> + +Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que +por apparencia, julgou ser a demandada propriedade. <br /> + +<br /> + +Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a +um lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja +porta Henrique achou ainda fechada. <br /> + +<br /> + +O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver +acertado. <br /> + +<br /> + +Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a +escuridão a fazer receiar grandes aguaceiros. <br /> + +<br /> + +Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se. +N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto +seu, achou-o aberto. <br /> + +<br /> + +Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na +casa?... Estaria habitada a quinta? <br /> + +<br /> + +Estas tres explicações do inesperado facto +debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar. <br /> + +<br /> + +Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de +vida. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +A chuva caía com mais fôrça. Para se +abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no tôpo dos +quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado. <br /> + +<br /> + +Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim +de um corredor pareceu-lhe divisar luz. <br /> + +<br /> + +Henrique parou indeciso. <br /> + +<br /> + +―Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos +Cannaviaes. Sempre perguntarei. <br /> + +<br /> + +E bateu as palmas. <br /> + +<br /> + +Ninguem lhe respondeu. <br /> + +<br /> + +Bateu outra vez; o mesmo resultado. <br /> + +<br /> + +Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu. <br /> + +<br /> + +O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em +direcção á luz; chegou a uma sala +mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um +candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo +fóco brilhavam ainda uns carvões +candentes. <br /> + +<br /> + +―Parece uma historia de fadas!―pensava Henrique.―Dar-se-ha que a +alma da morgada goste ainda das commodidades? <br /> + +<br /> + +Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado +opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do +campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique +voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella +primeiro lhe disse: <br /> + +<br /> + +―Procurava alguem, o senhor? <br /> + +<br /> + +―Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito +tempo á porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a +entrar. Desejava saber onde é aqui a casa dos Cannaviaes. <br /> + +<br /> + +―A casa dos Cannaviaes é esta mesma. <br /> + +<br /> + +―Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não +morava aqui ninguem. <br /> + +<br /> + +―E não o enganaram. Hoje por acaso é que +está cá a sr.<sup>a</sup> morgada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[184]</span> +―A sr.<sup>a</sup> morgada?―perguntou Henrique, sem bem +saber o que devia +pensar da resposta e de tudo que via. <br /> + +<br /> + +―Sim, senhor; a sr.<sup>a</sup> morgada, e não +tarda aqui. Ella +esperava-o. <br /> + +<br /> + +―Ah! A sr.<sup>a</sup> morgada esperava-me? <br /> + +<br /> + +―É verdade―disse a mulher, sorrindo.―Adivinhou que o +senhor vinha aqui. E o que é que ella não +adivinha? <br /> + +<br /> + +Henrique dava tratos á imaginação para +comprehender esta scena. <br /> + +<br /> + +―Então é a sr.<sup>a</sup> morgada +em pessoa que... <br /> + +<br /> + +―Que o convida para tomar uma chavena de chá―disse uma voz +por traz d'elle. <br /> + +<br /> + +Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz. <br /> + +<br /> + +Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos +labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de +maneiras, que de tantos encantos a revestia. <br /> + +<br /> + +Henrique exclamou, admirado: <br /> + +<br /> + +―A prima Magdalena! <br /> + +<br /> + +―A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as +honras da minha propriedade, que pelos modos está para ser +muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu +muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do +rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida +é quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as +janellas d'esta casa, para que os ratos não a destruam de +todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes. <br /> + +<br /> + +―Mas como soube que eu?... <br /> + +<br /> + +―Isso é um segredo. Não o esperava, +porém, tão cêdo, nem imaginei que nos +viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando +o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas +fez bem em recolher-se... Ouve? <br /> + +<br /> + +E com o gesto indicava a chuva, que já batia com +fôrça nas vidraças. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[185]</span> +―O peor é se isto não espalha e a Christina muda +de tenção. <br /> + +<br /> + +―O vento é do mar, menina; isto são +aguaceiros―notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio. <br /> + +<br /> + +―Pois sabe que Christina vem? <br /> + +<br /> + +―Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito +frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, +muito pouco hospitaleiro.―Brizida, olhe que se não percebam +lá fóra as luzes, que podem amedrontar Christina. +E feche a porta da sala. Abra o côro da capella e prepare +chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a +cozinha está pouco habitavel. <br /> + +<br /> + +Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta, +chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de +Henrique de Souzellas. <br /> + +<br /> + +―Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais +nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui? <br /> + +<br /> + +―Pois não diz que sabe tudo? <br /> + +<br /> + +―Até certo ponto, entendamo-nos. Não +vão tão longe as minhas faculdades que cheguem a +devassar intenções, que por ventura á +propria +consciencia de quem as fórma, repugne acceitar. <br /> + +<br /> + +―Não é esse o meu caso; as minhas +intenções são reconhecidas e +approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo +commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a +que ainda não assistira, prima. Admira-se da minha +curiosidade? <br /> + +<br /> + +―Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está +que a sua convalescença esteja bastante segura +já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas +doenças. <br /> + +<br /> + +―De duas? <br /> + +<br /> + +―Sim; e a mais rebelde não foi a de que o +cirurgião o tratou. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[186]</span> +―Então? <br /> + +<br /> + +―A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, +era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma +doença moral; revelava-se por uma maneira de vêr +as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia. <br /> + +<br /> + +―Estou curado d'isso. <br /> + +<br /> + +―Estará? eu sei!... É certo que já +é bom signal admittir que era doença. <br /> + +<br /> + +―Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que +me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos +negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera. <br /> + +<br /> + +―Ah! e experimentou a receita? <br /> + +<br /> + +―Experimentei e curei-me. <br /> + +<br /> + +―Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o +falso vigor da convalescença? Convem não abusar; +ouço dizer aos medicos que são perigosas as +recaidas. <br /> + +<br /> + +―Pois teme que eu recaia? <br /> + +<br /> + +―Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas +mortas... comquanto motivada por louvaveis +intenções... tem ainda assim uma certa +feição romantica... que era bom vigiar... Sempre +vim para acudir a algum accidente. <br /> + +<br /> + +―É um perfeito medico da época; não +tem fé na efficacia dos remedios que prescreve. <br /> + +<br /> + +―Tenho; mas não desacompanho a acção +d'elles, isso não. Agora fale-me com franqueza: ao +recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa não se +lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já? <br /> + +<br /> + +―Confesso que algumas... <br /> + +<br /> + +―E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do +coração que o minava, +tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os +pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não +vêr. <br /> + +<br /> + +―Desde o primeiro dia? Pois Christina... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[187]</span> +―Christina deixou de ser creança desde aquelle dia. <br /> + +<br /> + +―Querido anjo! <br /> + +<br /> + +―Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é +ingenua, timida, supersticiosa até, +se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para +acalmar as paixões demasiado violentas de um caracter como o +seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais coragem +e mais fé no futuro. <br /> + +<br /> + +Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para +Magdalena: <br /> + +<br /> + +―Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem +as necessidades do coração dos outros, +não pensou ainda nas do seu? <br /> + +<br /> + +―E quem lhe disse que as tinha? <br /> + +<br /> + +―Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e +não se julgue tão impenetravel, que +não offereça leitura aos olhos que a +observam. <br /> + +<br /> + +―Ah! Então leu? <br /> + +<br /> + +―Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que +eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; +pagina, porém, tão recatada, que julgo que ainda +a não leu bem o +principal interessado n'ella. Cego, como eu fui. <br /> + +<br /> + +―Não leria?―perguntou Magdalena, +sorrindo.―Está certo d'isso? <br /> + +<br /> + +―E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por +inspiração a adivinhasse. Ha casos d'esses. <br /> + +<br /> + +Magdalena tornou, mudando de tom: <br /> + +<br /> + +―É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me +resolver a isso, verá que sou um doente modelo. +Não hesitarei ante a violencia do remedio. <br /> + +<br /> + +―E por que demora o tratamento? <br /> + +<br /> + +―Pois parece-lhe que será urgente o caso? <br /> + +<br /> + +―Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua +parte do que.... <br /> + +<br /> + +―Silencio!―disse a morgadinha, escutando.―Pareceu-me ouvir... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, +voltou, dizendo em voz baixa: <br /> + +<br /> + +―Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles. <br /> + +<br /> + +―Então depressa―disse Magdalena.―Abra-nos o +côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz +lembrança em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo. +Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça +barulho. <br /> + +<br /> + +Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um +corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada +costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento +inferior. <br /> + +<br /> + +Quando alli chegaram, com as precisas precauções +para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia +já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no +pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do +côro. <br /> + +<br /> + +Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu +serem Christina e Torquato. <br /> + +<br /> + +Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato +subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas +vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de +madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se +no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras +dos recantos, nem as que se condensavam no tecto. <br /> + +<br /> + +Christina fez signal então a Torquato, para que se +retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou +para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e +fechar-se com estrondo. <br /> + +<br /> + +Tudo ficou depois em silencio. <br /> + +<br /> + +Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a +de que a tradição popular contava +milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a +devoção promettida. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[189]</span> +Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella +angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o +salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um +amor puro e candido, em que elle já nem acreditava. E +cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim! <br /> + +<br /> + +Magdalena via com alegria a commoção de Henrique. +<br /> + +<br /> + +A oração de Christina prolongou-se por alguns +minutos. <br /> + +<br /> + +Henrique murmurou, ajuntando as mãos: <br /> + +<br /> + +―Deus te recompense, anjo, a consolação que me +dás. <br /> + +<br /> + +―Não peça a Deus o que está na sua +mão―respondeu-lhe em voz baixa Magdalena. <br /> + +<br /> + +―Que diz? <br /> + +<br /> + +―Está ou não sinceramente apaixonado? <br /> + +<br /> + +―Como nunca imaginei que fôsse possivel estar. <br /> + +<br /> + +―Crê na pureza d'aquelle coração? <br /> + +<br /> + +―Como na dos anjos. <br /> + +<br /> + +―Está convencido de que o pode salvar, ella? <br /> + +<br /> + +―Não ha crédo que professe com mais +fé. <br /> + +<br /> + +―Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e +jurar-lh'o? <br /> + +<br /> + +―E consente? <br /> + +<br /> + +A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas +escadas que pela espessura da parede iam do côro para a +capella-mór. <br /> + +<br /> + +―Aqui tem o caminho―disse ella.―Siga-me. E, servindo-se da lanterna +de furta-fogo, foi descendo com precaução. +Henrique seguiu-a. <br /> + +<br /> + +No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais +alguns passos, parou junto de um reposteiro. <br /> + +<br /> + +―Agora faça o que lhe dictar o +coração―disse ella para Henrique. <br /> + +<br /> + +Este correu o reposteiro com precaução, e +achou-se na capella. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[190]</span> +Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique +entrára ficava por detraz d'ella, não o +viu chegar. <br /> + +<br /> + +Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a +oração. <br /> + +<br /> + +Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e +soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella +não lhe deixou perceber logo quem fôsse, o que +mais lhe augmentou o terror. <br /> + +<br /> + +Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe: <br /> + +<br /> + +―Não tenha receio, Christina. Sou eu. <br /> + +<br /> + +Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a +presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de +imaginar +explicações. Henrique accrescentou: <br /> + +<br /> + +―Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto +fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado, +Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os +castos e abençoados prazeres da familia; depois de me +dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas +orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com +todo o affecto, com toda a paixão que pode haver na minha +alma. <br /> + +<br /> + +E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de +enleiada, nem ousára retirar das suas. <br /> + +<br /> + +―Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez +antever as delicias do viver da familia, não me condemne +para sempre ao supplicio de não as vêr realisadas. +Lembre-se de que não conheci mãe, de que +não tenho irmãs, de que tenho vivido +só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e +gelada, que me será agora uma tortura. +Compadeça-se de mim. Quer vir occupar no meu +coração o logar vago que ha n'elle para as +affeições de +mãe, de irmã, e de... <br /> + +<br /> + +―Henrique!...―murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada +creança. <br /> + +<br /> + +―É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, +é pousando a mão sobre os Evangelhos +<span class="pagenum">[191]</span> +d'esse altar, que eu lhe prometto +mais do que uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a +constante adoração, rodeada de respeito, do homem +que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina, +acceite o offerecimento do meu coração. <br /> + +<br /> + +Christina tremia sem poder responder. <br /> + +<br /> + +Magdalena entrou por sua vez na capella. <br /> + +<br /> + +―Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo +Henrique―disse ella. <br /> + +<br /> + +Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e +inesperadas apparições, correu para +a prima. <br /> + +<br /> + +―Tu, Lena! Tu tambem aqui?! <br /> + +<br /> + +―Então não me competia receber em minha casa as +visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu +dê por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba +de te pedir, muito terminantemente, a tua mão. <br /> + +<br /> + +Christina não respondeu, senão cingindo-a mais +intimamente ao seio. <br /> + +<br /> + +―Não responderam os labios, primo,―continuou a +morgadinha―mas falou o coração ao meu na +linguagem das pulsações. Estou-o sentindo. <br /> + +<br /> + +―E disse?... <br /> + +<br /> + +―Que havia de dizer? Que sim. <br /> + +<br /> + +E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a +a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo. <br /> + +<br /> + +Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve +correspondencia. <br /> + +<br /> + +O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e +achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina. +<br /> + +<br /> + +Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma +só, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado. <br /> + +<br /> + +Suppôz que almas penadas andavam na capella. <br /> + +<br /> + +O bom do homem não ousava approximar-se. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[192]</span> +Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha +madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu. <br /> + +<br /> + +O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, +como se receiasse estar dormindo, e não passava de olhar +para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na +explicação do que +via. <br /> + +<br /> + +Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção. <br /> + +<br /> + +Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique +fôra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes +serviu o chá. <br /> + +<br /> + +A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como +já percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e +Henrique, soltou algumas insinuações, que a +obrigaram a córar, +e a rir Magdalena. <br /> + +<br /> + +Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita +intimidade. <br /> + +<br /> + +―Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso +serão!―disse Henrique.―Decididamente é de +maravilhas esta casa; o povo tem razão. A morgada defuncta +foi decerto quem se encarregou de fazer os convites. <br /> + +<br /> + +―É verdade, como foi que vieram aqui?―perguntou Christina, +já mais desenleiada.―Já sei, foi este Torquato +que me não guardou segredo. O que merecia!... <br /> + +<br /> + +―Eu, menina?! Ora essa! Eu até... <br /> + +<br /> + +―N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a +indiscreção―disse Magdalena. <br /> + +<br /> + +―Que é?―tornou a prima. <br /> + +<br /> + +―É a discreção. <br /> + +<br /> + +―Então por quê? <br /> + +<br /> + +―Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem +mais do que a verdade. <br /> + +<br /> + +―Eu...―ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o +interrompeu. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[193]</span> +―Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui. <br /> + +<br /> + +―N'esse caso é justo que fale primeiro Christina. <br /> + +<br /> + +―Que hei de eu dizer? <br /> + +<br /> + +―Explica a tua presença aqui. Então +não ouviste o primo Henrique? <br /> + +<br /> + +―Ora, já o sabem. <br /> + +<br /> + +―Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da +tua bôca. <br /> + +<br /> + +―Não, não, a minha vinda, essa não +tem que explicar. <br /> + +<br /> + +―Que diz, primo Henrique? <br /> + +<br /> + +―Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido +já. <br /> + +<br /> + +―Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida +por um sentimento de piedade e de... <br /> + +<br /> + +―Lena! <br /> + +<br /> + +―Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a +narração dos sustos que ella sentiu por o caminho +desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era +decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e +malfeitores. <br /> + +<br /> + +Christina poz-se a rir. <br /> + +<br /> + +―Mas vamos ás explicações da +presença dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato +avisou o primo Henrique... <br /> + +<br /> + +―Eu?! <br /> + +<br /> + +Christina olhou para o velho com um meigo gesto de +reprehensão. <br /> + +<br /> + +―Se eu o soubesse!... <br /> + +<br /> + +―Eu... eu não disse... eu... só disse... <br /> + +<br /> + +Henrique tomou a palavra. <br /> + +<br /> + +―Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que +não haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? +Torquato atraiçoou-se involuntaria, inconscientemente. Mas +quanto á prima... <br /> + +<br /> + +―Eu? Soube-o tambem do Torquato. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span> +―Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo! <br /> + +<br /> + +―Isso é que não. Eu não disse +á sr.<sup>a</sup> D. Magdalena... Ella +é que... <br /> + +<br /> + +―Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do +Torquato é que revelou o segredo. <br /> + +<br /> + +―Como? <br /> + +<br /> + +―O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario. <br /> + +<br /> + +―Eu a esse não disse. <br /> + +<br /> + +―Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o +mal. <br /> + +<br /> + +―Ora, ora... <br /> + +<br /> + +―O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á +porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como +ainda lhe não tinha merecido nunca. Estava o homem +convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se +verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E +tão irritado estava, que me não quiz ouvir, +quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma. +Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe +quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo. <br /> + +<br /> + +―Eu não disse... <br /> + +<br /> + +―E depois a prima... <br /> + +<br /> + +―Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha +gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o +que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava +pêrro, mas a final falou. <br /> + +<br /> + +―Mas sabia tambem que eu vinha?―perguntou Henrique. <br /> + +<br /> + +―Pois não se lembra de que pela manhã me tinha +cançado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos +Cannaviaes? Eu já extranhava a insistencia; depois do que +soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe +falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua +hesitação e ambiguidade, +<span class="pagenum">[195]</span> +habilitou-me a concluir que teria o +gôsto de receber o primo em minha casa. <br /> + +<br /> + +―E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste? <br /> + +<br /> + +―Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. +Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para +pôr a casa em arranjo. <br /> + +<br /> + +―São mesmo coisas tuas―disse Christina, rindo. <br /> + +<br /> + +―Mas eu não disse nada―insistiu Torquato. <br /> + +<br /> + +―Porém, por que motivo se irritou tanto o +herbanario?