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path: root/29120-h/29120-h.htm
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+ <title>A Morgadinha dos Cannaviaes</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Morgadinha dos Cannaviaes
+
+Author: Júlio Dinis
+
+Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jun. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>A Morgadinha dos Cannaviaes<br />
+
+<br />
+
+<a href="#Vol.I">Volume I</a><br />
+
+<a href="#Vol.II">Volume II</a></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><a name="Vol.I"></a>BIBLIOTHECA ESCOLHIDA<br />
+
+<br />
+
+XXIII
+</h4>
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>
+ROMANCE<br />
+
+<br />
+
+III<br />
+
+<br />
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vol. I</span></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h5>
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL<br />
+
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28<br />
+
+TELEPHONE 2337</h5>
+
+<h5><br />
+
+</h5>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<span style="font-weight: bold;" class="quote">JULIO
+DINIZ</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA<br />
+
+DOS<br />
+
+CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<h4>(CHRONICA DA ALDEIA)
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>DECIMA-SETIMA EDI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<img style="width: 150px; height: 146px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+J. RODRIGUES &amp; C.<sup>a</sup>, EDITORES<br />
+
+186&#8213;Rua Aurea&#8213;188<br />
+
+<em>1920</em>
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>OBRAS DE JULIO DINIZ
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="quote">A Morgadinha dos Cannaviaes<br />
+
+Os Fidalgos da Casa Mourisca<br />
+
+As Pupillas do Senhor Reitor<br />
+
+Uma Familia Ingleza<br />
+
+Ineditos e Esparsos<br />
+
+Poesias<br />
+
+Ser&otilde;es da Provincia<br />
+
+Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembran&ccedil;as)
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Todos os
+direitos d'esta
+publica&ccedil;&atilde;o<br />
+
+est&atilde;o reservados em conformidade com a lei<br />
+
+em Portugal e Brasil</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">J.
+Rodrigues &amp;
+C.</span><sup>a</sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>I
+</h4>
+
+<br />
+
+Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e
+genuino dezembro, chuvoso, frio, a&ccedil;outado do sul e
+sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam
+dois viandantes a encosta de um monte por a estreita
+e sinuosa vereda, que pretenciosamente gosava
+das honras de estrada, &aacute; falta de competidora,
+em que melhor coubessem.
+<br />
+
+<br />
+
+Era nos extremos do Minho e onde esta risonha
+e feracissima provincia come&ccedil;a j&aacute; a resentir-se,
+sen&atilde;o ainda nos valles e planuras, nos visos dos
+outeiros pelo menos, da vizinhan&ccedil;a de sua irm&atilde;, a
+alpestre e severa Traz-os-Montes.
+<br />
+
+<br />
+
+O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario,
+melancolico, e, n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a
+qualquer povoa&ccedil;&atilde;o importante, e com nome em
+carta corographica, estendiam-se milhas de pouco
+transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana
+raro se encontravam. S&oacute; de longe em longe,
+a cho&ccedil;a do pegureiro ou a cabana do rachador,
+mas estas t&atilde;o ermas e desamparadas, que mais entristeciam
+do que a absoluta solid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se moviam em perfeita igualdade de
+condi&ccedil;&otilde;es
+os dois viandantes, que dissemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um, o mais mo&ccedil;o e pela apparencia o de mais
+grada posi&ccedil;&atilde;o social, era transportado n'um pouco
+<span class="pagenum">[6]</span>
+esculptural, mas possante muar, de inquietas orelhas,
+musculos de marmore e articula&ccedil;&otilde;es fieis; o
+outro seguia a p&eacute;, ao lado d'elle, competindo, nas
+grandes passadas que devoravam o caminho, com
+a quadrupedante alimaria, cujos brios, al&eacute;m d'isso,
+excitava por estimulos menos brandos do que os
+da simples e nobre emula&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual
+processo de transporte, dos dois o menos extenuado
+e impaciente com as longuras e fadigas da
+jornada n&atilde;o se pode dizer que f&ocirc;sse o cavalleiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A postura de abatimento que lhe tom&aacute;ra o corpo,
+o olhar melancolico, fito nas orelhas do macho, a
+indifferen&ccedil;a, a taciturnidade ou o manifesto mau
+humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem
+natural conseguiam j&aacute; desvanecer, o obstinado
+silencio que apenas de quando em quando interrompia
+com uma phrase curta mas energica, com
+uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada,
+contrastavam com a viveza de gestos e desempenado
+j&ocirc;go de membros do pedestre, com a
+sua torrencial verbosidade, a que n&atilde;o oppunha diques,
+e com as joviaes cantigas e minuciosas
+informa&ccedil;&otilde;es
+a respeito de tudo, por meio das quaes se
+encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir
+o seu sorumbatico companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Explica-se bem esta differen&ccedil;a, dizendo que o
+cavalleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que
+fazia ent&atilde;o a sua primeira jornada, e o outro um
+almocreve de profiss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma
+vez; sabe portanto que o grato e quasi voluptuoso
+alvoro&ccedil;o, com que se concebe e planisa
+qualquer projecto de viagem, assim como a suave
+recorda&ccedil;&atilde;o que d'ella guardamos depois,
+s&atilde;o coisas
+de incomparavelmente muito maiores delicias, do
+que as impress&otilde;es experimentadas no proprio momento
+de nos vermos errantes em plena estrada
+ou pernoitando nas estalagens, e m&oacute;rmente nas
+<span class="pagenum">[7]</span>
+classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas
+impertinencias, em que se n&atilde;o pensa antes,
+que se esquecem depois, ou que a saudade consegue
+at&eacute; dourar e poetisar a seu modo; esses microscopicos
+martyrios, que de longe n&atilde;o avultam,
+actuam-nos, na occasi&atilde;o, a ponto de nos inhabilitar
+para o g&ocirc;so do que &eacute; realmente bello. A dureza do
+colch&atilde;o, em que se dorme, do albard&atilde;o ou selim
+sobre que se monta, o temp&ecirc;ro ou destemp&ecirc;ro do
+heter&oacute;clito cozinhado com que se enche o estomago,
+a lama que nos encrusta at&eacute; os cabellos, o p&oacute;
+que se nos insinua at&eacute; os pulm&otilde;es, o frio que nos
+inteiri&ccedil;a os membros, o sol que nos congestiona o
+cerebro, tudo ent&atilde;o nos desafina o espirito, que
+traziamos na tens&atilde;o necessaria para vibrar perante
+as maravilhas da natureza ou da arte.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; pelo pre&ccedil;o de muitas jornadas se compra o
+habito de ficar impassivel no meio dos episodios
+d'estas pequenas odyss&ecirc;as, que atormentam e exhaurem
+o animo dos Ulysses novatos; mas ai,
+quando se adquire esse habito, tambem nos achamos
+j&aacute; com a sensibilidade mais embotada para as
+commo&ccedil;&otilde;es do bello.
+<br />
+
+<br />
+
+Examina-se com mais minuciosidade, mas com
+menos enthusiasmo; analysa-se mais e melhor; por&eacute;m
+a propria analyse &eacute; a prova de que se sente
+menos. Onde domina o sentimento e a imagina&ccedil;&atilde;o,
+mal teem cabida a paciencia e phle&uacute;gma, necessarias
+aos processos analyticos. O homem positivo e
+frio recolhe de qualquer excurs&atilde;o &aacute; patria com a
+carteira cheia de apontamentos; o enthusiasta e
+poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu
+mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas Henrique de Souzellas&#8213;que era este o
+nome do cavalleiro&#8213;f&ocirc;ra educado e passado da
+infancia &aacute; plena juventude, em Lisboa, levantando-se
+por avan&ccedil;ada manh&atilde;, frequentando o theatro, o
+Gremio,
+as camaras, parolando no Chiado ou no Rocio,
+e indo alguns dias no anno a Cintra, ou qualquer
+<span class="pagenum">[8]</span>
+praia de banhos, desenfadar-se da monotonia
+da capital.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que fazia perfeito e consciente uso da raz&atilde;o,
+f&ocirc;ra esta jornada, em que o encontramos, a
+primeira levada a effeito, e logo sob t&atilde;o maus auspicios,
+que era para suffocar-lhe &aacute; nascen&ccedil;a os
+instinctos
+de <em>touriste</em>, se porventura quizessem
+despertar
+n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante,
+unico vehiculo accommodado aos caminhos por
+que pass&aacute;ra. E ent&atilde;o que dois dias! D'aquelles,
+durante
+os quaes o c&eacute;o, uniformemente pardo, parece
+desfazer-se em agua, e a chuva cae sem
+interrup&ccedil;&atilde;o
+e com uma teimosia e constancia impacientadoras;
+d'aquelles em que a terra saciada rejeita j&aacute; a agua
+que recebe, a qual escorre nos declives, transborda
+dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos,
+transformando em brejos as lezirias; em que as lufadas
+do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente
+despidos, dos &aacute;lamos e sobreiros, e emprestam
+aos pinheiraes a voz dos mares; em que
+os campos se mostram desertos, a noite se anticipa,
+e t&atilde;o densas nuvens cobrem o firmamento,
+que parece tomar-nos a persuas&atilde;o de que nunca
+mais o veremos com as suas formosas vestes de
+azul.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz
+podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao
+diabo a viagem que commettera.
+<br />
+
+<br />
+
+E para qu&ecirc; e por qu&ecirc; a commettera elle assim?
+<br />
+
+<br />
+
+Em poucas palavras procuraremos satisfazer a
+natural interroga&ccedil;&atilde;o, que &eacute; de
+supp&ocirc;r nos dirigissem
+os leitores, se podessem fazel-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos
+vinte e sete annos, vivendo, como diss&eacute;mos, aquella
+enlanguescedora vida da capital, e dividindo as
+atten&ccedil;&otilde;es
+do espiri
+Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos
+vinte e sete annos, vivendo, como diss&eacute;mos, aquella
+enlanguescedora vida da capital, e dividindo as
+atten&ccedil;&otilde;es
+do espirito pela politica, pela litteratura e pelos
+destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava
+<span class="pagenum">[9]</span>
+habilitado a fazer circumstanciada chronica, que
+abrangesse os ultimos dez annos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o concebia vida f&oacute;ra d'aquillo.
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo para elle era Lisboa. N&atilde;o sentia desejos,
+nem imaginava possibilidade de visitar a Europa,
+quanto mais a provincia; o que seria maior
+fa&ccedil;anha.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o que lhe faltassem recursos para realisar
+qualquer projecto d'esta natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique herd&aacute;ra dos paes rendimentos bastantes,
+dos quaes vivia folgadamente e sem precisar
+de sacrificar nos altares da economia.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A
+poucos ia t&atilde;o direita a apostrophe de Garrett aos
+seus &laquo;queridos alfacinhas&raquo;, a qual se pode ler no
+livro setimo das <em>Viagens</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+De certo tempo em deante come&ccedil;ou, por&eacute;m, a
+incommodal-o uma especie de v&aacute;cuo interior, um
+mal-estar, doen&ccedil;a infallivel nos celibatarios sem familia,
+quando chegam &aacute; idade a que chegou Henrique,
+e passam a vida como elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos,
+bocejava nas camaras, bocejava no Gremio, bocejava
+no Suisso, no Chiado e nos circulos dos seus
+amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o
+insupportavel de insipidez; porque poucas coisas
+ha que mais perturbem o espirito, do que o espectaculo
+d'um homem que boceja ou dorme, onde e
+quando os outros forcejam por divertir-se.
+<br />
+
+<br />
+
+O demonio da hypocondria, esse demonio negro
+e lugubre, implacavel verdugo dos ociosos e egoistas,
+o qual havia muito o espiava, apoderou-se d'elle
+em corpo e alma.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito
+preoccupado com a sua pessoa, imaginando-se victima
+de mil e uma molestias, as mais disparatadas
+e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente
+predestinado para a apoplexia e para a phtisica, para
+o cancro e para a aliena&ccedil;&atilde;o, para a cegueira e
+para
+<span class="pagenum">[10]</span>
+as aneurismas, tremendo &aacute; leitura do obituario da
+semana, folheando livros de medicina, construindo
+theorias physiologicas, consultando todos os medicos
+da capital, experimentando todo o arsenal pharmaceutico
+e todos os annuncios, em parangona, da
+quarta pagina dos periodicos, e elevando as cren&ccedil;as
+do seu espirito amedrontado at&eacute; &aacute;s mysteriosas
+e nevoentas alturas do credo homoepathico! Ao
+mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva
+degenera&ccedil;&atilde;o de g&ocirc;sto; n&atilde;o
+podia ler uma pagina
+dos livros que lhe eram predilectos; desfazia-se
+sem desg&ocirc;sto de quadros, m&oacute;veis, estatuas e
+objectos
+curiosos que colleccion&aacute;ra com paix&atilde;o; detestava
+a musica, o theatro, n'uma palavra, torn&aacute;ra-se
+um dos maiores flagellos, que podem pesar sobre
+a humanidade e que muito em especial causam o
+supplicio dos medicos que os aturam.
+<br />
+
+<br />
+
+Foram estes os que, em parte de boa f&eacute;, em parte
+com o desculpavel intuito de sacudirem de si tal
+pesadelo, lhe deram um dia de conselho, que f&ocirc;sse
+viajar.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia
+n'esta palavra: viajar.
+<br />
+
+<br />
+
+Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias
+apopleticas? E as suas disposi&ccedil;&otilde;es para
+tantas outras enfermidades? Pois um homem pode
+l&aacute; viajar com esta bagagem pathologica?
+<br />
+
+<br />
+
+E se lhe d&eacute;sse alguma coisa pelo caminho? Recusou
+com mau humor a receita, e ficou na capital.
+<br />
+
+<br />
+
+Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as
+consultas, e os medicos, como se para isso apostados,
+a insistirem em que saisse de Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor n&atilde;o tem nada&#8213;diziam alguns.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique perdia a cabe&ccedil;a, ao ouvir isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Prolongou-se este estado de coisas, at&eacute; que um
+dia o hypocondriaco rapaz persuadiu-se muito s&eacute;riamente
+de que estava chegada a sua hora extrema.
+<br />
+
+<br />
+
+Um medico velho e grave, que por essa occasi&atilde;o
+<span class="pagenum">[11]</span>
+o escutou, em vez de se rir d'elle, disse-lhe, muito
+sisudo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem! O senhor est&aacute; realmente mal. Esse
+estado de imagina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode
+prolongar-se mais
+tempo, sem romper por ahi em alguma doen&ccedil;a que
+o sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto
+&eacute; tempo. Quebre por todos os habitos, e escolha
+entre as fortes impress&otilde;es de uma grande
+capital, como Paris ou Londres, ou as mornas
+sensa&ccedil;&otilde;es
+de um completo viver de aldeia. Os revulsivos
+e os emollientes curam por meios oppostos
+&aacute;s vezes as mesmas molestias.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse
+Henrique um presente de fructa de uma sua tia,
+santa creatura que elle, desde crean&ccedil;a, n&atilde;o
+torn&aacute;ra
+a v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho
+onde na idade de cinco annos Henrique pass&aacute;ra
+alguns mezes na companhia de sua m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquelle presente frugal record&aacute;ra-lhe esse tempo,
+j&aacute; meio apagado na memoria, e conseguira fazer-lhe
+saudades. D'ahi uns vagos desejos de voltar
+a v&ecirc;r aquelles sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique
+nomeou-lhe a aldeia, em que esta sua parenta vivia.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para
+que f&ocirc;sse abra&ccedil;ada.
+<br />
+
+<br />
+
+O sobrinho escreveu ent&atilde;o &aacute; tia, e, passados
+dias,
+punha-se a caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Mil vezes se arrependeu, depois da resolu&ccedil;&atilde;o
+tomada;
+mil vezes mandou ao diabo o conselho do
+medico e phantasiou horriveis exacerba&ccedil;&otilde;es em
+todos
+os seus males. Os inconvenientes de uma jornada,
+feita ainda segundo os velhos processos, com
+malas, coldres e pistolas, botas de montar e almocreve,
+ampliava-lh'os a propor&ccedil;&otilde;es estupendas, o
+prisma da hypocondria.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento em que nos associ&aacute;mos ao cavalleiro,
+caira elle n'um desalento profundo, n'um quasi
+<span class="pagenum">[12]</span>
+convencimento de proxima anniquila&ccedil;&atilde;o, do qual
+nem a loquacidade do almocreve, condimentada,
+como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco
+edificantes, o conseguia arrancar.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia mais de uma hora que estavam luctando
+com as difficuldades da ascens&atilde;o do ingreme e escabroso
+caminho, que torneava o monte como as
+voltas de uma helice.
+<br />
+
+<br />
+
+Era este monte uma como irregular pyramide,
+levantada no meio da amplissima bacia, onde tinha
+assento a aldeia que Henrique demandava; por isso
+o estafado rapaz n&atilde;o podia atinar a raz&atilde;o de
+conveniencia
+pela qual, tendo de procurar o valle, assim
+porfiavam em descrever as fastidiosas curvas da
+quasi interminavel espiral, que os approximava do
+vertice.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se concebe uma estrada menos logica do
+que aquella.
+<br />
+
+<br />
+
+No nosso paiz s&atilde;o por&eacute;m frequentes estas faltas
+de logica nas estradas.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve havia-se separado por momentos de
+Henrique com o fim de encurtar distancias, seguindo
+por um atalho s&oacute; franqueavel a gente
+de p&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique nem desvi&aacute;ra os olhos para o fundo
+valle, que se abria &aacute; esquerda, velado pela densa
+nevoa d'aquella atmosphera saturada de humidade,
+nem prestava atten&ccedil;&atilde;o &aacute; agreste e
+selvatica paizagem,
+do lado direito, toda encrespada de pinheiraes
+nascentes e de espinhosas tojeiras.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhos procuravam, em anciosa interroga&ccedil;&atilde;o, o
+mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sitio em
+que ella, formando um cotovello, furtava &aacute; vista o
+seguimento ulterior.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe
+ao viajante, can&ccedil;ado e aborrecido, que pela primeira
+vez as trilha, uma promettedora esperan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'alli verei talvez o termo do caminho&#8213;pensa
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperan&ccedil;a
+lhe foge!
+<br />
+
+<br />
+
+Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar &aacute;
+almejada inflex&atilde;o e quando esperava principiar emfim
+a descer para o valle e approximar-se da aldeia,
+viu que o macho, pratico no caminho, e &aacute;
+disposi&ccedil;&atilde;o
+de cujo instincto elle colloc&aacute;ra a raz&atilde;o, dobrava
+ainda para a direita e continuava a contornar
+e a subir o monte. A espiral n&atilde;o termin&aacute;ra ainda.
+Henrique olhou em torno de si, profundou a vista
+nas sombras do valle, nada p&ocirc;de descobrir, que lhe
+promettesse a aldeia procurada. Muita arvore,
+povoa&ccedil;&atilde;o
+nenhuma!
+<br />
+
+<br />
+
+Teve um paroxismo de impaciencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto n&atilde;o &eacute; estrada!&#8213;exclamou elle,
+exasperado.&#8213;S&atilde;o
+os nove circulos do Inferno de Dante
+virados para f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva
+a augmentar, a calar atrav&eacute;s do grosso gab&atilde;o de
+jornada que Henrique vestia! O desgra&ccedil;ado vergava
+sob o p&ecirc;so da sua consterna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando
+com fleugma desesperadora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com um milh&atilde;o de demonios!&#8213;bradou-lhe
+Henrique, n&atilde;o podendo conter-se.&#8213;Essa maldicta
+terra foge deante de n&oacute;s, homem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos quasi l&aacute;, meu patr&atilde;o. &Eacute; alli
+logo
+adeante&#8213;respondeu o almocreve, sem se alterar.
+V&ecirc; aquella capellinha branca em cima d'aquelle
+monte? pois fica j&aacute; para al&eacute;m da
+povoa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a
+ermida da Senhora da Saude. &Eacute; um instante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desde as duas horas da tarde que me dizes
+que &eacute; um instante, e eu estou acreditando que cada
+vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica alli
+em baixo, para que diabo subimos n&oacute;s? &Aacute;s voltas
+que temos dado, estou persuadido de que vamos
+t&atilde;o adeantados como quando principi&aacute;mos a subir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois olha que d&uacute;vida! Se se f&ocirc;sse a direito
+l&aacute;
+por baixo, era mais perto, mas...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+&#8213;Mas foi ent&atilde;o pelo prazer de trepar, que me
+trouxeste por aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; isso, patr&atilde;o; mas bem
+v&ecirc; v. s.<sup>a</sup> que o caminho
+l&aacute; por baixo &eacute; todo cortado por quintas e campos,
+e &eacute; preciso dar taes voltas, que a final fica mais
+longe. Depois, com a chuva que tem ca&iacute;do, faz l&aacute;
+ideia de que o caminho
+l&aacute; por baixo &eacute; todo cortado por quintas e campos,
+e &eacute; preciso dar taes voltas, que a final fica mais
+longe. Depois, com a chuva que tem ca&iacute;do, faz l&aacute;
+ideia de como est&atilde;o os riachos por l&aacute;!
+S&oacute; o esteiro
+do almargeal &eacute; para uma pessoa se afogar. Mas tenha
+o patr&atilde;o paciencia, que pouco falta agora. V&ecirc;
+v. s.<sup>a</sup> aquelle tronco de sobreiro que parece,
+visto
+d'aqui, um frade de capuz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; alli?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor&#8213;disse o homem, rindo;&#8213;mas
+v&ecirc;em-se d'aquelle sitio as primeiras casas da aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As primeiras!&#8213;murmurou Henrique em tom
+lastimoso; e penderam-lhe os bra&ccedil;os com mais
+desalento e augmentou-se-lhe a flex&atilde;o da columna
+vertebral.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve proseguiu, para o distrair:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho passado por estes sitios muita vez com
+neve de se cortar &aacute; faca e de noite. E olhe que
+nunca tive m&ecirc;do. Qual historia! M&ecirc;do? Isso sim!
+E vamos l&aacute;! o sitio n&atilde;o &eacute; dos mais
+seguros. V&ecirc; o
+senhor essa cruz preta, ahi &aacute; sua m&atilde;o direita,
+pregada
+no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo
+mataram um homem, que vinha com uns centos de
+mil r&eacute;is da feira franca de Vizeu, fez pelo S. Miguel
+um anno. E ainda hoje se est&aacute; para saber quem foi.
+N'um ermo d'estes s&oacute; os santos podem valer a uma
+creatura.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique sentiu-se pouco &aacute; vontade com as
+elucida&ccedil;&otilde;es
+do cicerone; olhou para elle com desconfian&ccedil;a
+e quasi julgou v&ecirc;r moverem-se sombras suspeitas
+por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou
+nos coldres os cabos das pistolas, e approximou as
+esporas dos ilhaes da cavalgadura.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de
+sobreiro, de junto do qual deviam avistar a aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique olhou; viu l&aacute; no fundo do valle muitas
+<span class="pagenum">[15]</span>
+arvores, mas continuou a n&atilde;o enxergar vestigios
+de casas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; a aldeia que dizias, homem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'ahi j&aacute; se v&ecirc;&#8213;disse o almocreve, correndo
+para alcan&ccedil;ar o cavalleiro.&#8213;N&atilde;o v&ecirc; v.
+s.<sup>a</sup>, al&eacute;m,
+al&eacute;m, aquelles pinheiraes mansos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo, sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois j&aacute; s&atilde;o da freguezia. Se f&ocirc;sse
+mais claro
+havia de avistar a casa do guarda. &Eacute; a tapada dos
+Bajuncos, que pertence &aacute; morgadinha dos Cannaviaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o respondeu. A distancia a que ficava
+ainda a tal tapada fel-o suspirar.
+<br />
+
+<br />
+
+Emfim, passados minutos, principiaram a descer
+para o valle, costeando sempre obliquamente o
+monte.
+<br />
+
+<br />
+
+Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar
+um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe
+por entre a rama do arvoredo, mas j&aacute; indistinctamente,
+em virtude do adeantado da hora e da intensidade
+da neblina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; est&aacute; a capella da freguezia&#8213;dizia o homem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alli? &Eacute; um seculo para l&aacute; chegar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! Estamos aqui, estamos l&aacute;. Eh, russo!
+<br />
+
+<br />
+
+E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas
+do macho, que accelerou o passo.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; se f&ocirc;sse mais dia podia-se v&ecirc;r
+d'aqui a
+pedra, que est&aacute; no cemiterio novo, e que &eacute; da
+familia
+da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a m&atilde;e
+d'ella a primeira pessoa que l&aacute; se enterrou, e
+at&eacute;
+hoje mais ninguem. O povo, como o outro que diz,
+tem sua aquella em se enterrar f&oacute;ra da egreja. Elle,
+a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do
+costume... mas emfim a gente foi creada n'isto...
+Mas a pedra &eacute; coisa asseada. &Eacute; como as que
+est&atilde;o
+na cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, transido de frio, quebrado de desalento,
+j&aacute; nem attendia ao que o homem ia dizendo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+Cerr&aacute;ra-se a noite de todo, quando attingiram emfim
+o valle. O terreno mudava agora de aspecto.
+Appareciam j&aacute;, aqui e alli, alguns indicios de cultura,
+annunciando a proximidade de um povoado. Os
+caminhos estreitavam, internando-se no valle, e seguiam
+tortuosamente por entre muros t&ocirc;scos de
+pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva,
+que n&atilde;o cess&aacute;ra de cair, transform&aacute;ra
+estes caminhos,
+onde o declive n&atilde;o dava escoamento &aacute;s aguas,
+em charcos e tremedaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Novos indicios da vizinhan&ccedil;a da aldeia iam successivamente
+apparecendo.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui era uma manada de bois soltos, em direc&ccedil;&atilde;o
+do curral, guiados por uma crean&ccedil;a de palho&ccedil;a e
+pernas nuas, os quaes paravam a olhar com aquella
+express&atilde;o de composta curiosidade, que lhes &eacute;
+peculiar,
+para o recem-chegado visitante da aldeia.
+N&atilde;o faltou receio a Henrique, que supp&ocirc;z a estes
+bonacheir&otilde;es quadrupedes a indole trav&ecirc;ssa e
+bravia
+dos touros, a cuja chegada tantas vezes f&ocirc;ra
+assistir em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais adeante passava por elles uma fileira de
+carros a vergarem sob o p&ecirc;so do matto e atroando
+os ares com o chiar inc&oacute;mmodo das rodas sob o
+eixo, inc&oacute;mmodo para os ouvidos cidad&atilde;os de
+Henrique,
+cujos nervos se irritavam com elle, mas apparentemente
+agradabilissimo para os conductores
+alde&atilde;os, que ou dormiam ou cantavam com aquelle
+acompanhamento.
+<br />
+
+<br />
+
+N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe j&aacute; algumas
+casas de tectos de colmo, de cujas innumeras
+fendas sa&iacute;a um fumo esp&ecirc;sso, que a atmosphera
+humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado
+de Henrique de Souzellas o cheiro resinoso
+e activo das pinhas e das agulhas s&ecirc;ccas dos
+pinheiros, queimadas no lar, produziam sensa&ccedil;&otilde;es
+muito longe de serem agradaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia
+que j&aacute; lhe tom&aacute;ra o animo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+&#8213;Tantas fadigas para este resultado!&#8213;pensava
+elle.&#8213;Sair de Lisboa para me enterrar n'esta aldeia
+escura e suja! Enganou-se o parvo do doutor.
+Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro
+por certo aqui. Deus lhe perd&ocirc;e o homicidio.
+<br />
+
+<br />
+
+Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual
+mais tortuoso e inc&oacute;mmodo de trilhar; as curvas
+complicavam-se como as ruas de um labyrintho.
+Aqui subiam; desciam mais al&eacute;m, para subir outra
+vez. Umas vezes caminhavam em terreno descoberto,
+outras penetravam em t&atilde;o estreitas quelhas,
+apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas
+de ramos entrela&ccedil;ados, que s&oacute; o instincto do
+animal podia evitar-lhes os perigos. Ora soavam as
+patas do macho como em ch&atilde;o lageado, ora amortecia-lhes
+o som um terreno, que a chuva encharcava,
+e a agua lamacenta vinha salpicar o rosto do
+cavalleiro.
+<br />
+
+<br />
+
+As casas eram j&aacute; frequentes, e algumas de menos
+humilde apparencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os c&atilde;es, que, pelo timbre de voz, mostravam ser
+gigantes, ladravam raivosos por dentro dos port&otilde;es
+ou de sobre os muros das quintas, ao ouvirem os
+passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que
+falava ou cantava sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+Outras vezes era um inharmonico grunhir suino
+que accusava a vizinhan&ccedil;a das c&oacute;rtes ou, partindo
+de um casebre rustico, o chorar de crean&ccedil;as, entremeado
+com os ralhos das m&atilde;es e com as pragas
+dos chefes de familia.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve n&atilde;o desistira das suas
+func&ccedil;&otilde;es
+de cicerone, que s&oacute;mente interrompia para saudar
+alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estes campos e lameiros&#8213;ia dizendo&#8213;s&atilde;o
+da morgadinha dos Cannaviaes; andam arrendados
+a um compadre meu.
+<br />
+
+<br />
+
+E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente
+allumiada por uma candeia:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[18]</span>
+&#8213;Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; vossemec&ecirc;, sr. Jos&eacute;?
+Ent&atilde;o n&atilde;o entra?&#8213;respondia-lhe
+uma voz feminina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, n&atilde;o, &aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+E proseguiu para Henrique:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma santa creatura. A morgadinha...
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique interrompeu-o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde fica a final, a quinta de Alvapenha?
+onde mora minha tia? N&atilde;o me dir&aacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; logo ahi adeante, meu patr&atilde;o. Em
+n&oacute;s passando
+umas casas amarellas que ha ahi... &eacute; logo
+ao p&eacute;. Essas casas que digo s&atilde;o tambem da
+morgadinha,
+mas ha uma demanda pelos modos.
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve falava pela decima ou undecima vez
+na morgadinha. At&eacute; esta periodica
+referencia a uma
+personagem que elle n&atilde;o conhecia, impacientava
+Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+E continuavam a succeder-se em enredado dedalo
+as quelhas e azinhagas, a ponto de fazer perder
+toda a orienta&ccedil;&atilde;o. Umas vezes ouviam o ruido
+das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado;
+adeante, transpunham uma ponte rustica, escutando
+das profundezas do despenhadeiro, que ella
+atravessava, o fragor das cascatas nos a&ccedil;udes ou o
+ranger das rodas dos moinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique a cada momento imaginava cair n'um
+abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o os a&ccedil;udes do Casal&#8213;dizia o
+almocreve
+berrando para se fazer ouvir atrav&eacute;s do estrondo
+da torrente.&#8213;Pertencem &aacute; morgadinha dos Cannaviaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique nem alento j&aacute; tinha para falar.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia
+t&atilde;o cerrada lhe envolveu o cora&ccedil;&atilde;o a
+nuvem de melancolia,
+que cedeu sem resistencia ao crescente
+torpor que o invadia, como o que desespera da vida
+e da salva&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais adeante, excitou-lhe ainda as atten&ccedil;&otilde;es uma
+<span class="pagenum">[19]</span>
+toada plangente, melancolica, monotona, que exacerbou
+estes effeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma fiada em casa do Tapadas&#8213;disse o
+almocreve.&#8213;&Eacute; um dos maiores amigos do pae da
+morgadinha. V&ecirc; aquelle muro acol&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o vejo nada. Deixa-me!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois pertence j&aacute; &aacute; quinta dos Cannaviaes, que
+a morgadinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha&#8213;exclamou
+Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Era evidente emfim que estavam em pleno cora&ccedil;&atilde;o
+do povoado. As casas appareciam mais juntas.
+De algumas sa&iacute;a um surdo rumor de vozes que tinha
+o que quer que era de lugubre. Era a cor&ocirc;a
+rezada em familia a Nossa Senhora. A voz grave
+do lavrador casava-se com a voz quebrada e tr&eacute;mula
+do av&ocirc;, com a voz sonora e fresca da m&atilde;e, e
+a juvenil das raparigas e crean&ccedil;as n'aquelle piedoso
+c&ocirc;ro, produzindo um effeito que acabou por levar
+ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha,
+que n&atilde;o a acabamos de attingir?
+<br />
+
+<br />
+
+O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu
+uma chicotada sibilante junto &aacute;s orelhas do muar,
+o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira
+orlada de arvores, volveu &aacute; direita e, &aacute; voz do
+almocreve,
+estacou em frente de um port&atilde;o de quinta
+resguardado por um telheiro rustico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; aqui&#8213;disse o guia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; que emfim!&#8213;exclamou Henrique, suspirando.
+Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo
+tempo, como o do homem can&ccedil;ado da vida, quando
+antev&ecirc; o repouso do tumulo. Em Henrique era intima
+a convic&ccedil;&atilde;o de que a quinta de Alvapenha lhe
+havia de servir de cemiterio.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+<h4>II
+</h4>
+
+<br />
+
+O almocreve assentou duas vigorosas pancadas
+no solido port&atilde;o de castanho, deante do qual tinham
+parado.
+<br />
+
+<br />
+
+As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as
+de dois c&atilde;es, que acudiram de longe ao signal e
+vieram ladrar &aacute; porta com furia, que fez agourar
+mal a Henrique da cordialidade da recep&ccedil;&atilde;o que o
+esperava. De facto as inten&ccedil;&otilde;es dos quadrupedes
+n&atilde;o pareciam demasiado hospitaleiras. O almocreve
+divertia-se excitando-os de f&oacute;ra com uma vara de
+vime, apesar de quantas recommenda&ccedil;&otilde;es de
+prudencia
+lhe fazia Henrique, n&atilde;o em demasia socegado.
+<br />
+
+<br />
+
+A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando
+os c&atilde;es &aacute; ordem, se &eacute; licito, sem
+irreverencia,
+empregar n'este caso a phrase consagrada para
+outro genero de algazarra.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos,
+levantar a aldraba, gemerem os gonzos, e emfim
+um homem de lavoura alto e magro, trazendo em
+punho um lampe&atilde;o de frouxissima luz, appareceu-lhes
+&aacute; porta e saudou-os com a f&oacute;rmula do estylo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora Nosso Senhor lhes d&ecirc; muito boas noites.
+<br />
+
+<br />
+
+E, levantando a luz &aacute; altura do rosto de Henrique,
+poz-se a miral-o com a menos ceremoniosa curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o sobrinho c&aacute; da senhora, n&atilde;o
+&eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; um tempo muito az&ecirc;do. Eu j&aacute;
+julgava que
+n&atilde;o vinham. Entre.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o se resolvia a acceitar o convite,
+porque lhe continuavam a imp&ocirc;r respeito os olhares
+ferinos e os rugidos surdos dos dois fa&ccedil;anhosos
+<span class="pagenum">[21]</span>
+quadrupedes, cuja m&aacute; vontade era a custo refreada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entre, entre&#8213;insistia o homem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas esses animalejos?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! isto n&atilde;o faz mal. Sae-te p'ra l&aacute;, Lobo:
+passa, Tyranno!
+<br />
+
+<br />
+
+Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem
+que n&atilde;o faziam mal!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C'os diabos! ti'Manuel&#8213;disse o almocreve&#8213;em
+occasi&atilde;o de se esperarem hospedes, n&atilde;o se soltam
+assim os c&atilde;es. Os diabos n&atilde;o s&atilde;o
+nenhuns
+cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Jo&atilde;osinho das
+Perdizes, que por pouco lhes deixava nos dentes
+as barrigas das pernas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Forte perca!&#8213;resmoneou o outro.&#8213;N&atilde;o trouxesse
+c&aacute; os d'elle. N&atilde;o tem d&uacute;vida; entre o
+senhor,
+que elles n&atilde;o lhe fazem mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o entro; assim &eacute; que n&atilde;o
+entro&#8213;teimou
+Henrique, a quem as palavras do almocreve acabaram
+de fortificar na sua resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem em vista d'isto encolheu os hombros e
+bradou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Luiz!
+<br />
+
+<br />
+
+Uma crean&ccedil;a de cinco annos, e quasi nua, correu
+ao chamamento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enxota para l&aacute; esses c&atilde;es, que aqui o senhor
+tem m&ecirc;do.
+<br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a, &aacute; palavra m&ecirc;do, fitou
+Henrique com
+uns olhos espantados, e tomando do ch&atilde;o um tronco
+de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas feras,
+que, com todos os signaes de respeito, de orelha
+baixa e cauda abatida, fugiram deante d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um
+tanto maltratado com o desfecho da scena; mas a
+prudencia consolava-o, dizendo-lhe que and&aacute;ra ajuizadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora vossemec&ecirc;&#8213;disse o camponez para o
+almocreve&#8213;arranje-se
+como puder e mais a b&ecirc;sta ahi
+pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+&#8213;V&atilde;o, v&atilde;o com Nossa Senhora, que eu
+c&aacute; me
+arranjarei. Muito boas noites, sr. Henriquinho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Jos&eacute;&#8213;disse Henrique, passando para
+a m&atilde;o do guia a esportula da gorgeta, e ap&oacute;s
+seguiu,
+com as pernas tr&ocirc;pegas de cavalgar, o homem
+do lampe&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era para dissipar a impress&atilde;o penosa, que
+subjugava o espirito de Henrique, o aspecto que lhe
+offerecia, &aacute;quella hora da noite, a parte da quinta,
+por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro
+ou eido, estradado de altas camadas de matto
+e embebido de chuva, d'onde se exhalava um cheiro
+de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado
+a estes aromas campezinos. A luz do lampe&atilde;o
+a custo conseguiu evitar a Henrique o trope&ccedil;ar
+n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia
+para gallinhas, e em outros objectos que atrancavam
+o quinteiro. Transpondo a cancella que terminava
+este, seguiram por uma rua de folhas; atravessaram
+diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia;
+ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados
+mais alguns rodeios, acharam-se finalmente junto
+da escadaria de pedra, por onde se subia para uma
+especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia
+de um modesto portico &aacute; casa de Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+A propriedade da tia de Henrique era um genuino
+typo de casa rustica, &aacute; moda do Minho.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar
+os objectos &aacute; escassa luz que os allumiava, recebeu
+Henrique a primeira impress&atilde;o agradavel de
+toda aquella mal estreada excurs&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre
+avivaram n'elle memorias, quasi apagadas.
+Lembrava-se agora vagamente de ter brincado alli,
+a cavallo n'esse mesmo parapeito, ent&atilde;o, como agora,
+enfeitado de uma formidavel cohorte de aboboras meninas,
+victimas votadas &aacute;s festas do proximo Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um
+<span class="pagenum">[23]</span>
+grande vaso de lou&ccedil;a, que elle, havia vinte e tantos
+annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia vaga de
+haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de
+se certificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a
+aza, sendo este o unico estrago que ap&oacute;s tanto
+tempo o velho utensilio soffr&ecirc;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; admiravel!&#8213;n&atilde;o p&ocirc;de deixar de
+exclamar
+Henrique ao fazer a descoberta, vendo que em oito
+dias operava maior reforma nos seus aposentos em
+Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava
+em Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+O hortel&atilde;o bateu &aacute; porta e disse para dentro que
+era o sobrinho da senhora que chegava.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de
+vozes, um arrastar de passos; moveu-se a chave na
+fechadura; abriram-se as portas e no limiar appareceu
+de bra&ccedil;os abertos a tia Doroth&eacute;a, e por traz
+d'ella, elevando a luz acima do hombro da ama, a
+criada Maria de Jesus, a que, havia trinta annos,
+lhe era companheira e interessada em lagrimas e
+pesares. J&aacute; Henrique lhe and&aacute;ra ao collo no tempo
+em que estivera crean&ccedil;a na quinta.
+<br />
+
+<br />
+
+Deante da figura esbelta, do typo varonil e do
+comprido bigode de Henrique, a sr.<sup>a</sup>
+Doroth&eacute;a reprimiu
+as suas expans&otilde;es e quasi recuou.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca mais vira Henrique desde que este, aos
+cinco annos, deix&aacute;ra Alvapenha, e dir-se-hia que
+esperava ainda encontrar os mesmos cabellos louros
+e annelados e o mesmo rosto menineiro da trav&ecirc;ssa
+crean&ccedil;a de outros tempos, em vez do homem
+feito, em que os vinte e tantos annos volvidos o
+tinham transformado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha d'estas illus&otilde;es na gente.
+<br />
+
+<br />
+
+A mais segura raz&atilde;o n&atilde;o est&aacute; precavida
+contra
+ellas; a infundada surpreza invade-nos de subito, e
+os labios n&atilde;o podem prender a
+exclama&ccedil;&atilde;o que a
+denuncia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois na verdade tu &eacute;s o Henriquinho?!&#8213;disse
+espantada a boa senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+&#8213;Eu julgo que sim, tia Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu! Ai como est&aacute;s um homem! &Oacute; Maria de
+Jesus, voc&ecirc; n&atilde;o quer v&ecirc;r isto!?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece mesmo um soldado!&#8213;disse a criada,
+igualmente estupefacta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Credo, mulher! Santissima Trindade! Voc&ecirc; que
+est&aacute; a dizer? Nossa Senhora nos livre de tal!&#8213;exclamou
+a ama, em cujo conceito o soldado estabelecia
+a transi&ccedil;&atilde;o do homem para o diabo.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto Henrique de Souzellas abra&ccedil;ava a
+tia, que havia tanto tempo que n&atilde;o vira, e ella
+correspondia-lhe,
+beijando-o com todo o carinho e chorando.
+<br />
+
+<br />
+
+Chorando por qu&ecirc;? Por qu&ecirc;? Pela muita bondade
+que tinha n'aquella alma. A bondade &eacute; um rico manancial,
+que brota lagrimas ao toque da menor
+commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o tinha ainda bem conseguido libertar-se
+dos roxeados amplexos e mais provas de
+affecto de sua tia, quando se sentiu pr&ecirc;so em novos
+la&ccedil;os. Era Maria de Jesus, que o abra&ccedil;ava tambem
+e lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados,
+como aquelles que veem a ferver do cora&ccedil;&atilde;o, e
+isto
+acompanhado de um&#8213;Ai o meu rico filho!&#8213;t&atilde;o
+eloquente como os beijos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, habituado &aacute;s etiquetas da
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+urbana, que estabelece entre amos e criados distancias
+desconhecidas na aldeia, extranhou um pouco
+a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflex&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Maria de Jesus dizia, ainda admirada:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhora! N&atilde;o que uma coisa assim! Pois
+&eacute;
+este o menino que vinha &aacute; cozinha limpar o tacho,
+em que se fazia a marmelada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! E que boa marmelada c&aacute; se fazia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lambareiro!&#8213;disse a tia, sorrindo.&#8213;Se eu
+soubesse que eras assim, n&atilde;o tinha mandado lavar
+o tacho do d&ocirc;ce, que ainda hoje serviu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Ent&atilde;o ainda se faz d&ocirc;ce c&aacute; em
+casa, como
+d'antes?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[25]</span>
+&#8213;Pois ent&atilde;o? todos os annos. Mas valha-me
+Deus! E n&atilde;o querem v&ecirc;r n&oacute;s aqui postas
+&aacute; palestra!
+Entra, menino, entra c&aacute; para dentro, que est&aacute;
+frio
+e tu deves vir can&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um pouco, um pouco, tia Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique entrou para a sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Demoremo-nos no limiar para informar o leitor
+sobre as pessoas, em cuja casa se vae alojar com
+Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imagina a santa paz de espirito, a placidez
+de paraiso, que estas duas mulheres&#8213;D. Doroth&eacute;a
+e Maria de Jesus, ama e criada&#8213;gosavam na quinta
+de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar
+allivio aos seus muitos e variados males.
+<br />
+
+<br />
+
+Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas
+aos seus habitos, ambas muito tementes a Deus e
+amigas do proximo, as duas celibatarias passavam
+alli uma vida, rescendente a um suave perfume de
+santidade, como o da alfazema e do rosmaninho,
+que lhes aromatizava as gavetas e de que se repassava
+toda a roupa branca, objecto muito dos seus
+cuidados.
+<br />
+
+<br />
+
+A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos
+entre as duas, poderia ser exemplo &aacute; maior
+parte das familias d'este mundo. Entre velhas, que
+nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral
+faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais
+para admirar o caso.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinham ellas por&eacute;m a precisa tolerancia para fazerem
+mutuas concess&otilde;es; cada uma fechava os
+olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria
+bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu
+uma s&oacute; palavra, que, por mais alto pronunciada
+ou por menos expressiva de paciencia, destoasse
+da invariavel monotonia dos seus habituaes
+dialogos.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram um exemplo edificante para os vizinhos,
+que, pela maior parte, devorados por demandas entre
+primos e irm&atilde;os, paes e filhos, marido e mulher,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+mostravam infelizmente ser esta aben&ccedil;oada semente
+ca&iacute;da em improductivo terreno.
+<br />
+
+<br />
+
+As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento
+affligiam as duas sexagenarias e augmentavam
+o numero de Padre-Nossos com que todas
+as noites se faziam lembrar dos santos, de quem
+eram validas, pedindo-lhes a felicidade dos outros
+tanto ou mais do que a sua propria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvir rezar as duas santas velhas&#8213;e era essa a
+occupa&ccedil;&atilde;o dos seus curtos
+ser&otilde;es&#8213;equivalia a escutar
+uma resenha das differentes calamidades, que
+perseguem e apoquentam o genero humano, e que
+ellas, d'esta maneira, pretendiam evitar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Mar&ccedil;al,
+para que nos livre do fogo&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a,
+e seguia-se o Padre-Nosso.&#8213;Outro a Santa Luzia
+milagrosa, para que nos d&ecirc; vista e claridade na alma
+e no corpo; outro a S. Braz, para que nos proteja
+da garganta; outro a S. Vicente, por causa das bexigas,
+etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os
+que andam sobre as aguas do mar; outro por os
+pobres sem abrigo nem alimento; outro por os orph&atilde;os;
+outro pelos doentes; um pelos vivos; outro
+pelos mortos; um pelos justos; outro pelas almas
+do purgatorio, n&atilde;o hesitando at&eacute; a sua caridade
+em
+transp&ocirc;r as portas do inferno e pedir tambem a
+remiss&atilde;o dos condemnados. E ainda depois d'esta
+minuciosa e longa enumera&ccedil;&atilde;o, um ultimo
+Padre-Nosso
+fechava a primeira serie, comprehendendo
+todos os n&atilde;o contemplados por esquecidos, ou por
+n&atilde;o terem logar na classifica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Compunha a segunda serie a men&ccedil;&atilde;o especial de
+cada uma das pessoas fallecidas das suas
+rela&ccedil;&otilde;es:
+parentes, amigos e conhecidos, por cujo &laquo;eterno
+descan&ccedil;o entre os resplendores da luz perpetua&raquo;
+oravam com verdadeira compun&ccedil;&atilde;o. N'esta phalange
+ia tambem D. Jo&atilde;o VI, por quem, havia quarenta
+annos, se costum&aacute;ra a rezar D. Doroth&eacute;a, e
+n&atilde;o era
+ella mulher que rompesse com habitos semi-seculares.
+<span class="pagenum">[27]</span>
+Era esse talvez o unico Padre-Nosso que a alma
+do monarcha recebia no C&eacute;o, com procedencia do
+seu antigo reino.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto &aacute;s qualidades physicas, a
+imagina&ccedil;&atilde;o dos
+leitores pintar-lh'as-ha melhor do que a minha
+descrip&ccedil;&atilde;o.
+For&ccedil;osamente conheceram uma d'estas boas
+velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem
+se estima e com quem se brinca ao mesmo tempo;
+que nos podem inspirar sacrificios e simultaneamente
+nos tentam a travessura; a quem mystificamos
+agora e logo beijamos respeitosamente a m&atilde;o;
+contra quem n&atilde;o reprimimos impaciencias, escutando
+depois submissos os seus nunca terminados
+serm&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora estas velhas assim teem quasi sempre um
+typo uniforme, que &eacute; o reflexo exterior da bondade
+do cora&ccedil;&atilde;o; esse era o typo da tia
+Doroth&eacute;a com o
+seu vestido r&ocirc;xo, o seu len&ccedil;o castamente cruzado
+no peito, a sua touca de folhos alvissimos e de fitas
+escuras, o m&oacute;lho de chaves &aacute; cinta, o livro de
+ora&ccedil;&otilde;es
+na algibeira e os oculos a marcarem no livro
+a reza habitual.
+<br />
+
+<br />
+
+Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma
+edi&ccedil;&atilde;o popular da mesma alma. Succed&ecirc;ra
+de mais
+com ellas o que &eacute; sempre de esperar de uma longa
+e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado
+maneiras e modos de pensar e de v&ecirc;r e de
+dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer
+d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo
+de conclus&atilde;o, se deduzia a outra facilmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao
+primeiro exame que fez das duas santas mulheres.
+<br />
+
+<br />
+
+Entremos agora com elle para dentro da sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa
+de Alvapenha e ahi voltasse de novo com Henrique
+julgaria, &aacute; vista da uniforme
+disposi&ccedil;&atilde;o de coisas
+mantida alli dentro em t&atilde;o distantes &eacute;pocas, que
+todo esse tempo n&atilde;o f&ocirc;ra mais do que um sonho
+de momentos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+Encontraria os mesmos m&oacute;veis, na mesma
+colloca&ccedil;&atilde;o;
+as mesmas cobertas nos leitos, apenas mais
+desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas janellas;
+o mesmo cheiro de feno e alfazema na
+atmosphera dos quartos, os mesmos quadros na
+parede, as mesmas jarras nas c&oacute;mmodas.
+<br />
+
+<br />
+
+A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana
+memoria de rapaz estouvado, sentia-se acordar,
+&aacute; vista d'aquillo tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+A sala tinha uma physionomia caracteristica.
+<br />
+
+<br />
+
+Supponha-se uma n&atilde;o muito ampla quadra de
+pouca altura, toda pintada a &oacute;ca, e alumiada por
+duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus
+competentes assentos de pedra, um defronte do outro,
+com meias cortinas de cambraia sempre corridas&#8213;pleonasmo
+de discri&ccedil;&atilde;o que se n&atilde;o justificava,
+visto que as janelas, abrindo para a quinta,
+n&atilde;o tinham vizinhan&ccedil;a de cujos olhares
+precisassem
+de recatar-se. O tecto era de almofadas de castanho,
+em tempos pintado de azul, agora de uma c&ocirc;r duvidosa.
+Havia quinze annos que D. Doroth&eacute;a falava
+em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso
+como era, ia sendo adiado de primavera para primavera.
+Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija
+saliente, onde coroadas ma&ccedil;&atilde;s de inverno
+aguardavam,
+em vistosa fileira, a completa matura&ccedil;&atilde;o, e
+derramavam no aposento o mais agradavel aroma.
+O pavimento, apesar de muito picado de caruncho,
+andava limpo e <em>escafunado</em>&#8213;termo do
+vocabulario
+de casa&#8213;que mettia g&ocirc;sto v&ecirc;l-o. Cada parede era
+um museu de estampas de devo&ccedil;&atilde;o. Poucos santos
+e santas da c&ocirc;rte celestial n&atilde;o estavam alli
+representados
+e com um colorido, que era o maior peccado,
+a que estes bemaventurados haviam dado logar
+c&aacute; no mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+C&aacute; se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras;
+Santa Anna ensinando Nossa Senhora a
+ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. Jo&atilde;o Novo,
+no Porto; o Bom Jesus de Bou&ccedil;as,
+representa&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[29]</span>
+da imagem, que, segundo reza a respectiva
+chronica, &eacute; obra das m&atilde;os de Jos&eacute; de
+Nicodemus;
+os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de
+S. Francisco, etc., etc. Sobre a c&oacute;mmoda de pau
+preto era devotamente venerado o mais rubicundo,
+menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda
+modelaram as m&atilde;os de santeiro afamado. E seja
+dito de passagem que n&atilde;o sei por que a
+tradi&ccedil;&atilde;o
+popular d&aacute; a este austero franciscano o aspecto
+chorudo de um moderno reitor de farta abbadia de
+aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+No interior da redoma onde se abrigava o santo
+estava estabelecido o museu de raridades da tia Doroth&eacute;a.
+Eram flores artificiaes, concharinhas e caramujos,
+um rosario de caro&ccedil;os de azeitonas, uns
+poucos de vintens de prata, enfiados e pendentes
+do bra&ccedil;o do menino Jesus, que o santo sustentava
+ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha
+benta, uma medida do bra&ccedil;o do Senhor de Mattosinhos,
+um p&atilde;o do sacco de Santa Isabel, que vae
+na prociss&atilde;o de Cinza, no Porto, e outros objectos
+curiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha,
+que gemiam quando entravam em servi&ccedil;o,
+como militar, cujas articula&ccedil;&otilde;es o rheumatismo
+invadiu;
+mesas cobertas com colchas de chita; bah&uacute;s
+cravados de pregaria amarella, disposta em lettras
+e arabescos; uma papeleira de pau santo, e uma
+gaiola com um canario decrepito, objecto, havia
+muitos annos, das tenta&ccedil;&otilde;es de um gato, mais
+decrepito
+do que elle e pertencente &aacute;s classes inactivas.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de
+beatitude e de antiguidade que alli se respirava, os
+habitos da casa, sentia j&aacute; certo desconf&ocirc;rto, como
+de quem &eacute; arrancado de subito ao ambiente, em
+que se educou e vive, e engolfado n'um ambiente
+extranho; especie de asphyxia moral, n&atilde;o menos
+angustiosa do que a do peixe f&oacute;ra da agua.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+A saudade que ao principio sentira, dissip&aacute;ra-se
+j&aacute;. O perfume da saudade &eacute; como o de certas
+flores,
+que s&oacute; se percebe quando de longe o recebemos.
+Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto,
+dissipa-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Acontecera isto com Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a
+cren&ccedil;a de que n&atilde;o seria por muito tempo que se
+demoraria alli.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os emollientes do doutor&#8213;pensava elle, emquanto
+sua tia falava&#8213;ser&atilde;o efficazes para quem
+os pud&eacute;r soffrer sem enj&ocirc;o, mas para mim...
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto sentou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o Henriquinho!&#8213;dizia ainda D. Doroth&eacute;a,
+pondo-se de bra&ccedil;os cruzados em
+contempla&ccedil;&atilde;o defronte
+d'elle.&#8213;&Oacute; menino, onde foste tu arranjar
+esses bigodes tamanhos? Ent&atilde;o isso agora usa-se?
+<br />
+
+<br />
+
+Pergunta que sobremaneira embara&ccedil;ou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem quer usar, usa, tia. N&atilde;o &eacute;
+obriga&ccedil;&atilde;o&#8213;respondeu
+elle, com leve mau humor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em nome do Padre e do Filho!&#8213;dizia Maria
+de Jesus, benzendo-se e tomando logar ao lado da
+ama.&#8213;At&eacute; nem sei que parece, lembrar-se a gente
+que trouxe este marmanj&atilde;o ao collo!
+<br />
+
+<br />
+
+O termo &laquo;marmanj&atilde;o&raquo; n&atilde;o soou
+bem a Henrique.
+Principiava tambem a impaciental-o o v&ecirc;r as duas
+embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito a
+uma exposi&ccedil;&atilde;o d'estas, por mais que
+fa&ccedil;a, n&atilde;o atina
+com o modo de arrostar com ella, que n&atilde;o seja ridiculo.
+Ora Henrique, como todo o homem da sociedade,
+o que mais que tudo temia n'este mundo
+era o ridiculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente acudiu-lhe a caridosa interven&ccedil;&atilde;o da
+tia Doroth&eacute;a, que fez perceber &aacute; criada a
+conveniencia
+de ir preparando a ceia de Henrique, que
+havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de n&atilde;o
+costumar cear, acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas
+e a m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o dos ultimos dias,
+haviam-lhe
+<span class="pagenum">[31]</span>
+desafiado o appetite. Demais, o espanto de
+D. Doroth&eacute;a, quando lhe ouviu dizer que as ceias
+n&atilde;o entravam nos seus habitos, foi tal que lhe tirou
+o animo de rejeitar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ceias! &Oacute; menino, que me dizes?
+ent&atilde;o
+vaes-te deitar sem ceia? Ora essa! Por isso voc&ecirc;s
+s&atilde;o uns pelens. Vejam l&aacute; que arranjo este! ficar
+toda a santa noite sem alguma coisa que d&ecirc; sustento
+ao estomago, que aconchegue. Nada, nada; a
+ceinha em todo o caso. E tu has de tambem querer
+mudar de fato?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu venho bastante molhado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, ent&atilde;o depressa, menino, que n&atilde;o ha nada
+peor do que a roupa molhada no corpo. &Oacute; Maria...
+ou deixe estar, eu vou... Anda, Henriquinho,
+anda l&aacute;, que eu guio-te ao teu quarto para te
+arranjares.
+<br />
+
+<br />
+
+Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado
+e commodamente vestido, saboreava uma gorda gallinha
+de canja, sobre uma mesa coberta de toalha
+lavada, e na melhor lou&ccedil;a da copeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle que tinha sempre severidades de critica contra
+os mais afamados cozinheiros de Lisboa, estava
+achando deliciosa aquella comida primitiva, com
+que o regalava a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta sentou-se a v&ecirc;l-o comer, e com a mesma
+familiaridade, que Henrique j&aacute; anteriormente
+extranh&aacute;ra,
+Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.
+<br />
+
+<br />
+
+Ambas tinham ceado j&aacute;; pois que o faziam ao
+cerrar da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem
+de o observar com a natural curiosidade de quem
+havia tanto tempo n&atilde;o tivera um hospede, faziam-lhe
+perguntas, &aacute;s quaes elle ia respondendo conforme
+lhe era possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu dizias-me na tua carta que estavas doente;
+pois olha que na cara n&atilde;o o parece.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;concordou a criada&#8213;tem boas c&ocirc;res,
+e, vamos, a magreza inda n&atilde;o &eacute; l&aacute;
+essas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu
+logo ao reclamo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me digam isso! Ent&atilde;o n&atilde;o
+v&ecirc;em como
+estou? Pois isto &eacute; l&aacute; c&ocirc;r de saude? de
+febre, ser&aacute;.
+Gordo? pois acham-me gordo?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gordo, n&atilde;o digo, mas assim, assim... E depois
+como vieste de jornada... Mas a final que molestia
+&eacute; a tua, menino?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute;, tia Doroth&eacute;a? Nem os medicos a
+conhecem
+bem. &Eacute;, entre outras coisas, uma tristeza,
+uma melancolia, que me n&atilde;o deixa, que me persegue
+por toda a parte. &Aacute;s vezes parece-me que sinto
+apertar-se-me dolorosamente o cora&ccedil;&atilde;o; outras,
+s&atilde;o
+palpita&ccedil;&otilde;es, ancias... Tenho quasi vontade de
+chorar,
+irrito-me, impaciento-me, n&atilde;o quero que me falem,
+nada quero v&ecirc;r, nada quero ouvir; n&atilde;o leio,
+n&atilde;o durmo, n&atilde;o como. Finalmente todo eu sou
+doen&ccedil;a e tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+A boa tia Doroth&eacute;a olhava com sisudez e
+atten&ccedil;&atilde;o
+para o sobrinho, emquanto elle falava, e na
+physionomia iam-se-lhe desenhando, ao ouvil-o, os
+mais expressivos signaes de espanto e
+consterna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim que Henrique terminou a exposi&ccedil;&atilde;o, ella
+disse-lhe com uma adoravel candura:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; assim uma especie de mania!
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; palavra &laquo;mania&raquo; Henrique
+sobresaltou-se. Seria
+a consciencia que se sentiu ferida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mania? &Oacute; tia Doroth&eacute;a! Mania! Veja bem,
+olhe que o termo &eacute; forte? Mania!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, menino&#8213;insistiu ingenuamente a boa senhora&#8213;pois
+olha que n&atilde;o &eacute; outra coisa. Pois isto
+de estar triste sem ter de qu&ecirc;... sim... porque
+n&atilde;o te morrendo ninguem, nem te doendo nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&Oacute; poetas devaneiadores, &oacute; almas melancolicas,
+que percebeis no sussurrar das brisas, no ciciar das
+folhas, no murmurar dos arroios, queixas occultas
+de dryades e de nayades, sentidas vibra&ccedil;&otilde;es das
+harpas de fadas aereas, que vivem em palacios de
+<span class="pagenum">[33]</span>
+nuvens; &oacute; cora&ccedil;&otilde;es inoculados de
+poesia, que vos
+confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar
+do dia, ao desfolhar das arvores no outomno;
+poetas, que escutaes, com Victor Hugo, as vozes
+interiores, os cantos do crepusculo, e com elle
+adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras,
+perdoae a involuntaria blasphemia da tia Doroth&eacute;a,
+que n&atilde;o contem o menor fermento de malicia; perdoae-lhe
+a dura express&atilde;o de que ella se serviu para
+caracterisar os vossos arroubamentos, as vossas
+tristezas vagas, os vossos devaneios, e cr&ecirc;de que,
+apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada
+para sympathisar comvosco, do que tantas
+que por ahi fazem gala de vos comprehender melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o podia por&eacute;m digerir a
+express&atilde;o,
+de que se servira a tia, para diagnosticar o seu
+mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mania!&#8213;repetia elle&#8213;essa agora! Sempre &eacute;
+forte de mais. Mania, n&atilde;o, tia Doroth&eacute;a,
+l&aacute; isso n&atilde;o.
+Mania!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe digo&#8213;acudiu a criada.&#8213;N&atilde;o v&aacute; sem
+resposta; que est&aacute; quasi como o cunhado da Rosa
+do Bacello. A senhora n&atilde;o se lembra? Andou aquella
+alminha por ahi sempre triste, sempre a falar s&oacute;,
+at&eacute; que a final l&aacute; foi parar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aonde?&#8213;perguntou Henrique, erguendo os
+olhos interrogadoramente para a criada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; foi parar a Rilhafolles&#8213;concluiu esta, espevitando
+a v&eacute;la o mais naturalmente d'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem acabou de sorver a ultima colh&eacute;r de caldo
+de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar
+lhe soubera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o comes mais?&#8213;perguntou a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito agradecido; eu o mais que tenho &eacute;
+somno.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas &eacute; preciso fazer por comer&#8213;insistiu
+ella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+&#8213;Ora v&aacute; mais este c&ocirc;x&atilde;o&#8213;disse a
+criada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; possivel&#8213;teimou Henrique, e insistiu
+para se recolher ao quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens raz&atilde;o, tens&#8213;concordou a tia
+Doroth&eacute;a&#8213;deves
+estar fatigado. Vae com Nossa Senhora,
+menino. E deixa-te l&aacute; de pensar e estar triste, que
+isso n&atilde;o &eacute; bom. &Eacute; fazer por
+espairecer. Come, bebe,
+passeia, que &eacute; o que d&aacute; saude. Nada de malucar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim&#8213;accrescentou a criada&#8213;e n&atilde;o queira
+estar doente, que n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem
+te podes distrahir. O brazileiro Seabra, que tem uma
+casa como um palacio; o Augustito do doutor, que &eacute;
+um bom mocinho. E depois vae dar um passeio
+por ahi, um dia at&eacute; os moinhos outro dia at&eacute;
+&aacute; ermida
+da Senhora da Saude. Agora me lembra: a
+Lenita j&aacute; mandou ahi outra vez saber se tinha chegado
+o hospede&#8213;disse D. Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi s&oacute; a morgadinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; voc&ecirc; a chamar-lhe tambem a morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, senhora?! isto &eacute; o costume. Mas todas
+as outras senhoras mandaram tambem o Torquato
+saber do sr. Henrique. A sr.<sup>a</sup> D. Victoria e a
+Christininha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, pois cuidadosas s&atilde;o ellas! Tu has de te entender
+com aquella gente. &Eacute; uma gente muito dada
+e sem ceremonia. &Eacute; preciso l&aacute; ir. Olha,
+&aacute;manh&atilde; podes
+ir visital-as. &Eacute; um passeio bonito.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, que tinha estado distrahido durante a
+conversa das duas, nem se dava ao trabalho de intervir
+no dialogo em que ellas dispunham j&aacute; do seu
+tempo e tra&ccedil;avam-lhe planos de vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vae descan&ccedil;ar, menino, vae e faze por
+dormir. Olha l&aacute;, tu costumas dormir com luz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tia, n&atilde;o costumo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque n'esse caso... &Oacute; Maria, onde
+est&aacute;
+aquella lamparina, que me serviu quando eu estive
+doente, ha seis annos?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+&#8213;Est&aacute; l&aacute; dentro, senhora; se a senhora quer
+eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; l&aacute;, menino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tia, n&atilde;o quero.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha pessoas que n&atilde;o podem dormir &aacute;s
+escuras&#8213;dizia
+a criada.&#8213;Eu, gra&ccedil;as a Deus, durmo bem
+de qualquer f&oacute;rma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas nem todos s&atilde;o como voc&ecirc;. Olha,
+&oacute; Henriquinho, has de v&ecirc;r se queres o travesseiro
+mais alto ou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito agradecido, tia Doroth&eacute;a, tudo deve estar
+bom&#8213;disse Henrique, procurando fugir &aacute;s
+muitas reflex&otilde;es, perguntas e conselhos, com que
+as duas o iam perseguindo at&eacute; o quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, &oacute; menino, tu bebes agua de noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; poz-lhe agua no quarto, Maria?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Puz, sim, minha senhora; pois ent&atilde;o? J&aacute; minha
+m&atilde;ezinha dizia, que antes sem luz do que sem
+agua.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, ent&atilde;o est&aacute; bom. Ent&atilde;o muito boa
+noite,
+menino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boa noite, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade. Has de v&ecirc;r se queres mais roupa
+na cama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o hei de querer, n&atilde;o, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que est&aacute; muito frio. Voc&ecirc; quantos
+cobertores
+lhe deitou, &oacute; Maria?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cinco, senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cinco!&#8213;exclamou Henrique, quasi horrorisado.&#8213;Cinco
+cobertores!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pouco?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouco?&#8213;&Eacute; de morrer esmagado debaixo
+d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, quer n&atilde;o! Olha que est&aacute; muito frio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, bem; eu c&aacute; me arranjarei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, muito boa noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boa noite, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique ia a fechar a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+&#8213;Olha...&#8213;disse ainda a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique parou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei o que &eacute; que me esquece...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha de ser nada, tia; boa noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o esquecer&aacute;?... Eu sei?... Emfim... boa
+noite. Ai, &eacute; verdade... Sempre &eacute; bom ficar com
+lumes promptos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim; l&aacute; isso sempre &eacute; bom.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s? n&atilde;o que bem me parecia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; l&aacute; est&atilde;o, senhora&#8213;disse a criada
+de longe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Melhor; ent&atilde;o muito boa noite nos d&ecirc; Nosso
+Senhor, menino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boa noite, tia.
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique conseguiu fechar a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava finalmente s&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que desastrada lembran&ccedil;a a minha!&#8213;disse o
+pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si.&#8213;Como
+posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que
+chama manias aos meus padecimentos? Que futuro
+de impertinencias me espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e
+pensar eu que s&oacute; posso voltar para ti &aacute; custa de
+outra jornada!
+<br />
+
+<br />
+
+O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade.
+Um alto leito de almofadas na cabeceira e
+rodap&eacute; de chita, t&atilde;o alto que se n&atilde;o
+dispensava o
+auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma
+commoda com um pequeno espelho, um bah&uacute;, um
+lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam a mobilia
+toda.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos
+objectos de toucador, a que estava habituado.
+Aquelle estrictamente necessario n&atilde;o lhe promettia
+grandes confortos.
+<br />
+
+<br />
+
+Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo
+e respirava um asseio e frescura convidativos:
+os travesseiros, de largos folhos engommados, possuiam
+uma molleza agradavel &aacute;s faces; o colch&atilde;o
+de pennas abatia-se suavemente sob o peso do corpo
+fatigado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+Henrique conchegou a roupa a si; &aacute; falta de velador,
+pousou o casti&ccedil;al no travesseiro, e, abrindo
+um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a ler, para
+obedecer a um habito adquirido.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o teria ainda lido um quarto de pagina, quando
+ouviu a voz da tia Doroth&eacute;a, que lhe dizia de
+f&oacute;ra
+da porta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menino, tu j&aacute; te deitaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;, sim, tia Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um
+m&ecirc;do de fogos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteja descan&ccedil;ada, tia. Eu apago j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ser&aacute; melhor. S. Mar&ccedil;al nos
+acuda.
+<br />
+
+<br />
+
+E afastou-se, rezando ao santo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique continuou a ler.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco a mesma voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu j&aacute; dormes, Henriquinho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tia, ainda n&atilde;o durmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que n&atilde;o v&aacute;s adormecer sem apagar a
+luz. Eu tenho um m&ecirc;do de fogos! N&atilde;o
+descan&ccedil;o,
+emquanto n&atilde;o vejo tudo apagado em casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique perdeu a paciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois pode socegar, olhe.
+<br />
+
+<br />
+
+E apagou a v&eacute;la, meio zangado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fizeste bem, fizeste bem; isto j&aacute; &eacute; tarde, e
+&eacute;
+melhor fazer por dormir. Ent&atilde;o, muito boas noites.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boas noites&#8213;respondeu Henrique quasi
+amuado; e ageitando-se na cama, dizia comsigo:&#8213;E
+esta! J&aacute; vejo que nem ler me &eacute; permittido aqui.
+Olhem que vida me espera! &Eacute; isto o que me devia
+curar? Que fatalidade!
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de
+papa, unicos que conservava dos cinco primitivos,
+come&ccedil;aram a fazer o seu effeito, insinuando nos
+membros can&ccedil;ados da jornada um agradavel calor.
+Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque
+que ficava por debaixo das janellas do quarto e as
+gottas da chuva, que dos beiraes do telhado ca&iacute;am
+compassadas na taboa do peitoril.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+A noite soceg&aacute;ra. De quando em quando apenas
+algumas lufadas de vento, j&aacute; menos impetuosas, faziam
+bater as vidra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram como estes estados, que succedem a um
+choro aberto. Correm ainda algumas lagrimas nas
+faces, mas j&aacute; n&atilde;o brotam novas dos olhos: saem
+ainda do peito os solu&ccedil;os, por&eacute;m mais
+espa&ccedil;ados;
+dentro em pouco ser&aacute; completa a serenidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique come&ccedil;ou a experimentar uma languidez,
+um delicioso bem-estar n'aquelle confortavel
+leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe
+enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente,
+no mais profundo, tranquillo e restaurador
+somno, que, havia muito tempo, tinha dormido.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>III
+</h4>
+
+<br />
+
+Ao romper da manh&atilde;, quando a consciencia
+principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos,
+at&eacute; ent&atilde;o tomados pelo torp&ocirc;r de um
+somno profundo,
+Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente
+sentado em uma cadeira de S. Carlos,
+disposto a assistir ao desempenho de uma opera
+favorita.
+<br />
+
+<br />
+
+Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos
+e contrabassos; sopravam, a plena b&ocirc;ca,
+os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam
+descompostamente os bra&ccedil;os os ruidosos timbaleiros;
+dedos amestrados faziam vibrar as cordas da
+harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os
+ares, e comtudo n&atilde;o chegava aos ouvidos de Henrique,
+de toda esta riqueza de instrumenta&ccedil;&atilde;o, mais
+do que uma nota unica, arrastada, continua, plangente,
+baixando e subindo na escala dos tons, e sem
+formar uma s&oacute; phrase musical.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+Era de desesperar um <em>dilettante</em> como
+elle; torcia-se
+na cadeira, inclinava convenientemente a cabe&ccedil;a,
+fazia das m&atilde;os cornetas acusticas, e sempre
+o mesmo resultado!
+<br />
+
+<br />
+
+Este violento estado de atten&ccedil;&atilde;o, este
+esfor&ccedil;o do
+sensorio, principiou n'elle a obra de despertar; principiou
+pois pelos ouvidos, mas c&ecirc;do se transmittiu
+a todos os outros org&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de dar a si proprio conta do que era
+aquelle som, e quasi esquecido ainda do logar em
+que estava, Henrique abriu os olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+A luz do dia penetrava j&aacute; pelas frestas mal vedadas
+das janellas e espalhava no aposento uma tenue
+claridade.
+<br />
+
+<br />
+
+Veio ent&atilde;o a Henrique a consciencia do logar
+em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou
+o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor se ainda n&atilde;o padeceu de insomnias, de
+pesad&ecirc;los, ou de somnos febris, n&atilde;o avalia por
+certo
+o contentamento intimo, que se apossa das desgra&ccedil;adas
+victimas d'esses demonios nocturnos, quando
+por excep&ccedil;&atilde;o elles as deixam em paz, e lhes
+respeitam
+o somno de uma noite completa. Acordar
+s&oacute; aos raios da aurora &eacute; um dos mais ineffaveis
+prazeres, a que elles aspiram na vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Penetra-lhes ent&atilde;o nos membros um insolito vigor;
+a arca do peito expande-se-lhes mais livre e
+as sombras do espirito dissipam-se-lhes com aquelle
+clar&atilde;o matinal.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira
+vez depois de muitos mezes, dormira de um somno
+a noite inteira.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentia-se com isto t&atilde;o bom, t&atilde;o vigoroso,
+t&atilde;o
+contente que teve vontade de cantar.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o som, que o acord&aacute;ra, aquella nota unica,
+em que se confundiam todas as notas da sonhada
+orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Prestando-lhe a atten&ccedil;&atilde;o de acordado, conheceu
+que era o chiar dos carros&#8213;o mesmo som, que
+<span class="pagenum">[40]</span>
+na vespera o irrit&aacute;ra, agora assim a distancia, estava-lhe
+agradando, como nota extrahida por m&atilde;o
+habil das cordas de um violino.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella
+manh&atilde; o incitava ao exercicio, rara
+disposi&ccedil;&atilde;o no
+indolente filho da capital, que tinha por habito ouvir
+o meio dia na cama.
+<br />
+
+<br />
+
+Ergueu-se e abriu as janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; licita a compara&ccedil;&atilde;o
+entre a mais surprehendente
+transmuta&ccedil;&atilde;o de uma d'essas apparatosas
+magicas, que tanto extasiam as multid&otilde;es embasbacadas
+nas plateias e camarotes de um theatro, e
+as que de instante para instante, realisa a natureza.
+Descerrando o v&eacute;o de nuvens que encobre o fulgor
+do sol, elevando, acima do horizonte, esse magestoso
+lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor
+que illumina as noites desanuviadas, a natureza
+op&eacute;ra, a cada momento, as mais admiraveis e completas
+metamorphoses.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o somno de Henrique realis&aacute;ra-se um
+d'esses effeitos magicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Abrand&aacute;ra gradualmente a violencia do sul; o
+vento, mudando, voltou em sentido opposto a
+grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;
+luziram tr&eacute;mulas por momentos as estrellas, empallideceram
+perante o alvor do dia, e quando o sol
+assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe
+deante um vasto manto azul, tapetando a estrada,
+que tinha a percorrer. S&oacute;, muito para o occidente,
+ainda algumas nuvens amontoadas formavam
+uma como franja, que o astro nascente em breve
+tingiu de carmim e de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa,
+cheia de aromas, que vem dos campos nas alvoradas
+serenas que penetraram no quarto de Henrique,
+quando elle abriu as janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito
+uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer!
+<br />
+
+<br />
+
+A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste
+<span class="pagenum">[41]</span>
+que, com o cora&ccedil;&atilde;o apertado,
+atravess&aacute;ra na vespera,
+parecia outra.
+<br />
+
+<br />
+
+O sol da manh&atilde; baix&aacute;ra sobre ella,
+dissip&aacute;ra-lhe
+as sombras, colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe
+nas presas, dispers&aacute;ra-se em iris cambiantes na
+espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfum&aacute;ra-a
+de aromas, anim&aacute;ra-a de cantos, transform&aacute;ra-a
+emfim na mais risonha paizagem, em que
+os olhos de Henrique, pouco habituados &aacute;s esplendidas
+galas do Minho, tinham nunca repousado.
+<br />
+
+<br />
+
+O inverno despoj&aacute;ra parte d'essas galas; embora!
+At&eacute; da propria nudez de algumas arvores resultavam
+encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos,
+as moitas sem flores infundem tristeza; mas
+n&atilde;o tem a tristeza poesia tambem? Pode haver
+completa paizagem onde n&atilde;o haja uns tons escuros
+de melancolia?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, debru&ccedil;ado na varanda de
+pedra do quarto, n&atilde;o se can&ccedil;ava de admirar
+aquella
+scena.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas,
+que, n'um momento, elevam, nos ermos, jardins
+e pa&ccedil;os, como os de Armida e Alcina.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois era esta a mesma aldeia, atrav&eacute;s da qual
+elle cavalg&aacute;ra de noite?
+<br />
+
+<br />
+
+Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que
+t&atilde;o do fundo da alma amaldi&ccedil;o&aacute;ra na
+vespera, produziam,
+vistos ent&atilde;o d'alli, os mais pittorescos effeitos.
+Abatia-se-lhe aos p&eacute;s um n&atilde;o muito profundo
+valle, opulento em vegeta&ccedil;&atilde;o, e que a certa
+distancia
+se continuava insensivel e gradualmente com
+uma amenissima collina.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m, um bello bosque de carvalhos seculares,
+que o inverno, privando-os de folhas, tingira quasi
+da c&ocirc;r da violeta, contrastava com a fronde sempre
+verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde
+por entre a qual se divisavam abundantes os dourados
+fructos, poupados pela m&atilde;o do lavrador. As
+copas, como umbelladas dos pinheiros mansos,
+<span class="pagenum">[42]</span>
+desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras
+as mais suaves ondula&ccedil;&otilde;es. Dispersos aqui e alli,
+e entremeiados com a verdura, grupos de casas
+campestres, alvejantes &aacute; luz do sol, moinhos e azenhas,
+noras toldadas de ramadas conicas, eiras,
+pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau
+humor trilh&aacute;ra na vespera, t&atilde;o sinistras
+ent&atilde;o, como
+graciosas agora; extensas e virentes campinas e
+lameiros, onde pastavam numerosas manadas de
+gado. Mais longe a igreja com a sua alameda &aacute;
+entrada e o cemiterio, onde um s&oacute; mausol&eacute;o
+avultava
+ainda; uma ou outra casa apala&ccedil;ada, ennegrecida
+pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas
+heras, revestidas de musgos, douradas de lichens;
+finalmente, tudo o que tenta os paizagistas,
+tudo o que exal&ccedil;a os poetas, tudo quanto suspende
+os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro,
+um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe
+a apparencia de uma das mimosas composi&ccedil;&otilde;es
+a pastel da m&atilde;o de Pillement.
+<br />
+
+<br />
+
+A mudan&ccedil;a de aspecto da scena operou n&atilde;o menor
+mudan&ccedil;a nos sentimentos e disposi&ccedil;&atilde;o
+do
+enlevado espectador que das varandas de Alvapenha
+a estava observando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso sair! &eacute; preciso sair!&#8213;disse Henrique
+comsigo.&#8213;Quero v&ecirc;r isto de perto; quero
+entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por
+aquelles montes, debru&ccedil;ar-me d'aquellas ribanceiras.
+<br />
+
+<br />
+
+E vestindo-se &aacute; pressa, e sem sentir a necessidade
+de uma escrupulosa <em>toilette</em>, saiu do
+quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+Encontrou nos corredores a tia Doroth&eacute;a, que o
+saudou amavelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bons dias, menino, ent&atilde;o como passaste
+tu a noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deliciosamente minha querida
+tia&#8213;respondeu
+elle, abra&ccedil;ando-a com maior affecto e bom
+humor do que na vespera.
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; sentir-se a gente bem!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o estranhaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estranhei immenso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?!&#8213;disse a tia, mortificada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dormi a noite de um somno, e acordei bem
+disposto; o que para mim &eacute; a mais estranha das
+occorrencias.
+<br />
+
+<br />
+
+A tia sorriu satisfeita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois antes assim. E agora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora quero sair, quero v&ecirc;r esta terra, que
+me est&aacute; parecendo um paraiso terreal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera, menino. N&atilde;o v&aacute;s sem almo&ccedil;ar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Almo&ccedil;ar! Pois que horas s&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; c&ecirc;do; s&atilde;o
+j&aacute; sete horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sete horas!
+<br />
+
+<br />
+
+E Henrique insensivelmente desviou os olhos
+para a janella, para v&ecirc;r como era a natureza, a uma
+hora a que raras vezes a examinava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o acha que se pode almo&ccedil;ar &aacute;s
+sete
+horas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Se est&aacute; j&aacute; prompto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse
+os habitos da aldeia. Principiemos por este.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrando para a sala do jantar, Henrique viu
+deante de si uma ta&ccedil;a de leite espumante, t&eacute;pido,
+odorifero, extrahido de pouco tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi por elle que principiou o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido
+o leite verdadeiro, o leite que n&atilde;o faz mentir a
+analyse dos chimicos, de que os physiologistas exaltam
+as qualidades nutritivas, de que os poetas das
+georgicas cantam as delicias e virtudes; s&oacute; agora
+os comprehendeu elle, que bem differente d'aquillo
+era o aguado e quantas vezes derrancado s&ocirc;ro, a
+que estava habituado na cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a, almo&ccedil;ando, e Maria de Jesus,
+servindo,
+falaram, segundo o costume, continuadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvia-as j&aacute; com mais atten&ccedil;&atilde;o e
+respondia-lhes com mais vontade e paciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+Falaram em muitas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas
+da vizinhan&ccedil;a, sabendo-o chegado, lhe tinham
+mandado presentes de gallinhas, offerecendo-se, ao
+mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da
+terra; disse mais que as senhoras da quinta do
+Mosteiro tambem tinham j&aacute; mandado saber d'elle,
+Henrique, e lembrou que seria delicado ir visital-as
+aquella manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar
+em qu&ecirc;, e terminando o almo&ccedil;o apressou-se a sair
+para o campo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se te perdes, menino?&#8213;lembrou a tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se me perder, farei por achar-me.
+<br />
+
+<br />
+
+Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta,
+que tambem ent&atilde;o lhe parecia graciosa, de uma
+gra&ccedil;a bucolica, a que n&atilde;o estava habituado. O
+aspecto
+melancolico da vespera desvanecera-se. At&eacute;
+para ser completa a mudan&ccedil;a, estavam encadeados
+nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas gra&ccedil;as
+comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo
+quanto via lhe era novidade, tudo lhe captivava a
+atten&ccedil;&atilde;o e o distrahia dos seus lugubres
+pensamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de muito andar, de subir collinas, de descer
+valles e costear ribeiros, foi sair a um pequeno
+largo, ao fim do qual havia uma casa terrea, caiada
+de branco, com portas verdes e janellas envidra&ccedil;adas,
+sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos
+por papel. &Aacute; porta d'esta casa estava muita
+gente parada; mulheres, velhos, mo&ccedil;os,
+crean&ccedil;as,
+uns sentados, outros deitados, outros a p&eacute; e encostados
+&aacute; umbreira, e todos apparentemente aguardando
+alguma coisa ou alguem do lado de uma das
+ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se
+dirigiam todos os olhares.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+Henrique approximou-se d'esta casa com alguma
+curiosidade, que c&ecirc;do satisfez, vendo em uma taboleta,
+suspensa no alto da janella, a seguinte pomposa
+inscrip&ccedil;&atilde;o:
+&laquo;Reparti&ccedil;&atilde;o do correio&raquo;, e,
+como
+a confirmar o distico, um c&oacute;rte feito na porta para
+a recep&ccedil;&atilde;o das cartas.
+<br />
+
+<br />
+
+Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado
+do correio para lhe serem remettidas a Alvapenha
+as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique
+entrou na reparti&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com
+um banco de pinho e dividida por um mostrador,
+para dentro do qual se alojava todo o pessoal do
+servi&ccedil;o, isto &eacute;, um homem por junto; e era este o
+sr. Bento Pertunhas, personagem importante na
+terra, e a cuja intelligencia e solicitude estavam confiadas
+mais do que uma func&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m de
+servir,
+em interinidade permanente, como muitas vezes s&atilde;o
+as interinidades do nosso paiz, este cargo, dito por
+elle, de &laquo;director do correio&raquo;, estava de posse s.
+s.<sup>a</sup> de uma das cadeiras de latim e de
+latinidade, com
+que se procura em Portugal fomentar nos concelhos
+ruraes o g&ocirc;sto pelas lettras antigas; era ainda
+regente e director da philarmonica da terra, armador
+de igreja em dias festivos, ensaiador de autos
+e entremezes populares, e, quando Deus queria, auctor
+de alguns tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre
+funccionario tirou cortezmente o seu bonnet
+de pelle de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar
+t&atilde;o honrosa visita. Nos cumprimentos
+que formulou disse o nome de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Admirado por ser j&aacute; conhecido, Henrique interrogou
+o latinista e, achando-o muito informado de
+tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu-se de que
+estava na presen&ccedil;a de um esmerilhador de vidas
+alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o fim de cortar a divaga&ccedil;&atilde;o, em que o homem
+<span class="pagenum">[46]</span>
+entr&aacute;ra a respeito de certa viagem que fizera
+a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio n&atilde;o
+cheg&aacute;ra ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba v. s.<sup>a</sup> que ainda
+n&atilde;o&#8213;respondeu o
+sr. Bento Pertunhas&#8213;mas n&atilde;o deve
+tardar; o
+homem que d'aqui vae buscar as malas &aacute; villa, se
+bem andasse, j&aacute; c&aacute; podia estar. Esse formigueiro
+de gente, que v. s.<sup>a</sup> ahi v&ecirc;
+&aacute; porta,
+est&aacute; &aacute; espera
+d'elle. Hoje ent&atilde;o, que chegam as cartas do Brazil,
+ninguem p&aacute;ra com este povo. D&atilde;o-me cabo da
+paciencia.
+Isto &eacute; um inferno! Eu sirvo este logar interinamente,
+emquanto o empregado est&aacute; paralytico;
+porque eu tenho outro cargo publico; sou professor
+de latinidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, mas a minha voca&ccedil;&atilde;o era
+para as
+artes. Meu pae queria que eu f&ocirc;sse padre e mandou-me
+ensinar latim; mas j&aacute; ent&atilde;o a minha
+paix&atilde;o
+era a musica. Eu ainda queria que v. s.<sup>a</sup> me
+ouvisse tocar trompa, que &eacute; o instrumento que mais
+tenho estudado... Se v. s.<sup>a</sup> se demorar
+ha de fazer-me
+o favor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com muito g&ocirc;sto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o poder um homem seguir no mundo a sua
+voca&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda assim n&atilde;o se pode queixar muito. O
+cultivo das lettras latinas deve-lhe proporcionar gosos;
+porque emfim para quem possue instinctos
+de arte, a leitura dos poetas j&aacute; &eacute; um lenitivo
+contra
+as agruras da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos
+muito abertos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa!
+Ent&atilde;o parece-lhe que pode achar-se g&ocirc;sto em
+l&ecirc;l-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe
+uma vontade!... O latim!... a mais destemperada
+e desesperadora lingua que se tem falado
+no mundo! Se &eacute; que se falou&#8213;accrescentou em
+voz baixa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o duvida que se falasse latim?&#8213;perguntou
+Henrique, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu duvido. N&atilde;o sei como os homens se podessem
+entender com aquella endiabrada contradan&ccedil;a
+de palavras, com aquella desafina&ccedil;&atilde;o que faz
+dar volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o
+que &eacute; uma casa desarranjada, onde ninguem se
+lembra onde tem as suas coisas quando precisa
+d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois &eacute;
+o que &eacute; o latim. Abre a gente um livro e p&otilde;e-se a
+traduzir e vae dizendo: &laquo;As armas, o homem e eu,
+canto, de Troia, e primeiro, das praias.&raquo; Quem percebe
+isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em
+outras, que elles punham &aacute;s vezes em casa do diabo,
+e fa&ccedil;am uma coisa que se entenda! &Eacute; quasi
+uma adivinha. Ora adeus! E depois&#8213;continuou
+elle, enthusiasmado com o riso de Henrique, suppondo-o
+de approva&ccedil;&atilde;o&#8213;e depois as differentes
+maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem
+tem gra&ccedil;a. N&oacute;s c&aacute; dizemos por exemplo:
+&laquo;reino e
+reinos&raquo; e est&aacute; acabado; l&aacute;
+n&atilde;o senhor; diz-se <em>regnum</em>
+e <em>regna</em> e
+<em>regni</em> e
+<em>regno</em> e
+<em>regnis</em> e at&eacute;
+<em>regnorum</em>. Ora venham-me
+c&aacute; elogiar a tal lingua!
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique estava achando delicioso o odio entranhado
+de mestre Bento Pertunhas &aacute; latinidade que
+ensinava com a proficiencia, que o leitor pode imaginar,
+depois do que ouviu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, meu caro senhor&#8213;continuou o atribulado
+<em>magister</em>&#8213;eu se me vejo um dia livre
+d'este amaldi&ccedil;oado
+latim, fa&ccedil;o uma fogueira, na qual me hei de
+regalar de v&ecirc;r arder o Tito Livio e os Virgilios todos
+tres.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de advertir que mestre Bento falava sempre
+no plural, ao referir-se a Virgilio.
+<br />
+
+<br />
+
+Quer-me parecer que para este interprete da litteratura
+latina tinham de facto existido tres Virgilios,
+provavelmente irm&atilde;os, e cada um auctor de
+cada um dos tres volumes da edi&ccedil;&atilde;o, que lhe
+servia
+de texto. Dizia Virgilio 1.&ordm;, 2.&ordm; e 3.&ordm;,
+como quem
+<span class="pagenum">[48]</span>
+se refere aos monarchas homonymos, que succederam
+n'um mesmo reino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me salvo se morro mestre de latim&#8213;proseguia
+elle.&#8213;Afunda-me no inferno o trambolho da syntaxe.
+<br />
+
+<br />
+
+Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique
+viu f&oacute;ra da porta, principiou em desordenada azafama
+a entrar para a loja, que em breve n&atilde;o comportava
+mais ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem.
+Gra&ccedil;as a Deus, que ahi vem!&#8213;diziam todos
+&aacute;
+uma.
+<br />
+
+<br />
+
+O funccionario principiou a impacientar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! ent&atilde;o! Por onde ha de elle entrar, fazem
+favor de me dizer? Saiam, saiam. N&atilde;o ouvem? Ent&atilde;o
+n&atilde;o fazem caso das minhas ordens?
+D&ecirc;em
+logar. N&atilde;o v&ecirc;em que est&atilde;o molestando
+este senhor?<br />
+
+<br />
+
+Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se,
+ao v&ecirc;r que os outros n&atilde;o obedeciam &aacute;s
+ordens, mas, pela sua parte, n&atilde;o cedia um passo,
+como se lhe valesse algum especial privilegio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saia voc&ecirc;, mulher&#8213;dizia um.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; por que n&atilde;o sae? Olha agora!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver
+carta lh'a dar&atilde;o. L&aacute; por estar aqui
+n&atilde;o &eacute; que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o saia tambem. Ora essa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; santinha, n&atilde;o empurre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; filho, quem &eacute; que lhe faz mal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por onde &eacute; que se quer metter, homem de
+Deus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sou menos que os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quereis v&oacute;s d'aqui, canalhada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera que eu te falo.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor
+tumultuoso as agudas declama&ccedil;&otilde;es do
+&laquo;director do
+correio&raquo;, o qual obrigou Henrique a passar para
+dentro da teia, para se salvar das ondas populares.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique estava achando igualmente curiosa a
+<span class="pagenum">[49]</span>
+indigna&ccedil;&atilde;o do homem e a alvoro&ccedil;ada
+anciedade do
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha de facto poucas scenas t&atilde;o animadas, como
+a da chegada do correio e da distribui&ccedil;&atilde;o das
+cartas
+em uma terra pequena. Durante a leitura dos
+sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo,
+um observador, que estude attento as impress&otilde;es
+que essa leitura op&eacute;ra nos semblantes dos
+que &aacute;vidos a escutam, como que v&ecirc; levantar-se
+uma ponta de cortina, corrida a occultar-nos as
+scenas da comedia ou da tragedia da vida de
+cada um.
+<br />
+
+<br />
+
+Que hora de commo&ccedil;&otilde;es aquella, em que se
+abrem as malas, onde veem encerrados porventura
+os destinos de tantas pobres familias! Quantas
+vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham
+as desgra&ccedil;as e os pezares!
+<br />
+
+<br />
+
+Nas grandes cidades dispersam-se estas commo&ccedil;&otilde;es;
+passam-se no recato dos gabinetes de cada
+um. Lembrem-se por&eacute;m das vezes, em que teem
+segurado com m&atilde;o tr&eacute;mula na correspondencia,
+que o correio lhes traz; no anciar do cora&ccedil;&atilde;o com
+que lhe rasgam o s&ecirc;llo; nas lagrimas ou sorrisos
+com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel
+movimento de desespero com que a amarrotam depois,
+ou nas expans&otilde;es apaixonadas com que beijaram
+o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso,
+multipliquem depois esses affectos todos, despojem-os
+das reservas que a etiqueta imp&otilde;e &aacute;s classes
+mais civilisadas, fa&ccedil;am-os manifestarem-se n'um
+mesmo momento e n'um mesmo logar, e digam se
+concebem muitas outras scenas, em que mais sentimentos
+e paix&otilde;es se agitem em lucta travada.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou emfim o homem das cartas, e a custo
+conseguiu romper at&eacute; ao mostrador, onde pousou
+a mala. O &laquo;director&raquo;, depois de tossir, de
+assoar-se,
+de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas,
+que formavam com a anciedade do povo um
+contraste desesperador, abriu fleugmaticamente o
+<span class="pagenum">[50]</span>
+sacco, extrahiu um n&atilde;o muito volumoso masso de
+cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou
+apontamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Era digno do pincel de um artista aquelle grupo
+de physionomias, que seguiam &aacute;vidas todos os movimentos
+de mestre Bento. Olhos e b&ocirc;cas abertas,
+m&atilde;os juntas, pesco&ccedil;os estendidos, a
+cabe&ccedil;a inclinada
+para receber o menor som, tudo caracterisava
+profundamente a anciedade que lhes dominava os animos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mestre Bento Pertunhas achou a occasi&atilde;o apropriada
+para dizer a Henrique:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem
+mestre aprendi a tocar trompa e, n&atilde;o &eacute; por me
+gabar,
+mas prezo-me de tocar com certo mimo e express&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o
+a consterna&ccedil;&atilde;o d'aquellas physionomias. Resolveu
+valer-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem a bondade de v&ecirc;r se ha alguma carta
+para mim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! pois j&aacute; as espera hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; provavel; por&eacute;m...
+<br />
+
+<br />
+
+Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, come&ccedil;ou
+em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescriptos.<br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se novo e n&atilde;o menos interessante espectaculo.
+<br />
+
+<br />
+
+A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre
+uma voz, &aacute;s vezes um grito; estendia-se por cima
+das cabe&ccedil;as um bra&ccedil;o, e, podemos accrescentar
+ainda que se n&atilde;o visse, alvorotava-se um
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Outros, os n&atilde;o nomeados ainda, olhavam com
+anciedade para o masso, que diminuia, e cada vez
+mais se lhes assombrava o semblante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Luiza Escolastica, do logar dos C&oacute;jos&#8213;lia
+mestre Pertunhas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!&#8213;exclamou
+uma mulher joven, apoderando-se &aacute;vidamente da carta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+&#8213;Joanna Pedrosa, de Serzedo&#8213;continuava elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui estou; ser&aacute; do meu Antonio, senhor?&#8213;disse
+uma velha, pobremente vestida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; do seu Antonio, ser&aacute;&#8213;respondeu o
+insensivel
+funccionario;&#8213;o que lhe posso dizer &eacute;
+que traz obreia preta.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher, que j&aacute; tremia ao receber a carta, deixou-a
+cair, ouvindo aquellas sinistras palavras.
+Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da loja, a
+chorar lastimosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se foi o filho que lhe morreu, n&atilde;o sei o que
+ha de ser d'ella&#8213;disse um dos circumstantes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coisas do mundo!&#8213;respondeu outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Estes commentarios foram interrompidos pela
+continua&ccedil;&atilde;o da leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jo&atilde;o Carrasqueiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto, senhor&#8213;bradou um velho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mezada, hein?&#8213;disse Bento Pertunhas,
+fitando-o por cima dos oculos.&#8213;O rapaz n&atilde;o se
+esquece.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom
+filho tem saido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D. Magdalena Adelaide de...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a morgadinha, &eacute; a morgadinha&#8213;disseram
+a um tempo muitas vozes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agradecido pela novidade; era c&aacute; muito precisa
+a explica&ccedil;&atilde;o&#8213;disse o Pertunhas: e passando
+a carta para uma mulher, que era a encarregada de
+fazer a distribui&ccedil;&atilde;o a quem a podia gratificar,
+accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leve-lh'a a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+E proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto Gabriel...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o mestre-escola...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora fazem o favor de estar calados! Esta...
+como elle vem por aqui... pode ficar... ainda
+que... ser&aacute; melhor levar-lh'a a casa, leve, leve
+tambem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jo&atilde;o Cancella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+&#8213;&Eacute; o Jo&atilde;o Herodes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse foi a Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, quando vier, que appare&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tio Z&eacute; P'reira ficou de receber as cartas. &Eacute;
+compadre d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero saber de compadrices. O tio Z&eacute;
+P'reira que se occupe com o seu zabumba e deixe l&aacute;
+os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+A leitura mais ou menos acompanhada d'estes
+dialogos proseguiu, redobrando de momento para
+momento a anciedade dos que iam ficando. Um
+fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de
+desalento, seguiu-se &aacute; leitura do ultimo nome e
+&aacute;s
+poucas palavras, com que o funccionario fechou a
+tarefa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E acabou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos,
+morosos e com t&atilde;o m&aacute; vontade, como se
+ainda tivessem esperan&ccedil;a de commover a inexoravel
+sorte.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, ficando s&oacute; com Bento Pertunhas, teve
+de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narra&ccedil;&atilde;o
+dos seus passados triumphos artisticos, das suas
+amarguras presentes no magisterio, e das suas esperan&ccedil;as
+em melhoramentos futuros. Entre as ambi&ccedil;&otilde;es
+mais inquietas do mestre, a de obter o logar
+de recebedor de comarca, proximo a vagar por a
+morte imminente do respectivo empregado, figurava
+em primeira linha.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu
+deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio
+que este episodio interrompera, t&atilde;o satisfeito e distrahido,
+que nem apprehens&otilde;es lhe causava a ideia
+de trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho,
+ideia que, em outra occasi&atilde;o, bastaria para
+o fazer doente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a
+procurar saida para a deveza, da qual um fundo
+vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um
+<span class="pagenum">[53]</span>
+rumor de vozes, como de alguem, que conversasse
+perto d'alli.
+<br />
+
+<br />
+
+Parou a certificar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se engan&aacute;ra. Era do outro lado da sebe, e
+na deveza, para onde tentava passar, que se estava
+falando.
+<br />
+
+<br />
+
+Espreitou por entre as folhas do silvado que o
+encobria, e viu uma scena, que lhe moveu a curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Um grupo de crean&ccedil;as e de mulheres do povo
+escutavam em pleno ar e com religiosa atten&ccedil;&atilde;o, a
+leitura que uma senhora joven e elegante lhes fazia
+das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A
+senhora estava montada, n&atilde;o como romantica amazona,
+em hacan&ecirc;a fogosa, mas modesta e simplesmente
+n'um digno exemplar d'aquelles pacificos
+animaes, a que Sterne n&atilde;o duvidou dedicar algumas
+palavras de sympathia nas suas paginas mais humoristicas,
+e que Pelletan incluiu entre os collaboradores
+da humanidade na grande obra do progresso,
+ou, deixando a periphrase, em uma possante e bem
+apparelhada jumenta.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade
+&aacute;s ancas e ao pesco&ccedil;o do immovel quadrupede.
+<br />
+
+<br />
+
+A leitora segurava no collo a mais pequena e a
+mais nua das crean&ccedil;as do rancho.
+<br />
+
+<br />
+
+Lia com voz agradavel e sonora; e, gra&ccedil;as &aacute;
+serenidade da manh&atilde; e ao socego do logar, ouviam-se
+distinctas, &aacute; distancia que ficava Henrique, as
+palavras, que ella pronunciava lentamente, como
+para as deixar penetrar bem na intelligencia do auditorio.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente,
+por a mesma que, momentos antes, vira na casa do
+correio.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas as suas atten&ccedil;&otilde;es voltaram-se com
+especialidade
+para a leitora.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa
+<span class="pagenum">[54]</span>
+figura de mulher, suave, elegante, distincta, um
+d'esses typos que insensivelmente desenha uma
+m&atilde;o de artista, quando movida ao grado da livre
+phantasia; a c&ocirc;r, essa c&ocirc;r inimitavel, onde
+nunca
+dominam as rosas, mas que n&atilde;o &eacute; bem o desmaiado
+das pallidas, encarna&ccedil;&atilde;o surprehendente, a que
+ainda
+n&atilde;o ouvi dar nome apropriado.
+<br />
+
+<br />
+
+Os cabellos em fartas tran&ccedil;as, em ondas naturaes,
+n&atilde;o de todo pretos, por&eacute;m, mais distinctos
+ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser alta,
+o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada,
+emfim, com a magestade, com a gra&ccedil;a que deviam
+ter estas crea&ccedil;&otilde;es da poesia popular, se
+f&ocirc;sse
+certo tomarem a f&oacute;rma de virgens, para matar de
+amores.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se concebe atten&ccedil;&atilde;o t&atilde;o
+distrahida, que esta
+mulher n&atilde;o fixasse; olhos, que se n&atilde;o voltassem
+para seguil-a, depois de a v&ecirc;r passar;
+cora&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o se perturbasse na sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Trajava um singelo vestido de xadrez branco e
+preto, adornado no collo e punhos apenas por collarinhos
+lisos. Desca&iacute;a-lhe natural e elegantemente
+dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe
+occultar as bellezas da airosa conforma&ccedil;&atilde;o; o
+chap&eacute;o
+de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabe&ccedil;a,
+espalhava pelo rosto as meias tintas, t&atilde;o favoraveis
+&aacute;s bellezas delicadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique comprehendeu logo a significa&ccedil;&atilde;o da
+scena, a que, t&atilde;o inesperadamente, viera assistir.
+Aquella mulher par&aacute;ra alli, para ler a essa gente
+pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido
+do correio.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem era caridade a ac&ccedil;&atilde;o, muito mais cumprida
+com o bom modo e com o carinho com que
+ella o fazia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique applicou a atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;...&laquo;E por isso, minha m&atilde;e&raquo;&#8213;lia
+ella&#8213;&laquo;se
+Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa
+terra e darei remedio a tudo. E n&atilde;o me fale
+vossemec&ecirc;
+<span class="pagenum">[55]</span>
+mais em vender o cord&atilde;o e as arrecadas.
+Diga ao senhorio que tenha paciencia, que eu satisfarei
+a tudo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui a leitora parou para perguntar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que historia &eacute; esta das arrecadas, Anna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, senhora, que o aluguer estava vencido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o podia falar-me antes de se lembrar do
+seu filho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, senhora, bem basta o que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas!
+Elle que precisa de toda a coragem!
+<br />
+
+<br />
+
+E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas
+e das expans&otilde;es de alegria da ouvinte, mais interessada
+n'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Acabando, deu um beijo na crean&ccedil;a, que tinha ao
+collo, e estendeu a m&atilde;o a receber a carta, que outra
+mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de
+consolar. N&atilde;o se falava alli sen&atilde;o de
+contratempos,
+de revezes e desesperan&ccedil;as. Mais do que uma vez
+teve de suspender a leitura, para mitigar a d&ocirc;r e
+enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na
+pobre mulher, a quem era dirigida.
+<br />
+
+<br />
+
+Ap&oacute;s esta, ainda outra e outra; uma do marido
+para mulher; outra de filho para m&atilde;e; outra de
+noivo para noiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia
+nas inflex&otilde;es da voz e no olhar, que ella decifrou
+os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado,
+pintado e recortado, vinham expressos os
+mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda dictou
+uma paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A noiva c&oacute;rava, sorria; mas, no meio da sua modesta
+turba&ccedil;&atilde;o, era evidente que estava exultando
+de jubilo.
+<br />
+
+<br />
+
+Com esta terminou a leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o resistiu a esbo&ccedil;ar rapidamente o
+gracioso grupo na carteira, que trazia comsigo. N&atilde;o
+p&ocirc;de, por&eacute;m, deixar de dar-lhe um sabor de idade
+m&eacute;dia, substituindo a jumenta por um palafrem de
+<span class="pagenum">[56]</span>
+pura ra&ccedil;a e dando &aacute; donzella, pelos trajes com
+que
+a desenhou, os ares de uma castell&atilde; rodeada dos
+seus vassallos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o
+de um figurino de conven&ccedil;&atilde;o. Perd&ocirc;e-lhe
+a arte,
+que julgou servir.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de distribuir mais alguns beijos pelas
+crean&ccedil;as, a gentil rapariga passou a que tinha no
+collo para os bra&ccedil;os da m&atilde;e e partiu rodeada de
+agradecimentos e ben&ccedil;&atilde;os, perdendo-a Henrique de
+vista, por entre as arvores do caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza
+do apurado g&ocirc;sto, em que n&atilde;o podiam enganar-se
+olhos conhecedores, como os d'elle, aquella
+preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para
+chegar &aacute; qual era necessario fazer uma comprida e
+laboriosa jornada! D'onde viera ella e como? que
+nuvem a trouxera? que vira&ccedil;&atilde;o a
+transport&aacute;ra?
+<br />
+
+<br />
+
+Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando
+se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar
+alguem do grupo, j&aacute; n&atilde;o ia a tempo; tinham
+dispersado.
+<br />
+
+<br />
+
+Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi
+sentar-se no logar, em que lhe apparecera a vis&atilde;o e
+ahi se demorou algum tempo; mas lembrando-se de
+que eram quasi onze horas, levantou-se para n&atilde;o faltar
+&aacute;s promessas feitas &aacute; tia Doroth&eacute;a, e
+que eram:
+a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar
+em casa pouco depois do meio dia, para n&atilde;o transtornar
+a regularidade dos habitos domesticos em
+Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Pediu pois a uma creancinha que passava, que o
+guiasse &aacute; quinta do Mosteiro, e ahi chegou depois
+de um quarto de hora de caminho.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+<h4>IV
+</h4>
+
+<br />
+
+A casa do Mosteiro, com a quinta annexa &aacute; casa,
+como o dava a entender o nome, pelo qual o povo
+a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem
+monastica.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um d'estes conventos campestres, que hoje
+ou se encontram em ruinas ou transformados em
+solar de alguma <em>notabilidade</em>
+provinciana. Ao de que
+falamos coubera o ultimo destino.
+<br />
+
+<br />
+
+Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na
+lista dos bens nacionaes, f&ocirc;ra, por insignificante
+pre&ccedil;o, vendido a um modesto proprietario das
+immedia&ccedil;&otilde;es,
+mais arrojado do que os vizinhos, ou
+mais convencido da estabilidade da nova ordem de
+coisas politicas, que se inaugurava no paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+E em t&atilde;o auspiciosa hora lhe acudira aquella
+inspira&ccedil;&atilde;o,
+que, em pouco tempo, lhe restituia a quinta
+o capital empregado, regalando-o todos os annos
+com n&atilde;o calculados juros, e elle, sem intermittencias,
+cresceu d'ahi por deante em prosperidade a
+ponto de deixar, ao morrer, a familia no numero
+das mais abastadas d'aquella terra.
+<br />
+
+<br />
+
+A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos
+e reformas effectuados n'ella, offerecia,
+ainda claros, muitos vestigios de seus primitivos
+usos. N&atilde;o era raro encontrar-se, aqui e alli, em
+p&eacute;
+uma cruz de pedra marcando antigos logares de
+devo&ccedil;&atilde;o; no alto de algumas portas conservava-se
+visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de
+inscrip&ccedil;&otilde;es latinas; nas paredes da arcaria, em
+que
+se apoiava a face posterior do edificio, mantinha-se
+ainda um azulejo contemporaneo dos frades; finalmente
+resistira a successivas reforma&ccedil;&otilde;es certo
+colorido
+<span class="pagenum">[58]</span>
+monastico, que s&oacute; ap&oacute;s muitos annos se
+dissiparia
+de todo.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrava-se para a propriedade por uma larga,
+comprida e magestosa &aacute;lea de sobreiros seculares,
+alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, por
+pouco trilhada, crescia esp&ecirc;ssa e verdejante. Abria-se,
+ao fim d'esta rua, o alto port&atilde;o do pateo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, deixado s&oacute; pelo guia ao chegar alli, foi
+caminhando vagarosamente por esta avenida, dominado
+por a intima commo&ccedil;&atilde;o e sentimento quasi de
+temor, que se apodera de n&oacute;s, em todos os logares
+a que se ligam memorias do passado.
+<br />
+
+<br />
+
+A phantasia estava-o transportando a tempos, a
+que n&atilde;o chegavam j&aacute; as suas
+recorda&ccedil;&otilde;es, &aacute;s &eacute;pocas,
+em que, por entre estas arvores gigantes, se via
+passar, como um phantasma, o habito escuro do
+monge, cuja sombra o sol, ao declinar no horizonte,
+tantas vezes projectou, esguia e estirada, ao longo
+d'aquella mesma avenida.
+<br />
+
+<br />
+
+Impressionado por esta ordem de pensamentos,
+chegou Henrique ao port&atilde;o, transpondo o qual se
+introduziu no pateo. Era um largo terreiro de perfeita
+f&oacute;rma rectangular, limitado ao fundo pela fachada
+da casa, e lateralmente por elevadas paredes,
+armadas &aacute; maneira de pannos de Arr&aacute;s, com
+tape&ccedil;arias
+de vigorosas heras. A cada uma das paredes
+encostavam-se dois tanques de vasta capacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as
+feias e enormes carrancas de todos estes quatro
+tanques grossos jorros de fresca e purissima agua;
+por&eacute;m as medidas economicas do ultimo proprietario
+e as exigencias dos seus projectos agricolas haviam
+derivado para outros fins, parte d'esta abundante
+veia, de maneira que tres d'aquellas bacias
+estavam agora completamente a s&ecirc;cco.
+<br />
+
+<br />
+
+Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias,
+os funchos odoriferos, havia muito que tinham
+invadido a b&ocirc;ca dos encanamentos inuteis onde
+encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas
+<span class="pagenum">[59]</span>
+e myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias
+de caracoes.
+<br />
+
+<br />
+
+A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel
+pelo lado architectonico. A arte n&atilde;o tivera fadigas,
+ao concebel-a; o cinzel pouco se embot&aacute;ra a executal-a;
+nem uma columna singela, nem um flor&atilde;o,
+nem um tympano lhe davam a menos pretenciosa
+apparencia monumental. Imagine-se uma vasta casaria
+de um andar al&eacute;m do terreo, com muitas janellas
+de peitoril e uma s&oacute; varanda de pedra sobranceira
+&aacute; porta principal; acima do telhado, uma
+especie de agua furtada, de construc&ccedil;&atilde;o
+evidentemente
+posterior e aconselhada aos proprietarios
+modernos por conveniencias de accommoda&ccedil;&atilde;o
+domestica;
+e ter-se-ha concebido o edificio.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique se occupava a examinar estas
+particularidades, um velhito, que, sentado em
+um banco de pedra, que havia &aacute; porta de casa, se
+estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro
+do recem-chegado, tossindo e arrastando os
+passos.
+<br />
+
+<br />
+
+Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia
+rustica, meia urbana, depois de o saudar com grave
+cortezia, que deixou a descoberto o
+<em>solideo</em> fradesco
+com que resguardava a fronte calva, perguntou se
+havia alguma coisa, em que o pudesse servir.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique,
+que disse procurar as senhoras, com nova cortezia
+lhe fez signal para que o acompanhasse, e ambos
+atravessaram o pateo em direc&ccedil;&atilde;o da casa.
+<br />
+
+<br />
+
+No portal o velho afastou-se de lado com toda a
+deferencia para deixar passar Henrique; em seguida
+abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, voltando-se,
+pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de
+annunciar. Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete
+de visita, cuja significa&ccedil;&atilde;o teve de explicar,
+porque o velho n&atilde;o a comprehendia bem.
+<br />
+
+<br />
+
+A final por&eacute;m retirou-se por outra porta, levando
+o bilhete.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+A sala, em que Henrique ficou esperando, era
+toda mobilada com pesadas cadeiras de couro lavrado
+e alto espaldar, mesas de p&eacute;s em espiral, e
+pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades,
+pertencentes provavelmente aos antigos proprietarios
+do mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento em que o velho servo, que era uma
+especie de feitor honorario da casa, abriu outra porta
+da sala, para ir annunciar &aacute; familia a visita de
+Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura
+com um tinir de lou&ccedil;as e de crystaes, as vozes e
+risos de crean&ccedil;as, que falavam ao mesmo tempo.
+Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio,
+e ap&oacute;s uma voz de mulher, de timbre fresco e
+agradavel, disse audivelmente e como em resposta
+&aacute;s palavras do criado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora as etiquetas com que esteve, Torquato!
+Mande entrar para aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+O feitor parece que resmoneou n&atilde;o sei o qu&ecirc;, a
+que ainda a mesma voz redarguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que n&atilde;o &eacute; bonito &eacute; fazel-o
+esperar. Ande, v&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Torquato&#8213;chamemos-lhe assim, visto que assim
+lhe chamaram&#8213;appareceu outra vez e fez signal
+a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique que presentiu ir achar-se na presen&ccedil;a
+de uma mulher nova e porventura bonita, correu,
+com instincto de perfeito homem de c&ocirc;rte, os dedos
+pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente
+o la&ccedil;o da gravata e entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+Era completo o contraste d'este aposento com o
+primeiro; transpondo aquella porta dissipava-se
+todo o perfume antigo, todo o caracter de vetustez,
+que at&eacute; alli reinava em tudo. Era moderno o estuque
+do tecto, modernissimo o papel que forrava as
+paredes, e a mobilia toda de um cunho de actualidade,
+visivel aos olhos menos pesquizadores. Como
+para tornar mais frizante o contraste, a presen&ccedil;a
+do velho feitor estava aqui substituida por a de
+<span class="pagenum">[61]</span>
+duas crean&ccedil;as, a mais velha das quaes mal passaria
+dos seis annos.
+<br />
+
+<br />
+
+O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como
+que uma cortina corrida sobre o passado. A
+porta, que elle transpuzera, a barreira que separava
+dois seculos.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentadas no t&ocirc;po de uma longa mesa de jantar,
+coberta de lou&ccedil;a fina ingleza, estavam as duas
+crean&ccedil;as que dissemos, com os seus babeiros brancos
+e tendo cada qual defronte de si um prato de
+odorifera s&ocirc;pa. Em p&eacute;, &aacute; cabeceira,
+presidia ao
+<em>lunch</em> infantil uma mulher, de quem
+Henrique s&oacute;
+p&ocirc;de notar vagamente os contornos geraes do corpo
+e n&atilde;o as particularidades das fei&ccedil;&otilde;es,
+porque,
+ficando voltada de costas &aacute; luz das janellas, velavam-lhe
+o rosto umas meias sombras, que n&atilde;o favoreciam
+o exame.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na aldeia a sala de recep&ccedil;&otilde;es &eacute;
+aquella em
+que a gente se acha, quando lhe annunciam uma
+visita. &Eacute; assim pelo menos que eu comprehendo o
+viver do campo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; assim que eu o aprecio, minha senhora&#8213;respondeu
+Henrique, approximando-se da mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as, interrompendo a refei&ccedil;&atilde;o,
+fitavam o
+recem-chegado com aquelles olhos espantados e
+penetrantes, com que ellas, promptamente, e quasi
+sempre com a certeza de um verdadeiro instincto,
+decidem para si das sympathias ou antipathias de
+que lhes &eacute; merecedor um estranho, a quem v&ecirc;em
+pela primeira vez.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher, que presidia ao banquete, n&atilde;o suspendeu
+com a entrada de Henrique a occupa&ccedil;&atilde;o domestica,
+na qual estava empenhada. Mostrava receber-lhe
+a visita com um perfeito &laquo;&aacute; vontade&raquo;,
+que nada
+tinha por&eacute;m de affectado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei se v. ex.<sup>a</sup> sabe...&#8213;ia
+dizendo Henrique,
+quando, ao chegar perto d'ella, parou subitamente
+em meio da phrase.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Na mulher, que estava deante de si, reconheceu
+a leitora da deveza, a interessante rapariga, que
+tanto o preoccup&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a
+mesma cabe&ccedil;a, agora melhor apreciada ainda, porque
+nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso
+modelo, e os cabellos penteados com tanta
+gra&ccedil;a como singeleza. Em vez do longo chale de
+casimira, trazia agora uma especie de jaqueta, curta
+e larga, apertada por alamares, de f&oacute;rma pouco
+mais ou menos similhante &aacute; que, na nomenclatura
+das modistas, nomenclatura quasi sempre absurda,
+e de mau g&ocirc;sto, teve depois a impropria e desastrada
+denomina&ccedil;&atilde;o de
+<em>zuavo</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+A surpreza de Henrique n&atilde;o passou despercebida
+a quem era causa d'ella e que lhe correspondeu
+com um gesto de curiosa interroga&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha senhora&#8213;disse Henrique, comprehendendo
+aquelle gesto&#8213;mas ignorava que vinha
+encontrar aqui uma pessoa, que j&aacute; me n&atilde;o era
+estranha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E sou eu essa pessoa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; v. ex.<sup>a</sup> effectivamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois j&aacute; nos vimos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;... quero dizer, eu j&aacute; vi v. ex.<sup>a</sup>
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que
+me n&atilde;o lembra de o ter visto nunca. Apesar d'isso
+sei que &eacute; o sr. Henrique de Souzellas,
+sobrinho
+d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Doroth&eacute;a;
+n&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.<sup>a</sup>
+n&atilde;o &eacute; antigo tambem; data de algumas horas
+apenas.
+<br />
+
+<br />
+
+A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu
+levemente as sobrancelhas bem desenhadas,
+fez um movimento de labios e deu &aacute; cabe&ccedil;a uma
+ligeira inclina&ccedil;&atilde;o sobre o hombro, d'onde
+resultou
+para aquella gentil physionomia a mais adoravel
+express&atilde;o de estranheza, que pode animar um semblante
+de mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+&#8213;Esta manh&atilde;&#8213;proseguiu Henrique, a quem os
+encantos d'aquelle gesto n&atilde;o tinham passado
+despercebidos&#8213;assisti
+a uma scena commovente. O
+logar era uma deveza; uma joven senhora... joven
+e... e com outras qualidades, al&eacute;m d'esta,
+para excitar atten&ccedil;&otilde;es, lia, em voz alta, as
+cartas
+que algumas pobres mulheres do povo acabavam de
+receber pelo correio...
+<br />
+
+<br />
+
+Ella n&atilde;o o deixou continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! entendo agora. Viu-me? J&aacute; andava por
+f&oacute;ra? N&atilde;o o suppunha assim madrugador. Mas onde
+estava t&atilde;o escondido? Vejo que &eacute; indiscreto...
+N&atilde;o admira, habitos da cidade. &Eacute; verdade,
+&eacute;. Aquella
+gente encontrou-me no caminho quando eu voltava
+de uma visita a uns parentes pobres, e n&atilde;o me deixou
+sem que eu lhe abrandasse a ancia de cora&ccedil;&atilde;o
+que a affligia. Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me,
+j&aacute; pensou no supplicio que deve ser olhar
+a gente para uma folha de papel escripta, na qual
+sabemos que se fala de uma pessoa querida, e n&atilde;o
+ter poder para decifrar aquelle enygma? Que martyrio!
+Eu por mim, confesso que me falta o animo
+para recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria
+para negar uma gotta d'agua ao desgra&ccedil;ado que
+visse a morrer de s&ecirc;de. A crueldade seria quasi
+igual. N&atilde;o lhe parece?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique formulou um galanteio, que ella por&eacute;m
+n&atilde;o ouviu, entretida j&aacute; a escutar o que uma das
+crean&ccedil;as lhe dizia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena, olha a Annica, que est&aacute; a deitar a s&ocirc;pa
+d'ella no meu prato.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro
+a deitou no meu. N&atilde;o tem vergonha de mentir!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o&#8213;disse Magdalena, que a este nome
+correspondia a contrac&ccedil;&atilde;o familiar, de que se
+serviam
+as crean&ccedil;as.&#8213;Olhem agora se teem juizo.
+Vejam se querem que eu v&aacute; dizer &aacute; mam&atilde;
+que venha
+para aqui.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+&#8213;N&atilde;o &eacute; ella a m&atilde;e, visto isso&#8213;pensou
+Henrique,
+como quem modificava uma opini&atilde;o que concebera
+antes e folgava com a
+modifica&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ser&aacute;
+irm&atilde;? Talvez... Ou mestra... &Eacute; mais provavel
+que seja mestra. Esta mulher foi de certo educada
+na cidade. Tem uns ares distinctos...
+<br />
+
+<br />
+
+E elevando a voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;v. ex.<sup>a</sup> est&aacute;-me recordando uma
+scena de um
+precioso livro, que nunca me can&ccedil;o de ler.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Werther.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhe&ccedil;o... quero dizer, li-o, por acaso, ha
+pouco tempo. Compara-me a Carlota? &Eacute; por estar
+a distribuir as ra&ccedil;&otilde;es d'estas
+crean&ccedil;as? Que mulher
+ha que n&atilde;o seja Carlota, n'essa parte? Em todas as
+casas se passa uma scena assim. Bem se v&ecirc; que
+n&atilde;o tem familia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por lhe fazer tanta sensa&ccedil;&atilde;o o espectaculo
+d'esta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo&#8213;respondeu Henrique com melancolia.&#8213;Deve
+ser essa uma das causas; mas n&atilde;o a
+unica&#8213;accrescentou galanteadoramente.
+<br />
+
+<br />
+
+E, de si para si, estava encantado de saber que
+a sua interlocutora tinha lido Werther.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que lhe parece esta nossa aldeia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que
+me foi desagradavel a impress&atilde;o recebida. Nem
+admira; a noite, o frio, a chuva, o cansa&ccedil;o. Esta
+manh&atilde;, por&eacute;m, a
+transforma&ccedil;&atilde;o foi completa. Estou
+encantado, fascinado! N'uma palavra, minha senhora,
+eu, cidad&atilde;o em corpo e alma, reconciliei-me em
+poucas horas com a vida do campo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desconfie da mudan&ccedil;a rapida. Habitos radicados,
+qualidades ou defeitos de educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+se
+<span class="pagenum">[65]</span>
+perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirar&aacute;
+por Lisboa outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez n&atilde;o. Hoje estou at&eacute; em acreditar que
+tinha raz&atilde;o o doutor, que me prometteu a cura das
+minhas doen&ccedil;as, se me costumasse dev&eacute;ras a estes
+habitos campestres.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Hoje j&aacute; almocei &aacute;s sete
+horas,
+j&aacute; andei mais do que uma semana inteira ando em
+Lisboa. E inda tenho por v&ecirc;r as raridades da terra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As raridades?! E que raridades s&atilde;o essas que
+inda tem para v&ecirc;r? A nossa pobre aldeia n&atilde;o lhe
+merece essa ironia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o acha t&atilde;o pouco curiosa esta terra? Do
+quasi nada que d'ella observei esta manh&atilde;, parece-me
+at&eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, se fala da natureza, &eacute; outra coisa. A cada
+passo se encontra um ponto de vista, que nos obriga
+a uma exclama&ccedil;&atilde;o. Mas ha por ahi certos
+cicerones,
+que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas
+da arte. Pe&ccedil;a a Deus que o livre d'esse flagello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;v. ex.<sup>a</sup> assusta-me. Embora; se lhes cair nas
+m&atilde;os, farei por achar curioso o que elles acharem.
+Vae ser esse o meu systema de cura. Interessar-me
+por tudo o que a um homem da aldeia interessa.
+Foi o regimen que me prescreveu o medico, quando
+me receitou o campo, a titulo de emolliente; se o
+seguir, salvo-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o diga a rir. Se quizer prender-se &aacute;
+aldeia,
+abjurar os attractivos da cidade, deve rustificar-se
+em tudo; principiar por cultivar o interesse
+por as quest&otilde;esinhas da terra; deve, por exemplo,
+declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia
+ou pela junta de parochia contra o abbade; ralhar
+do regedor na quest&atilde;o com os taberneiros ou defendel-o.
+Emquanto n&atilde;o chegar a isso, desconfie da
+sua acclima&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span>
+&#8213;Farei por conseguil-o o mais depressa possivel.
+Outra coisa necessaria &eacute; deixar-me convencer
+ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito das
+notabilidades da terra, o que &eacute; de rigor; estar em
+perpetua admira&ccedil;&atilde;o deante de uns certos nomes
+famosos
+que ha sempre em todas as terras pequenas,
+e que nos atiram &aacute; cabe&ccedil;a a cada momento.
+Por exemplo, aqui j&aacute; sei de um, com que encherei
+a b&ocirc;ca a proposito de tudo; &eacute; o de uma celebre
+morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ou&ccedil;o
+falar, desde que puz os p&eacute;s, ou por mim a alimaria
+que me trouxe, n'este productivo torr&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo
+isto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o com que, tem ouvido falar muito n'essa
+morgadinha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas n&atilde;o faz ideia; de uma maneira desesperadora.
+N&atilde;o ha pinhal, quinta, azenha, cho&ccedil;a
+ou lameiro que n&atilde;o perten&ccedil;a a essa entidade, para
+mim desconhecida. Este nome anda-me j&aacute; nos ouvidos,
+como um estribilho de cantiga popular; na
+estrada, nos campos, em casa de minha tia, na loja
+do correio, em toda a parte o ou&ccedil;o pronunciar. Parece
+que voga nos ares.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer
+a pessoa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! tem-me impacientado a ponto de nem
+perguntar por ella. E demais parece-me que a estou
+a v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora diga. Ent&atilde;o como a imagina? Annica, n&atilde;o
+tens ahi um guardanapo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e
+est&aacute; dicto tudo; uma senhora nutrida, a rever saude
+por todos os p&oacute;ros, encarnada como uma rom&atilde;,
+sobre quem os vestidos &aacute; moda assentam como
+pendurados de um cabide, as m&atilde;os cheias de anneis,
+meias luvas de retroz, um chap&eacute;o com uma
+cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabe&ccedil;a...
+v. ex.<sup>a</sup> ri-se? Acertei?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+&#8213;Parece-me que sim; mas julgue-o por si j&aacute;
+que tem &aacute; vista o original.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vossa Excellencia!...
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do
+mundo, esteve por muito tempo sem saber como
+sair da situa&ccedil;&atilde;o em que se puzera.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos
+riam, por contagio, sem saberem de qu&ecirc;. Tudo augmentava
+pois a confus&atilde;o de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora confesse&#8213;insistia cruelmente Magdalena&#8213;confesse
+que o est&aacute; lisonjeando a exactid&atilde;o das
+suas conjecturas.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique teve emfim uma lembran&ccedil;a. Tirou do
+bolso a carteira, em que, horas antes, esbo&ccedil;&aacute;ra
+rapidamente
+a figura esbelta da morgadinha, rodeada
+das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja v. ex.<sup>a</sup> se esse esbo&ccedil;o, apesar
+da sua
+imperfei&ccedil;&atilde;o,
+est&aacute; de accordo com a estupida
+concep&ccedil;&atilde;o,
+que eu form&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena lan&ccedil;ou a vista para a carteira e sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! desenha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias.
+Os resultados s&atilde;o lastimosos, como estes.
+Perd&ocirc;e-me o original, que julguei possivel copiar, o
+desacato, mas...
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo
+advertil-o de uma coisa, sr. Henrique de Souzellas.
+N&atilde;o ha nada t&atilde;o mal empregado como uma fineza
+no campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez
+o achasse pouco delicado... ou pelo menos
+pouco amavel, se me n&atilde;o dirigisse d'essas phrases
+conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso l&aacute;. Aqui acho-as
+affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da
+scena. Ha tanta semceremonia no campo! Aqui todos
+<span class="pagenum">[68]</span>
+nos tratamos como parentes: ha de v&ecirc;r. N&atilde;o
+repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem
+nem sequer tirar os babeiros a estas crean&ccedil;as?
+Olhe l&aacute; que fizesse o mesmo em Lisboa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v. ex.<sup>a</sup> j&aacute;
+l&aacute; esteve?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu nasci l&aacute; e l&aacute; me eduquei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! bem se v&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah? Ahi est&aacute; um <em>ah</em>, que
+eu desejaria muito
+que me explicasse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me ser&aacute; difficil fazel-o. &Eacute; que
+antes j&aacute; de
+ouvir falar v. ex.<sup>a</sup>, s&oacute; ao
+v&ecirc;r certa
+distinc&ccedil;&atilde;o, certa
+elegancia de maneiras, conjecturei...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta. &Eacute; um <em>ah</em>
+portanto, que tem umas poucas
+de m&aacute;s qualidades.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&eacute;ras? Uma interjei&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o innocente!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo contrario, &eacute; a voz mais perfida e inconstante
+da nossa lingua; tudo exprime, a hypocrita.
