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+The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: A Morgadinha dos Cannaviaes
+
+Author: Júlio Dinis
+
+Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em
+ caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
+ No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jun. 2009)
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
+
+XXIII
+
+ROMANCE
+
+III
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+Vol. I
+
+
+
+
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
+TELEPHONE 2337
+
+
+
+
+JULIO DINIZ
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+(CHRONICA DA ALDEIA)
+
+DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
+
+
+
+LISBOA
+J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES
+186--Rua Aurea--188
+_1920_
+
+
+
+
+OBRAS DE JULIO DINIZ
+
+
+A Morgadinha dos Cannaviaes
+Os Fidalgos da Casa Mourisca
+As Pupillas do Senhor Reitor
+Uma Familia Ingleza
+Ineditos e Esparsos
+Poesias
+Serões da Provincia
+Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças)
+
+
+
+_Todos os direitos d'esta publicação estão reservados em conformidade
+com a lei em Portugal e Brasil_
+
+J. Rodrigues & C.^a
+
+
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+
+
+
+I
+
+
+Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro,
+chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera,
+subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa
+vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada, á falta de
+competidora, em que melhor coubessem.
+
+Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia
+começa já a resentir-se, senão ainda nos valles e planuras, nos visos
+dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa
+Traz-os-Montes.
+
+O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e,
+n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoação importante, e
+com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco
+transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se
+encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do
+rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do
+que a absoluta solidão.
+
+Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que
+dissemos.
+
+Um, o mais moço e pela apparencia o de mais grada posição social, era
+transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas
+orelhas, musculos de marmore e articulações fieis; o outro seguia a pé,
+ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o
+caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso,
+excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre
+emulação.
+
+Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de
+transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e
+fadigas da jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro.
+
+A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, o olhar melancolico,
+fito nas orelhas do macho, a indifferença, a taciturnidade ou o
+manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem
+natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silencio que apenas de
+quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma
+pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza
+de gestos e desempenado jôgo de membros do pedestre, com a sua
+torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, e com as joviaes
+cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quaes
+se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico
+companheiro.
+
+Explica-se bem esta differença, dizendo que o cavalleiro era um elegante
+rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um
+almocreve de profissão.
+
+O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto
+que o grato e quasi voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planisa
+qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que d'ella
+guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores
+delicias, do que as impressões experimentadas no proprio momento de nos
+vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e
+mórmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas
+impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou
+que a saudade consegue até dourar e poetisar a seu modo; esses
+microscopicos martyrios, que de longe não avultam, actuam-nos, na
+occasião, a ponto de nos inhabilitar para o gôso do que é realmente
+bello. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre
+que se monta, o tempêro ou destempêro do heteróclito cozinhado com que
+se enche o estomago, a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó que
+se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o
+sol que nos congestiona o cerebro, tudo então nos desafina o espirito,
+que traziamos na tensão necessaria para vibrar perante as maravilhas da
+natureza ou da arte.
+
+Só pelo preço de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel
+no meio dos episodios d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e
+exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse
+habito, tambem nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as
+commoções do bello.
+
+Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se
+mais e melhor; porém a propria analyse é a prova de que se sente menos.
+Onde domina o sentimento e a imaginação, mal teem cabida a paciencia e
+phleúgma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio
+recolhe de qualquer excursão á patria com a carteira cheia de
+apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos,
+sentiu mais.
+
+Mas Henrique de Souzellas--que era este o nome do cavalleiro--fôra
+educado e passado da infancia á plena juventude, em Lisboa,
+levantando-se por avançada manhã, frequentando o theatro, o Gremio, as
+camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a
+Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da
+capital.
+
+Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fôra esta jornada,
+em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob tão maus
+auspicios, que era para suffocar-lhe á nascença os instinctos de
+_touriste_, se porventura quizessem despertar n'elle.
+
+Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo
+accommodado aos caminhos por que passára. E então que dois dias!
+D'aquelles, durante os quaes o céo, uniformemente pardo, parece
+desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupção e com uma teimosia e
+constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita já
+a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares,
+e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias;
+em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente
+despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos
+mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e tão
+densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de
+que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.
+
+Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir
+cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera.
+
+E para quê e por quê a commettera elle assim?
+
+Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é
+de suppôr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o.
+
+Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos,
+vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e
+dividindo as attenções do espirito pela politica, pela litteratura e
+pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a
+fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos.
+
+Não concebia vida fóra d'aquillo.
+
+O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava
+possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria
+maior façanha.
+
+Não que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta
+natureza.
+
+Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia
+folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.
+
+Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia tão direita a
+apostrophe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler
+no livro setimo das _Viagens_.
+
+De certo tempo em deante começou, porém, a incommodal-o uma especie de
+vácuo interior, um mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem
+familia, quando chegam á idade a que chegou Henrique, e passam a vida
+como elle.
+
+Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras,
+bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos
+seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de
+insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que
+o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros
+forcejam por divertir-se.
+
+O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel
+verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava,
+apoderou-se d'elle em corpo e alma.
+
+Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito preoccupado com a sua
+pessoa, imaginando-se victima de mil e uma molestias, as mais
+disparatadas e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente predestinado
+para a apoplexia e para a phtisica, para o cancro e para a alienação,
+para a cegueira e para as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da
+semana, folheando livros de medicina, construindo theorias
+physiologicas, consultando todos os medicos da capital, experimentando
+todo o arsenal pharmaceutico e todos os annuncios, em parangona, da
+quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças do seu espirito
+amedrontado até ás mysteriosas e nevoentas alturas do credo
+homoepathico! Ao mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva
+degeneração de gôsto; não podia ler uma pagina dos livros que lhe eram
+predilectos; desfazia-se sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e
+objectos curiosos que colleccionára com paixão; detestava a musica, o
+theatro, n'uma palavra, tornára-se um dos maiores flagellos, que podem
+pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o supplicio dos
+medicos que os aturam.
+
+Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte com o desculpavel
+intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho,
+que fôsse viajar.
+
+Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia n'esta palavra: viajar.
+
+Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias apopleticas? E as
+suas disposições para tantas outras enfermidades? Pois um homem pode lá
+viajar com esta bagagem pathologica?
+
+E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a
+receita, e ficou na capital.
+
+Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os medicos,
+como se para isso apostados, a insistirem em que saisse de Lisboa.
+
+--O senhor não tem nada--diziam alguns.
+
+Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto.
+
+Prolongou-se este estado de coisas, até que um dia o hypocondriaco rapaz
+persuadiu-se muito sériamente de que estava chegada a sua hora extrema.
+
+Um medico velho e grave, que por essa occasião o escutou, em vez de se
+rir d'elle, disse-lhe, muito sisudo:
+
+--Homem! O senhor está realmente mal. Esse estado de imaginação não pode
+prolongar-se mais tempo, sem romper por ahi em alguma doença que o
+sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto é tempo.
+Quebre por todos os habitos, e escolha entre as fortes impressões de uma
+grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensações de um
+completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emollientes curam por meios
+oppostos ás vezes as mesmas molestias.
+
+Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse Henrique um presente de
+fructa de uma sua tia, santa creatura que elle, desde creança, não
+tornára a vêr.
+
+Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco
+annos Henrique passára alguns mezes na companhia de sua mãe.
+
+Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo, já meio apagado na
+memoria, e conseguira fazer-lhe saudades. D'ahi uns vagos desejos de
+voltar a vêr aquelles sitios.
+
+Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em
+que esta sua parenta vivia.
+
+O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para que fôsse abraçada.
+
+O sobrinho escreveu então á tia, e, passados dias, punha-se a caminho.
+
+Mil vezes se arrependeu, depois da resolução tomada; mil vezes mandou ao
+diabo o conselho do medico e phantasiou horriveis exacerbações em todos
+os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os
+velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e
+almocreve, ampliava-lh'os a proporções estupendas, o prisma da
+hypocondria.
+
+No momento em que nos associámos ao cavalleiro, caira elle n'um
+desalento profundo, n'um quasi convencimento de proxima anniquilação, do
+qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas
+eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.
+
+Havia mais de uma hora que estavam luctando com as difficuldades da
+ascensão do ingreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as
+voltas de uma helice.
+
+Era este monte uma como irregular pyramide, levantada no meio da
+amplissima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava;
+por isso o estafado rapaz não podia atinar a razão de conveniencia pela
+qual, tendo de procurar o valle, assim porfiavam em descrever as
+fastidiosas curvas da quasi interminavel espiral, que os approximava do
+vertice.
+
+Não se concebe uma estrada menos logica do que aquella.
+
+No nosso paiz são porém frequentes estas faltas de logica nas estradas.
+
+O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de
+encurtar distancias, seguindo por um atalho só franqueavel a gente de
+pé.
+
+Henrique nem desviára os olhos para o fundo valle, que se abria á
+esquerda, velado pela densa nevoa d'aquella atmosphera saturada de
+humidade, nem prestava attenção á agreste e selvatica paizagem, do lado
+direito, toda encrespada de pinheiraes nascentes e de espinhosas
+tojeiras.
+
+Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o mais alto da flexuosa
+ladeira que subia, no sitio em que ella, formando um cotovello, furtava
+á vista o seguimento ulterior.
+
+N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, cançado e
+aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma promettedora esperança.
+
+--D'alli verei talvez o termo do caminho--pensa elle.
+
+Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança lhe foge!
+
+Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á almejada inflexão e quando
+esperava principiar emfim a descer para o valle e approximar-se da
+aldeia, viu que o macho, pratico no caminho, e á disposição de cujo
+instincto elle collocára a razão, dobrava ainda para a direita e
+continuava a contornar e a subir o monte. A espiral não terminára ainda.
+Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do valle,
+nada pôde descobrir, que lhe promettesse a aldeia procurada. Muita
+arvore, povoação nenhuma!
+
+Teve um paroxismo de impaciencia!
+
+--Isto não é estrada!--exclamou elle, exasperado.--São os nove circulos
+do Inferno de Dante virados para fóra.
+
+E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a augmentar, a calar
+através do grosso gabão de jornada que Henrique vestia! O desgraçado
+vergava sob o pêso da sua consternação.
+
+Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleugma
+desesperadora.
+
+--Com um milhão de demonios!--bradou-lhe Henrique, não podendo
+conter-se.--Essa maldicta terra foge deante de nós, homem!
+
+--Estamos quasi lá, meu patrão. É alli logo adeante--respondeu o
+almocreve, sem se alterar. Vê aquella capellinha branca em cima
+d'aquelle monte? pois fica já para além da povoação. É a ermida da
+Senhora da Saude. É um instante.
+
+--Desde as duas horas da tarde que me dizes que é um instante, e eu
+estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica
+alli em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas que temos dado,
+estou persuadido de que vamos tão adeantados como quando principiámos a
+subir.
+
+--Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito lá por baixo, era mais
+perto, mas...
+
+--Mas foi então pelo prazer de trepar, que me trouxeste por aqui?
+
+--Não é isso, patrão; mas bem vê v. s.^a que o caminho lá por baixo é
+todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar taes voltas, que a
+final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá ideia
+de como estão os riachos por lá! Só o esteiro do almargeal é para uma
+pessoa se afogar. Mas tenha o patrão paciencia, que pouco falta agora.
+Vê v. s.^a aquelle tronco de sobreiro que parece, visto d'aqui, um frade
+de capuz?
+
+--É alli?
+
+--Não, senhor--disse o homem, rindo;--mas vêem-se d'aquelle sitio as
+primeiras casas da aldeia.
+
+--As primeiras!--murmurou Henrique em tom lastimoso; e penderam-lhe os
+braços com mais desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna
+vertebral.
+
+O almocreve proseguiu, para o distrair:
+
+--Tenho passado por estes sitios muita vez com neve de se cortar á faca
+e de noite. E olhe que nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim! E
+vamos lá! o sitio não é dos mais seguros. Vê o senhor essa cruz preta,
+ahi á sua mão direita, pregada no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo
+mataram um homem, que vinha com uns centos de mil réis da feira franca
+de Vizeu, fez pelo S. Miguel um anno. E ainda hoje se está para saber
+quem foi. N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma creatura.
+
+Henrique sentiu-se pouco á vontade com as elucidações do cicerone; olhou
+para elle com desconfiança e quasi julgou vêr moverem-se sombras
+suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os
+cabos das pistolas, e approximou as esporas dos ilhaes da cavalgadura.
+
+Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do
+qual deviam avistar a aldeia.
+
+Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas arvores, mas continuou a
+não enxergar vestigios de casas.
+
+--Onde está a aldeia que dizias, homem?
+
+--D'ahi já se vê--disse o almocreve, correndo para alcançar o
+cavalleiro.--Não vê v. s.^a, além, além, aquelles pinheiraes mansos?
+
+--Vejo, sim.
+
+--Pois já são da freguezia. Se fôsse mais claro havia de avistar a casa
+do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence á morgadinha dos
+Cannaviaes.
+
+Henrique não respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada
+fel-o suspirar.
+
+Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando
+sempre obliquamente o monte.
+
+Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco,
+que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já
+indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da
+neblina.
+
+--Lá está a capella da freguezia--dizia o homem.
+
+--Alli? É um seculo para lá chegar!
+
+--Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo!
+
+E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o
+passo.
+
+O homem continuou:
+
+--Até se fôsse mais dia podia-se vêr d'aqui a pedra, que está no
+cemiterio novo, e que é da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a
+mãe d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais
+ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar
+fóra da egreja. Elle, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do
+costume... mas emfim a gente foi creada n'isto... Mas a pedra é coisa
+asseada. É como as que estão na cidade.
+
+Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem attendia ao
+que o homem ia dizendo.
+
+Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim o valle. O terreno
+mudava agora de aspecto. Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de
+cultura, annunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos
+estreitavam, internando-se no valle, e seguiam tortuosamente por entre
+muros tôscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, que
+não cessára de cair, transformára estes caminhos, onde o declive não
+dava escoamento ás aguas, em charcos e tremedaes.
+
+Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente apparecendo.
+
+Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por
+uma creança de palhoça e pernas nuas, os quaes paravam a olhar com
+aquella expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o
+recem-chegado visitante da aldeia. Não faltou receio a Henrique, que
+suppôz a estes bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e bravia dos
+touros, a cuja chegada tantas vezes fôra assistir em Lisboa.
+
+Mais adeante passava por elles uma fileira de carros a vergarem sob o
+pêso do matto e atroando os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o
+eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de Henrique, cujos nervos se
+irritavam com elle, mas apparentemente agradabilissimo para os
+conductores aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle
+acompanhamento.
+
+N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas casas de tectos de
+colmo, de cujas innumeras fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera
+humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado de Henrique
+de Souzellas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas sêccas
+dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações muito longe de
+serem agradaveis.
+
+Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que já lhe tomára o
+animo.
+
+--Tantas fadigas para este resultado!--pensava elle.--Sair de Lisboa
+para me enterrar n'esta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do
+doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus
+lhe perdôe o homicidio.
+
+Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incómmodo de
+trilhar; as curvas complicavam-se como as ruas de um labyrintho. Aqui
+subiam; desciam mais além, para subir outra vez. Umas vezes caminhavam
+em terreno descoberto, outras penetravam em tão estreitas quelhas,
+apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas de ramos
+entrelaçados, que só o instincto do animal podia evitar-lhes os perigos.
+Ora soavam as patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes o
+som um terreno, que a chuva encharcava, e a agua lamacenta vinha
+salpicar o rosto do cavalleiro.
+
+As casas eram já frequentes, e algumas de menos humilde apparencia.
+
+Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam
+raivosos por dentro dos portões ou de sobre os muros das quintas, ao
+ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou
+cantava sempre.
+
+Outras vezes era um inharmonico grunhir suino que accusava a vizinhança
+das córtes ou, partindo de um casebre rustico, o chorar de creanças,
+entremeado com os ralhos das mães e com as pragas dos chefes de familia.
+
+O almocreve não desistira das suas funcções de cicerone, que sómente
+interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.
+
+--Estes campos e lameiros--ia dizendo--são da morgadinha dos Cannaviaes;
+andam arrendados a um compadre meu.
+
+E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente allumiada por
+uma candeia:
+
+--Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?
+
+--Ai, é vossemecê, sr. José? Então não entra?--respondia-lhe uma voz
+feminina.
+
+--Agora, não, ámanhã.
+
+E proseguiu para Henrique:
+
+--É uma santa creatura. A morgadinha...
+
+Henrique interrompeu-o:
+
+--Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? onde mora minha tia? Não me
+dirás?
+
+--É logo ahi adeante, meu patrão. Em nós passando umas casas amarellas
+que ha ahi... é logo ao pé. Essas casas que digo são tambem da
+morgadinha, mas ha uma demanda pelos modos.
+
+O almocreve falava pela decima ou undecima vez na morgadinha. Até esta
+periodica referencia a uma personagem que elle não conhecia,
+impacientava Henrique de Souzellas.
+
+E continuavam a succeder-se em enredado dedalo as quelhas e azinhagas, a
+ponto de fazer perder toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido das
+levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; adeante, transpunham
+uma ponte rustica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ella
+atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o ranger das rodas dos
+moinhos.