―perguntou Henrique.―Que imaginava elle a final? <br /> + +<br /> + +-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as +suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de +arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se +de que havia aqui um romance em que entrava eu... A +discreção do Torquato é das que +respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura +fôram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que +entrava tambem o primo Henrique... <br /> + +<br /> + +―Ah! percebo agora―disse Henrique, rindo.―O velho é +ciumento por procuração. <br /> + +<br /> + +Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem. <br /> + +<br /> + +Christina, que já estava habilitada para entender a +allusão de Henrique, sorriu com elles. <br /> + +<br /> + +O Torquato foi o unico que nada percebeu. <br /> + +<br /> + +Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de +voltarem a casa. <br /> + +<br /> + +―Choverá?―perguntou Brizida. <br /> + +<br /> + +―Julgo que não―respondeu Magdalena, e como para +assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o +firmamento. <br /> + +<br /> + +Henrique acompanhou-a. <br /> + +<br /> + +―A noite está serena―disse ella.―São horas de +voltarmos. <br /> + +<br /> + +―Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas +horas―disse Henrique, ―Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda +parte da familia a estas +horas―disse Henrique, debruçando-se á janella, e +continuou:―Mas que +<span class="pagenum">[196]</span> +agradavel +noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade! <br /> + +<br /> + +―Vamos, vamos,―respondeu Magdalena―o dia +d'ámanhã deve ser feliz ainda, porque... <br /> + +<br /> + +N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe +attrahisse a attenção, calou-se, +mal podendo reter um leve grito. <br /> + +<br /> + +―Que foi?―perguntou Henrique, que o percebeu. <br /> + +<br /> + +―Nada―respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da +janella. <br /> + +<br /> + +―Viu a alma da morgada?―perguntou jovialmente Henrique, vendo-a +preoccupada. <br /> + +<br /> + +―Não―respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio +séria.―Pode porém haver +apparições peores. <br /> + +<br /> + +―Que é, Lena? Que viste tu?―perguntou Christina, +assustada. <br /> + +<br /> + +―Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos. <br /> + +<br /> + +E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli +animavam aquella habitação +solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua +quasi desolação. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXIX </h4> + +<br /> + +No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia +da chegada do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda +que a este ultimo causára a morte de Ermelinda, tinha +resolvido o pae a trazel-o comsigo para a aldeia a distrahir e +robustecer com ares livres do campo. D. Dorothéa +apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; Henrique +acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu +coração, e encarregou-a +<span class="pagenum">[197]</span> +de communicar isto mesmo a D. +Victoria e de fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da +mão de Christina. <br /> + +<br /> + +D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se +não desacostumára de considerar Christina como +uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava ainda vestidos +curtos! <br /> + +<br /> + +Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, +vantajosa e agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que +fizera. <br /> + +<br /> + +Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não +se fartou de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta +vez as habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram +enfastial-o. Estava devéras apaixonado! <br /> + +<br /> + +Chegaram ao Mosteiro. <br /> + +<br /> + +O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e +apparente tranquillidade de espirito; mas um exame attento conseguiria +descobrir-lhe no sorriso o que quer que era forçado a +revelar certa +preoccupação interior. <br /> + +<br /> + +É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o +animo do publico da terra, ou dos influentes que o representavam, e +reconhecera que estava muito arriscada d'esta vez a sua candidatura. <br /> + +<br /> + +Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a +dois dias realisavam-se as eleições. Tudo +estava por fazer, emquanto que os seus adversarios havia muito que +tinham tudo feito. Algumas das personagens politicas, com que contava, +falharam-lhe, e até nem o visitaram. As auctoridades locaes +eram-lhe manifestamente hostis, desde o administrador até o +cabo de policia. <br /> + +<br /> + +Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o +conselheiro para conversar em assumptos alheios á +questão que o interessava, para sorrir e prestar +attenção ao que se dizia. <br /> + +<br /> + +De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento, +escrevia um bilhete, retirava-se +<span class="pagenum">[198]</span> +por momentos para receber algum agente eleitoral que o +procurava, despachava um emissario; finalmente não podia +socegar. <br /> + +<br /> + +Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista +dos recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e +Magdalena faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, +que entrou D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. +Dorothéa, e em nome de Henrique, o pedido da mão +de Christina. D. Victoria trazia bem visivel na physionomia todo o +jubilo que a nova lhe causára. Era muito amiga de Magdalena, +mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais que tudo a +lisonjeára, fôra a preferencia +dada por Henrique a sua filha sobre a morgadinha. <br /> + +<br /> + +―Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique―dizia ella.―Estou mesmo +muito arrenegada comsigo. <br /> + +<br /> + +―Por quê, minha senhora?―perguntou Henrique, sorrindo. <br /> + +<br /> + +―Pois então isso é coisa que se faça? +Já precisa de embaixadores para se dirigir a mim? <br /> + +<br /> + +―Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa +liberdade a v. ex.<sup>a</sup> para fazer todas as +reflexões que a +proposta lhe suggerisse e discutil-a á vontade, e, por +delicadeza, podia v. ex.<sup>a</sup> ás vezes, +sendo eu mesmo quem a +fizesse, cohibir-se... <br /> + +<br /> + +―Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade +um rapaz de tão má nota! Ora sempre tem coisas! <br /> + +<br /> + +―Visto isso, posso esperar? <br /> + +<br /> + +―Da minha parte uma guerra de morte―disse D. Victoria, não +resistindo a dar um abraço a +Henrique, já com familiaridade de mãe; +abraço +que Henrique retribuiu com affecto. <br /> + +<br /> + +O conselheiro não dava attenção +á scena. <br /> + +<br /> + +―Então, mano!―bradou-lhe +D. Victoria.―Deixe lá essas politicas +que temos negocios sérios em casa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[199]</span> +―Sim?―disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um +ar de interesse, que realmente estava muito longe de +sentir.―Então de que se trata? <br /> + +<br /> + +―De um negocio importante, em que é preciso que seja +ouvido. <br /> + +<br /> + +―Ah! Então é um caso de consciencia? <br /> + +<br /> + +―E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique +de Souzellas acaba de me fazer um pedido... Isto é, a prima +Dorothéa foi que m'o fez. <br /> + +<br /> + +―Mas por ordem d'elle―acudiu esta. <br /> + +<br /> + +―Pois sim, o que era escusado. <br /> + +<br /> + +―Mas então que pede de nós este caro sr. +Henrique? <br /> + +<br /> + +―Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas. <br /> + +<br /> + +O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por +mais de uma vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe +tinha passado pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique +tinha um bom nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro +na sociedade, e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos. <br /> + +<br /> + +Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz +tiral-o quanto antes da illusão e disse: <br /> + +<br /> + +―Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de +fazer-me falta a amizade de Christina. <br /> + +<br /> + +―Ah!―disse o conselheiro, com um sorriso um tanto +contrafeito.―Então quer-nos roubar a nossa Christina, sr. +Henrique? <br /> + +<br /> + +―É apenas uma restituição que +peço, sr. conselheiro, porque não me posso +resignar a viver sem coração. <br /> + +<br /> + +―Faz madrigal? Está então apaixonado +devéras, já vejo―disse o conselheiro.―Pela +minha parte folgo de o vêr assim associado á minha +familia, +por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, +que fez o milagre de converter este celibatario emerito, +<span class="pagenum"><a name="p200">[200]</a></span> +que eu conheci em Lisboa a rir-se +do casamento? <br /> + +<br /> + +―Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima +Magdalena, que é tão rigorosa nos +castigos! <br /> + +<br /> + +―Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas. <br /> + +<br /> + +―Mas o mano tem razão―disse D. Victoria.―Onde +está a Christe? Admira-me não a vêr +aqui! <br /> + +<br /> + +―Admirar, não me admiro eu―tornou o +conselheiro.―É provavel que soubesse do que se +tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi decerto discutido +por as partes interessadas, antes de subir ao nosso tribunal. <br /> + +<br /> + +Henrique e Magdalena sorriram. <br /> + +<br /> + +―Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S. +Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no +fogo ao ateares d'estes fachos. <br /> + +<br /> + +―Eu vou buscar a Christe―disse a morgadinha, rindo das palavras do +pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a +direcção +que elle lhe deu. <br /> + +<br /> + +O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas, +emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa +tentava distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de +creanças, que +elle mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento +accommodado á intelligencia d'elle. <br /> + +<br /> + +Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual +já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no +chão. <br /> + +<br /> + +―Aqui está a accusada―disse a morgadinha ao entrar. <br /> + +<br /> + +O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse <a href="#e9">jovialmente</a> +para a sobrinha: <br /> + +<br /> + +―Ora venha cá, venha cá, que temos muito que +falar. <br /> + +<br /> + +E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a +fital-o, continuou: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[201]</span> +―Então assim se trama uma conspiração +ás caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal +ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e +já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, +é energia. Nunca o esperei. Ora dê cá +um beijo, emquanto não tenho quem me +peça explicações por os que lhe +roubar. <br /> + +<br /> + +E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces +tingidas pelo pejo e pela alegria. <br /> + +<br /> + +Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo: <br /> + +<br /> + +―São os penultimos. <br /> + +<br /> + +―Os penultimos?―disse D. Victoria, rindo.―Ora essa! Então +para quando ficam os ultimos? <br /> + +<br /> + +―Para quando a vir com a grinalda de noiva. <br /> + +<br /> + +―O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa +Christe que désse o exemplo á prima. +Não tens vergonha, Lena―disse D. Dorothéa para a +morgadinha, em quem esta reflexão fez nascer um gesto de +contrariedade, que trouxe aos labios d'Angelo o primeiro sorriso +d'aquella manhã. <br /> + +<br /> + +O conselheiro e Henrique sorriram tambem. <br /> + +<br /> + +―Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia―disse +Henrique com +intenção. <br /> + +<br /> + +―Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem +sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha +coisas no mundo que se devem decidir pelo coração +sómente. <br /> + +<br /> + +―E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus +proprios actos. <br /> + +<br /> + +―O <em>sómente</em> é +que veio de mais, filha―disse o conselheiro.―Attende-se ao +coração, embora. Mas só ao +coração? Isso era bom se +vivessemos em um mundo de corações. <br /> + +<br /> + +A chegada de novas personagens desviou a direcção +da conversa e modificou a scena. <br /> + +<br /> + +Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se. +Henrique ficou, a pedido do +<span class="pagenum">[202]</span> +conselheiro. O mestre Bento Pertunhas entrava no numero dos +recemchegados. O papel que alli desempenhava o latinista era de +suspeitosa natureza. <br /> + +<br /> + +Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que +n'estas épocas não comia, não dormia, +não respirava, por assim dizer, +senão eleições, e desenvolvia uma +miraculosa +actividade, correndo a todos os pontos perigosos, conquistando votos, +um a um, e lidando por desenredar as meadas politicas dos adversarios e +enredar as suas. <br /> + +<br /> + +―Então que novas temos da campanha, meus +senhores?―perguntou o conselheiro, puxando cadeiras para os seus +constituintes, e affectando um tom de confiança que +não sentia. <br /> + +<br /> + +―Más, sr. conselheiro,―respondeu o Tapadas―muito +más. Vejo isto muito feio. <br /> + +<br /> + +―Ora a coisa ainda não ha de ser tão +má como diz. <br /> + +<br /> + +―Nada, nada; não me agrada. V. ex.<sup>a</sup> +descuidou-se. Tenha +paciencia, mas eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas +são. É preciso não +as desacompanhar. V. ex.<sup>a</sup> devia vir ha mais +tempo. <br /> + +<br /> + +O Pertunhas acudiu: <br /> + +<br /> + +―Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos +decididos, e os serviços que fez á +terra... <br /> + +<br /> + +―Ora com o que vmc.<sup>ê</sup> vem!―replicou o +Tapadas, com modo +azedo.―Então não sabe como é +esta gente? Então não os ouve ahi berrar +já contra as estradas, quando até agora berravam +por não as +terem? <br /> + +<br /> + +―Meia duzia de garotos―tornou o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Não, senhor, não é assim; +não estejamos a enganar-nos. Os que não dizem mal +das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as devem, e +estamos na mesma. A coisa vae mal. <br /> + +<br /> + +―Então decididamente o Seabra?...―perguntou o conselheiro. +<br /> + +<br /> + +―Esse é o chefe de todos elles―disse um +merceeiro.―Á porta da minha loja o ouvi eu estar a +<span class="pagenum">[203]</span> +dizer ao cunhado do +administrador que o traçado da estrada era o peor que podia +ser, que se gastava alli um dinheiro louco, sem utilidade para o povo. <br /> + +<br /> + +O conselheiro olhou para Henrique, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este +traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? +Admire agora o velhaco. <br /> + +<br /> + +Henrique sorriu, encolhendo os hombros. <br /> + +<br /> + +―Arremedos do que se faz em terras maiores―disse +elle.―Não extranho. <br /> + +<br /> + +―E tem razão―respondeu o conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Mas, a final―continuou o conselheiro―o homem não tinha +na freguezia grande influencia. Como é que...? <br /> + +<br /> + +―Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho +por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com +elle e de mal com v. ex.<sup>a</sup>.<br /> + +<br /> + +―Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra +mim? Deixámo-nos em janeiro nas melhores +disposições um para com outro... <br /> + +<br /> + +―Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao +ministro...―disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera +grande importancia ao objecto a que se referia. <br /> + +<br /> + +O conselheiro mudou logo de assumpto. <br /> + +<br /> + +―E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande +commetti, para me terem esse odio? <br /> + +<br /> + +―Dizem que v. ex.<sup>a</sup> é +mação―respondeu um lavrador. <br /> + +<br /> + +―O diacho da questão do cemiterio...―acudiu o Tapadas. <br /> + +<br /> + +―Isso acalmou já. <br /> + +<br /> + +―Não acalmou, não senhor. O povo não +está contente. É certo que lhe passou a furia do +principio, depois d'aquella historia com o Cancella, mas... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[204]</span> +―Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha +filha! <br /> + +<br /> + +―É melhor não falar n'isso―aconselhou +prudentemente o Tapadas.―O que lá vae, lá vae. +Os homens estão meio arrependidos, e até o +missionario perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi +berrado que foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette +pena. Até me dizem que por causa d'isso o padre +já se retirou da aldeia. O que era bom era vêr +até se se falava +ao Herodes; porque talvez elle possa agora ainda arranjar +alguns votos―accrescentou o Tapadas, disposto a servir-se da +dôr de um pae como arma eleitoral. <br /> + +<br /> + +E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas +politicos. Discutiram-se os diversos processos de +angariar as potencias eleitoraes do circulo. Estudaram-se as +ambições de cada uma; ponderaram-se as exigencias +feitas por uns, os desejos adivinhados em outros, para este o emprego +de um afilhado, áquelle o bom exito de uma demanda, a outro +o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma hypotheca, e a alguns +até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta empresa de +subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o conciliabulo, +sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o que estava +fazendo alli. <br /> + +<br /> + +Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos +principaes. <br /> + +<br /> + +―Então sempre é certo que me roeu a corda esse +basbaque?―perguntou, ao falar-se n'elle, o conselheiro. <br /> + +<br /> + +―É dos mais assanhados―responderam-lhe. <br /> + +<br /> + +―Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem +tantas vezes tenho tirado de apuros! <br /> + +<br /> + +―Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos +cemiterios...―disse o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Deixe lá, alli andou tambem um presente que +<span class="pagenum">[205]</span> +lhe fez o brazileiro. O morgado +está muitas vezes com a corda na garganta―explicou +malignamente o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das +demandas e da politica, não achava +explicações tão plausiveis como a +corrupção. <br /> + +<br /> + +―E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario―insistiu o +tendeiro. <br /> + +<br /> + +―Ora adeus!―disse o Tapadas.―Bem me fio eu +n'essas compaixões. Quem não os +conhecer... <br /> + +<br /> + +―E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?―insistiu o +conselheiro, de mau humor. <br /> + +<br /> + +―Então? Deu-lhe para alli. <br /> + +<br /> + +―Qual historia! Para mim é que vem com isso?!―teimava o +sceptico Tapadas. <br /> + +<br /> + +―Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na +taberna com este senhor―disse o Pertunhas, designando Henrique. <br /> + +<br /> + +―Sinto, sr. conselheiro―disse este―se de alguma maneira concorri... <br /> + +<br /> + +―De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram. +Á ultima hora é capaz de mudar de +tenção. E por causa d'elle é que +ficou despachado professor um pateta em vez de Augusto. <br /> + +<br /> + +Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com +despeito: <br /> + +<br /> + +―Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito +do caracter de certos homens. Ha vinganças tão +torpes e mesquinhas, que nenhum aggravo as justifica. <br /> + +<br /> + +Henrique procurou defender Augusto; achou porém o +conselheiro obstinado na sua crença. <br /> + +<br /> + +Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor +da intriga. <br /> + +<br /> + +―Embora o fôsse―respondeu o conselheiro―mas que tem isso? +O Seabra não veio a minha casa, não suspeitava da +existencia de tal carta. Alguem houve que a leu primeiro e que lh'a foi +entregar depois, e já é ser muito indulgente +suppôr que +<span class="pagenum">[206]</span> +fôram só cegueiras de vingança e +não a sordidez da cubiça quem o moveu a essa +infamia. <br /> + +<br /> + +Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou +pela innocencia d'elle. <br /> + +<br /> + +O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma +altercação travada entre Pertunhas e o Tapadas. <br /> + +<br /> + +Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias +eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente: <br /> + +<br /> + +―Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor +parolar menos e fazer coisa que se veja; ou deixa só as +obras para o seu amigo Seabra? <br /> + +<br /> + +D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a +altercação virulenta, que o conselheiro teve de +apaziguar. <br /> + +<br /> + +A conferencia durou até ás horas do jantar. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXX </h4> + +<br /> + +Chegára o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a +batalha eleitoral. <br /> + +<br /> + +A azáfama politica activára-se n'estes ultimos +dias consideravelmente. De parte a parte tinham-se posto em campo todos +os influentes e em exercicio todas as armas. Promessas, +alliciações, +pressão de auctoridades, exigencias a dependentes, subornos, +ameaças mais ou menos declaradas; de tudo se +lançava mão. <br /> + +<br /> + +Ás vezes até o calor das discussões +degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que +figuram no catalogo das razões mais convincentes, haviam +já sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se +depois, de um lado contr +Ás vezes até o calor das discussões +degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que +figuram no catalogo das razões mais convincentes, haviam +já sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se +depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do governo, do +outro, +<span class="pagenum">[207]</span> +contra os manejos +sediciosos e anarchicos da opposição. <br /> + +<br /> + +Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os +padres que arvorando a cruz e o estandarte, prégavam a +cruzada contra o conselheiro e instavam com o povo para que +não elegesse para representante um atheu e um +pedreiro-livre; em outras eram os agentes do brazileiro e os da +auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos populares, resgatando +penhores, levantando hypothecas, remindo dividas, empregando afilhados, +e conquistando assim para o seu partido. <br /> + +<br /> + +O conselheiro e os seus parciaes não desprezavam tambem +nenhum d'estes mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater +as do brazileiro Seabra. <br /> + +<br /> + +Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha. +Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores +dos dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas, +assignando-se: o <em>Amigo da +verdade</em>; o <em>Epaminondas</em>; o +<em>Vígilante</em>; a +<em>Sentinella</em>; o +<em>Alerta</em>, etc., e pondo ao soalheiro as +máculas da vida privada uns dos outros, e todas as +bisbilhotices da terra, correspondencias que, felizmente para +crédito da humanidade, por ninguem mais, além dos +interessados e dos que já os conheciam, eram lidas. <br /> + +<br /> + +O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta +secção periodistica. Os +seus communicados eram estirados, compactos, obscuros e enrevezados +tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se em minuciosos +incidentes; em labyrinthos de orações +secundarias, d'onde a +grammatica da principal saía frequentemente maltratada, +deixando ficar por lá o sujeito, o verbo ou qualquer +complemento necessario. Mas o brazileiro imaginava que o paiz inteiro +aguardava com ancia os seus escriptos. Era frequente abrir uma resposta +a alguma zargunchada de um seu adversario, por estas +<span class="pagenum">[208]</span> +palavras: «Os leitores +hão de ter notado o +meu silencio, depois das calumniosas +asserções...» Os leitores +não tinham notado nada. <br /> + +<br /> + +Finalmente a aldeia achava-se em plena +fermentação politica. <br /> + +<br /> + +Eu tenho a fraqueza de a não amar debaixo d'aquelle aspecto. +<br /> + +<br /> + +A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado +é o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e +conhecidos são os que vivem d'ella, tanto mais acanhada, +mexeriqueira e antipathica se torna. Se a politica do nosso paiz +é já pequena, como elle, e degenera em +desavença de senhoras vizinhas, que fará das +terras pequenas d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos +partidos estão os mexericos e as vaidadesinhas que brotam +como tortulhos á sombra das arvores do campanario?! <br /> + +<br /> + +Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos! <br /> + +<br /> + +Henrique de Souzellas não ficára indifferente ao +movimento politico da aldeia. Pegára-se-lhe a febre +eleitoral. Impedido de votar, auxiliava, porém, os parciaes +do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um dia lembrou um <em>meeting</em>. +O +conselheiro poz-se a rir. <br /> + +<br /> + +―Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que está +tratando? Um +<em>meeting</em>, para quê? Não se +esqueça de ir domingo á igreja +e lá se desenganará por os seus olhos. O +espectaculo não é muito para alegrar, porque +mostra como em geral o nosso paiz está ainda pouco educado +no regimen constitucional. Mas em todo o caso é instructivo. +<br /> + +<br /> + +Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel +Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em +relação ao tempo em que +principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com +que já se podia contar. <br /> + +<br /> + +A eleição, porém, estava muito +arriscada ainda. +<span class="pagenum">[209]</span> +O sr. +Joãozinho das Perdizes devia decidir a contenda. Para onde +se inclinasse o morgado, com todo o peso dos seus comparochianos, +desceria o prato da balança. <br /> + +<br /> + +Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o +menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e +aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte +nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, não se +descuidava de o manter nas disposições hostis +contra o conselheiro. A +todo o momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a +necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma +lição ao conselheiro, com quem Henrique estava +ligado. Depois disse-lhe que o conselheiro se gabava de ter dinheiro +para comprar o morgado e toda a freguezia. <br /> + +<br /> + +O morgado, sob estas e analogas instigações, +praguejava e jurava despejar na urna ministerial o suffragio da sua +freguezia. <br /> + +<br /> + +Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do +governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido +para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que +era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser +representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o +custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa +feição. <br /> + +<br /> + +Logo pela manhã do domingo, marcado para a grande +solemnidade civil, o adro da igreja parochial apresentava uma +animação fóra do +costume. Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se +com desconfiança, ou correspondendo-se por signaes de +intelligencia, conforme pertenciam á mesma ou a opposta +parcialidade. Os agentes eleitoraes, os influentes dos dois campos +acercavam-se d'este, apertavam a mão áquelle, +segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam +<span class="pagenum">[210]</span> +com um terceiro, e, sempre que era +possivel, distribuiam listas ao maior numero. <br /> + +<br /> + +O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava +a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as +mãos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por +entre os grupos, recommendava ordem e respeito ás +auctoridades, e dava de olho aos cabos, seus subordinados, para que se +não esquecessem de cumprir as +instrucções recebidas, votando no candidato +ministerial. <br /> + +<br /> + +Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a +constituição da mesa. O parocho, o administrador +e o regedor foram occupar o seu logar. Ficou presidente o brazileiro, e +o resto da mesa formou-se d'entre as duas parcialidades. <br /> + +<br /> + +Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as +probabilidades da victoria. <br /> + +<br /> + +N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios +do brazileiro, dizia-se: <br /> + +<br /> + +―Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; verão! +<br /> + +<br /> + +―Só a freguezia de Pinchões enche-nos ahi a +urna. <br /> + +<br /> + +―E estará bem seguro o morgado? <br /> + +<br /> + +―O sr. Joãozinho!? Ora! Está de ferro e fogo +contra o conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram +na taberna, e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!... <br /> + +<br /> + +―Não é só por isso. Elle +já estava do nosso lado, desde que soube tinham deitado +abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava succumbido de +todo. <br /> + +<br /> + +―É verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro +d'esta vez. <br /> + +<br /> + +―Quem? O Vicente? Esse sim. Então não sabes que +o pobre velho já se não levanta da cama? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[211]</span> +―Ai, não? <br /> + +<br /> + +―Andava já muito fraco e doente; mas ha tres dias, +sobretudo, tem ido de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi +dizer, aquillo está por pouco tempo: nem deita a semana +fóra. <br /> + +<br /> + +―Coitado! <br /> + +<br /> + +―Ahi vem quem ainda hoje o viu. Não é verdade, +sr. Pertunhas? <br /> + +<br /> + +―O quê, meus amigos, o quê? o que é que +é verdade? o que é que dizem?―perguntou o mestre +de latim, esfregando sempre as mãos. <br /> + +<br /> + +―Não é verdade que o Vicente herbanario +está a ajustar contas? <br /> + +<br /> + +―Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o +coração! Sempre eu digo que uma crueldade assim, +como a do conselheiro! <br /> + +<br /> + +―Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, só +por causa do mal que fez áquelle santo velho. <br /> + +<br /> + +―E com razão. <br /> + +<br /> + +―E então para quê? senhores, para +quê?―continuava Pertunhas.―Para fazer uma estrada em que se +gastam rios de dinheiro, e que a final não presta! Pois eu +passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer, por a casa do +Augusto, que é onde vive agora o Vicente. O rapaz estava +á porta. Então, sr. Augusto, disse-lhe eu, +á urna! vamos +á urna! Elle encolheu os hombros como quem diz: +«bem me importa a mim com isso.» <br /> + +<br /> + +―Ahi está outro, que tambem não +é pelo conselheiro. <br /> + +<br /> + +―Por que não? Pois não é elle todo do +Mosteiro? <br /> + +<br /> + +―Foi, foi―replicou o Pertunhas.―Então vmc.<sup>ê</sup> +não sabe que o conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de +lhe arranjar a demissão, inda por cima o poz fóra +de casa, porque pelos modos o rapaz... fez publicar umas certas +cartas... que compromettiam o homem? A falar verdade, tambem +não foi bonito. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +―Fez elle muito bem. <br /> + +<br /> + +―Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o +povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar +a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o +Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi +então que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem +vossês, outro tanto de magro e outro tanto de velho... Mettia +dó! Poz-se a perguntar-me muitas coisas, o que havia, o que +não havia, por quem estava este, por quem estava aquelle... +Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que fizesse, +já não podia +vencer; que não arranjaria os votos precisos para cobrir a +freguezia de Pinchões. O velho ficou admirado quando eu lhe +disse que o sr. Joãozinho era dos nossos. E lá o +deixei a remoer a noticia. Ao menos resta-me a +consolação de lhe ter +adoçado com ella os ultimos momentos. <br /> + +<br /> + +N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter +com um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer +não sei que eleitor recalcitrante. <br /> + +<br /> + +―Ahi anda este―disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.―Era +bem feito que lhe dessem outra lição, como a da +taberna do Canada. <br /> + +<br /> + +―Ordem, ordem e prudencia!―disse o Pertunhas.―É preciso +manter a liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes! <br /> + +<br /> + +―Mas que tem este senhor com as nossas eleições? +<br /> + +<br /> + +―Quem o manda metter-se cá n'estas coisas? <br /> + +<br /> + +―Ora é boa! Então não sabem que elle +casa no Mosteiro?―disse o Pertunhas, que andava sempre informado das +vidas alheias. <br /> + +<br /> + +―Sim?! <br /> + +<br /> + +―É verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o +Augusto, veio a nós o José Barbeiro, que nos deu +essa novidade, que lh'a dissera o Manoel +<span class="pagenum">[213]</span> +da Quinta, que a ouvira á +Gertrudes, criada do Mosteiro. <br /> + +<br /> + +―Casa com a morgadinha, já se sabe? <br /> + +<br /> + +―Pois vêdes! não que a bolada convida! A mim logo +me farejou isso, quando vi chegar esse figurão cá +á terra. Mas querem vossês saber uma +coisa engraçada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor +não gostou da novidade. <br /> + +<br /> + +―Não? Então por quê?! <br /> + +<br /> + +―Vi-o fazer-se de mil côres quando a ouviu... Pois +ter-se-lhe-ha mettido na cabeça... Hein?! <br /> + +<br /> + +―Tinha graça. Mas olha o milagre!... <br /> + +<br /> + +―Ah! ah!... Este mundo é muito divertido! <br /> + +<br /> + +N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a +olhar para todos os lados, como procurando alguem. <br /> + +<br /> + +―Que temos nós lá, ó sr. +Luiz?―perguntou-lhe o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Onde diabo estão os de Pinchões?―perguntou o +interpellado. <br /> + +<br /> + +-Inda não vieram. <br /> + +<br /> + +―Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles não +apparecem. O morgado é homem para se esquecer a catar os +cães. <br /> + +<br /> + +―Mas vamos nós principiando, e no emtanto elles +virão―disse o Pertunhas, que fôra nomeado para +revezador do secretario da mesa. <br /> + +<br /> + +―Mas a primeira freguezia que vota é justamente a d'elle. O +sr. Seabra está como uma bicha! <br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, o homem voltou para dentro. <br /> + +<br /> + +A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do +beaterio, que pela voz dos padres chamava áquillo artes do +demonio, ia principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais +tarde, de proposito para não formar parte da mesa, requereu, +com o relogio na mão, que se abrisse a urna aos eleitores, +visto ser a hora marcada no edital. <br /> + +<br /> + +Este requerimento, simples e justo como era, suscitou +discussão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[214]</span> +O brazileiro allegou que, sendo os de Pinchões os primeiros +a votar, em virtude do artigo 62.º do decreto eleitoral, que +manda +votar primeiro a freguezia mais distante, e não estando na +assembléa ninguem d'aquella freguezia, convinha esperar. <br /> + +<br /> + +O conselheiro insistiu, dizendo que a lei não mandava +esperar por os eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que +portanto votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas +horas de espera, votariam os ausentes que depois viessem. <br /> + +<br /> + +Esta questão não se resolveu de prompto. Trocados +alguns alvitres, lida a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados +os recenseamentos e mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao +administrador, e ao parocho, é que se approvou a proposta do +conselheiro e principiou a chamada. <br /> + +<br /> + +A freguezia de Pinchões faltou em pêso. <br /> + +<br /> + +O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a +lista dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os +adversarios, e sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em +principiar a votação julgou descobrir +cavillação. Na urna não tinha entrado +uma só lista. Pregoou-se o +ultimo nome dos eleitores de Pinchões. Ninguem ainda! <br /> + +<br /> + +Passou-se a outra freguezia. <br /> + +<br /> + +O brazileiro já não estava em si. <br /> + +<br /> + +Os primeiros votos recolhidos mal os pôde introduzir na urna, +de trémulo e sobresaltado que estava. <br /> + +<br /> + +O homem suppunha que lhe tinha sido roubada á ultima hora +uma freguezia inteira. Não estava muito longe de acreditar +que os agentes do conselheiro a haviam arrasado completamente. <br /> + +<br /> + +A freguezia que se seguia na votação era uma das +que se conservavam fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a +indisposição do Seabra. <br /> + +<br /> + +A votação ia, porém, correndo, +interrompida apenas +<span class="pagenum"><a name="p215">[215]</a></span> +por +algumas questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e +sobre a regularidade d'esta ou d'aquella lista, graças aos +futeis pretextos de que os contendores lançavam +mão para +disputarem, voto a voto, o suffragio popular. <br /> + +<br /> + +Ia adeantada a votação, quando correu na igreja +uma voz, que veio infundir alento no animo desfallecido do brazileiro. <br /> + +<br /> + +-Veem ahi os de Pinchões!... Ahi estão os de +Pinchões... Ahi vem o sr. Joãozinho e toda a sua +gente!―dizia-se de toda a parte. <br /> + +<br /> + +Esta nova passou de bôca em bôca, a ponto de +produzir um sussurro na assembléa. <br /> + +<br /> + +Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados. <br /> + +<br /> + +Chegára de facto alli o sr. Joãozinho das +Perdizes, á frente da sua <a href="#e10">freguezia</a>. +<br /> + +<br /> + +Leitor, se tens, como eu, esperança e sincera fé +no systema representativo, perdôa-me o obrigar-te a assistir +a uma scena que faz subir a côr ao rosto de quem, como +nós, abençôa os +sacrificios por cujo preço nossos paes nos compraram a nobre +regalia de intervir, como povo, na governação do +Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa tutela de um +homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos, contra os +quaes o instincto e a razão igualmente se revoltam. A scena, +porém, humilhante como é, não envolve +a minima censura á excellencia do systema; mas apenas aos +que nos quarenta annos que elle quasi tem de vida entre nós, +não souberam ou não +quizeram ainda fazer comprehender ao povo toda a grandeza da augusta +missão que lhe cabe executar. <br /> + +<br /> + +Depois das nossas luctas civis, já muitas +creanças se fizeram homens; se a escola fôsse +entre nós o que devia ser, já haveria sobra de +eleitores com perfeita consciencia dos seus direitos civis. <br /> + +<br /> + +O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, sómente devem +impellir os homens de intenções sinceras +<span class="pagenum">[216]</span> +e puras a applicar os +esforços de intelligencia e de acção +para ministrar com a +educação a moralidade, e para acordar a +consciencia d'esta entidade social. <br /> + +<br /> + +Era o sr. Joãozinho das Perdizes á frente da sua +freguezia, disse eu. <br /> + +<br /> + +E é justamente este o espectaculo humilhante de que falava. <br /> + +<br /> + +Tendes visto um guardador de cabras á frente do seu rebanho, +conduzindo com acenos e assobios todas as barbudas cabeças +d'aquelle regimento quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da +scena que se presenciava agora no adro da igreja matriz. <br /> + +<br /> + +O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mãos o +sceptro da sua soberania, não era +menos docil do que os irracionaes que recordamos. <br /> + +<br /> + +O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava; +quando podia dispôr dos destinos dos seus senhores, era +quando mais vergava a cabeça sob o pêso que estes +lhe +assentavam. <br /> + +<br /> + +Não é similhante esta fôrça +inconsciente do povo á do boi robusto e válido, +que uma +creança dirige e subjuga? Forte como elle, como elle docil, +como elle laborioso, como elle util, não vê que a +mesma +fôrça que emprega no trabalho lhe poderia servir +para repellir o jugo. Ou quando o vê, é quando o +desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas tremendas. <br /> + +<br /> + +Mas o povo de Pinchões, o povo do sr. Joãozinho, +estava muito longe d'esses excessos. <br /> + +<br /> + +O morgado vinha, como já disse, á frente. <br /> + +<br /> + +A barba por fazer, as melenas despenteadas, o lenço do +pescoço sôlto, sem +botões o collarinho da camisa, com as mãos +mettidas no cós das ceroulas, +o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas +até o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bôca, +o palito atraz da orelha, o chapéo sobre o occiput, dois +galgos adeante de si, e o inseparavel +<span class="pagenum">[217]</span> +Cosme quasi <em>à +latere</em>. Entrou no adro com ares triumphantes, sorrindo e +piscando os olhos para os seus amigos e partidarios, como para lhes +fazer notar a numerosa procissão que o seguia e a docilidade +dos membros d'ella. <br /> + +<br /> + +Atraz vinham os eleitores de Pinchões, velhos e +moços, ricos e pobres, mas todos com o olhar timido e +estupido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no +caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle parava a cumprimentar +um amigo, paravam todos com elle; a direcção que +tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo, +segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se +praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou á +porta da +igreja. <br /> + +<br /> + +O morgado passou revista á sua tropa, á qual deu +instrucções. <br /> + +<br /> + +Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braços +estendidos e a cabeça baixa, +não ousavam fazer um movimento, e conservaram-se +enfileirados até nova ordem do sr. Joãozinho. <br /> + +<br /> + +Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem. <br /> + +<br /> + +No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel +almaço dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de +um homem que elles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, +cada um d'elles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral, +responderia: «presente»; +approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle +papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um +pêso que o opprimia. <br /> + +<br /> + +Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto +que acabavam de executar, não saberiam dizel-o; se lhes +perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e +defensor das suas liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a +resignação do direito de +votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem +<span class="pagenum"><a name="p218">[218]</a></span> +que n'aquelle dia estavam nas suas +mãos e dos seus pares os destinos do paiz, abririam os olhos +de espantados, ou sorririam com a desconfiança propria dos +ignorantes. <br /> + +<br /> + +Innocente povo! <br /> + +<br /> + +Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómmodo +degrau. <br /> + +<br /> + +Quando disseram ao sr. Joãozinho que já tinha +passado a sua vez de votar, o homem rompeu pela igreja dentro, +berrando, bracejando, ameaçando céos e terra, sem +attender a quantos lhe clamavam que tinha de se proceder a nova +chamada, e que portanto socegasse. <br /> + +<br /> + +O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justiças. <br /> + +<br /> + +Custou a serenar o morgado, e não o fez senão +depois de duas pragas contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas +que razões politicas fizeram engulir ao brazileiro, sem nem +sequer lhe tirarem dos labios o sorriso com que saudára a +vinda do morgado. <br /> + +<br /> + +Caindo em si, o sr. Joãozinho deu ordem á sua +gente para que entrasse para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos +lados d'ella, promptos á primeira voz. <br /> + +<br /> + +A chamada proseguia, e a votação não +ia já muito favoravel ao conselheiro, a julgar pelos +indicios, que não escapam aos olhos amestrados dos mirones. <br /> + +<br /> + +O brazileiro exultava comsigo mesmo, <a href="#e11">principalmente</a> +quando, por sobre as cabeças dos que se agrupavam em volta +da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas. <br /> + +<br /> + +O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. +Joãozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este, +porém, grunhiu-lhe um monosyllabo sêcco, e +voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro. <br /> + +<br /> + +Era caso desesperado. <br /> + +<br /> + +Passára já a votar a ultima freguezia, que era +<span class="pagenum">[219]</span> +justamente aquella onde estava +constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo +eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a +nossa narração. <br /> + +<br /> + +Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos +nossos, entre os quaes o Zé P'reira. <br /> + +<br /> + +Com este deu-se um episodio comico, que merece +menção. <br /> + +<br /> + +O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o +parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que +era contra a expressa determinação do artigo +61.º, § +unico, da lei eleitoral. <br /> + +<br /> + +Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi +impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos +do Zé P'reira. +Era uma nódoa de vinho. <br /> + +<br /> + +Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou +não era marca, e se lhe deviam ser applicadas as +disposições do § unico do artigo +61.º.<br /> + +<br /> + +A discussão intrincada foi cortada por o Zé +P'reira, que disse com a maior candura: <br /> + +<br /> + +―Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais +d'aquellas que vocemecê me deu. <br /> + +<br /> + +O proprio conselheiro desatou a rir. <br /> + +<br /> + +O brazileiro resmungou: <br /> + +<br /> + +―Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso? <br /> + +<br /> + +-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que +ouvir―disse o Tapadas, e accrescentou:―ande para deante; deite a sua +lista, sr. Zé. <br /> + +<br /> + +Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista +caiu na urna. <br /> + +<br /> + +Estava a findar a primeira chamada. <br /> + +<br /> + +Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica. <br /> + +<br /> + +A gente de Pinchões, á voz do sr. +Joãozinho, apromptava-se para breve entrar em +acção na segunda chamada, que ia principiar.