+O seu <em>ah</em> &eacute; vaidoso,
+adulador e iniquo pelo menos.
+Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia
+que ainda se abrigue no seu cora&ccedil;&atilde;o lisbonense; a
+adula&ccedil;&atilde;o competia-me castigal-a, mas
+perd&ocirc;o-lh'a
+porque quero ainda supp&ocirc;r que &eacute; um symptoma da
+doen&ccedil;a das cidades, a meu v&ecirc;r, a principal
+doen&ccedil;a,
+que o obrigou a procurar a aldeia; da iniquidade,
+da injusti&ccedil;a, que faz &aacute;
+educa&ccedil;&atilde;o que se pode dar na
+provincia, ha de convencer-se dentro em pouco,
+quando eu lhe apresentar minha prima Christina,
+uma rapariga, que tem vivido aqui sempre e que
+protesta contra essa sua opini&atilde;o; possue tudo quanto
+pode dar de bom a educa&ccedil;&atilde;o das cidades, e, o que
+mais vale, aquillo que l&aacute; &eacute; t&atilde;o facil
+perder-se depressa,
+uma candura adoravel. &Eacute; a irm&atilde; mais velha
+d'estas crean&ccedil;as&#8213;accrescentou, pousando a
+m&atilde;o na cabe&ccedil;a dos pequenos, que comiam e
+conversavam
+um com o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas v. ex.<sup>a</sup>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o. Outra coisa. J&aacute; agora que entrei no
+caminho das admoesta&ccedil;&otilde;es, permitta-me mais uma,
+antes de perder o ar grave, que hei de por for&ccedil;a
+<span class="pagenum">[69]</span>
+ter. N&atilde;o me s&ocirc;a bem o impertinente tratamento de
+excellencia, que me d&aacute;. Essa excellencia est&aacute; a
+pedir-me
+uma senhoria, pelo menos, e, confesso-lhe ingenuamente
+que me custaria a voltar na lingua uma
+palavra t&atilde;o comprida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como quer ent&atilde;o que a trate?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco n&atilde;o me
+comparou &aacute; Carlota de Goethe? Deixe-me pois adoptar
+uma lembran&ccedil;a d'ella. Est&aacute; certo de que tratou
+o Werther por primo, a primeira vez que lhe
+falou? &Eacute; um tratamento como outro qualquer; e
+entre n&oacute;s mais justificado, porque sendo o sr. Henrique
+sobrinho direito de D. Doroth&eacute;a, e teimando
+minha tia Victoria, a m&atilde;e d'estes pequenos e de
+Christina, que D. Doroth&eacute;a &eacute; ainda uma especie de
+nossa tia arredada, e como tal a tratamos, n&oacute;s a final
+de contas vimos a ser uma especie de primos
+tambem. Pelo menos assim o sustentou e decidiu
+hontem minha tia Victoria; e ha de v&ecirc;r como por
+primo o tratar&aacute;! &Eacute; um tratamento menos
+inc&oacute;mmodo;
+eu chamar-lhe-hei primo Henrique; chamar-me-ha,
+se quizer, prima Magdalena, e desterraremos
+para sempre a antipathica senhoria e excellencia;
+concorda?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos
+o principio falso, admittido pela fidalguia em
+Portugal, de que &laquo;os primos dos nossos primos,
+nossos primos s&atilde;o.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fica pois ajustado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fica ajustado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem. Mas que ia dizer ha pouco?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu j&aacute; sei... Ah!... Perguntava se tinha
+estado muito tempo em Lisboa e o que a obrigou
+a vir viver para aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; nem mais nem menos do que pedir-me
+a historia da minha vida. Seja; &eacute; um sacrificio inevitavel
+a quem se v&ecirc; pela primeira vez. Deixe-me
+primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[70]</span>
+E, depois de partir a cada crean&ccedil;a uma fatia de
+queijo, a morgadinha principiou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A historia &eacute; curta e sem peripecias, tranquillise-se.
+Eu sou filha de Manuel Bernardo de Mesquita
+e...
+<br />
+
+<br />
+
+Este nome era o de um dos principaes vultos
+politicos da &eacute;poca, e que ent&atilde;o militava no campo
+opposicionista, sendo indigitado para ministro na
+primeira reforma ministerial, homem influente, de
+grande capacidade politica, tendo sempre advogado
+no parlamento as ideias mais liberaes, e militado no
+partido progressista.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, que conhecia todas as
+personagens de importancia no paiz, fitou Magdalena
+com olhar estupefacto: t&atilde;o longe estava de encontrar
+alli a filha de um futuro ministro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha do conselheiro Manuel Bernardo! v. ex.<sup>a</sup>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Excellencia! Esquece-se da nossa conven&ccedil;&atilde;o?
+Repare! &Eacute; verdade. N&atilde;o sabia que meu pae era
+d'aqui? Eu e meu irm&atilde;o Angelo, que estuda actualmente
+n'um collegio em Lisboa, somos os unicos
+filhos de meu pae. Nasci, como disse, em Lisboa,
+mas as continuas enfermidades de minha m&atilde;e fizeram-nos
+vir para aqui viver na companhia d'ella;
+aqui mesmo morreu, e aqui est&aacute; sepultada. O Angelo
+nasceu j&aacute; n'esta casa. A morte de minha m&atilde;e
+deixou-me orph&atilde; aos doze annos, e incompleta a
+educa&ccedil;&atilde;o que ella principi&aacute;ra a dar-me
+e para a
+qual, se vivesse, ella s&oacute; bastaria. Fui pois obrigada
+a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha
+educa&ccedil;&atilde;o. Mas, ao chegar &aacute; idade dos
+quinze
+annos, receiando meu pae que os ares da cidade
+desenvolvessem em mim germens de molestia, que
+porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez
+para aqui, onde sempre passava alguns mezes no
+anno, e para onde me chamavam tambem habitos
+adquiridos em crean&ccedil;a. Eu sou muito alde&atilde;. Para
+aqui vim pois. A morte de meu tio, passado pouco
+tempo, impressionou profundamente a minha tia
+<span class="pagenum">[71]</span>
+Victoria, que ficou desde ent&atilde;o um pouco... um
+pouco... com pouca paciencia para olhar por as
+coisas domesticas. Isto creou-me novos deveres;
+havia aqui muitas crean&ccedil;as, estas duas, outras que
+est&atilde;o l&aacute; dentro, e Christina, que era
+ent&atilde;o crean&ccedil;a
+tambem; occupei-me a ajudar minha tia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E t&atilde;o admiravelmente, que a mais carinhosa
+m&atilde;e o n&atilde;o faria melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-me bem com as crean&ccedil;as, dou. E a meu
+pae devo, em parte, o ter aprendido cedo esta sciencia.
+Porque &eacute; uma sciencia tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o como procedeu o conselheiro para a ensinar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas
+umas ideias muito singulares. Excellentes as acho
+eu. Oh! n&atilde;o imagina que boa e excellente alma &eacute; a
+de meu pae! Era eu uma
+crean&ccedil;a, tinha onze
+annos, talvez, quando elle, um dia, vindo de Lisboa
+passar aqui algum tempo comnosco, me trouxe
+uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de
+Nuremberg. Nos primeiros dias n&atilde;o me fartava de
+a v&ecirc;r, de a beijar, at&eacute; commigo a deitava. Oito
+dias
+depois succedia o que era de esperar, j&aacute; nem d'ella
+sabia. Meu pae notou-o.&#8213;Ent&atilde;o, Lena&#8213;aqui todos
+me chamam assim&#8213;j&aacute; n&atilde;o gostas da tua
+boneca?&#8213;Disse-lhe
+eu: Gosto, mas...&#8213;Bem sei, j&aacute;
+fizeste tudo o que tinhas a fazer por ella, e como,
+pela sua parte ella nada faz por ti, enfastias-te, can&ccedil;as-te
+de conceber, a cada momento, brinquedos
+novos. Tens raz&atilde;o; onze annos j&aacute; n&atilde;o
+&eacute; idade em
+que o interesse se sustente com t&atilde;o pouco, &eacute;
+necessario
+mais. Ora dize-me, Lena,&#8213;continuou elle&#8213;se
+eu te mandasse vir uma boneca que movesse
+os bra&ccedil;os e os olhos, que te sorrisse, que chorasse
+tambem, que te beijasse at&eacute;...&#8213;Pois ha bonecas
+assim?&#8213;perguntei eu, admirada.&#8213;E desejaval-a?&#8213;Oh!
+se a houvesse!...&#8213;Trago-t'a &aacute;manh&atilde;.
+N&atilde;o
+dormi aquella noite a pensar na boneca. No dia seguinte
+apresentou-me meu pae uma crean&ccedil;a de um
+<span class="pagenum">[72]</span>
+anno, orph&atilde; de uma pobre familia, que uma epidemia
+extinguira, e disse-me:&#8213;Ahi tens a boneca
+que te prometti, Lena; vou confial-a aos teus onze
+annos. Veremos se tens juizo para brincares com
+ella. &Eacute; assim que eu quero que aprendas os deveres
+de m&atilde;e, que &eacute; a verdadeira sciencia apropriada
+a mulheres. E o que &eacute; certo &eacute; que eu, dissipado o
+desgosto dos primeiros momentos, porque o tive,
+confesso, costumei-me a querer &aacute;quella pobre
+crean&ccedil;a,
+fui avara nas suas caricias, troquei por ella todos
+os meus brinquedos, e senti-lhe do cora&ccedil;&atilde;o a
+morte, quando, um anno depois, ella me expirou
+nos bra&ccedil;os. Quando fui para Lisboa, j&aacute; ia educada
+para amar crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena cont&aacute;ra tudo isto naturalmente, sem
+a menor affecta&ccedil;&atilde;o, sem deixar at&eacute; de
+attender aos
+primos, o que augmentava o interesse com que a
+escutava Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E assim fica sabendo quem &eacute; a morgadinha dos
+Cannaviaes&#8213;concluiu ella, desatando o babeiro das
+crean&ccedil;as, que tinham terminado o
+<em>lunch</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular,
+prima Magdalena?&#8213;perguntou Henrique, tomando
+ao collo uma das crean&ccedil;as, que a morgadinha
+pousou no ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu sou realmente a morgadinha dos
+Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na
+quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
+perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito
+caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes.
+Tomou-me ella affei&ccedil;&atilde;o, e, sempre que passeiasse,
+me havia de levar comsigo; d'ahi come&ccedil;aram
+a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando
+ella morreu deixou-me tudo quanto possuia;
+n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de
+que sou proprietaria ainda. Foi uma como
+confi
+&#8213;&Eacute; que eu sou realmente a morgadinha dos
+Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na
+quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
+perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito
+caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes.
+Tomou-me ella affei&ccedil;&atilde;o, e, sempre que passeiasse,
+me havia de levar comsigo; d'ahi come&ccedil;aram
+a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando
+ella morreu deixou-me tudo quanto possuia;
+n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de
+que sou proprietaria ainda. Foi uma como
+confirma&ccedil;&atilde;o
+do titulo, que j&aacute; desde crean&ccedil;a me tinham
+dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo
+na verdade pouco elegante e que t&atilde;o mau conceito
+<span class="pagenum">[73]</span>
+fez conceber ao primo Henrique da possuidora
+d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei
+a pessoa a quem elle pertence, parece-me outro.
+Acho-o bonito, gracioso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos. Confesse que o titulo n&atilde;o &eacute;
+dos mais romanticos e que, de boa vontade, escreveria
+outro nome debaixo do desenho de phantasia
+que ahi fez, da mesma maneira que deu &aacute; humilde
+e fiel jumenta, que eu montava ha pouco, a
+conforma&ccedil;&atilde;o
+e orelhas elegantes de um palafrem, e quasi
+me transformou em uma amazona ingleza.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na impossibilidade de reproduzir as gra&ccedil;as
+naturaes, soccorri-me ao expediente das bellezas de
+conven&ccedil;&atilde;o. Confesso o meu deploravel erro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que n&atilde;o estamos em Lisboa, primo Henrique.
+Repare para essas arvores e refreie o sestro
+galanteador, com que est&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quem &eacute;! N&atilde;o leve o rigor a tal extremo.
+T&atilde;o injusta &eacute; comsigo, que se recuse a acceitar,
+como naturaes e sinceras, as phrases que a sua
+presen&ccedil;a inspira?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa
+crean&ccedil;a, que tem no collo, o est&aacute; encarando com
+os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim
+aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique beijou as faces da crean&ccedil;a, movimento
+em que n&atilde;o ia uma inten&ccedil;&atilde;o menos
+lisonjeira do
+que nas phrases que dissera, porque elle percebia
+que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos
+primos.
+<br />
+
+<br />
+
+Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e
+entrou, saltando, outra crean&ccedil;a mais crescida, mas
+ainda de vestidos curtos, trazendo na m&atilde;o uma folha
+de papel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena&#8213;dizia ella em alta voz.&#8213;Olha; queres
+v&ecirc;r o que o sr. Augusto s&oacute; me emendou hoje no
+thema francez?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza
+para Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o sr. Henrique de Souzellas&#8213;disse Magdalena.&#8213;O
+hospede da tia Doroth&eacute;a. Esta &eacute; Marianna,
+outra de minhas primas&#8213;accrescentou, voltando-se
+para Henrique.&#8213;J&aacute; v&ecirc; que n&atilde;o faltam
+crean&ccedil;as
+n'esta casa; e ainda ha mais. &Eacute; o que lhe d&aacute; o
+ar alegre que tem.
+<br />
+
+<br />
+
+Marianna cumprimentou Henrique e n&atilde;o se constrangeu
+por mais tempo; mostrando &aacute; prima a
+composi&ccedil;&atilde;o
+que o mestre lhe emend&aacute;ra, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&ecirc; que n&atilde;o tive muitos erros.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sorria, examinando o thema.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ia a fazer n&atilde;o sei que pergunta a Marianna,
+quando &aacute; mesma porta, por onde ella entr&aacute;ra,
+appareceu o mestre, de quem se falava.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, que assim se chamava o recem-chegado,
+era um rapaz de pouco mais de vinte annos de
+idade; de rosto pallido e physionomia intelligente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola
+de aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Trajava com simplicidade, por&eacute;m com asseio e
+g&ocirc;sto, e havia em toda a sua figura certo ar de
+distinc&ccedil;&atilde;o,
+que feria quem pela primeira vez o visse.
+<br />
+
+<br />
+
+N'um leve pendor de cabe&ccedil;a, no olhar penetrante
+e fixo, e nos labios, como habituados a fecharem-se
+&aacute; saida dos pensamentos intimos, lia-se o caracter
+pouco expansivo d'aquelle adolescente.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta
+deferencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como v&atilde;o os seus discipulos, sr. Augusto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Optimamente, minha senhora&#8213;respondeu o
+interrogado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Augusto&#8213;disse Magdalena, apresentando-o
+a Henrique&#8213;o primeiro mestre de meu irm&atilde;o
+Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esquece-se, minha senhora,&#8213;accrescentou
+Augusto&#8213;que de Angelo sou discipulo tambem, e
+mais discipulo do que fui mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+&#8213;Do que me esqueci, e, a falar a verdade, n&atilde;o
+devia, foi de que de Angelo &eacute; effectivamente mais
+do que mestre, &eacute; amigo; assim como de todos n&oacute;s.
+Este senhor&#8213;continuou ella, concluindo a
+apresenta&ccedil;&atilde;o&#8213;&eacute;
+o senhor Henrique de Souzellas, que se
+esperava em Alvapenha; &eacute; ainda nosso primo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teve carta de Angelo?&#8213;perguntou em seguida
+a morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o recebi ainda o correio de hoje.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem n&oacute;s; e &eacute; de estranhar que meu pae pelo
+menos n&atilde;o me escrevesse! Angelo n&atilde;o
+vir&aacute; passar
+a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce
+quando se v&ecirc; aqui. &Eacute; uma perfeita
+crean&ccedil;a
+ent&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique
+ainda n&atilde;o vira, entrou n'este momento na sala,
+trazendo um masso de cartas na m&atilde;o. Depois de
+cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou,
+disse para Augusto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mam&atilde; deu-me essas cartas para o sr. Augusto
+escolher d'ahi aquellas que eu pudesse ler.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu verei devagar&#8213;disse Augusto, guardando-as
+n'uma pasta que trazia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! j&aacute; temos o Eduardo a ler cartas!&#8213;disse
+a morgadinha, afagando o primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo que vejo&#8213;disse Henrique de Souzellas,
+vendo Augusto em disposi&ccedil;&otilde;es de partir&#8213;tem uma
+vida muito occupada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tanto que sou obrigado a pedir licen&ccedil;a para
+me retirar. Tenho de ir esta tarde a casa do Seabra...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?&#8213;perguntou
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda, sim, minha senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como v&atilde;o essas mulatinhas?
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto
+que n&atilde;o devia lisonjear a vaidade do sobredicto
+brazileiro, se tomasse a peito os dotes intellectuaes
+das referidas mulatinhas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span>
+Passados segundos,
+Augusto retirou-se, apertando
+a m&atilde;o a Magdalena que familiarmente lh'a estendeu,
+e a Henrique, que a imitou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ia apostar que vae alli uma intelligencia&#8213;disse
+Henrique ao v&ecirc;l-o sair&#8213;algum d'esses grandes
+espiritos, que vivem e morrem ignorados e
+improductivos, porque os n&atilde;o aquece o sol do favor
+publico, nem os bafeja a aura da moda caprichosa.
+&Eacute; terra de maravilhas esta, ao que estou
+vendo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um rapaz intelligente, &eacute;&#8213;disse a
+morgadinha&#8213;e
+uma alma generosa. Desde tenra idade
+costumou-se a trabalhar. N&atilde;o tem familia. O pae
+foi um pobre e honrado advogado de um logar perto
+d'aqui, que morreu quasi na miseria, deixando-o
+por educar. A m&atilde;e, que era d'estes sitios, para ahi
+veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se,
+mestre de si mesmo. Dirigiu os primeiros estudos
+de Angelo e hoje &eacute; o seu melhor amigo. A morgada,
+minha madrinha, legou-lhe um patrimonio
+para elle se ordenar: n&atilde;o quiz, e preferiu ser
+mestre-escola.
+Meu pae, que lhe reconhecia intelligencia
+para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada
+conseguiu. N&atilde;o ha quem o arranque d'estes sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prende-o talvez alguma paix&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. &Eacute; certo que &eacute; um professor
+modelo.
+O seu primeiro despacho foi temporario; agora,
+por&eacute;m, espera meu pae fazel-o effectivo; para o que
+j&aacute; elle fez novo concurso. J&aacute; v&ecirc; que
+ambi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o
+as d'este rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na verdade! com muito menos fundamentos
+ha quem aspire a ser ministro. Mas com certeza o
+cora&ccedil;&atilde;o entra como elemento no problema d'esse
+caracter.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ainda agora reparo!&#8213;exclamou a morgadinha&#8213;eu
+esquecida a conversar, e sem avisar
+a minha tia e Christina da sua chegada! N&atilde;o o fiz
+logo, porque as sabia occupadas em umas longas
+novenas, em que andam; mas agora &eacute; tempo. Vae,
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos dizer-lhes que
+est&aacute; aqui o... o primo Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Marianna e o irm&atilde;o sairam a correr.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae conhecer duas boas almas&#8213;disse Magdalena,
+voltando-se para Henrique&#8213;minha tia &eacute; uma
+santa senhora, cujo peor defeito &eacute; supp&ocirc;r-se
+victima
+dos criados; e Christina... Christina &eacute; um anjo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>V
+</h4>
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais
+penetrado da sympathia, que logo &aacute; primeira vista,
+aquella mulher lhe despert&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia na morgadinha um mixto de candura e de
+ironia, certa delicada reserva fluctuando, como uma
+sombra diaphana, na conversa familiar, a que t&atilde;o
+espontaneamente se dava; um visivel conhecimento
+dos usos e etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo
+uma coragem para cortar por elles, como quem se
+sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel &aacute;s
+suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas
+n'aquella sympathica indole feminina, que poucos
+seriam impassiveis deante d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas,
+calado, immovel, absorto, seguindo com os olhos
+os movimentos de Magdalena, que, sem o menor
+constrangimento, proseguia nas suas occupa&ccedil;&otilde;es
+domesticas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes
+timbres na sala immediata.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ellas ahi veem&#8213;disse a morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram
+na sala D. Victoria e Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+A m&atilde;e vinha dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo... N&atilde;o que voc&ecirc;s
+n&atilde;o querem
+<span class="pagenum">[78]</span>
+crer! Ora vejam se isto se atura... se isto n&atilde;o
+&eacute; para metter uma pessoa no inferno!... N&atilde;o tem
+que v&ecirc;r!... N&atilde;o ha ninguem que mais dinheiro
+gaste com criados e que seja t&atilde;o mal servida como
+eu!... Eu s&oacute; queria saber o que fazem os criados
+d'esta casa? Sim, s&oacute; queria que me dissessem o
+que elles fazem, esse bando de mandri&otilde;es!... Elle
+&eacute; o Torquato, elle &eacute; o Luiz, elle &eacute; o
+Dami&atilde;o, elle &eacute;
+a Ermelinda, elle &eacute; a Rosa, elle &eacute; a Violante...
+e
+n&atilde;o havia um s&oacute; que me viesse dizer que tinha
+chegado
+o primo! &Eacute; forte coisa!... Compromettem
+uma pessoa! Ent&atilde;o como est&aacute;?&#8213;accrescentou ella,
+mudando de tom para cumprimentar Henrique, a
+quem estendeu a m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, ao ouvil-a, tinha j&aacute; trocado com este
+um olhar malicioso.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique correspondeu delicadamente &aacute;
+sauda&ccedil;&atilde;o
+das senhoras e procurou justificar os criados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o m'os desculpe,&#8213;atalhou D. Victoria, elevando
+outra vez o tom de voz&#8213;aquillo &eacute; de proposito
+para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem
+me tira isto da cabe&ccedil;a... Aquillo &eacute; de proposito!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a mam&atilde; n&atilde;o v&ecirc; que as criadas
+estavam
+comnosco &aacute; novena?&#8213;lembrou timidamente Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que n&atilde;o estivessem. Quem tem servi&ccedil;o a
+fazer n&atilde;o pode ouvir novenas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se a mam&atilde; &eacute; que as mandou!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... pois sim... mas... mas ellas &eacute;
+que me deviam dizer que tinham que fazer. Ent&atilde;o
+eu &eacute; que lhes hei de estar a lembrar as suas
+obriga&ccedil;&otilde;es?
+N&atilde;o me faltava mais nada! Ora tens coisas,
+menina! Mas ent&atilde;o vamos a saber, primo Henrique,
+fez bem a sua jornada?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique principiou a falar para desvanecer a
+irrita&ccedil;&atilde;o
+de D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Como n&oacute;s j&aacute; sabemos dos pormenores da tal
+jornada,
+aproveitaremos a occasi&atilde;o para dizer duas palavras
+<span class="pagenum">[79]</span>
+a respeito das novas personagens, que est&atilde;o
+em scena.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, havendo attingido j&aacute; a idade respeitavel
+dos quarenta e tantos annos, dispensa-nos
+grandes longuras e esmeros de descrip&ccedil;&atilde;o. Basta
+que o leitor saiba que era uma senhora nutrida,
+bondosa no fundo, e que sabia muito bem trazer os
+vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente com
+os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito
+sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente
+sempre que tentava for&ccedil;ar o espirito a abra&ccedil;ar
+alguma
+ideia mais complexa; m&atilde;os rotas com a pobreza;
+intolerante, em theoria, com os ladr&otilde;es e
+malfeitores, por&eacute;m felizes d'elles se d'aquellas
+m&atilde;os
+lhes dependesse a condemna&ccedil;&atilde;o; eis o que era
+D. Victoria. Christina, por&eacute;m, tinha dezenove annos;
+e esta idade gosa de privilegios, que eu n&atilde;o
+posso infringir. O leitor n&atilde;o me perdoaria se me
+visse passar estouvadamente por deante da prima
+de Magdalena, sem um olhar de homenagem &aacute; sua
+juventude e ao seu typo feminino. Reparemos pois.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina era mais bonita do que bella. N&atilde;o havia
+n'aquelle rosto uma s&oacute; fei&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o f&ocirc;sse
+correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos meigos
+e quebrando-se com suavidade infantil; b&ocirc;ca,
+d'onde parecia sempre prestes a sair um afago ou
+uma consola&ccedil;&atilde;o; voz, que da muita piedade
+d'aquelle
+bom cora&ccedil;&atilde;o, tirava &aacute;s vezes
+modula&ccedil;&otilde;es commoventes;
+n'uma palavra, uma figura de cherubim,
+como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja
+m&atilde;o representou na t&eacute;la os augustos mysterios do
+christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria.
+Mas n&atilde;o procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos,
+que fixam de repente e como por magnifico
+influxo, a atten&ccedil;&atilde;o dos olhos, uma d'essas
+particularidades
+physionomicas, pelas quaes a natureza,
+destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um
+semblante, consegue tornal-o mais fascinador; temperavam-se
+alli t&atilde;o completamente todas as
+fei&ccedil;&otilde;es,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+que a atten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se sentia obrigada
+a passar do
+conjuncto d'ellas, o que lhes diminuia muito a intensidade.
+&Eacute; o grande sen&atilde;o dos rostos harmonicamente
+perfeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+Concordava-se em que Christina era galante, ninguem
+lhe negaria sympathias; mas o pensamento
+na ausencia d'ella, n&atilde;o se sentia dominado por a
+sua imagem: perdia-a at&eacute; n'um vago, quando pretendia
+fixal-a: eram suaves de mais as inflex&otilde;es
+d'aquelles contornos, brandas as tintas que lhes davam
+relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir
+facilmente o typo angelico, de que lhe fic&aacute;ra
+uma agradavel, mas vaga impress&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Por um homem, em quem predominasse a raz&atilde;o,
+Christina poderia vir a ser adorada; mas nas
+imagina&ccedil;&otilde;es
+ardentes, nos cora&ccedil;&otilde;es inflammaveis, difficil
+lhe seria produzir alguma impress&atilde;o duradoura.
+<br />
+
+<br />
+
+Para bem se comprehender a belleza de Christina,
+era preciso sondar-lhe primeiro o cora&ccedil;&atilde;o,
+apreciar
+todo o thesouro de sentimentos que alli se continha;
+ent&atilde;o descobrir-se-lhe-hia nas fei&ccedil;&otilde;es
+certa belleza
+ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas
+claridades que as almas puras e generosas vertem
+nas physionomias. Se n&atilde;o f&ocirc;sse receiar-me de
+linguagem
+que saiba a philosophia, diria que a belleza,
+que possuem umas mulheres assim, &eacute; uma
+belleza subjectiva.
+<br />
+
+<br />
+
+De tudo isto &eacute; natural concluir que Henrique de
+Souzellas podia sympathisar com a candida figura
+de Christina, a qual baixava timidamente os olhos
+deante d'elle, c&oacute;rando cheia de enleio e
+confus&atilde;o,
+mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse,
+n&atilde;o conseguiria por muito tempo desviar-lhe o
+sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha&#8213;que
+a muitos respeitos, menos na bondade de cora&ccedil;&atilde;o,
+formava contraste completo com sua
+prima.
+<br />
+
+<br />
+
+Trav&aacute;ra-se animada conversa&ccedil;&atilde;o entre
+as pessoas
+presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria
+e Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[81]</span>
+D. Victoria quiz ser informada da doen&ccedil;a de Henrique.
+Este passou a fazer-lhe uma exposi&ccedil;&atilde;o igual,
+com pequenas variantes, &aacute; que fizera &aacute; tia.
+<br />
+
+<br />
+
+Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas,
+aquellas tristezas, impaciencias e desalentos,
+que t&atilde;o ingenuamente a boa senhora classific&aacute;ra
+como mania.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique tornou para ella os olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina, de que ris tu?&#8213;perguntou D. Victoria,
+com certo tom de severidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rio-me d'aquella doen&ccedil;a, tia. Pois j&aacute; viu
+alguem
+padecer d'aquillo? Ora diga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?... mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode dizer que n&atilde;o. E comtudo o primo Henrique
+n&atilde;o mente. Ha d'aquellas doen&ccedil;as na cidade,
+ha; mas na aldeia s&atilde;o t&atilde;o raras, que eu mesma as
+estranho j&aacute;, eu que as vi em outro tempo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o cr&ecirc; na realidade d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhes estou a dizer que sim? Ou&ccedil;o
+at&eacute; que
+j&aacute; teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos
+da civilisa&ccedil;&atilde;o affei&ccedil;oam a seu modo a
+natureza humana
+e criam molestias novas, que nem por isso
+s&atilde;o menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha
+estranheza, ao v&ecirc;r um d'esses doentes em plena
+aldeia, n&atilde;o &eacute; modificada por todas essas
+considera&ccedil;&otilde;es.
+&Eacute; como um homem de casaca e gravata
+branca; n&atilde;o ha nada mais s&eacute;rio e mais grave n'uma
+sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga
+se o pode olhar a s&eacute;rio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer que n&atilde;o devo queixar-me aqui, sob
+pena de zombarem de mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o digo; mas n&atilde;o o
+entender&atilde;o; isso
+n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m a minha doen&ccedil;a n&atilde;o
+&eacute; s&oacute; d'essas, que
+se n&atilde;o d&atilde;o na aldeia, prima Magdalena; eu creio
+que verdadeiras desordens organicas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! tambem?&#8213;Com esse aspecto de robustez?!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[82]</span>
+&#8213;Se eu sei o que tu est&aacute;s ahi a dizer Lena!&#8213;disse
+D. Victoria, que n&atilde;o tinha percebido bem o
+dialogo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao
+primo Henrique todos os maus habitos da cidade,
+com que veio para aqui. Sem isso n&atilde;o pode curar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sujeitar-me-hei da melhor vontade a t&atilde;o agradavel
+dominio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Principia mal, se principia com uma fineza. J&aacute;
+o avisei ha pouco...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; necessario tornar-me grosseiro, para me
+salvar? N'esse caso renuncio &aacute; cura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grosseiro, n&atilde;o; basta que seja razoavel e sobretudo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabo? eu sei? Eu &aacute;s vezes sou sincera de mais.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu adoro as sinceridades.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; que o quer... &Eacute; preciso que seja razoavel
+e sobretudo... desaffectado.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os
+labios, c&oacute;rando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o acha?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho que est&aacute; sempre a imaginar-se n'um sal&atilde;o;
+faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e
+perdidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meninos, eu n&atilde;o vos entendo&#8213;repetia D.
+Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo eu que...
+<br />
+
+<br />
+
+Um criado entrando com as cartas do correio
+n&atilde;o a deixou continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre chegou o correio!&#8213;exclamou Magdalena
+com vivacidade, recebendo as cartas.&#8213;Por que
+veio t&atilde;o tarde?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mulher contou-me l&aacute; umas historias de uma
+qu&eacute;da, e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteja descan&ccedil;ada, minha senhora. Ella
+partiu
+j&aacute; e era um g&ocirc;sto v&ecirc;l-a a correr.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; de meu pae&#8213;disse ella, olhando-lhe para a
+lettra e, depois de pedir licen&ccedil;a, come&ccedil;ou a ler
+para si.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois agora&#8213;dizia, n'este meio tempo, D. Victoria
+a Henrique&#8213;o que deve &eacute; aproveitar estes
+bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas
+acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia
+que querias ir, Christina?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu! disse Christina, c&oacute;rando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso.
+Ora onde era?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; Senhora da Saude, mam&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade, &aacute; Senhora da Saude. Ahi
+est&aacute; j&aacute;
+um passeio bonito. V&ecirc;? Saem d'aqui uma manh&atilde;
+c&ecirc;do, levam alguma coisa para l&aacute; comer, porque o
+ar do monte abre o appetite, e a cavallo est&atilde;o l&aacute;
+n'um instante...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A cavallo, mam&atilde;! d'aqui &aacute; Senhora da Saude?
+Ora! Vae-se muito bem a p&eacute;&#8213;notou Christina do
+lado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; por os a&ccedil;udes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois por onde haviamos de ir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por a Granja, que &eacute; melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por a Granja! &Eacute; uma legua!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tem? mas escusam de trepar como cabras
+por o lado dos a&ccedil;udes, que &eacute; at&eacute;
+perigoso; e depois
+para que h&atilde;o de ir a p&eacute;, se para ahi
+est&atilde;o os cavallos
+sem fazerem nada? &Eacute; vontade de se can&ccedil;arem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas appetece ainda mais n'este tempo. S&oacute; se...
+s&oacute; se alli o sr. Henrique...&#8213;disse Christina,
+embara&ccedil;ada
+ao continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu o qu&ecirc;, minha senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o&#8213;interrompeu D. Victoria.&#8213;Por que
+n&atilde;o has de tu chamar primo ao primo Henrique?
+pois n&atilde;o chamamos tia &aacute; tia Doroth&eacute;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso mesmo, mam&atilde;,&#8213;respondeu Christina&#8213;os
+sobrinhos da tia Doroth&eacute;a n&atilde;o s&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+&#8213;N&atilde;o averiguemos d'esses parentescos, priminha,&#8213;acudiu
+Henrique&#8213;eu acceito a proposta da
+mam&atilde;, pe&ccedil;o para ser considerado do numero de
+seus primos.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina baixou os olhos, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas parece que receiava por mim, quando falou
+em ir a p&eacute; &aacute; Senhora da Saude. N&atilde;o sei
+onde
+&eacute; o logar, mas desde j&aacute; me comprometto a
+n&atilde;o
+can&ccedil;ar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem que saber&#8213;disse D. Victoria, caminhando
+para uma janella.&#8213;Ella l&aacute; est&aacute;. Olhe que
+inda &eacute; necessario saber trepar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tendo duas t&atilde;o galantes companheiras de viagem&#8213;tornou
+Henrique, depois de reparar no monte
+escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o
+mesmo que o almocreve lhe mostrou&#8213;parece-me
+que daria a p&eacute; uma volta ao globo e que subiria a
+correr o Pico de Tenerife.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu lhe digo, primo&#8213;accrescentou D. Victoria&#8213;&eacute;
+que se acautele, porque se lhes vae a
+fazer todas as vontades, tem que v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inda que morresse em t&atilde;o agradavel servi&ccedil;o,
+teria de agradecer a Deus a morte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C&aacute; me chegou aos ouvidos o cumprimento&#8213;disse
+Magdalena, que continuava a ler.&#8213;Logo ajustaremos
+contas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; implacavel esta nossa prima, n&atilde;o
+acha?&#8213;perguntou
+Henrique, sorrindo, a Christina, que por
+unica resposta s&oacute; soube sorrir tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o, &eacute; arranjarem, &eacute;
+arranjarem isso e
+quanto antes, que n&atilde;o ha que fiar no tempo. Eu se
+pudesse tambem ia, mas j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o
+passeios para
+mim, e depois estes criados...
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas receiou nova divaga&ccedil;&atilde;o
+sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas
+felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando
+a leitura da carta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco
+<span class="pagenum">[85]</span>
+as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo.
+Promette demorar-se at&eacute; o dia dos Reis.
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as saudaram a nova com gritos de alegria,
+e saltos de causarem inveja a um clown de
+circo.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria zangou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que pouca vergonha &eacute; essa? Parecem-me
+um bando de patetas! Ora vamos! J&aacute; quietos.
+A culpa tem a Ermelinda, que j&aacute; vos devia ter
+levado para a quinta. &Oacute; Senhor, esta praga de criados,
+que nunca ha de fazer a sua obriga&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as reprimiram um pouco mais as expans&otilde;es
+de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando
+a meia voz, em musica de composi&ccedil;&atilde;o d'ellas,
+o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo!
+Ora viva, viva! Ora viva, ol&eacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pschiu! Calae-vos!&#8213;bradou ainda D. Victoria;
+e voltando-se para Magdalena:&#8213;Mas ent&atilde;o como
+se entende isso, Lena? Ent&atilde;o o pae diz que vem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nas vesperas do Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois dos Reis.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; est&aacute; bem; e... sim... e ent&atilde;o o Angelo?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Angelo vem com elle. Quer v&ecirc;r a carta?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, menina. Mas &eacute; preciso n&atilde;o fazer
+confus&atilde;o...
+Ent&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha nada menos confuso... &Eacute; s&oacute;
+isto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; pois agora, sim; agora est&aacute; bem claro.
+Calae-vos, diabretes! &Oacute; meu Deus, que
+consumi&ccedil;&atilde;o!
+Mas ent&atilde;o por que n&atilde;o entregou o criado ha
+mais tempo essa carta? Eh! n&atilde;o que voc&ecirc;s dizem
+que elles...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tia, pois n&atilde;o ouviu que foi a mulher das
+cartas que se demorou, porque...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Historias! N&atilde;o me venham para c&aacute; com esses
+contos. Voc&ecirc;s est&atilde;o sempre promptos para
+desculpal-os.
+S&atilde;o elles...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[86]</span>
+&#8213;&Oacute; Lena, Lena&#8213;diziam as crean&ccedil;as&#8213;o primo
+Angelo n&atilde;o torna para Lisboa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de tornar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;, &oacute; Lena&#8213;disse D. Victoria&#8213;sabes tu
+o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes
+criados que tenho... Mas a mim lembra-me...
+uma vez que teu pae vem com o pequeno... e...
+est&aacute; agora c&aacute; o primo Henrique... lembra-me a
+mim... mas, j&aacute; digo, era se eu pudesse contar com
+os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos
+todos para consoar... A prima Doroth&eacute;a tambem,
+e aqui o primo; mas era se...
+<br />
+
+<br />
+
+Uma perfeita ova&ccedil;&atilde;o acolheu o projecto; as
+crean&ccedil;as levaram as suas demonstra&ccedil;&otilde;es
+de enthusiasmo
+at&eacute; o delirio, penduraram-se ao pesco&ccedil;o,
+&aacute;
+cinta, ao avental da m&atilde;e, gritando todas a um
+tempo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim, mam&atilde;, sim; mande convidar a tia
+Doroth&eacute;a,
+mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe
+e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos
+de cantar as janeiras... Mande, mande, mam&atilde;, por
+as alminhas; ora mande.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada,
+e erguia o bra&ccedil;o, como para a fustigar
+asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe
+o riso dos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiam d'aqui!&#8213;exclamava ella, quando conseguiu
+estar s&eacute;ria.&#8213;Saiam!... N&atilde;o ouvem?...
+Espera que eu vos falo... Ai, n&atilde;o fazem caso? Ora
+esperem... Marianna, j&aacute; devias ter mais juizo...
+Ent&atilde;o, Eduardo! Tu tambem? N&atilde;o tem vergonha!
+Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia das consoadas em familia f&ocirc;ra uma ideia
+que a ninguem deix&aacute;ra impassivel. Christina, a timida
+Christina, n&atilde;o disfar&ccedil;ou um movimento de
+jubilo; as m&atilde;os ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e
+raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+A propria Magdalena n&atilde;o se mostrou superior
+&aacute;quella tocante puerilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a
+nas faces, disse-lhe affectuosamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora ahi est&aacute; o que &eacute; muito bem pensado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, sim, mas o peor &eacute;... os criados&#8213;disse
+D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem
+mais trabalha somos n&oacute;s. Demais, teremos, para
+dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia
+Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que &eacute; a perola das criadas! Oh! aquella
+prima Doroth&eacute;a, aquella sua tia, primo Henrique,
+&eacute;
+que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam
+os de c&aacute; com a Maria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem d&uacute;vida. N'aquella noite quanto mais
+barulho e desordem, melhor&#8213;aventurou-se a dizer
+Christina, com impeto revolucionario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi temos outra! N&atilde;o, filha; isso &eacute; que
+n&atilde;o.
+Para barulhos &eacute; que eu j&aacute; n&atilde;o estou.
+Ent&atilde;o, n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; resolvido&#8213;disse a morgadinha, para cortar
+pelas divaga&ccedil;&otilde;es da tia.&#8213;Aqui o sr. de
+Souzellas&#8213;accrescentou,
+com maliciosa inflex&atilde;o&#8213;fica
+desde j&aacute; encarregado de transmittir &aacute; tia
+Doroth&eacute;a
+o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente
+convidado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceito da melhor vontade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei se o dever&aacute; dizer. &Eacute; preciso
+que o
+avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar
+na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto,
+pelo menos, de collabora&ccedil;&atilde;o nos guisados.
+Por isso veja l&aacute;....<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina, tens coisas!&#8213;disse D. Victoria.&#8213;Deixe-a
+falar, primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; deixe-a falar. Eu n&atilde;o dispenso
+ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu prometto n&atilde;o me recusar. Promptifico-me
+a tornar detestaveis os pratos em que puzer a m&atilde;o.
+Que mais querem?
+<br />
+
+<br />
+
+Foi alegremente acolhida a promessa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+As crean&ccedil;as, familiarisadas j&aacute; com Henrique, em
+quem tinham adivinhado um humor jovial, o que &eacute;
+sempre para ellas um motivo de attrac&ccedil;&atilde;o,
+trepavam-lhe
+j&aacute; aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre
+perguntas, difficultando-lhe as respostas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de jogar o rapa, n&atilde;o havemos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de jogar, havemos&#8213;respondeu Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o par ou pern&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem; tambem havemos de jogar o par ou
+pern&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe: e sabe contar historias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei tambem contar historias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ha de contar-nos, que n&oacute;s tambem lhe
+contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau
+e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, o sr. Henrique j&aacute; as sabe&#8213;disse, fazendo-se
+sisuda, Marianna.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sei, n&atilde;o, senhora; quem lhe disse
+que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meninos!&#8213;exclamou D. Victoria, que at&eacute;
+alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.&#8213;Ent&atilde;o
+isso que &eacute;? J&aacute; para baixo. Ai, se lhes
+d&aacute;
+confian&ccedil;a, est&aacute; arranjado, primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-os estar, minha senhora, este contacto
+de alegrias &eacute; salutar; pegam-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o diga a brincar&#8213;disse Magdalena&#8213;que
+tambem confio n'essas crean&ccedil;as para o curarem
+dos seus males.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o dev&eacute;ras emprehendeu curar-me?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com toda a certeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso havemos de discutir devagar esse
+ponto de pathologia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o havemos, n&atilde;o, senhor. &Eacute; mau
+medico o
+que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia
+e o tratamento. O medico deve ser obedecido
+com f&eacute;, e cega.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[89]</span>
+Christina que, havia muito, defronte de Magdalena,
+fazia esfor&ccedil;os por lhe chamar a
+atten&ccedil;&atilde;o, resolveu-se
+a falar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena&#8213;disse ella&#8213;que te parece a lembran&ccedil;a
+que teve ha pouco a mam&atilde;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A das consoadas? Excellente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, menina, a do passeio &aacute; ermida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Excellente tambem. Marquemos j&aacute; o dia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando queres?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois de &aacute;manh&atilde;, que &eacute; quinta
+feira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz, primo Henrique?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando quizerem, primas; agora mesmo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, veja l&aacute;, atreve-se a fazer uma madrugada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o viu hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, pois n&atilde;o! Na aldeia n&atilde;o se chama isso
+uma madrugada. &Eacute; preciso que se levante &aacute;s horas,
+a que se deitava na cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute;s a dizer, Lena?&#8213;acudiu Christina.&#8213;Deixa-a
+falar. Basta que saiamos d'aqui &aacute;s cinco
+horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta innocente Christina! Pois n&atilde;o &eacute; o mesmo
+que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha
+costume de se deitar mais c&ecirc;do em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de
+que, ha perto de um anno, sou valetudinario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade, que me tinha esquecido. O que
+vejo &eacute; que ha por aqui muita indolencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem a ouvir falar, ha de julgar que ser&aacute; ella
+a mais madrugadora; ora havemos de v&ecirc;r&#8213;disse
+Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena poz-se a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou
+que se convidasse Augusto, por ser conhecedor
+do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos
+de vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro,
+j&aacute; retardado uma boa hora ao que promettera &aacute; tia
+Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+Um criado serviu-lhe de guia at&eacute; Alvapenha.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas, ao findar aquella manh&atilde;,
+era inteiramente outro, do que viera para a aldeia.
+Todas aquellas horas se haviam passado, sem que
+o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer
+pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira,
+a troca reciproca de affectos entre os membros
+de t&atilde;o numerosa familia, a franqueza cordial
+com que f&ocirc;ra recebido, produziram n'elle uma
+impress&atilde;o
+profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Costumado ao viver desconsolador e de g&ecirc;lo de
+rapaz solteiro e s&oacute;; n&atilde;o passando, nas casas que
+visitava, al&eacute;m da sala de visitas, esse palco artificioso
+e reservado, onde as familias ante as familias
+representavam a comedia social, Henrique estranh&aacute;ra,
+mas agradavelmente, o espectaculo, quasi
+novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes,
+d'aquellas alegrias, que n&atilde;o se envergonham
+de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma
+revela&ccedil;&atilde;o que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter
+um
+dia uma familia assim; de viver entre crean&ccedil;as
+que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de
+affectos, que alli via manifestarem-se, e at&eacute; com alguem
+que ralhasse com os criados, &aacute; maneira de
+D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que a imagem da morgadinha
+apparecia sempre n'estes quadros que lhe tra&ccedil;ava
+a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes
+mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as
+fei&ccedil;&otilde;es queridas da mulher que elles traziam no
+pensamento e a quem deram assim a immortalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+De manh&atilde; parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal;
+complet&aacute;ra-o a figura de uma mulher; sem o
+sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no
+eden, onde a m&atilde;o de Deus o colloc&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, vagaroso, anda&#8213;disse D. Doroth&eacute;a a
+Henrique, assim que o viu chegar.&#8213;Se o jantar tiver
+esturro, a culpa &eacute; tua.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! foste l&aacute;? E ent&atilde;o gostaste d'aquella gente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma familia para o cora&ccedil;&atilde;o.
+Passa-se o
+tempo alli t&atilde;o depressa! A morgadinha, sobretudo,
+&eacute; adoravel!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, ai; como elle nos vem! Olha l&aacute; no que te
+mettes, menino! A mina boa &eacute;, mas... filho, anda
+alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique fitou os olhos na tia Doroth&eacute;a, que dissera
+isto com certa malicia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer, tia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu bem me percebes. Anda l&aacute;, anda. Se fizesses
+tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande
+coisa seria; mas sempre te digo que n&atilde;o tomes a
+coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique levou o caso a rir, mas &eacute; certo que esteve
+um pouco mais preoccupado e distrahido no
+resto da tarde.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VI
+</h4>
+
+<br />
+
+O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na
+companhia de qualquer amigo, ha de ter observado
+que, durante os primeiros tempos que passam juntos
+n'uma terra para ambos desconhecida, t&atilde;o
+alheios &aacute;s coisas como &aacute;s pessoas, no meio das
+quaes se v&ecirc;em, nem por momentos se soffrem separados;
+um segue sempre o outro em todos os
+passos que d&aacute;, precisa d'elle para communicar-lhe
+as primeiras impress&otilde;es recebidas, e pedir-lhe em
+troca as suas; &aacute; medida por&eacute;m que, pouco a pouco,
+se v&atilde;o familiarisando mais com os logares e
+com as personagens d'aquelle mundo novo, afrouxa
+a constric&ccedil;&atilde;o d'esses la&ccedil;os, e cada um
+principia a
+readquirir a independencia individual, que de motuproprio
+havia abdicado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[92]</span>
+Um facto similhante nos succede com Henrique
+de Souzellas. Encontr&aacute;mol-o na estrada; na companhia
+d'elle entr&aacute;mos em uma terra, onde tudo nos
+era estranho; nada mais natural do que dar o bra&ccedil;o
+um ao outro, passar juntos a manh&atilde;, e fazer, em
+commum, as nossas visitas. Agora, por&eacute;m, que temos
+j&aacute; algum conhecimento da terra e da gente, &eacute;
+tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos
+o jugo de uma companhia for&ccedil;ada, a qual, embora
+seja de um amigo estimavel, se &eacute; for&ccedil;ada,
+&eacute;
+sempre jugo, em certas occasi&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes,
+penso eu, haviam de ter momentos em que se
+desejassem s&oacute;s; se &eacute; que n&atilde;o deviam
+aos deuses a
+felicidade de possuirem curtos espiritos, o que n&atilde;o
+creio.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo
+com a tia Doroth&eacute;a a mais pacifica das conversas
+que podem auxiliar a digest&atilde;o de um jantar; deixemol-o
+no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos
+associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos,
+que &eacute; Augusto, o mestre de Marianna e
+de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos
+na sala da casa do Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao sair d'alli, Augusto seguiu atrav&eacute;s de campos
+e &aacute; beira de vallados, com aquelle ar pensativo que
+lhe era peculiar.
+<br />
+
+<br />
+
+O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas
+palavras da morgadinha, &eacute; j&aacute; bastante para que
+nos
+n&atilde;o admire a quasi incessante melancolia de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia
+e mal podendo, &aacute; custa de sacrificios, cultival-a, e
+eleval-a &aacute; altura das suas aspira&ccedil;&otilde;es!
+Alma generosa
+e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a
+chorar os infortunios que via, porque a pobreza lhe
+negava meios de remedial-os!..
+n&atilde;o ser&atilde;o estas
+ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma
+existencia, embora a juventude as illumine?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Havia alguns annos que esta disposi&ccedil;&atilde;o para a
+tristeza se exacerb&aacute;ra em Augusto. Coincidiu o facto
+com algumas circumstancias, que conv&eacute;m referir.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena
+e de quem viera a esta o nome de morgadinha,
+pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia
+ao morrer instituido um legado a favor de Augusto,
+ent&atilde;o crean&ccedil;a, com a
+condi&ccedil;&atilde;o d'elle abra&ccedil;ar a
+vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de Magdalena,
+devia administrar este legado, educando o rapaz nas
+escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro
+exame at&eacute; o da primeira missa, porque n'esse
+lhe entregaria o capital por inteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto succedeu no tempo em que a m&atilde;e de Augusto,
+que havia dois annos viuv&aacute;ra, luctava com a
+miseria, e o rapaz, pela sua penetra&ccedil;&atilde;o e pelo
+enthusiasmo
+com que aprendia, causava o espanto do
+velho mestre regio da localidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi por todos aben&ccedil;oada a memoria da morgada,
+por t&atilde;o bem cabido legado, que era ao mesmo
+tempo que remedio &aacute;s priva&ccedil;&otilde;es de uma
+familia,
+premio e estimulo &aacute; intelligencia e &aacute;
+applica&ccedil;&atilde;o de
+uma crean&ccedil;a, que promettia vir a ser... Deus sabe
+o qu&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio
+se a clausula, posta pela legataria como condi&ccedil;&atilde;o
+&aacute;
+concess&atilde;o do beneficio, n&atilde;o podia ser uma
+crueldade
+que o annullasse; se comprar um futuro por
+dinheiro, sem querer saber a quantidade de
+aspira&ccedil;&otilde;es,
+de esperan&ccedil;as, de phantasias que sejam, a que
+se tem de renunciar pelo contracto, n&atilde;o &eacute; uma
+iniquidade;
+se n&atilde;o era uma quasi simonia ir a casa do pobre,
+e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da
+miseria, prop&ocirc;r-lhe trocar por estes thesouros, que
+o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por
+mim abomino estes legados condicionaes, que um
+espirito malevolo, egoista e desejoso de dominar
+ainda depois da morte, tantas vezes dicta; essas
+<span class="pagenum">[94]</span>
+meigas generosidades s&atilde;o &aacute;s vezes a causa do
+infortunio
+de uma vida inteira; acceites ou recusadas,
+&eacute; raro que depois, a cada prova&ccedil;&atilde;o que
+nos
+experimenta, uma voz interior nos n&atilde;o exprobre o
+partido que abra&ccedil;amos.&#8213;&laquo;Louco! para que hesitaste
+em trocar meia duzia de phantasmas por um
+bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos
+idolos de poetas o beneficio que te
+offereciam?&raquo;&#8213;dir&aacute;
+ella aos que rejeitaram o
+pacto.&#8213;&laquo;Ambicioso!&#8213;clamar&aacute;
+aos outros&#8213;ahi tens a felicidade
+que julgaste comprar &aacute; custa do que ha de mais
+nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso,
+em que envolveste o altar do bezerro de ouro,
+consumindo ahi as tuas mais santas e generosas
+aspira&ccedil;&otilde;es.&raquo; Augusto n&atilde;o
+adivinhou por&eacute;m logo a
+crueldade da disposi&ccedil;&atilde;o testamentaria. Era muito
+crean&ccedil;a ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou;
+comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella
+pobre m&atilde;e, que s&oacute; podia abrigal-o com os extremos
+do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas
+conseguira deixar uma heran&ccedil;a; foi &aacute; viuva o
+dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo
+que podia inverter aquelle legado, velando elle pela
+fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria
+de certo a vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se
+mais e mais a intelligencia, quasi espontaneamente,
+pois justo &eacute; confessar que bem
+rudes eram os cuidados de cultura que o velho
+<em>magister</em>
+lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes
+effeitos que da intelligencia e do estudo, da
+aptid&atilde;o e da vontade, podem resultar? Dotem um
+homem d'essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe
+embora os meios de progresso, elle caminhar&aacute;,
+inventando-os primeiro, se tanto lhe f&ocirc;r preciso.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois, &eacute; um grande alento aos espiritos superiores
+a consciencia de uma nobre miss&atilde;o a cumprir.
+N&atilde;o ha fadigas que tal estimulo n&atilde;o
+ven&ccedil;a;
+abnega&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o inspire.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua
+m&atilde;e precisava d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ainda aos seus treze annos f&ocirc;sse j&aacute; bem
+conhecida a grandeza dos sacrificios que lhe exigiam,
+n&atilde;o hesitaria talvez, instigado por aquella
+aspira&ccedil;&atilde;o; quanto mais que ainda mais lhe tinham
+animado os sonhos, as doces imagens, t&atilde;o gratas
+ao cora&ccedil;&atilde;o do adolescente, e a que teria de
+renunciar.
+<br />
+
+<br />
+
+Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o
+qual, gra&ccedil;as aos esfor&ccedil;os empregados,
+n&atilde;o se fez
+esperar muito.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando se approximava a occasi&atilde;o, o pae de Magdalena
+mandou vir Augusto para Lisboa e hospedou-o
+em sua casa at&eacute; que chegou o dia.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o confiando demasiadamente no ensino publico
+da aldeia, o conselheiro quiz que o seu pequeno
+hospede recebesse algumas li&ccedil;&otilde;es de um professor
+da cidade, e d'este obteve as melhores
+informa&ccedil;&otilde;es
+da intelligencia do rapaz, que s&oacute; por milagre d'ella
+conseguira sair muito pouco eivado dos vicios do
+ensino de campo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto demorou-se algumas semanas em casa
+do conselheiro. A final fez o exame, no qual foi felicissimo,
+obtendo n'elle as mais distinctas qualifica&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Imagine-se o effeito que a noticia produziu na
+aldeia. Exaggerando-se, dizia-se por l&aacute; que em toda
+Lisboa corria a fama do rapaz, e houve at&eacute; quem
+n&atilde;o hesitasse em affirmar que a crean&ccedil;a
+confundira
+os mestres, que f&ocirc;ra uma maravilha.
+<br />
+
+<br />
+
+O mestre-escola reclamou para si a gloria do
+acontecimento, fundando-se em que, atrav&eacute;s do discipulo,
+resplandecia a sciencia do mestre.<br />
+
+<br />
+
+Os invejosos disputavam-lhe por&eacute;m t&atilde;o
+inquestionavel
+gloria e riam-se d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+A pobre m&atilde;e, essa, levou todo o dia a chorar de
+prazer e a render gra&ccedil;as &aacute; Virgem, a quem tanto
+encommend&aacute;ra o filho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span>
+Voltou Augusto &aacute; terra.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o rapaz o assumpto de todas as conversas:
+olhavam-o como um prodigio. Todos o queriam
+v&ecirc;r, como se at&eacute; alli o n&atilde;o tivessem
+visto bem, e
+de feito todos o foram v&ecirc;r; nem o abbade, nem o
+administrador, nem o presidente da camara faltaram.
+Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram,
+n&atilde;o houve um s&oacute; que n&atilde;o notasse que o
+pequeno
+vinha triste.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem contestava o facto: que elle como que
+saltava aos olhos; as interpreta&ccedil;&otilde;es &eacute;
+que variavam.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo &eacute; dos ares de Lisboa; a quem n&atilde;o
+est&aacute; costumado... dizia um.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o canceiras de estudos&#8213;aventava outro.&#8213;Ha
+l&aacute; coisa que puxe mais por uma pessoa do
+que o estudo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o que voc&ecirc;s cuidam! Um exame sempre
+abala a gente c&aacute; por dentro&#8213;dizia um doutor, que
+lev&aacute;ra dez annos a vencer um curso de cinco.
+<br />
+
+<br />
+
+F&ocirc;sse pelo que f&ocirc;sse, Augusto trouxera de Lisboa
+uma melancolia, que os ares da sua terra n&atilde;o
+dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam
+no futuro e no legado da morgada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita
+melancolia, foi, como era de supp&ocirc;r, a receiosa
+m&atilde;e. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos
+e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas,
+supplicas, argui&ccedil;&otilde;es, lagrimas, promessas,
+nada tiravam de Augusto, que teimava em responder
+que nada tinha que o affligisse, que era a illus&atilde;o
+de quem o via a tristeza que lhe suppunham,
+e, para confirmar o que dizia ria; mas era mais
+triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Para breve estava a entrada de Augusto no collegio
+de Lisboa, onde, &aacute; custa do legado da defuncta
+proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar nos
+seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum
+<span class="pagenum">[97]</span>
+tempo na aldeia. N&atilde;o se p&ocirc;de atinar com os
+motivos d'este pedido. Indolencia n&atilde;o era; pois no
+entretanto come&ccedil;ou a estudar os rudimentos do
+latim com o illustre professor, que o leitor conhece
+j&aacute;, mestre Bento Pertunhas.
+<br />
+
+<br />
+
+A saude vacillante da m&atilde;e de Augusto declinou
+n'esse inverno; o que veio dar outro motivo &aacute; demora
+do filho.
+<br />
+
+<br />
+
+Dias e dias passou o pobre rapaz sentado &aacute; cabeceira
+do leito dividindo os seus cuidados entre o
+estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois
+annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim
+d'elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo
+um beijo nas faces geladas de um cadaver.
+<br />
+
+<br />
+
+Era orph&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A vaga sombra de melancolia, que j&aacute; lhe toldava
+o rosto, condensou-se-lhe mais ent&atilde;o. Era quasi
+um negrume de tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena
+para a aldeia, pois receiava pela saude d'ella
+se persistisse em Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto,
+quando voltasse a Lisboa. Uma manh&atilde;, por&eacute;m,
+este, de pouco mais de quinze annos, procurou-o
+e disse-lhe com uma gravidade, que revelava
+uma ten&ccedil;&atilde;o meditada e irrevogavel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho prevenir v. ex.<sup>a</sup> de que desisto do
+legado
+da sr.<sup>a</sup> morgada. N&atilde;o quero
+ordenar-me.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro fitou-o, estupefacto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queres ordenar-te! Por qu&ecirc;?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o tenho m&atilde;e a quem amparar. Por
+ella
+for&ccedil;aria a minha voca&ccedil;&atilde;o sem remorsos;
+por interesse
+proprio n&atilde;o o posso fazer; parece-me um sacrilegio.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro era um homem muito do seculo.
+O seu trato social, a frequencia dos circulos politicos
+e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e
+m&aacute;s qualidades, que caracterisam aquella classe de
+homens, e sabe-se que a candura de sentimentos
+<span class="pagenum">[98]</span>
+n&atilde;o entra no numero das mais habituaes d'essas
+qualidades. Tinha uma raz&atilde;o clara, mas fria; se
+abra&ccedil;ava uma boa causa, n&atilde;o o fazia cedendo ao
+enthusiasmo, mas s&oacute;mente depois de ponderar fleugmaticamente
+os fundamentos em que ella se baseava;
+assim era que, em politica, se costum&aacute;ra a
+contemporisar, espa&ccedil;ando a adop&ccedil;&atilde;o de
+qualquer
+medida, inquestionavelmente boa, para tempos em
+que f&ocirc;sse mais conveniente; n&atilde;o se apaixonava por
+utopias, desconfiava d'ellas; havia muito tempo que
+desvi&aacute;ra dos olhos o prisma encantado, atrav&eacute;s do
+qual olham o mundo os poetas e todos os mais
+sonhadores; costum&aacute;ra-se a marcar por modelo
+nas differentes carreiras da vida, n&atilde;o um typo ideal
+dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos
+e vicios; assent&aacute;ra a menor altura o alvo:
+parecia-lhe que bom fito eram j&aacute; os individuos que
+tinham conseguido maior considera&ccedil;&atilde;o na sua
+classe;
+as maculas que elles tivessem, eram, por esse
+facto, maculas auctorisadas. O pensar de outro
+modo era pensar de romance; agradavel para entreter,
+por&eacute;m mau nas applica&ccedil;&otilde;es
+&aacute;s coisas da
+vida. N'uma palavra, o conselheiro era um homem
+de bem, mas na esphera mundana; n&atilde;o um d'aquelles
+typos de pureza crystallina, atrav&eacute;s da qual parece
+passarem sem desvio os raios da luz celeste,
+mas j&aacute; um tanto embaciado do bafo social, que
+n&atilde;o o fazia ainda totalmente opaco.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso sorriu &aacute; declara&ccedil;&atilde;o de
+Augusto. A carreira
+ecclesiastica n&atilde;o lhe parecia t&atilde;o escabrosa
+como o futuro sacerdote a fazia; nem t&atilde;o dura a
+lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro n&atilde;o
+pensava necessario tomar ao p&eacute; da lettra certos
+deveres impostos; o mundo seria, como elle, tolerante
+em naturaes infrac&ccedil;&otilde;es; por tudo isso se
+riu.
+Fez a Augusto uma longa disserta&ccedil;&atilde;o sobre as
+vantagens da vida ecclesiastica, sobre os muitos
+interesses que lhe promettia, e a leviandade com
+que elle queria renunciar a uma carreira segura
+<span class="pagenum">[99]</span>
+movido pelas instiga&ccedil;&otilde;es de um espirito timorato
+ou de uma vis&atilde;o phantastica.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto insistiu. Sem c&oacute;rar perante o sorriso
+sceptico do conselheiro, declarou que n&atilde;o
+abra&ccedil;aria
+a vida ecclesiastica sem que se sentisse com a coragem
+precisa para cumprir todos os deveres que
+ella lhe impunha; que era precisa uma grande
+abnega&ccedil;&atilde;o,
+e que elle, depois da morte de sua m&atilde;e,
+n&atilde;o tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses
+n&atilde;o pensava, e se pensasse, seria isso a primeira
+prova de n&atilde;o estar preparado para a miss&atilde;o de que
+se queria encarregar.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando alguem abra&ccedil;a com lealdade e franqueza
+uma boa causa, difficilmente &eacute; vencido. O conselheiro,
+costumado a n&atilde;o recuar nas mais acerbas
+luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco &aacute;s
+objec&ccedil;&otilde;es d'aquella crean&ccedil;a. Como que
+teve remorsos
+de tentar sequer desvanecer as illus&otilde;es a que
+o via abra&ccedil;ado,&#8213;illus&otilde;es pelo menos as suppunha
+elle; parecia-lhe uma obra satanica envenenar com
+um sorriso aquelle ideal, em que vivia.&#8213;Respeitou-o
+e calou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguma creancice amorosa dos quinze annos&#8213;pensou
+para si. Deixemos ao tempo convencel-o.
+N&atilde;o me encarregarei eu d'esse papel, que &eacute; pouco
+sympathico. Quem me restituira aquellas canduras!
+Teria alcan&ccedil;ado menos no mundo, mas talvez tivesse
+gosado mais... ou melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro cedeu apparentemente, esperando
+que a reflex&atilde;o modificaria, mais tarde, as ideias do
+rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as
+ten&ccedil;&otilde;es,
+em que estava de n&atilde;o se ordenar, pelo menos
+emquanto n&atilde;o passasse mais tempo sobre aquella
+resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro
+que se encarregasse da primeira educa&ccedil;&atilde;o
+de Angelo, ent&atilde;o de nove annos; pois mais confiava
+para isso em Augusto, do que no professor official.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que,
+sobre adequada aos seus g&ocirc;stos, lhe abria uma
+carreira, que elle j&aacute; imagin&aacute;ra adoptar.
+<br />
+
+<br />
+
+De ent&atilde;o nasceu uma intima amizade entre Angelo
+e Augusto. Foram rapidos os progressos do
+discipulo, e n&atilde;o menos reaes as vantagens que ao
+mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia
+cada vez mais a intelligencia.&#8213;O conselheiro tinha
+motivos para estar satisfeito da escolha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto
+em acceitar o legado eram as mesmas; o egoismo
+paternal do conselheiro n&atilde;o o deixou ser muito ardente
+a combatel-as.&#8213;Espa&ccedil;ou-se mais uma vez a
+decis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Outras li&ccedil;&otilde;es appareceram a Augusto, as quaes
+elle acolheu com g&ocirc;sto; o mestre-escola reclamava
+tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido
+da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho acabou por declinar n'elle o servi&ccedil;o todo,
+sem que Augusto consentisse em receber por isso
+o menor estipendio.
+<br />
+
+<br />
+
+O publico n&atilde;o se can&ccedil;ava de perguntar quando
+seria que o rapaz principiaria os seus estudos em
+Lisboa e por que o n&atilde;o fazia j&aacute;. Como
+n&atilde;o obtivesse
+resposta, commentava o facto, como costuma commentar
+todos os que n&atilde;o entende.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto a educa&ccedil;&atilde;o de Augusto
+n&atilde;o fic&aacute;ra
+estacionaria. Com grandes sacrificios a continu&aacute;ra
+elle; e n'um &ecirc;rmo, como era aquella aldeia, tinha
+muito de milagre o que fazia.
+<br />
+
+<br />
+
+O latim de mestre Bento j&aacute; mal satisfazia &aacute;s
+impaciencias
+do espirito d'este discipulo enthusiasta;
+e n&atilde;o era raro que a intelligencia de Augusto visse
+mais fundo nos textos, do que a experiencia do
+mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+O acaso favoreceu os desejos do estudante.
+<br />
+
+<br />
+
+N'uma freguezia proxima estava, como abbade,
+um doutor em theologia, homem de solido saber e
+de reputa&ccedil;&atilde;o extensa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[101]</span>
+Um dia em que, por convite do seu collega, viera
+assistir e pr&eacute;gar na festa do orago da aldeia, o padre
+encontrou-se com Augusto na sacristia e, conversando-o,
+admirou-lhe a penetra&ccedil;&atilde;o, captivou-se
+da sua modestia e lamentou n&atilde;o estar mais perto
+d'elle, porque o auxiliaria, como pud&eacute;sse, nos estudos.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade;
+affirmando-lhe o padre que sim, respondeu
+que n&atilde;o seria ent&atilde;o estorvo a distancia, porque
+elle
+a venceria.
+<br />
+
+<br />
+
+E d'ahi em deante, duas vezes por semana, &aacute;s
+quintas feiras e domingos, franqueava legua e meia
+dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as
+li&ccedil;&otilde;es
+do erudito abbade. Assim se aperfei&ccedil;oou na
+latinidade, cultivou a philosophia e adquiriu o g&ocirc;sto
+pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de
+l&aacute; carregado de livros para ler durante a semana.
+Toda a bibliotheca do padre lhe passou pelas m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Era por&eacute;m o theologo classico exclusivo e nada
+visto em linguas e litteraturas modernas.
+<br />
+
+<br />
+
+A sorte n&atilde;o recusou ainda a Augusto um novo
+mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os muitos estudos de estradas, de que os
+governos em Portugal fazem preceder, vinte annos
+antes, a construc&ccedil;&atilde;o definitiva de uma
+s&oacute;, que de
+ordinario sae sempre como se n&atilde;o f&ocirc;sse
+t&atilde;o estudada,
+um houve que levou &aacute; aldeia, em que eu e o
+leitor nos achamos, um engenheiro que ahi fez quartel
+e centro de opera&ccedil;&otilde;es, durante tres mezes
+inteiros.
+<br />
+
+<br />
+
+A casa em que elle se alojou ficava proxima da
+de Augusto. C&ecirc;do travaram conhecimento os dois.
+O engenheiro o menos que possuia eram livros de
+mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna,
+trazia nas malas e bah&uacute;s uma excellente provis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tendo que fazer &aacute;s noites, entreteve-se a
+ensinar
+o francez a Augusto e a ler-lhe os livros da
+<span class="pagenum">[102]</span>
+sua bibliotheca portatil. Voavam as horas a Augusto
+n'aquelles ser&otilde;es; n'elles aprendeu todos os nomes
+da nossa litteratura moderna, bem como os principaes
+da de Fran&ccedil;a e de Inglaterra.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o engenheiro partiu da aldeia j&aacute; Augusto
+sabia o francez bastante para se aperfei&ccedil;oar por si;
+este amigo deixou-lhe em lembran&ccedil;a grande parte
+dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar
+do collegio. O conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu
+mais uma vez com Augusto para que viesse
+tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em
+v&atilde;o, encontrou-o ainda inabalavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o
+ambicionado patrimonio foi concedido a outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Mezes depois morria o velho mestre-escola da
+aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe
+que pretendia aquelle logar, que j&aacute; havia muito tempo
+servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por
+que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da
+ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em
+que estava Augusto, o n&atilde;o ter ambi&ccedil;&otilde;es
+era indicio
+de uma profunda doen&ccedil;a moral; que a
+posi&ccedil;&atilde;o a
+que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita
+a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu por&eacute;m
+no intento; o conselheiro empenhou-se por elle em
+Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual
+se faz em Portugal tudo que &eacute; contra lei expressa,
+o dispensasse da idade que ainda n&atilde;o tinha, pois
+mal complet&aacute;ra dezenove annos, e Augusto foi por
+conseguinte admittido a concurso para t&atilde;o pouco
+disputado logar e provido n'elle por tres annos. O
+conselheiro, a quem n&atilde;o f&ocirc;ra impossivel obter-lhe
+despacho vitalicio, quiz v&ecirc;r assim se, no fim de tres
+annos, o obrigava a abandonar t&atilde;o laboriosa e mal
+recompensada carreira, e de proposito o fez despachar
+temporariamente. Comquanto o legado da morgada
+tivesse tido j&aacute; outra applica&ccedil;&atilde;o, o
+conselheiro
+<span class="pagenum">[103]</span>
+n&atilde;o hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o
+mestre de seu filho.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de
+por experiencia conhecer j&aacute; os espinhos da
+profiss&atilde;o,
+apresentou-se novamente ao concurso para obter
+novo despacho. Na &eacute;poca em que abrimos esta
+narra&ccedil;&atilde;o, volt&aacute;ra Augusto de pouco de
+ultimar a
+nova prova; e estava pendente ainda a decis&atilde;o do
+ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor,
+homem muito protegido por influencias da
+localidade, as quaes ainda n&atilde;o tinham podido vencer
+a do conselheiro, que pugnava por Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que f&ocirc;ra para Lisboa, Angelo n&atilde;o se
+esquecera
+de escrever amiudadas vezes a Augusto,
+contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-lhe
+a sua vida na capital; e quando vinha a f&eacute;rias, procurava
+transmittir ao que f&ocirc;ra seu mestre a sciencia
+que durante o anno adquir&iacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi assim que Augusto principiou a estudar a
+lingua ingleza, a geographia e a historia.
+<br />
+
+<br />
+
+Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia
+e applica&ccedil;&atilde;o faziam o resto.
+<br />
+
+<br />
+
+Um homem que havia na aldeia e com quem c&ecirc;do
+teremos de travar conhecimento, um velho herbanario,
+para alguns um sabio, para outros um louco,
+para todos um homem honrado, concorreu tambem,
+com o seu contingente, para a educa&ccedil;&atilde;o de
+Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se
+em casa d'elle com um pacote de livros
+debaixo do bra&ccedil;o e, sorrindo, pousava-lh'os em cima
+da mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava
+ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira
+vez, Augusto fitou o herbanario com espanto.
+Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois
+obter aquelles livros, alguns dos quaes eram de
+pre&ccedil;o? O velho por&eacute;m disse-lhe, ao perceber-lhe a
+surpreza:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+&#8213;N&atilde;o queiras saber da minha vida, rapaz. Supp&otilde;e
+que eu tenho a servir-me uma vara de cond&atilde;o
+ou uma fada qualquer, e deixa correr.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario
+tinha accumulado riquezas, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de
+economias:
+porque de economias vivera sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+De pequeno merecera &aacute;quelle velho uma singular
+sympathia, e com affecto de pae f&ocirc;ra sempre tratado
+por elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Resignou-se a acceitar sem reflex&otilde;es; at&eacute; porque
+sabia ser facil o escandalisar o velho com ellas. O
+que fazia era evitar, na presen&ccedil;a d'elle, qualquer palavra
+que pud&eacute;sse denunciar desejos de possuir um
+livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto
+algum poder occulto a informal-o, &aacute;s vezes parecia
+adivinhar; e trazia-lhe livros que Augusto dev&eacute;ras
+desejava, mas a respeito dos quaes tinha a
+certeza de lhe n&atilde;o ter falado, nem eram d'aquelles
+que o velho conhecia.
+<br />
+
+<br />
+
+A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a
+cren&ccedil;a supersticiosa do povo a respeito d'aquelle
+seu velho amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo
+as informa&ccedil;&otilde;es, pelas quaes o velho se guiava na
+escolha. N&atilde;o lhe attribuia por&eacute;m o presente,
+porque
+as economias de Angelo n&atilde;o chegavam para tanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de tudo quanto temos dito de Augusto,
+poder&aacute; ainda o leitor estranhar os ares pensativos
+com que o vemos?
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos passos andados, depois que saiu do
+Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das
+cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para
+elle. Era de Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda
+pelo caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma extensa carta, em que se succediam os
+periodos em um d'esses longos, incoherentes e diffusos
+arrazoados, que constituem a essencia de uma
+carta de amigo para amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[105]</span>
+Angelo falava dos seus estudos, de saudades da
+terra, de esperan&ccedil;as e de projectos, projectos que,
+n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o instante.
+Terminava esta carta, em que lhe participava
+a sua vinda &aacute; aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pe&ccedil;o-lhe que diga &aacute; Lindita que se
+n&atilde;o esque&ccedil;a
+de mim. Dentro de poucos dias conto ir v&ecirc;r
+os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a
+agua do po&ccedil;o. O pae d'ella chega ahi ao mesmo
+tempo que esta carta; leva um livro para si.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto sorriu, ao ler o
+<em>post-scriptum</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre Angelo!&#8213;murmurou elle,&#8213;Deus n&atilde;o
+permitta que sobreviva &aacute; tua ultima creancice essa
+sympathia por Ermelinda. Estas generosas
+affei&ccedil;&otilde;es
+de crean&ccedil;a muitas vezes, ao crescer, envenenam o
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia tanta amargura n'estas reflex&otilde;es de Augusto!
+<br />
+
+<br />
+
+E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa
+do recoveiro Cancella, que era o pae da pequena, a
+quem na carta se alludia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VII
+</h4>
+
+<br />
+
+A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das
+mais estreitas ruas da aldeia e ao lado de um pequeno
+quintal, objecto dos cuidados e das divers&otilde;es
+do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis
+da sua occupada e laboriosa vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia.
+A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas;
+pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o &aacute;manh&atilde;
+j&aacute; a mais de seis leguas de distancia; acotovelava
+um dia a multid&atilde;o nas ruas e feiras da cidade; no
+<span class="pagenum">[106]</span>
+outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes
+entrever os thesouros da experiencia adquirida
+&aacute; custa de muitos annos de fadigas.
+<br />
+
+<br />
+
+As estradas em Portugal e os novos meios de
+transporte, que conjunctamente vieram, n&atilde;o destruiram
+totalmente esse typo dos antigos tempos, anterior
+a ellas. Al&eacute;m da &eacute;poca, que parecia dever
+marcar-lhes limite &aacute; existencia, passaram, sustentados
+pela f&ocirc;r&ccedil;a dos habitos e justificados pelas
+irregularidades
+do servi&ccedil;o das postas; e Deus sabe
+quando de vez acabar&atilde;o. Mas Cancella era al&eacute;m
+d'isso um recoveiro de uma especie rara e superior.
+Em todas as profiss&otilde;es ha sempre, no meio do vulgo,
+que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia
+dos g&ocirc;sos, superiores aos interesses, que ellas
+podem offerecer, certo grupo de escolhidos, que as
+idealisam, e enxergam um raio de poesia atrav&eacute;s
+das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella
+era d'estes; era o poeta da sua profiss&atilde;o. Tinha em
+si o que quer que era de um
+<em>touriste</em>, e assim aproveitava
+todos os ensejos que se lhe offerecessem de
+explorar algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa.
+As muitas rela&ccedil;&otilde;es do conselheiro, pae de
+Magdalena,
+com as familias da aldeia, e a barateza relativa
+das recovagens operadas por este meio primitivo,
+proporcionavam-lhe algumas occasi&otilde;es d'isso, as
+quaes o Cancella de boamente aproveitava. Era de
+uma d'essas expedi&ccedil;&otilde;es que elle devia voltar
+aquella
+manh&atilde;, como o dava a entender a carta de Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando por&eacute;m Augusto lhe bateu &aacute; porta, achou-a
+ainda fechada; escutou &aacute; fechadura, mas n&atilde;o
+p&ocirc;de
+verificar o menor signal de que alguem estivesse
+dentro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; c&ecirc;do ainda&#8213;pensou comsigo.&#8213;Vejamos
+se estar&aacute; em casa do compadre.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.&#8213;A
+poucos passos mais, e do lado opposto, deparou-se-lhe
+<span class="pagenum">[107]</span>
+outra casa de aspecto n&atilde;o menos rustico
+do que a primeira, uma pequena casa terrea, de
+uma s&oacute; porta e uma s&oacute; janella, e com o respectivo
+quintal ao fundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Do interior vinha um sussurro de vozes, como de
+conversa animada; julgando que seria o Cancella,
+de quem o proprietario era, al&eacute;m de vizinho, confidente
+e compadre, Augusto empurrou a porta, que
+estava apenas cerrada e entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento
+quadrado, todo adornado &aacute; volta de cruzes de pau,
+para as devo&ccedil;&otilde;es da via sacra, e de imagens de
+santos
+e santas em caixilhos de todos os tamanhos.
+Mais do que os outros enramalhetado e enfeitado,
+via-se alli o bento registo de uma confraria, havia
+pouco tempo instituida na terra pelos missionarios,
+o qual occupava o logar de honra n'aquella devota
+exposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta
+confraria, sociedade um tanto mysteriosa, por meio
+da qual seus interessados instituidores s&oacute; visavam
+a dar o reino do c&eacute;o aos filiados, contentando-se
+<em>apenas</em>, em paga, com o do mundo, do
+qual, lembrados
+de antigos tempos, teem saudades j&aacute;. Os
+missionarios, certos evangelisadores em terras onde
+a palavra do Evangelho n&atilde;o &eacute; chave que abra a
+porta, pela qual entraram os martyres no c&eacute;o, l&aacute;
+andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa
+a ac&ccedil;&atilde;o d'esta historia, plantando a vinha, que
+elles
+chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando
+os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto catholico
+era por elles cada vez mais arrebicado com
+ora&ccedil;&otilde;es absurdas e ceremonias ridiculas, e o
+eterno
+anathema da ignorancia contra o progresso da sociedade
+servia de thema predilecto aos seus barbaros
+discursos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ardente proselyta d'estes apostolos de f&eacute; duvidosa,
+a sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o Baptista,
+a metade feminina do casal em quest&atilde;o, tom&aacute;ra
+<span class="pagenum">[108]</span>
+por modo de vida as devo&ccedil;&otilde;es da
+igreja, onde
+ia chorar as desgra&ccedil;as da humanidade, que t&atilde;o
+f&oacute;ra
+via andar da estrada direita.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando
+a alcova conjugal, que era vedada aos olhares
+profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas
+ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia
+&aacute; cozinha d'onde lhe continuava a chegar aos ouvidos
+o som de vozes, que primeiro o attrahira.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao contrario do que esperava, por&eacute;m, s&oacute; uma
+pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse
+com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta pessoa era o dono da casa, o sr. Jos&eacute; do
+Enxerto, ou vulgarmente chamado ti' Z&eacute; P'reira&#8213;nome
+que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento,
+o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem
+ainda hoje aquelle nome.&#8213;Era muito para v&ecirc;r e
+admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia
+tocar nas festas e arraiaes, &aacute; frente das
+prociss&otilde;es
+e c&ecirc;rcos, e finalmente em todas as solemnidades
+publicas.
+<br />
+
+<br />
+
+O ti' Z&eacute; P'reira era homem dos seus quarenta e
+tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz,
+vestigios evidentes das suas sympathias pela
+divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo
+da sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o
+Baptista, vivia em perenne sabatina com a sua cara
+metade, sujeitando-lhe todas as suas ac&ccedil;&otilde;es, mas
+salvando sempre o direito de protestar pela palavra.
+Ganhava a vida no officio de hortel&atilde;o e, aos
+domingos e dias de festa, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de
+rufos e pancadaria
+na retesada pelle do seu companheiro inseparavel&#8213;o
+zabumba. Era aos cuidados e vigilancia
+d'este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava
+o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda,
+uma mimosa crean&ccedil;a, que lhe fic&aacute;ra &aacute;
+sua
+viuvez t&atilde;o cheia de saudades, e a quem elle mais
+queria do que &aacute; menina dos olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+Ermelinda era afilhada da familia Z&eacute; P'reira, e a
+mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim
+da carta.
+<br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira estava, como diss&eacute;mos, s&oacute;
+na cozinha,
+quando Augusto alli chegou: sentado, no meio da
+sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para
+o ar, viradas as costas para a porta e a face para
+o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava
+de tom desde a nota mais grave e rouca da sua
+escala de barytono, at&eacute; o mais agudo e desafinado
+falsete. A lingua pegava-se-lhe ao c&eacute;o da b&ocirc;ca,
+difficultando-lhe suspeitosamente a articula&ccedil;&atilde;o
+de
+algumas syllabas; era evidente que se aposs&aacute;ra do
+hortel&atilde;o o espirito familiar, o qual n'este caso, era
+um verdadeiro espirito, na accep&ccedil;&atilde;o chimica do
+termo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ze P'reira era um homem baixo, j&aacute; grisalho, sufficientemente
+nutrido, de olhos vesgos e que mais
+vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto
+artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas
+que pareciam tentar sumir-se-lhe pela b&ocirc;ca dentro;
+tinha longos bra&ccedil;os, accommodados &aacute;s
+difficuldades
+e evolu&ccedil;&otilde;es da sua arte, e pernas que,
+do joelho para baixo, lhe divergiam em angulo de
+mais de trinta graus.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto deu com elle, o homem monologava,
+gesticulando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!...
+&Eacute; forte desgra&ccedil;a!... Aqui estou eu!...
+Um homem casado... casado &aacute; face da igreja...
+que me casou em dia de S. Thiago o abbade que
+foi... e que Deus tenha em descan&ccedil;o. N&atilde;o faltou
+nada... correram-se banhos deante de quem os
+quiz ouvir, e n&atilde;o houve quem puzesse impedimento...
+porque eu n&atilde;o devia nada a ninguem...
+sempre fui liso de contas... Sou casado com a
+Catharina do Nascimento de S. Jo&atilde;o Baptista, filha
+do Antonio Canhestro, do logar dos F&oacute;jos... E
+casado para qu&ecirc;? Faz favor de me dizer? Para que
+<span class="pagenum">[110]</span>
+casei eu?... Forte desgra&ccedil;a a minha! Casei-me
+para isso!... Para vir para casa e achal-a vazia,
+o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher
+a papar missas e novenas l&aacute; por essas igrejas...
+Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!
+&Eacute;
+forte desgra&ccedil;a!... Bem morria eu de frio e de fraqueza,
+se n&atilde;o f&ocirc;sse aquelle quartilhito... o ultimo,
+que sempre me deu sua aquella... sim... sempre
+me conchegou o estomago. N&atilde;o que dizem que o
+vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois
+casem-se com uma mulher que v&aacute; de madrugada
+para a igreja e venha de l&aacute; quando muito bem lhe
+pare&ccedil;a, e ver&atilde;o depois se o vinho n&atilde;o
+serve de cobrir
+muita lazeira que se soffre... ver&atilde;o depois...
+Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!...
+Diz que Deus que disse, que a mulher que era a
+carne da nossa carne e o osso do nosso osso...
+Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas
+coisas... para n&atilde;o esquecerem... como se faz na
+escola com a taboada. A minha Cath'rina j&aacute; o
+n&atilde;o
+sabe, aposto... e pelos modos os padres n&atilde;o lhe
+dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A
+carne da minha carne e o osso do meu osso!...
+mas &eacute; carne e osso que me n&atilde;o fazem caldo...
+Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!...
+Como ha de um homem, se isto assim continua,
+pegar na enxada para dar uma cavadela, ou fazer
+qualquer sachada?... E tambem quero v&ecirc;r como
+hei de no arraial e prociss&atilde;o de Santo Amaro, que
+n&atilde;o tarda ahi, dar sequer um
+rufo assim mais
+tal... assim mais scientifico? Eu se f&ocirc;sse bispo...
+<br />
+
+<br />
+
+A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida
+pela appari&ccedil;&atilde;o de nova personagem &aacute;
+porta do quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha
+um bocadinho de paciencia. &Eacute; um instante emquanto
+accendo o lume e lhe fa&ccedil;o o caldo. Ver&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha,
+era uma rapariga de doze annos, alva e franzina,
+<span class="pagenum">[111]</span>
+como a mais delicada crean&ccedil;a da cidade, com
+os olhos negros e expressivos de intelligencia e de
+do&ccedil;ura, e com os mais formosos cabellos louros
+que ainda enfeitaram uma cabe&ccedil;a infantil. N&atilde;o
+havia
+n'elles sombra, que desvanecesse aquella c&ocirc;r
+deslumbrante; reflectia-se-lhes a luz nas ondas,
+naturalmente lustrosas, como em tenuissimos fios
+de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre
+de artificio, de um e de outro lado do collo.
+<br />
+
+<br />
+
+Condizia com a express&atilde;o angelica do semblante
+o suave e affectuoso timbre de voz com que fal&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor prev&ecirc; de certo que &eacute; Ermelinda, a filha
+do Cancella, ou Lindita, como geralmente na aldeia
+lhe chamavam, a crean&ccedil;a que tem na sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda sobra&ccedil;ava um m&oacute;lho de
+hortali&ccedil;a,
+que f&ocirc;ra colher ao quintal, e dirigia-se com ella
+para o lar, que o descuido e a indifferen&ccedil;a conjugal
+deixavam ainda apagado &aacute;quella hora do dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Dando, por&eacute;m, com os olhos em Augusto, parou,
+sorrindo-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu
+padrinho talvez sem reparar.
+<br />
+
+<br />
+
+A estas palavras o desditoso marido voltou a
+cabe&ccedil;a e fitou em Augusto um dos seus desemparelhados
+olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem!
+Entre; esta casa &eacute; sua... De jantar n&atilde;o lhe
+offere&ccedil;o...
+porque... porque... Forte desgra&ccedil;a a
+minha... Olhe! repare para este desaforo!...
+Venho para casa, morto de trabalho... e vejo o
+lar apagado! A minha mulher est&aacute; a ouvir missa,
+a confessar-se, a commungar... a tomar todos os
+sacramentos... acho que os est&aacute; a tomar todos...
+Louvado seja Deus! Vem ahi t&atilde;o limpa de
+consciencia,
+como eu estou do estomago... Ora, senhores...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe estar, padrinho... Ver&aacute; como isto se
+arranja depressa... Olhe; o lume j&aacute; est&aacute;
+acc&ecirc;so&#8213;dizia
+<span class="pagenum">[112]</span>
+Ermelinda, accendendo effectivamente o lume
+no lar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; o devias ter feito antes, Lindita,&#8213;disse
+Augusto, sentando-se junto d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se inda agora vim das pr&ecirc;sas, onde fui
+lavar a roupa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre pequena&#8213;disse o Z&eacute; P'reira&#8213;tambem
+n&atilde;o te ha de faltar lazeira, tambem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? Agora. N&atilde;o que eu n&atilde;o sa&iacute; de
+casa
+com as algibeiras vazias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... mas &eacute; sempre preciso coisa que
+conforte... Inda se tu bebesses... j&aacute;
+n&atilde;o digo
+um quartilho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Credo, meu padrinho! Que est&aacute; a dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que espanto!... Ora, senhores, que parece que
+o vinho &eacute; bebida amaldi&ccedil;oada, que todos lhe teem
+m&ecirc;do! &Eacute; v&ecirc;r se o padre na missa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Padrinho! padrinho! que vae dizer?&#8213;interrompeu
+Ermelinda, quasi aterrada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo o que &eacute; verdade, rapariga!... Tenho
+minha presump&ccedil;&atilde;o de nunca dizer sen&atilde;o
+a verdade...
+L&aacute; o pespeguei na cara do sr. juiz de direito
+e mais do sr. doutor delegado e mais doutores,
+quando fui a um juramento, por causa d'aquellas
+pancadas no recebedor... &Eacute; que nenhum d'esses
+santalh&otilde;es, d'esses missionarios me teem que
+ensinar n'esse ponto... Os missionarios!... Eu,
+um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao
+trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem
+no pulpito, se Deus lhes manda que tirem as
+mulheres de casa, para que os maridos n&atilde;o tenham
+que comer, quando voltarem do trabalho... Um
+dia inda lhes vou perguntar... isso vou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe; a agua n&atilde;o tarda a ferver; ver&aacute;
+que
+dentro em pouco...&#8213;continuou Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, Lindita, bem&#8213;disse Augusto&#8213;em paga
+da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma
+alegre nova.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? Diga.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+&#8213;Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias
+te dar&aacute; em vez de visitas, um abra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como adivinhaste depressa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois de quem mais havia de ser? Mas diz
+que... em poucos dias... Ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tel-o-hemos c&aacute; pelo Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fala verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;?&#8213;respondeu a rapariga, fitando por&eacute;m
+o papel com os olhos cheios de curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora l&ecirc;, l&ecirc;... At&eacute; para v&ecirc;r
+se ainda te recordas
+das li&ccedil;&otilde;es, que eu te dei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, l&aacute; isso... mas, o caldo do meu padrinho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa que o lume &eacute; que o ha de aquecer e n&atilde;o
+a tua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda approximou-se; tomando a carta das
+m&atilde;os de Augusto, come&ccedil;ou a l&ecirc;l-a com
+intensa
+curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira proseguiu no seu monologo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A religi&atilde;o, senhores&#8213;dissertava elle&#8213;n&atilde;o
+manda tal... Isso &eacute; que n&atilde;o manda... A
+religi&atilde;o
+&eacute; a palavra de Deus... e Deus disse... sim...
+Deus disse... Deus disse muita coisa... Disse que
+por este deixar&aacute;s pae e m&atilde;e. Ora a santa madre
+igreja &eacute; m&atilde;e, &eacute;, sim, senhores; que
+tem l&aacute; isso?
+mas n&atilde;o &eacute; mais m&atilde;e do que a outra
+m&atilde;e... e ent&atilde;o...
+senhores, uma mulher n&atilde;o deve deixar por
+ella o seu marido; porque o marido, senhores, &eacute; o
+tudo de uma casa, e o ganhap&atilde;o da familia. Ora,
+senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O monologo do desconsolado conjuge e a leitura
+de Ermelinda foram interrompidos por uma voz
+potente, que cantava na rua.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">O dinheiro paga tudo,<br />
+
+N&atilde;o se fica a dever nada;<br />
+
+Toma, toma o lim&atilde;o verde,<br />
+
+&Oacute; da fresca limonada.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span>
+E logo em seguida estalaram as taboas do soalho
+no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e
+no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura
+agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da
+Ermelinda. Cancella, ou o Jo&atilde;o Herodes, que assim
+tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos
+em que era actor applaudido e popular, o typo do
+sanguinario e infanticida rei da Jud&eacute;a, f&ocirc;ra pela
+natureza
+dotado de uma estatura e robustez, dignas
+de Adamastor.
+<br />
+
+<br />
+
+Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas
+realisa&ccedil;&otilde;es
+dos temperamentos sanguineos que, sem
+amea&ccedil;arem de insultos apopleticos, d&atilde;o riqueza ao
+sangue, vigor aos musculos e &aacute; physionomia o aberto
+e colorido da saude e os reflexos da satisfa&ccedil;&atilde;o
+interior.
+<br />
+
+<br />
+
+A barba negra e espessa cercava-lhe as faces
+c&oacute;radas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado
+sob o duplo arco de bastas sobrancelhas,
+que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras
+amea&ccedil;adoras, d'onde fuzilavam relampagos. Era formidavel
+ent&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+O riso pairava-lhe por&eacute;m, nos labios, quando na
+presen&ccedil;a de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras
+de alvissimos e bem dispostos dentes, d'esses que
+os excessos e absurdos culinarios ainda n&atilde;o deterioraram.
+<br />
+
+<br />
+
+Parando &aacute; porta da cozinha, o Herodes (&aacute;s vezes
+lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume
+na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais
+que tudo trazia na memoria&#8213;a filha.&#8213;Esta, pela
+sua parte, mal o reconheceu, correu a lan&ccedil;ar-se-lhe
+nos bra&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+O pae pegou n'ella, como se f&ocirc;sse uma penna,
+levantou-a &aacute; altura dos labios e pousou-lhe nas faces
+dois s&ocirc;fregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes
+de todo aquelle intenso amor paternal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;exclamou, pousando-a no ch&atilde;o e respirando
+como quem acabava de satisfazer uma intensa
+<span class="pagenum">[115]</span>
+necessidade do cora&ccedil;&atilde;o.&#8213;Isto consola que nem o
+copo de agua que a gente, em dias de calma, pede
+&aacute; borda da estrada, quando se leva a b&ocirc;ca secca
+e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem
+estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?...
+&Oacute; sr. Augusto! tambem por c&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava-o, Cancella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim?&#8213;continuou o homem, pousando no
+ch&atilde;o uma mala que trazia.&#8213;Pois aqui me tem. Mas,
+dizia eu, um homem quando anda l&aacute; f&oacute;ra, e pensa
+no que lhe ir&aacute; por casa, sente &aacute;s vezes uns
+sustos,
+que parece que lhe fazem tudo escuro... As desgra&ccedil;as,
+para succederem, n&atilde;o p&otilde;em muito... De
+um momento para outro... E depois a gente ouve
+por l&aacute; conversas, v&ecirc; coisas que parece que
+s&atilde;o
+agouros... e que nos fazem a noite no cora&ccedil;&atilde;o...
+Umas vezes &eacute; um enterro... outras, um desastre...
+um fogo... um... E as crean&ccedil;as s&oacute;s, e os paes
+f&oacute;ra de casa!... Ai! Isto &eacute; de ralar o
+cora&ccedil;&atilde;o de
+uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia
+me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante l&aacute; a
+sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram j&aacute;
+hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, &eacute; homem
+de bem: a comadre &eacute; uma santa, que s&oacute; tem o
+defeito
+de querer ser santa dev&eacute;ras... mas emfim...
+tudo isso n&atilde;o obsta; uma coisa &eacute; uma pessoa saber
+o que lhe vae por casa, outra... Tremem-me as
+pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma
+de Christo, que encontro, estou sempre a v&ecirc;r quando
+me vem dar alguma nova m&aacute;. Salta-me c&aacute; por dentro
+o cora&ccedil;&atilde;o, que ninguem faz uma ideia; eu bem
+canto a v&ecirc;r se disfar&ccedil;o, mas... Ai, filha da minha
+alma, quando me passa pelo pensamento que te
+posso um dia vir achar doente!... Assim me succedeu
+com tua m&atilde;e... Deixei-a uma vez t&atilde;o satisfeita
+e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa
+que encontro, diz-me &aacute; queima-roupa: &laquo;Venha,
+sr. Jo&atilde;o, venha, que j&aacute; n&atilde;o vem sem
+tempo. Corra
+a casa, se ainda quer v&ecirc;r sua mulher...&raquo; Foi como
+<span class="pagenum">[116]</span>
+se recebesse uma descarga em cheio no peito...
+corri, e...
+<br />
+
+<br />
+
+A commo&ccedil;&atilde;o impediu-o de continuar;
+disfar&ccedil;ou
+como envergonhado d'aquella fraqueza, beijando a
+filha outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda percebeu a perturba&ccedil;&atilde;o do pae e
+disse-lhe
+carinhosamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que est&aacute; agora a pensar n'essas coisas
+que o affligem, meu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-me c&aacute;, rapariga. Isto &aacute;s vezes tambem
+faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te
+vejo, pequena, e te vejo com boas c&ocirc;res e alegre...
+nem eu sei o que tem m&atilde;o em mim, que n&atilde;o me
+ponho a dan&ccedil;ar. Ah!... ah!... Ninguem tem uma
+filha como eu! Olhe que n&atilde;o, sr. Augusto; mal fica
+a mim dizel-o, mas... L&aacute; por Lisboa e por o Porto
+ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha
+loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados?&#8213;e
+passava com orgulho os dedos pelos bastos
+cabellos de Ermelinda&#8213;mas uma pelle assim
+delicada,&#8213;e afagava-lhe com as m&atilde;os a face, quasi
+a m&ecirc;do&#8213;mas olhos assim a metterem-se mesmo
+pelo cora&ccedil;&atilde;o &aacute; gente?&#8213;e beijava-lh'os
+com paix&atilde;o&#8213;isso
+&eacute; que eu ainda n&atilde;o vi, nem tenho de
+v&ecirc;r.
+Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um
+selvagem como eu, &eacute; que n&atilde;o sei... &Eacute; a
+imagem
+da m&atilde;e!... Ella tambem era poucochinho de si...
+miudinha e... Mas n&atilde;o pensemos n'estas coisas.
+Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal
+com a minha vida por arranjar e eu posto &aacute; taramela.
+Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e
+muitos recados, muitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei; Angelo escreveu-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle!
+Aquillo &eacute; uma perola! Com tres milheiros de demonios
+do inferno! d'alli ha de sair coisa grande. Eu
+n&atilde;o queria morrer sem v&ecirc;r o que sa&iacute;a
+d'alli. Brinca
+como uma crean&ccedil;a, mas, quando quer, p&otilde;e-se
+s&eacute;rio,
+e fala como homem. E nada de soberbas, nem de
+<span class="pagenum">[117]</span>
+ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da
+cidade, quando conversam com uma pessoa rustica...
+Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta...
+isso &eacute; um nunca acabar, quando l&aacute; me
+pilha... Ent&atilde;o como vae fulano? e sicrano? e se
+j&aacute;
+se fez aquella casa, e se j&aacute; acabou aquella obra, e
+se j&aacute; casou este, e se inda vive aquelle, e mais para
+aqui, e mais para acol&aacute;, e tudo quer muito explicado...
+Ah! ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois
+c&aacute; a respeito da rapariga?... Isso &eacute; uma
+comedia!...
+N&atilde;o se farta de me ouvir falar d'ella... Ah,
+sr. Augusto, &aacute;s vezes chego a ter pena de que isto
+nascesse minha filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, filha,&#8213;proseguiu elle.&#8213;Deus n&atilde;o te devia
+dar a um homem como eu, que emfim... Com
+os diabos! l&aacute; alma e cora&ccedil;&atilde;o...
+n&atilde;o quero que
+haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um
+amigo... e com mil demonios, at&eacute; por um inimigo,
+se n&atilde;o f&ocirc;r soberbo, vamos l&aacute;, dou a
+camisa do corpo...
+Mas o mundo... Bem, bem, eu c&aacute; me entendo.
+Vamos &aacute; minha tarefa. Mas que tem voc&ecirc;
+estado para ahi a pr&eacute;gar, compadre, desde que eu
+entrei? Humh! humh! parece-me que j&aacute; se cantou
+a gloria, hoje, visto que j&aacute; se est&aacute; ao
+serm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente Z&eacute; P'reira tinha apenas concedido
+ao seu compadre um olhar de distrac&ccedil;&atilde;o e um aceno
+de m&atilde;o, e volt&aacute;ra de novo &aacute;s suas
+queixas amargas
+contra a sorte e contra a esposa.
+<br />
+
+<br />
+
+Interrogado pelo Herodes, Z&eacute; P'reira reproduziu
+uma das suas lamenta&ccedil;&otilde;es; o compadre, emquanto
+desenfardelava a mala, ia cortando com reflex&otilde;es
+proprias essa longa jeremiada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo,
+hein? &Eacute; mal feito, a falar a verdade. Lume apagado
+em casa de familia &eacute; coisa triste... Aqui est&aacute; um
+livro para si, sr. Augusto... Mas deixe l&aacute;, compadre,
+que a minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas
+ber&ccedil;as... Tambem eu estou em jejum desde
+<span class="pagenum">[118]</span>
+as cinco horas da manh&atilde;... mas estes missionarios!
+Ah! com seiscentas mil duzias de demonios,
+eu ainda queria um dia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus nosso Senhor seja n'esta casa&#8213;disse
+uma voz gemida &aacute; porta da cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o demo na do abbade&#8213;resmungou Herodes.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o
+Baptista, typo de beata, que dispensa descrip&ccedil;&atilde;o,
+que regressava a casa depois de completar o cyclo
+das suas devo&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva a comadre!&#8213;disse o Jo&atilde;o Cancella, continuando
+a mexer na mala.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda foi beijar a m&atilde;o &aacute; madrinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto saudou-a affavelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+O marido obrigou o corpo a uma meia rota&ccedil;&atilde;o
+sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe,
+agitando os bra&ccedil;os e as m&atilde;os, espalmadamente
+abertas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulher dos meus peccados, mulher de n&atilde;o sei
+que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher!
+Isto n&atilde;o pode continuar assim, mulher! Eu
+n&atilde;o me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias
+na igreja, mulher!... Isto s&atilde;o preparos,
+mulher?... Um homem chega a casa e acha o caldo
+por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir
+nove missas por dia e uma duzia de novenas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te, cala-te,&#8213;retorquiu azedamente a devota
+metade do Z&eacute; P'reira&#8213;cala-te para ahi, desalmado.
+Excommungado seja o mafarrico, que assim
+me quer attentar logo que entro em casa! Olha
+l&aacute; que n&atilde;o morresses de fome! Est&aacute;s
+mal acostumado.
+Louvado seja Deus! J&aacute; n&atilde;o ha quem queira
+soffrer n'este mundo mortifica&ccedil;&otilde;es! cuidas que
+n&atilde;o
+tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira
+dar s&oacute; o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno.
+Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia!
+Ora que n&atilde;o ha de uma pessoa poder
+ter as suas devo&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o venha
+encontrar lamurias
+<span class="pagenum">[119]</span>
+em casa! &Oacute; minha rica M&atilde;e do
+c&eacute;o, seja
+para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo
+mau! E eu que deixei de rezar oito esta&ccedil;&otilde;es,
+que prometti &aacute; Senhora da Rocha, e vae... Ora
+digam como ha de esta gente cumprir os jejuns
+que manda a santa madre igreja, se, por duas horas
+de espera, j&aacute; se choram todos! Bemdito e louvado
+seja o sacratissimo cora&ccedil;&atilde;o de Maria!
+&Oacute; homem
+de Deus, e ent&atilde;o aquelles santos eremitas,
+que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lhes prestasse. Haviam de andar muito
+gordos. Eu queria-os v&ecirc;r com uma enxada a trabalhar
+todo o dia no campo, e que lhes dessem depois
+raizes para roer, a v&ecirc;r se gostavam. Ora, senhores,
+que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha! Mulher, a
+religi&atilde;o manda que olhemos pelo nosso cadaver. &Eacute;
+m&aacute; christ&atilde; a mulher que deixa o seu marido na
+penuria. Isto &eacute; que os padres deviam ensinar. Vae-lhes
+l&aacute; perguntar se, quando chegam a casa, n&atilde;o
+teem a s&ocirc;pa e o toucinho &aacute; espera d'elles?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te,
+tem vergonha n'essa cara. Olha agora! Eu queria
+v&ecirc;r-te com o trabalho do sr. padre Domingos.
+Coitadinho! desde as cinco horas da manh&atilde; at&eacute;
+agora a confessar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confessar &eacute; parolar; ora adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu est&aacute;s doido, alma perdida?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E cuidas que elle n&atilde;o leva marmelada nos bolsos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; chagas do seraphico S. Francisco, ainda
+mais terei de ouvir?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns
+ninguem engorda. S&oacute; os santos... de pau.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos&#8213;disse o Herodes, intervindo.&#8213;N&atilde;o
+vale zangarem-se por causa d'isso. A minha
+pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em
+santa paz e deixem-se de testilhas, que n&atilde;o &eacute;
+bonito;
+e muito menos entre marido e mulher. Voc&ecirc;,
+<span class="pagenum">[120]</span>
+compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos
+l&aacute;. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa
+tambem bastante tempo em devo&ccedil;&atilde;o; emquanto
+&aacute;
+comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus
+n&atilde;o &eacute; t&atilde;o difficil, que uma pessoa
+precise de estar
+tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu c&aacute; penso que,
+fazendo a gente aquillo que lhe diz o cora&ccedil;&atilde;o, e
+que
+n&atilde;o sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho
+direito. E mais vale fazer o que Deus manda,
+do que levar a vida a pedir perd&atilde;o por o n&atilde;o
+ter feito. E tambem n&atilde;o &eacute; bonito estarem agora as
+mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario,
+como lapas nos rochedos, nem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Compadre!&#8213;atalhou escandalisada a sr.<sup>a</sup>
+Catharina&#8213;compadre!
+&Eacute; essa a educa&ccedil;&atilde;o que d&aacute;
+&aacute;
+sua filha? S&atilde;o coisas que se digam deante de uma
+crean&ccedil;a de doze annos? Ande l&aacute;, ande
+l&aacute;... Ora
+Deus queira que lhe n&atilde;o encontre ainda o pago.
+Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse
+ensinar, a doutrina; que &eacute; mesmo uma vergonha o
+pouco que sabe d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda
+n&atilde;o deixa passar pobre &aacute; porta, a quem
+n&atilde;o d&ecirc; esmola; crean&ccedil;a que
+n&atilde;o afague; velho ou
+velha, que n&atilde;o corteje; reza todas as manh&atilde;s a
+ora&ccedil;&atilde;o,
+que a m&atilde;e lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria,
+onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus;
+de dia trabalha, como filha de pobre que &eacute;, e mulher
+de casa que ha de ser... O Senhor me perd&ocirc;e,
+se mais &eacute; preciso ainda, que mais n&atilde;o sei eu
+ensinar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha soberbas, compadre, n&atilde;o tenha
+soberbas!
+E cautela com o mimo que d&aacute; &aacute; pequena,
+que &eacute; o que perde muitas almas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio
+de repentes &eacute; que hei de dar mimo a esta pobre
+crean&ccedil;a, que nem o da m&atilde;e conheceu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora diga, compadre, acha que &eacute; muito bem
+feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses
+<span class="pagenum">[121]</span>
+cabellos soltos? N&atilde;o sabe que o demonio...
+cruzes! arma com elles la&ccedil;os &aacute;s almas das
+creaturas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fracas pris&otilde;es s&atilde;o as do diabo, se as forja
+s&oacute;
+de cabellos!... Ent&atilde;o, por causa das
+tenta&ccedil;&otilde;es &eacute;
+que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas!
+&Eacute; teima velha! Eu j&aacute; lhe disse, comadre:
+Deus, que deu &aacute; pequena esses cabellos t&atilde;o
+bonitos,
+&eacute; porque lh'os quiz dar. Se quizer, que lh'os tire,
+eu &eacute; que n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus cerca-nos de tenta&ccedil;&otilde;es, para que
+n&oacute;s as
+ven&ccedil;amos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Forte tenta&ccedil;&atilde;o venceu a comadre! aposto que
+os n&atilde;o cortaria assim, se os tivesse como os da
+minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos &aacute; minha
+filha, eu?! fazer d'aquella cabe&ccedil;a de cherubim uma
+d'essas cabe&ccedil;as tosquiadas, que por ahi andam!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez ainda se arrependa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, comadre. O que eu vejo &eacute; que, junto
+de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha
+pequena, e n&atilde;o figuras... respeitaveis, como a
+da comadre; ora ent&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+A beata, apesar de trazer sempre na memoria o
+<em>Vanitas vanitatum</em> do
+<em>Ecclesiastes</em>, n&atilde;o foi
+inteiramente
+insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe
+o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe
+como para descarregar sobre ella a m&aacute; vontade
+com que estava ao pae:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sae-te p'ra l&aacute;. O senhor meu homem tinha
+muita pressa de jantar! Deixar assim uma crean&ccedil;a
+fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um
+boi! &Eacute; preciso n&atilde;o ter consciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar
+o dicto.
+<br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira monologava ainda. Augusto continuava
+examinando o livro recebido.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo
+d'aquella crean&ccedil;a, que era de uma
+organisa&ccedil;&atilde;o nervosa,
+excepcional na aldeia, exercia a beata uma
+<span class="pagenum">[122]</span>
+especie de fascina&ccedil;&atilde;o, um mixto de respeito e de
+terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus
+labios infantis. Era outra na presen&ccedil;a da madrinha,
+fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os
+bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o
+movimento dos labios austeramente contrahidos;
+tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando
+nas penas do inferno; chorava &aacute; menor reprehens&atilde;o
+que d'ella recebia, e comtudo amava-a,
+amava-a, porque Ermelinda na sua candura de
+crean&ccedil;a, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe,
+como virtudes beatificantes, os defeitos da
+devota velha; a innocente julgava-se uma grande
+peccadora quando, depois de ter na mente aquelle
+perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo
+da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados
+l&aacute; encontrava! Uma pequena mentira que
+dissera; um domingo em que faltou &aacute; missa; um
+juramento que, sem o sentir, lhe saira da b&ocirc;ca;
+um jejum que n&atilde;o guard&aacute;ra, e outros crimes da
+mesma f&ocirc;r&ccedil;a. A amedrontada crean&ccedil;a
+chegava a
+receiar pela salva&ccedil;&atilde;o da alma.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sempre funesta a influencia que exercem sobre
+a infancia os caracteres como os da beata.
+<br />
+
+<br />
+
+O Herodes percebeu a impress&atilde;o sob a qual estava
+a filha e acudiu-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Toma l&aacute;, Ermelinda&#8213;disse elle, tirando da
+mala uma pequena medalha com um retrato.&#8213;&Eacute;
+um presente do nosso amigo Angelo para n&oacute;s, ou
+antes, para ti...
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda pegou no retrato com n&atilde;o reprimido
+alvoro&ccedil;o. Era outra vez a crean&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+A madrinha lan&ccedil;ou para a medalha um olhar
+obliquo e reconheceu o retrato.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em nome do Padre e do Filho e do Espirito
+Santo!&#8213;rompeu ella, com um espanto exaggerado.&#8213;Este
+homem n&atilde;o tem a cabe&ccedil;a no seu logar, por
+mais que me digam! Elle quer perder a filha de
+certo! A fazer a cabe&ccedil;a doida a uma crean&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com
+impeto a mala no ch&atilde;o, e com os olhos chammejantes
+e as faces injectadas, vociferou, cedendo o
+campo &aacute; c&oacute;lera, que se lhe accumulou no seio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com seiscentos milh&otilde;es de diabos! Voc&ecirc; que
+est&aacute; ahi a dizer, mulher? S&atilde;o os
+serm&otilde;es dos missionarios,
+que lhe teem assim afiado a lingua e deitado
+pe&ccedil;onha na baba? Com effeito! Saiba que dou
+mais pela crean&ccedil;a, de quem &eacute; aquelle retrato, do
+que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados
+todas as semanas e por quantas beatas andam
+comsigo a dar marradas no lag&ecirc;do da igreja. Fazer
+a cabe&ccedil;a doida &aacute; minha filha! Tenha
+m&atilde;o na lingua,
+comadre, que lhe n&atilde;o soffro tanto. Doida lh'a
+trazem a vossemec&ecirc; os missionarios e os serm&otilde;es.
+Seu marido f&ocirc;ra eu, que a mania lhe tirava.
+<br />
+
+<br />
+
+O Z&eacute; P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos,
+zelava a dignidade do casal; e n&atilde;o levava &aacute;
+paciencia que outro, al&eacute;m d'elle, dissesse d'aquellas
+verdades &aacute; mulher; por isso, ouvindo-as, atrav&eacute;s
+dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se,
+e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando
+sempre, bradou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Compadre! Eu sei quaes s&atilde;o os meus deveres!
+Compadre, prudencia!... Compadre, eu n&atilde;o
+consinto... Ora, senhores, que &eacute; forte coisa! Compadre!...
+veja que eu &eacute; que sou aqui o chefe da
+familia e esta &eacute; minha mulher! Pschiu... Basta...
+Compadre... basta. Ent&atilde;o? Ora, senhores.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o Herodes j&aacute; nada attendia; cada vez mais
+lhe crescia a vermelhid&atilde;o nas faces; a
+irrita&ccedil;&atilde;o rompera
+os diques da cordura e amea&ccedil;ava engrossar
+cada vez mais. &Aacute;s exclama&ccedil;&otilde;es de
+Z&eacute; P'reira respondia
+j&aacute; azedamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus, temos conversado... Seja homem,
+que bem precisa... N&atilde;o basta dar &aacute; lingua... Na
+taberna n&atilde;o &eacute; que se governa a casa...
+<br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Catharina abstinha-se agora
+prudentemente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+Ermelinda, pallida, a tremer, abra&ccedil;ou o pae, quasi
+chorando.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, que f&ocirc;ra alheio ao principio da contenda,
+conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe
+difficil a empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um
+o sangue, a outro o vinho.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os.
+Deram-se mutuas satisfa&ccedil;&otilde;es, e separaram-se
+apertando as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto retirou-se com Jo&atilde;o Cancella e Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+O par conjugal ficou, renovando-se c&ecirc;do entre
+elles a interminavel contenda em que viviam.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VIII
+</h4>
+
+<br />
+
+Saindo de casa do Z&eacute; P'reira, Augusto teve de
+escutar, ainda por muito tempo, as vocifera&ccedil;&otilde;es e
+pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
+do compadre, que assim deix&aacute;ra a mulher tomar
+sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil.
+Augusto ouviu tudo com resignado silencio e
+atten&ccedil;&atilde;o um pouco distrahida, conseguindo emfim
+a custo soltar-se das m&atilde;os do seu interlocutor, que,
+no fogo da exposi&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o justos
+aggravos, lhe
+segurava os bra&ccedil;os com pouco affavel vivacidade;
+a final, por&eacute;m p&ocirc;de deixal-o e voltou a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto
+quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras
+e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
+<br />
+
+<br />
+
+Era alli o seu logar de descan&ccedil;o; a escola era
+em outra casa vizinha. N'esta n&atilde;o havia, a amargurar-lhe
+as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem
+as do supplicio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor
+da humanidade, s&oacute; entrev&ecirc;s delicias na tarefa do
+ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito
+infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez
+no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro
+de phantasia, perd&ocirc;a-me a palavra, supplicio,
+de que me servi, e perd&ocirc;a ainda mais ao caracter
+de Augusto o ter saido exacta a express&atilde;o, que te
+feriu os humanitarios instinctos.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu bem sei que &eacute; uma sublime miss&atilde;o a do mestre:
+e que &eacute; uma graciosa e amoravel idade a da
+infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
+presente o ideal de uma e amenisavam &aacute; outra com
+branduras os amargores do penoso tirocinio;&#8213;mas
+que importa? nem por isso &eacute; menos real o
+supplicio. A cultura dos espiritos &eacute; como a cultura
+das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer,
+vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco,
+os rebentos do gr&atilde;o que o calor fez germinar, e volverem-se
+as folhas, estenderem-se e enflorarem-se
+os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das
+tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto
+de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o
+terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados,
+muita vez lhe fallece o alento, e se olha de
+quando em quando para o c&eacute;o, n&atilde;o &eacute;
+para lhe agradecer,
+com risos os g&ocirc;sos que elle lhe d&aacute;; mas para
+lhe pedir, com lagrimas, a f&ocirc;r&ccedil;a que lhe
+ming&uacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+De igual modo, se &eacute; grato ao cultor das intelligencias
+o v&ecirc;l-as desenvolver, florir, fructificar; ardua,
+improba, desesperadora &eacute; muita vez a tarefa
+da sua primeira educa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; mister
+possuir um
+grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho
+typo, que da infancia concebemos, n&atilde;o se transtorne,
+na phantasia d'estas victimas d'ella, em n&atilde;o
+sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena
+todos os momentos de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'isso, o pobre professor de
+instruc&ccedil;&atilde;o primaria,
+sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos
+<span class="pagenum">[126]</span>
+da instruc&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pode ser
+comparado
+absolutamente ao agricultor do nosso simile; &eacute; antes
+o jornaleiro contractado por magro salario, para,
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de bra&ccedil;o, lavrar o
+solo, d'onde, mais tarde,
+romper&aacute; a vegeta&ccedil;&atilde;o, que elle
+n&atilde;o ter&aacute; de v&ecirc;r e que
+a outros conceder&aacute; os g&ocirc;sos e o beneficio. Venceu
+tambem o humilde professor, e por o mesmo pre&ccedil;o
+que o jornaleiro, que n&atilde;o v&atilde;o mais longe com elle
+as liberalidades dos nossos governos, venceu as
+maiores cruezas do magisterio; mas n&atilde;o ver&aacute;
+tambem
+o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias,
+que educou, justamente quando com
+mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva
+a qualquer d'essas intelligencias um futuro
+de glorias, raro &eacute; que volvam um olhar agradecido
+para as humildes m&atilde;os, que as sustentaram, quando
+ainda n&atilde;o tinham azas para voar.
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi todos os grandes homens commettem esta
+ingratid&atilde;o. Falam nos seus mestres de philosophia,
+de mathematica, de litteratura, e n&atilde;o salvam do
+esquecimento,
+pronunciando-o, o nome do primeiro
+mestre, do que os ensinou a ler.
+<br />
+
+<br />
+
+Considera&ccedil;&otilde;es da ordem das que acabamos de
+fazer, quero acreditar, n&atilde;o s&atilde;o as que mais
+preoccupam
+o pensamento da maioria d'esses pobres
+diabos, que, por noventa mil r&eacute;is annuaes, se deixaram
+ligar &aacute; atafona do ensino primario da aldeia;
+por&eacute;m devem ser, al&eacute;m das miserias de
+t&atilde;o mesquinha
+sorte, causas de grandes torturas moraes
+para alguma alma de instinctos e aspira&ccedil;&otilde;es mais
+elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo,
+a este poste de expia&ccedil;&atilde;o. N'esse caso estava
+por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que
+os livros abrem &aacute;s imagina&ccedil;&otilde;es, que na
+vida real
+n&atilde;o encontram deleite, refugiava-se elle nas horas
+em que as suas obriga&ccedil;&otilde;es lhe permittiam
+respirar.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta vez, por&eacute;m, por pouco tempo lhe foi dado
+saborear esse prazer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[127]</span>
+Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas
+e chamou-o de f&oacute;ra uma voz bem conhecida d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. Augusto, &oacute; meu querido sr. Augusto.
+<em>Amice!</em> Pode falar a um amigo e
+colega?&#8213;dizia
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto foi abrir-lhe a porta, n&atilde;o reprimindo um
+gesto de enfado.
+<br />
+
+<br />
+
+O latinista entrou esfregando as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado
+aos livros!&#8213;dizia elle, batendo no hombro a Augusto.&#8213;Invejo-lhe
+mais a pachorra do que o proveito.
+Olhe que n&atilde;o medra com isso; nem ninguem
+lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por
+dois dias que um homem passa c&aacute; n'este mundo,
+tolo &eacute; o que se mata. E ent&atilde;o n'este paiz!...
+Fa&ccedil;a
+como eu.
+<br />
+
+<br />
+
+E, imitando com a b&ocirc;ca os sons da trompa, seu
+instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros
+que via sobre a mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que estava lendo? que estava lendo?...
+Poh! poh! poh!... Versos... Ora que nunca pude
+gostar de versos!... Poh! poh!... E n&atilde;o &eacute; agora
+porque se diga que n&atilde;o tinha qu&eacute;da;
+n&atilde;o, senhores;
+em tempos fiz at&eacute; algumas quadras... Poh!
+poh!... j&aacute; se sabe, at&eacute; certa idade, mas nunca
+fui
+muito para ahi... Poh!... A minha voca&ccedil;&atilde;o
+&eacute; para
+a musica... Poh! poh!... L&aacute; para a musica,
+sim... Poh! poh! poh!... Herman e Doroth&eacute;a&#8213;continuava
+elle, examinando os livros.&#8213;Novellas...
+Poh!... E isto que &eacute;?
+<em>Confessions</em> de Rousseau&#8213;n'este
+nome deixou aos diphtongos o valor portuguez&#8213;Poh!
+poh! As Metamorphoses... Latim!
+Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!...&#8213;E o
+Ovidio, que lhe cheg&aacute;ra &aacute;s m&atilde;os, foi
+arremessado
+como se estivesse em braza.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o p&ocirc;de conservar-se s&eacute;rio,
+ante o instinctivo
+movimento de repuls&atilde;o do mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o que boa fortuna o traz por aqui, sr.
+Pertunhas?&#8213;perguntou elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade; eu lhe digo ao que venho. &Eacute;
+para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu
+bem sei que &eacute; abusar da sua bondade...
+<em>Quousque
+tandem, Catilina</em>... Mas, &eacute; por esta vez...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei; quer que lhe v&aacute; dar
+li&ccedil;&atilde;o aos rapazes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! grande magan&atilde;o, que adivinhou&#8213;exclamou
+o mestre, abra&ccedil;ando Augusto com
+effus&atilde;o.&#8213;&Eacute;
+isso mesmo, se lhe n&atilde;o custasse...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao
+ensaio da philarmonica... Percebe o senhor? Os
+Reis est&atilde;o ahi &aacute; porta e as outras festas do
+Natal, e
+n&atilde;o ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho
+ainda umas pe&ccedil;as do
+<em>Trovador</em> para ensinar &aacute;
+minha
+gente. S&atilde;o muito bonitas... Poh! poh! poh! E
+ent&atilde;o este anno, que pelos modos temos c&aacute; o
+conselheiro
+e mais o pequeno... N&atilde;o contando com
+esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se
+Henrique de Souzellas, &eacute; sobrinho da velha, da
+D. Doroth&eacute;a, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro.
+L&aacute; chamam-lhe primo. Esteve l&aacute; esta
+manh&atilde;
+um par de horas, logo que saiu da minha
+reparti&ccedil;&atilde;o.
+Dizem-me que &eacute; filhote de Lisboa, solteiro, rico
+e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida!
+Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente
+muito feliz! Aqui para n&oacute;s, sabe ao que me cheira
+a visita d'este senhor? Aquillo &eacute; mosca que vem
+ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
+d'isto. Pois n&atilde;o lhe parece, hein?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei bem o que quer dizer com a imagem&#8213;respondeu
+Augusto, levemente enfadado.&#8213;Al&eacute;m
+de que n&atilde;o posso adivinhar as
+inten&ccedil;&otilde;es de um homem
+que pela primeira vez encontrei esta manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; claro que n&atilde;o; nem eu; mas emfim
+uma pessoa logo tira pelo que v&ecirc;... Ora pois diga,
+um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa
+musica, <em>et coetera</em>, andar leguas e
+leguas para se
+<span class="pagenum">[129]</span>
+metter n'este desterro... Porque isto &eacute; um
+desterro. Sim, deve concordar que n&atilde;o &eacute; natural.
+Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, <em>et coetera</em>...
+O senhor
+bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o pre&ccedil;o ao
+dinheiro, meu amigo.<br />
+
+<br />
+
+A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
+Augusto, que n&atilde;o redarguia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, j&aacute;
+depois de &aacute;manh&atilde; vae o rapaz
+acompanhar as pequenas &aacute; ermida da Saude. Ah!... mas agora
+me lembro! o senhor &eacute; tambem da sucia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com certeza. Disse-m'o o Dami&atilde;o, que tem ordem das
+pequenas para o convidar. Se ainda n&atilde;o recebeu o recado, ha
+de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e ver&aacute; se eu tenho
+raz&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou jantar, sr. Pertunhas, que j&aacute; ha muito para isso me
+chamou a criada&#8213;disse Augusto, erguendo-se como para fugir
+&aacute;quella conversa.&#8213;Em seguida irei aos seus rapazes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v&aacute;, v&aacute;. Deus lhe pague o favor
+que me faz e permitta que eu lhe n&atilde;o pe&ccedil;a muitos
+d'estes. E eu tenho esperan&ccedil;as... Sabe que ando com ideias
+de arranjar o lugar de recebedor, que est&aacute;, como diz o
+outro, a encher dias? J&aacute; falei ao conselheiro; mas o
+conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que
+n&atilde;o tenha influencia em elei&ccedil;&otilde;es. O
+sr. Jo&atilde;ozinho das
+Perdizes interessa-se por mim, &eacute; verdade; mas, por outro
+lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a v&ecirc;r se
+consigo p&ocirc;r o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas
+v&aacute;, v&aacute; jantar, que eu espero.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se quizer fazer-me companhia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigado. Eu j&aacute; jantei. O meio dia &eacute; a
+minha hora. Jante &aacute; sua vontade.<br />
+
+<br />
+
+Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando s&oacute;,
+deu algumas voltas cantarolando, sentou-se
+<span class="pagenum">[130]</span>
+depois, e pegando na pasta de Augusto,
+poz-se a examinar os papeis que ella continha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo simulava umas varia&ccedil;&otilde;es de
+trompa, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de
+contrac&ccedil;&otilde;es e esgares dos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+A pasta, victima da indiscre&ccedil;&atilde;o do mestre, era a
+mesma que Augusto trazia, quando o vimos no
+Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os documentos contidos n'ella algum achou
+o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas
+e themas dos discipulos, pois, ao l&ecirc;l-o, desenhou-se-lhe
+no semblante a mais intensa curiosidade
+e cessou de todo a exhibi&ccedil;&atilde;o acustica, que
+com tanto ardor encet&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Leu-o at&eacute; o fim com crescente avidez; e depois,
+olhando em volta de si, para verificar que n&atilde;o era
+observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu
+no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no
+sitio d'onde a tir&aacute;ra, continuou a ler ou a fingir que
+lia com toda a atten&ccedil;&atilde;o um livro e encetou novas
+varia&ccedil;&otilde;es de trompa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o j&aacute;! Apre! Isso &eacute; jantar a
+vapor&#8213;disse
+o latinista, pondo-se a p&eacute;, logo que Augusto voltou.
+<br />
+
+<br />
+
+E momentos depois sairam juntos.
+<br />
+
+<br />
+
+Querendo poupar os leitores &aacute; semsaboria de assistir
+a uma li&ccedil;&atilde;o de latim e a um ensaio da
+philarmonica,
+deixal-os-hemos ambos, para voltarmos
+ao Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as
+duas primas sentadas ao parapeito do muro da
+quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos,
+a vista se espraiava em amplissimo horizonte
+at&eacute; umas nuvens, que pareciam limital-o.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias
+da sesta habitual. As crean&ccedil;as brincavam a alguma
+distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham
+como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas
+raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam
+em meditativo silencio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span>
+A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se
+estreitos e longos tra&ccedil;os nebulosos, a
+que o sol dava um colorido t&atilde;o ardente, que se o
+pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria,
+ao passal-o &aacute; tela, com receio de que o acoimassem
+de exaggerado. O verde dos campos apresentava a
+grada&ccedil;&atilde;o vigorosa, que a luz de um formoso dia de
+inverno costuma dar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina interrompeu o silencio por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu n&atilde;o sei&#8213;principiou ella&#8213;&eacute; como
+o primo Henrique de Souzellas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onze!&#8213;atalhou a morgadinha, sem desviar
+os olhos do ponto da perspectiva, que fitava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onze qu&ecirc;?&#8213;perguntou Christina, erguendo os
+d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com esta s&atilde;o onze as vezes que, esta tarde,
+depois de um longo silencio, abres a b&ocirc;ca para
+me falares no primo Henrique de Souzellas, uma
+vez que est&aacute; decidido que seja primo.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina fez um gesto de despeito e c&oacute;rou levemente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o que queres dizer com isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? Nada. Digo s&oacute; que s&atilde;o onze vezes com esta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabia que era prohibido falar-te no primo
+Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa.