+
+Henrique a cada momento imaginava cair n'um abysmo.
+
+--São os açudes do Casal--dizia o almocreve berrando para se fazer ouvir
+através do estrondo da torrente.--Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes.
+
+Henrique nem alento já tinha para falar.
+
+Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia tão cerrada lhe
+envolveu o coração a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistencia ao
+crescente torpor que o invadia, como o que desespera da vida e da
+salvação.
+
+Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma toada plangente,
+melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos.
+
+--É uma fiada em casa do Tapadas--disse o almocreve.--É um dos maiores
+amigos do pae da morgadinha. Vê aquelle muro acolá?
+
+--Eu não vejo nada. Deixa-me!
+
+--Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha...
+
+--Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha--exclamou Henrique.
+
+Era evidente emfim que estavam em pleno coração do povoado. As casas
+appareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que
+tinha o que quer que era de lugubre. Era a corôa rezada em familia a
+Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e
+trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das
+raparigas e creanças n'aquelle piedoso côro, produzindo um effeito que
+acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.
+
+--Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que não a acabamos de
+attingir?
+
+O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante
+junto ás orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira
+orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do almocreve, estacou em
+frente de um portão de quinta resguardado por um telheiro rustico.
+
+--É aqui--disse o guia.
+
+--Até que emfim!--exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e
+de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cançado da vida, quando
+antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convicção de que a
+quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio.
+
+
+
+
+II
+
+
+O almocreve assentou duas vigorosas pancadas no solido portão de
+castanho, deante do qual tinham parado.
+
+As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois cães, que
+acudiram de longe ao signal e vieram ladrar á porta com furia, que fez
+agourar mal a Henrique da cordialidade da recepção que o esperava. De
+facto as intenções dos quadrupedes não pareciam demasiado hospitaleiras.
+O almocreve divertia-se excitando-os de fóra com uma vara de vime,
+apesar de quantas recommendações de prudencia lhe fazia Henrique, não em
+demasia socegado.
+
+A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando os cães á ordem, se é
+licito, sem irreverencia, empregar n'este caso a phrase consagrada para
+outro genero de algazarra.
+
+Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a aldraba,
+gemerem os gonzos, e emfim um homem de lavoura alto e magro, trazendo em
+punho um lampeão de frouxissima luz, appareceu-lhes á porta e saudou-os
+com a fórmula do estylo:
+
+--Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites.
+
+E, levantando a luz á altura do rosto de Henrique, poz-se a miral-o com
+a menos ceremoniosa curiosidade.
+
+--É o sobrinho cá da senhora, não é verdade?
+
+--Sou eu mesmo.
+
+--Está um tempo muito azêdo. Eu já julgava que não vinham. Entre.
+
+Henrique não se resolvia a acceitar o convite, porque lhe continuavam a
+impôr respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois
+façanhosos quadrupedes, cuja má vontade era a custo refreada.
+
+--Entre, entre--insistia o homem.
+
+--Mas esses animalejos?...
+
+--Ah! isto não faz mal. Sae-te p'ra lá, Lobo: passa, Tyranno!
+
+Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem que não faziam mal!
+
+--C'os diabos! ti'Manuel--disse o almocreve--em occasião de se esperarem
+hospedes, não se soltam assim os cães. Os diabos não são nenhuns
+cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joãosinho das Perdizes, que por pouco
+lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas.
+
+--Forte perca!--resmoneou o outro.--Não trouxesse cá os d'elle. Não tem
+dúvida; entre o senhor, que elles não lhe fazem mal.
+
+--Não entro; assim é que não entro--teimou Henrique, a quem as palavras
+do almocreve acabaram de fortificar na sua resolução.
+
+O homem em vista d'isto encolheu os hombros e bradou:
+
+--Ó Luiz!
+
+Uma creança de cinco annos, e quasi nua, correu ao chamamento.
+
+--Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor tem mêdo.
+
+A creança, á palavra mêdo, fitou Henrique com uns olhos espantados, e
+tomando do chão um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas
+feras, que, com todos os signaes de respeito, de orelha baixa e cauda
+abatida, fugiram deante d'ella.
+
+O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um tanto maltratado com o
+desfecho da scena; mas a prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andára
+ajuizadamente.
+
+--Agora vossemecê--disse o camponez para o almocreve--arranje-se como
+puder e mais a bêsta ahi pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao
+senhor.
+
+--Vão, vão com Nossa Senhora, que eu cá me arranjarei. Muito boas
+noites, sr. Henriquinho.
+
+--Adeus, José--disse Henrique, passando para a mão do guia a esportula
+da gorgeta, e após seguiu, com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem
+do lampeão.
+
+Não era para dissipar a impressão penosa, que subjugava o espirito de
+Henrique, o aspecto que lhe offerecia, áquella hora da noite, a parte da
+quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.
+
+Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro ou eido, estradado
+de altas camadas de matto e embebido de chuva, d'onde se exhalava um
+cheiro de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado a estes
+aromas campezinos. A luz do lampeão a custo conseguiu evitar a Henrique
+o tropeçar n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia para
+gallinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo a
+cancella que terminava este, seguiram por uma rua de folhas;
+atravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia;
+ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados mais alguns rodeios,
+acharam-se finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia
+para uma especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um
+modesto portico á casa de Alvapenha.
+
+A propriedade da tia de Henrique era um genuino typo de casa rustica, á
+moda do Minho.
+
+Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos á escassa
+luz que os allumiava, recebeu Henrique a primeira impressão agradavel de
+toda aquella mal estreada excursão.
+
+Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram n'elle
+memorias, quasi apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter brincado
+alli, a cavallo n'esse mesmo parapeito, então, como agora, enfeitado de
+uma formidavel cohorte de aboboras meninas, victimas votadas ás festas
+do proximo Natal.
+
+A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso de louça, que
+elle, havia vinte e tantos annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia
+vaga de haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de se certificar,
+e viu que de facto ainda lhe faltava a aza, sendo este o unico estrago
+que após tanto tempo o velho utensilio soffrêra.
+
+--É admiravel!--não pôde deixar de exclamar Henrique ao fazer a
+descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma nos seus
+aposentos em Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava em
+Alvapenha.
+
+O hortelão bateu á porta e disse para dentro que era o sobrinho da
+senhora que chegava.
+
+Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar de
+passos; moveu-se a chave na fechadura; abriram-se as portas e no limiar
+appareceu de braços abertos a tia Dorothéa, e por traz d'ella, elevando
+a luz acima do hombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que, havia
+trinta annos, lhe era companheira e interessada em lagrimas e pesares.
+Já Henrique lhe andára ao collo no tempo em que estivera creança na
+quinta.
+
+Deante da figura esbelta, do typo varonil e do comprido bigode de
+Henrique, a sr.^a Dorothéa reprimiu as suas expansões e quasi recuou.
+
+Nunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco annos, deixára
+Alvapenha, e dir-se-hia que esperava ainda encontrar os mesmos cabellos
+louros e annelados e o mesmo rosto menineiro da travêssa creança de
+outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos annos
+volvidos o tinham transformado.
+
+Ha d'estas illusões na gente.
+
+A mais segura razão não está precavida contra ellas; a infundada
+surpreza invade-nos de subito, e os labios não podem prender a
+exclamação que a denuncia.
+
+--Pois na verdade tu és o Henriquinho?!--disse espantada a boa senhora.
+
+--Eu julgo que sim, tia Dorothéa.
+
+--Tu! Ai como estás um homem! Ó Maria de Jesus, você não quer vêr isto!?
+
+--Parece mesmo um soldado!--disse a criada, igualmente estupefacta.
+
+--Credo, mulher! Santissima Trindade! Você que está a dizer? Nossa
+Senhora nos livre de tal!--exclamou a ama, em cujo conceito o soldado
+estabelecia a transição do homem para o diabo.
+
+No entretanto Henrique de Souzellas abraçava a tia, que havia tanto
+tempo que não vira, e ella correspondia-lhe, beijando-o com todo o
+carinho e chorando.
+
+Chorando por quê? Por quê? Pela muita bondade que tinha n'aquella alma.
+A bondade é um rico manancial, que brota lagrimas ao toque da menor
+commoção.
+
+Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados
+amplexos e mais provas de affecto de sua tia, quando se sentiu prêso em
+novos laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava tambem e lhe pespegava
+nas faces dois beijos muito chiados, como aquelles que veem a ferver do
+coração, e isto acompanhado de um--Ai o meu rico filho!--tão eloquente
+como os beijos.
+
+Henrique, habituado ás etiquetas da civilisação urbana, que estabelece
+entre amos e criados distancias desconhecidas na aldeia, extranhou um
+pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexões.
+
+Maria de Jesus dizia, ainda admirada:
+
+--Ó senhora! Não que uma coisa assim! Pois é este o menino que vinha á
+cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada!
+
+--É verdade! E que boa marmelada cá se fazia!
+
+--Lambareiro!--disse a tia, sorrindo.--Se eu soubesse que eras assim,
+não tinha mandado lavar o tacho do dôce, que ainda hoje serviu.
+
+--Sim? Então ainda se faz dôce cá em casa, como d'antes?--perguntou
+Henrique.
+
+--Pois então? todos os annos. Mas valha-me Deus! E não querem vêr nós
+aqui postas á palestra! Entra, menino, entra cá para dentro, que está
+frio e tu deves vir cançado.
+
+--Um pouco, um pouco, tia Dorothéa.
+
+E Henrique entrou para a sala.
+
+Demoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas, em cuja
+casa se vae alojar com Henrique de Souzellas.
+
+Não se imagina a santa paz de espirito, a placidez de paraiso, que estas
+duas mulheres--D. Dorothéa e Maria de Jesus, ama e criada--gosavam na
+quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar allivio aos
+seus muitos e variados males.
+
+Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus habitos, ambas
+muito tementes a Deus e amigas do proximo, as duas celibatarias passavam
+alli uma vida, rescendente a um suave perfume de santidade, como o da
+alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as gavetas e de que se
+repassava toda a roupa branca, objecto muito dos seus cuidados.
+
+A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos entre as duas,
+poderia ser exemplo á maior parte das familias d'este mundo. Entre
+velhas, que nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral faz o humor
+mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso.
+
+Tinham ellas porém a precisa tolerancia para fazerem mutuas concessões;
+cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria
+bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu uma só palavra, que, por
+mais alto pronunciada ou por menos expressiva de paciencia, destoasse da
+invariavel monotonia dos seus habituaes dialogos.
+
+Eram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maior parte,
+devorados por demandas entre primos e irmãos, paes e filhos, marido e
+mulher, mostravam infelizmente ser esta abençoada semente caída em
+improductivo terreno.
+
+As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento affligiam as
+duas sexagenarias e augmentavam o numero de Padre-Nossos com que todas
+as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram validas,
+pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua propria.
+
+Ouvir rezar as duas santas velhas--e era essa a occupação dos seus
+curtos serões--equivalia a escutar uma resenha das differentes
+calamidades, que perseguem e apoquentam o genero humano, e que ellas,
+d'esta maneira, pretendiam evitar.
+
+--Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Marçal, para que nos livre do
+fogo--dizia D. Dorothéa, e seguia-se o Padre-Nosso.--Outro a Santa Luzia
+milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma e no corpo; outro a
+S. Braz, para que nos proteja da garganta; outro a S. Vicente, por causa
+das bexigas, etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os que andam sobre
+as aguas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro por
+os orphãos; outro pelos doentes; um pelos vivos; outro pelos mortos; um
+pelos justos; outro pelas almas do purgatorio, não hesitando até a sua
+caridade em transpôr as portas do inferno e pedir tambem a remissão dos
+condemnados. E ainda depois d'esta minuciosa e longa enumeração, um
+ultimo Padre-Nosso fechava a primeira serie, comprehendendo todos os não
+contemplados por esquecidos, ou por não terem logar na classificação.
+
+Compunha a segunda serie a menção especial de cada uma das pessoas
+fallecidas das suas relações: parentes, amigos e conhecidos, por cujo
+«eterno descanço entre os resplendores da luz perpetua» oravam com
+verdadeira compunção. N'esta phalange ia tambem D. João VI, por quem,
+havia quarenta annos, se costumára a rezar D. Dorothéa, e não era ella
+mulher que rompesse com habitos semi-seculares. Era esse talvez o unico
+Padre-Nosso que a alma do monarcha recebia no Céo, com procedencia do
+seu antigo reino.
+
+Quanto ás qualidades physicas, a imaginação dos leitores pintar-lh'as-ha
+melhor do que a minha descripção. Forçosamente conheceram uma d'estas
+boas velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem se estima e com
+quem se brinca ao mesmo tempo; que nos podem inspirar sacrificios e
+simultaneamente nos tentam a travessura; a quem mystificamos agora e
+logo beijamos respeitosamente a mão; contra quem não reprimimos
+impaciencias, escutando depois submissos os seus nunca terminados
+sermões.
+
+Ora estas velhas assim teem quasi sempre um typo uniforme, que é o
+reflexo exterior da bondade do coração; esse era o typo da tia Dorothéa
+com o seu vestido rôxo, o seu lenço castamente cruzado no peito, a sua
+touca de folhos alvissimos e de fitas escuras, o mólho de chaves á
+cinta, o livro de orações na algibeira e os oculos a marcarem no livro a
+reza habitual.
+
+Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edição popular da mesma
+alma. Succedêra de mais com ellas o que é sempre de esperar de uma longa
+e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado maneiras e modos de
+pensar e de vêr e de dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer
+d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo de conclusão, se deduzia
+a outra facilmente.
+
+Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao primeiro exame que fez
+das duas santas mulheres.
+
+Entremos agora com elle para dentro da sala.
+
+Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ahi
+voltasse de novo com Henrique julgaria, á vista da uniforme disposição
+de coisas mantida alli dentro em tão distantes épocas, que todo esse
+tempo não fôra mais do que um sonho de momentos.
+
+Encontraria os mesmos móveis, na mesma collocação; as mesmas cobertas
+nos leitos, apenas mais desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas
+janellas; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosphera dos quartos,
+os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas cómmodas.
+
+A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana memoria de rapaz
+estouvado, sentia-se acordar, á vista d'aquillo tudo.
+
+A sala tinha uma physionomia caracteristica.
+
+Supponha-se uma não muito ampla quadra de pouca altura, toda pintada a
+óca, e alumiada por duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus
+competentes assentos de pedra, um defronte do outro, com meias cortinas
+de cambraia sempre corridas--pleonasmo de discrição que se não
+justificava, visto que as janelas, abrindo para a quinta, não tinham
+vizinhança de cujos olhares precisassem de recatar-se. O tecto era de
+almofadas de castanho, em tempos pintado de azul, agora de uma côr
+duvidosa. Havia quinze annos que D. Dorothéa falava em o mandar retocar,
+mas o projecto, momentoso como era, ia sendo adiado de primavera para
+primavera. Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija saliente, onde
+coroadas maçãs de inverno aguardavam, em vistosa fileira, a completa
+maturação, e derramavam no aposento o mais agradavel aroma. O pavimento,
+apesar de muito picado de caruncho, andava limpo e _escafunado_--termo
+do vocabulario de casa--que mettia gôsto vêl-o. Cada parede era um museu
+de estampas de devoção. Poucos santos e santas da côrte celestial não
+estavam alli representados e com um colorido, que era o maior peccado, a
+que estes bemaventurados haviam dado logar cá no mundo.
+
+Cá se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras; Santa Anna
+ensinando Nossa Senhora a ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. João
+Novo, no Porto; o Bom Jesus de Bouças, representação da imagem, que,
+segundo reza a respectiva chronica, é obra das mãos de José de
+Nicodemus; os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de S. Francisco,
+etc., etc. Sobre a cómmoda de pau preto era devotamente venerado o mais
+rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda modelaram
+as mãos de santeiro afamado. E seja dito de passagem que não sei por que
+a tradição popular dá a este austero franciscano o aspecto chorudo de um
+moderno reitor de farta abbadia de aldeia.
+
+No interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido o
+museu de raridades da tia Dorothéa. Eram flores artificiaes,
+concharinhas e caramujos, um rosario de caroços de azeitonas, uns poucos
+de vintens de prata, enfiados e pendentes do braço do menino Jesus, que
+o santo sustentava ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha
+benta, uma medida do braço do Senhor de Mattosinhos, um pão do sacco de
+Santa Isabel, que vae na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos
+curiosos.
+
+A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam quando
+entravam em serviço, como militar, cujas articulações o rheumatismo
+invadiu; mesas cobertas com colchas de chita; bahús cravados de pregaria
+amarella, disposta em lettras e arabescos; uma papeleira de pau santo, e
+uma gaiola com um canario decrepito, objecto, havia muitos annos, das
+tentações de um gato, mais decrepito do que elle e pertencente ás
+classes inactivas.
+
+Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de beatitude e de
+antiguidade que alli se respirava, os habitos da casa, sentia já certo
+desconfôrto, como de quem é arrancado de subito ao ambiente, em que se
+educou e vive, e engolfado n'um ambiente extranho; especie de asphyxia
+moral, não menos angustiosa do que a do peixe fóra da agua.