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[220]</span> +Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do +herbanario, cuja inicial era um V. <br /> + +<br /> + +Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque +a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram +affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, +mancos e paralyticos fôram transportados em cadeiras e em +padiolas até a urna para votarem. Mas a freguezia de +Pinchões ia abafar a eleição +inevitavelmente. <br /> + +<br /> + +O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas +sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de +contentamento. <br /> + +<br /> + +O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario. <br /> + +<br /> + +―Vicente Rodrigues da Fragosa―disse elle, preparando-se já +para voltar o caderno. <br /> + +<br /> + +―Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais +longe―disseram alguns. <br /> + +<br /> + +E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja +uma voz trémula, mas sonora ainda, responder: <br /> + +<br /> + +―Presente. <br /> + +<br /> + +Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra. <br /> + +<br /> + +Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o +velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio. +<br /> + +<br /> + +Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo. <br /> + +<br /> + +Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o +herbanario adeantava-se e trazia já de longe o +braço estendido, segurando a lista que vinha +lançar na urna. <br /> + +<br /> + +Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor, +perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera +erguida do tumulo para responder á voz que a +evocára. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito, +senão com supersticioso terror. <br /> + +<br /> + +Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só +interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o +lagêdo da igreja. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[221]</span> +O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do +vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu +companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo +accusador da sua insensibilidade politica, a +personificação de um remorso pungente, a primeira +apparição de um espectro, +que devia perseguil-o no futuro. <br /> + +<br /> + +Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam +approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á +borda da sepultura. <br /> + +<br /> + +Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, +á chegada de um pobre velho, trémulo e enfermo, +que seguia apoiado ao braço de um pallido mancebo, tinha uma +apparencia profundamente solemne. <br /> + +<br /> + +O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao +herbanario, não teve mão em si, ao +vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não +viesse ao encontro, dizendo commovido: <br /> + +<br /> + +―Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!... <br /> + +<br /> + +O velho fez um gesto energico para afastal-o de si. <br /> + +<br /> + +―Arreda-te!―disse com severidade―deixa-me, serpente, que mordes a +mão do teu bemfeitor! Não me +appareças, que não quero ter-te +na ideia, quando estiver a expirar! <br /> + +<br /> + +O morgado ficou transido de espanto e de +consternação ao ouvir estas palavras. <br /> + +<br /> + +―Ó tio Vicente!...―exclamou, ajuntando as +mãos―pois eu que lhe fiz? <br /> + +<br /> + +―Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar +contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle +a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com +esse remorso: eu não o quero para mim. <br /> + +<br /> + +E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro, +que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e +disse-lhe: <br /> + +<br /> + +―Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> +O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna. <br /> + +<br /> + +Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos +pela assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que +não ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma +expressão singular e no fim estendeu-lhe a mão. O +conselheiro apertou-a nas suas, commovido. <br /> + +<br /> + +―Manoel,―disse-lhe o velho em voz sumida―não me cegava +tanto o resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era +ainda teu amigo. <br /> + +<br /> + +―E sel-o-has sempre, Vicente. <br /> + +<br /> + +―Sempre que o seja... por pouco tempo será―respondeu o +velho, sorrindo tristemente. <br /> + +<br /> + +―Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes? <br /> + +<br /> + +―Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e +outros mais. <br /> + +<br /> + +A physionomia do herbanario transtornára-se +assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a +voz embargava-se-lhe na garganta. <br /> + +<br /> + +―Já não posso...―murmurou +elle.―Queria dizer-te... <br /> + +<br /> + +E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe +ainda: <br /> + +<br /> + +―Era... d'este... Elle é... elle está... <br /> + +<br /> + +Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das +Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra. <br /> + +<br /> + +Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque +estava devéras morto, quando o fôram a erguer. <br /> + +<br /> + +O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, +correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a vêr se +era possivel reanimal-o. Todos, á +excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a +urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[223]</span> +Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis. <br /> + +<br /> + +Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver. <br /> + +<br /> + +Os indifferentes voltaram a continuar a eleição. <br /> + +<br /> + +Ia principiar a segunda chamada. <br /> + +<br /> + +O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, +andava desconsolado por o adro, e só de má +vontade entrou na igreja. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo, +acharam-se sós junto do cadaver. <br /> + +<br /> + +A commoção tirava a Augusto a frieza de animo +para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve +assim um momento em que o conselheiro esteve só com Augusto. +<br /> + +<br /> + +N'aquelle instante o coração do homem politico +era superior ao resentimento. <br /> + +<br /> + +―Augusto―disse elle a meia voz―a morte +não deixou este infeliz completar a ultima +recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu +adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova +offereço-lhe a mão de amigo. <br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, estendia-lhe a mão. <br /> + +<br /> + +Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz +commovida: <br /> + +<br /> + +―A mão que v. ex.<sup>a</sup> me estende +é a +mão do homem que esquece e perdôa as injurias, e +eu não posso ser perdoado, porque me não julgo +criminoso. Desde que uma vez v. ex.<sup>a</sup> formulou a +accusação e se fez juiz, prefiro, a ter de ser +julgado sem provas, uma condemnação a uma +absolvição. Fico mais em paz com o meu orgulho. <br /> + +<br /> + +A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este +curto dialogo. <br /> + +<br /> + +Henrique voltou com os aprestes para a conducção +do cadaver. <br /> + +<br /> + +Augusto acompanhou a casa o herbanario. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco +disposto a permanecer alli. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> +―Fique se quizer―disse elle para Henrique.―Não estou em +estado de receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; +haviam de attribuir a mortificação que estou +sentindo a essa causa, e +eu não lhes quero dar esse gôsto. Vou para casa; +lá me levará a noticia, e não me +dará +grande novidade. Adeus. <br /> + +<br /> + +E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro. <br /> + +<br /> + +Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias +circumstancias que a acompanharam. <br /> + +<br /> + +Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que +o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe +deixára. <br /> + +<br /> + +A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa +que apressára o fim da vida do herbanario, e evitou sempre +que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a +consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto +abstinha-se de se applaudir das suas previsões, infelizmente +realisadas. <br /> + +<br /> + +Passada a primeira commoção, que a +lembrança d'aquella scena produzira, o conselheiro +principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que +se lhe preparava na urna. <br /> + +<br /> + +Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a +affectação era demasiado +transparente, para até nem D. Victoria se illudir. <br /> + +<br /> + +Assim, por exemplo, dizia elle á filha: <br /> + +<br /> + +―Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter +a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, +está-me a appetecer; a vida politica ia-me +cançando já. <br /> + +<br /> + +Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal +simulada satisfação! <br /> + +<br /> + +Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a +apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia +já. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[225]</span> +Áquella hora devia estar a proceder-se na +assembléa ao apuramento de votos. <br /> + +<br /> + +Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados +febris, que só pode conceber quem já alguma vez +soube o que é ter a sorte dependente de uma +votação, e aguardar a cada momento a +noticia do resultado d'ella. <br /> + +<br /> + +Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos +afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se +nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra +ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, +repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio não nos +é mais agradavel; as +apprehensões ganham corpo no meio d'elle; falam os +presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos +labios. A quietação é-nos +tão intoleravel como o movimento. Anciamos sair da +incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova +fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito; +chegamos quasi a querer mal a todos quantos estão assistindo +n'aquelle momento á decisão lenta da sorte. O +nosso egoismo, +exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos +amigos tenham coração para assistir +áquillo; e comtudo não lhes perdoariamos se se +retirassem. Sensações d'aquellas exgotam mais +vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas. <br /> + +<br /> + +O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava +preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que +esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, +os votos de que dispunha? Não ficava, por mais alto que +elevasse o cálculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo +isto era assim, mas o convencimento prévio recusava +estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da +certeza. <br /> + +<br /> + +É um vivedouro sentimento o da esperança! +Não +<span class="pagenum">[226]</span> +succumbe +senão perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam +verde, senão talvez por, como as plantas exuberantes de +seiva, resistir ás +mutilações e renovar os ramos cortados? <br /> + +<br /> + +O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos, +passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, +á espera de +vêr assomar ao portão do pateo um dos seus +partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe +dar o desengano. <br /> + +<br /> + +Apesar de todas as prevenções, o que é +certo é que a nova, quando viesse, feril-o-ia como +imprevista. <br /> + +<br /> + +Sempre assim succede. <br /> + +<br /> + +No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as +direcções por o meio da sala, +ouviu-se a detonação de algumas duzias de +foguetes. <br /> + +<br /> + +O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido. <br /> + +<br /> + +Os corações de Magdalena, de Christina, de D. +Victoria e de Angelo bateram precipitados. <br /> + +<br /> + +A causa estava, emfim, decidida. <br /> + +<br /> + +A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o +nome do vencedor; porém, que dúvida podia haver a +respeito d'elle? <br /> + +<br /> + +O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um +sorriso amargo, disse para a familia: <br /> + +<br /> + +―Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios! <br /> + +<br /> + +―Quem sabe, mano? Ás vezes... <br /> + +<br /> + +Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando +Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou: <br /> + +<br /> + +―Ahi vem um homem a correr a toda a pressa! <br /> + +<br /> + +―A correr?!―disse o conselheiro, em quem esta simples noticia +infundira novo alento a todas as esperanças, e +dissipára a sombra das pesadas +apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[227]</span> +As senhoras seguiram-n'o alli. <br /> + +<br /> + +O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os +silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do +Mosteiro. <br /> + +<br /> + +―Parece o Domingos, o criado do Tapadas...―disse o conselheiro, +affirmando-se. <br /> + +<br /> + +―Mas que pressa elle traz!―notou D. Victoria. <br /> + +<br /> + +―Já nos viu―disse Angelo. <br /> + +<br /> + +―Lá acenou com o chapéo―exclamaram todos. <br /> + +<br /> + +―Que quer elle dizer com aquelles signaes?―tornou o conselheiro, +nervoso. <br /> + +<br /> + +―Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, +mano. <br /> + +<br /> + +―Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a +votação correu? É boa!―disse o +conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer +que lhe descubram uma esperança. <br /> + +<br /> + +Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia +n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros. <br /> + +<br /> + +Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á +espera de o vêr surgir alli. Mal se respirava. <br /> + +<br /> + +―Eil-o―disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle +appareceu. <br /> + +<br /> + +―Viva! sr. conselheiro, viva!―bradou elle de lá, apesar de +esfalfado. <br /> + +<br /> + +O conselheiro teve quasi uma vertigem. <br /> + +<br /> + +―Elle que diz?... Como pode... <br /> + +<br /> + +Não o deixaram continuar as senhoras, que já o +beijavam e abraçavam com frenetico enthusiasmo. <br /> + +<br /> + +Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram +vêr o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela +febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua +felicidade. É que, na occasião da lucta, +não ha +animo tão indifferente a estimulos, que não +abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza +augmenta o ardor com que se esposa a causa; os +<span class="pagenum">[228]</span> +gêlos da indifferença +fundem-se nos momentos +decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a +commoção que esta produz, se se realisa. <br /> + +<br /> + +O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em +vão bradava: <br /> + +<br /> + +―Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha +engano... <br /> + +<br /> + +Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega +alguma vez a sair d'ella. <br /> + +<br /> + +Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou +o tumulto. <br /> + +<br /> + +O conselheiro interrogou o. <br /> + +<br /> + +―Então que dizes tu? Que vivas são esses? <br /> + +<br /> + +―Digo que vencemos―respondeu o moço, usando ingenuamente o +verbo na primeira pessoa do plural. <br /> + +<br /> + +―Estás a sonhar? <br /> + +<br /> + +-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para +lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha +vmc.<sup>ê</sup>... tinha v. s.<sup>a</sup> +mais cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa +uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola... <br /> + +<br /> + +―Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. +Não pode ser! <br /> + +<br /> + +―Cento e cinco! <br /> + +<br /> + +―Estás bem certo no que te disse teu amo? <br /> + +<br /> + +―Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia +mêdo. <br /> + +<br /> + +O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel +aquillo que lhe annunciavam. <br /> + +<br /> + +Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, +ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do +facto. <br /> + +<br /> + +Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente +a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e +atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o +fizesse, uma onda popular, trazendo á frente +a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e +atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da +musica estava +<span class="pagenum">[229]</span> +radiante mestre +Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca! <br /> + +<br /> + +O conselheiro chegou á janella, e então +é que as acclamações fôram +estrondosas. <br /> + +<br /> + +A desafinação da banda chegou a roçar +pelo sublime. <br /> + +<br /> + +O conselheiro agradeceu ao povo aquella +manifestação. <br /> + +<br /> + +Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes +eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa. <br /> + +<br /> + +―Que quer dizer isto?―perguntou o conselheiro, +abraçando-os. <br /> + +<br /> + +―Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem +menos―respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas. <br /> + +<br /> + +―Cento e trinta e cinco―repetiu o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Mas d'onde vieram! <br /> + +<br /> + +―Ora essa é boa! De Pinchões. <br /> + +<br /> + +―De Pinchões―repetiu o Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Como?... Pois o morgado?... <br /> + +<br /> + +―Votou comnosco como um homem. Ora pudéra! <br /> + +<br /> + +―É verdade... votou... comnosco―dizia mestre Pertunhas. <br /> + +<br /> + +―Mas não se viu ainda ha pouco... <br /> + +<br /> + +―Que estavam com metralha inimiga?―concluiu o Tapadas.―Que tem +lá isso? Mas vão +lá á igreja e verão as buxas que +estão pelo +chão. É um destrôço! Parece +a loja de um farrapeiro. <br /> + +<br /> + +―Mas explica-me isso, Tapadas. <br /> + +<br /> + +―Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do +herbanario, que inda que não fôsse +senão por isso deve estar assentadinho no Céo, +deu ao morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, +depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: +«Diabos me levem, que se tivesse aqui listas á +mão, havia de ensinar os tratantes +que me metteram n'esta dança». Vieram-me dizer +isto, +<span class="pagenum">[230]</span> +e eu que, para o que +désse e viesse, sempre levava um sortimento de listas, +cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim +á cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se +senta e abre cadernos, sim, senhores, e se põe tudo em +ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á +nossa moda. Agora se se queria rir, +era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as +listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a +vêl-o enterrar até ás +orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é +que fôram +ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás +cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no +fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia +contra o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para +coroar a festa, á girandola, que aqui o mestre Pertunhas +tinha preparada para elles, pegamos-lhe nós o fogo e, +estourou que foi um gôsto! <br /> + +<br /> + +E o Tapadas terminou com outra gargalhada. <br /> + +<br /> + +O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, +mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se. <br /> + +<br /> + +E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que +estavam proximos: <br /> + +<br /> + +―Este Tapadas tem cada graça! <br /> + +<br /> + +Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario. +Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, +transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe +servira, e salvára-o o elemento que desprezava. Acontece +ás vezes d'isto aos homens que muito calculam. <br /> + +<br /> + +As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as +suas demonstrações de alegria. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas +de familia e das festas populares que se faziam no pateo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[231]</span> +<h4>XXXI </h4> + +<br /> + +A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, não +só pela qualidade de homem que era aquelle, como pelas +circumstancias, no meio das quaes o facto succedêra. <br /> + +<br /> + +O resultado da eleição, comquanto momentoso, +não distraía do assumpto as +attenções; pois que, tendo sido successos +simultaneos, associavam-se naturalmente nas conversas e +discussões, e um chamava o outro. <br /> + +<br /> + +O herbanario não fôra colhido desprevenidamente +pela morte; havia muito tempo que fizera as suas +disposições e por ellas legára a +Augusto tudo quanto possuia, isto é, alguns livros, entre os +quaes a +<em>Polyanthea</em>, e o preço, quasi intacto, +que recebêra pela casa expropriada. <br /> + +<br /> + +Logo que estas disposições fôram +sabidas, não faltou quem achasse n'ellas a +explicação da +amizade desvelada com que Augusto sempre tratára o velho, e +do piedoso acatamento com que o recebêra em casa, assim que +da sua o expelliram. <br /> + +<br /> + +Nós que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos +julgar a fundo do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos +taes juizos. <br /> + +<br /> + +É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé +que se tem no desinteresse dos outros! <br /> + +<br /> + +Não ha explicação mais difficil de ser +recebida do que a que se fundamenta n'um sentimento nobre de +abnegação ou de generosidade. <br /> + +<br /> + +É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para +assim desconfiarmos do proximo. Porque a final o que é +verdade é que a mais exacta e +infallivel sciencia do coração humano +só se +adquire pelo estudo do proprio coração: esse +é o unico que nos +<span class="pagenum">[232]</span> +está +bem patente. É por isso que as melhores +almas são de ordinario as mais crentes. <br /> + +<br /> + +Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra +todas as apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem +já tão inquinado o +coração como suppõe o dos outros. <br /> + +<br /> + +O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi +muito concorrido. <br /> + +<br /> + +Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinação +do fallecido, em campa rasa, e não no tumulo da familia do +Mosteiro, como o conselheiro desejára. <br /> + +<br /> + +Tudo se passou sem o menor signal de opposição. <br /> + +<br /> + +Não se explicam bem estas versatilidades da +opinião publica. Uma medida que hoje ateia uma +revolução, +ámanhã executa-se no meio do indifferentismo +geral, e sem apostolado prévio, sem providencias +repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao +legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia +das leis naturaes. <br /> + +<br /> + +O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do +herbanario, e receberam as visitas de pêsames, que em parte +eram tambem de parabens pelo exito do suffragio popular. <br /> + +<br /> + +Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam +na igreja matriz as badaladas das Avé-Marias, Augusto entrou +no cemiterio, já deserto, e approximou-se lentamente da +sepultura, inda coberta de pouco, como o denunciava a terra revolvida. <br /> + +<br /> + +Elle, cujo coração era decerto o que a morte do +herbanario mais dolorosamente ferira, não recebêra +pêsames de ninguem. Passára a tarde só +com o seu pensamento, o qual, como o leitor prevê, lhe +não devia ser muito jovial companheiro. <br /> + +<br /> + +Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado +pelo ar abatido, revelador de uma profunda +prostração de animo, que lhe quebrára +as fôrças. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[233]</span> +Que era feito d'aquella energia, com que se revoltára contra +as perseguições da sorte, e que lhe +animára os primeiros passos para obter a +justificação devida ao bom credito do nome que +lhe haviam legado sem mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a +luctar, vimol-o repellir nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, +obrigal-o a pedir-lhe perdão; vimol-o recusar o auxilio que +este já lhe +offerecia, e considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle +proprio as provas da sua innocencia. <br /> + +<br /> + +Que é feito d'essa energia? <br /> + +<br /> + +O que é feito d'ella? leitor, talvez o teu +coração te possa responder por mim, se +és uma d'essas victimas, para quem a sorte parece +personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios +lentos. <br /> + +<br /> + +Quando, uns após outros, se repetem os golpes da +adversidade, quando todos os males parece cairem sobre uma existencia, +como uma maldição de Deus, é raro +encontrar-se têmpera de alma +tão rija que resista e não ceda, quasi +convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta com um poder +superior. <br /> + +<br /> + +A razão mais clara deixa-se tomar então da +cegueira do fatalismo, e eivado d'esta grave doença +dissipa-se a fortaleza do espirito, como se extinguem as +fôrças do corpo, quando gira no sangue um +veneno enervador. <br /> + +<br /> + +Então encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a +que é tão sujeita a natureza humana; sente-se uma +especie de gôso em succumbir sem lucta. Experimenta-se, por +assim dizer, o orgulho da extrema infelicidade. <br /> + +<br /> + +Em poucos dias Augusto conheceu as maiores +provações da vida: a miseria em perspectiva, a +ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que +ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com +dignidade o insulto e a calumnia: sorrira +<span class="pagenum">[234]</span> +á miseria e á +ingratidão, e dera +á amizade as consolações que a amizade +lhe inspirára. <br /> + +<br /> + +Mas não desfallecêra com tudo isto. <br /> + +<br /> + +Maior provação lhe estava reservada, porque ha +maiores provações para a alma humana, do que +todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de subito a estrella que a +guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia, dormindo no meio de uma +desencantada realidade; privae-a da ideia querida, que havia muito +concebêra, que comsigo vivia, que para si guardava, ciosa dos +olhares extranhos, e vêl-a-heis desnorteada, perdida, louca, +contorcer-se em desespero e succumbir. <br /> + +<br /> + +Se resiste e sobrevive, se não desfallece, nem vacilla, +é porque é de essencia mais elevada do que a +humana. <br /> + +<br /> + +Ás vezes aquella ideia era tão irrealisavel, +aquelle sonho tão chimerico, que a pobre devia estar +prevenida para o perder um dia, e julgou que o estava. <br /> + +<br /> + +Mas illudira-se. Se nos dermos de coração a uma +chimera, se ella, nas fórmas vagas e aereas que reveste, nos +sorrir e namorar, em vão julgamos têl-a por o que +verdadeiramente é; ha sempre um ou outro momento em que a +acreditamos realisavel e até realisada. <br /> + +<br /> + +E, ao convencermo-nos devéras da sua impossibilidade, +sentimos a dor profunda que nos causa a perda de um objecto querido. <br /> + +<br /> + +Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes +vestiam a fórma humana, assim o impossivel, quando nos +apaixonamos d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a +feição da +realidade aos nossos olhos namorados. <br /> + +<br /> + +E ao revelar-se como impossivel, destróe o +coração que o abraça, como Jupiter +sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua gloria +de deus. <br /> + +<br /> + +Qual fôsse a ideia constante, o pensamento recatado de +Augusto, sabem-n'o os leitores: era o amor +<span class="pagenum">[235]</span> +de Magdalena. A natureza d'esta +paixão dizia elle conhecel-a. Não tinha outra +aspiração +além de existir, era como o culto pela Virgem do +Christianismo, era que se adora por adorar, em que na mesma +adoração se acha o premio do culto, em que o +deixar-se adorar é o mais que pode pedir-se ao objecto +d'elle. <br /> + +<br /> + +De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto. <br /> + +<br /> + +Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique, +sentiu quasi aversão para elle? por que foi que, amavel e +bondoso para com todos, só para com um desconhecido se +mostrou frio e irritante? por que foi emfim que, ao persuadir-se, por +certos indicios, de que Magdalena e Henrique se amavam, caiu no +desalento, em que tantas causas de infortunio o não tinham +lançado ainda? Porque a verdade era que foi este o golpe que +o venceu. <br /> + +<br /> + +Por quê? porque amava Magdalena, porque este amor +não tinha nada excepcional; era inconscientemente +apprehensivo, ambicioso, devaneador e ciumento, como todos os amores +verdadeiros; porque era aquelle o seu sonho mais querido, e desde que +era obrigado a convencer-se de que não passára de +um sonho, não se sentia de animo para fitar a realidade; +porque era aquella a luz da sua alma, e ao vêl-a apagar, +vacillou nas trevas e parou. Desde que não avistava um alvo, +não havia para elle +retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que não +valia mais do que a +quietação. <br /> + +<br /> + +Esta fôra a causa do desalento de Augusto, que só +então conheceu que se illudira com o estado do +seu coração, que o que em si se passava era o +verdadeiro amor. <br /> + +<br /> + +Desde que teve de renunciar a elle, não fez mais um +esforço para justificar-se da calumnia que pesava sobre si. +Sentia-se indifferente á +condemnação do mundo. Já nem lhe +importava justificar-se para +<span class="pagenum">[236]</span> +com Magdalena; era quasi uma vingança, que tirava d'aquella +por quem soffria, obrigal-a a ser injusta. <br /> + +<br /> + +E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto! <br /> + +<br /> + +O herbanario fôra victima da mesma illusão de +Augusto, e concorrêra involuntariamente para o levar a este +estado moral. <br /> + +<br /> + +Das explicações dadas por Magdalena na casa dos +Cannaviaes, sabemos como das meias palavras e meias +revelações de Torquato, o herbanario +acreditára que a morgadinha combinára +imprudentemente com Henrique uma visita nocturna á quinta +dos Cannaviaes. O velho, que suspeitára sempre da natureza +dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vêr +n'aquillo a +confirmação das suas suspeitas, e encontrando +Magdalena, reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a +quiz. <br /> + +<br /> + +Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dúvida, +se deveria ou não revelar tudo a Augusto. <br /> + +<br /> + +A noite cerrou de todo e deslizou com a lentidão de uma +noite de inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia +seguinte passou-o na mesma indecisão. Mas a +inquietação do +herbanario crescia; desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha +exposta Magdalena, cuja confiança em Henrique a podia +perder. <br /> + +<br /> + +O herbanario continuava a desconfiar de Henrique. <br /> + +<br /> + +Chegára a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com +uma das meninas de visitar á meia noite, por causa de +Henrique, a casa dos Cannaviaes. O velho não pôde +mais tempo conter-se e disse a Augusto, depois de muito luctar comsigo: +<br /> + +<br /> + +―Não devo calar-me. É preciso coragem, meu +filho. Arranca do coração a loucura que +lá tens ainda, embora o deixes em sangue, ou +estás perdido. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[237]</span> +Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto. <br /> + +<br /> + +O velho proseguiu: <br /> + +<br /> + +―Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que +vires te não curar, se +é sem remedio esse mal, ao menos sê generoso, e +acode e salva, se fôr possivel, quem, perdendo-te, se perde +tambem. <br /> + +<br /> + +E após estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto +tremeu de investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma +noite, recommendando-lhe que fôsse preparado para receber uma +grande dor. <br /> + +<br /> + +Augusto seguiu as indicações do herbanario, e +foi. <br /> + +<br /> + +Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da +piedosa devoção de Christina, a vimos chegar +á janella dos Cannaviaes. <br /> + +<br /> + +A morgadinha reconhecêra Augusto através das +sombras nocturnas, e tivera um presentimento do que significava a +presença d'elle n'aquelle logar e n'aquella +occasião. <br /> + +<br /> + +Por concentrada e discreta que fôsse a paixão de +Augusto, não era um mysterio para Magdalena. <br /> + +<br /> + +A extranhar alguem esta penetração de vista +não será decerto nenhuma das minhas leitoras. <br /> + +<br /> + +Magdalena adivinhára havia muito Augusto, e não +lhe fôra difficil explicar até a instinctiva +hostilidade com que elle sempre acolhêra Henrique. <br /> + +<br /> + +Por isso, ao vêl-o alli, previu que pesava sôbre +ella uma suspeita, que era victima de uma illusão, e que as +apparencias a podiam condemnar. <br /> + +<br /> + +De feito Augusto chegára tarde aos Cannaviaes, porque +só tarde o herbanario vencêra a +hesitação que experimentára ao +dizer-lhe que fôsse. Por isso +só pôde reconhecer a voz e a figura da morgadinha +e de Henrique no curto dialogo, que entre os dois se +trocára, quando vieram examinar á janella o +estado da noite. <br /> + +<br /> + +As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas +<span class="pagenum">[238]</span> +de uma maneira cruel para o +seu +coração. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais +querer vêr nem ouvir, retirou-se como um louco. <br /> + +<br /> + +Foi n'essa occasião que Magdalena o viu. <br /> + +<br /> + +Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava, +viu-o pallido, e com uma expressão singular no rosto. <br /> + +<br /> + +―Então?―interrogou-o anciosamente o velho. <br /> + +<br /> + +―Tinha razão, tio Vicente. Tem sido uma longa e +má loucura a minha. Verei se me curo d'ella. <br /> + +<br /> + +E, sentando-se, encostou a cabeça ás +mãos e permaneceu silencioso. <br /> + +<br /> + +O velho não lhe perguntou o que se tinha passado. <br /> + +<br /> + +D'ahi em deante foi em rapido progresso a +prostração de animo em Augusto. <br /> + +<br /> + +A doença do herbanario que se exacerbou consideravelmente +tambem, era o unico motivo de uma fôrça ficticia +que ainda o sustentava. Os seus +desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes. <br /> + +<br /> + +A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a +do cirurgião que tratava do herbanario. <br /> + +<br /> + +Falador por indole e por cálculo profissional, o facultativo +contava á cabeceira do leito as novidades do dia. Entre +essas trouxe uma das que mais vogavam, que era a de que Henrique casava +no Mosteiro com a morgadinha. <br /> + +<br /> + +Um equivoco dizer do Torquato, na presença dos criados do +mosteiro, uma das meias discreções do velho, mais +perigosas do que a propria +indiscreção originára esta +versão. <br /> + +<br /> + +Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, +que o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto +impassivel. <br /> + +<br /> + +No dia das eleições, o estado do velho Vicente +era mais grave ainda. O cirurgião prolongou a sua visita e +falou da campanha eleitoral. Assegurou que era certa a derrota do +conselheiro, desde que contra elle se manifestára o sr. +Joãozinho das Perdizes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[239]</span> +O herbanario escutou-o com admiração e +sobresalto. <br /> + +<br /> + +Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma +predilecção que a tudo +sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o affecto que alguns +paes sentem pelos filhos, de quem só teem recebido +desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais +motivos ha para a esfriar. <br /> + +<br /> + +Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo. +<br /> + +<br /> + +Foi então que o herbanario, dominado por energia febril, +quiz erguer-se do leito, e, apoiado no braço de Augusto, que +em vão tentou dissuadil-o, se dirigiu á igreja +para votar. O resultado sabem-n'o os leitores. <br /> + +<br /> + +Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar +o alento a Augusto. Facil é, pois, de conceber qual o estado +do seu espirito ao entrar no cemiterio. <br /> + +<br /> + +Oração ou meditação, por +muito tempo durou aquelle tributo de saudade, que o aspecto sombrio da +tarde e a melancolia do logar e da hora mais solemne faziam. <br /> + +<br /> + +Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava +d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do +tumulo da filha. <br /> + +<br /> + +Não era o Cancella já o mesmo robusto e alegre +aldeão que vimos, dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado +rustico, representar com applauso o tyranno perseguidor do Messias. +Desde a morte da filha parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, +nem tinha fôrças para o trabalho, nem +coração para alegrias. <br /> + +<br /> + +Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o +que se movia alli. <br /> + +<br /> + +―Ah! logo vi que era o sr. Augusto―disse o pobre homem, estendendo a +mão, que Augusto apertou com affecto.―Só +nós temos amigos aqui. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[240]</span> +―É verdade, Cancella. Ou só nós, +fóra d'aqui, não temos outros, pelos quaes +esqueçamos estes, que ahi dormem. <br /> + +<br /> + +―Eu decerto que não! Está-me toda a alegria, +está-me todo o coração debaixo +d'aquella pedra―disse o Herodes, apontando para o tumulo da +filha.―Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar? <br /> + +<br /> + +―Ha quem aos vinte já não tenha coragem para +principiar outra! <br /> + +<br /> + +O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras. <br /> + +<br /> + +―Fala de si, sr. Augusto?... Não tem razão. Que +são as suas dores ao lado da minha? Se ainda não +experimentou o amor e as alegrias de pae, como ha de imaginar a dor, +que a morte de uma filha unica nos traz ao +coração?... A minha pobre +Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o têl-a +perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com +razão, que era seu amigo e quasi um pae para si... mas +não é sem remedio a sua saudade, +verá... A minha porém... <br /> + +<br /> + +Augusto sorriu amargamente. <br /> + +<br /> + +―Tu sabes lá, homem, o que eu tenho no +coração? <br /> + +<br /> + +N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de +acclamações e applausos. Eram os clamores dos +grupos populares, celebrando a victoria do conselheiro. <br /> + +<br /> + +Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais. <br /> + +<br /> + +―Uns riem, emquanto outros choram―disse o Cancella.―Ha alegria +acolá. <br /> + +<br /> + +E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli. <br /> + +<br /> + +―Ha...―respondeu Augusto, pensativo.―Somos de mais n'esta terra, meu +pobre Cancella; nós, os infelizes. <br /> + +<br /> + +―Por isso parto ámanhã. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[241]</span> +―Partes? <br /> + +<br /> + +―Se eu não posso viver aqui! Se tudo isto me +está falando na filha!... A cada passo estou á +espera de vêl-a... É como se a todo o instante me +morresse. Vou para a cidade; dizem que estão engajando por +lá trabalhadores para o Brazil... Quero vêr se o +trabalho me mata, antes que o desgôsto me não +tente a morrer de outra sorte. <br /> + +<br /> + +―E dizes que partes ámanhã? <br /> + +<br /> + +―De madrugada. Já tenho tudo prompto. <br /> + +<br /> + +Augusto reflectiu por algum tempo. <br /> + +<br /> + +―Far-te-hei companhia. <br /> + +<br /> + +O Herodes olhou-o, admirado. <br /> + +<br /> + +―O sr. Augusto?! Pois quer?... <br /> + +<br /> + +―Quero que me batas á porta, quando passares. <br /> + +<br /> + +―Mas que tenções são as suas, sr. +Augusto? <br /> + +<br /> + +―As mesmas talvez que as tuas. Não dizes,que queres +vêr se o trabalho te mata? Por que não hei de eu +tentar o mesmo tambem? <br /> + +<br /> + +―Mas... não lhe morreu uma filha. <br /> + +<br /> + +―E cuidas tu que só um amor de filha nos pode prender +á vida? que só a morte de uma +creança nos pode ferir no coração?... <br /> + +<br /> + +O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois +disse, com hesitação ainda: <br /> + +<br /> + +―Não é por certo a morte d'este santo velho que +o faz falar assim, sr. Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez +que lhe fizesse bem. Bem vê que eu sou infeliz e... havia de +entendel-o... <br /> + +<br /> + +Augusto apertou-lhe a mão, commovido. <br /> + +<br /> + +―Pobre amigo! Não, não me entenderias; porque +não basta ser infeliz para me entender. É +necessario ter sido louco como eu fui. <br /> + +<br /> + +―Louco?!... <br /> + +<br /> + +―Sim, louco, meu bom Cancella, louco. Não te lembras +d'aquelle desgraçado do Pé do Monte, que se +suppunha rei? Como ria n'aquelle tempo! Um +<span class="pagenum">[242]</span> +dia voltou-lhe o juizo, mas ficou +tão triste até +morrer, que parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe +devesse os unicos instantes de felicidade que sentiu na vida. <br /> + +<br /> + +O Herodes já não comprehendia Augusto, o que lhe +fez crêr que o não entenderia se elle o +tomasse por confidente. <br /> + +<br /> + +Augusto mudou de tom, dizendo-lhe: <br /> + +<br /> + +―Promettes passar por minha casa esta madrugada? <br /> + +<br /> + +―Pois sempre quer?... <br /> + +<br /> + +―Se não partir comtigo, partirei só. <br /> + +<br /> + +―N'esse caso... <br /> + +<br /> + +―Espero-te. Aonde vaes agora? <br /> + +<br /> + +―Ao Mosteiro. <br /> + +<br /> + +―Ah!... vaes ao Mosteiro?... <br /> + +<br /> + +―Vou despedir-me d'aquella santa familia, que tão bem me +tratou da filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se +não consolou tambem da morte da minha pobre Linda. <br /> + +<br /> + +―Angelo?... É um nobre coração... +Espera... Não quero partir sem lhe dirigir +algumas palavras... Devo-lh'as. <br /> + +<br /> + +―Só a elle? <br /> + +<br /> + +―Só elle m'as agradecerá. <br /> + +<br /> + +E Augusto approximou-se do tumulo da mãe de Magdalena, e +á frouxa claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em +um quarto de papel estas palavras: <br /> + +<br /> + +<br /> + +«Angelo.―Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que +repousam sua mãe e Ermelinda, duas imagens que +serão sempre para o seu coração +rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ouça-me, que em +nome d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre +estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as sombras +de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem custo. +Não o tornando talvez a vêr, Angelo, tinha um +dever +<span class="pagenum">[243]</span> +a cumprir para com a +sua generosidade. Hão de ensinal-o a desprezar-me, Angelo. O +seu nobre instincto de creança recusar-se-ha a isso ao +principio talvez: mas a razão do adolescente talvez venha a +ser mais docil. Não podendo justificar-me, deixe-me ao menos +jurar-lhe que parto com a consciencia tranquilla. Não +é por mim que faço +este protesto, é para lhe evitar, se fôr +possivel, a +dúvida no caracter dos homens. Para um +coração, como eu lhe +conheço, deve ser um martyrio. Os mais que me condemnem; nem +necessidade sinto já de me justificar. Parto com um +desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo +acceito com +indifferença.―Seu amigo, <em>Augusto</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora +a que deviam encontrar-se, separaram-se. <br /> + +<br /> + +O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que +ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento. +<br /> + +<br /> + +Não pôde, porém, chegar tão +depressa ao Mosteiro como esperava; distrahiu-o no caminho o seu +compadre Zé P'reira. <br /> + +<br /> + +A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso +Zé P'reira, estava cada vez mais transtornada. <br /> + +<br /> + +A beatice azedára o animo da sr.<sup>a</sup> +Catharina do Nascimento +de S. João Baptista. <br /> + +<br /> + +A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro +na terra depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com +quem elle imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle +santo varão do prestigio dos martyres perseguidos; e as +saudades por elle e devoção pela sua memoria +augmentaram consideravelmente na aldeia. <br /> + +<br /> + +Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia +Zé P'reira, peor se tornou depois d'essa época. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[244]</span> +A mulher passava todo o tempo em devoções na +igreja. O marido, desconsolado, procurava lenitivo na taberna. <br /> + +<br /> + +Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado +habitual, e já menos inoffensiva e pacifica do que nos +primeiros tempos. <br /> + +<br /> + +A miseria ameaçava invadir aquelle lar, até alli +remediado. <br /> + +<br /> + +Tudo isto exacerbára a acrimonia das discussões +conjugaes. <br /> + +<br /> + +Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e +attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal. <br /> + +<br /> + +De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais +ameaçadora. <br /> + +<br /> + +Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais além do que +a sua timidez habitual o permittira +até alli, e a sr.<sup>a</sup> Catharina soube, +pela primeira vez, que +o osso de que ella era osso não tinha a brandura que lhe +suspeitava. <br /> + +<br /> + +Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhança. +D'ahi por deante fôram frequentes iguaes espectaculos. <br /> + +<br /> + +Na noite em que o Herodes o encontrou, o Zé P'reira, em +completa embriaguez, acabára de fazer sentir mais uma vez a +sua mulher toda a fôrça da auctoridade marital. +Ella revoltou-se e abandonou os penates, jurando que nunca mais +voltaria a elles. <br /> + +<br /> + +O pobre do homem andava agora perdido nas ruas á procura +d'ella, arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia +dó. O Cancella condoeu-se d'elle, e dando-lhe o +braço, para lhe firmar os passos cambaleantes, conduziu-o a +casa, promettendo restituir-lhe a mulher fugida. <br /> + +<br /> + +E n'esta tarefa de reconciliação passou grande +parte da noite, conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de +que não seria muito duradoura a paz. <br /> + +<br /> + +E tinha razão o Cancella em pensar assim. Ao +<span class="pagenum">[245]</span> +lar domestico, onde uma vez se passa uma +scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia. <br /> + +<br /> + +O pobre do Zé P'reira estava condemnado a levar assim o +resto da sua vida de familia. <br /> + +<br /> + +Esta occorrencia demorou o Herodes, que só tarde entrou no +Mosteiro a despedir-se da familia que tanto lhe estimára a +filha. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXXII </h4> + +<br /> + +Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada +á insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na +aldeia, não porque os preparativos da jornada lhe impedissem +o repouso, mas a lucta de tantos pensamentos e paixões +encontradas, decerto lhe disputaria o espirito. <br /> + +<br /> + +Partir é já uma palavra, que quasi nunca se +pronuncia com indifferença; partir para não +voltar +é uma ideia afflictiva, que mais violenta +commoção desafia; partir sem +esperanças no futuro... poucas torturas de alma se podem +comparar a esta! <br /> + +<br /> + +Experimentava-a Augusto. <br /> + +<br /> + +Era quasi uma resolução de suicida a sua. Nenhuma +ambição tivera poder sobre elle para o arrancar +d'alli; tivera-o o desespero. <br /> + +<br /> + +A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os +olhos fitos na chamma da véla, com a cabeça entre +as mãos, sem +saber em que pensava, sem consciencia de si. <br /> + +<br /> + +A noite estava socegada, e apenas o som monótono de uma +fonte proxima interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas. <br /> + +<br /> + +Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se +costuma ler em situações +identicas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[246]</span> +Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os +seus movimentos uma indecisão, uma falta de consciencia, que +não deixava dúvidas sobre o estado do animo que +os regia. <br /> + +<br /> + +Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as +suas acções; e no meio do cumprimento de uma +tenção, perdia a +consciencia d'ella. <br /> + +<br /> + +Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria +comsigo; mas cêdo afastava-o de si com enfado. <br /> + +<br /> + +Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de +passados devaneios, effusão de uma alma sensivel, fructos da +juventude e da solidão, a que a primeira +inspirára o enthusiasmo, e a segunda a melancolia, tudo +consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a chamma, desapparecerem +as lettras, reduzir-se tudo a cinzas. <br /> + +<br /> + +Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em +algumas de Magdalena. O sobresalto do seu +coração, ao ler aquelle nome, +era então mais violento que nunca. <br /> + +<br /> + +N'estas pesquizas veio-lhe ás mãos um pequeno +masso, que pertencêra ao herbanario. <br /> + +<br /> + +Ia para as queimar tambem, quando a inscripção, +que viu por fóra da cinta que as enfeixava, o fez hesitar. <br /> + +<br /> + +Liam-se estas palavras:―<em>Cartas de +Magdalena</em>. <br /> + +<br /> + +Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma +tentação. <br /> + +<br /> + +Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que +já tinha renunciado; era entrar em communhão de +pensamentos com ella, e infeliz de quem não concebe a casta +voluptuosidade d'este gôso. <br /> + +<br /> + +Mas ao mesmo tempo hesitava. <br /> + +<br /> + +Pertencia-lhe tambem aquelle legado? Não seria um abuso +lel-as? Devia antes queimal-as, mas... +<span class="pagenum">[247]</span> +eram cartas de Magdalena. E depois, que +mal poderia vir da indiscreção? Não +tinha elle um +coração que não devia abrir-se mais a +ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o quasi em um +tumulo. <br /> + +<br /> + +E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente? <br /> + +<br /> + +De que se poderia tratar alli, a não ser de algum affectuoso +cumprimento da morgadinha ao velho, que sempre tratára com +intima familiaridade, ou algumas meigas reprehensões por a +sua porfiada ausencia do Mosteiro? <br /> + +<br /> + +Augusto recordava-se até do velho lhe ter falado na indole +d'estas cartas. <br /> + +<br /> + +Nas vesperas de renunciar para sempre á felicidade, devia-se +perdoar a tentação. <br /> + +<br /> + +Abriu-as. <br /> + +<br /> + +Não ia muito adeantado na leitura, quando já +todos os signaes de hesitação cediam o logar aos +da mais irreprimivel avidez. E terminada a primeira, abriu, leu ou +devorou outra, e após outra e outra, até a +ultima; da ultima voltava de novo á +primeira, e cada vez mais profunda commoção +parecia +dominal-o. <br /> + +<br /> + +Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de +todas. <br /> + +<br /> + +Dizia uma: <br /> + +<br /> + +<br /> + +«Meu bom amigo.―Hontem, depois que nos +separámos, +recebi de Lisboa a encommenda que esperava. O +Angelo não se esqueceu. +Mando-lh'a, para que mais uma vez faça de feiticeiro, +<em>adivinhando</em> os gostos do seu amigo. <br /> + +<br /> + +«Afianço-lhe que vae acertar com os desejos +d'elle. Ha tempos que o vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, +procurar de preferencia na estante os livros de historia franceza. +Custa-me a perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a +Revolução, mas emfim seja feita a sua vontade. +Escuso +<span class="pagenum"><a name="p248">[248]</a></span> +de lhe +recommendar discreção. E, quando nos +virmos, peço-lhe que me não torne a falar nos +laços em que diz que eu estou a prender o +coração. Mette-me mêdo.―Sua amiga, +<em>Lena</em>.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam: <br /> + +<br /> + +<br /> + +«Meu amigo.―Hontem <a href="#e12">separámo-nos</a> +de tão mau humor, que hoje +acordei com remorsos, e não pude socegar emquanto lhe +não escrevi para lhe pedir perdão. Espero que +perdoará a este rebelde genio que tenho. <br /> + +<br /> + +«Mas tambem para que me está sempre a ralhar? +Não se assuste pelo meu coração; o +maior perigo que o tio Vicente receia para elle, faz-me +sorrir.―É o de me apaixonar?―Então que tinha? +Não sonhe com nuvens, e vá representando o seu +papel de <em>adivinho</em>, que é uma +generosa acção que pratica.―Sua arrependida +inimiga, +<em>Lena</em>.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +«Meu bom tio.―Ahi vão uns livros, de que eu +não entendo nada. Augusto falou d'elles ao filho do +administrador, que veio de Coimbra. Conheci n'elle desejos de +possuil-os. Tomei nota. O Angelo remetteu-m'os hontem. Para Augusto +não desconfiar, finja atraiçoar um pouco o +mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, já nada +digo.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +A de mais recente data dizia apenas: <br /> + +<br /> + +<br /> + +«Tio Vicente.―Pensei no que me disse do estado do +coração do seu... do nosso amigo. Parece-me que +exaggera. Mas, se fôsse verdade, podia tranquillisar-se. Eu +lhe afianço que d'ahi nunca para elle virá a +infelicidade. No entretanto, +discreção por ora.―Sua affeiçoada +sobrinha, +<em>Magdalena</em>.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +Por a amostra, que lhe damos, o leitor não deve +<span class="pagenum">[249]</span> +estranhar que estas cartas estivessem +causando a Augusto o effeito que dissemos. <br /> + +<br /> + +Cada uma era uma revelação. <br /> + +<br /> + +Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha; +d'ella lhe viera pois grande parte da instrucção +que recebera, alli, na +solidão d'aquella aldeia! <br /> + +<br /> + +O mysterio dos presentes do herbanario, a que tão diversas +explicações dera, +esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; +suspeitára, pelo menos, que era a elle que o herbanario se +dirigia para escolher os livros. <br /> + +<br /> + +Nunca, porém, se lembrára de Magdalena; agora, +que sabia de que origem provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, +venerava-os com expansões de verdadeira idolatria. +Já não tinha +coração para se separar d'elles. <br /> + +<br /> + +Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos +cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella +por Augusto, não havia para elle menor encanto. Pelo que +tantas vezes lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza +deviam ser as reflexões a que Magdalena alludia. <br /> + +<br /> + +O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois +corações, estudando-os a ambos, receiando por +ambos, lidando por extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer +e que ameaçava degenerar em paixão. Toda a sua +intervenção consistia em fazer com que elles se +não revelassem; era o meio isolador que impedia que se +ateasse o incendio. Nas suas mãos paravam os dois fios da +corrente, só elle a interrompia. <br /> + +<br /> + +Esta situação do herbanario era para elle causa +de grandes iuctas. <br /> + +<br /> + +Amando Augusto com sentimento paterno, tinha +ambições por o amigo; e, ás vezes, +movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella +paixão. Por outro lado, não estimava menos +Magdalena, e prevendo +<span class="pagenum">[250]</span> +as +resistencias e repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos +a soffrer, hesitava e desejava poder abafar no +coração dos dois os +germens de pesares futuros. <br /> + +<br /> + +Tivemos occasião de o vêr sob estas diversos +impressões. Umas vezes reprehendendo Augusto, outras quasi +deixando-lhe entrever esperanças. A chegada de Henrique de +Souzellas e os successos subsequentes despertaram no velho uma especie +de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de Augusto. <br /> + +<br /> + +Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto. <br /> + +<br /> + +Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao +coração, e tão enlevado estava pelo +perfume do affecto que rescendia de todas, que nem se lembrava +já da hora proxima da partida do motivo que a +originára. Motivo que era o desmentido da sua +illusão. <br /> + +<br /> + +Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impressão que +produziu foi dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as +lagrimas aos olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os +braços, e assim permaneceu por muito tempo. <br /> + +<br /> + +Depois levantou a cabeça n'um impeto de +desesperação, exclamando: <br /> + +<br /> + +―Para que me haviam de vir á mão estas cartas? +Que espirito diabolico se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um +anjo me acompanhava com a sua vista protectora só quando +elle me vae deixar para sempre! E dizia ella que me não +podia vir o infortunio d'aqui!... Não contava com as +mudanças +do proprio coração. <br /> + +<br /> + +Na vidraça da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram +algumas leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer. <br /> + +<br /> + +―O Cancella já?... É pois certo que vou partir? <br /> + +<br /> + +Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe +<span class="pagenum">[251]</span> +como os do condemnado ao caminhar +para o supplicio. <br /> + +<br /> + +Chegára o momento de romper com todas as +esperanças. <br /> + +<br /> + +―Estou prompto―disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, +sem reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis +que tinha dispersos na mesa. <br /> + +<br /> + +―Cuidei que era mais cêdo―continuou elle.―Distrahi-me a +ler umas cartas que estive a pôr em ordem, e o tempo correu. +Vamos lá, meu pobre amigo, deixemos esta terra para os +venturosos. <br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia +estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e +Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico +sorriso. <br /> + +<br /> + +Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito +em Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda +contemplação. <br /> + +<br /> + +Magdalena foi a primeira que falou. <br /> + +<br /> + +―Admira-se de nos vêr aqui?―disse ella.―Que ha de mais +natural? Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o +mesmo pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe +deviamos... visto que vae partir. <br /> + +<br /> + +E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de +recriminação, que feriu +Augusto. <br /> + +<br /> + +―E é certo que quer partir?―perguntou Angelo. <br /> + +<br /> + +―Sim... parto...―respondeu Augusto, perturbado. <br /> + +<br /> + +―Mas por quê? Que significa essa +resolução? Lena contou-me ha pouco tudo. Eu nada +sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame, e em nossa +casa! Mas, já resolvemos; +ámanhã, eu e Lena, havemos de falar, havemos de +conseguir... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[252]</span> +―Não, Angelo. É inutil. Deixe-me com +o meu destino. É a elle que eu obedeço. <br /> + +<br /> + +―Não fala verdade,―acudiu a morgadinha―diga que obedece +á sua phantasia, e commette uma ingratidão. <br /> + +<br /> + +Á palavra «ingratidão», +Augusto não pôde reprimir um sorriso de amargura. <br /> + +<br /> + +―Uma ingratidão, sim―repetiu Magdalena, respondendo com +firmeza e serenidade áquelle sorriso.―Ha dias, depois de +uma scena dolorosa para todos nós, quando saía do +Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel fatalidade, encontrou +alguem no limiar da porta, que lhe pediu que não partisse +sem se despedir... de quem através de tudo, o acreditaria +innocente. E para esta pessoa não houve uma só +palavra na carta de despedida que mandou a meu irmão! E +escreveu-a sobre o tumulo de minha mãe! <br /> + +<br /> + +Estas palavras fôram ditas com tão sentida +commoção, que Augusto esteve quasi a +lançar-se-lhe aos pés, para pedir +perdão; reteve-se, +porém, e respondeu turbamente: <br /> + +<br /> + +―Porém, minha senhora, por essa occasião eu +jurei tambem á pessoa de quem fala, e a +quem serei sempre grato, que não procuraria tornar a +vêl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de +todos digno da sua generosa confiança. <br /> + +<br /> + +―Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser +visto?―perguntou Magdalena, sorrindo.―Veja qual d'esses juramentos +será mais em harmonia com os seus actos. <br /> + +<br /> + +A lembrança da excursão nocturna aos Cannaviaes, +para espiar Magdalena, tirou a Augusto o animo de responder. <br /> + +<br /> + +Magdalena comprehendeu aquelle embaraço, e não +insistiu. <br /> + +<br /> + +―Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as +provas da sua justificação? <br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora, parto, porque desisto +<span class="pagenum">[253]</span> +d'ella. Basta-me estar justificado para +com a consciencia. <br /> + +<br /> + +―Não tem direito para o fazer. Uma alma, que é +nobre, deve homenagem a si propria. Resignar-se á suspeita, +é como um suicidio moral. <br /> + +<br /> + +―Justamente, minha senhora; e não concebe que +haja casos em que o suicidio seja natural? <br /> + +<br /> + +―Meu Deus, Augusto―exclamou Angelo―como eu o estranho! o que o levou +a esse desespero? <br /> + +<br /> + +A morgadinha sorria, ao responder ao irmão: <br /> + +<br /> + +―É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale +com franqueza, sr. Augusto? Tenho um secreto presentimento a +dizer-me que, apesar d'essa descrença, apesar d'essa carta, +e apesar de estar por minutos o momento da partida, não +só +não partirá, mas até ha de tomar parte +na nossa +primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina. <br /> + +<br /> + +Estas ultimas palavras fizeram impressão em Augusto, que +instinctivamente repetiu: <br /> + +<br /> + +―Do proximo casamento de Christina?! <br /> + +<br /> + +―Pois não sabia que Christina vae casar?-perguntou +Magdalena com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em +Augusto.―É verdade, o sr. Henrique de Souzellas teve pressa +de legitimar o titulo de primos, com que arbitrariamente nos +tratavamos. <br /> + +<br /> + +Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expressão, +dizendo: <br /> + +<br /> + +―Quê?... pois é com Christina... pois Henrique +vae casar com... <br /> + +<br /> + +Só depois de lhe romperem dos labios estas palavras, +é que, reconhecendo a indiscreção da +sua surpresa, accrescentou com mal simulada indifferença: <br /> + +<br /> + +―Ah! não sabia! <br /> + +<br /> + +―Devéras? Pois não tinha ouvido falar d'este +casamento? Oh... querem vêr que suppunha tambem +<span class="pagenum">[254]</span> +que era eu a que me casava?... Digo +isto, porque o Cancella tambem estava na mesma crença. +Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos!... E acham logo +quem se fie n'elles! <br /> + +<br /> + +E, mudando de inflexão, proseguiu: <br /> + +<br /> + +―São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos +um por o outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio +sobre aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso +encontral-o doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de +alguma maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as +circumstancias em que isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e +noite de chuva, na capella-mór da minha propriedade dos +Cannaviaes, onde Christina fôra rezar, pela saude de +Henrique, as estações da meia noite; onde +Henrique foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a +Brizida, para os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; +intervenção algum tanto perigosa, porque podia +haver quem me seguisse a mim com menos generosas +intenções de que as de qualquer dos tres, e que, +ao vêr-me em tão extraordinario +sitio, a taes horas, não me concedesse a +confiança precisa para acreditar, através de +tudo, na minha innocencia. <br /> + +<br /> + +A allusão era clara, e mais clara a fazia a +inflexão com que foi pronunciada. <br /> + +<br /> + +Augusto curvou a cabeça e murmurou: <br /> + +<br /> + +―Tem razão, algum miseravel. <br /> + +<br /> + +―Ou algum infeliz―corrigiu delicadamente Magdalena.―Os infelizes +são tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem +lhes pode levar a mal isso? <br /> + +<br /> + +Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse +mais jovialmente: <br /> + +<br /> + +―Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei? <br /> + +<br /> + +Augusto, como o leitor concebe decerto, já não +tinha animo nem razão para dizer que partia. Calou-se. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[255]</span> +Angelo, a cuja prompta intelligencia não tinha ficado +latente o verdadeiro sentido d'este dialogo, graças tambem +ao conhecimento que elle tinha, havia muito, do +coração de sua irmã e +do de Augusto, respondeu por elle: <br /> + +<br /> + +―Não te enganaste, não, Lena. Tambem eu +já digo que Augusto não partirá. <br /> + +<br /> + +E Augusto sem protestar! <br /> + +<br /> + +Magdalena tornou-se de subito mais séria e grave do que +até alli, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de novo +se dirigiu ao irmão, dizendo: <br /> + +<br /> + +―Para vir aqui, pedi o auxilio do teu braço de creanca, +Angelo, como se fôra o de um homem. Deixa-me considerar-te +por mais algum tempo ainda da mesma maneira, emquanto não +termino a minha missão. Ha pouco, depois que me leste a +carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que +tencionas fazer?» Não é +assim? <br /> + +<br /> + +―Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te +acompanhasse aqui. <br /> + +<br /> + +―Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a +este passo, que não sei se me +deverão censurar, creio até que devem, que esse +pensamento não está cumprido ainda. <br /> + +<br /> + +―Vejo que não. <br /> + +<br /> + +―Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, +como um bom conselheiro, é deante de ti, como seria deante +de quem quer que ahi estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou +concluir o meu pensamento. <br /> + +<br /> + +E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que +só um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse +bastante para o denunciar: <br /> + +<br /> + +―Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para +ultima provação, até as +traições e as suspeitas lhe não +pouparam o nome honrado que herdou. Essa posição +dá-lhe direitos que eu +sei comprehender, creia. É uma especie de +nobreza, de que se não pode exigir +humilhação alguma. Por isso, sem +<span class="pagenum">[256]</span> +hesitar, com toda a +lealdade, vim aqui em companhia de Angelo para estender-lhe a +mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para +crer, as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se +essas sympathias podem bastar ás +aspirações da sua, se, para ganhar coragem, os +meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e +dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta +confissão, Angelo. +Terás que me ralhar por causa d'ella? <br /> + +<br /> + +Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a +hesitação, e tomando entre as suas a +mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos +apaixonados. <br /> + +<br /> + +Magdalena não teve pressa de retiral-a. <br /> + +<br /> + +Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que +respondia á pergunta d'ella. <br /> + +<br /> + +Pobres creanças! Porque a final eram creanças +todos tres, creanças a quem ainda os romances namoram, sem +que se lembrem de que, ao transplantal-os para a vida real, todos os +desconhecem e censuram, e só regando-os de lagrimas +é que as mais das vezes se consegue nutril-os. <br /> + +<br /> + +O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria. <br /> + +<br /> + +―Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas. +Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que +tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar +as +provas da minha innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e +depois... <br /> + +<br /> + +Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o +rosto. <br /> + +<br /> + +Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu: <br /> + +<br /> + +―E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. +Bem vê que, depois do passo que dei, se algum escrupulo ou +orgulho pesasse no seu coração, Augusto, seria +uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a mão, que eu +com lealdade lhe +<span class="pagenum">[257]</span> +offereci; a +lealdade obriga-o agora a seguir o caminho do Mosteiro. <br /> + +<br /> + +Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu +outra vez com firmeza: <br /> + +<br /> + +―Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu +dever. <br /> + +<br /> + +Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só. +<br /> + +<br /> + +O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto +tão inesperada companhia, mas não lhe foi +difficil, depois do que viu e ouviu, conjecturar +qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de +resolução o seu companheiro de +jornada. <br /> + +<br /> + +Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos. <br /> + +<br /> + +Estes não conseguiram dissuadil-o de partir. <br /> + +<br /> + +Não havia já estimulo para arrancar aquelle +coração ao desalento. <br /> + +<br /> + +Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro. <br /> + +<br /> + +O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão +violentas paixões, que desisto de descrevel-as. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>XXXIII </h4> + +<br /> + +Na manhã do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, +na qual incluimos já D. Dorothéa e Henrique, +reunida em uma das salas do Mosteiro. <br /> + +<br /> + +As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e +Henrique jogavam o xadrez; D. Dorothéa e D. Victoria +conversavam a respeito do preço de umas meadas de linho, que +esta tinha dado a córar, e da pessima qualidade do fiado, +effeito evidente, segundo D. Victoria, das criadas que tinha, que nem +para fiar serviam. O conselheiro +<span class="pagenum">[258]</span> +examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que +recebera, já a pedir empregos e graças em paga +dos serviços eleitoraes, +ás vezes hypotheticos. <br /> + +<br /> + +A cada passo, porém, Magdalena suspendia o trabalho, para +olhar para a porta da sala, principalmente quando nos immediatos +aposentos se escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que +não com menor frequencia os desviava das pedras do taboleiro +para encontrar os da irmã. <br /> + +<br /> + +Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, +e esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os +olhos da costura. <br /> + +<br /> + +D. Victoria e D. Dorothéa não era raro +metterem-se na conversa dos outros, d'onde facil +transição achavam logo para voltarem aos seus +assumptos favoritos: meadas e criados. <br /> + +<br /> + +O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou +fazia notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que +examinava. <br /> + +<br /> + +Era evidente que todas aquellas cabeças estavam pouco +preoccupadas com os assumptos apparentes das suas +cogitações. <br /> + +<br /> + +―Ó Lena!―dizia Christina, que pela terceira vez chamava a +prima, sem conseguir ser ouvida―que tens tu esta manhã? Que +distracções +são essas, que não respondes quando te chamam? <br /> + +<br /> + +―Pois falaste-me? <br /> + +<br /> + +―É o que eu digo! Ó menina, ha que seculos te +estou eu a perguntar em que tempo é que as laranjeiras teem +flor? <br /> + +<br /> + +―Ah! Christe!―acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.―Esse +pensamento é linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em +que tens estado a scismar. <br /> + +<br /> + +Christina córou intensamente, ao perceber o sentido das +palavras do conselheiro, e tentou defender-se, dizendo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[259]</span> +―Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque... <br /> + +<br /> + +―Socega, quando o véo estiver prompto, a laranjeira +não nos faltará com ramos e flores. <br /> + +<br /> + +―Não, mano―disse D. Victoria―olhe que se não +trata de vêr o que é que +está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não +ha uma só na quinta. Que tambem para serem comidas as +laranjas pelos criados... Porque quasi que são só +para elles. +Não que não faz ideia!... <br /> + +<br /> + +E continuou com D. Dorothéa a narração +dos abusos de que os criados eram culpados. <br /> + +<br /> + +D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar. <br /> + +<br /> + +―Esta é galante!―disse elle, examinando uns papeis e +rindo.―Ora ouça isto, Henrique. Aqui +está um homem que deseja que eu lhe empregue nada menos do +que sete sobrinhos que tem. Sete! É uma +geração como a de Jacob; se +estivessemos na côrte de Pharaó!... <br /> + +<br /> + +―Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio +completo―disse Henrique. <br /> + +<br /> + +―Oh! oh!―disse o conselheiro, passados alguns +momentos.―Cá está o meu amigo Pertunhas, +teimando com o logar de recebedor. <br /> + +<br /> + +―Pois o maroto ainda se atreve? <br /> + +<br /> + +―E que despeza de estylo que faz! É uma ode congratulatoria +em prosa. <br /> + +<br /> + +N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos +passou-se o tempo até a chegada do correio, successo que +marca época n'uma manhã passada na aldeia. <br /> + +<br /> + +N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os +periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das +eleições dos differentes +circulos do paiz. <br /> + +<br /> + +O conselheiro já por tres vezes consultára o +relogio, extranhando que o correio se demorasse. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[260]</span> +Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos; +Henrique deu subito desfecho ao jôgo com um lanço +absurdo, e ambos se precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo +veio encostar-se ao espaldar da cadeira de Henrique. <br /> + +<br /> + +O conselheiro principiou por ler uma carta. <br /> + +<br /> + +Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico. <br /> + +<br /> + +―Oh! oh!―disse o conselheiro, logo ás primeiras linhas que +leu.―Temos crise ministerial. As eleições +fôram pouco favoraveis ao +governo; perderam-se em quasi toda a parte! <br /> + +<br /> + +―Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo +de fundo―disse Henrique. <br /> + +<br /> + +―Dizem-me n'esta carta que já se fala em que o ministerio +vae pedir a sua demissão. <br /> + +<br /> + +―Este artigo allude apenas a uma reconstrucção +do gabinete. <br /> + +<br /> + +-«O governo―proseguiu o conselheiro, lendo,―nem espera pela +constituição da camara e +cáe por estes dias, infallivelmente. Quando vossê +receber esta, já talvez elle pertença aos livros +findos.» <br /> + +<br /> + +―«Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para +resolver sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na +futura camara»―lia Henrique no periodico, que logo em +seguida pôz de lado, para consultar outro. <br /> + +<br /> + +―«Não imagina―continuava o conselheiro, lendo a +carta―o movimento de ambições que vae +já por aqui». Ora se não imagino! <br /> + +<br /> + +―Um numero do <em>Suffragio +Nacional</em>!―exclamou Henrique, abrindo segundo +periodico.―Provavelmente é alguma amabilidade que lhe +dirigem, sr. conselheiro; elles que lh'o mandam! <br /> + +<br /> + +―Sim, decerto. Como da outra vez. Veja lá,―disse o +conselheiro, sorrindo―aos moribundos tudo se perdôa. <br /> + +<br /> + +Henrique correu a vista pela folha, para saber o +<span class="pagenum">[261]</span> +que motivára a +remessa d'ella para o Mosteiro, onde não costumava vir. <br /> + +<br /> + +―Ah! temos correspondencia cá da terra!―exclamou por fim. <br /> + +<br /> + +―Deve ser isso. Já tardava. É communicado do +Seabra. Leia, que são curiosos. O homem a apreciar as +eleições de domingo deve ser soberbo. Isso +não se pode perder. Leia, leia. <br /> + +<br /> + +―Assigna-se <em>um eleitor indignado</em>. <br /> + +<br /> + +―Justo. É o estylo do homem. Vamos lá a +vêr isso. <br /> + +<br /> + +Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro. <br /> + +<br /> + +A peça litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra +contava ao mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu +transcrevel-a aqui, se, pela sua extensão, não +tomasse demasiado +espaço, e se, pela sua unidade e estreita +ligação logica, +se não subtrahisse á menor tentativa de +fragmentação. <br /> + +<br /> + +Aquelle communicado era indivisivel. <br /> + +<br /> + +Apesar d'esta forçada omissão, espero que os +leitores farão a justiça de suppôr o +escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar com tanta +proficiencia na taberna do Canada. <br /> + +<br /> + +O homem escrevia recheado de indignação pela +serie de illegalidades, escandalos, subornos e pressões de +todo o genero, de que, dizia elle, fôra theatro aquella +pacifica aldeia do Minho. <br /> + +<br /> + +Em <em>linguagem chã e rude</em> +ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de todos uma <em>pestifera +chaga do organismo social</em>. <em>Sophismára-se +a urna e +calcára-se aos pés a Carta</em>. +As phrases em italico são d'elle. Depois de um exordio por +esta +afinação, em que fazia a conveniente +razão de ordem, entrava o homem na materia. Era um +modêlo de impertinente bisbilhotice o escripto; desfiava-se +alli a vida de todos os eleitores com uma minuciosidade esmagadora. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[262]</span> +Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho +de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse +que havia de fazer, e não fez; e como aquelle nem disse nem +fez; e como aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos +mais maltratados era o sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o +auctor da +correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera +pressão sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem +de pessimos costumes e moral depravada; jogador, bulhento, +beberrão cheio de dividas, amigo de malfeitores, <em>et +coetera</em>. <br /> + +<br /> + +O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas. <br /> + +<br /> + +O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas. <br /> + +<br /> + +O brazileiro não lhe perdoára a pressa com que +este celebrára a victoria do conselheiro, á +frente da philarmonica que regia. <br /> + +<br /> + +Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a +raiva lhe suggeria, inclusivé o de estafador de trompa, e +fechava por estas memoraveis palavras: <br /> + +<br /> + +«Para levar á evidencia o caracter infame e +intriguista d'este sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos +dias antes, subtrahiu de uma pasta aquella celebre carta politica, que +tanto deu que falar no paiz. E este homem exerce o cargo de +administrador do correio. <em>Proh +pudor!</em>» <br /> + +<br /> + +Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu +sensação no auditorio. <br /> + +<br /> + +Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as +bôcas uma exclamação de +surpresa ou de alegria. <br /> + +<br /> + +―Como é?... como é?...―perguntou o +conselheiro.―Diz que...? <br /> + +<br /> + +―É o mysterio que se explica―respondeu Henrique.―A +traição encarrega-se de a si propria se +desmascarar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[263]</span> +―Então foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta +de uma pasta! <br /> + +<br /> + +―Era a de Augusto. <br /> + +<br /> + +―Mas como estava ella ahi? <br /> + +<br /> + +―Lá isso sei eu como foi,―disse D. Victoria―fui eu que, +por engano, lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma +para a leitura dos pequenos. <br /> + +<br /> + +Christina celebrou a descoberta, beijando com effusão a +morgadinha, e dizia: <br /> + +<br /> + +―Venceste, Lena! agora está bem provada a innocencia +d'elle, até para os que mais duvidavam! <br /> + +<br /> + +―E quem não duvidaria?―acudiu o conselheiro, como para se +desculpar da desconfiança. <br /> + +<br /> + +―Quem o conhecesse bem, meu pae―respondeu Magdalena, a quem a +commoção recebida dava +animação ao olhar e ao semblante.―Eu e Angelo, +por exemplo. <br /> + +<br /> + +―E então eu?―accrescentou Christina.―Eu +não entro na conta? <br /> + +<br /> + +Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a +paga do beijo que recebera. <br /> + +<br /> + +―Olhem o pobre rapaz!―dizia D. Victoria, sinceramente +consternada.―E eu que o tratei tão mal! Bem me +dizia elle: «Não tenha pressa de dizer +nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar +de um homem que elles se costumaram a amar e a respeitar.» E +o caso é que eu, desde que lhe ouvi dizer aquillo, de um +modo tão sério e triste, fiquei resentida, e +não disse +nada ás creanças, que todos os dias me +perguntavam ainda por elle. <br /> + +<br /> + +―Mas...―dizia D. Dorothéa, deveras +embaraçada―eu não sei ainda bem do que se trata. +Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê?... <br /> + +<br /> + +―Ó tia Dorothéa―atalhou ―Ó tia +Dorothéa―atalhou Henrique―por quem +é, não insista na pergunta. Depois que se sabe +que uma suspeita é falsa, não ha nada que mais +escalde +<span class="pagenum">[264]</span> +os labios do que +obrigal-a de novo a passar por elles. <br /> + +<br /> + +―Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de +saber uma coisa que não é verdadeira? Mas na +verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique, está-me a +parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na consciencia. Ora +anda lá. <br /> + +<br /> + +―Não, tia. Ha muito que lhe faço +justiça. Ao principio não digo que +não. Mas durou pouco tempo +e já estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira +com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em +expiação, me +não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é +porque elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu +desastre... quero dizer―emendou, olhando para Christina―a felicidade +que me procurou sob a fórma de doença... <br /> + +<br /> + +Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras +reflexões que lhe ouvimos fazer, disse, suspirando: <br /> + +<br /> + +―Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei +áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de +fazer? As apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de +politica, apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! +É sorte minha! Homens, a quem eu estimava +devéras, fôram exactamente os que mais fiz +padecer! Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de +infancia, e que sempre me teve amizade, apesar das apparencias rudes de +que a revestia, dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em +que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte... E +elle, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais +me sairá da ideia aquella scena da igreja. Augusto, um rapaz +que conheci pequeno, e já então de viva +intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou para o +perder, e não só o privei do +<span class="pagenum">[265]</span> +modesto logar que elle exercia, mas +até levantei contra elle uma accusação +infamante, e quasi o +expulsei de minha casa... É triste que a vida politica me +tenha obrigado a estas crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte +o mal que fiz. De que maneira lhes parece melhor? <br /> + +<br /> + +―Eu se fôsse―disse D. Dorothéa―fazia como a +morgada, e o rapaz, em vez de vir a ser só padre havia de se +formar em Coimbra, como o reitor de Friande... <br /> + +<br /> + +―Isso era se elle quizesse ser padre;―acudiu D. Victoria―mas +parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era +demittir aquelle velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre +de latim, e arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, +já que o outro foi tratante!... <br /> + +<br /> + +O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não +pôde deixar de dizer: <br /> + +<br /> + +―N'esse caso deixava só ao Pertunhas a regencia da +philarmonica? E tu, Lena, qual é a tua +opinião? <br /> + +<br /> + +Magdalena respondeu sem vacillar: <br /> + +<br /> + +―A minha opinião é que o pae deve ir a casa de +Augusto, pedir-lhe humildemente perdão pela offensa que lhe +fez. <br /> + +<br /> + +―Mas involuntaria―ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que +não pôde bem +disfarçar. <br /> + +<br /> + +―Mas offensa―repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse +totalmente a fôrça da +expressão. <br /> + +<br /> + +―É um pouco dura de cumprir a sentença, +sobretudo esse adverbio humildemente... Não lhe +parece?―perguntou o conselheiro, voltando-se para Henrique. <br /> + +<br /> + +―Eu tinha vontade de dizer tambem a minha +opinião―respondeu Henrique;―mas receio certos melindres... +Comtudo, parece-me que encontraria uma recompensa, que poderia fazer +esquecer a Augusto a offensa e dores muito mais pungentes do +<span class="pagenum">[266]</span> +que as que soffreu em virtude d'esta +desagradavel occorrencia. <br /> + +<br /> + +―Qual é?―perguntou o conselheiro. <br /> + +<br /> + +Henrique olhou para Magdalena, respondendo: <br /> + +<br /> + +―Repito que tenho escrupulos em dizêl-o, porque talvez +não seja eu o mais competente para o fazer. <br /> + +<br /> + +―Tem razão, primo―disse Magdalena.―Elle proprio o +dirá. É mais natural. <br /> + +<br /> + +―Mas sábel-o tambem tu, Lena? <br /> + +<br /> + +―Sei. <br /> + +<br /> + +―Então dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir +desejos. <br /> + +<br /> + +Magdalena hesitou. <br /> + +<br /> + +―Vamos, Henrique―disse Cristina, sorrindo―não esteja com +tantos escrupulos. Diga o que pensa. <br /> + +<br /> + +―Pois quer? mas se sua prima me não perdôa? <br /> + +<br /> + +―Eu o protegerei. Fale. <br /> + +<br /> + +―Então, Christe?―tornou Magdalena. <br /> + +<br /> + +―Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode. <br /> + +<br /> + +―Fale, fale―disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D. +Dorothéa. <br /> + +<br /> + +―Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer +parte da familia de... da nossa +familia―respondeu Henrique, olhando para Magdalena, que já +não tentava retêl-o. <br /> + +<br /> + +―De fazer parte da nossa familia?―repetiu o conselheiro.―Mas como? <br /> + +<br /> + +―Como ha de ser? visto eu não estar resolvido a +prescindir de Christina, e Marianna ser ainda creança, facil +é de conjecturar o unico meio que ainda resta de realisar +aquella pretensão. <br /> + +<br /> + +O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir, +dizendo: <br /> + +<br /> + +―Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabeça? <br /> + +<br /> + +―Mas que é a final? eu não entendo―dizia, +embaraçada, D. Victoria. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[267]</span> +―É uma coisa muito simples―respondeu Henrique.―Augusto +sentiu o effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a +ponto de ligar a elles a sua felicidade, e de cair em +adoração para com a magnetisadora. <br /> + +<br /> + +Esta explicação foi recebida com espanto por D. +Victoria. <br /> + +<br /> + +―Ora! está a brincar, primo Henrique? Não ouve +aquillo, prima Dorothéa? <br /> + +<br /> + +―Mas que é, que é?―perguntou esta. <br /> + +<br /> + +-Diz que o Augusto aspirava... <br /> + +<br /> + +―Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não +aspirava. Quem pode tomar contas a um coração do +culto que elle guarda religiosamente em si? A prima Lena é +adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porém... <br /> + +<br /> + +―É possivel!―exclamou tambem D. Dorothéa, +espantada.―Por essa não esperava eu. Olhem para o que lhe +havia de dar! Pobre Augusto! <br /> + +<br /> + +O conselheiro ria ainda da noticia que recebera. <br /> + +<br /> + +Magdalena córou ao ouvir todas aquellas +exclamações de estranheza. Cedendo ao impulso +energico do seu caracter impetuoso e apaixonado, disse com vivacidade: <br /> + +<br /> + +―Não sei que haja no que diz o primo Henrique nada que +mereça esses espantos. Pois quem sou eu a final? Que +distancia me separa da humanidade, para que se tenha por um desacato +uma affeição que inspire? É verdade. +Julgo que não se enganou o primo Henrique. Tambem +eu descobri esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no +coração e +não na cabeça, meu pae. Ha muito que o sei, e +nunca a descoberta me causou o espanto que vejo nos outros. Digo mais, +causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque é natural sentil-o +por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter generoso +que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais nobre e +mais puro do que d'antes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[268]</span> +O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom +profundamente irritado: <br /> + +<br /> + +―Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê +lá se me queres fazer acreditar que a vida da aldeia te +estragou o natural bom senso, até o ponto de tomares a +sério phantasias e +creancices. <br /> + +<br /> + +―Não é phantasia nem creancice, é uma +resolução de mulher―respondeu Magdalena, com +firmeza. <br /> + +<br /> + +―Uma resolução de creança, que +está na minha mão remediar―tornou o conselheiro, +como quem desejava cortar o incidente. <br /> + +<br /> + +Porém para o génio de Magdalena já +não era possivel recuar nem parar; replicou: <br /> + +<br /> + +―Talvez não. E deixe-me então dizer-lhe tudo, +meu pae. Augusto nunca me revelou esse segredo do seu +coração. Adivinhei-lh'o eu. Longe de +procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem +estava resolvido a deixar a aldeia para sempre. <br /> + +<br /> + +―Mas ficou―notou o conselheiro com ironia. <br /> + +<br /> + +―Ficou―respondeu tranquillamente Magdalena―porque eu lhe pedi que +ficasse. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a +filha com olhar severo e interrogador. <br /> + +<br /> + +A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um +esfôrço interior: <br /> + +<br /> + +―Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava +a affeição desinteressada e pura que elle +guardava no coração; ficou, porque eu, que +só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e que o +sabia tão leal como pobre, tão innocente como +perseguido pelo infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, +sob o pêso de uma accusação em cuja +verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir eu propria +procural-o para lhe estender a mão e dizer-lhe: +«fique, +<span class="pagenum">[269]</span> +e +prometto-lhe que todos lhe farão justiça em +breve.» <br /> + +<br /> + +Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e +exaltação crescentes, ninguem ousou falar na +sala; e os olhos de todos dirigiram-se quasi instinctivamente para o +conselheiro. <br /> + +<br /> + +Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo +sentiram-se profundamente inquietos. <br /> + +<br /> + +Todos viram passar por differentes côres as faces do +conselheiro, os labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz +evidentemente alterada pela cólera, disse para a filha, +passados alguns instantes: <br /> + +<br /> + +―Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga +estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem +naturalissimos á sua razão estragada pelos +romances. Eu ainda não prescindi da minha auctoridade +paterna, e ella me servirá para corrigir essas levezas, de +que deveria envergonhar-se. <br /> + +<br /> + +Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da +posição de todos os que estavam +presentes. Ninguem ousava intervir, ou, desejando-o, ninguem sabia a +maneira de o fazer. <br /> + +<br /> + +Entre as falsas situações, em que nos achamos +ás vezes n'esta vida, poucas se podem comparar no +incómmodo que produzem, á de assistir a uma +questão domestica, por qualquer motivo que seja originada. <br /> + +<br /> + +Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que +prendeu Lena nos braços, não +sei se para instinctivamente a defender, se para reprimir-lhe o impeto +de reacção que receiava n'ella. <br /> + +<br /> + +A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu +ao pae: <br /> + +<br /> + +―Ás vezes aos caracteres levianos estão +confiadas tarefas generosas. Cabe-lhes sanar muitas +injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e +por +<span class="pagenum">[270]</span> +isso mais desconfiados, +praticam sem piedade. Não me envergonho nem arrependo do +passo que dei. Não fiz mais do que salvar do +desespêro uma alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, +talvez um dia a sua consciencia, senhor, o accusasse de não +ser innocente n'essa perda. Quiz evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto +foi leviandade, que os annos m'a não dissipem, como dizem +que costumam fazer, porque prefiro ser leviana assim, a ser cruel +como... <br /> + +<br /> + +O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou: <br /> + +<br /> + +―Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá +de escolher entre os seus caprichos e a minha +approvação. Fique certa que, com o +consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem +posição, especulará com o +estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida do que +deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria +casa, sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada +á sua credula sensibilidade. <br /> + +<br /> + +Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na +sala. <br /> + +<br /> + +Era Augusto. <br /> + +<br /> + +Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que +o conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu +venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar. +<br /> + +<br /> + +O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou. <br /> + +<br /> + +Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza: <br /> + +<br /> + +―Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, +tem n'esse triplice infortunio outros tantos titulos para ser +respeitado dos felizes, como v. ex.