+Est&aacute; um tempo muito bonito: nem parece dezembro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; vae magnifico para os nabaes&#8213;replicou
+Magdalena zombeteiramente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o mudar com a nova lua&#8213;continuou
+Christina, ainda formalisada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; excellente para seccar os milhos, que bem
+precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras
+baixas.
+<br />
+
+<br />
+
+E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha
+desatou a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei de que te ris!&#8213;acudiu Christina, cada
+vez mais s&eacute;ria.&#8213;Pois n&atilde;o &eacute; esta a
+conversa de
+que tu gostas?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[132]</span>
+&#8213;Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de
+lavoura; bem sabes.&#8213;E, mudando repentinamente
+de tom, accrescentou:&#8213;Ora vamos, Christe; n&atilde;o
+te zangues commigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mas &eacute; que &aacute;s vezes
+n&atilde;o te entendo, a falar
+verdade. Vens com umas coisas que mettem
+raiva&#8213;respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; estou arrependida; pe&ccedil;o perd&atilde;o.
+Fala l&aacute; &aacute;
+tua vontade no primo Henrique, fala; que eu n&atilde;o
+contarei as vezes que o fizeres.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o a tua generosidade, mas j&aacute;
+n&atilde;o tenho
+mais que dizer d'elle agora; por isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo menos completa a duzia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena! Ent&atilde;o! Olha que se continuas com isso,
+fazes-me sair d'aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre queria que te vissem agora, Christe,
+esses que andam por ahi a gabar a docilidade do
+teu genio, as branduras da tua indole; queria que
+te vissem essa cara arrenegada, para saberem que
+tambem ha um acidozinho na tal do&ccedil;ura... Mas
+fazes-me a gra&ccedil;a de s&oacute; para mim teres d'essas
+franquezas.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina sorriu, ainda que n&atilde;o de todo aplacada,
+ao ouvir esta reflex&atilde;o da prima.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o sabes a raz&atilde;o d'isso?&#8213;respondeu-lhe
+ella&#8213;a raz&atilde;o &eacute; o genio que tens, Lena. O teu
+g&ocirc;sto
+&eacute; mortificares uma pessoa. N&atilde;o ha santo que
+n&atilde;o
+perdesse a paciencia comtigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que injusti&ccedil;a! que ingratid&atilde;o! Eu, que sou a
+victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo
+te junta no cora&ccedil;&atilde;o a todo o instante! Se
+alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas
+para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar
+as tuas c&oacute;lerazinhas sobre a minha cabe&ccedil;a. E
+pagas-me
+assim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s muito infeliz commigo. Pobre Lena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu
+disse ha pouco. N&atilde;o te posso v&ecirc;r assim.&#8213;E tomando
+<span class="pagenum">[133]</span>
+um tom natural, mas sob o qual transparecia
+ainda certa malicia, Magdalena continuou:&#8213;Pois
+&eacute; verdade, dizias tu que n&atilde;o sabias por que o
+primo Henrique de Souzellas...
+<br />
+
+<br />
+
+Christina fez um movimento impaciente, como
+para levantar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que &eacute; isso? N&atilde;o me acceitas a
+expia&ccedil;&atilde;o?&#8213;perguntou
+Magdalena, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; n&atilde;o quero que se fale mais no sr. Henrique
+de Souzellas. Vejo que te n&atilde;o &eacute; agradavel que
+as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
+raz&otilde;es que tens para isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo! Foi admiravel de maldade o entono
+com que disseste esse: &laquo;Sejam quaes forem as
+raz&otilde;es.&raquo;
+E venham-me falar na candura d'esta crean&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero dizer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que queres dizer, n&atilde;o sei; mas vejo que n&atilde;o
+&eacute;s senhora tua quando se fala n'este assumpto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lembran&ccedil;a!&#8213;tornou Christina, cada vez
+mais embara&ccedil;ada&#8213;pois imaginas dev&eacute;ras que eu?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha nada mais natural.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se queres, juro-te...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a m&atilde;o
+nos labios.&#8213;Isso n&atilde;o, que &eacute; mais
+s&eacute;rio. Jurar n&atilde;o
+te deixo eu. Conhe&ccedil;o os escrupulos da tua consciencia,
+e n&atilde;o quero obrigar-te a remorsos.
+&laquo;Juro!&raquo; E
+com que ousadia ias pronunciar um juramento
+falso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falso, sim; falso como os que o s&atilde;o. Olha, minha
+pobre Christe, queres ent&atilde;o que te fale com
+toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
+proposito para confirmar umas suspeitas, que se
+me formaram e que vejo agora que eram fundadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Suspeitas! que suspeitas?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O primo Henrique de Souzellas deixou em ti
+uma tal ou qual impress&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+&#8213;Lena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheci isso ainda quando elle c&aacute; estava; verifiquei-o
+depois e agora. Ent&atilde;o! tem juizo. Commigo
+s&ecirc; sempre o que tens sido. Eu g&oacute;so ha muito
+do privilegio de conversar &aacute; vontade comtigo e de
+te v&ecirc;r sem aquella timidez que tens deante dos outros.
+Com o teu genio, precisas de uma pessoa,
+como eu, com quem n&atilde;o tenhas acanhamento e em
+quem possas at&eacute; descarregar algumas maldadezitas;
+e acredita que me lisonjeio com me dares a
+preferencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como imaginaste?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Continuas? N&atilde;o tens de que te envergonhar
+pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz.
+Henrique de Souzellas &eacute; elegante, &eacute; espirituoso,
+affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito
+trato do mundo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;a favor de me ouvir&#8213;atalhou Magdalena,
+pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas
+essas qualidades n'aquelle nosso primo, n&atilde;o quero
+por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te
+j&aacute;. E nem receio que isso aconte&ccedil;a,
+para te falar sinceramente, porque te conhe&ccedil;o o genio
+timido e porque... porque te conhe&ccedil;o o genio
+timido e mais nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia mais alguma coisa, havia, mas n&atilde;o era coisa
+que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique
+n&atilde;o sa&iacute;ra d'aquella primeira visita demasiado
+impressionado
+por a imagem de Christina; sabia talvez,
+suspeitava de certo, n&atilde;o me atrevo a dizer que
+lisonjeada algum tanto, que no cora&ccedil;&atilde;o do hospede
+de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente.
+Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu
+pensamento, ella o poderia formular? O remedio
+pois era completar a phrase como a completou.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina j&aacute; n&atilde;o tinha ousadia para negar, nem
+ainda coragem para confessar. Encostando a face
+&aacute; m&atilde;o, calou-se e deixou falar Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+A morgadinha proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso que saibas, Christe, que &eacute; mais facil
+conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas
+boas qualidades. Os defeitos s&atilde;o imprudentes e linguareiros,
+denunciam-se, d&atilde;o signal de si, basta
+meia hora para se descobrirem em qualquer logar
+que habitem. As boas qualidades, n&atilde;o; essas s&atilde;o
+modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se.
+S&atilde;o precisos annos para as descobrir todas. Mas
+com que olhos de espanto me est&aacute;s fitando! Parece
+que te causa estranheza o meu serm&atilde;o? Eu te digo
+a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo...
+e quem sabe se o futuro vir&aacute; confirmar, em
+rela&ccedil;&atilde;o a mim, esse titulo, que por phantasia lhe
+dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...;
+mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me
+aos olhos muitos dos seus defeitos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quaes s&atilde;o?&#8213;perguntou Christina com viveza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega; s&atilde;o ligeiros felizmente, e parece-me
+que os poder&aacute; ainda perder; sobretudo se continuar
+a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
+que no fundo havia uma mina de bons sentimentos
+por explorar. Nasceu logo em mim a vontade
+de o sondar, a v&ecirc;r se conseguia purifical-o do que
+n'elle houvesse de menos heroico. Ent&atilde;o que queres?
+para a aldeia era um passatempo como outro
+qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
+revestiu em mim mais s&eacute;rio caracter, desde que vi
+a impress&atilde;o que este sobrinho da tia Doroth&eacute;a te
+caus&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena! Como te deu para supp&ocirc;r que eu me
+apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me
+imaginas apaixonada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, ainda n&atilde;o; inclinada, agradada,
+attrahida...
+ou outro qualquer termo d'esta f&ocirc;r&ccedil;a, que
+deixarei &aacute; tua escolha, isso sim. Para isso n&atilde;o
+&eacute;
+preciso muito tempo. As raz&otilde;es, pelas quaes julguei
+isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem.
+Supp&otilde;e que foi por um tacto especial, por uma
+<span class="pagenum">[136]</span>
+qualidade occulta, como a do tino que dizem que
+teem certos medicos para reconhecerem o mal sem
+estudarem muito o doente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois o tino enganou-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este
+senhor primo intruso f&ocirc;r realmente o que eu imagino
+que &eacute;, resta-me preparal-o para o tornar mais
+digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso
+favorecerei; se n&atilde;o f&ocirc;r, declaro-lhe j&aacute;
+guerra e guerra
+de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a
+mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade
+e boa f&eacute; e da tua experiencia. Olha, estou certa que
+o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente
+o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso,
+certo colorido, que &eacute; preciso ter visto muita vez, e
+em muitos individuos differentes, para se ter na
+conta devida. Illude, agrada a quem n&atilde;o est&aacute;
+costumado,
+e pode causar graves enganos e desenganos
+mais graves ainda. Por emquanto o que elle
+nos mostra &eacute; mais da sociedade em que vive, do
+que d'elle proprio. &Eacute; necessario deixar cair a primeira
+capa, para que o natural appare&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabia que era assim facil enganar-se uma
+pessoa a respeito de outra&#8213;notou Christina, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute;! Lembras-te do que tantas vezes conta
+tua m&atilde;e? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou
+l&aacute; por bom pre&ccedil;o um cofrezinho que ella suppunha
+preciosissimo, e que chora hoje a sua tenta&ccedil;&atilde;o,
+desde que o verniz brilhante, que elle tinha,
+caiu e ficou &aacute; vista a realidade? pois o mesmo
+acontece muitas vezes em contractos de outra ordem
+e bem mais s&eacute;rios do que este. Ha vernizes
+maravilhosos, que illudem os inexperientes.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um instante de silencio, no fim do qual
+Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita
+para Magdalena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora dize-me, Lena, qual ser&aacute; a raz&atilde;o pela qual
+eu n&atilde;o devo acreditar que esses pensamentos te
+<span class="pagenum">[137]</span>
+occorreram, porque era o teu destino, e n&atilde;o o meu,
+que vias dependente do estudo que fazias?
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha fixou na prima um olhar triste e
+cheio de amargas recrimina&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por uma raz&atilde;o muito poderosa, Christe, porque
+ias abrir o cora&ccedil;&atilde;o a um sentimento mau, que
+macularia o teu caracter generoso e candido&#8213;a
+desconfian&ccedil;a. Porque me offenderias, duvidando da
+lealdade, com que te falo, quando te falo s&eacute;ria; e
+porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente,
+pois que a consciencia me diz que t'o
+n&atilde;o merecia. Satisfaz-te esta raz&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+A voz de Magdalena perdera o tom de ironia,
+que &aacute;s vezes tinha, e tom&aacute;ra quasi o da
+commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina arrependeu-se logo do que dissera, e,
+tambem commovida, apertou as m&atilde;os da amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fa&ccedil;as caso do que eu disse, Lena;
+perd&ocirc;a-me.
+Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus
+que me tire a vida, porque terei j&aacute;, para tudo e para
+sempre, envenenado o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom
+humor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela!
+Saldemos antes as nossas contas, como mulheres
+de juizo. Em compensa&ccedil;&atilde;o da pequena offensa
+que me fizeste, vaes-me fazer uma confiss&atilde;o
+formal, a qual at&eacute; agora tens evitado. Ora confessa,
+adivinhei o estado do teu cora&ccedil;&atilde;o? Dize.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina hesitou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos,&#8213;insistiu a morgadinha&#8213;acredita que
+preciso de uma declara&ccedil;&atilde;o para me guiar... E
+cr&ecirc;
+que &eacute; para bem teu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres que te diga? Eu n&atilde;o me sinto
+apaixonada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas j&aacute; te disse que me bastava um termo
+menos violento... um &laquo;agradada&raquo;, por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, se queres, podes at&eacute; parar ahi. Esse
+&laquo;confesso que...&raquo; j&aacute; diz muito. Agora
+deixa-te
+<span class="pagenum">[138]</span>
+guiar por mim. Eu vigiarei. Afian&ccedil;o-te que n&atilde;o
+corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que
+ha alli um excellente cora&ccedil;&atilde;o, mas que queres?
+N&atilde;o &eacute; o typo que me agrada... o meu ideal como
+se costuma dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o qual &eacute; o teu ideal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o
+encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo
+S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
+e n&atilde;o sei onde o procure.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este sentido se prolongou o dialogo entre as
+duas primas, at&eacute; que D. Victoria, findando a sua
+sesta, veio ter com ellas &aacute; quinta. Segundo o costume,
+ralhava contra os criados, a quem, n&atilde;o sei
+por que processo, attribuia umas d&ocirc;res de cabe&ccedil;a
+com que acord&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, Henrique voltou de manh&atilde; ao
+Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena,
+a qual redobrou de ironia. Christina j&aacute; mal podia
+disfar&ccedil;ar a pena que lhe causava o pouco que era
+attendida, mas a sua timidez n&atilde;o a deixava luctar.
+<br />
+
+<br />
+
+De tarde, Henrique teve de condescender com o
+padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou
+a mostrar-lhe as raridades e monumentos da
+terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado
+a renunciar &aacute; nova visita &aacute;s senhoras do
+Mosteiro,
+para gastar as express&otilde;es da sua
+admira&ccedil;&atilde;o deante
+das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
+de n&atilde;o sei que imagem de santo, a qual passava
+por um primor; de uma sala nua, com uma
+mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras
+&aacute; volta, que era a sala das sess&otilde;es do corpo
+municipal;
+e de umas pyramides de ripa, que tinham
+servido, havia oito annos, em festejos officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; de supp&ocirc;r, Henrique passou uma tarde
+deliciosa.
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>IX
+</h4>
+
+<br />
+
+Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle
+que se destin&aacute;ra para o passeio &aacute; ermida,
+Christina foi mais madrugadora do que as aves.
+&Aacute; hora, a que estas ainda se n&atilde;o ouvem chilrear,
+j&aacute; a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa
+de se fazer esperar pelos companheiros da
+projectada excurs&atilde;o matinal. Quasi n&atilde;o dormira
+toda a noite aquella rapariga, com tal
+preoccupa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito
+tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem
+discretas ante o apparecimento do dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina vestiu-se &aacute; pressa e dirigiu-se ao quarto
+de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de
+passeio &aacute; ermida n&atilde;o a
+alvoro&ccedil;&aacute;ra tanto. Christina
+foi acordal-a ao leito.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada
+na prima.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres tu, Christina? Que lembran&ccedil;a foi
+essa hoje de andares estremunhando a casa esta
+noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Levanta-te, pregui&ccedil;osa, levanta-te. N&atilde;o o dizia
+eu hontem? Ent&atilde;o s&atilde;o estas as madrugadas em
+que falavas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo que n&atilde;o s&atilde;o madrugadas; isto
+&eacute;
+noite &eacute; o que &eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dentro em pouco &eacute; dia. Queres v&ecirc;r?
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas
+das janellas e correu as cortinas.
+<br />
+
+<br />
+
+A estrella da manh&atilde;, Venus, aquella brilhante e
+ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes
+assiste no crepusculo &aacute;s melancolias da natureza,
+outras vezes na aurora ao renascimento dos seus
+<span class="pagenum">[140]</span>
+jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;s?&#8213;disse Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito pouco. &Eacute; esse o teu sol? Como vae
+alto! &Eacute; pena que n&atilde;o alumie melhor do que esta
+lamparina.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina sentia redobrar com estas delongas a
+sua impaciencia, quasi de crean&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, Lena, anda. Assim n&atilde;o chegamos a v&ecirc;r
+do alto da ermida o romper do sol.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois queres v&ecirc;r isso de l&aacute;?! Que crueldade!
+Em uma manh&atilde; de dezembro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; t&atilde;o bonita, que parece de primavera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Triste lembran&ccedil;a a nossa hontem de combinarmos
+este passeio. Isto &eacute; l&aacute; coisa que se
+fa&ccedil;a?
+Vale por uma viagem aos p&oacute;los.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o fazia sen&atilde;o ir do leito de
+Magdalena
+para a janella e voltar da janella para o leito,
+em virtude d'aquella irresistivel necessidade de
+movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
+quando nos deixamos apossar da impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fazes ideia como est&aacute; bonito c&aacute;
+f&oacute;ra; n'alguns
+pontos ainda se v&ecirc; neve.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda
+se v&ecirc; neve!... Parece-me que j&aacute; estou gelada...
+Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando.
+V&ecirc;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o est&aacute; frio; at&eacute; parece que
+aqueceu o
+tempo. Ent&atilde;o, Lena!... Elles... n&atilde;o tardam por
+ahi. Cuidas que te vae custar muito, e &eacute; um engano;
+aqui estou eu, que n&atilde;o sinto frio nenhum.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, mas tu est&aacute;s em condi&ccedil;&otilde;es muito
+particulares.
+Quem tem uma fogueira no cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+precisa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi principias com as tuas coisas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei; o que &eacute; certo &eacute; que esse
+teu enthusiasmo
+pelos passeios matutinos n&atilde;o &eacute; natural.
+Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando
+<span class="pagenum">[141]</span>
+eu t'os propunha? Ora, se me d&aacute;s licen&ccedil;a, eu
+explico
+isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o quero saber de explica&ccedil;&otilde;es;
+veste-te, anda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja! Infeliz lembran&ccedil;a a d'este passeio. E foi
+d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz
+acompanhar. N&atilde;o, que j&aacute; tem juizo; dorme a estas
+horas o somno da madrugada, que &eacute; uma
+consola&ccedil;&atilde;o.
+Que sorte de invejar!
+<br />
+
+<br />
+
+E a morgadinha, continuando assim a exaggerar
+o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos
+secretos a que attribuia o ardor e heroicidade
+da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto
+de proposito para a v&ecirc;r impaciente, principiou a
+vestir-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina fic&aacute;ra &aacute; janella, espiando os
+progressos
+do amanhecer e transmittindo &aacute; prima as
+observa&ccedil;&otilde;es
+que fazia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, eu que digo?... j&aacute; o Manoel vae abrir
+o port&atilde;o... N&atilde;o ouves os pardaes?... &Eacute;
+dia claro
+j&aacute;... Havemos de chegar com sol &aacute; ermida, o que
+n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma... Avia-te, Lena... Has
+de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae j&aacute; o
+Luiz com o almo&ccedil;o. &Eacute; que n&atilde;o chegamos
+l&aacute; sen&atilde;o
+ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle! Quem &eacute; esse elle que vem ahi?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quem ha de ser? Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; o
+primo
+Henrique que nos acompanha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o primo Henrique, &eacute; o sr. Augusto e
+&eacute; o
+Luiz, que tua m&atilde;e teimou em mandar com o almo&ccedil;o.
+N&atilde;o sabia qual dos tres te merecia as honras
+de um &laquo;elle&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu dizia o primo Henrique, que j&aacute; ahi est&aacute; no
+pateo&#8213;disse Christina, que n'esta occasi&atilde;o correspondia
+ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
+fazia de baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, com effeito j&aacute; chegou?&#8213;perguntou a
+morgadinha, admirada.&#8213;Bravo! Nunca o esperei.
+Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem
+alguma coisa no cora&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+&#8213;Tambem o julgo&#8213;respondeu Christina, despeitada;&#8213;&eacute;
+v&ecirc;r como hontem te falou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega. Quando o cora&ccedil;&atilde;o tem alguma coisa,
+n&atilde;o se fala assim com a pessoa que causou esse mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei o que elle me est&aacute; a dizer&#8213;disse
+Christina, olhando para o pateo.&#8213;Posso abrir a janella,
+Lena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; estou preparada para soffrer todas as
+crueldades esta manh&atilde;. Abre l&aacute; a janella, abre.
+Fala-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina correu a vidra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+A voz de Henrique chegou distinctamente aos
+ouvidos de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o aquella grande madrugadora da nossa
+prima, onde est&aacute;?&#8213;perguntou elle a Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina respondeu, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; a fazer a diligencia que pode para ficar
+prompta antes do meio dia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, que vingan&ccedil;a a minha! Ella que tanto falou
+da minha indolencia!&#8213;disse Henrique jovialmente,
+e continuou falando sempre de Magdalena,
+e elevando a voz &aacute;s vezes para se dirigir directamente
+a ella, mas sempre sem receber resposta.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta insistencia impacientou Christina, para quem
+elle nem um galanteio tivera ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De maneira que n&oacute;s, priminha&#8213;continuou
+Henrique&#8213;damos uma li&ccedil;&atilde;o de mestre
+&aacute;quella
+arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella
+nos appare&ccedil;a; quero v&ecirc;r a coragem, com que ousa
+apresentar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou chamal-a&#8213;disse s&ecirc;ccamente Christina,
+e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que
+n&atilde;o podia escapar a esta:&#8213;Olha se appareces alli
+ao sr. Henrique de Souzellas, que n&atilde;o descan&ccedil;a
+emquanto
+te n&atilde;o v&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho
+as tran&ccedil;as, dando ao penteado a mais singela e
+graciosa disposi&ccedil;&atilde;o, voltou-se para a priminha e
+disse-lhe sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[143]</span>
+&#8213;Isso s&atilde;o j&aacute; ciumes? Mal sabes quanto
+g&oacute;sto
+de te v&ecirc;r assim! Ao menos ha j&aacute; vida n'esse teu
+cora&ccedil;&atilde;o, minha pobre pequena. O que te
+pe&ccedil;o &eacute; que
+n&atilde;o me odeies, s&oacute; porque esse rapaz se lembrou de
+perguntar por quem n&atilde;o via.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amores? justo; e com a mesma felicidade em
+acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me
+que ahi est&aacute; mais alguem no pateo. Ou&ccedil;o falar.
+Vae
+v&ecirc;r. Ser&aacute; Augusto? N'esse caso, espera-se
+s&oacute; por
+mim para completar a caravana. E eu estou prompta.
+Marchemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique troc&aacute;ra com elle alguns cumprimentos,
+e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado
+do outro, &aacute; espera das que deviam ser-lhes companheiras
+na romagem.
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa manteve-se pouco animada. Augusto
+n&atilde;o era expansivo com as pessoas, a quem o n&atilde;o
+prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
+talvez por n&atilde;o conhecer a extens&atilde;o e natureza dos
+conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos
+assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram
+pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi
+frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no ver&atilde;o,
+nos pr&oacute;s e contras da vida do campo e de varios
+outros assumptos s&ecirc;ccos de si e j&aacute; al&eacute;m
+d'isso muito
+esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios
+constrangidos e insupportaveis, que o leitor
+ha de conhecer por experiencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Digamos n&oacute;s a verdade; estes dois homens n&atilde;o
+sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel
+sympathia, que abre os cora&ccedil;&otilde;es e d&aacute;
+margens a
+confidencias.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifest&aacute;ra-se
+entre elles certa frieza mais que ceremoniatica,
+uma quasi desconfian&ccedil;a instinctiva.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com
+<span class="pagenum"><a name="p144">[144]</a></span>
+prazer por ambos. Ainda quando n&atilde;o f&ocirc;ssem senhoras
+o seriam; a chegada de um terceiro, quando
+dois indifferentes est&atilde;o na presen&ccedil;a um do outro,
+em entrevista for&ccedil;ada e fatigadora, &eacute; sempre
+saudada
+interiormente como uma redemp&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Christina vinham ambas formosas,
+com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam,
+adequados aos rigores de uma manh&atilde; de dezembro.
+<br />
+
+<br />
+
+Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando
+proximo do quarto de D. Victoria, p&eacute; ante
+p&eacute;, para n&atilde;o a acordarem, esta presentiu-as, e
+mesmo
+do leito perguntou-lhes:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o j&aacute; v&atilde;o, meninas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, tia; vamos, mam&atilde;&#8213;responderam as
+duas a um tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Luiz j&aacute; partiu com o almo&ccedil;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; partiu, j&aacute;, minha senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ides agasalhadas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se f&ocirc;ssemos para a Siberia&#8213;respondeu
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por
+cautela. E ide com Nossa Senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C&aacute; os levamos. Adeus, tia; adeus, mam&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, filhas; at&eacute; logo, se Deus quizer. Olhae
+l&aacute;, n&atilde;o vos estafeis.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora os taes guarda-chuvas &eacute; que n&atilde;o iam. Para
+qu&ecirc;? Com uma manh&atilde; d'aquellas, que nem de inverno
+parecia, pois que at&eacute; o frio abrand&aacute;ra com o
+vento! Por isso &eacute; que vinham ainda a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois
+companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio
+a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente
+o bra&ccedil;o, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
+porque se lembrou de Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigada, primo,&#8213;disse ella com
+vivacidade.&#8213;Mas
+&eacute; preciso que o advirta de que n&atilde;o
+vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
+trepar montes, atravessar ribeiras, costear <a href="#e1">precipicios</a>,
+<span class="pagenum">[145]</span>
+e para tudo isso &eacute; necessaria a
+completa
+liberdade de movimentos. Ha occasi&otilde;es, em que
+melhor nos servem os nossos dois bra&ccedil;os, do que
+o bra&ccedil;o de outro, embora seja o de um heroe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas de certo que n&atilde;o &eacute; &aacute; borda dos
+precipicios
+que esse auxilio se escusa&#8213;replicou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, muitas vezes &eacute;. Ha bordas t&atilde;o
+estreitas,
+que mal cabe n'ellas uma pessoa s&oacute;; felizmente que
+a natureza nos d&aacute; um bra&ccedil;o ent&atilde;o... um
+bra&ccedil;o
+de giestas, por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; l&aacute;, Lena,&#8213;disse Christina ao ouvido da
+prima.&#8213;Talvez seja melhor que acceites. Resta-me,
+a mim, o bra&ccedil;o de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se continuas com essas loucuras, Christina,
+obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto&#8213;continuou voltando-se
+para este&#8213;espero que tome a direc&ccedil;&atilde;o do
+nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais
+bellos pontos de vista; leve-nos por l&aacute;, embora tenhamos
+de comprar as bellezas &aacute; custa de perigos
+e de fadigas. Partamos!
+<br />
+
+<br />
+
+O monte onde se erigira a capella da Senhora da
+Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria
+n'um circulo de muitas leguas de raio, era
+uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias
+ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe
+aos p&eacute;s as alcatifas da mais rica
+vegeta&ccedil;&atilde;o;
+banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas
+e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas
+e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem,
+recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro
+aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza,
+em vez de cobrir os hombros com o manto
+real, que lhe estendiam aos p&eacute;s, permanecia aspero,
+severo e n&uacute;, como nas &eacute;pocas primitivas, em que
+uma convuls&atilde;o tremenda o evoc&aacute;ra do seio da
+terra,
+para o consolidar em colosso.
+<br />
+
+<br />
+
+Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a
+fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo,
+<span class="pagenum">[146]</span>
+a piedade christ&atilde; plant&aacute;ra em volta da
+ermida,
+para refrigerio e conforto dos devotos christ&atilde;os
+que alli iam. Era custosa a ascen&ccedil;&atilde;o por o lado,
+por onde os nossos romeiros, contra os conselhos
+de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair
+de uma longa rua, apertada entre muros de quintas,
+Henrique achou de subito deante de si a mole
+immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
+tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia
+al&eacute;m do Rocio os seus passeios, com medo das
+ingremes cal&ccedil;adas da cidade alta, julgou ouvir um
+absurdo.
+<br />
+
+<br />
+
+Parou a contemplar o monte, como hesitando em
+atravessar o riacho, que d'elle o separava.
+<br />
+
+<br />
+
+O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos
+dias anteriores, levantava um bramido atordoador
+ao cair em toalha dos a&ccedil;udes e ao escoar rapido
+pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja
+enorme roda movia.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;quella hora, ainda pouco clara da madrugada,
+este sitio da raiz do monte tinha n&atilde;o sei que aspecto
+selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor.
+Os altos choupos, em que se enroscavam, como
+serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos
+das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente
+ao perpassar atrav&eacute;s d'elle a briza da madrugada,
+e, aqui e al&eacute;m, um d'esses degenerados
+aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como
+se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria,
+eram accessorios que concorriam para o effeito geral
+do quadro.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, percebendo a hesita&ccedil;&atilde;o de Henrique,
+deu-lhe alento com lan&ccedil;ar-lhe em rosto a sua
+pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou,
+com n&atilde;o menor denodo do que os outros,
+o riacho, por o passadi&ccedil;o de altas pedras, collocadas
+a pequena distancia umas das outras, e que as
+aguas a cada momento amea&ccedil;avam cobrir.
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte;
+<span class="pagenum">[147]</span>
+para isso tornava-se indispensavel caminhar em
+continuados zigue-zagues, aproveitando os c&oacute;rtes
+que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella
+massa granitica e os toscos degraus, com que uma
+arte rudimentar procur&aacute;ra facilitar, por aquelle lado,
+o accesso da ermida &aacute; piedade dos devotos.
+<br />
+
+<br />
+
+As difficuldades para Henrique eram continuas.
+<br />
+
+<br />
+
+A cada momento os embara&ccedil;os d'este forneciam
+motivo para risos da parte de Magdalena. Christina
+n&atilde;o lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo.
+<br />
+
+<br />
+
+Para compensar as fadigas de t&atilde;o trabalhosa
+ascens&atilde;o,
+havia por&eacute;m, a paizagem, que, a cada passo
+andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia
+mais surprehendente e maravilhosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos peitos teriam f&ocirc;r&ccedil;a para reprimir um
+brado de admira&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+As nevoas d'aquella manh&atilde; de dezembro n&atilde;o eram
+bastantes para velarem a belleza do quadro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que os nossos quatro peregrinos iam
+subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte;
+avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se
+os outeiros vizinhos, e os campos tomavam
+a apparencia dos canteiros de um jardim.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o retinha o enthusiasmo, que aquelle
+espectaculo lhe causava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; magnifico! &eacute; admiravel! &eacute;
+soberbo!&#8213;dizia
+elle, a cada momento e quando n&atilde;o era inquietadoramente
+preoccupado com os perigos do caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+O enthusiasmo de Augusto n&atilde;o era menos vivo!
+Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a
+melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie,
+se ia dissipando &aacute; medida que subia a encosta.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Christina tambem n&atilde;o estavam menos
+impressionadas por o que viam. Esta, por&eacute;m,
+tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
+que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
+<br />
+
+<br />
+
+Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos
+de pela manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique continuava a ser todo atten&ccedil;&otilde;es e
+galanteios
+<span class="pagenum">[148]</span>
+com Magdalena; parava a cada momento
+n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
+mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a m&atilde;o a
+ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as
+reflex&otilde;es que o aspecto da paizagem lhe suscitava e
+nunca &aacute; esquecida Christina que, n'esses momentos,
+quasi achava a manh&atilde; desagradavel e o sitio feio e
+sombrio.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha respondia sempre em curtas phrases
+a Henrique e recusava insistentemente o auxilio,
+que elle lhe offerecia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou a suspeitar que esses offerecimentos do
+primo s&atilde;o mais devidos &aacute; necessidade, que sente,
+de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar&#8213;disse
+ella sorrindo.&#8213;A falar verdade, para
+quem tem passado a vida a trilhar os passeios do
+Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um
+pouco de alpestre. Adeante.
+<br />
+
+<br />
+
+E de uma occasi&atilde;o, em que estava perto d'elle,
+disse-lhe a meia voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ser que Christina care&ccedil;a mais do seu
+bra&ccedil;o, primo. Ainda n&atilde;o teve a
+lembran&ccedil;a de lh'o
+offerecer.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique s&oacute; ent&atilde;o deu por esse esquecimento;
+apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina
+tambem o bra&ccedil;o, que esta recusou, c&oacute;rando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o por que recusas?&#8213;perguntou-lhe a
+morgadinha, em voz baixa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o quero abusar da delicadeza d'elle,
+nem da tua.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha abanou a cabe&ccedil;a em ar de
+reprehens&atilde;o,
+fitando-a, mas n&atilde;o lhe disse nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio
+em torno d'elles. J&aacute; tinham passado acima dos rumores
+do valle, que n&atilde;o subiam a mais de meia
+encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo
+annunciava o proximo apparecimento do sol.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chegamos a tempo!&#8213;exclamou Magdalena
+que, deitando a correr, f&ocirc;ra a primeira que attingira
+<span class="pagenum">[149]</span>
+a planura. Sua Magestade ainda se n&atilde;o levantou.
+<br />
+
+<br />
+
+Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao
+p&eacute; d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um longo espa&ccedil;o de silencio, concedido
+espontaneamente &aacute; contempla&ccedil;&atilde;o
+d'aquella perspectiva
+solemne.
+<br />
+
+<br />
+
+As primeiras palavras, que se disseram, foram
+ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente
+lhes damos, quando na presen&ccedil;a de um espectaculo
+grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco:
+n&atilde;o se formulam longos periodos de aprimorado
+estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples
+phrases, como estas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bello!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; magnifico!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; sublime!
+<br />
+
+<br />
+
+E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na
+occasi&atilde;o de que falamos. E eu, por analogas
+raz&otilde;es,
+os imitarei, desistindo de descrever o que s&oacute; bem
+se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto
+de todo o panorama. O leitor, que nunca visse
+alguma scena similhante, n&atilde;o a imaginaria pela
+descrip&ccedil;&atilde;o,
+for&ccedil;osamente pallida, que ahi lhe deixasse
+d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencher&aacute;
+bem a lacuna.
+<br />
+
+<br />
+
+Desvanecida a primeira impress&atilde;o, que n&atilde;o deixa
+ao espirito a serenidade precisa para os processos
+da analyse, principiaram, como &eacute; costume, a fazerem
+notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada
+familiaridade entre os quatro.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos;
+Magdalena dos seus projectos e desconfian&ccedil;as;
+Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua
+frieza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; est&aacute; o Mosteiro&#8213;disse Magdalena, apontando
+para o logar indicado.&#8213;Como parece pequeno,
+visto d'aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;respondia Christina&#8213;e olha, Lena,
+como se v&ecirc;em bem as janellas do teu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; est&aacute; aquella que tu abriste esta
+manh&atilde; para
+cumprimentares...
+<br />
+
+<br />
+
+Sentindo a m&atilde;o de Christina
+comprimir-lhe o
+bra&ccedil;o, concluiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para cumprimentares a estrella d'alva.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As janellas do quarto da mam&atilde; julgo que ainda
+est&atilde;o fechadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o posso eu distinguir; comtudo
+afian&ccedil;o-te
+que sim. A tia Victoria n&atilde;o &eacute; muito matinal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquella casa acol&aacute; n&atilde;o &eacute; a de
+Alvapenha?&#8213;perguntou
+Henrique, apontando n'outra direc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;&#8213;respondeu Augusto&#8213;e, mais adeante, alli
+tem a deveza, em que passou ante-hontem. N&atilde;o &eacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justamente. Com effeito! Foi um soberbo
+passeio, o que eu dei! D'aqui &eacute; que se v&ecirc;.
+L&aacute; vejo
+umas pr&ecirc;sas, por onde me lembro de ter passado
+tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;, acol&aacute;, aquella casa que tem uma capella
+ao lado?&#8213;perguntou Magdalena, apontando para
+um ponto distante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a minha quinta dos Cannaviaes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &Eacute; verdade, l&aacute; est&atilde;o
+uns cannaviaes, se
+me n&atilde;o engana a vista.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente. N&atilde;o sei se sabe que ha n'aquella
+capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? hei de visital-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coisa que se lhe pe&ccedil;a, fazendo-se o voto da
+meia noite, &eacute; concedido&#8213;disse Christina, fitando
+d'esta vez Henrique, com a express&atilde;o da mais insinuante
+sinceridade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer o voto da meia noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem uma pessoa de rezar &aacute; meia noite, e
+s&oacute;sinha,
+sete esta&ccedil;&otilde;es no altar da Senhora&#8213;continuou
+Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[151]</span>
+&#8213;S&oacute; isso? Boa &eacute; de cumprir a promessa.
+J&aacute; vejo
+que n&atilde;o ha aqui na terra desejo que se n&atilde;o
+satisfa&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais devagar,&#8213;acudiu Magdalena, sorrindo&#8213;pouca
+gente se atreve at&eacute; a ir l&aacute; &aacute; meia
+noite,
+porque a alma de minha madrinha passeia a horas
+mortas por a sua antiga casa, dizem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cada vez sinto mais desejos de l&aacute; ir&#8213;accrescentou
+Henrique, depois de ouvil-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Al&eacute;m, entre aquellas arvores, sr.<sup>a</sup>
+D. Magdalena,
+vive um philosopho&#8213;disse Augusto, indicando
+outro ponto de perspectiva.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade; o bom do tio Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente? Quem &eacute; o tio Vicente? Temos
+mais algum tio, com que eu possa augmentar o
+meu parentesco na aldeia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tio Vicente &eacute; um santo velho, que se occupa
+a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios,
+que dizem milagrosos. Ainda &eacute; nosso parente,
+mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe
+tio, assim como quasi toda a gente por
+aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que sombras negras s&atilde;o aquellas que se v&ecirc;em
+no adro da igreja?&#8213;perguntou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na igreja? Ah! acol&aacute;? &Eacute; verdade, parece um
+cord&atilde;o de formigas&#8213;disse Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o as mulheres que v&atilde;o ouvir o
+missionario&#8213;respondeu
+a morgadinha.&#8213;Escutem, l&aacute; est&aacute; a
+tocar o sino.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis
+mas sonoras badaladas do campanario da aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A estas horas
+principiam as
+lamenta&ccedil;&otilde;es
+d'aquelle pobre Z&eacute; P'reira, que t&atilde;o mal olhado
+anda
+por a mulher, desde que ella deu n'essas
+devo&ccedil;&otilde;es&#8213;notou
+Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena
+domestica a que na vespera assistira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Degenerou aquella mulher!&#8213;disse Magdalena&#8213;e,
+se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto,
+<span class="pagenum">[152]</span>
+custa-me v&ecirc;r o Cancella deixar a Lindita entregue
+assim a essa gente quando s&aacute;e da terra. A pequena
+&eacute; t&atilde;o apprehensiva!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, j&aacute; chegou aqui &aacute; aldeia a
+influencia
+dos missionarios?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o tem lavrado pouco!&#8213;tornou Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina, que era um poucochinho devota, censurou
+timidamente as palavras da morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primo Henrique&#8213;disse ella&#8213;julgo que ainda
+ser&aacute; preciso o seu auxilio para livrar do contagio
+esta innocente Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto, prima Magdalena; para as boas causas
+tenho sempre armada a minha vontade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, Lena, n&atilde;o v&ecirc;s?&#8213;exclamou
+Christina&#8213;s&atilde;o
+os pequenos que nos est&atilde;o a dizer adeus das
+janellas do mirante.
+<br />
+
+<br />
+
+De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se
+uns len&ccedil;os brancos.
+<br />
+
+<br />
+
+Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem,
+de longe, a irm&atilde; e a prima. Estas tiraram
+tambem os len&ccedil;os e corresponderam-lhes aos signaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Annuncio a v. ex.<sup>as</sup>, que chega o rei da
+crea&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente o cume do telhado da ermida e as
+fran&ccedil;as despidas da alameda j&aacute; se tingiam de luz.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o
+uma esplendida faixa de purpura, que,
+em insensivel gradua&ccedil;&atilde;o, desmaiava para as
+extremidades
+at&eacute; se perder de todo no azul-celeste.
+<br />
+
+<br />
+
+Rompia j&aacute;, do meio d'ella, um pequeno segmento
+do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado
+e vermelho, como um escudo de metal candente, e
+logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir,
+e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao
+qual se rompessem as pris&otilde;es que o retinham.
+<br />
+
+<br />
+
+O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo,
+estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Nisto appareceu do outro lado da capella um
+dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que
+o almo&ccedil;o estava prompto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois dev&eacute;ras temos um almo&ccedil;o?&#8213;exclamou
+Henrique, sinceramente surprehendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gra&ccedil;as &aacute; previdencia de minha tia, previdencia
+de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada
+a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares
+do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter
+aberto o appetite&#8213;respondeu Magdalena. E logo
+ap&oacute;s continuou para Henrique:&#8213;Agora &eacute;
+occasi&atilde;o
+mais accommodada de p&ocirc;r em pr&aacute;tica os recursos
+do seu galanteio, primo. Quer dar o bra&ccedil;o a Christina?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, em quem a morgadinha suspeit&aacute;ra a
+inten&ccedil;&atilde;o de lhe render a ella a fineza, que assim
+declinou na prima, teve de condescender, limitando-se
+a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar
+que Magdalena fingiu n&atilde;o perceber.
+<br />
+
+<br />
+
+E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar
+onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre,
+estava disposto o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria n&atilde;o era senhora, que se saisse mal de
+emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia
+da lou&ccedil;a e o bem disposto e apurado das iguarias
+convidavam.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se concebe appetite refractario a um tal conjuncto
+de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria
+um fastio m&oacute;rbido, correspondente a les&atilde;o
+organica
+e como tal sem poesia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique e Augusto principalmente fizeram, como
+era natural, justi&ccedil;a &aacute; cozinha do Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, que parecia haver esquecido as suas
+mil e uma doen&ccedil;as, conversou animada e espirituosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de
+Henrique; este riu com vontade das que ouviu a
+Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, por sua propria m&atilde;o, preparou o
+ch&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[154]</span>
+N'estas alturas do almo&ccedil;o encetou novamente
+Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por
+muito tempo n&atilde;o sabia prescindir.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a
+santa harmonia do congresso. Parecia que todos os
+outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique fic&aacute;ra sentado junto da parede da capella.
+Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a
+saborear um charuto havano, descobriu umas letras
+escriptas na parede, exactamente por cima da cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo!&#8213;exclamou, depois de as ler para si&#8213;n&atilde;o
+imaginava que havia poetas na aldeia! Querem
+ouvir?
+<br />
+
+<br />
+
+E leu:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Se est&aacute;s mais perto do c&eacute;o<br />
+
+N'estas alturas da serra,<br />
+
+Ai, porque tens, peito meu<br />
+
+Inda saudades de terra?
+<br />
+
+<br />
+
+Em vez-de erguer os olhares<br />
+
+&Aacute; luz d'este firmamento,<br />
+
+Des&ccedil;o-os &aacute; sombra dos lares,<br />
+
+Onde tenho o pensamento.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pena que a chuva apagasse o resto. Quem
+&eacute; o bardo, prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei; da aldeia de certo que n&atilde;o
+&eacute;&#8213;respondeu
+Magdalena, com indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a
+alameda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da aldeia, n&atilde;o, diz a prima; e por que n&atilde;o?
+Com esta natureza &eacute; facil crearem-se os poetas. Eu
+estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance.
+Aqui a serra de algum Bernardim inedito,
+t&atilde;o capaz de escrever saudades, como de as sentir.
+Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta
+trocava os esplendores do c&eacute;o... algumas d'essas
+casas, que ahi se v&ecirc;em em baixo. Quem sabe se
+n&atilde;o ser&aacute; at&eacute; o Mosteiro? Eu, por mim,
+confesso que se estivesse hoje aqui s&oacute;, ou em outra
+companhia&#8213;accrescentou,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+olhando significativamente
+para a morgadinha-n&atilde;o teria d&uacute;vida em subscrever
+esta quadra, como a exacta express&atilde;o do meu
+sentir, porque...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Em vez de erguer os olhares.<br />
+
+&Aacute; luz d'este firmamento
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eu tambem...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Os <em>abaixaria</em> aos lares<br />
+
+Onde tenho o pensamento.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter
+com Augusto &aacute; alameda.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, que a seguiu com a vista, n&atilde;o
+disfar&ccedil;ou
+um gesto de despeito ao ficar s&oacute; com Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prima Magdalena,&#8213;disse em tom mais affectuoso
+Henrique, passado tempo, e depois de mais
+algumas palavras&#8213;deixe-me falar-lhe com franqueza,
+agora que estamos s&oacute;s. Conhecemo-nos ha
+dois dias; eu, por&eacute;m, sinto-me t&atilde;o seguro
+j&aacute; do que
+lhe vou dizer, que n&atilde;o hesito. N&atilde;o pode imaginar
+a
+indelevel recorda&ccedil;&atilde;o que me ficar&aacute;
+d'esta manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o,&#8213;atalhou Magdalena&#8213;diga-me primeiro
+o que &eacute; isso que me vae dizer. Prepara-se
+para me agradecer o almo&ccedil;o? Eu sou como os reis;
+gosto de estar prevenida do sentido das
+felicita&ccedil;&otilde;es
+que me dirigem, para ir preparando uma resposta
+adequada.
+<br />
+
+<br />
+
+-Que prazer tem em ser cruel!
+<br />
+
+<br />
+
+-Deixemo-nos de loucuras&#8213;continuou Magdalena,
+s&eacute;ria j&aacute;.&#8213;Quem ouvisse o sr. Henrique de
+Souzellas havia de supp&ocirc;r que se preparava para
+me fazer uma declara&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+-Uma declara&ccedil;&atilde;o do mais puro affecto, do mais
+sincero
+sentimento, por que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas
+inten&ccedil;&otilde;es,
+pe&ccedil;o-lhe desista d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+&#8213;Por qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o posso escutal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou n&atilde;o quer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou n&atilde;o quero; seja.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teria eu a desventura de chegar tarde, prima?
+Acaso o seu cora&ccedil;&atilde;o j&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que impertinente pergunta? Se
+<em>j&aacute;</em>, n&atilde;o tenho
+ainda no sr. Henrique a necessaria confian&ccedil;a para
+o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de
+hontem, que &eacute; o mesmo que n&atilde;o nos conhecermos.&#8213;E
+accrescentou logo depois:&#8213;Christina, anda
+ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
+Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que vae fazer?&#8213;perguntou-lhe Henrique, admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique
+n&atilde;o desviava os olhos da morgadinha que,
+sem lhe dar atten&ccedil;&atilde;o, proseguiu para Christina:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O primo Henrique falava com certa exalta&ccedil;&atilde;o
+da do&ccedil;ura do teu caracter; o meu amor proprio
+disse-me que&#8213;era pouco delicado estar assim a
+lisonjear uma mulher na presen&ccedil;a de outra&#8213;e redargui
+por isso, pondo em d&uacute;vida a asser&ccedil;&atilde;o e
+affirmando que havia um fermentozinho de maldade
+na tua do&ccedil;ura. Elle nega por impossivel, eu
+insisto e estamos n'isto. Agora dize tu.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina c&oacute;rou intensamente e n&atilde;o teve que
+responder.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou
+ouvir algumas que, pelo sentido e inflex&atilde;o, com que
+foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente
+a posi&ccedil;&atilde;o, em que Magdalena o
+colloc&aacute;ra,
+e respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venci eu! O facto de querer a priminha poupar
+uma r&eacute;plica amarga &aacute;
+accusa&ccedil;&atilde;o que lhe fazem,
+&eacute; a mais eloquente prova, j&aacute; n&atilde;o digo
+s&oacute; da do&ccedil;ura,
+mas da natureza angelica do seu caracter. J&aacute; v&ecirc;,
+prima Magdalena, que &laquo;quando uma das mulheres
+que diz, f&ocirc;r como a nossa boa Christina, n&atilde;o se
+podem
+<span class="pagenum">[157]</span>
+admittir essas revoltas de amor proprio, a que
+alludiu.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido
+d'estas ultimas palavras; mas fingiu n&atilde;o comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou
+os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso
+lhe dissipava um pouco dos labios a grave express&atilde;o
+que lhe era habitual, temperando-a com n&atilde;o
+sei que de ironico, que n&atilde;o escapou tambem a Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por
+momentos, sem que nenhum parecesse disposto a
+baixar-se deante do outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Desviou-os por&eacute;m uma dupla exclama&ccedil;&atilde;o
+de Magdalena
+e de Christina, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem o tio Vicente por aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina
+da ermida, e approximava-se da mesa do almo&ccedil;o,
+o velho herbanario, em que j&aacute; temos falado
+no decurso dos passados capitulos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>X
+</h4>
+
+<br />
+
+Era uma expressiva figura de anci&atilde;o o herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+A fronte larga e desaffrontada de c&atilde;s, os olhos
+ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia,
+permanentes indicios de habituaes medita&ccedil;&otilde;es
+e por ventura de passados infortunios, elevavam
+aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os
+annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares
+haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
+os habitos de solid&atilde;o, que adquirira, a pouco
+e pouco lhe amoldaram o caracter at&eacute; fazerem do
+<span class="pagenum">[158]</span>
+velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam
+o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam,
+a ninguem permittindo sondar os mysterios
+que guardam comsigo e para si, e creando para
+uso proprio regras de viver, sem atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s conven&ccedil;&otilde;es
+sociaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um enigma vivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de
+nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas
+com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava
+as maiores atten&ccedil;&otilde;es e canceiras.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera
+nunca. Poucos por&eacute;m ousariam, depois do esconder
+do sol, ir procural-o &aacute; isolada casa em que vivia,
+escondida n'um quintal, que era cultivado com todo
+o amor pelo velho.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todos os casos intrincados vinham consultar
+o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia,
+em caso algum recusava o alvitre.
+<br />
+
+<br />
+
+Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha
+nem methodo, de uns alfarrabios herdados de
+um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal
+digeridas no&ccedil;&otilde;es de sciencia, de que se mostrava
+orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de
+jurisprudencia, outros de logica e de astronomia,
+constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os
+livros mais predilectos e consultados contava um
+exemplar da <em>Polyantheia</em> de Curvo
+Semedo.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario principi&aacute;ra em crean&ccedil;a uma
+educa&ccedil;&atilde;o
+tal ou qual, que rev&eacute;zes de familia haviam interrompido.
+<br />
+
+<br />
+
+Os meios conhecimentos, que das suas habituaes
+leituras extrahira, e os erros, que de taes livros
+assimil&aacute;ra, eram os elementos, com que chegou a
+architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava
+por maravilhosa.
+<br />
+
+<br />
+
+E o caso era que a fama do homem vo&aacute;ra de
+freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e
+de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+Os costumes do velho, que errava por valles e
+montes &aacute; procura dos simplices, cujas occultas virtudes
+conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade
+da physionomia, a franqueza, sem contempla&ccedil;&otilde;es,
+com que dizia quanto pensava, tinham gravado
+fundo na imagina&ccedil;&atilde;o popular aquelle typo,
+para ella quasi lendario.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de se sentar &aacute; mesa, o herbanario estendeu
+familiarmente a m&atilde;o a Augusto, que lh'a apertou
+com affecto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, rapaz,&#8213;disse o velho; e, dirigindo-se
+a Magdalena e Christina, accrescentou com
+maneiras paternaes:&#8213;Adeus, pequenas; grandes
+madrugadas hoje!
+<br />
+
+<br />
+
+Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com
+olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando
+por lhe dizer simplesmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Guarde-o Deus!
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem mais o attender, Vicente voltou-se para
+Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para
+Henrique, e referindo-se a elle:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O homem que, melhor que ninguem, est&aacute; habilitado
+a responder a essa pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho nem sequer o olhou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este senhor&#8213;respondeu Magdalena&#8213;&eacute; sobrinho
+de D. Doroth&eacute;a; est&aacute; hospede em Alvapenha.
+Veio para aqui restabelecer-se da saude.
+<br />
+
+<br />
+
+Vicente tornou a examinar Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; doente?... N&atilde;o parece...
+Olhar vivo...
+C&ocirc;res boas... voz s&atilde;... Umh!...
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes
+do velho estavam desagradando a Henrique;
+por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A doen&ccedil;a d'este senhor &eacute; um pouco de
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[160]</span>
+&#8213;E grandes effeitos nascem d'ahi&#8213;acudiu sentenciosamente
+o velho.&#8213;L&aacute; veem na
+<em>Polyantheia</em>
+muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
+umas amoras, foi atacado de d&ocirc;res de cabe&ccedil;a, de
+que morreu. Pois tanto scismou que das amoras
+lhe viera o mal, que at&eacute; se lhe formou no craneo
+uma pedra do feitio de uma amora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com effeito!&#8213;disse Henrique, com ironica
+express&atilde;o de pasmo&#8213;ahi estava um cerebro de
+concep&ccedil;&otilde;es rijas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; divertido!&#8213;disse Vicente, com ligeiro sarcasmo
+e olhando para Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo contrario&#8213;acudiu a morgadinha&#8213;o seu
+mal &eacute; a melancolia. N&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; n&atilde;o sei qual &eacute; o meu mal.
+Estou quasi
+a dar raz&atilde;o &aacute; tia Doroth&eacute;a, que lhe
+chamou mania.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mania e melancolia n&atilde;o s&atilde;o a mesma
+coisa&#8213;emendou
+o velho.&#8213;Tambem l&aacute; na
+<em>Polyantheia</em> se
+diz isso bem claro. A melancolia &eacute; sem ira nem furia,
+porque procede de humor frio, e a mania de
+sangue quente ou c&oacute;lera requeimada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De c&oacute;lera requeimada? Deve ser uma coisa
+terrivel!&#8213;continuou Henrique, no mesmo tom.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios
+de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou
+a este:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe que ter&aacute; cura a doen&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam.
+Este &eacute; divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas
+e manias n&atilde;o ha como as folhas de ouro em
+caldo de frang&atilde;o com flores de borragem e de herva
+cidreira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este &eacute; como os calvos, que vendem aos outros
+pomadas para fazer nascer o cabello; &eacute; um
+argumento vivo contra a efficacia da beberagem
+que receita para as manias&#8213;disse Henrique a meia
+voz para Augusto, que lhe ficava proximo.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho, que n&atilde;o tinha ainda dado mostras de
+<span class="pagenum">[161]</span>
+offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique,
+c&oacute;rou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago
+de irrita&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso
+da sua dignidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bom, menino,&#8213;replicou elle
+amargamente.&#8213;N&atilde;o
+diga mais, para se n&atilde;o envergonhar
+depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
+costumado a v&ecirc;r pobres e ricos virem a minha
+casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim
+ahi vae mais um conselho, apesar de m'os n&atilde;o pedir.
+Seja attencioso com a velhice que n&atilde;o &eacute; baixeza
+nenhuma. Mas que &eacute; isto?&#8213;exclamou, mudando
+de tom e olhando para um redemoinho de
+folhas s&ecirc;ccas que o vento trouxera at&eacute; perto
+d'elle.&#8213;As
+folhas veem d'este lado! Ent&atilde;o virou o vento?
+&Eacute; verdade. Ah! sim?... Percebo.
+<br />
+
+<br />
+
+E, depois de olhar para o ar, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mudan&ccedil;as t&atilde;o repentinas!... Umh!...
+J&aacute;
+me n&atilde;o agrada aquelle azul e aquellas nuvens.
+<br />
+
+<br />
+
+E levantou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-lhes meia hora, e ver&atilde;o tudo isto coberto
+e quem sabe o mais que vir&aacute;! Aconselho-os a que
+v&atilde;o descendo o monte, que n&atilde;o &eacute; seguro
+descel-o
+quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim,
+j&aacute; me n&atilde;o demoro, que n&atilde;o tenho
+confian&ccedil;a na firmeza
+das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
+Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+E, sem mais palavras, sobra&ccedil;ou a caixa de lata,
+em que archivava as hervas medicinaes e outras
+substancias, que andava colhendo, e partiu, depois
+de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que o herbanario desappareceu, Henrique
+soltou uma risada, em que parecia haver o que
+quer que era de for&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; realmente curiosa esta antigualha&#8213;disse
+elle, que interiormente sentia j&aacute; remorsos pela maneira
+por que trat&aacute;ra o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span>
+&#8213;Ai, primo Henrique; que ainda est&aacute; muito
+pouco preparado para viver na aldeia!&#8213;disse a
+morgadinha.&#8213;Tem uns melindres e uma maneira
+de v&ecirc;r as coisas! Tudo lhe parecem faltas de
+atten&ccedil;&otilde;es,
+propositos de offender! depois ha um sarcasmo
+cruel nas suas palavras, a que os espiritos n&atilde;o
+est&atilde;o aqui habituados e de que <a href="#e2">se
+sentem</a>
+por
+isso feridos. Isso n&atilde;o &eacute; bom! Se vae assim, ou
+ter&aacute;
+de nos deixar c&ecirc;do, ou grandes desaven&ccedil;as
+suscitar&aacute;
+por ahi. N&atilde;o repara que estes modos s&atilde;o proprios
+do campo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, prima Magdalena; mas confesso
+que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos.
+Deve confessar que este homem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um homem de bem&#8213;atalhou Augusto com
+voz firme e com uma severidade de express&atilde;o, que
+at&eacute; alli n&atilde;o mostr&aacute;ra ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio.
+Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o nego&#8213;respondeu Henrique, pouco depois&#8213;mas
+infelizmente os homens de bem envelhecem,
+como os outros, e a extrema velhice traz
+a imbecilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Engana-se; esse homem, apesar de algumas
+phantasias, tem ainda um juizo s&atilde;o e uma raz&atilde;o
+clara.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acha?&#8213;tornou Henrique, j&aacute; algum tanto azedado.&#8213;Ha
+de dar-me licen&ccedil;a de n&atilde;o fazer obra
+por as suas aprecia&ccedil;&otilde;es... se me &eacute;
+permittido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procede mal&#8213;redarguiu Augusto.&#8213;Porque
+eu conhe&ccedil;o aquelle homem ha muito e o senhor
+acaba apenas de o v&ecirc;r pela primeira vez. Foi o
+senhor quem primeiro deu &aacute;s suas palavras um
+tom irritante, que desafiou uma digna correc&ccedil;&atilde;o.
+N&atilde;o lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso.
+A consciencia lh'o est&aacute; dizendo n'este momento melhor
+do que eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&ecirc; fundo nas consciencias dos outros!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; difficil. Em todos os homens a
+consciencia
+<span class="pagenum">[163]</span>
+tem uma s&oacute; maneira de ser. Reprova sempre o
+mal, aponta sempre a culpa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou admirando a subita loquacidade que se
+lhe manifestou! At&eacute; aqui suppunha-o taciturno. Vejo
+que lhe mere&ccedil;o a fineza de abrir uma
+excep&ccedil;&atilde;o aos
+seus habitos de laconismo em meu favor. Muito
+agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos
+moraes? N&atilde;o reparei.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto c&oacute;rou, mas respondeu com firmeza:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem uma nem outra coisa; &eacute; um genero muito
+mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente
+um preceito de civilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e
+tornou com dobrada ironia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, &eacute; verdade... esquecia-me que a
+civilidade entra no seu programma... de mestre-escola.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam
+o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos
+e descal&ccedil;os, mas n'esse ponto podem dar
+li&ccedil;&otilde;es a
+elegantes filhos das cidades.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois estimarei, nas minhas longas horas de
+ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas li&ccedil;&otilde;es
+tambem.
+Comtudo, como, felizmente, as circumstancias
+em que estou me permittem prescindir do beneficio
+do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que
+pague as li&ccedil;&otilde;es que receber.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa
+do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a...
+sem sacrificio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E acceita-a em toda a especie de moeda, n&atilde;o
+&eacute; verdade?&#8213;perguntou Henrique, cada vez mais
+petulantemente.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto respondeu com a mesma serenidade:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fa&ccedil;o tambem escrupulo n'isso, comtanto
+que me fique o direito salvo de pagar na mesma
+especie de tr&oacute;cos, quando julgar que os devo.
+<br />
+
+<br />
+
+O dialogo ia, como vamos vendo, de momento
+para momento adquirindo mais acerbo caracter.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[164]</span>
+Christina, que j&aacute; tremia de assustada, cingiu o
+bra&ccedil;o de Magdalena, como para convidal-a a intervir.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta n&atilde;o o tinha ainda feito por uma simples
+raz&atilde;o.
+Desconhecia Augusto. A audacia com que o
+via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
+inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso,
+que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram
+t&atilde;o novos para a morgadinha, que a surpreza, que
+d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
+de uma interven&ccedil;&atilde;o. O aviso de Christina
+chamou-a, por&eacute;m, &aacute; realidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem-me querido parecer, ainda que me custa
+a acreditar, que isso entre os senhores &eacute; uma
+alterca&ccedil;&atilde;o&#8213;disse
+ella por fim.&#8213;Vejam que s&oacute; teem
+por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem
+servir de padrinhos, se a contenda tomar outra
+fei&ccedil;&atilde;o. Por isso n&atilde;o &eacute;
+muito para louvar a escolha
+que fizeram da occasi&atilde;o, para uma justa t&atilde;o
+pouco... amavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, prima Magdalena; reconhe&ccedil;o a minha
+culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o
+sr. Augusto, costumado a imp&ocirc;r aos discipulos o
+seu pensamento, quiz estender at&eacute; mim este despotismo
+de... <em>magister</em>... Ora o meu
+pensamento
+pugnou pela sua independencia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de
+pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse
+modificar-lhe uma opini&atilde;o desfavoravel, que
+levianamente formou de quem lh'a n&atilde;o merecia.
+Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que
+quizer. Mas o que eu n&atilde;o soffro &eacute; que se diga
+deante de mim uma palavra contra um homem
+que respeito e de quem sou amigo, sem que erga
+a voz a defendel-o. Se n&atilde;o costuma fazer o mesmo
+por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade
+de o fazer, lastimo-o; &eacute; porque n&atilde;o os
+tem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mais paz de espirito se discutir&aacute; tudo
+<span class="pagenum">[165]</span>
+isso depois&#8213;disse Magdalena.&#8213;&Eacute; de cr&ecirc;r que,
+como sempre, haja de parte a parte raz&atilde;o e aggravos.
+Agora convido-os, antes de descermos, a visitar
+a ermida, cuja porta est&aacute; sempre, dia e noite,
+aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal &eacute;
+o prestigio que a defende, que n&atilde;o consta de um
+s&oacute; roubo sacrilego, que se fizesse n'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Entraram na ermida. Era um pequeno santuario,
+todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas
+pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando
+episodios da Paix&atilde;o; os altares, adornados
+de columnas e flor&otilde;es de talha dourada, attestavam
+nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e
+nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de
+vista a dos desenhos chinezes e que representavam
+milagres de todo o genero, a f&eacute; ardente com que era
+adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
+<br />
+
+<br />
+
+E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade
+manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua
+mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em
+torno, da altura a que se erguia, do isolamento em
+que estava.
+<br />
+
+<br />
+
+Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes,
+Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros
+dos milagres; Christina, que prolong&aacute;ra mais
+do que a prima a ora&ccedil;&atilde;o que fizera, contemplando
+a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos
+nas columnas do altar, por&eacute;m, n&atilde;o sei se pensando
+n'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Esperava-os uma surpreza &aacute; saida.
+<br />
+
+<br />
+
+Realis&aacute;ra-se o prognostico do herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+O vento sul que, segundo elle not&aacute;ra, soprava j&aacute;
+havia algum tempo, viera condensar os vapores,
+que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar
+com elles a limpidez do firmamento. O azul do
+c&eacute;o semei&aacute;ra-se, pouco a pouco, de pequenos
+flocos
+brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados
+veios que lhe davam uma apparencia
+quasi marmorea. C&ecirc;do estas massas de nuvens
+<span class="pagenum">[166]</span>
+cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando
+por tingir uniformemente toda a extens&atilde;o do firmamento.
+Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas
+e mais escuras, come&ccedil;aram a erguer-se do
+sul e caminharam impetuosas no espa&ccedil;o, como
+montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira,
+de encontro &aacute;s serras, que as aguardavam
+firmes.
+<br />
+
+<br />
+
+Um denso v&eacute;o de nevoeiro escondia j&aacute; a paizagem,
+quando sairam da ermida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depressa!&#8213;exclamou Augusto&#8213;j&aacute; n&atilde;o ha
+tempo a perder! Des&ccedil;amos antes que a tormenta
+nos colha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem medo?&#8213;disse Henrique em tom de mofa.&#8213;Um
+montanhez!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez tenha; em todo o caso ha de v&ecirc;r que
+n&atilde;o &eacute; de inimigo pouco digno de o inspirar. Por
+agora pe&ccedil;o-lhe tr&eacute;guas &aacute;s zombarias e,
+por amor
+d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por
+apressar a descida. Felizmente que o criado j&aacute; partiu.
+&Eacute; um embara&ccedil;o de menos. Vamos.&#8213;Detendo-se,
+por&eacute;m, disse para Magdalena:&#8213;Se descessemos
+por o outro lado, minha senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;?&#8213;respondeu esta.&#8213;&Eacute; um momento,
+emquanto chegamos abaixo.
+<br />
+
+<br />
+
+A tempestade caracterisava-se cada vez mais;
+crescia a cerra&ccedil;&atilde;o do ar; os &aacute;lamos
+gemiam, vergados
+pela impetuosidade das lufadas do sul; a
+chuva principiou por grossas gottas, e c&ecirc;do augmentou
+assustadoramente; havia na atmosphera
+surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
+nuvens tomavam uma c&ocirc;r terrea, outras um
+carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina, pallida de susto, murmurava em voz
+baixa ora&ccedil;&otilde;es fervorosas; Magdalena sorria para a
+animar, mas ella propria estava inquieta.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era de facto uma empreza de todo facil o
+descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho,
+j&aacute; de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel
+<span class="pagenum">[167]</span>
+quando as correntes se despenhavam por
+elle, como em catadupas, e os ventos vinham despeda&ccedil;ar-se
+furiosos de encontro &aacute;s arestas salientes
+da rocha.&#8213;Era necessario estar muito amestrado
+para o descer sem perigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto era de todos o que melhor o conseguiria;
+assim n&atilde;o tivesse de repartir os seus cuidados
+por tantos. De pequeno se costum&aacute;ra &aacute;quellas
+aventuras;
+e j&aacute; ent&atilde;o seguia, sem vertigem, a mais estreita
+borda dos despenhadeiros do monte.
+<br />
+
+<br />
+
+A tudo por&eacute;m attendia agora, desenvolvendo uma
+actividade e pericia, que inspirava alento e confian&ccedil;a
+aos mais. Agil, como um animal montez, girava
+em volta da pequena caravana, de que tacitamente
+f&ocirc;ra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir
+os passos pelos logares de mais facil transito, ora
+&aacute; retaguarda a dar a m&atilde;o a Magdalena, que vira
+em embara&ccedil;o, ou a amparar Christina, a quem muita
+vez chegou a levantar nos bra&ccedil;os, para a fazer franquear
+um ponto do caminho, em que ella par&aacute;ra,
+sentindo que lhe resvalavam os p&eacute;s no declive e na
+humidade do ch&atilde;o. O proprio Henrique, que n&atilde;o
+era o menos embara&ccedil;ado do rancho, e nem isso
+admira, s&oacute; a custo podia prescindir, em certos lances,
+do auxilio de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha
+iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria.
+Nenhum dos seus muitos talentos e aptid&otilde;es,
+de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das
+salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a
+sua inferioridade n'este momento; ora Henrique n&atilde;o
+era homem que, tendo consciencia disto, ficasse
+indifferente; mas que remedio? Procuraria mais
+tarde uma compensa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa
+descida, alguns dos quaes s&oacute;mente a
+preoccupa&ccedil;&atilde;o,
+em que iam os animos, impedia achar risiveis;
+por&eacute;m que mais tarde deviam, como &eacute; costume,
+vir a ser alimento de animadas e joviaes
+recorda&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em
+que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente
+desciam, uma ribanceira quasi a pique e
+erri&ccedil;ada de fragas salientes e angulos de rocha, em
+cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as
+giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido
+vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo
+a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear
+no espa&ccedil;o arreme&ccedil;ou-a ao abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, por&eacute;m
+em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer
+lado que se tentasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, no momento, n&atilde;o p&ocirc;de reter um grito,
+que fez parar com terror Henrique e Augusto
+que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, com a cabe&ccedil;a descoberta, tran&ccedil;as
+ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas,
+sorria j&aacute; do seu exaggerado susto.
+<br />
+
+<br />
+
+A rir, explicou o succedido, pedindo perd&atilde;o pelo
+sobresalto que involuntariamente caus&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descan&ccedil;a em paz!&#8213;disse ella, olhando para a
+mantilha; e accrescentou:&#8213;Sigamos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o ser&aacute; possivel tiral-a
+d'alli?&#8213;perguntou
+Augusto, examinando o sitio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;? N&atilde;o podemos demorar-nos agora
+com isso&#8213;respondeu Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu des&ccedil;o a cortar uma canna l&aacute; abaixo aos
+Moinhos e volto n'um momento&#8213;insistiu Augusto,
+dispondo-se a executar o que dizia.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique notou, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O alvitre &eacute; de homem prudente. Cuidei que os
+montanhezes n&atilde;o eram de t&atilde;o bom aviso.
+<br />
+
+<br />
+
+E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por
+quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo
+&aacute; influencia que sobre elle exercia a fascinadora
+figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a
+uma desnecessaria imprudencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem
+qualquer reflex&atilde;o, deixou-se escorregar no despenhadeiro,
+<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span>
+segurando-se com as m&atilde;os &aacute; borda do
+caminho; tenteou com os p&eacute;s as fendas e as anfractuosidades
+da rocha, at&eacute; conseguir firmal-os; segurou-se
+ora a uma raiz saliente, ora a um ramo
+mais tenaz; &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de vontade dominou
+a sua impericia
+em exercicios d'esta ordem, e finalmente
+conseguiu, estendendo o bra&ccedil;o, segurar a mantilha,
+que o vento arroj&aacute;ra ao precipicio.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, com dobradas difficuldades e por ventura
+redobrados perigos, p&ocirc;de, ro&ccedil;ando-se como reptil,
+e ferindo as m&atilde;os nas asperezas da rocha e nos
+espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar
+outra vez os p&eacute;s em terra, sem acceitar a m&atilde;o que
+Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou
+a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto
+um olhar de triumpho.
+<br />
+
+<br />
+
+Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado
+sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento,
+quasi gelados de susto e de espanto.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto
+meneou a cabe&ccedil;a murmurando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que imprudencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na verdade!&#8213;disse Magdalena, ainda nervosa
+com a impress&atilde;o que este incidente lhe
+caus&aacute;ra&#8213;foi
+uma loucura; uma loucura imperdoavel.
+<br />
+
+<br />
+
+E a perturba&ccedil;&atilde;o era tal, que nem acertou com
+uma phrase de agradecimento, com que pagasse a
+imprudente galanteria, que mais desejava reprehender,
+do que recompensar.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta reserva offendeu Henrique; servi&ccedil;os <a href="#e3">a
+seu
+v&ecirc;r</a> de menor importancia, tinham
+merecido a
+Augusto mais calorosas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Revoltou-o esta ingratid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato,
+n&atilde;o concedendo sequer um olhar &aacute;s faces
+desmaiadas pelo terror, aos labios tr&eacute;mulos e aos
+olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava
+Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto
+e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella
+<span class="pagenum">[170]</span>
+que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desesp&ecirc;ro
+de v&ecirc;r que f&ocirc;ra outra a que inspirava aquellas
+loucuras!
+<br />
+
+<br />
+
+Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer.
+Com a f&ocirc;r&ccedil;a das enxurradas, que se precipitavam
+clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel
+que a levada que corria na raiz do monte tivesse
+engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte
+rustica, que &aacute; vinda j&aacute; tinham encontrado quasi
+submersa.<br />
+
+<br />
+
+Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras,
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou adeante assegurar-me do estado da
+ponte, para no caso de estar j&aacute; coberta, como &eacute;
+provavel, v&ecirc;r se o moleiro nos abre a porta do moinho,
+a fim de passarmos por l&aacute;. V&atilde;o descendo devagar,
+que eu volto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o deixa-nos
+s&oacute;s?&#8213;exclamou Christina,
+assustada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um instante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei se nos atreveremos a dar um passo
+sem a sua indica&ccedil;&atilde;o&#8213;disse Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor est&aacute; passado. Al&eacute;m d'aquella pedra
+j&aacute;
+v&ecirc;em o ribeiro e a
+ponte; o caminho indica-se
+por si.
+<br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie
+de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa
+o devia conduzir ao logar que demandava.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique ia agora na frente; ap&oacute;s, seguia-se Magdalena.
+Christina fechava o cortejo.
+<br />
+
+<br />
+
+O mau humor de Henrique augment&aacute;ra de ponto,
+em consequencia dos receios com que as duas raparigas
+tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
+a direc&ccedil;&atilde;o do rancho.
+<br />
+
+<br />
+
+Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma
+confian&ccedil;a que lhes estava merecendo o auxilio de
+Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia,
+em vez do papel de protector, o de protegido,
+que o humilhava.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[171]</span>
+Obrigado a digerir, como pud&eacute;sse, o seu fundo
+descontentamento,
+Henrique perdera com isso aquella
+volubilidade de conversa&ccedil;&atilde;o que mantivera todo o
+dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca, na presen&ccedil;a de Magdalena, deix&aacute;ra passar
+tanto tempo sem formular um d'esses galanteios
+que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
+nem sempre demasiado affavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena, por seu lado, n&atilde;o se sentia com
+disposi&ccedil;&atilde;o
+para falar. Christina menos.
+<br />
+
+<br />
+
+Este silencio acabou por exasperar Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+Haviam j&aacute; percorrido grande parte do caminho,
+que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas
+turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que
+nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que Henrique desafogou o seu resentimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou dev&eacute;ras arrependido, prima Magdalena,&#8213;disse
+elle com leve ironia&#8213;do meu espontaneo
+movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
+ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos
+os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas
+como d'aquella vez se me figurou que era demasiado
+cauteloso para heroe...
+<br />
+
+<br />
+
+Uma simultanea exclama&ccedil;&atilde;o de Magdalena e de
+Christina n&atilde;o o deixou proseguir.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltando-se para saber a causa, que a motiv&aacute;ra,
+viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade
+para a base do monte.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguindo a direc&ccedil;&atilde;o do olhar d'ellas, Henrique
+reconheceu a causa d'aquelle duplo grito.
+<br />
+
+<br />
+
+Refiramol-o em poucas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar
+se a ponte estava ou n&atilde;o transitavel, surprehendeu-o
+um espectaculo inesperado.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario que, prevendo tempestade e receioso
+dos perigos de que em taes condi&ccedil;&otilde;es a descida
+era acompanhada, se apress&aacute;ra a partir, n&atilde;o
+conseguira
+chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento
+<span class="pagenum">[172]</span>
+da borrasca. O andar vagaroso e precavido
+do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para
+descan&ccedil;ar ou para colher a rara planta montezinha,
+o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de
+occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia,
+foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o
+a meio caminho, e mais difficil de descer
+lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, n&atilde;o
+obstante haver partido antes dos outros, n&atilde;o lhes
+levava muitos passos de avan&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao chegar &aacute; levada, encontrou j&aacute; as pedras do
+tosco passadi&ccedil;o, a que se dava o nome de ponte,
+cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer
+para a passar ainda a p&eacute; enxuto; mas a levada,
+agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento
+para momento; c&ecirc;do j&aacute; n&atilde;o se viam
+signaes
+de ponte. O herbanario parou, embara&ccedil;ado. Acima
+ficavam-lhe os a&ccedil;udes, transformados em impetuosas
+cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes
+rodas espumava a corrente com espantoso
+fragor.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens
+o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam
+de todo a vista das pedras.
+<br />
+
+<br />
+
+Tenteou com o bord&atilde;o o sitio, em que as supp&ocirc;z.
+Encontrou a primeira, pousou um p&eacute; n'esse
+ponto; firmou-se como p&ocirc;de, para resistir &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a
+da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra
+pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro,
+at&eacute; que de repente, ou por esva&iacute;mento de sentidos
+ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o
+equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o
+pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade
+das aguas; reconheceu a urgente necessidade,
+para evitar uma horrivel desgra&ccedil;a, de acudir,
+sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente
+arrastava para os lados do moinho.
+<br />
+
+<br />
+
+Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou,
+<span class="pagenum">[173]</span>
+quasi de um salto, o espa&ccedil;o, que o separava ainda
+do ribeiro, e lan&ccedil;ou-se &aacute; agua.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique
+tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade
+malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se
+revelava o seu amor de ostenta&ccedil;&atilde;o. Imaginava-se
+sempre n'um palco, deante de espectadores que o
+viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel
+de homem perfeito. Fraco perante doen&ccedil;as imaginarias,
+arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria
+vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso
+generoso, que n&atilde;o pud&eacute;sse harmonisar-se
+com a conven&ccedil;&atilde;o, que se chama elegancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram estes os defeitos que Magdalena adivinh&aacute;ra
+n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto era differente.
+<br />
+
+<br />
+
+As suas grandes qualidades guardava-as com
+modestia dos olhos estranhos, para s&oacute;mente as revelar,
+quando pud&eacute;ssem ser uteis.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r cahir a mantilha de Magdalena, n&atilde;o arriscou
+temerariamente a vida para a buscar. Procurava
+com placidez os meios de o fazer, com mais seguran&ccedil;a,
+embora com menos romanticismo; mas, para
+salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente
+nobre e generoso, nada o fazia recuar.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o
+herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando
+emfim com desafogo, respondeu &aacute;s anteriores
+palavras de Henrique, dizendo em suave tom
+de censura:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem v&ecirc; que nem sempre &eacute; cauteloso o nosso
+guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida,
+quando uma raz&atilde;o de humanidade lh'o pede. A
+sua imprudencia de ha pouco... agrade&ccedil;o-lh'a,
+mas... n&atilde;o posso approval-a. Confesse que n&atilde;o
+foi t&atilde;o justificada como esta.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique tinha a raz&atilde;o clara bastante e a consciencia
+justa para v&ecirc;r que, apesar da sua fa&ccedil;anha
+<span class="pagenum">[174]</span>
+cavalheiresca, fic&aacute;ra, d'esta vez ainda, inferior ao
+seu companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Qualquer que f&ocirc;sse o desgosto, que a descoberta
+lhe produzisse, &eacute; certo que teve sobre a
+rebelli&atilde;o
+dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar
+a ir apertar a m&atilde;o a Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo
+esfor&ccedil;o da lucta com a corrente; ainda assim
+abra&ccedil;ou
+tambem Augusto, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o a Deus o haver-me dado esta occasi&atilde;o
+de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que
+desejava levar da terra, quando a deixasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
+<br />
+
+<br />
+
+Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro,
+os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas
+e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
+o moleiro, a quem mandaram chamar para
+dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a
+ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pud&eacute;ssem
+ahi dentro mudar de fato.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto seguiu o herbanario a casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Passada meia hora sa&iacute;am tambem do moinho
+os outros todos, depois de haverem renovado a
+roupa, que a chuva repass&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha
+com muitas exclama&ccedil;&otilde;es e ralhos por
+n&atilde;o
+terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella
+lhes recommend&aacute;ra; estas iras c&ecirc;do se derivaram
+sobre os criados, a quem, entre outros delictos,
+attribuia o de a n&atilde;o haverem avisado de que na
+vespera pass&aacute;ra por alli o caldeireiro ambulante,
+repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico
+infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o,
+se oppuzesse a tal passeio.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Alvapenha, D. Doroth&eacute;a e Maria de Jesus n&atilde;o
+levantaram menor celeuma, ao v&ecirc;rem chegar Henrique.
+Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
+cobertores, emborcaram-o de <em>punch</em> e
+taes m&ecirc;dos
+<span class="pagenum">[175]</span>
+lhe insinuaram, que as apprehens&otilde;es pathologicas
+de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se
+da sua antiga victima.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XI
+</h4>
+
+<br />
+
+Censuravel descuido tem sido o nosso em n&atilde;o
+conduzir o leitor a um dos logares mais importantes
+da aldeia, onde se passam os singelos episodios
+d'esta narra&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Que se diria de um <em>cicerone</em> que, por
+esquecimento
+ou proposito, deixasse de apresentar um viajante,
+recem-chegado a uma cidade, na assembleia,
+club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem
+as principaes personagens d'ella, onde se compendiam
+as grandes quest&otilde;es e interesses locaes,
+as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras,
+os voluveis caprichos que agitam os espiritos,
+onde se commenta o boato de hontem, se d&atilde;o ao
+de hoje mil vers&otilde;es diversas e se adivinha j&aacute; o
+de
+&aacute;manh&atilde;?
+<br />
+
+<br />
+
+Pois no mesmo delicto incorremos n&oacute;s, chegando
+a este undecimo capitulo, sem ter guiado os leitores
+&aacute; venda de Dami&atilde;o Canada, a qual podia dizer-se
+o verdadeiro cora&ccedil;&atilde;o d'aquelle organismo social.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo quanto na terra havia de certa representa&ccedil;&atilde;o
+alli ia falar da coisa publica e tambem da particular;&#8213;da
+particular dos outros mais do que da
+propria, entenda-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza
+ap&oacute;s horas continuadas de chuva e de temporal,
+como que procurou respirar e permittiu que o
+sol, j&aacute; no occaso, levantasse uma ponta do manto
+de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios
+amortecidos &aacute;s cristas das serras fronteiras; aproveitemos
+<span class="pagenum">[176]</span>
+este intervallo de socego para entrarmos
+na taberna.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinham passado dois dias depois do passeio ao
+monte, que descrevemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas teve de condescender com
+uma leve angina, que lhe legaram os rigores
+d'aquella excurs&atilde;o, e ficou em Alvapenha, entretendo-se
+a escrever cartas aos amigos e a scismar
+n'uma imminente desorganisa&ccedil;&atilde;o da larynge, a
+que imaginava conduzirem-o os seus inc&oacute;mmodos
+actuaes.
+<br />
+
+<br />
+
+No Mosteiro nada tambem occorreu, que mere&ccedil;a
+narrar-se ao leitor.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos,
+e vejamos o que dizem os frequentadores do
+estabelecimento de Dami&atilde;o Canada.
+<br />
+
+<br />
+
+Brilhante &eacute; a assembleia alli reunida. Al&eacute;m do
+proprietario, barriguda e rubicunda figura, que, assim
+posta ao p&eacute; das pipas, podia servir de typo para a
+representa&ccedil;&atilde;o de um Sileno, havia varias
+individualidades
+de peso nos destinos de toda a comarca.
+<br />
+
+<br />
+
+D&ecirc;-se primeiro men&ccedil;&atilde;o ao nosso
+j&aacute; conhecido
+Bento Pertunhas, a quem as humanidades n&atilde;o faziam
+soberbo a ponto de recusar-se a entrar em
+communica&ccedil;&atilde;o social com os seus conterraneos.
+<br />
+
+<br />
+
+Observada esta deferencia, mencionemos os mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Um era nem mais nem menos do que o sr. Jo&atilde;ozinho
+das Perdizes, em quem j&aacute; temos ouvido falar
+por mais do que uma vez.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o dicto sr. Jo&atilde;ozinho morgado e proprietario
+em uma das freguezias proximas, chamada de Pinch&otilde;es;
+mas propriedades e morgadia andavam-lhe
+t&atilde;o embara&ccedil;adas em redes de demandas e de
+hypothecas,
+que Deus nos acuda.
+<br />
+
+<br />
+
+Os autos, que diziam respeito &aacute; casa das Perdizes,
+enchiam um cartorio. Gra&ccedil;as, por&eacute;m, ao seu
+genio despreoccupado e folgaz&atilde;o, o sr. Jo&atilde;ozinho
+deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os
+cuidados agricolas aos rendeiros e feitores; os do
+<span class="pagenum">[177]</span>
+futuro, a Deus ou ao diabo; e para si n&atilde;o reservava
+nenhuns.
+<br />
+
+<br />
+
+Proseguia n'aquella vida airada, que j&aacute; lhe era
+necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar
+e fazer trocas de cavallos com os ciganos, e &aacute;s
+vezes para dar e levar sovas monumentaes.&#8213;Nos
+mezes de ca&ccedil;a, a vida do morgado era perfeitamente
+n&oacute;mada: estendia por leguas e leguas as suas
+excurs&otilde;es
+venatorias, contentando-se com qualquer
+cama e comida, de que, de ordinario, participavam
+os c&atilde;es, que o acompanhavam; distrahia-se tambem
+a conquistar os cora&ccedil;&otilde;es femininos da freguezia,
+calando com dinheiro algumas queixas mais
+acerbas e insoffridas de um ou outro pae, marido
+ou irm&atilde;o. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas
+tinha contas em aberto, o que n&atilde;o obstava a
+que entrasse em todas com ares de conquistador e
+expendesse alli as suas opini&otilde;es absolutas, com
+grande exhibi&ccedil;&atilde;o de berros e de punhadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Com todas estas qualidades, era o sr. Jo&atilde;ozinho das
+Perdizes um homem verdadeiramente popular entre
+os da sua freguezia; movia-os no sentido que quizesse.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo por l&aacute; era o sr. Jo&atilde;ozinho; n&atilde;o
+havia func&ccedil;&atilde;o,
+rixa, solemnidade official, para que elle n&atilde;o
+f&ocirc;sse
+consultado. &Eacute; que a superioridade do morgado das
+Perdizes n&atilde;o era d'aquellas que intimidam e acanham
+o povo; ninguem hesitava em falar-lhe e em
+procural-o em casa, porque, falando e vivendo com
+elles, o sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o constrangia ninguem.
+Os
+seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas
+eram outras tantas causas a popularisal-o; justo &eacute;
+por&eacute;m que se diga que algumas boas qualidades
+tambem para isso concorriam. O sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o
+era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com
+dinheiro no bolso, n&atilde;o consentia que pessoa alguma,
+desde o mais rico proprietario at&eacute; o jornaleiro
+mais miseravel, recusasse tomar assento a seu lado.
+N&atilde;o eram poucos os filhos-familias que resgat&aacute;ra
+<span class="pagenum">[178]</span>
+de soldado, sem a menor cau&ccedil;&atilde;o ou interesse,
+chegando
+a ficar empenhado para os livrar; e se algum
+desgra&ccedil;ado se via perseguido pela justi&ccedil;a,
+encontrava,
+f&ocirc;sse qual f&ocirc;sse a enormidade do crime,
+asylo seguro na herdade das Perdizes, que em certas
+&eacute;pocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.
+<br />
+
+<br />
+
+Gra&ccedil;as, pois, a estas e analogas qualidades, era
+o sr. Jo&atilde;ozinho uma verdadeira potencia eleitoral.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis ahi o homem moralmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta
+e cinco annos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas
+melenas em desordem, bigode aparado e
+a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na
+maneira de vestir inculcava os habitos da vida e
+um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar.
+Trazia o collete quasi sempre desapertado e
+com alguns bot&otilde;es de menos de modo que os peitos
+da camisa formavam hernia pela abertura; entre
+as cal&ccedil;as desca&iacute;das e o collete avistava-se o
+c&oacute;z
+das ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar
+a m&atilde;o; ao pesco&ccedil;o trazia um len&ccedil;o de
+seda escarlate,
+negligentemente atado e com longas pontas fluctuantes;
+uma jaqueta de pelles com alamares, cal&ccedil;as
+de fazenda chamada pelle do diabo, botas de
+montar e esporas constituiam o resto do vestuario.
+O cigarro, que quasi sempre fumava at&eacute; &aacute;s
+ultimas,
+crest&aacute;ra-lhe profundamente as pontas dos dedos e
+o canto dos labios. O palito andava-lhe sempre atraz
+da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para
+qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa
+matilha de galgos, podengos e perdigueiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Segunda e n&atilde;o menos importante personalidade
+era a do sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomasia&#8213;o
+Brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um homem de cincoenta annos; bem figurado
+e sisudo, de falar compassado e com seus
+qu&ecirc;s de oraculo, phrases sentenciosas e ares de
+protec&ccedil;&atilde;o
+a todo o mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[179]</span>
+Saira crean&ccedil;a da aldeia e f&ocirc;ra tentar fortuna ao
+Brazil. Por l&aacute; esteve quarenta annos, e voltou o homem
+grave que vemos e rico. Como enriqueceu n&atilde;o
+sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma
+casa no sitio em que nascera, uma casa grande de
+cantaria e azulejo, com tres andares e varandas,
+jardim com estatuas de lou&ccedil;a e alegretes pintados
+de verde e amarello, o qual jardim tinha mais fama
+n'aquellas aldeias vizinhas do que os jardins suspensos
+da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma
+arara, igualmente famosos, e uma botica homoepatica,
+que elle proprio manipulava.
+<br />
+
+<br />
+
+As ambi&ccedil;&otilde;es de Eusebio Seabra limitavam-se a
+vir a ser a primeira personagem de influencia na
+aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos
+na igreja parochial, presenteou com vestidos
+novos todos os santos dos altares, e mandou renovar
+um sino, que havia doze annos tocava a rachado.
+Fez &aacute; sua custa a festa do orago, chegando a
+mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato,
+que ardeu a pouca altura do ch&atilde;o. Apesar, por&eacute;m,
+de todos estes beneficios &aacute; localidade, o conselheiro
+Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto
+vivesse quasi sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe
+sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas.
+Por isso, apesar da apparente amizade com
+que Seabra o acolhia e lisonjeava at&eacute;, conservava
+por elle no fundo uma m&aacute; vontade, um ciume, de
+que eram de receiar, tarde ou c&ecirc;do, explos&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Seabra era t&atilde;o asseiado, quanto o sr. Jo&atilde;ozinho
+das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre
+de suissa irreprehensivelmente talhada em volta
+do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres
+grandes bot&otilde;es de brilhantes; no trajo combinavam-se
+as variegadas c&ocirc;res de uma ave da America;
+e o ouro, distribuido com profus&atilde;o por todos
+os accessorios da sua pessoa, attestava os bons resultados
+dos seus quarenta annos do Brazil. Passeiava
+pela aldeia de chinelos de marroquim verde
+<span class="pagenum">[180]</span>
+ou sapato de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do
+andar, que voltava a casa sem que uma mancha
+ennodoasse a alvura das suas meias de algod&atilde;o fino.
+Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos
+caminhos, calcando-a com bota de polimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'estes dois e do nosso conhecido Z&eacute;
+P'reira,
+que bebia, em silencio, ao p&eacute; do taberneiro, havia
+um padre, coadjuctor da freguezia, dois lavradores
+abastados e j&aacute; de avan&ccedil;ada idade, e outros
+que deixaremos confundidos na massa indistincta
+dos comparsas.
+<br />
+
+<br />
+
+No momento, em que entramos, usava da palavra
+o brazileiro, que estava sentado &aacute; porta da taberna,
+na mais limpa cadeira do estabelecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade&#8213;disse elle&#8213;f&ocirc;mos todos da
+mesma crea&ccedil;&atilde;o. O conselheiro
+Manoel Bernardo
+saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu ir
+para o Brazil. And&aacute;mos ambos na mesma escola,
+que era a do padre Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura.
+Vossemec&ecirc; ha de estar lembrado, sr. Luiz&#8213;accrescentou,
+dirigindo-se com a affabilidade protectora,
+que o caracterisava, a um dos lavradores.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se estou! muito bem. Era na casa em que
+hoje mora o Chico da Luciana.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro
+e aquelle rat&atilde;o do Vicente, herbanario, que
+era j&aacute; rapaz taludo. Lembra-me, como se f&ocirc;sse
+hoje,
+de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro
+da Corredoura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;, hein!&#8213;diziam dois lavradores com
+um sorriso cortez&atilde;o nos labios&#8213;ent&atilde;o com que o
+sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, como um homem. Eu fui levadinho da
+br&eacute;ca. Boa s&oacute;va levei de minha m&atilde;e,
+por causa de
+umas cal&ccedil;as novas que rompi.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&ecirc;des?&#8213;diziam os outros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai tempos, tempos!&#8213;disse, suspirando, o brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem havia de dizer ent&atilde;o ao que v. s.<sup>a</sup>
+e o
+<span class="pagenum">[181]</span>
+conselheiro tinham de chegar!&#8213;notou lisonjeiramente o sr. Bento
+Pertunhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sim&#8213;respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.&#8213;A que
+cheguei
+eu? Comi candeias acc&ecirc;sas pelo Brazil, para arranjar um
+boccado de p&atilde;o para o resto da vida; com isso me contento.
+O mais, sou um pobre diabo que ninguem conhece, um homem ignorante, sem
+principios. Elle &eacute; outra coisa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tanto assim&#8213;insistiu
+Pertunhas&#8213;todos sabem que v. s.<sup>a</sup> se quizesse...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe, meu caro amigo, eu conhe&ccedil;o-me; se tivesseo juizo de
+muitos, que por ahi vejo figurando, ent&atilde;o havia de me
+v&ecirc;r na brecha; porque, n&atilde;o &eacute; por me
+gabar, mas n&atilde;o me tenho por menos do que muitos d'elles.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora pois, n&atilde;o, n&atilde;o&#8213;disseram os
+lavradores, Pertunhas e o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguns que at&eacute; ministros teem sido...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por essa estou eu...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O conselheiro mesmo...&#8213;resmungou o padre, fungando uma pitada
+jesuitica&#8213;sim, aqui para n&oacute;s...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o digo&#8213;continuou o brazileiro, mais
+jesuiticamente
+ainda.&#8213;O conselheiro... vamos... Fa&ccedil;a-se-lhe
+justi&ccedil;a. Eu n&atilde;o quero dizer que elle seja uma
+coisa
+por ahi al&eacute;m... sim... Que diabo tem elle feito a final?...
+Mas... N&atilde;o &eacute; dos peores, n&atilde;o
+&eacute; dos peores. Fa&ccedil;a-se-lhe justi&ccedil;a.
+N&atilde;o &eacute; homem de grandes talentos... isso
+n&atilde;o; nem mesmo de grande fundo. Sim... Devemos confessar
+que esta &eacute; a verdade... Mas... emfim, vamos andando...Cada
+um
+faz o que pode&#8213;concluiu o brazileiro, depois de ter feito
+justi&ccedil;a ao conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No que elle tem andado mal &eacute; em prometter mais do que pode
+fazer. Ha quantos annos nos anda a falar na estrada, e at&eacute;
+hoje ainda nem palmo d'ella?&#8213;opinou Pertunhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o p&atilde;o: diz o
+dictado&#8213;ponderou o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>&#8213;A falar
+verdade!...&#8213;disse um dos lavradores&#8213;com a influencia que elle tem,
+podia...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! palanfrorio&#8213;atalhou o padre&#8213;bem me fio eu na influencia
+do conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eh! eh! eh!&#8213;respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do
+padre,
+e accrescentou com um sorriso velhaco:&#8213;N&atilde;o, elle diz que
+fala com os ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido.
+Emfim... Elle l&aacute; o sabe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para mim &eacute; que elle vem de carrinho...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei&#8213;concluiu com requinte de velhaquez o
+brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu c&aacute;&#8213;disse o sr. Jo&atilde;ozinho, que
+estivera bebendo em silencio, e descarregou um murro na banca, que fez
+tilintar os copos.&#8213;Eu c&aacute; j&aacute; disse; se os taes
+homens das bandeirolas me tornam a passar por as terras, sempre lhes
+me&ccedil;o as costas com um marmeleiro, que l&aacute; tenho, e
+que j&aacute; me serviu para varrer a feira de Santo
+Estev&atilde;o. Uns mariolas!...<br />
+
+<br />
+
+E como para desafogar o p&ecirc;so da sua amabilidade, despediu um
+pontap&eacute; a um podengo, que lhe viera ro&ccedil;ar por as
+pernas, e fel-o sair ganindo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que v&atilde;o principiar outra vez com os trabalhos das
+estradas&#8213;informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr.
+Jo&atilde;ozinho.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!&#8213;resmungou
+este.&#8213;Fa&ccedil;o como d'aquella vez em que eu e a minha gente
+queim&aacute;mos toda a papelada da camara e do escriv&atilde;o
+da fazenda.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora no inverno &eacute; que elles h&atilde;o de
+principiar com os trabalhos. Sempre se fia em boa!&#8213;disse, encolhendo
+os
+hombros, mestre Pertunhas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vossemec&ecirc; &eacute; que est&aacute; a
+ler&#8213;veio-lhe &aacute; m&atilde;o
+obrazileiro.&#8213;Ent&atilde;o
+n&atilde;o sabe que as elei&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o
+em fevereiro?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, &eacute; verdade! n&atilde;o me tinha
+lembrado d'isso!&#8213;exclamou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o sei como ser&aacute; d'esta vez essa <span class="pagenum">[183]</span>historia das
+elei&ccedil;&otilde;es&#8213;acudiu o
+sr. Jo&atilde;ozinho.&#8213;C&aacute;eu e a minha gente ainda
+estamos
+a v&ecirc;r no que param as coisas. Eu j&aacute; n&atilde;o
+estou para ser logrado. At&eacute; agora tenho dado ao conselheiro
+a
+freguezia em p&ecirc;so, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo
+que n&atilde;o pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos
+de
+entrar n'uns ajustes. Se o homem n&atilde;o estiver c&aacute;
+por umas contas, n&atilde;o anda o filho de meu pae.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus!&#8213;disse o padre cura.&#8213;O conselheiro tem artes para o levar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? Est&aacute; enganado. N&atilde;o
+querendo eu?Ent&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o me
+conhece. Em euembirrando, sou como um borrego teimoso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando se fala em estradas, j&aacute; estou a tremer&#8213;disseum dos
+lavradores.&#8213;O que elles veem c&aacute; fazer &eacute;
+cortar-nos os campos, e a final n&atilde;o sei para que servem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o &eacute; assim&#8213;atalhou o brazileiro,
+tomando uns ares cathedraticos, cheios de
+gravidade.&#8213;Vossemec&ecirc; &eacute; ignorante e por isso
+&eacute; que fala d'esse modo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo...&#8213;tartamudeou, intimidado, o lavrador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim: mas n&atilde;o deve metter-se a falar em coisas que
+n&atilde;o entende. As estradas n&atilde;o servem para nada! As
+estradas s&atilde;o meios de communica&ccedil;&atilde;o
+e...
+facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por conseguinte a
+riqueza das na&ccedil;&otilde;es... Porque o trabalho
+representa
+um capital..., sim, senhores, mas... mas um capital...sim... um capital
+morto... quero dizer um capital que n&atilde;o vive... Quero
+dizer... sim... supponhamos: o credito por exemplo... O credito...,
+sim... ahi est&aacute; o credito... Pois que &eacute; o
+credito?... O credito &eacute;... &eacute; o credito... depende
+de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se n&oacute;s
+n&atilde;o tivessemos estradas... Uma
+supposi&ccedil;&atilde;o... Partamos de um principio. A
+produc&ccedil;&atilde;o excede o <span class="pagenum">[184]</span>consumo...
+Quero mesmo que o consumo exceda a produc&ccedil;&atilde;o...
+Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta?
+Est&aacute;
+claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites...
+N&atilde;o havendo estradas... Ahi est&aacute; que se diz por
+ahi que a livre exporta&ccedil;&atilde;o, que tal, que
+sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois n&atilde;o
+&eacute; assim. &Eacute; preciso que se attenda tambem
+&aacute;s condi&ccedil;&otilde;es economicas dos povos.
+Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em termos
+j&aacute; se sabe...Mas... o commercio livre... a livre troca...
+entendamo-nos... &Eacute; preciso clareza de ideias... Quando eu
+digo
+que... Ora supponhamos... supponhamos que n&atilde;o havia
+estradas... Os transportes eram mais difficeis e portanto mais caros...
+E se al&eacute;m d'isso os generos f&ocirc;ssem escassos e...
+Diz
+vossemec&ecirc;, para que servem as estradas? Ora diga-me uma
+coisa,
+sr. Manoel, supponhamos que... os impostos indirectos... n&atilde;o
+precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria
+que me dissesse o que havia de fazer.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Impostos, Deus me livre d'elles!&#8213;murmurouo lavrador, cujos
+instinctos trepidaram &aacute;
+palavra &laquo;impostos&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso tambem n&atilde;o &eacute; assim... Deus me
+livre! N&atilde;o se diz Deus me livre, porque a riqueza...
+a riqueza... sim, a riqueza n&atilde;o est&aacute; na
+terra... isto &eacute;, a riqueza est&aacute; na terra... mas
+&eacute; preciso o capital para a
+explora&ccedil;&atilde;o...
+Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... N&atilde;o... vamos
+c&aacute; por outro lado... Ha um <em>deficit</em>
+n'um or&ccedil;amento... desce o pre&ccedil;o das
+inscrip&ccedil;&otilde;es... Ora bem... Mas... supponhamos que
+ha
+boas estradas, <em>etcoetera</em>... A riqueza tende a
+augmentar... e... e... Emfim l&aacute; que as estradas
+s&atilde;o uteis, isso &eacute; que n&atilde;o tem
+quest&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com
+profunda
+atten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios<span class="pagenum">[185]</span> periodicos politicos,
+conseguira, &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de leitura, fixar
+na
+memoria certas phrases de artigo defundo, e acab&aacute;ra por
+convencer-se de que possuia grandes no&ccedil;&otilde;es de
+sciencia politica. Em occasi&otilde;es como esta dava uma
+sacudidela
+ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do
+interior de um kaleidoscopo, tomavam uma
+disposi&ccedil;&atilde;o tal ou qual, mais ou menos regular, e
+assim lhe saia uma disserta&ccedil;&atilde;o, como essa que
+viram. Em permanente indigest&atilde;o economica vivia este
+portento. A doen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; das mais
+raras
+entre politicos.<br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes abriu desmesurada e
+ruidosamente
+a b&ocirc;ca, depois do discurso do brazileiro, e disse:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu c&aacute; por mim n&atilde;o sei d'essas
+coisas. N&atilde;o se me dava das estradas para poder ir
+&aacute;
+feira de Penafiel com menos trabalho, mas, j&aacute; disse, que
+me n&atilde;o venham mexer na quinta; porque ent&atilde;o
+teem que v&ecirc;r.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; arriscado a isso&#8213;disse o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos, depois n&atilde;o se queixem. Temos a historia da
+papelada outra vez.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura f&oacute;ra,
+depois de tomar &aacute; esquerda pelo Castro e vir direito
+&aacute; Palho&ccedil;a. N&atilde;o tinha cruzes nem
+cunhos.
+Ia-me parte da propriedade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah! ah! Tambem n&atilde;o gosta?
+Diga-me d'isso!&#8213;berrou o sr. Jo&atilde;ozinho.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; n&atilde;o gostar, &eacute; que
+o tra&ccedil;ado era pessimo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei por qu&ecirc;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a expropria&ccedil;&atilde;o da minha quinta
+por
+que pre&ccedil;o n&atilde;o lhes ficava?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elles, para esses casos, l&aacute; teem umas leis a seu
+modo&#8213;notou o padre cura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por onde ha de ir ent&atilde;o a estrada?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O outro tra&ccedil;ado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da
+herdade do capit&atilde;o-m&oacute;r, faz um<span class="pagenum">[186]</span> viaducto nos lameiros,
+atravessa o pinhal do Conego, passa o rio n'uma ponte e...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh com os diabos; o que ahi vae!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tanto como parece; sendo as obras
+bem dirigidas... At&eacute; aos lameiros s&oacute; tem a
+deita rabaixoa casa e o quintal do herbanario.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de
+paix&atilde;o, se tal fazem&#8213;disse, com certa
+commisera&ccedil;&atilde;o, o sr. Jo&atilde;ozinhodas
+Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera
+affei&ccedil;&atilde;o e respeito, n'elle excepcional, desde
+que
+lhe attribuia a cura de um typho que o tivera &aacute;s portas da
+morte, e de que o velho, dizia elle, o salv&aacute;ra, com
+uns cozimentos s&oacute;mente d'elle sabidos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Est&aacute;
+maluco de todo&#8213;redarguiu o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem est&aacute; um bom magico, est&aacute;&#8213;notou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer n&atilde;o, que sabe mais do que todos os medicos&#8213;acudiu o
+sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna.
+Oh que excommungada!<br />
+
+<br />
+
+E principiou a fazer a historia da sua doen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas
+attribuiam-lhe
+mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a final por onde devia ir a estrada&#8213;continuou o
+brazileiro;&#8213;tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso
+n&atilde;o se fala, j&aacute; se sabe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! pois est&aacute; de v&ecirc;r&#8213;concordou o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o conselheiro n&atilde;o se ha de opp&ocirc;r
+&aacute; expropria&ccedil;&atilde;o da casa do herbanario,
+porque pelos modos elles n&atilde;o andam muito correntes&#8213;lembrou
+um lavrador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade; por que seria aquillo?&#8213;perguntou outro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elles em tempo eram muito um do outro; e s&atilde;o
+at&eacute;
+aparentados;&#8213;explicou o brazileiro&#8213;e o <span class="pagenum">[187]</span>velho
+ainda hoje &eacute; tratado com familiaridade pela gente do
+Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle genio exquisito que tem,
+disse algumas verdades ao conselheiro, por occasi&atilde;o de
+umas elei&ccedil;&otilde;es, quando elle p&ocirc;z as
+auctoridades a trabalhar por si, e o velho entendia que as coisas
+n&atilde;o iam bem assim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte
+conselheiros e toda a familia,&#8213;exclamou o sr. Jo&atilde;ozinho,
+batendo outra punhada&#8213;e queira elle, que o tal senhor n&atilde;o
+p&otilde;e mais o p&eacute; nas camaras, mandado c&aacute;
+pela terra.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu g&oacute;sto de os ouvir,&#8213;disse o padre&#8213;falam assim, mas em
+chegando a occasi&atilde;o, v&atilde;o todos votar n'elle como
+carneiros.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois havemos de v&ecirc;r o que ser&aacute;!&#8213;berrou o sr.
+Jo&atilde;ozinho.&#8213;Isso &eacute; consoante c&aacute; umas
+coisas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A falar a verdade&#8213;disse o Pertunhas&#8213;n&atilde;o tem pago muito
+bem ao circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; s&oacute;
+essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa a falar a verdade!&#8213;disse um lavrador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero v&ecirc;r se me h&atilde;o de enterrar a
+mim!&#8213;disse amea&ccedil;adoramente o sr. Jo&atilde;osinho, como
+se esperasse ainda depois da morte, imp&ocirc;r as suas vontades
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de murros e de pragas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas.
+&Eacute; moda e acabou-se. D'antes enterrava-se l&aacute; toda
+a
+gente e n&atilde;o havia mais doen&ccedil;as do que agora&#8213;isto
+dizia o padre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os romanos tinham as suas catacumbas&#8213;ponderou o mestre de
+latinidade,
+for&ccedil;ando as suas reminiscencias romanas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos&#8213;ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo
+discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade
+scientifica.&#8213;O enterrar nas igrejas &eacute; anti-hygienico; porque<span class="pagenum">[188]</span> os chimicos sabem que...
+o
+ar que n&atilde;o &eacute; puro... &eacute; mau para a
+saude
+publica. Ora os cadaveres... em putrefac&ccedil;&atilde;o
+produzem uns vapores que corrompem o ar... Ha uns insectozinhos
+invisiveis que a gente respira... e v&atilde;o para a massa do
+sangue
+e corrompem-a... e o resultado &eacute; a febre... porque a febre
+s&atilde;o os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se
+s&aacute;em, muito que bem; e se n&atilde;o s&aacute;em,
+ficam retidos e azedam o corpo todo.<br />
+
+<br />
+
+A theoria physiologica pathologica foi recebida com
+atten&ccedil;&atilde;o igual &aacute; que merecera
+a economica.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo isso ser&aacute; assim,&#8213;disse o padre&#8213;mas o conselheiro
+faz
+aquillo por instiga&ccedil;&otilde;es
+das lojas ma&ccedil;onicas e dos pedreiros livres.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois elle ser&aacute; tambem?...&#8213;disse um dos
+lavradores, arregalando os olhos assustados.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora que d&uacute;vida! Pois aquella gentinha &eacute; toda da
+sucia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Corja!&#8213;resmungou o sr. Jo&atilde;ozinho.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, que se fili&aacute;ra no Brazil
+na ma&ccedil;onaria, fez um discurso sobre os fins da sociedade,
+que ninguem entendeu; vendo, por&eacute;m, que n&atilde;o
+calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle n&atilde;o ser&aacute;
+ma&ccedil;&atilde;o&#8213;disse
+d'ahi a momentoso padre&#8213;mas &eacute; v&ecirc;r o que elle tem
+defendido nas camaras; queria roubar &aacute;s irmandades e
+&aacute;s freiras os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o
+exemplo do cunhado, que se encheu com a compra do Mosteiro; queria
+acabar
+com o santo sacramento do matrimonio; queria que cada qual seguisse
+a religi&atilde;o que muito bem lhe parecesse. Vejam
+que christ&atilde;o aquelle!<br />
+
+<br />
+
+Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras
+de censura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A falar a verdade, os vinculos...&#8213;murmurou <span class="pagenum">[189]</span>o
+sr. Jo&atilde;ozinho, que por vezes trope&ccedil;&aacute;ra
+nas disposi&ccedil;&otilde;es da antiga lei vincular, ao
+caminhar na estrada da dissipa&ccedil;&atilde;o;
+por&eacute;m, recordando-se de um irm&atilde;o que tinha,
+casado
+e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar &aacute; custa
+de muito trabalho, a ideia da aboli&ccedil;&atilde;o dos
+morgados n&atilde;o lhe sorriu e exclamou com nova punhada:&#8213;Acabem
+l&aacute; com os morgados quando quizerem, que o que eu lhes
+digo &eacute;, que tem de se haver commigo quem quizer tirar-me um
+palmo de terra!<br />
+
+<br />
+
+O padre cura continuou a tratar pouco christ&atilde;mente o
+conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+O pae de Magdalena milit&aacute;ra sempre, como
+j&aacute; diss&eacute;mos, nas fileiras do partido mais
+liberal,
+e por isso era-lhe em geral pouco affei&ccedil;oada a maioria
+do clero, que, entre n&oacute;s, n&atilde;o
+esp&oacute;sa ardentemente aquellas ideias.<br />
+
+<br />
+
+No principio da sua carreira parlamentar, cedendoao impulso do
+enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrol&aacute;ra
+desassombradamente a bandeira do partido progressista e
+pronunci&aacute;ra os mais absolutos artigos d'aquelle credo
+politico; liberdade era ent&atilde;o o seu mote favorito; a
+liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as
+reformas
+consequentes nos codigos, a desamortisa&ccedil;&atilde;o
+e desvincula&ccedil;&atilde;o da propriedade, tudo
+advog&aacute;ra com enthusiasmo, no tempo em que estas palavras
+soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados &aacute; lettra
+de
+outro catecismo.<br />
+
+<br />
+
+Com o tempo arrefeceu, por&eacute;m, esse
+enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o fogo da mocidade. Com quanto liberal
+ainda de convic&ccedil;&atilde;o, ensinou-lhe a politica
+pratica
+a rebu&ccedil;ar em formulas mais ordeiras os seus principios
+doutrinarios, a contemporisar, e at&eacute; quando as
+conveniencias,
+infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos
+de retrocesso e a transigir com o partido opposto.<br />
+
+<br />
+
+Se o fizessem ministro n&atilde;o se arrojaria a transformarem
+projecto de lei nenhuma d'aquellas medidas<span class="pagenum">[190]</span>
+por
+que pugn&aacute;ra nos seus primeiros discursos, e que tantas
+malqueren&ccedil;as lhe acarretaram ent&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; atraz diss&eacute;mos, que o conselheiro
+era actualmente um espirito pouco apaixonado do ideal, respirava a
+atmosphera de desillus&atilde;o e de scepticismo, em que nas
+grandes
+cidades se vive. Era um perfeito homem de c&ocirc;rte; tratava
+cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo d'elles
+merc&ecirc;s e empregos para afilhados; fulminava-os &aacute;s
+vezes da tribuna e depois apertava-lhes a m&atilde;o nos
+corredores das camaras e nas pra&ccedil;as. Se o julgava
+vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases sonoras, uma
+d'aquellas sympathicas divisas de politica avan&ccedil;ada, que no
+principio da sua carreira adopt&aacute;ra comsinceridade; mas
+n&atilde;o tinha j&aacute; aos principios o amor preciso para
+cair, abra&ccedil;ado n'elles, dos degraus do poder, se algum dia
+os
+chegasse a subir.<br />
+
+<br />
+
+Por isso os soldados rasos do seu partido, os politico sem abstracto,
+unicos para quem a politica &eacute; sempre ideal e logica, o
+taxavam de frouxo e tibio; e de gazeta na m&atilde;o havia muito
+que
+lhe dictavam, do obscuro canto do paiz em que viviam, a estrada
+direita,
+de que elle, por&eacute;m, a cada passo se desviava.<br />
+
+<br />
+
+Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por
+os
+seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de m&aacute;
+f&eacute;, a acoimal-o de impio, de republicano e de pedreiro livre.<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro entrou em disserta&ccedil;&atilde;o a respeito
+de todas as medidas politicas a que alludira.<br />
+
+<br />
+
+Segundo o costume, ninguem o entendeu.<br />
+
+<br />
+
+Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um
+tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que f&ocirc;ra
+espreitar &aacute; porta, voltou-se, exclamando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!<br />
+
+<br />
+
+Todos se levantaram pressurosos para correrem &aacute; porta. O que
+mais de m&aacute; vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[191]</span>Dentro em pouco
+todos se descobriam. Parava &aacute; porta o conselheiro, que
+montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um
+pequeno baio de f&oacute;rmas elegantes e olhar vivo.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e
+patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi
+todo o effeito da conversa que descrevemos.<br />
+
+<br />
+
+Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa,
+dispoz-se
+para entrar na venda.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XII</h4>
+
+<br />
+
+O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade at&eacute; se
+sentar nos bancos de pinho do estabelecimento de Dami&atilde;o
+Canada, envernizados j&aacute; pelo uso de muitos annos.<br />
+
+<br />
+
+Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com
+atten&ccedil;&otilde;es e o flagellava com obsequios.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia
+satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e
+conversando com aquella familiaridade, t&atilde;o sabida de
+candidatos a procuradores do povo, nos circulos que
+pretendem representar. At&eacute; chegou a levar aos labios o copo
+de vinho, que um lavrador lhe offereceu.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se lhe percebia por&eacute;m no rosto, ao
+fazer isto, o menor vestigio de artificio, e, ao mesmo tempo,
+mantinha-se
+ainda n'elle t&atilde;o apparente a superioridade intellectual, que
+os seus interlocutores nunca excediam os limites da deferencia. O pae
+de
+Magdalena era um perfeito homem de c&ocirc;rte:
+presen&ccedil;a agradavel, modos insinuantes, palavras
+t&atilde;o astuciosamente<span class="pagenum">[192]</span>lisonjeiras,
+que desvaneciam os proprios que como taes as tinham.<br />
+
+<br />
+
+Alvejavam-lhe j&aacute; algumas c&atilde;s nos cabellos
+e suissas, que usava talhadas &aacute; moda ingleza; principiava a
+predominar-lhe nas f&oacute;rmas certa
+rotundidade caracteristica; mas no esmero e at&eacute; elegancia
+distincta de casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso,
+nos movimentos ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza
+das conversas, havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que
+ninguem se sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que
+n&atilde;o perdera ainda.<br />
+
+<br />
+
+Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e
+n&atilde;o obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se
+que assim f&ocirc;sse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro
+olhar lan&ccedil;ado sobre elle.<br />
+
+<br />
+
+Possuia o dom especial de se encontrar &aacute; vontade em toda a
+parte, desde o mais perfumado gabinete da moda, at&eacute; o menos
+asseiado local de um comicio popular. Nas camaras com graves
+diplomatas, nos caf&eacute;s com rapazes estouvados, na sua aldeia
+com eleitores absurdos, com actores e actrizes nos bastidores, com
+padres nas sacristias, com militares nos quarteis, em toda a parte e
+com
+todos se achava este homem &aacute; vontade, acabando, quasi
+sempre,
+por captar sympathias.<br />
+
+<br />
+
+Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da
+opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortez&atilde;o,
+a
+phrase conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho
+popular, a figura oratoria, a maxima moral, e at&eacute; a praga
+energicamente expressiva; mas, como os espadachins de
+profiss&atilde;o, jogava-as todas com frieza de animo, cada qual na
+occasi&atilde;o opportuna e com perfeita observancia do que o mundo
+chama conveniencias sociaes.<br />
+
+<br />
+
+Muito tinham que fazer com elle os La Bruy&egrave;res,que, a cada
+passo, ahi encontramos no mundo; illudia <span class="pagenum">[193]</span>os
+mais atilados. &Aacute;s vezes parecia abrir-se t&atilde;o do
+intimo, t&atilde;o completamente e
+sem condi&ccedil;&otilde;es nem reservas, havia tal
+unc&ccedil;&atilde;o de sinceridade nas palavras, com que
+falava
+de si, dos seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado
+jesuita sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria;
+outras, falava verdade, mas com taes hesita&ccedil;&otilde;es
+na
+voz, com tal mobilidade no olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua
+crean&ccedil;a experimentaria o despontar da primeira
+d&uacute;vida.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se v&ecirc; que um homem d'estes era um contendor de
+muita f&ocirc;r&ccedil;a, para poder ser combatido por qualquer
+dos influentes locaes; o proprio brazileiro, apesar de toda a sua
+economia politica, ainda nada pud&eacute;ra contra elle; nem
+ous&aacute;ra romper hostilidades com receio de ficar vencido.<br />
+
+<br />
+
+Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do
+Dami&atilde;o Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a
+conversa que precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos.
+Tres ou quatro lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos
+modestamente pedidos com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.<br />
+
+<br />
+
+Deixemol-o n&oacute;s na laboriosa e pouco invejada tarefa de
+manter
+a popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae
+&aacute; porta da venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.<br />
+
+<br />
+
+Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com
+aquelle alvoro&ccedil;o do cora&ccedil;&atilde;o, que
+conhece
+quem j&aacute; foi estudante e se recorda ainda do que
+experimentava
+ao v&ecirc;r de longe despontar o telhado da casa paterna, onde
+vinha gosar as delicias de umas almejadas f&eacute;rias.<br />
+
+<br />
+
+Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma
+agradavel
+figura de crean&ccedil;a, expressiva de intelligencia e de vida.
+Tinha nas fei&ccedil;&otilde;es um mixto da delicadeza de
+Magdalena e da energia varonil, e ao mesmo tempo attrahente
+do conselheiro.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>O cabello louro e
+curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis naturaes, com grande
+vantagem para a espa&ccedil;osa e bem modelada fronte.<br />
+
+<br />
+
+Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do
+Mosteiro estavam todas obscuras, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o das aguas-furtadas, correspondentes aos
+quartos das crean&ccedil;as. Angelo desmontou e cautelosamente se
+dirigiu a p&eacute; para casa.<br />
+
+<br />
+
+Torquato dormia &aacute; porta, como frequentemente lhe
+acontecia.&#8213;Angelo p&ocirc;de assim penetrar sem ser percebido
+at&eacute; o mais intimo da casa, at&eacute; os aposentos onde
+dormiam as crean&ccedil;as, e em cujas janellas avist&aacute;ra
+luz.<br />
+
+<br />
+
+A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe
+no cora&ccedil;&atilde;o uma suave e encantadora alegria.<br />
+
+<br />
+
+O mais novo dos seus primos, crean&ccedil;a de tres annos, estava
+meio n&uacute; e de joelhos sobre o leito com as m&atilde;os
+erguidas e os olhos fitos em um crucifixo que tinha &aacute;
+cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe as palavras da
+ora&ccedil;&atilde;o, que a crean&ccedil;a repetia, cheia
+de
+fervor.<br />
+
+<br />
+
+Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar
+das continuadas advertencias da prima.<br />
+
+<br />
+
+Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para
+beijar a crean&ccedil;a, elle estendeu a cabe&ccedil;a e pousou
+tambem um beijo nas faces da irm&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+Magdalena soltou uma exclama&ccedil;&atilde;o de surpreza e
+cingiu-o nos bra&ccedil;os com effus&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A crean&ccedil;a levantou um brado, que foi o signal de revolta
+dado
+a Marianna e Eduardo, que c&ecirc;do abandonaram os quartos e
+correram a abra&ccedil;ar Angelo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vens s&oacute;?&#8213;perguntou Magdalena ao irm&atilde;o, quando
+uma pergunta lhe foi possivel.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O pae ficou na loja do Canada&#8213;respondeu Angelo.&#8213;Estava em
+sess&atilde;o a assembleia dos notaveis. E como est&aacute;s
+tu,
+minha Lena, tu e Christe e a tia? Como vae toda essa gente?<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[195]</span>&#8213;Anda tu mesmo
+sab&ecirc;l-o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou dizer &aacute; mam&atilde;&#8213;disse Marianna, saindo aos
+saltos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou chamar Christe&#8213;disse Eduardo, imitando-a.<br />
+
+<br />
+
+E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.<br />
+
+<br />
+
+O pequeno que Magdalena deit&aacute;ra, pedia, chorando, para se
+tornar a levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize-me&#8213;continuava no entretanto este para a
+irm&atilde;&#8213;tens-te
+enfastiado muito, aqui s&oacute;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tenho-me divertido at&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&eacute;ras? E que fazes?
+Em que passas o tempo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei? O tempo &eacute; que passa, sem eu dar por isso. Leio
+pouco, passeio muito; trabalho mais.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tens lido?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quasi sempre relido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu sei j&aacute;. O primeiro livro em que pouso a
+m&atilde;o, quando os vejo sobre a mesa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todos os dias.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae bom. Caiu no outro dia &aacute; levada da raiz do monte;
+valeu-lhe o Augusto para o salvar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Doroth&eacute;a?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas;
+conheces?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em
+que
+lhe chamemos primo. Aviso-te d'isso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitada! Achei gra&ccedil;a, ha dias, &aacute; Joanna, que
+com
+muita ingenuidade se me veio queixar de que ella at&eacute; o anjo
+da guarda lhe occupava em servi&ccedil;o proprio. Tu sabes que a
+tia, quando est&aacute; com muito<span class="pagenum">[196]</span>
+somno,
+tem aquelle costume de dizer &aacute;s criadas que a encommendem ao
+anjo da guarda d'ellas. Mas vamos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trouxe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade; e a filha d'elle? A Lindita?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; c&aacute; me ia tardando a pergunta&#8213;notou
+a morgadinha, rindo.&#8213;Essa anda contente, como quem nada tem a
+penalisal-a; nem saudades.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos, Lena; n&atilde;o te perd&ocirc;o a malicia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o dev&eacute;ras esse
+cora&ccedil;&atilde;o
+est&aacute; assim tomado?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te informo do meu cora&ccedil;&atilde;o, que
+o n&atilde;o levo commigo, quando d'aqui vou. C&aacute; me
+fica;
+e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que pergunto; em que
+estado m'o entregas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito doente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? E o teu?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto
+decora&ccedil;&otilde;es s&atilde;o como
+as crean&ccedil;as. As trav&ecirc;ssas tantos cuidados
+d&atilde;o &aacute;s m&atilde;es, que a todos
+os instantes querem saber o que ellas fazem e onde est&atilde;o;
+as socegadas inspiram tal confian&ccedil;a, que nem sequer n'ellas
+se
+pensa. O meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; um modelo
+de serenidade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sitio &eacute; pouco abundante em heroes. O unico d'estas
+immedia&ccedil;&otilde;es, capaz de ferir
+a imagina&ccedil;&atilde;o e commover os affectos de uma
+mulher,
+&eacute; o sr. Jo&atilde;ozinhodas Perdizes; mas esse
+&eacute; um Act&eacute;on insensivel, que...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse Angelo, rindo&#8213;l&aacute; vi
+tambem esse javali na venda do Dami&atilde;o Canada.
+Mas...N&atilde;o sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei
+de dizer umas coisas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim? A respeito de qu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do teu cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[197]</span>&#8213;Que sabes d'elle?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A seu tempo direi.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como te vieram essas presump&ccedil;&otilde;es de
+conhecedor dos cora&ccedil;&otilde;es alheios? N&atilde;o
+tinhas isso, quando d'aqui foste.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes v&ecirc;-se melhor de longe.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os de vista can&ccedil;ada... de muito v&ecirc;r.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; depois falaremos. Vamos l&aacute; ter com a nossa
+gente, que o pae n&atilde;o tarda ahi.<br />
+
+<br />
+
+De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das
+salas
+principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de
+bra&ccedil;os, tinha ao collo Marianna; Christina, a p&eacute;,
+encostava-se-lhe familiarmente ao hombro; a morgadinha, sentada
+em tamborete baixo, apoiava o bra&ccedil;o, em que recostava a
+cabe&ccedil;a, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, D.
+Victoria, sentada no sof&aacute;, servia de travesseiro a um dos
+pequenos que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem
+ficara p&eacute;, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia
+frequentemente rir sua tia e Eduardo, com as historias que lhes contava.<br />
+
+<br />
+
+A conversa c&ecirc;do se generalisou. Era uma d'essas conversas
+intimas, familiares, em que se referem as mais insignificantes
+circumstancias da vida domestica; conversas cujo suave perfume
+s&oacute; em familia se aprecia.<br />
+
+<br />
+
+Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos
+apertados pelos estreitos la&ccedil;os da amizade e do parentesco,
+e
+se v&ecirc; obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias
+da casa, que n&atilde;o &eacute; a sua! &Eacute; uma
+pathetica illus&atilde;o a de certas familias, que imaginam que
+para
+todos &eacute; de igual interesse a narra&ccedil;&atilde;o
+dos successos domesticos, que tanto as deleitam, e com ella entreteem
+o primeiro indifferente que se lhes depara; tudo trazem &aacute;
+luz,
+o dicto agudo da crean&ccedil;a de tres annos, os
+inc&oacute;mmodos que soffreu na
+primeira denti&ccedil;&atilde;o, as espertezas do gato
+favorito,
+as raz&otilde;es ponderosas <span class="pagenum">[198]</span>que
+aconselharam a mudan&ccedil;a de um movel,
+a combina&ccedil;&atilde;o economica que favoravelmente
+modificou o or&ccedil;amento domestico, a reforma nos
+processos culinarios consagrados pelo habito de muitos annos, o exame
+comparativo da conserva de um anno e da do anno antecedente, os
+defeitos
+e qualidades de um criado e mil outras pequenas coisas, que
+&eacute;
+for&ccedil;oso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o
+que
+obriga a esfor&ccedil;os sobrehumanos.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; natural aquella illus&atilde;o; e pathetica a
+dissemos n&oacute;s tambem, porque os que mais
+decora&ccedil;&atilde;o se entrega m&aacute; vida
+domestica,
+s&atilde;o os mais sujeitos a ella. Todos estes episodios futeis e
+pueris os preoccupam e deliciam mais do que as mais estranhas
+peripecias,
+que ainda concebeu a imagina&ccedil;&atilde;o
+de romancista fecundo. E quem se lembra de que &eacute;
+individualissimo esse interesse, inherente &aacute; pessoa
+e n&atilde;o aos factos, &aacute;s causas que
+t&atilde;o curiosos lh'os fazem ser?<br />
+
+<br />
+
+Eu e o leitor, estranhos &aacute; familia do
+Mosteiro, v&ecirc;r-nos-iamos, se f&ocirc;ssemos escutar todo o
+dialogo que se travou na sala, na posi&ccedil;&atilde;o da
+pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses
+relatorios domesticos, a que sobre tudo s&atilde;o t&atilde;o
+inclinadas as m&atilde;es de familia.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa;
+e
+o conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle
+achasse curioso &eacute; porque realmente o era. D'esta vez,
+por&eacute;m, damol-o por suspeito, porque o conselheiro tinha
+cora&ccedil;&atilde;o e,quando esta viscera se
+alvoro&ccedil;a com affectos, as intelligencias mais elevadas teem
+d'estas sympathicas fraquezas.<br />
+
+<br />
+
+O politico, o diplomata reservado, fica f&oacute;ra
+do port&atilde;o da quinta do Mosteiro; alli dentro,
+n'aquelle circulo de affectos, era o pae extremoso, o homem de familia,
+ingenuo, sincero, aberto a todos, porque em todos confiava, contente
+por
+n&atilde;o ter de estudar <span class="pagenum">[199]</span>na
+express&atilde;o dos rostos os pensamentos que seguardam; nas
+palavras o sentido, que n'ellas n&atilde;o vem explicito.<br />
+
+<br />
+
+Era um salutar descan&ccedil;o dos continuados
+esfor&ccedil;os da sua vida de Lisboa; l&aacute; a lucta; aqui
+o
+repouso.<br />
+
+<br />
+
+Por isso ouvia com atten&ccedil;&atilde;o e applaudia
+com vontade as narra&ccedil;&otilde;es da cunhada, de
+Magdalena,
+de Christina e at&eacute; da pequena Marianna.<br />
+
+<br />
+
+E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro
+n&atilde;o poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o
+vertiginoso movimento da sua vida politica.<br />
+
+<br />
+
+Eram-lhe j&aacute; necessidade
+aquella conten&ccedil;&atilde;o, aquelle esfor&ccedil;o de
+espirito, aquellas desconfian&ccedil;as continuas, aquelle jogo de
+astucias, que lhe tomavam em Lisboa todo o tempo.<br />
+
+<br />
+
+Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o
+afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.<br />
+
+<br />
+
+A politica &eacute; uma embriaguez; nos intervallos em que o
+espirito se sente desanuviado dos vapores em que ella o envolve,
+pesam-nos os desacertos a que fomos arrastados; o desgosto do mal feito
+insinua-se-nos no cora&ccedil;&atilde;o; c&ecirc;do,
+por&eacute;m, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da
+consciencia, e de novo nos arrasta.<br />
+
+<br />
+
+O caracter intimo da conversa&ccedil;&atilde;o foi
+levemente modificado por a entrada de D. Doroth&eacute;a e de
+Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram visitaro conselheiro,
+mal
+tiveram noticia da sua chegada.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e
+com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa.