+
+A saudade que ao principio sentira, dissipára-se já. O perfume da
+saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o
+recebemos. Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.
+
+Acontecera isto com Henrique.
+
+Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crença de que não seria
+por muito tempo que se demoraria alli.
+
+--Os emollientes do doutor--pensava elle, emquanto sua tia falava--serão
+efficazes para quem os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim...
+
+No entretanto sentou-se.
+
+--Ora o Henriquinho!--dizia ainda D. Dorothéa, pondo-se de braços
+cruzados em contemplação defronte d'elle.--Ó menino, onde foste tu
+arranjar esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se?
+
+Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique.
+
+--Quem quer usar, usa, tia. Não é obrigação--respondeu elle, com leve
+mau humor.
+
+--Em nome do Padre e do Filho!--dizia Maria de Jesus, benzendo-se e
+tomando logar ao lado da ama.--Até nem sei que parece, lembrar-se a
+gente que trouxe este marmanjão ao collo!
+
+O termo «marmanjão» não soou bem a Henrique. Principiava tambem a
+impaciental-o o vêr as duas embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito
+a uma exposição d'estas, por mais que faça, não atina com o modo de
+arrostar com ella, que não seja ridiculo. Ora Henrique, como todo o
+homem da sociedade, o que mais que tudo temia n'este mundo era o
+ridiculo.
+
+Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da tia Dorothéa, que fez
+perceber á criada a conveniencia de ir preparando a ceia de Henrique,
+que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não costumar cear,
+acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas e a má alimentação dos
+ultimos dias, haviam-lhe desafiado o appetite. Demais, o espanto de D.
+Dorothéa, quando lhe ouviu dizer que as ceias não entravam nos seus
+habitos, foi tal que lhe tirou o animo de rejeitar.
+
+--Não ceias! Ó menino, que me dizes? então vaes-te deitar sem ceia? Ora
+essa! Por isso vocês são uns pelens. Vejam lá que arranjo este! ficar
+toda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento ao estomago, que
+aconchegue. Nada, nada; a ceinha em todo o caso. E tu has de tambem
+querer mudar de fato?
+
+--Eu venho bastante molhado.
+
+--Ai, então depressa, menino, que não ha nada peor do que a roupa
+molhada no corpo. Ó Maria... ou deixe estar, eu vou... Anda,
+Henriquinho, anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares.
+
+Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado e commodamente vestido,
+saboreava uma gorda gallinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha
+lavada, e na melhor louça da copeira.
+
+Elle que tinha sempre severidades de critica contra os mais afamados
+cozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquella comida
+primitiva, com que o regalava a tia.
+
+Esta sentou-se a vêl-o comer, e com a mesma familiaridade, que Henrique
+já anteriormente extranhára, Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.
+
+Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao cerrar da noite.
+
+Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem de o observar com a natural
+curiosidade de quem havia tanto tempo não tivera um hospede, faziam-lhe
+perguntas, ás quaes elle ia respondendo conforme lhe era possivel.
+
+--Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; pois olha que na cara
+não o parece.
+
+--Não--concordou a criada--tem boas côres, e, vamos, a magreza inda não
+é lá essas coisas.
+
+Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu logo ao reclamo.
+
+--Não me digam isso! Então não vêem como estou? Pois isto é lá côr de
+saude? de febre, será. Gordo? pois acham-me gordo?!
+
+--Gordo, não digo, mas assim, assim... E depois como vieste de
+jornada... Mas a final que molestia é a tua, menino?
+
+--Eu sei lá, tia Dorothéa? Nem os medicos a conhecem bem. É, entre
+outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me não deixa, que me
+persegue por toda a parte. Ás vezes parece-me que sinto apertar-se-me
+dolorosamente o coração; outras, são palpitações, ancias... Tenho quasi
+vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem,
+nada quero vêr, nada quero ouvir; não leio, não durmo, não como.
+Finalmente todo eu sou doença e tristeza.
+
+A boa tia Dorothéa olhava com sisudez e attenção para o sobrinho,
+emquanto elle falava, e na physionomia iam-se-lhe desenhando, ao
+ouvil-o, os mais expressivos signaes de espanto e consternação.
+
+Assim que Henrique terminou a exposição, ella disse-lhe com uma adoravel
+candura:
+
+--Então é assim uma especie de mania!
+
+Á palavra «mania» Henrique sobresaltou-se. Seria a consciencia que se
+sentiu ferida?
+
+--Mania? Ó tia Dorothéa! Mania! Veja bem, olhe que o termo é forte?
+Mania!
+
+--Sim, menino--insistiu ingenuamente a boa senhora--pois olha que não é
+outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de quê... sim... porque
+não te morrendo ninguem, nem te doendo nada...
+
+Ó poetas devaneiadores, ó almas melancolicas, que percebeis no sussurrar
+das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios, queixas
+occultas de dryades e de nayades, sentidas vibrações das harpas de fadas
+aereas, que vivem em palacios de nuvens; ó corações inoculados de
+poesia, que vos confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar do
+dia, ao desfolhar das arvores no outomno; poetas, que escutaes, com
+Victor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepusculo, e com elle
+adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, perdoae a involuntaria
+blasphemia da tia Dorothéa, que não contem o menor fermento de malicia;
+perdoae-lhe a dura expressão de que ella se serviu para caracterisar os
+vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e
+crêde que, apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada para
+sympathisar comvosco, do que tantas que por ahi fazem gala de vos
+comprehender melhor.
+
+Henrique não podia porém digerir a expressão, de que se servira a tia,
+para diagnosticar o seu mal.
+
+--Mania!--repetia elle--essa agora! Sempre é forte de mais. Mania, não,
+tia Dorothéa, lá isso não. Mania!
+
+--Eu lhe digo--acudiu a criada.--Não vá sem resposta; que está quasi
+como o cunhado da Rosa do Bacello. A senhora não se lembra? Andou
+aquella alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só, até que a
+final lá foi parar...
+
+--Aonde?--perguntou Henrique, erguendo os olhos interrogadoramente para
+a criada.
+
+--Lá foi parar a Rilhafolles--concluiu esta, espevitando a véla o mais
+naturalmente d'este mundo.
+
+Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.
+
+Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo de arroz, que lhe estava
+sabendo como nunca manjar lhe soubera.
+
+--Então não comes mais?--perguntou a tia.
+
+--Muito agradecido; eu o mais que tenho é somno.
+
+--Pois sim, mas é preciso fazer por comer--insistiu ella.
+
+--Ora vá mais este côxão--disse a criada.
+
+--Não é possivel--teimou Henrique, e insistiu para se recolher ao
+quarto.
+
+--Tens razão, tens--concordou a tia Dorothéa--deves estar fatigado. Vae
+com Nossa Senhora, menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que
+isso não é bom. É fazer por espairecer. Come, bebe, passeia, que é o que
+dá saude. Nada de malucar.
+
+--Sim--accrescentou a criada--e não queira estar doente, que não tem
+graça nenhuma.
+
+--E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem te podes distrahir. O
+brazileiro Seabra, que tem uma casa como um palacio; o Augustito do
+doutor, que é um bom mocinho. E depois vae dar um passeio por ahi, um
+dia até os moinhos outro dia até á ermida da Senhora da Saude. Agora me
+lembra: a Lenita já mandou ahi outra vez saber se tinha chegado o
+hospede--disse D. Dorothéa.
+
+--Não foi só a morgadinha...
+
+--Ahi está você a chamar-lhe tambem a morgadinha.
+
+--Então, senhora?! isto é o costume. Mas todas as outras senhoras
+mandaram tambem o Torquato saber do sr. Henrique. A sr.^a D. Victoria e
+a Christininha.
+
+--Ai, pois cuidadosas são ellas! Tu has de te entender com aquella
+gente. É uma gente muito dada e sem ceremonia. É preciso lá ir. Olha,
+ámanhã podes ir visital-as. É um passeio bonito.
+
+Henrique, que tinha estado distrahido durante a conversa das duas, nem
+se dava ao trabalho de intervir no dialogo em que ellas dispunham já do
+seu tempo e traçavam-lhe planos de vida.
+
+--Mas vae descançar, menino, vae e faze por dormir. Olha lá, tu costumas
+dormir com luz?
+
+--Não, tia, não costumo.
+
+--É porque n'esse caso... Ó Maria, onde está aquella lamparina, que me
+serviu quando eu estive doente, ha seis annos?
+
+--Está lá dentro, senhora; se a senhora quer eu...
+
+--Vê lá, menino...
+
+--Não tia, não quero.
+
+--Ha pessoas que não podem dormir ás escuras--dizia a criada.--Eu,
+graças a Deus, durmo bem de qualquer fórma.
+
+--Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, has de vêr
+se queres o travesseiro mais alto ou...
+
+--Muito agradecido, tia Dorothéa, tudo deve estar bom--disse Henrique,
+procurando fugir ás muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as
+duas o iam perseguindo até o quarto.
+
+--Olha, ó menino, tu bebes agua de noite?
+
+--Ás vezes.
+
+--Você poz-lhe agua no quarto, Maria?
+
+--Puz, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia, que
+antes sem luz do que sem agua.
+
+--Bem, então está bom. Então muito boa noite, menino.
+
+--Boa noite, tia.
+
+--Ai, é verdade. Has de vêr se queres mais roupa na cama.
+
+--Não hei de querer, não, tia.
+
+--Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria?
+
+--Cinco, senhora.
+
+--Cinco!--exclamou Henrique, quasi horrorisado.--Cinco cobertores!
+
+--É pouco?
+
+--Pouco?--É de morrer esmagado debaixo d'elles.
+
+--Ai, quer não! Olha que está muito frio.
+
+--Bem, bem; eu cá me arranjarei.
+
+--Então, muito boa noite.
+
+--Muito boa noite, tia.
+
+E Henrique ia a fechar a porta.
+
+--Olha...--disse ainda a tia.
+
+Henrique parou.
+
+--Não sei o que é que me esquece...
+
+--Não ha de ser nada, tia; boa noite.
+
+--Não esquecerá?... Eu sei?... Emfim... boa noite. Ai, é verdade...
+Sempre é bom ficar com lumes promptos.
+
+--Ai, sim; lá isso sempre é bom.
+
+--Vês? não que bem me parecia.
+
+--Já lá estão, senhora--disse a criada de longe.
+
+--Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino.
+
+--Muito boa noite, tia.
+
+E Henrique conseguiu fechar a porta.
+
+Estava finalmente só.
+
+--Que desastrada lembrança a minha!--disse o pobre rapaz, ao fechar a
+porta sobre si.--Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente,
+que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinencias me
+espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que só posso voltar para ti á
+custa de outra jornada!
+
+O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de
+almofadas na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava
+o auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma commoda com um
+pequeno espelho, um bahú, um lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam
+a mobilia toda.
+
+Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos objectos de
+toucador, a que estava habituado. Aquelle estrictamente necessario não
+lhe promettia grandes confortos.
+
+Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo e respirava um asseio
+e frescura convidativos: os travesseiros, de largos folhos engommados,
+possuiam uma molleza agradavel ás faces; o colchão de pennas abatia-se
+suavemente sob o peso do corpo fatigado.
+
+Henrique conchegou a roupa a si; á falta de velador, pousou o castiçal
+no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a
+ler, para obedecer a um habito adquirido.
+
+Não teria ainda lido um quarto de pagina, quando ouviu a voz da tia
+Dorothéa, que lhe dizia de fóra da porta:
+
+--Ó menino, tu já te deitaste?
+
+--Já, sim, tia Dorothéa.
+
+--Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um mêdo de fogos!
+
+--Esteja descançada, tia. Eu apago já.
+
+--Então será melhor. S. Marçal nos acuda.
+
+E afastou-se, rezando ao santo.
+
+Henrique continuou a ler.
+
+D'ahi a pouco a mesma voz:
+
+--Tu já dormes, Henriquinho?
+
+--Não, tia, ainda não durmo.
+
+--Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um mêdo de
+fogos! Não descanço, emquanto não vejo tudo apagado em casa.
+
+Henrique perdeu a paciencia.
+
+--Pois pode socegar, olhe.
+
+E apagou a véla, meio zangado.
+
+--Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por
+dormir. Então, muito boas noites.
+
+--Muito boas noites--respondeu Henrique quasi amuado; e ageitando-se na
+cama, dizia comsigo:--E esta! Já vejo que nem ler me é permittido aqui.
+Olhem que vida me espera! É isto o que me devia curar? Que fatalidade!
+
+Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, unicos que
+conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu effeito,
+insinuando nos membros cançados da jornada um agradavel calor.
+Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque que ficava por debaixo das
+janellas do quarto e as gottas da chuva, que dos beiraes do telhado
+caíam compassadas na taboa do peitoril.
+
+A noite socegára. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento,
+já menos impetuosas, faziam bater as vidraças.
+
+Eram como estes estados, que succedem a um choro aberto. Correm ainda
+algumas lagrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem
+ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será
+completa a serenidade.
+
+Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar
+n'aquelle confortavel leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe
+enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente, no mais
+profundo, tranquillo e restaurador somno, que, havia muito tempo, tinha
+dormido.
+
+
+
+
+
+III
+
+
+Ao romper da manhã, quando a consciencia principia, pouco a pouco, a
+acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpôr de um somno profundo,
+Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente sentado em uma cadeira de
+S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma opera favorita.
+
+Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos e contrabassos;
+sopravam, a plena bôca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam
+descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados
+faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente
+os ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta
+riqueza de instrumentação, mais do que uma nota unica, arrastada,
+continua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar
+uma só phrase musical.
+
+Era de desesperar um _dilettante_ como elle; torcia-se na cadeira,
+inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acusticas,
+e sempre o mesmo resultado!
+
+Este violento estado de attenção, este esforço do sensorio, principiou
+n'elle a obra de despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cêdo se
+transmittiu a todos os outros orgãos.
+
+Antes de dar a si proprio conta do que era aquelle som, e quasi
+esquecido ainda do logar em que estava, Henrique abriu os olhos.
+
+A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janellas e
+espalhava no aposento uma tenue claridade.
+
+Veio então a Henrique a consciencia do logar em que estava, e uma
+alegria profunda lhe dilatou o coração.
+
+O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de pesadêlos, ou de somnos
+febris, não avalia por certo o contentamento intimo, que se apossa das
+desgraçadas victimas d'esses demonios nocturnos, quando por excepção
+elles as deixam em paz, e lhes respeitam o somno de uma noite completa.
+Acordar só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis prazeres, a que
+elles aspiram na vida.
+
+Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor; a arca do peito
+expande-se-lhes mais livre e as sombras do espirito dissipam-se-lhes com
+aquelle clarão matinal.
+
+Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos mezes,
+dormira de um somno a noite inteira.
+
+Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade
+de cantar.
+
+Mas o som, que o acordára, aquella nota unica, em que se confundiam
+todas as notas da sonhada orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.
+
+Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu que era o chiar dos
+carros--o mesmo som, que na vespera o irritára, agora assim a distancia,
+estava-lhe agradando, como nota extrahida por mão habil das cordas de um
+violino.
+
+Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella manhã o incitava ao
+exercicio, rara disposição no indolente filho da capital, que tinha por
+habito ouvir o meio dia na cama.
+
+Ergueu-se e abriu as janellas.
+
+Não é licita a comparação entre a mais surprehendente transmutação de
+uma d'essas apparatosas magicas, que tanto extasiam as multidões
+embasbacadas nas plateias e camarotes de um theatro, e as que de
+instante para instante, realisa a natureza. Descerrando o véo de nuvens
+que encobre o fulgor do sol, elevando, acima do horizonte, esse
+magestoso lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor que illumina
+as noites desanuviadas, a natureza opéra, a cada momento, as mais
+admiraveis e completas metamorphoses.
+
+Durante o somno de Henrique realisára-se um d'esses effeitos magicos.
+
+Abrandára gradualmente a violencia do sul; o vento, mudando, voltou em
+sentido opposto a grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;
+luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram perante o
+alvor do dia, e quando o sol assomou por sobre a crista das serras,
+estendia-se-lhe deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que
+tinha a percorrer. Só, muito para o occidente, ainda algumas nuvens
+amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve
+tingiu de carmim e de ouro.
+
+Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, cheia de aromas, que vem
+dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique,
+quando elle abriu as janellas.
+
+A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito uma exclamação de
+prazer!
+
+A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste que, com o coração
+apertado, atravessára na vespera, parecia outra.
+
+O sol da manhã baixára sobre ella, dissipára-lhe as sombras,
+colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersára-se em
+iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a
+de aromas, animára-a de cantos, transformára-a emfim na mais risonha
+paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas
+galas do Minho, tinham nunca repousado.
+
+O inverno despojára parte d'essas galas; embora! Até da propria nudez de
+algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos
+despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza
+poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde não haja uns tons
+escuros de melancolia?
+
+Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se
+cançava de admirar aquella scena.
+
+Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n'um momento,
+elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina.