<sup>a</sup>, e eu +não prescindo +d'esses direitos. <br /> + +<br /> + +O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse +responder a Augusto. A irritação +<span class="pagenum">[271]</span> +dictava-lhe uma violenta resposta, mas +já lh'o não permittia a consciencia. <br /> + +<br /> + +Augusto continuou: <br /> + +<br /> + +―Sei que v. ex.<sup>a</sup> está já +convencido de que as +suspeitas, que pesavam sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que +ainda tem na mão, veem as provas da minha innocencia. Vi-o +em casa do Seabra, d'onde venho agora. Procurei-o, decidido a saber +toda a verdade por qualquer preço que fôsse; elle +não m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, sr. +conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo, antes +que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a receber-me +a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o +insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu +encontrei! <br /> + +<br /> + +―Menos justificado?―repetiu o conselheiro, azedadamente. <br /> + +<br /> + +―Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.<sup>a</sup> +podia julgar-me +criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas +não tem o de duvidar de sua filha; porque a sr.<sup>a</sup> +D. +Magdalena pedindo a seu irmão que a acompanhasse a casa de +um pobre, que ella sabia ser victima de uma immerecida +accusação, e a quem o desalento e o +desespêro faziam succumbir, não se esqueceu do que +devia a si e aos seus; pelo contrario, aos seus devia aquelle acto de +sublime generosidade, porque das mãos dos seus viera o golpe +que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr. conselheiro, como +um miseravel e infame; os filhos de v. ex.<sup>a</sup>, que +sempre +fôram meus amigos, a quem v. ex.<sup>a</sup> +ensinára +a sel-o, vieram á minha dizer-me: «Não +parta, deve á nossa confiança a +justiça de ficar». <br /> + +<br /> + +―É verdade―disse Angelo―eu acompanhei Magdalena. O pae +diz-me muitas vezes que não tenha pressa de principiar a +duvidar; eu não podia principiar por Augusto. Não +duvidei. <br /> + +<br /> + +O conselheiro respondeu a Augusto com reserva +<span class="pagenum">[272]</span> +e mal disfarçado despeito, +ainda que em tom moderado: <br /> + +<br /> + +―Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do +coração, creia. Ainda que as apparencias o +culpassem, arrependo-me de não ter tido mais +fôrça +a minha confiança para não ceder. +Peço-lhe por isso... humildemente... perdão. Iria +a sua casa pedir-lh'o se não viesse aqui. Que mais quer? +Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para +antevêr realisadas loucuras de rapaz?... <br /> + +<br /> + +Augusto não o deixou continuar. <br /> + +<br /> + +―Ouça-me, sr. conselheiro―disse elle placidamente―deante +de todas as pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, +patentearei o meu coração. É verdade +que essas loucuras +se apoderaram de mim, que desde creança até hoje, +tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros, se eu commigo as +guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha vida? +Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz sempre +por suffocar. Nem ambições me despertou, como +meio de realisal-o, porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a +morrer com elle, sem o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o +fizera nascer, e, deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e +correspondido, que muito era que me tomasse a vertigem, e que eu por +momentos me deixasse cegar pelo fulgor de imprevistas +esperanças? +Perdôe-se-me a fraqueza. As illusões duraram +pouco; as palavras de v. ex.<sup>a</sup> dissiparam-n'as... +um tanto cruelmente, +mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, que o ser pobre, +sem familia e sem nome, impõe tambem uma certa ordem de +deveres, a que eu serei fiel. Não é o de +humilhar-me, +é o de manter a unica dignidade que me resta, a dignidade +moral. Já vê v. ex.<sup>a</sup> que se +enganou de duas +maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve +especulação, nem da parte da herdeira rica +estouvamento. <br /> + +<br /> + +E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se +<span class="pagenum">[273]</span> +respeitosamente deante do +conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um +extremo olhar de despedida. <br /> + +<br /> + +A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos +esforços de Christina para a reter, veio collocar-se no +caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão disse: <br /> + +<br /> + +―Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço +que não saia. <br /> + +<br /> + +―Magdalena!―disse o conselheiro com severidade. <br /> + +<br /> + +―Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de +remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do +coração, +que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente depois. <br /> + +<br /> + +―Magdalena!―repetiu o conselheiro com mais +fôrça. <br /> + +<br /> + +―Minha senhora! disse Augusto. <br /> + +<br /> + +Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á +vehemencia do caracter apaixonado. <br /> + +<br /> + +―Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu +coração; todos me ouviram; todos ouviram agora +Augusto. Fale, senhor, com a mesma franqueza e lealdade, com que +nós o fazemos; poderá confessar a natureza dos +escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se +envergonharia d'elles? E quer que lhe obedeça! mas +obedecer-lhe seria offendel-o, porque seria acreditar na constancia +d'essa má paixão que o domina, e no seu bom +coração não pode ella durar muito +tempo. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a +responder violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de +Magdalena; as outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as +primeiras tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de +intervenção, que elle suppunha +já indispensavel, quando um incidente veio interromper esta +scena e modificar a feição critica do caso. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[274]</span> +O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao +serviço de um proprietario da villa proxima. Este criado era +portador de uma mensagem para o conselheiro. <br /> + +<br /> + +O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio +dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar +á +presença do conselheiro. <br /> + +<br /> + +A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a +carregar-se. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita. +<br /> + +<br /> + +O criado respondeu: <br /> + +<br /> + +―Venho para entregar a v. ex.<sup>a</sup> esta parte +telegraphica, que chegou a +meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira +que não pôde mandal-a com ellas. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu, +e correu-o com a vista. <br /> + +<br /> + +Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos. <br /> + +<br /> + +Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta: <br /> + +<br /> + +―Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim. <br /> + +<br /> + +O criado saiu. <br /> + +<br /> + +N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e +combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique +desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa. <br /> + +<br /> + +O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que +uma visivel satisfação se lhe +desenhára no semblante. <br /> + +<br /> + +―Leia e admire―disse elle. <br /> + +<br /> + +Henrique leu, e não reteve uma +exclamação de surpresa. <br /> + +<br /> + +A parte dizia: <br /> + +<br /> + +«Avise o conselheiro Manuel Bernardo para +<span class="pagenum">[275]</span> +quanto antes se apresentar em Lisboa. +Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle acceite uma +das pastas.» <br /> + +<br /> + +Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz. <br /> + +<br /> + +Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a +surpresa da noticia não fez esquecer a crise domestica a que +assistira, disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena: <br /> + +<br /> + +―Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os +emboras pela sua +nomeação. <br /> + +<br /> + +A palavra «ministro» produziu +sensação na sala. D. Victoria exclamou: <br /> + +<br /> + +―Ministro! Pois quem é que está ministro? O +mano?... Ora, sim senhor! acertou sua magestade!... <br /> + +<br /> + +―Mas... valha-nos Deus! O ponto está que não +façam por ahi alguma revolução para o +deitar abaixo―acudiu D. Dorothéa, em cujo animo os factos +das nossas dissenções civis tinham deixado +sinistras ideias ligadas á palavra ministro. <br /> + +<br /> + +Magdalena, Angelo e Christina correram a abraçar o +conselheiro; Henrique reteve, porém, os dois ultimos +dizendo: <br /> + +<br /> + +―Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a s. +ex.<sup>a</sup>, e á primeira não ha +caracter de ministro que não ceda. <br /> + +<br /> + +O conselheiro sorriu já. <br /> + +<br /> + +Magdalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela +violencia das scenas anteriores, e até alli a custo +reprimido, rebentou agora abundante, banhando as mãos do +pae. <br /> + +<br /> + +Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não +deixar sair da sala. <br /> + +<br /> + +O coração do conselheiro não era de +pedra. Duas causas poderosissimas conspiravam-se para abrandal-o. Como +homem politico, havia a satisfação da maxima +ambição de todos, a noticia de ser chamado +<span class="pagenum">[276]</span> +ao ministerio. Nos +momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso +coração, abrimo-nos ás sympathias para +com os desejos dos outros; se de nós depende realisal-os, +cedemos de boa vontade. Como pae, havia as lagrimas da filha a +convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das lagrimas em olhos de +mulher, é geralmente sabida: quanto mais se a mulher +é joven e bella! quanto mais se a mulher é filha! +<br /> + +<br /> + +Sem o menor vestigio da irritação anterior, o +conselheiro ergueu Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente: +<br /> + +<br /> + +―Por que choras tu, Lena? Creança! Então +promettes-me ser muito feliz, se eu te deixar fazer as tuas loucuras? <br /> + +<br /> + +Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e +beijando-o. <br /> + +<br /> + +Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa +contra as severidades de um pae? <br /> + +<br /> + +O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e +voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi +affectuoso: <br /> + +<br /> + +―Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a +felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal +que lhe fiz, tornando-m'a venturosa. É a unica +vingança á altura +da sua alma. <br /> + +<br /> + +Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de +orgulho tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os +esforços combinados de Christina, de D. Victoria e de D. +Dorothéa, que o arrastaram quasi para junto do conselheiro. <br /> + +<br /> + +E toda aquella familia, em que não havia n'aquelle momento +um só coração triste, +confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e pathetico +grupo, que pode desenhar um artista. <br /> + +<br /> + +Para mais tocante confusão ainda, as creanças, +que voltavam dos seus brinquedos na quinta, entraram +<span class="pagenum">[277]</span> +então na sala, e de boa +vontade se associaram áquella +manifestação de alegria, sem +querer saber o que a motivára, <br /> + +<br /> + +São assim as creanças. Alegres por instincto, +saudam as scenas alegres sempre que as vêem, sentem-as antes +de as explicarem. <br /> + +<br /> + +Fôram innumeraveis os beijos, os abraços, as +palavras de affecto, os sorrisos, as lagrimas, as +exclamações pueris que se trocaram entre os +diversos actores d'esta scena de familia. <br /> + +<br /> + +Chegado a este ponto da minha narração, nada +melhor posso fazer do que deixar á +imaginação dos leitores concluil-a. <br /> + +<br /> + +Haverá algum tão malfadado, que na sua vida +não tenha visto representada uma scena assim? <br /> + +<br /> + +Esse mesmo, se existe, obriga-me a não proseguir. <br /> + +<br /> + +O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de +que por certo é victima. <br /> + +<br /> + +Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de +beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a +narração, vêl-o-hiamos abafado pelos +sons revolucionados e anarchicos da philarmonica da terra, que +não +tardará a festejar a nomeação do +conselheiro, e sobretudo +pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba verdadeiramente +épica, e capaz de mudar a côr ao gesto, como a de +que fala o poeta. <br /> + +<br /> + +Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos +acontecimentos ulteriores. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>CONCLUSÃO </h4> + +<br /> + +O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na +pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para +satisfação de animo dos +<span class="pagenum">[278]</span> +meus leitores, que, sob a +direcção dos talentos e +aptidões do novo estadista, se locupletou a fazenda publica, +prosperou a agricultura e a industria, refulgiram as artes e as +lettras; e que Portugal, como a Grecia, sob Pericles, causou o assombro +das +nações do mundo. <br /> + +<br /> + +Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e +prospero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no +espirito dos leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse +com isto a desconfiança no chronista. Resolvi pois ser +franco, declarando que sob a direcção do +conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se tem regido +sob as duzias de ministerios, que nós todos havemos +já conhecido. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, já ministro, voltou tempos depois +á aldeia, para assistir aos casamentos de Magdalena e de +Christina, que se verificaram no mesmo dia. <br /> + +<br /> + +Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com +D. Dorothéa, que não podia resignar-se a viver +só. <br /> + +<br /> + +Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se +completamente a quinta, e é hoje uma das mais rendosas e bem +geridas propriedades d'aquelles sitios. <br /> + +<br /> + +Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S. +Carlos, está um rico e laborioso proprietario rural. +Apaixonou-se pela agricultura, e promette realisar o typo do antigo +patriarcha. <br /> + +<br /> + +Cumpriu-se a sua visão. <br /> + +<br /> + +Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, já nem +memoria lhe resta. <br /> + +<br /> + +Christina, além de ser adorada pelo marido, vê-se +rodeada pelo amor e carinhos de D. Dorothéa e de Maria de +Jesus, as quaes, sem o menor despeito, a viram tomar o sceptro da +realeza domestica, que usa com adoravel brandura, desenvolvendo de dia +para dia os seus talentos de mulher. <br /> + +<br /> + +No Mosteiro não correm peor as coisas, sob os +<span class="pagenum">[279]</span> +cuidados de Augusto e de Magdalena, que +ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, além de +se occupar de agricultura, alimenta a +imaginação, já não a fazer +versos, mas em outra +fórma de poesia: a organisar a escola sob bases mais +racionaes, e dotação mais fecunda; a generalisar +e educar os processos agricolas; a implantar industrias novas. <br /> + +<br /> + +É assim que a sericultura, graças aos seus +cuidados, é hoje alli cultivada com bons resultados, e +outras já principiam a ensaiar-se. <br /> + +<br /> + +Magdalena é sempre a mulher que foi; se é que as +nobres qualidades já reveladas nos seus actos de juventude, +não se vão caracterisando inda +melhor, á medida que de mais graves deveres se incumbe a sua +missão de mulher. Intelligencia temperada por um bom senso +natural, que a educação esmerada +não estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado, +mas de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem +severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que +não faz sentir a ninguem o peso da obediencia. <br /> + +<br /> + +É hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos, +querida por D. Victoria, adorada pelo marido e abençoada +pelo povo, que soccorre com esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que +reina n'aquelles sitios. <br /> + +<br /> + +D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o +direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do +mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando +despedidos. <br /> + +<br /> + +Em relação ás personagens secundarias +d'esta historia pouco teremos a dizer. <br /> + +<br /> + +O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que +entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava +visconde de não sei quê o seu antigo inimigo. Foi +este o +primeiro acto politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a +sem-razão de não applaudir. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[280]</span> +O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de +melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia. <br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho, em vista d'esta fusão de +partidos, achou-se encorporado na liga, e em pouco tempo teve +occasião de demonstrar de novo a sua influencia eleitoral, +trazendo compacta á urna a freguezia de Pinchões, +para reeleger o conselheiro que, pela sua +nomeação, perdera o logar de deputado. D'esta +vez ninguem lh'o disputou, e era edificante vêr o brazileiro +ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de commum accordo +e de boa harmonia. <br /> + +<br /> + +A reconciliação entre dois adversarios commove +sempre a alma. <br /> + +<br /> + +O sr. Joãozinho não mudou de habitos, e cada vez +tem mais dividas, mais cães e mais bebedeiras. <br /> + +<br /> + +O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas +funcções de ensino e na +commissão do correio, odiando os irmãos Virgilios +e desafogando as suas mágoas na embocadura da trompa. <br /> + +<br /> + +O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingança. +Confessa que por brincadeira tirára uma +carta da pasta de Augusto, mas que a tornára a collocar no +seu logar e por isso... <br /> + +<br /> + +A familia Zé P'reira vae em rapida decadencia; o homem +já nem tem fôrça para fazer +resoar o zabumba. É esta uma das que mais deve á +caridade de Magdalena. <br /> + +<br /> + +O conselheiro, ainda hoje no gôso imperturbado dos votos +unanimes d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando +retemperar o animo exhausto nas fadigas parlamentares e nas +diversões da capital, no seio da sua feliz familia, e volta +melhor. <br /> + +<br /> + +Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores, +corre com alvoroço de creança +a gosar na aldeia os dias que elle já presente terem de ser +os mais felizes de toda a sua vida. <br /> + +<br /> + +A quinta dos Cannaviaes, á qual andam ligadas +<span class="pagenum">[281]</span> +suaves recordações +dos dois venturosos pares, que +os incidentes d'esta historia reuniram, foi transformada por Magdalena +n'uma habitação de recreio, onde as duas familias +celebram, durante o anno, algumas festas em commum. <br /> + +<br /> + +Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia +muito estava de posse. <br /> + +<br /> + +E hoje é ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo +nome de «Morgadinha dos Cannaviaes». <br /> + +<br /> + +<h4>FIM DO SEGUNDO E +ULTIMO VOLUME +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">Volume I</td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#p144">#pág. +144</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">precipios</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">precipicios</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p162">#pág. +162</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">se se +sentem</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">se +sentem</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p169">#pág. 169</a></td> + + <td style="text-align: center;">a seu seu +vêr</td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;">a seu +vêr</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p264">#pág. +264</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma +uma explicação</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma +explicação</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">Volume II</td> + + <td></td> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p27">#pág. 27</a></td> + + <td style="text-align: center;">gloŕia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">gloria</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p68">#pág. 68</a></td> + + <td style="text-align: center;">examimal-a</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">examinal-a</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p95">#pág. 95</a></td> + + <td style="text-align: center;">encontrassse</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">encontrasse</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p148">#pág. 148</a></td> + + <td style="text-align: center;">coisapor</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">coisa por</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p200">#pág. 200</a></td> + + <td style="text-align: center;">ovialmente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">jovialmente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p215">#pág. 215</a></td> + + <td style="text-align: center;">fregrezia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">freguezia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p218">#pág. 218</a></td> + + <td style="text-align: center;">principalte</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">principalmente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p248">#pág. 248</a></td> + + <td style="text-align: center;">saparámo-nos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">separámo-nos</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES *** + +***** This file should be named 29120-h.htm or 29120-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/1/2/29120/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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