+Frequentavam ambos os principaes c&iacute;rculos da capital e,
+por mais de uma vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em
+conversas e discuss&otilde;es communs.<br />
+
+<br />
+
+Passado algum tempo depois dos cumprimentos,<span class="pagenum">[200]</span>
+o
+ser&atilde;o animou-se de novo, fragmentando-se por&eacute;m a
+conversa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria tomou &aacute; sua parte D. Doroth&eacute;a
+e passou a fazer-lhe amargas queixas a respeito dos criados do
+Mosteiro,
+ao que D. Doroth&eacute;a acudiu com conselhos de
+resigna&ccedil;&atilde;o christ&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente
+fazia
+rir.<br />
+
+<br />
+
+Henrique e o conselheiro, proximos do fog&atilde;o,
+estavam empenhados n'um dialogo muito animado.<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que
+surprehendiam Henrique, que ainda o n&atilde;o tinha observado por
+esta face.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma triste verdade&#8213;dizia por exemplo o conselheiro n'um
+ponto adeantado da conversa, referindo-se a algumas
+considera&ccedil;&otilde;es de Henrique sobre a felicidade
+d'aquella vida do Mosteiro.&#8213;Tenho esta familia que v&ecirc;; todos
+me querem sinceramente aqui, e n&atilde;o sei resistir &aacute;
+fatal necessidade que me arranca de todos estes bra&ccedil;os para
+me
+lan&ccedil;ar ao turbilh&atilde;o da politica e d'isso que se
+chama o mundo! Pois amo dev&eacute;ras a minha Lena, creia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um dever que cumpre. N'estes tempos de m&aacute;
+f&eacute; politica, quem se sente com a coragem de se votar, corpo
+e
+alma, &aacute; defeza despreoccupada dos bons principios...<br />
+
+<br />
+
+Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de
+descren&ccedil;a, meio de melancolia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Defeza despreoccupada? Isso &eacute; quando Deus quer&#8213;respondeu
+elle.&#8213;Olhe, Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a
+cuja
+porta eu deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso
+no
+mundo, vae v&ecirc;r em mim o homem que talvez n&atilde;o
+esperasse e que, j&aacute; lhe digo,
+debalde procurar&aacute; reconhecer um dia, se me observar outra
+vez
+em Lisboa. O que lhe vou dizer n&atilde;o lh'o diria, nem lh'o
+repetirei l&aacute;. &Eacute; verdade que estes ares do campo
+tambem actuar&atilde;o em si para me apreciar e <span class="pagenum">[201]</span>tomar &aacute; boa
+parte a franqueza. L&aacute; n&atilde;o acreditaria n'ella; se
+por acaso n&atilde;o a aproveitasse como arma politica contra mim...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois julga?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o perd&atilde;o, se o offendi com
+isto. N&atilde;o eraesse o meu intento, mas &eacute; pratica
+t&atilde;o geral!... Se um dia f&ocirc;r politico, o que lhe
+n&atilde;o desejo, dir-me-ha.<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, fez uma curta
+pausa na conversa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e
+atrav&eacute;s de tudo. N&atilde;o sei se quiz ser lisonjeiro e
+disse o que n&atilde;o sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo
+o caso, eu, aqui no Mosteiro, acho-me muito &aacute;s ordens da
+minha consciencia, a qual n&atilde;o me deixa calar
+hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem politico,
+a
+que alludiu. Humildemente o confesso; at&eacute; porque, se
+quizesse
+sel-o, arriscar-me-hia a achar-me s&oacute;, n&atilde;o teria
+partido. Porque, qual &eacute; o que v&ecirc; nas
+condi&ccedil;&otilde;es de constancia de opini&otilde;es
+que
+disse? Tenho cren&ccedil;as politicas, &eacute;
+verdade; esp&oacute;so no cora&ccedil;&atilde;o certos
+principios que quizera v&ecirc;r realisados, mas n&atilde;o
+combato por elles a todo o transe, nem por elles affrontaria o
+supplicio; antes, por vezes, entro em
+transac&ccedil;&otilde;es,
+que s&atilde;o a completa nega&ccedil;&atilde;o da divisa
+da
+minha bandeira. E este peccado n&atilde;o sou eu s&oacute; que
+o
+commetto; &eacute; um peccado venial da nossa &eacute;poca. As
+grandes ideias, que definem e estremam os campos na politica,
+havemol-as
+eu e os mais calcado muitas vezes aos p&eacute;s, para sustentar
+umas
+insignificantes f&oacute;rmulas, um interesse mesquinho, um
+capricho
+pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem &eacute;
+isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que
+de f&oacute;ra nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados
+na
+minha carreira publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro
+n'elles? quando me<span class="pagenum">[202]</span>
+persuado
+de que n&atilde;o s&atilde;o de todo desculpaveis? quando...
+porque o n&atilde;o direi? quando sinto remorsos de os ter
+commettido? &Eacute; aqui, &eacute; perante a boa
+f&eacute;,
+a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que me
+considera um homem perfeito, superior, impeccavel. &Eacute; perante
+os generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella
+crean&ccedil;a&#8213;e indicava Angelo com o gesto.&#8213;Parece-me que tenho
+n'elles juizes inflexiveis, eescondo por isso a minha face politica dos
+seus olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo
+&eacute; j&aacute; indulgente, mas que receio elles
+me n&atilde;o perdoassem.<br />
+
+<br />
+
+Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta
+effus&atilde;o de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou a v&ecirc;r que n&atilde;o esperava estas palavras da
+minha b&ocirc;ca; esta confiss&atilde;o de peccador
+contricto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que n&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que quer? Surprehendeu-me aqui como
+cora&ccedil;&atilde;o aberto. J&aacute; agora
+deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual
+&eacute;? V&ecirc; aquella crean&ccedil;a que alli
+est&aacute;? Angelo? &Eacute; uma intelligencia que, de dia
+para
+dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta.
+N&atilde;o
+&eacute; a vaidade paterna que me cega, pode acreditar.
+Conhecendo-o de perto ha de dar-me raz&atilde;o. Mas o que ha
+al&eacute;m d'isso n'elle &eacute; um senso profundamente
+moral,
+raro at&eacute; em idades menos tenras. Pois bem, quando penso
+n'elle por algum tempo, e conjectura que n&atilde;o
+ser&atilde;o
+poucas as vezes em que o fa&ccedil;o?... quando penso n'elle e no
+futuro, sobresalto-me. De um lado, seduz-me abrir-lhe a carreira
+politica, onde ha grandes triumphos a embriagar as intelligencia se
+onde
+presinto que a d'elle ter&aacute; o direito, sen&atilde;o
+o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que na atmosphera
+d'aquellas regi&otilde;es n&atilde;o duram muito estas
+primitivas canduras da alma, t&atilde;o adoraveis<span class="pagenum">[203]</span> e consoladoras, quando me
+lembro de que Angelo ser&aacute; um dia... o que eu j&aacute;
+hoje sou, um pouco desilludido, um pouco sceptico... com franqueza o
+digo, hesito em impellil-o ao redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais
+n&atilde;o valeria dizer-lhe: Angelo, vive obscuro e tranquillo
+n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a ideal pureza da tua alma e
+procura a felicidade nas satisfa&ccedil;&otilde;es
+do cora&ccedil;&atilde;o. A lucta da vida pode embriagar-te,
+filho, mas n&atilde;o te far&aacute; feliz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o admitte possivel que um homem possa atravessar a
+vida politica, sem sacrificar um s&oacute; artigo do seu primitivo
+credo?<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; difficil. Se um dia a f&ocirc;r&ccedil;a
+das circumstancias realisasse, como um phenomeno natural,
+uma revolu&ccedil;&atilde;o completa nas camadas politicas do
+paiz a ponto de trazer &aacute; superficie de uma s&oacute; vez
+uma gera&ccedil;&atilde;o nova, impolluta, inspirada de
+sentimentos generosos e de sinceras cren&ccedil;as,
+ent&atilde;o
+sim, n&atilde;o bastaria o tempo de uma vida para produzir
+n'esses homens reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo
+exemplo
+e vigilancia, a inquina&ccedil;&atilde;o que eu receio. Mas
+lance esses mesmos homens, um a um, a s&oacute;s com os seus
+principios e com os seus esfor&ccedil;os, insulados no meio de uma
+camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um,
+ap&oacute;s uma lucta impotente de momentos, ou
+se retirar&aacute;, fiel aos principios, mas desanimado
+pela inefficacia da sua interven&ccedil;&atilde;o,
+ou ficar&aacute;, cedendo &aacute; corrente e deixando-se
+penetrar do espirito pouco ideal, que rege as massas. S&oacute; um
+d'esses caracteres de excep&ccedil;&atilde;o, que
+s&atilde;o
+raros na historia do mundo, &eacute; que poderia luctar e vencer na
+lucta. E a esperar tanto de Angelo n&atilde;o chega o meu affecto
+paterno.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o fazia t&atilde;o pessimista,
+sr. conselheiro;&#8213;disse Henrique&#8213;conceda-me que julgue em demasia<span class="pagenum">[204]</span> carregadas as
+c&ocirc;res do quadro que me faz. Eu n&atilde;o creio que a
+corrup&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer,
+relaxa&ccedil;&atilde;o, tibieza de f&eacute; politica,
+indifferentismo... em todo o caso ser&aacute; uma doen&ccedil;a
+social. Assim abrandada a f&ocirc;r&ccedil;a da
+express&atilde;o,n&atilde;oponha difficuldades em adoptal-a.
+N&atilde;o se me pode levar a mal o prop&ocirc;l-a, desde que
+principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca esperei encontral-o t&atilde;o desilludido. Eu, que me
+n&atilde;o tenho ainda assim por demasiado crente, creio que quem
+entrar na politica sob a &eacute;gide de uma
+convic&ccedil;&atilde;o profunda, pode...<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrompeu-o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem?
+&Eacute; aquella de que nos d&aacute; uma eloquente mostra a
+historia do alde&atilde;o do Danubio. Sair um homem de um canto
+retirado da provincia, um pouco montanhez, e escudado s&oacute;
+da sua boa f&eacute;, achar-se de repente no meio de um circulo
+luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir ahi
+aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra;
+v&ecirc;r o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder
+resalvar as suas cren&ccedil;as d'aquelles sorrisos; sentir o
+ridiculo a seu lado, e ousar fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada
+passo, as vozes seductoras da moral elegante e facil, que hoje domina,
+e
+conservar-se fiel &aacute; austera e rude moral que lhe falava
+entre
+o rumorejar das folhas da sua aldeia nas longas horas de vigilia e de
+estudo, que l&aacute; teve; cair embora, mas cair fiel &aacute;
+consciencia, como um leal cavalleiro da idade m&eacute;dia
+ca&iacute;a pela dama de quem trazia a divisa: &eacute; uma
+especie de lucta, para que n&atilde;o abundam lidadores, e nem
+sempre se deve lan&ccedil;ar o lab&eacute;o de traidores aos
+que
+mentem &aacute; sua antiga profiss&atilde;o de f&eacute;. A
+maioria cede com boas inten&ccedil;&otilde;es. O perigo
+est&aacute; em chegar a persuadir-se de que as suas
+convic&ccedil;&otilde;es eram sonhos, em perder o<span class="pagenum">[205]</span>amor &aacute;s
+utopias. Eu confesso que s&oacute; quando aqui estou &eacute;
+que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro tempo lhes tive.<br />
+
+<br />
+
+N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um
+dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do
+conselheiro, e t&atilde;o visto em demandas e subtilezas de
+processos, como o mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e
+officio, levava a sua paix&atilde;o pela arte a ponto de comprar as
+demandas dos outros, s&oacute; por gosto de as tratar; especie
+vulgar no Minho, onde uma legisla&ccedil;&atilde;o
+especialissima, reguladorada propriedade rural, fomenta estas
+disposi&ccedil;&otilde;es no espirito dos camponios, das quaes
+os
+juizes s&atilde;o as miserandas victimas.<br />
+
+<br />
+
+Depois de grande exhibi&ccedil;&atilde;o de cortezias, para
+a direita e para a esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o
+fez sentar ao seu lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e
+de amizade.<br />
+
+<br />
+
+O homem que t&atilde;o judiciosa
+disserta&ccedil;&atilde;o acabava de fazer sobre a politica
+abstracta, sentiu, na presen&ccedil;ado recem-chegado que de novo o
+abandonava o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle
+politica
+pratica, sob a fei&ccedil;&atilde;o mais mexeriqueira que ella
+pode revestir.<br />
+
+<br />
+
+Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por
+f&ocirc;r&ccedil;a ou vontade dos representantes.<br />
+
+<br />
+
+Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao p&eacute; das
+senhoras, no grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.<br />
+
+<br />
+
+Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores;
+reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve
+ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de
+Christina.<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria e D. Doroth&eacute;a entremetteram-se, dentro em pouco
+na conversa, e desviando-lhe o curso,<span class="pagenum">[206]</span>
+fizeram-a
+cair sobre o assumpto das proximas consoadas.<br />
+
+<br />
+
+Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o
+Tapadas:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso
+&eacute; que eu n&atilde;o transijo. Ninguem &eacute; mais
+condescendente do que eu, menos no que pode arriscar a vida de muitos e
+entre essas as dos que me pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes
+dias
+deve chegar uma portaria, mandando expressamente cumprir a lei.
+Consegui
+isso do governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo,
+levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso,
+gra&ccedil;as a um preconceito tolo, &aacute; m&aacute;
+f&eacute; de alguns padres, &aacute; frouxid&atilde;o das
+auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se
+enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos
+d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da
+igreja onde a extrema devo&ccedil;&atilde;o d'este povo
+accumula
+em certos dias, durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de
+fieis. Portanto, com isso n&atilde;o transijo. Hei de acabar com o
+abuso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... mas agora na occasi&atilde;o
+das elei&ccedil;&otilde;es... sr. conselheiro, n&atilde;o
+sei
+se faz bem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para compensa&ccedil;&atilde;o trataremos de apressar
+o principio das estradas; tambem o pude conseguir.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inda assim... Receio alguns motins.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Reprimem-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor &eacute; que ha de haver quem lance m&atilde;o d'essa
+arma contra n&oacute;s.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! n&atilde;o falta quem. Basta o missionario, que
+j&aacute;
+pr&eacute;gou contra isso.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho m&ecirc;do. Quando muito, algum motimzito
+sem
+consequencia. Leve-os por bem. E se f&ocirc;r preciso fale ao
+ouvido
+d'esse tal missionario...O homem que quer? Provavelmente alguma
+abbadia? algum canonicato? &Eacute; preciso v&ecirc;r isso.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[207]</span>
+&#8213;Elle diz que
+n&atilde;o quer nada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei, todos dizem o mesmo&#8213;disse o conselheiro,com a sua
+descren&ccedil;a de homem politico.<br />
+
+<br />
+
+Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto aopini&atilde;o publica
+era, por toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo
+n&atilde;o estavade todo limpo do preconceito geral, mas a
+sua affei&ccedil;&atilde;o ao conselheiro obrigava-o a digerir
+a
+disposi&ccedil;&atilde;o legal, conforme podia.<br />
+
+<br />
+
+Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem em m&aacute; occasi&atilde;o a medida, vem;
+&eacute; arrojadapara &eacute;pocas eleitoraes; se houvesse um
+chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso n&atilde;o
+transijo.<br />
+
+<br />
+
+Eram dez horas quando se levantou a sess&atilde;o, e Henrique
+voltou
+com a tia para Alvapenha.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XIII
+</h4>
+
+<br />
+
+Ao outro dia a impaciencia de Angelo n&atilde;o lhe
+permittiu longa demora no leito. Tardava-lhe o v&ecirc;r
+todos aquelles sitios, t&atilde;o seus conhecidos; arvores
+que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos,
+e quebradas de montes. A custo o puderam
+reter para o almo&ccedil;o; resignou-se por&eacute;m a
+n&atilde;o ultrapassar,
+at&eacute; ent&atilde;o, os muros da quinta. Logo
+por&eacute;m
+que sorveu &aacute; pressa o ultimo golo de ch&aacute;, partiu,
+veloz como uma lebre, sem nem sequer dar
+ouvidos &aacute; enfiada de recommenda&ccedil;&otilde;es de
+sua tia
+D. Victoria, que teimava em o querer prevenir, com
+s&oacute;cos, gab&atilde;o e guarda-chuva, de uma hypothetica
+mudan&ccedil;a de tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava
+ligada uma recorda&ccedil;&atilde;o e uma saudade;
+<span class="pagenum">[208]</span>
+mas seguia sempre, como quem n&atilde;o errava ao
+acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio
+por um intento, que tinha pressa de realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessou grande parte da aldeia, cortejado,
+cumprimentado e festejado por quantos encontrava
+pelos caminhos, ou &aacute;s portas e janellas das casas,
+nos campos e nos ribeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou emfim &aacute; casa, onde j&aacute; dissemos morar o
+recoveiro Cancella e a sua filha Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+Era evidentemente aquelle o termo proposto por
+Angelo ao passeio matinal, porque retardou o passo
+&aacute; medida que se approximava, e parou &aacute; porta da
+casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Achou-a fechada, mas n&atilde;o lhe causou isso
+embara&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Como quem estava habituado a vencer estes estorvos,
+sondou resolutamente o muro do quintal,
+construido de pedras soltas, e dispoz-se &aacute; escalada.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a agilidade e destreza proprias de quem
+passou na aldeia os primeiros annos da vida, o irm&atilde;o
+de Magdalena trepou sem vacillar at&eacute; o alto do
+muro, e n'um momento pousou os p&eacute;s no ch&atilde;o do
+quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor
+com precau&ccedil;&atilde;o e, com mais
+precau&ccedil;&atilde;o ainda, se
+dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era
+o logar de recreio do pequeno horto.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi motivo d'estas precau&ccedil;&otilde;es o ter j&aacute;
+avistado,
+por entre os troncos e a rama baixa das laranjeiras,
+um vulto que se lhe figurou conhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim se foi approximando sem que o presentissem
+e, occulto por detraz de uma sebe de roseiras
+silvestres, poz-se &aacute; espreita.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira
+velha, que mezes antes havia sido derrubada, a filha
+do Cancella e afilhada da familia Z&eacute; P'reira, tinha
+todas as faculdades applicadas &aacute;
+decifra&ccedil;&atilde;o dos
+hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto,
+<span class="pagenum">[209]</span>
+que segurava nas m&atilde;os, e lia a meia voz.
+De quando em quando interrompia a leitura e, erguendo
+a cabe&ccedil;a para o c&eacute;o, parecia repetir o que
+lera, como se pretendesse decoral-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo applicou mais o ouvido, a v&ecirc;r se alguma
+das palavras, que ella declamava, lhe revelava a
+natureza do manuscripto.
+<br />
+
+<br />
+
+De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais
+audivel e elle escutou a seguinte quadra:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Que lamentavel tragedia,<br />
+
+Que os meus olhos tristes viram!<br />
+
+E publicam minhas vozes<br />
+
+Aquelles que n&atilde;o ouviram!
+<br />
+
+<br />
+
+E principalmente o rei,<br />
+
+Que se chama o rei tyranno,<br />
+
+N'esta regi&atilde;o remota<br />
+
+Do Egypto dilatado.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabe&ccedil;a
+e repetiu:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Que lamentavel tragedia<br />
+
+Que meus olhos tristes viram...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente,
+e com precau&ccedil;&atilde;o, veio collocar-se por detraz
+d'ella, sem que f&ocirc;sse presentido ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+T&atilde;o perto chegou, que, por cima do hombro de
+Ermelinda podia j&aacute; ler as quadras que ella estava
+decorando:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Tenho mil linguas, mil b&ocirc;cas...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+ia Ermelinda continuar a ler, quando uma
+respira&ccedil;&atilde;o
+mais profunda de Angelo a fez desviar a cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de
+sobresalto; depois sorriu e instinctivamente procurou
+esconder no bolso do avental o papel que lia.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo segurou-lhe a m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+&#8213;Que estavas a ler, Linda?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o deixo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o deixas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para n&atilde;o ser curioso. Que modos s&atilde;o esses de
+andar a escutar a gente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, sim; mas deixa-me v&ecirc;r os versos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o s&atilde;o versos. Quem lhe disse que eram versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o ouvi? Que era isso de tyranno e de
+Egypto, que dizias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha de ser?&#8213;disse a final
+Ermelinda, dando-lhe
+o papel.&#8213;S&atilde;o os versos do auto dos Reis.
+Sabe agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do auto dos Reis? Ai, sim; est&aacute; a chegar o
+dia! Mas que tens tu com o auto dos Reis?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que este anno meu pae quer que eu seja a
+Fama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E j&aacute;
+sabes os versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava a decoral-os.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&#8213;Tenho mil linguas, mil b&ocirc;cas...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+dizia Angelo, lendo no principio.&#8213;O que &eacute; pena &eacute;
+p&ocirc;r
+uma chochice d'estas na b&ocirc;ca de uma Fama como tu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; a dizer? Ent&atilde;o os versos
+n&atilde;o s&atilde;o bonitos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! pois n&atilde;o s&atilde;o!&#8213;exclamou Angelo,
+gracejando.&#8213;S&atilde;o
+uma perfei&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os
+com accentua&ccedil;&atilde;o e emphase comicamente
+exaggeradas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora ouve l&aacute;:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Sabei que aquelle Herodes,<br />
+
+Lobo cruel carniceiro,<br />
+
+Tremendo de inveja pura<br />
+
+Lhe venham tirar o reino...
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[211]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o que ha que dizer a isto?
+<br />
+
+<br />
+
+E proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Feria raios de fogo<br />
+
+De seus olhos com mudan&ccedil;a;<br />
+
+E s&oacute; pretende fazer<br />
+
+Alvo da sua vingan&ccedil;a.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &eacute; claro e sublime!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lendo assim, pud&eacute;ra!&#8213;disse Ermelinda, rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que advirta o leitor que estas quadras
+e auto, a que nos estamos referindo, n&atilde;o s&atilde;o obra
+da nossa imagina&ccedil;&atilde;o. Por ahi corre manuscripto o
+auto, mais ou menos extravagantemente orthographado,
+segundo o systema ou o capricho do copista.
+Em quasi todas as aldeias dos arredores do
+Porto podem v&ecirc;r em cada anno representado este
+ou outro analogo, com applauso e gloria da arte.
+&Aacute;s m&atilde;os nos veio uma d'essas c&oacute;pias,
+&aacute; qual, menos
+na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo era talvez em demasia severo na aprecia&ccedil;&atilde;o
+critica sobre o merecimento litterario da obra,
+ao chamar-lhe uma chochice. &Eacute; raro que a musa
+popular n&atilde;o tenha, apesar da sua rudeza, alguma
+inspira&ccedil;&atilde;o. N'este mesmo auto, se encontram
+vestigios
+d'ella. Mas n&atilde;o &eacute; nossa miss&atilde;o
+apreciar as
+opini&otilde;es dos actores que pomos em scena; t&atilde;o
+s&oacute;mente
+as registamos, sem nos responsabilisarmos
+por nenhuma.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo redarguiu &aacute; reflex&atilde;o de Ermelinda:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; para que n&atilde;o digas que &eacute; da maneira
+de ler, que elles parecem ch&ocirc;chos, repara;
+vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora escuta.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Que quantos at&eacute; dois annos<br />
+
+Em Belem f&ocirc;ssem nascidos,<br />
+
+E toda a sua comarca<br />
+
+Matassem a ferro frio
+</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+<div class="poetry3 tinyl">Sem
+excep&ccedil;&atilde;o a pessoa<br />
+
+Que nos districtos se achasse,<br />
+
+Entendendo d'esta sorte<br />
+
+Que n&oacute;s lhe n&atilde;o escapassemos.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem que semsaboria!
+<br />
+
+<br />
+
+Esta divis&atilde;o administrativa e judicial, em districtos
+e comarcas, que o auctor fez na Jud&eacute;a e que
+tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas liberdades
+shakspeareanas, que se devem perdoar
+aos genios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o foi assim?&#8213;perguntou Ermelinda, que
+n&atilde;o percebia ainda o motivo dos reparos de Angelo.&#8213;Pois
+Herodes mandou matar todas as crean&ccedil;as
+da Jud&eacute;a; ent&atilde;o n&atilde;o mandou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mandou, mandou; mas a Fama &eacute; que devia
+contar isso melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Melhor?! Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; bonito esse
+verso?
+<br />
+
+<br />
+
+E Ermelinda, tirando o manuscripto das m&atilde;os de
+Angelo, leu a seguinte quadra:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Para livrarem seus filhos<br />
+
+Da morte dos innocentes,<br />
+
+Dos bra&ccedil;os faziam cruzes<br />
+
+Aquellas m&atilde;es impacientes.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam
+a belleza, talvez um pouco rude, do tocante
+quadro, que estes versos exprimem.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta pequena contenda litteraria entre duas crean&ccedil;as
+podia dar margem a profundas reflex&otilde;es a
+quem para ellas estivesse disposto.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo estava no principio de uma educa&ccedil;&atilde;o
+esmerada.
+Principi&aacute;ra j&aacute; a desenvolver-se n'elle a
+intelligencia,
+e a acordar os instinctos artisticos que estremeciam
+j&aacute; sob as primeiras seduc&ccedil;&otilde;es da
+f&oacute;rma.
+N'estas &eacute;pocas criticas, em que esses segredos se
+revelam, &eacute; tal o encanto em que elles nos trazem
+que exclusivamente nos votamos ao novo culto,
+com a fanatica intolerancia. Onde as lou&ccedil;anias do
+estylo, os primores e a sonora harmonia do metro,
+<span class="pagenum">[213]</span>
+e o brilhantismo das imagens nos n&atilde;o afagam os
+sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos
+assim na sombra muita belleza real, &aacute;s vezes occulta
+sob a grosseira revestidura da poesia ou narrativa
+popular.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario que passe o enthusiasmo, a violencia
+da paix&atilde;o nascente, que venha a frieza de animo
+necessaria &aacute; imparcialidade do juizo, para que nos
+n&atilde;o cause repuls&atilde;o a aspereza, e grosseria
+at&eacute;, da
+f&oacute;rma e consigamos apreciar o bello que por ventura
+n'ella se envolva.
+<br />
+
+<br />
+
+D&aacute;-se com a belleza da ideia e da f&oacute;rma de
+qualquer
+obra litteraria, o que se d&aacute; com a belleza moral
+e a belleza physica de uma mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+Ambas s&atilde;o feitas para nos commoverem e dominarem.
+Mas, quando o assomar de um sentir novo
+come&ccedil;a a alvoro&ccedil;ar o sangue do adolescente,
+quando
+f&oacute;rmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe
+os sonhos de suas noites febris, a paix&atilde;o da
+f&oacute;rma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma
+modela&ccedil;&atilde;o
+perfeita, um delineamento gracioso poder&aacute;
+decidir da sua vida inteira, e na fascina&ccedil;&atilde;o que
+o
+cega, nunca ver&aacute; a formosura da alma, que se abriga
+n'uma pouco feliz encarna&ccedil;&atilde;o. &Eacute; que
+para apreciar
+a belleza moral, para a v&ecirc;r transparecer, atrav&eacute;s
+do
+involucro exterior &eacute; preciso deixar passar a vertigem
+dos primeiros momentos, ou n&atilde;o a ter ainda
+experimentado.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso na infancia e nas idades viris &eacute; que
+melhor se apreciam essas fealdades, que escondem
+um cora&ccedil;&atilde;o angelico. A adolescencia &eacute;
+impiamente
+cruel para com ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Por uma lei analoga &eacute; o povo, o simile da
+crean&ccedil;a,
+porque n&atilde;o tem os sentidos educados para as
+mais subtis bellezas da f&oacute;rma, e &eacute; o homem a quem
+ella j&aacute; n&atilde;o fascina, embora ainda e sempre o
+deleite,
+como poderosissimo elemento de belleza litteraria,&#8213;s&atilde;o
+estes os leitores que mais aptos est&atilde;o
+para avaliarem uma ou outra inspira&ccedil;&atilde;o que, entre
+<span class="pagenum">[214]</span>
+muitos desvarios, tem a humilde musa que visita
+a cabana do lavrador ou a officina do artista.
+<br />
+
+<br />
+
+Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo n&atilde;o perdoou
+ao auto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes que mais? N&atilde;o decores isso&#8213;disse-lhe
+elle resolutamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae quer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; que quer teu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer que eu entre no auto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E has de entrar. Quem te diz que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quer que seja a Fama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E has de ser a Fama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o hei de falar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Has de falar. Tinha que v&ecirc;r uma Fama que
+n&atilde;o falasse. Para que lhe serviriam as cem b&ocirc;cas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o; &eacute; que n&atilde;o &eacute;
+for&ccedil;oso que digas o que
+ahi est&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que hei de eu dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir
+comprehendel-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, proseguiu Angelo.&#8213;D'aqui at&eacute; chegar
+o dia do auto vae muito tempo. Eu te darei outros
+versos para estudares, em logar d'esses.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E onde os tem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu os procurarei. N&atilde;o digas tu nada. Basta
+que no dia recites, em vez d'esses, os que eu te
+der!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que dir&aacute; meu pae e o sr. Pertunhas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mestre de latim? Pois que tem elle com o
+auto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; quem ensina como a gente ha de dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda
+para a occasi&atilde;o os versos que eu te arranjar. At&eacute;
+ha de ter gra&ccedil;a v&ecirc;r a cara com que elles
+ficar&atilde;o
+todos, quando lhes sair uma coisa bem differente
+do que esperam.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[215]</span>
+&#8213;Mas... diga: onde &eacute; que vae buscar esses
+versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sairei da aldeia para isso. N'uma visita
+que d'aqui vou fazer, conto obtel-os. Agora falemos
+de outra coisa. Que &eacute; de teu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha,
+d'alli defronte, est&aacute; para a igreja e meu padrinho
+nas hortas. E eu vou tratar do jantar de
+meu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois vae, que eu fa&ccedil;o-te companhia.
+<br />
+
+<br />
+
+E Angelo seguiu-a &aacute; cozinha, e ahi, ella sentada
+na soleira da porta a escolher hortali&ccedil;a, elle a dar
+de comer aos coelhos e &aacute;s gallinhas, se entretiveram
+a conversar.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe
+enredos de dramas que o tinham commovido;
+typos e situa&ccedil;&otilde;es de romances, que se lhe haviam
+gravado na memoria; inven&ccedil;&otilde;es da arte moderna,
+versos, anecdotas, contos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se,
+para sair.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde &eacute; que vae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou visitar Augusto, que deve estar agora em
+casa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda o n&atilde;o viu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda n&atilde;o. A minha primeira visita foi esta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o v&aacute;, que elle deve estar morto por o
+v&ecirc;r.
+Ah!... j&aacute; sei a pessoa a quem vae pedir os versos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem te disse que Augusto os fazia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vi-o estar a escrever na parede da capella
+da Senhora da Saude de uma vez que eu ia levar
+o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar
+para aquelles sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E leste-os?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, que n&atilde;o quiz que elle me visse. Mas que
+havia elle de escrever na capella? Ent&atilde;o n&atilde;o
+adivinhei?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[216]</span>
+&#8213;N&atilde;o sei. Adeus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E chamavas-me curioso!
+<br />
+
+<br />
+
+E Angelo saiu apressadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Momentos depois estava com Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa entre ambos teve toda a intimidade
+da de dois affectuosos amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo fez a narra&ccedil;&atilde;o dos episodios da sua vida
+de collegio; das difficuldades e das bellezas dos
+seus estudos n'aquelle anno. Augusto, que da aldeia
+com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o
+sobre algumas d&uacute;vidas que tinha, e esclarecia &aacute;s
+vezes tambem, gra&ccedil;as &aacute; sua poderosa
+penetra&ccedil;&atilde;o
+e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia
+deixado no espirito do seu antigo discipulo.
+<br />
+
+<br />
+
+A geographia e a historia, que eram as disciplinas
+estudadas n'aquelle anno por Angelo, deram
+assumpto a grande parte d'este dialogo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto inclin&aacute;ra-se aos estudos historicos,
+inclina&ccedil;&atilde;o
+em que o herbanario o entretinha com frequentes
+presentes de livros d'aquelle genero.
+<br />
+
+<br />
+
+Em exame de livros novos, referencias a outros
+lidos, e leituras de alguns mais apreciados, passaram
+os dois grande parte da manh&atilde;, at&eacute; que por
+fim Angelo disse a Augusto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe que est&aacute; para breve o dia dos Reis?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja;
+aquelle auto em que o Herodes faz tremer
+meio mundo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei&#8213;respondeu Augusto, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este anno teremos a Linda a fazer de Fama.
+Fama bonita, por certo; mas se soubesse os versos
+que lhe deram para recitar!
+<br />
+
+<br />
+
+E Angelo reproduziu, como p&ocirc;de, as quadras do
+monologo da Fama no auto dos Reis.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[217]</span>
+De quando em quando passava um sorriso pelos
+labios de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; conhecia isso. &Eacute; o costume&#8213;disse elle
+no fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o lhe parece que de uma Fama como
+aquella, se devia esperar melhor do que isto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o que quer que eu lhe fa&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outros versos para o logar d'estes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outros!... Eu?...&#8213;perguntou Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lembran&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me venha negar que os faz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer que os leio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em
+recusar, diga-me ent&atilde;o quem &eacute; que os escreveu na
+parede da capella da Senhora da Saude, para eu
+me dirigir a elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o houve quem escrevesse versos na parede
+da capella?&#8213;perguntou Augusto, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o que eu visse; mas j&aacute; duas pessoas m'o
+affirmaram, e as suspeitas de ambas reca&iacute;ram no
+mesmo homem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem foram essas pessoas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A outra foi Lena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Le... A sr.<sup>a</sup> D. Magdalena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, minha irm&atilde;. E estranhou, com
+raz&atilde;o,
+que eu o n&atilde;o soubesse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como o soube ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto calou-se como absorvido por um pensamento,
+que todo o preoccupava.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo continuou falando, sem que f&ocirc;sse escutado;
+a final concluiu, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o quer falar ao poeta da Ermida para que
+me d&ecirc; o que lhe pe&ccedil;o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[218]</span>
+&#8213;Poesia n&atilde;o lhe pode elle dar, agora se... alguns
+versos o satisfazem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu
+a procurarei n'elles, at&eacute; a achar. Desde j&aacute; lh'os
+agrade&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ambos&#8213;respondeu Angelo, rindo.&#8213;E
+agora diga-me, Augusto: Ainda est&aacute; resolvido a
+viver aqui sempre enterrado? N&atilde;o pensa em mudar
+de vida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhuma outra me namora mais; o destino
+que a bondade da morgada me offerecia... n&atilde;o
+tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso
+do crepe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas
+o Augusto n&atilde;o ter&aacute; amigos que ajudem a
+seguir
+outros destinos menos obscuros do que este e menos
+pesados do que o que o legado lhe impunha?
+Meu pae j&aacute; ...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer? N&atilde;o me posso vencer at&eacute; pedir ou
+acceitar de outrem auxilios, quando Deus m'os n&atilde;o
+tem recusado ainda; nem sei at&eacute; se esses destinos,
+que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso.
+Ha indoles que nasceram affei&ccedil;oadas para a obscuridade.
+Incommoda-as a demasiada luz. Umas
+plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi
+em qualquer canto escuso e obscuro, e l&aacute; mesmo
+d&atilde;o fl&ocirc;r. Porque &eacute; isto n&atilde;o
+sei,
+mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei eu&#8213;disse uma voz da parte de f&oacute;ra da
+janella, junto da qual se pass&aacute;ra o dialogo...
+<br />
+
+<br />
+
+Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario
+desenhava-se no v&atilde;o da janella, como um
+retrato de velho n'um caixilho de galeria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! o tio Vicente!&#8213;exclamou Angelo, correndo-lhe
+ao encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario encostou-se, ainda de f&oacute;ra, ao peitoril
+da janella, ficando assim com meio corpo para
+dentro da sala.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o nosso doutor&#8213;disse elle, sorrindo, a
+<span class="pagenum">[219]</span>
+Angelo.&#8213;Por emquanto ainda
+esse cora&ccedil;&atilde;ozito
+est&aacute; como era. N&atilde;o esqueceu os seus amigos da
+aldeia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; como sempre estar&aacute;&#8213;respondeu Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre!&#8213;repetiu o velho.&#8213;Sempre e nunca
+s&atilde;o duas palavras de terrivel
+significa&ccedil;&atilde;o... Mas
+emfim... de bom metal &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o,
+assim o n&atilde;o
+enferrugem os ares da cidade, como ao de...
+como ao de tantos...
+<br />
+
+<br />
+
+E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com que dizias tu que n&atilde;o sabes porque algumas
+plantas vivem de pouca luz e de pouco ar, ahi
+em qualquer buraco do muro? &Eacute; porque vivem
+muito pelas raizes essas. As plantas vivem do ar
+pelas folhas e vivem da terra pelas raizes. L&aacute; diz
+aquelle livro da <em>Historia Natural</em>
+que eu tenho.
+Umas prendem-se pouco ao ch&atilde;o; precisam, pois,
+de se abrirem muito ao ar para poderem viver; outras
+por&eacute;m, profundam tanto a terra, com tantas raizes se
+seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e n&atilde;o
+desdobram muitas folhas, nem crescem em grandes
+ramos para o ar. Como umas e como outras
+ha homens no mundo. Tu &eacute;s dos que deixam ganhar
+raizes ao cora&ccedil;&atilde;o e d'ellas vivem. Que te importa
+o mais? essas grandezas que os outros procuram?
+Mas &eacute; preciso cautela, rapaz! Ha
+cora&ccedil;&otilde;es
+como a hera, que onde quer que se encosta, prende-se
+com raizes. Quem &eacute; assim deve dirigir com
+prudencia as suas inclina&ccedil;&otilde;es. Se para mau lado
+dobra, se se encosta a arvore de pre&ccedil;o... mal
+d'elle! que o separar&atilde;o com f&ocirc;r&ccedil;a,
+fazendo-lhe estalar
+todas as raizes, que o prendiam.
+<br />
+
+<br />
+
+As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas
+pelo herbanario, parecia terem um sentido para Augusto,
+que visivelmente se perturbou ao ouvil-as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; ahi a dizer, tio Vicente!&#8213;disse Augusto,
+sem ousar fitar o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+&#8213;Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que
+os annos d&atilde;o, v&ecirc; longe e fundo, rapaz...
+&Eacute; verdade
+que... &aacute;s vezes... o arrojo dos mocos &eacute; tambem
+guia feliz... Anda l&aacute; com a tua estrella, anda. Ao
+que j&aacute; vejo, n&atilde;o sei se te possa chamar louco...
+como ao principio n&atilde;o duvidei fazel-o.
+&Eacute; certo que
+&eacute; pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus
+castellos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os meus castellos! Que castellos fa&ccedil;o eu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o hei de ser eu que t'os mostre... S&oacute; te
+quero avisar que n&atilde;o ponhas grande f&eacute;
+em sonhos...
+Lembras-te do que se passou no monte
+da ermida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No monte da ermida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o viste por l&aacute; no outro dia uns signaes de
+trovoada? A inconstancia &eacute; sempre de receiar. O
+que n'aquella manh&atilde; se passou, o que ent&atilde;o vi...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que viu?... Que se passou?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario demorou por algum tempo o olhar
+em Augusto e com tal express&atilde;o, que o obrigou a
+desviar o seu; depois accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada; o que todos os dias acontece. O c&eacute;o
+azul fez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras,
+os raios do sol tornaram-se torrentes de chuva. Pois
+n&atilde;o te lembras?... E tudo devido a uma mudan&ccedil;a...
+de vento... a uns ares que vinham do sul...
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o entendia ou fingia n&atilde;o entender estes
+mysteriosos dizeres do herbanario. Angelo estava
+distrahido dev&eacute;ras.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve l&aacute; hontem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; amigo das crean&ccedil;as?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conta muitas historias &aacute;s senhoras?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entretem-as bastante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ao... e a teu pae? Ouve-o com atten&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conversaram muito toda a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+O herbanario parecia ligar grande valor a estas
+perguntas, porque a cada resposta obtida, abanava
+pausadamente a cabe&ccedil;a com certo ar meditativo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto relanceava tambem para a fronte, meio
+contrahida, do velho um olhar entre curioso e timido.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emfim... A desconfian&ccedil;a &eacute; um achaque
+de
+velhice e nem sempre os mais felizes s&atilde;o os mais
+acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem
+ainda a gra&ccedil;a da sua protec&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O tio Vicente desconfia do primo Henrique?
+perguntou Angelo, rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primo?!&#8213;repetiu o velho, admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primo lhe chamamos n&oacute;s, porque a tia Victoria
+teima que, sendo elle sobrinho da tia Doroth&eacute;a,
+&eacute; nosso primo tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah? J&aacute; ahi vamos? E Lena?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena, Christe, todos lhe chamam por l&aacute; assim.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras
+inintelligiveis, terminando por estas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E, como no Egypto, &eacute; o vento sul que traz a
+praga dos gafanhotos. Mas Deus que vele, Deus que
+vele. E eu n&atilde;o me demoro mais, que vou ainda
+d'aqui aos pardieiros de Cernuche.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; ca&ccedil;a dos sapos, tio Vicente?&#8213;perguntou
+Angelo, gracejando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; agora o
+tempo&#8213;respondeu,
+sisudo, o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dos sapos! Galante ca&ccedil;a, na verdade!&#8213;continuou
+Angelo no mesmo tom.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Galante n&atilde;o ser&aacute; ella, pequeno,&#8213;respondeu o
+velho;&#8213;mas aben&ccedil;oada a chamarias se te torcesses
+no leito com as dores do carbunculo, que n&atilde;o
+ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle
+d'estes animaes s&ecirc;cca ao ar livre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a das toupeiras? O tio Vicente tambem ca&ccedil;a
+toupeiras?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+&#8213;Em seu tempo. Oh! a toupeira &eacute; animal de
+aben&ccedil;oadas virtudes! Basta que um dente que se
+lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pesco&ccedil;o,
+cura a mais desesperada dor de dentes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o deve ser facil opera&ccedil;&atilde;o a de
+tirar os dentes
+&aacute;s toupeiras&#8213;tornou Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quinta essencia das toupeiras &eacute; milagrosa
+contra cancros e herpes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quinta essencia das toupeiras!&#8213;repetiu Angelo,
+rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o rias, crean&ccedil;a&#8213;acudiu severamente o
+herbanario.&#8213;Que
+n&atilde;o &eacute; bonito rir do que os homens
+doutos asseguram. Eu j&aacute; o experimentei, logo que
+o li n'aquelle grande livro da
+<em>Polyantheia</em>, livro
+como se n&atilde;o faz hoje outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como &eacute; que se tira a quinta essencia a uma
+toupeira, tio Vicente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tomam-se as toupeiras e queimam-se at&eacute; as
+fazer em cinzas. Mistura-se a estas cinzas o sumo
+de celidonia maior, at&eacute; haver quatro dedos de sumo
+acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado,
+que se enterra por dez dias e... e... Bem,
+bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo e paciencia
+com crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere, espere, tio Vicente... N&atilde;o v&aacute; embora...
+Ent&atilde;o depois de enterrar tudo isso, que se
+faz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; logo... Pede a Deus que nunca te seja
+preciso fazer a pergunta com menos vontade de
+rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E assim vae sem me dar um remedio! Olhe,
+tio Vicente, eu pade&ccedil;o &aacute;s vezes de um somno
+t&atilde;o
+pesado que me n&atilde;o deixa estudar.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade,
+respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E julgas que n&atilde;o sei de remedio para isso?
+Experimenta e ver&aacute;s. Mette um ou dois morcegos
+debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que...
+<span class="pagenum">[223]</span>
+Mas adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche
+&eacute; uma legua.
+<br />
+
+<br />
+
+E o herbanario retirou-se, meio agastado com o
+scepticismo de Angelo e sobra&ccedil;ando a caixa de lata
+e o sacco dos seus thesouros medicinaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das
+singularidades do velho, riso em que n&atilde;o entrava,
+por&eacute;m, o menor laivo de malignidade; porque ambos
+tinham pelo velho uma verdadeira estima, que
+elle bem lhes merecia, pois sempre do cora&ccedil;&atilde;o o
+achavam votado a seu favor.
+<br />
+
+<br />
+
+O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se
+ainda, at&eacute; &aacute;s horas do jantar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XIV
+</h4>
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o sei se esta historia ter&aacute; leitor
+t&atilde;o mal
+aventurado, que n&atilde;o possua recorda&ccedil;&otilde;es
+e saudades
+associadas &aacute; noite de Natal, &aacute;quella festiva e
+aben&ccedil;oada
+noite, em que as ruas e os logares publicos
+se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar
+e scintillar o fogo mais acalentador do que
+nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
+n&atilde;o saiba o que &eacute; a festa das consoadas em
+familia,
+esse que n&atilde;o leia este capitulo, que n'elle n&atilde;o
+encontrar&aacute;
+prazer. Se alguns as gosaram j&aacute; n'outros
+tempos, por&eacute;m hoje erram a essas horas pelas ruas
+solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz
+que rompe das frestas de tantas janellas discretamente
+fechadas, ouvindo commovidos o ruido das
+alegrias que v&atilde;o no seio das familias, e pela phant
+Eu n&atilde;o sei se esta historia ter&aacute; leitor
+t&atilde;o mal
+aventurado, que n&atilde;o possua recorda&ccedil;&otilde;es
+e saudades
+associadas &aacute; noite de Natal, &aacute;quella festiva e
+aben&ccedil;oada
+noite, em que as ruas e os logares publicos
+se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar
+e scintillar o fogo mais acalentador do que
+nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
+n&atilde;o saiba o que &eacute; a festa das consoadas em
+familia,
+esse que n&atilde;o leia este capitulo, que n'elle n&atilde;o
+encontrar&aacute;
+prazer. Se alguns as gosaram j&aacute; n'outros
+tempos, por&eacute;m hoje erram a essas horas pelas ruas
+solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz
+que rompe das frestas de tantas janellas discretamente
+fechadas, ouvindo commovidos o ruido das
+alegrias que v&atilde;o no seio das familias, e pela phantasia
+creando em cada morada um mundo intimo
+de affectos e de venturas, como o de que a sorte os
+privou, que esses me perdoem as amargas saudades,
+que por ventura lhes avive assim.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+&Eacute; certo que n&atilde;o ha noite mais alegre; alegre
+d'esta alegria que vae direita ao cora&ccedil;&atilde;o, sem
+perturbar
+os sentidos com fumos de embriaguez; alegre
+d'esta alegria candida a que o homem &eacute; sujeito do
+ber&ccedil;o &aacute; velhice, a qual respeitam os estos das
+paix&otilde;es,
+na idade d'ellas, e o g&ecirc;lo do egoismo, no declinar
+da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas
+tu sempre, noite de vinte e quatro de dezembro,
+que melhor ent&atilde;o se avaliar&aacute; pelo contraste a
+luz,
+o calor, o conch&ecirc;go dos lares, e mais intimos se
+estreitar&atilde;o os circulos da familia em roda da ceia
+patriarchal.
+<br />
+
+<br />
+
+E v&oacute;s todos, a quem uma moda t&ocirc;la n&atilde;o
+constrangeu
+ainda a abandonar os habitos que de pequenos
+contrahistes, e festejaes ainda o Natal de
+Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter
+genuinos esses costumes nacionaes, que n&atilde;o
+resultar&aacute;
+d'ahi desdouro para o vosso nome ou braz&atilde;o.
+A roda da civilisa&ccedil;&atilde;o, a que applicaes hombros
+com
+tanto denodo, n&atilde;o se cravar&aacute; por isso.&#8213;Podeis,
+elegantes meninas, cantar l&ocirc;as sem escrupulo deante
+do presepe armado na sala mais intima da casa,
+que nem por isso cantareis peor na das visitas as
+arias italianas, que aprendestes no collegio; n&atilde;o
+c&oacute;reis de collaborar, por excep&ccedil;&atilde;o,
+esta noite nos
+mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia
+e perfumes tendes no toucador para as ablu&ccedil;&otilde;es
+purificatorias. Homens graves, a republica perdoar-vos-ha
+uma pequena infidelidade, a politica do paiz
+e da Europa n&atilde;o periclitar&aacute; desnorteada se, por
+um
+pouco, lhe negardes a vossa atten&ccedil;&atilde;o;
+humanisae-vos
+pois uma vez por anno, e baixae ao seio da
+familia os olhares, que ponderosos empenhos vos
+trazem sublimados.&#8213;Entrae com as crean&ccedil;as em
+jogos pueris e faceis, que n&atilde;o destemperareis a
+intelligencia
+para as philosophicas cogita&ccedil;&otilde;es do
+<em>boston</em>
+e do <em>whist</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A familia do Mosteiro era fiel &aacute;s classicas
+usan&ccedil;as
+<span class="pagenum">[225]</span>
+d'esta noite tradicional. E n'aquelle anno sobretudo
+as festas das consoadas deviam ser coisa falada,
+gra&ccedil;as ao plano de D. Victoria de reunir no
+Mosteiro a resumida familia de Alvapenha; plano
+que vimos approvado por acclama&ccedil;&atilde;o por toda a
+assembleia presente.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a veio effectivamente na companhia de
+Henrique de Souzellas e de Maria de Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+Foram recebidos no Mosteiro por uma completa
+ova&ccedil;&atilde;o das crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a viu-se litteralmente enla&ccedil;ada em
+bra&ccedil;os
+infantis, que lhe tolhiam os movimentos e que,
+dizia ella, quasi amea&ccedil;avam asphyxial-a.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto dava motivo a exclama&ccedil;&otilde;es e risos, que
+inauguraram um estado de coisas, o qual nunca
+mais devia cessar aquella noite.
+<br />
+
+<br />
+
+A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro
+&eacute; indescriptivel. Na cozinha, nas salas, nos corredores
+tudo era movimento e ruido.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui eram as crean&ccedil;as jogando, a pinh&otilde;es, o
+&laquo;par
+ou pern&atilde;o&raquo; e o &laquo;rapa&raquo;, jogos
+popularissimos e de
+occasi&atilde;o, que, de t&atilde;o conhecidos, dispensam o
+trabalho
+de descrevel-os. Estes jogos, como &eacute; de prever,
+n&atilde;o se executavam sem um concurso de vozearia
+e de algazarra, que desafiava a impaciencia de
+D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que
+se passava na sala, ralhar com os criados &aacute; cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+No aposento immediato ao quarto de D. Victoria,
+arm&aacute;ra-se o presepe, deante do qual ardiam seis
+v&eacute;las de c&ecirc;ra em casti&ccedil;aes de prata
+maci&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+As duas velhas senhoras, D. Doroth&eacute;a e D. Victoria,
+encetaram logo no principio da noite uma
+longa e devota reza, meio recitada, meio cantada, a
+qual se continuava com uma interminavel enfiada
+de Padre-Nossos e Av&eacute;-Marias, a que respondia, em
+c&ocirc;ro, a parte feminina, da familia, as crean&ccedil;as e
+as
+criadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em
+<span class="pagenum">[226]</span>
+voz tr&eacute;mula e quebrada pela idade, entoava em singela
+cantilena coplas como esta:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+&Oacute; infante suavissimo,<br />
+
+Vinde, vinde j&aacute; ao mundo<br />
+
+Livrar-nos do captiveiro<br />
+
+D'este jazigo profundo.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E seguia-se um Padre-Nosso e uma Av&eacute;-Maria.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo havia ao principio, com as suas travessuras,
+desordenado um pouco o andamento regular
+das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico expediente
+de o expulsar do congresso, e tudo serenou.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; sala, onde Henrique de Souzellas conversava
+com o conselheiro em assumptos, todos d'esta vez
+longe da politica, chegaram as surdas harmonias
+d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade
+de saber o que era aquillo. O conselheiro,
+sorrindo, convidou-o a seguil-o para por si proprio
+se poder informar.
+<br />
+
+<br />
+
+E, tomando por aposentos interiores, conseguiram
+ambos introduc&ccedil;&atilde;o na sala da novena justamente
+ao lado de D. Victoria e de D. Doroth&eacute;a, que, de
+embebidas que estavam nas suas ora&ccedil;&otilde;es, nem por
+elles deram.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente
+ao lado d'aquellas boas senhoras, e quando ap&oacute;s
+um dos Padre-Nossos, ditos por D. Doroth&eacute;a, se
+devia seguir a resposta do c&ocirc;ro feminino, este emmudecido,
+com a chegada dos dois, a qual desafi&aacute;ra
+risos a custo suffocados, foi substituido por um
+dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro,
+e escandalisaram depois ambas as sisudas
+senhoras.
+<br />
+
+<br />
+
+O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as
+crean&ccedil;as; D. Victoria teve muito que fazer, muito
+que reprehender o cunhado, muito que ralhar com
+os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com
+D. Doroth&eacute;a, muito que recriminar os criados, rindo-se,
+bem a seu pesar, no meio de todas estas tarefas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[227]</span>
+Terminou confusamente a novena com tal occorrencia.
+Os desordeiros s&oacute;mente capitularam, consentindo
+em retirar-se, quando lhes prometteram
+que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique
+voltou com o conselheiro a admirar o primor
+que a paciencia de um artista imaginoso realis&aacute;ra
+na confec&ccedil;&atilde;o do presepe, onde estavam
+representados
+todos os episodios da natividade de Jesus, e
+muitos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+Era effectivamente uma complicada machina
+aquelle presepe, e seria prova de profunda indifferen&ccedil;a
+artistica passar por elle sem um exame, embora
+fugaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Este traste antiquissimo na familia gosava de
+nomeada n'um circulo de leguas em redor. Havia
+empenhos para o v&ecirc;r no tempo do Natal, e se algum
+viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava
+sempre quem lhe recommendasse o visitar o presepe,
+como coisa digna de v&ecirc;r-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Consistia elle n'uma esp&eacute;cie de santuario de pau
+preto, no meio do qual havia uma pequena gruta
+toda cravejada de caramujos, e rosas de papel, com
+estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava
+deitado o menino Deus, n&atilde;o sobre umas palhas,
+como a tradi&ccedil;&atilde;o refere, mas gra&ccedil;as aos
+impulsos
+do compadecido cora&ccedil;&atilde;o de D. Victoria, que,
+ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos
+antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama
+de len&ccedil;oes de renda com cercadura dourada; colcha
+de setim bordado, e colch&atilde;o e travesseiro da mais
+macia penugem de aves americanas. Ao lado,
+Nossa Senhora e S. Jos&eacute;, de propor&ccedil;&otilde;es
+quasi
+iguaes &aacute;s do menino; mais longe a vacca e a mula
+tradicionaes. Os episodios por&eacute;m eram inquestionavelmente
+o mais interessante da obra. Varios
+grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos
+os tamanhos, feitios e vestuarios, ornavam a scena.
+Alli um cego tocador de sanfona; um grupo de
+gallegos dan&ccedil;ando, ao som da gaita de folle; uma
+<span class="pagenum">[228]</span>
+pastora com ovos mais adeante; ao lado, um grupo
+celebrando um <em>pic-nic</em>, perfeita
+actualidade, tudo
+em mangas de camisa, com gravata, e botas de
+cano;&#8213;outros fumando e bebendo cerveja. Uma
+amazona ingleza, com o seu Jockey, galopava pelas
+cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira
+caminhavam a par com offertas para o menino. Ao
+longe, nos visos da serra, appareciam os tres
+Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar
+abaixo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento
+esculptural os muros de Jerusalem. Elles
+l&aacute; estavam coroados de ameias e de milicianos fardados
+&aacute; ingleza e armados de lan&ccedil;as e arcabuz.
+Eram gigantes aquelles guerreiros, pois, n&atilde;o obstante
+estar a muralha no plano do fundo do quadro,
+qualquer d'elles era duas vezes maior do que as
+figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se
+a bandeira portugueza. Havia varios santos
+espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas,
+e, entre os additamentos feitos pela devo&ccedil;&atilde;o
+de D. Victoria ao presepe, contava-se o de um Santo
+Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo,
+parecia muito admirado de se v&ecirc;r n'aquelle
+tempo e logar. Um gallo colossal soltava do telhado
+do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins
+espreitavam do c&eacute;o por entre nuvens de algod&atilde;o e
+estrellas de ouropel. Era um prodigio!
+<br />
+
+<br />
+
+Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica,
+sentia eu vivo orgulho de ter revelado ao
+mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime
+admira&ccedil;&atilde;o faria c&ecirc;do ou tarde
+justi&ccedil;a; tive
+por&eacute;m de abandonar esta lisonjeira id&eacute;a, ao
+achar-me
+precedido por um dos romancistas mais justificadamente
+populares da na&ccedil;&atilde;o vizinha. Das paginas
+de um delicioso quadro de costumes de Fernan
+Caballero, a eminente escriptora de que a Andaluzia
+se ufana, conheci eu serem n&atilde;o s&oacute;mente nacionaes,
+mas peninsulares pelo menos, estes modelos
+<span class="pagenum">[229]</span>
+de presepes, com os seus ingenuos anachronismos,
+cunho irrecusavel que o povo imprime a todas
+as suas obras de arte. Onde falta o anachronismo,
+falta a assignatura do povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todo o caso era digno da men&ccedil;&atilde;o que d'elle
+fizemos o presepe do Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam
+por miudo, D. Victoria fizera desfilar o cortejo
+das criadas para a cozinha, onde urgia o servi&ccedil;o,
+e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram
+as peores criadas do mundo, por isso que, tendo
+tanto que fazer, perdiam tempo a cantar l&ocirc;as deante
+do presepe. D. Doroth&eacute;a c&ecirc;do tomou com Magdalena
+e Christina o mesmo caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com
+os pequenos, e com elles entraram em jogos, como
+se f&ocirc;ssem crean&ccedil;as tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o
+homem grave e s&eacute;rio das salas de Lisboa perdera
+todo o ar diplomatico: agora era s&oacute;mente o homem
+da familia; pueril, travesso, alegre, folgaz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu caro,&#8213;dissera elle a Henrique no principio
+da noite&#8213;vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve
+ser banido o menor assumpto politico, a menor discuss&atilde;o
+s&eacute;ria. Deixe-se correr frivola a conversa da
+noite, o contrario seria uma profana&ccedil;&atilde;o, que
+attrahiria
+sobre nossas cabe&ccedil;as as justas iras dos anjos
+domesticos que n'estas noites andam invisiveis misturados
+com a familia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apoiado,&#8213;respondeu Henrique;&#8213;acceito e
+comprometto-me a cumprir a proposta.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique possuia em alto grau o talento de se
+tornar agradavel. Comprehendendo que eram sinceros
+os desejos do conselheiro, t&atilde;o frio e pueril
+conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como
+membro da familia, e ao proprio conselheiro parecia
+j&aacute; impossivel que ainda f&ocirc;ssem t&atilde;o
+recentes as
+suas rela&ccedil;&otilde;es mais intimas com aquelle rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+&#8213;Animo, sr. conselheiro,&#8213;dizia-lhe Henrique,
+no momento em que elles ambos estavam empenhados
+a jogar a cabra cega com os pequenos.&#8213;Coragem,
+que temos gloriosos exemplos a animar-nos;
+at&eacute;, entre outros, o do meu homonymo Henrique IV.
+&Eacute; sabido o episodio recordado por uma
+gravura celebre.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro secundava-o, rindo: gra&ccedil;as a estes
+jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem;
+os moveis f&oacute;ra da sua posi&ccedil;&atilde;o, o
+ch&atilde;o alastrado
+de cascas de pinh&otilde;es, que estalavam sob os passos,
+os tapetes desviados, as cortinas soltas.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; por noite avan&ccedil;ada, disse o conselheiro para
+Henrique:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falta-nos ainda um artigo importante do ritual
+d'estas festas, o principal. &Eacute; dirigir uma visita
+&aacute; cozinha. Porque a obra principal d'esta noite &eacute;
+fazer uma ceia e n&atilde;o comel-a. Por isso convido-o
+a acompanhar-me l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com tanto mais vontade, que estou ha muitos
+dias compromettido a isso com as senhoras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso &eacute; tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia &aacute;
+cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu
+tumultuariamente, annunciando-os ao longe
+com risadas e gritos de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de
+frades. Occupava um vasto recinto rectangular, rasgado
+em amplas janellas e fornecido de bancas monumentaes,
+condizendo com a estupenda chamin&eacute;,
+que parecia ainda saudosa dos odoriferos vapores
+que outr'ora espalhavam os tachos e as grelhas
+monasticas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ia indizivel anima&ccedil;&atilde;o na cozinha, quando Henrique
+ahi entrou com o pae de Magdalena. Era um
+barafustar de criadas, um chiar de cert&atilde;s, um borbulhar
+de ca&ccedil;arolas e tachos, um tinir de pratos,
+um tilintar de crystaes no meio de uma babel de
+<span class="pagenum">[231]</span>
+ordens, de perguntas, de reclama&ccedil;&otilde;es, de
+conselhos,
+todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria
+ralhava, e a sr.<sup>a</sup> de Alvapenha promulgava
+preceitos,
+e Maria de Jesus desdenhava do servi&ccedil;o das
+collegas, e Magdalena e Christina riam de todos e
+de tudo, e Angelo a todos impacientava.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imagina!
+<br />
+
+<br />
+
+A chegada do conselheiro e do seu hospede veio
+exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e
+exclama&ccedil;&otilde;es,
+as quaes ainda assim eram subjugadas
+pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia
+para o conselheiro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre o mano tem coisas! Olhem agora
+para o que lhe havia de dar! V&atilde;o l&aacute; para dentro,
+v&atilde;o. N&atilde;o venham atrapalhar-nos mais ainda do
+que estamos. E o primo Henrique tambem! Ora
+esta!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se afflija, mana. N&oacute;s n&atilde;o
+podiamos resignar-nos
+a ficar alheios &aacute; tarefa principal do dia. E
+at&eacute; porque &eacute; necessario dar andamento a isto para
+chegarmos a tempo da missa do gallo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois querem ir &aacute; missa do gallo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; de v&ecirc;r que sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tambem vou&#8213;disse Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu&#8213;acudiu Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais um, que ir&aacute; tambem&#8213;disse Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu, e eu&#8213;accrescentaram differentes vozes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, minhas encommendas!&#8213;suspirou D. Victoria.&#8213;Ent&atilde;o
+por que n&atilde;o disseram isso logo?
+Agora como ha de ser?
+<br />
+
+<br />
+
+E saiu em direc&ccedil;&atilde;o &aacute; sala da ceia a
+disp&ocirc;r as
+coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que se diga que D. Victoria vivia na
+candida illus&atilde;o de que era ella quem fazia tudo em
+casa, emquanto que manda a verdade declarar que
+nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas
+do que quanto dormia esta ali&aacute;s excellente senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[232]</span>
+&#8213;M&atilde;os &aacute; obra, sr. Henrique!&#8213;bradou o
+conselheiro,
+insistindo na resolu&ccedil;&atilde;o com que viera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto&#8213;respondeu Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o? ent&atilde;o?... Que v&atilde;o
+fazer?&#8213;perguntava
+D. Victoria, afflicta, voltando &aacute; cozinha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem v&ecirc;r que preparos?!&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a,
+sorrindo e olhando com curiosidade para o
+que faziam os dois.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras,
+minha tia&#8213;dizia Henrique, approximando-se
+da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena e
+Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade que sim,&#8213;acudiu Magdalena&#8213;e
+eu exijo o cumprimento da promessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;, sr. Henrique,&#8213;tornou o conselheiro&#8213;acceite-me
+alguns preceitos da pratica. A regra &eacute;
+fazer tudo o mais indigesto possivel; porque essa
+qualidade &eacute; o caracteristico dos manjares d'esta noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a
+ceia do Natal, pois desafio o melhor estomago do
+mundo a que subjugue os meus guisados com os
+seus succos digestivos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; escolhi tarefa&#8213;disse o conselheiro, tirando
+das m&atilde;os de Christina a colh&eacute;r com que ella
+mexia o vaso onde se preparava o vinho quente,
+esse <em>punch</em> nacional, que n'esta
+noite seria uma
+falta imperdoavel se esquecesse no programma
+d'aquelle banquete.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu,
+e c&ecirc;do principiou a desempenhar-se d'este trabalho,
+no meio de hilaridade geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo dispensou a tia Doroth&eacute;a do trabalho da
+prepara&ccedil;&atilde;o dos mexidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e
+no seguimento do seu constante proposito, approximou-se
+da morgadinha, que n'aquelle momento se
+occupava a regar de calda de mel umas recentes
+rabanadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o trabalho, prima Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+&#8213;N&atilde;o ha falta de bra&ccedil;os n'esta
+reparti&ccedil;&atilde;o, primo
+Henrique. V&aacute; a outra porta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance
+das minhas f&ocirc;r&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta? Como se engana! N&atilde;o sabe que as rabanadas
+s&atilde;o a essencia da ceia de Natal? E logo
+havia de confiar-lh'as?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n&atilde;o ligava tanta importancia a estas representantes
+da pastelaria primitiva, notaveis porque
+recordam a infancia da arte! Emquanto a mim,
+j&aacute; no tempo da peregrina&ccedil;&atilde;o dos
+hebreus, Moys&eacute;s
+lhes ensinava a cozinhar d'isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena abanou a cabe&ccedil;a em signal de
+reprehens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e &aacute;s pobres rabanadas o pouco ar de
+moda que teem. A sua elegancia &eacute; implacavel, primo
+Henrique. Um indigesto manjar francez seria de
+melhor tom, bem sei. At&eacute; n'isso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para provar que estou arrependido da minha
+irreverencia, consinta-me que a coadjuve, prima.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pode ser; pesa sobre mim uma tremenda
+responsabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso equivale a recusar-me o f&ocirc;ro de familia,
+que t&atilde;o humildemente reclamo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente&#8213;respondeu Magdalena.&#8213;Eu sou
+muito escrupulosa n'isso. Faz mal em n&atilde;o reclamar
+esse f&ocirc;ro de Christina, que talvez encontrasse mais
+disposta a conceder-lh'o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, se me n&atilde;o engano, foi a prima Magdalena
+que primeiro me conferiu o apreciavel titulo
+de parentesco com que nos tratamos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O de primos? Esse sim; mas n&atilde;o tem os privilegios,
+que lhe quer dar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que privilegios s&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas,
+por exemplo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe, priminha, que ser&aacute; muito exigir o
+que eu pe&ccedil;o?&#8213;perguntou Henrique a Christina,
+que principi&aacute;ra a escutal-os.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[234]</span>
+&#8213;N&atilde;o ouvi&#8213;respondeu esta, c&oacute;rando e sorrindo,
+como sempre que lhe falava Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escusado &eacute; consultar Christina&#8213;acudiu a
+morgadinha&#8213;porque
+em muitas coisas pensa ella em
+opposi&ccedil;&atilde;o commigo. E n'isto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n'isto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'isto de attender a requerimentos, &eacute; talvez
+mais condescendente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao que estou vendo&#8213;disse o conselheiro jovialmente&#8213;grandes
+coisas se tinham passado aqui,
+antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade
+entre Lena e o sr. de Souzellas, que me d&aacute; s&eacute;rias
+inquieta&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu julgo que n&atilde;o. Ao que ouvi ao Henriquinho,
+a primeira vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!...&#8213;disse
+D. Doroth&eacute;a, com toda a indiscre&ccedil;&atilde;o
+da sua ingenuidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena procurou acudir a tempo &aacute; corrente
+das revela&ccedil;&otilde;es, a que viu disposta a boa senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que
+tendo feito uma digress&atilde;o pela sala do refeitorio,
+voltou com a alegre nova de que a ceia estava na
+mesa.
+<br />
+
+<br />
+
+O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo.
+Suspenderam-se trabalhos, quasi completos,
+ultimaram-se &aacute; pressa outros, e a companhia dirigiu-se
+para o corredor.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o
+e pretendendo suster a corrente, que
+amea&ccedil;ava invadir a sala, que ella ainda n&atilde;o dera
+por prompta. J&aacute; n&atilde;o era tempo. O conselheiro,
+tomando
+duas crean&ccedil;as ao collo, rompia a marcha, e
+atraz d'elle at&eacute; a pacifica D. Doroth&eacute;a clamava
+insubordinada
+que n&atilde;o recuaria um passo.
+<br />
+
+<br />
+
+E falando e rindo assim entraram na sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava offuscante de luzes, esplendida de lou&ccedil;as
+e baixellas, enfeitada de flores e de crystaes e ennevoada
+dos vapores das iguarias.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas,
+<span class="pagenum">[235]</span>
+uma confus&atilde;o e incoherencia de ordens de D. Victoria
+para marcar logares, infrac&ccedil;&otilde;es d'estas ordens,
+que a impacientavam, como se com isso pud&eacute;sse
+perigar a ordem natural e social do mundo,
+e, como justa consequencia, ca&iacute;a s&ocirc;bre a
+cabe&ccedil;a dos
+criados uma enfiada de recrimina&ccedil;&otilde;es, que elles
+por
+habito j&aacute; soffriam com exemplar paciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se &aacute; ceia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ceia de Natal! aben&ccedil;oado banquete, ao qual todos
+se devem sentar nas mesmas disposi&ccedil;&otilde;es de
+animo em que ordenava Christo estivessem os que
+f&ocirc;ssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada,
+e com t&atilde;o pouca vontade comida, falem embora
+contra ti os medicos e os gastronomos em&eacute;ritos,
+condemnando uns a indigestibilidade dos teus
+cozinhados, outros o pouco delicado d'elles; reage
+contra as ideias novas, que veem da Fran&ccedil;a e da Allemanha;
+cerra as fornalhas &aacute;s iguarias exoticas e
+furta-te &aacute;s m&atilde;os da extranha
+gera&ccedil;&atilde;o de Vateis,
+que aspiram a dominar pelos paladares o espirito
+nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas
+as outras refei&ccedil;&otilde;es, mas respeitem esta,
+consagrada
+pelas memorias da familia, justificada pelo
+facto de que quasi n&atilde;o &eacute; feita para ser comida.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das
+instiga&ccedil;&otilde;es do conselheiro, das instancias de D.
+Victoria,
+das garantias de D. Doroth&eacute;a sobre a innocuidade
+dos guisados, os pratos corriam &aacute; roda da
+mesa quasi intactos e intactos voltavam &aacute; cozinha
+d'onde sairam.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas se se comia pouco&#8213;e de facto, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o
+de Henrique, do conselheiro e das crean&ccedil;as, quasi
+ninguem parecia haver-se sentado alli para ceiar&#8213;mas,
+diziamos n&oacute;s, se se comia pouco, em
+compensa&ccedil;&atilde;o
+falava-se muito.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando
+uma iniciativa efficaz para baralhar e generalisar
+as conversas e assim conservar constante a
+<span class="pagenum">[236]</span>
+anima&ccedil;&atilde;o. Tudo desafiava risos, o dito de uma
+crean&ccedil;a, a anecdota contada por Henrique, as
+distrac&ccedil;&otilde;es
+de D. Victoria, as canduras de D. Doroth&eacute;a,
+os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as allus&otilde;es
+da morgadinha a Christina, a confus&atilde;o d'esta,
+as maliciosas insinua&ccedil;&otilde;es de Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim procedeu o repasto nocturno at&eacute; &aacute; altura
+das sauda&ccedil;&otilde;es e dos
+<em>toasts</em>. N'esta parte, justo
+&eacute;
+confessar que Henrique e o conselheiro f&ocirc;ram menos
+abstinentes. Era difficil resistir &aacute; preciosidade
+dos vinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Passados os reciprocos brindes entre os parentes,
+o conselheiro, voltando-se para Angelo, auctorisou-o
+a prop&ocirc;r tambem um brinde.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo levantou-se ent&atilde;o para brindar Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro secundou-o, levando o copo aos
+labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! o sr. Augusto&#8213;disse Henrique, antes de
+beber e com certo tom de ironia.&#8213;Conhe&ccedil;o; &eacute; uma
+ave rara d'estas immedia&ccedil;&otilde;es, que tem brios de
+cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Brios de cavalleiro?&#8213;disse Angelo, com vivacidade.&#8213;Inda
+isso n&atilde;o &eacute; tudo, sr. Henrique; pode
+accrescentar, e alma de heroe tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois d&ecirc;-se-lhe tambem alma de heroe, e se f&ocirc;r
+preciso at&eacute; consciencia de santo. V&aacute; &aacute;
+saude da
+phenix!
+<br />
+
+<br />
+
+E bebeu.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo
+tom anterior:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que vejo &eacute; que &eacute; perigoso falar com a mais
+ligeira irreverencia d'esta personagem; corre-se o
+risco de v&ecirc;r voltar contra o impio, que tanto ousa,
+os poderes conspirados do c&eacute;o e da terra. Bem;
+prometto acatar essa preciosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E creia&#8213;disse-lhe o conselheiro&#8213;que lhe &eacute;
+merecedor de toda a considera&ccedil;&atilde;o. Augusto
+&eacute; um
+d'estes caracteres excepcionaes que vivem &aacute; sombra
+<span class="pagenum">[237]</span>
+de uma modestia impenetravel e &aacute; sombra d'ella
+muitas vezes morrem. &Eacute; necessario ter a vista
+muita
+exercitada n'estas explora&ccedil;&otilde;es de almas modestas,
+para descobrir uma assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Felizmente para os myopes como eu&#8213;proseguiu
+Henrique&#8213;ellas fazem &aacute;s vezes a fineza de
+se despojarem da sua timidez e de se mostrarem &aacute;
+luz. N&atilde;o &eacute; verdade, prima Magdalena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que admira;&#8213;respondeu Magdalena&#8213;bem
+occulto est&aacute; o fogo na pederneira, primo Henrique,
+mas, percutindo-a, salta a faisca.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz;&#8213;notou a sr.<sup>a</sup> de
+Alvapenha&#8213;aquillo
+nem parece d'este tempo. O que eu n&atilde;o sei,
+primo Manuel, &eacute; porque elle se n&atilde;o resolveu a
+tomar
+ordens. Recusar o legado da D. Rosa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o seja isso a d&uacute;vida. Elle sabe que,
+adoptando
+essa ou outra qualquer carreira, n&atilde;o lhe faltar&atilde;o
+recursos para seguil-a at&eacute; o fim. Devo-lhe esse
+auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio
+singular aquelle rapaz!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma phenix&#8213;insistiu Henrique, ironicamente.&#8213;Vejo
+que n&atilde;o &eacute; susceptivel de discuss&atilde;o,
+imp&otilde;e-se &aacute; gente como um axioma. Eu tenho habitos
+de livre pensador, mas... for&ccedil;ar-me-hei a incluir
+no meu credo esse dogma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o&#8213;replicou Angelo.&#8213;Um axioma n&atilde;o
+se demonstra, e a boa alma de Augusto est&aacute; todos
+os dias a demonstrar-se por ac&ccedil;&otilde;es generosas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por favor!! D&ecirc;em como n&atilde;o ditas as minhas
+palavras! Arrependo-me da minha irreverencia, e se
+elle aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na
+sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; certo que nos falta aqui Augusto. Como
+te n&atilde;o lembraste d'elle, Angelo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o viria. N'esta noite n&atilde;o deixaria o tio
+Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do herbanario que falam?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[238]</span>
+&#8213;Justamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra phenix; e quer-me parecer que tambem
+pertence ao numero dos inviolaveis; n&atilde;o &eacute;
+verdade,
+prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que
+&eacute; justo considerar-se uma especie de inviolabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+A resposta collocou Henrique em mau terreno, e
+por isso apressou-se a desviar do ponto principal
+da quest&atilde;o, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios
+como elle teem em si os elementos da propria
+felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh'a.
+Al&eacute;m de que o herbanario gosa aqui na terra
+de uma certa soberania, que deve lisonjeal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E olha que nem em Lisboa ha talvez quem
+saiba tanto como elle em coisas de doen&ccedil;as e de
+remedios, menino,&#8213;disse D. Doroth&eacute;a, que era
+uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; na verdade um homem singular!&#8213;disse o
+conselheiro.&#8213;D'antes, na noite de Natal, e em todas
+as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem
+por commensal, que ainda &eacute; parente arredado da
+casa. Ha annos por&eacute;m deu em tomar a peito o meu
+procedimento politico e em pr&eacute;gar-me serm&otilde;es e
+dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com
+a possivel resigna&ccedil;&atilde;o. Mas um dia foi mais amargo
+nas suas recrimina&ccedil;&otilde;es e eu achava-me com maior
+susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante
+acrimonia, e o homem saiu de minha casa
+offendido e protestando n&atilde;o voltar mais a ella. Procurei-o,
+escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito.
+N&atilde;o houve de qu&ecirc;. Havia-o ferido no seu orgulho,
+e &eacute; intolerante n'estas condi&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei-o j&aacute; por experiencia;&#8213;disse Henrique&#8213;que
+n'uma unica entrevista que tive com elle, e que
+durou minutos, deu-me occasi&atilde;o de lhe conhecer a
+irritabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, primo Henrique; talvez possa haver
+<span class="pagenum">[239]</span>
+quem supponha que n'essa entrevista n&atilde;o demonstrou
+o primo peor do que elle possuir as qualidades
+de que o accusa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora&#8213;continuou o conselheiro&#8213;v&atilde;o consideravelmente
+exacerbar-se os despeites do herbanario
+contra mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porqu&ecirc;?&#8213;perguntou Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porqu&ecirc;?... por causa do tra&ccedil;ado que se adoptou
+para a estrada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;disseram simultaneamente Angelo e
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A casa e o quintal do herbanario s&atilde;o os primeiros
+cortados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pode ser!&#8213;exclamou Magdalena, com evidente
+express&atilde;o de susto.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o exprimiu menos apprehensiva tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; inevitavel. Os dois primeiros tra&ccedil;ados tinham
+certas durezas. O primeiro era uma luva lan&ccedil;ada
+a uma influencia eleitoral, poderosissima; o
+brazileiro Seabra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse Magdalena, com certa amargura
+na express&atilde;o e no olhar.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em
+cuja physionomia se n&atilde;o lia menos intenso desgosto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou adivinhando que meus filhos votariam
+por que antes se arrostasse com os despeites d'esse
+influente. A logica do sentimentalismo tem d'essas
+exigencias absolutas.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julguei que era a da consciencia, meu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A consciencia diz-me que ha interesses superiores
+&aacute;s contempla&ccedil;&otilde;es com as singularidades
+de
+um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira
+politica ceder ao cora&ccedil;&atilde;o &eacute; morrer ou
+ser vencido.
+O sentimentalismo exaggerado, Lena, tem o inconveniente
+de dar tanto vulto &aacute;s vezes a um sacrificio
+individual, que, para o evitar, n&atilde;o duvida prejudicar
+<span class="pagenum">[240]</span>
+maiores e mais geraes interesses e operar sacrificios
+mais custosos. &Eacute; muito tocante na verdade o amor
+de um velho pelas suas arvores e pela sua casa;
+por&eacute;m, mais respeitavel &eacute; o bem-estar e a
+conveniencia
+de uma localidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; t&atilde;o necessario para a felicidade d'esta
+terra
+o sacrificio a que se quer obrigar o herbanario?&#8213;perguntou
+Angelo, e Magdalena secundou com o
+olhar a pergunta do irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu te digo, Angelo&#8213;respondeu o conselheiro,
+levemente despeitado.&#8213;Eu tinha a vaidade de me
+supp&ocirc;r ainda prestavel para esta gente, que me tem
+elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me
+dizel-o aqui em familia, n&atilde;o vejo ainda quem d&ecirc;
+garantias de desempenhar o mandato, muito melhor
+do que eu. Chamasse eu contra mim a animadvers&atilde;o
+d'este povo, e elles, &aacute; falta de outros, acceitariam
+&aacute;manh&atilde; qualquer nome inscripto na carteira
+do ministro; um homem que nunca tivessem visto,
+e que nem soubesse em que ponto da carta estava
+o circulo de que se propunha ser representante.
+Mas perd&ocirc;a-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo
+um censuravel excesso de vaidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pae, ninguem acredita mais do que
+eu no muito valor da sua influencia, mas... &Oacute;
+meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio
+Vicente! Imagine bem o que &eacute; n'aquellas idades e
+com aquelle genio, a grandeza do sacrificio que v&atilde;o
+exigir d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custa-me ser obrigado a isso; por&eacute;m...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle
+n&atilde;o pode ser muito longa. Deixem-o morrer em paz,
+&aacute; sombra d'aquellas arvores a que elle quer tanto.
+Que importa passar mais alguns annos sem uma
+estrada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Poesia!&#8213;disse o conselheiro, sorrindo para
+Henrique, que lhe correspondeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o!&#8213;acudiu Magdalena,
+c&oacute;rando&#8213;&eacute; caridade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[241]</span>
+&#8213;Ora vamos, Lena. S&ecirc; razoavel. Todos soffrem
+no mundo sacrificios maiores do que esse; eu mesmo,
+que me n&atilde;o tenho ainda assim por victima da
+sorte...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o haveria outro meio?&#8213;perguntou Angelo.&#8213;Acaso
+ha s&oacute; esses dois logares para dirigir
+a estrada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que antes nunca se fizesse!&#8213;exclamou Magdalena,
+apaixonadamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi temos como o sentimento me torna retrograda
+a minha Lena. J&aacute; clama contra as estradas
+como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro
+tra&ccedil;ado, mas esse ia destruir completamente os
+campos do Brejo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o esse, esse! S&atilde;o bens
+nossos!&#8213;exclamou
+Magdalena com vivacidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles
+que um dia mais valiosos se tornar&atilde;o para teu
+irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os charcos?&#8213;disse Angelo, encolhendo os
+hombros&#8213;ora! S&oacute; para viveiro de r&atilde;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje pouco mais s&atilde;o do que isso, e como tal
+nol-os pagariam agora. Dentro, por&eacute;m, de alguns
+annos, operados alli os trabalhos de esgoto, que eu
+projecto, ver&atilde;o em que se transforma aquillo. &Eacute;
+exigir a um homem muita abnega&ccedil;&atilde;o pretender
+d'elle que sacrifique assim os elementos da riqueza
+futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens
+n&atilde;o seriam taes que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pediriamos esmola, meu pae&#8213;notou timidamente
+Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem o Vicente a pedir&aacute;. Visto que estaes t&atilde;o
+desprendidos de interesse, que n&atilde;o hesitaes em fazer-lhe
+sacrificio dos vossos bens, podeis ceder-lhe
+o sufficiente para o compensar da perda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem o compensar&aacute; dos golpes nos seus
+affectos?&#8213;perguntou Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem tu! S&atilde;o segredos do cora&ccedil;&atilde;o
+feminino
+essas compensa&ccedil;&otilde;es. Deixo-as &aacute; tua
+disposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+&#8213;Meu pae! meu pae! se &eacute; ainda possivel atalhar-se!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; impossivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu tio!&#8213;secundou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mano! Primo!&#8213;disseram a um tempo as senhoras
+mais idosas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que posso fazer &eacute; ir eu proprio falar com o
+Vicente, para o mover a consentir na expropria&ccedil;&atilde;o
+amigavel, que farei que lhe seja o mais vantajosa
+possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tem cora&ccedil;&atilde;o para lhe ir prop&ocirc;r
+isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize antes se tenho coragem para arrostar
+com as iras do velho, e com as maldi&ccedil;&otilde;es que
+j&aacute;
+sei vae sacudir sobre mim.
+<br />
+
+<br />
+
+Lena calou-se, suspirando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!&#8213;continuou
+o conselheiro.&#8213;Eu, que tinha
+feito voto de n&atilde;o me entreter de negocios publicos
+esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada &eacute;s tu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?! Eu, que abomino a politica! que s&oacute; ella
+podia fazer entrar uma crueldade no cora&ccedil;&atilde;o de
+meu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio, veja se faz com que a estrada v&aacute; por
+outro sitio!&#8213;implorou meigamente Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem tu, Christe! tambem tu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pudera, mano! N&atilde;o, que uma coisa assim! Isso
+&eacute; at&eacute; uma ingratid&atilde;o para com um homem
+a quem
+esta aldeia tanto deve&#8213;disse D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o &eacute;! E logo um quintal onde cresciam
+tantas plantas de virtudes!&#8213;accrescentou D. Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; vendo, sr. Henrique, como se conspiram
+todos contra mim. Veja como um sentimento insignificante
+organisa uma opposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma li&ccedil;&atilde;o que estou recebendo, sr.
+conselheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae,&#8213;insistiu Magdalena&#8213;eu espero
+ainda que, ouvindo o tio Vicente, se commover&aacute; e
+trabalhar&aacute; por alterar esse fatal plano que principia
+<span class="pagenum">[243]</span>
+por arrancar arvores, mas que, pode estar certo,
+com ellas arrancar&aacute; uma vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Romances! Lena, romances! Os romances, lidos
+em plena aldeia, s&atilde;o perigosos. Falta aqui nos
+ares um certo scepticismo que, n&atilde;o sendo em d&oacute;ses
+exaggeradas, tem a vantagem de n&atilde;o deixar v&ecirc;r as
+coisas da vida atrav&eacute;s do prisma dos livros de
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+Mas basta de falar em politica. &Aacute;manh&atilde;
+procurarei o herbanario. Espero uma recep&ccedil;&atilde;o de
+g&ecirc;lo, e vou preparado para uma ladainha de
+recrimina&ccedil;&otilde;es,
+mas irei. Nada esperes, por&eacute;m, da entrevista,
+Lena; nem o mal, se mal &eacute;, se poderia j&aacute; atalhar;
+nem o orgulho de Vicente lhe permittiria
+expans&otilde;es &aacute; sensibilidade, que cheguem a
+commover-me.
+Conhe&ccedil;o-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o instou. Ficou, por&eacute;m, pensativa e
+sem o menor vestigio da alegria, com que principiara
+o ser&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; toca para a missa do gallo! Ouvem?&#8213;disse
+D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos! N&atilde;o ha tempo para demoras&#8213;exclamou
+o conselheiro, levantando-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos o imitaram, menos Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vens, Lena?&#8213;perguntou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o am&uacute;os, filha!&#8213;disse-lhe o conselheiro,
+indo por traz d'ella; e, tomando-lhe a cabe&ccedil;a entre
+as m&atilde;os, beijou-a na fronte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pae, &eacute; uma d&ocirc;r de
+cabe&ccedil;a t&atilde;o violenta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A maldita politica &eacute; o que faz! Pois fica; fica,
+porque est&aacute; fria a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o. Se insistes, obrigas-me a sair.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aviem-se!&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a.&#8213;Henriquinho,
+vens?
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia
+noite esfriou desde que viu Magdalena ficar, respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+&#8213;&Oacute; tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem d'ahi, pregui&ccedil;oso! anda!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que... para um homem doente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, n&atilde;o; se te ha de &aacute;s vezes fazer mal,
+ent&atilde;o
+n&atilde;o&#8213;apressou-se a dizer a precavida senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+E foi deferido por unanimidade o requerimento de
+Henrique, a quem c&ecirc;do depois Torquato foi ensinar.
+o caminho para o quarto onde devia pernoitar.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, D. Doroth&eacute;a, Christina e Angelo
+f&ocirc;ram para a missa do gallo.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no
+Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XV
+</h4>
+
+<br />
+
+Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar,
+Henrique de Souzellas sentiu poucas disposi&ccedil;&otilde;es
+de dormir. Uma profunda excita&ccedil;&atilde;o impedia-lhe
+o repouso; em parte era devida &aacute;s occorrencias
+d'aquella noite, t&atilde;o f&oacute;ra dos seus habitos de
+vida;
+em parte, digamol-o em verdade, &aacute; influencia dos
+vinhos, com que secund&aacute;ra os brindes do conselheiro,
+e com que elle proprio inici&aacute;ra outros.
+<br />
+
+<br />
+
+A imagina&ccedil;&atilde;o, excitada como estava, cada vez,
+entre outras imagens, lhe representava mais bella
+a de Magdalena. A especie de hostilidade permanente,
+com que a morgadinha o tratava, ainda mais
+parecia seduzil-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos poucos dias que pass&aacute;ra na aldeia, havia Henrique,
+com novos habitos, adquirido uma maneira
+de v&ecirc;r e de julgar as coisas e as pessoas, differente
+da que lhe era habitual na cidade, no circulo de
+amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou
+tacitamente, e sem dar por isso, certo scepticismo
+<span class="pagenum">[245]</span>
+convencional, que uma antipathica escola conseguiu
+p&ocirc;r muito na moda.
+<br />
+
+<br />
+
+Gra&ccedil;as a estas melhoras moraes, t&atilde;o verdadeiras
+n'elle como as physicas, as quaes at&eacute; o constante
+pensamento das doen&ccedil;as lhe haviam dissipado,
+pud&eacute;ra
+elle considerar Magdalena como uma mulher
+superior ao typo, pelo qual a mencionada escola
+costuma modelar o sexo: e acceitou sem m&aacute;
+preven&ccedil;&atilde;o
+a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico,
+que descrevia com enthusiasmo nas suas
+cartas a um dos seus mais intimos amigos de
+Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Taes estados de convalescen&ccedil;a s&atilde;o
+por&eacute;m sujeitos
+a reca&iacute;das.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta
+&aacute;quellas cartas, e sob as impress&otilde;es com que
+ficou da leitura, tinha vindo para o Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo
+de um homem da moda, da candura e da ingenuidade
+de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado
+&aacute; vista dos profundos estragos que alguns dias de
+provincia tinham operado n'elle. Via-o disposto a
+idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania
+que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro
+de qualquer homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos
+os dias caracteres, ali&aacute;s n&atilde;o pervertidos,
+levianamente
+calumniam ou ferem de suspeitas reputa&ccedil;&otilde;es
+de todo o genero, elle fazia irreverentes allus&otilde;es
+&aacute; morgadinha e zombava de Henrique, que ainda
+tomava a s&eacute;rio as isen&ccedil;&otilde;es de uma
+rapariga de vinte
+e tres annos. Acabava por o aconselhar a que indagasse
+de algum primo timido e modesto, ainda que
+menos ingenuo de certo do que elle Henrique se
+estava mostrando.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a
+doen&ccedil;a, que estava em via de cura. Um espirito
+mephistophelico
+parecia havel-a dictado. Henrique transportou-se
+pela imagina&ccedil;&atilde;o, depois de lel-a, a
+<span class="pagenum">[246]</span>
+um dos circulos que habitualmente frequentava em
+Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narra&ccedil;&atilde;o da sua
+vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos
+com que o escutariam, e elle proprio construia os
+epigrammas, com que lhe seria por certo commentada
+a narra&ccedil;&atilde;o. E ent&atilde;o uma vergonha de
+m&aacute; indole,
+vergonha do homem que p&otilde;e um preceito de
+elegancia acima de um dictame de moral, fazia-o
+c&oacute;rar, apesar de a s&oacute;s comsigo mesmo. Voltava a
+ler a carta, que lhe parecia dictada pela experiencia
+e pelo bom senso, emquanto que a ingenuidade
+das suas cren&ccedil;as se lhe figurava ridicula e
+desarrazoada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem ha que n&atilde;o tenha tido momentos d'estes?
+Quem se pode gabar de n&atilde;o ter perguntado um
+dia aos seus escrupulos mais nobres se n&atilde;o s&atilde;o
+meros preconceitos, que ficaram de uma educa&ccedil;&atilde;o
+acanhada? Quem n&atilde;o poz um momento em d&uacute;vida
+as sublimes verdades que a m&atilde;e lhe ensinou em
+crean&ccedil;a? Henrique estava passando por um d'esses
+accessos de scepticismo. Magdalena era j&aacute; para
+elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da
+sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia,
+que promettia a si proprio ser d'ahi por deante mais
+arrojado. Esta ordem de reflex&otilde;es estavam acudindo
+outra vez a Henrique e recebiam da excita&ccedil;&atilde;o, que
+se apoder&aacute;ra d'elle aquella noite, uma tenacidade
+maior. Sentindo a cabe&ccedil;a em fogo, Henrique levantou-se,
+apagou a luz, e abrindo a janella do quarto,
+saiu &aacute; varanda que deitava para a quinta, a respirar
+o ar livre.
+<br />
+
+<br />
+
+A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se
+muitas estrellas no c&eacute;o, que com forte
+scintilla&ccedil;&atilde;o
+parecia illuminarem a terra de um tenue crepusculo,
+que mal deixava distinguir os objectos.
+<br />
+
+<br />
+
+O ar frio da noite estava produzindo em Henrique
+um prazer, que elle procurava prolongar.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia passado muito tempo, depois que assim
+se encost&aacute;ra &aacute; varanda do quarto, quando lhe
+<span class="pagenum">[247]</span>
+attrahiu a atten&ccedil;&atilde;o certo vulto alvacento, que
+furtivamente
+se movia n'uma das ruas da quinta.
+<br />
+
+<br />
+
+Pareceu-lhe uma figura de mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+Justamente n'aquella occasi&atilde;o tinha Henrique na
+memoria o periodo final da carta do seu amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... Querem v&ecirc;r que... A d&ocirc;r de
+cabe&ccedil;a
+subita... A insistencia em ficar s&oacute;... Percebo...
+Um primo timido e modesto...
+<br />
+
+<br />
+
+E murmurando estas palavras, um sorriso maligno
+encrespava os labios de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu pud&eacute;sse averiguar isto... Mas ella corre
+com uma ligeireza que, antes que eu ache meio de
+sair para a quinta... j&aacute; a levar&aacute; bem longe.
+<br />
+
+<br />
+
+O meio por&eacute;m n&atilde;o era difficil de encontrar. Da
+varanda em que estava Henrique passava-se com
+grande facilidade para outra immediata, na qual havia
+uma escada de communica&ccedil;&atilde;o para a quinta.
+<br />
+
+<br />
+
+Reconhecendo esta disposi&ccedil;&atilde;o do terreno, Henrique
+operou n'um momento a descida, e pouco depois
+procurava atrav&eacute;s da quinta os vestigios da
+mulher que tinha perdido de vista.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esta opera&ccedil;&atilde;o esfor&ccedil;ava-se por
+combinar com
+a maxima ligeireza a possivel precau&ccedil;&atilde;o, para
+n&atilde;o
+ser por causa alguma frustrada a sua pesquiza.
+<br />
+
+<br />
+
+A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda
+em volta por um solido muro de alvenaria. Aqui e
+alli abriam-se n'elle differentes portas que deitavam
+para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto
+havia pomares, lameiros, vinhedos e hortas,
+por onde Henrique errava &aacute; t&ocirc;a, j&aacute;
+desanimado de
+ser bem succedido no empenho.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar
+de uma chave na fechadura. Parou por precau&ccedil;&atilde;o
+e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o bater
+de uma porta e mais nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o adeantou-se rapidamente; n'um momento
+deu com a porta, que ainda se conservava aberta.
+<br />
+
+<br />
+
+Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[248]</span>
+Dirigiu-se &aacute; esquina que d'alli avistava; dobrou-a,
+mas nada viu; as ruas eram solitarias, e uma s&oacute;
+casa terrea que havia ao lado de um quintal estava
+discretamente fechada e silenciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza,
+Henrique voltou para a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperemos aqui por esta donzella destemida
+que assim anda de noite a correr aventuras. Ha de
+ser curioso observar como ella fica, quando me encontrar
+por guarda port&atilde;o. Veremos se ainda depois
+d'isto durar&atilde;o aquelles ares de soberania, com
+que me trata. Um primo timido e modesto!...
+<br />
+
+<br />
+
+E, sorrindo &aacute; lembran&ccedil;a da scena que se
+preparava,
+Henrique fechou a porta por dentro, e accendendo
+um charuto, poz-se a passeiar, aguardando o
+regresso da morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Para n&atilde;o perdermos muito tempo &aacute; espera tambem,
+aproveital-o-hemos a inquirir de coisas e de
+pessoas, cujo conhecimento &eacute; util &aacute;
+continua&ccedil;&atilde;o da
+nossa historia.
+<br />
+
+<br />
+
+A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro
+e n'um sitio a que a abundancia de vegeta&ccedil;&atilde;o
+e a suavidade de perspectiva davam o mais pittoresco
+aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario,
+casa e quintal j&aacute; condemnados pelos lapis e
+tira-linhas dos engenheiros e offerecidos em sacrificio
+aos melhoramentos municipaes e concelhios.
+<br />
+
+<br />
+
+Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena
+e Angelo escutaram a nova d'esta expropria&ccedil;&atilde;o,
+quem conhecesse a vivenda rustica do herbanario
+e soubesse do amor que elle votava a cada
+objecto d'ella, assim como da vida que, havia tantos
+annos, alli vivia escondido e obscuro.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o quintal, que a abundancia das arvores de
+espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas
+da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se
+entregava &aacute;s suas leituras e
+lucubra&ccedil;&otilde;es scientificas.
+Logo ao p&eacute; da porta se estendiam o jardim, em
+parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em
+<span class="pagenum">[249]</span>
+parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de
+virtudes mais ou menos problematicas, que o velho
+n'elle cultivava.
+<br />
+
+<br />
+
+Vicente tinha entranhada a paix&atilde;o vegetal, deixem-me
+assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas
+suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes
+curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem
+a responsabilidade dos effeitos produzidos,
+assim lhes queria e as amimava, quando salutares;
+assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas.
+A vida isolada e o genio do velho, que sempre
+f&ocirc;ra dado a singularidades, augmentaram estas
+disposic&otilde;es, que tinham o que quer que era de
+pantheistico; e n&atilde;o era raro surprehenderem-o conversando
+com ellas, como se convencido de que o
+estavam comprehendendo.
+<br />
+
+<br />
+
+A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre,
+a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas,
+as violetas, t&atilde;o boa camaradagem lhe faziam,
+que nem lhe deixavam sentir a solid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario n&atilde;o tinha pessoa alguma ao seu
+servi&ccedil;o. Elle proprio cozinhava e por suas m&atilde;os
+fazia todos os mesteres domesticos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pois de imaginar que n&atilde;o seria muito complicado
+o banquete das consoadas n'aquella casa, e que
+devia formar em tudo contraste com o que &aacute; mesma
+hora se celebrava no Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas
+e mais espontaneos os risos, dois homens
+apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena
+mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta
+sala o santo anniversario. Um era o proprietario
+da casa, o outro Augusto, um dos poucos que
+se atrevia a frequentar &aacute;quellas horas mortas a
+habita&ccedil;&atilde;o
+do velho.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m da mesa, sobre a qual estava uma ceia
+composta de queijo, ma&ccedil;&atilde;s, nozes, castanhas, duas
+sopeiras com escabeche, especialidade na
+confec&ccedil;&atilde;o
+da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa
+<span class="pagenum">[250]</span>
+de vinho do Porto de promettedora c&ocirc;r de topazio,
+consistia o resto da mobilia n'uma estante
+de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas
+encaderna&ccedil;&otilde;es e folhas vermelhas nos aparos,
+em algumas cadeiras e bancos tambem occupados
+com livros e com varios utensilios empregados nas
+explora&ccedil;&otilde;es scientificas do velho, taes como
+caixas
+de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes
+ainda sobravam para alastrarem o ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro
+de azeite, e a escassa luz, que dos tres lumes
+que, em atten&ccedil;&atilde;o &aacute; solemnidade da
+noite, o velho
+accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um
+Christo de marfim pendente de um crucifixo negro,
+que sobresa&iacute;a n'aquellas paredes nuas e caiadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia bastante tempo que aquelles dois homens,
+sentados defronte um do outro, guardavam silencio;
+um d'esses silencios, durante os quaes os
+espiritos, como se impacientes com as longuras da
+palavra, tendo-se desembara&ccedil;ado d'ella, voam a
+par, para adeantarem caminho e voltarem mais
+longe a associarem-se &aacute; sua mais lenta companheira.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava
+a scena, parecia alheio a quanto o rodeava.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com
+o bra&ccedil;o estendido para o calice que tinha defronte
+de si, e a cabe&ccedil;a inclinada, parecia espiar, um por
+um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles
+os pensamentos que o preoccupavam. Emfim rompeu
+o primeiro o silencio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens.
+Para que te mettes a esconder de mim aquillo que
+eu ha tanto te leio nos olhos, crean&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;, tio Vicente?&#8213;perguntou Augusto, inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho,
+sem te esfriar o cora&ccedil;&atilde;o:
+s&atilde;o dons do C&eacute;o,
+<span class="pagenum">[251]</span>
+que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. Bondade
+de cora&ccedil;&atilde;o, com a cabe&ccedil;a... assim,
+assim...
+a dar esmolas aos pobres se satisfaz; cabe&ccedil;a de
+fogo, mas cora&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;lo... todos os
+meios de
+levar ao fim ambi&ccedil;&otilde;es, tanto os bons como os
+maus, todos lhe servem; mas cora&ccedil;&atilde;o como o teu,
+com o espirito que tens!... ai, pobre Augusto, se
+se escapa ao infortunio, &eacute; por milagroso poder do
+Senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o entendo, tio Vicente,&#8213;disse Augusto,
+com manifesta confus&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Olha para mim. E v&ecirc; se te atreves a
+repetil-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto baixou a cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho sorriu com ar de commisera&ccedil;&atilde;o e
+sympathia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu ainda n&atilde;o sabes fingir. Vamos l&aacute;; e cuidas
+que me n&atilde;o havia de custar, se n&atilde;o tivesse
+acertado?&#8213;E,
+depois de breve pausa, continuou:&#8213;Mas
+ainda quando penso em como tu, uma cabe&ccedil;a
+forte, assim te deixaste enfeiti&ccedil;ar!...&#8213;E tomando
+o calice, que tinha defronte de si, disse com
+resolu&ccedil;&atilde;o&#8213;Quero
+beber &aacute; tua saude, Augusto, e para
+que em breve se te desfa&ccedil;a essa loucura.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando ia a levantar o calice aos labios, a m&atilde;o
+de Augusto susteve-lhe o bra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o beba. Loucura embora, deixe-me viver e
+morrer com ella. Sou feliz assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse o velho herbanario, tomando um
+ar mais grave; e pousou o copo, sem desviar de
+Augusto o olhar penetrante e fixo.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu
+com maior vehemencia e colorindo-lhe as faces um
+n&atilde;o costumado rubor:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim. Por que o n&atilde;o hei de confessar? Essa
+loucura que diz, trago-a commigo, vivo com ella e
+quasi que para ella. Quero-lhe assim, e n&atilde;o a desejaria
+perder. Amor? n&atilde;o &eacute;; a tanto n&atilde;o
+chega...
+antes um culto, isso sim. &Eacute; uma
+adora&ccedil;&atilde;o como
+<span class="pagenum">[252]</span>
+aquella, em que de pequenos nos educam para com
+a Virgem. Que esperan&ccedil;as tenho? Nenhumas. Nem
+procuro alimental-as. Quer que lhe diga? V&ecirc;l-a;
+respirar estes ares que ella respira; atravessar estas
+devezas em que ella passeia; amimar as mesmas
+cren&ccedil;as que ella amima; soccorrer, com o meu
+&oacute;bulo
+de pobre, a miseria sobre a qual ella espalha caridosa
+as dadivas da sua aben&ccedil;oada opulencia... e,
+ahi est&aacute;; s&atilde;o as minhas
+aspira&ccedil;&otilde;es; &eacute; o futuro que
+desejo, e com que me contento. Leu no meu
+cora&ccedil;&atilde;o,
+disse; e ha muito que m'o d&aacute; a entender; mas
+n&atilde;o viu claro de todo, confesse. Julgou talvez que
+haveria em volta d'este sentimento um enxame de
+esperan&ccedil;as loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por certo
+foi que se riu; &eacute; muito generoso para se rir do mais.
+Enganou-se, por&eacute;m, tio Vicente; v&ecirc; agora que se
+enganou, n&atilde;o &eacute; verdade? Essas
+esperan&ccedil;as n&atilde;o
+existem. Se existissem, bem v&ecirc; que n&atilde;o estaria
+aqui.
+N&atilde;o me teria impellido a ambi&ccedil;&atilde;o pelo
+caminho de
+realisal-as? N&atilde;o se me teem offerecido os meios
+para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto
+me satisfaz esta felicidade a meu modo, que n&atilde;o
+arrisco um instante d'ella para tentar uma ventura
+maior.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario escutava silencioso, por&eacute;m meneando
+a cabe&ccedil;a com ares de quem n&atilde;o punha demasiada
+f&eacute; n'aquellas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aos vinte annos!...&#8213;disse elle por fim&#8213;sentir
+o que dizes... ser feliz assim!... Deixa passar
+mais tempo; deixa tomar corpo &aacute; paix&atilde;o e
+ver&aacute;s...
+ver&aacute;s depois...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem dez annos&#8213;disse Augusto, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dez annos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. De crean&ccedil;a a conhe&ccedil;o, a
+paix&atilde;o
+que diz; por isso confio n'ella. Tenho f&eacute; em que se
+n&atilde;o transviar&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dez annos!&#8213;repetia o velho, admirado.&#8213;Por&eacute;m...
+ha dez annos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha dez annos sa&iacute; eu d'aqui, tio Vicente. N&atilde;o
+<span class="pagenum">[253]</span>
+se lembra? Era ent&atilde;o uma pobre crean&ccedil;a da aldeia,
+educada entre os bra&ccedil;os de minha m&atilde;e, e
+conhecendo,
+uma por uma, as arvores d'estes sitios e
+mais nada. Sa&iacute; d'aqui e fui para Lisboa. N&atilde;o
+imagina
+as fortes impress&otilde;es que recebi na noite que
+alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de
+fadas e de encantamentos que ouvia, quando era
+pequeno, nunca me feria a imagina&ccedil;&atilde;o assim! Tudo
+era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes,
+os palacios, os edificios, os carros produziam-me
+quasi uma vertigem; sentia-me vacillar. Achei-me,
+nem sei bem como, de t&atilde;o atordoado que ia, n'uma
+casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia,
+n'aquella noite, uma companhia numerosa de homens,
+de senhoras e de crean&ccedil;as, muitas da mesma
+idade que eu, e que formavam uma assembleia &aacute;
+parte. A sala era magnifica; muitas luzes, muitos
+espelhos, muitas flores, moveis dourados, tapetes,
+quadros, crystaes, e para acabar de me confundir,
+o piano, objecto novo para mim, e que eu me n&atilde;o
+fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como
+imagina, e por f&ocirc;r&ccedil;a me havia de dar uns ares de
+estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto;
+deu explica&ccedil;&otilde;es &aacute;s pessoas presentes a
+respeito da
+minha vida, e deixou-me entregue &aacute;s crean&ccedil;as. Ahi
+fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta
+mal talhada, o meu olhar timido, os meus
+modos acanhados, no meio de uma turba de crean&ccedil;as
+elegantes, que se me figuravam de uma essencia
+superior &aacute; minha. As crean&ccedil;as s&atilde;o
+desapiedadas,
+quando assim em companhia. C&ecirc;do percebi que estava
+sendo o alvo da zombaria d'ellas; riam ao
+principio com disfarce e falavam-se ao ouvido,
+olhando-me de relance; redobravam as risadas e
+transmittiam reflex&otilde;es a meu respeito, cujo sentido
+julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas,
+dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfar&ccedil;ados;
+formaram grupos em volta de mim; se
+eu falava, respondiam-me rindo. Ent&atilde;o apoderou-se
+<span class="pagenum">[254]</span>
+de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me
+o cora&ccedil;&atilde;o de tristeza. Lembrei-me, com saudades,
+das arvores da minha aldeia, do meu pobre quarto,
+de minha m&atilde;e; e achei-me alli t&atilde;o s&oacute;,
+t&atilde;o sem conforto
+nem amizades, que as lagrimas me vieram
+ferventes aos olhos. Ainda hoje n&atilde;o hesito em dizel-o,
+foi aquelle um dos mais amargos momentos
+da minha vida. N&oacute;s, quando adultos, esquecemos
+facilmente os martyrios da infancia, quando n'esta
+idade uma sensibilidade exaggerada t&atilde;o dolorosos
+os faz. Foi ent&atilde;o que se deu um facto que, na minha
+piedosa supersti&ccedil;&atilde;o de rapaz alde&atilde;o,
+quasi me
+pareceu de interven&ccedil;&atilde;o divina. Abriu-se a porta e
+entrou na sala uma crean&ccedil;a, que eu n&atilde;o tinha
+ainda
+visto. Era uma menina pallida, de gesto affavel e
+angelico. Vestia toda de branco. Entrou e approximou-se
+do conselheiro, que jogava com uns amigos.
+O conselheiro, depois de beijal-a, n&atilde;o sei que lhe
+disse ao ouvido. Ella correu ent&atilde;o a sala com a
+vista; viu-me e veio direita a mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o conhecias j&aacute; da aldeia,
+Magdalena?&#8213;perguntou
+o herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; minha m&atilde;e veio para aqui no anno em
+que, por morte da sua, Magdalena voltou a Lisboa.
+A affabilidade, a singeleza desaffectada com que me
+falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje
+sinto como que os reflexos d'aquella suave impress&atilde;o.
+Parecia-me ouvir a voz de minha m&atilde;e; tinha o
+timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confian&ccedil;a
+o cora&ccedil;&atilde;o. Com ella n&atilde;o senti mais
+aquelle
+acanhamento que me enleiava. Depois falava-me de
+coisas que eu sabia t&atilde;o bem! Perguntava-me a respeito
+dos campos, das arvores, das abelhas, dos
+ninhos dos passaros, das flores, dos trabalhos do
+linho... interrogando-me e escutando-me com tanta
+deferencia e atten&ccedil;&atilde;o, que me inspirava coragem,
+e
+julgo que me estava dando ares de mais importancia
+junto d'aquelles pequenos senhores e senhoras
+que, pouco a pouco, se f&ocirc;ram despojando dos seus
+<span class="pagenum">[255]</span>
+desdens e acabaram por me escutar e interrogar
+tambem com curiosidade. J&aacute; uns me lan&ccedil;avam os
+bra&ccedil;os ao hombro, outros formavam circulo em
+volta de mim, e c&ecirc;do fui eu a principal personagem
+d'aquella noite. Essa crean&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se j&aacute; o
+n&atilde;o soubesse. N&atilde;o podia deixar de ser
+ella&#8213;exclamou
+o herbanario, com um fulgor de sympathia a
+illuminar-lhe o olhar.&#8213;Era ella; sempre assim foi!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia
+no meu espirito. Hoje ainda, se penso n'ella,
+acho-a de uma grande significa&ccedil;&atilde;o moral. Pois
+n&atilde;o
+&eacute; mais apreciavel n'uma crean&ccedil;a esta prova de
+superioridade
+de caracter, do que nas idades em que
+muitas vezes a raz&atilde;o e o calculo a imp&otilde;em a uma
+indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo
+espontaneidade. Desde ent&atilde;o a adoro.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario parecia n&atilde;o ter j&aacute; animo para
+sorrir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella
+grande tristeza. T&atilde;o novo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi
+sempre para mim affavel; inclinava-se sobre o livro
+em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos
+da minha educa&ccedil;&atilde;o alde&atilde;, e, se
+reconhecia
+progressos no discipulo, manifestava uma alegria
+que era para mim o maior incentivo e o maior premio.
+Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena
+com certo ar de gravidade, que aquella crean&ccedil;a
+j&aacute; ent&atilde;o tomava, perguntou-me, no meio de uma
+conversa propria de crean&ccedil;as: &laquo;E sente-se com
+genio
+para ser padre, Augusto?&raquo; J&aacute; me n&atilde;o
+lembro
+do que lhe respondi. Trouxe por&eacute;m commigo aquella
+pergunta; trouxe-a para a solid&atilde;o da minha aldeia.
+Procurei cerrar os ouvidos &aacute; voz interior, que desde
+ent&atilde;o m'a repetia sempre, at&eacute; junto da cabeceira
+de
+minha m&atilde;e, cuja maior aspira&ccedil;&atilde;o era,
+como sabe,
+v&ecirc;r-me padre. Mas em v&atilde;o! foi desde
+ent&atilde;o uma
+d&uacute;vida constante com que luctava. Com a morte de
+<span class="pagenum">[256]</span>
+minha m&atilde;e tudo mudou. Pela primeira vez respondi
+&aacute; interroga&ccedil;&atilde;o, que havia tanto tempo
+dirigia a mim
+proprio, e consegui por fim responder:
+&laquo;N&atilde;o&raquo;. Eis
+o segredo do meu passado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que disseste &laquo;N&atilde;o&raquo;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque vi que toda a minha vida era para a
+consagrar a um sonho; que o sonharia no altar, no
+pulpito e no confessionario; que para toda a parte
+me seguiria a imagem, a que eu j&aacute; n&atilde;o podia
+renunciar,
+e a qual ent&atilde;o j&aacute; n&atilde;o contemplaria sem
+remorsos,
+como agora o fa&ccedil;o. Foi por isto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute;? N&atilde;o te illudir&aacute;s a ti mesmo,
+Augusto? Repara
+bem, que n'isso pode ir a tua felicidade! Est&aacute;s
+bem certo de que n&atilde;o ha uma esperan&ccedil;a dentro do
+teu cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se a tivesse...
+<br />
+
+<br />
+
+Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de
+passos na rua. C&ecirc;do batiam na porta duas leves
+pancadas, e uma voz dizia de f&oacute;ra:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; acordado ainda, tio Vicente?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario trocou um olhar com Augusto. A
+voz era de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario
+quiz ret&ecirc;l-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde vaes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me sair. N&atilde;o poderia v&ecirc;l-a agora.
+N&atilde;o
+estou preparado com a minha indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre mascara!&#8213;N'esse caso sae pelo quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente!&#8213;repetiu Magdalena, de f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou, minha ave nocturna; eu vou j&aacute;. Espera&#8213;continuou
+em voz baixa para Augusto:&#8213;d&aacute;-me
+a tua palavra que n&atilde;o escutar&aacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou; mas... promette que nada lhe dir&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?!... Louco! Assim te pud&eacute;sse fazer esquecer,
+quanto mais... Adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo
+lado do quintal, o herbanario foi abrir a porta da
+rua &aacute; morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[257]</span>
+<h4>XVI
+</h4>
+
+<br />
+
+&#8213;Ora com Deus venha a minha fada; esta querida
+Lena, que se n&atilde;o esquece dos seus amigos velhos...
+Boas festas me trazes pela noite, filha!
+<br />
+
+<br />
+
+No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes
+indicios de preoccupa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar;
+eu venho...
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario conduziu-a para junto da mesa,
+onde estavam ainda os signaes de refei&ccedil;&atilde;o, que
+havia
+pouco find&aacute;ra. Vendo os dois talheres, a morgadinha
+olhou interrogadamente para Vicente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava alguem comsigo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porqu&ecirc;? Temos
+por ahi mais alguns livros a comprar-lhe?&#8213;continuou,
+sorrindo com benevola malicia.&#8213;Tenho
+eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada
+que, de vez em quando, me ensina em segredo quaes
+os livros, que o rapaz mais deseja e de que eu mal
+sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos,
+que n&atilde;o mere&ccedil;o, e que elle mais de
+cora&ccedil;&atilde;o
+daria, a quem s&atilde;o de justi&ccedil;a devidos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tio Vicente; n&atilde;o se trata agora d'isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, Lena, Lena, que n&atilde;o sei bem o que devo
+pensar de todas estas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha parecia um pouco perturbada com
+as palavras do herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha de pensar? Ha nada mais natural?
+Angelo foi que me deu o exemplo. Elle sabia o amor
+que Augusto tem &aacute; leitura. Por&eacute;m o cofre de
+Angelo
+&eacute; pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego
+a nem saber em que hei de consumir o que me sobra.
+Por isso foi que me lembrei... por&eacute;m como
+n&atilde;o conviria que eu propria fizesse o presente, nem
+<span class="pagenum">[258]</span>
+elle de mim o acceitaria, &eacute; que eu lhe pedi que o
+fizesse em seu nome. Mas falemos de outra coisa,
+porque me n&atilde;o posso demorar. Venho &aacute;s occultas
+e emquanto a minha gente foi &aacute; missa do gallo. Tio
+Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procural-o
+a estas horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse o velho, sentando-se em tom de
+gracejo.&#8213;Adivinho a gravidade do caso. O filhito
+do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem algum principio
+de sarampo ou de garrotilho, e vens...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor
+a esta casa e a este quintal?
+<br />
+
+<br />
+
+O velho tornou-se immediatamente s&eacute;rio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nasci aqui, filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custar-lhe-ia a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A... a...
+<br />
+
+<br />
+
+E Magdalena hesitava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fala!&#8213;insistiu o velho, j&aacute; inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A separar-se d'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario respondeu simplesmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! morreria.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena fez um gesto de afflic&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Vicente crescia o desassocego.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... Dize, Magdalena; o que
+significam
+essas palavras?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Explica-te!&#8213;exclamou o herbanario, quasi
+imperiosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;a-me, tio Vicente; ou&ccedil;a-me, mas
+n&atilde;o se
+afflija. Eu vim de proposito para o prevenir. Mas,
+por amor de Deus, socegue; sen&atilde;o tira-me o animo
+de continuar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que socegue, e tu a atormentares-me com essas
+demoras!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e... Fala-se em deitar abaixo estas arvores
+e esta casa, para...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span>
+O herbanario de um impeto poz-se a p&eacute;. Fulgurou-lhe
+nos olhos um relampago de ira terrivel!
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena calou-se, assustada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deitar abaixo estas arvores e esta casa?!
+Quem?... Quem se atreve? Pois que venham! que
+venham!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas reparando no terror que estava causando a
+Magdalena, procurou reprimir-se, e com uma voz
+que elle se esfor&ccedil;ava por tornar tranquilla, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vejamos. Ent&atilde;o querem, dizes tu... Fala,
+Lena, fala... Dize o que sabes. Quem &eacute;?... Para
+que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala,
+bem v&ecirc;s que eu estou socegado, filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha um projecto de estrada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse Vicente, com um grito de raiva.&#8213;N&atilde;o
+digas mais. J&aacute; sei&#8213;continuou com renascente
+exalta&ccedil;&atilde;o.&#8213;J&aacute; sei. Adivinho o resto.
+&Eacute; teu pae que
+o determina; &eacute; teu pae que o resolveu?
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena abaixou a cabe&ccedil;a com dolorosa
+express&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O furor do velho exaltou-se outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu pae! Teu pae, Lena! Ent&atilde;o esse homem
+jurou matar-me?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle n&atilde;o sabe o que s&atilde;o para mim estas arvores
+e estas paredes? Elle n&atilde;o sabe que a minha
+alma est&aacute; n'ellas, presa a estas raizes? que com
+ellas se despeda&ccedil;ar&aacute;? Esse homem sem
+cora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o v&ecirc; que s&atilde;o estas as minhas
+affei&ccedil;&otilde;es, as unicas?
+a minha unica familia? Elle, o companheiro
+dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou,
+&aacute; sombra d'essas mesmas arvores e sob os
+olhares de meu pae, que tambem o aben&ccedil;oava, t&atilde;o
+duro de cora&ccedil;&atilde;o se fez que, sem respeito por
+estas
+memorias todas, assim me quer separar do que me
+d&aacute; vida, do que ainda me prende ao mundo? E &eacute;
+teu pae este homem, Lena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quem &eacute;, tio Vicente; ou&ccedil;a-me. Deixe-me
+<span class="pagenum">[260]</span>
+dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie
+ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, sim; tudo se remediar&aacute;... com a minha
+morte. Talvez que ella seja util a teu pae... Talvez
+precise d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o creia, n&atilde;o creia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; duas vezes doloroso o golpe; porque me
+separa do que amo deveras e por vir da m&atilde;o de
+quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita
+que o era... ainda. Conheci-o t&atilde;o generoso e
+t&atilde;o innocente, como teu irm&atilde;o Angelo. Muitas
+vezes
+me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus projectos.
+E acreditei n'elle. Tinha ent&atilde;o no olhar um
+fogo, que n&atilde;o mentia. Vi-o seguir a carreira publica
+e acompanhei-o com a minha f&eacute;. N&atilde;o tardaram os
+primeiros desenganos; n&atilde;o lhes quiz dar credito ao
+principio. Vieram outros e outros. Fui vendo ent&atilde;o
+que os maus ares d'aquella terra tinham emba&ccedil;ado
+o brilho do caracter, que eu julguei melhor do que
+os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me
+reservado ainda. Para teu pae hoje os homens s&atilde;o
+medidos pelos votos, que podem lan&ccedil;ar na urna
+eleitoral!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus, tio Vicente, n&atilde;o fale assim!
+N&atilde;o duvide de meu pae!&#8213;exclamou Magdalena, a
+quem cruelmente estavam affligindo as
+recrimina&ccedil;&otilde;es
+amargas do herbanario.&#8213;Meu pae estima-o
+e respeita-o. N&atilde;o tem o cora&ccedil;&atilde;o
+endurecido que
+diz. Elle mesmo &aacute;manh&atilde; aqui ha de vir.
+Ver&aacute;
+ent&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle? &Aacute;manh&atilde;?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso venho prevenil-o. N&atilde;o o receba com
+asperezas, tio Vicente; fale-lhe com brandura. Talvez
+o commova, talvez seja ainda possivel valer a
+tudo. Ainda n&atilde;o est&aacute; decidido... Julgo... E que
+estivesse...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;manh&atilde;! Teu pae vem aqui
+&aacute;manh&atilde;? E ousa
+vir elle proprio annunciar-me o que sabe que vae
+ser uma senten&ccedil;a de morte?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[261]</span>
+&#8213;N&atilde;o; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia.
+Sabendo-o, ver&aacute; como...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me,
+e ha muito. N&atilde;o julgues que pode errar,
+calculando o effeito d'este golpe. Mas que queres
+tu? ensinaram-lhe j&aacute; a avaliar em pouco as venetas
+de um velho quasi tonto. Homens que trazem o
+pensamento em interesses t&atilde;o altos, n&atilde;o teem
+vista
+para estas pequenas desgra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena sentia-se possuir de uma profunda
+tristeza, ao ouvir falar o herbanario. Era uma dolorosa
+prova&ccedil;&atilde;o para o seu amor de filha v&ecirc;r
+assim
+uma nuvem de desconfian&ccedil;a offuscar a ideal
+concep&ccedil;&atilde;o
+que ella form&aacute;ra do pae, e n&atilde;o ter
+f&ocirc;r&ccedil;as
+para a afugentar. &Aacute;s vezes uma d&uacute;vida cruel
+fazia-lhe,
+a seu pesar, supp&ocirc;r que o herbanario tinha
+raz&atilde;o. Agora s&oacute; conseguia opp&ocirc;r um
+gesto supplicante
+&aacute;quellas acerbas accusa&ccedil;&otilde;es, que por
+muito
+tempo ainda desattenderam esta supplica muda.
+<br />
+
+<br />
+
+A final serenou a violencia da irrita&ccedil;&atilde;o do
+velho;
+succedeu-lhe, por&eacute;m, uma commo&ccedil;&atilde;o
+profunda, dominado
+por a qual disse a Magdalena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, Lena; &aacute;manh&atilde; eu receberei teu pae sem
+a menor aspereza. Fizeste bem em vir primeiro, filha.
+Se o n&atilde;o esperasse, talvez n&atilde;o soubesse
+conter-me.
+Agradecido. Uma noite &eacute; bastante para me preparar.
+Agora vae, deixa-me s&oacute;; deixa-me... chorar.
+<br />
+
+<br />
+
+E cobrindo o rosto com as m&atilde;os, deixou-se cair,
+solu&ccedil;ando, sobre a mesa, junto da qual se achava.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena correu para elle, commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, tio Vicente, ent&atilde;o! Socegue!
+&Aacute;manh&atilde;
+meu pae vir&aacute;. Fale-lhe, e eu espero que ainda
+ser&aacute;
+tempo de evitar... o mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode ser, pode ser...&#8213;respondia o velho.&#8213;E
+se n&atilde;o pud&eacute;r, Deus me acudir&aacute;, para
+n&atilde;o viver
+por muito tempo f&oacute;ra da casa em que nasci.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena j&aacute; n&atilde;o tinha que lhe dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos,
+como j&aacute; pedimos. Tenho esperan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+&#8213;N&atilde;o, filha, n&atilde;o pe&ccedil;as tu. Deixa-me
+s&oacute; com teu
+pae &aacute;manh&atilde;. Disseste que tinhas vindo, sem
+ninguem
+saber?&#8213;continuou elle.&#8213;Olha que te n&atilde;o
+d&ecirc;em pela falta. Vae, que &eacute; tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae, filha. Eu estou j&aacute; tranquillo. Bem v&ecirc;s.
+Deus te recompense a bondade que tiveste. Vae.
+Queres que te acompanhe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; preciso. Vim pela porta das prezas, que
+deixei aberta. S&atilde;o dois passos e estou na quinta.
+Mas, tio Vicente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae ent&atilde;o; e Deus te aben&ccedil;oe.
+<br />
+
+<br />
+
+E o velho pousou a m&atilde;o sobre a cabe&ccedil;a de
+Magdalena,
+que saiu commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o
+pranto que lhe rebentava dos olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sombria a saudade n'aquellas idades, porque
+as esperan&ccedil;as s&atilde;o j&aacute; muito debeis para
+lhe darem
+luz.
+<br />
+
+<br />
+
+Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda
+pelos sentimentos que alli a tinham agitado, a morgadinha
+dirigiu-se &aacute; pressa para a porta da quinta,
+por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta
+resistiu. Este facto surprehendeu e inquietou um
+pouco Magdalena. Quem poderia ter fechado a porta?
+E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe
+necessario um longo rodeio pela aldeia para
+chegar a outra, que pudesse encontrar aberta.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esta hesita&ccedil;&atilde;o impelliu outra vez
+instinctivamente
+a porta, que lhe oppoz a mesma resistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do, por&eacute;m, sentiu o rodar da chave na fechadura
+e viu mover-se lentamente a porta, e no v&atilde;o,
+que augmentava, desenhar-se uma figura de homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes que pud&eacute;sse, atrav&eacute;s da obscuridade da
+noite, reconhecer a pessoa, que assim t&atilde;o a proposito
+lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas palavras:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito boas noites, prima Magdalena. Espero
+<span class="pagenum">[263]</span>
+que pelo menos me conceder&aacute; licen&ccedil;a para exercer,
+junto de si, as humildes func&ccedil;&otilde;es de porteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Henrique de Souzellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o foi superior a um vago sentimento
+de receio, ao encontrar-se ahi com o hospede de
+Alvapenha; comtudo esfor&ccedil;ou-se por dominar-se e
+respondeu, com apparente presen&ccedil;a de espirito:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &Eacute; o primo Henrique. Muito boas noites.
+Ahi temos um requinte de galanteria, que eu estava
+muito longe de esperar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E de desejar, n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E de desejar tambem; confesso-o. Por mais
+diligente que seja um porteiro, nunca o &eacute; tanto
+como uma porta aberta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; mais discreto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Duvido. Em todo o caso, agrade&ccedil;o o inc&oacute;mmodo.
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem
+mais explica&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma palavra, prima Magdalena&#8213;disse Henrique,
+retendo-a por o bra&ccedil;o e com certa express&atilde;o
+nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto
+da morgadinha.&#8213;N&atilde;o ha mais accommodado terreno
+para um dialogo solemne do que o limiar de
+uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o
+homem muda de mascara; dep&otilde;e a que apresenta
+na sociedade e afivela a que traz na familia, e vice-versa.
+Ora n'estas mudan&ccedil;as &eacute; facil surprehender o
+verdadeiro rosto da pessoa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; tudo o que quizer o limiar de uma porta,
+primo; menos um logar muito confortavel para ser&otilde;es
+n'uma noite de dezembro.
+<br />
+
+<br />
+
+E Magdalena tentou de novo seguir para deante.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique susteve-a outra vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um momento s&oacute;, prima
+Magdalena; tenho
+necessidade de saber se me quer para alliado ou
+para inimigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vejo a necessidade da allian&ccedil;a que
+prop&otilde;e,
+nem as raz&otilde;es para a lucta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p264">[264]</a></span>
+&#8213;Sejamos francos. A prima deve confessar que
+a minha presen&ccedil;a aqui foi um desagradavel contratempo.
+Uma certa altivez e consciencia de invulnerabilidade,
+de que tinha o inc&oacute;mmodo de se revestir,
+sempre que tratava commigo, depois d'esta importuna
+occorrencia ter&aacute; de se modificar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o havia dado por essa...