+
+Pois era esta a mesma aldeia, através da qual elle cavalgára de noite?
+
+Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que tão do fundo da alma
+amaldiçoára na vespera, produziam, vistos então d'alli, os mais
+pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo valle,
+opulento em vegetação, e que a certa distancia se continuava insensivel
+e gradualmente com uma amenissima collina.
+
+Além, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os
+de folhas, tingira quasi da côr da violeta, contrastava com a fronde
+sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a
+qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mão do
+lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas
+encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos
+aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres,
+alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas
+conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor
+trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas
+e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado.
+Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um
+só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida
+pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de
+musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os
+paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos
+ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de
+vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições
+a pastel da mão de Pillement.
+
+A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e
+disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava
+observando.
+
+--É preciso sair! é preciso sair!--disse Henrique comsigo.--Quero vêr
+isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por
+aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras.
+
+E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa
+_toilette_, saiu do quarto.
+
+Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.
+
+--Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?
+
+--Deliciosamente minha querida tia--respondeu elle, abraçando-a com
+maior affecto e bom humor do que na vespera.
+
+O que é sentir-se a gente bem!
+
+--Então não estranhaste?
+
+--Estranhei immenso!
+
+--Sim?!--disse a tia, mortificada.
+
+--Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a
+mais estranha das occorrencias.
+
+A tia sorriu satisfeita.
+
+--Pois antes assim. E agora...
+
+--E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um
+paraiso terreal.
+
+--Espera, menino. Não vás sem almoçar.
+
+--Almoçar! Pois que horas são?
+
+--Não é cêdo; são já sete horas.
+
+--Já sete horas!
+
+E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr
+como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.
+
+--E então acha que se pode almoçar ás sete horas?
+
+--Por que não? Se está já prompto.
+
+--Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia.
+Principiemos por este.
+
+Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de
+leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo.
+
+Foi por elle que principiou o almoço.
+
+Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro,
+o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os
+physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das
+georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle,
+que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado
+sôro, a que estava habituado na cidade.
+
+D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o
+costume, continuadamente.
+
+Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.
+
+Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e
+paciencia.
+
+Falaram em muitas coisas.
+
+A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança,
+sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas,
+offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da
+terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já
+mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir
+visital-as aquella manhã.
+
+Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o
+almoço apressou-se a sair para o campo.
+
+--E se te perdes, menino?--lembrou a tia.
+
+--Se me perder, farei por achar-me.
+
+Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.
+
+Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe
+parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O
+aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a
+mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas
+graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.
+
+Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era
+novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres
+pensamentos.
+
+Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear
+ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa
+terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas,
+sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta
+d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços,
+creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á
+umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do
+lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se
+dirigiam todos os olhares.
+
+Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo
+satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte
+pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o
+distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas.
+
+Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe
+serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa,
+Henrique entrou na repartição.
+
+Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e
+dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal
+do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento
+Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e
+solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em
+interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso
+paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de
+posse s. s.^a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se
+procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras
+antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador
+de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares,
+e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.
+
+Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou
+cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para
+cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o
+nome de Henrique.
+
+Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e,
+achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito,
+convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas
+alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.
+
+Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de
+certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio
+não chegára ainda.
+
+--Saiba v. s.^a que ainda não--respondeu o sr. Bento Pertunhas--mas não
+deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem
+andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.^a ahi
+vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do
+Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um
+inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está
+paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de
+latinidade.
+
+--Ah!...
+
+--É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que
+eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão
+era a musica. Eu ainda queria que v. s.^a me ouvisse tocar trompa, que é
+o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.^a se demorar ha de
+fazer-me o favor...
+
+--Com muito gôsto.
+
+--Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação!
+
+--Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas
+deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de
+arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.
+
+O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.
+
+--Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode
+achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma
+vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que
+se tem falado no mundo! Se é que se falou--accrescentou em voz baixa.
+
+--Então duvida que se falasse latim?--perguntou Henrique, sorrindo.
+
+--Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella
+endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar
+volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa
+desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando
+precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o
+latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As
+armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem
+percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles
+punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É
+quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois--continuou elle, enthusiasmado
+com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação--e depois as
+differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós
+cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor;
+diz-se _regnum_ e _regna_ e _regni_ e _regno_ e _regnis_ e até
+_regnorum_. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua!
+
+Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento
+Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor
+pode imaginar, depois do que ouviu.
+
+--Ai, meu caro senhor--continuou o atribulado _magister_--eu se me vejo
+um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei
+de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.
+
+É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a
+Virgilio.
+
+Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de
+facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de
+cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia
+Virgilio 1.^o, 2.^o e 3.^o, como quem se refere aos monarchas homonymos,
+que succederam n'um mesmo reino.
+
+--Não me salvo se morro mestre de latim--proseguia elle.--Afunda-me no
+inferno o trambolho da syntaxe.
+
+Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta,
+principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não
+comportava mais ninguem.
+
+--Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi
+vem!--diziam todos á uma.
+
+O funccionario principiou a impacientar-se.
+
+--Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer?
+Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem
+logar. Não vêem que estão molestando este senhor?
+
+Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os
+outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo,
+como se lhe valesse algum especial privilegio.
+
+--Saia você, mulher--dizia um.
+
+--E você por que não sae? Olha agora!
+
+--A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá
+por estar aqui não é que...
+
+--Pois então saia tambem. Ora essa!
+
+--Ó santinha, não empurre.
+
+--Ó filho, quem é que lhe faz mal?
+
+--Por onde é que se quer metter, homem de Deus?
+
+--Eu não sou menos que os outros.
+
+--Que quereis vós d'aqui, canalhada?
+
+--Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.
+
+--Espera que eu te falo.
+
+Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas
+declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar
+para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.
+
+Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a
+alvoroçada anciedade do povo.
+
+Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e
+da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos
+sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um
+observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos
+semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta
+de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia
+da vida de cada um.
+
+Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem
+encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas
+vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os
+pezares!
+
+Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato
+dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem
+segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no
+anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos
+com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de
+desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com
+que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem
+depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta
+impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo
+momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em
+que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada.
+
+Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao
+mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de
+assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que
+formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu
+fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de
+cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.
+
+Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que
+seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas
+abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para
+receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que
+lhes dominava os animos.
+
+Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a
+Henrique:
+
+--Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar
+trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e
+expressão.
+
+Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação
+d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.
+
+--Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim?
+
+--Ah! pois já as espera hoje?
+
+--Não é provavel; porém...
+
+Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa
+a leitura dos sobrescriptos.
+
+Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo.
+
+A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um
+grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos
+accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
+
+Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que
+diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.
+
+--Luiza Escolastica, do logar dos Cójos--lia mestre Pertunhas.
+
+--Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!--exclamou uma mulher
+joven, apoderando-se ávidamente da carta.
+
+--Joanna Pedrosa, de Serzedo--continuava elle.
+
+--Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?--disse uma velha, pobremente
+vestida.
+
+--Será do seu Antonio, será--respondeu o insensivel funccionario;--o que
+lhe posso dizer é que traz obreia preta.
+
+A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo
+aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da
+loja, a chorar lastimosamente.
+
+--Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella--disse
+um dos circumstantes.
+
+--Coisas do mundo!--respondeu outro.
+
+Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura.
+
+--João Carrasqueiro.
+
+--Prompto, senhor--bradou um velho.
+
+--A mezada, hein?--disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos
+oculos.--O rapaz não se esquece.
+
+--Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.
+
+--D. Magdalena Adelaide de...
+
+--É a morgadinha, é a morgadinha--disseram a um tempo muitas vozes.
+
+--Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação--disse o
+Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de
+fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou:
+
+--Leve-lh'a a casa.
+
+E proseguiu:
+
+--Augusto Gabriel...
+
+--É o mestre-escola...
+
+--Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui...
+pode ficar... ainda que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve
+tambem...
+
+--João Cancella.
+
+--É o João Herodes.
+
+--Esse foi a Lisboa.
+
+--Então, quando vier, que appareça.
+
+--O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle.
+
+--Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com
+o seu zabumba e deixe lá os outros.
+
+A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu,
+redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um
+fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se
+á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario
+fechou a tarefa.
+
+--E acabou-se.
+
+Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má
+vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel
+sorte.
+
+Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por
+muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas
+amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em
+melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de
+obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte
+imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.
+
+Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu
+interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão
+satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de
+trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra
+occasião, bastaria para o fazer doente.
+
+Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a
+deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um
+rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.
+
+Parou a certificar-se.
+
+Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde
+tentava passar, que se estava falando.
+
+Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma
+scena, que lhe moveu a curiosidade.
+
+Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com
+religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes
+fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava
+montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e
+simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que
+Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas
+paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os
+collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a
+periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.
+
+Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço
+do immovel quadrupede.
+
+A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do
+rancho.
+
+Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao
+socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique,
+as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar
+penetrar bem na intelligencia do auditorio.
+
+Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos
+antes, vira na casa do correio.
+
+Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora.
+
+Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave,
+elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma
+mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa
+côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o
+desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi
+dar nome apropriado.
+
+Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos,
+porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser
+alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a
+magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular,
+se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores.
+
+Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse;
+olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar;
+coração, que não se perturbasse na sua presença.
+
+Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e
+punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente
+dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da
+airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a
+cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas
+delicadas.
+
+Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão
+inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a
+essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.
+
+Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o
+carinho com que ella o fazia.
+
+Henrique applicou a attenção.
+
+--...«E por isso, minha mãe»--lia ella--«se Deus me ajudar, espero
+dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale
+vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que
+tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.»
+
+Aqui a leitora parou para perguntar:
+
+--Então que historia é esta das arrecadas, Anna?
+
+--É, senhora, que o aluguer estava vencido...
+
+--E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?
+
+--Ora, senhora, bem basta o que...
+
+--Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda
+a coragem!
+
+E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de
+alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.
+
+Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão
+a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos
+de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e
+desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para
+mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre
+mulher, a quem era dirigida.
+
+Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de
+filho para mãe; outra de noivo para noiva.
+
+Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e
+no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel
+bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados
+conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão.
+
+A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era
+evidente que estava exultando de jubilo.
+
+Com esta terminou a leitura.
+
+Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na
+carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um
+sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura
+raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma
+castellã rodeada dos seus vassallos.
+
+Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de
+convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir.
+
+Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil
+rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu
+rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por
+entre as arvores do caminho.
+
+Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em
+que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella
+preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era
+necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e
+como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára?
+
+Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia,
+para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo;
+tinham dispersado.
+
+Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em
+que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas
+lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar
+ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras
+do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não
+transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.
+
+Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do
+Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.
+
+
+
+
+IV
+
+
+A casa do Mosteiro, com a quinta annexa á casa, como o dava a entender o
+nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem
+monastica.
+
+Era um d'estes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruinas
+ou transformados em solar de alguma _notabilidade_ provinciana. Ao de
+que falamos coubera o ultimo destino.
+
+Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na lista dos bens
+nacionaes, fôra, por insignificante preço, vendido a um modesto
+proprietario das immediações, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais
+convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se
+inaugurava no paiz.
+
+E em tão auspiciosa hora lhe acudira aquella inspiração, que, em pouco
+tempo, lhe restituia a quinta o capital empregado, regalando-o todos os
+annos com não calculados juros, e elle, sem intermittencias, cresceu
+d'ahi por deante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a familia
+no numero das mais abastadas d'aquella terra.
+
+A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos e reformas
+effectuados n'ella, offerecia, ainda claros, muitos vestigios de seus
+primitivos usos. Não era raro encontrar-se, aqui e alli, em pé uma cruz
+de pedra marcando antigos logares de devoção; no alto de algumas portas
+conservava-se visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de
+inscripções latinas; nas paredes da arcaria, em que se apoiava a face
+posterior do edificio, mantinha-se ainda um azulejo contemporaneo dos
+frades; finalmente resistira a successivas reformações certo colorido
+monastico, que só após muitos annos se dissiparia de todo.
+
+Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e magestosa álea
+de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados,
+por pouco trilhada, crescia espêssa e verdejante. Abria-se, ao fim
+d'esta rua, o alto portão do pateo.
+
+Henrique, deixado só pelo guia ao chegar alli, foi caminhando
+vagarosamente por esta avenida, dominado por a intima commoção e
+sentimento quasi de temor, que se apodera de nós, em todos os logares a
+que se ligam memorias do passado.
+
+A phantasia estava-o transportando a tempos, a que não chegavam já as
+suas recordações, ás épocas, em que, por entre estas arvores gigantes,
+se via passar, como um phantasma, o habito escuro do monge, cuja sombra
+o sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e
+estirada, ao longo d'aquella mesma avenida.
+
+Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao portão,
+transpondo o qual se introduziu no pateo. Era um largo terreiro de
+perfeita fórma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e
+lateralmente por elevadas paredes, armadas á maneira de pannos de Arrás,
+com tapeçarias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se
+dois tanques de vasta capacidade.
+
+No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas
+de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e purissima agua;
+porém as medidas economicas do ultimo proprietario e as exigencias dos
+seus projectos agricolas haviam derivado para outros fins, parte d'esta
+abundante veia, de maneira que tres d'aquellas bacias estavam agora
+completamente a sêcco.
+
+Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, os funchos
+odoriferos, havia muito que tinham invadido a bôca dos encanamentos
+inuteis onde encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas e
+myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias de caracoes.
+
+A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel pelo lado architectonico.
+A arte não tivera fadigas, ao concebel-a; o cinzel pouco se embotára a
+executal-a; nem uma columna singela, nem um florão, nem um tympano lhe
+davam a menos pretenciosa apparencia monumental. Imagine-se uma vasta
+casaria de um andar além do terreo, com muitas janellas de peitoril e
+uma só varanda de pedra sobranceira á porta principal; acima do telhado,
+uma especie de agua furtada, de construcção evidentemente posterior e
+aconselhada aos proprietarios modernos por conveniencias de accommodação
+domestica; e ter-se-ha concebido o edificio.
+
+Emquanto Henrique se occupava a examinar estas particularidades, um
+velhito, que, sentado em um banco de pedra, que havia á porta de casa,
+se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do
+recem-chegado, tossindo e arrastando os passos.
+
+Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia rustica, meia urbana,
+depois de o saudar com grave cortezia, que deixou a descoberto o
+_solideo_ fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se
+havia alguma coisa, em que o pudesse servir.
+
+Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar
+as senhoras, com nova cortezia lhe fez signal para que o acompanhasse, e
+ambos atravessaram o pateo em direcção da casa.
+
+No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferencia para deixar
+passar Henrique; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e,
+voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de annunciar.
+Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significação
+teve de explicar, porque o velho não a comprehendia bem.
+
+A final porém retirou-se por outra porta, levando o bilhete.
+
+A sala, em que Henrique ficou esperando, era toda mobilada com pesadas
+cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e
+pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, pertencentes
+provavelmente aos antigos proprietarios do mosteiro.
+
+No momento em que o velho servo, que era uma especie de feitor honorario
+da casa, abriu outra porta da sala, para ir annunciar á familia a visita
+de Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura com um tinir de
+louças e de crystaes, as vozes e risos de creanças, que falavam ao mesmo
+tempo. Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, e após uma
+voz de mulher, de timbre fresco e agradavel, disse audivelmente e como
+em resposta ás palavras do criado:
+
+--Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! Mande entrar para aqui.
+
+O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a que ainda a mesma voz
+redarguiu:
+
+--O que não é bonito é fazel-o esperar. Ande, vá.
+
+Torquato--chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram--appareceu
+outra vez e fez signal a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.
+
+Henrique que presentiu ir achar-se na presença de uma mulher nova e
+porventura bonita, correu, com instincto de perfeito homem de côrte, os
+dedos pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente o laço da
+gravata e entrou.
+
+Era completo o contraste d'este aposento com o primeiro; transpondo
+aquella porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o caracter de
+vetustez, que até alli reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto,
+modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobilia toda de um
+cunho de actualidade, visivel aos olhos menos pesquizadores. Como para
+tornar mais frizante o contraste, a presença do velho feitor estava aqui
+substituida por a de duas creanças, a mais velha das quaes mal passaria
+dos seis annos.
+
+O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como que uma cortina
+corrida sobre o passado. A porta, que elle transpuzera, a barreira que
+separava dois seculos.
+
+Sentadas no tôpo de uma longa mesa de jantar, coberta de louça fina
+ingleza, estavam as duas creanças que dissemos, com os seus babeiros
+brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sôpa. Em
+pé, á cabeceira, presidia ao _lunch_ infantil uma mulher, de quem
+Henrique só pôde notar vagamente os contornos geraes do corpo e não as
+particularidades das feições, porque, ficando voltada de costas á luz
+das janellas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras, que não favoreciam
+o exame.
+
+Ao vêr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:
+
+--Na aldeia a sala de recepções é aquella em que a gente se acha, quando
+lhe annunciam uma visita. É assim pelo menos que eu comprehendo o viver
+do campo.
+
+--E é assim que eu o aprecio, minha senhora--respondeu Henrique,
+approximando-se da mesa.
+
+As creanças, interrompendo a refeição, fitavam o recem-chegado com
+aquelles olhos espantados e penetrantes, com que ellas, promptamente, e
+quasi sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, decidem para si
+das sympathias ou antipathias de que lhes é merecedor um estranho, a
+quem vêem pela primeira vez.
+
+A mulher, que presidia ao banquete, não suspendeu com a entrada de
+Henrique a occupação domestica, na qual estava empenhada. Mostrava
+receber-lhe a visita com um perfeito «á vontade», que nada tinha porém
+de affectado.
+
+--Não sei se v. ex.^a sabe...--ia dizendo Henrique, quando, ao chegar
+perto d'ella, parou subitamente em meio da phrase.
+
+Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a
+interessante rapariga, que tanto o preoccupára.
+
+Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora
+melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um
+primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graça como
+singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie
+de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de fórma pouco mais ou
+menos similhante á que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi
+sempre absurda, e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada
+denominação de _zuavo_!
+
+A surpreza de Henrique não passou despercebida a quem era causa d'ella e
+que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação.
+
+--Perdão, minha senhora--disse Henrique, comprehendendo aquelle
+gesto--mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não
+era estranha.
+
+--E sou eu essa pessoa?
+
+--É v. ex.^a effectivamente.
+
+--Pois já nos vimos?
+
+--Já... quero dizer, eu já vi v. ex.^a
+
+--Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter
+visto nunca. Apesar d'isso sei que é o sr. Henrique de Souzellas,
+sobrinho d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; não é
+verdade?
+
+--Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.^a não é antigo tambem;
+data de algumas horas apenas.
+
+A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as
+sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu á cabeça
+uma ligeira inclinação sobre o hombro, d'onde resultou para aquella
+gentil physionomia a mais adoravel expressão de estranheza, que pode
+animar um semblante de mulher.
+
+--Esta manhã--proseguiu Henrique, a quem os encantos d'aquelle gesto não
+tinham passado despercebidos--assisti a uma scena commovente. O logar
+era uma deveza; uma joven senhora... joven e... e com outras qualidades,
+além d'esta, para excitar attenções, lia, em voz alta, as cartas que
+algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio...
+
+Ella não o deixou continuar.
+
+--Ah! entendo agora. Viu-me? Já andava por fóra? Não o suppunha assim
+madrugador. Mas onde estava tão escondido? Vejo que é indiscreto... Não
+admira, habitos da cidade. É verdade, é. Aquella gente encontrou-me no
+caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e não me
+deixou sem que eu lhe abrandasse a ancia de coração que a affligia.
+Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, já pensou no supplicio que
+deve ser olhar a gente para uma folha de papel escripta, na qual sabemos
+que se fala de uma pessoa querida, e não ter poder para decifrar aquelle
+enygma? Que martyrio! Eu por mim, confesso que me falta o animo para
+recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria para negar uma gotta d'agua
+ao desgraçado que visse a morrer de sêde. A crueldade seria quasi igual.
+Não lhe parece?
+
+Henrique formulou um galanteio, que ella porém não ouviu, entretida já a
+escutar o que uma das creanças lhe dizia.
+
+--Lena, olha a Annica, que está a deitar a sôpa d'ella no meu prato.
+
+--Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro a deitou no meu.
+Não tem vergonha de mentir!
+
+--Então--disse Magdalena, que a este nome correspondia a contracção
+familiar, de que se serviam as creanças.--Olhem agora se teem juizo.
+Vejam se querem que eu vá dizer á mamã que venha para aqui.
+
+--Não é ella a mãe, visto isso--pensou Henrique, como quem modificava
+uma opinião que concebera antes e folgava com a modificação.--Será irmã?
+Talvez... Ou mestra... É mais provavel que seja mestra. Esta mulher foi
+de certo educada na cidade. Tem uns ares distinctos...
+
+E elevando a voz:
+
+--V. ex.^a está-me recordando uma scena de um precioso livro, que nunca
+me canço de ler.
+
+--Qual é?
+
+--Werther.
+
+--Ah!
+
+--Conhece?
+
+--Conheço... quero dizer, li-o, por acaso, ha pouco tempo. Compara-me a
+Carlota? É por estar a distribuir as rações d'estas creanças? Que mulher
+ha que não seja Carlota, n'essa parte? Em todas as casas se passa uma
+scena assim. Bem se vê que não tem familia.
+
+--Por quê?
+
+--Por lhe fazer tanta sensação o espectaculo d'esta.
+
+--É certo--respondeu Henrique com melancolia.--Deve ser essa uma das
+causas; mas não a unica--accrescentou galanteadoramente.
+
+E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora
+tinha lido Werther.
+
+Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:
+
+--Então que lhe parece esta nossa aldeia?
+
+--Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que me foi desagradavel a
+impressão recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço.
+Esta manhã, porém, a transformação foi completa. Estou encantado,
+fascinado! N'uma palavra, minha senhora, eu, cidadão em corpo e alma,
+reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo.
+
+--Desconfie da mudança rapida. Habitos radicados, qualidades ou defeitos
+de educação não se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará
+por Lisboa outra vez.
+
+--Talvez não. Hoje estou até em acreditar que tinha razão o doutor, que
+me prometteu a cura das minhas doenças, se me costumasse devéras a estes
+habitos campestres.
+
+--Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?
+
+--Por que não? Hoje já almocei ás sete horas, já andei mais do que uma
+semana inteira ando em Lisboa. E inda tenho por vêr as raridades da
+terra.
+
+--As raridades?! E que raridades são essas que inda tem para vêr? A
+nossa pobre aldeia não lhe merece essa ironia.
+
+--Então acha tão pouco curiosa esta terra? Do quasi nada que d'ella
+observei esta manhã, parece-me até...
+
+--Ai, se fala da natureza, é outra coisa. A cada passo se encontra um
+ponto de vista, que nos obriga a uma exclamação. Mas ha por ahi certos
+cicerones, que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas da arte.
+Peça a Deus que o livre d'esse flagello.
+
+--V. ex.^a assusta-me. Embora; se lhes cair nas mãos, farei por achar
+curioso o que elles acharem. Vae ser esse o meu systema de cura.
+Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o
+regimen que me prescreveu o medico, quando me receitou o campo, a titulo
+de emolliente; se o seguir, salvo-me.
+
+--E não o diga a rir. Se quizer prender-se á aldeia, abjurar os
+attractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo; principiar por
+cultivar o interesse por as questõesinhas da terra; deve, por exemplo,
+declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia ou pela junta de
+parochia contra o abbade; ralhar do regedor na questão com os
+taberneiros ou defendel-o. Emquanto não chegar a isso, desconfie da sua
+acclimação.
+
+--Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. Outra coisa necessaria
+é deixar-me convencer ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito
+das notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em perpetua
+admiração deante de uns certos nomes famosos que ha sempre em todas as
+terras pequenas, e que nos atiram á cabeça a cada momento. Por exemplo,
+aqui já sei de um, com que encherei a bôca a proposito de tudo; é o de
+uma celebre morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouço falar, desde
+que puz os pés, ou por mim a alimaria que me trouxe, n'este productivo
+torrão.
+
+Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.
+
+--Então com que, tem ouvido falar muito n'essa morgadinha?
+
+--Oh! mas não faz ideia; de uma maneira desesperadora. Não ha pinhal,
+quinta, azenha, choça ou lameiro que não pertença a essa entidade, para
+mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, como um estribilho
+de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na
+loja do correio, em toda a parte o ouço pronunciar. Parece que voga nos
+ares.
+
+--Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.
+
+--Qual! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ella. E demais
+parece-me que a estou a vêr.
+
+--Ora diga. Então como a imagina? Annica, não tens ahi um guardanapo?
+
+--Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dicto tudo; uma senhora
+nutrida, a rever saude por todos os póros, encarnada como uma romã,
+sobre quem os vestidos á moda assentam como pendurados de um cabide, as
+mãos cheias de anneis, meias luvas de retroz, um chapéo com uma
+cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça... V. ex.^a ri-se?
+Acertei?
+
+--Parece-me que sim; mas julgue-o por si já que tem á vista o original.
+
+--Como?!
+
+--A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.
+
+--Vossa Excellencia!...
+
+Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito
+tempo sem saber como sair da situação em que se puzera.
+
+Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos riam, por contagio, sem
+saberem de quê. Tudo augmentava pois a confusão de Henrique.
+
+--Ora confesse--insistia cruelmente Magdalena--confesse que o está
+lisonjeando a exactidão das suas conjecturas.
+
+Henrique teve emfim uma lembrança. Tirou do bolso a carteira, em que,
+horas antes, esboçára rapidamente a figura esbelta da morgadinha,
+rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:
+
+--Veja v. ex.^a se esse esboço, apesar da sua imperfeição, está de
+accordo com a estupida concepção, que eu formára.
+
+Magdalena lançou a vista para a carteira e sorriu.
+
+--Ah! desenha?
+
+--Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. Os resultados são
+lastimosos, como estes. Perdôe-me o original, que julguei possivel
+copiar, o desacato, mas...
+
+Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.
+
+--Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo advertil-o de uma coisa, sr.
+Henrique de Souzellas. Não ha nada tão mal empregado como uma fineza no
+campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez o achasse pouco
+delicado... ou pelo menos pouco amavel, se me não dirigisse d'essas
+phrases conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso lá. Aqui acho-as
+affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da scena. Ha tanta
+semceremonia no campo! Aqui todos nos tratamos como parentes: ha de vêr.
+Não repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem nem sequer tirar
+os babeiros a estas creanças? Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa...
+
+--Então v. ex.^a já lá esteve?
+
+--Eu nasci lá e lá me eduquei.
+
+--Ah! bem se vê.
+
+--Ah? Ahi está um _ah_, que eu desejaria muito que me explicasse.
+
+--Não me será difficil fazel-o. É que antes já de ouvir falar v. ex.^a,
+só ao vêr certa distincção, certa elegancia de maneiras, conjecturei...
+
+--Basta. É um _ah_ portanto, que tem umas poucas de más qualidades.
+
+--Devéras? Uma interjeição tão innocente!
+
+--Pelo contrario, é a voz mais perfida e inconstante da nossa lingua;
+tudo exprime, a hypocrita. O seu _ah_ é vaidoso, adulador e iniquo pelo
+menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia que ainda se
+abrigue no seu coração lisbonense; a adulação competia-me castigal-a,
+mas perdôo-lh'a porque quero ainda suppôr que é um symptoma da doença
+das cidades, a meu vêr, a principal doença, que o obrigou a procurar a
+aldeia; da iniquidade, da injustiça, que faz á educação que se pode dar
+na provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe
+apresentar minha prima Christina, uma rapariga, que tem vivido aqui
+sempre e que protesta contra essa sua opinião; possue tudo quanto pode
+dar de bom a educação das cidades, e, o que mais vale, aquillo que lá é
+tão facil perder-se depressa, uma candura adoravel. É a irmã mais velha
+d'estas creanças--accrescentou, pousando a mão na cabeça dos pequenos,
+que comiam e conversavam um com o outro.
+
+--Mas v. ex.^a...
+
+--Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no caminho das admoestações,
+permitta-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei de por força
+ter. Não me sôa bem o impertinente tratamento de excellencia, que me dá.
+Essa excellencia está a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e,
+confesso-lhe ingenuamente que me custaria a voltar na lingua uma palavra
+tão comprida.
+
+--Como quer então que a trate?
+
+--Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco não me comparou á Carlota de
+Goethe? Deixe-me pois adoptar uma lembrança d'ella. Está certo de que
+tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? É um
+tratamento como outro qualquer; e entre nós mais justificado, porque
+sendo o sr. Henrique sobrinho direito de D. Dorothéa, e teimando minha
+tia Victoria, a mãe d'estes pequenos e de Christina, que D. Dorothéa é
+ainda uma especie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós a
+final de contas vimos a ser uma especie de primos tambem. Pelo menos
+assim o sustentou e decidiu hontem minha tia Victoria; e ha de vêr como
+por primo o tratará! É um tratamento menos incómmodo; eu chamar-lhe-hei
+primo Henrique; chamar-me-ha, se quizer, prima Magdalena, e
+desterraremos para sempre a antipathica senhoria e excellencia;
+concorda?
+
+--Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso,
+admittido pela fidalguia em Portugal, de que «os primos dos nossos
+primos, nossos primos são.»
+
+--Fica pois ajustado?
+
+--Fica ajustado.
+
+--Bem. Mas que ia dizer ha pouco?
+
+--Nem eu já sei... Ah!... Perguntava se tinha estado muito tempo em
+Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui.
+
+--Isso é nem mais nem menos do que pedir-me a historia da minha vida.
+Seja; é um sacrificio inevitavel a quem se vê pela primeira vez.
+Deixe-me primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.
+
+E, depois de partir a cada creança uma fatia de queijo, a morgadinha
+principiou:
+
+--A historia é curta e sem peripecias, tranquillise-se. Eu sou filha de
+Manuel Bernardo de Mesquita e...
+
+Este nome era o de um dos principaes vultos politicos da época, e que
+então militava no campo opposicionista, sendo indigitado para ministro
+na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade
+politica, tendo sempre advogado no parlamento as ideias mais liberaes, e
+militado no partido progressista.
+
+Henrique de Souzellas, que conhecia todas as personagens de importancia
+no paiz, fitou Magdalena com olhar estupefacto: tão longe estava de
+encontrar alli a filha de um futuro ministro.
+
+--Filha do conselheiro Manuel Bernardo! V. ex.^a?
+
+--Excellencia! Esquece-se da nossa convenção? Repare! É verdade. Não
+sabia que meu pae era d'aqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda
+actualmente n'um collegio em Lisboa, somos os unicos filhos de meu pae.
+Nasci, como disse, em Lisboa, mas as continuas enfermidades de minha mãe
+fizeram-nos vir para aqui viver na companhia d'ella; aqui mesmo morreu,
+e aqui está sepultada. O Angelo nasceu já n'esta casa. A morte de minha
+mãe deixou-me orphã aos doze annos, e incompleta a educação que ella
+principiára a dar-me e para a qual, se vivesse, ella só bastaria. Fui
+pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha
+educação. Mas, ao chegar á idade dos quinze annos, receiando meu pae que
+os ares da cidade desenvolvessem em mim germens de molestia, que
+porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre
+passava alguns mezes no anno, e para onde me chamavam tambem habitos
+adquiridos em creança. Eu sou muito aldeã. Para aqui vim pois. A morte
+de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia
+Victoria, que ficou desde então um pouco... um pouco... com pouca
+paciencia para olhar por as coisas domesticas. Isto creou-me novos
+deveres; havia aqui muitas creanças, estas duas, outras que estão lá
+dentro, e Christina, que era então creança tambem; occupei-me a ajudar
+minha tia.
+
+--E tão admiravelmente, que a mais carinhosa mãe o não faria melhor.
+
+--Dou-me bem com as creanças, dou. E a meu pae devo, em parte, o ter
+aprendido cedo esta sciencia. Porque é uma sciencia tambem.
+
+--Então como procedeu o conselheiro para a ensinar?
+
+--Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas umas ideias muito
+singulares. Excellentes as acho eu. Oh! não imagina que boa e excellente
+alma é a de meu pae! Era eu uma creança, tinha onze annos, talvez,
+quando elle, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo comnosco,
+me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberg. Nos
+primeiros dias não me fartava de a vêr, de a beijar, até commigo a
+deitava. Oito dias depois succedia o que era de esperar, já nem d'ella
+sabia. Meu pae notou-o.--Então, Lena--aqui todos me chamam assim--já não
+gostas da tua boneca?--Disse-lhe eu: Gosto, mas...--Bem sei, já fizeste
+tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, pela sua parte ella nada faz
+por ti, enfastias-te, canças-te de conceber, a cada momento, brinquedos
+novos. Tens razão; onze annos já não é idade em que o interesse se
+sustente com tão pouco, é necessario mais. Ora dize-me, Lena,--continuou
+elle--se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braços e os olhos,
+que te sorrisse, que chorasse tambem, que te beijasse até...--Pois ha
+bonecas assim?--perguntei eu, admirada.--E desejaval-a?--Oh! se a
+houvesse!...--Trago-t'a ámanhã. Não dormi aquella noite a pensar na
+boneca. No dia seguinte apresentou-me meu pae uma creança de um anno,
+orphã de uma pobre familia, que uma epidemia extinguira, e
+disse-me:--Ahi tens a boneca que te prometti, Lena; vou confial-a aos
+teus onze annos. Veremos se tens juizo para brincares com ella. É assim
+que eu quero que aprendas os deveres de mãe, que é a verdadeira sciencia
+apropriada a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o desgosto
+dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer
+áquella pobre creança, fui avara nas suas caricias, troquei por ella
+todos os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a morte, quando, um
+anno depois, ella me expirou nos braços. Quando fui para Lisboa, já ia
+educada para amar creanças.
+
+Magdalena contára tudo isto naturalmente, sem a menor affectação, sem
+deixar até de attender aos primos, o que augmentava o interesse com que
+a escutava Henrique.