+<em>revestidura</em> que
+diz; mas, se ella existiu, far-me-ha o favor de dizer:
+por que n&atilde;o pode continuar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa &eacute; boa! porque eu fa&ccedil;o a justi&ccedil;a
+&aacute; prima
+de supp&ocirc;r que n&atilde;o vae t&atilde;o longe a sua
+hypocrisia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hypocrisia!&#8213;disse Magdalena, com accento
+mais severo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o; n&atilde;o tive tempo para inventar
+outro
+termo mais... brando.
+Dissimula&ccedil;&atilde;o talvez lhe
+agrade mais. Seja dissimula&ccedil;&atilde;o. Mas depois do
+occorrido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora exijo eu que se explique, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar
+<a href="#e4">uma explica&ccedil;&atilde;o</a>...
+edificante... d'esta sua
+excurs&atilde;o nocturna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obsta apenas a que eu lh'a d&ecirc;, sr. Henrique de
+Souzellas, a falta de uma pequena formalidade: a
+de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha
+ideia. A prima &eacute; uma mulher admiravel, uma mulher
+superior, educada na alta escola de uma sociedade
+distincta, sobranceira por isso a pieguices
+provincianas. Tanto mais me encanta! E creia que
+me envergonho s&oacute; ao lembrar-me do que ter&aacute;
+pensado
+de mim, vendo-me tomar a s&eacute;rio as suas profiss&otilde;es
+de f&eacute;, t&atilde;o cheias de franqueza e de candura.
+Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, n&atilde;o &eacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; que me est&aacute; parecendo bem enygmatico!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima n&atilde;o
+ignora que eu a amo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ignorava!&#8213;atalhou Magdalena, com ironia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[265]</span>
+&#8213;E sabe de certo, por experiencia do mundo,
+que para homens como eu, a indifferenca, a frieza
+e os desdens redobram o ardor da paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; j&aacute; li isso n'um romance.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prima tem sido para commigo de uma crueldade
+revoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me
+a soffrer, porque um resto de ingenuidade que
+me ficou dos quinze annos, illudia-me na
+interpreta&ccedil;&atilde;o
+de taes resistencias. Tive a puerilidade de a
+supp&ocirc;r uma mulher de excep&ccedil;&atilde;o; pouco me
+faltou
+para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel
+noite de Natal o desengano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o parece-lhe...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que a prima representa admiravelmente o
+seu papel. Pode gabar-se de ter illudido um homem
+habituado &aacute;s scenas da comedia social.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio
+de severidade e de nobreza:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas,
+sem que eu propria bem saiba o que me retem
+aqui: se &eacute; a compaix&atilde;o que me inspira a profunda
+doen&ccedil;a moral de que o vejo tomado, se a
+curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados.
+Vejo-o inclinado a imaginar que por um
+facto, que a sua pouco delicada indiscre&ccedil;&atilde;o
+preparou,
+eu ficarei de hoje em deante &aacute; merc&ecirc; da sua
+generosidade. Conhece-me muito pouco, sr. Henrique!
+Ainda quando esse facto n&atilde;o pud&eacute;sse ter uma
+explica&ccedil;&atilde;o natural, e que me n&atilde;o
+repugnar&aacute; declarar
+quando quizer, saiba que tenho orgulho de mais
+para arrostar com tudo, at&eacute; com a calumnia, de
+preferencia a resignar-me ao menor predominio que
+me seja odioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se
+eu n&atilde;o lhe fizesse a justi&ccedil;a de acreditar que
+d'esses
+seus actos e palavras n&atilde;o &eacute; absolutamente
+irresponsavel
+talvez a m&aacute; influencia da ceia d'esta
+noite, bastariam elles para me inspirarem por si e
+<span class="pagenum">[266]</span>
+pelo seu caracter o mais completo desprezo; e ent&atilde;o
+seria, como nunca, manifesta a minha independencia,
+porque eu nunca temi os seres que desprezo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique principiava a ser de novo subjugado
+pelo tom de severidade e de energia, com que a
+morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de
+scepticismo obrigou-o a replicar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santo Deus! prima Magdalena; n&atilde;o d&ecirc; um
+colorido t&atilde;o pavoroso &aacute;s minhas
+supposi&ccedil;&otilde;es. Despojal-a
+de uma crueza deshumana, para a dotar de
+uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, &eacute; uma
+justi&ccedil;a feita ao seu cora&ccedil;&atilde;o. E o
+facto que o acaso
+me revelou a nada mais me auctorisa. O pequeno
+e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se
+j&aacute;, creia; e agora s&oacute; me resta invejar a
+sorte de quem tem a felicidade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem
+mais um instante o escutarei; poupar-lhe-hei assim
+os remorsos, que &aacute;manh&atilde; teria da sua infamia...
+<br />
+
+<br />
+
+E animada por uma resolu&ccedil;&atilde;o
+mais energica,
+Magdalena caminhou soberanamente para a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um momento mais.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me passar, senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, sem que me ou&ccedil;a antes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma violencia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma supplica.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira
+um vulto que avan&ccedil;ou para elles.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;sr.<sup>a</sup> D. Magdalena, se f&ocirc;r preciso
+reter o insolente,
+que se lhe atravessa no caminho, ponho um
+bra&ccedil;o &aacute; sua disposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio
+collocar-se entre Henrique e Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu
+de c&oacute;lera. O olhar que fixou no recem-chegado
+trahiu a vehemencia da impress&atilde;o recebida. Depois
+succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias.
+<span class="pagenum">[267]</span>
+Olhou para Magdalena, em quem n&atilde;o era menor a
+surpreza causada pela inesperada presen&ccedil;a de Augusto,
+olhou outra vez para este e soltou uma risada
+cheia de malignidade e de ironia, que a ambos
+fez estremecer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; uma appari&ccedil;&atilde;o tanto a
+tempo, prima
+Magdalena, que aos mais incredulos infundiria f&eacute; na
+interven&ccedil;&atilde;o da Providencia. Que foi sem
+d&uacute;vida
+providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas
+horas mortas, um t&atilde;o generoso e intrepido salvador.
+N&atilde;o &eacute; verdade, prima? O que vale estar de
+bem com Deus!
+<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras mostraram a Augusto que a sua
+interven&ccedil;&atilde;o, ainda que generosa e devida a um
+espontaneo
+impulso da alma, n&atilde;o f&ocirc;ra porventura das
+mais convenientes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor!&#8213;exclamou elle, indignado, dando um
+passo para Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue&#8213;tornou este, com dobrado sarcasmo.&#8213;O
+senhor &eacute; um perfeito heroe de romance; enthusiasta,
+cavalheiresco, mas, em certas occasi&otilde;es,
+inc&oacute;mmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse
+o transtorno que veio causar a um bello dialogo
+que eu sustentava aqui com a sr.<sup>a</sup> D. Magdalena!
+N&atilde;o v&ecirc; como a deixou embara&ccedil;ada? Perdeu
+com a sua vinda o fio da comedia, que desempenhava
+com perfeita sciencia de actriz. As almas ingenuas
+e generosas, como a sua, sr. Augusto, s&atilde;o
+&aacute;s vezes de uma impertinencia! Vamos, sr.<sup>a</sup>
+D. Magdalena;
+n&atilde;o descoro&ccedil;&ocirc;e. Assim exgotou todos os
+recursos da sua imagina&ccedil;&atilde;o? Vamos, introduza
+mais este elemento de appari&ccedil;&atilde;o de um heroe no
+enredo, e organise a comedia com o superior talento
+que tem! Eu por mim acceito todos os papeis
+que me distribuir.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou,
+dizendo com voz firme:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o; vejo n'esta noite em todos uma notavel
+disposi&ccedil;&atilde;o para usurparem direitos, que
+n&atilde;o
+<span class="pagenum">[268]</span>
+possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar; o
+sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que
+j&aacute; ha pouco lhe disse; se algum dia tiver necessidade
+de explicar as minhas ac&ccedil;&otilde;es, fal-o-hei deante
+de outros juizes, em quem reconhe&ccedil;a o direito de o
+serem. Ao outro pe&ccedil;o licen&ccedil;a para lhe lembrar
+que,
+se o titulo de hospede e de parente n&atilde;o f&ocirc;sse
+bastante
+para me assegurar da parte do sr. Henrique
+de Souzellas os respeitos que me s&atilde;o devidos, tinha
+ainda na minha familia defensores legitimos e n&atilde;o
+seria por isso obrigada a recorrer &aacute;
+protec&ccedil;&atilde;o de
+um estranho. Meus senhores...
+<br />
+
+<br />
+
+E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha
+passou por entre elles e entrou para a quinta, sem
+que nenhum a procurasse reter.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se esta senhora acceitasse a sua protec&ccedil;&atilde;o e
+eu teimasse n'aquillo que chamou a minha insolencia,
+qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento?
+Poder-se-ha saber?&#8213;perguntou Henrique,
+logo que a morgadinha desappareceu.
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto, em quem a fria altivez da resposta
+d'ella deix&aacute;ra o desespero no cora&ccedil;&atilde;o,
+respondeu
+acerbamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem v&ecirc; que
+n&atilde;o me esque&ccedil;o facilmente do meu programma de
+mestre-escola.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo; &eacute; a segunda tentativa de
+li&ccedil;&atilde;o que lhe
+mere&ccedil;o. Permitte-me que &aacute;manh&atilde; o
+procure para
+dar principio a um curso de educa&ccedil;&atilde;o mais
+regular?
+<br />
+
+<br />
+
+Augusto respondeu, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um cartel em f&oacute;rma?
+N&atilde;o sei se estarei ensaiado
+para essa comedia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha
+esse sabor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem ouviu que se me negou o direito de tomar
+partido por esta causa. Qualquer scena d'essas
+entre n&oacute;s seria pouco delicada...
+&aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, contemporisemos; e at&eacute; l&aacute;
+&eacute; de esperar
+<span class="pagenum">[269]</span>
+que algum motivo occorra que a explique
+melhor... aos olhos dos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como queira; a minha porta n&atilde;o se fecha a
+quem me procura.
+<br />
+
+<br />
+
+E separaram-se depois de se cortejarem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se me n&atilde;o engano&#8213;dizia comsigo Henrique,
+em caminho do quarto&#8213;&eacute; um verdadeiro desafio
+o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me
+parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando
+um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas,
+decide-se pela f&eacute;rula. Tem gra&ccedil;a! Veremos o
+que &aacute;manh&atilde;, &aacute; luz do dia, eu penso
+d'isto tudo. Eu
+j&aacute; n&atilde;o fico por mim esta noite. Estou a querer
+convencer-me
+de que tenho andado estouvadamente e
+com n&atilde;o demasiado cavalheirismo. Que diabo! &Eacute;
+que esta mulher e este creancelho s&atilde;o irritantes.
+Ella com a sua altivez, elle com os seus brios. Mas,
+na verdade, ser&aacute; este o Endymi&atilde;o d'esta esquiva
+Diana? Caprichos feminis... &Eacute; o tal primo ingenuo
+e timido... A ociosidade da aldeia para alguma
+coisa ha de dar. Mas da maneira por que ella
+lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias...
+O que &eacute; certo &eacute; que estou em lucta com
+uma mulher superior... Pois luctemos, priminha,
+mas com armas leaes. N&atilde;o me prevalecerei do segredo
+que o acaso me revelou, se segredo existe...
+Veremos como ella &aacute;manh&atilde; me trata...
+<br />
+
+<br />
+
+Esta scena deixou em Augusto uma perturba&ccedil;&atilde;o
+de espirito mais profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+As opera&ccedil;&otilde;es mentaes, que o preoccuparam toda
+a noite, eram d'aquellas a que repugna chamar pensar.
+&Eacute; mais uma febre intellectual, um succeder
+de imagens sem ordem nem filia&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o conduz
+a nenhum resultado, que n&atilde;o aconselha nenhum
+partido, que n&atilde;o esclarece, offusca.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se explica esta differen&ccedil;a entre os dois?
+Por um apparente parodoxo; porque Augusto tinha
+mais habitos de reflectir. Quando n'uma vida de
+episodios uniformes e apparentemente vulgares, o
+<span class="pagenum">[270]</span>
+espirito exerce demasiado a analyse, habitua-se a
+estudar factos que para outros passam por insignificantes,
+e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.
+Costumado assim a ligar valor a tudo, quando
+succede que no decurso da vida se lhe depara um
+facto de maior vulto, a confus&atilde;o do primeiro momento
+&eacute; inevitavel. Assim como a balan&ccedil;a de
+precis&atilde;o,
+apropriada para oscillar com pesos tenuissimos,
+n&atilde;o &eacute; a que pode servir para os grandes
+pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar
+subtis accidentes, de que se comp&otilde;e o drama habitual
+da vida, n&atilde;o &eacute; a que de subito pode avaliar algum
+mais complexo e importante.
+<br />
+
+<br />
+
+A resolu&ccedil;&atilde;o n'estes espiritos, depois de formada,
+&eacute; mais tenaz; mas, emquanto se n&atilde;o
+f&oacute;rma, vae
+n'elles um tumulto de ideias, que se n&atilde;o podem
+analysar.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o analysemos, pois, as de Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o socegou emquanto n&atilde;o viu Henrique
+voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por
+que sa&iacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que resultar&aacute; d'isto?&#8213;pensava ella.&#8213;Que
+far&aacute; elle &aacute;manh&atilde;?... &Eacute;
+preciso n&atilde;o me acobardar,
+ou estou vencida... Mas que se passaria depois
+que os deixei?... Veremos &aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena
+sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que lhe occorrera ent&atilde;o este pensamento:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que n&oacute;s, as mulheres, temos filtros
+subtis para nos tornar amadas. Pois ser&aacute; mais difficil
+fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM DO PRIMEIRO VOLUME</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><a name="Vol.II"></a>BIBLIOTHECA ESCOLHIDA<br />
+
+<br />
+
+XXIII</h4>
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>
+ROMANCE<br />
+
+<br />
+
+III<br />
+
+<br />
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Vol. II</span></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h5>
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL<br />
+
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28<br />
+
+TELEPHONE 2337</h5>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<span style="font-weight: bold;" class="quote">JULIO
+DINIZ</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA<br />
+
+DOS<br />
+
+CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<h4>(CHRONICA DA ALDEIA)
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>DECIMA-SETIMA EDI&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<img style="width: 150px; height: 146px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+J. RODRIGUES &amp; C.<sup>a</sup>, EDITORES<br />
+
+186&#8213;Rua Aurea&#8213;188<br />
+
+<em>1920</em>
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>XVII
+</h4>
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia mentido a grande
+scintilla&ccedil;&atilde;o das estrellas
+na noite de Natal.
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; do dia seguinte correspondeu ao augurio
+meteorologico, rompendo pura, desennevoada,
+com um c&eacute;o azul sem manchas, e um sol de fundir
+os g&ecirc;los dos montes e os g&ecirc;los da velhice.
+<br />
+
+<br />
+
+O frio intenso convidava a sair, e desde pela manh&atilde;
+alde&otilde;es de ambos os sexos, de camisas lavadas
+e roupas domingueiras, atravessavam os campos,
+saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas
+e quelhas na direc&ccedil;&atilde;o da igreja matriz, onde
+se deviam celebrar as festas da Natividade.
+<br />
+
+<br />
+
+Era dia santo entre os que mais o s&atilde;o; e os dias
+santos na aldeia teem uma fei&ccedil;&atilde;o solemne e
+festiva,
+que mal avaliamos n&oacute;s, os que passamos a vida nos
+apertados horizontes das cidades, phantasiando o
+campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente
+nas c&oacute;pas das enfezadas arvores das
+nossas pra&ccedil;as e jardins.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde que a moda estabeleceu a lei de n&atilde;o solemnisar
+o domingo nem o dia santo, com um vestuario
+mais asseiado, com um prato mais exquisito
+na lista do jantar, com uma divers&atilde;o excepcional,
+que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar
+n'esses dias, exactamente como em todos os da semana,
+<span class="pagenum">[4]</span>
+perderam nas cidades os dias do Senhor a
+fei&ccedil;&atilde;o typica e interessante, que por muito tempo
+tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem
+de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer
+no domingo ao som do sino, que chama para
+a missa matinal.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir&aacute; ent&atilde;o se n&atilde;o parece que
+at&eacute; o sol tem outra
+luz e que as arvores e as plantas se toucaram de
+flores novas, que guardam de reserva para os dias
+de festa.
+<br />
+
+<br />
+
+Este particular aspecto do domingo estava-o logo
+pela manh&atilde; sentindo Henrique de Souzellas, encostado
+&aacute; varanda do quarto em que pernoit&aacute;ra, e
+emquanto esperava que o chamassem para o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+De vez em quando a recorda&ccedil;&atilde;o das scenas
+nocturnas
+da vespera desviava-lhe para outra ordem
+de reflex&otilde;es o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles
+incidentes &aacute; memoria, mas vagos e confusos,
+como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a
+duvidar da realidade d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora estava experimentando certa curiosidade e
+tambem receio de saber como seria recebido pela
+morgadinha, e que posi&ccedil;&atilde;o deveria tomar na
+presen&ccedil;a
+d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Formava a este respeito varias conjecturas, sem
+se fixar em nenhuma.
+<br />
+
+<br />
+
+D'estas cogita&ccedil;&otilde;es veio por fim arrancal-o o
+toque
+da campainha annunciando o almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos,&#8213;disse Henrique&#8213;preparemo-nos
+para o primeiro embate. Apuremos a vista para
+n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle
+regular o meu plano de tactica.
+<br />
+
+<br />
+
+E depois de uma rapida consulta ao toucador,
+desceu para a sala do almo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro,
+e a morgadinha presidindo &aacute; mesa e preparando
+o ch&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram
+<span class="pagenum">[5]</span>
+da maneira por que elle tinha passado a
+noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente;
+e, falando, desviava o olhar para Magdalena,
+que o encontrou do modo mais natural, sem
+timidez nem audacia.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando
+portanto a vez de cumprimentar Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, prima Magdalena,&#8213;disse Henrique,
+estendendo a m&atilde;o e fixando-a com olhar investigador.
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com
+sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer
+horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma
+indiscre&ccedil;&atilde;o mandar tocar a campainha. Esqueci-me
+de prevenir que respeitassem a indolencia cidad&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu &eacute; que n&atilde;o consentia:&#8213;disse o
+conselheiro&#8213;na
+aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as
+minhas alvoradas s&atilde;o mais tardias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, sr. conselheiro. Eu proprio n&atilde;o
+esperei
+que me acordasse o toque da sineta. Ha muito
+que eu namorava a manh&atilde; da janella do meu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o pude dormir toda a santa noite&#8213;disse
+D. Doroth&eacute;a.&#8213;Estranhei a cama e a casa. Eu c&aacute;
+sou assim, quem me tira do meu ninho!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; prima, n&atilde;o v&aacute; sem resposta&#8213;disse
+D. Victoria&#8213;que
+tambem eu n&atilde;o puz olho, e mais sou
+de casa. E por signal que sempre hei de querer saber
+quem foi o criado que lhe deu para andar toda
+a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda
+ouvia p&eacute;s nas escadas de pedra. &Eacute; verdade; o
+primo
+Henrique n&atilde;o ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora; eu n&atilde;o senti rumor.
+<br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da
+morgadinha, que justamente n'aquella occasi&atilde;o lhe
+servia uma chavena de ch&aacute;, e que de novo o fixou
+sem perturba&ccedil;&atilde;o nem affectada
+indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+Henrique sentiu-se embara&ccedil;ado com isto. Custava
+um pouco &aacute; sua vaidade este nenhum vestigio de
+resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto D. Victoria continuava a commentar
+com D. Doroth&eacute;a o facto das passadas que ouvira
+de noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-se d'isso, prima. &Eacute; porque n&atilde;o sabe o
+que vae. S&atilde;o coisas d'estes criados. N&atilde;o faz
+ideia!
+&Eacute; uma pouca vergonha! &Eacute; preciso paciencia de
+santa para os aturar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Angelo,&#8213;disse a morgadinha ao irm&atilde;o&#8213;entretido
+como est&aacute;s a conversar com as crean&ccedil;as,
+esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece
+de se fazer lembrar. Que distrac&ccedil;&otilde;es por aqui
+v&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle
+tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas
+abstrac&ccedil;&otilde;es, a que ultimamente era sujeita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei que tem hoje esta Christe&#8213;disse
+Angelo.&#8213;Julgo que lhe fez mal o frio na noite de
+hontem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, at&eacute; est&aacute; falta de
+c&ocirc;r! Ora queira
+Deus que n&atilde;o seja coisa de cuidado. D&oacute;e-te alguma
+coisa, menina?&#8213;perguntou D. Victoria, apprehensiva.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mam&atilde;&#8213;respondeu Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meninas, voc&ecirc;s tambem s&atilde;o umas
+desacauteladas.
+Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses
+mais roupa. Tudo &eacute; n&atilde;o faz mal, tudo &eacute;
+n&atilde;o tem
+d&uacute;vida, e depois &eacute; que vem o queixarem-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas
+mais n'este sentido. Estas reflex&otilde;es fizeram Henrique
+desviar os olhos para a pessoa que era objecto
+d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina estava effectivamnte pallida e pensativa;
+e d'esta c&ocirc;r e d'esta express&atilde;o recebia uns ares
+de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta
+<span class="pagenum">[7]</span>
+crean&ccedil;a, em que mal fix&aacute;ra a
+atten&ccedil;&atilde;o at&eacute; alli, e pela
+primeira vez se demorou a observal-a com alguma
+insistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; interessante esta pequenita&#8213;pensava elle
+comsigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Christina ia a levantar os olhos para responder a
+D. Doroth&eacute;a, quando encontrou os de Henrique a
+fital-a. Assomou-lhe ent&atilde;o &aacute;s faces um mal
+pronunciado
+rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e
+os olhos baixaram-se de novo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de ser adoravel esta mulher&#8213;pensou
+d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro disse, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, que est&atilde;o a dizer? A Christe at&eacute;
+est&aacute; com
+umas c&ocirc;res muito bonitas. Triste? Melancolias dos
+dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente
+est&aacute; agora n'algum episodio sentimental no
+romance da sua imagina&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o
+sondemos aquelles
+mysterios, mana. J&aacute; n&atilde;o &eacute; para
+n&oacute;s comprehendel-os,
+prima Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou
+o enleio de Christina.<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, a quem n&atilde;o pass&aacute;ra despercebida
+a impress&atilde;o, que a prima d'est&aacute; vez parecia ter
+causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que
+havia tanto procurava, e para isso propoz que se
+d&eacute;sse uma volta pela aldeia antes da missa do dia.
+Esperava ella que as atten&ccedil;&otilde;es de Henrique,
+durante
+o passeio, seriam para Christina, se n&atilde;o decorresse
+o tempo preciso para que se dissipasse no espirito
+do voluvel rapaz a impress&atilde;o que o dominava.
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; convidava &aacute; excurs&atilde;o
+campestre. A
+proposta da morgadinha foi acolhida com applauso.
+O conselheiro prometteu acompanhal-os at&eacute; &aacute; casa
+do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Levantaram-se todos da mesa, e &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o de
+D. Victoria e D. Doroth&eacute;a, todos sa&iacute;ram.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, sob n&atilde;o sei que pretexto, deixou-se
+<span class="pagenum">[8]</span>
+ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique
+de offerecer o bra&ccedil;o a Christina, o que effectivamente
+aconteceu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem,&#8213;disse Magdalena comsigo ao v&ecirc;l-os&#8213;agora
+que os anjos bons de um e de outro se conven&ccedil;am
+da obra meritoria que fazem entendendo-se.
+<br />
+
+<br />
+
+E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe
+no bra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Angelo ia com as crean&ccedil;as adeante.
+<br />
+
+<br />
+
+Approximemo-nos n&oacute;s de Henrique e de Christina,
+para v&ecirc;r se os anjos bons d'elles ambos accederam
+ao convite de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha prazer que se compare ao de um passeio
+assim pelos campos, n'uma manh&atilde; como a de
+hoje, e em companhia t&atilde;o amavel&#8213;dizia Henrique,
+procurando aquilatar o espirito da sua
+<em>partner</em>,
+n'um certame de galanteria, f&oacute;ra do qual n&atilde;o
+concebia
+que se pudesse temperar uma paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas
+respostas lhe estava porventura ditando a alma!
+mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, n&atilde;o
+lhe deixando formulal-as; apenas p&ocirc;de responder:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; muito agradavel a manh&atilde;, est&aacute;;
+nem parece
+de inverno!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo que vejo, n&atilde;o gosta do inverno? &Eacute; natural
+em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as
+aves, suas irm&atilde;s. Eu prefiro o inverno, porque prepara
+a vida intima, as scenas ao canto do fog&atilde;o, as
+leituras em commum, e traz-me &aacute; ideia as imagens
+de um viver a que a phantasia de todos sorri; de
+todos os que teem um resto de cora&ccedil;&atilde;o; refiro-me
+&aacute;s imagens de uma familia.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha quem sustente mais tremendas luctas do
+que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda
+a violencia dos seus instinctos, contra n&atilde;o sei que
+mysterio de temperamento, que lhes reprime as
+expans&otilde;es. Na apparencia &eacute; fraqueza e serenidade,
+mas no intimo ha esfor&ccedil;os realisados, que os fortes
+nem concebem sequer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas.
+Os labios s&oacute; puderam responder:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na cidade o inverno &eacute; mais facil de passar,
+julgo eu; por&eacute;m na aldeia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a
+felicidade que eu imagino. N&atilde;o &eacute; f&oacute;ra
+das portas de
+casa que devemos procurar os elementos para instituir
+a nossa ventura, e por isso... Mas a prima
+ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem
+que completou os seus vinte e sete annos sem
+familia. N&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+Christina s&oacute; p&ocirc;de sorrir:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se
+a morrer apaixonado do ideal e abra&ccedil;ado &aacute; peor
+das realidades. &Eacute; a consequencia legitima e triste
+do aspirar demasiado. At&eacute; hoje tenho encontrado
+na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes;
+por&eacute;m nenhuma que satisfizesse &aacute;s necessidades do
+meu cora&ccedil;&atilde;o, de quem me affirmasse a consciencia
+poder esperar a realisa&ccedil;&atilde;o do meu sonho.
+Perd&ocirc;e-me
+falar-lhe n'isto, priminha; &eacute; uma ousadia que
+tomei, porque um instincto me disse que possue no
+cora&ccedil;&atilde;o bastante bondade para m'a perdoar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; a gracejar?&#8213;disse Christina, em quem
+redobrava a turba&ccedil;&atilde;o, e que, ao mesmo tempo que
+estava sendo feliz, desejava v&ecirc;r interrompida a sua
+felicidade: contradic&ccedil;&otilde;es proprias dos timidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prima &eacute; muito mo&ccedil;a&#8213;continuou Henrique,
+que n&atilde;o desesperava ainda de animar esta Galatheia&#8213;e
+talvez por isso lhe causar&aacute; estranheza este meu
+modo de falar. Um dia vir&aacute;, por&eacute;m, em que o
+comprehender&aacute;
+melhor. Se ent&atilde;o encontrar um desconfortado
+como eu, pe&ccedil;o-lhe que tenha misericordia
+d'elle e o salve do desalento, em atten&ccedil;&atilde;o a quem
+a
+conheceu n'uma &eacute;poca, em que s&oacute; podia
+v&ecirc;r em si,
+priminha, a aurora de uma esperan&ccedil;a que j&aacute;
+n&atilde;o
+tinha de luzir para elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... salval-o!... como salval-o!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como as mulheres salvam; amando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[10]</span>
+&#8213;Bem digo eu que est&aacute; a gracejar&#8213;balbuciou
+Christina, com voz tr&eacute;mula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem o defeito da innocencia&#8213;disse Henrique
+para si.&#8213;N&atilde;o se lhe tira uma resposta de geito.
+<br />
+
+<br />
+
+N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena
+tinha sa&iacute;do da quinta na noite passada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora deixo-os por aqui&#8213;disse o conselheiro&#8213;irei
+encontral-os &aacute; igreja. Vou arrostar com a fera
+silvestre ao proprio covil.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei&#8213;disse
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, filha; serei de cera. At&eacute; logo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; logo.
+<br />
+
+<br />
+
+E o conselheiro tomou a direc&ccedil;&atilde;o da casa do
+herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era tempo!&#8213;disse Henrique comsigo.&#8213;A
+minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este
+g&ecirc;lo.
+<br />
+
+<br />
+
+A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando
+as physionomias de Christina e de Henrique,
+conheceu que se n&atilde;o haviam entendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda n&atilde;o!&#8213;murmurou ella.&#8213;Pobre Christe!
+como se deve estar odiando a si mesma! Como ha
+de esta crean&ccedil;a vencer este obstinado? Mas n&atilde;o
+perco ainda as esperan&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique, na presen&ccedil;a d'estes sitios, recordou-se
+da scena da vespera e tentou outra vez experimentar
+Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta porta &eacute; da quinta do Mosteiro, n&atilde;o
+&eacute;,
+prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;&#8213;respondeu Magdalena, imperturbavel; e
+voltando-se para Angelo:&#8213;O que te faz lembrar
+esta porta, Angelo?&#8213;perguntou ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que muitas vezes por aqui sa&iacute;mos, eu e v&oacute;s
+ambas j&aacute; de noite, e sem a tia saber, para irmos
+ter com o tio Vicente, que voltava da ca&ccedil;a das borboletas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fica perto a casa d'elle?&#8213;perguntou Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span>
+&#8213;&Eacute; alli, logo ao dobrar d'aquella esquina&#8213;respondeu
+Angelo.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique pensava:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seria para provocar uma explica&ccedil;&atilde;o que ella
+fez a pergunta? Esta mulher &eacute; admiravel! N&atilde;o lhe
+sei resistir.
+<br />
+
+<br />
+
+E j&aacute; lhe n&atilde;o restavam vestigios da
+impress&atilde;o
+causada por Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este herbanario&#8213;continuou elle em voz alta&#8213;deve,
+pelos seus habitos excentricos e at&eacute; pelo
+solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa
+famazinha de feiticeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tem,&#8213;affirmou Magdalena&#8213;mas de feiticeiro
+bem intencionado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle,
+do seu viver.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo que poucos se atrevem a passar aqui
+de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o temem-se de passar aqui de
+noite!... Pobre homem!... O que lhe valer&aacute; &eacute;
+algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia.
+Que diz, prima Magdalena? haver&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Antes que a morgadinha respondesse, Angelo
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; excep&ccedil;&atilde;o de Augusto, que ahi vem
+quasi
+todas as noites, ninguem mais o visita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas
+as noites?!
+<br />
+
+<br />
+
+Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; me parecia que havia de existir algum de
+coragem. Para tanto n&atilde;o chegava o seu animo n&atilde;o,
+prima?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto chega, que j&aacute; muita vez alli tenho ido
+s&oacute;, e a altas horas&#8213;respondeu Magdalena com a
+maior firmeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?! E n&atilde;o tem m&ecirc;do?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De qu&ecirc;? De almas do outro mundo? n&atilde;o tenho
+cren&ccedil;a para tanto. De malfeitores? n&atilde;o os ha
+aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com
+<span class="pagenum">[12]</span>
+uma suspeita me offendem&#8213;disse a morgadinha,
+accentuando com express&atilde;o as ultimas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique acudiu immediatamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Longe de mim duvidal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+E calaram-se por muito tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho
+para casa do herbanario. Cruzou-se com varios
+homens, mulheres e crean&ccedil;as de aspecto doentio e
+soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito
+dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos,
+crean&ccedil;as de aspecto rachitico e enfezado,
+os mais melancolicos exemplares do infortunio
+humano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o os peregrinos que veem de Meca&#8213;disse
+comsigo o conselheiro.&#8213;Pelo que vejo a clientela
+do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel,
+como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo
+censor n&atilde;o trata com muito respeito o codigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Entrou emfim a porta do quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos passos andados encontrou-se com o Z&eacute;
+P'reira, que vinha virando e revirando nas m&atilde;os
+um papel e monologando, segundo o costume:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso
+Senhor com esta mexerofada! Isso at&eacute; era um peccado.
+N'essa n&atilde;o caio eu!
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrogou-o sobre as causas
+d'aquelle aranzel.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando
+uma receita que lhe dera o herbanario no
+virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho,
+causa dos seus males. A receita era extrahida da
+<em>Polyantheia</em>, e tinha por
+ingredientes uma cabe&ccedil;a
+e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado
+de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe
+a efficacia.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de se separar do Z&eacute; P'reira, o conselheiro
+seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem
+a quem era familiar a topographia do quintal. C&ecirc;do
+<span class="pagenum">[13]</span>
+chegou &aacute; vista do herbanario, que dera audiencia
+<em>sub tegmine fagi</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava sentado &aacute; borda de um tanque, a que uma
+d'essas arvores dava sombra.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros
+e veio ter com elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabe&ccedil;a, e,
+depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira
+posi&ccedil;&atilde;o e ficou silencioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, Vicente&#8213;disse o conselheiro com
+familiariedade e parando defronte d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias, Manoel&#8213;respondeu o herbanario,
+deixando-se ficar sentado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sa&iacute;a agora d'aqui um homem, que julgo ser&aacute;
+rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que
+se n&atilde;o cura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os vicios s&atilde;o enfermidades mais rebeldes do
+que os achaques do corpo, s&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; que tu n&atilde;o appareces no Mosteiro, como
+d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal,
+vim eu v&ecirc;r-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente&#8213;continuou
+o conselheiro, sentando-se &aacute; beira do
+tanque.&#8213;Cada vez te est&aacute;s a sequestrar mais dos
+homens, cada vez mais os aborreces.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o aborre&ccedil;o os homens, enganas-te.
+N&atilde;o
+os aborrece quem passa a vida a procurar os
+meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes.
+Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro
+j&aacute; no mundo pouca gente com quem me
+entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por
+isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s um homem singular; um verdadeiro philosopho.
+Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando
+assim passas uma manh&atilde; inteira, sentado n'esse
+banco, com os joelhos ao sol, os bra&ccedil;os cruzados,
+e os olhos no ch&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No passado. Pois n&atilde;o t'o disse j&aacute;? O domingo
+<span class="pagenum">[14]</span>
+reservo-o eu para me recordar. Ahi est&aacute; que ha
+pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques
+na igreja, lembrei-me de que era, dia de
+Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos
+atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle,
+Manoel?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do dia de Natal de ha quarenta annos? N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e
+dois annos que, mais c&ecirc;do do que estas horas,
+vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais
+ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo.
+Meu pae sa&iacute;ra; julg&aacute;mos n&oacute;s ambos boa
+a
+occasi&atilde;o de levar a cabo um projecto que havia
+muito tempo traziamos na cabe&ccedil;a. Crescia a um
+canto do muro, al&eacute;m, &aacute; beira do po&ccedil;o,
+uma pequena
+faia que alli n&atilde;o podia durar muito tempo; meu
+pae todos os dias a amea&ccedil;ava com a enxada e a
+custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a.
+Deit&aacute;mos m&atilde;os &aacute; obra essa
+manh&atilde;, e, no fim
+de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a
+para onde a deixassem em paz os hortel&otilde;es,
+e para junto da agua que ella j&aacute; tinha procurado.
+Conheces a arvore hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;disse o conselheiro, olhando em roda,
+como &aacute; procura de algum pequeno arbusto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha que ha quarenta annos; a planta &eacute; hoje
+arvore. &Eacute; esta a que me encosto.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro levantou ent&atilde;o os olhos para os
+ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse
+impossivel ter sido removida para alli por suas
+m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular como os annos correm, e as arvores
+crescem depressa&#8213;disse elle, distrahidamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois da nossa tarefa, sent&aacute;mo-nos&#8213;proseguiu
+o herbanario.&#8213;Tu ficaste, exactamente como
+est&aacute;s agora, &aacute; beira d'este tanque.
+Ent&atilde;o, lembra-me
+bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto,
+que ainda n&atilde;o sabiamos se viveria, tu disseste:
+&laquo;Fizemos uma obra que durar&aacute; mais do que
+<span class="pagenum">[15]</span>
+n&oacute;s.&raquo; E eu respondi: &laquo;Quem sabe? O
+machado vem,
+quando menos se espera.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como te lembras bem d'essas coisas!&#8213;disse
+o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque
+n&atilde;o agourava bem do exordio que abrira a entrevista.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, eu tenho boa memoria!
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu
+subitamente, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro respondeu com resolu&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;r-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te
+de um objecto grave.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? E commigo &eacute; que vens tratar os objectos
+graves?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? sempre foste homem de bom
+conselho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste
+assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o poder&aacute;s dizer que deixasse alguma vez de
+te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos
+diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar
+diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi
+procedem divergencias naturaes, que comtudo nos
+n&atilde;o obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, ent&atilde;o dizias tu que vinhas?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trata-se de um negocio de muita importancia,
+Vicente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Responde-me primeiro: tens ainda animo para
+sacrificios?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouco tenho que sacrificar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens, e &eacute; um sacrificio doloroso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acaba.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este
+quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario, contra a expectativa do conselheiro,
+acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu,
+com certa ironia:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+&#8213;E para que me vens consultar? Posso eu opp&ocirc;r-me
+a isso? Avisas-me para eu me arredar a
+tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do
+que eu, a fim de que n&atilde;o me esmaguem ao ca&iacute;rem
+decepadas? &Eacute;s generoso, Manoel, em teres ainda
+em conta a vida de um homem inutil.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute;s j&aacute; com as tuas
+recrimina&ccedil;&otilde;es. Acredita
+que eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o mintas, Manoel, n&atilde;o mintas. Ias dizer que
+n&atilde;o tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem
+e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares
+o cora&ccedil;&atilde;o de um velho e pobre amigo e offenderes
+os interesses de algum rico e poderoso
+influente, tomaste o primeiro partido; e, como os
+differentes habitos de vida te ensinaram em muitas
+coisas, como dizes, a pensar differente de mim, n&atilde;o
+d&eacute;ste a isso o nome de ingratid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouve.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&ecirc; franco, que eu te ouvirei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era
+indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes.
+Estava n'isso empenhada a minha palavra e a
+minha honra. Ha muito que os meus adversarios
+me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui,
+apesar d'esta situa&ccedil;&atilde;o politica me ser contraria.
+Tres tra&ccedil;ados se offereciam. Um sacrificava
+uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo
+que n&atilde;o &eacute; muito rico, que est&aacute; no
+principio da
+existencia e que s&oacute; Deus sabe se no decurso d'ella
+n&atilde;o teria occasi&atilde;o de maldizer a imprevidencia de
+quem devera olhar por os seus interesses. Querias
+que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos
+hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo,
+convenientemente trabalhados, podem ser de um
+valor importante. Querias que o fizesse? ou n&atilde;o me
+desculpas por o n&atilde;o ter feito?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fizeste bem&#8213;respondeu o herbanario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O outro tra&ccedil;ado cortava os bens do brazileiro
+Seabra. Conheces este homem? Um elemento que,
+<span class="pagenum">[17]</span>
+nas m&atilde;os de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a
+vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas
+tambem uma cabe&ccedil;a que, entregue a si, n&atilde;o faz
+coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente
+a esse tra&ccedil;ado; se o n&atilde;o attendesse,
+declarava-se,
+por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia
+(e algumas armas tem para luctar), imagina a
+calamidade que seria para este circulo o confiar
+&aacute;quellas m&atilde;os os seus destinos; vencido, era
+perder
+a esperan&ccedil;a de tirar dos bem fornecidos cofres,
+que o homem possue, alguma coisa mais util do
+que um sino para a igreja ou vestimentas novas
+para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar
+o homem, para v&ecirc;r se consigo d'elle uma casa para
+escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos,
+e um estabecimento sericicola; se o desattendesse,
+l&aacute; iam as esperan&ccedil;as d'estes melhoramentos
+t&atilde;o uteis, e que o mais que nos poder&atilde;o custar
+&eacute; um diploma de visconde ou uma commenda. Sei
+que te n&atilde;o agradam estes meios, por&eacute;m olha que
+em politica s&atilde;o dos mais innocentes que podem
+empregar-se. J&aacute; v&ecirc;s pois que o segundo
+tra&ccedil;ado tinha
+desvantagens para o circulo, por cujo interesse
+me empenho dev&eacute;ras; podes crel-o. Resta pois o
+terceiro tra&ccedil;ado que, lealmente o confesso, n&atilde;o
+era
+o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado;
+eu sabia de mais o que valia para o teu
+cora&ccedil;&atilde;o o sacrificio que se te vinha exigir; eu
+mesmo
+possuo memorias ligadas a estas arvores, e n&atilde;o ha
+homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia
+desapparecerem os vestigios dos seus tempos
+de infancia e de juventude; mas sabia tambem
+que tu eras uma alma generosa e heroica, e que n&atilde;o
+duvidarias comprar, &aacute; custa das tuas dores e saudades,
+um melhoramento para esta terra, que tanto
+amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida
+ainda agora de m&aacute; vontade, corre risco de se
+n&atilde;o fazer, se, quanto antes, n&atilde;o principiarem os
+trabalhos;
+a menor opposi&ccedil;&atilde;o dos proprietarios, o menor
+<span class="pagenum">[18]</span>
+embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura
+indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente.
+Enganei-me?
+<br />
+
+<br />
+
+O herbanario estava cada vez mais
+pensativo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pensaste bem. A velhice &eacute; assim; e eu queria dar mais
+importancia a dois annos de vida que me restam, do que &aacute;
+vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Al&eacute;m de que,
+dissipa as apprehens&otilde;es com que est&aacute;s; em
+toda a parte ter&aacute;s arvores... <br />
+
+<br />
+
+O herbanario interrompeu-o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o entendes o amor que eu tenho a estas,
+n&atilde;o fa&ccedil;as por consolar-me, Manoel, porque me
+affliges mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em
+qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago
+&aacute; tua espera, tanto &aacute; mesa, como ao canto do
+fog&atilde;o, e amigos que te receber&atilde;o
+com prazer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de
+pobre teria tecto e p&atilde;o. Conto com a colheita de algum bem
+que semeei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu farei com que o contracto da expropria&ccedil;&atilde;o
+seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero,
+ninguem m'o pagaria; a n&atilde;o attender a isso, tudo
+ser&aacute; pagal-o bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores
+me ou&ccedil;am prop&ocirc;r o pre&ccedil;o
+por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, ent&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo. Dize em que te posso servir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Peco-te que decidas a preten&ccedil;&atilde;o d'aquelle pobre
+rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um
+homem, que tem vinte annos, um cora&ccedil;&atilde;o e uma
+cabe&ccedil;a como tu sabes, e
+<span class="pagenum">[19]</span>
+que de ti e dos teus, da gente que d&aacute; e vende
+gra&ccedil;as, honras e empregos, s&oacute; quer um favor...
+mais uma justi&ccedil;a: lembra-te d'isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falas do despacho effectivo para professor? &Eacute; uma coisa
+facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse
+rapaz perde por modesto. Acredita, &aacute;s vezes &eacute;
+mais facil servir os
+ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. &Eacute;
+certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas
+n&atilde;o importa; conta com isso, como negocio concluido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emquanto n&atilde;o vir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje mesmo escrevo para Lisboa. &Eacute; s&oacute; isso que
+pedes? V&ecirc; l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que me deixes agora s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o me ficas querendo mal, Vicente? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Estou a acreditar que tiveste raz&atilde;o, ou
+pelo menos que supp&otilde;es que a tens. Basta-me isso para te
+perdoar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc;r-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de
+Reis volto a Lisboa, e s&oacute; tornarei para a campanha
+eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o prometto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro estendeu a m&atilde;o ao herbanario, que
+n&atilde;o retirou a sua, e partiu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; feito!&#8213;ia pensando o conselheiro &aacute;
+sa&iacute;da&#8213;n&atilde;o foi t&atilde;o difficil como
+julgava. Est&aacute; razoavel o homem. Quem o viu e quem o
+v&ecirc;! O que faz a idade! Bem! Agora &eacute; apressar os
+trabalhos para antes das elei&ccedil;&otilde;es, a
+v&ecirc;r se acalmam algum
+fermentosito de opposic&atilde;o, que por ahi possa haver, que
+pequeno ser&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+N'estas cogita&ccedil;&otilde;es chegou &aacute; igreja.
+Magdalena esperava-o no adro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;perguntou ella, com anciedade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo est&aacute; remediado; entendemo-nos
+perfeitamente&#8213;respondeu o conselheiro, com manifesta
+satisfa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+&#8213;Dev&eacute;ras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!&#8213;exclamou
+Magdalena, com alegria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como ceder?&#8213;tornou o pae.&#8213;Elle &eacute; que foi mais
+condescendente do que eu esperava. N&atilde;o opp&ocirc;z a
+menor resistencia, nem se queixou muito amargamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois consentiu?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem grande custo, ao que parecia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! meu Deus! agora &eacute; que eu temo
+dev&eacute;ras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu
+pae! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos; a tua imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; que te
+illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o
+brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu
+vou j&aacute; ter comvosco. <br />
+
+<br />
+
+E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que
+estavam aquellas duas notabilidades. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-lhes uma boa nova, meus senhores&#8213;disse o conselheiro, depois de
+cumprimental-os&#8213;dentro em pouco temos os alvi&otilde;es a
+trabalhar c&aacute; na
+terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do
+homem, que nos obrigassem a
+expropria&ccedil;&otilde;es judiciaes, sempre demoradas. Mas
+n&atilde;o, achei-o nas melhores disposi&ccedil;&otilde;es;
+e assim, dentro em
+poucos dias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios
+n&atilde;o sejam t&atilde;o doceis&#8213;lembrou o brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sabe que s&atilde;o terras insignificantes, cujos possuidores
+com pouco se contentam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco&#8213;disse o
+brazileiro, sorrindo velhacamente&#8213;mas os modernos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois mudaram de senhorio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem os comprou?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+&#8213;Este seu criado. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, por&eacute;m,
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e
+independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos
+publicos, do que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar est&atilde;o os
+melhoramentos particulares. Eh, eh, eh. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo que n&atilde;o ha de querer p&ocirc;r estorvos a uma
+empreza como esta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estorvos, n&atilde;o, mas emfim... Amigos, amigos, negocios
+&aacute; parte. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o
+espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?&#8213;requereu do lado o sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mil que pretenda&#8213;acudiu o conselheiro; e tomando o bra&ccedil;o
+do morgado afastou-se do grupo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tenho a pedir-lhe um favor&#8213;principiou o morgado.&#8213; Eu, como sabe,
+interesso-me muito pelo mestre-escola do Ch&atilde;o do Pereiro,
+que quer vir ensinar para aqui. Este negocio est&aacute; empatado,
+como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este
+respeito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas...&#8213;fez-lhe notar o conselheiro&#8213;n&atilde;o sabe
+que &eacute; Augusto o outro concorrente? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que tem isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe parece que seria uma injusti&ccedil;a? Um
+rapaz de merecimento, como elle &eacute;, aqui da terra, que
+j&aacute; exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia?
+e haviamos de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade,&#8213;atalhou o outro&#8213;pois isso &eacute;
+verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se o rapaz quer isto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa &eacute; fresca. E
+vamos, sr. conselheiro, a gente tambem
+<span class="pagenum">[22]</span>
+n&atilde;o ha de estar s&oacute; a
+fazer favores, sem os
+receber quando os pede. Com este j&aacute; s&atilde;o tres.
+Pedi-lhe
+para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas
+caudelarias l&aacute; para a freguezia... estou &aacute; espera
+d'ellas... Ora isto n&atilde;o se faz. O
+senhor sabe que eu lhe tenho vencido as elei&ccedil;&otilde;es
+com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora
+n&atilde;o sei o que ser&aacute;. A
+n&atilde;o se decidir este negocio depressa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora n&atilde;o ser&aacute; isso motivo para tanto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com certeza que &eacute;&#8213;insistiu o sr.
+Jo&atilde;ozinho.&#8213;Ent&atilde;o digo-lhe mais: a mim
+j&aacute; me falaram. Ha ahi alguem que n&atilde;o desgostaria
+dos votos de que eu disponho, e votar pelos que j&aacute;
+est&atilde;o no
+poleiro n&atilde;o sei se lhe diga que n&atilde;o &eacute;
+peor. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de
+fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em
+rela&ccedil;&atilde;o ao que me diz, eu verei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! N&atilde;o &eacute; &laquo;eu verei&raquo;.
+Ent&atilde;o falo-lhe claro. Se d'aqui at&eacute; &aacute;s
+elei&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o estiver feito o despacho, n&atilde;o conte commigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem lhe diz que n&atilde;o ha de estar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois l&aacute; isso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem. <br />
+
+<br />
+
+O sino tocava a chamar para a festa. <br />
+
+<br />
+
+Terminou o dialogo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor&#8213;ia pensando o conselheiro&#8213;o peor &eacute; que prometti
+ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. N&atilde;o tem
+d&uacute;vida; &eacute;
+t&atilde;o magra a posta, que n&atilde;o vale a pena
+disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. &Eacute;
+preciso ter
+ambi&ccedil;&atilde;o por elle. Se elle quizesse ir para
+Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, j&aacute; se
+maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a v&ecirc;r o
+que sabe.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado
+o pae de Magdalena a ponto de n&atilde;o conter um movimento de
+impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e,
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de cortezias e
+cumprimentos, lhe pedia um momento de atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o
+latinista com tanto ardor namorava. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau
+humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! O senhor &eacute; uma sanguesuga que se n&atilde;o
+farta de chupar. Contente-se com o que tem; v&aacute; conjugando o <em>laudo,
+laudas</em>, que outros, com mais merecimentos, nem isso
+conseguem; e deixe-me. <br />
+
+<br />
+
+O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a
+admoesta&ccedil;&atilde;o, e curvou-se para deixar passar o
+conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Mas l&aacute; comsigo dizia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Elle &eacute; isso?! Pois veremos se a sanguesuga te
+n&atilde;o pica. <br />
+
+<br />
+
+E entrou tambem para a igreja, com n&atilde;o muito
+christ&atilde;s disposi&ccedil;&otilde;es de espirito. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XVIII </h4>
+
+<br />
+
+Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em
+visitas &aacute;s freguezias e aos influentes d'aquelle circulo
+eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que
+tomava parte, com g&ocirc;sto, n'estas excurs&otilde;es
+politicas. <br />
+
+<br />
+
+Em casa do sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, na freguezia de
+Pinch&otilde;es, passaram elles um dia. Nos solares
+<span class="pagenum">[24]</span>
+do morgado tudo era desordem e
+desmazelo; a cada passo se trope&ccedil;ava n'um podengo ou se
+trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira
+lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes
+d&oacute;ses de carne de porco e de vinho, com que elle,
+&aacute; viva f&ocirc;r&ccedil;a, o queria regalar. <br />
+
+<br />
+
+No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do
+ch&atilde;o uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos
+p&eacute;s dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles
+n&atilde;o conseguiram desalojar, e que toda a noite os
+incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam f&oacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o
+obrigava a esta noitada. <br />
+
+<br />
+
+Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua
+propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em
+affectadas exclama&ccedil;&otilde;es, deante dos prodigios de
+mau g&ocirc;sto reunidos alli. <br />
+
+<br />
+
+As estatuas de lou&ccedil;a, os alegretes de azulejo, os arcos
+feitos de cana, por onde se entrela&ccedil;avam magras trepadeiras;
+um pequeno modelo de fragata brazileira com
+tripula&ccedil;&atilde;o de altura dos cestos de
+gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e
+com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra,
+eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas
+vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas;
+bordados, diplomas de socio de n&atilde;o sei quantas sociedades
+brazileiras; tudo
+encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus
+de Braga. &Aacute; impertinencia de admirar estas preciosidades
+accrescia a de ouvir e de ter de achar gra&ccedil;a a um papagaio
+que cantava o hymno brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique sa&iacute;u de l&aacute; exhausto de paciencia. <br />
+
+<br />
+
+Com estas visitas politicas, passou, como dissemos,
+<span class="pagenum">[25]</span>
+todo o periodo das festas do
+Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa
+que mere&ccedil;a nota. <br />
+
+<br />
+
+Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem
+outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que t&atilde;o
+acerbas palavras se haviam trocado. Augusto n&atilde;o
+volt&aacute;ra ao Mosteiro desde ent&atilde;o. Era tempo de
+f&eacute;rias para as crean&ccedil;as, o que fazia natural esta
+ausencia, contra a qual Angelo em v&atilde;o protestava. Magdalena
+nunca por&eacute;m alludia a ella. Christina passava o tempo,
+querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de
+ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra. <br />
+
+<br />
+
+Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo
+do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique e D. Doroth&eacute;a vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram
+para assistir &aacute; solemnidade popular. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia
+ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia
+mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia
+dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipa&ccedil;&atilde;o
+andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia
+desempenhar. <br />
+
+<br />
+
+Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam,
+s&atilde;o como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a
+varredura estrangeira deixou ficar pelo ch&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante as extravagancias e as
+modela&ccedil;&otilde;es toscas e risiveis de muitos,
+&eacute; certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado
+mais fiel a indole peninsular, do que sua irm&atilde;, a civilisada
+musa das cidades, a cujo paladar j&aacute; sabem mal as
+popularissimas redondilhas, t&atilde;o apreciadas ainda na
+Hespanha. <br />
+
+<br />
+
+Em occasi&otilde;es de festa levanta-se em qualquer terreiro ou
+pateo de quinta um tablado; veem adornal-o
+<span class="pagenum">[26]</span>
+as mais vistosas colchas de
+chita, das quaes tambem se formam os bastidores; alugam-se
+nos depositos mais modestos da cidade ou villa proxima vestidos de
+reis, de principes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de
+&eacute;pocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma
+plateia rustica, ao ar livre, como no theatro antigo, desfiam-se em
+cantada choradeira as sentimentaes peripecias da vida de qualquer
+santo, ou, entre gargalhadas, os episodios comicos do
+algum enredo popular.
+<br />
+
+<br />
+
+A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do
+Mosteiro, e que f&ocirc;ra em parte por deferencia ao deputado do
+circulo, em parte por conveniencia dos emprezarios, pela
+apropria&ccedil;&atilde;o do
+terreno a todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes
+casos recebiam de s. ex.<sup>a</sup>, essa circumstancia,
+dizemos, augmentava o
+numero de espectadores. <br />
+
+<br />
+
+Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do
+espectaculo popular. <br />
+
+<br />
+
+O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem
+pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava
+p&ocirc;r &aacute;
+disposi&ccedil;&atilde;o dos seus representados. <br />
+
+<br />
+
+Desde a vespera havia grande agita&ccedil;&atilde;o e azafama
+no pateo do Mosteiro. Os artifices levantavam o tablado scenico;
+pregavam e despregavam taboas; serravam barrotes; os directores, e
+&aacute; frente d'elles o infatigavel e imaginoso Pertunhas, davam
+ordens contradictorias; e os curiosos estacionavam em magotes,
+difficultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres
+absurdos. <br />
+
+<br />
+
+Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora
+dos seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida
+e de enthusiasmo. <br />
+
+<br />
+
+Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir
+a espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia
+chorar
+<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span>
+as crean&ccedil;as e estremecer as m&atilde;es; ia
+resuscitar Herodes, o d&eacute;spota legendario. <br />
+
+<br />
+
+Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e
+insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos
+scenicos futuros. <br />
+
+<br />
+
+Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com
+a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a
+ausencia de voca&ccedil;&otilde;es dramaticas que auxiliassem a
+d'elle. <br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o sorriam os leitores a esta velleidade artistica do
+recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio
+de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de
+rusticidade continha abafado mineral de lei. <br />
+
+<br />
+
+Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, v&ecirc;l-o-hiam
+porventura arrebatar plateias inteiras com as
+revela&ccedil;&otilde;es do genio, que &aacute;s
+vezes n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda
+assim inculto, n&atilde;o mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o
+sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava
+o gesto no calor do desempenho; n&atilde;o mentia aquella
+embriaguez que lhe causavam os applausos da multid&atilde;o.
+N&atilde;o ha verdadeiro genio artistico, que se n&atilde;o
+namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O
+homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca ser&aacute;
+poeta nem artista de verdadeira inspira&ccedil;&atilde;o. O
+amor vivo da <a href="#e5">gloria</a> adeantou a
+meio caminho os emprehendedores d'esta
+nova conquista de vellocino. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, essa tremia com a commo&ccedil;&atilde;o de artista
+novel, &aacute; lembran&ccedil;a do espectaculo, em que pela
+primeira vez ia entrar. <br />
+
+<br />
+
+As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido
+encarregar-se da
+<em>toilette</em> da Fama. <br />
+
+<br />
+
+Logo de manh&atilde; f&ocirc;ra pois a pequena Linda para o
+Mosteiro, e passava das m&atilde;os de Magdalena para as de
+Christina e das d'esta para as d'aquella, e
+<span class="pagenum">[28]</span>
+sempre com recato preciso para que ninguem
+mais lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a
+occasi&atilde;o a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo
+&eacute; que mais tiveram que luctar. <br />
+
+<br />
+
+Logo depois da uma hora da tarde come&ccedil;ou a povoar-se o pateo
+de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado,
+occulto por as colchas de chita aos olhares da multid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica,
+dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de
+batuta. <br />
+
+<br />
+
+Chiava j&aacute; o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle,
+uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das
+torturas. <br />
+
+<br />
+
+Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos,
+deu o signal de principiar. <br />
+
+<br />
+
+Um, dois, tres; um, dois&#8213;dizia ou fazia elle com os olhos e com os
+movimentos da cabe&ccedil;a e p&eacute;s, porque a
+b&ocirc;ca, essa j&aacute; estava applicada
+&aacute; embocadura da trompa. O segundo &laquo;tres&raquo;
+era o tempo fatal. Os musicos, por&eacute;m, ou por distrahidos, ou
+por a commo&ccedil;&atilde;o propria dos actos solemnes,
+n&atilde;o corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da
+trompa do mestre Pertunhas, achou-se s&oacute; no
+espa&ccedil;o, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade
+dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue. <br />
+
+<br />
+
+Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando
+as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota
+chefe e reconhecendo a falta, sa&iacute;ram alvoro&ccedil;adas
+atraz d'ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de
+indescriptivel effeito. <br />
+
+<br />
+
+O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e
+o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a
+v&ecirc;r o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre
+os da banda, berrando, ralhando, cheio de c&oacute;lera e de
+raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade! <br />
+
+<br />
+
+Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia. <br />
+
+<br />
+
+Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que
+f&ocirc;ram de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de
+um Cham ou Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que
+amea&ccedil;ava estalar todas as costuras da farda, primitivamente
+feita para um individuo de metade das dimens&otilde;es d'elle, com
+as faces insufladas, a testa contrahida e os olhos injectados para
+extrahir de um obsoleto serpent&atilde;o, que embocava com
+arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acol&aacute; um
+flautim, de bra&ccedil;os compridos e tibias
+esquinadas, com meio bra&ccedil;o f&oacute;ra das mangas, com
+meia perna de f&oacute;ra das cal&ccedil;as, figura em que
+havia n&atilde;o sei o que de onomatopaico, t&atilde;o bem se
+casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exiguo
+instrumento. O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz
+adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em tufos no meio das
+faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os
+pulm&otilde;es dentro de um figle; um corcovado e
+semi-an&atilde;o repicava os ferrinhos com uma prodigalidade
+assustadora; as baquetas da caixa estavam confiadas &aacute;s
+m&atilde;os callosas de um
+mo&ccedil;o de lavoura, de r&ecirc;pas hirsutas a cobrir-lhe a
+testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, no meio d'estas e
+analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo
+com o p&eacute;, suando, arregalando os olhos, piscando-os,
+marcando o compasso com a cabe&ccedil;a armada de enorme trompa,
+que lhe dava ent&atilde;o n&atilde;o sei que apparencias de
+proboscidiano. <br />
+
+<br />
+
+Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a
+familia do Mosteiro escutavam das janellas, e &aacute; qual tiveram
+de dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista
+<span class="pagenum">[30]</span>
+que se conhece. Henrique foi quem mais
+sublimes esfor&ccedil;os fez para soffrer com paciencia aquellas
+torturas acusticas. Elle que nem &aacute; orchestra de S. Carlos
+perdoava uma desafinac&atilde;o, obrigado a escutar com um sorriso
+aquella banda pandemonica! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coragem! coragem!&#8213;murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como
+perfeito politico.&#8213;Nas occasi&otilde;es &eacute; que os homens
+se conhecem! Coragem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; em extremo forte a
+prova&ccedil;&atilde;o!&#8213;respondia-lhe, gemendo, Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Firmeza; que a pallidez do susto nos n&atilde;o
+atrai&ccedil;oe&#8213;continuava aquelle. <br />
+
+<br />
+
+Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a
+seriedade. <br />
+
+<br />
+
+A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido
+tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o
+estremecimento que precede as occasi&otilde;es solemnes. Os olhares
+de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que j&aacute;
+se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade,
+como se f&ocirc;ra a resultante do palpitar de tantos
+cora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes. <br />
+
+<br />
+
+A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros
+largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas
+negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as
+juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho
+selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na
+multid&atilde;o um quasi pavor, que nem o conhecimento intimo que
+tinha do homem conseguia dissipar. <br />
+
+<br />
+
+Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos,
+corpete de velludilho azul, cal&ccedil;&otilde;es golpeados.
+Pendia-lhe &aacute; cinta
+um alfange e uma pistola; ao peito algumas
+condecora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Apparencia geral, a dos prophetas nas prociss&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+O auto rompe com um monologo de Herodes. <br />
+
+<br />
+
+O tyranno da Jud&eacute;a, sobresaltado e meditabundo, faz
+considera&ccedil;&otilde;es substanciosas sobre a
+condi&ccedil;&atilde;o dos reis em geral e a sua em particular.
+Principia elle assim: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+N&atilde;o ha vida mais inquieta,<br />
+
+Nem mais cheia de cuidados,<br />
+
+Do
+que a de um rei que pretende<br />
+
+Conservar os seus estados.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cancella dizia isto em tom pausado, com os bra&ccedil;os
+cruzados, medindo o palco a passos largos. <br />
+
+<br />
+
+Continuavam varias proposi&ccedil;&otilde;es de physiologia do
+throno, e, do caso generico baixando ao particular, da these
+&aacute; hypothese, principia a falar de si. Cancella, conhecedor
+dos segredos da arte, come&ccedil;ava aqui a dar mais vida
+&aacute; recita&ccedil;&atilde;o, como
+para mostrar o maior empenho que tomava a alma n'este capitulo da
+especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda do Messias, e
+inquietava-se; a mar&eacute; das paix&otilde;es subia; a voz
+traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de
+desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos
+paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a
+f&ocirc;r&ccedil;a &aacute; sua voz potente, soltava
+berros, que participavam da natureza dos do tigre.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Come&ccedil;arei desde logo<br />
+
+A publicar leis tyrannas,<br />
+
+Que
+aterrem os meus montes,<br />
+
+Os palacios e as choupanas. <br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; tal o meu furor,<br />
+
+Tal a minha
+indigna&ccedil;&atilde;o,<br />
+
+Que ninguem se atrever&aacute;<br />
+
+A
+conquistar meu braz&atilde;o.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam
+a fixar-se. A excita&ccedil;&atilde;o
+de animos a que os transportes de Herodes, inquieto
+<span class="pagenum">[32]</span>
+pelo seu braz&atilde;o, lev&aacute;ra o publico,
+foi serenada
+por um chorado c&ocirc;ro de anjos que cantavam atraz da cortina: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">N&atilde;o temas,
+&oacute; rei cruel,<br />
+
+Que te conquiste o
+docel.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Herodes p&aacute;ra aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe
+afian&ccedil;arem a seguran&ccedil;a do docel,
+pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o m&ecirc;do no
+cora&ccedil;&atilde;o, m&ecirc;do que procura afugentar
+com bravatas, em que amea&ccedil;ava p&ocirc;r tudo por terra.
+O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui &eacute; que subia a toda a altura o genio dramatico do
+Herodes. Para este final do monologo reservava todos os segredos da
+arte; apoderava-se d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos
+olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da
+individualidade propria; suppunha-se Herodes; e at&eacute;...
+&oacute; f&ocirc;r&ccedil;a da
+arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi
+chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era
+dominado por o artista, e n'um d'estes silencios que todos
+prev&ecirc;em se desencadeiar&aacute; em brados de enthusiasmo
+e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Por&eacute;m o furor me
+incita!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dava, ao dizer isto, tres passos &aacute; frente, desembainhava o
+alfange e abria os bra&ccedil;os. Tinha o que quer que era de
+Adamastor, visto assim. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">O brio d&aacute;-me ousadia.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Levantava os bra&ccedil;os acima da cabe&ccedil;a, espalmando a
+m&atilde;o esquerda. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Para defender o sceptro<br />
+
+A favor da tyrannia!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[33]</span>
+Aqui agitava os bra&ccedil;os como azas de moinhos. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Ser&aacute; cada
+lan&ccedil;a um raio!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Cada espada um corisco,</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E o bra&ccedil;o, armado do alfange, baixava com a rapidez do
+simile. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Cada soldado um
+trov&atilde;o,</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E trovejava-lhe a voz. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Cada golpe um basilisco!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E na posi&ccedil;&atilde;o e gesto em que ficava,
+n&atilde;o era menos terrivel e pavoroso do que a fera da
+compara&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; s&oacute; as
+mulheres e as crean&ccedil;as ficaram
+silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um peccado applaudirem
+Herodes. E n&atilde;o sei se, o que fizera menos escrupulosa n'este
+ponto a parte masculina, f&ocirc;ra o exemplo partido das janellas
+do Mosteiro; porque &eacute; certo que em geral os tyrannos no
+palco s&atilde;o admirados, mas raras vezes applaudidos. <br />
+
+<br />
+
+Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o
+auto. <br />
+
+<br />
+
+Dariamos de bom grado na integra t&atilde;o importante
+pe&ccedil;a dramatica ou pelo menos circumstanciada noticia d'ella,
+se n&atilde;o receiassemos o recheio excessivo para esta ordem de
+alimentos litterarios, que se querem leves. N&atilde;o podemos
+comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente. <br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m do Herodes, s&atilde;o figuras do auto: o caixeiro
+do dito&#8213;assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que d&aacute;
+a entender que Herodes era homem de
+<span class="pagenum">[34]</span>
+escripturac&atilde;o regular,&#8213;o capit&atilde;o das tropas
+reaes, os tres reis magos, o anjo, a Virgem, S. Jos&eacute; e o
+menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidad&atilde;os de
+differentes cidades, o criado de um d'elles, a Fama e duas
+crean&ccedil;as, chamadas Giraldinho e Amorzinho. <br />
+
+<br />
+
+As scenas passam-se successivamente nos pa&ccedil;os de Herodes, na
+lapa de Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto. <br />
+
+<br />
+
+A imagina&ccedil;&atilde;o do espectador era a encarregada da
+mudan&ccedil;a do scenario. <br />
+
+<br />
+
+O poeta corre toda a clave das paix&otilde;es humanas, vibra todas
+as cordas do cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ao terror despertado por Herodes e suas amea&ccedil;as, succede a
+sympathia pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres
+mo&ccedil;os de lavoura, de manto, luvas de algod&atilde;o e
+turbante, os quaes, em lamuria nasal e com profus&atilde;o de
+<em>xes</em>, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma
+das quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao
+Deus nascido a protec&ccedil;&atilde;o para Portugal. <br />
+
+<br />
+
+Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. Jos&eacute;, como
+carpinteiro que era, apparelhava um madeiro a enx&oacute; e plaina,
+emquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem
+principiava a despontar o bu&ccedil;o da puberdade. O anjo
+apparecia, como nas prociss&otilde;es, carregado de
+cord&otilde;es de ouro. <br />
+
+<br />
+
+No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica
+simplicidade. Quando os sagrados esposos est&atilde;o para partir,
+chega a elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro
+mocet&atilde;o em trajes femininos, e da parte da ama offerece aos
+foragidos algum dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por
+n&atilde;o poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece
+com as phrases da tarifa, recommendando-se muito a sua prima. <br />
+
+<br />
+
+O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha
+personagens, reflex&otilde;es e scenas
+<span class="pagenum">[35]</span>
+sempre apreciadas e j&aacute;
+aguardadas pelo publico, que as sa&uacute;da com sinceras
+gargalhadas. D'estas a principal &eacute; evidentemente a que se
+passa entre um cidad&atilde;o, de quem a sacra familia recebe
+gasalhado, e o criado do mesmo. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma scena de disputa domestica, cheia de
+allus&otilde;es satyricas &aacute; classe dos criados de
+servir, a qual era sempre applaudida. O cidad&atilde;o, depois de
+mostrar ao criado, de relogio em punho&#8213;anachronismo shakspeareano&#8213;a
+demora excessiva que elle tivera f&oacute;ra de casa, diz para o
+auditorio: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+N&atilde;o se pode ter criados<br />
+
+Hoje em dia, n'esta vida,<br />
+
+Ou quem
+houver de os ter<br />
+
+N&atilde;o lhes deve dar guarida.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso
+episodio. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa
+de toda a pe&ccedil;a, de afinada que estava pelo seu modo de
+sentir, n&atilde;o p&ocirc;de
+conter-se, que n&atilde;o exclamasse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo &eacute; que &eacute; uma verdade! <br />
+
+<br />
+
+A espontaneidade da reflex&atilde;o fez rir a familia do Mosteiro,
+riso que teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo. <br />
+
+<br />
+
+A scena comica prolonga-se, mandando o patr&atilde;o distribuir
+pelo caixeiro o rap&eacute; ao auditorio; outra liberdade que
+produzia sempre o maior effeito. <br />
+
+<br />
+
+O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia
+pitadas ao publico, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+O meu amo, com ser rico,<br />
+
+Gosta d'estas patuscadas.<br />
+
+Nunca os senhores
+tiveram<br />
+
+As pitadas t&atilde;o baratas.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo
+a regularidade do espectaculo.
+<span class="pagenum">[36]</span>
+Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam,
+todos fingiam espirrar e n&atilde;o se ouvia sen&atilde;o:
+&laquo;Dominus tecum&raquo; e &laquo;Deus
+te salve&raquo; no meio de toda aquella confus&atilde;o.
+Por&eacute;m a um signal de mestre Pertunhas, que deixou por um
+pouco folgar o espirito das massas, tudo entrou na ordem. <br />
+
+<br />
+
+Preparava-se nova transi&ccedil;&atilde;o dramatica. O criado,
+que vae a sa&iacute;r, volta, dizendo com gesto espantado e tom
+exclamatorio: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Jesus, Jesus, que &eacute;
+isto?<br />
+
+Jesus do meu
+cora&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+O signal da cruz me livre<br />
+
+De
+t&atilde;o terrivel vis&atilde;o.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era a Fama que apparecia. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda entrava em scena. <br />
+
+<br />
+
+No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que
+entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia
+t&atilde;o completo contraste, que um murmurio significativo de
+profunda sensa&ccedil;&atilde;o correu o auditorio. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao
+que era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina,
+para lhe darem a apparencia superior. <br />
+
+<br />
+
+O proprio Henrique, que at&eacute; alli estivera commentando
+maliciosamente o espectaculo, n&atilde;o p&ocirc;de reter uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de surpreza, que foi secundada por
+o conselheiro. &Eacute; que parecia que um verdadeiro anjo occupava
+agora a scena. <br />
+
+<br />
+
+A simplicidade do vestir concorria para esse effeito. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe
+descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos
+contornos e esbeltas propor&ccedil;&otilde;es d'aquella
+crean&ccedil;a, que promettia ser uma mulher esculptural. Os
+cabellos, cuja c&ocirc;r loura era de uma pureza rara,
+ca&iacute;am-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando
+<span class="pagenum">[37]</span>
+como fios de ouro, na
+alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das faces
+sobresa&iacute;a n'aquella moldura natural. Com os
+bra&ccedil;os desca&iacute;dos, os dedos encruzados, e a
+cabe&ccedil;a ligeiramente pendida, em express&atilde;o de
+melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de
+Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem
+o c&eacute;o, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no
+gesto o encanto da innocencia, tendo nos passos a
+hesita&ccedil;&atilde;o da timidez. Havia tanto de sobrenatural
+no vulto candido, franzino e melancolicamente suave d'aquella
+crean&ccedil;a, que o actor que estava em scena n&atilde;o teve
+de simular espanto, porque o sentia real, e n&atilde;o podia
+desviar os olhos d'aquella appari&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a
+f&ocirc;r&ccedil;a de um encantamento. <br />
+
+<br />
+
+Como na antiga tragedia, o facto principal da
+ac&ccedil;&atilde;o, a carnificina dos innocentes, passava-se
+f&oacute;ra de scena. &Aacute; Fama competia narral-o. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor
+de commo&ccedil;&atilde;o, principiou lentamente e no meio de
+um religioso silencio a recitar os versos da
+narra&ccedil;&atilde;o, os quaes, como o leitor j&aacute;
+sabe, n&atilde;o eram os do auto, que mestre
+Pertunhas se estaf&aacute;ra a ensaiar. <br />
+
+<br />
+
+Os versos que Ermelinda recitou diziam assim: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Desci dos celestes
+c&oacute;ros,<br />
+
+Por Deus mandada a escutar<br />
+
+Da
+infancia as queixas e os choros,<br />
+
+Para lh'os ir confiar. <br />
+
+<br />
+
+Desci. Na terra, nos mares<br />
+
+Tanta miseria encontrei.<br />
+
+Que os meus
+magoados olhares<br />
+
+Da terra e mar desviei. <br />
+
+<br />
+
+Desci. E tantos gemidos,<br />
+
+T&atilde;o dolorosos ouvi!<br />
+
+Que, turbados
+os sentidos,<br />
+
+Quiz recuar... mas desci.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+<div class="poetry3 tinyl">N'esta colheita de
+d&ocirc;res<br />
+
+Pelo mundo todo andei,<br />
+
+No pranto dos peccadores <br />
+
+As minhas vestes
+molhei. <br />
+
+<br />
+
+Vagueando dias e dias,<br />
+
+Cheg&aacute;ra &aacute; Jud&eacute;a
+emfim,<br />
+
+Quando um clamor de agonias<br />
+
+Veio de longe at&eacute; mim. <br />
+
+<br />
+
+O sol, o sol inflammado<br />
+
+D'estas terras orientaes,<br />
+
+Tinha no disco
+afogueado<br />
+
+N&atilde;o sei que estranhos signaes. <br />
+
+<br />
+
+Soavam menos distantes<br />
+
+Sinistros brados de d&ocirc;r,<br />
+
+Choros de
+m&atilde;es e de infantes,<br />
+
+Cantos de morte e terror. <br />
+
+<br />
+
+Vi anjos de azas nevadas<br />
+
+Em bandos subir ao c&eacute;o,<br />
+
+Quaes
+pombas amedrontadas<br />
+
+Fugindo &aacute; voz de escarc&eacute;o. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Onde &iacute;des? Quem vos persegue?<br />
+
+A que tormentas
+fugis?&raquo;<br />
+
+Um, que triste o bando segue,<br />
+
+Estas palavras me diz: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Somos as almas de infantes<br />
+
+Mortos em guerra feroz;<br />
+
+Inda das
+m&atilde;es delirantes<br />
+
+Nos chama a sentida voz. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;S&oacute; a materna saudade<br />
+
+Nossa carreira detem,<br />
+
+Embora
+no c&eacute;o, quem ha de<br />
+
+Esquecer, o amor de
+m&atilde;e?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Disse e o semblante formoso<br />
+
+Com as azas encobriu,<br />
+
+E ao bando silencioso<br />
+
+Silencioso se uniu. <br />
+
+<br />
+
+Eu segui. Na impia cidade<br />
+
+Aterrada penetrei...<br />
+
+Ai, da fera humanidade<br />
+
+Os meus olhos desviei!</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+<div class="poetry3 tinyl">Que scena! Corre nas
+pra&ccedil;as<br />
+
+Sanguinaria
+multid&atilde;o,<br />
+
+Como nuvem de desgra&ccedil;as<br />
+
+Semeando a
+desola&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+C&aacute;em por terra sem vida<br />
+
+Tenras crean&ccedil;as
+&aacute;s mil,<br />
+
+E uma turba enfurecida<br />
+
+Corre &aacute;
+matan&ccedil;a febril, <br />
+
+<br />
+
+As m&atilde;es pallidas, chorosas,<br />
+
+Supplicam, pedem em
+v&atilde;o!<br />
+
+N'essas feras sanguinosas<br />
+
+N&atilde;o palpita um
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Outras tentam em delirio,<br />
+
+Os seus filhos disputar,<br />
+
+E com elles no
+martyrio<br />
+
+Gostosas se v&atilde;o juntar. <br />
+
+<br />
+
+Sobre a terra ensanguentada<br />
+
+Eu solu&ccedil;ando, ajoelhei,<br />
+
+E de
+intensa d&ocirc;r magoada,<br />
+
+A Deus piedade implorei. <br />
+
+<br />
+
+Findava a prece, e uma estrella<br />
+
+No horisonte despontou,<br />
+
+Pura,
+scintillante, bella<br />
+
+O caminho me tra&ccedil;ou. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; humilde e escondida estancia<br />
+
+Da venturosa Belem<br />
+
+Cheguei;
+vi um Deus na infancia<br />
+
+Nos ternos bra&ccedil;os da m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+Minha colheita de d&ocirc;res<br />
+
+N'aquelle ber&ccedil;o depuz,<br />
+
+Da
+humanidade aos rigores<br />
+
+Pedi remedio a Jesus. <br />
+
+<br />
+
+No olhar do divino infante<br />
+
+Raiou a luz e fulgor,<br />
+
+Foi a aurora radiante<br />
+
+Que annuncia um redemptor.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se descreve a impress&atilde;o causada por estes
+versos, que assim transformavam a Fama do auto
+<span class="pagenum">[40]</span>
+no Anjo da guarda da infancia. Muitas
+causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto
+de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e
+depois aquellas palavras inesperadas, aquella
+exposi&ccedil;&atilde;o
+desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram
+recitados, parecia augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da
+impress&atilde;o d'aquella voz sonora e infantil, ninguem procurava
+explicar o mysterio. Milagre lhes parecia e quasi como milagre o
+acceitavam, e de ouvidos attentos, collos estendidos e b&ocirc;cas
+semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, aquellas palavras, como se
+de um verdadeiro emissario celeste as escutassem. O tablado enchera-se
+pouco a pouco de gente, e ninguem dera por isso. Os actores que estavam
+atraz da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos,
+differentes dos que elles esperavam; isto obrigou-os a espreitar.
+Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz e d'aquelle gesto,
+vieram adeantando-se, adeantando-se, e c&ecirc;do formaram circulo
+&aacute; volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O
+espanto, os affectos, o orgulho de pae, a
+exalta&ccedil;&atilde;o de artista combinavam-se para dar-lhe
+ao rosto uma express&atilde;o quasi de extase. Olhava para a filha
+como se a visse animada de inspira&ccedil;&atilde;o divina. <br />
+
+<br />
+
+Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo
+trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de
+b&ocirc;ca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro
+s&oacute; Angelo sorria, elle s&oacute; interpretava o milagre.
+Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de
+crean&ccedil;a, que, em campo descoberto e no meio de tantos
+espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse
+alguma coisa de sobrehumana. <br />
+
+<br />
+
+Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que
+os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem
+de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro
+<span class="pagenum">[41]</span>
+rompeu este quasi encantamento.
+Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um
+&laquo;bravo&raquo; todo o enthusiasmo que sentia. Foi o
+signal. <br />
+
+<br />
+
+O silencio degenerou na mais altisona ova&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a
+sustentar, a logica da
+situa&ccedil;&atilde;o, e tomando nos bra&ccedil;os
+musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para
+a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo
+estendiam-se centenas de bra&ccedil;os para a receberem; das
+janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os len&ccedil;os
+das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia
+devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de
+paix&atilde;o; e Ermelinda foi de bra&ccedil;os em
+bra&ccedil;os, entre beijos e afagos, transportada do tablado para
+a sala do Mosteiro, onde n&atilde;o foi menos calorosa a
+recep&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esfor&ccedil;os do
+mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de
+v&ecirc;r as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que
+entravam n'ellas. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do
+Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se n&atilde;o
+f&ocirc;sse bastante pathetico para commover. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai
+que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os
+dizia!&#8213;exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena
+que vira. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi Augusto que fez aquelles versos? <br />
+
+<br />
+
+Angelo sorriu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que me perguntas isso a mim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque o deves saber.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[42]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o cr&ecirc;s no milagre? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Responde. <br />
+
+<br />
+
+Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o
+conselheiro: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu digo a v. ex.<sup>a</sup> que o Bernardim existe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem &eacute;?&#8213;perguntou o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei; por&eacute;m posso afian&ccedil;ar a v.
+ex.<sup>a</sup> que n&atilde;o s&atilde;o estes os
+primeiros vestigios
+que encontro
+d'elle. As paredes das capellas dos montes s&atilde;o as suas
+confidentes. N&atilde;o est&aacute; certa, prima
+Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora
+da Saude? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; recordo-me. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que
+a levem a attribuil-as &aacute; mesma pessoa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou pouco habituada a analysar estylos, primo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas talvez este lhe seja habitual. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a
+accrescentar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por muito o v&ecirc;r por ahi desperdi&ccedil;ado por paredes
+de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda foi de uma discre&ccedil;&atilde;o impenetravel.
+Quando lhe perguntavam quem lhe ensin&aacute;ra os versos, sorria,
+respondendo que n&atilde;o sabia, ou que n&atilde;o podia
+dizel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apostemos que n'isto entra Angelo?&#8213;disse o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes cada vez parecia mais convencido de que f&ocirc;ra pura
+inspira&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, aproveitando uma occasi&atilde;o em que estava proximo da
+morgadinha, disse-lhe ao ouvido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me que ia p&ocirc;r o dedo no rouxinol silvestre, que
+t&atilde;o bem canta sem se mostrar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas
+immedia&ccedil;&otilde;es. Estas aves melancolicas amam as
+inspira&ccedil;&otilde;es nocturnas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+&#8213;Pois as noites nem sempre s&atilde;o boas conselheiras, primo.
+&Eacute; a hora favoravel &aacute; espionagem e
+&aacute;s... calumnias... Mas se sabe quem &eacute;, diga-o.
+Aqui em minha casa e no seio de minha familia, &eacute; sempre bem
+recebida a verdade. N&atilde;o ha quem se tema d'ella. <br />
+
+<br />
+
+E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'esta vez foi de uma severidade!!&#8213;pensou Henrique.&#8213;Cada vez me
+conven&ccedil;o mais de que o idyllio existe e que vae
+j&aacute; muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com
+o Romeu, que nunca mais vi? N&atilde;o foi m&aacute; tolice
+aquella
+minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso
+n&atilde;o vale a pena. <br />
+
+<br />
+
+O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique f&ocirc;ra
+d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da
+ten&ccedil;&atilde;o que alimentava
+ainda, pois disse a Christina: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, filha, que n&atilde;o sei se deva curar-te antes a ti do que
+a elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que dizes?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada. Ha doen&ccedil;as que fazem desesperar os medicos. <br />
+
+<br />
+
+Era j&aacute; noite. Os grupos, que ainda depois do auto se
+conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos
+proprietarios, f&ocirc;ram dispersando pouco a pouco. <br />
+
+<br />
+
+A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para
+as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a
+quem era devido o cantar os Reis. <br />
+
+<br />
+
+Angelo sa&iacute;ra da sala. F&ocirc;ra para o fim da rua de
+sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe
+dizer adeus. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as
+sombras &aacute; fronte e ao
+cora&ccedil;&atilde;o do pobre rapaz. <br />
+
+<br />
+
+Era a noite de Reis, a ultima dos dias de f&eacute;rias;
+<span class="pagenum">[44]</span>
+na manh&atilde; seguinte devia
+partir com o pae para Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades
+n&atilde;o se amontoam no
+cora&ccedil;&atilde;o das crean&ccedil;as ao expirar o
+termo d'esse feliz
+espa&ccedil;o de tempo, que viveram para os carinhos da familia e
+para os folguedos despreoccupados! <br />
+
+<br />
+
+Percebe-se em n&oacute;s mesmos aquella imminencia de lagrimas, que
+&aacute; menor palavra rebentam. <br />
+
+<br />
+
+Quem n&atilde;o ter&aacute; recorda&ccedil;&otilde;es
+de infancia a falar-lhe d'isto? <br />
+
+<br />
+
+O pateo despovo&aacute;ra-se de gente; atrav&eacute;s das
+vidra&ccedil;as da casa viam-se j&aacute; brilhar as luzes
+interiores. Com o olhar fito no ch&atilde;o, a cabe&ccedil;a
+inclinada,
+Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres,
+sem que elle d&eacute;sse por isso. <br />
+
+<br />
+
+De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos.
+Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae fic&aacute;ra atraz a
+p&ocirc;r em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus&#8213;disse Angelo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o vae-se embora? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou &aacute;manh&atilde;&#8213;respondeu Angelo, com a voz presa
+de commo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito c&ecirc;do? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De madrugada. <br />
+
+<br />
+
+Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora quando volta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute;? agora... s&oacute; para agosto. <br />
+
+<br />
+
+Novo silencio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o... adeus... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo
+estreitou contra o peito aquella que de pequena trat&aacute;ra como
+irm&atilde;, e que
+chorava ainda mais do que elle. <br />
+
+<br />
+
+Que melancolico fim de dia t&atilde;o alegre!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ermelinda&#8213;disse logo a voz esgani&ccedil;ada e colerica, que
+saiu d'aquelle vulto. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda estremeceu ao ouvil-a. <br />
+
+<br />
+
+Era a mulher do Z&eacute; P'reira que voltava das suas
+devo&ccedil;&otilde;es e fic&aacute;ra surprehendida com o
+espectaculo
+que vira. A assustadi&ccedil;a castidade d'aquella matrona toda se
+alvoro&ccedil;ou com a tocante despedida das duas
+crean&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou
+pelo bra&ccedil;o e a levou comsigo. <br />
+
+<br />
+
+Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das m&atilde;os d'aquella
+harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o. <br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Catharina do Nascimento de S.
+Jo&atilde;o Baptista ia
+dizendo, ao levar comsigo a afilhada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ter&atilde;o ainda de v&ecirc;r
+meus olhos, meu Divino Pae do C&eacute;o? Que mundo este de
+abomina&ccedil;&atilde;o, meu doce Jesus! &Oacute; Virgem
+das Dores, isto &eacute; para se v&ecirc;r e n&atilde;o se
+crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e
+j&aacute; assim com a alma perdida! &Oacute; meu Jesus
+crucificado!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha madrinha&#8213;dizia Ermelinda, chorando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, anda, anda, minha amiga, que j&aacute; os demonios saltam e
+riem de contentes. Teu pae &eacute; que tem a culpa. Isto
+s&atilde;o l&aacute; modos? trazer-te por
+entremezes, que s&atilde;o artes do demonio, e arredar-te da
+igreja, que &eacute; a casa do Senhor! &Eacute; a missa dos
+domingos, e acabou-se. Os resultados s&atilde;o estes!... Ai,
+filha, que muita penitencia te &eacute; j&aacute; precisa
+para salvares a alma! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha madrinha, minha madrinha, por as almas n&atilde;o me diga
+isso&#8213;exclamava Ermelinda, aterrada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os tres inimigos da alma te far&atilde;o guerra, creatura,
+assanhados como c&atilde;es raivosos... Eu previa isto...
+&Eacute; o lucro de andar por essas casas de Satanaz,
+<span class="pagenum">[46]</span>
+onde n&atilde;o ha
+religi&atilde;o nem temor de Deus...
+&Oacute; meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por
+n&oacute;s! E n&oacute;s t&atilde;o pouco caso fazemos dos
+vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois
+queixamo-nos da vossa justi&ccedil;a, quando j&aacute; ardemos
+nos fogos do inferno...! <br />
+
+<br />
+
+A pequena Ermelinda tremia cada vez mais. <br />
+
+<br />
+
+A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas
+exclama&ccedil;&otilde;es, bramando contra o peccado, contra a
+familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda
+e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do
+peccado disserta&ccedil;&otilde;es n&atilde;o em demasia
+apropriadas aos ouvidos de uma crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das
+palavras da madrinha, que nem bem entendia, fic&aacute;ra-lhe uma
+horrivel
+convic&ccedil;&atilde;o de que tinha a alma perdida, e com
+lagrimas ardentes pagava a pobre crean&ccedil;a bem caro as
+alegrias d'aquella tarde, de que j&aacute; tinha remorsos. Este
+desalento e pavor quasi a fizeram doente. <br />
+
+<br />
+
+Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os
+triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao
+abra&ccedil;al-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada p&ocirc;de
+saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se
+instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois. <br />
+
+<br />
+
+Pobre pae! n&atilde;o p&ocirc;de dormir aquella noite! Logo de
+madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em
+recovagem. <br />
+
+<br />
+
+Deixou Ermelinda a dormir; n&atilde;o a quiz acordar; beijou-a na
+fronte desmaiada, aben&ccedil;oou-a e saiu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comadre,&#8213;disse ao passar por casa do Z&eacute; P'reira&#8213;ahi lhe
+deixo a pequena. Olhe-me por ella, que n&atilde;o est&aacute;
+l&aacute; muito boa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; com Deus&#8213;disse uma voz de dentro. <br />
+
+<br />
+
+Era a sr.<sup>a</sup> Catharina. <br />
+
+<br />
+
+O recoveiro partiu, silencioso e triste.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+<h4>XIX </h4>
+
+<br />
+
+No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
+determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
+muitas saudades. O conselheiro devia voltar s&oacute;mente por
+occasi&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es geraes que
+estavam proximas. <br />
+
+<br />
+
+Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
+padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro,
+estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando
+sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas
+conferencias de coisas de pouco interesse e &aacute;s quaes elle
+ligava a minima
+atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
+posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
+cadeira; D. Doroth&eacute;a, de m&atilde;os cruzadas deante da
+cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de p&ocirc;r em arranjo a
+cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na
+conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta
+emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes
+inexactid&otilde;es em que a via cair. <br />
+
+<br />
+
+Henrique habitu&aacute;ra-se j&aacute; a estes placidissimos
+habitos; e apesar de n&atilde;o ligar
+atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute; conversa, ou por isso mesmo que lh'a n&atilde;o
+ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam
+agradavel. <br />
+
+<br />
+
+Depois de muitas voltas a conversa ca&iacute;u sobre as
+occorrencias do auto dos Reis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu ainda estou para saber como aquillo foi!&#8213;dizia D.
+Doroth&eacute;a.&#8213;Quando me lembro! Como aquella rapariga falava! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhora; olhe que j&aacute; me disseram que a
+<span class="pagenum">[48]</span>
+pequena tinha espirito&#8213;disse
+Maria de Jesus, com ar de mysterio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem o milagre!&#8213;respondeu D. Doroth&eacute;a.&#8213;Por essa estou
+eu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
+mesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; mais do que certo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, a tia Doroth&eacute;a tambem com crendices!&#8213;disse Henrique,
+rindo.&#8213;Ent&atilde;o parece-lhe que traz espirito aquella
+crean&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, menino, aquillo a falar a verdade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o &eacute; mais natural supp&ocirc;r que
+alguem lhe ensinou os taes versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e
+at&eacute; que aquelles n&atilde;o calhavam bem nas
+l&ocirc;as? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Pertunhas &eacute; um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo
+&aacute; pequena e at&eacute; suspeito com que fim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim.
+Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas
+t&atilde;o bonitas, que nem um livro. A senhora n&atilde;o se
+lembra? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se lembra! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digam-me&#8213;insistiu Henrique.&#8213;Quem ha aqui na aldeia que
+fa&ccedil;a versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos!&#8213;repetiu a D. Doroth&eacute;a, admirada.&#8213;Ninguem, que eu
+saiba. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhora! Ent&atilde;o o Jo&atilde;o do Trolha?
+N&atilde;o deita t&atilde;o bonitos versos nos desafios? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem ser o Jo&atilde;o do Trolha&#8213;tornou Henrique, sorrindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, n&atilde;o se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito
+bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, n&atilde;o se
+lembra, senhora, dos versos que elle botou? <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Viva a senhora D.
+Doroth&eacute;a,<br />
+
+Raminho de bem-me-queres,<br />
+
+Quando p&otilde;e a sua touca<br />
+
+&Eacute; a rainha das mulheres.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[49]</span>
+&#8213;E depois a mim: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Viva a senhora Maria,<br />
+
+A perola das criadas,<br />
+
+Quando se chega
+&aacute; janella<br />
+
+Ficam as estrellas pasmadas.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora com o que voc&ecirc; vem, mulher! N&atilde;o tinham as
+estrellas mais que fazer do que pasmarem&#8213;disse D. Doroth&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; por dizer, senhora; j&aacute; se sabe que...
+sim... como o outro que diz... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E al&eacute;m do Jo&atilde;o do Trolha, quem ha mais que
+fa&ccedil;a versos?&#8213;perguntou Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que eu saiba...&#8213;disseram as duas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E aquelle Augusto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
+Credo! N&atilde;o, aquillo &eacute; um rapaz de muito juizo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o tira. Ent&atilde;o a tia julga que
+s&oacute; os tolos fazem versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tolos n&atilde;o digo, mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas um pouco feridos na aza, n&atilde;o &eacute; verdade? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora pois ent&atilde;o dize-me tu, menino, se um homem
+s&eacute;rio... sim... um homem de respeito, faz versos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Versos, sim, senhora. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a fez um gesto de incredulidade. <br />
+
+<br />
+
+Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da
+entrada e ap&oacute;s algumas pancadas &aacute; porta da sala. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abra, tia Doroth&eacute;a&#8213;disseram de f&oacute;ra as vozes
+de Magdalena e de Christina, que f&ocirc;ram logo reconhecidas. <br />
+
+<br />
+
+E c&ecirc;do depois entravam alegremente na sala, em companhia de
+D. Victoria, que vinha mais retardada. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a levantou-se para recebel-as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[50]</span>
+&#8213;Bons dias ou boas tardes, tia Doroth&eacute;a, porque me parece
+que j&aacute; jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a
+tia Victoria, que n&atilde;o nos quer acompanhar a ouvir a palavra
+eloquente do missionario&#8213;disse a morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o; para apertos e barafundas &eacute; que
+n&atilde;o estou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu vaes, Lena? perguntou D. Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o? N&atilde;o quero passar por impenitente. Ainda
+o n&atilde;o ouvi. Pode crer? Al&eacute;m de que percebi na
+Christe um fervor, com o qual quiz condescender. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que pr&eacute;ga t&atilde;o bem&#8213;atalhou Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois pr&eacute;gar&aacute;, mas eu
+&eacute; que j&aacute; n&atilde;o estou para
+serm&otilde;es&#8213;ponderou D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou eu tambem ouvir o missionario&#8213;disse Henrique,
+levantando-se.&#8213;J&aacute; m'o mostraram ha dias. Se os dotes
+oratorios do homem corresponderem &aacute; figura... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;interrogou D. Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral,
+typo da grossura do pulso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bom &eacute; que v&aacute;s, menino&#8213;disse D.
+Doroth&eacute;a&#8213;para acompanhares as pequenas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como quizer, primo,&#8213;acudiu Magdalena&#8213;mas n&atilde;o se
+constranja. O Torquato tambem vae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer? Que me dispensa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; mas que se &eacute; s&oacute; por
+condescendencia que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; por prazer. &Eacute; por
+devo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso... <br />
+
+<br />
+
+E Henrique foi procurar o chap&eacute;o para acompanhar as duas
+primas &aacute; igreja. <br />
+
+<br />
+
+O Santo Amaro f&ocirc;ra festejado com espavento na freguezia da
+sua invoca&ccedil;&atilde;o. Vesperas, missa
+cantada, duplo serm&atilde;o, e prociss&atilde;o &aacute;
+volta da
+igreja, nada falt&aacute;ra para solemnisar a festa. <br />
+
+<br />
+
+O serm&atilde;o da manh&atilde; f&ocirc;ra
+pr&eacute;gado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao
+missionario, que o aproveit&aacute;ra para uma das suas
+catech&eacute;ses.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+A prociss&atilde;o j&aacute; tinha recolhido, quando chegaram
+&aacute; igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique
+e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e
+de caf&eacute;, como n'um arraial. <br />
+
+<br />
+
+Pela porta principal da igreja engolfava-se a multid&atilde;o, como
+em b&ocirc;ca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio,
+se precipitam as aguas impetuosas. <br />
+
+<br />
+
+A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
+missionario, attrahira immensa gente a escutar o serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
+popular, que se amontoava &aacute; porta da igreja, e conseguiram,
+por deferencia excepcional
+dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-m&oacute;r. <br />
+
+<br />
+
+Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella
+occasi&atilde;o. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e
+lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia,
+na maior parte mulheres de roupas escuras e em que s&oacute;
+alvejava o len&ccedil;o branco que usavam &aacute;
+cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
+dentro uma atmosphera quente, abafadi&ccedil;a e pouco salutar. <br />
+
+<br />
+
+Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
+ora&ccedil;&otilde;es e ladainhas,
+contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam l&aacute;
+f&oacute;ra, e requintava a triste
+impress&atilde;o que se recebia ao entrar. Alli um grupo de
+mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias
+ora&ccedil;&otilde;es, que
+uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em c&ocirc;ro com
+Padre-Nossos e Ave-Marias; al&eacute;m viam-se outras com as faces
+rojadas no ch&atilde;o, batendo no peito e desentranhando
+exclama&ccedil;&otilde;es, para
+commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de
+bra&ccedil;os abertos deante da imagem da Virgem; outras
+amortalhadas, em cumprimento de
+<span class="pagenum">[52]</span>
+promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia
+uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. &Aacute;s
+portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as
+lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para
+dentro a circumstanciada exposi&ccedil;&atilde;o dos peccados
+da semana, e recebendo de l&aacute; regras de bem viver, preceitos
+de
+devo&ccedil;&atilde;o, &aacute;s vezes exaggerada e
+inspirada de certa moral de conven&ccedil;&atilde;o, com que a
+ignorancia ou a
+m&aacute; f&eacute; porfiam em falsificar os simples e
+luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o
+Evangelho apreg&ocirc;a. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das
+confessadas; e exhausta de f&ocirc;r&ccedil;as, abatida
+de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos
+degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, sen&atilde;o
+hypocrita, lhe pint&aacute;ra
+inexoravel verdugo. Quando outra se n&atilde;o succedia a esta,
+via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de
+l&aacute; um padre de batina, s&oacute;cos
+e capote de cabe&ccedil;&atilde;o, satisfeito de si, e
+revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos,
+n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios
+de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos
+que dirigia pela intimida&ccedil;&atilde;o cruel. <br />
+
+<br />
+
+De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre &aacute; igreja, que
+nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com
+tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar. <br />
+
+<br />
+
+Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via. <br />
+
+<br />
+
+Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
+sentia exacerbarem-se-lhe as preven&ccedil;&otilde;es que
+nutria contra o clero, cuja influencia moral, ali&aacute;s justa e
+vantajosa, &eacute; cada
+vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam
+augmental-a por meios improprios
+<span class="pagenum">[53]</span>
+da sublimidade da sua miss&atilde;o e at&eacute; dos preceitos
+da religi&atilde;o, de que se dizem ministros. <br />
+
+<br />
+
+Henrique fez algumas reflex&otilde;es n'este mesmo sentido a
+Magdalena, que n&atilde;o p&ocirc;de deixar de apoial-as, tanto
+mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, n&atilde;o de
+todo superior a este apparato terrorifico. <br />
+
+<br />
+
+A hora marcada para o serm&atilde;o approximava-se; haviam-se
+j&aacute; evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada
+vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para
+f&oacute;ra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a
+porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a
+multid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
+hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a
+cabe&ccedil;a coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo
+do confessionario. <br />
+
+<br />
+
+Nem o menor movimento revelava anima&ccedil;&atilde;o n'aquelle
+vulto. <br />
+
+<br />
+
+Henrique not&aacute;ra essa immobilidade, que ao principio o fez
+sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar.
+Qual, por&eacute;m, n&atilde;o foi a sua surpreza e a de
+Magdalena, quando, ao terminar a confiss&atilde;o, reconheceram as
+fei&ccedil;&otilde;es
+da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e
+amoravel crean&ccedil;a, que, dias antes, tanto enthusiasmo
+caus&aacute;ra, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
+labios, que tanta gra&ccedil;a lhe davam! <br />
+
+<br />
+
+E era esta crean&ccedil;a que t&atilde;o longos peccados tinha
+a narrar, para assim ficar tanto tempo aos p&eacute;s do confessor?
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, vagarosa, tr&eacute;mula, tendo claros os vestigios de
+lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os
+grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado
+da madrinha e c&ecirc;do rojava com ella a fronte no
+ch&atilde;o, que regava de lagrimas ferventes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[54]</span>
+Pobre crean&ccedil;a! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas?
+Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor? <br />
+
+<br />
+
+O confessionario d'onde ella se afast&aacute;ra, abriu-se, emfim, e
+&aacute;s vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre
+gordo, c&oacute;rado, de olhos e fronte pequenos, cabellos
+grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum
+tempo a fitar o auditorio. <br />
+
+<br />
+
+Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum
+animou aquellas cabe&ccedil;as todas, quando este homem appareceu. <br />
+
+<br />
+
+Era o missionario. <br />
+
+<br />
+
+A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
+triumphal. Curvaram-se at&eacute; ao ch&atilde;o as beatas,
+beijando-lhe a m&atilde;o ou as
+borlas da batina, e pedindo-lhe a ben&ccedil;&atilde;o, que
+elle
+distribuia com profus&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
+do ch&atilde;o um estorvo. <br />
+
+<br />
+
+Z&eacute; P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle,
+gesticulando e realisando um triplice e admiravel esfor&ccedil;o
+para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para
+desembara&ccedil;ar a lingua. <br />
+
+<br />
+
+Dizia o homem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. aquelle... &oacute; sr. padre, ou missionario,
+ou l&aacute; o que &eacute;... eu quero-lhe perguntar uma
+coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religi&atilde;o manda...
+Quando um homem se casa... <br />
+
+<br />
+
+O missionario n&atilde;o esperou pelo fim da inesperada
+interpella&ccedil;&atilde;o; com modos rudes e pulso vigoroso
+arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de c&oacute;lera: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que desaf&ocirc;ro &eacute; este? Deixam um
+homem n'este estado vir ter commigo?! <br />
+
+<br />
+
+E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo,
+que rira do desengano do Z&eacute; P'reira. Os mordomos acudiram
+logo para afastarem o Z&eacute; P'reira d'alli para
+f&oacute;ra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[55]</span>
+&#8213;Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!
+Ent&atilde;o uma pessoa n&atilde;o pode dizer o que sente? <br />
+
+<br />
+
+Ia elle j&aacute; f&oacute;ra da igreja e ainda se lhe ouvia a
+voz repetir: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha! <br />
+
+<br />
+
+Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
+este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas
+n&atilde;o
+&eacute; mais de magarefe do que de pastor? <br />
+
+<br />
+
+O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
+vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio
+pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora. <br />
+
+<br />
+
+O padre entrou para a sacristia. <br />
+
+<br />
+
+No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o serm&atilde;o,
+o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto. <br />
+
+<br />
+
+No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
+pouco attrahente do famigerado educador dos povos. <br />
+
+<br />
+
+Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
+Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
+firmeza. <br />
+
+<br />
+
+Esta tacita provoca&ccedil;&atilde;o durou alguns minutos, no
+fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos
+labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de
+cabe&ccedil;a quasi amea&ccedil;ador: <br />
+
+<br />
+
+Emfim soltou o texto latino do serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se nova pausa, e principiou. <br />
+
+<br />
+
+Apesar do exemplo de Sterne, que n&atilde;o duvidou entresachar nas
+paginas humoristicas da <em>Vida e opini&otilde;es de
+Tristam Shandy</em>, um
+serm&atilde;o sobre a consciencia, eu n&atilde;o ouso
+transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo
+missionario n'aquelle dia. <br />
+
+<br />
+
+Ainda se eu pud&eacute;sse transmittir aos leitores o
+<span class="pagenum">[56]</span>
+tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o
+decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a
+recita&ccedil;&atilde;o dos descosidos periodos d'aquella
+indigesta pr&aacute;tica, talvez me animasse &aacute; empreza,
+para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda
+atrazando a
+civilisa&ccedil;&atilde;o do povo e prejudicando a verdadeira
+religi&atilde;o, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz
+&eacute; abafada por aquella gritaria. <br />
+
+<br />
+
+As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso. <br />
+
+<br />
+
+Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
+fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
+um jejum mal guardado, uma confiss&atilde;o mal feita, uma
+involuntaria falta &aacute; missa, uma penitencia esquecida, uma
+ora&ccedil;&atilde;o supprimida, arriscava as almas por toda a
+eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem
+fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde
+os autos de f&eacute;, os p&ocirc;tros, e cavalletes aguardavam
+os delinquentes arrastados at&eacute; alli; eis o resumo da
+ora&ccedil;&atilde;o. A fatal e desesperadora
+senten&ccedil;a, que o poeta florentino esculpiu no portico do
+inferno, tra&ccedil;ava-a este sobre os umbraes do tribunal do
+Eterno. <br />
+
+<br />
+
+Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
+de um accusador, surgindo alli a pedir vingan&ccedil;a, e
+n&atilde;o o do Redemptor
+sublime a implorar e prometter perd&atilde;o. E tudo isto de
+mistura com impreca&ccedil;&otilde;es contra as modernas
+institui&ccedil;&otilde;es sociaes, contra a obra do seculo,
+contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se
+descobrisse o cunho da &eacute;poca e que tendesse a modificar os
+costumes e as ideias em sentido menos favoravel &aacute; propaganda
+reaccionaria. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que a ora&ccedil;&atilde;o progredia,
+animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava
+a selvageria das imagens. <br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo os gemidos, os solu&ccedil;os e os
+<span class="pagenum">[57]</span>
+ais do auditorio, e principalmente da parte
+feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos.
+C&ecirc;do era j&aacute; um angustioso clamor em toda a igreja.
+Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este
+espectaculo de desola&ccedil;&atilde;o, voltou os olhos para
+Christina. Viu-a
+tr&eacute;mula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo
+no gesto todos os signaes de um intenso pavor. <br />
+
+<br />
+
+Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
+tacitamente lhe communicou as apprehens&otilde;es que sentia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia
+que se estava exercendo no animo timido de Christina. <br />
+
+<br />
+
+Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
+com commentarios satyricos &aacute;s palavras do serm&atilde;o
+e &aacute; figura do
+orador, que ambas offereciam farto alimento para elles. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco Magdalena instava j&aacute; com Henrique para que se
+calasse. <br />
+
+<br />
+
+Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles
+commentarios improprios do logar. <br />
+
+<br />
+
+Effectivamente n&atilde;o tinham passado despercebidos, do padre os
+commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfar&ccedil;ados de
+Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava
+mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; n&atilde;o podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e
+por vezes a c&oacute;lera, estrangulando-lhe quasi a larynge,
+interrompera-lhe o discurso. <br />
+
+<br />
+
+Alguns ouvintes, seguindo a direc&ccedil;&atilde;o d'aquelles
+olhares faiscantes, haviam attingido j&aacute; a causa d'elles. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi algumas murmura&ccedil;&otilde;es que principiaram a
+sussurrar pela igreja. <br />
+
+<br />
+
+No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, f&ocirc;ram ellas
+mais acerbas do que nenhumas. A sr.<sup>a</sup>
+<span class="pagenum">[58]</span>
+Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a
+impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no
+cora&ccedil;&atilde;o da filha do Cancella,
+dominado pelo terror que o serm&atilde;o lev&aacute;ra ao
+cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
+f&ocirc;ssem j&aacute; prezas do inferno, para
+Magdalena e Christina, a irm&atilde; e a prima de Angelo, do seu
+amigo de infancia, em quem j&aacute; n&atilde;o se atrevia a
+pensar. <br />
+
+<br />
+
+N'uma occasi&atilde;o em que o missionario fulminava com mais
+vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do
+demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e
+&aacute;s vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das
+duas primas, fez n&atilde;o sei que reflex&atilde;o tanto a
+proposito, que a morgadinha n&atilde;o conteve o riso; a propria
+Christina sorriu tambem. <br />
+
+<br />
+
+Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as
+faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os
+bra&ccedil;os hirtos e estendidos na direc&ccedil;&atilde;o
+de Henrique, rompeu
+n'estes violentos termos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;F&oacute;ra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui
+escarnecer da palavra do Senhor! F&oacute;ra do templo, impios
+libertinos, que n&atilde;o respeitaes os ministros de Deus, nem o
+seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas
+na casa do Senhor! Escorra&ccedil;ae-os, irm&atilde;os, se
+n&atilde;o quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus
+arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. S&atilde;o
+esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; s&atilde;o
+estas as pragas que nos veem com as estradas e com a
+civilisa&ccedil;&atilde;o. Fugi
+d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religi&atilde;o,
+mulheres sem temor de Deus,
+ma&ccedil;&otilde;es, pedreiros livres, vindes para aqui
+tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
+requeiro! Vade retr&oacute;, Satanaz, vade retr&oacute;! vade
+retr&oacute;!... <br />
+
+<br />
+
+E de cada vez que repetia a f&oacute;rmula exorcista, o
+<span class="pagenum">[59]</span>
+missionario estendia o bra&ccedil;o na
+direc&ccedil;&atilde;o de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Este, desde que viu que a impreca&ccedil;&atilde;o lhe era
+dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente.
+Preparava-se para lhe responder alli mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
+desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
+m&aacute; vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que
+se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As
+amea&ccedil;as soavam j&aacute; distinctas, os varapaus
+mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tom&aacute;ra
+propor&ccedil;&otilde;es assustadoras. <br />
+
+<br />
+
+Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
+presen&ccedil;a de espirito, que nunca a abandonava, segurou o
+bra&ccedil;o de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Henrique resistia e procurava falar. <br />
+
+<br />
+
+O velho Torquato, tr&eacute;mulo e enfiado, puxava tambem por elle
+como podia. <br />
+
+<br />
+
+O alarido, a confus&atilde;o, a desordem recrudesciam. O padre
+tinha perdido a cabe&ccedil;a, e do pulpito animava a anarchia,
+berrando e bracejando. <br />
+
+<br />
+
+Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
+havia na freguezia, obrigaram, quasi &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a, Henrique a sair da
+igreja por a porta da sacristia. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;l-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo
+precipitou-se em confus&atilde;o para a porta principal, para os
+vir esperar &aacute; sa&iacute;da da sacristia, e correu
+clamando atordoadoramente. <br />
+
+<br />
+
+E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma
+impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam
+furiosos, de bra&ccedil;os que os amea&ccedil;avam, e de
+b&ocirc;cas d'onde partiam gritos de &laquo;morte aos pedreiros
+livres, aos libertinos e aos herejes.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+Henrique parou &aacute; porta, pallido, mas sem recuar deante
+d'aquella gente furiosa e amea&ccedil;adora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querem de mim e d'estas senhoras?&#8213;perguntou elle, com voz firme.
+<br />
+
+<br />
+
+Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morra o pedreiro livre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ensinem esses senhores da cidade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouca vergonha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto n&atilde;o fica assim! Isto &eacute; de mais! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ma&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hereje! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero passar!&#8213;repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de ensinar estes fidalgos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Excommungados! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de lhes dar os risinhos na egreja. <br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o podia j&aacute; reprimir a impetuosidade do
+genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na
+m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
+varapaus cruzou-se sobre a cabe&ccedil;a d'elle. <br />
+
+<br />
+
+E os gritos de &laquo;morra! mata! abaixo os pedreiros livres e
+herejes!&raquo; levantaram-se mais amea&ccedil;adores do que
+antes. Magdalena susteve, a tremer, o bra&ccedil;o de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo. <br />
+
+<br />
+
+Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
+sacristia, e na qu&eacute;da amea&ccedil;ava ferir a
+cabe&ccedil;a de uma crean&ccedil;a
+que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se
+junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia &aacute;quillo
+tudo com infantil curiosidade, emquanto a m&atilde;e afflicta a
+chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo
+as m&atilde;os para proteger a cabe&ccedil;a da
+crean&ccedil;a, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto
+<span class="pagenum">[61]</span>
+sereno, e em tom desaffectadamente
+reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o v&ecirc;em que iam matando esta
+crean&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+Esta simples ac&ccedil;&atilde;o, e estas palavras da
+morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas
+as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa,
+e a generosidade foi e ser&aacute; sempre um dos mais poderosos
+elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores
+politicos, que tanto se esfor&ccedil;am por simulal-a, quando
+precisam do povo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem foi que atirou a pedra?&#8213;perguntou um. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos tolice! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada de pedra, ol&aacute;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o isto &eacute; coisa de garotos! <br />
+
+<br />
+
+Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
+&laquo;morra&raquo; achavam j&aacute;
+reprehensivel a primeira tentativa de lapida&ccedil;&atilde;o.
+E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a
+senten&ccedil;a. Era evidente que o maior perigo
+pass&aacute;ra e que um pouco de prudencia resolveria a crise. <br />
+
+<br />
+
+O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
+irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
+apesar dos esfor&ccedil;os de Christina e de Torquato para o
+reprimirem. <br />
+
+<br />
+
+Uma circumstancia, por&eacute;m, veio inesperadamente em auxilio
+d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade. <br />
+
+<br />
+
+Foi o caso que, depois de ser posto f&oacute;ra da igreja o
+Z&eacute;-P'reira, que,
+pelas raz&otilde;es que o leitor j&aacute; sabe, e inda mais
+depois do mallogro da
+interpella&ccedil;&atilde;o ao missionario, n&atilde;o
+olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no
+adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular
+tambor, instrumento das
+<span class="pagenum">[62]</span>
+suas
+glorias, e que ainda n'aquelle dia servira &aacute; frente da
+prociss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ahi se conservou em quanto durou o serm&atilde;o. Junto do artista
+deit&aacute;ra-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o
+que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e
+febris que o outro executava na caixa&#8213;pancadas que eram, por assim
+dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos. <br />
+
+<br />
+
+Em posi&ccedil;&atilde;o de cansa&ccedil;o e desalento o
+Z&eacute; P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha
+o cerebro repassado do espirito familiar. <br />
+
+<br />
+
+Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmaz&ecirc;lo domestico da
+sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das
+familias, e sobre tudo a indifferen&ccedil;a que principiava a
+perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que
+elle conhecia a preceito. <br />
+
+<br />
+
+Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do
+hortel&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
+philarmonica na aldeia, Z&eacute; P'reira andava triste e
+desassocegado. <br />
+
+<br />
+
+N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um <em>ceci tuera cela</em>,
+como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de
+Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e
+g&ocirc;sto publico entravam em nova phase, preparava-se uma
+revolu&ccedil;&atilde;o na arte. O reformador era o mestre
+Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia
+romantica comparada &aacute; simplicidade e nobreza classica dos
+portentosos rufos do Z&eacute; P'reira, o mestre de latim realisou
+um commetimento digno de men&ccedil;&atilde;o na historia da
+arte. <br />
+
+<br />
+
+Pobre Z&eacute; P'reira! <br />
+
+<br />
+
+Estas reflex&otilde;es estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o,
+havia perto de uma hora, em uma posi&ccedil;&atilde;o
+contemplativa deante do tombado
+instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se
+<span class="pagenum">[63]</span>
+n'aquelles olhares fixos uma melancolia
+quasi poetica. <br />
+
+<br />
+
+N'esta contempla&ccedil;&atilde;o o surprehendeu a tumultuosa e
+subita sa&iacute;da do povo pela porta da igreja, e as scenas de
+motim que se lhe seguiram. A intelligencia p&ecirc;rra de
+Z&eacute; P'reira n&atilde;o achou logo a
+explica&ccedil;&atilde;o do que via. Pouco a pouco
+por&eacute;m os varapaus no ar, os gritos, a confus&atilde;o,
+principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular. <br />
+
+<br />
+
+Os instinctos ordeiros e pacificos de Z&eacute; P'reira acordaram,
+e o homem ergueu-se. <br />
+
+<br />
+
+Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
+tiracollo a al&ccedil;a do tambor. <br />
+
+<br />
+
+Olhou outra vez, e com um pontap&eacute; acordou o seu satellite,
+que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do
+acompanhamento. <br />
+
+<br />
+
+Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena.
+Ent&atilde;o o Z&eacute; P'reira n&atilde;o
+esperou mais nada, tomou uma resolu&ccedil;&atilde;o, fez um
+signal ao rapaz, e... <br />
+
+<br />
+
+<em>Pom</em>&#8213;fez a baqueta d'este, caindo
+com toda a f&ocirc;r&ccedil;a sobre a retesada superficie do
+bombo. <br />
+
+<br />
+
+<em>Tapl&atilde;o, tapl&atilde;o,
+ratapl&atilde;o,
+ratapl&atilde;o</em>...&#8213;responderam as baquetas movidas
+pelas amestradas m&atilde;os do Z&eacute; P'reira. <br />
+
+<br />
+
+Muitas cabe&ccedil;as de amotinados voltaram-se na
+direc&ccedil;&atilde;o do som. <br />
+
+<br />
+
+O Z&eacute; P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o
+jogo das baquetas; come&ccedil;ava a ganhal-o o vapor do
+enthusiasmo. <br />
+
+<br />
+
+Principiou a acudir o povo para junto do artista. <br />
+
+<br />
+
+Este tom&aacute;ra-se j&aacute; do
+<em>raptus</em>, do phrenesi musical. J&aacute;
+n&atilde;o eram s&oacute; as m&atilde;os,
+eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabe&ccedil;a que
+rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas
+offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do
+pesco&ccedil;o, a vergal-o para traz, Z&eacute; P'reira
+<span class="pagenum">[64]</span>
+parecia endemoninhado.
+N&atilde;o via, n&atilde;o ouvia,
+n&atilde;o sentia, n&atilde;o tinha consciencia de si, nem dos
+seus actos; todo elle era fogo, delirio, convuls&atilde;o, febre,
+loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do
+tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles
+movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens
+extravagantes, aquellas contrac&ccedil;&otilde;es geraes, que o
+torciam, desconjunctavam e desfiguravam. <br />
+
+<br />
+
+Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro,
+tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou,
+rufou com desespero, rufou at&eacute; as baquetas se n&atilde;o
+avistarem, de rapidas que se moviam; rufou at&eacute; o ouvido
+quasi n&atilde;o perceber a descontinuidade dos sons; rufou
+finalmente at&eacute; cair por terra exhausto, no collapso que
+succede &aacute;s convuls&otilde;es do espasmo. Se tinha de ser
+aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam
+t&atilde;o esplendido crepusculo. <br />
+
+<br />
+
+O povo inteiro applaudiu o artista. <br />
+
+<br />
+
+E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam
+j&aacute; fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da
+familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XX </h4>
+
+<br />
+
+Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da
+aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos. <br />
+
+<br />
+
+O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe
+&eacute; impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma
+terra, mal pode fazer ideia da sensa&ccedil;&atilde;o que
+produz no habitante de
+<span class="pagenum">[65]</span>
+uma aldeia, villa ou cidade
+pequena, a presen&ccedil;a de uma cara estranha. <br />
+
+<br />
+
+Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta
+curiosidade instiga-o a decifrar a significa&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle apparecimento. <br />
+
+<br />
+
+Isto aconteceu com o Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, n&atilde;o tirou
+mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e
+largos chap&eacute;os, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas
+escuras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Passaros de arriba&ccedil;&atilde;o...&#8213;pensava o Herodes
+comsigo&#8213;que vento traria isto para aqui? <br />
+
+<br />
+
+E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente. <br />
+
+<br />
+
+Um d'elles dirigiu-lhe a palavra: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, &oacute; amigo, onde ha por aqui uma casa
+habitavel, em que nos alojemos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por pouco ou por muito tempo, meu amo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o v. sr.<sup>as</sup> s&atilde;o
+engenheiros? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que sim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, visto isso, as estradas sempre v&atilde;o
+principiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que
+n&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, n&atilde;o tem nada que
+saber; os meus amos v&atilde;o por ahi sempre a direito, e
+l&aacute; adeante, chegando ao
+p&eacute; de uma oliveira, tomam &aacute; sua m&atilde;o
+esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois,
+logo que virem uma nora, carregam &aacute;
+direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, at&eacute;
+chegarem &aacute; eira; ahi tomam por um outro
+atalho, que est&aacute; ao lado e v&atilde;o dar a um
+larguinho... Depois n&atilde;o tem que saber, deitam pela rua em
+frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span>
+Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a
+explica&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma
+rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os
+engenheiros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se v. s.<sup>as</sup> querem, esta pequena vae
+ensinar-lhes o caminho. <br />
+
+<br />
+
+Acceitaram contentes, e c&ecirc;do partiam, precedidos por a
+pequena cicerone. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grande novidade!&#8213;ficou dizendo o Cancella comsigo&#8213;sim, senhor; com
+que v&atilde;o principiar as estradas! Pois nunca cuidei que
+f&ocirc;sse nos meus dias. Ent&atilde;o... querem v&ecirc;r
+que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o
+quintal do tio Vicente?... Pois se querem v&ecirc;r... O
+pobre homem estala de paix&atilde;o, se isso assim &eacute;;
+isso
+&eacute; com certeza... Pois, senhores... isto de estradas...
+&eacute; bom, &eacute;; pois n&atilde;o &eacute;?
+Sempre
+&eacute; outro arranjo para quem tem de ir &aacute; cidade... <br />
+
+<br />
+
+Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe
+ainda, divisou affixado &aacute; porta da igreja um edital. Outra
+circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a
+cabe&ccedil;a, por&eacute;m que nas aldeias toma as
+propor&ccedil;&otilde;es de um grande successo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ui! Temos novidade&#8213;disse o Herodes ao v&ecirc;l-o.&#8213;Edital
+&aacute; porta da igreja!&#8213;e approximou-se
+para ler. <br />
+
+<br />
+
+Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens
+terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente
+prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da
+igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim j&aacute;
+construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e
+murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de
+opposi&ccedil;&atilde;o e motim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom, mais outra!&#8213;dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.&#8213;Grandes
+coisas se passaram c&aacute;
+<span class="pagenum">[67]</span>
+na terra, emquanto eu andei por f&oacute;ra! O peor &eacute;
+que n&atilde;o sei se a coisa ir&aacute; assim &aacute;s
+m&atilde;os
+lavadas; ao que j&aacute; ou&ccedil;o por ahi rosnar!...
+&Eacute; o
+diabo!... Eu digo, n&atilde;o sei se &eacute; do costume em que
+uma pessoa se p&otilde;e... mas... lembrar-se, a gente de que fica
+assim &aacute; chuva e ao sol... Mas &eacute; do costume,
+&eacute;... Bem sente l&aacute; uma pessoa o frio depois de
+morta. <br />
+
+<br />
+
+E fazendo estas reflex&otilde;es proseguiu no seu caminho. <br />
+
+<br />
+
+Passou por uma pequena capella, erecta &aacute; borda de um
+pinheiral, sob a invoca&ccedil;&atilde;o da Virgem da
+Esperan&ccedil;a, e reteve-se a fazer ora&ccedil;&atilde;o.
+&Aacute;quella imagem costumava encommendar a filha, sempre que
+sa&iacute;a da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas
+ora&ccedil;&otilde;es a protec&ccedil;&atilde;o obtida,
+e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez,
+por&eacute;m, ficou triste e sobresaltado. Porqu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que se lembr&aacute;ra de que tinha, ao partir,
+deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a
+iria achar. <br />
+
+<br />
+
+Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,
+tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros
+da casa parou irresoluto. <br />
+
+<br />
+
+Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para n&oacute;s
+um mesmo aspecto. Ha occasi&otilde;es em que as casas, as arvores,
+os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e
+quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o
+cora&ccedil;&atilde;o; outras em que umas apparencias de
+sorrisos lhes d&atilde;o uns ares de festa que alegram e convidam. <br />
+
+<br />
+
+Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao
+avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas. <br />
+
+<br />
+
+Seria o effeito das tintas desmaiadas, que d&aacute; aos objectos o
+sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe
+estavam confrangendo o cora&ccedil;&atilde;o? Mas como lhe
+acudiram t&atilde;o de subito
+<span class="pagenum">[68]</span>
+esses presentimentos, a
+elle, ainda pouco tempo havia t&atilde;o despreoccupado! Como lhe
+occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de
+f&oacute;ra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava
+ainda, a m&atilde;e de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte
+obscura da vida moral, da qual ainda a analyse n&atilde;o conseguiu
+devassar as sombras. <br />
+
+<br />
+
+Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os p&eacute;s nos
+primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre,
+n&atilde;o tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza. <br />
+
+<br />
+
+Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que
+encontrou aberta. <br />
+
+<br />
+
+Logo ao entrar, recuou espantado e n&atilde;o reprimiu uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de surpreza. <br />
+
+<br />
+
+F&ocirc;ra a causa o achar novidades na primeira sala. <br />
+
+<br />
+
+Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que
+cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que
+n&atilde;o deix&aacute;ra alli ao partir. E ninguem a
+recebel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&eacute;do!&#8213;disse o Cancella, desgostoso.&#8213;Para longe o
+agouro! Cruzes negras &aacute; chegada! S&atilde;o
+coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na
+cabe&ccedil;a da rapariga, e se n&atilde;o lhe
+acudo...&#8213;Ermelinda!&#8213;exclamou, chamando por a filha. <br />
+
+<br />
+
+Como n&atilde;o recebesse resposta, passou para os aposentos
+interiores. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; entrada do corredor descobriu uma pequena pia de
+lou&ccedil;a cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de
+alecrim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau!&#8213;disse o Herodes, cada vez mais descontente.&#8213;Vou vendo que a
+minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...
+Ermelinda! <br />
+
+<br />
+
+E correu toda a casa, que n&atilde;o tinha muito que correr, e
+explorou o quintal, e sem achar a filha; j&aacute; inquieto, chegou
+a um quarto mais retirado, o
+<span class="pagenum"><a name="p68">[68]</a></span>
+unico
+que ainda n&atilde;o revist&aacute;ra. A porta estava
+fechada por dentro, por&eacute;m a p&eacute;quena cravelha
+fraca resistencia oppoz &aacute; press&atilde;o que na porta
+exerceu o Herodes. <br />
+
+<br />
+
+Franqueando assim a passagem, parou no limiar. <br />
+
+<br />
+
+Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um
+canto escuro do quarto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tu, Linda? Est&aacute;s ahi?&#8213;perguntou o Cancella,
+affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer, <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae... respondeu com voz fraca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este
+quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa?
+Chega-te c&aacute;, rapariga, quero-te abra&ccedil;ar e
+beijar... Ent&atilde;o que &eacute;
+isso?... Tens hoje t&atilde;o pouca pressa de abra&ccedil;ar
+teu pae?... D'antes, at&eacute; ao caminho me vinhas esperar... Vem
+c&aacute;, minha
+filha, vem c&aacute;... Se soubesses como me consola... <br />
+
+<br />
+
+E estendia os bra&ccedil;os para a filha, que lhe viera emfim ao
+encontro. Quando, por&eacute;m, a viu mais perto da luz, calou-se
+subitamente e principiou a <a href="#e6">examinal-a</a>
+com inquieta anciedade. Depois, como se lhe
+n&atilde;o bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer
+n&atilde;o sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe,
+silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a
+com os olhos eloquentes de paix&atilde;o e de espanto, bradando
+emfim, com voz consternada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isto!... Que tens tu, filha?... Est&aacute;s
+doente? Estas n&atilde;o s&atilde;o as tuas
+fei&ccedil;&otilde;es... Os olhos pisados... as faces
+abatidas... sem c&ocirc;r... sem risos... sem saude!... Linda, tu
+que tens? Dize: choraste, filha? Est&aacute;s doente? Fala! Anda,
+fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala! <br />
+
+<br />
+
+A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! Isto que &eacute;, meu Deus?&#8213;exclamava, mais
+assustado, o pae.&#8213;Choras ainda mais?
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Que te fizeram, filha? &Oacute; Linda, tu
+n&atilde;o tens pena de mim? n&atilde;o chores!... Ou chora,
+chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me
+por que choras, filha... Ent&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+E com voz tr&eacute;mula, com as m&atilde;os unidas e o susto
+no gesto, como no cora&ccedil;&atilde;o, o pobre homem quasi
+ajoelhava a implorar da filha a explica&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle doloroso mysterio. <br />
+
+<br />
+
+Como ella n&atilde;o respondesse ainda, continuou o afflicto pae,
+cada vez mais commovido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai os presentimentos do meu cora&ccedil;&atilde;o!
+N&atilde;o sei o que me dizia isto! N&atilde;o sei! Meu Deus,
+meu Deus! E como te pareces com tua m&atilde;e n'aquelle dia em
+que... Nem quero imaginar... &Oacute; filha, filha, n&atilde;o
+v&ecirc;s que me matas assim? Fala! <br />
+
+<br />
+
+E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais
+lagrimas desafiavam &aacute; crean&ccedil;a, sem que a fizessem
+falar. <br />
+
+<br />
+
+Nos movimentos desordenados que fazia, o desgra&ccedil;ado parecia
+louco. Elle apertava as m&atilde;os da filha, levava-as aos labios,
+abra&ccedil;ava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no ch&atilde;o;
+ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse,
+n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto. <br />
+
+<br />
+
+Como para melhor examinar aquellas fei&ccedil;&otilde;es
+queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da
+fronte da crean&ccedil;a, com as m&atilde;os
+tr&eacute;mulas, o len&ccedil;o que lhe envolvia a
+cabe&ccedil;a; mas de repente retirou-as, soltando um grito
+medonho, ergueu-se e recuou com terror. <br />
+
+<br />
+
+Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma
+palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no
+corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril
+o len&ccedil;o da cabe&ccedil;a de Ermelinda; um novo grito,
+mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos
+solu&ccedil;os, sa&iacute;u-lhe do seio, e elle, o
+desgra&ccedil;ado pae, desatou a chorar como uma
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda,
+<span class="pagenum">[71]</span>
+que com tanto amor beijava, que com
+tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu
+cora&ccedil;&atilde;o de pae, aquelles cabellos
+louros haviam ca&iacute;do aos golpes de uma tesoura desapiedada e
+quasi irreverente. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; quem f&ocirc;r pae pode conceber toda a desesperadora
+afflic&ccedil;&atilde;o em que esta descoberta
+lan&ccedil;ou o cora&ccedil;&atilde;o d'aquelle. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda caiu-lhe aos p&eacute;s, de joelhos, chorando tambem. <br />
+
+<br />
+
+Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro sen&atilde;o os
+solu&ccedil;os de ambos. <br />
+
+<br />
+
+A reac&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se fez,
+por&eacute;m, esperar muito no animo violento do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Afastou com vivacidade as m&atilde;os do rosto, ergueu a
+cabe&ccedil;a, e, com os olhos inflammados de raiva e de
+c&oacute;lera, disse para a filha, tremendo e
+gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe
+amontoavam no cora&ccedil;&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem foi?!... Responde! De quem foi essa m&atilde;o atrevida que
+fez isto?... Fala! N&atilde;o ouves? Quero sabel-o, para cortal-a
+mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgra&ccedil;ada,
+tu, consentiste! M&aacute; filha, filha desagradecida e sem
+cora&ccedil;&atilde;o, que assim deixas que me roubem as minhas
+riquezas e alegrias! A teu pae!... &Eacute; assim que pagas o amor
+com que te tenho creado?... a adora&ccedil;&atilde;o com que de
+pequenina te tratei? &Eacute; assim? &Eacute; com este
+desamor?! e com esta ingratid&atilde;o?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae! meu pae!&#8213;implorava Ermelinda, suffocada pelo
+pranto.&#8213;Perd&ocirc;e! N&atilde;o se affiija
+assim, meu pae, que me mata! N&atilde;o v&ecirc;?... Escute...
+Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A
+vaidade &eacute; um peccado grande. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?
+Fala!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por alma de minha m&atilde;e, n&atilde;o me fale assim, que
+me assusta! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;! Pois j&aacute; n&atilde;o falo... Eu estou
+socegado...
+<span class="pagenum">[72]</span>
+Mas ent&atilde;o? eu n&atilde;o hei de saber?... Bem
+v&ecirc;s que eu prec&iacute;so de saber!... V&aacute;!...
+Eu sou teu
+pae. Ordeno... Pe&ccedil;o... Dize, filha, quem foi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O missionario...&#8213;ia a dizer Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+O pae n&atilde;o a deixou proseguir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! J&aacute; sei! O missionario! &Eacute; isso! Os padres...
+as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a
+entrega assim! Vendeu-m'a &aacute;s m&atilde;os d'esses
+malvados sem
+d&oacute;, sem consciencia, sem religi&atilde;o, sem Deus... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae, n&atilde;o diga isso! N&atilde;o fale assim, que
+&eacute; peccado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu
+pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...
+Deus? Se Deus &eacute; assim, se Deus quer estas crueldades... Deus
+n&atilde;o &eacute; Deus, e eu n&atilde;o o
+reconhe&ccedil;o nem adoro! <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a
+irrita&ccedil;&atilde;o e o desespero estavam dictando ao pae.
+A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases
+audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava v&ecirc;r
+cair um raio fulminador a castigal-as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus&#8213;murmurava ella, com a voz chorosa e quasi
+sumida&#8213;por alma de minha m&atilde;e!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te! n&atilde;o fales em tua m&atilde;e, que
+n&atilde;o mereces dizer esse nome! Tua m&atilde;e! Aquella
+sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me
+n&atilde;o causar penas, e que s&oacute; com a sua morte me fez
+chorar lagrimas, t&atilde;o amargas e tantas, como eu choro agora! <br />
+
+<br />
+
+E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e
+valente, chorava, porque tinha um cora&ccedil;&atilde;o de pae.
+<br />
+
+<br />
+
+Ermelinda lan&ccedil;ou-se-lhe nos bra&ccedil;os, cobrindo-o de
+afagos e beijos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, meu pae! perd&ocirc;e-me!&#8213;dizia ella.&#8213;Se
+soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que
+<span class="pagenum">[73]</span>
+sonhei... N&atilde;o chore assim, meu
+pae! N&atilde;o culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha
+madrinha!... Foi por a salva&ccedil;&atilde;o da minha alma,
+porque... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E foi tua madrinha que t'os cortou? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, mas... &Eacute; que o missionario tinha dicto... O
+missionario &eacute; um santo!... N&atilde;o olhe para mim
+d'esse modo, meu pae, que me faz m&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+E cobria os olhos com as m&atilde;os, para n&atilde;o ver a
+express&atilde;o do rosto do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem matar-me a filha&#8213;bradava elle.&#8213;&Oacute; meu Deus! pois
+n&atilde;o &eacute; isto um grande peccado? fazer da
+crean&ccedil;a, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta
+desgra&ccedil;ada rapariga, sem c&ocirc;r, sem risos, sem
+alegria! N&atilde;o &eacute; isto um crime, meu Deus?
+N&atilde;o se vos pode amar e servir, Senhor, sen&atilde;o com
+lagrimas, com penitencias e com tristezas? N&atilde;o! Mentem
+elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e
+maldicto seja quem traz assim o desespero ao
+cora&ccedil;&atilde;o de um pae. <br />
+
+<br />
+
+E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,
+cada vez mais gelada de terror e afflic&ccedil;&atilde;o. Deu
+alguns passos no
+corredor, e voltou ao quarto onde a encontr&aacute;ra. Ella
+seguiu-o de m&atilde;os postas, chorando, pedindo-lhe que se
+n&atilde;o affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela
+impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os
+olhos no registo do Cora&ccedil;&atilde;o de Maria, que alli
+f&ocirc;ra introduzido por a mulher do Z&eacute; P'reira.
+Estava adornado com jarras de flores e v&eacute;las de
+c&ecirc;ra; era a esta imagem que Ermelinda fazia
+ora&ccedil;&atilde;o, quasi extatica, quando o pae
+entrou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cora&ccedil;&atilde;o de Maria!&#8213;disse o Cancella, quasi
+desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para
+si.&#8213;Cora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e,
+e de m&atilde;e extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores.
+Soube o que &eacute; querer a um filho, o que &eacute;
+v&ecirc;l-o padecer... o que &eacute; perdel-o... E
+ser&aacute; ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte
+d'esta
+<span class="pagenum">[74]</span>
+crean&ccedil;a?... as
+desventuras de um pae?... Ella! N&atilde;o! E se tu o
+queres&#8213;continuou allucinado, voltando-se para a imagem&#8213;e se
+n&atilde;o podes ser adorada sen&atilde;o assim, &eacute;
+porque &eacute;s falsa, falsa
+como a m&atilde;o que ahi te pintou, falsa como as b&ocirc;cas
+que te pr&eacute;gam os milagres. Vae-te! <br />
+
+<br />
+
+E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o
+caixilho, as jarras e os casti&ccedil;aes pelo ar, e tudo veio
+fazer-se peda&ccedil;os no pavimento. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao v&ecirc;r
+aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as
+faces quasi lividas, as m&atilde;os juntas, quiz falar, mas
+n&atilde;o p&ocirc;de;
+moviam-se-lhe os labios desc&oacute;rados, mas n&atilde;o lhe
+sa&iacute;a
+a voz da garganta. <br />
+
+<br />
+
+Cada vez mais cego pelo desespero, o pae j&aacute; n&atilde;o a
+attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso
+de furia o vaso da agua benta, bradando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae-te, que est&aacute;s empestada tambem pelo bafo maldicto da
+impostura. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda lan&ccedil;ou-se-lhe aos p&eacute;s,
+abra&ccedil;ou-o pelos joelhos para o reter, mas elle
+n&atilde;o a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi
+a levou de rastos &aacute; outra sala. <br />
+
+<br />
+
+Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lan&ccedil;ou por terra,
+tudo despeda&ccedil;ava ou rasgava. <br />
+
+<br />
+
+N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, n&atilde;o viu
+a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com
+os bra&ccedil;os estendidos, fazendo esfor&ccedil;os para
+falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver. <br />
+
+<br />
+
+Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a
+madrinha de Ermelinda acudiu a v&ecirc;r o que era aquillo. <br />
+
+<br />
+
+Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que
+descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o
+Cancella cortou-lhe a fala na garganta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Era de facto um olhar selvagem e sinistro. <br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Catharina parou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que vem fazer aqui, mulher?&#8213;dizia-lhe o Cancella com voz cavada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empe&ccedil;onhar
+estes ares, onde metteu a tristeza? <br />
+
+<br />
+
+E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava
+outro. <br />
+
+<br />
+
+Crescia outra vez a impetuosidade nas paix&otilde;es e nas palavras
+do Herodes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saia! saia da minha vista, se n&atilde;o quer que eu lhe
+fa&ccedil;a como fiz a esses feiti&ccedil;os com que me
+enfeiti&ccedil;ou a filha, com que m'a quiz matar. <br />
+
+<br />
+
+A velha ganhou animo ao v&ecirc;r-se f&oacute;ra da porta e por
+isso disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; se v&ecirc; quem a matou. Repare e diga se
+n&atilde;o tem remorsos, carrasco! <br />
+
+<br />
+
+Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Voltou-se, e vendo a filha estendida no ch&atilde;o, quasi como
+morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um
+cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a
+chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus,
+pedindo perd&atilde;o a ella, soltando palavras sem nexo,
+arrepellando-se, ferindo-se. <br />
+
+<br />
+
+A velha, que j&aacute; n&atilde;o o temia, ao v&ecirc;l-o
+assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino
+da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgra&ccedil;ado, tudo
+escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! ella n&atilde;o ha de morrer-me assim... Deus
+n&atilde;o pode consentir n'isto. N&atilde;o deixar&aacute;
+que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o!... vive!... senti-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o bater... Olhe! venha
+v&ecirc;r... pouse aqui a m&atilde;o, comadre, no peito d'ella,
+aqui... N&atilde;o sente? &Eacute; o
+cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute;?
+N&atilde;o lhe
+<span class="pagenum">[76]</span>
+parece que
+n&atilde;o morreu? Ar, ar, &eacute; do que ella
+precisa. <br />
+
+<br />
+
+E erguendo-se, correu, com a filha nos bra&ccedil;os, para o meio
+da rua. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda ainda estava sem acc&ocirc;rdo. Juntaram-se algumas
+mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas
+argui&ccedil;&otilde;es da beata, que n&atilde;o
+cess&aacute;ra de falar. <br />
+
+<br />
+
+Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e
+pedia por amor de Deus que lhe n&atilde;o dissessem aquillo. <br />
+
+<br />
+
+Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.
+Ermelinda tinha aberto os olhos. <br />
+
+<br />
+
+Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabe&ccedil;a,
+como se o aspecto d'elle lhe causasse terror. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com
+maior consterna&ccedil;&atilde;o na voz e no olhar. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda, sempre com os olhos fechados, come&ccedil;ou a tremer
+convulsivamente e n'uma anciedade extrema. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe a pequena!&#8213;disse a beata&#8213;n&atilde;o v&ecirc; que lhe
+faz m&ecirc;do? E com raz&atilde;o, pobre
+crean&ccedil;a! depois do que viu! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu hei de fazer m&ecirc;do a minha filha?&#8213;repetiu
+timidamente o pae.&#8213;Eu?! &Oacute; Ermelinda... pois tu... <br />
+
+<br />
+
+Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.
+Commovido, consternado, passou-a para os bra&ccedil;os da velha, e
+sentou-se a
+solu&ccedil;ar como uma crean&ccedil;a, dizendo entre gemidos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que
+desgra&ccedil;ado que eu sou!... <br />
+
+<br />
+
+A scena era bastante commovente, para que se n&atilde;o sentissem
+impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli. <br />
+
+<br />
+
+Houve um longo silencio, s&oacute; interrompido pelos roucos
+solu&ccedil;os do infeliz, em quem entr&aacute;ra o
+desespero no cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,
+que, a pouco e pouco, se percebeu ser um c&ocirc;ro de vozes
+femininas; c&ecirc;do a toada e depois da toada a lettra,
+principiou a tornar-se distincta. <br />
+
+<br />
+
+Ouviram-se perfeitamente estas palavras: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">
+Vinde, vinde, &oacute; missionarios,<br />
+
+Com a palavra de Deus<br />
+
+Libertar-nos do peccado,<br />
+
+Encaminhar-nos aos c&eacute;os.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cancella ergueu a cabe&ccedil;a e poz-se a escutar. <br />
+
+<br />
+
+As vozes continuaram: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry3 tinyl">Minha alma por v&oacute;s
+anceia,<br />
+
+&Oacute; ministros do
+Senhor!<br />
+
+E o meu peito em chammas arde,<br />
+
+Em chammas do vosso amor.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Cancella principiou a abanar a cabe&ccedil;a, e os olhos
+animaram-se-lhe de um fulgor extranho. <br />
+
+<br />
+
+O c&ocirc;ro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco
+desembocou na rua, em que se passavam estas scenas, um singular
+cortejo. <br />
+
+<br />
+
+O missionario, que n&oacute;s j&aacute; conhecemos, por o
+termos visto em pleno exercicio de suas func&ccedil;&otilde;es
+predicatorias, vinha seguido por uma cohorte de mulheres de roupas
+escuras e cabellos cortados, que cantavam em chorada cantilena estas e
+analogas quadras, que os missionarios ou os agentes seus teem quasi
+sempre o cuidado de vulgarisar como preparatorios dos animos
+impressionaveis das mulheres e das crean&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a
+prociss&atilde;o da casa do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Este j&aacute; estava em p&eacute; no meio da rua, &aacute;
+espera d'ella. <br />
+
+<br />
+
+O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu
+caminho, aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente,
+se lhe
+<span class="pagenum">[78]</span>
+apresentava escuro como um
+phantasma, e n&atilde;o conjecturou bem do que via. Por isso parou
+tambem, olhando para elle. O c&ocirc;ro suspendeu-se. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe quem sou? <br />
+
+<br />
+
+O padre fez um signal negativo com a cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve
+Deus. <br />
+
+<br />
+
+O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem
+procurava uma sa&iacute;da para caso de necessidade, pois dizia-lhe
+a raz&atilde;o que um homem que n&atilde;o ouve Deus
+n&atilde;o estaria muito disposto a escutal-o, a elle, humilde
+creatura. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de
+minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;
+perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella
+crean&ccedil;a sem culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno
+lhe envenenou o cora&ccedil;&atilde;o, e depois... depois
+matal-o. <br />
+
+<br />
+
+O padre enfiou; ia a abrir a b&ocirc;ca para falar, mas viu
+caminhar para elle o Cancella, viu no ar aquella m&atilde;o
+musculosa e larga, e, calculando a violencia do embate pelo volume do
+bra&ccedil;o, julgou-se de antem&atilde;o
+esmagado, e s&oacute; p&ocirc;de encolher os hombros, fechar os
+olhos, contrahir comicamente as fei&ccedil;&otilde;es, e
+suspender a respira&ccedil;&atilde;o, aguardando n'esta postura
+o golpe, que n&atilde;o podia evitar. <br />
+
+<br />
+
+Este de facto n&atilde;o foi suave. A m&atilde;o do Cancella
+ca&iacute;u em parte sobre o cabe&ccedil;&atilde;o, em
+parte sobre o pesco&ccedil;o do padre, e com tal
+f&ocirc;r&ccedil;a, que
+este foi constrangido a ajoelhar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, meu impostor do inferno! <br />
+
+<br />
+
+E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo
+&aacute; primeira posi&ccedil;&atilde;o.
+O chap&eacute;o rolou a alguns passos de distancia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda, meu envenenador de almas! <br />
+
+<br />
+
+Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o
+caminho do chap&eacute;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[79]</span>
+&#8213;Anda, meu calumniador de Deus! <br />
+
+<br />
+
+E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em
+p&eacute;, e ap&oacute;s, dando-lhe um forte impulso e
+soltando-o das m&atilde;os, deixou-o ir &aacute;
+merc&ecirc; da f&ocirc;r&ccedil;a transmittida. <br />
+
+<br />
+
+O padre estendeu os bra&ccedil;os instinctivamente para se amparar
+na qu&eacute;da provavel, e, p&eacute; aqui,
+p&eacute; acol&aacute;, a passos descommunaes, escapou
+miraculosamente de cair, por&eacute;m n&atilde;o conseguiu
+parar
+sen&atilde;o a muitos metros de distancia. <br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que esta scena n&atilde;o correu entre
+o silencio dos espectadores. Mal o Cancella levantou a m&atilde;o
+sobre a cabe&ccedil;a do padre, as beatas ergueram um alarido de
+atroar c&eacute;o e terra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui d'El-rei! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui d'El-rei sobre o Herodes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. Jos&eacute;! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem acode ao sr. fr. Jos&eacute;?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, que matam o santinho do missionario! <br />
+
+<br />
+
+E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas
+esgani&ccedil;adas mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse,
+por&eacute;m, a intervir mais activamente. <br />
+
+<br />
+
+A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que,
+em cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com
+respeito. <br />
+
+<br />
+
+Este, por&eacute;m, n&atilde;o oppoz resistencia. <br />
+
+<br />
+
+Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento. <br />
+
+<br />
+
+Assim deixou-se levar em pris&atilde;o, acompanhado das
+impreca&ccedil;&otilde;es das beatas e dos gritos de
+indigna&ccedil;&atilde;o dos homens. <br />
+
+<br />
+
+As devotas mulheres correram para o missionario. <br />
+
+<br />
+
+Umas levavam-lhe o chap&eacute;o, outras os oculos, outras o
+capote. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magoou-se, sr. fr. Jos&eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Doe-lhe alguma coisa? <br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[80]</span>
+Mas o padre n&atilde;o se demorou a informal-as. Limitou-se a
+abanar com a cabe&ccedil;a negativamente e deitou a correr, como se
+visse atraz de si ainda a m&atilde;o espalmada do Cancella, prompta
+a cair-lhe outra vez sobre a cabe&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Quando o Cancella chegou a casa do regedor, j&aacute; a
+multid&atilde;o engross&aacute;ra e em altos gritos pedia o
+castigo do criminoso. <br />
+
+<br />
+
+O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a
+multid&atilde;o. In continenti, redigiu um officio ao
+administrador, no qual foi t&atilde;o feliz que escreveu tres
+palavras com boa orthographia; e, falando &aacute;s turbas, disse
+que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de ser punido
+com todo o rigor das leis. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXI </h4>
+
+<br />
+
+O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi
+assumpto das conversa&ccedil;&otilde;es geraes
+de toda a aldeia. Era com indigna&ccedil;&atilde;o que se
+commentava a fa&ccedil;anha. Dizia-se que o Cancella f&ocirc;ra
+apenas o
+instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do
+padre, pela occorrencia da tarde do serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes
+offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual
+havia muito suspiravam. <br />
+
+<br />
+
+O missionario e os seus ardentes sequazes f&ocirc;ram dos mais
+acerbos propugnadores d'estas ideias, que refor&ccedil;avam com
+muitas accusa&ccedil;&otilde;es, de
+hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do
+conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+A politica viu n'isto uma arma favoravel para
+<span class="pagenum">[81]</span>
+combater o adversario, e n&atilde;o a
+desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio,
+manifestamente devida &aacute; iniciativa do pae de Magdalena, e
+impopularissima na aldeia, augmentar a irrita&ccedil;&atilde;o
+dos animos e servir de thema a uma violenta diatribe do missionario
+contra a impiedade da &eacute;poca, que nem aos fieis concedia a
+santa consola&ccedil;&atilde;o de repousar &aacute; sombra
+dos templos. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto come&ccedil;ou pois a fomentar uma
+reac&ccedil;&atilde;o contra o conselheiro, a qual
+amea&ccedil;ava o resultado da sua candidatura. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o pequena parte n'esta guerra surda, que
+principi&aacute;ra a lavrar, tomava o seu companheiro de infancia e
+particular amigo o brazileiro Seabra. <br />
+
+<br />
+
+Nunca elle sentira entranhada no cora&ccedil;&atilde;o metade
+da bem-queren&ccedil;a que apparentemente ostentava para com o
+conselheiro: mas depois de uma conferencia que tivera com mestre
+Pertunhas torn&aacute;ra-se mais manifesta a sua hostilidade e
+menos observadora de etiquetas e rebu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do
+conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o
+missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos
+bens da Igreja. <br />
+
+<br />
+
+Foi tambem o brazileiro quem trouxe &aacute; flor de agua os
+antigos excessos demagogicos, que caracterisaram o principio de
+carreira politica do conselheiro, e referira, com modos de horrorisado,
+a substancia dos exaltados discursos que elle proferira nas camaras,
+advogando ideias cuja s&oacute;
+exposi&ccedil;&atilde;o ferira de pavor a
+imagina&ccedil;&atilde;o dos povos. <br />
+
+<br />
+
+Finalmente, at&eacute; o principio dos trabalhos para as estradas,
+cujo protrahido adiamento f&ocirc;ra at&eacute;
+aquelle tempo um capitulo de accusa&ccedil;&atilde;o contra o
+pae de Magdalena, servia agora de arma &aacute;
+opposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, em atten&ccedil;&atilde;o a quem se
+adopt&aacute;ra o tra&ccedil;ado que ia ser posto em
+execu&ccedil;&atilde;o,
+era o que provava &aacute; saciedade com grande
+exhibi&ccedil;&atilde;o de cifras
+<span class="pagenum">[82]</span>
+e de raz&otilde;es economicas, ser
+esse tra&ccedil;ado,
+sobre dispendioso, irracional. <br />
+
+<br />
+
+E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio
+conselheiro, quando este os allegava para v&ecirc;r se conseguia
+demovel-o do empenho que mostrava em que o tra&ccedil;ado em
+quest&atilde;o f&ocirc;sse preferido aos outros. Tal era o
+estado das coisas publicas na terra no dia em que principiaram os
+primeiros trabalhos de campo. <br />
+
+<br />
+
+Tinham-se passado alguns dias depois da pris&atilde;o do Herodes. <br />
+
+<br />
+
+A aldeia vira-se invadida por um bando de s&ecirc;res
+desconhecidos, que vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma
+popula&ccedil;&atilde;o habituada a considerar como
+occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros ou das cancellas
+de qualquer proprietario da localidade. <br />
+
+<br />
+
+A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais
+operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou
+maiores mudan&ccedil;as na vida moral da aldeia do que nas
+condi&ccedil;&otilde;es physicas d'ella as bandeirolas, os
+niveladores, as enxadas, as p&aacute;s, alvi&otilde;es,
+picaretas, carros de m&atilde;o e padiolas, de que era armada essa
+cohorte. <br />
+
+<br />
+
+Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior
+actividade tinham come&ccedil;ado os trabalhos. Era como
+j&aacute; dissemos, na casa do herbanario. Pela
+demoli&ccedil;&atilde;o d'ella, e do
+quintal que a rodeava, principiaram as obras. <br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente assign&aacute;ra dias antes o auto de
+expropria&ccedil;&atilde;o e recebera o pre&ccedil;o da
+venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro,
+n&atilde;o lhe foi muito regateado. <br />
+
+<br />
+
+Elle, por&eacute;m, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por
+as arvores nada quiz; n&atilde;o podia resignar-se a vendel-as.
+Podia v&ecirc;l-as cair, como amigos sacrificados no cadafalso, mas
+mercadejar-lhes com os restos, isso n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu &aacute; Fazenda
+Nacional de compensa&ccedil;&atilde;o ao
+excessivo pre&ccedil;o por que f&ocirc;ram expropriados os bens
+de que o brazileiro se aposs&aacute;ra, com o patriotico intuito de
+promover os seus melhoramentos particulares, pre&ccedil;o que por
+empenho do conselheiro n&atilde;o foi litigado. <br />
+
+<br />
+
+Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram
+resistir, mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido &aacute;
+cohorte de operarios melhor armados do que elles, em parte cedendo
+&aacute;s imperiosas ordens do herbanario, que, ao sair pela ultima
+vez da casa, onde envelhecera, lhes disse, com voz irritada e severa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes
+v&oacute;s, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz! <br />
+
+<br />
+
+Os instigadores das massas conheceram que n&atilde;o era aquella a
+occasi&atilde;o nem aquelle o pretexto proprio para os seus
+projectos, e adiaram, em vista d'isso, a empresa prudentemente. <br />
+
+<br />
+
+Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em
+que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Na baixa em que ficava a habita&ccedil;&atilde;o do herbanario,
+ia uma azafama extraordinaria. <br />
+
+<br />
+
+O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de
+destrui&ccedil;&atilde;o; desconjuntavam-se as
+pedras dos muros, desfazia-se em p&oacute; a argamassa secular,
+ca&iacute;am a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos
+das arvores, alastrava-se de tijolo e cali&ccedil;a a verdura dos
+taboleiros, e c&ecirc;do, de toda aquella vivenda t&atilde;o
+amena e virente, s&oacute; restavam ruinas. <br />
+
+<br />
+
+Numerosos grupos de j&aacute; pacificados espectadores seguiam com
+curiosidade as opera&ccedil;&otilde;es de
+devasta&ccedil;&atilde;o; mas, longe d'alli, a maior distancia
+do que os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que
+elle orvalhava de lagrimas, o unico
+cora&ccedil;&atilde;o que elle dev&eacute;ras apertava de
+dor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se
+divisava toda a scena. Com a cabe&ccedil;a pousada na
+m&atilde;o e o bra&ccedil;o
+apoiado sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore,
+que d'alli via vacillar e cair, como se f&ocirc;sse um amigo que o
+precedesse no tumulo. Parecia ter fugido para longe, para pelo menos
+n&atilde;o lhes ouvir o estertor da agonia. <br />
+
+<br />
+
+Ao lado do velho estava Augusto. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da
+demoli&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mais do que uma vez tent&aacute;ra arrancar o herbanario d'aquelle
+sitio. O velho, por&eacute;m, resistiu; queria estar alli
+at&eacute; v&ecirc;r cair a ultima arvore. <br />
+
+<br />
+
+Ao pinheiral d'onde assistia &aacute; scena, chegava em
+confus&atilde;o o alarido dos trabalhadores, o rumor do manobrar
+dos instrumentos, e at&eacute; o da qu&eacute;da das arvores
+cortadas. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore,
+recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava
+ligada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; vae aquella faia!&#8213;dizia elle, com intensa
+melancolia&#8213;pobre velha! Era &aacute; tua sombra que meu pae me
+ensinava a ler! Encostava-se &aacute;quelle tronco sobre a grossa
+raiz que elle tem &aacute; flor da terra e pegando em mim ao collo,
+guiava-me nas primeiras li&ccedil;&otilde;es! E viver eu para
+te
+v&ecirc;r cair! <br />
+
+<br />
+
+E, ao perceber-lhe balan&ccedil;ar as sumidades, o velho fechou os
+olhos instinctivamente. C&ecirc;do ouviu um estrondo... Quando os
+abriu, estava por terra a faia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; a tua vez, pobre carvalho!&#8213;dizia algum tempo
+depois&#8213;muito queria minha m&atilde;e &aacute;quella arvore!
+Por suas m&atilde;os a plantou bem
+tenra. Nunca me sentei &aacute;quella sombra, que me n&atilde;o
+lembrasse da santa mulher! Parecia que eram vozes tuas, que m'a
+recordavam, infeliz! Barbaros! Olha com que desamor a decepam!
+Perd&ocirc;a-me,
+<span class="pagenum">[85]</span>
+meu velho
+amigo, mas bem v&ecirc;s que te n&atilde;o posso valer. <br />
+
+<br />
+
+E o carvalho ca&iacute;u. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno
+passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto
+cubi&ccedil;avam as crean&ccedil;as, que pela ultima vez o
+fazias!... Adeus, pobre amiga, adeus. <br />
+
+<br />
+
+E ca&iacute;a a cerdeira tambem. <br />
+
+<br />
+
+E ca&iacute;am, uma ap&oacute;s outra, todas as arvores do
+quintal, os limoeiros, as nogueiras, os salgueiros e toda a familia
+vegetal do velho Vicente, que sentia ir-se-lhe com ella a alma.
+Memorias de infancia, sonhos de juventude, e reminiscencias de velho,
+como aves invisiveis, occultas nas copas d'aquellas arvores, surgiam
+agora, espavoridas e desnorteadas, a procurar o refugio que
+n&atilde;o encontravam f&oacute;ra dalli. <br />
+
+<br />
+
+Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram
+dolorosamente feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena
+casa, onde elle envelhec&ecirc;ra e contava morrer, e ao
+patentear-se indiscretamente aos olhos irreverentes e curiosos do povo
+aquelle recatado asylo. <br />
+
+<br />
+
+A demoli&ccedil;&atilde;o proseguia com ardor e actividade. Em
+pouco tempo, s&oacute; restavam da casa os muros, meio derrocados;
+e, no quintal, a serra e o machado principiavam a exercer no tronco da
+ultima arvore a sua obra destruidora. Era o castanheiro da entrada,
+gigante de outro seculo, que desafi&aacute;ra os raios de muitos
+invernos successivos. <br />
+
+<br />
+
+A exalta&ccedil;&atilde;o do herbanario cresceu n'aquelle
+momento. Ergueu-se, pallido e tr&eacute;mulo, apoiou-se no hombro
+de Augusto, murmurando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem o castanheiro! J&aacute; era arvore quando eu nasci! Como
+elles se encarni&ccedil;am contra elle! Mas n&atilde;o te
+parece, Augusto, que n&atilde;o soffre muito o castanheiro?...
+Sabes? &Eacute; que elle j&aacute;
+n&atilde;o agradeceria a vida, porque tinha de viver assim
+desamparado
+<span class="pagenum">[86]</span>
+dos seus outros
+companheiros, que v&ecirc;
+ca&iacute;dos no ch&atilde;o... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao
+lado d'elles... &Eacute; como eu. <br />
+
+<br />
+
+O castanheiro principiou a oscillar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repara&#8213;disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o
+bra&ccedil;o de Augusto.&#8213;Elle j&aacute; treme! N&atilde;o
+v&ecirc;s!... L&aacute; lhe deitam a corda... Vae cair!...
+Parece-me que estou a
+sentir aquelle estalar de fibras... <br />
+
+<br />
+
+E a arvore ca&iacute;u com fragor no ch&atilde;o, que por tanto
+tempo
+cobrira de sombras. <br />
+
+<br />
+
+Estava ultimada a obra. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario encostou a cabe&ccedil;a ao hombro de Augusto e rompeu
+em solu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, tio Vicente, tenha animo&#8213;dizia-lhe Augusto,
+igualmente commovido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para
+acol&aacute; e n&atilde;o ver em p&eacute; uma
+s&oacute; das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um sonho
+isto, um sonho de afflic&ccedil;&atilde;o! Sinto-me
+t&atilde;o s&oacute; no mundo! Ai! se a morte me ferisse agora!
+<br />
+
+<br />
+
+A dor, a saudade e o desalento davam uma
+unc&ccedil;&atilde;o de poesia
+elegiaca &aacute; figura, ao gesto e &aacute;s
+palavras do velho, que desvanecia tudo o que n'elle pud&eacute;sse
+haver, nas situa&ccedil;&otilde;es ordinarias da vida, capaz de
+desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente. <br />
+
+<br />
+
+Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos
+materiaes, lagrima que n&atilde;o importa uma ironia &aacute;
+civilisa&ccedil;&atilde;o.
+Exalte-se embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como
+meteoro, as povoa&ccedil;&otilde;es e os &ecirc;rmos; mas
+n&atilde;o seja isso motivo para condemnar a compaix&atilde;o
+pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada &aacute;
+beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a
+cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de
+redemp&ccedil;&atilde;o, o vencido, desde que
+c&aacute;e, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima
+<span class="pagenum">[87]</span>
+de saudade. N&atilde;o tenteis
+a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos &aacute;ridos
+que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida &aacute; vossa
+alma s&ecirc;cca e esteril. Quem dev&eacute;ras confia nos
+destinos da humanidade n&atilde;o tem m&ecirc;do das lagrimas.
+Pode-se triumphar com ellas nos olhos. <br />
+
+<br />
+
+Passado algum tempo, e quando j&aacute; as sombras da noite se
+condensavam nos valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o
+velho disse para Augusto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora que n&atilde;o tenho casa, d&aacute;-me por alguns dias
+o abrigo da tua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por alguns dias?&#8213;repetiu Augusto, admirado.&#8213;Pois quer deixar-me
+depois! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero. Vou com ellas. <br />
+
+<br />
+
+E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas. <br />
+
+<br />
+
+Atravessaram a aldeia &aacute; hora a que vibravam nos ares os sons
+melancolicos das Av&eacute;-Marias. <br />
+
+<br />
+
+Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!&#8213;disse o
+herbanario, ao transpor o limiar.&#8213;M&aacute; companhia te
+far&aacute; a minha velhice. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua
+presen&ccedil;a podia desalentar quem na mocidade &eacute; mais
+fraco e desalentado do que ninguem o pode ser na velhice. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custou-me muito este golpe de hoje! N&atilde;o contava com elle!
+Desde hontem envelheci muitos annos. Podes cr&ecirc;l-o. <br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de
+f&oacute;ra da porta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&atilde;o licen&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes
+sorrisos. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario e Augusto n&atilde;o reprimiram um gesto de
+impaciencia. <br />
+
+<br />
+
+O homem entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+&#8213;Ora Deus seja aqui! T&atilde;o grande &eacute; o dia como a
+romaria, sr. Augusto! Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que
+tinha ido de manh&atilde; para casa do tio Vicente; vou
+l&aacute;... estava um mundo de gente no sitio... Mas qual sr.
+Augusto, nem tio Vicente! Ent&atilde;o com que
+escorra&ccedil;aram-n'o do seu ninho?... Pobre homem! A falar
+verdade, n'essa idade! J&aacute; sei que vem para casa do nosso
+Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda bem que o temos
+por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que tambem fizeram-n'a
+fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa assim!... Coisas
+c&aacute; do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheir&atilde;o
+na tal estrada! E j&aacute; por ahi se rosnam coisas! Emfim,
+politicos! politicos! Todos s&atilde;o os mesmos... Vae por ahi uma
+poeira dos meus peccados com a ordem a respeito do cemiterio; e com a
+historia do Herodes! Sabem que elle esteve hontem para matar o
+missionario?... E valha a verdade, dizem que por ordem de alguem do
+Mosteiro... Que eu n&atilde;o acredito, mas emfim, aquella historia
+no serm&atilde;o do outro dia... E o tal sr. Henrique, que
+&eacute; unha e carne com elles... Elle ser&aacute; muito boa
+pessoa, mas n&atilde;o me calha... L&aacute; feliz, isso como
+n&atilde;o sei de outro, com dinheiro e sem cuidados! E sempre se
+faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi dizer que sim. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente
+impassibilidade d'este n&atilde;o illudiu o velho. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas n&atilde;o se exgot&aacute;ra ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora agora, quem anda fulo &eacute; o brazileiro, o Seabra. Pelos
+modos, eu n&atilde;o sei o que ahi houve; o conselheiro
+n&atilde;o o tratou muito bem, dizem, n'uma carta que escreveu ao
+ministro, ou creatura do ministro. Umas historias muito complicadas,
+que eu n&atilde;o entendo, mas que promettem dar de si... Veremos
+em que ficam as elei&ccedil;&otilde;es este anno... O
+conselheiro bem pode trabalhar, sen&atilde;o... Elle cuidava
+<span class="pagenum">[89]</span>
+que era s&oacute;
+apresentar-se, e emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes? Ser&aacute; fiel esse?
+J&aacute; me disseram tambem que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. Pertunhas,&#8213;atalhou o herbanario, enfastiado&#8213;antes
+queremos n&atilde;o saber. Importa-nos pouco a politica. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&atilde;o como eu... Isto tambem n&atilde;o &eacute;
+politica, mas emfim... Pelo que vejo est&atilde;o
+can&ccedil;ados? Eu tambem n&atilde;o os ma&ccedil;o
+mais... E antes que me
+esque&ccedil;a, ha muitas horas que estou de posse de uma carta
+para vossemec&ecirc;, tio Vicente. &Eacute; de Lisboa, veio por
+o correio de hoje. N&atilde;o lh'a mandei a casa, porque...
+n&atilde;o sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como o
+vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso... <br />
+
+<br />
+
+O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando
+para o sobrescripto, disse com indifferen&ccedil;a: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; do Manoel. <br />
+
+<br />
+
+E abriu-a lentamente. <br />
+
+<br />
+
+O mestre de latim deixou-se ficar, na esperan&ccedil;a de ouvir
+novidades. <br />
+
+<br />
+
+A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio
+de indigna&ccedil;&atilde;o e de
+colera: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem
+sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos
+amigos, com a justi&ccedil;a das causas e com a voz da propria
+consciencia, do que com os caprichos e interesses dos poderosos com
+quem vive! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que &eacute;?&#8213;perguntou Augusto, sem atinar com a
+significa&ccedil;&atilde;o d'aquellas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&ecirc;. <br />
+
+<br />
+
+E passou a carta para as m&atilde;os de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira
+obrigado a ceder, na quest&atilde;o do despacho de Augusto, a
+fortes influencias que se
+<span class="pagenum">[90]</span>
+empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que mais tarde lhe
+explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle, talvez
+f&ocirc;sse isto at&eacute; uma vantagem; que o logar que pedia
+era a sua
+annulla&ccedil;&atilde;o perpetua, e que elle, conselheiro,
+havia de luctar contra a grande modestia do rapaz, trazendo-lhe
+&aacute; luz os merecimentos reaes, dando-lhe melhor
+colloca&ccedil;&atilde;o, e que esperava ainda empregal-o na
+capital. <br />
+
+<br />
+
+Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia. <br />
+
+<br />
+
+Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria
+despachar, e breve; e quebrou-a como um p&ecirc;rro! Oh! o que
+fizeram d'aquelle homem! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qu&ecirc;?! Pois &eacute; possivel?&#8213;perguntou, exaggerando a
+sua consterna&ccedil;&atilde;o e espanto, o officioso
+Pertunhas.&#8213;&Eacute; poss&iacute;vel que o sr. Augusto
+n&atilde;o f&ocirc;sse despachado?! <br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, passou a desfiar uma s&eacute;rie de
+consola&ccedil;&otilde;es, qual d'ellas mais t&ocirc;la e
+sem cabimento. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que emfim, tendo j&aacute; novidades para contar, e
+almejando communical-as aos frequentadores da taberna do Canada, onde
+devia estar reunida grande e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a
+pretexto de n&atilde;o ser mais tempo inc&oacute;mmodo, e
+deixou-os outra vez s&oacute;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&atilde;o-me guardados para o fim da vida todos os desenganos!
+todas as amarguras! todos os desesperos!...&#8213;disse o herbanario
+momentos depois.&#8213;&Eacute; para se odiar o mundo e os homens
+v&ecirc;r um, que conhecemos generoso e innocente, contaminado
+tambem!... Pobre Augusto! N&atilde;o basta que sejam modestos os
+teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que te n&atilde;o fazes politico? Por que n&atilde;o vaes
+tambem para a taberna do Canada dizer tolices sobre a
+governan&ccedil;a do paiz? Talvez levasses comtigo alguns
+t&ocirc;los, e tinhas n'isso uma
+recommenda&ccedil;&atilde;o poderosa. Olha para
+aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um influente...
+Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficar&#8213;respondeu Augusto, com firmeza. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario fixou-o com um olhar penetrante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda?... Mas... n&atilde;o te vae ser suave agora a vida, rapaz.
+Para se viver n&atilde;o basta uma... uma loucura. Repara bem. Se
+quizeres... O Manoel &eacute; leviano, mas creio que ainda
+n&atilde;o perverso; eu lhe escreverei... talvez que em Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe escreva. Sabe que n&atilde;o partiria para
+Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... repara!... Est&aacute;s muito novo, Augusto... Tens um
+longo futuro deante de ti. E, ficando, o que te espera?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morte que f&ocirc;sse, a morte de miseria e de fome, ficava.
+Mas resta-me ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario baixou a cabe&ccedil;a, pensativo. <br />
+
+<br />
+
+Soaram n'isto &aacute; porta da sala duas pancadas lentas. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario fez um gesto de enfado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o abras sem eu sair,&#8213;disse elle a Augusto, que se
+erguera&#8213;n&atilde;o estou de animo para aturar importunos. <br />
+
+<br />
+
+E passou para uma sala contigua. <br />
+
+<br />
+
+Augusto foi abrir ao novo visitante. <br />
+
+<br />
+
+Achou-se na presen&ccedil;a do brazileiro Seabra. <br />
+
+<br />
+
+A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer
+valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro. <br />
+
+<br />
+
+Augusto offereceu-lhe cadeira Augusto offereceu-lhe cadeira para se
+sentar,
+<span class="pagenum">[92]</span>
+sem inquirir do motivo de t&atilde;o
+inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acabo agora mesmo de saber da injusti&ccedil;a que lhe fizeram.
+Senti-a como se f&ocirc;ra propria, e venho aqui declarar-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto curvou-se, em signal de agradecimento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o que quer?&#8213;proseguiu o homem.&#8213;Hoje em dia
+&eacute; tudo assim. Padrinhos e mais padrinhos, e o mais
+s&atilde;o historias. Estamos n'uma &eacute;poca de
+corrup&ccedil;&atilde;o e de immoralidades, e ninguem sabe onde
+isto ir&aacute; parar. <br />
+
+<br />
+
+Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&ocirc;lo &eacute; quem n&atilde;o faz como os mais. O
+mundo est&aacute; para os velhacos. <br />
+
+<br />
+
+Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de
+Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias n&atilde;o pode
+receber as offensas e ficar-se com ellas assim. O perd&atilde;o
+evangelico &eacute; muito
+bonito, mas n&atilde;o &eacute; para homens. N&atilde;o lhe
+parece?
+Eu por mim n&atilde;o g&oacute;sto de genios de lama. Falemos
+como amigos. N&oacute;s ambos somos victimas de um mesmo homem. O
+sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se
+apregoava seu protector. Ahi temos a protec&ccedil;&atilde;o
+que elle lhe
+deu. Eu tambem lhe devo finezas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup>?&#8213;perguntou Augusto, que n&atilde;o
+podia saber o que lhe
+queria no fim de tudo o brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi. <br />
+
+<br />
+
+E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu
+principio &aacute;
+exposi&ccedil;&atilde;o dos seus aggravos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a
+causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me
+visconde por f&ocirc;r&ccedil;a. Coisas de que eu me estou
+rindo... Mas... emfim, para me livrar d'aquelle importuno,
+<span class="pagenum">[93]</span>
+disse-lhe que... fizesse l&aacute; o que quizesse...
+Pois, senhores, n&atilde;o teve o petulante o atrevimento de
+escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da
+opposi&ccedil;&atilde;o, mantem aturada
+correspondencia; n&atilde;o teve a audacia de lhe dizer que eu
+andava sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel,
+pois promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao
+Estado, visto que com t&atilde;o pouco me contentava, e outras
+coisas n'este g&ocirc;sto? O petulante!... <br />
+
+<br />
+
+Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam,
+luctava para se conservar s&eacute;rio perante aquella
+indigna&ccedil;&atilde;o do sr. Seabra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tem a certeza d'isso?&#8213;perguntou elle.&#8213;&Aacute;s vezes
+s&atilde;o calumnias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro
+n&atilde;o, mas do secretario, que &eacute; o
+mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse &aacute;
+m&atilde;o... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo;
+mas era de parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo
+quanto eu pud&eacute;sse dar, porque... porque... por umas tolices
+de que eu me lembrei a tempo... Ora ahi tem como elles
+s&atilde;o!... Que venham para c&aacute; com os seus
+melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se h&atilde;o
+de arrepender. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... talvez haja equivoco. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Equivoco? Ora essa! Pois eu n&atilde;o li a carta? Ella ha de
+apparecer em publico; oh! se ha de! Isto &eacute;, n&atilde;o a
+parte que me diz respeito,
+porque... porque emfim s&atilde;o negocios particulares, que
+n&atilde;o interessam a terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella,
+umas promessas do ministro, que p&otilde;em a calva &aacute;
+mostra a este Cat&atilde;o, que nos anda aqui a pr&eacute;gar
+liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com
+muita vontade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acaso tenciona?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tenciono?! Pud&eacute;ra n&atilde;o! Eu lhe
+afian&ccedil;o que o homem ha de saber com quem se metteu. Deixe
+<span class="pagenum">[94]</span>
+vir as
+elei&ccedil;&otilde;es, deixe-as vir. J&aacute; ha
+de achar o caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto
+eu... A li&ccedil;&atilde;o ha de leval-a breve. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&atilde;o guerrear a elei&ccedil;&atilde;o do
+conselheiro? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;o essa ten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem lhe opp&otilde;em? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que nem o circulo conhece? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que importa? &Eacute; uma li&ccedil;&atilde;o. Aqui
+n&atilde;o ha politica nem meia politica. Eu n&atilde;o morro
+pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro. Mas
+&eacute; preciso aproveitar tudo. E assim temos por n&oacute;s
+a auctoridade, al&eacute;m dos padres. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o se sentia com disposi&ccedil;&otilde;es
+para discutir esta quest&atilde;o politica; por isso nada mais lhe
+replicou. <br />
+
+<br />
+
+O Seabra proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu quero saber &eacute; se o amigo quer entrar na nossa
+allian&ccedil;a e acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A
+vingan&ccedil;a &eacute; o prazer dos deuses, e
+visto que foi tambem offendido... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor, n&atilde;o acceito&#8213;acudiu com vivacidade
+Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escute. Deixe-me concluir. N&atilde;o sabe do que falo. Pouco se
+exige. A coisa &eacute; esta: na carta a que me referi, e que por
+acaso me chegou &aacute;s m&atilde;os, fala-se n'uma outra, ou
+em outras anteriores, em que se tratava, mais por miudo, de uma curiosa
+transac&ccedil;&atilde;o politica que n'esta se revela claro. O
+conselheiro &eacute; pouco acautelado; haja vista ao extravio
+d'esta, e por isso... <br />
+
+<br />
+
+Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se n&atilde;o
+pud&eacute;sse comprehender onde elle queria
+chegar. <br />
+
+<br />
+
+O Seabra proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro...
+sim, porque julgo que contin&uacute;a a ensinar os pequenos, e,
+j&aacute; se sabe... como
+<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span>
+mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais
+como a D. Victoria &eacute;... um tanto descuidada, como todos
+n&oacute;s sabemos... N&atilde;o sei se me percebe?... Dizia
+eu... sim, que se &aacute;s vezes, por acaso, <a href="#e7">encontrasse</a>
+coisa que
+valesse... <br />
+
+<br />
+
+Augusto levantou-se, indignado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. Seabra!&#8213;exclamou, cheio de c&oacute;lera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valha-me Deus, eu n&atilde;o quero dizer... N&atilde;o me
+entendeu... Bem v&ecirc; que se o senhor devesse
+obriga&ccedil;&otilde;es ao conselheiro, eu n&atilde;o
+ousava... Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se n&atilde;o insistir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entendamo-nos. O senhor est&aacute; no principio da vida. Precisa
+do auxilio de alguem. Offerece-se-lhe occasi&atilde;o para fazer
+servi&ccedil;os ao governo, que
+&eacute; finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para
+isso? Quasi nada... O senhor sabe perfeitamente que se n&atilde;o
+trata aqui de desgra&ccedil;ar ninguem, de levar ninguem
+&aacute; forca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto que v. s.<sup>a</sup> insiste, sou obrigado a
+retirar-me. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere, sr. Augusto&#8213;acudiu o brazileiro, segurando-o.&#8213;Repare no que
+faz. N&atilde;o seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns
+sacrificios, se vir que nas suas circumstancias... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto que v. s.<sup>a</sup> n&atilde;o se cala, nem
+quer que eu me retire,
+ou&ccedil;a ent&atilde;o o que tenho para lhe dizer.
+A sua proposta seria para mim o maior dos insultos, se n&atilde;o
+f&ocirc;sse tal a baixeza d'ella, que
+at&eacute; despe de toda a imputa&ccedil;&atilde;o a pessoa
+que a faz. Os
+homens, faltos de sentimentos de honra, n&atilde;o offendem, quando
+insultam; n&atilde;o se lhes pode pedir raz&atilde;o da
+infamia, porque n&atilde;o a conhecem como tal; identificaram-se
+com ella. Por isso, s&oacute; me resta um partido, &eacute;
+convidal-o a sair. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro f&ocirc;ra erguendo-se &aacute; medida que Augusto
+falava. Estava espantado por v&ecirc;r que um rapaz, sem um vintem
+de seu, ousasse falar com tal
+<span class="pagenum">[96]</span>
+irreverencia a um homem que tinha dinheiro e cr&eacute;dito em
+tantos bancos! A ordem do mundo estava perturbada! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora esta!&#8213;disse elle no fim.&#8213;Ent&atilde;o o senhor
+ordena-me?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que saia!&#8213;respondeu Augusto, indicando-lhe a porta. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do
+que ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra
+vez, e, no limiar, parou para dizer: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja l&aacute; o que faz! Eu s&oacute; lhe digo que me
+n&atilde;o convem dar a minhas filhas um mestre de soberbas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto que lhe n&atilde;o poder&aacute; convir a
+educa&ccedil;&atilde;o que eu d&eacute;sse a suas filhas;
+&eacute; natural
+n&atilde;o querer educar consciencias que sejam juizes da sua
+corrup&ccedil;&atilde;o. Deixe-as ignorantes, para
+n&atilde;o ser castigado pelo desprezo d'ellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer ent&atilde;o dizer... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro saiu, bufando. <br />
+
+<br />
+
+Augusto, que fic&aacute;ra s&oacute;, sentiu-se apertar nos
+bra&ccedil;os de alguem que entrou, sem elle sentir. <br />
+
+<br />
+
+Era o herbanario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; assim, &eacute; assim que te vingas de todos, rapaz!
+Esmaga-m'os com a tua nobreza! <br />
+
+<br />
+
+Augusto sorriu-se tristemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O peor &eacute;, meu amigo&#8213;disse elle&#8213;que &eacute; a
+segunda subtrac&ccedil;&atilde;o que hoje se op&eacute;ra
+no meu or&ccedil;amento, e... a nobreza n&atilde;o nutre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas consola!&#8213;replicou o velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[97]</span>
+<h4>XXII </h4>
+
+<br />
+
+Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
+morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando
+ouviu atraz de si correr o reposteiro da entrada. <br />
+
+<br />
+
+Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Retiro-me, se sou importuno&#8213;disse a pessoa que entr&aacute;ra, e
+que fic&aacute;ra no limiar da porta. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena voltou-se ent&atilde;o e reconheceu Henrique de
+Souzellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; o primo Henrique? Pode entrar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei? Ha correspondencias t&atilde;o delicadas, que demandam a
+applica&ccedil;&atilde;o de todas as nossas
+faculdades, e a presen&ccedil;a de um importuno... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o se d&aacute; agora esse caso; nem quanto
+&aacute; delicadeza da correspondencia, nem quanto &aacute;
+importunidade do visitante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o utiliso-me da concess&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Occupava-me a escrever &aacute;quelle pobre Cancella, para o
+tranquillisar em rela&ccedil;&atilde;o &aacute;
+filha. Pobre homem! Ainda se lhe n&atilde;o p&ocirc;de obter
+fian&ccedil;a, apesar de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha
+quem trabalhe contra elle. E como ha de ter padecido na cadeia na
+incerteza em que est&aacute;? Quem ha de dizer que n'aquelle corpo,
+robusto e forte, se aloja uma alma de t&atilde;o delicados
+sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
+a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa
+da madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... &Eacute; um modelo
+para seguir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como vae a pequena? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber
+<span class="pagenum">[98]</span>
+&aacute;quelle pobre homem
+esperan&ccedil;as, que eu mesma n&atilde;o tenho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que disse o cirurgi&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada animador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como capitulou a molestia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei qu&ecirc; de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca
+pude comprehender a necessidade que tem certa gente de conhecer a
+natureza da doen&ccedil;a que lhes amea&ccedil;a roubar uma
+pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, &eacute; a quest&atilde;o
+que me interessa. Tudo o
+mais me &eacute; indifferente. N'uma pessoa doente vejo um espirito
+que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos pe&ccedil;o
+que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas n&atilde;o
+quero saber o que &eacute;. Julgo natural ao sentimento o
+considerar assim a molestia e a morte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na
+litteratura, prima. Mas a proposito do Herodes;
+deixe-me dizer-lhe
+que est&aacute; sendo muito commentada na
+aldeia a violencia d'elle contra o missionario. &Eacute; voz
+constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
+d'aquella bem empregada s&oacute;va s&atilde;o-nos tambem
+concedidas
+inteiras. Imagine o clamor que por ahi vae! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe clamar&#8213;respondeu Magdalena, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
+quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia
+n&atilde;o sou muito bem tratado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bom acautelar-se. N&atilde;o os irrite. Viu que
+n&atilde;o era prudente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o receie. Esta gente a final &eacute; cobarde. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto peor. O inimigo cobarde &eacute; mais para temer. Bem sabe.
+Foi uma desastrada ideia aquella da nossa ida ao serm&atilde;o do
+missionario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe? Eu n&atilde;o estou arrependido. Bastava-me, como
+recompensa, o ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+&#8213;Vamos, primo Henrique; confessemos que a
+situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi das mais agradaveis. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto-a, principalmente por o inc&oacute;mmodo que tiveram as
+senhoras e talvez por esse episodio dar vigor &aacute;
+opposi&ccedil;&atilde;o, que alguem por ahi
+se interessa em organisar contra o sr. conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! pois trata-se d'isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se trata?! E muito s&eacute;riamente. A portaria a respeito do
+cemiterio, a historia do serm&atilde;o, e agora o episodio do
+Cancella, teem feito um grande mal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! se meu pae perdia!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o entendo essa exclama&ccedil;&atilde;o, prima
+Magdalena. Ia jurar que era a express&atilde;o de um desejo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que n&atilde;o? Se isso f&ocirc;sse motivo para meu pae
+abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece pouco ainda o cora&ccedil;&atilde;o humano, prima.
+Seu pae est&aacute; votado &aacute; politica para toda a vida.
+Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia, aqui mesmo faria a mais
+deploravel, impertinente e inutil de todas as politicas, a politica
+local. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
+dizia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; organisado um club opposicionista na taberna de um
+tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres
+s&atilde;o os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente.
+&Eacute; preciso olhar por isto e sobretudo n&atilde;o perder
+de vista o sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande
+conta, porque representa o de uma freguezia inteira. &Eacute; de
+suppor que o requestem muito e... o homem &eacute; fragil.
+J&aacute; v&ecirc;, prima,
+que eu tomo muito a s&eacute;rio os preceitos hygienicos, que me
+deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou
+a interessar-me pelas quest&otilde;es locaes, como se aqui
+estivesse, ha annos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; um bom indicio de cura, pode crer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+&#8213;E ainda tem empenho de me curar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Empenho, todo; esperan&ccedil;a &eacute; que menos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! que sinceridade de medico t&atilde;o
+cruel! Seja; escutarei a senten&ccedil;a com coragem. Diga-me o que
+pensa de mim. Ha muito que n&atilde;o falamos n'isto. A ultima vez
+que o fizemos, um tanto categoricamente, foi n'uma occasi&atilde;o
+bem critica. Julgo que o meu procedimento de ent&atilde;o
+at&eacute; hoje
+lhe ter&aacute; feito conceber do meu caracter um n&atilde;o
+muito desfavoravel conceito. Bem v&ecirc; que n&atilde;o
+abusei... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De qu&ecirc;?&#8213;perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um
+gesto de altivez.&#8213;&Eacute; certo que tem em todo esse tempo dado
+provas de discre&ccedil;&atilde;o, no que se mostrou mais
+contricto que generoso. Pelo menos &eacute; assim que eu
+interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja contric&ccedil;&atilde;o, visto que assim o quer. Mas
+n&atilde;o lhe merecer&aacute; ella alguma misericordia para
+com o pecc&aacute;dor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella
+s&oacute; me obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem
+sempre demasiado delicadas, com que me mortifica. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; sendo t&atilde;o amavel!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e, mas a sinceridade tem d'estas exigencias. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
+Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
+do mal, inda n&atilde;o desisti de cural-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha j&aacute; agora uma unica maneira de o salvar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute;?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apaixonal-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n'esse caso estou salvo!&#8213;exclamou Henrique, n'um impeto, que
+n&atilde;o p&ocirc;de passar sem um sorriso da morgadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[101]</span>
+&#8213;Ou&ccedil;a. &Eacute; preciso andar com tento na escolha do
+objecto d'essa paix&atilde;o, sob pena de aggravar o mal em vez de
+minoral-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como hei de escolher? <br />
+
+<br />
+
+-De modo que lisonjeie a opini&atilde;o que o primo tem de si
+proprio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A opini&atilde;o que eu tenho de mim! Se pud&eacute;sse ser
+mais clara... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
+persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma
+miss&atilde;o heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de
+uma vaidade de boa indole, que se lhe n&atilde;o pode levar a mal.
+Repugna-lhe a ideia da inutilidade, da insignificancia da sua
+existencia. N&atilde;o se resigna ao papel de comparsa, ambiciona o
+de protector. Se o acaso, ou uma inconsidera&ccedil;&atilde;o
+de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter igualmente
+forte, que, em constante opposic&atilde;o, pretendesse provar-lhe
+que prescindia da sua protec&ccedil;&atilde;o, grandes
+desgostos e amarguras o esperavam no futuro. Uma indole branda, docil,
+fraca, um d'estes seres nervosamente delicados, que tremem ao verem-se
+s&oacute;s, cheios de poeticas supersti&ccedil;&otilde;es,
+que tenha a
+dissipar; que se lhe apoie ao bra&ccedil;o, como se n'elle
+encontrasse a coragem que n&atilde;o sente em si, e que, ao mesmo
+tempo, domine pela fraqueza e pela do&ccedil;ura, domine sem
+consciencia do imperio que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter
+d'estes &eacute; que deve procurar para salvar-se; s&oacute;
+d'elle pode esperar a realisa&ccedil;&atilde;o da vaga ideia de
+felicidade, que
+todos concebem na vida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se essa theoria engenhosa f&ocirc;sse verdadeira, parece-lhe
+que poderia encontrar &aacute; m&atilde;o o tal anjo salvador,
+que precisa do meu bra&ccedil;o para se apoiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que pode, e que j&aacute; o teria encontrado, se pensasse
+s&eacute;riamente nas necessidades do seu
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
+do correio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tr&eacute;goas &aacute; nossa conferencia, emquanto eu leio a
+carta de meu pae&#8213;disse Magdalena, examinando a carta recebida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos
+periodicos que chegaram. <br />
+
+<br />
+
+E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as
+folhas de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha
+interrompeu a leitura, exclamando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto? <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos. <br />
+
+<br />
+
+Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commo&ccedil;&atilde;o a
+carta do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha alguma m&aacute; nova?&#8213;perguntou Henrique, ferido por aquella
+express&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Antes, por&eacute;m, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com
+ardor a leitura at&eacute; o fim. <br />
+
+<br />
+
+Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
+n'ella os signaes de uma funda agita&ccedil;&atilde;o. Ao
+findar a leitura, passou a
+m&atilde;o pela fronte como para desviar uma ideia amarga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
+perturbar?&#8213;perguntou Henrique, j&aacute; assustado tambem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei bem; n&atilde;o posso ainda dizer a que se
+refere meu pae; mas sinto-me interiormente sobresaltada, como se o
+adivinhasse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a final o que se diz ahi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
+certo doloroso. <br />
+
+<br />
+
+Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as
+m&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+N'esta carta queixava-se o conselheiro &aacute; filha de ter sido
+victima de um abuso de confian&ccedil;a commettido por alguem, que
+elle ainda n&atilde;o sabia dizer
+<span class="pagenum">[103]</span>
+quem f&ocirc;sse. N'um periodico de Lisboa f&ocirc;ra publicada
+por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por
+n&atilde;o menor personagem politica do que o secretario intimo do
+ministro. <br />
+
+<br />
+
+O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
+compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional
+irrita&ccedil;&atilde;o que transparecia em todos os periodos,
+da que escrev&ecirc;ra &aacute; filha. O periodico que, para
+fins politicos, fizera a
+publica&ccedil;&atilde;o, havia occultado os nomes,
+por&eacute;m muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
+discre&ccedil;&atilde;o; e em Lisboa ninguem hesitou em
+aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das
+suas demoras na aldeia, receb&ecirc;ra o conselheiro essa carta;
+alli, no seio da familia, a confian&ccedil;a que depositava em
+quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por
+h&aacute;bito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro
+dizia &aacute; filha que era preciso descobrir o traidor, para
+evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da
+carta n&atilde;o era para todos comprehendel-o, e portanto
+n&atilde;o se limitasse a indagar entre os da baixa classe.
+&laquo;A vingan&ccedil;a, concluia o conselheiro,
+de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo
+tempo, fazer uma allus&atilde;o&#8213;a vingan&ccedil;a, bem ou mal
+fundada, obriga &aacute;s vezes os mais nobres caracteres a uma
+ac&ccedil;&atilde;o baixa e vil; entre os que por mim se possam
+julgar offendidos, &eacute; natural encontrar o
+criminoso.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esclare&ccedil;a-me este mysterio! disse Magdalena,
+consternada.&#8213;De que se trata aqui? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem;
+&eacute; necessario descobrir o traidor por cautela.
+Al&eacute;m de que, para todos os que, como eu, teem entrada n'esta
+casa, &eacute; isto um mysterio em que a nossa honra
+est&aacute; empenhada, porque v. ex.<sup>as</sup> teem
+direito a alimentar
+suspeitas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por amor de Deus!&#8213;acudiu, interrompendo-o, a
+morgadinha.&#8213;N&atilde;o pronuncie essa palavra! Suspeitas!
+<span class="pagenum">[104]</span>
+Esse envenenamento moral, que eu
+at&eacute; aqui n&atilde;o conheci, quer meu pae que
+voluntariamente o contraia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja envenenamento, muito embora, mas &eacute; um envenenamento
+salvador, prima, como o da vaccina; &eacute; um preservativo de
+trai&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
+occulto! nos gestos uma express&atilde;o denunciadora! nos affectos
+uma
+inten&ccedil;&atilde;o egoista! Oh! isto &eacute; horrivel!
+Mas... que carta &eacute; essa, meu Deus? Que correspondencia pode
+ter meu pae, que n&atilde;o deva v&ecirc;r a luz do dia? Meu
+pae!... Ha por f&ocirc;r&ccedil;a illus&atilde;o n'isto!
+Meu pae
+n&atilde;o tem crimes; meu pae n&atilde;o tem
+ac&ccedil;&otilde;es que o
+envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem
+receiar-se de indiscre&ccedil;&otilde;es. Pois
+n&atilde;o &eacute; assim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
+criminosos... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A politica! Sim, &eacute; isso! Eu devia
+prev&ecirc;r que essa palavra viria para explicar este mysterio!
+Por politica &eacute;-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo,
+por politica for&ccedil;a-se a consciencia, e depois... ella
+justifica tudo. Que obras s&atilde;o as obras politicas que
+precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou
+salvar uma na&ccedil;&atilde;o, pois para
+se tratar dos interesses de um povo, &eacute; sempre necessario o
+disfarce, a dissimula&ccedil;&atilde;o, o mysterio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando se n&atilde;o pode contar com a boa f&eacute; dos
+outros, perde sempre quem f&ocirc;r escrupulosamente fiel
+&aacute; sua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais valeria ent&atilde;o abandonar por uma vez essa carreira
+cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa...
+deixe-m'as v&ecirc;r... quero saber que carta &eacute; esta. <br />
+
+<br />
+
+Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que
+n&atilde;o costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe j&aacute; feito
+suspeitar que era esse o que publicava a carta em quest&atilde;o.
+N&atilde;o fazendo do conselheiro
+<span class="pagenum">[105]</span>
+t&atilde;o
+subido e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
+effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
+Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso
+cora&ccedil;&atilde;o de filha, e para o seu
+caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente nobre, generoso e
+justo, o descobrir no pae uma d'essas m&aacute;culas frequentes na
+vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
+f&ocirc;sse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. N&atilde;o o
+conseguiu, por&eacute;m.
+Magdalena, com aquella firmeza de resolu&ccedil;&atilde;o que
+energicamente se lhe revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a
+m&atilde;o para receber os periodicos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me v&ecirc;r, primo Henrique. N&atilde;o &eacute;
+possivel que de meu pae se diga ahi alguma coisa que n&atilde;o
+devam ler os olhos de uma filha. <br />
+
+<br />
+
+E quasi arrebatou das m&atilde;os de Henrique a folha, justamente
+aquella de que elle mais receiava. <br />
+
+<br />
+
+E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril. <br />
+
+<br />
+
+Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
+Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+Viu-a tornar-se de repente mais attenta &aacute; leitura; os olhos,
+que at&eacute; alli vagueavam por diversas
+sec&ccedil;&otilde;es do periodico, fixaram-se n'um ponto;
+contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios;
+c&oacute;rou e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de
+si a folha com um movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o
+dominio de uma commo&ccedil;&atilde;o profunda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; meu Deus! E n&atilde;o ter um
+cora&ccedil;&atilde;o, como o d'elle, a
+f&ocirc;r&ccedil;a precisa para fugir d'estes
+enredos! Isto &eacute; de enlouquecer!... <br />
+
+<br />
+
+Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
+examinou-a. <br />
+
+<br />
+
+Tinha conjecturado bem. <br />
+
+<br />
+
+O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
+t&atilde;o perfeito na vida politica e na vida social, como na vida
+de familia.
+<span class="pagenum">[106]</span>
+Para Henrique, em quem
+havia muito se inocul&aacute;ra o scepticismo da &eacute;poca,
+impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
+lhe apparecessem, n&atilde;o tinha o facto de que se tratava grande
+significa&ccedil;&atilde;o nem gravidade. O caso era o
+seguinte: <br />
+
+<br />
+
+Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante
+quest&atilde;o politica; uma d'estas quest&otilde;es
+que servem para estremar os campos e descriminar os programmas dos
+partidos. Vacillar n'ellas &eacute; j&aacute; trahir os
+principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
+inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais
+avan&ccedil;adas ideias liberaes, tinha de antem&atilde;o
+tra&ccedil;ado por
+elle o caminho a seguir n'esta conjunctura, o circulo, f&oacute;ra
+do qual n&atilde;o poderia combater sem apostasia; mas, como
+j&aacute; atraz dissemos, o conselheiro n&atilde;o era
+j&aacute; o homem que f&ocirc;ra nos primeiros tempos da sua
+carreira publica; perdera a f&eacute; nas utopias e nos principios
+abstractos, e trocava-os de barato por qualquer pequena vantagem
+positiva que pud&eacute;sse obter, se n&atilde;o para si, para
+a localidade de que era representante. A logica partidaria
+sacrific&aacute;ra-a, sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em
+linguagem n&atilde;o sei se parlamentar, se chama conveniencias
+politicas. <br />
+
+<br />
+
+D&eacute;ra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios
+no conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Comquanto membro da opposic&atilde;o, e dos mais temidos pela sua
+eloquencia, variados conhecimentos e vigor de discuss&atilde;o,
+n&atilde;o era elle de
+t&atilde;o espinhosa moral que n&atilde;o tivesse amigos no
+seio da maioria, sendo at&eacute; o proprio ministro um dos mais
+intimos. No tempo da discuss&atilde;o, de que falamos, o ministro,
+que desejava afastar das camaras todos os adversarios de importancia,
+n&atilde;o duvidou entrar em ajustes com o conselheiro. Este, que
+j&aacute; n&atilde;o era
+homem para repellir com indigna&ccedil;&atilde;o taes factos,
+teve a astucia precisa para se aproveitar das contingencias.
+Entenderam-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+Chegada a &eacute;poca da discuss&atilde;o, o conselheiro, que
+sempre se mostrou ardente adversario da medida ministerial, e de quem
+se esperava uma opposic&atilde;o vigorosa e efficaz, pretextou
+subitos negocios a chamal-o &aacute; provincia, e partiu,
+promettendo voltar a tempo ainda de discutir a quest&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
+inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
+contava, e alentando-os de longe &aacute; lucta. No entretanto, a
+quest&atilde;o foi apresentada nas camaras: oradores tibios e mal
+escutados acharam-se s&oacute;s a combatel-a; apagadores officiaes
+e officiosos abafaram a tempo a discuss&atilde;o; e, quando o
+conselheiro voltou a Lisboa, s&oacute; p&ocirc;de protestar nos
+circulos politicos contra o resultado da vota&ccedil;&atilde;o
+e expender as
+raz&otilde;es que deveriam fazer repellir a medida. <br />
+
+<br />
+
+Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o
+elegia; e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal
+f&ocirc;ra o pre&ccedil;o d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto trazia agora &aacute; luz a carta desencaminhada, que era
+do secretario do ministro, e que no seu conte&uacute;do deixava
+v&ecirc;r claramente as
+condi&ccedil;&otilde;es do pacto. <br />
+
+<br />
+
+Esta publica&ccedil;&atilde;o causou profunda
+sensa&ccedil;&atilde;o em Lisboa. A importancia politica do
+conselheiro soffreu com isso. <br />
+
+<br />
+
+Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
+possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
+declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio. <br />
+
+<br />
+
+Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que
+pertencem, invejosos que s&oacute; almejam o primeiro pretexto para
+os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam. <br />
+
+<br />
+
+Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas
+m&atilde;os dos taes; originou discuss&otilde;es e ataques
+violentos; e o conselheiro correu
+<span class="pagenum">[108]</span>
+risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a
+consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma
+significa&ccedil;&atilde;o
+dolorosa e triste que s&oacute; desillus&otilde;es, como as de
+Henrique
+de Souzellas, velhas desillus&otilde;es de sceptico impenitente,
+poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto. <br />
+
+<br />
+
+A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de
+familia. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a moral &eacute; uma. O homem n&atilde;o pode
+dividir-se; os peccados sociaes de quem &eacute; virtuoso nos lares
+domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que
+creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude,
+ser&atilde;o mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel
+julgamento para o cora&ccedil;&atilde;o de um pae! &Eacute;
+justo que a
+patria pe&ccedil;a contas dos crimes de familia e desconfie dos
+tribunos que n&atilde;o sabem ser paes, filhos, irm&atilde;os e
+esposos;
+&eacute; justo que a familia exija que se seja fiel &aacute;
+pr&aacute;tica e &aacute;s cren&ccedil;as que se professam,
+e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do
+homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os
+actos civicos, outra para os actos domesticos. <br />
+
+<br />
+
+Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no
+animo da morgadinha por meio de algumas
+consola&ccedil;&otilde;es, que uma
+indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava. <br />
+
+<br />
+
+Percebeu por&eacute;m, que, embora as
+manifesta&ccedil;&otilde;es do sentimento tivessem cessado
+j&aacute; em Magdalena, n&atilde;o se lhe tinha ainda dissipado
+a profunda e penosa impress&atilde;o que lhe fic&aacute;ra da
+leitura. <br />
+
+<br />
+
+Como para fazer cessar aquelle genero de
+consola&ccedil;&otilde;es, a que Henrique se julgava obrigado,
+e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom
+j&aacute; apparentemente sereno:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[109]</span>
+&#8213;Bem; visto que &eacute; necessario precavermo-nos, vejamos de
+quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar
+de alguem, mas n&atilde;o se pronuncia claramente. <br />
+
+<br />
+
+N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma
+viagem aos p&oacute;los, e queixando-se do frio, cuja intensidade
+attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de
+accender logo de manh&atilde; os fog&otilde;es da casa. <br />
+
+<br />
+
+Quando D. Victoria foi informada do conte&uacute;do da carta do seu
+cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo
+alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa,
+aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e
+Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e
+inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de
+usar de toda a prudencia e
+dissimula&ccedil;&atilde;o n'esta pesquisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui entre n&oacute;s&#8213;dizia Henrique&#8213;vejamos em quem se pode,
+com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz
+bem; um criado bo&ccedil;al pode roubar uma joia, subtrahir
+qualquer objecto de valor intrinseco; por&eacute;m os
+ladr&otilde;es de cartas como estas, s&atilde;o de outra
+especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que
+frequenta o Mosteiro... <br />
+
+<br />
+
+E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para
+elle com um gesto espantado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, minha senhora, eu mesmo n&atilde;o me devo
+excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.<sup>as</sup>
+livres
+para me instaurarem processo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa, primo Henrique!&#8213;exclamou D. Victoria.&#8213;Era o que faltava!
+Nada, nada; n&atilde;o se cance; n&atilde;o tem que
+v&ecirc;r. Aquillo foram os criados. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena estava t&atilde;o abatida de animo, que nem deu
+atten&ccedil;&atilde;o a este episodio. <br />
+
+<br />
+
+Henrique proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[110]</span>
+&#8213;Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem
+deve excluir da possibilidade de ser r&eacute;o. O sr. conselheiro,
+por&eacute;m, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo,
+vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar
+offendido por elle, e que por vingan&ccedil;a... Ora actos capazes
+de trazer estas
+animadvers&otilde;es a seu pae, prima Magdalena, s&oacute; a
+quest&atilde;o do cemiterio, mas essa n&atilde;o importa a
+ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das
+expropria&ccedil;&otilde;es, por&eacute;m... <br />
+
+<br />
+
+Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,
+antes de enuncial-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, primo, diga&#8213;acudiu logo D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A expropria&ccedil;&atilde;o da casa do herbanario... O muito
+amor que o velho tinha &aacute;quella vivenda... A repugnancia com
+que viu cortar aquellas arvores velhas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o julga que foi o Vicente?&#8213;perguntou D.
+Victoria.&#8213;Mas elle n&atilde;o vem ao Mosteiro ha muitos annos,
+primo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que f&ocirc;sse elle, minha senhora&#8213;disse
+Henrique, cujo embara&ccedil;o augmentava, sentindo que a
+morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse
+lendo o pensamento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;insistia D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;proseguiu Henrique&#8213;o velho exerce certa
+fascina&ccedil;&atilde;o na gente da terra; um verdadeiro
+prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui
+entrada a todo o momento... Emfim... eu n&atilde;o quero seguir
+mais adeante este antipathico pensamento, que talvez f&ocirc;sse
+rejeitado com indigna&ccedil;&atilde;o por quem me escuta e
+attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz bem em o abandonar, primo Henrique&#8213;disse Magdalena, com
+severidade.&#8213;Entre ser victima de uma trai&ccedil;&atilde;o e
+culpada de uma suspeita injusta,
+<span class="pagenum">[111]</span>
+cruel e maligna, prefiro arriscar-me &aacute; primeira sorte. Se um
+passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas
+mais tentadoras situa&ccedil;&otilde;es da vida, se um nome
+ennobrecido pelo infortunio, n&atilde;o s&atilde;o garantias
+bastantes para
+proteger um homem contra os ataques da suspeita, n&atilde;o quero
+entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que
+&eacute; capaz de lan&ccedil;ar sacrilegamente a
+d&uacute;vida entre paes e filhos, entre irm&atilde;s e
+irm&atilde;os. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o
+castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento
+sinceramente ter j&aacute; perdido no uso do mundo uma
+t&atilde;o sympathica e adoravel boa f&eacute; nos outros, que
+&eacute; a maior prova de candura
+que se pode dar do proprio caracter. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria n&atilde;o percebeu nada d'este rapido dialogo; por
+isso exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que est&atilde;o voss&ecirc;s ahi a dizer? De quem falam?
+Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto
+&eacute; que ninguem me tira. <br />
+
+<br />
+
+Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora
+das li&ccedil;&otilde;es dos pequenos. <br />
+
+<br />
+
+Comquanto, desde o termo das f&eacute;rias, Augusto viesse todos os
+dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com
+Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se
+pass&aacute;ra na noite de Natal. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais
+pallido e triste do que de costume. Desviou-os, por&eacute;m, como
+se at&eacute; sentisse remorsos de ter escutado as
+allus&otilde;es de Henrique sobre o caracter de um homem que ella
+se costum&aacute;ra a respeitar. Porque o leitor, cuja
+intelligencia &eacute;, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que
+a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam
+os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[112]</span>
+&#8213;Muito bons dias, sr. Augusto,&#8213;disse D. Victoria
+affavelmente&#8213;ent&atilde;o s&atilde;o horas de me vir aturar a
+pequenada? N&atilde;o lhe invejo a vida. Sabe? De manh&atilde;
+at&eacute; &aacute; noite a aturar
+crean&ccedil;as! Deus me livre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora j&aacute; n&atilde;o succede assim, minha senhora.
+Estou dispensado de parte das minhas
+obriga&ccedil;&otilde;es&#8213;disse Augusto, depois de cortejar as
+senhoras e Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v. ex.<sup>a</sup> n&atilde;o sabe que
+j&aacute; foi nomeado outro
+professor para o meu logar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que me diz? <br />
+
+<br />
+
+Em todas as pessoas presentes produziu sensa&ccedil;&atilde;o
+esta noticia. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O
+gesto de Henrique tinha uma express&atilde;o particular. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Recebi ha dias a participa&ccedil;&atilde;o
+official&#8213;continuou placidamente Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;proseguiu D. Victoria&#8213;o mano tinha aqui dito que o seu despacho
+estava seguro, que, al&eacute;m de ser de toda a
+justi&ccedil;a, elle o tomaria a
+seu cuidado. E ent&atilde;o agora... Olhem, sabem que mais? eu cada
+vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos... <br />
+
+<br />
+
+Magdalena inclinou a cabe&ccedil;a, suspirando. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem v&ecirc; v. ex.<sup>a</sup>&#8213;disse Augusto, com
+leve tom de
+amargura&#8213;que &aacute;s vezes ha grandes interesses sociaes
+dependentes do despacho de um modesto professor de
+instruc&ccedil;&atilde;o primaria da aldeia, e
+portanto n&atilde;o se deve extranhar que um homem politico
+attendesse a elles antes de tudo. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levant&aacute;ra os olhos,
+encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com
+inten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desg&ocirc;sto, que
+se lhe manifestou na
+contrac&ccedil;&atilde;o da fronte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> d&aacute;-me licen&ccedil;a
+que
+principie os meus
+trabalhos?&#8213;disse Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, quando quizer&#8213;respondeu D. Victoria.&#8213;Os pequenos
+est&atilde;o na sala verde. <br />
+
+<br />
+
+Augusto saiu. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e
+n&atilde;o se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes,
+apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob t&atilde;o
+intelligente
+direc&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que o Eduardito j&aacute; escreve e j&aacute;
+l&ecirc; manuscripto como um homem&#8213;dizia ella.&#8213;Quer
+v&ecirc;r? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter
+alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou v&ecirc;r. <br />
+
+<br />
+
+E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de
+m&atilde;e, foi buscar a pasta de Augusto e p&ocirc;z-se a
+procurar n'ella a escripta do filho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vejo ...&#8213;disse ella, remexendo os papeis.&#8213;Isto que
+&eacute;?... Ai, isto &eacute; uma escripta de Marianna... Ora
+veja. <br />
+
+<br />
+
+Henrique fingiu examinar com atten&ccedil;&atilde;o a escripta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui est&atilde;o os themas francezes d'elle. Quer v&ecirc;r?
+Eu d'isso n&atilde;o entendo, mas
+h&atilde;o de estar bons. <br />
+
+<br />
+
+E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma
+atten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora onde estar&aacute; a escripta de Eduardo? Eu sempre queria
+que
+a visse. Isto... isto &eacute;... Ha de ser alguma carta, que
+elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda
+n&atilde;o &eacute; das mais faceis... Eu por mim
+n&atilde;o a leio... Quer v&ecirc;r? <br />
+
+<br />
+
+Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe
+ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade
+dos filhos. <br />
+
+<br />
+
+Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e p&ocirc;z-se a
+l&ecirc;l-a no fim; c&ecirc;do,
+por&eacute;m, come&ccedil;ou a examinal-a com grande
+curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a
+leitura, estava-lhe
+<span class="pagenum">[114]</span>
+nos labios um
+sorriso entre de ironia e de triumpho. <br />
+
+<br />
+
+Offerecendo &aacute; morgadinha a carta que l&ecirc;ra,
+disse-lhe, com um modo que a impressionou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja se comprehende a significa&ccedil;&atilde;o d'esta
+carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu
+irm&atilde;o. A mim parece-me que as crean&ccedil;as
+n&atilde;o a comprehenderiam bem. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a
+ler. <br />
+
+<br />
+
+Succedeu-lhe como a Henrique; c&ecirc;do a dominava uma anciosa
+curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez at&eacute; o fim. <br />
+
+<br />
+
+Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao ch&atilde;o;
+escondeu o rosto entre as m&atilde;os e
+n&atilde;o p&ocirc;de reter o pranto que lhe rebentava dos
+olhos. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que ha momentos, minha tia,&#8213;respondeu Magdalena,
+fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas&#8213;em que eu n&atilde;o
+sei como se resiste &aacute; loucura; em que, para n&atilde;o
+duvidarmos de n&oacute;s
+mesmos, &eacute; necessario duvidar da Providencia, que dizem que
+protege os bons. <br />
+
+<br />
+
+E levantando-se n'esta agita&ccedil;&atilde;o nervosa, saiu da
+sala, suffocada pelos solu&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio,
+que ella n&atilde;o podia comprehender. <br />
+
+<br />
+
+Henrique respondeu simplesmente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr.
+Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro
+se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira
+significa&ccedil;&atilde;o da resposta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... n'esse caso... visto isso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, s&oacute; o sr. Augusto pode explicar o
+<span class="pagenum">[115]</span>
+mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a
+todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de
+verdade. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta
+n&atilde;o esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma
+coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi est&aacute; o pago
+que se tira de bem fazer! Ahi est&aacute;! Veremos a cara com que
+elle me responde. Ora deixa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu retiro-me&#8213;disse Henrique, pegando no chap&eacute;o para sair.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fique, primo, fique... At&eacute; &eacute; bom que
+ou&ccedil;a... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha senhora. &Eacute; melhor que eu
+n&atilde;o fique. Ha raz&otilde;es para isso... Tudo deve
+passar-se entre v. ex.<sup>a</sup> e elle, e, se me
+&eacute; licito um
+conselho, bom ser&aacute; que n&atilde;o seja demasiado
+violenta. <br />
+
+<br />
+
+Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por
+qu&ecirc;? N&atilde;o tinha feito o seu dever? Por acaso
+n&atilde;o era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as
+provas que o acaso contra elle ministr&aacute;ra? <br />
+
+<br />
+
+Mas em n&oacute;s todos se deve ter j&aacute; passado um
+phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique.
+Occasi&otilde;es ha em que, apesar de todos os argumentos da
+raz&atilde;o, apesar da
+conspira&ccedil;&atilde;o de todas as provas a justificar-nos,
+persiste em n&oacute;s uma voz instinctiva a avisar-nos de que
+commettemos um mal, formulando uma accusa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Isto s&oacute;mente n&atilde;o succede a quem tenha adormecidos
+os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso n&atilde;o
+se dava com Henrique. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria ficou s&oacute; na sala, meditando na maneira de
+confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo
+o dialogo que se ia seguir,
+<span class="pagenum">[116]</span>
+encarregando-se ella propria de responder por Augusto. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se passou muito tempo que Augusto n&atilde;o viesse
+procurar a pasta que lhe esquec&ecirc;ra na sala. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que procura?&#8213;disse D. Victoria, que, ao
+v&ecirc;l-o, parou junto da mesa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma pasta que deixei aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; esta?&#8213;disse D. Victoria, mostrando-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; essa mesma&#8213;respondeu Augusto, indo para
+buscal-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como v&atilde;o na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr.
+Augusto?&#8213;perguntou D. Victoria, retendo a pasta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem, minha senhora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; entenderam esta carta? <br />
+
+<br />
+
+Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; provavel que j&aacute;, minha senhora; ainda que
+n&atilde;o me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.<sup>a</sup>
+me deu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe
+pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a
+imprimir para elles lerem melhor. N&atilde;o posso consentir que
+entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a
+despeza que fez, para se mandar pagar. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria tirava da raiva, que se aposs&aacute;ra d'ella, uma
+ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito. <br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque n&atilde;o
+podia comprehender aquellas singulares palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz v. ex.<sup>a</sup> que... <br />
+
+<br />
+
+Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que
+Henrique deix&aacute;ra sobre a mesa, e mais exaltada
+j&aacute;, accrescentou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que
+fazia nem o que queria dizer tudo aquillo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, por amor de Deus, minha senhora,&#8213;disse elle,
+j&aacute; sobresaltado&#8213;que quer dizer tudo isto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de
+atrai&ccedil;oar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais
+cuidadoso em esconder as provas da sua villeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora!&#8213;exclamou Augusto, fazendo-se pallido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fez mal em n&atilde;o nos ter prevenido antes do que tinha
+descoberto; n&oacute;s ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir
+o lan&ccedil;o e ficarmos com a carta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, meu Deus! pois suspeita-se... <br />
+
+<br />
+
+E Augusto, quasi como louco, arrancou das m&atilde;os de D.
+Victoria a folha, e come&ccedil;ava a lel-a; mas as nuvens que lhe
+passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabe&ccedil;a
+n&atilde;o o deixavam
+comprehender o que lia. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; que eu entendo o que queria dizer o primo
+Henrique. Sempre &eacute; um homem que sabe o que &eacute; o
+mundo... <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e
+scintillou-lhe o olhar de c&oacute;lera: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar
+que o fizesse. &Eacute; o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma
+trai&ccedil;&atilde;o infame, uma trai&ccedil;&atilde;o
+que eu n&atilde;o ousaria suspeitar
+de ninguem! Mas juro-lhe que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de dar-me licen&ccedil;a de ir accommodar meus
+filhos&#8213;disse D. Victoria, interrompendo-o
+friamente. E encaminhou-se para a porta. <br />
+
+<br />
+
+Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;, minha senhora, v&aacute;; mas se tem a essas
+<span class="pagenum">[118]</span>
+crean&ccedil;as amor de
+m&atilde;e, n&atilde;o lhes ensine
+por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e
+a venerar. Pe&ccedil;o-lhe por ellas, mais do que por mim.
+&Eacute; uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar;
+vae-lhes envenenar para toda a vida o cora&ccedil;&atilde;o e
+talvez que contra si
+mesma veja voltar-se a desconfian&ccedil;a que lhes semeia
+t&atilde;o
+c&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; &eacute; certo,
+por&eacute;m, que n&atilde;o ousou dizer aos filhos
+coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio
+d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente
+calaram as reflex&otilde;es de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os
+olhos, commovida. <br />
+
+<br />
+
+Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento
+tivesse visto dissiparem-se todas as esperan&ccedil;as da sua vida.
+Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao
+v&ecirc;r-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava,
+da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se,
+engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios. <br />
+
+<br />
+
+Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu,
+por&eacute;m, a reac&ccedil;&atilde;o; n'aquelle
+caracter havia latente uma energia de homem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, mais do que nunca, preciso de alento para n&atilde;o
+succumbir;&#8213;exclamou elle, erguendo a cabe&ccedil;a e vindo-lhe
+&aacute;s faces o rubor da
+exalta&ccedil;&atilde;o&#8213;obriga-me a isso o nome honrado de meu
+pae, a santa memoria de minha m&atilde;e. A consciencia
+me dar&aacute; for&ccedil;as para luctar com a intriga e com a
+calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a
+descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha
+justi&ccedil;a no C&eacute;o, hei de
+vencer! N&atilde;o voltarei mais a esta casa, sem ser com a
+cabe&ccedil;a erguida; n&atilde;o pensarei mais em ti,
+Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia
+<span class="pagenum">[119]</span>
+vida, emquanto n&atilde;o saiba que no
+teu pensamento o meu nome n&atilde;o &eacute; o de um infame. <br />
+
+<br />
+
+Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta. <br />
+
+<br />
+
+Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a
+turba&ccedil;&atilde;o, curvou-se respeitosamente perante a
+morgadinha, e ia a retirar-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere,&#8213;disse-lhe ella, estendendo-lhe a m&atilde;o, e com
+profunda melancolia&#8213;n&atilde;o saia sem se despedir de uma amiga
+que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente. <br />
+
+<br />
+
+Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no
+cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a
+estender-lhe a m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!&#8213;exclamou elle&#8213;precisava
+d'essas palavras para n&atilde;o enlouquecer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;, Augusto, v&aacute;. Dentro em pouco tempo todos
+lhe pedir&atilde;o perd&atilde;o. Creio-o firmemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu n&atilde;o procurarei tornar a v&ecirc;l-a,
+sen&atilde;o quando pud&eacute;r justificar essa generosa
+confian&ccedil;a. Juro-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+As lagrimas de Magdalena n&atilde;o podiam mais tempo conter-se-lhe
+nos olhos; iam soltar-se e j&aacute; ella, para as occultar,
+desviava o rosto, quando Christina entrou na sala. <br />
+
+<br />
+
+Christina, a quem a m&atilde;e acab&aacute;ra de contar o
+acontecido, parou a ver a scena e a commo&ccedil;&atilde;o dos
+dois. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena deu largas &aacute; tristeza, que lhe pesava no
+cora&ccedil;&atilde;o, deixando correr livremente o pranto. <br />
+
+<br />
+
+Christina correu a abra&ccedil;al-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?&#8213;exclamou Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span>
+E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel
+ingenuidade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois tu... amaval-o? <br />
+
+<br />
+
+Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio. <br />
+
+<br />
+
+E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXIII </h4>
+
+<br />
+
+Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu
+do Mosteiro, ainda sem plano formado, sem ten&ccedil;&atilde;o
+definida, mas
+comprehendendo vagamente a necessidade de abra&ccedil;ar uma
+resolu&ccedil;&atilde;o qualquer. <br />
+
+<br />
+
+As palavras que D. Victoria inconsideradamente solt&aacute;ra,
+tinham-lhe feito conceber a suspeita de que Henrique n&atilde;o
+f&ocirc;ra alheio &aacute; calumnia que
+pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga
+n&atilde;o ia longe, e justo &eacute; confessar que
+n&atilde;o era destituida de plausibilidade a ideia. <br />
+
+<br />
+
+A especie de avers&atilde;o reciproca que, desde o primeiro
+encontro, os dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de
+Natal, em que fic&aacute;ra pendente entre elles uma
+provoca&ccedil;&atilde;o, s&oacute;
+&aacute; espera de pretexto, concorriam para dar vigor a esta
+supposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Por isso, depois de por muito tempo percorrer &aacute;
+t&ocirc;a os caminhos dos campos, sem consciencia nem destino,
+Augusto encaminhou-se resolutamente para Alvapenha. <br />
+
+<br />
+
+Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que
+occasionaram a sua
+accusa&ccedil;&atilde;o. Mal poderia at&eacute; dizer de
+que era accusado. Percebeu que se tratava de um abuso de
+confian&ccedil;a, de uma infamia, mas a impress&atilde;o
+recebida f&ocirc;ra tal que n&atilde;o o deix&aacute;ra
+investigar os pormenores do facto.
+<span class="pagenum">[121]</span>
+Previa em tudo isto
+uma trai&ccedil;&atilde;o, e, para a
+esclarecer, dirigiu-se &aacute; unica pessoa de quem lhe parecia
+provavel que ella partisse. <br />
+
+<br />
+
+Quando chegou a Alvapenha j&aacute; tinha alli passado a hora de
+jantar. <br />
+
+<br />
+
+Henrique retir&aacute;ra-se para o quarto, D. Doroth&eacute;a e
+Maria de Jesus, aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a
+rezar parte das suas longas ora&ccedil;&otilde;es quotidianas. <br />
+
+<br />
+
+Quando Augusto bateu &aacute; porta, estavam ellas de volta com a
+ladainha, que D. Doroth&eacute;a dizia em latim, a seu modo, e a
+que Maria de Jesus respondia no mesmo idioma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Turris e burris, fedilisarca, espeque da
+justi&ccedil;a, Joannes asellis</em>&#8213;dizia D.
+Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Or&aacute; p&eacute;r
+n&oacute;s</em>&#8213;respondia invariavelmente a
+criada. <br />
+
+<br />
+
+A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala. <br />
+
+<br />
+
+Poucas situa&ccedil;&otilde;es se podem conceber mais
+exasperadoras de animo do que a de Augusto n'aquelle momento. <br />
+
+<br />
+
+Vir com o espirito dominado por as mais violentas paix&otilde;es,
+trazer no cora&ccedil;&atilde;o uma
+verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na
+presen&ccedil;a de duas indoles essencialmente pacificas, de dois
+cora&ccedil;&otilde;es a que a paix&atilde;o nunca alterou
+o rithmo, de duas consciencias de que nunca a d&uacute;vida, o
+remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, &eacute; um
+martyrio cruel. <br />
+
+<br />
+
+Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ditosos olhos que o v&ecirc;em!&#8213;disse D. Doroth&eacute;a,
+arredando deante de si a dobadoura, para mais &aacute; vontade
+contemplar o recem-chegado.&#8213;N&atilde;o sei, que mal lhe fizeram
+n'esta casa! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As minhas occupa&ccedil;&otilde;es...&#8213;balbuciou Augusto, sem
+saber o que dizia. <br />
+
+<br />
+
+Maria de Jesus veio de refor&ccedil;o &aacute; ama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso! fale-nos nas suas occupa&ccedil;&otilde;es, nem que
+<span class="pagenum">[122]</span>
+se n&atilde;o soubesse
+c&aacute; que todos os dias
+d&aacute; o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas
+quintas-feiras e domingos... <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o respondeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois olhe que todos aqui lhe querem bem&#8213;disse D.
+Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim o creio, minha senhora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu fui muito amiga de sua m&atilde;e, que era uma santa creatura.
+Inda me parece que a estou a v&ecirc;r ahi sentada, com aquella
+capa r&ocirc;xa que trazia. A alegria d'ella, quando o Augustito
+veio de Lisboa! Vi-a chorar e agradecer a Deus o filho que lhe tinha
+dado... Todo o seu desejo era n&atilde;o morrer antes de o
+v&ecirc;r padre; queria pelo menos uma vez commungar
+das suas m&atilde;os... Coitada!... N&atilde;o lhe
+concedeu isso o
+Senhor, que bem c&ecirc;do a chamou a si. <br />
+
+<br />
+
+E continuou para Augusto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui
+do legado que ella deix&aacute;ra, eu disse logo: &laquo;Ora a
+alma tem ella no
+C&eacute;o por isto, quando por mais n&atilde;o
+seja&raquo;. Porque,
+emfim... s&oacute; quem n&atilde;o conheceu sua m&atilde;e
+&eacute; que n&atilde;o diria outro tanto. Verdade &eacute;
+que elle n&atilde;o chegou
+a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o que lhe
+n&atilde;o convem. E eu digo, a vida de sacerdote &eacute;
+muito bonita, isso &eacute;, mas... n&atilde;o havendo
+inclina&ccedil;&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Henrique de Souzellas est&aacute; em casa?&#8213;perguntou elle,
+logo que p&ocirc;de.&#8213;Desejava muito falar-lhe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle
+deve estar no quarto... Ha de estar a ler. N&atilde;o tem outra
+vida aquelle rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga:
+&laquo;Henriquinho, olha que isso faz-te mal...&raquo;
+&Eacute; o mesmo que nada. S&oacute; ler, ler, ler, que
+&eacute; uma coisa por maior.
+<span class="pagenum">[123]</span>
+Ao principio ainda por ahi
+dava alguns passeios... Agora, tirando l&aacute; as suas visitas ao
+Mosteiro, elle para ahi fica. L&aacute; ao Mosteiro sim, para ahi
+ainda elle vae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que os ares s&atilde;o por alli muito
+saudaveis&#8213;disse maliciosam&ecirc;nte Maria de Jesus. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus! ahi vem voss&ecirc; com as suas coisas. E ent&atilde;o
+que tem? Pois est&aacute; claro que um rapaz, como
+elle, d&aacute;-se com a gente nova. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, senhora, eu n&atilde;o digo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as raparigas de l&aacute; j&aacute; n&atilde;o
+est&atilde;o bem sem elle... Ora eu confesso, quando elle
+est&aacute; de
+mar&eacute;, &eacute; um g&ocirc;sto ouvil-o. Sempre
+&aacute;s vezes tem
+coisas que fazem rir as pedras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pondo-se a contar historias? Ih! isso ent&atilde;o &eacute;
+que &eacute;! Eu n&atilde;o sei onde elle as vae
+buscar!&#8213;accrescentou a criada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com esta&#8213;continuou D. Doroth&eacute;a, apontando para Maria de
+Jesus&#8213;&eacute; &aacute;s vezes um passo. Eu ainda queria que o
+Augustito os ouvisse a ambos. &Eacute; perdido em pouca gente. Elle
+p&otilde;e-se
+l&aacute; a inventar patranhas, e ella a t&ocirc;la, que sabe
+j&aacute; como elle
+&eacute;, ouve tudo muito s&eacute;ria e fiada, e no fim
+ent&atilde;o
+&eacute; que s&atilde;o os escarc&eacute;os. Emfim, uma
+coisa &eacute;
+dizer, outra &eacute; v&ecirc;r! <br />
+
+<br />
+
+E D. Doroth&eacute;a ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em
+que ha n&atilde;o sei que indicios de uma existencia placida, que
+consola ouvir. <br />
+
+<br />
+
+Augusto for&ccedil;ava-se a sorrir &aacute;quellas
+narra&ccedil;&otilde;es das duas velhas, a que elle mal
+attendia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo&#8213;continuou D. Doroth&eacute;a&#8213;que j&aacute; nos
+havia de fazer falta se saisse d'aqui; quando c&aacute;
+n&atilde;o est&aacute; parece-me a casa morta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, senhora, que este j&aacute; d'aqui
+n&atilde;o sae. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora bem sabe voss&ecirc; d'isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a senhora ver&aacute;. Ora! Os passeios ao Mosteiro
+s&atilde;o muito bonitos. <br />
+
+<br />
+
+Augusto ergueu-se, dev&eacute;ras resolvido a cortar a conversa por
+uma vez.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+&#8213;Se me d&aacute; licen&ccedil;a, eu vou procural-o ao quarto.
+Desejava falar-lhe, quanto antes, para um negocio de urgencia. <br />
+
+<br />
+
+Depois de mais algumas reflex&otilde;es, resignaram-se a deixal-o
+partir. <br />
+
+<br />
+
+Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto
+de Henrique, e bateu &aacute; porta d'este. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entre quem &eacute;&#8213;disse de dentro Henrique.<br />
+
+<br />
+
+Augusto entrou. <br />
+
+<br />
+
+O sobrinho de D. Doroth&eacute;a estava sentado junto da janella,
+lendo uma folha e fumando. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r Augusto levantou-se. <br />
+
+<br />
+
+A lembran&ccedil;a das scenas d'aquella manh&atilde; no
+Mosteiro, e a express&atilde;o de physionomia de Augusto,
+fizeram-lhe prev&ecirc;r a indole da entrevista que se ia seguir. <br />
+
+<br />
+
+Evitando por&eacute;m o menor indicio, que pudesse revelar a
+preven&ccedil;&atilde;o em que estava, disse
+naturalmente, estendendo a m&atilde;o a Augusto: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita? <br />
+
+<br />
+
+Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim estende a m&atilde;o a um miseravel? Ou &eacute;
+tibieza de pundonor, ou excesso de magnanimidade! <br />
+
+<br />
+
+Henrique retirou logo a m&atilde;o e respondeu com orgulhoso
+desdem: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para
+n&atilde;o me arvorar em superintendente de negocios que me
+n&atilde;o dizem respeito; &eacute; um sentido especial, que se
+chama delicadeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso
+sentido&#8213;replicou Augusto no mesmo tom.&#8213;Nem sempre s&atilde;o
+t&atilde;o observadas pelo senhor, essas delicadas
+absten&ccedil;&otilde;es, como agora. Sei-o por
+experiencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o s&atilde;o desde que os interessados me ordenam
+<span class="pagenum">[125]</span>
+que intervenha, e desde que a minha
+interven&ccedil;&atilde;o pode ser util a amigos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em
+rela&ccedil;&atilde;o ao objecto que me traz aqui, espero que
+me explique a natureza da sua interven&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui
+explica&ccedil;&otilde;es? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com o direito que me d&aacute; a consciencia, senhor!&#8213;respondeu
+energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de
+ironia.&#8213;Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e
+infamemente, como eu fui, de provocar uma
+accusa&ccedil;&atilde;o aberta e leal. Direito? &Eacute;
+mais ainda do que direito, &eacute; dever. &Eacute; um dever
+para com a moral,
+&eacute; um dever para com a consciencia, &eacute; um dever
+para com a memoria d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e
+n&atilde;o lh'o contestarei, por que singularidade acontece que
+seja eu a pessoa que tem de responder por tudo isso? Por acaso
+ser&aacute; este o pretexto, para depois do qual tinhamos adiado
+uma entrevista que suppuzemos necesssaria? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem
+infame e vil. N&atilde;o lh'o invejo. Da minha n&atilde;o
+&eacute; pretexto; &eacute; uma
+interroga&ccedil;&atilde;o bem positiva e terminante. Todos os
+motivos anteriores, que podiam auctorisar-me a procural-o, cessaram
+ante a impreterivel exigencia d'este. Preciso de justificar-me, e por
+isso preciso de conhecer e de ouvir os meus accusadores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia
+escolher uma hora mais c&oacute;mmoda. Sabe que na Alvapenha se
+janta patriarchalmente ao meio dia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o julgue que com essas ironias de mau g&ocirc;sto,
+se esquivar&aacute; a responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a
+falar com seriedade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+&#8213;E tem meios para isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;o-lhe a justi&ccedil;a de acreditar que sim; creio
+que ainda n&atilde;o estar&aacute; t&atilde;o envilecido
+que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe infligir... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; provavel que n&atilde;o risse, no caso que diz; mas
+tambem n&atilde;o falava, acredite. Ha, para
+interroga&ccedil;&otilde;es d'essas, respostas mais adequadas e
+discretas. N&atilde;o tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus,
+quem lhe disse que eu n&atilde;o queria dar-lhe todas as
+explica&ccedil;&otilde;es que souber? Sente-se, conversemos
+placidamente, que &eacute; a melhor maneira de v&ecirc;r claro
+nas coisas. N&atilde;o fuma? <br />
+
+<br />
+
+Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;-me causando tedio e compaix&atilde;o ao mesmo
+tempo, senhor. Deve ter j&aacute; uma alma bem corrompida para me
+receber assim. Ainda quando eu f&ocirc;sse um criminoso, se no seu
+caracter houvesse brio, dignidade e sentimento moral, devia a minha
+presen&ccedil;a ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto, para o
+n&atilde;o deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza
+em que est&aacute;, em que deve estar por
+f&ocirc;r&ccedil;a, a s&oacute; ideia de que pode
+calumniar um homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a
+gravidade d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser
+attendido. Para n&atilde;o comprehender isto, para n&atilde;o
+respeitar esse sagrado direito, que tem todo o accusado de se defender,
+&eacute; necessario estar corrompido at&eacute; o fundo da
+alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, s&oacute;
+se d&aacute; em quem duv&iacute;da de si
+proprio, e a si proprio se n&atilde;o respeita, porque se conhece.
+O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia, cujos amigos
+generosos n&atilde;o a receberam sem dor; e quando o calumniado lhe
+vem pedir explica&ccedil;&otilde;es, porque se trata da sua
+unica riqueza, porque, sem familia e pobre, e
+&aacute;manh&atilde; talvez na miseria,
+precisa de defender o unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um
+sorriso ultrajante, para occultar
+<span class="pagenum">[127]</span>
+talvez a cobardia, que n&atilde;o ousa
+repetir na face do accusado as insinua&ccedil;&otilde;es que
+contra elle fez na
+ausencia. Se a consciencia lhe n&atilde;o exprobra esta infamia,
+teve raz&atilde;o ao dizer-me que me enganei procurando-o. A
+caracteres d'esses n&atilde;o se pede a
+explica&ccedil;&atilde;o da calumnia; &eacute; a sua
+manifesta&ccedil;&atilde;o
+natural. <br />
+
+<br />
+
+E terminando estas palavras, que a mais violenta paix&atilde;o lhe
+dict&aacute;ra, Augusto caminhou para a porta
+do quarto. <br />
+
+<br />
+
+Henrique deteve-o. <br />
+
+<br />
+
+No espirito do leviano hospede de Alvapenha pass&aacute;ra-se
+n'este curto intervallo de tempo uma profunda
+revolu&ccedil;&atilde;o moral. <br />
+
+<br />
+
+Na voz, no gesto e na indigna&ccedil;&atilde;o de Augusto
+pareceu-lhe perceber vestigios de sinceridade, em que at&eacute;
+alli n&atilde;o acredit&aacute;ra, e desde
+esse momento, al&eacute;m dos remorsos pelos desdens com que o
+receb&ecirc;ra, sentia viva a necessidade de uma
+repara&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena tinha raz&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um n&atilde;o
+exgotado fundo de pundonor e de moralidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o saia&#8213;disse elle para Augusto, j&aacute; sem a
+menor sombra de ironia.&#8213;Se para isso f&ocirc;r necessario
+pedir-lhe perd&atilde;o, pedir-lh'o-hei. Que mais quer?...
+Reconhe&ccedil;o-lhe o direito que tem de ser escutado. Fique. E
+creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu, que em
+bem pouco concorri para ellas, sinto-me j&aacute; movido a
+n&atilde;o
+lhes dar f&eacute;. &Eacute; j&aacute; um convencimento
+t&atilde;o intimo como o que at&eacute; agora tinha da sua
+culpa, confesso-o. Se na minha m&atilde;o estiver esclarecer o
+mysterio, conte commigo. Fale. <br />
+
+<br />
+
+Augusto fitava-o ainda com desconfian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Henrique percebeu-o e continuou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justa a d&uacute;vida que lhe leio no olhar, mas,
+como s&oacute;mente o meu procedimento futuro a pode desvanecer,
+pe&ccedil;o-lhe que n&atilde;o deixe por
+isso de falar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+&#8213;Antes de mais nada: de que me accusam?&#8213;perguntou Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sabe?!&#8213;exclamou Henrique, admirado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a
+conclus&atilde;o em que fiquei, mal me deixou comprehender... <br />
+
+<br />
+
+Henrique contou ent&atilde;o tudo o que se pass&aacute;ra no
+Mosteiro, e terminou dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; v&ecirc; que eu n&atilde;o fiz mais do que
+faria outro qualquer em meu logar. Pesava sobre todos quantos
+frequentavam aquella casa uma desconfian&ccedil;a odiosa:
+esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lan&ccedil;ar aos
+hombros do culpado toda a responsabilidade da
+trai&ccedil;&atilde;o, era o natural empenho de todos. A
+descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta foi
+occasionalmente feita por D. Victoria. Eu n&atilde;o o conhecia
+bastante para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das
+apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por
+aquella occasi&atilde;o confirmaram, explicavam muito bem
+certas tenta&ccedil;&otilde;es
+de vingan&ccedil;a... Nada mais natural do que
+supp&ocirc;r... <br />
+
+<br />
+
+Augusto cobriu o rosto com as m&atilde;os, murmurando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de... <br />
+
+<br />
+
+Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a
+indiscre&ccedil;&atilde;o da sua dor. <br />
+
+<br />
+
+Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas
+disposi&ccedil;&otilde;es para com Augusto; por isso, quando
+este cortou assim em meio a express&atilde;o do pensamento, elle,
+que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto,
+advogados eloquentes. <br />
+
+<br />
+
+Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz que...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[129]</span>
+&#8213;Que n&atilde;o deve temer da impress&atilde;o produzida, por
+todas as provas d'este mundo, no animo de quem, atrav&eacute;s de
+tudo, acreditar&aacute; sempre na sua
+innocencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Refere-se a... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao seu segredo, que ha muito o n&atilde;o &eacute; para mim.
+Veja como eu estou virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com
+elle, quando ha pouco tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a
+causa occulta de tal ou qual antipathia, que sentia pelo senhor... que
+sentiamos um pelo outro, digamos assim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos... eu sei que &eacute; discreto; nem esta era
+occasi&atilde;o para entrar em confidencias. Tratemos do que mais
+importa... N&atilde;o sei como &eacute; que iria jurar agora a
+sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e com o tempo... porque
+francamente lhe declaro que me &eacute; necessario algum tempo para
+desvanecer em mim todos os restos de despeito e de...
+paix&atilde;o... por&eacute;m, com o tempo, talvez venha a ser
+seu verdadeiro amigo... sem a menor preven&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes
+inimigos aqui na terra para o enredarem assim! &Eacute; preciso
+esclarecer isto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Inimigos?!... N&atilde;o os conhe&ccedil;o, nem vejo
+motivos...&#8213;disse Augusto, pensativo. Mas de repente, como se lhe
+acudisse um pensamento luminoso, fez um gesto que Henrique percebeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;?&#8213;perguntou este logo.&#8213;Descobriu?... Diga... Uma
+suspeita &eacute; j&aacute; um rasto precioso... guia os
+primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei a seguil-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi.
+&Eacute; isso... <br />
+
+<br />
+
+E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+&#8213;E ainda agora se lembra d'elle?&#8213;exclamou Henrique, ao ouvil-o&#8213;e
+inda hesita?! O senhor &eacute; de uma boa f&eacute;!... Temos
+o fio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como p&ocirc;de elle...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso depois; o mais vir&aacute; a seu tempo. Agora trata-se de
+vigiar esse senhor... E agora me lembra; elle &eacute; um dos
+oradores do club do Canada... Sondarei esse antro tenebroso... Eu
+j&aacute; devia suppor que andava aqui miseria politica... Estou a
+achar raz&atilde;o &aacute;quella adoravel Magdalena...
+Perd&atilde;o... inda n&atilde;o perdi o habito de a adorar...
+Tambem, desde que o consiga, serei seu amigo sem
+restric&ccedil;&otilde;es. At&eacute; l&aacute;,
+por&eacute;m, n&atilde;o ser&aacute; isso motivo para de
+corpo e alma me n&atilde;o dedicar &aacute; sua causa... Eu
+posso ter todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma
+velhacaria; e, f&ocirc;sse o meu maior inimigo que eu visse victima
+d'ella, creia que procuraria desfazel-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o-lhe essas palavras, que acredito s&atilde;o
+sinceras; n&atilde;o posso, por&eacute;m, acceitar a
+interven&ccedil;&atilde;o que me offerece. Eu sou que devo
+justificar-me. Est&aacute; empenhada n'isso a minha dignidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como queira. Em todo o caso espero que uma m&aacute;
+preven&ccedil;&atilde;o o n&atilde;o
+constranja a n&atilde;o recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio
+lhe puder servir. Agora pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o, se
+alguma vez o offendi de
+mais; mas vamos l&aacute;, o senhor tambem n&atilde;o
+est&aacute; de todo isento de culpa... E quanto ao pretexto...
+adiado mais uma vez, n&atilde;o lhe parece? <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o podia fechar-se &aacute;quelle caracter, que
+se lhe estava mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso
+respondeu, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adiado para sempre. <br />
+
+<br />
+
+E estenderam as m&atilde;os um ao outro, apertando-as j&aacute;
+sem o menor resentimento. <br />
+
+<br />
+
+Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; notavel;&#8213;pensava comsigo Henrique&#8213;estou sympathisando
+&aacute; ultima hora com este rapaz!
+<span class="pagenum">[131]</span>
+Mas como se combina isto com a minha
+paix&atilde;o por Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha
+que ella acertasse, e que n&atilde;o f&ocirc;sse
+paix&atilde;o o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista
+t&atilde;o apurada para estas discrimina&ccedil;&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXIV </h4>
+
+<br />
+
+O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites
+normaes; por&eacute;m, gra&ccedil;as ao
+empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrev&ecirc;ra a favor
+do pr&ecirc;so, e apesar da
+persegui&ccedil;&atilde;o que lhe moviam os padres, contava-se
+que elle f&ocirc;sse s&ocirc;lto, e era esperado na aldeia
+dentro em poucos dias. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o se descuid&aacute;ra de mandar todos os
+dias ao pobre homem noticias da filha, a qual, depois de ter por algum
+tempo inspirado s&eacute;rios cuidados &aacute; medicina da
+terra, parecia haver entrado n'um periodo de convalescen&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber
+por qu&ecirc;, ella propria n&atilde;o
+sentia as esperan&ccedil;as que dava. <br />
+
+<br />
+
+Ha espiritos t&atilde;o instinctivamente sensiveis e perspicazes,
+que, &aacute; maneira dos medicos experientes, presentem a
+gravidade ou a approxima&ccedil;&atilde;o do mal, ainda quando
+os symptomas tenham perdido toda a fei&ccedil;&atilde;o
+assustadora. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado
+rubor de saude principia a tingir as faces, at&eacute;
+ent&atilde;o pallidas, e elles sentem-se
+ainda estremecer de secretas apprehens&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as
+fei&ccedil;&otilde;es da pequena Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de
+vida principi&aacute;ra j&aacute; a animar-lhe
+<span class="pagenum">[132]</span>
+o rosto infantil, havia pouco
+gelado de terror e pela doen&ccedil;a; &aacute;s vezes
+at&eacute; um
+sorriso, ainda que melancolico, distendia-lhe os labios desmaiados, e
+s&oacute; de quando em quando raras nuvens de tristeza, evocadas
+por uma recorda&ccedil;&atilde;o penosa, parecia
+assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as
+vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar
+n'ella. <br />
+
+<br />
+
+O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado
+pulso da crean&ccedil;a,
+assegur&aacute;ra que ella estava j&aacute; livre da febre; e
+apesar d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao
+Herodes a dar-lhe a boa nova. <br />
+
+<br />
+
+E &eacute; certo que mais do que justificadas tinham de ser estas
+apprehens&otilde;es da morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acord&aacute;ra mais
+tranquilla e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como
+nunca, os indicios do mal profundo. <br />
+
+<br />
+
+Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores,
+gritos angustiosissimos,
+contrac&ccedil;&otilde;es espasmodicas, que parecia
+despeda&ccedil;arem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de
+novo, e, ao dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma
+prostra&ccedil;&atilde;o extrema, uma quasi completa
+insensibilidade de funesta significa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, assustada, tomou nos bra&ccedil;os a debil e emmagrecida
+crean&ccedil;a, e trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda
+se avistava o sol, j&aacute; quasi a esconder-se por detraz de uma
+collina distante. <br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de
+inverno, um pouco de calor para fundir os g&ecirc;los da morte, que
+principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa
+crean&ccedil;a; ao clar&atilde;o levemente afogueado do
+horisonte, um pouco das suas tintas para aquellas faces morbidamente
+pallidas; &aacute; amenidade da paizagem, um reflexo de sorriso
+para aquelles labios, onde elle se apag&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[133]</span>
+Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol j&aacute;
+vacillante, com a express&atilde;o, cheia de
+saudade e de poesia, de uma alma joven que se despede da vida, e,
+quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente para o rosto de
+Magdalena, que a observava com anciedade. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes
+lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha apertou-a ao seio, commovida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tens tu, minha filha?&#8213;disse-lhe com meiguice, afagando-a. <br />
+
+<br />
+
+Ermelinda n&atilde;o respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com
+a mesma express&atilde;o de affecto e de tristeza. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a. <br />
+
+<br />
+
+A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a
+como d'antes. E durou, e durou este olhar at&eacute; que pareceu a
+Magdalena haver n'elle n&atilde;o sei que estranha fixidez, que a
+inquietou. <br />
+
+<br />
+
+Palpou as m&atilde;os da crean&ccedil;a; estavam frias; o
+cora&ccedil;&atilde;o, parado; chamou-a pelo nome... a mesma
+fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas
+fei&ccedil;&otilde;es... estava morta. <br />
+
+<br />
+
+Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o
+adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella,
+arrebatasse nas azas para o throno de Deus. <br />
+
+<br />
+
+A morte de uma crean&ccedil;a como Ermelinda &eacute; um facto
+de ordinario indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no
+mundo; uma voz que emmudece nos festivos c&oacute;ros da infancia;
+algumas sentidas lagrimas de m&atilde;e sobre um ber&ccedil;o
+vazio; algumas flores sobre um tumulo; e &aacute; superficie das
+ondas sociaes nem sequer a leve vibra&ccedil;&atilde;o que a
+rosa desfolhada imprime &aacute; agua tranquilla do lago... eis
+tudo. <br />
+
+<br />
+
+A multid&atilde;o segue no delirio das festas, na lucta das
+paix&otilde;es, na febre da ambi&ccedil;&atilde;o e das
+glorias, e o
+<span class="pagenum">[134]</span>
+perfume da flor
+pendida n&atilde;o lhe affecta os sentidos embriagados. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, por&eacute;m, n&atilde;o succede assim, e
+assim n&atilde;o devia succeder com Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+As paix&otilde;es humanas, que ante o cadaver de uma
+crean&ccedil;a, coroada de flores candidas e cingida da alva tunica
+da pureza, deviam abrandar-se, como deante de uma vis&atilde;o do
+C&eacute;o, tomam-n'o
+&aacute;s vezes por estimulo para mais furiosas se desencadearem, e
+proclamarem a lucta, a sedi&ccedil;&atilde;o e a
+vingan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Desde que f&ocirc;ra publicada a portaria, prohibindo expressamente
+os enterramentos na igreja, medida t&atilde;o adversa ao espirito
+do povo, n&atilde;o tinha havido
+na terra uma morte que obrigasse a p&ocirc;r a medida em
+execu&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A ira popular, exacerbada de cont&iacute;nuo pelas secretas
+instiga&ccedil;&otilde;es de alguns padres fanaticos ou
+hypocritas, e dos adversarios politicos do conselheiro, rugia, havia
+muito, surdamente, mas n&atilde;o romp&ecirc;ra em
+explos&atilde;o por falta de pretexto. <br />
+
+<br />
+
+Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um
+maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia &aacute;
+forma&ccedil;&atilde;o
+de magotes nas encruzilhadas e nos largos. <br />
+
+<br />
+
+Quando por&eacute;m se espalhou a noticia da morte de Ermelinda,
+augmentou a effervescencia dos animos. Era chegado o momento. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella,
+quiz que ella f&ocirc;sse sepultada no mausol&eacute;o da casa
+do Mosteiro. Cumprindo assim a lei, prestava-se tambem culto
+&aacute;
+affei&ccedil;&atilde;o que todos sentiam pela
+crean&ccedil;a, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria
+como irm&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo-se d'esta resolu&ccedil;&atilde;o, rebentou a
+indigna&ccedil;&atilde;o popular. <br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde
+do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada
+extraordinario ajuntamento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+O brazileiro, o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, o latinista
+Pertunhas, alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr.
+Jo&atilde;ozinho, falavam, berravam e gesticulavam a um tempo. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e
+guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que
+pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o
+atrai&ccedil;oar, achava-se agora muito abalado, porque na
+quest&atilde;o dos cemiterios era intolerante, n&atilde;o
+podendo levar &aacute; paciencia que quizessem enterrar um homem,
+como elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de
+centeio. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr.
+Jo&atilde;ozinho, n&atilde;o se can&ccedil;ava de o
+catechisar, usando para isso de todas as armas e atacando-o por todos
+os pontos vulneraveis que lhe conhecia. <br />
+
+<br />
+
+Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratid&atilde;o
+do morgado para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do
+cora&ccedil;&atilde;o do conselheiro, que priv&aacute;ra
+cruelmente o pobre velho da sua propriedade, golpe fatal, que dentro em
+pouco o levaria ao tumulo; e a proposito contava como o herbanario
+pedira de joelhos ao conselheiro para lhe poupar a casa, e como este se
+rira das lagrimas do velho, porque tinha interesse em que
+n&atilde;o f&ocirc;sse adoptado o outro plano, que lhe cortava
+uma grande por&ccedil;&atilde;o dos proprios bens. <br />
+
+<br />
+
+Ouvindo estas coisas, o sr. Jo&atilde;ozinho, que tinha mais de
+grosseiro e bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa,
+despejava copos de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes. <br />
+
+<br />
+
+Outras vezes era no t&oacute;pico do cemiterio que ardilosamente o
+espirito tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao
+morgado de que elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na
+freguezia de Pinch&otilde;es iam tambem ser prohibidos os enterros
+na igreja, o que este negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que
+o brazileiro dizia, o que dava
+<span class="pagenum">[136]</span>
+logar a novas punhadas, novas irrita&ccedil;&otilde;es e a
+novas pragas do sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+No dia que dissemos, multiplic&aacute;ra o morgado, mais que de
+costume, as suas liba&ccedil;&otilde;es de vinho; e
+com as faces injectadas, os olhos meio fechados, ouvia com
+irrita&ccedil;&atilde;o os commentarios dos
+circumstantes e distribuia com profus&atilde;o pragas e murros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com os diabos!&#8213;berrava elle, acabando de despejar um copo de
+quartilho.&#8213;Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir
+&aacute; igreja e obrigal-os a enterrar l&aacute; a pequena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o se faz assim com essa facilidade e
+arreganhos&#8213;disse velhacamente o brazileiro, de proposito para o
+irritar ainda mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe diria se se fazia ou n&atilde;o, se se tratasse de coisa
+que me dissesse respeito!... Mas, l&aacute; com a filha do
+Cancella... n&atilde;o tenho eu nada... l&aacute; se
+avenham. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; ser filha do
+Cancella ou deixar de ser;&#8213;tornava o brazileiro&#8213;a quest&atilde;o
+&eacute; do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os outros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos eu&#8213;exclamou o morgado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se Deus quizer tambem vmc. se ha de l&aacute; enterrar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabos me levem se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelos modos&#8213;disse um padre do lado&#8213;elles enterram a rapariga no
+tumulo da familia do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&ecirc;des; se elles s&atilde;o todos da mesma
+confraria!&#8213;ponderou o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se n&atilde;o, &eacute; v&ecirc;r no outro dia o que o
+Herodes fez ao missionario! Ent&atilde;o julgam que aquillo
+n&atilde;o foi combina&ccedil;&atilde;o?&#8213;disse o padre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe
+bater&#8213;accrescentou um lavrador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim me disseram que trinta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre uma pouca vergonha como aquella! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ver&atilde;o que n&atilde;o lhe succede mal.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[137]</span>
+&#8213;Pois n&atilde;o, n&atilde;o; elle est&aacute; alli,
+est&aacute; na rua. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz-se que o soltam &aacute; fian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pode ser; aquelle crime n&atilde;o tem
+fian&ccedil;a&#8213;ponderou um fazendeiro, que se tinha por muito visto
+em demandas e coisas de justi&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus! com o que voss&ecirc; vem! Querendo elles... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo parece uma seita. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda ahi est&aacute;? Pois j&aacute; se sabe que elles
+s&atilde;o pedreiros-livres. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o tal lisboeta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse, ent&atilde;o, &eacute; que &eacute; d'aquelles! <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; do tal petimetre que falam? No tal que foi para a
+igreja ca&ccedil;oar com o missionario? Sempre voss&ecirc;s
+s&atilde;o uns homens de lama, tambem!
+&Oacute; Cosme&#8213;continuou, voltando-se para um alentado camarada
+que estava ao lado d'elle&#8213;olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o
+amigo? <br />
+
+<br />
+
+O valent&atilde;o sorriu modestamente, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, senhores&#8213;proseguiu o brazileiro, que n&atilde;o
+queria deixar arrefecer o enthusiasmo e a
+irrita&ccedil;&atilde;o do publico&#8213;hoje decide-se a coisa...
+D'aqui a uma hora est&aacute; enterrada a pequena e depois... o uso
+faz lei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que &eacute; verdade&#8213;secundou o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz lei emquanto eu me n&atilde;o lembrar de ir
+desenterral-a&#8213;respondeu, cada vez mais azedado, o sr.
+Jo&atilde;ozinho <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; isso l&aacute; mais devagar&#8213;acudiu o
+brazileiro&#8213;vossemec&ecirc; bem sabe que, estando ella no
+mausol&eacute;o do conselheiro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Importa-me c&aacute; o mausol&eacute;o? O senhor
+est&aacute; a ler. Eu com um empurr&atilde;o arrumo aquella
+plataf&oacute;rma
+a terra. &Oacute; Cosme, olha n&oacute;s, hein? <br />
+
+<br />
+
+O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[138]</span>
+&#8213;Ahi est&aacute; quando era preciso que houvesse n'esta terra um
+homem de vontade, que n&atilde;o deixasse fazer o enterro&#8213;disse o
+padre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era bem feito, para elles saberem tambem que se n&atilde;o brinca
+assim com o povo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso era!&#8213;repetiram algumas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu por mim... se alguem f&ocirc;r...&#8213;aventurou um. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu, eu&#8213;ouviu-se dizer de alguns pontos da sala. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixem-se de contos,&#8213;continuou o padre&#8213;elles fazem o que querem,
+porque sabem que n&atilde;o ha um homem de coragem, que se ponha
+&aacute; frente do povo... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso &eacute; que &eacute; verdade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o ha homens para as occasi&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, que tinha presump&ccedil;&otilde;es de
+valente, e se gabava de ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com
+estas palavras, e protestou dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o julgam voss&ecirc;s que eu, se me der para ahi,
+n&atilde;o vou ao cemiterio, eu s&oacute;, e ponho tudo
+aquillo em cacos? hein? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o se faz com essa facilidade&#8213;disse o brazileiro
+impertinentemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quanto aposta voss&ecirc;?&#8213;bradou, cada vez mais afogueado, o
+sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos&#8213;continuava o brazileiro com os mesmos
+modos&#8213;n&atilde;o que a auctoridade... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A auctoridade! Para mim &eacute; que elles veem! Olha o regedor!
+O regedor commigo! E os cabos? &Oacute; Cosme, hein? Que te parece?
+Os cabos comnosco? <br />
+
+<br />
+
+O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se queres tentar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mil demonios!&#8213;disse o morgado, exgotando mais um copo&#8213;vamos a
+isto! anda d'ahi, &oacute; Cosme! <br />
+
+<br />
+
+O Cosme levantou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+&#8213;Nada de imprudencias&#8213;aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a
+significa&ccedil;&atilde;o contraria ao pensamento que
+exprimia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem tiver m&ecirc;do, que fique em casa. Ora quero mostrar a
+esta gente se ha ou n&atilde;o ha um homem para as
+occasi&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+E estavam no meio da sala o sr. Jo&atilde;ozinho e os seus
+arrojados camaradas, e o brazileiro j&aacute; conferenciava com o
+padre, que lhe respondia com signaes de intelligencia, como quem tinha
+projectos filiados n'aquelle movimento, quando entrou na taberna uma
+nova personagem que, por n&atilde;o habitual alli, e por outras
+circumstancias faceis de conjecturar, causou geral extranheza. <br />
+
+<br />
+
+Era Henrique de Souzellas. <br />
+
+<br />
+
+Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos
+occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a
+cavallo e deu um longo passeio pelos arredores. <br />
+
+<br />
+
+Na volta achou-se defronte da taberna do Canada. <br />
+
+<br />
+
+Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das alterca&ccedil;&otilde;es e
+das pragas que iam l&aacute; dentro, e isto resolveu-o a entrar,
+cumprindo assim a promessa que fizera a si mesmo de estudar aquelle
+terreno, a v&ecirc;r se encontrava vestigios que o levassem a
+provar a innocencia de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Apeou-se, prendeu o cavallo ao pe&atilde;o da porta e entrou. <br />
+
+<br />
+
+Ao entrar, percebeu que havia causado sensa&ccedil;&atilde;o a
+sua presen&ccedil;a, e at&eacute;, pela express&atilde;o
+com que o fitavam, suspeitou que talvez n&atilde;o f&ocirc;sse
+demasiado prudente o passo que dera. <br />
+
+<br />
+
+Era tarde, por&eacute;m, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a
+menor manifesta&ccedil;&atilde;o de receio. <br />
+
+<br />
+
+Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia. <br />
+
+<br />
+
+O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente
+do que desejava o recem-chegado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e n&atilde;o
+obstante estar firmemente resolvido a n&atilde;o
+lhe tocar. <br />
+
+<br />
+
+O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio
+associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da
+s&ecirc;de. <br />
+
+<br />
+
+Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu
+a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos
+havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se
+lan&ccedil;asse uma pedra de g&ecirc;lo. <br />
+
+<br />
+
+Reinava, por&eacute;m, um rumor surdo, um cochichar pouco
+tranquillisador, e que amea&ccedil;ava degenerar em maior tormenta.