+
+--E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos Cannaviaes--concluiu
+ella, desatando o babeiro das creanças, que tinham terminado o _lunch_.
+
+--É verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, prima
+Magdalena?--perguntou Henrique, tomando ao collo uma das creanças, que a
+morgadinha pousou no chão.
+
+--É que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha
+madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
+perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa;
+chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeição, e,
+sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi começaram a
+chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo
+quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que
+sou proprietaria ainda. Foi uma como confirmação do titulo, que já desde
+creança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo na
+verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo
+Henrique da possuidora d'elle.
+
+--Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei a pessoa a quem elle
+pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso...
+
+--Vamos, vamos. Confesse que o titulo não é dos mais romanticos e que,
+de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de phantasia
+que ahi fez, da mesma maneira que deu á humilde e fiel jumenta, que eu
+montava ha pouco, a conformação e orelhas elegantes de um palafrem, e
+quasi me transformou em uma amazona ingleza.
+
+Henrique respondeu, sorrindo:
+
+--Na impossibilidade de reproduzir as graças naturaes, soccorri-me ao
+expediente das bellezas de convenção. Confesso o meu deploravel erro.
+
+--Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas
+arvores e refreie o sestro galanteador, com que está.
+
+--Por quem é! Não leve o rigor a tal extremo. Tão injusta é comsigo, que
+se recuse a acceitar, como naturaes e sinceras, as phrases que a sua
+presença inspira?
+
+--Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa creança, que tem no collo, o
+está encarando com os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim
+aqui!
+
+Henrique beijou as faces da creança, movimento em que não ia uma
+intenção menos lisonjeira do que nas phrases que dissera, porque elle
+percebia que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos primos.
+
+Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra
+creança mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma
+folha de papel.
+
+--Lena--dizia ella em alta voz.--Olha; queres vêr o que o sr. Augusto só
+me emendou hoje no thema francez?
+
+Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.
+
+--É o sr. Henrique de Souzellas--disse Magdalena.--O hospede da tia
+Dorothéa. Esta é Marianna, outra de minhas primas--accrescentou,
+voltando-se para Henrique.--Já vê que não faltam creanças n'esta casa; e
+ainda ha mais. É o que lhe dá o ar alegre que tem.
+
+Marianna cumprimentou Henrique e não se constrangeu por mais tempo;
+mostrando á prima a composição que o mestre lhe emendára, disse:
+
+--Ora vê que não tive muitos erros.
+
+Magdalena sorria, examinando o thema.
+
+Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Marianna, quando á mesma
+porta, por onde ella entrára, appareceu o mestre, de quem se falava.
+
+Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, era um rapaz de pouco
+mais de vinte annos de idade; de rosto pallido e physionomia
+intelligente.
+
+Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola de aldeia.
+
+Trajava com simplicidade, porém com asseio e gôsto, e havia em toda a
+sua figura certo ar de distincção, que feria quem pela primeira vez o
+visse.
+
+N'um leve pendor de cabeça, no olhar penetrante e fixo, e nos labios,
+como habituados a fecharem-se á saida dos pensamentos intimos, lia-se o
+caracter pouco expansivo d'aquelle adolescente.
+
+Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferencia.
+
+--Como vão os seus discipulos, sr. Augusto?
+
+--Optimamente, minha senhora--respondeu o interrogado.
+
+--O sr. Augusto--disse Magdalena, apresentando-o a Henrique--o primeiro
+mestre de meu irmão Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.
+
+--Esquece-se, minha senhora,--accrescentou Augusto--que de Angelo sou
+discipulo tambem, e mais discipulo do que fui mestre.
+
+--Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não devia, foi de que de
+Angelo é effectivamente mais do que mestre, é amigo; assim como de todos
+nós. Este senhor--continuou ella, concluindo a apresentação--é o senhor
+Henrique de Souzellas, que se esperava em Alvapenha; é ainda nosso
+primo.
+
+Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.
+
+--Teve carta de Angelo?--perguntou em seguida a morgadinha.
+
+--Não recebi ainda o correio de hoje.
+
+--Nem nós; e é de estranhar que meu pae pelo menos não me escrevesse!
+Angelo não virá passar a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce
+quando se vê aqui. É uma perfeita creança então.
+
+Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique ainda não vira, entrou
+n'este momento na sala, trazendo um masso de cartas na mão. Depois de
+cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, disse para
+Augusto:
+
+--A mamã deu-me essas cartas para o sr. Augusto escolher d'ahi aquellas
+que eu pudesse ler.
+
+--Eu verei devagar--disse Augusto, guardando-as n'uma pasta que trazia.
+
+--Ah! já temos o Eduardo a ler cartas!--disse a morgadinha, afagando o
+primo.
+
+--Pelo que vejo--disse Henrique de Souzellas, vendo Augusto em
+disposições de partir--tem uma vida muito occupada?
+
+--E tanto que sou obrigado a pedir licença para me retirar. Tenho de ir
+esta tarde a casa do Seabra...
+
+--Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?--perguntou Magdalena.
+
+--Ainda, sim, minha senhora.
+
+--E como vão essas mulatinhas?
+
+Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto que não devia lisonjear a
+vaidade do sobredicto brazileiro, se tomasse a peito os dotes
+intellectuaes das referidas mulatinhas.
+
+Passados segundos, Augusto retirou-se, apertando a mão a Magdalena que
+familiarmente lh'a estendeu, e a Henrique, que a imitou.
+
+--Ia apostar que vae alli uma intelligencia--disse Henrique ao vêl-o
+sair--algum d'esses grandes espiritos, que vivem e morrem ignorados e
+improductivos, porque os não aquece o sol do favor publico, nem os
+bafeja a aura da moda caprichosa. É terra de maravilhas esta, ao que
+estou vendo.
+
+--É um rapaz intelligente, é--disse a morgadinha--e uma alma generosa.
+Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. Não tem familia. O pae foi um
+pobre e honrado advogado de um logar perto d'aqui, que morreu quasi na
+miseria, deixando-o por educar. A mãe, que era d'estes sitios, para ahi
+veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, mestre de si
+mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Angelo e hoje é o seu melhor
+amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimonio para elle se
+ordenar: não quiz, e preferiu ser mestre-escola. Meu pae, que lhe
+reconhecia intelligencia para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada
+conseguiu. Não ha quem o arranque d'estes sitios.
+
+--Prende-o talvez alguma paixão?
+
+--Não sei. É certo que é um professor modelo. O seu primeiro despacho
+foi temporario; agora, porém, espera meu pae fazel-o effectivo; para o
+que já elle fez novo concurso. Já vê que ambições são as d'este rapaz.
+
+--Na verdade! com muito menos fundamentos ha quem aspire a ser ministro.
+Mas com certeza o coração entra como elemento no problema d'esse
+caracter.
+
+--Mas ainda agora reparo!--exclamou a morgadinha--eu esquecida a
+conversar, e sem avisar a minha tia e Christina da sua chegada! Não o
+fiz logo, porque as sabia occupadas em umas longas novenas, em que
+andam; mas agora é tempo. Vae, Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos
+dizer-lhes que está aqui o... o primo Henrique de Souzellas.
+
+Marianna e o irmão sairam a correr.
+
+--Vae conhecer duas boas almas--disse Magdalena, voltando-se para
+Henrique--minha tia é uma santa senhora, cujo peor defeito é suppôr-se
+victima dos criados; e Christina... Christina é um anjo.
+
+
+
+
+V
+
+
+Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia,
+que logo á primeira vista, aquella mulher lhe despertára.
+
+Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada
+reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a
+que tão espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e
+etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles,
+como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás
+suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica
+indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella.
+
+A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel,
+absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o
+menor constrangimento, proseguia nas suas occupações domesticas.
+
+Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala
+immediata.
+
+--Ellas ahi veem--disse a morgadinha.
+
+De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D.
+Victoria e Christina.
+
+A mãe vinha dizendo:
+
+--É o que eu digo... Não que vocês não querem crer! Ora vejam se isto se
+atura... se isto não é para metter uma pessoa no inferno!... Não tem que
+vêr!... Não ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja
+tão mal servida como eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados
+d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o que elles fazem, esse
+bando de mandriões!... Elle é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o
+Damião, elle é a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante... e não
+havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo! É forte
+coisa!... Compromettem uma pessoa! Então como está?--accrescentou ella,
+mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mão.
+
+Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este um olhar malicioso.
+
+Henrique correspondeu delicadamente á saudação das senhoras e procurou
+justificar os criados.
+
+--Não m'os desculpe,--atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de
+voz--aquillo é de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem
+me tira isto da cabeça... Aquillo é de proposito!
+
+--Mas a mamã não vê que as criadas estavam comnosco á novena?--lembrou
+timidamente Christina.
+
+--Pois que não estivessem. Quem tem serviço a fazer não pode ouvir
+novenas.
+
+--Mas se a mamã é que as mandou!
+
+--Pois sim... pois sim... mas... mas ellas é que me deviam dizer que
+tinham que fazer. Então eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas
+obrigações? Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas então
+vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada?
+
+Henrique principiou a falar para desvanecer a irritação de D. Victoria.
+
+Como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a
+occasião para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que
+estão em scena.
+
+D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel dos quarenta e
+tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descripção.
+Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo,
+e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez.
+Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito
+sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava
+forçar o espirito a abraçar alguma ideia mais complexa; mãos rotas com a
+pobreza; intolerante, em theoria, com os ladrões e malfeitores, porém
+felizes d'elles se d'aquellas mãos lhes dependesse a condemnação; eis o
+que era D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; e esta
+idade gosa de privilegios, que eu não posso infringir. O leitor não me
+perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de
+Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua juventude e ao seu typo
+feminino. Reparemos pois.
+
+Christina era mais bonita do que bella. Não havia n'aquelle rosto uma só
+feição, que não fôsse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos
+meigos e quebrando-se com suavidade infantil; bôca, d'onde parecia
+sempre prestes a sair um afago ou uma consolação; voz, que da muita
+piedade d'aquelle bom coração, tirava ás vezes modulações commoventes;
+n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais
+inspirados artistas, cuja mão representou na téla os augustos mysterios
+do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas não
+procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e
+como por magnifico influxo, a attenção dos olhos, uma d'essas
+particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com
+arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais
+fascinador; temperavam-se alli tão completamente todas as feições, que a
+attenção não se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que
+lhes diminuia muito a intensidade. É o grande senão dos rostos
+harmonicamente perfeitos.
+
+Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria
+sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, não se sentia dominado
+por a sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram
+suaves de mais as inflexões d'aquelles contornos, brandas as tintas que
+lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente
+o typo angelico, de que lhe ficára uma agradavel, mas vaga impressão.
+
+Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser
+adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis,
+difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.
+
+Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe
+primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se
+continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal,
+reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras
+e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de
+linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas
+mulheres assim, é uma belleza subjectiva.
+
+De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia
+sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava
+timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão,
+mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por
+muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da
+morgadinha--que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava
+contraste completo com sua prima.
+
+Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e
+principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.
+
+D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a
+fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á
+tia.
+
+Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas,
+impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora
+classificára como mania.
+
+Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
+
+Henrique tornou para ella os olhos.
+
+--Ó menina, de que ris tu?--perguntou D. Victoria, com certo tom de
+severidade.
+
+--Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo?
+Ora diga?
+
+--Eu?... mas...
+
+--Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha
+d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu
+mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...
+
+--Então não crê na realidade d'ellas.
+
+--Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao
+suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a
+natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos
+naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses
+doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações.
+É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e
+mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o
+pode olhar a sério.
+
+--Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.
+
+--Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.
+
+--Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima
+Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...
+
+--Ah! tambem?--Com esse aspecto de robustez?!...
+
+--Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!--disse D. Victoria, que não
+tinha percebido bem o dialogo.
+
+--É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os
+maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode
+curar-se.
+
+--Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.
+
+--Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...
+
+--Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso
+renuncio á cura.
+
+--Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo...
+
+--Acabe.
+
+--Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.
+
+--Eu adoro as sinceridades.
+
+--Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo...
+desaffectado.
+
+Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.
+
+--Então acha?...
+
+--Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de
+galanteria, desnecessarios e perdidos.
+
+--Ó meninos, eu não vos entendo--repetia D. Victoria.
+
+Magdalena sorriu.
+
+--Digo eu que...
+
+Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.
+
+--Sempre chegou o correio!--exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo
+as cartas.--Por que veio tão tarde?
+
+--A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...
+
+--Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
+
+--Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a
+a correr.
+
+Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
+
+--É de meu pae--disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir
+licença, começou a ler para si.
+
+--Pois agora--dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique--o que
+deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As
+pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir,
+Christina?
+
+--Eu! disse Christina, córando.
+
+--Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...
+
+--Á Senhora da Saude, mamã.
+
+--Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê?
+Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o
+ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante...
+
+--A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a
+pé--notou Christina do lado.
+
+--Isso é por os açudes.
+
+--Pois por onde haviamos de ir?
+
+--Por a Granja, que é melhor.
+
+--Por a Granja! É uma legua!
+
+--Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que
+é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os
+cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.
+
+--Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr.
+Henrique...--disse Christina, embaraçada ao continuar.
+
+--Eu o quê, minha senhora?
+
+--Perdão--interrompeu D. Victoria.--Por que não has de tu chamar primo
+ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?
+
+--Por isso mesmo, mamã,--respondeu Christina--os sobrinhos da tia
+Dorothéa não são...
+
+--Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,--acudiu Henrique--eu
+acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus
+primos.
+
+Christina baixou os olhos, sorrindo.
+
+Henrique proseguiu:
+
+--Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da
+Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.
+
+--Não tem que saber--disse D. Victoria, caminhando para uma
+janella.--Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.
+
+--Tendo duas tão galantes companheiras de viagem--tornou Henrique,
+depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia
+d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou--parece-me que daria a pé
+uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.
+
+--O que eu lhe digo, primo--accrescentou D. Victoria--é que se acautele,
+porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.
+
+--Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus
+a morte.
+
+--Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento--disse Magdalena, que
+continuava a ler.--Logo ajustaremos contas.
+
+--É implacavel esta nossa prima, não acha?--perguntou Henrique,
+sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.
+
+--Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha
+que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para
+mim, e depois estes criados...
+
+Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto
+de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse,
+terminando a leitura da carta:
+
+--Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e
+trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.
+
+As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem
+inveja a um clown de circo.
+
+D. Victoria zangou-se.
+
+--Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora
+vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado
+para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a
+sua obrigação!
+
+As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas
+ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o
+seguinte:
+
+--Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!
+
+--Pschiu! Calae-vos!--bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para
+Magdalena:--Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que
+vem...
+
+--Nas vesperas do Natal.
+
+--Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
+
+--Depois dos Reis.
+
+--Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?...
+
+--O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?
+
+--Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...
+
+--Não ha nada menos confuso... É só isto.
+
+--Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó
+meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha
+mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles...
+
+--Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou,
+porque...
+
+--Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre
+promptos para desculpal-os. São elles...
+
+--Ó Lena, Lena--diziam as creanças--o primo Angelo não torna para
+Lisboa?
+
+--Ha de tornar.
+
+--Ora!
+
+--Olha lá, ó Lena--disse D. Victoria--sabes tu o que me lembra?... Mas
+eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma
+vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo
+Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar
+com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para
+consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...
+
+Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas
+demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á
+cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:
+
+--Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de
+ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos
+de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.
+
+D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço,
+como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe
+o riso dos labios.
+
+--Saiam d'aqui!--exclamava ella, quando conseguiu estar
+séria.--Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem
+caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então,
+Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui,
+estafermos!
+
+A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára
+impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de
+jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar
+suave um fulgor pouco costumado.
+
+A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.
+
+Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe
+affectuosamente:
+
+--Ora ahi está o que é muito bem pensado.
+
+--Pois sim, sim, mas o peor é... os criados--disse D. Victoria.
+
+--Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós.
+Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da
+tia Dorothéa.
+
+--Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella
+sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se
+importam os de cá com a Maria.
+
+--Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem,
+melhor--aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.
+
+--Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já
+não estou. Então, não.
+
+--Está resolvido--disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da
+tia.--Aqui o sr. de Souzellas--accrescentou, com maliciosa
+inflexão--fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o
+nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.
+
+--Acceito da melhor vontade.
+
+--Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella
+noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um
+minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá....
+
+--Ó menina, tens coisas!--disse D. Victoria.--Deixe-a falar, primo.
+
+--Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.
+
+--E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os
+pratos em que puzer a mão. Que mais querem?
+
+Foi alegremente acolhida a promessa.
+
+As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado
+um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção,
+trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas,
+difficultando-lhe as respostas.
+
+--Havemos de jogar o rapa, não havemos?
+
+--Havemos de jogar, havemos--respondeu Henrique.
+
+--E o par ou pernão?
+
+--Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.
+
+--E?...
+
+--Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
+
+--Olhe: e sabe contar historias?
+
+--Sei tambem contar historias.
+
+--Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata
+borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na
+testa.
+
+--Ora, o sr. Henrique já as sabe--disse, fazendo-se sisuda, Marianna.