+<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para
+n&atilde;o ser visto; o sr. Jo&atilde;ozinho olhou para
+Henrique, como se o n&atilde;o conhecesse, e conversava em voz
+baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no recem-chegado olhares
+sombrios e amea&ccedil;adores. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, ainda que interiormente n&atilde;o tranquillo,
+sustentava-os sem desviar os seus, e continuava fumando quasi
+provocadoramente. Pouco a pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim
+como a dos outros grupos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso ensinar estes espi&otilde;es&#8213;dizia uma voz
+audivelmente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querer&aacute; d'aqui este figur&atilde;o?&#8213;perguntava
+outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era bem feito que lhe ensinassem a n&atilde;o se metter com a
+nossa vida... <br />
+
+<br />
+
+O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os
+bra&ccedil;os sobre a mesa, e com o corpo inclinado para deante e
+os olhos abertos para Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe
+j&aacute; algum tanto a voz nas fauces: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar,
+sempre lhe dou uma li&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[141]</span>
+que lhe ha de lembrar toda a vida!
+N&atilde;o, que isto aqui n&atilde;o &eacute; Lisboa! Eu
+n&atilde;o admitto
+que se olhe para mim com falta de respeito... J&aacute; disse! Eu
+n&atilde;o gosto de repetir as coisas... Tenho dicto! O senhor
+n&atilde;o ouve? <br />
+
+<br />
+
+Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; senhor l&aacute;... Faz favor de n&atilde;o
+olhar para mim d'essa maneira? <br />
+
+<br />
+
+Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voss&ecirc; ri-se!... Elle riu-se, &oacute; Cosme? Pois elle
+riu-se de mim? Espera! <br />
+
+<br />
+
+E o sr. Jo&atilde;ozinho executou um movimento para levantar-se. <br />
+
+<br />
+
+O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos. <br />
+
+<br />
+
+Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! ent&atilde;o! isso o que &eacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero perguntar &aacute;quelle senhor de que &eacute; que se
+ri&#8213;bradava o morgado, furioso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso n&atilde;o se incommode&#8213;respondeu Henrique&#8213;eu mesmo
+d'aqui lhe respondo. Rio-me da ridicula figura que est&aacute;
+fazendo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... &Oacute;
+Cosme!... <br />
+
+<br />
+
+E o morgado barafustava entre os bra&ccedil;os debeis que o
+retinham. No povo principiou a subir a mar&eacute; das
+murmura&ccedil;&otilde;es contra Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor vem para aqui armar desordens? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; para espiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois queixe-se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se metta com a gente. <br />
+
+<br />
+
+O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas
+m&atilde;os que o retinham, conseguiu, gra&ccedil;as aos seus
+musculos robustos, sacudir de si todos os obstaculos, e correu para
+Henrique, que por preven&ccedil;&atilde;o se collocou a
+p&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+O sr. Jo&atilde;ozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava,
+voltado para elle: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para
+mim... Quero v&ecirc;r agora se ainda se ri. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Se cada vez est&aacute; mais ridiculo! <br />
+
+<br />
+
+O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a
+Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante
+de si, despejou-o todo sobre aquella figura j&aacute; avinhada,
+dizendo motejadoramente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi tem; &eacute; isso provavelmente que vem buscar. <br />
+
+<br />
+
+O rosto, as m&atilde;os e a camisa do sr. Jo&atilde;ozinho
+ficaram litteralmente tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a
+m&atilde;o &aacute; faxa da cinta, como a
+procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se a
+segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si. <br />
+
+<br />
+
+O morgado torcia-se e espumava sob a constric&ccedil;&atilde;o
+de Henrique, e j&aacute; congestionado e rouco bradou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Cosme!... &Oacute; Cosme!... Mata esse
+maldito!... <br />
+
+<br />
+
+A phalange do sr. Jo&atilde;ozinho correu em soccorro do chefe. O
+varapau do Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme
+zang&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O bra&ccedil;o diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o
+cr&eacute;dito do estabelecimento, afastou a tempo Henrique do
+terrivel embate, que infallivelmente lhe seria fatal. <br />
+
+<br />
+
+A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido. <br />
+
+<br />
+
+Henrique estava inc&oacute;lume, e o morgado s&ocirc;lto. <br />
+
+<br />
+
+Mas o perigo n&atilde;o passara para Henrique. O morgado
+preparava-se com os seus para nova investida, quando se ouviu a voz do
+brazileiro e do padre bradarem:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[143]</span>
+&#8213;J&aacute; est&aacute; a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto
+&eacute; tempo! <br />
+
+<br />
+
+E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por
+varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e
+t&atilde;o convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa o homem para outra vez, Jo&atilde;o, deixa-o e vamos a
+elles ao cemiterio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E queime-se a papelada da camara! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E mate-se o escriv&atilde;o de fazenda! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quebrem-se os vidros do Mosteiro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pegue-se fogo &aacute; casa! <br />
+
+<br />
+
+Eram de bastante f&ocirc;r&ccedil;a estes argumentos para
+convencer o sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&aacute; l&aacute;, rapazes! Com este faremos contas
+depois. Ao cemiterio! Atiremos a terra com o tal mausol&eacute;o! <br />
+
+<br />
+
+E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto,
+percebeu do que se tratava, e prevendo s&eacute;rios riscos para as
+senhoras do Mosteiro, desembara&ccedil;ou-se dos bra&ccedil;os
+do Canada, que teimava em segural-o e em dar-lhe conselhos de
+prudencia, e correu a montar a cavallo para se anticipar aos
+desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar por entre o
+grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no ar, caiu
+sobre a cabe&ccedil;a do cavallo. O animal, atordoado por a
+pancada, partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de
+Henrique, acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou
+como morto. <br />
+
+<br />
+
+Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do
+cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se
+pacificamente aos lares. <br />
+
+<br />
+
+O sino da igreja continuava a repicar.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+<h4>XXV </h4>
+
+<br />
+
+Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia
+por aquella tarde de inverno! <br />
+
+<br />
+
+Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de
+toda a esta&ccedil;&atilde;o, e a murta e a alfazema, vivendo a
+custo n'aquelle solo ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes,
+tojeiras e pinheiraes. No centro d'este espa&ccedil;o elevava-se,
+singello, mas elegante, o tumulo da familia do Mosteiro, sobre o
+marmore do qual pousavam tristemente os ramos flexiveis de um salgueiro
+chor&atilde;o, e nos cantos principiavam a erguer-se, como
+obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes ponteagudos. Para
+al&eacute;m do muro, que circumdava este terreno, estendia-se um
+vasto pinheiral, atrav&eacute;s de cujos troncos, confusamente
+cruzados, se podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia,
+e o verdor dos campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena
+distancia d'alli, a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados
+&aacute;lamos do adro, agitados pelo vento, ainda chegava
+&aacute;quella estancia mortuaria. <br />
+
+<br />
+
+A tarde tinha um d'estes aspectos amea&ccedil;adores, que deixam
+presentir a tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas,
+de quando em quando, por uma subita vira&ccedil;&atilde;o, que
+faz
+revolutear na estrada as folhas s&ecirc;ccas como em espiraes
+phantasticas. O c&eacute;o pint&aacute;ra-se do colorido
+melancolico e triste, que em alguns quadros de
+Annuncia&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fielmente se
+v&ecirc; reproduzido. Estava quasi todo coberto; s&oacute;
+muito para o occidente uma estreita zona se conservava limpa de nuvens,
+mas n'ella mesmo o azul recebia, do contraste das c&ocirc;res
+<span class="pagenum">[145]</span>
+vizinhas, um cambiante quasi
+esverdeado. As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do
+sol, tinham o aspecto r&ocirc;xo-livido, que o avizinhar da noite
+ia tornando mais carregado; no mais alto da abobada, as superiores,
+illuminadas ainda, apresentavam reflexos amarellados que cada vez se
+afogueavam mais. <br />
+
+<br />
+
+Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica,
+uniforme, cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De
+quando em quando cruzava os ares uma ave de v&ocirc;o rapido,
+soltando pios angustiosos. <br />
+
+<br />
+
+Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+Estava j&aacute; aberto o jazigo da familia do conselheiro,
+aguardando a infeliz crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa,
+saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam
+alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela
+curiosidade que a nova f&oacute;rma de enterro lhes suscitava. <br />
+
+<br />
+
+As murmura&ccedil;&otilde;es, comquanto menos manifestas aqui
+do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; da porta da igreja para dentro, at&eacute; de
+joelhos, at&eacute; de contas na m&atilde;o e olhos fitos no
+altar, os
+murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a
+justi&ccedil;a celeste sobre os impios do seculo, que
+n&atilde;o queriam enterrar-se no ch&atilde;o sagrado da
+igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre
+a b&ocirc;ca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa
+mesma occasi&atilde;o, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam
+dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno. <br />
+
+<br />
+
+Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
+entreolhavam de maneira
+<span class="pagenum">[146]</span>
+mysteriosa, fitando &aacute;s vezes os caminhos proximos, como se
+d'alli aguardassem alguma coisa. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella. <br />
+
+<br />
+
+Christina fic&aacute;ra a fazer companhia a D. Victoria, que se
+ach&aacute;ra adoentada. <br />
+
+<br />
+
+Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada
+&aacute; campa por crean&ccedil;as quasi da mesma idade,
+vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a
+irm&atilde; mais nova de Christina; as outras, raparigas das
+vizinhan&ccedil;as, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas
+proprias m&atilde;os vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
+extraordinario apparato, n&atilde;o s&oacute; em honra da
+familia do Mosteiro, mas para desvanecer a m&aacute;
+impress&atilde;o dos animos populares por meio da pompa religiosa. <br />
+
+<br />
+
+Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas
+campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e
+risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo
+onde Ermelinda devia ser sepultada. <br />
+
+<br />
+
+O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
+que as nuvens n&atilde;o toldavam. <br />
+
+<br />
+
+A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
+que d&aacute; ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
+intensidade. <br />
+
+<br />
+
+A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
+reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
+verdadeira aur&eacute;ola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e
+batina, recitando as ora&ccedil;&otilde;es da
+occasi&atilde;o; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado
+pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e
+respeitavel anci&atilde;o que, em vez de exacerbar os preconceitos
+do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os
+combatia e censurava. <br />
+
+<br />
+
+Depois vinha em caix&atilde;o aberto, e no meio de uma
+<span class="pagenum">[147]</span>
+numerosa companhia de crean&ccedil;as,
+Ermelinda, a quem a pallidez da morte n&atilde;o
+dissip&aacute;ra a
+formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
+innocencia. As m&atilde;os cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a
+tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparec&ecirc;ra no
+auto, e a cabe&ccedil;a, cercada por uma singella cor&ocirc;a
+de flores, conservava a graciosa inclina&ccedil;&atilde;o que
+lhe era habitual em vida. <br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as do acompanhamento tinham sido escolhidas, por
+Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia. <br />
+
+<br />
+
+Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
+formoso. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha preced&ecirc;ra o cortejo e viera esperal-o junto do
+tumulo. Com o bra&ccedil;o apoiado na pedra sepulcral, e a fronte
+encostada &aacute; m&atilde;o, seguindo melancolicamente com a
+vista a vagarosa prociss&atilde;o que entr&aacute;ra no
+cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por
+m&atilde;o de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a
+saudade pelos que morrem. <br />
+
+<br />
+
+Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera
+j&aacute; occupar a posi&ccedil;&atilde;o
+que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da
+campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas
+e as crean&ccedil;as encaminharam-se, por entre elles, para a borda
+da sepultura. <br />
+
+<br />
+
+O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova. <br />
+
+<br />
+
+Uma imprevista occorrencia mudou, por&eacute;m, o aspecto da scena.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia j&aacute; alguns momentos que come&ccedil;&aacute;ra
+a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos
+pinheiraes, como de multid&atilde;o que se approximasse em tropel. <br />
+
+<br />
+
+As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
+activado ao ouvil-o. Pouco
+<span class="pagenum"><a name="p148">[148]</a></span>
+a
+pouco principiou a mover-se alguma <a href="#e8">coisa por</a>
+entre os
+troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas
+figuras de homens, correndo em direc&ccedil;&atilde;o ao
+cemiterio, gesticulando, berrando, soltando amea&ccedil;as, algumas
+das quaes j&aacute; a distancia a que elles vinham permittia ouvir
+claramente. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era difficil adivinhar a
+significa&ccedil;&atilde;o d'aquillo. A quest&atilde;o
+vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo
+descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e
+a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasi&atilde;o
+da crise popular j&aacute; antevista. <br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados,
+de aspecto feroz, berrando e brandindo amea&ccedil;adoramente paus,
+fouces, chu&ccedil;os, e todas as pe&ccedil;as do extravagante
+arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da
+arrua&ccedil;a ou da sedi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
+estavamos prevenidos; agora, por&eacute;m, j&aacute;
+engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos
+algares. <br />
+
+<br />
+
+Entre os primeiros vinha o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, e ao
+seu lado o <em>factotum</em> Cosme. <br />
+
+<br />
+
+Estes, enraivados, correram para o logar onde par&aacute;ra o
+enterro, bradando em confus&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alto l&aacute;! alto l&aacute;! Ninguem se enterra aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperem! Isso n&atilde;o vae assim! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fa&ccedil;am a festa sem n&oacute;s! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;F&oacute;ra com os do cemiterio! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morram os pedreiros-livres! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para a igreja! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enterre-se na igreja! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, sr. abbade, espere por n&oacute;s! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui vamos para aben&ccedil;oar a cova! <br />
+
+<br />
+
+E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
+gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+O cruciferario e os padres, &aacute; excep&ccedil;&atilde;o
+do velho que dissemos, abandonaram o posto; as crean&ccedil;as,
+pousando no ch&atilde;o e abandonando o esquife de Ermelinda,
+correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha conservou-se junto do tumulo da m&atilde;e, olhando
+com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no
+meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos
+l&aacute;bios, como de anjo que j&aacute; de longe estivesse
+vendo o desencadear das paix&otilde;es humanas, e rindo de piedade.
+<br />
+
+<br />
+
+O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que querem d'aqui?&#8213;perguntou elle, fitando-os&#8213;com que fins vieram
+perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queremos que ninguem se enterre no
+cemiterio&#8213;respondeu o sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! &eacute; verdade! ninguem se enterra
+aqui!&#8213;confirmaram differentes vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por qu&ecirc;?&#8213;continuou o padre&#8213;julgam que Deus n&atilde;o
+receber&aacute; as almas, cujos corpos
+n&atilde;o estejam l&aacute; dentro, a apodrecer sob os
+telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira l&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queremos saber de contos. N&atilde;o queremos.
+J&aacute; disse! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o lhes reconhe&ccedil;o o direito de querer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o padre mestre tem vagares!&#8213;disse o fa&ccedil;anhudo
+Cosme&#8213;e tu pachorra para escutal-o, Jo&atilde;o. Para isso
+n&atilde;o foi que viemos.
+Serm&otilde;es para a quaresma. Vamos! cante l&aacute; os seus
+reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos n&oacute;s
+fazer o enterro. &Oacute; Manoel coveiro, traze a enxada e vem
+d'ahi. <br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, o Cosme j&aacute; se abaixava para levantar o
+caix&atilde;o em que jazia Ermelinda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A justi&ccedil;a de Deus caia sobre o impio, que com as
+m&atilde;os impuras tocar n'esse cadaver, que est&aacute;
+<span class="pagenum">[150]</span>
+aben&ccedil;oado pela
+Igreja!&#8213;exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e
+terrivel. <br />
+
+<br />
+
+Na aldeia os homens mais endurecidos n&atilde;o s&atilde;o
+superiores &aacute; intima&ccedil;&atilde;o religiosa. O
+Cosme retirou a m&atilde;o, como se receiasse que a
+impreca&ccedil;&atilde;o do padre se cumprisse alli mesmo. <br />
+
+<br />
+
+Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
+hesita&ccedil;&atilde;o, que
+t&atilde;o fataes s&atilde;o ao exito das
+revolu&ccedil;&otilde;es
+democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e
+quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados j&aacute; do
+primeiro impeto. <br />
+
+<br />
+
+Mas a primeira onda n&atilde;o &eacute; a mais temivel; os
+primeiros bandos populares, que s&aacute;em
+&aacute; rua,
+soltando o grito de revolta, s&atilde;o ingenuos no meio da sua
+quasi selvagem ferocidade; entregues a si, c&ecirc;do
+espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas,
+quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os
+dirija, n&atilde;o s&atilde;o os precisos para ficarem
+esmagados sob a
+repress&atilde;o do poder; quando o grito sedicioso, em vez de
+sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os
+cautos para tentar a opportunidade da occasi&atilde;o, apparenta
+sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspira&ccedil;&atilde;o
+legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas,
+vem ent&atilde;o a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel,
+porque n&atilde;o &eacute; a embriaguez do motim que a impelle,
+&eacute; a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de
+antem&atilde;o tra&ccedil;ado e urdido no mysterio e na sombra.
+Vem ent&atilde;o refor&ccedil;ar-a primeira,
+insufflar-lhe o alento que esta n&atilde;o tem de si, e amparar-se
+com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa n&atilde;o vinga,
+retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas
+se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
+campo da victoria adeantam-se ent&atilde;o a colher os
+troph&eacute;os conquistados. <br />
+
+<br />
+
+Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado
+<span class="pagenum">[151]</span>
+pelo morgado das Perdizes, ia
+ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do
+venerando cura, saiu da igreja uma singular prociss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo
+missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e
+sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres. <br />
+
+<br />
+
+A hoste do sr. Jo&atilde;ozinho sentiu-se reanimar com este
+ref&ocirc;r&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a
+prociss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o missionario! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva o santo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo os pedreiros-livres! <br />
+
+<br />
+
+E os do bando do estandarte correspondiam a estas
+sauda&ccedil;&otilde;es, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo os ma&ccedil;onicos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morram os jacobinos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva a santa religi&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o
+perd&atilde;o das injurias, o amor reciproco, a caridade
+indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e
+manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os
+feitos de armas dos passados guerreiros da christandade. <br />
+
+<br />
+
+A embriaguez da revolu&ccedil;&atilde;o apoderou-se de novo do
+morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora
+o cerebro, que n&atilde;o f&ocirc;ra nunca dotado, de grande
+fortaleza contra as paix&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Palpitava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, quando se imaginava
+caudilho de um movimento popular. <br />
+
+<br />
+
+Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se consentem aqui enterros, e principiemos
+j&aacute; por deitar abaixo estas pedras&#8213;bradou elle, apontando
+para o tumulo da familia do conselheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+&#8213;&Eacute; verdade! &eacute; verdade! Abaixo! abaixo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o inven&ccedil;&otilde;es dos pedreiros-livres! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; isso, &eacute; isso... Pois n&atilde;o
+v&ecirc;em que s&atilde;o de pedra! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo! Abaixo! <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado
+das m&atilde;os de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns
+passos para o tumulo. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena collocou-se deante d'elle. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; n&atilde;o estava pallida; tinha nas faces o rubor,
+nos olhos o lampejar da indigna&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Afaste-se, senhor!&#8213;bradou ella, estendendo a m&atilde;o para o
+&eacute;brio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer
+pouse os p&eacute;s nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa
+minha m&atilde;e. Atraz! <br />
+
+<br />
+
+A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
+resolu&ccedil;&otilde;es energicas e potentes
+d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher
+sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis. <br />
+
+<br />
+
+O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
+ficou enleado. <br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m o Cosme, o seu genio mau, n&atilde;o sei que lhe
+murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que
+ainda escancarou b&ocirc;ca humana. <br />
+
+<br />
+
+Estendendo para Magdalena a m&atilde;o callosa e grosseira,
+disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena repelliu-o com despreso e avers&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah! Faz-se fidalga!&#8213;disse o sr. Jo&atilde;ozinho,
+despeitado.&#8213;Pois n&atilde;o anda bem. <br />
+
+<br />
+
+O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
+escutal-o, bradou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo!...&#8213;repetiram muitas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&aacute; abaixo!&#8213;repetiu tambem o sr.
+Jo&atilde;ozinho, adeantando-se com o machado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+&#8213;Para traz!&#8213;exclamou outra vez Magdalena, j&aacute;
+tr&eacute;mula de exalta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho sorriu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que &eacute; mandar! Socegue que n&atilde;o
+fazemos mal a sua m&atilde;e; s&oacute; lhe queremos tirar
+essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!&#8213;e soltou, ao dizer isto,
+uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abaixo, abaixo!&#8213;repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
+para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a raz&atilde;o se lhe
+perturbava. Era-lhe preciso defender de uma
+profana&ccedil;&atilde;o as cinzas de sua m&atilde;e, ainda
+que f&ocirc;sse &aacute; custa da
+propria vida. <br />
+
+<br />
+
+Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens;
+j&aacute; as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios
+principiavam a murmurar a palavra
+&laquo;piedade&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
+achavam caminho para chegar ao cora&ccedil;&atilde;o, hesitou,
+resmungando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! se temos ch&ocirc;ro, nada feito. <br />
+
+<br />
+
+Mas j&aacute; n&atilde;o podia hesitar; a onda impellia-o, os
+gritos redobravam, e outros bra&ccedil;os se agitavam ao seu lado,
+preparando-se para a obra de
+profana&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho cedeu outra vez e levantou o machado. <br />
+
+<br />
+
+Imitaram-n'o muitos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena ent&atilde;o correu a abra&ccedil;ar-se ao tumulo da
+m&atilde;e para o proteger da violencia. <br />
+
+<br />
+
+Antes de o abater haviam de a ferir a ella. <br />
+
+<br />
+
+Os machados, que j&aacute; se brandiam no ar, suspenderam-se.
+Alguns baixaram-n'os, como arrependidos. <br />
+
+<br />
+
+O morgado formulou n'uma jura a impress&atilde;o que lhe estava
+causando a scena. <br />
+
+<br />
+
+Desviando os olhos, disse, com modo desabrido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tirem essa mulher d'ahi.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[154]</span>
+Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
+facto n&atilde;o viesse desviar as atten&ccedil;&otilde;es
+e modificar diversamente o animo
+popular. <br />
+
+<br />
+
+Um homem, que parecia chegar de longa jornada,
+approxim&aacute;ra-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso
+&aacute; medida que se affirmava nos grupos alli reunidos. <br />
+
+<br />
+
+Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa. <br />
+
+<br />
+
+A figura da morgadinha, em p&eacute; sobre os degraus do tumulo,
+abra&ccedil;ada a elle, dominava toda aquella multid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma
+exclama&ccedil;&atilde;o, como de quem tinha comprehendido ou
+adivinhado a significa&ccedil;&atilde;o
+d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em
+pouco, no logar do motim. <br />
+
+<br />
+
+Era tempo. <br />
+
+<br />
+
+A popula&ccedil;a allucinada ia talvez exercer algumas d'essas
+irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa
+do povo nas luctas em que elle toma parte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isto aqui?&#8213;disse o homem, rompendo com os
+bra&ccedil;os potentes a onda que se lhe antolhava. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu
+caminho at&eacute; ao meio do circulo. <br />
+
+<br />
+
+Uma s&oacute; voz correu por as differentes pessoas do grupo dos
+amotinados. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Herodes... &Eacute; o Herodes!...&#8213;diziam, afastando-se. <br />
+
+<br />
+
+Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado. <br />
+
+<br />
+
+Obtendo fian&ccedil;a, gra&ccedil;as &aacute;
+interven&ccedil;&atilde;o do conselheiro, voltava &aacute;
+terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia f&ocirc;ra a
+unica dor que o atormentara. <br />
+
+<br />
+
+O desgra&ccedil;ado n&atilde;o sabia ainda da sorte d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[155]</span>
+Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, j&aacute;
+n&atilde;o o encontr&aacute;ra na
+pris&atilde;o, para onde f&ocirc;ra dirigida. <br />
+
+<br />
+
+Vinha cheio de esperan&ccedil;as o pobre homem, porque eram para
+animar as ultimas noticias recebidas. <br />
+
+<br />
+
+Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos
+sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos
+enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da
+terra. <br />
+
+<br />
+
+Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
+m&atilde;e, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se
+logo a acudir-lhe. <br />
+
+<br />
+
+Ao chegar, por&eacute;m, ao meio do circulo, que conseguiu romper,
+e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da
+crean&ccedil;a do esquife, o qual continuava ainda pousado no
+ch&atilde;o; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia,
+ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil
+claridade da hora, reconheceu a filha. <br />
+
+<br />
+
+Nem um s&oacute; grito de dor lhe saiu dos labios, nem um
+s&oacute; movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos
+fitos n'aquella crean&ccedil;a morta, com as m&atilde;os juntas
+e com as faces extremamente pallidas. <br />
+
+<br />
+
+Perante esta terrivel manifesta&ccedil;&atilde;o de dor, que
+toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o
+perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que
+dominavam os cora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
+fervoroso, ajoelhou junto do caix&atilde;o de Ermelinda, e
+tr&eacute;mulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou
+a m&ecirc;do as m&atilde;os das m&atilde;os cruzadas da
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de
+g&ecirc;lo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+&#8213;Jesus, meu Deus! Est&aacute; morta!... Ermelinda!...
+Filha!... Isto n&atilde;o pode ser, Senhor!... Pois minha filha
+est&aacute; morta? <br />
+
+<br />
+
+A paix&atilde;o principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa;
+mas havia no tom de voz, com que estas palavras f&ocirc;ram
+pronunciadas, n&atilde;o sei
+qu&ecirc; t&atilde;o intimamente doloroso, que presentia-se
+que, no curto espa&ccedil;o de tempo que as precedera, se tinha
+operado n'aquelle peito uma revolu&ccedil;&atilde;o tremenda,
+como se uma intima dilacera&ccedil;&atilde;o o tivesse
+destruido. Adivinhava-se l&aacute; dentro
+j&aacute; um desalento mortal, um mal de que se n&atilde;o
+convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
+tinha eu feito para m'a matarem?... &Oacute; anjo do
+C&eacute;o! viver eu para te
+v&ecirc;r assim! <br />
+
+<br />
+
+E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
+que n&atilde;o conseguiam aquecer o g&ecirc;lo d'aquellas
+faces. <br />
+
+<br />
+
+Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
+ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
+fazia j&aacute; renegar aos mais atrevidos os
+seus
+excessos passados. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella continuava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
+despeda&ccedil;a-me o
+cora&ccedil;&atilde;o!... N&atilde;o me morras assim,
+filha! N&atilde;o me morras antes de dizer-me uma palavra de
+amor... de perd&atilde;o. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de
+morrer! Por que n&atilde;o esperaste ao menos?... Pensar eu que hei
+de v&ecirc;r-te partir, sem que me d&ecirc;s um beijo de
+despedida!... que te n&atilde;o hei de ouvir falar! S&oacute;!
+s&oacute;! Ficar s&oacute;! S&oacute; n'este
+mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me
+castigardes assim!? Em qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+O Cancella voltou para ella os olhos j&aacute; marejados de
+lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale,
+diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou
+em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e n&atilde;o
+responde... Ent&atilde;o n&atilde;o me perdoou? Pois minha
+filha
+n&atilde;o me perdoou? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu a custo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tinha ella a perdoar-lhe? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; verdade que eu lhe queria muito?
+n&atilde;o &eacute; verdade que eu vivia por ella? Agora... que
+me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora,
+assim! abra&ccedil;ado a este anjo! Se Deus me matasse! <br />
+
+<br />
+
+E outra vez a estreitava nos bra&ccedil;os. <br />
+
+<br />
+
+Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
+voz alterada: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao
+p&eacute; de minha filha morta? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queremos que elles a enterrem na igreja&#8213;responderam, j&aacute;
+tibiamente, algumas vozes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na igreja?... Isso &eacute; que n&atilde;o! Sabem
+quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de
+m&ecirc;dos, que lhe roubaram
+as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi
+v&ecirc;des... Pois n&atilde;o a conheciam? N&atilde;o a
+tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a
+nunca com estas c&ocirc;res desmaiadas? viram-n'a sem aquelles
+cabellos louros, que t&atilde;o bem lhe ficavam? e que elles
+cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar,
+desgra&ccedil;adinha! N&atilde;o, n&atilde;o
+te entregarei. N&atilde;o, n&atilde;o ir&aacute;s
+l&aacute; para
+dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de
+Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias
+no ber&ccedil;o, que ficar&aacute; sempre vazio!
+&Oacute; meu Deus, que vida vae ser a minha, se te n&atilde;o
+compadeces de mim, Senhor!... <br />
+
+<br />
+
+E suffocado de pranto, que rompia agora abundante,
+<span class="pagenum">[158]</span>
+o desesperado pae ajoelhou junto do
+esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, menina Magdalena, por dar &aacute; minha pequena um
+logar ao p&eacute; de sua m&atilde;e; obrigado. Junto d'aquella
+santa parece-me que dormir&aacute; em soc&ecirc;go... A minha
+pobre filha! <br />
+
+<br />
+
+E pousando nos labios frios da crean&ccedil;a um beijo prolongado,
+cheio de paix&atilde;o e saudade, levantou o esquife nos
+bra&ccedil;os para, por suas proprias m&atilde;os,
+o descer ao jazigo. Antes, por&eacute;m, de fazel-o, beijou ainda
+uma vez aquella de que mal podia separar-se. <br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular. <br />
+
+<br />
+
+Nem um s&oacute; movimento, nem uma s&oacute; voz tentou
+opp&ocirc;r-se &aacute;quelle acto, contra o qual momentos
+antes se erguia irreprimivel a resistencia popular. <br />
+
+<br />
+
+Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo. <br />
+
+<br />
+
+O primeiro que o fizera f&ocirc;ra o missionario. Desde que vira
+assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias
+pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo. <br />
+
+<br />
+
+Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme
+j&aacute; n&atilde;o estavam presentes.
+Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os. <br />
+
+<br />
+
+Os circumstantes quasi faziam j&aacute; c&ocirc;ro com as
+argui&ccedil;&otilde;es do Cancella contra os excessos do
+fanatismo e do beaterio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A falar verdade&#8213;dizia um&#8213;este pobre homem tem alguma
+raz&atilde;o. Isto de metter scismas &aacute;s
+crean&ccedil;as!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem &eacute; de mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu por mim se f&ocirc;sse a elle... N&atilde;o sei o que
+faria. <br />
+
+<br />
+
+N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+N&atilde;o seria difficil a um especulador aproveitar aquelles
+mesmos bra&ccedil;os e armas para organisar uma
+sedi&ccedil;&atilde;o sobre uma divisa opposta &aacute;
+que primeiro os convoc&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella
+caiu de joelhos, suffocado em pranto. <br />
+
+<br />
+
+As creancas presentes, por contagio da commo&ccedil;&atilde;o,
+a que &eacute; t&atilde;o sujeita aquella idade, choraram
+tambem. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio n&atilde;o a
+deixou falar. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; p&ocirc;de pousar-lhe em silencio a m&atilde;o no
+hombro. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
+desafogado pranto do que nunca. <br />
+
+<br />
+
+A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento. <br />
+
+<br />
+
+Os sons das Av&eacute;-Marias vibraram nos ares, prolongados e
+tristes. <br />
+
+<br />
+
+O padre velho pronunciou em voz alta a sauda&ccedil;&atilde;o
+angelica. Responderam-lhe as creancas! <br />
+
+<br />
+
+Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha voltou a casa com o cora&ccedil;&atilde;o oppresso
+de tristeza. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXVI </h4>
+
+<br />
+
+Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa
+agita&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Momentos antes havia sido para l&aacute; transportado, quasi sem
+acc&ocirc;rdo, Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se
+encarreg&aacute;ra de trazer da taberna,
+<span class="pagenum">[160]</span>
+onde o Canada o recolhera, at&eacute;
+o Mosteiro, sobre um carro de herva que vinha guiando. <br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha,
+D. Victoria perdeu totalmente a cabe&ccedil;a, e em vez de tomar as
+providencias que o caso pedia, deu em ralhar, em fazer
+exclama&ccedil;&otilde;es, em andar de sala em sala, de
+corredor em corredor, sem ten&ccedil;&atilde;o formada, sem
+methodo, sem
+direc&ccedil;&atilde;o. Levava as m&atilde;os &aacute;
+cabe&ccedil;a, ajuntava-as
+consternada; dava uma ordem ociosa; mandava logo suspender a
+execu&ccedil;&atilde;o d'ella; impacientava-se; chamava a
+toda a pressa um criado e n&atilde;o sabia depois o que tinha para
+dizer-lhe; extranhava a tardan&ccedil;a de outro que n&atilde;o
+mand&aacute;ra chamar, e sem dar a final expediente a coisa
+nenhuma, nem saber o que fizesse. <br />
+
+<br />
+
+Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente
+direc&ccedil;&atilde;o; paravam embara&ccedil;ados, ou
+corriam sem saber para onde, nem para qu&ecirc;, e sem adeantarem
+servi&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as concorriam tambem para esta desordem, porque,
+cheias de susto, andavam agarradas &aacute;s saias de D. Victoria,
+que nem sequer dava por ellas. <br />
+
+<br />
+
+Christina foi a unica pessoa que conservou a presen&ccedil;a de
+espirito n'aquella occasi&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Nada do que fazia era inutil: nem uma s&oacute; ordem dava que
+pudesse dizer-se ociosa; gra&ccedil;as ao methodo com que procedia
+&aacute;s instruc&ccedil;&otilde;es que
+ordenava, a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria
+o percebesse at&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+Christina tambem, ao v&ecirc;r chegar Henrique n'aquelle estado
+assustador, sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe
+era precisa toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem
+s&oacute;mente poderia descan&ccedil;ar, e logo achou na
+necessidade valor, e, com serenidade apparente, s&oacute; trahida
+pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, tudo previu, tudo
+providenciou. <br />
+
+<br />
+
+Sem uma exclama&ccedil;&atilde;o, sem uma palavra de desespero
+<span class="pagenum">[161]</span>
+ou de susto, sem nem ao
+menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflex&atilde;o affavel,
+que lhe era natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os
+aprestes que o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros
+com intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgi&atilde;o,
+enviou a Alvapenha parte do succedido, e ordenou que procurassem
+Magdalena, occupando n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra
+toda como alimento &aacute; impaciencia de sua m&atilde;e. <br />
+
+<br />
+
+A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e
+sympathicas. N&atilde;o era para o sal&atilde;o que se
+form&aacute;ra e educ&aacute;ra o
+ingenuo e meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um
+acanhamento, que j&aacute; n&atilde;o conseguiria vencer, mas
+nas lides domesticas, na vida do lar era d'essas corajosas luctadoras,
+a quem a desventura n&atilde;o derruba, cuja intelligencia por tudo
+se reparte; d'estes genios providenciaes, que pairam sobre o estreito
+horisonte da familia, activos, laboriosos, achando nas fadigas um
+prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, nos sorrisos que
+provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que enxugam, premio
+bastante para compensar as penas que soffrem. <br />
+
+<br />
+
+Mulheres s&atilde;o estas nascidas para serem esposas e
+m&atilde;es, o que &eacute; quasi o mesmo que dizer: nascidas
+para serem mulheres. <br />
+
+<br />
+
+A chegada de D. Doroth&eacute;a, que acudiu apressada logo que
+soube o que succedera ao sobrinho, n&atilde;o dispensou Christina
+d'estes cuidados, que voluntariamente tom&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Comquanto a senhora de Alvapenha f&ocirc;sse mais razoavel do que
+D. Victoria, e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis
+effervescencias, em que esta se deixava arrebatar, n&atilde;o era
+tambem mulher para casos d'estes. <br />
+
+<br />
+
+Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Doroth&eacute;a
+perdera ou embot&aacute;ra a faculdade preciosa
+<span class="pagenum">[162]</span>
+de acertar bom caminho
+em qualquer imprevista occorrencia. <br />
+
+<br />
+
+Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos
+j&aacute; a lan&ccedil;ava em
+s&eacute;rios embara&ccedil;os. Ella propria confessava que
+inda havia pouco tempo principi&aacute;ra a afazer-se &aacute;
+estada de Henrique em Alvapenha, e a fazer o que era seu costume fazer
+antes de elle vir. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pois evidente que D. Doroth&eacute;a pouco mais podia
+fazer do que rezar, e para isso ninguem estava mais habilitado do que
+ella. Em rela&ccedil;&atilde;o
+&aacute; c&ocirc;rte celestial era a boa senhora como esses
+almanachs vivos, que nos sabem dizer todos os canaes por onde os
+differentes negocios poder&atilde;o ser melhor conduzidos nas
+c&ocirc;rtes... terrestres... Conhecia a especialidade de cada
+santo e para cada um tinha uma f&oacute;rmula de requerimento
+particular. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o a consentiu por muito tempo no quarto de
+Henrique, onde, com as melhores
+inten&ccedil;&otilde;es, mais embara&ccedil;ava o
+servi&ccedil;o do que
+auxili&agrave;va; usando de uma debil violencia foi-a levando para
+a sala do oratorio, onde ella encetou uma reza sem fim. <br />
+
+<br />
+
+Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do
+cemiterio, e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para
+verificar a realidade do que lhe diziam. <br />
+
+<br />
+
+Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido,
+uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D.
+Victoria tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena dirigiu-se para l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas
+interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que s&oacute; a
+fecunda verbosidade feminina &eacute; capaz. Em geral as mulheres,
+seja dito antes em honra do que em censura do sexo, s&atilde;o
+oradoras de muito mais folego que os homens que blasonam de eloquentes.
+O assumpto mais simples, uma colh&eacute;r
+<span class="pagenum">[163]</span>
+que se perdeu, uma pe&ccedil;a de lou&ccedil;a que se
+quebrou, por exemplo, fornecem-lhes thema para uma pr&eacute;dica
+de duas horas. <br />
+
+<br />
+
+Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil
+f&oacute;rmas e estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo
+que a um homem a custo daria para uma magra
+ora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde &eacute; que tu
+estavas. Fa&ccedil;a favor de me dizer onde &eacute; que
+estava? <br />
+
+<br />
+
+Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara
+e postura de r&eacute;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... senhora...&#8213;ia elle a dizer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora &eacute; o que
+&eacute;. Um desaf&ocirc;ro assim!... Eu s&oacute;
+quero saber se vossemec&ecirc; ganha soldada para andar
+l&aacute; por onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as
+vendas... Porque elle n&atilde;o ha mais... Como o dinheiro se vae
+roubar &aacute; estrada... O que tu merecias... Estou eu aqui a
+chamar ha mais de duas horas e vossemec&ecirc; apparece-me
+l&aacute; quando
+&eacute; muito do seu g&ocirc;sto? Isto atura-se? A culpa tem
+quem eu sei... Tu cuidas que mandriar n&atilde;o &eacute;
+roubar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cale-se! Ou&ccedil;a e cale-se. Tens a lingua muito prompta para
+responder. Ora toma-me cautela, sen&atilde;o vaes j&aacute;,
+j&aacute; pela porta f&oacute;ra. Pouca
+vergonha! Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer
+mandar onde &eacute; preciso e n&atilde;o apparecer um criado
+n'esta casa! A pagar-se aqui umas soldadas por ahi al&eacute;m, e,
+quando se quer o servi&ccedil;o feito, tem uma pessoa de o fazer
+por suas m&atilde;os!... Tu cuidas que isso n&atilde;o
+&eacute; peccado tambem? Deixa, meu amigo, que tens boas contas a
+dar de ti. Quem &eacute; que lhe deu licen&ccedil;a para sair
+sem ordem de seus
+amos? Faz favor de me dizer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A sr.<sup>a</sup> Christininha... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quero saber da sr.<sup>a</sup>
+Christininha, quero saber quem
+lhe deu licen&ccedil;a para sair?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[164]</span>
+&#8213;Mas &eacute; o que eu estou dizendo &aacute; senhora. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; muito padre-mestre. Ora n&atilde;o seja confiado, e
+veja como responde. <br />
+
+<br />
+
+Emfim, este dialogo promettia ser eterno, n&atilde;o obstante a
+urgencia do servi&ccedil;o de que falava D. Victoria,
+servi&ccedil;o que ella propria adiava com este importuno
+serm&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A entrada da morgadinha operou uma divers&atilde;o. D. Victoria
+esqueceu-se do criado, o qual p&ocirc;de retirar-se sem ser
+percebido e sem receber as ordens urgentes para que f&ocirc;ra
+chamado. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella
+propria o soubera do mo&ccedil;o do carro em que viera Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Andam desaforados&#8213;concluiu ella.&#8213;J&aacute; nem attendem a uma
+pessoa de respeito. &Eacute; porque n&atilde;o ha
+justi&ccedil;a n'esta terra. Est&atilde;o para ahi uns
+patetas de umas auctoridades, que s&atilde;o outros que taes. Era
+preciso um exemplo. Ahi est&aacute; quando eu, se f&ocirc;sse
+rei, n&atilde;o tinha pena nenhuma: havia de os esquartejar e era
+bem feito! <br />
+
+<br />
+
+Cumpre dizer que D. Victoria n&atilde;o era capaz de bater n'um
+gato. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o &eacute; que trasbordou a
+indigna&ccedil;&atilde;o da tia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu que dizes, menina?... Tu est&aacute;s a falar
+s&eacute;rio?... Pois elles?... Em nome do Padre... Que mais
+teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E esses malvados ainda
+est&atilde;o na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda saber...
+N&atilde;o, isso n&atilde;o
+fica assim... D'aqui a pouco p&otilde;em-nos o p&eacute; no
+pesco&ccedil;o. Nada, nada; para os malvados &eacute; que se
+fizeram as forcas... Ora deixa que... Isto aqui anda trama. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falemos mais n'isso. Agora vou v&ecirc;r o estado
+do ferido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae, e v&ecirc; se encontras por ahi alguns criados. Eu
+n&atilde;o sei onde elles se metteram. Ha de ser preciso
+<span class="pagenum">[165]</span>
+ir &aacute; botica, e muitas
+mais coisas, e n&atilde;o
+vejo nenhum! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha. <br />
+
+<br />
+
+Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em
+direc&ccedil;&atilde;o ao quarto de Henrique, com um copo de
+agua acidulada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha, Christe?&#8213;perguntou-lhe Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ha de haver, Lena?&#8213;respondeu Christina com tristeza, mas com
+serenidade ao mesmo tempo&#8213;uma desgra&ccedil;a, mas que Deus ha de
+permittir que n&atilde;o seja sem remedio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como est&aacute; elle? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou.
+Os balan&ccedil;os do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas
+calmantes que lhe tenho dado, achou-se bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda n&atilde;o mandaram chamar o cirurgi&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; mandei, j&aacute; veio, j&aacute; o sangrou,
+j&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tua m&atilde;e n&atilde;o o sabe e ia mandar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-a l&aacute;, Lena. Deixa-a l&aacute; com os criados,
+que por ora n&atilde;o convem que venha. Elle precisa de
+soc&ecirc;go. J&aacute; mandei sair d'aqui a tia
+Doroth&eacute;a, que n&atilde;o adeantava servi&ccedil;o.
+Queres vir
+v&ecirc;l-o? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda
+commo&ccedil;&atilde;o cerebral, que lhe produzira a
+qu&eacute;da. A tendencia ao estado comatoso, que apresentava,
+tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso. <br />
+
+<br />
+
+Volt&aacute;ra-lhe a raz&atilde;o e os sentidos; mas tardia
+aquella, e estes sem possibilidade de longa
+fixa&ccedil;&atilde;o em qualquer objecto. Sobretudo, o que
+n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma
+indifferen&ccedil;a morbida pelo seu estado e por tudo quanto o
+cercava. <br />
+
+<br />
+
+Acceitou das m&atilde;os de Christina a bebida refrigerante, que
+ella mesma prepar&aacute;ra, com os movimentos quasi instinctivos
+do somnambulo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe
+caus&aacute;ra lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em
+Christina um olhar de gratid&atilde;o, sorriu-lhe, e, pousando a
+cabe&ccedil;a outra vez no travesseiro, fechou os olhos para
+dormir. Esta somnolencia era habitual. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava
+um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor
+mandar calar os irm&atilde;os ou os criados, ou desfazer alguma
+d&uacute;vida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de
+qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a
+escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem
+ruido, diligente e sem confus&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, que se sent&aacute;ra a um canto da sala, quasi
+subjugada pelas muitas e violentas
+commo&ccedil;&otilde;es d'aquelle dia, contemplava a actividade
+da prima e extranhava-a. <br />
+
+<br />
+
+Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a
+suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito
+methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.
+<br />
+
+<br />
+
+Apreci&aacute;ra-lhe at&eacute; ent&atilde;o os dotes de
+crean&ccedil;a, a bondade do cora&ccedil;&atilde;o, os
+extremos de affecto que possuia; mas ainda a n&atilde;o tinha visto
+tomando assim tanto a s&eacute;rio a sua miss&atilde;o de
+mulher e
+desempenhando-se d'ella t&atilde;o dignamente. <br />
+
+<br />
+
+Esta ordem de reflex&otilde;es conduzia naturalmente a outras o
+espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no
+leito, e como que sob a protec&ccedil;&atilde;o de uma timida e
+debil
+crean&ccedil;a que, mais do que elle, parecia carecer de amparo,
+Magdalena n&atilde;o p&ocirc;de reprimir um sorriso benigno e
+pensou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; aquella cabe&ccedil;a estouvada p&ocirc;de
+at&eacute; hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas
+&eacute; preciso n&atilde;o ter cora&ccedil;&atilde;o
+para que, ao erguer-se d'aquelle
+<span class="pagenum">[167]</span>
+leito, n&atilde;o
+seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella para a
+adorar. E Henrique n&atilde;o &eacute; falto de
+cora&ccedil;&atilde;o. Lida, lida, minha boa
+Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz
+que tu vencesses com as mais aben&ccedil;oadas armas que concedeu
+&aacute; mulher. Confio em Deus que vencer&aacute;s.
+Deixar-te-hei todas as fadigas, para te pertencer todo o prazer. <br />
+
+<br />
+
+E em harmonia com esta resolu&ccedil;&atilde;o, a morgadinha
+absteve-se de intervir no tratamento de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXVII </h4>
+
+<br />
+
+Foi opini&atilde;o do facultativo, que tratou de Henrique, que a
+vida d'este correra s&eacute;rios riscos durante a primeira semana,
+por n&atilde;o sei que
+complica&ccedil;&atilde;o que se lhe manifestou no decurso da
+molestia. Se se enganou o pr&aacute;tico, n&atilde;o nos
+compete a
+n&oacute;s decidir; acceitemos-lhe a opini&atilde;o, como de
+legitima fonte, e n&atilde;o profundemos materia alheia ao nosso
+intento. <br />
+
+<br />
+
+Ao fim dos oito dias, por&eacute;m, come&ccedil;aram a
+manifestar-se melhoras evidentes, e o proprio facultativo foi o
+primeiro a assegurar &aacute;s senhoras, que sempre o vinham
+consultar &aacute; saida com anciosa curiosidade, que &laquo;o
+homem estava salvo&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+De facto, nos primeiros periodos da doen&ccedil;a, Henrique caira,
+como j&aacute; diss&eacute;mos, n'um d'aquelles estados de
+indifferen&ccedil;a para tudo e para todos, de que se
+n&atilde;o pode agourar nunca bem. Agora, por&eacute;m,
+come&ccedil;ava j&aacute; a manifestar
+atten&ccedil;&atilde;o para os cuidados de que era objecto, e a
+agradecer, com palavras de sincera gratid&atilde;o, o tratamento
+affectuoso que recebia n'aquella casa e especialmente os desvelos de
+Christina.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+Esta f&ocirc;ra effectivamente sempre incan&ccedil;avel,
+sol&iacute;cita e carinhosa enfermeira. <br />
+
+<br />
+
+Os cuidados de que o rodeava, como a um irm&atilde;o, absorviam-lhe
+todos os instantes; prev&ecirc;r-lhe os desejos, adivinhar-lhe as
+penas, procurar-lhe allivio &aacute;s dores physicas ou moraes, era
+agora para ella a tarefa de cada momento, a preoccupac&atilde;o
+permanente de todos os seus pensamentos. <br />
+
+<br />
+
+Henrique costum&aacute;ra-se a v&ecirc;r mover-se no seu quarto
+aquella meiga e delicada figura de mulher, crean&ccedil;a de
+hontem, a ouvir-lhe o timbre suave e ainda um pouco infantil da voz, a
+cruzar o olhar com aquelle olhar brando que o fitava com sympathia e
+meiguice; j&aacute; se n&atilde;o sentia bem, longe d'ella, e a
+cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas para a porta
+&aacute; espera de a v&ecirc;r apparecer. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
+Christina sobre o animo do rebelde, que at&eacute; alli
+f&ocirc;ra insensivel, e exultava.
+Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
+cabeceira do enfermo, por uma raz&atilde;o analoga &aacute; que
+obriga os pintores a deixar em meias tintas os accessorios de um
+quadro, para que a
+atten&ccedil;&atilde;o se fixe no objecto principal. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
+devia ser a figura principal. <br />
+
+<br />
+
+N'este intento a morgadinha conservava &aacute;s visitas que vinha
+fazer a Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
+familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os
+impulsos da sua indole de mulher, e de mulher que t&atilde;o bem
+comprehendia os deveres da sua miss&atilde;o, ao mesmo tempo
+carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais extranha que lhe era
+possivel a estes pequenos cuidados, que t&atilde;o irresistivel
+influencia exercem no cora&ccedil;&atilde;o do homem que
+experimenta a ventura de ser objecto d'elles. <br />
+
+<br />
+
+De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
+crescia &aacute; custa de Magdalena.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[169]</span>
+Esta percebia-o e n&atilde;o cabia em si de contente com a
+descoberta. &Eacute; necessario ser dotado de um grande fundo de
+generosidade, para que um cora&ccedil;&atilde;o
+de mulher fa&ccedil;a d'estas descobertas, com o intimo
+contentamento que Magdalena sentia. &Eacute; t&atilde;o natural
+defeito a vaidade! N&atilde;o se exprime o prazer que Henrique
+experimentava a cada pequeno incidente da vida domestica, que punha em
+rel&ecirc;vo o predominio de Christina. <br />
+
+<br />
+
+Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
+placidos, de que t&atilde;o pouco abundante era todo o seu passado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
+a propria tia Doroth&eacute;a, reuniam-se no quarto do doente para
+tomarem o ch&aacute;. N&atilde;o era, por&eacute;m, a
+presen&ccedil;a de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, que o
+consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
+circumstancia, que far&aacute; sorrir um homem de sensibilidade
+embotada, emquanto o facto se n&atilde;o der com elle. Era que
+Christina, que em outra qualquer occasi&atilde;o cedia sempre a
+Magdalena a
+direc&ccedil;&atilde;o dos trabalhos domesticos, alli dentro
+n&atilde;o resignava em ninguem essas
+func&ccedil;&otilde;es. Tomava naturalmente as maneiras de dona
+de casa, e recebia a m&atilde;e, a prima e todas as outras como
+visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, visitas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se imaginam os encantos que Henrique achava
+&aacute;quillo. A elle proprio parecia j&aacute; que de facto o
+prendiam a Christina la&ccedil;os mais intimos, la&ccedil;os
+mais de familia, do que &aacute;s outras senhoras.
+Era assim que qualquer pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar
+a ella, como o faria a uma irm&atilde;; emtanto que naturalmente
+custava-lhe a incommodar outra qualquer pessoa, e n&atilde;o o
+fazia sem as desculpas e cumprimentos do estylo, que para ella
+n&atilde;o usava j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
+despotica por que o governava Christina,
+<span class="pagenum">[170]</span>
+fazendo-o cumprir &aacute;
+risca as dietas e as
+prescrip&ccedil;&otilde;es do facultativo, recusando-se
+obstinadamente a deixal-o l&ecirc;r, e at&eacute; ralhando-lhe
+&aacute;s
+vezes com severidade quasi maternal: apparencias de dureza, que
+occultavam thesouros de sensibilidade e de affecto. <br />
+
+<br />
+
+O pobre rapaz, que n&atilde;o conhecera familia, que nunca vira do
+seu leito de doen&ccedil;a, nas vezes que caira n'elle, o vulto
+suave e consolador de uma m&atilde;e, de uma irm&atilde; ou de
+uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o com essas
+entona&ccedil;&otilde;es
+carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a m&atilde;o que
+nos estende a ta&ccedil;a do mais amargo
+remedio; elle, que n&atilde;o sabia ainda o que era sentir-se
+amparar a fronte, que escalda de febre, pelo apoio de uma debil
+m&atilde;o de mulher, a que o amor d&aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;as extraordinarias, commovia-se
+at&eacute; &aacute;s lagrimas agora, e quasi n&atilde;o
+pensava sem tristeza na convalescen&ccedil;a, que havia de o privar
+d'aquelles cuidados affectuosos. <br />
+
+<br />
+
+O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
+approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que
+todas as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia
+dizer. <br />
+
+<br />
+
+Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa. <br />
+
+<br />
+
+Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
+se agitava no leito com a inquieta&ccedil;&atilde;o da febre,
+Christina, depois de lhe dar a beber o calmante que lhe prescrevera o
+medico, perguntou-lhe, com a mais adoravel candura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabe rezar? <br />
+
+<br />
+
+Henrique sorriu, respondendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que desapprendi j&aacute; as ora&ccedil;&otilde;es
+que minha m&atilde;e me ensinou. <br />
+
+<br />
+
+Christina calou-se e ficou tristemente pensativa. <br />
+
+<br />
+
+Aquella alma innocente perguntava a si mesma
+<span class="pagenum">[171]</span>
+que consola&ccedil;&atilde;o encontraria nas
+prova&ccedil;&otilde;es da vida um espirito que n&atilde;o
+soubesse recolher-se na
+ora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer-me ensinar a rezar, Christina? <br />
+
+<br />
+
+Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
+inten&ccedil;&atilde;o d'aquellas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda f&ocirc;r capaz
+a minha alma, as
+ora&ccedil;&otilde;es que me ensinar. <br />
+
+<br />
+
+Christina respondeu-lhe gravemente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Reze, reze e ver&aacute; como n'isso acha
+consola&ccedil;&atilde;o. Vou emprestar-lhe o meu livro de
+ora&ccedil;&otilde;es, quer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que me n&atilde;o ha de antes ensinar, como minha
+m&atilde;e o fazia? <br />
+
+<br />
+
+Christina ouviu com seriedade a proposta. <br />
+
+<br />
+
+E o certo &eacute; que um dia, em que Henrique pass&aacute;ra
+peor, Magdalena ouviu, na sala proxima, Christina, recitando uma
+singela prece &aacute; Virgem, e o doente repetindo-a com
+docilidade de crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
+vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
+modifica&ccedil;&otilde;es a que todos os caracteres
+est&atilde;o sujeitos, quando se d&atilde;o a actual-os dois
+elementos t&atilde;o
+poderosos, como se davam em Henrique: a doen&ccedil;a, que quebra a
+inteireza das indoles mais rijas, e abre o
+cora&ccedil;&atilde;o &aacute;s doces influencias; e a
+catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e irresistivel de todas. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o direi que f&ocirc;sse com inteira f&eacute; que
+o doente orava; talvez que houvesse mescla de sentimento profano no
+prazer suave que experimentava ao orar assim. &Eacute; certo,
+por&eacute;m, que, desde
+ent&atilde;o, frequentes vezes se lhe desviavam os olhos para o
+pequeno crucifixo, que Christina trouxera do seu quarto para a
+cabeceira do leito de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
+Henrique, obedecendo aos impulsos
+<span class="pagenum">[172]</span>
+da sua gratid&atilde;o, beijou-lhe, commovido, a
+m&atilde;o, que ella ia a retirar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que faz?&#8213;disse Christina, c&oacute;rando e
+afastando-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me beijar a m&atilde;o piedosa que me prendeu &aacute;
+vida, &aacute; vida que s&oacute; agora comecei a
+amar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos&#8213;acudiu ella, com um meigo tom de reprehens&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como n&atilde;o quer que a adore, Christina, depois de se fazer
+anjo para me salvar? N&atilde;o costuma rezar ao seu anjo da
+guarda? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repare que eu n&atilde;o tenho azas de anjo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas v&ocirc;a mais alto ao c&eacute;o, quando desce assim a
+velar por um pobre doente como eu, que nenhuns titulos possue
+para lhe merecer essa
+dedica&ccedil;&atilde;o, pobre menina! Que vida tem sido a sua
+ha tantos dias? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhuns titulos! que diz?&#8213;tornou Christina, com um sorriso adoravel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quaes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o somos primos? disse ella,
+jovialmente. <br />
+
+<br />
+
+E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
+Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Estava j&aacute; Henrique em convalescen&ccedil;a, e o
+facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda
+n&atilde;o a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de
+Henrique n'estes passeios era &aacute; sombra de umas laranjeiras,
+que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D.
+Victoria descobria-se o logar. Quando as manh&atilde;s estavam
+serenas, Henrique ia para alli, com um livro que n&atilde;o fazia
+ten&ccedil;&atilde;o de ler, e apoiando-se
+ao bra&ccedil;o de Christina, que levava a costura para junto
+d'elle, para lhe fazer companhia. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria seguia-os da janella com as suas
+recommenda&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por ahi n&atilde;o, Christe!... Olha que &eacute; muito
+humido... D&aacute; antes a volta pela nora... Assim...
+<span class="pagenum">[173]</span>
+Cautela com essas hervas, que
+h&atilde;o de estar molhadas... V&ecirc; l&aacute; que
+n&atilde;o esteja frio... Olha se
+esses troncos est&atilde;o molhados... <br />
+
+<br />
+
+Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de
+uma manh&atilde; Christina o interrogar, n'aquelle tom de
+familiaridade affectuosa, que principi&aacute;ra a poder ter para
+com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e
+protec&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute; isso! Por que est&aacute; sempre triste, agora
+que vae melhor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou triste, porque estou melhor&#8213;respondeu Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que est&aacute; a dizer?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A verdade. A poucos doentes ter&aacute; succedido o que succede
+commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos
+circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos
+accumular-se em n&oacute;s, que tantos g&oacute;sos
+d&aacute; aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que
+estou presentindo j&aacute; as saudades d'este tempo, que passei
+prostrado no leito da doen&ccedil;a, Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida!
+N&atilde;o sabe que me eram desconhecidos inteiramente os
+ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude
+v&atilde;o voltar para mim os dias da solid&atilde;o, do
+desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que
+principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina!
+Quando penso em voltar para Lisboa... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tenciona voltar? <br />
+
+<br />
+
+A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma
+intima commo&ccedil;&atilde;o. Ha d'estes effeitos.
+&Aacute;s vezes o olhar menos significativo, a palavra menos
+pensada, &eacute; pelo cora&ccedil;&atilde;o
+interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span>
+&#8213;E queria que eu ficasse, Christina?&#8213;perguntou Henrique, sob o
+dominio d'essa impress&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o respondeu logo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-me acreditar que sim; &eacute; bastante generosa para isso,
+para n&atilde;o v&ecirc;r partir sem saudade o homem a quem
+salvou com os seus extremos de irm&atilde;. Esta ideia
+ser&aacute; a minha
+consola&ccedil;&atilde;o; deixe-me partir com ella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Partir?... mas... para que ha de partir? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia
+Doroth&eacute;a, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos
+cidad&atilde;os? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o lhe custaria a ella mesma v&ecirc;l-o partir!
+E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar
+que est&aacute; doente, que &eacute; quasi a mesma coisa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que havia de lh'a negar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tempo vir&aacute; em que outros me disputar&atilde;o a menor
+por&ccedil;&atilde;o de affecto que me conceder,
+Christina... e ent&atilde;o... ent&atilde;o &eacute; que eu
+ficarei mais
+s&oacute; do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o
+estou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda s&oacute;, por que quer... N&atilde;o ha tanta gente por
+esse mundo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o a menina n&atilde;o sabe que se est&aacute;
+s&oacute; mesmo em companhia? Quem est&aacute; s&oacute;
+&eacute; a alma.
+Ai, a alma est&aacute; s&oacute; quasi sempre! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que quer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que
+n&atilde;o obteve a que desejava. Al&eacute;m de que, ha almas
+t&atilde;o tristes, que intimidam outras. E a minha &eacute;
+d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia &aacute;
+minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci,
+n&atilde;o hesitaria? Confesse. <br />
+
+<br />
+
+Depois de um momento de silencio e hesita&ccedil;&atilde;o,
+Christina respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[175]</span>
+&#8213;Se a companhia da minha f&ocirc;sse bastante para desfazer essa
+tristeza... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Concedia-m'a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que havia de negar-lh'a? <br />
+
+<br />
+
+Henrique tornou-lhe a m&atilde;o, apaixonado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras?
+Se o meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute;
+t&atilde;o ousado... <br />
+
+<br />
+
+Christina, c&oacute;rando, retirou a m&atilde;o de que Henrique
+se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que s&atilde;o horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o. <br />
+
+<br />
+
+E fugiu, correndo em direc&ccedil;&atilde;o de casa. <br />
+
+<br />
+
+Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias
+durante a convalescen&ccedil;a de Henrique. Reinava o idyllio e uma
+como perfumada atmosphera, que exercia profundas
+revolu&ccedil;&otilde;es no caracter de Henrique e de
+Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades
+artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em
+v&atilde;o; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo
+uma d'essas metamorphoses analogas &aacute;s da vida de borboletas,
+da infancia, estado de chrysalida para a
+imagina&ccedil;&atilde;o, passava &aacute;
+verdadeira juventude, ao periodo em que a
+imagina&ccedil;&atilde;o ganha azas, em que o
+cora&ccedil;&atilde;o se completa. <br />
+
+<br />
+
+Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, n&atilde;o
+havia raz&atilde;o possivel para permanecer no Mosteiro; portanto
+tornou-se inevitavel a mudan&ccedil;a para Alvapenha. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se n&atilde;o fez sem lagrimas a despedida. <br />
+
+<br />
+
+Choraram as crean&ccedil;as, chorou D. Victoria e a propria
+Magdalena se sentiu commovida; s&oacute; Christina n&atilde;o
+se achava na sala em que se passou a scena. <br />
+
+<br />
+
+Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair. <br />
+
+<br />
+
+Seria casual esta circumstancia? <br />
+
+<br />
+
+Henrique n&atilde;o pergunt&aacute;ra por Christina; dizia-lhe
+o cora&ccedil;&atilde;o que a encontraria alli.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[176]</span>
+&#8213;Volto &aacute; minha solid&atilde;o, Christina&#8213;disse-lhe,
+commovido.&#8213;N&atilde;o lh'o tinha eu dicto? <br />
+
+<br />
+
+A pobre menina quiz sorrir, mas do esfor&ccedil;o que para isso fez
+s&oacute; lhe resultaram lagrimas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga mais nada&#8213;disse Henrique, levando aos labios a
+m&atilde;o que ella n&atilde;o retirou.&#8213;Essas
+lagrimas bastam-me. <br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que estas palavras mais lagrimas
+produziram. <br />
+
+<br />
+
+E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas. <br />
+
+<br />
+
+Christina ficou a chorar na varanda. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha veio, sem ser sentida, abra&ccedil;al-a, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pago-te hoje o abra&ccedil;o que me d&eacute;ste no outro
+dia; mas eu escuso de te perguntar... &laquo;Pois tu
+amaval-o?&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, Lena!...&#8213;exclamou Christina, cada vez chorando mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faltava aos vossos amores este arrem&ecirc;do de infelicidade, e
+imaginaram uma separa&ccedil;&atilde;o de
+duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e
+chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!&#8213;dizia Magdalena, para
+consolal-a. <br />
+
+<br />
+
+Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia.
+Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual
+taes mudan&ccedil;as notava n'elle, que chegou a aventar
+&aacute; ama a ideia de que a doen&ccedil;a tinha transtornado
+o juizo ao rapaz, opini&atilde;o que D. Doroth&eacute;a levou
+muito a mal. <br />
+
+<br />
+
+Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a
+indigna&ccedil;&atilde;o que lhe causou a carta de um
+amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus
+habitos pastoris e das Tirces e Galat&eacute;as que o traziam
+enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do
+cora&ccedil;&atilde;o, contra aquelle tom frio e sarcastico da
+epistola, e nem lhe respondeu. <br />
+
+<br />
+
+Depois teve Henrique uma vis&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+N&atilde;o se assustem os leitores que antipathisam com o
+maravilhoso. Nada ha aqui que se pare&ccedil;a com as
+vis&otilde;es &eacute;picas; foi uma vis&atilde;o
+como muitas, que n&oacute;s todos, uma ou outra vez na vida,
+experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em
+quando a imagina&ccedil;&atilde;o, esta fertil e poderosissima
+creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem n&atilde;o
+ter&aacute; de facto
+succedido v&ecirc;r transformar-se pouco a pouco uma perspectiva,
+desvanecerem-se os effeitos da vis&atilde;o exterior, enfraquecerem
+as impress&otilde;es dos sentidos, e avultarem, tomarem
+f&oacute;rma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima,
+espontanea e mysteriosa vis&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Estava Henrique &aacute; janella do quarto que habitava em
+Alvapenha. Sabemos j&aacute; que se gosava d'alli um panorama
+extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com
+prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as
+suas noras e m&ecirc;das, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma
+verdadeira quinta rural, resentindo-se, por&eacute;m, um pouco de
+ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade
+para tratar da lavoura. <br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco deix&aacute;ra Henrique de v&ecirc;r a quinta
+como ella era. <br />
+
+<br />
+
+Principiava a vis&atilde;o interior. <br />
+
+<br />
+
+As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos
+campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se
+de cereaes os celleiros; alastrava-se de gr&atilde;o o
+ch&atilde;o das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se
+&aacute;s pr&ecirc;sas os diques, e uma verdadeira rede liquida
+envolvia em suas malhas a vegeta&ccedil;&atilde;o dos campos;
+alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos
+as cantilenas alde&atilde;s; e os mais caracteristicos e poeticos
+episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente
+allucinados, do sobrinho de D. Doroth&eacute;a. Era
+<span class="pagenum">[178]</span>
+uma perfeita georgica! E elle a dirigir
+todos os trabalhos, a regular o servi&ccedil;o, verdadeiro
+patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte,
+&aacute; sombra de uma arvore, &aacute; borda do tanque,
+debru&ccedil;ada no muro, por entre os silvados das
+s&eacute;bes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura
+de Christina! <br />
+
+<br />
+
+Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem
+elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as
+qualidades boas e m&aacute;s da sociedade que frequentava, havia de
+ter uma vis&atilde;o como esta! <br />
+
+<br />
+
+No quasi extase, em que a imagina&ccedil;&atilde;o o
+lan&ccedil;&aacute;ra permanecia ainda, quando soube que o
+procuravam de mando das senhoras do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Apressou-se logo a receber a visita. <br />
+
+<br />
+
+Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e
+das meninas. <br />
+
+<br />
+
+O pobre homem era um dos que fic&aacute;ra com
+affei&ccedil;&atilde;o a Henrique depois que estivera no
+Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle j&aacute; em poucos
+encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso
+era o bastante para o velho lhe querer bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga &aacute;s senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo
+inc&oacute;mmodo que est&atilde;o tendo
+commigo. E voss&ecirc; tambem, Torquato, na sua idade, estes
+passeios. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, n&atilde;o tem d&uacute;vida! Isto faz bem...
+&Eacute; exercicio a final... Pois &eacute; verdade. Eu d'antes
+corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu j&aacute;
+tenho os meus annos! Veja l&aacute;, se no tempo dos francezes eu
+era j&aacute; homem feito... Inda me lembra... <br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se um episodio da &eacute;poca, e depois, sem
+transi&ccedil;&atilde;o sensivel: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas l&aacute; emquanto &aacute;s senhoras... Isso sempre devo
+dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... At&eacute; a
+Christininha!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[179]</span>
+&#8213;Sim? Tambem essa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se tambem!... Pois a sr.<sup>a</sup> D. Victoria? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... mas... Christina... a sr.<sup>a</sup> D.
+Christina, ent&atilde;o... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; um cora&ccedil;&atilde;o de pomba. Inda ha
+pouco, ao sair, j&aacute; vinha no pateo, e ella veio ter commigo a
+correr, e disse-me: &laquo;Olhe, &oacute; Torquato, ha de
+reparar-lhe para a cara e v&ecirc;r se tem ar mais
+triste.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella disse-lhe isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. E eu l&aacute; lhe vou dizer que o
+encontrei alegre como... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o; n&atilde;o lhe diga isso,
+homem&#8213;atalhou Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o por qu&ecirc;?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque... porque... porque n&atilde;o &eacute; verdade...
+Ent&atilde;o eu estou assim t&atilde;o alegre como isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que esteja, mas para a socegar... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga que me achou com saude, mas triste. E n&atilde;o lhe disse
+ella mais nada? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A sr.<sup>a</sup> D. Victoria... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falo de Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso &eacute; segredo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, diga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; nada; &eacute; uma promessa que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma promessa? Que promessa? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve
+muito mal, que nem o cirurgi&atilde;o dava nada por si, a
+Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as
+esta&ccedil;&otilde;es da
+meia noite... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As esta&ccedil;&otilde;es da meia noite? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; as esta&ccedil;&otilde;es rezadas &aacute; meia
+noite &aacute; Senhora que est&aacute; na capella da casa dos
+Canaviaes; &Eacute; t&atilde;o milagrosa que, dizem, nunca
+recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae... <br />
+
+<br />
+
+E vinha um caso comprovativo da tradi&ccedil;&atilde;o popular.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+&#8213;Sim, lembra-me que j&aacute; me falaram n'isso&#8213;disse Henrique,
+pensativo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. O peor &eacute; que &eacute; este seu
+criado quem tem de a acompanhar at&eacute; &aacute; quinta,
+depois d'&aacute;manh&atilde; &aacute; meia noite... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o depois de &aacute;manh&atilde; &aacute;
+meia noite? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, mas n&atilde;o diga nada, que isto &eacute; segredo da
+pequena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esteja descan&ccedil;ado. <br />
+
+<br />
+
+E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que
+Henrique n&atilde;o ligou
+atten&ccedil;&atilde;o, aquelle retirou-se. <br />
+
+<br />
+
+Ao ficar s&oacute;, Henrique caiu em nova e profunda
+abstrac&ccedil;&atilde;o. Elaborava-se-lhe na ideia um
+projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de
+fervorosa devo&ccedil;&atilde;o de Christina, que
+supplic&aacute;ra por elle, enfermo, com o ardor da mais pura
+cren&ccedil;a, com a effus&atilde;o do mais generoso affecto. <br />
+
+<br />
+
+N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que
+conduziam &aacute; quinta, que elle ainda n&atilde;o
+visit&aacute;ra, e sobre como penetrar
+at&eacute; &aacute; capella da casa, onde devia ser cumprida a
+promessa. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os
+esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das
+inten&ccedil;&otilde;es com que elle lh'os pedia. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXVIII</h4>
+
+<br />
+
+A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha
+morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada
+n'um dos mais &ecirc;rmos e melancolicos logares da aldeia. <br />
+
+<br />
+
+O tempo, cuja ac&ccedil;&atilde;o n&atilde;o contrastada se
+exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que
+desde a origem apresentava esta casa,
+<span class="pagenum">[181]</span>
+ennegrecendo-lhe as paredes,
+revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as
+junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos
+dos muros. Emfim a supersti&ccedil;&atilde;o popular
+termin&aacute;ra a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por
+aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta,
+entregue &aacute; natureza. <br />
+
+<br />
+
+A defuncta morgada, que n&atilde;o se recolhera &aacute; aldeia
+sen&atilde;o depois de ter gosado na capital de todos os
+esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e
+elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde
+pass&aacute;ra o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que
+em grande parte concorrera para generalisar a opini&atilde;o de que
+a sua alma andava ainda penando por c&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em
+rela&ccedil;&atilde;o aos annos da mocidade da morgada. A
+imagina&ccedil;&atilde;o popular fazia a biographia d'aquella
+senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma
+phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada. <br />
+
+<br />
+
+A morgada, que s&oacute; renunciou ao mundo quando os espelhos
+come&ccedil;aram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam
+nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um
+extremo a outro extremo, e da vida elegante &aacute;s
+pr&aacute;ticas de devo&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as
+semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente
+os habitos de elegancia de que j&aacute; fizera uma necessidade
+natural. Trajava sempre com distinc&ccedil;&atilde;o e esmero,
+e ao corrente das modas. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto e as proprias devo&ccedil;&otilde;es da morgada,
+acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado
+d'ella, as quaes procurava remir &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a de missas. Dizia-se que a
+morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua
+alma voltava &aacute; terra penando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+J&aacute; se v&ecirc; que o logar era para apavorar as
+imagina&ccedil;&otilde;es timidas, e de noite pouca gente da
+aldeia gostava de passar por l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao
+Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais c&ecirc;do do que a hora
+devida, e fazendo obra pelas informa&ccedil;&otilde;es da
+morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher
+posi&ccedil;&atilde;o d'onde
+pudesse, sem ser visto, observar Christina, n&atilde;o tendo ainda
+resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua
+piedosa tarefa. <br />
+
+<br />
+
+A noite fizera-se escura e amea&ccedil;ava chuva. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, j&aacute; um
+pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo,
+atravessou a aldeia, examinando com atten&ccedil;&atilde;o
+todos os objectos que lhe
+deviam servir de indicadores da estrada. <br />
+
+<br />
+
+Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que
+por apparencia, julgou ser a demandada propriedade. <br />
+
+<br />
+
+Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a
+um lado um alto port&atilde;o da quinta, do outro a capella, cuja
+porta Henrique achou ainda fechada. <br />
+
+<br />
+
+O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver
+acertado. <br />
+
+<br />
+
+Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a
+escurid&atilde;o a fazer receiar grandes aguaceiros. <br />
+
+<br />
+
+Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se.
+N'este intento approximou-se do port&atilde;o. Com grande espanto
+seu, achou-o aberto. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na
+casa?... Estaria habitada a quinta? <br />
+
+<br />
+
+Estas tres explica&ccedil;&otilde;es do inesperado facto
+debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar. <br />
+
+<br />
+
+Transpoz o port&atilde;o e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de
+vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+A chuva ca&iacute;a com mais f&ocirc;r&ccedil;a. Para se
+abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no t&ocirc;po dos
+quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado. <br />
+
+<br />
+
+Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim
+de um corredor pareceu-lhe divisar luz. <br />
+
+<br />
+
+Henrique parou indeciso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decididamente enganei-me. N&atilde;o &eacute; aqui a casa dos
+Cannaviaes. Sempre perguntarei. <br />
+
+<br />
+
+E bateu as palmas. <br />
+
+<br />
+
+Ninguem lhe respondeu. <br />
+
+<br />
+
+Bateu outra vez; o mesmo resultado. <br />
+
+<br />
+
+Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu. <br />
+
+<br />
+
+O mesmo silencio; seguiu at&eacute; o fim do corredor em
+direc&ccedil;&atilde;o &aacute; luz; chegou a uma sala
+mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um
+candieiro de metal, pousando na pedra da chamin&eacute;, em cujo
+f&oacute;co brilhavam ainda uns carv&otilde;es
+candentes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece uma historia de fadas!&#8213;pensava Henrique.&#8213;Dar-se-ha que a
+alma da morgada goste ainda das commodidades? <br />
+
+<br />
+
+Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado
+opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do
+campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na m&atilde;o. Henrique
+voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella
+primeiro lhe disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procurava alguem, o senhor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o perd&atilde;o pelo meu atrevimento. Bati muito
+tempo &aacute; porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a
+entrar. Desejava saber onde &eacute; aqui a casa dos Cannaviaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A casa dos Cannaviaes &eacute; esta mesma. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que n&atilde;o
+morava aqui ninguem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o enganaram. Hoje por acaso &eacute; que
+est&aacute; c&aacute; a sr.<sup>a</sup> morgada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+&#8213;A sr.<sup>a</sup> morgada?&#8213;perguntou Henrique, sem bem
+saber o que devia
+pensar da resposta e de tudo que via. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, senhor; a sr.<sup>a</sup> morgada, e n&atilde;o
+tarda aqui. Ella
+esperava-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! A sr.<sup>a</sup> morgada esperava-me? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse a mulher, sorrindo.&#8213;Adivinhou que o
+senhor vinha aqui. E o que &eacute; que ella n&atilde;o
+adivinha? <br />
+
+<br />
+
+Henrique dava tratos &aacute; imagina&ccedil;&atilde;o para
+comprehender esta scena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; a sr.<sup>a</sup> morgada
+em pessoa que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que o convida para tomar uma chavena de ch&aacute;&#8213;disse uma voz
+por traz d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz. <br />
+
+<br />
+
+Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos
+labios e a m&atilde;o estendida, com aquella habitual franqueza de
+maneiras, que de tantos encantos a revestia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique exclamou, admirado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prima Magdalena! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as
+honras da minha propriedade, que pelos modos est&aacute; para ser
+muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu
+muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do
+rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida
+&eacute; quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as
+janellas d'esta casa, para que os ratos n&atilde;o a destruam de
+todo, e os tortulhos lhe n&atilde;o enfeitem as paredes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como soube que eu?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; um segredo. N&atilde;o o esperava,
+por&eacute;m, t&atilde;o c&ecirc;do, nem imaginei que nos
+viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embara&ccedil;ada quando
+o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas
+fez bem em recolher-se... Ouve? <br />
+
+<br />
+
+E com o gesto indicava a chuva, que j&aacute; batia com
+f&ocirc;r&ccedil;a nas vidra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[185]</span>
+&#8213;O peor &eacute; se isto n&atilde;o espalha e a Christina muda
+de ten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O vento &eacute; do mar, menina; isto s&atilde;o
+aguaceiros&#8213;notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sabe que Christina vem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei tudo. Ora sente-se ao fog&atilde;o, que deve vir muito
+frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento,
+muito pouco hospitaleiro.&#8213;Brizida, olhe que se n&atilde;o percebam
+l&aacute; f&oacute;ra as luzes, que podem amedrontar Christina.
+E feche a porta da sala. Abra o c&ocirc;ro da capella e prepare
+ch&aacute; para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a
+cozinha est&aacute; pouco habitavel. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta,
+chegando uma cadeira para o fog&atilde;o, sentou-se defronte de
+Henrique de Souzellas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais
+nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o diz que sabe tudo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; certo ponto, entendamo-nos. N&atilde;o
+v&atilde;o t&atilde;o longe as minhas faculdades que cheguem a
+devassar inten&ccedil;&otilde;es, que por ventura &aacute;
+propria
+consciencia de quem as f&oacute;rma, repugne acceitar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; esse o meu caso; as minhas
+inten&ccedil;&otilde;es s&atilde;o reconhecidas e
+approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo
+commovente de um anjo que ora por mim. &Eacute; um espectaculo a
+que ainda n&atilde;o assistira, prima. Admira-se da minha
+curiosidade? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho-a natural e at&eacute;... louvavel. O ponto est&aacute;
+que a sua convalescen&ccedil;a esteja bastante segura
+j&aacute;. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas
+doen&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De duas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; e a mais rebelde n&atilde;o foi a de que o
+cirurgi&atilde;o o tratou.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[186]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A peor, aquella de que eu havia chegado j&aacute; a desesperar,
+era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma
+doen&ccedil;a moral; revelava-se por uma maneira de v&ecirc;r
+as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou curado d'isso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estar&aacute;? eu sei!... &Eacute; certo que j&aacute;
+&eacute; bom signal admittir que era doen&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou pelo seu diagnostico, prima, e at&eacute; pelo tratamento que
+me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos
+negocios locaes... e sobretudo em uma paix&atilde;o sincera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! e experimentou a receita? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Experimentei e curei-me. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou tomou por f&ocirc;r&ccedil;as de saude o que era apenas o
+falso vigor da convalescen&ccedil;a? Convem n&atilde;o abusar;
+ou&ccedil;o dizer aos medicos que s&atilde;o perigosas as
+recaidas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois teme que eu recaia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas
+mortas... comquanto motivada por louvaveis
+inten&ccedil;&otilde;es... tem ainda assim uma certa
+fei&ccedil;&atilde;o romantica... que era bom vigiar... Sempre
+vim para acudir a algum accidente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um perfeito medico da &eacute;poca; n&atilde;o
+tem f&eacute; na efficacia dos remedios que prescreve. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho; mas n&atilde;o desacompanho a ac&ccedil;&atilde;o
+d'elles, isso n&atilde;o. Agora fale-me com franqueza: ao
+recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa n&atilde;o se
+lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis j&aacute;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que algumas... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do
+cora&ccedil;&atilde;o que o minava,
+tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os
+p&eacute;s no Mosteiro, e teimava em ser cego para o n&atilde;o
+v&ecirc;r. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desde o primeiro dia? Pois Christina...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[187]</span>
+&#8213;Christina deixou de ser crean&ccedil;a desde aquelle dia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querido anjo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella &eacute;
+ingenua, timida, supersticiosa at&eacute;,
+se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para
+acalmar as paix&otilde;es demasiado violentas de um caracter como o
+seu; para lhe fazer ter mais esperan&ccedil;a na vida, mais coragem
+e mais f&eacute; no futuro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para
+Magdalena: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo t&atilde;o bem
+as necessidades do cora&ccedil;&atilde;o dos outros,
+n&atilde;o pensou ainda nas do seu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem lhe disse que as tinha? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e
+n&atilde;o se julgue t&atilde;o impenetravel, que
+n&atilde;o offere&ccedil;a leitura aos olhos que a
+observam. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o leu? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que
+eu s&oacute; agora estou habilitado para a apreciar como merece;
+pagina, por&eacute;m, t&atilde;o recatada, que julgo que ainda
+a n&atilde;o leu bem o
+principal interessado n'ella. Cego, como eu fui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o leria?&#8213;perguntou Magdalena,
+sorrindo.&#8213;Est&aacute; certo d'isso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por
+inspira&ccedil;&atilde;o a adivinhasse. Ha casos d'esses. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena tornou, mudando de tom: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ainda c&ecirc;do para tratar de mim. Quando me
+resolver a isso, ver&aacute; que sou um doente modelo.
+N&atilde;o hesitarei ante a violencia do remedio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E por que demora o tratamento? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois parece-lhe que ser&aacute; urgente o caso? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prima Magdalena, o que vejo &eacute; que ha mais fortaleza da sua
+parte do que.... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Silencio!&#8213;disse a morgadinha, escutando.&#8213;Pareceu-me ouvir...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+N'este momento a Brizida, que f&ocirc;ra a uma sala immediata,
+voltou, dizendo em voz baixa: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o depressa&#8213;disse Magdalena.&#8213;Abra-nos o
+c&ocirc;ro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz
+lembran&ccedil;a em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo.
+Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. N&atilde;o fa&ccedil;a
+barulho. <br />
+
+<br />
+
+Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um
+corredor estreito, no c&ocirc;ro da capella, d'onde a morgada
+costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento
+inferior. <br />
+
+<br />
+
+Quando alli chegaram, com as precisas precau&ccedil;&otilde;es
+para n&atilde;o fazer estalar as t&aacute;buas do soalho, havia
+j&aacute; em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no
+pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do
+c&ocirc;ro. <br />
+
+<br />
+
+C&ecirc;do se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu
+serem Christina e Torquato. <br />
+
+<br />
+
+Caminharam silenciosos at&eacute; ao altar principal. Torquato
+subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas
+v&eacute;las de cera que, em ennegrecidos casti&ccedil;aes de
+madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se
+no recinto uma frouxa claridade, que n&atilde;o dissipou as sombras
+dos recantos, nem as que se condensavam no tecto. <br />
+
+<br />
+
+Christina fez signal ent&atilde;o a Torquato, para que se
+retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou
+para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e
+fechar-se com estrondo. <br />
+
+<br />
+
+Tudo ficou depois em silencio. <br />
+
+<br />
+
+Christina ent&atilde;o ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a
+de que a tradi&ccedil;&atilde;o popular contava
+milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a
+devo&ccedil;&atilde;o promettida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[189]</span>
+Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella
+angelica creatura viera alli agradecer &aacute; Virgem o tel-o
+salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um
+amor puro e candido, em que elle j&aacute; nem acreditava. E
+cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena via com alegria a commo&ccedil;&atilde;o de Henrique.
+<br />
+
+<br />
+
+A ora&ccedil;&atilde;o de Christina prolongou-se por alguns
+minutos. <br />
+
+<br />
+
+Henrique murmurou, ajuntando as m&atilde;os: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus te recompense, anjo, a consola&ccedil;&atilde;o que me
+d&aacute;s. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pe&ccedil;a a Deus o que est&aacute; na sua
+m&atilde;o&#8213;respondeu-lhe em voz baixa Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; ou n&atilde;o sinceramente apaixonado? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como nunca imaginei que f&ocirc;sse possivel estar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&ecirc; na pureza d'aquelle cora&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como na dos anjos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; convencido de que o pode salvar, ella? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha cr&eacute;do que professe com mais
+f&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o vae ent&atilde;o ajoelhar ao lado d'ella e
+jurar-lh'o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E consente? <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas
+escadas que pela espessura da parede iam do c&ocirc;ro para a
+capella-m&oacute;r. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui tem o caminho&#8213;disse ella.&#8213;Siga-me. E, servindo-se da lanterna
+de furta-fogo, foi descendo com precau&ccedil;&atilde;o.
+Henrique seguiu-a. <br />
+
+<br />
+
+No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais
+alguns passos, parou junto de um reposteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora fa&ccedil;a o que lhe dictar o
+cora&ccedil;&atilde;o&#8213;disse ella para Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Este correu o reposteiro com precau&ccedil;&atilde;o, e
+achou-se na capella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[190]</span>
+Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique
+entr&aacute;ra ficava por detraz d'ella, n&atilde;o o
+viu chegar. <br />
+
+<br />
+
+Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a
+ora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ao levantar-se, Christina, voltando a cabe&ccedil;a, descobriu-o, e
+soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella
+n&atilde;o lhe deixou perceber logo quem f&ocirc;sse, o que
+mais lhe augmentou o terror. <br />
+
+<br />
+
+Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha receio, Christina. Sou eu. <br />
+
+<br />
+
+Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a
+presen&ccedil;a de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de
+imaginar
+explica&ccedil;&otilde;es. Henrique accrescentou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto
+fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado,
+Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os
+castos e aben&ccedil;oados prazeres da familia; depois de me
+dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas
+ora&ccedil;&otilde;es. Deixe-me beijar-lhe a m&atilde;o com
+todo o affecto, com toda a paix&atilde;o que pode haver na minha
+alma. <br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, levou aos labios a m&atilde;o, que ella, de
+enleiada, nem ous&aacute;ra retirar das suas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora pe&ccedil;o-lhe, Christina, que, j&aacute; que me fez
+antever as delicias do viver da familia, n&atilde;o me condemne
+para sempre ao supplicio de n&atilde;o as v&ecirc;r realisadas.
+Lembre-se de que n&atilde;o conheci m&atilde;e, de que
+n&atilde;o tenho irm&atilde;s, de que tenho vivido
+s&oacute;, e de que c&ecirc;do voltarei a essa vida solitaria e
+gelada, que me ser&aacute; agora uma tortura.
+Compade&ccedil;a-se de mim. Quer vir occupar no meu
+cora&ccedil;&atilde;o o logar vago que ha n'elle para as
+affei&ccedil;&otilde;es de
+m&atilde;e, de irm&atilde;, e de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Henrique!...&#8213;murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada
+crean&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor,
+&eacute; pousando a m&atilde;o sobre os Evangelhos
+<span class="pagenum">[191]</span>
+d'esse altar, que eu lhe prometto
+mais do que uma paix&atilde;o ephemera de rapaz, prometto-lhe a
+constante adora&ccedil;&atilde;o, rodeada de respeito, do homem
+que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina,
+acceite o offerecimento do meu cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Christina tremia sem poder responder. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena entrou por sua vez na capella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se pode exigir assim uma resposta directa, primo
+Henrique&#8213;disse ella. <br />
+
+<br />
+
+Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e
+inesperadas appari&ccedil;&otilde;es, correu para
+a prima. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, Lena! Tu tambem aqui?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o me competia receber em minha casa as
+visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu
+d&ecirc; por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba
+de te pedir, muito terminantemente, a tua m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Christina n&atilde;o respondeu, sen&atilde;o cingindo-a mais
+intimamente ao seio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o responderam os labios, primo,&#8213;continuou a
+morgadinha&#8213;mas falou o cora&ccedil;&atilde;o ao meu na
+linguagem das pulsa&ccedil;&otilde;es. Estou-o sentindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E disse?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que havia de dizer? Que sim. <br />
+
+<br />
+
+E Magdalena, que tinha a m&atilde;o de Christina na sua, extendeu-a
+a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo. <br />
+
+<br />
+
+Parece-me poder affirmar que d'esta vez j&aacute; houve
+correspondencia. <br />
+
+<br />
+
+O velho Torquato, farto de esperar de f&oacute;ra da capella, e
+achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao entrar divisou por&eacute;m tres pessoas em logar de uma
+s&oacute;, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado. <br />
+
+<br />
+
+Supp&ocirc;z que almas penadas andavam na capella. <br />
+
+<br />
+
+O bom do homem n&atilde;o ousava approximar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[192]</span>
+Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha m&ecirc;do, Torquato. A alma de minha
+madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu. <br />
+
+<br />
+
+O espanto do feitor n&atilde;o era agora menor. Esfregava os olhos,
+como se receiasse estar dormindo, e n&atilde;o passava de olhar
+para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na
+explica&ccedil;&atilde;o do que
+via. <br />
+
+<br />
+
+Custou a fazel-o voltar da sua estupefac&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique
+f&ocirc;ra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes
+serviu o ch&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como
+j&aacute; percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e
+Henrique, soltou algumas insinua&ccedil;&otilde;es, que a
+obrigaram a c&oacute;rar,
+e a rir Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita
+intimidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso
+ser&atilde;o!&#8213;disse Henrique.&#8213;Decididamente &eacute; de
+maravilhas esta casa; o povo tem raz&atilde;o. A morgada defuncta
+foi decerto quem se encarregou de fazer os convites. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, como foi que vieram aqui?&#8213;perguntou Christina,
+j&aacute; mais desenleiada.&#8213;J&aacute; sei, foi este Torquato
+que me n&atilde;o guardou segredo. O que merecia!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, menina?! Ora essa! Eu at&eacute;... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a
+indiscre&ccedil;&atilde;o&#8213;disse Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;?&#8213;tornou a prima. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a discre&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o por qu&ecirc;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Torquato &eacute; discreto, com umas meias palavras, que exprimem
+mais do que a verdade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu...&#8213;ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o
+interrompeu.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[193]</span>
+&#8213;Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presen&ccedil;a aqui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso &eacute; justo que fale primeiro Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que hei de eu dizer? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Explica a tua presen&ccedil;a aqui. Ent&atilde;o
+n&atilde;o ouviste o primo Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, j&aacute; o sabem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas talvez n&atilde;o lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da
+tua b&ocirc;ca. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o, a minha vinda, essa n&atilde;o
+tem que explicar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diz, primo Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido
+j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida
+por um sentimento de piedade e de... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lena! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a
+narra&ccedil;&atilde;o dos sustos que ella sentiu por o caminho
+desde o Mosteiro at&eacute; aqui. O Torquato n&atilde;o era
+decerto bastante para lhe limpar a estrada de vis&otilde;es e
+malfeitores. <br />
+
+<br />
+
+Christina poz-se a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vamos &aacute;s explica&ccedil;&otilde;es da
+presen&ccedil;a dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato
+avisou o primo Henrique... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?! <br />
+
+<br />
+
+Christina olhou para o velho com um meigo gesto de
+reprehens&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu o soubesse!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... eu n&atilde;o disse... eu... s&oacute; disse... <br />
+
+<br />
+
+Henrique tomou a palavra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Torquato n&atilde;o &eacute; de todo o culpado. Pois acha que
+n&atilde;o haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar?
+Torquato atrai&ccedil;oou-se involuntaria, inconscientemente. Mas
+quanto &aacute; prima... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? Soube-o tambem do Torquato.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+&#8213;Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; que n&atilde;o. Eu n&atilde;o disse
+&aacute; sr.<sup>a</sup> D. Magdalena... Ella
+&eacute; que... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi o que eu disse ha pouco. A discre&ccedil;&atilde;o do
+Torquato &eacute; que revelou o segredo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu a esse n&atilde;o disse. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, a esse quiz occultar, e d'ahi &eacute; que veio o
+mal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, ora... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu sei &eacute; que Vicente veio procurar-me &aacute;
+porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como
+ainda lhe n&atilde;o tinha merecido nunca. Estava o homem
+convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se
+verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E
+t&atilde;o irritado estava, que me n&atilde;o quiz ouvir,
+quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma.
+Ao retirar-se, por&eacute;m, disse-me que n&atilde;o lhe
+quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o disse... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois a prima... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu ent&atilde;o chamei este senhor, armei-me de toda a minha
+gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o
+que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava
+p&ecirc;rro, mas a final falou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas sabia tambem que eu vinha?&#8213;perguntou Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o se lembra de que pela manh&atilde; me tinha
+can&ccedil;ado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos
+Cannaviaes? Eu j&aacute; extranhava a insistencia; depois do que
+soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe
+fal&aacute;ra n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua
+hesita&ccedil;&atilde;o e ambiguidade,
+<span class="pagenum">[195]</span>
+habilitou-me a concluir que teria o
+g&ocirc;sto de receber o primo em minha casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite.
+Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para
+p&ocirc;r a casa em arranjo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o mesmo coisas tuas&#8213;disse Christina, rindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o disse nada&#8213;insistiu Torquato. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, por que motivo se irritou tanto o
+herbanario?&#8213;perguntou Henrique.&#8213;Que imaginava elle a final? <br />
+
+<br />
+
+-Ah!... &Eacute; porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as
+suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de
+arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se
+de que havia aqui um romance em que entrava eu... A
+discre&ccedil;&atilde;o do Torquato &eacute; das que
+respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura
+f&ocirc;ram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que
+entrava tambem o primo Henrique... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! percebo agora&#8213;disse Henrique, rindo.&#8213;O velho &eacute;
+ciumento por procura&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena abanou a cabe&ccedil;a, sorrindo tambem. <br />
+
+<br />
+
+Christina, que j&aacute; estava habilitada para entender a
+allus&atilde;o de Henrique, sorriu com elles. <br />
+
+<br />
+
+O Torquato foi o unico que nada percebeu. <br />
+
+<br />
+
+Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de
+voltarem a casa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chover&aacute;?&#8213;perguntou Brizida. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que n&atilde;o&#8213;respondeu Magdalena, e como para
+assegurar-se correu a vidra&ccedil;a da janella e examinou o
+firmamento. <br />
+
+<br />
+
+Henrique acompanhou-a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A noite est&aacute; serena&#8213;disse ella.&#8213;S&atilde;o horas de
+voltarmos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas
+horas&#8213;disse Henrique, &#8213;Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda
+parte da familia a estas
+horas&#8213;disse Henrique, debru&ccedil;ando-se &aacute; janella, e
+continuou:&#8213;Mas que
+<span class="pagenum">[196]</span>
+agradavel
+noite! N&atilde;o poder prolongal-a por toda a eternidade! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos,&#8213;respondeu Magdalena&#8213;o dia
+d'&aacute;manh&atilde; deve ser feliz ainda, porque... <br />
+
+<br />
+
+N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe
+attrahisse a atten&ccedil;&atilde;o, calou-se,
+mal podendo reter um leve grito. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que foi?&#8213;perguntou Henrique, que o percebeu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada&#8213;respondeu ella, correndo a vidra&ccedil;a e afastando-se da
+janella. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viu a alma da morgada?&#8213;perguntou jovialmente Henrique, vendo-a
+preoccupada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o&#8213;respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio
+s&eacute;ria.&#8213;Pode por&eacute;m haver
+appari&ccedil;&otilde;es peores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que &eacute;, Lena? Que viste tu?&#8213;perguntou Christina,
+assustada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos. <br />
+
+<br />
+
+E, passados poucos minutos, sairam todos os que at&eacute; alli
+animavam aquella habita&ccedil;&atilde;o
+solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua
+quasi desola&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXIX </h4>
+
+<br />
+
+No dia seguinte, pela manh&atilde;, recebeu-se na Alvapenha noticia
+da chegada do conselheiro e de Angelo. A impress&atilde;o profunda
+que a este ultimo caus&aacute;ra a morte de Ermelinda, tinha
+resolvido o pae a trazel-o comsigo para a aldeia a distrahir e
+robustecer com ares livres do campo. D. Doroth&eacute;a
+apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; Henrique
+acompanhou-a e de caminho p&ocirc;l-a ao facto do estado do seu
+cora&ccedil;&atilde;o, e encarregou-a
+<span class="pagenum">[197]</span>
+de communicar isto mesmo a D.
+Victoria e de fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da
+m&atilde;o de Christina. <br />
+
+<br />
+
+D. Doroth&eacute;a ficou a principio admirada. Ainda se
+n&atilde;o desacostum&aacute;ra de considerar Christina como
+uma creanca. Havia t&atilde;o pouco tempo que usava ainda vestidos
+curtos! <br />
+
+<br />
+
+Reflectindo por&eacute;m, acabou por achar a coisa natural,
+vantajosa e agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que
+fizera. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, n&atilde;o
+se fartou de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta
+vez as habituaes prolixidades da boa senhora n&atilde;o conseguiram
+enfastial-o. Estava dev&eacute;ras apaixonado! <br />
+
+<br />
+
+Chegaram ao Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro recebeu-os com ar de satisfa&ccedil;&atilde;o e
+apparente tranquillidade de espirito; mas um exame attento conseguiria
+descobrir-lhe no sorriso o que quer que era for&ccedil;ado a
+revelar certa
+preoccupa&ccedil;&atilde;o interior. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que, desde que cheg&aacute;ra, tinha sondado melhor o
+animo do publico da terra, ou dos influentes que o representavam, e
+reconhecera que estava muito arriscada d'esta vez a sua candidatura. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a
+dois dias realisavam-se as elei&ccedil;&otilde;es. Tudo
+estava por fazer, emquanto que os seus adversarios havia muito que
+tinham tudo feito. Algumas das personagens politicas, com que contava,
+falharam-lhe, e at&eacute; nem o visitaram. As auctoridades locaes
+eram-lhe manifestamente hostis, desde o administrador at&eacute; o
+cabo de policia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o
+conselheiro para conversar em assumptos alheios &aacute;
+quest&atilde;o que o interessava, para sorrir e prestar
+atten&ccedil;&atilde;o ao que se dizia. <br />
+
+<br />
+
+De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
+escrevia um bilhete, retirava-se
+<span class="pagenum">[198]</span>
+por momentos para receber algum agente eleitoral que o
+procurava, despachava um emissario; finalmente n&atilde;o podia
+socegar. <br />
+
+<br />
+
+Foi na occasi&atilde;o em que elle consultava mais uma vez a lista
+dos recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e
+Magdalena faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos,
+que entrou D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D.
+Doroth&eacute;a, e em nome de Henrique, o pedido da m&atilde;o
+de Christina. D. Victoria trazia bem visivel na physionomia todo o
+jubilo que a nova lhe caus&aacute;ra. Era muito amiga de Magdalena,
+mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais que tudo a
+lisonje&aacute;ra, f&ocirc;ra a preferencia
+dada por Henrique a sua filha sobre a morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique&#8213;dizia ella.&#8213;Estou mesmo
+muito arrenegada comsigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por qu&ecirc;, minha senhora?&#8213;perguntou Henrique, sorrindo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o isso &eacute; coisa que se fa&ccedil;a?
+J&aacute; precisa de embaixadores para se dirigir a mim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha senhora! Era meu dever deixar completa
+liberdade a v. ex.<sup>a</sup> para fazer todas as
+reflex&otilde;es que a
+proposta lhe suggerisse e discutil-a &aacute; vontade, e, por
+delicadeza, podia v. ex.<sup>a</sup> &aacute;s vezes,
+sendo eu mesmo quem a
+fizesse, cohibir-se... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, eu havia de p&ocirc;r muitas d&uacute;vidas! Na verdade
+um rapaz de t&atilde;o m&aacute; nota! Ora sempre tem coisas! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, posso esperar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da minha parte uma guerra de morte&#8213;disse D. Victoria, n&atilde;o
+resistindo a dar um abra&ccedil;o a
+Henrique, j&aacute; com familiaridade de m&atilde;e;
+abra&ccedil;o
+que Henrique retribuiu com affecto. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro n&atilde;o dava atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute; scena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, mano!&#8213;bradou-lhe
+D. Victoria.&#8213;Deixe l&aacute; essas politicas
+que temos negocios s&eacute;rios em casa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[199]</span>
+&#8213;Sim?&#8213;disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
+ar de interesse, que realmente estava muito longe de
+sentir.&#8213;Ent&atilde;o de que se trata? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De um negocio importante, em que &eacute; preciso que seja
+ouvido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ent&atilde;o &eacute; um caso de consciencia? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o o diga a rir, que &eacute;. Aqui o sr. Henrique
+de Souzellas acaba de me fazer um pedido... Isto &eacute;, a prima
+Doroth&eacute;a foi que m'o fez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas por ordem d'elle&#8213;acudiu esta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, o que era escusado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o que pede de n&oacute;s este caro sr.
+Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. J&aacute;, por
+mais de uma vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe
+tinha passado pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique
+tinha um bom nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro
+na sociedade, e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
+tiral-o quanto antes da illus&atilde;o e disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem mais raz&atilde;o tinha para protestar era eu. Ha de
+fazer-me falta a amizade de Christina. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!&#8213;disse o conselheiro, com um sorriso um tanto
+contrafeito.&#8213;Ent&atilde;o quer-nos roubar a nossa Christina, sr.
+Henrique? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; apenas uma restitui&ccedil;&atilde;o que
+pe&ccedil;o, sr. conselheiro, porque n&atilde;o me posso
+resignar a viver sem cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faz madrigal? Est&aacute; ent&atilde;o apaixonado
+dev&eacute;ras, j&aacute; vejo&#8213;disse o conselheiro.&#8213;Pela
+minha parte folgo de o v&ecirc;r assim associado &aacute; minha
+familia,
+por t&atilde;o bom caminho. Mas onde est&aacute; a thaumaturga,
+que fez o milagre de converter este celibatario emerito,
+<span class="pagenum"><a name="p200">[200]</a></span>
+que eu conheci em Lisboa a rir-se
+do casamento? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por piedade, n&atilde;o me recorde esses peccados deante da prima
+Magdalena, que &eacute; t&atilde;o rigorosa nos
+castigos! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga antes, que sou t&atilde;o excessiva nas recompensas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o mano tem raz&atilde;o&#8213;disse D. Victoria.&#8213;Onde
+est&aacute; a Christe? Admira-me n&atilde;o a v&ecirc;r
+aqui! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admirar, n&atilde;o me admiro eu&#8213;tornou o
+conselheiro.&#8213;&Eacute; provavel que soubesse do que se
+tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi decerto discutido
+por as partes interessadas, antes de subir ao nosso tribunal. <br />
+
+<br />
+
+Henrique e Magdalena sorriram. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
+Gon&ccedil;alo. Deus queira que te n&atilde;o queimes ainda no
+fogo ao ateares d'estes fachos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou buscar a Christe&#8213;disse a morgadinha, rindo das palavras do
+pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a
+direc&ccedil;&atilde;o
+que elle lhe deu. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
+emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Doroth&eacute;a
+tentava distrahir Angelo, contando-lhe v&aacute;rias historias de
+crean&ccedil;as, que
+elle mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento
+accommodado &aacute; intelligencia d'elle. <br />
+
+<br />
+
+Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
+j&aacute; vinha com o rubor nas faces e com os olhos no
+ch&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui est&aacute; a accusada&#8213;disse a morgadinha ao entrar. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse <a href="#e9">jovialmente</a>
+para a sobrinha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora venha c&aacute;, venha c&aacute;, que temos muito que
+falar. <br />
+
+<br />
+
+E passando-lhe a m&atilde;o por baixo do queixo, para a obrigar a
+fital-o, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o assim se trama uma conspira&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal
+ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e
+j&aacute; um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora,
+&eacute; energia. Nunca o esperei. Ora d&ecirc; c&aacute;
+um beijo, emquanto n&atilde;o tenho quem me
+pe&ccedil;a explica&ccedil;&otilde;es por os que lhe
+roubar. <br />
+
+<br />
+
+E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
+tingidas pelo pejo e pela alegria. <br />
+
+<br />
+
+Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o os penultimos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os penultimos?&#8213;disse D. Victoria, rindo.&#8213;Ora essa! Ent&atilde;o
+para quando ficam os ultimos? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para quando a vir com a grinalda de noiva. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu nunca esperei &eacute; que f&ocirc;sse a nossa
+Christe que d&eacute;sse o exemplo &aacute; prima.
+N&atilde;o tens vergonha, Lena&#8213;disse D. Doroth&eacute;a para a
+morgadinha, em quem esta reflex&atilde;o fez nascer um gesto de
+contrariedade, que trouxe aos labios d'Angelo o primeiro sorriso
+d'aquella manh&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique sorriram tambem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia&#8213;disse
+Henrique com
+inten&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem
+sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha
+coisas no mundo que se devem decidir pelo cora&ccedil;&atilde;o
+s&oacute;mente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Deus me livre de o n&atilde;o consultar. Seria abjurar os meus
+proprios actos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O <em>s&oacute;mente</em> &eacute;
+que veio de mais, filha&#8213;disse o conselheiro.&#8213;Attende-se ao
+cora&ccedil;&atilde;o, embora. Mas s&oacute; ao
+cora&ccedil;&atilde;o? Isso era bom se
+vivessemos em um mundo de cora&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+A chegada de novas personagens desviou a direc&ccedil;&atilde;o
+da conversa e modificou a scena. <br />
+
+<br />
+
+Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
+Henrique ficou, a pedido do
+<span class="pagenum">[202]</span>
+conselheiro. O mestre Bento Pertunhas entrava no numero dos
+recemchegados. O papel que alli desempenhava o latinista era de
+suspeitosa natureza. <br />
+
+<br />
+
+Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
+n'estas &eacute;pocas n&atilde;o comia, n&atilde;o dormia,
+n&atilde;o respirava, por assim dizer,
+sen&atilde;o elei&ccedil;&otilde;es, e desenvolvia uma
+miraculosa
+actividade, correndo a todos os pontos perigosos, conquistando votos,
+um a um, e lidando por desenredar as meadas politicas dos adversarios e
+enredar as suas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que novas temos da campanha, meus
+senhores?&#8213;perguntou o conselheiro, puxando cadeiras para os seus
+constituintes, e affectando um tom de confian&ccedil;a que
+n&atilde;o sentia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;M&aacute;s, sr. conselheiro,&#8213;respondeu o Tapadas&#8213;muito
+m&aacute;s. Vejo isto muito feio. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora a coisa ainda n&atilde;o ha de ser t&atilde;o
+m&aacute; como diz. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, nada; n&atilde;o me agrada. V. ex.<sup>a</sup>
+descuidou-se. Tenha
+paciencia, mas eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas
+s&atilde;o. &Eacute; preciso n&atilde;o
+as desacompanhar. V. ex.<sup>a</sup> devia vir ha mais
+tempo. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas acudiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos
+decididos, e os servi&ccedil;os que fez &aacute;
+terra... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora com o que vmc.<sup>&ecirc;</sup> vem!&#8213;replicou o
+Tapadas, com modo
+azedo.&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o sabe como &eacute;
+esta gente? Ent&atilde;o n&atilde;o os ouve ahi berrar
+j&aacute; contra as estradas, quando at&eacute; agora berravam
+por n&atilde;o as
+terem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meia duzia de garotos&#8213;tornou o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor, n&atilde;o &eacute; assim;
+n&atilde;o estejamos a enganar-nos. Os que n&atilde;o dizem mal
+das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as devem, e
+estamos na mesma. A coisa vae mal. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o decididamente o Seabra?...&#8213;perguntou o conselheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse &eacute; o chefe de todos elles&#8213;disse um
+merceeiro.&#8213;&Aacute; porta da minha loja o ouvi eu estar a
+<span class="pagenum">[203]</span>
+dizer ao cunhado do
+administrador que o tra&ccedil;ado da estrada era o peor que podia
+ser, que se gastava alli um dinheiro louco, sem utilidade para o povo. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro olhou para Henrique, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
+tra&ccedil;ado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar?
+Admire agora o velhaco. <br />
+
+<br />
+
+Henrique sorriu, encolhendo os hombros. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arremedos do que se faz em terras maiores&#8213;disse
+elle.&#8213;N&atilde;o extranho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tem raz&atilde;o&#8213;respondeu o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, a final&#8213;continuou o conselheiro&#8213;o homem n&atilde;o tinha
+na freguezia grande influencia. Como &eacute; que...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
+por ahi a toda a gente, e depois os padres est&atilde;o bem com
+elle e de mal com v. ex.<sup>a</sup>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como se lhe desenfreou t&atilde;o de repente esse odio contra
+mim? Deix&aacute;mo-nos em janeiro nas melhores
+disposi&ccedil;&otilde;es um para com outro... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
+ministro...&#8213;disse o Tapadas, com maneiras de quem n&atilde;o dera
+grande importancia ao objecto a que se referia. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro mudou logo de assumpto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
+commetti, para me terem esse odio? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem que v. ex.<sup>a</sup> &eacute;
+ma&ccedil;&atilde;o&#8213;respondeu um lavrador. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O diacho da quest&atilde;o do cemiterio...&#8213;acudiu o Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso acalmou j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o acalmou, n&atilde;o senhor. O povo n&atilde;o
+est&aacute; contente. &Eacute; certo que lhe passou a furia do
+principio, depois d'aquella historia com o Cancella, mas...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[204]</span>
+&#8213;Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
+filha! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; melhor n&atilde;o falar n'isso&#8213;aconselhou
+prudentemente o Tapadas.&#8213;O que l&aacute; vae, l&aacute; vae.
+Os homens est&atilde;o meio arrependidos, e at&eacute; o
+missionario perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi
+berrado que foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette
+pena. At&eacute; me dizem que por causa d'isso o padre
+j&aacute; se retirou da aldeia. O que era bom era v&ecirc;r
+at&eacute; se se falava
+ao Herodes; porque talvez elle possa agora ainda arranjar
+alguns votos&#8213;accrescentou o Tapadas, disposto a servir-se da
+d&ocirc;r de um pae como arma eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
+politicos. Discutiram-se os diversos processos de
+angariar as potencias eleitoraes do circulo. Estudaram-se as
+ambi&ccedil;&otilde;es de cada uma; ponderaram-se as exigencias
+feitas por uns, os desejos adivinhados em outros, para este o emprego
+de um afilhado, &aacute;quelle o bom exito de uma demanda, a outro
+o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma hypotheca, e a alguns
+at&eacute; nua e descaradamente o dinheiro. N'esta empresa de
+subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o conciliabulo,
+sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o que estava
+fazendo alli. <br />
+
+<br />
+
+Entre os discutidos foi o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes um dos
+principaes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o sempre &eacute; certo que me roeu a corda esse
+basbaque?&#8213;perguntou, ao falar-se n'elle, o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; dos mais assanhados&#8213;responderam-lhe. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem diabo lhe virou a cabe&ccedil;a? Um velhaco a quem
+tantas vezes tenho tirado de apuros! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
+cemiterios...&#8213;disse o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, alli andou tambem um presente que
+<span class="pagenum">[205]</span>
+lhe fez o brazileiro. O morgado
+est&aacute; muitas vezes com a corda na garganta&#8213;explicou
+malignamente o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das
+demandas e da politica, n&atilde;o achava
+explica&ccedil;&otilde;es t&atilde;o plausiveis como a
+corrup&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario&#8213;insistiu o
+tendeiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus!&#8213;disse o Tapadas.&#8213;Bem me fio eu
+n'essas compaix&otilde;es. Quem n&atilde;o os
+conhecer... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que tem o t&ocirc;lo com os negocios do herbanario?&#8213;insistiu o
+conselheiro, de mau humor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o? Deu-lhe para alli. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual historia! Para mim &eacute; que vem com isso?!&#8213;teimava o
+sceptico Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
+taberna com este senhor&#8213;disse o Pertunhas, designando Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto, sr. conselheiro&#8213;disse este&#8213;se de alguma maneira concorri... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram.
+&Aacute; ultima hora &eacute; capaz de mudar de
+ten&ccedil;&atilde;o. E por causa d'elle &eacute; que
+ficou despachado professor um pateta em vez de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
+despeito: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas at&eacute; certo ponto foi bom para me desenganar a respeito
+do caracter de certos homens. Ha vingan&ccedil;as t&atilde;o
+torpes e mesquinhas, que nenhum aggravo as justifica. <br />
+
+<br />
+
+Henrique procurou defender Augusto; achou por&eacute;m o
+conselheiro obstinado na sua cren&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor
+da intriga. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Embora o f&ocirc;sse&#8213;respondeu o conselheiro&#8213;mas que tem isso?
+O Seabra n&atilde;o veio a minha casa, n&atilde;o suspeitava da
+existencia de tal carta. Alguem houve que a leu primeiro e que lh'a foi
+entregar depois, e j&aacute; &eacute; ser muito indulgente
+supp&ocirc;r que
+<span class="pagenum">[206]</span>
+f&ocirc;ram s&oacute; cegueiras de vingan&ccedil;a e
+n&atilde;o a sordidez da cubi&ccedil;a quem o moveu a essa
+infamia. <br />
+
+<br />
+
+Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
+pela innocencia d'elle. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma
+alterca&ccedil;&atilde;o travada entre Pertunhas e o Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
+eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ol&aacute;, &oacute; sr. Pertunhas, &eacute; melhor
+parolar menos e fazer coisa que se veja; ou deixa s&oacute; as
+obras para o seu amigo Seabra? <br />
+
+<br />
+
+D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a
+alterca&ccedil;&atilde;o virulenta, que o conselheiro teve de
+apaziguar. <br />
+
+<br />
+
+A conferencia durou at&eacute; &aacute;s horas do jantar. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXX </h4>
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a
+batalha eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+A az&aacute;fama politica activ&aacute;ra-se n'estes ultimos
+dias consideravelmente. De parte a parte tinham-se posto em campo todos
+os influentes e em exercicio todas as armas. Promessas,
+allicia&ccedil;&otilde;es,
+press&atilde;o de auctoridades, exigencias a dependentes, subornos,
+amea&ccedil;as mais ou menos declaradas; de tudo se
+lan&ccedil;ava m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes at&eacute; o calor das discuss&otilde;es
+degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que
+figuram no catalogo das raz&otilde;es mais convincentes, haviam
+j&aacute; sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se
+depois, de um lado contr
+&Aacute;s vezes at&eacute; o calor das discuss&otilde;es
+degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que
+figuram no catalogo das raz&otilde;es mais convincentes, haviam
+j&aacute; sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se
+depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do governo, do
+outro,
+<span class="pagenum">[207]</span>
+contra os manejos
+sediciosos e anarchicos da opposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os
+padres que arvorando a cruz e o estandarte, pr&eacute;gavam a
+cruzada contra o conselheiro e instavam com o povo para que
+n&atilde;o elegesse para representante um atheu e um
+pedreiro-livre; em outras eram os agentes do brazileiro e os da
+auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos populares, resgatando
+penhores, levantando hypothecas, remindo dividas, empregando afilhados,
+e conquistando assim para o seu partido. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e os seus parciaes n&atilde;o desprezavam tambem
+nenhum d'estes mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater
+as do brazileiro Seabra. <br />
+
+<br />
+
+Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha.
+Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores
+dos dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas,
+assignando-se: o <em>Amigo da
+verdade</em>; o <em>Epaminondas</em>; o
+<em>V&iacute;gilante</em>; a
+<em>Sentinella</em>; o
+<em>Alerta</em>, etc., e pondo ao soalheiro as
+m&aacute;culas da vida privada uns dos outros, e todas as
+bisbilhotices da terra, correspondencias que, felizmente para
+cr&eacute;dito da humanidade, por ninguem mais, al&eacute;m dos
+interessados e dos que j&aacute; os conheciam, eram lidas. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta
+sec&ccedil;&atilde;o periodistica. Os
+seus communicados eram estirados, compactos, obscuros e enrevezados
+tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se em minuciosos
+incidentes; em labyrinthos de ora&ccedil;&otilde;es
+secundarias, d'onde a
+grammatica da principal sa&iacute;a frequentemente maltratada,
+deixando ficar por l&aacute; o sujeito, o verbo ou qualquer
+complemento necessario. Mas o brazileiro imaginava que o paiz inteiro
+aguardava com ancia os seus escriptos. Era frequente abrir uma resposta
+a alguma zargunchada de um seu adversario, por estas
+<span class="pagenum">[208]</span>
+palavras: &laquo;Os leitores
+h&atilde;o de ter notado o
+meu silencio, depois das calumniosas
+asser&ccedil;&otilde;es...&raquo; Os leitores
+n&atilde;o tinham notado nada. <br />
+
+<br />
+
+Finalmente a aldeia achava-se em plena
+fermenta&ccedil;&atilde;o politica. <br />
+
+<br />
+
+Eu tenho a fraqueza de a n&atilde;o amar debaixo d'aquelle aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado
+&eacute; o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e
+conhecidos s&atilde;o os que vivem d'ella, tanto mais acanhada,
+mexeriqueira e antipathica se torna. Se a politica do nosso paiz
+&eacute; j&aacute; pequena, como elle, e degenera em
+desaven&ccedil;a de senhoras vizinhas, que far&aacute; das
+terras pequenas d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos
+partidos est&atilde;o os mexericos e as vaidadesinhas que brotam
+como tortulhos &aacute; sombra das arvores do campanario?! <br />
+
+<br />
+
+Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos! <br />
+
+<br />
+
+Henrique de Souzellas n&atilde;o fic&aacute;ra indifferente ao
+movimento politico da aldeia. Peg&aacute;ra-se-lhe a febre
+eleitoral. Impedido de votar, auxiliava, por&eacute;m, os parciaes
+do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um dia lembrou um <em>meeting</em>.
+O
+conselheiro poz-se a rir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que est&aacute;
+tratando? Um
+<em>meeting</em>, para qu&ecirc;? N&atilde;o se
+esque&ccedil;a de ir domingo &aacute; igreja
+e l&aacute; se desenganar&aacute; por os seus olhos. O
+espectaculo n&atilde;o &eacute; muito para alegrar, porque
+mostra como em geral o nosso paiz est&aacute; ainda pouco educado
+no regimen constitucional. Mas em todo o caso &eacute; instructivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel
+Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em
+rela&ccedil;&atilde;o ao tempo em que
+principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com
+que j&aacute; se podia contar. <br />
+
+<br />
+
+A elei&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, estava muito
+arriscada ainda.
+<span class="pagenum">[209]</span>
+O sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes devia decidir a contenda. Para onde
+se inclinasse o morgado, com todo o peso dos seus comparochianos,
+desceria o prato da balan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o
+menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e
+aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte
+nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, n&atilde;o se
+descuidava de o manter nas disposi&ccedil;&otilde;es hostis
+contra o conselheiro. A
+todo o momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a
+necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma
+li&ccedil;&atilde;o ao conselheiro, com quem Henrique estava
+ligado. Depois disse-lhe que o conselheiro se gabava de ter dinheiro
+para comprar o morgado e toda a freguezia. <br />
+
+<br />
+
+O morgado, sob estas e analogas instiga&ccedil;&otilde;es,
+praguejava e jurava despejar na urna ministerial o suffragio da sua
+freguezia. <br />
+
+<br />
+
+Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do
+governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido
+para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que
+era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser
+representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o
+custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa
+fei&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Logo pela manh&atilde; do domingo, marcado para a grande
+solemnidade civil, o adro da igreja parochial apresentava uma
+anima&ccedil;&atilde;o f&oacute;ra do
+costume. Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se
+com desconfian&ccedil;a, ou correspondendo-se por signaes de
+intelligencia, conforme pertenciam &aacute; mesma ou a opposta
+parcialidade. Os agentes eleitoraes, os influentes dos dois campos
+acercavam-se d'este, apertavam a m&atilde;o &aacute;quelle,
+segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam
+<span class="pagenum">[210]</span>
+com um terceiro, e, sempre que era
+possivel, distribuiam listas ao maior numero. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava
+a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as
+m&atilde;os e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por
+entre os grupos, recommendava ordem e respeito &aacute;s
+auctoridades, e dava de olho aos cabos, seus subordinados, para que se
+n&atilde;o esquecessem de cumprir as
+instruc&ccedil;&otilde;es recebidas, votando no candidato
+ministerial. <br />
+
+<br />
+
+Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a
+constitui&ccedil;&atilde;o da mesa. O parocho, o administrador
+e o regedor foram occupar o seu logar. Ficou presidente o brazileiro, e
+o resto da mesa formou-se d'entre as duas parcialidades. <br />
+
+<br />
+
+Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as
+probabilidades da victoria. <br />
+
+<br />
+
+N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios
+do brazileiro, dizia-se: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; ver&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a freguezia de Pinch&otilde;es enche-nos ahi a
+urna. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E estar&aacute; bem seguro o morgado? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Jo&atilde;ozinho!? Ora! Est&aacute; de ferro e fogo
+contra o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram
+na taberna, e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; s&oacute; por isso. Elle
+j&aacute; estava do nosso lado, desde que soube tinham deitado
+abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava succumbido de
+todo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro
+d'esta vez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem? O Vicente? Esse sim. Ent&atilde;o n&atilde;o sabes que
+o pobre velho j&aacute; se n&atilde;o levanta da cama?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[211]</span>
+&#8213;Ai, n&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Andava j&aacute; muito fraco e doente; mas ha tres dias,
+sobretudo, tem ido de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi
+dizer, aquillo est&aacute; por pouco tempo: nem deita a semana
+f&oacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitado! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vem quem ainda hoje o viu. N&atilde;o &eacute; verdade,
+sr. Pertunhas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;, meus amigos, o qu&ecirc;? o que &eacute; que
+&eacute; verdade? o que &eacute; que dizem?&#8213;perguntou o mestre
+de latim, esfregando sempre as m&atilde;os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; verdade que o Vicente herbanario
+est&aacute; a ajustar contas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o
+cora&ccedil;&atilde;o! Sempre eu digo que uma crueldade assim,
+como a do conselheiro! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, s&oacute;
+por causa do mal que fez &aacute;quelle santo velho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E com raz&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o para qu&ecirc;? senhores, para
+qu&ecirc;?&#8213;continuava Pertunhas.&#8213;Para fazer uma estrada em que se
+gastam rios de dinheiro, e que a final n&atilde;o presta! Pois eu
+passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer, por a casa do
+Augusto, que &eacute; onde vive agora o Vicente. O rapaz estava
+&aacute; porta. Ent&atilde;o, sr. Augusto, disse-lhe eu,
+&aacute; urna! vamos
+&aacute; urna! Elle encolheu os hombros como quem diz:
+&laquo;bem me importa a mim com isso.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; outro, que tambem n&atilde;o
+&eacute; pelo conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que n&atilde;o? Pois n&atilde;o &eacute; elle todo do
+Mosteiro? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, foi&#8213;replicou o Pertunhas.&#8213;Ent&atilde;o vmc.<sup>&ecirc;</sup>
+n&atilde;o sabe que o conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de
+lhe arranjar a demiss&atilde;o, inda por cima o poz f&oacute;ra
+de casa, porque pelos modos o rapaz... fez publicar umas certas
+cartas... que compromettiam o homem? A falar verdade, tambem
+n&atilde;o foi bonito.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+&#8213;Fez elle muito bem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o
+povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar
+a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o
+Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi
+ent&atilde;o que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem
+voss&ecirc;s, outro tanto de magro e outro tanto de velho... Mettia
+d&oacute;! Poz-se a perguntar-me muitas coisas, o que havia, o que
+n&atilde;o havia, por quem estava este, por quem estava aquelle...
+Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que fizesse,
+j&aacute; n&atilde;o podia
+vencer; que n&atilde;o arranjaria os votos precisos para cobrir a
+freguezia de Pinch&otilde;es. O velho ficou admirado quando eu lhe
+disse que o sr. Jo&atilde;ozinho era dos nossos. E l&aacute; o
+deixei a remoer a noticia. Ao menos resta-me a
+consola&ccedil;&atilde;o de lhe ter
+ado&ccedil;ado com ella os ultimos momentos. <br />
+
+<br />
+
+N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter
+com um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer
+n&atilde;o sei que eleitor recalcitrante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi anda este&#8213;disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.&#8213;Era
+bem feito que lhe dessem outra li&ccedil;&atilde;o, como a da
+taberna do Canada. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ordem, ordem e prudencia!&#8213;disse o Pertunhas.&#8213;&Eacute; preciso
+manter a liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que tem este senhor com as nossas elei&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem o manda metter-se c&aacute; n'estas coisas? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora &eacute; boa! Ent&atilde;o n&atilde;o sabem que elle
+casa no Mosteiro?&#8213;disse o Pertunhas, que andava sempre informado das
+vidas alheias. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o
+Augusto, veio a n&oacute;s o Jos&eacute; Barbeiro, que nos deu
+essa novidade, que lh'a dissera o Manoel
+<span class="pagenum">[213]</span>
+da Quinta, que a ouvira &aacute;
+Gertrudes, criada do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Casa com a morgadinha, j&aacute; se sabe? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v&ecirc;des! n&atilde;o que a bolada convida! A mim logo
+me farejou isso, quando vi chegar esse figur&atilde;o c&aacute;
+&aacute; terra. Mas querem voss&ecirc;s saber uma
+coisa engra&ccedil;ada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor
+n&atilde;o gostou da novidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o? Ent&atilde;o por qu&ecirc;?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vi-o fazer-se de mil c&ocirc;res quando a ouviu... Pois
+ter-se-lhe-ha mettido na cabe&ccedil;a... Hein?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tinha gra&ccedil;a. Mas olha o milagre!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah!... Este mundo &eacute; muito divertido! <br />
+
+<br />
+
+N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a
+olhar para todos os lados, como procurando alguem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que temos n&oacute;s l&aacute;, &oacute; sr.
+Luiz?&#8213;perguntou-lhe o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde diabo est&atilde;o os de Pinch&otilde;es?&#8213;perguntou o
+interpellado. <br />
+
+<br />
+
+-Inda n&atilde;o vieram. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles n&atilde;o
+apparecem. O morgado &eacute; homem para se esquecer a catar os
+c&atilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vamos n&oacute;s principiando, e no emtanto elles
+vir&atilde;o&#8213;disse o Pertunhas, que f&ocirc;ra nomeado para
+revezador do secretario da mesa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a primeira freguezia que vota &eacute; justamente a d'elle. O
+sr. Seabra est&aacute; como uma bicha! <br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, o homem voltou para dentro. <br />
+
+<br />
+
+A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do
+beaterio, que pela voz dos padres chamava &aacute;quillo artes do
+demonio, ia principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais
+tarde, de proposito para n&atilde;o formar parte da mesa, requereu,
+com o relogio na m&atilde;o, que se abrisse a urna aos eleitores,
+visto ser a hora marcada no edital. <br />
+
+<br />
+
+Este requerimento, simples e justo como era, suscitou
+discuss&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[214]</span>
+O brazileiro allegou que, sendo os de Pinch&otilde;es os primeiros
+a votar, em virtude do artigo 62.&ordm; do decreto eleitoral, que
+manda
+votar primeiro a freguezia mais distante, e n&atilde;o estando na
+assembl&eacute;a ninguem d'aquella freguezia, convinha esperar. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro insistiu, dizendo que a lei n&atilde;o mandava
+esperar por os eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que
+portanto votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas
+horas de espera, votariam os ausentes que depois viessem. <br />
+
+<br />
+
+Esta quest&atilde;o n&atilde;o se resolveu de prompto. Trocados
+alguns alvitres, lida a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados
+os recenseamentos e mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao
+administrador, e ao parocho, &eacute; que se approvou a proposta do
+conselheiro e principiou a chamada. <br />
+
+<br />
+
+A freguezia de Pinch&otilde;es faltou em p&ecirc;so. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a
+lista dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os
+adversarios, e sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em
+principiar a vota&ccedil;&atilde;o julgou descobrir
+cavilla&ccedil;&atilde;o. Na urna n&atilde;o tinha entrado
+uma s&oacute; lista. Pregoou-se o
+ultimo nome dos eleitores de Pinch&otilde;es. Ninguem ainda! <br />
+
+<br />
+
+Passou-se a outra freguezia. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro j&aacute; n&atilde;o estava em si. <br />
+
+<br />
+
+Os primeiros votos recolhidos mal os p&ocirc;de introduzir na urna,
+de tr&eacute;mulo e sobresaltado que estava. <br />
+
+<br />
+
+O homem suppunha que lhe tinha sido roubada &aacute; ultima hora
+uma freguezia inteira. N&atilde;o estava muito longe de acreditar
+que os agentes do conselheiro a haviam arrasado completamente. <br />
+
+<br />
+
+A freguezia que se seguia na vota&ccedil;&atilde;o era uma das
+que se conservavam fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a
+indisposi&ccedil;&atilde;o do Seabra. <br />
+
+<br />
+
+A vota&ccedil;&atilde;o ia, por&eacute;m, correndo,
+interrompida apenas
+<span class="pagenum"><a name="p215">[215]</a></span>
+por
+algumas questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e
+sobre a regularidade d'esta ou d'aquella lista, gra&ccedil;as aos
+futeis pretextos de que os contendores lan&ccedil;avam
+m&atilde;o para
+disputarem, voto a voto, o suffragio popular. <br />
+
+<br />
+
+Ia adeantada a vota&ccedil;&atilde;o, quando correu na igreja
+uma voz, que veio infundir alento no animo desfallecido do brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+-Veem ahi os de Pinch&otilde;es!... Ahi est&atilde;o os de
+Pinch&otilde;es... Ahi vem o sr. Jo&atilde;ozinho e toda a sua
+gente!&#8213;dizia-se de toda a parte. <br />
+
+<br />
+
+Esta nova passou de b&ocirc;ca em b&ocirc;ca, a ponto de
+produzir um sussurro na assembl&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados. <br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra de facto alli o sr. Jo&atilde;ozinho das
+Perdizes, &aacute; frente da sua <a href="#e10">freguezia</a>.