+
+--Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de
+querer ouvir isso tudo.
+
+--Ó meninos!--exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a
+discutir com Magdalena.--Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá
+confiança, está arranjado, primo.
+
+--Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar;
+pegam-se.
+
+--E não o diga a brincar--disse Magdalena--que tambem confio n'essas
+creanças para o curarem dos seus males.
+
+--Então devéras emprehendeu curar-me?
+
+--Com toda a certeza.
+
+--N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.
+
+--Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o
+interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido
+com fé, e cega.
+
+Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por
+lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.
+
+--Lena--disse ella--que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?
+
+--A das consoadas? Excellente.
+
+--Não, menina, a do passeio á ermida.
+
+--Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.
+
+--Quando queres?
+
+--Depois de ámanhã, que é quinta feira.
+
+--Seja.
+
+--Que diz, primo Henrique?
+
+--Quando quizerem, primas; agora mesmo...
+
+--Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?
+
+--Pois não viu hoje?
+
+--Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que
+se levante ás horas, a que se deitava na cidade.
+
+--Que estás a dizer, Lena?--acudiu Christina.--Deixa-a falar. Basta que
+saiamos d'aqui ás cinco horas.
+
+--Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao
+primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.
+
+--Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou
+valetudinario.
+
+--Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui
+muita indolencia.
+
+--Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora
+havemos de vêr--disse Christina.
+
+Magdalena poz-se a rir.
+
+E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse
+Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos
+pontos de vista.
+
+Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa
+hora ao que promettera á tia Dorothéa.
+
+Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.
+
+Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro,
+do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem
+que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse
+n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos
+entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que
+fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.
+
+Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não
+passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco
+artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam
+a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o
+espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos
+costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem
+reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a
+ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe
+trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via
+manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira
+de D. Victoria.
+
+Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes
+quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes
+mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da
+mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a
+immortalidade.
+
+De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura
+de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no
+eden, onde a mão de Deus o collocára.
+
+--Anda, vagaroso, anda--disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu
+chegar.--Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.
+
+--Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
+
+--Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?
+
+--É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A
+morgadinha, sobretudo, é adoravel!
+
+--Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina
+boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
+
+Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa
+malicia.
+
+--Que quer dizer, tia?
+
+--Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se
+quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não
+tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
+
+Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais
+preoccupado e distrahido no resto da tarde.
+
+
+
+
+VI
+
+
+O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer
+amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam
+juntos n'uma terra para ambos desconhecida, tão alheios ás coisas como
+ás pessoas, no meio das quaes se vêem, nem por momentos se soffrem
+separados; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa
+d'elle para communicar-lhe as primeiras impressões recebidas, e
+pedir-lhe em troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, se vão
+familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo
+novo, afrouxa a constricção d'esses laços, e cada um principia a
+readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia
+abdicado.
+
+Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrámol-o
+na estrada; na companhia d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos era
+estranho; nada mais natural do que dar o braço um ao outro, passar
+juntos a manhã, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porém, que
+temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos
+declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forçada,
+a qual, embora seja de um amigo estimavel, se é forçada, é sempre jugo,
+em certas occasiões.
+
+Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de
+ter momentos em que se desejassem sós; se é que não deviam aos deuses a
+felicidade de possuirem curtos espiritos, o que não creio.
+
+Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorothéa a
+mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digestão de um jantar;
+deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um
+dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Marianna e
+de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do
+Mosteiro.
+
+Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos e á beira de vallados,
+com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar.
+
+O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, é
+já bastante para que nos não admire a quasi incessante melancolia de
+Augusto.
+
+Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo, á custa
+de sacrificios, cultival-a, e eleval-a á altura das suas aspirações!
+Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os
+infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!..
+não serão estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma
+existencia, embora a juventude as illumine?
+
+Havia alguns annos que esta disposição para a tristeza se exacerbára em
+Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convém
+referir.
+
+A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o
+nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao
+morrer instituido um legado a favor de Augusto, então creança, com a
+condição d'elle abraçar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de
+Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas
+de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até o da primeira
+missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro.
+
+Isto succedeu no tempo em que a mãe de Augusto, que havia dois annos
+viuvára, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo
+enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da
+localidade.
+
+Foi por todos abençoada a memoria da morgada, por tão bem cabido legado,
+que era ao mesmo tempo que remedio ás privações de uma familia, premio e
+estimulo á intelligencia e á applicação de uma creança, que promettia
+vir a ser... Deus sabe o quê.
+
+Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela
+legataria como condição á concessão do beneficio, não podia ser uma
+crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem
+querer saber a quantidade de aspirações, de esperanças, de phantasias
+que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, não é uma
+iniquidade; se não era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo
+luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, propôr-lhe trocar por
+estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por
+mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo,
+egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta;
+essas meigas generosidades são ás vezes a causa do infortunio de uma
+vida inteira; acceites ou recusadas, é raro que depois, a cada provação
+que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que
+abraçamos.--«Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de
+phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos
+de poetas o beneficio que te offereciam?»--dirá ella aos que rejeitaram
+o pacto.--«Ambicioso!--clamará aos outros--ahi tens a felicidade que
+julgaste comprar á custa do que ha de mais nobre na alma humana;
+embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de
+ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspirações.»
+Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição
+testamentaria. Era muito creança ainda; e depois uma ideia nobre o
+preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre mãe, que só
+podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo,
+apenas conseguira deixar uma herança; foi á viuva o dever de velar pelo
+filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando
+elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a
+vida.
+
+Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a
+intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem
+rudes eram os cuidados de cultura que o velho _magister_ lhe sabia dar.
+Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do
+estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas
+duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso,
+elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso.
+
+E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de
+uma nobre missão a cumprir. Não ha fadigas que tal estimulo não vença;
+abnegação, que não inspire.
+
+A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua mãe precisava d'elle.
+
+Quando ainda aos seus treze annos fôsse já bem conhecida a grandeza dos
+sacrificios que lhe exigiam, não hesitaria talvez, instigado por aquella
+aspiração; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as
+doces imagens, tão gratas ao coração do adolescente, e a que teria de
+renunciar.
+
+Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, graças aos esforços
+empregados, não se fez esperar muito.
+
+Quando se approximava a occasião, o pae de Magdalena mandou vir Augusto
+para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia.
+
+Não confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro
+quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas lições de um professor
+da cidade, e d'este obteve as melhores informações da intelligencia do
+rapaz, que só por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos
+vicios do ensino de campo.
+
+Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o
+exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas
+qualificações.
+
+Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se,
+dizia-se por lá que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até
+quem não hesitasse em affirmar que a creança confundira os mestres, que
+fôra uma maravilha.
+
+O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se
+em que, através do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre.
+
+Os invejosos disputavam-lhe porém tão inquestionavel gloria e riam-se
+d'elle.
+
+A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graças
+á Virgem, a quem tanto encommendára o filho.
+
+Voltou Augusto á terra.
+
+Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um
+prodigio. Todos o queriam vêr, como se até alli o não tivessem visto
+bem, e de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o administrador,
+nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o
+viram, não houve um só que não notasse que o pequeno vinha triste.
+
+Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as
+interpretações é que variavam.
+
+--Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem não está costumado... dizia um.
+
+--São canceiras de estudos--aventava outro.--Ha lá coisa que puxe mais
+por uma pessoa do que o estudo!
+
+--Não que vocês cuidam! Um exame sempre abala a gente cá por
+dentro--dizia um doutor, que levára dez annos a vencer um curso de
+cinco.
+
+Fôsse pelo que fôsse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os
+ares da sua terra não dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam
+no futuro e no legado da morgada.
+
+Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era
+de suppôr, a receiosa mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos
+e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, arguições,
+lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder
+que nada tinha que o affligisse, que era a illusão de quem o via a
+tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era
+mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.
+
+Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, á
+custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar
+nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia.
+Não se pôde atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia não era;
+pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o
+illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas.
+
+A saude vacillante da mãe de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio
+dar outro motivo á demora do filho.
+
+Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo
+os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma.
+Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto
+abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um
+cadaver.
+
+Era orphão.
+
+A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto,
+condensou-se-lhe mais então. Era quasi um negrume de tristeza.
+
+Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois
+receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa.
+
+O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a
+Lisboa. Uma manhã, porém, este, de pouco mais de quinze annos,
+procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção
+meditada e irrevogavel:
+
+--Venho prevenir v. ex.^a de que desisto do legado da sr.^a morgada. Não
+quero ordenar-me.
+
+O conselheiro fitou-o, estupefacto.
+
+--Não queres ordenar-te! Por quê?...
+
+--Já não tenho mãe a quem amparar. Por ella forçaria a minha vocação sem
+remorsos; por interesse proprio não o posso fazer; parece-me um
+sacrilegio.
+
+O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a
+frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as
+boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e
+sabe-se que a candura de sentimentos não entra no numero das mais
+habituaes d'essas qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se
+abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas sómente
+depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se
+baseava; assim era que, em politica, se costumára a contemporisar,
+espaçando a adopção de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para
+tempos em que fôsse mais conveniente; não se apaixonava por utopias,
+desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desviára dos olhos o prisma
+encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais
+sonhadores; costumára-se a marcar por modelo nas differentes carreiras
+da vida, não um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos
+os defeitos e vicios; assentára a menor altura o alvo: parecia-lhe que
+bom fito eram já os individuos que tinham conseguido maior consideração
+na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto,
+maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance;
+agradavel para entreter, porém mau nas applicações ás coisas da vida.
+N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera
+mundana; não um d'aquelles typos de pureza crystallina, através da qual
+parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas já um tanto
+embaciado do bafo social, que não o fazia ainda totalmente opaco.
+
+Por isso sorriu á declaração de Augusto. A carreira ecclesiastica não
+lhe parecia tão escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem tão dura
+a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro não pensava necessario
+tomar ao pé da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle,
+tolerante em naturaes infracções; por tudo isso se riu. Fez a Augusto
+uma longa dissertação sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os
+muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria
+renunciar a uma carreira segura movido pelas instigações de um espirito
+timorato ou de uma visão phantastica.
+
+Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso sceptico do conselheiro,
+declarou que não abraçaria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com
+a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha;
+que era precisa uma grande abnegação, e que elle, depois da morte de sua
+mãe, não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses não pensava, e
+se pensasse, seria isso a primeira prova de não estar preparado para a
+missão de que se queria encarregar.
+
+Quando alguem abraça com lealdade e franqueza uma boa causa,
+difficilmente é vencido. O conselheiro, costumado a não recuar nas mais
+acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás objecções
+d'aquella creança. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as
+illusões a que o via abraçado,--illusões pelo menos as suppunha elle;
+parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em
+que vivia.--Respeitou-o e calou-se.
+
+--Alguma creancice amorosa dos quinze annos--pensou para si. Deixemos ao
+tempo convencel-o. Não me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco
+sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcançado menos
+no mundo, mas talvez tivesse gosado mais... ou melhor...
+
+O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflexão
+modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz.
+
+Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as tenções, em que estava de não
+se ordenar, pelo menos emquanto não passasse mais tempo sobre aquella
+resolução.
+
+E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se
+encarregasse da primeira educação de Angelo, então de nove annos; pois
+mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official.
+
+Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus
+gôstos, lhe abria uma carreira, que elle já imaginára adoptar.
+
+De então nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos
+os progressos do discipulo, e não menos reaes as vantagens que ao mestre
+resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a
+intelligencia.--O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da
+escolha.
+
+Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram
+as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro não o deixou ser muito
+ardente a combatel-as.--Espaçou-se mais uma vez a decisão.
+
+Outras lições appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com gôsto; o
+mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido
+da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.
+
+O velho acabou por declinar n'elle o serviço todo, sem que Augusto
+consentisse em receber por isso o menor estipendio.
+
+O publico não se cançava de perguntar quando seria que o rapaz
+principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o não fazia já. Como
+não obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos
+os que não entende.
+
+No entretanto a educação de Augusto não ficára estacionaria. Com grandes
+sacrificios a continuára elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia,
+tinha muito de milagre o que fazia.
+
+O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás impaciencias do espirito
+d'este discipulo enthusiasta; e não era raro que a intelligencia de
+Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre.
+
+O acaso favoreceu os desejos do estudante.
+
+N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia,
+homem de solido saber e de reputação extensa.
+
+Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prégar na
+festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia
+e, conversando-o, admirou-lhe a penetração, captivou-se da sua modestia
+e lamentou não estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como
+pudésse, nos estudos.
+
+Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o
+padre que sim, respondeu que não seria então estorvo a distancia, porque
+elle a venceria.
+
+E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás quintas feiras e domingos,
+franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as
+lições do erudito abbade. Assim se aperfeiçoou na latinidade, cultivou a
+philosophia e adquiriu o gôsto pelos nossos velhos prosadores e poetas.
+Vinha de lá carregado de livros para ler durante a semana. Toda a
+bibliotheca do padre lhe passou pelas mãos.
+
+Era porém o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e
+litteraturas modernas.
+
+A sorte não recusou ainda a Augusto um novo mestre.
+
+Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal
+fazem preceder, vinte annos antes, a construcção definitiva de uma só,
+que de ordinario sae sempre como se não fôsse tão estudada, um houve que
+levou á aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi
+fez quartel e centro de operações, durante tres mezes inteiros.
+
+A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cêdo travaram
+conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de
+mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e
+bahús uma excellente provisão.
+
+Não tendo que fazer ás noites, entreteve-se a ensinar o francez a
+Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as
+horas a Augusto n'aquelles serões; n'elles aprendeu todos os nomes da
+nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de França e de
+Inglaterra.
+
+Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francez bastante
+para se aperfeiçoar por si; este amigo deixou-lhe em lembrança grande
+parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.
+
+Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O
+conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para
+que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em vão,
+encontrou-o ainda inabalavel.
+
+E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio
+foi concedido a outro.
+
+Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia.
+
+Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle
+logar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se
+interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da
+ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o
+não ter ambições era indicio de uma profunda doença moral; que a posição
+a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se
+acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro
+empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo
+qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da
+idade que ainda não tinha, pois mal completára dezenove annos, e Augusto
+foi por conseguinte admittido a concurso para tão pouco disputado logar
+e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem não fôra
+impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de
+tres annos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal recompensada
+carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o
+legado da morgada tivesse tido já outra applicação, o conselheiro não
+hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.
+
+Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer já
+os espinhos da profissão, apresentou-se novamente ao concurso para obter
+novo despacho. Na época em que abrimos esta narração, voltára Augusto de
+pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decisão do
+ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito
+protegido por influencias da localidade, as quaes ainda não tinham
+podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.
+
+Desde que fôra para Lisboa, Angelo não se esquecera de escrever
+amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e
+descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a férias,
+procurava transmittir ao que fôra seu mestre a sciencia que durante o
+anno adquiríra.
+
+Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a
+geographia e a historia.
+
+Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applicação faziam o
+resto.
+
+Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo teremos de travar
+conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um
+louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu
+contingente, para a educação de Augusto.
+
+De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle
+com um pacote de livros debaixo do braço e, sorrindo, pousava-lh'os em
+cima da mesa.
+
+Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos
+de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto.
+Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros,
+alguns dos quaes eram de preço? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe
+a surpreza:
+
+--Não queiras saber da minha vida, rapaz. Suppõe que eu tenho a
+servir-me uma vara de condão ou uma fada qualquer, e deixa correr.
+
+Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado
+riquezas, á fôrça de economias: porque de economias vivera sempre.
+
+De pequeno merecera áquelle velho uma singular sympathia, e com affecto
+de pae fôra sempre tratado por elle.
+
+Resignou-se a acceitar sem reflexões; até porque sabia ser facil o
+escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presença
+d'elle, qualquer palavra que pudésse denunciar desejos de possuir um
+livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder
+occulto a informal-o, ás vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros
+que Augusto devéras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza
+de lhe não ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia.
+
+A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a crença supersticiosa do
+povo a respeito d'aquelle seu velho amigo.
+
+Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informações, pelas
+quaes o velho se guiava na escolha. Não lhe attribuia porém o presente,
+porque as economias de Angelo não chegavam para tanto.
+
+Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor
+estranhar os ares pensativos com que o vemos?
+
+Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a
+distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle.
+Era de Angelo.
+
+Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho.
+
+Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses
+longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de
+uma carta de amigo para amigo.
+
+Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanças e de
+projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o
+instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda á
+aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:
+
+«Peço-lhe que diga á Lindita que se não esqueça de mim. Dentro de poucos
+dias conto ir vêr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a
+agua do poço. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva
+um livro para si.»
+
+Augusto sorriu, ao ler o _post-scriptum_.
+
+--Pobre Angelo!--murmurou elle,--Deus não permitta que sobreviva á tua
+ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affeições
+de creança muitas vezes, ao crescer, envenenam o coração.
+
+Havia tanta amargura n'estas reflexões de Augusto!
+
+E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que
+era o pae da pequena, a quem na carta se alludia.
+
+
+
+
+VII
+
+
+A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das mais estreitas ruas da
+aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das
+diversões do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da
+sua occupada e laboriosa vida.