+<br />
+
+<br />
+
+Leitor, se tens, como eu, esperan&ccedil;a e sincera f&eacute;
+no systema representativo, perd&ocirc;a-me o obrigar-te a assistir
+a uma scena que faz subir a c&ocirc;r ao rosto de quem, como
+n&oacute;s, aben&ccedil;&ocirc;a os
+sacrificios por cujo pre&ccedil;o nossos paes nos compraram a nobre
+regalia de intervir, como povo, na governa&ccedil;&atilde;o do
+Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa tutela de um
+homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos, contra os
+quaes o instincto e a raz&atilde;o igualmente se revoltam. A scena,
+por&eacute;m, humilhante como &eacute;, n&atilde;o envolve
+a minima censura &aacute; excellencia do systema; mas apenas aos
+que nos quarenta annos que elle quasi tem de vida entre n&oacute;s,
+n&atilde;o souberam ou n&atilde;o
+quizeram ainda fazer comprehender ao povo toda a grandeza da augusta
+miss&atilde;o que lhe cabe executar. <br />
+
+<br />
+
+Depois das nossas luctas civis, j&aacute; muitas
+crean&ccedil;as se fizeram homens; se a escola f&ocirc;sse
+entre n&oacute;s o que devia ser, j&aacute; haveria sobra de
+eleitores com perfeita consciencia dos seus direitos civis. <br />
+
+<br />
+
+O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, s&oacute;mente devem
+impellir os homens de inten&ccedil;&otilde;es sinceras
+<span class="pagenum">[216]</span>
+e puras a applicar os
+esfor&ccedil;os de intelligencia e de ac&ccedil;&atilde;o
+para ministrar com a
+educa&ccedil;&atilde;o a moralidade, e para acordar a
+consciencia d'esta entidade social. <br />
+
+<br />
+
+Era o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes &aacute; frente da sua
+freguezia, disse eu. <br />
+
+<br />
+
+E &eacute; justamente este o espectaculo humilhante de que falava. <br />
+
+<br />
+
+Tendes visto um guardador de cabras &aacute; frente do seu rebanho,
+conduzindo com acenos e assobios todas as barbudas cabe&ccedil;as
+d'aquelle regimento quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da
+scena que se presenciava agora no adro da igreja matriz. <br />
+
+<br />
+
+O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas m&atilde;os o
+sceptro da sua soberania, n&atilde;o era
+menos docil do que os irracionaes que recordamos. <br />
+
+<br />
+
+O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava;
+quando podia disp&ocirc;r dos destinos dos seus senhores, era
+quando mais vergava a cabe&ccedil;a sob o p&ecirc;so que estes
+lhe
+assentavam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; similhante esta f&ocirc;r&ccedil;a
+inconsciente do povo &aacute; do boi robusto e v&aacute;lido,
+que uma
+crean&ccedil;a dirige e subjuga? Forte como elle, como elle docil,
+como elle laborioso, como elle util, n&atilde;o v&ecirc; que a
+mesma
+f&ocirc;r&ccedil;a que emprega no trabalho lhe poderia servir
+para repellir o jugo. Ou quando o v&ecirc;, &eacute; quando o
+desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas tremendas. <br />
+
+<br />
+
+Mas o povo de Pinch&otilde;es, o povo do sr. Jo&atilde;ozinho,
+estava muito longe d'esses excessos. <br />
+
+<br />
+
+O morgado vinha, como j&aacute; disse, &aacute; frente. <br />
+
+<br />
+
+A barba por fazer, as melenas despenteadas, o len&ccedil;o do
+pesco&ccedil;o s&ocirc;lto, sem
+bot&otilde;es o collarinho da camisa, com as m&atilde;os
+mettidas no c&oacute;s das ceroulas,
+o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas
+at&eacute; o joelho, a ponta do cigarro ao canto da b&ocirc;ca,
+o palito atraz da orelha, o chap&eacute;o sobre o occiput, dois
+galgos adeante de si, e o inseparavel
+<span class="pagenum">[217]</span>
+Cosme quasi <em>&agrave;
+latere</em>. Entrou no adro com ares triumphantes, sorrindo e
+piscando os olhos para os seus amigos e partidarios, como para lhes
+fazer notar a numerosa prociss&atilde;o que o seguia e a docilidade
+dos membros d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Atraz vinham os eleitores de Pinch&otilde;es, velhos e
+mo&ccedil;os, ricos e pobres, mas todos com o olhar timido e
+estupido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no
+caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle parava a cumprimentar
+um amigo, paravam todos com elle; a direc&ccedil;&atilde;o que
+tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo,
+segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se
+praguejava, tudo ficava s&eacute;rio. O cortejo parou &aacute;
+porta da
+igreja. <br />
+
+<br />
+
+O morgado passou revista &aacute; sua tropa, &aacute; qual deu
+instruc&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os bra&ccedil;os
+estendidos e a cabe&ccedil;a baixa,
+n&atilde;o ousavam fazer um movimento, e conservaram-se
+enfileirados at&eacute; nova ordem do sr. Jo&atilde;ozinho. <br />
+
+<br />
+
+Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem. <br />
+
+<br />
+
+No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel
+alma&ccedil;o dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de
+um homem que elles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido,
+cada um d'elles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral,
+responderia: &laquo;presente&raquo;;
+approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle
+papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um
+p&ecirc;so que o opprimia. <br />
+
+<br />
+
+Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto
+que acabavam de executar, n&atilde;o saberiam dizel-o; se lhes
+perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e
+defensor das suas liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a
+resigna&ccedil;&atilde;o do direito de
+votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem
+<span class="pagenum"><a name="p218">[218]</a></span>
+que n'aquelle dia estavam nas suas
+m&atilde;os e dos seus pares os destinos do paiz, abririam os olhos
+de espantados, ou sorririam com a desconfian&ccedil;a propria dos
+ignorantes. <br />
+
+<br />
+
+Innocente povo! <br />
+
+<br />
+
+Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de c&oacute;mmodo
+degrau. <br />
+
+<br />
+
+Quando disseram ao sr. Jo&atilde;ozinho que j&aacute; tinha
+passado a sua vez de votar, o homem rompeu pela igreja dentro,
+berrando, bracejando, amea&ccedil;ando c&eacute;os e terra, sem
+attender a quantos lhe clamavam que tinha de se proceder a nova
+chamada, e que portanto socegasse. <br />
+
+<br />
+
+O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justi&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Custou a serenar o morgado, e n&atilde;o o fez sen&atilde;o
+depois de duas pragas contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas
+que raz&otilde;es politicas fizeram engulir ao brazileiro, sem nem
+sequer lhe tirarem dos labios o sorriso com que saud&aacute;ra a
+vinda do morgado. <br />
+
+<br />
+
+Caindo em si, o sr. Jo&atilde;ozinho deu ordem &aacute; sua
+gente para que entrasse para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos
+lados d'ella, promptos &aacute; primeira voz. <br />
+
+<br />
+
+A chamada proseguia, e a vota&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+ia j&aacute; muito favoravel ao conselheiro, a julgar pelos
+indicios, que n&atilde;o escapam aos olhos amestrados dos mirones. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro exultava comsigo mesmo, <a href="#e11">principalmente</a>
+quando, por sobre as cabe&ccedil;as dos que se agrupavam em volta
+da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr.
+Jo&atilde;ozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este,
+por&eacute;m, grunhiu-lhe um monosyllabo s&ecirc;cco, e
+voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+Era caso desesperado. <br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;ra j&aacute; a votar a ultima freguezia, que era
+<span class="pagenum">[219]</span>
+justamente aquella onde estava
+constituida a unica assembl&eacute;a de que se compunha o circulo
+eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a
+nossa narra&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que votou o conselheiro e os outros conhecidos
+nossos, entre os quaes o Z&eacute; P'reira. <br />
+
+<br />
+
+Com este deu-se um episodio comico, que merece
+men&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o
+parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que
+era contra a expressa determina&ccedil;&atilde;o do artigo
+61.&ordm;, &sect;
+unico, da lei eleitoral. <br />
+
+<br />
+
+Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi
+impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das m&atilde;os
+do Z&eacute; P'reira.
+Era uma n&oacute;doa de vinho. <br />
+
+<br />
+
+Discutiu-se, ainda assim, se a n&oacute;doa era marca ou
+n&atilde;o era marca, e se lhe deviam ser applicadas as
+disposi&ccedil;&otilde;es do &sect; unico do artigo
+61.&ordm;.<br />
+
+<br />
+
+A discuss&atilde;o intrincada foi cortada por o Z&eacute;
+P'reira, que disse com a maior candura: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se essa est&aacute; suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais
+d'aquellas que vocemec&ecirc; me deu. <br />
+
+<br />
+
+O proprio conselheiro desatou a rir. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro resmungou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ha suborno aos eleitores? Como se entende isso? <br />
+
+<br />
+
+-Ora, n&atilde;o bula na chaga, sen&atilde;o temos muito que
+ouvir&#8213;disse o Tapadas, e accrescentou:&#8213;ande para deante; deite a sua
+lista, sr. Z&eacute;. <br />
+
+<br />
+
+Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista
+caiu na urna. <br />
+
+<br />
+
+Estava a findar a primeira chamada. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica. <br />
+
+<br />
+
+A gente de Pinch&otilde;es, &aacute; voz do sr.
+Jo&atilde;ozinho, apromptava-se para breve entrar em
+ac&ccedil;&atilde;o na segunda chamada, que ia principiar.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span>
+Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do
+herbanario, cuja inicial era um V. <br />
+
+<br />
+
+At&eacute; alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque
+a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram
+affectas, at&eacute; deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes,
+mancos e paralyticos f&ocirc;ram transportados em cadeiras e em
+padiolas at&eacute; a urna para votarem. Mas a freguezia de
+Pinch&otilde;es ia abafar a elei&ccedil;&atilde;o
+inevitavelmente. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro perdeu as esperan&ccedil;as, e o proprio Tapadas
+sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de
+contentamento. <br />
+
+<br />
+
+O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vicente Rodrigues da Fragosa&#8213;disse elle, preparando-se j&aacute;
+para voltar o caderno. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeante. Esse vae votar a uma assembl&eacute;a mais
+longe&#8213;disseram alguns. <br />
+
+<br />
+
+E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja
+uma voz tr&eacute;mula, mas sonora ainda, responder: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Presente. <br />
+
+<br />
+
+Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra. <br />
+
+<br />
+
+Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o
+velho herbanario, a quem o bra&ccedil;o de Augusto servia de apoio.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo. <br />
+
+<br />
+
+Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o
+herbanario adeantava-se e trazia j&aacute; de longe o
+bra&ccedil;o estendido, segurando a lista que vinha
+lan&ccedil;ar na urna. <br />
+
+<br />
+
+Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor,
+perante aquella figura anci&atilde; e alquebrada, que se dissera
+erguida do tumulo para responder &aacute; voz que a
+evoc&aacute;ra. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito,
+sen&atilde;o com supersticioso terror. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio s&oacute;
+interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o
+lag&ecirc;do da igreja.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+O conselheiro n&atilde;o p&ocirc;de mais desviar os olhos do
+vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que f&ocirc;ra seu
+companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo
+accusador da sua insensibilidade politica, a
+personifica&ccedil;&atilde;o de um remorso pungente, a primeira
+appari&ccedil;&atilde;o de um espectro,
+que devia perseguil-o no futuro. <br />
+
+<br />
+
+Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam
+approximar-se o velho eleitor, que j&aacute; suppunham &aacute;
+borda da sepultura. <br />
+
+<br />
+
+Aquella assembl&eacute;a, erguendo-se silenciosa e reverente,
+&aacute; chegada de um pobre velho, tr&eacute;mulo e enfermo,
+que seguia apoiado ao bra&ccedil;o de um pallido mancebo, tinha uma
+apparencia profundamente solemne. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, dev&eacute;ras affei&ccedil;oado ao
+herbanario, n&atilde;o teve m&atilde;o em si, ao
+v&ecirc;l-o assim doente e enfraquecido, que lhe n&atilde;o
+viesse ao encontro, dizendo commovido: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio Vicente! pois n'esse estado?!... <br />
+
+<br />
+
+O velho fez um gesto energico para afastal-o de si. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arreda-te!&#8213;disse com severidade&#8213;deixa-me, serpente, que mordes a
+m&atilde;o do teu bemfeitor! N&atilde;o me
+appare&ccedil;as, que n&atilde;o quero ter-te
+na ideia, quando estiver a expirar! <br />
+
+<br />
+
+O morgado ficou transido de espanto e de
+consterna&ccedil;&atilde;o ao ouvir estas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tio Vicente!...&#8213;exclamou, ajuntando as
+m&atilde;os&#8213;pois eu que lhe fiz? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar
+contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle
+a quem deveis tudo. Vendei-vos como c&atilde;es, e ficae-vos com
+esse remorso: eu n&atilde;o o quero para mim. <br />
+
+<br />
+
+E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro,
+que n&atilde;o p&ocirc;de sustentar-lhe o olhar com firmeza, e
+disse-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos
+pela assembl&eacute;a a procurar alguem. Viu o conselheiro que
+n&atilde;o ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma
+express&atilde;o singular e no fim estendeu-lhe a m&atilde;o. O
+conselheiro apertou-a nas suas, commovido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Manoel,&#8213;disse-lhe o velho em voz sumida&#8213;n&atilde;o me cegava
+tanto o resentimento, que te negasse esta justi&ccedil;a. Eu era
+ainda teu amigo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E sel-o-has sempre, Vicente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre que o seja... por pouco tempo ser&aacute;&#8213;respondeu o
+velho, sorrindo tristemente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e
+outros mais. <br />
+
+<br />
+
+A physionomia do herbanario transtorn&aacute;ra-se
+assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a
+voz embargava-se-lhe na garganta. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; n&atilde;o posso...&#8213;murmurou
+elle.&#8213;Queria dizer-te... <br />
+
+<br />
+
+E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe
+ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era... d'este... Elle &eacute;... elle est&aacute;... <br />
+
+<br />
+
+Os bra&ccedil;os de Augusto, do conselheiro e do morgado das
+Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra. <br />
+
+<br />
+
+Foi nos bra&ccedil;os dos tres que expirou o herbanario, porque
+estava dev&eacute;ras morto, quando o f&ocirc;ram a erguer. <br />
+
+<br />
+
+O alvoro&ccedil;o foi geral na igreja. Todos a abandonaram,
+correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a v&ecirc;r se
+era possivel reanimal-o. Todos, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o do brazileiro, que ficou a vigiar a
+urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[223]</span>
+Os soccorros prestados ao herbanario f&ocirc;ram inuteis. <br />
+
+<br />
+
+Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver. <br />
+
+<br />
+
+Os indifferentes voltaram a continuar a elei&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Ia principiar a segunda chamada. <br />
+
+<br />
+
+O morgado das Perdizes, impressionado dev&eacute;ras por a scena,
+andava desconsolado por o adro, e s&oacute; de m&aacute;
+vontade entrou na igreja. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo,
+acharam-se s&oacute;s junto do cadaver. <br />
+
+<br />
+
+A commo&ccedil;&atilde;o tirava a Augusto a frieza de animo
+para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve
+assim um momento em que o conselheiro esteve s&oacute; com Augusto.
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquelle instante o cora&ccedil;&atilde;o do homem politico
+era superior ao resentimento. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto&#8213;disse elle a meia voz&#8213;a morte
+n&atilde;o deixou este infeliz completar a ultima
+recommenda&ccedil;&atilde;o, que parecia querer fazer-me. Eu
+adivinhei-lhe por&eacute;m o sentido, e para prova
+offere&ccedil;o-lhe a m&atilde;o de amigo. <br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, estendia-lhe a m&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz
+commovida: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A m&atilde;o que v. ex.<sup>a</sup> me estende
+&eacute; a
+m&atilde;o do homem que esquece e perd&ocirc;a as injurias, e
+eu n&atilde;o posso ser perdoado, porque me n&atilde;o julgo
+criminoso. Desde que uma vez v. ex.<sup>a</sup> formulou a
+accusa&ccedil;&atilde;o e se fez juiz, prefiro, a ter de ser
+julgado sem provas, uma condemna&ccedil;&atilde;o a uma
+absolvi&ccedil;&atilde;o. Fico mais em paz com o meu orgulho. <br />
+
+<br />
+
+A presen&ccedil;a de alguns curiosos obrigou a interromper este
+curto dialogo. <br />
+
+<br />
+
+Henrique voltou com os aprestes para a conduc&ccedil;&atilde;o
+do cadaver. <br />
+
+<br />
+
+Augusto acompanhou a casa o herbanario. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco
+disposto a permanecer alli.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+&#8213;Fique se quizer&#8213;disse elle para Henrique.&#8213;N&atilde;o estou em
+estado de receber &aacute; queima-roupa a noticia da minha derrota;
+haviam de attribuir a mortifica&ccedil;&atilde;o que estou
+sentindo a essa causa, e
+eu n&atilde;o lhes quero dar esse g&ocirc;sto. Vou para casa;
+l&aacute; me levar&aacute; a noticia, e n&atilde;o me
+dar&aacute;
+grande novidade. Adeus. <br />
+
+<br />
+
+E, apertando a m&atilde;o de Henrique, retirou-se para o Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias
+circumstancias que a acompanharam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o houve quem f&ocirc;sse indifferente ao successo, que
+o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe
+deix&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha absteve-se da menor allus&atilde;o &aacute; causa
+que apress&aacute;ra o fim da vida do herbanario, e evitou sempre
+que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a
+consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto
+abstinha-se de se applaudir das suas previs&otilde;es, infelizmente
+realisadas. <br />
+
+<br />
+
+Passada a primeira commo&ccedil;&atilde;o, que a
+lembran&ccedil;a d'aquella scena produzira, o conselheiro
+principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que
+se lhe preparava na urna. <br />
+
+<br />
+
+Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a
+affecta&ccedil;&atilde;o era demasiado
+transparente, para at&eacute; nem D. Victoria se illudir. <br />
+
+<br />
+
+Assim, por exemplo, dizia elle &aacute; filha: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora v&atilde;o realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter
+a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade,
+est&aacute;-me a appetecer; a vida politica ia-me
+can&ccedil;ando j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal
+simulada satisfa&ccedil;&atilde;o! <br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco, por&eacute;m, a impaciencia come&ccedil;ou a
+apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia
+j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[225]</span>
+&Aacute;quella hora devia estar a proceder-se na
+assembl&eacute;a ao apuramento de votos. <br />
+
+<br />
+
+Esta ideia lan&ccedil;ava o conselheiro em um d'aquelles estados
+febris, que s&oacute; pode conceber quem j&aacute; alguma vez
+soube o que &eacute; ter a sorte dependente de uma
+vota&ccedil;&atilde;o, e aguardar a cada momento a
+noticia do resultado d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos
+afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se
+nos tentam alentar com esperan&ccedil;as, revoltamo-nos contra
+ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o,
+repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio n&atilde;o nos
+&eacute; mais agradavel; as
+apprehens&otilde;es ganham corpo no meio d'elle; falam os
+presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos
+labios. A quieta&ccedil;&atilde;o &eacute;-nos
+t&atilde;o intoleravel como o movimento. Anciamos sair da
+incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova
+fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito;
+chegamos quasi a querer mal a todos quantos est&atilde;o assistindo
+n'aquelle momento &aacute; decis&atilde;o lenta da sorte. O
+nosso egoismo,
+exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos
+amigos tenham cora&ccedil;&atilde;o para assistir
+&aacute;quillo; e comtudo n&atilde;o lhes perdoariamos se se
+retirassem. Sensa&ccedil;&otilde;es d'aquellas exgotam mais
+vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava
+preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que
+esperava elle! N&atilde;o lhe era quasi possivel contar, um por um,
+os votos de que dispunha? N&atilde;o ficava, por mais alto que
+elevasse o c&aacute;lculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo
+isto era assim, mas o convencimento pr&eacute;vio recusava
+estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da
+certeza. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um vivedouro sentimento o da esperan&ccedil;a!
+N&atilde;o
+<span class="pagenum">[226]</span>
+succumbe
+sen&atilde;o perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam
+verde, sen&atilde;o talvez por, como as plantas exuberantes de
+seiva, resistir &aacute;s
+mutila&ccedil;&otilde;es e renovar os ramos cortados? <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos,
+passeiava agitado na sala, olhando &aacute;s vezes para a janella,
+&aacute; espera de
+v&ecirc;r assomar ao port&atilde;o do pateo um dos seus
+partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe
+dar o desengano. <br />
+
+<br />
+
+Apesar de todas as preven&ccedil;&otilde;es, o que &eacute;
+certo &eacute; que a nova, quando viesse, feril-o-ia como
+imprevista. <br />
+
+<br />
+
+Sempre assim succede. <br />
+
+<br />
+
+No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as
+direc&ccedil;&otilde;es por o meio da sala,
+ouviu-se a detona&ccedil;&atilde;o de algumas duzias de
+foguetes. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido. <br />
+
+<br />
+
+Os cora&ccedil;&otilde;es de Magdalena, de Christina, de D.
+Victoria e de Angelo bateram precipitados. <br />
+
+<br />
+
+A causa estava, emfim, decidida. <br />
+
+<br />
+
+A girandola apregoava uma victoria, mas n&atilde;o proclamava o
+nome do vencedor; por&eacute;m, que d&uacute;vida podia haver a
+respeito d'elle? <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um
+sorriso amargo, disse para a familia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem sabe, mano? &Aacute;s vezes... <br />
+
+<br />
+
+Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando
+Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vem um homem a correr a toda a pressa! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A correr?!&#8213;disse o conselheiro, em quem esta simples noticia
+infundira novo alento a todas as esperan&ccedil;as, e
+dissip&aacute;ra a sombra das pesadas
+apprehens&otilde;es; e caminhou pressuroso para a janella.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[227]</span>
+As senhoras seguiram-n'o alli. <br />
+
+<br />
+
+O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os
+silvados de um atalho, que vinha dar &aacute; avenida da entrada do
+Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece o Domingos, o criado do Tapadas...&#8213;disse o conselheiro,
+affirmando-se. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que pressa elle traz!&#8213;notou D. Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; nos viu&#8213;disse Angelo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; acenou com o chap&eacute;o&#8213;exclamaram todos. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer elle dizer com aquelles signaes?&#8213;tornou o conselheiro,
+nervoso. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem v&ecirc;r que &eacute; o que eu digo! Olhe que venceu,
+mano. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! &Eacute; impossivel. Pois eu n&atilde;o sei como a
+vota&ccedil;&atilde;o correu? &Eacute; boa!&#8213;disse o
+conselheiro com certo tom irritado, como de quem n&atilde;o quer
+que lhe descubram uma esperan&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia
+n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros. <br />
+
+<br />
+
+Os olhos fitavam-se todos no port&atilde;o do pateo &aacute;
+espera de o v&ecirc;r surgir alli. Mal se respirava. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eil-o&#8213;disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle
+appareceu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva! sr. conselheiro, viva!&#8213;bradou elle de l&aacute;, apesar de
+esfalfado. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro teve quasi uma vertigem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle que diz?... Como pode... <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o deixaram continuar as senhoras, que j&aacute; o
+beijavam e abra&ccedil;avam com frenetico enthusiasmo. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram
+v&ecirc;r o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela
+febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua
+felicidade. &Eacute; que, na occasi&atilde;o da lucta,
+n&atilde;o ha
+animo t&atilde;o indifferente a estimulos, que n&atilde;o
+abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza
+augmenta o ardor com que se esposa a causa; os
+<span class="pagenum">[228]</span>
+g&ecirc;los da indifferen&ccedil;a
+fundem-se nos momentos
+decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a
+commo&ccedil;&atilde;o que esta produz, se se realisa. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro queria acalmar aquellas effus&otilde;es, mas em
+v&atilde;o bradava: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto n&atilde;o pode ser... Ha
+engano... <br />
+
+<br />
+
+Mas o animo feminino n&atilde;o entra facilmente na ordem, se chega
+alguma vez a sair d'ella. <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; a entrada do mensageiro na sala, &eacute; que serenou
+o tumulto. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrogou o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que dizes tu? Que vivas s&atilde;o esses? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo que vencemos&#8213;respondeu o mo&ccedil;o, usando ingenuamente o
+verbo na primeira pessoa do plural. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s a sonhar? <br />
+
+<br />
+
+-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para
+lh'o dizer. Quando eu sa&iacute; da igreja tinha
+vmc.<sup>&ecirc;</sup>... tinha v. s.<sup>a</sup>
+mais cento e cinco votos do que o outro, e s&oacute; havia na caixa
+uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; impossivel! Cem votos!... ahi ha engano.
+N&atilde;o pode ser! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cento e cinco! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s bem certo no que te disse teu amo? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora se estou. E l&aacute; vi a cara do brazileiro. Mettia
+m&ecirc;do. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel
+aquillo que lhe annunciavam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&ocirc;de mais tempo conter-se. Sobresaltado,
+ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do
+facto. <br />
+
+<br />
+
+Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo &aacute; frente
+a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e
+atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o
+fizesse, uma onda popular, trazendo &aacute; frente
+a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e
+atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. &Aacute; frente da
+musica estava
+<span class="pagenum">[229]</span>
+radiante mestre
+Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca! <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro chegou &aacute; janella, e ent&atilde;o
+&eacute; que as acclama&ccedil;&otilde;es f&ocirc;ram
+estrondosas. <br />
+
+<br />
+
+A desafina&ccedil;&atilde;o da banda chegou a ro&ccedil;ar
+pelo sublime. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro agradeceu ao povo aquella
+manifesta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes
+eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobra&ccedil;ando a trompa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer dizer isto?&#8213;perguntou o conselheiro,
+abra&ccedil;ando-os. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem
+menos&#8213;respondeu o Tapadas, rindo &aacute;s gargalhadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cento e trinta e cinco&#8213;repetiu o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas d'onde vieram! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa &eacute; boa! De Pinch&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De Pinch&otilde;es&#8213;repetiu o Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?... Pois o morgado?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Votou comnosco como um homem. Ora pud&eacute;ra! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade... votou... comnosco&#8213;dizia mestre Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o se viu ainda ha pouco... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que estavam com metralha inimiga?&#8213;concluiu o Tapadas.&#8213;Que tem
+l&aacute; isso? Mas v&atilde;o
+l&aacute; &aacute; igreja e ver&atilde;o as buxas que
+est&atilde;o pelo
+ch&atilde;o. &Eacute; um destr&ocirc;&ccedil;o! Parece
+a loja de um farrapeiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas explica-me isso, Tapadas. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o ouviu a rabecada que aquelle santo do
+herbanario, que inda que n&atilde;o f&ocirc;sse
+sen&atilde;o por isso deve estar assentadinho no C&eacute;o,
+deu ao morgado? Pois aquillo l&aacute; resentiu o homem. E quando,
+depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer:
+&laquo;Diabos me levem, que se tivesse aqui listas &aacute;
+m&atilde;o, havia de ensinar os tratantes
+que me metteram n'esta dan&ccedil;a&raquo;. Vieram-me dizer
+isto,
+<span class="pagenum">[230]</span>
+e eu que, para o que
+d&eacute;sse e viesse, sempre levava um sortimento de listas,
+cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim
+&aacute; cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se
+senta e abre cadernos, sim, senhores, e se p&otilde;e tudo em
+ordem, estava armada a freguezia de Pinch&otilde;es &aacute;
+nossa moda. Agora se se queria rir,
+era v&ecirc;r o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as
+listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a
+v&ecirc;l-o enterrar at&eacute; &aacute;s
+orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim ent&atilde;o &eacute;
+que f&ocirc;ram
+ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas &aacute;s
+cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no
+fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia
+contra o morgado, e se o encontra &eacute; capaz de o comer... Para
+coroar a festa, &aacute; girandola, que aqui o mestre Pertunhas
+tinha preparada para elles, pegamos-lhe n&oacute;s o fogo e,
+estourou que foi um g&ocirc;sto! <br />
+
+<br />
+
+E o Tapadas terminou com outra gargalhada. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas quiz protestar contra a accusa&ccedil;&atilde;o,
+mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus, meu amigo! O melhor &eacute; calar-se. <br />
+
+<br />
+
+E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que
+estavam proximos: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este Tapadas tem cada gra&ccedil;a! <br />
+
+<br />
+
+Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario.
+Tinham-lhe falhado todos os seus c&aacute;lculos politicos,
+transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe
+servira, e salv&aacute;ra-o o elemento que desprezava. Acontece
+&aacute;s vezes d'isto aos homens que muito calculam. <br />
+
+<br />
+
+As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as
+suas demonstra&ccedil;&otilde;es de alegria. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, por&eacute;m, ficou preoccupado no meio das festas
+de familia e das festas populares que se faziam no pateo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[231]</span>
+<h4>XXXI </h4>
+
+<br />
+
+A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, n&atilde;o
+s&oacute; pela qualidade de homem que era aquelle, como pelas
+circumstancias, no meio das quaes o facto succed&ecirc;ra. <br />
+
+<br />
+
+O resultado da elei&ccedil;&atilde;o, comquanto momentoso,
+n&atilde;o distra&iacute;a do assumpto as
+atten&ccedil;&otilde;es; pois que, tendo sido successos
+simultaneos, associavam-se naturalmente nas conversas e
+discuss&otilde;es, e um chamava o outro. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario n&atilde;o f&ocirc;ra colhido desprevenidamente
+pela morte; havia muito tempo que fizera as suas
+disposi&ccedil;&otilde;es e por ellas leg&aacute;ra a
+Augusto tudo quanto possuia, isto &eacute;, alguns livros, entre os
+quaes a
+<em>Polyanthea</em>, e o pre&ccedil;o, quasi intacto,
+que receb&ecirc;ra pela casa expropriada. <br />
+
+<br />
+
+Logo que estas disposi&ccedil;&otilde;es f&ocirc;ram
+sabidas, n&atilde;o faltou quem achasse n'ellas a
+explica&ccedil;&atilde;o da
+amizade desvelada com que Augusto sempre trat&aacute;ra o velho, e
+do piedoso acatamento com que o receb&ecirc;ra em casa, assim que
+da sua o expelliram. <br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos
+julgar a fundo do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos
+taes juizos. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma f&eacute;
+que se tem no desinteresse dos outros! <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha explica&ccedil;&atilde;o mais difficil de ser
+recebida do que a que se fundamenta n'um sentimento nobre de
+abnega&ccedil;&atilde;o ou de generosidade. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; preciso que duvidemos muito de n&oacute;s mesmos, para
+assim desconfiarmos do proximo. Porque a final o que &eacute;
+verdade &eacute; que a mais exacta e
+infallivel sciencia do cora&ccedil;&atilde;o humano
+s&oacute; se
+adquire pelo estudo do proprio cora&ccedil;&atilde;o: esse
+&eacute; o unico que nos
+<span class="pagenum">[232]</span>
+est&aacute;
+bem patente. &Eacute; por isso que as melhores
+almas s&atilde;o de ordinario as mais crentes. <br />
+
+<br />
+
+Um homem, a quem a desconfian&ccedil;a tenazmente escuda contra
+todas as apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem
+j&aacute; t&atilde;o inquinado o
+cora&ccedil;&atilde;o como supp&otilde;e o dos outros. <br />
+
+<br />
+
+O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi
+muito concorrido. <br />
+
+<br />
+
+Fez-se no cemiterio, e, por expressa determina&ccedil;&atilde;o
+do fallecido, em campa rasa, e n&atilde;o no tumulo da familia do
+Mosteiro, como o conselheiro desej&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Tudo se passou sem o menor signal de opposi&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se explicam bem estas versatilidades da
+opini&atilde;o publica. Uma medida que hoje ateia uma
+revolu&ccedil;&atilde;o,
+&aacute;manh&atilde; executa-se no meio do indifferentismo
+geral, e sem apostolado pr&eacute;vio, sem providencias
+repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao
+legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia
+das leis naturaes. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do
+herbanario, e receberam as visitas de p&ecirc;sames, que em parte
+eram tambem de parabens pelo exito do suffragio popular. <br />
+
+<br />
+
+Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam
+na igreja matriz as badaladas das Av&eacute;-Marias, Augusto entrou
+no cemiterio, j&aacute; deserto, e approximou-se lentamente da
+sepultura, inda coberta de pouco, como o denunciava a terra revolvida. <br />
+
+<br />
+
+Elle, cujo cora&ccedil;&atilde;o era decerto o que a morte do
+herbanario mais dolorosamente ferira, n&atilde;o receb&ecirc;ra
+p&ecirc;sames de ninguem. Pass&aacute;ra a tarde s&oacute;
+com o seu pensamento, o qual, como o leitor prev&ecirc;, lhe
+n&atilde;o devia ser muito jovial companheiro. <br />
+
+<br />
+
+Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado
+pelo ar abatido, revelador de uma profunda
+prostra&ccedil;&atilde;o de animo, que lhe quebr&aacute;ra
+as f&ocirc;r&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+Que era feito d'aquella energia, com que se revolt&aacute;ra contra
+as persegui&ccedil;&otilde;es da sorte, e que lhe
+anim&aacute;ra os primeiros passos para obter a
+justifica&ccedil;&atilde;o devida ao bom credito do nome que
+lhe haviam legado sem mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a
+luctar, vimol-o repellir nobremente as ironias de Henrique, vencel-o,
+obrigal-o a pedir-lhe perd&atilde;o; vimol-o recusar o auxilio que
+este j&aacute; lhe
+offerecia, e considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle
+proprio as provas da sua innocencia. <br />
+
+<br />
+
+Que &eacute; feito d'essa energia? <br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; feito d'ella? leitor, talvez o teu
+cora&ccedil;&atilde;o te possa responder por mim, se
+&eacute;s uma d'essas victimas, para quem a sorte parece
+personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios
+lentos. <br />
+
+<br />
+
+Quando, uns ap&oacute;s outros, se repetem os golpes da
+adversidade, quando todos os males parece cairem sobre uma existencia,
+como uma maldi&ccedil;&atilde;o de Deus, &eacute; raro
+encontrar-se t&ecirc;mpera de alma
+t&atilde;o rija que resista e n&atilde;o ceda, quasi
+convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta com um poder
+superior. <br />
+
+<br />
+
+A raz&atilde;o mais clara deixa-se tomar ent&atilde;o da
+cegueira do fatalismo, e eivado d'esta grave doen&ccedil;a
+dissipa-se a fortaleza do espirito, como se extinguem as
+f&ocirc;r&ccedil;as do corpo, quando gira no sangue um
+veneno enervador. <br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a
+que &eacute; t&atilde;o sujeita a natureza humana; sente-se uma
+especie de g&ocirc;so em succumbir sem lucta. Experimenta-se, por
+assim dizer, o orgulho da extrema infelicidade. <br />
+
+<br />
+
+Em poucos dias Augusto conheceu as maiores
+prova&ccedil;&otilde;es da vida: a miseria em perspectiva, a
+ingratid&atilde;o, o insulto que avilta, a calumnia que
+ennod&ocirc;a, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com
+dignidade o insulto e a calumnia: sorrira
+<span class="pagenum">[234]</span>
+&aacute; miseria e &aacute;
+ingratid&atilde;o, e dera
+&aacute; amizade as consola&ccedil;&otilde;es que a amizade
+lhe inspir&aacute;ra. <br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o desfallec&ecirc;ra com tudo isto. <br />
+
+<br />
+
+Maior prova&ccedil;&atilde;o lhe estava reservada, porque ha
+maiores prova&ccedil;&otilde;es para a alma humana, do que
+todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de subito a estrella que a
+guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia, dormindo no meio de uma
+desencantada realidade; privae-a da ideia querida, que havia muito
+conceb&ecirc;ra, que comsigo vivia, que para si guardava, ciosa dos
+olhares extranhos, e v&ecirc;l-a-heis desnorteada, perdida, louca,
+contorcer-se em desespero e succumbir. <br />
+
+<br />
+
+Se resiste e sobrevive, se n&atilde;o desfallece, nem vacilla,
+&eacute; porque &eacute; de essencia mais elevada do que a
+humana. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes aquella ideia era t&atilde;o irrealisavel,
+aquelle sonho t&atilde;o chimerico, que a pobre devia estar
+prevenida para o perder um dia, e julgou que o estava. <br />
+
+<br />
+
+Mas illudira-se. Se nos dermos de cora&ccedil;&atilde;o a uma
+chimera, se ella, nas f&oacute;rmas vagas e aereas que reveste, nos
+sorrir e namorar, em v&atilde;o julgamos t&ecirc;l-a por o que
+verdadeiramente &eacute;; ha sempre um ou outro momento em que a
+acreditamos realisavel e at&eacute; realisada. <br />
+
+<br />
+
+E, ao convencermo-nos dev&eacute;ras da sua impossibilidade,
+sentimos a dor profunda que nos causa a perda de um objecto querido. <br />
+
+<br />
+
+Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes
+vestiam a f&oacute;rma humana, assim o impossivel, quando nos
+apaixonamos d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a
+fei&ccedil;&atilde;o da
+realidade aos nossos olhos namorados. <br />
+
+<br />
+
+E ao revelar-se como impossivel, destr&oacute;e o
+cora&ccedil;&atilde;o que o abra&ccedil;a, como Jupiter
+sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua gloria
+de deus. <br />
+
+<br />
+
+Qual f&ocirc;sse a ideia constante, o pensamento recatado de
+Augusto, sabem-n'o os leitores: era o amor
+<span class="pagenum">[235]</span>
+de Magdalena. A natureza d'esta
+paix&atilde;o dizia elle conhecel-a. N&atilde;o tinha outra
+aspira&ccedil;&atilde;o
+al&eacute;m de existir, era como o culto pela Virgem do
+Christianismo, era que se adora por adorar, em que na mesma
+adora&ccedil;&atilde;o se acha o premio do culto, em que o
+deixar-se adorar &eacute; o mais que pode pedir-se ao objecto
+d'elle. <br />
+
+<br />
+
+De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique,
+sentiu quasi avers&atilde;o para elle? por que foi que, amavel e
+bondoso para com todos, s&oacute; para com um desconhecido se
+mostrou frio e irritante? por que foi emfim que, ao persuadir-se, por
+certos indicios, de que Magdalena e Henrique se amavam, caiu no
+desalento, em que tantas causas de infortunio o n&atilde;o tinham
+lan&ccedil;ado ainda? Porque a verdade era que foi este o golpe que
+o venceu. <br />
+
+<br />
+
+Por qu&ecirc;? porque amava Magdalena, porque este amor
+n&atilde;o tinha nada excepcional; era inconscientemente
+apprehensivo, ambicioso, devaneador e ciumento, como todos os amores
+verdadeiros; porque era aquelle o seu sonho mais querido, e desde que
+era obrigado a convencer-se de que n&atilde;o pass&aacute;ra de
+um sonho, n&atilde;o se sentia de animo para fitar a realidade;
+porque era aquella a luz da sua alma, e ao v&ecirc;l-a apagar,
+vacillou nas trevas e parou. Desde que n&atilde;o avistava um alvo,
+n&atilde;o havia para elle
+retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que n&atilde;o
+valia mais do que a
+quieta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Esta f&ocirc;ra a causa do desalento de Augusto, que s&oacute;
+ent&atilde;o conheceu que se illudira com o estado do
+seu cora&ccedil;&atilde;o, que o que em si se passava era o
+verdadeiro amor. <br />
+
+<br />
+
+Desde que teve de renunciar a elle, n&atilde;o fez mais um
+esfor&ccedil;o para justificar-se da calumnia que pesava sobre si.
+Sentia-se indifferente &aacute;
+condemna&ccedil;&atilde;o do mundo. J&aacute; nem lhe
+importava justificar-se para
+<span class="pagenum">[236]</span>
+com Magdalena; era quasi uma vingan&ccedil;a, que tirava d'aquella
+por quem soffria, obrigal-a a ser injusta. <br />
+
+<br />
+
+E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto! <br />
+
+<br />
+
+O herbanario f&ocirc;ra victima da mesma illus&atilde;o de
+Augusto, e concorr&ecirc;ra involuntariamente para o levar a este
+estado moral. <br />
+
+<br />
+
+Das explica&ccedil;&otilde;es dadas por Magdalena na casa dos
+Cannaviaes, sabemos como das meias palavras e meias
+revela&ccedil;&otilde;es de Torquato, o herbanario
+acredit&aacute;ra que a morgadinha combin&aacute;ra
+imprudentemente com Henrique uma visita nocturna &aacute; quinta
+dos Cannaviaes. O velho, que suspeit&aacute;ra sempre da natureza
+dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou v&ecirc;r
+n'aquillo a
+confirma&ccedil;&atilde;o das suas suspeitas, e encontrando
+Magdalena, reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a
+quiz. <br />
+
+<br />
+
+Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a d&uacute;vida,
+se deveria ou n&atilde;o revelar tudo a Augusto. <br />
+
+<br />
+
+A noite cerrou de todo e deslizou com a lentid&atilde;o de uma
+noite de inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia
+seguinte passou-o na mesma indecis&atilde;o. Mas a
+inquieta&ccedil;&atilde;o do
+herbanario crescia; desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha
+exposta Magdalena, cuja confian&ccedil;a em Henrique a podia
+perder. <br />
+
+<br />
+
+O herbanario continuava a desconfiar de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com
+uma das meninas de visitar &aacute; meia noite, por causa de
+Henrique, a casa dos Cannaviaes. O velho n&atilde;o p&ocirc;de
+mais tempo conter-se e disse a Augusto, depois de muito luctar comsigo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o devo calar-me. &Eacute; preciso coragem, meu
+filho. Arranca do cora&ccedil;&atilde;o a loucura que
+l&aacute; tens ainda, embora o deixes em sangue, ou
+est&aacute;s perdido.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[237]</span>
+Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto. <br />
+
+<br />
+
+O velho proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que
+vires te n&atilde;o curar, se
+&eacute; sem remedio esse mal, ao menos s&ecirc; generoso, e
+acode e salva, se f&ocirc;r possivel, quem, perdendo-te, se perde
+tambem. <br />
+
+<br />
+
+E ap&oacute;s estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto
+tremeu de investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma
+noite, recommendando-lhe que f&ocirc;sse preparado para receber uma
+grande dor. <br />
+
+<br />
+
+Augusto seguiu as indica&ccedil;&otilde;es do herbanario, e
+foi. <br />
+
+<br />
+
+Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da
+piedosa devo&ccedil;&atilde;o de Christina, a vimos chegar
+&aacute; janella dos Cannaviaes. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha reconhec&ecirc;ra Augusto atrav&eacute;s das
+sombras nocturnas, e tivera um presentimento do que significava a
+presen&ccedil;a d'elle n'aquelle logar e n'aquella
+occasi&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Por concentrada e discreta que f&ocirc;sse a paix&atilde;o de
+Augusto, n&atilde;o era um mysterio para Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+A extranhar alguem esta penetra&ccedil;&atilde;o de vista
+n&atilde;o ser&aacute; decerto nenhuma das minhas leitoras. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena adivinh&aacute;ra havia muito Augusto, e n&atilde;o
+lhe f&ocirc;ra difficil explicar at&eacute; a instinctiva
+hostilidade com que elle sempre acolh&ecirc;ra Henrique. <br />
+
+<br />
+
+Por isso, ao v&ecirc;l-o alli, previu que pesava s&ocirc;bre
+ella uma suspeita, que era victima de uma illus&atilde;o, e que as
+apparencias a podiam condemnar. <br />
+
+<br />
+
+De feito Augusto cheg&aacute;ra tarde aos Cannaviaes, porque
+s&oacute; tarde o herbanario venc&ecirc;ra a
+hesita&ccedil;&atilde;o que experiment&aacute;ra ao
+dizer-lhe que f&ocirc;sse. Por isso
+s&oacute; p&ocirc;de reconhecer a voz e a figura da morgadinha
+e de Henrique no curto dialogo, que entre os dois se
+troc&aacute;ra, quando vieram examinar &aacute; janella o
+estado da noite. <br />
+
+<br />
+
+As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas
+<span class="pagenum">[238]</span>
+de uma maneira cruel para o
+seu
+cora&ccedil;&atilde;o. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais
+querer v&ecirc;r nem ouvir, retirou-se como um louco. <br />
+
+<br />
+
+Foi n'essa occasi&atilde;o que Magdalena o viu. <br />
+
+<br />
+
+Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava,
+viu-o pallido, e com uma express&atilde;o singular no rosto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;interrogou-o anciosamente o velho. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tinha raz&atilde;o, tio Vicente. Tem sido uma longa e
+m&aacute; loucura a minha. Verei se me curo d'ella. <br />
+
+<br />
+
+E, sentando-se, encostou a cabe&ccedil;a &aacute;s
+m&atilde;os e permaneceu silencioso. <br />
+
+<br />
+
+O velho n&atilde;o lhe perguntou o que se tinha passado. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi em deante foi em rapido progresso a
+prostra&ccedil;&atilde;o de animo em Augusto. <br />
+
+<br />
+
+A doen&ccedil;a do herbanario que se exacerbou consideravelmente
+tambem, era o unico motivo de uma f&ocirc;r&ccedil;a ficticia
+que ainda o sustentava. Os seus
+desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes. <br />
+
+<br />
+
+A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a
+do cirurgi&atilde;o que tratava do herbanario. <br />
+
+<br />
+
+Falador por indole e por c&aacute;lculo profissional, o facultativo
+contava &aacute; cabeceira do leito as novidades do dia. Entre
+essas trouxe uma das que mais vogavam, que era a de que Henrique casava
+no Mosteiro com a morgadinha. <br />
+
+<br />
+
+Um equivoco dizer do Torquato, na presen&ccedil;a dos criados do
+mosteiro, uma das meias discre&ccedil;&otilde;es do velho, mais
+perigosas do que a propria
+indiscre&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ra esta
+vers&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario,
+que o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto
+impassivel. <br />
+
+<br />
+
+No dia das elei&ccedil;&otilde;es, o estado do velho Vicente
+era mais grave ainda. O cirurgi&atilde;o prolongou a sua visita e
+falou da campanha eleitoral. Assegurou que era certa a derrota do
+conselheiro, desde que contra elle se manifest&aacute;ra o sr.
+Jo&atilde;ozinho das Perdizes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+O herbanario escutou-o com admira&ccedil;&atilde;o e
+sobresalto. <br />
+
+<br />
+
+Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma
+predilec&ccedil;&atilde;o que a tudo
+sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o affecto que alguns
+paes sentem pelos filhos, de quem s&oacute; teem recebido
+desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais
+motivos ha para a esfriar. <br />
+
+<br />
+
+Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o que o herbanario, dominado por energia febril,
+quiz erguer-se do leito, e, apoiado no bra&ccedil;o de Augusto, que
+em v&atilde;o tentou dissuadil-o, se dirigiu &aacute; igreja
+para votar. O resultado sabem-n'o os leitores. <br />
+
+<br />
+
+Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar
+o alento a Augusto. Facil &eacute;, pois, de conceber qual o estado
+do seu espirito ao entrar no cemiterio. <br />
+
+<br />
+
+Ora&ccedil;&atilde;o ou medita&ccedil;&atilde;o, por
+muito tempo durou aquelle tributo de saudade, que o aspecto sombrio da
+tarde e a melancolia do logar e da hora mais solemne faziam. <br />
+
+<br />
+
+Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava
+d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do
+tumulo da filha. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era o Cancella j&aacute; o mesmo robusto e alegre
+alde&atilde;o que vimos, dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado
+rustico, representar com applauso o tyranno perseguidor do Messias.
+Desde a morte da filha parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido,
+nem tinha f&ocirc;r&ccedil;as para o trabalho, nem
+cora&ccedil;&atilde;o para alegrias. <br />
+
+<br />
+
+Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o
+que se movia alli. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! logo vi que era o sr. Augusto&#8213;disse o pobre homem, estendendo a
+m&atilde;o, que Augusto apertou com affecto.&#8213;S&oacute;
+n&oacute;s temos amigos aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[240]</span>
+&#8213;&Eacute; verdade, Cancella. Ou s&oacute; n&oacute;s,
+f&oacute;ra d'aqui, n&atilde;o temos outros, pelos quaes
+esque&ccedil;amos estes, que ahi dormem. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu decerto que n&atilde;o! Est&aacute;-me toda a alegria,
+est&aacute;-me todo o cora&ccedil;&atilde;o debaixo
+d'aquella pedra&#8213;disse o Herodes, apontando para o tumulo da
+filha.&#8213;Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha quem aos vinte j&aacute; n&atilde;o tenha coragem para
+principiar outra! <br />
+
+<br />
+
+O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fala de si, sr. Augusto?... N&atilde;o tem raz&atilde;o. Que
+s&atilde;o as suas dores ao lado da minha? Se ainda n&atilde;o
+experimentou o amor e as alegrias de pae, como ha de imaginar a dor,
+que a morte de uma filha unica nos traz ao
+cora&ccedil;&atilde;o?... A minha pobre
+Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o t&ecirc;l-a
+perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com
+raz&atilde;o, que era seu amigo e quasi um pae para si... mas
+n&atilde;o &eacute; sem remedio a sua saudade,
+ver&aacute;... A minha por&eacute;m... <br />
+
+<br />
+
+Augusto sorriu amargamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu sabes l&aacute;, homem, o que eu tenho no
+cora&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de
+acclama&ccedil;&otilde;es e applausos. Eram os clamores dos
+grupos populares, celebrando a victoria do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uns riem, emquanto outros choram&#8213;disse o Cancella.&#8213;Ha alegria
+acol&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha...&#8213;respondeu Augusto, pensativo.&#8213;Somos de mais n'esta terra, meu
+pobre Cancella; n&oacute;s, os infelizes. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso parto &aacute;manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[241]</span>
+&#8213;Partes? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu n&atilde;o posso viver aqui! Se tudo isto me
+est&aacute; falando na filha!... A cada passo estou &aacute;
+espera de v&ecirc;l-a... &Eacute; como se a todo o instante me
+morresse. Vou para a cidade; dizem que est&atilde;o engajando por
+l&aacute; trabalhadores para o Brazil... Quero v&ecirc;r se o
+trabalho me mata, antes que o desg&ocirc;sto me n&atilde;o
+tente a morrer de outra sorte. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E dizes que partes &aacute;manh&atilde;? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De madrugada. J&aacute; tenho tudo prompto. <br />
+
+<br />
+
+Augusto reflectiu por algum tempo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Far-te-hei companhia. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes olhou-o, admirado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Augusto?! Pois quer?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero que me batas &aacute; porta, quando passares. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que ten&ccedil;&otilde;es s&atilde;o as suas, sr.
+Augusto? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;As mesmas talvez que as tuas. N&atilde;o dizes,que queres
+v&ecirc;r se o trabalho te mata? Por que n&atilde;o hei de eu
+tentar o mesmo tambem? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... n&atilde;o lhe morreu uma filha. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E cuidas tu que s&oacute; um amor de filha nos pode prender
+&aacute; vida? que s&oacute; a morte de uma
+crean&ccedil;a nos pode ferir no cora&ccedil;&atilde;o?... <br />
+
+<br />
+
+O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois
+disse, com hesita&ccedil;&atilde;o ainda: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; por certo a morte d'este santo velho que
+o faz falar assim, sr. Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez
+que lhe fizesse bem. Bem v&ecirc; que eu sou infeliz e... havia de
+entendel-o... <br />
+
+<br />
+
+Augusto apertou-lhe a m&atilde;o, commovido. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre amigo! N&atilde;o, n&atilde;o me entenderias; porque
+n&atilde;o basta ser infeliz para me entender. &Eacute;
+necessario ter sido louco como eu fui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Louco?!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, louco, meu bom Cancella, louco. N&atilde;o te lembras
+d'aquelle desgra&ccedil;ado do P&eacute; do Monte, que se
+suppunha rei? Como ria n'aquelle tempo! Um
+<span class="pagenum">[242]</span>
+dia voltou-lhe o juizo, mas ficou
+t&atilde;o triste at&eacute;
+morrer, que parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe
+devesse os unicos instantes de felicidade que sentiu na vida. <br />
+
+<br />
+
+O Herodes j&aacute; n&atilde;o comprehendia Augusto, o que lhe
+fez cr&ecirc;r que o n&atilde;o entenderia se elle o
+tomasse por confidente. <br />
+
+<br />
+
+Augusto mudou de tom, dizendo-lhe: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Promettes passar por minha casa esta madrugada? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sempre quer?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o partir comtigo, partirei s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espero-te. Aonde vaes agora? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah!... vaes ao Mosteiro?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou despedir-me d'aquella santa familia, que t&atilde;o bem me
+tratou da filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se
+n&atilde;o consolou tambem da morte da minha pobre Linda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Angelo?... &Eacute; um nobre cora&ccedil;&atilde;o...
+Espera... N&atilde;o quero partir sem lhe dirigir
+algumas palavras... Devo-lh'as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a elle? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; elle m'as agradecer&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E Augusto approximou-se do tumulo da m&atilde;e de Magdalena, e
+&aacute; frouxa claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em
+um quarto de papel estas palavras: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Angelo.&#8213;Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que
+repousam sua m&atilde;e e Ermelinda, duas imagens que
+ser&atilde;o sempre para o seu cora&ccedil;&atilde;o
+rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ou&ccedil;a-me, que em
+nome d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre
+estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as sombras
+de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem custo.
+N&atilde;o o tornando talvez a v&ecirc;r, Angelo, tinha um
+dever
+<span class="pagenum">[243]</span>
+a cumprir para com a
+sua generosidade. H&atilde;o de ensinal-o a desprezar-me, Angelo. O
+seu nobre instincto de crean&ccedil;a recusar-se-ha a isso ao
+principio talvez: mas a raz&atilde;o do adolescente talvez venha a
+ser mais docil. N&atilde;o podendo justificar-me, deixe-me ao menos
+jurar-lhe que parto com a consciencia tranquilla. N&atilde;o
+&eacute; por mim que fa&ccedil;o
+este protesto, &eacute; para lhe evitar, se f&ocirc;r
+possivel, a
+d&uacute;vida no caracter dos homens. Para um
+cora&ccedil;&atilde;o, como eu lhe
+conhe&ccedil;o, deve ser um martyrio. Os mais que me condemnem; nem
+necessidade sinto j&aacute; de me justificar. Parto com um
+desalentado como eu. O que vou procurar n&atilde;o sei. Tudo
+acceito com
+indifferen&ccedil;a.&#8213;Seu amigo, <em>Augusto</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora
+a que deviam encontrar-se, separaram-se. <br />
+
+<br />
+
+O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que
+ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&ocirc;de, por&eacute;m, chegar t&atilde;o
+depressa ao Mosteiro como esperava; distrahiu-o no caminho o seu
+compadre Z&eacute; P'reira. <br />
+
+<br />
+
+A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso
+Z&eacute; P'reira, estava cada vez mais transtornada. <br />
+
+<br />
+
+A beatice azed&aacute;ra o animo da sr.<sup>a</sup>
+Catharina do Nascimento
+de S. Jo&atilde;o Baptista. <br />
+
+<br />
+
+A saida precipitada do missionario, que n&atilde;o se sentiu seguro
+na terra depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com
+quem elle imaginava a cada passo esbarrar, rode&aacute;ra aquelle
+santo var&atilde;o do prestigio dos martyres perseguidos; e as
+saudades por elle e devo&ccedil;&atilde;o pela sua memoria
+augmentaram consideravelmente na aldeia. <br />
+
+<br />
+
+Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia
+Z&eacute; P'reira, peor se tornou depois d'essa &eacute;poca.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+A mulher passava todo o tempo em devo&ccedil;&otilde;es na
+igreja. O marido, desconsolado, procurava lenitivo na taberna. <br />
+
+<br />
+
+Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado
+habitual, e j&aacute; menos inoffensiva e pacifica do que nos
+primeiros tempos. <br />
+
+<br />
+
+A miseria amea&ccedil;ava invadir aquelle lar, at&eacute; alli
+remediado. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto exacerb&aacute;ra a acrimonia das discuss&otilde;es
+conjugaes. <br />
+
+<br />
+
+Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e
+attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal. <br />
+
+<br />
+
+De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais
+amea&ccedil;adora. <br />
+
+<br />
+
+Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais al&eacute;m do que
+a sua timidez habitual o permittira
+at&eacute; alli, e a sr.<sup>a</sup> Catharina soube,
+pela primeira vez, que
+o osso de que ella era osso n&atilde;o tinha a brandura que lhe
+suspeitava. <br />
+
+<br />
+
+Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhan&ccedil;a.
+D'ahi por deante f&ocirc;ram frequentes iguaes espectaculos. <br />
+
+<br />
+
+Na noite em que o Herodes o encontrou, o Z&eacute; P'reira, em
+completa embriaguez, acab&aacute;ra de fazer sentir mais uma vez a
+sua mulher toda a f&ocirc;r&ccedil;a da auctoridade marital.
+Ella revoltou-se e abandonou os penates, jurando que nunca mais
+voltaria a elles. <br />
+
+<br />
+
+O pobre do homem andava agora perdido nas ruas &aacute; procura
+d'ella, arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia
+d&oacute;. O Cancella condoeu-se d'elle, e dando-lhe o
+bra&ccedil;o, para lhe firmar os passos cambaleantes, conduziu-o a
+casa, promettendo restituir-lhe a mulher fugida. <br />
+
+<br />
+
+E n'esta tarefa de reconcilia&ccedil;&atilde;o passou grande
+parte da noite, conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de
+que n&atilde;o seria muito duradoura a paz. <br />
+
+<br />
+
+E tinha raz&atilde;o o Cancella em pensar assim. Ao
+<span class="pagenum">[245]</span>
+lar domestico, onde uma vez se passa uma
+scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia. <br />
+
+<br />
+
+O pobre do Z&eacute; P'reira estava condemnado a levar assim o
+resto da sua vida de familia. <br />
+
+<br />
+
+Esta occorrencia demorou o Herodes, que s&oacute; tarde entrou no
+Mosteiro a despedir-se da familia que tanto lhe estim&aacute;ra a
+filha. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXXII </h4>
+
+<br />
+
+Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada
+&aacute; insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na
+aldeia, n&atilde;o porque os preparativos da jornada lhe impedissem
+o repouso, mas a lucta de tantos pensamentos e paix&otilde;es
+encontradas, decerto lhe disputaria o espirito. <br />
+
+<br />
+
+Partir &eacute; j&aacute; uma palavra, que quasi nunca se
+pronuncia com indifferen&ccedil;a; partir para n&atilde;o
+voltar
+&eacute; uma ideia afflictiva, que mais violenta
+commo&ccedil;&atilde;o desafia; partir sem
+esperan&ccedil;as no futuro... poucas torturas de alma se podem
+comparar a esta! <br />
+
+<br />
+
+Experimentava-a Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Era quasi uma resolu&ccedil;&atilde;o de suicida a sua. Nenhuma
+ambi&ccedil;&atilde;o tivera poder sobre elle para o arrancar
+d'alli; tivera-o o desespero. <br />
+
+<br />
+
+A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os
+olhos fitos na chamma da v&eacute;la, com a cabe&ccedil;a entre
+as m&atilde;os, sem
+saber em que pensava, sem consciencia de si. <br />
+
+<br />
+
+A noite estava socegada, e apenas o som mon&oacute;tono de uma
+fonte proxima interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas. <br />
+
+<br />
+
+Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se
+costuma ler em situa&ccedil;&otilde;es
+identicas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[246]</span>
+Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os
+seus movimentos uma indecis&atilde;o, uma falta de consciencia, que
+n&atilde;o deixava d&uacute;vidas sobre o estado do animo que
+os regia. <br />
+
+<br />
+
+Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as
+suas ac&ccedil;&otilde;es; e no meio do cumprimento de uma
+ten&ccedil;&atilde;o, perdia a
+consciencia d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria
+comsigo; mas c&ecirc;do afastava-o de si com enfado. <br />
+
+<br />
+
+Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de
+passados devaneios, effus&atilde;o de uma alma sensivel, fructos da
+juventude e da solid&atilde;o, a que a primeira
+inspir&aacute;ra o enthusiasmo, e a segunda a melancolia, tudo
+consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a chamma, desapparecerem
+as lettras, reduzir-se tudo a cinzas. <br />
+
+<br />
+
+Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em
+algumas de Magdalena. O sobresalto do seu
+cora&ccedil;&atilde;o, ao ler aquelle nome,
+era ent&atilde;o mais violento que nunca. <br />
+
+<br />
+
+N'estas pesquizas veio-lhe &aacute;s m&atilde;os um pequeno
+masso, que pertenc&ecirc;ra ao herbanario. <br />
+
+<br />
+
+Ia para as queimar tambem, quando a inscrip&ccedil;&atilde;o,
+que viu por f&oacute;ra da cinta que as enfeixava, o fez hesitar. <br />
+
+<br />
+
+Liam-se estas palavras:&#8213;<em>Cartas de
+Magdalena</em>. <br />
+
+<br />
+
+Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma
+tenta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que
+j&aacute; tinha renunciado; era entrar em communh&atilde;o de
+pensamentos com ella, e infeliz de quem n&atilde;o concebe a casta
+voluptuosidade d'este g&ocirc;so. <br />
+
+<br />
+
+Mas ao mesmo tempo hesitava. <br />
+
+<br />
+
+Pertencia-lhe tambem aquelle legado? N&atilde;o seria um abuso
+lel-as? Devia antes queimal-as, mas...
+<span class="pagenum">[247]</span>
+eram cartas de Magdalena. E depois, que
+mal poderia vir da indiscre&ccedil;&atilde;o? N&atilde;o
+tinha elle um
+cora&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o devia abrir-se mais a
+ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o quasi em um
+tumulo. <br />
+
+<br />
+
+E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente? <br />
+
+<br />
+
+De que se poderia tratar alli, a n&atilde;o ser de algum affectuoso
+cumprimento da morgadinha ao velho, que sempre trat&aacute;ra com
+intima familiaridade, ou algumas meigas reprehens&otilde;es por a
+sua porfiada ausencia do Mosteiro? <br />
+
+<br />
+
+Augusto recordava-se at&eacute; do velho lhe ter falado na indole
+d'estas cartas. <br />
+
+<br />
+
+Nas vesperas de renunciar para sempre &aacute; felicidade, devia-se
+perdoar a tenta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Abriu-as. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ia muito adeantado na leitura, quando j&aacute;
+todos os signaes de hesita&ccedil;&atilde;o cediam o logar aos
+da mais irreprimivel avidez. E terminada a primeira, abriu, leu ou
+devorou outra, e ap&oacute;s outra e outra, at&eacute; a
+ultima; da ultima voltava de novo &aacute;
+primeira, e cada vez mais profunda commo&ccedil;&atilde;o
+parecia
+dominal-o. <br />
+
+<br />
+
+Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de
+todas. <br />
+
+<br />
+
+Dizia uma: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu bom amigo.&#8213;Hontem, depois que nos
+separ&aacute;mos,
+recebi de Lisboa a encommenda que esperava. O
+Angelo n&atilde;o se esqueceu.
+Mando-lh'a, para que mais uma vez fa&ccedil;a de feiticeiro,
+<em>adivinhando</em> os gostos do seu amigo. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Afian&ccedil;o-lhe que vae acertar com os desejos
+d'elle. Ha tempos que o vejo, emquanto espera na sala por os pequenos,
+procurar de preferencia na estante os livros de historia franceza.
+Custa-me a perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a
+Revolu&ccedil;&atilde;o, mas emfim seja feita a sua vontade.
+Escuso
+<span class="pagenum"><a name="p248">[248]</a></span>
+de lhe
+recommendar discre&ccedil;&atilde;o. E, quando nos
+virmos, pe&ccedil;o-lhe que me n&atilde;o torne a falar nos
+la&ccedil;os em que diz que eu estou a prender o
+cora&ccedil;&atilde;o. Mette-me m&ecirc;do.&#8213;Sua amiga,
+<em>Lena</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu amigo.&#8213;Hontem <a href="#e12">separ&aacute;mo-nos</a>
+de t&atilde;o mau humor, que hoje
+acordei com remorsos, e n&atilde;o pude socegar emquanto lhe
+n&atilde;o escrevi para lhe pedir perd&atilde;o. Espero que
+perdoar&aacute; a este rebelde genio que tenho. <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas tambem para que me est&aacute; sempre a ralhar?
+N&atilde;o se assuste pelo meu cora&ccedil;&atilde;o; o
+maior perigo que o tio Vicente receia para elle, faz-me
+sorrir.&#8213;&Eacute; o de me apaixonar?&#8213;Ent&atilde;o que tinha?
+N&atilde;o sonhe com nuvens, e v&aacute; representando o seu
+papel de <em>adivinho</em>, que &eacute; uma
+generosa ac&ccedil;&atilde;o que pratica.&#8213;Sua arrependida
+inimiga,
+<em>Lena</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Meu bom tio.&#8213;Ahi v&atilde;o uns livros, de que eu
+n&atilde;o entendo nada. Augusto falou d'elles ao filho do
+administrador, que veio de Coimbra. Conheci n'elle desejos de
+possuil-os. Tomei nota. O Angelo remetteu-m'os hontem. Para Augusto
+n&atilde;o desconfiar, finja atrai&ccedil;oar um pouco o
+mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, j&aacute; nada
+digo.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A de mais recente data dizia apenas: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tio Vicente.&#8213;Pensei no que me disse do estado do
+cora&ccedil;&atilde;o do seu... do nosso amigo. Parece-me que
+exaggera. Mas, se f&ocirc;sse verdade, podia tranquillisar-se. Eu
+lhe afian&ccedil;o que d'ahi nunca para elle vir&aacute; a
+infelicidade. No entretanto,
+discre&ccedil;&atilde;o por ora.&#8213;Sua affei&ccedil;oada
+sobrinha,
+<em>Magdalena</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Por a amostra, que lhe damos, o leitor n&atilde;o deve
+<span class="pagenum">[249]</span>
+estranhar que estas cartas estivessem
+causando a Augusto o effeito que dissemos. <br />
+
+<br />
+
+Cada uma era uma revela&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha;
+d'ella lhe viera pois grande parte da instruc&ccedil;&atilde;o
+que recebera, alli, na
+solid&atilde;o d'aquella aldeia! <br />
+
+<br />
+
+O mysterio dos presentes do herbanario, a que t&atilde;o diversas
+explica&ccedil;&otilde;es dera,
+esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo;
+suspeit&aacute;ra, pelo menos, que era a elle que o herbanario se
+dirigia para escolher os livros. <br />
+
+<br />
+
+Nunca, por&eacute;m, se lembr&aacute;ra de Magdalena; agora,
+que sabia de que origem provinham, beijava-os, como sagradas reliquias,
+venerava-os com expans&otilde;es de verdadeira idolatria.
+J&aacute; n&atilde;o tinha
+cora&ccedil;&atilde;o para se separar d'elles. <br />
+
+<br />
+
+Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos
+cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella
+por Augusto, n&atilde;o havia para elle menor encanto. Pelo que
+tantas vezes lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza
+deviam ser as reflex&otilde;es a que Magdalena alludia. <br />
+
+<br />
+
+O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois
+cora&ccedil;&otilde;es, estudando-os a ambos, receiando por
+ambos, lidando por extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer
+e que amea&ccedil;ava degenerar em paix&atilde;o. Toda a sua
+interven&ccedil;&atilde;o consistia em fazer com que elles se
+n&atilde;o revelassem; era o meio isolador que impedia que se
+ateasse o incendio. Nas suas m&atilde;os paravam os dois fios da
+corrente, s&oacute; elle a interrompia. <br />
+
+<br />
+
+Esta situa&ccedil;&atilde;o do herbanario era para elle causa
+de grandes iuctas. <br />
+
+<br />
+
+Amando Augusto com sentimento paterno, tinha
+ambi&ccedil;&otilde;es por o amigo; e, &aacute;s vezes,
+movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella
+paix&atilde;o. Por outro lado, n&atilde;o estimava menos
+Magdalena, e prevendo
+<span class="pagenum">[250]</span>
+as
+resistencias e repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos
+a soffrer, hesitava e desejava poder abafar no
+cora&ccedil;&atilde;o dos dois os
+germens de pesares futuros. <br />
+
+<br />
+
+Tivemos occasi&atilde;o de o v&ecirc;r sob estas diversos
+impress&otilde;es. Umas vezes reprehendendo Augusto, outras quasi
+deixando-lhe entrever esperan&ccedil;as. A chegada de Henrique de
+Souzellas e os successos subsequentes despertaram no velho uma especie
+de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao
+cora&ccedil;&atilde;o, e t&atilde;o enlevado estava pelo
+perfume do affecto que rescendia de todas, que nem se lembrava
+j&aacute; da hora proxima da partida do motivo que a
+origin&aacute;ra. Motivo que era o desmentido da sua
+illus&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impress&atilde;o que
+produziu foi dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as
+lagrimas aos olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os
+bra&ccedil;os, e assim permaneceu por muito tempo. <br />
+
+<br />
+
+Depois levantou a cabe&ccedil;a n'um impeto de
+desespera&ccedil;&atilde;o, exclamando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que me haviam de vir &aacute; m&atilde;o estas cartas?
+Que espirito diabolico se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um
+anjo me acompanhava com a sua vista protectora s&oacute; quando
+elle me vae deixar para sempre! E dizia ella que me n&atilde;o
+podia vir o infortunio d'aqui!... N&atilde;o contava com as
+mudan&ccedil;as
+do proprio cora&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Na vidra&ccedil;a da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram
+algumas leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Cancella j&aacute;?... &Eacute; pois certo que vou partir? <br />
+
+<br />
+
+Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe
+<span class="pagenum">[251]</span>
+como os do condemnado ao caminhar
+para o supplicio. <br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;ra o momento de romper com todas as
+esperan&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou prompto&#8213;disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro,
+sem reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis
+que tinha dispersos na mesa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei que era mais c&ecirc;do&#8213;continuou elle.&#8213;Distrahi-me a
+ler umas cartas que estive a p&ocirc;r em ordem, e o tempo correu.
+Vamos l&aacute;, meu pobre amigo, deixemos esta terra para os
+venturosos. <br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia
+estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e
+Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico
+sorriso. <br />
+
+<br />
+
+Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito
+em Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda
+contempla&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena foi a primeira que falou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admira-se de nos v&ecirc;r aqui?&#8213;disse ella.&#8213;Que ha de mais
+natural? Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o
+mesmo pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe
+deviamos... visto que vae partir. <br />
+
+<br />
+
+E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de
+recrimina&ccedil;&atilde;o, que feriu
+Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; certo que quer partir?&#8213;perguntou Angelo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... parto...&#8213;respondeu Augusto, perturbado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas por qu&ecirc;? Que significa essa
+resolu&ccedil;&atilde;o? Lena contou-me ha pouco tudo. Eu nada
+sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame, e em nossa
+casa! Mas, j&aacute; resolvemos;
+&aacute;manh&atilde;, eu e Lena, havemos de falar, havemos de
+conseguir...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[252]</span>
+&#8213;N&atilde;o, Angelo. &Eacute; inutil. Deixe-me com
+o meu destino. &Eacute; a elle que eu obede&ccedil;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fala verdade,&#8213;acudiu a morgadinha&#8213;diga que obedece
+&aacute; sua phantasia, e commette uma ingratid&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; palavra &laquo;ingratid&atilde;o&raquo;,
+Augusto n&atilde;o p&ocirc;de reprimir um sorriso de amargura. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma ingratid&atilde;o, sim&#8213;repetiu Magdalena, respondendo com
+firmeza e serenidade &aacute;quelle sorriso.&#8213;Ha dias, depois de
+uma scena dolorosa para todos n&oacute;s, quando sa&iacute;a do
+Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel fatalidade, encontrou
+alguem no limiar da porta, que lhe pediu que n&atilde;o partisse
+sem se despedir... de quem atrav&eacute;s de tudo, o acreditaria
+innocente. E para esta pessoa n&atilde;o houve uma s&oacute;
+palavra na carta de despedida que mandou a meu irm&atilde;o! E
+escreveu-a sobre o tumulo de minha m&atilde;e! <br />
+
+<br />
+
+Estas palavras f&ocirc;ram ditas com t&atilde;o sentida
+commo&ccedil;&atilde;o, que Augusto esteve quasi a
+lan&ccedil;ar-se-lhe aos p&eacute;s, para pedir
+perd&atilde;o; reteve-se,
+por&eacute;m, e respondeu turbamente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, minha senhora, por essa occasi&atilde;o eu
+jurei tambem &aacute; pessoa de quem fala, e a
+quem serei sempre grato, que n&atilde;o procuraria tornar a
+v&ecirc;l-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de
+todos digno da sua generosa confian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi isso que jurou, ou antes que n&atilde;o procuraria ser
+visto?&#8213;perguntou Magdalena, sorrindo.&#8213;Veja qual d'esses juramentos
+ser&aacute; mais em harmonia com os seus actos. <br />
+
+<br />
+
+A lembran&ccedil;a da excurs&atilde;o nocturna aos Cannaviaes,
+para espiar Magdalena, tirou a Augusto o animo de responder. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena comprehendeu aquelle embara&ccedil;o, e n&atilde;o
+insistiu. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as
+provas da sua justifica&ccedil;&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora, parto, porque desisto
+<span class="pagenum">[253]</span>
+d'ella. Basta-me estar justificado para
+com a consciencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem direito para o fazer. Uma alma, que &eacute;
+nobre, deve homenagem a si propria. Resignar-se &aacute; suspeita,
+&eacute; como um suicidio moral. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente, minha senhora; e n&atilde;o concebe que
+haja casos em que o suicidio seja natural? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus, Augusto&#8213;exclamou Angelo&#8213;como eu o estranho! o que o levou
+a esse desespero? <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha sorria, ao responder ao irm&atilde;o: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma febre que passa, ver&aacute;s. Quer que lhe fale
+com franqueza, sr. Augusto? Tenho um secreto presentimento a
+dizer-me que, apesar d'essa descren&ccedil;a, apesar d'essa carta,
+e apesar de estar por minutos o momento da partida, n&atilde;o
+s&oacute;
+n&atilde;o partir&aacute;, mas at&eacute; ha de tomar parte
+na nossa
+primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina. <br />
+
+<br />
+
+Estas ultimas palavras fizeram impress&atilde;o em Augusto, que
+instinctivamente repetiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do proximo casamento de Christina?! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sabia que Christina vae casar?-perguntou
+Magdalena com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em
+Augusto.&#8213;&Eacute; verdade, o sr. Henrique de Souzellas teve pressa
+de legitimar o titulo de primos, com que arbitrariamente nos
+tratavamos. <br />
+
+<br />
+
+Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel express&atilde;o,
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qu&ecirc;?... pois &eacute; com Christina... pois Henrique
+vae casar com... <br />
+
+<br />
+
+S&oacute; depois de lhe romperem dos labios estas palavras,
+&eacute; que, reconhecendo a indiscre&ccedil;&atilde;o da
+sua surpresa, accrescentou com mal simulada indifferen&ccedil;a: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n&atilde;o sabia! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&eacute;ras? Pois n&atilde;o tinha ouvido falar d'este
+casamento? Oh... querem v&ecirc;r que suppunha tambem
+<span class="pagenum">[254]</span>
+que era eu a que me casava?... Digo
+isto, porque o Cancella tambem estava na mesma cren&ccedil;a.
+Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos!... E acham logo
+quem se fie n'elles! <br />
+
+<br />
+
+E, mudando de inflex&atilde;o, proseguiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos
+um por o outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio
+sobre aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso
+encontral-o doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de
+alguma maneira, aquella sympathia. F&ocirc;ram singulares as
+circumstancias em que isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e
+noite de chuva, na capella-m&oacute;r da minha propriedade dos
+Cannaviaes, onde Christina f&ocirc;ra rezar, pela saude de
+Henrique, as esta&ccedil;&otilde;es da meia noite; onde
+Henrique foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a
+Brizida, para os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro;
+interven&ccedil;&atilde;o algum tanto perigosa, porque podia
+haver quem me seguisse a mim com menos generosas
+inten&ccedil;&otilde;es de que as de qualquer dos tres, e que,
+ao v&ecirc;r-me em t&atilde;o extraordinario
+sitio, a taes horas, n&atilde;o me concedesse a
+confian&ccedil;a precisa para acreditar, atrav&eacute;s de
+tudo, na minha innocencia. <br />
+
+<br />
+
+A allus&atilde;o era clara, e mais clara a fazia a
+inflex&atilde;o com que foi pronunciada. <br />
+
+<br />
+
+Augusto curvou a cabe&ccedil;a e murmurou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, algum miseravel. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou algum infeliz&#8213;corrigiu delicadamente Magdalena.&#8213;Os infelizes
+s&atilde;o tambem sujeitos a perderem a f&eacute;. Mas quem
+lhes pode levar a mal isso? <br />
+
+<br />
+
+Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse
+mais jovialmente: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas afiancei ha pouco que n&atilde;o partiria. Acaso me enganei? <br />
+
+<br />
+
+Augusto, como o leitor concebe decerto, j&aacute; n&atilde;o
+tinha animo nem raz&atilde;o para dizer que partia. Calou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[255]</span>
+Angelo, a cuja prompta intelligencia n&atilde;o tinha ficado
+latente o verdadeiro sentido d'este dialogo, gra&ccedil;as tambem
+ao conhecimento que elle tinha, havia muito, do
+cora&ccedil;&atilde;o de sua irm&atilde; e
+do de Augusto, respondeu por elle: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te enganaste, n&atilde;o, Lena. Tambem eu
+j&aacute; digo que Augusto n&atilde;o partir&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+E Augusto sem protestar! <br />
+
+<br />
+
+Magdalena tornou-se de subito mais s&eacute;ria e grave do que
+at&eacute; alli, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de novo
+se dirigiu ao irm&atilde;o, dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para vir aqui, pedi o auxilio do teu bra&ccedil;o de creanca,
+Angelo, como se f&ocirc;ra o de um homem. Deixa-me considerar-te
+por mais algum tempo ainda da mesma maneira, emquanto n&atilde;o
+termino a minha miss&atilde;o. Ha pouco, depois que me leste a
+carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: &laquo;Que
+tencionas fazer?&raquo; N&atilde;o &eacute;
+assim? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te
+acompanhasse aqui. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Has de j&aacute; ter percebido que o pensamento que me obrigou a
+este passo, que n&atilde;o sei se me
+dever&atilde;o censurar, creio at&eacute; que devem, que esse
+pensamento n&atilde;o est&aacute; cumprido ainda. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo que n&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; deante de ti, Angelo, que considero como um homem,
+como um bom conselheiro, &eacute; deante de ti, como seria deante
+de quem quer que ahi estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou
+concluir o meu pensamento. <br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que
+s&oacute; um demasiado rubor trahiria, se a luz f&ocirc;sse
+bastante para o denunciar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto, est&aacute; pobre, sem familia, sem amigos, e, para
+ultima prova&ccedil;&atilde;o, at&eacute; as
+trai&ccedil;&otilde;es e as suspeitas lhe n&atilde;o
+pouparam o nome honrado que herdou. Essa posi&ccedil;&atilde;o
+d&aacute;-lhe direitos que eu
+sei comprehender, creia. &Eacute; uma especie de
+nobreza, de que se n&atilde;o pode exigir
+humilha&ccedil;&atilde;o alguma. Por isso, sem
+<span class="pagenum">[256]</span>
+hesitar, com toda a
+lealdade, vim aqui em companhia de Angelo para estender-lhe a
+m&atilde;o e dizer-lhe que se, como tenho raz&atilde;o para
+crer, as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se
+essas sympathias podem bastar &aacute;s
+aspira&ccedil;&otilde;es da sua, se, para ganhar coragem, os
+meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e
+dos meus affectos. &Eacute; deante de ti, que fa&ccedil;o esta
+confiss&atilde;o, Angelo.
+Ter&aacute;s que me ralhar por causa d'ella? <br />
+
+<br />
+
+Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a
+hesita&ccedil;&atilde;o, e tomando entre as suas a
+m&atilde;o que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos
+apaixonados. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena n&atilde;o teve pressa de retiral-a. <br />
+
+<br />
+
+Angelo veio tambem beijar as faces da irm&atilde;. Era assim que
+respondia &aacute; pergunta d'ella. <br />
+
+<br />
+
+Pobres crean&ccedil;as! Porque a final eram crean&ccedil;as
+todos tres, crean&ccedil;as a quem ainda os romances namoram, sem
+que se lembrem de que, ao transplantal-os para a vida real, todos os
+desconhecem e censuram, e s&oacute; regando-os de lagrimas
+&eacute; que as mais das vezes se consegue nutril-os. <br />
+
+<br />
+
+O olhar de Augusto radiava j&aacute; com o vivo fulgor da alegria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas.
+Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que
+tenho a cumprir. Hei de ter f&ocirc;r&ccedil;a para conquistar
+as
+provas da minha innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e
+depois... <br />
+
+<br />
+
+Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o
+rosto. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois sou eu quem tem o direito de exigir que n&atilde;o pare.
+Bem v&ecirc; que, depois do passo que dei, se algum escrupulo ou
+orgulho pesasse no seu cora&ccedil;&atilde;o, Augusto, seria
+uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a m&atilde;o, que eu
+com lealdade lhe
+<span class="pagenum">[257]</span>
+offereci; a
+lealdade obriga-o agora a seguir o caminho do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+Depois de alguns instantes de reflex&atilde;o, Augusto respondeu
+outra vez com firmeza: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu
+dever. <br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que o Herodes teve de partir s&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto
+t&atilde;o inesperada companhia, mas n&atilde;o lhe foi
+difficil, depois do que viu e ouviu, conjecturar
+qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de
+resolu&ccedil;&atilde;o o seu companheiro de
+jornada. <br />
+
+<br />
+
+Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos. <br />
+
+<br />
+
+Estes n&atilde;o conseguiram dissuadil-o de partir. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia j&aacute; estimulo para arrancar aquelle
+cora&ccedil;&atilde;o ao desalento. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de t&atilde;o
+violentas paix&otilde;es, que desisto de descrevel-as. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>XXXIII </h4>
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena,
+na qual incluimos j&aacute; D. Doroth&eacute;a e Henrique,
+reunida em uma das salas do Mosteiro. <br />
+
+<br />
+
+As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e
+Henrique jogavam o xadrez; D. Doroth&eacute;a e D. Victoria
+conversavam a respeito do pre&ccedil;o de umas meadas de linho, que
+esta tinha dado a c&oacute;rar, e da pessima qualidade do fiado,
+effeito evidente, segundo D. Victoria, das criadas que tinha, que nem
+para fiar serviam. O conselheiro
+<span class="pagenum">[258]</span>
+examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que
+recebera, j&aacute; a pedir empregos e gra&ccedil;as em paga
+dos servi&ccedil;os eleitoraes,
+&aacute;s vezes hypotheticos. <br />
+
+<br />
+
+A cada passo, por&eacute;m, Magdalena suspendia o trabalho, para
+olhar para a porta da sala, principalmente quando nos immediatos
+aposentos se escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que
+n&atilde;o com menor frequencia os desviava das pedras do taboleiro
+para encontrar os da irm&atilde;. <br />
+
+<br />
+
+Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina,
+e esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os
+olhos da costura. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria e D. Doroth&eacute;a n&atilde;o era raro
+metterem-se na conversa dos outros, d'onde facil
+transi&ccedil;&atilde;o achavam logo para voltarem aos seus
+assumptos favoritos: meadas e criados. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou
+fazia notar alguma mais exorbitante pretens&atilde;o de tantas que
+examinava. <br />
+
+<br />
+
+Era evidente que todas aquellas cabe&ccedil;as estavam pouco
+preoccupadas com os assumptos apparentes das suas
+cogita&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Lena!&#8213;dizia Christina, que pela terceira vez chamava a
+prima, sem conseguir ser ouvida&#8213;que tens tu esta manh&atilde;? Que
+distrac&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o essas, que n&atilde;o respondes quando te chamam? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois falaste-me? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo! &Oacute; menina, ha que seculos te
+estou eu a perguntar em que tempo &eacute; que as laranjeiras teem
+flor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Christe!&#8213;acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.&#8213;Esse
+pensamento &eacute; linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em
+que tens estado a scismar. <br />
+
+<br />
+
+Christina c&oacute;rou intensamente, ao perceber o sentido das
+palavras do conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span>
+&#8213;Ora, n&atilde;o era isso, tio. Eu perguntava, porque... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, quando o v&eacute;o estiver prompto, a laranjeira
+n&atilde;o nos faltar&aacute; com ramos e flores. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mano&#8213;disse D. Victoria&#8213;olhe que se n&atilde;o
+trata de v&ecirc;r o que &eacute; que
+est&aacute; dando nas laranjeiras, dentro em pouco n&atilde;o
+ha uma s&oacute; na quinta. Que tambem para serem comidas as
+laranjas pelos criados... Porque quasi que s&atilde;o s&oacute;
+para elles.
+N&atilde;o que n&atilde;o faz ideia!... <br />
+
+<br />
+
+E continuou com D. Doroth&eacute;a a narra&ccedil;&atilde;o
+dos abusos de que os criados eram culpados. <br />
+
+<br />
+
+D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta &eacute; galante!&#8213;disse elle, examinando uns papeis e
+rindo.&#8213;Ora ou&ccedil;a isto, Henrique. Aqui
+est&aacute; um homem que deseja que eu lhe empregue nada menos do
+que sete sobrinhos que tem. Sete! &Eacute; uma
+gera&ccedil;&atilde;o como a de Jacob; se
+estivessemos na c&ocirc;rte de Phara&oacute;!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio
+completo&#8213;disse Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! oh!&#8213;disse o conselheiro, passados alguns
+momentos.&#8213;C&aacute; est&aacute; o meu amigo Pertunhas,
+teimando com o logar de recebedor. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois o maroto ainda se atreve? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que despeza de estylo que faz! &Eacute; uma ode congratulatoria
+em prosa. <br />
+
+<br />
+
+N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos
+passou-se o tempo at&eacute; a chegada do correio, successo que
+marca &eacute;poca n'uma manh&atilde; passada na aldeia. <br />
+
+<br />
+
+N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os
+periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das
+elei&ccedil;&otilde;es dos differentes
+circulos do paiz. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro j&aacute; por tres vezes consult&aacute;ra o
+relogio, extranhando que o correio se demorasse.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[260]</span>
+Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos;
+Henrique deu subito desfecho ao j&ocirc;go com um lan&ccedil;o
+absurdo, e ambos se precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo
+veio encostar-se ao espaldar da cadeira de Henrique. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro principiou por ler uma carta. <br />
+
+<br />
+
+Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! oh!&#8213;disse o conselheiro, logo &aacute;s primeiras linhas que
+leu.&#8213;Temos crise ministerial. As elei&ccedil;&otilde;es
+f&ocirc;ram pouco favoraveis ao
+governo; perderam-se em quasi toda a parte! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo
+de fundo&#8213;disse Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem-me n'esta carta que j&aacute; se fala em que o ministerio
+vae pedir a sua demiss&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este artigo allude apenas a uma reconstruc&ccedil;&atilde;o
+do gabinete. <br />
+
+<br />
+
+-&laquo;O governo&#8213;proseguiu o conselheiro, lendo,&#8213;nem espera pela
+constitui&ccedil;&atilde;o da camara e
+c&aacute;e por estes dias, infallivelmente. Quando voss&ecirc;
+receber esta, j&aacute; talvez elle perten&ccedil;a aos livros
+findos.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para
+resolver sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na
+futura camara&raquo;&#8213;lia Henrique no periodico, que logo em
+seguida p&ocirc;z de lado, para consultar outro. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o imagina&#8213;continuava o conselheiro, lendo a
+carta&#8213;o movimento de ambi&ccedil;&otilde;es que vae
+j&aacute; por aqui&raquo;. Ora se n&atilde;o imagino! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um numero do <em>Suffragio
+Nacional</em>!&#8213;exclamou Henrique, abrindo segundo
+periodico.&#8213;Provavelmente &eacute; alguma amabilidade que lhe
+dirigem, sr. conselheiro; elles que lh'o mandam! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, decerto. Como da outra vez. Veja l&aacute;,&#8213;disse o
+conselheiro, sorrindo&#8213;aos moribundos tudo se perd&ocirc;a. <br />
+
+<br />
+
+Henrique correu a vista pela folha, para saber o
+<span class="pagenum">[261]</span>
+que motiv&aacute;ra a
+remessa d'ella para o Mosteiro, onde n&atilde;o costumava vir. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! temos correspondencia c&aacute; da terra!&#8213;exclamou por fim. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deve ser isso. J&aacute; tardava. &Eacute; communicado do
+Seabra. Leia, que s&atilde;o curiosos. O homem a apreciar as
+elei&ccedil;&otilde;es de domingo deve ser soberbo. Isso
+n&atilde;o se pode perder. Leia, leia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assigna-se <em>um eleitor indignado</em>. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justo. &Eacute; o estylo do homem. Vamos l&aacute; a
+v&ecirc;r isso. <br />
+
+<br />
+
+Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro. <br />
+
+<br />
+
+A pe&ccedil;a litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra
+contava ao mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu
+transcrevel-a aqui, se, pela sua extens&atilde;o, n&atilde;o
+tomasse demasiado
+espa&ccedil;o, e se, pela sua unidade e estreita
+liga&ccedil;&atilde;o logica,
+se n&atilde;o subtrahisse &aacute; menor tentativa de
+fragmenta&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Aquelle communicado era indivisivel. <br />
+
+<br />
+
+Apesar d'esta for&ccedil;ada omiss&atilde;o, espero que os
+leitores far&atilde;o a justi&ccedil;a de supp&ocirc;r o
+escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar com tanta
+proficiencia na taberna do Canada. <br />
+
+<br />
+
+O homem escrevia recheado de indigna&ccedil;&atilde;o pela
+serie de illegalidades, escandalos, subornos e press&otilde;es de
+todo o genero, de que, dizia elle, f&ocirc;ra theatro aquella
+pacifica aldeia do Minho. <br />
+
+<br />
+
+Em <em>linguagem ch&atilde; e rude</em>
+ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de todos uma <em>pestifera
+chaga do organismo social</em>. <em>Sophism&aacute;ra-se
+a urna e
+calc&aacute;ra-se aos p&eacute;s a Carta</em>.
+As phrases em italico s&atilde;o d'elle. Depois de um exordio por
+esta
+afina&ccedil;&atilde;o, em que fazia a conveniente
+raz&atilde;o de ordem, entrava o homem na materia. Era um
+mod&ecirc;lo de impertinente bisbilhotice o escripto; desfiava-se
+alli a vida de todos os eleitores com uma minuciosidade esmagadora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho
+de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse
+que havia de fazer, e n&atilde;o fez; e como aquelle nem disse nem
+fez; e como aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos
+mais maltratados era o sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes. Dizia o
+auctor da
+correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera
+press&atilde;o sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem
+de pessimos costumes e moral depravada; jogador, bulhento,
+beberr&atilde;o cheio de dividas, amigo de malfeitores, <em>et
+coetera</em>. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas. <br />
+
+<br />
+
+O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro n&atilde;o lhe perdo&aacute;ra a pressa com que
+este celebr&aacute;ra a victoria do conselheiro, &aacute;
+frente da philarmonica que regia. <br />
+
+<br />
+
+Por vingan&ccedil;a chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a
+raiva lhe suggeria, inclusiv&eacute; o de estafador de trompa, e
+fechava por estas memoraveis palavras: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Para levar &aacute; evidencia o caracter infame e
+intriguista d'este sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos
+dias antes, subtrahiu de uma pasta aquella celebre carta politica, que
+tanto deu que falar no paiz. E este homem exerce o cargo de
+administrador do correio. <em>Proh
+pudor!</em>&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu
+sensa&ccedil;&atilde;o no auditorio. <br />
+
+<br />
+
+Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as
+b&ocirc;cas uma exclama&ccedil;&atilde;o de
+surpresa ou de alegria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute;?... como &eacute;?...&#8213;perguntou o
+conselheiro.&#8213;Diz que...? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o mysterio que se explica&#8213;respondeu Henrique.&#8213;A
+trai&ccedil;&atilde;o encarrega-se de a si propria se
+desmascarar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[263]</span>
+&#8213;Ent&atilde;o foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta
+de uma pasta! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era a de Augusto. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como estava ella ahi? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso sei eu como foi,&#8213;disse D. Victoria&#8213;fui eu que,
+por engano, lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma
+para a leitura dos pequenos. <br />
+
+<br />
+
+Christina celebrou a descoberta, beijando com effus&atilde;o a
+morgadinha, e dizia: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venceste, Lena! agora est&aacute; bem provada a innocencia
+d'elle, at&eacute; para os que mais duvidavam! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem n&atilde;o duvidaria?&#8213;acudiu o conselheiro, como para se
+desculpar da desconfian&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem o conhecesse bem, meu pae&#8213;respondeu Magdalena, a quem a
+commo&ccedil;&atilde;o recebida dava
+anima&ccedil;&atilde;o ao olhar e ao semblante.&#8213;Eu e Angelo,
+por exemplo. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o eu?&#8213;accrescentou Christina.&#8213;Eu
+n&atilde;o entro na conta? <br />
+
+<br />
+
+Esta reclama&ccedil;&atilde;o valeu-lhe da parte da prima a
+paga do beijo que recebera. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhem o pobre rapaz!&#8213;dizia D. Victoria, sinceramente
+consternada.&#8213;E eu que o tratei t&atilde;o mal! Bem me
+dizia elle: &laquo;N&atilde;o tenha pressa de dizer
+nada a seus filhos, minha senhora, n&atilde;o lhes ensine a duvidar
+de um homem que elles se costumaram a amar e a respeitar.&raquo; E
+o caso &eacute; que eu, desde que lhe ouvi dizer aquillo, de um
+modo t&atilde;o s&eacute;rio e triste, fiquei resentida, e
+n&atilde;o disse
+nada &aacute;s crean&ccedil;as, que todos os dias me
+perguntavam ainda por elle. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...&#8213;dizia D. Doroth&eacute;a, deveras
+embara&ccedil;ada&#8213;eu n&atilde;o sei ainda bem do que se trata.
+Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o qu&ecirc;?... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; tia Doroth&eacute;a&#8213;atalhou &#8213;&Oacute; tia
+Doroth&eacute;a&#8213;atalhou Henrique&#8213;por quem
+&eacute;, n&atilde;o insista na pergunta. Depois que se sabe
+que uma suspeita &eacute; falsa, n&atilde;o ha nada que mais
+escalde
+<span class="pagenum">[264]</span>
+os labios do que
+obrigal-a de novo a passar por elles. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens raz&atilde;o, menino. E que precis&atilde;o tenho eu de
+saber uma coisa que n&atilde;o &eacute; verdadeira? Mas na
+verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique, est&aacute;-me a
+parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na consciencia. Ora
+anda l&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tia. Ha muito que lhe fa&ccedil;o
+justi&ccedil;a. Ao principio n&atilde;o digo que
+n&atilde;o. Mas durou pouco tempo
+e j&aacute; estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira
+com que me falou, convenceu-me sem provas: e at&eacute; se, em
+expia&ccedil;&atilde;o, me
+n&atilde;o puz em campo a auxilial-o a justificar-se, &eacute;
+porque elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu
+desastre... quero dizer&#8213;emendou, olhando para Christina&#8213;a felicidade
+que me procurou sob a f&oacute;rma de doen&ccedil;a... <br />
+
+<br />
+
+Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, que fic&aacute;ra pensativo depois das primeiras
+reflex&otilde;es que lhe ouvimos fazer, disse, suspirando: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei
+&aacute;quelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de
+fazer? As apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de
+politica, apprende-se tanto e t&atilde;o depressa a duvidar!
+&Eacute; sorte minha! Homens, a quem eu estimava
+dev&eacute;ras, f&ocirc;ram exactamente os que mais fiz
+padecer! Sen&atilde;o, vejam: o herbanario, meu companheiro de
+infancia, e que sempre me teve amizade, apesar das apparencias rudes de
+que a revestia, dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em
+que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte... E
+elle, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais
+me sair&aacute; da ideia aquella scena da igreja. Augusto, um rapaz
+que conheci pequeno, e j&aacute; ent&atilde;o de viva
+intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou para o
+perder, e n&atilde;o s&oacute; o privei do
+<span class="pagenum">[265]</span>
+modesto logar que elle exercia, mas
+at&eacute; levantei contra elle uma accusa&ccedil;&atilde;o
+infamante, e quasi o
+expulsei de minha casa... &Eacute; triste que a vida politica me
+tenha obrigado a estas crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte
+o mal que fiz. De que maneira lhes parece melhor? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu se f&ocirc;sse&#8213;disse D. Doroth&eacute;a&#8213;fazia como a
+morgada, e o rapaz, em vez de vir a ser s&oacute; padre havia de se
+formar em Coimbra, como o reitor de Friande... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso era se elle quizesse ser padre;&#8213;acudiu D. Victoria&#8213;mas
+parece-me que n&atilde;o quer. Nada, nada, eu o que fazia era
+demittir aquelle velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre
+de latim, e arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda,
+j&aacute; que o outro foi tratante!... <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e n&atilde;o
+p&ocirc;de deixar de dizer: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso deixava s&oacute; ao Pertunhas a regencia da
+philarmonica? E tu, Lena, qual &eacute; a tua
+opini&atilde;o? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu sem vacillar: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha opini&atilde;o &eacute; que o pae deve ir a casa de
+Augusto, pedir-lhe humildemente perd&atilde;o pela offensa que lhe
+fez. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas involuntaria&#8213;ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que
+n&atilde;o p&ocirc;de bem
+disfar&ccedil;ar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas offensa&#8213;repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse
+totalmente a f&ocirc;r&ccedil;a da
+express&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um pouco dura de cumprir a senten&ccedil;a,
+sobretudo esse adverbio humildemente... N&atilde;o lhe
+parece?&#8213;perguntou o conselheiro, voltando-se para Henrique. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tinha vontade de dizer tambem a minha
+opini&atilde;o&#8213;respondeu Henrique;&#8213;mas receio certos melindres...
+Comtudo, parece-me que encontraria uma recompensa, que poderia fazer
+esquecer a Augusto a offensa e dores muito mais pungentes do
+<span class="pagenum">[266]</span>
+que as que soffreu em virtude d'esta
+desagradavel occorrencia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?&#8213;perguntou o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Henrique olhou para Magdalena, respondendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repito que tenho escrupulos em diz&ecirc;l-o, porque talvez
+n&atilde;o seja eu o mais competente para o fazer. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o, primo&#8213;disse Magdalena.&#8213;Elle proprio o
+dir&aacute;. &Eacute; mais natural. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas s&aacute;bel-o tambem tu, Lena? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir
+desejos. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena hesitou. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, Henrique&#8213;disse Cristina, sorrindo&#8213;n&atilde;o esteja com
+tantos escrupulos. Diga o que pensa. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quer? mas se sua prima me n&atilde;o perd&ocirc;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu o protegerei. Fale. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, Christe?&#8213;tornou Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fale, fale&#8213;disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D.
+Doroth&eacute;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falarei. A recompensa a que Augusto aspira &eacute; a de fazer
+parte da familia de... da nossa
+familia&#8213;respondeu Henrique, olhando para Magdalena, que j&aacute;
+n&atilde;o tentava ret&ecirc;l-o. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;De fazer parte da nossa familia?&#8213;repetiu o conselheiro.&#8213;Mas como? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como ha de ser? visto eu n&atilde;o estar resolvido a
+prescindir de Christina, e Marianna ser ainda crean&ccedil;a, facil
+&eacute; de conjecturar o unico meio que ainda resta de realisar
+aquella pretens&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir,
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabe&ccedil;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que &eacute; a final? eu n&atilde;o entendo&#8213;dizia,
+embara&ccedil;ada, D. Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[267]</span>
+&#8213;&Eacute; uma coisa muito simples&#8213;respondeu Henrique.&#8213;Augusto
+sentiu o effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a
+ponto de ligar a elles a sua felicidade, e de cair em
+adora&ccedil;&atilde;o para com a magnetisadora. <br />
+
+<br />
+
+Esta explica&ccedil;&atilde;o foi recebida com espanto por D.
+Victoria. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora! est&aacute; a brincar, primo Henrique? N&atilde;o ouve
+aquillo, prima Doroth&eacute;a? <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que &eacute;, que &eacute;?&#8213;perguntou esta. <br />
+
+<br />
+
+-Diz que o Augusto aspirava... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, eu disse que o Augusto adorava e n&atilde;o
+aspirava. Quem pode tomar contas a um cora&ccedil;&atilde;o do
+culto que elle guarda religiosamente em si? A prima Lena &eacute;
+adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, por&eacute;m... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; possivel!&#8213;exclamou tambem D. Doroth&eacute;a,
+espantada.&#8213;Por essa n&atilde;o esperava eu. Olhem para o que lhe
+havia de dar! Pobre Augusto! <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro ria ainda da noticia que recebera. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena c&oacute;rou ao ouvir todas aquellas
+exclama&ccedil;&otilde;es de estranheza. Cedendo ao impulso
+energico do seu caracter impetuoso e apaixonado, disse com vivacidade: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei que haja no que diz o primo Henrique nada que
+mere&ccedil;a esses espantos. Pois quem sou eu a final? Que
+distancia me separa da humanidade, para que se tenha por um desacato
+uma affei&ccedil;&atilde;o que inspire? &Eacute; verdade.
+Julgo que n&atilde;o se enganou o primo Henrique. Tambem
+eu descobri esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no
+cora&ccedil;&atilde;o e
+n&atilde;o na cabe&ccedil;a, meu pae. Ha muito que o sei, e
+nunca a descoberta me causou o espanto que vejo nos outros. Digo mais,
+causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque &eacute; natural sentil-o
+por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter generoso
+que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais nobre e
+mais puro do que d'antes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[268]</span>
+O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom
+profundamente irritado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. V&ecirc;
+l&aacute; se me queres fazer acreditar que a vida da aldeia te
+estragou o natural bom senso, at&eacute; o ponto de tomares a
+s&eacute;rio phantasias e
+creancices. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; phantasia nem creancice, &eacute; uma
+resolu&ccedil;&atilde;o de mulher&#8213;respondeu Magdalena, com
+firmeza. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma resolu&ccedil;&atilde;o de crean&ccedil;a, que
+est&aacute; na minha m&atilde;o remediar&#8213;tornou o conselheiro,
+como quem desejava cortar o incidente. <br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m para o g&eacute;nio de Magdalena j&aacute;
+n&atilde;o era possivel recuar nem parar; replicou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez n&atilde;o. E deixe-me ent&atilde;o dizer-lhe tudo,
+meu pae. Augusto nunca me revelou esse segredo do seu
+cora&ccedil;&atilde;o. Adivinhei-lh'o eu. Longe de
+procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem
+estava resolvido a deixar a aldeia para sempre. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ficou&#8213;notou o conselheiro com ironia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficou&#8213;respondeu tranquillamente Magdalena&#8213;porque eu lhe pedi que
+ficasse. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a
+filha com olhar severo e interrogador. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um
+esf&ocirc;r&ccedil;o interior: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava
+a affei&ccedil;&atilde;o desinteressada e pura que elle
+guardava no cora&ccedil;&atilde;o; ficou, porque eu, que
+s&oacute; tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e que o
+sabia t&atilde;o leal como pobre, t&atilde;o innocente como
+perseguido pelo infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa,
+sob o p&ecirc;so de uma accusa&ccedil;&atilde;o em cuja
+verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir eu propria
+procural-o para lhe estender a m&atilde;o e dizer-lhe:
+&laquo;fique,
+<span class="pagenum">[269]</span>
+e
+prometto-lhe que todos lhe far&atilde;o justi&ccedil;a em
+breve.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e
+exalta&ccedil;&atilde;o crescentes, ninguem ousou falar na
+sala; e os olhos de todos dirigiram-se quasi instinctivamente para o
+conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo
+sentiram-se profundamente inquietos. <br />
+
+<br />
+
+Todos viram passar por differentes c&ocirc;res as faces do
+conselheiro, os labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz
+evidentemente alterada pela c&oacute;lera, disse para a filha,
+passados alguns instantes: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga
+estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem
+naturalissimos &aacute; sua raz&atilde;o estragada pelos
+romances. Eu ainda n&atilde;o prescindi da minha auctoridade
+paterna, e ella me servir&aacute; para corrigir essas levezas, de
+que deveria envergonhar-se. <br />
+
+<br />
+
+Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da
+posi&ccedil;&atilde;o de todos os que estavam
+presentes. Ninguem ousava intervir, ou, desejando-o, ninguem sabia a
+maneira de o fazer. <br />
+
+<br />
+
+Entre as falsas situa&ccedil;&otilde;es, em que nos achamos
+&aacute;s vezes n'esta vida, poucas se podem comparar no
+inc&oacute;mmodo que produzem, &aacute; de assistir a uma
+quest&atilde;o domestica, por qualquer motivo que seja originada. <br />
+
+<br />
+
+Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que
+prendeu Lena nos bra&ccedil;os, n&atilde;o
+sei se para instinctivamente a defender, se para reprimir-lhe o impeto
+de reac&ccedil;&atilde;o que receiava n'ella. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu
+ao pae: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes aos caracteres levianos est&atilde;o
+confiadas tarefas generosas. Cabe-lhes sanar muitas
+injusti&ccedil;as que por c&aacute;lculo os mais reflectidos, e
+por
+<span class="pagenum">[270]</span>
+isso mais desconfiados,
+praticam sem piedade. N&atilde;o me envergonho nem arrependo do
+passo que dei. N&atilde;o fiz mais do que salvar do
+desesp&ecirc;ro uma alma nobre e magnanima, que, se se perdesse,
+talvez um dia a sua consciencia, senhor, o accusasse de n&atilde;o
+ser innocente n'essa perda. Quiz evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto
+foi leviandade, que os annos m'a n&atilde;o dissipem, como dizem
+que costumam fazer, porque prefiro ser leviana assim, a ser cruel
+como... <br />
+
+<br />
+
+O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas ter&aacute;
+de escolher entre os seus caprichos e a minha
+approva&ccedil;&atilde;o. Fique certa que, com o
+consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem
+posi&ccedil;&atilde;o, especular&aacute; com o
+estouvamento de uma herdeira rica, que, t&atilde;o esquecida do que
+deve a si e aos seus, n&atilde;o hesitou em o procurar na propria
+casa, sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada
+&aacute; sua credula sensibilidade. <br />
+
+<br />
+
+Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na
+sala. <br />
+
+<br />
+
+Era Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Da sala proxima, onde cheg&aacute;ra muito antes, ouvira elle o que
+o conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu
+venceu-lhe toda a hesita&ccedil;&atilde;o e obrigou-o a entrar.
+<br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou. <br />
+
+<br />
+
+Augusto, respondeu-lhe ent&atilde;o com dignidade e tristeza: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse rapaz pobre, sem posi&ccedil;&atilde;o e sem familia,
+tem n'esse triplice infortunio outros tantos titulos para ser
+respeitado dos felizes, como v. ex.<sup>a</sup>, e eu
+n&atilde;o prescindo
+d'esses direitos. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse
+responder a Augusto. A irrita&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[271]</span>
+dictava-lhe uma violenta resposta, mas
+j&aacute; lh'o n&atilde;o permittia a consciencia. <br />
+
+<br />
+
+Augusto continuou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei que v. ex.<sup>a</sup> est&aacute; j&aacute;
+convencido de que as
+suspeitas, que pesavam sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que
+ainda tem na m&atilde;o, veem as provas da minha innocencia. Vi-o
+em casa do Seabra, d'onde venho agora. Procurei-o, decidido a saber
+toda a verdade por qualquer pre&ccedil;o que f&ocirc;sse; elle
+n&atilde;o m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, sr.
+conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo, antes
+que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a receber-me
+a justi&ccedil;a e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o
+insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu
+encontrei! <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos justificado?&#8213;repetiu o conselheiro, azedadamente. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.<sup>a</sup>
+podia julgar-me
+criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas
+n&atilde;o tem o de duvidar de sua filha; porque a sr.<sup>a</sup>
+D.
+Magdalena pedindo a seu irm&atilde;o que a acompanhasse a casa de
+um pobre, que ella sabia ser victima de uma immerecida
+accusa&ccedil;&atilde;o, e a quem o desalento e o
+desesp&ecirc;ro faziam succumbir, n&atilde;o se esqueceu do que
+devia a si e aos seus; pelo contrario, aos seus devia aquelle acto de
+sublime generosidade, porque das m&atilde;os dos seus viera o golpe
+que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr. conselheiro, como
+um miseravel e infame; os filhos de v. ex.<sup>a</sup>, que
+sempre
+f&ocirc;ram meus amigos, a quem v. ex.<sup>a</sup>
+ensin&aacute;ra
+a sel-o, vieram &aacute; minha dizer-me: &laquo;N&atilde;o
+parta, deve &aacute; nossa confian&ccedil;a a
+justi&ccedil;a de ficar&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse Angelo&#8213;eu acompanhei Magdalena. O pae
+diz-me muitas vezes que n&atilde;o tenha pressa de principiar a
+duvidar; eu n&atilde;o podia principiar por Augusto. N&atilde;o
+duvidei. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro respondeu a Augusto com reserva
+<span class="pagenum">[272]</span>
+e mal disfar&ccedil;ado despeito,
+ainda que em tom moderado: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do
+cora&ccedil;&atilde;o, creia. Ainda que as apparencias o
+culpassem, arrependo-me de n&atilde;o ter tido mais
+f&ocirc;r&ccedil;a
+a minha confian&ccedil;a para n&atilde;o ceder.
+Pe&ccedil;o-lhe por isso... humildemente... perd&atilde;o. Iria
+a sua casa pedir-lh'o se n&atilde;o viesse aqui. Que mais quer?
+Acha-se com direitos a exigir mais? Ser&aacute; isso motivo para
+antev&ecirc;r realisadas loucuras de rapaz?... <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o o deixou continuar. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;a-me, sr. conselheiro&#8213;disse elle placidamente&#8213;deante
+de todas as pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar,
+patentearei o meu cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade
+que essas loucuras
+se apoderaram de mim, que desde crean&ccedil;a at&eacute; hoje,
+tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros, se eu commigo as
+guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha vida?
+Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz sempre
+por suffocar. Nem ambi&ccedil;&otilde;es me despertou, como
+meio de realisal-o, porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a
+morrer com elle, sem o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o
+fizera nascer, e, deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e
+correspondido, que muito era que me tomasse a vertigem, e que eu por
+momentos me deixasse cegar pelo fulgor de imprevistas
+esperan&ccedil;as?
+Perd&ocirc;e-se-me a fraqueza. As illus&otilde;es duraram
+pouco; as palavras de v. ex.<sup>a</sup> dissiparam-n'as...
+um tanto cruelmente,
+mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, que o ser pobre,
+sem familia e sem nome, imp&otilde;e tambem uma certa ordem de
+deveres, a que eu serei fiel. N&atilde;o &eacute; o de
+humilhar-me,
+&eacute; o de manter a unica dignidade que me resta, a dignidade
+moral. J&aacute; v&ecirc; v. ex.<sup>a</sup> que se
+enganou de duas
+maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve
+especula&ccedil;&atilde;o, nem da parte da herdeira rica
+estouvamento. <br />
+
+<br />
+
+E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se
+<span class="pagenum">[273]</span>
+respeitosamente deante do
+conselheiro, e ia a sair, depois de lan&ccedil;ar a Magdalena um
+extremo olhar de despedida. <br />
+
+<br />
+
+A morgadinha, por&eacute;m, ergueu-se, e, apesar dos
+esfor&ccedil;os de Christina para a reter, veio collocar-se no
+caminho de Augusto, e estendendo-lhe a m&atilde;o disse: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe pe&ccedil;o
+que n&atilde;o saia. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magdalena!&#8213;disse o conselheiro com severidade. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de
+remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do
+cora&ccedil;&atilde;o,
+que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente depois. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Magdalena!&#8213;repetiu o conselheiro com mais
+f&ocirc;r&ccedil;a. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora! disse Augusto. <br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m a morgadinha obedecia agora inteiramente &aacute;
+vehemencia do caracter apaixonado. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu
+cora&ccedil;&atilde;o; todos me ouviram; todos ouviram agora
+Augusto. Fale, senhor, com a mesma franqueza e lealdade, com que
+n&oacute;s o fazemos; poder&aacute; confessar a natureza dos
+escrupulos que o obrigam a essa resistencia? N&atilde;o se
+envergonharia d'elles? E quer que lhe obede&ccedil;a! mas
+obedecer-lhe seria offendel-o, porque seria acreditar na constancia
+d'essa m&aacute; paix&atilde;o que o domina, e no seu bom
+cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ella durar muito
+tempo. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, no auge da irrita&ccedil;&atilde;o, ia talvez a
+responder violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de
+Magdalena; as outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as
+primeiras tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de
+interven&ccedil;&atilde;o, que elle suppunha
+j&aacute; indispensavel, quando um incidente veio interromper esta
+scena e modificar a fei&ccedil;&atilde;o critica do caso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[274]</span>
+O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao
+servi&ccedil;o de um proprietario da villa proxima. Este criado era
+portador de uma mensagem para o conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio
+dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar
+&aacute;
+presen&ccedil;a do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a
+carregar-se. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.
+<br />
+
+<br />
+
+O criado respondeu: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho para entregar a v. ex.<sup>a</sup> esta parte
+telegraphica, que chegou a
+meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira
+que n&atilde;o p&ocirc;de mandal-a com ellas. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu,
+e correu-o com a vista. <br />
+
+<br />
+
+Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos. <br />
+
+<br />
+
+Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim. <br />
+
+<br />
+
+O criado saiu. <br />
+
+<br />
+
+N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e
+combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique
+desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que
+uma visivel satisfa&ccedil;&atilde;o se lhe
+desenh&aacute;ra no semblante. <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leia e admire&#8213;disse elle. <br />
+
+<br />
+
+Henrique leu, e n&atilde;o reteve uma
+exclama&ccedil;&atilde;o de surpresa. <br />
+
+<br />
+
+A parte dizia: <br />
+
+<br />
+
+&laquo;Avise o conselheiro Manuel Bernardo para
+<span class="pagenum">[275]</span>
+quanto antes se apresentar em Lisboa.
+Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle acceite uma
+das pastas.&raquo; <br />
+
+<br />
+
+Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a
+surpresa da noticia n&atilde;o fez esquecer a crise domestica a que
+assistira, disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os
+emboras pela sua
+nomea&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+A palavra &laquo;ministro&raquo; produziu
+sensa&ccedil;&atilde;o na sala. D. Victoria exclamou: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ministro! Pois quem &eacute; que est&aacute; ministro? O
+mano?... Ora, sim senhor! acertou sua magestade!... <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... valha-nos Deus! O ponto est&aacute; que n&atilde;o
+fa&ccedil;am por ahi alguma revolu&ccedil;&atilde;o para o
+deitar abaixo&#8213;acudiu D. Doroth&eacute;a, em cujo animo os factos
+das nossas dissen&ccedil;&otilde;es civis tinham deixado
+sinistras ideias ligadas &aacute; palavra ministro. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena, Angelo e Christina correram a abra&ccedil;ar o
+conselheiro; Henrique reteve, por&eacute;m, os dois ultimos
+dizendo: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma merc&ecirc; a s.
+ex.<sup>a</sup>, e &aacute; primeira n&atilde;o ha
+caracter de ministro que n&atilde;o ceda. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro sorriu j&aacute;. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena beijou-lhe a m&atilde;o, e o pranto, provocado pela
+violencia das scenas anteriores, e at&eacute; alli a custo
+reprimido, rebentou agora abundante, banhando as m&atilde;os do
+pae. <br />
+
+<br />
+
+Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o n&atilde;o
+deixar sair da sala. <br />
+
+<br />
+
+O cora&ccedil;&atilde;o do conselheiro n&atilde;o era de
+pedra. Duas causas poderosissimas conspiravam-se para abrandal-o. Como
+homem politico, havia a satisfa&ccedil;&atilde;o da maxima
+ambi&ccedil;&atilde;o de todos, a noticia de ser chamado
+<span class="pagenum">[276]</span>
+ao ministerio. Nos
+momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso
+cora&ccedil;&atilde;o, abrimo-nos &aacute;s sympathias para
+com os desejos dos outros; se de n&oacute;s depende realisal-os,
+cedemos de boa vontade. Como pae, havia as lagrimas da filha a
+convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das lagrimas em olhos de
+mulher, &eacute; geralmente sabida: quanto mais se a mulher
+&eacute; joven e bella! quanto mais se a mulher &eacute; filha!
+<br />
+
+<br />
+
+Sem o menor vestigio da irrita&ccedil;&atilde;o anterior, o
+conselheiro ergueu Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que choras tu, Lena? Crean&ccedil;a! Ent&atilde;o
+promettes-me ser muito feliz, se eu te deixar fazer as tuas loucuras? <br />
+
+<br />
+
+Magdalena respondeu-lhe, abra&ccedil;ando-o affectuosamente, e
+beijando-o. <br />
+
+<br />
+
+Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa
+contra as severidades de um pae? <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e
+voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi
+affectuoso: <br />
+
+<br />
+
+&#8213;Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a
+felicidade da minha Lena. Vingue-se da injusti&ccedil;a e do mal
+que lhe fiz, tornando-m'a venturosa. &Eacute; a unica
+vingan&ccedil;a &aacute; altura
+da sua alma. <br />
+
+<br />
+
+Augusto n&atilde;o teve tempo para responder. Se uns restos de
+orgulho tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os
+esfor&ccedil;os combinados de Christina, de D. Victoria e de D.
+Doroth&eacute;a, que o arrastaram quasi para junto do conselheiro. <br />
+
+<br />
+
+E toda aquella familia, em que n&atilde;o havia n'aquelle momento
+um s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o triste,
+confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e pathetico
+grupo, que pode desenhar um artista. <br />
+
+<br />
+
+Para mais tocante confus&atilde;o ainda, as crean&ccedil;as,
+que voltavam dos seus brinquedos na quinta, entraram
+<span class="pagenum">[277]</span>
+ent&atilde;o na sala, e de boa
+vontade se associaram &aacute;quella
+manifesta&ccedil;&atilde;o de alegria, sem
+querer saber o que a motiv&aacute;ra, <br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o assim as crean&ccedil;as. Alegres por instincto,
+saudam as scenas alegres sempre que as v&ecirc;em, sentem-as antes
+de as explicarem. <br />
+
+<br />
+
+F&ocirc;ram innumeraveis os beijos, os abra&ccedil;os, as
+palavras de affecto, os sorrisos, as lagrimas, as
+exclama&ccedil;&otilde;es pueris que se trocaram entre os
+diversos actores d'esta scena de familia. <br />
+
+<br />
+
+Chegado a este ponto da minha narra&ccedil;&atilde;o, nada
+melhor posso fazer do que deixar &aacute;
+imagina&ccedil;&atilde;o dos leitores concluil-a. <br />
+
+<br />
+
+Haver&aacute; algum t&atilde;o malfadado, que na sua vida
+n&atilde;o tenha visto representada uma scena assim? <br />
+
+<br />
+
+Esse mesmo, se existe, obriga-me a n&atilde;o proseguir. <br />
+
+<br />
+
+O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de
+que por certo &eacute; victima. <br />
+
+<br />
+
+Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de
+beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a
+narra&ccedil;&atilde;o, v&ecirc;l-o-hiamos abafado pelos
+sons revolucionados e anarchicos da philarmonica da terra, que
+n&atilde;o
+tardar&aacute; a festejar a nomea&ccedil;&atilde;o do
+conselheiro, e sobretudo
+pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba verdadeiramente
+&eacute;pica, e capaz de mudar a c&ocirc;r ao gesto, como a de
+que fala o poeta. <br />
+
+<br />
+
+Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos
+acontecimentos ulteriores. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>CONCLUS&Atilde;O </h4>
+
+<br />
+
+O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na
+pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para
+satisfa&ccedil;&atilde;o de animo dos
+<span class="pagenum">[278]</span>
+meus leitores, que, sob a
+direc&ccedil;&atilde;o dos talentos e
+aptid&otilde;es do novo estadista, se locupletou a fazenda publica,
+prosperou a agricultura e a industria, refulgiram as artes e as
+lettras; e que Portugal, como a Grecia, sob Pericles, causou o assombro
+das
+na&ccedil;&otilde;es do mundo. <br />
+
+<br />
+
+Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e
+prospero, a inverosimilhan&ccedil;a do facto prejudicasse no
+espirito dos leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse
+com isto a desconfian&ccedil;a no chronista. Resolvi pois ser
+franco, declarando que sob a direc&ccedil;&atilde;o do
+conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se tem regido
+sob as duzias de ministerios, que n&oacute;s todos havemos
+j&aacute; conhecido. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, j&aacute; ministro, voltou tempos depois
+&aacute; aldeia, para assistir aos casamentos de Magdalena e de
+Christina, que se verificaram no mesmo dia. <br />
+
+<br />
+
+Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com
+D. Doroth&eacute;a, que n&atilde;o podia resignar-se a viver
+s&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se
+completamente a quinta, e &eacute; hoje uma das mais rendosas e bem
+geridas propriedades d'aquelles sitios. <br />
+
+<br />
+
+Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S.
+Carlos, est&aacute; um rico e laborioso proprietario rural.
+Apaixonou-se pela agricultura, e promette realisar o typo do antigo
+patriarcha. <br />
+
+<br />
+
+Cumpriu-se a sua vis&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, j&aacute; nem
+memoria lhe resta. <br />
+
+<br />
+
+Christina, al&eacute;m de ser adorada pelo marido, v&ecirc;-se
+rodeada pelo amor e carinhos de D. Doroth&eacute;a e de Maria de
+Jesus, as quaes, sem o menor despeito, a viram tomar o sceptro da
+realeza domestica, que usa com adoravel brandura, desenvolvendo de dia
+para dia os seus talentos de mulher. <br />
+
+<br />
+
+No Mosteiro n&atilde;o correm peor as coisas, sob os
+<span class="pagenum">[279]</span>
+cuidados de Augusto e de Magdalena, que
+ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, al&eacute;m de
+se occupar de agricultura, alimenta a
+imagina&ccedil;&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o a fazer
+versos, mas em outra
+f&oacute;rma de poesia: a organisar a escola sob bases mais
+racionaes, e dota&ccedil;&atilde;o mais fecunda; a generalisar
+e educar os processos agricolas; a implantar industrias novas. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim que a sericultura, gra&ccedil;as aos seus
+cuidados, &eacute; hoje alli cultivada com bons resultados, e
+outras j&aacute; principiam a ensaiar-se. <br />
+
+<br />
+
+Magdalena &eacute; sempre a mulher que foi; se &eacute; que as
+nobres qualidades j&aacute; reveladas nos seus actos de juventude,
+n&atilde;o se v&atilde;o caracterisando inda
+melhor, &aacute; medida que de mais graves deveres se incumbe a sua
+miss&atilde;o de mulher. Intelligencia temperada por um bom senso
+natural, que a educa&ccedil;&atilde;o esmerada
+n&atilde;o estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado,
+mas de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem
+severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que
+n&atilde;o faz sentir a ninguem o peso da obediencia. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos,
+querida por D. Victoria, adorada pelo marido e aben&ccedil;oada
+pelo povo, que soccorre com esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que
+reina n'aquelles sitios. <br />
+
+<br />
+
+D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o
+direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do
+mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando
+despedidos. <br />
+
+<br />
+
+Em rela&ccedil;&atilde;o &aacute;s personagens secundarias
+d'esta historia pouco teremos a dizer. <br />
+
+<br />
+
+O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que
+entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava
+visconde de n&atilde;o sei qu&ecirc; o seu antigo inimigo. Foi
+este o
+primeiro acto politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a
+sem-raz&atilde;o de n&atilde;o applaudir.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[280]</span>
+O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de
+melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho, em vista d'esta fus&atilde;o de
+partidos, achou-se encorporado na liga, e em pouco tempo teve
+occasi&atilde;o de demonstrar de novo a sua influencia eleitoral,
+trazendo compacta &aacute; urna a freguezia de Pinch&otilde;es,
+para reeleger o conselheiro que, pela sua
+nomea&ccedil;&atilde;o, perdera o logar de deputado. D'esta
+vez ninguem lh'o disputou, e era edificante v&ecirc;r o brazileiro
+ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de commum accordo
+e de boa harmonia. <br />
+
+<br />
+
+A reconcilia&ccedil;&atilde;o entre dois adversarios commove
+sempre a alma. <br />
+
+<br />
+
+O sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o mudou de habitos, e cada vez
+tem mais dividas, mais c&atilde;es e mais bebedeiras. <br />
+
+<br />
+
+O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas
+func&ccedil;&otilde;es de ensino e na
+commiss&atilde;o do correio, odiando os irm&atilde;os Virgilios
+e desafogando as suas m&aacute;goas na embocadura da trompa. <br />
+
+<br />
+
+O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingan&ccedil;a.
+Confessa que por brincadeira tir&aacute;ra uma
+carta da pasta de Augusto, mas que a torn&aacute;ra a collocar no
+seu logar e por isso... <br />
+
+<br />
+
+A familia Z&eacute; P'reira vae em rapida decadencia; o homem
+j&aacute; nem tem f&ocirc;r&ccedil;a para fazer
+resoar o zabumba. &Eacute; esta uma das que mais deve &aacute;
+caridade de Magdalena. <br />
+
+<br />
+
+O conselheiro, ainda hoje no g&ocirc;so imperturbado dos votos
+unanimes d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando
+retemperar o animo exhausto nas fadigas parlamentares e nas
+divers&otilde;es da capital, no seio da sua feliz familia, e volta
+melhor. <br />
+
+<br />
+
+Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores,
+corre com alvoro&ccedil;o de crean&ccedil;a
+a gosar na aldeia os dias que elle j&aacute; presente terem de ser
+os mais felizes de toda a sua vida. <br />
+
+<br />
+
+A quinta dos Cannaviaes, &aacute; qual andam ligadas
+<span class="pagenum">[281]</span>
+suaves recorda&ccedil;&otilde;es
+dos dois venturosos pares, que
+os incidentes d'esta historia reuniram, foi transformada por Magdalena
+n'uma habita&ccedil;&atilde;o de recreio, onde as duas familias
+celebram, durante o anno, algumas festas em commum. <br />
+
+<br />
+
+Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia
+muito estava de posse. <br />
+
+<br />
+
+E hoje &eacute; ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo
+nome de &laquo;Morgadinha dos Cannaviaes&raquo;. <br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM DO SEGUNDO E
+ULTIMO VOLUME
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Volume I</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#p144">#p&aacute;g.
+144</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">precipios</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">precipicios</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p162">#p&aacute;g.
+162</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">se se
+sentem</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">se
+sentem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p169">#p&aacute;g. 169</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a seu seu
+v&ecirc;r</td>
+
+ <td>...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a seu
+v&ecirc;r</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p264">#p&aacute;g.
+264</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma
+uma explica&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">uma
+explica&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Volume II</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p27">#p&aacute;g. 27</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">glo&#341;ia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">gloria</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p68">#p&aacute;g. 68</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">examimal-a</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">examinal-a</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p95">#p&aacute;g. 95</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">encontrassse</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">encontrasse</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p148">#p&aacute;g. 148</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">coisapor</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">coisa por</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p200">#p&aacute;g. 200</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ovialmente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">jovialmente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p215">#p&aacute;g. 215</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fregrezia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">freguezia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p218">#p&aacute;g. 218</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">principalte</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">principalmente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p248">#p&aacute;g. 248</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">sapar&aacute;mo-nos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">separ&aacute;mo-nos</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
+
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
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