+
+Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do
+tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o
+ámanhã já a mais de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a
+multidão nas ruas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da
+sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida
+á custa de muitos annos de fadigas.
+
+As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que
+conjunctamente vieram, não destruiram totalmente esse typo dos antigos
+tempos, anterior a ellas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes
+limite á existencia, passaram, sustentados pela fôrça dos habitos e
+justificados pelas irregularidades do serviço das postas; e Deus sabe
+quando de vez acabarão. Mas Cancella era além d'isso um recoveiro de uma
+especie rara e superior. Em todas as profissões ha sempre, no meio do
+vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gôsos,
+superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de
+escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia através das
+sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d'estes; era o poeta
+da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um _touriste_, e
+assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar
+algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.
+
+Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do
+conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza
+relativa das recovagens operadas por este meio primitivo,
+proporcionavam-lhe algumas occasiões d'isso, as quaes o Cancella de
+boamente aproveitava. Era de uma d'essas expedições que elle devia
+voltar aquella manhã, como o dava a entender a carta de Angelo.
+
+Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a ainda fechada; escutou á
+fechadura, mas não pôde verificar o menor signal de que alguem estivesse
+dentro.
+
+--É cêdo ainda--pensou comsigo.--Vejamos se estará em casa do compadre.
+
+Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.--A poucos passos mais,
+e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos
+rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma só porta e
+uma só janella, e com o respectivo quintal ao fundo.
+
+Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada;
+julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, além de
+vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava
+apenas cerrada e entrou.
+
+A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado
+á volta de cruzes de pau, para as devoções da via sacra, e de imagens de
+santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros
+enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria,
+havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual
+occupava o logar de honra n'aquella devota exposição.
+
+Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta confraria, sociedade um
+tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só
+visavam a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se _apenas_, em
+paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem
+saudades já. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a
+palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os
+martyres no céo, lá andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a
+acção d'esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor;
+as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto
+catholico era por elles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e
+ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o
+progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros
+discursos.
+
+Ardente proselyta d'estes apostolos de fé duvidosa, a sr.^a Catharina do
+Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão,
+tomára por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as
+desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita.
+
+Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando a alcova conjugal, que
+era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e
+folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d'onde
+lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o
+attrahira.
+
+Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha,
+comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.
+
+Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, ou vulgarmente
+chamado ti' Zé P'reira--nome que lhe vinha do popular e ruidoso
+instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje
+aquelle nome.--Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso
+homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e
+cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.
+
+O ti' Zé P'reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no
+rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias
+pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.^a
+Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perenne sabatina
+com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando
+sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de
+hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria
+na retesada pelle do seu companheiro inseparavel--o zabumba. Era aos
+cuidados e vigilancia d'este par conjugal que o recoveiro Cancella
+confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa
+creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem
+elle mais queria do que á menina dos olhos.
+
+Ermelinda era afilhada da familia Zé P'reira, e a mesma a quem ouvimos
+referir-se Angelo no fim da carta.
+
+Zé P'reira estava, como dissémos, só na cozinha, quando Augusto alli
+chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo
+para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e
+vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e
+rouca da sua escala de barytono, até o mais agudo e desafinado falsete.
+A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, difficultando-lhe suspeitosamente
+a articulação de algumas syllabas; era evidente que se apossára do
+hortelão o espirito familiar, o qual n'este caso, era um verdadeiro
+espirito, na accepção chimica do termo.
+
+Ze P'reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente nutrido, de
+olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto
+artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas que pareciam tentar
+sumir-se-lhe pela bôca dentro; tinha longos braços, accommodados ás
+difficuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para
+baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus.
+
+Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando:
+
+--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... É forte desgraça!...
+Aqui estou eu!... Um homem casado... casado á face da igreja... que me
+casou em dia de S. Thiago o abbade que foi... e que Deus tenha em
+descanço. Não faltou nada... correram-se banhos deante de quem os quiz
+ouvir, e não houve quem puzesse impedimento... porque eu não devia nada
+a ninguem... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catharina do
+Nascimento de S. João Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos
+Fójos... E casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?...
+Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e
+achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar
+missas e novenas lá por essas igrejas... Ora, senhores, que é forte
+desgraça a minha! É forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de
+fraqueza, se não fôsse aquelle quartilhito... o ultimo, que sempre me
+deu sua aquella... sim... sempre me conchegou o estomago. Não que dizem
+que o vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois casem-se com uma
+mulher que vá de madrugada para a igreja e venha de lá quando muito bem
+lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira
+que se soffre... verão depois... Ora, senhores, que é forte desgraça a
+minha!... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa
+carne e o osso do nosso osso... Deus devia de vez em quando tornar a
+dizer estas coisas... para não esquecerem... como se faz na escola com a
+taboada. A minha Cath'rina já o não sabe, aposto... e pelos modos os
+padres não lhe dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A carne da
+minha carne e o osso do meu osso!... mas é carne e osso que me não fazem
+caldo... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Como ha de um
+homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou
+fazer qualquer sachada?... E tambem quero vêr como hei de no arraial e
+procissão de Santo Amaro, que não tarda ahi, dar sequer um rufo assim
+mais tal... assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo...
+
+A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida pela apparição
+de nova personagem á porta do quintal.
+
+--Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de
+paciencia. É um instante emquanto accendo o lume e lhe faço o caldo.
+Verá.
+
+A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de
+doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creança da cidade, com
+os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doçura, e com os
+mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil.
+Não havia n'elles sombra, que desvanecesse aquella côr deslumbrante;
+reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em
+tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de
+artificio, de um e de outro lado do collo.
+
+Condizia com a expressão angelica do semblante o suave e affectuoso
+timbre de voz com que falára.
+
+O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha do Cancella, ou
+Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creança que tem na
+sua presença.
+
+Ermelinda sobraçava um mólho de hortaliça, que fôra colher ao quintal, e
+dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal
+deixavam ainda apagado áquella hora do dia.
+
+Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.
+
+--Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem
+reparar.
+
+A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça e fitou em Augusto
+um dos seus desemparelhados olhos.
+
+--Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa é sua... De
+jantar não lhe offereço... porque... porque... Forte desgraça a minha...
+Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de
+trabalho... e vejo o lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, a
+confessar-se, a commungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os
+está a tomar todos... Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de
+consciencia, como eu estou do estomago... Ora, senhores...
+
+--Deixe estar, padrinho... Verá como isto se arranja depressa... Olhe; o
+lume já está accêso--dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume
+no lar.
+
+--Já o devias ter feito antes, Lindita,--disse Augusto, sentando-se
+junto d'ella.
+
+--Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui lavar a roupa?
+
+--Pobre pequena--disse o Zé P'reira--tambem não te ha de faltar lazeira,
+tambem!
+
+--A mim? Agora. Não que eu não saí de casa com as algibeiras vazias.
+
+--Pois sim... mas é sempre preciso coisa que conforte... Inda se tu
+bebesses... já não digo um quartilho...
+
+--Credo, meu padrinho! Que está a dizer?
+
+--Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida
+amaldiçoada, que todos lhe teem mêdo! É vêr se o padre na missa...
+
+--Padrinho! padrinho! que vae dizer?--interrompeu Ermelinda, quasi
+aterrada.
+
+--Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho minha presumpção de nunca
+dizer senão a verdade... Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e
+mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento,
+por causa d'aquellas pancadas no recebedor... É que nenhum d'esses
+santalhões, d'esses missionarios me teem que ensinar n'esse ponto... Os
+missionarios!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao
+trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se
+Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não
+tenham que comer, quando voltarem do trabalho... Um dia inda lhes vou
+perguntar... isso vou...
+
+--Olhe; a agua não tarda a ferver; verá que dentro em
+pouco...--continuou Ermelinda.
+
+--Bem, Lindita, bem--disse Augusto--em paga da boa vontade, com que
+trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.
+
+--A mim? Diga.
+
+--Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dará em vez de
+visitas, um abraço.
+
+--De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?
+
+--Como adivinhaste depressa!
+
+--Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que... em poucos dias...
+Então?
+
+--Tel-o-hemos cá pelo Natal.
+
+--Fala verdade?
+
+--Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?
+
+--Para quê?--respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos
+cheios de curiosidade.
+
+--Ora lê, lê... Até para vêr se ainda te recordas das lições, que eu te
+dei.
+
+--Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho...
+
+--Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não a tua presença.
+
+Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a
+lêl-a com intensa curiosidade.
+
+Zé P'reira proseguiu no seu monologo:
+
+--A religião, senhores--dissertava elle--não manda tal... Isso é que não
+manda... A religião é a palavra de Deus... e Deus disse... sim... Deus
+disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixarás pae e
+mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores; que tem lá isso?
+mas não é mais mãe do que a outra mãe... e então... senhores, uma mulher
+não deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o
+tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, senhores, que é forte
+desgraça.
+
+O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram
+interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua.
+
+
+ O dinheiro paga tudo,
+ Não se fica a dever nada;
+ Toma, toma o limão verde,
+ Ó da fresca limonada.
+
+
+E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns
+passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a
+figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda.
+Cancella, ou o João Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter
+creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do
+sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela natureza dotado de uma
+estatura e robustez, dignas de Adamastor.
+
+Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas realisações dos
+temperamentos sanguineos que, sem ameaçarem de insultos apopleticos, dão
+riqueza ao sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto e
+colorido da saude e os reflexos da satisfação interior.
+
+A barba negra e espessa cercava-lhe as faces córadas, e o natural fulgor
+dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas,
+que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaçadoras, d'onde
+fuzilavam relampagos. Era formidavel então!
+
+O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na presença de amigos,
+descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes,
+d'esses que os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram.
+
+Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes lhe chamaremos assim,
+cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que
+mais que tudo trazia na memoria--a filha.--Esta, pela sua parte, mal o
+reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços.
+
+O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna, levantou-a á altura dos
+labios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda
+palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal.
+
+--Ah!--exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de
+satisfazer uma intensa necessidade do coração.--Isto consola que nem o
+copo de agua que a gente, em dias de calma, pede á borda da estrada,
+quando se leva a bôca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me
+sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... Ó sr.
+Augusto! tambem por cá?
+
+--Esperava-o, Cancella.
+
+--A mim?--continuou o homem, pousando no chão uma mala que trazia.--Pois
+aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa no que
+lhe irá por casa, sente ás vezes uns sustos, que parece que lhe fazem
+tudo escuro... As desgraças, para succederem, não põem muito... De um
+momento para outro... E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas
+que parece que são agouros... e que nos fazem a noite no coração... Umas
+vezes é um enterro... outras, um desastre... um fogo... um... E as
+creanças sós, e os paes fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o coração
+de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui
+o compadre, tirante lá a sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram
+já hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem de bem: a comadre
+é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa devéras... mas
+emfim... tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vae
+por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A
+primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando me vem
+dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro o coração, que ninguem faz
+uma ideia; eu bem canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha
+alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar
+doente!... Assim me succedeu com tua mãe... Deixei-a uma vez tão
+satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que
+encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, sr. João, venha, que já não vem
+sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como se
+recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e...
+
+A commoção impediu-o de continuar; disfarçou como envergonhado d'aquella
+fraqueza, beijando a filha outra vez.
+
+Ermelinda percebeu a perturbação do pae e disse-lhe carinhosamente:
+
+--Para que está agora a pensar n'essas coisas que o affligem, meu pae?
+
+--Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem faz bem. Mas, por isso,
+quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas côres e
+alegre... nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar.
+Ah!... ah!... Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto;
+mal fica a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto ha muita
+menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas
+cabellos assim dourados?--e passava com orgulho os dedos pelos bastos
+cabellos de Ermelinda--mas uma pelle assim delicada,--e afagava-lhe com
+as mãos a face, quasi a mêdo--mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo
+coração á gente?--e beijava-lh'os com paixão--isso é que eu ainda não
+vi, nem tenho de vêr. Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um
+selvagem como eu, é que não sei... É a imagem da mãe!... Ella tambem era
+poucochinho de si... miudinha e... Mas não pensemos n'estas coisas. Sim,
+senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por
+arranjar e eu posto á taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e
+muitos recados, muitos.
+
+--Já sei; Angelo escreveu-me.
+
+--Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo é uma perola!
+Com tres milheiros de demonios do inferno! d'alli ha de sair coisa
+grande. Eu não queria morrer sem vêr o que saía d'alli. Brinca como uma
+creança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem. E nada de
+soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da
+cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle
+tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me
+pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa,
+e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle,
+e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah!
+ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois cá a respeito da rapariga?...
+Isso é uma comedia!... Não se farta de me ouvir falar d'ella... Ah, sr.
+Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.
+
+Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.
+
+--Sim, filha,--proseguiu elle.--Deus não te devia dar a um homem como
+eu, que emfim... Com os diabos! lá alma e coração... não quero que haja
+ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios,
+até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do
+corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha
+tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que
+eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto
+que já se está ao sermão.
+
+Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido ao seu compadre um
+olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas
+amargas contra a sorte e contra a esposa.
+
+Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu uma das suas
+lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com
+reflexões proprias essa longa jeremiada.
+
+--Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a
+falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste... Aqui
+está um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a
+minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas berças... Tambem eu estou em
+jejum desde as cinco horas da manhã... mas estes missionarios! Ah! com
+seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia...
+
+--Deus nosso Senhor seja n'esta casa--disse uma voz gemida á porta da
+cozinha.
+
+--E o demo na do abbade--resmungou Herodes.
+
+Era a sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, typo de beata,
+que dispensa descripção, que regressava a casa depois de completar o
+cyclo das suas devoções.
+
+--Viva a comadre!--disse o João Cancella, continuando a mexer na mala.
+
+Ermelinda foi beijar a mão á madrinha.
+
+Augusto saudou-a affavelmente.
+
+O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e,
+voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos,
+espalmadamente abertas:
+
+--Mulher dos meus peccados, mulher de não sei que diga, olha que a
+paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto não pode continuar assim,
+mulher! Eu não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na
+igreja, mulher!... Isto são preparos, mulher?... Um homem chega a casa e
+acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove
+missas por dia e uma duzia de novenas!
+
+--Cala-te, cala-te,--retorquiu azedamente a devota metade do Zé
+P'reira--cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que
+assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha lá que não morresses
+de fome! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus! Já não ha quem queira
+soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que não tens de soffrer as do
+purgatorio? E Deus nos queira dar só o purgatorio e livrar-nos das penas
+do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que
+não ha de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar
+lamurias em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus
+peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações,
+que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de esta
+gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas
+horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o
+sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos
+eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...
+
+--Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com
+uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois
+raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça
+a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má
+christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres
+deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem
+a sôpa e o toucinho á espera d'elles?
+
+--Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n'essa
+cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos.
+Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar!
+
+--Confessar é parolar; ora adeus!
+
+--Tu estás doido, alma perdida?!
+
+--E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?
+
+--Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?!
+
+--Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os
+santos... de pau.
+
+--Vamos, vamos--disse o Herodes, intervindo.--Não vale zangarem-se por
+causa d'isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em
+santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos
+entre marido e mulher. Você, compadre, tambem tem culpas em cartorio;
+vamos lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante
+tempo em devoção; emquanto á comadre, acredite o que lhe digo: a palavra
+de Deus não é tão difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo
+a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz
+o coração, e que não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho
+direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir
+perdão por o não ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as
+mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos
+rochedos, nem...
+
+--Compadre!--atalhou escandalisada a sr.^a Catharina--compadre! É essa a
+educação que dá á sua filha? São coisas que se digam deante de uma
+creança de doze annos? Ande lá, ande lá... Ora Deus queira que lhe não
+encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse
+ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe d'ella.
+
+--Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre
+á porta, a quem não dê esmola; creança que não afague; velho ou velha,
+que não corteje; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o
+Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus;
+de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que ha de
+ser... O Senhor me perdôe, se mais é preciso ainda, que mais não sei eu
+ensinar-lhe.
+
+--Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas! E cautela com o mimo
+que dá á pequena, que é o que perde muitas almas.
+
+--Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes é que hei de
+dar mimo a esta pobre creança, que nem o da mãe conheceu!
+
+--Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar
+andar a rapariga com esses cabellos soltos? Não sabe que o demonio...
+cruzes! arma com elles laços ás almas das creaturas?
+
+--Fracas prisões são as do diabo, se as forja só de cabellos!... Então,
+por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem
+coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu á pequena
+esses cabellos tão bonitos, é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que
+lh'os tire, eu é que não.
+
+--Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos.
+
+--Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se
+os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha
+filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma d'essas cabeças
+tosquiadas, que por ahi andam!
+
+--Talvez ainda se arrependa!
+
+--Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se
+pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras... respeitaveis, como
+a da comadre; ora então...
+
+A beata, apesar de trazer sempre na memoria o _Vanitas vanitatum_ do
+_Ecclesiastes_, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre.
+Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como
+para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae:
+
+--Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar!
+Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um
+boi! É preciso não ter consciencia.
+
+E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto.
+
+Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro
+recebido.
+
+Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creança, que
+era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata
+uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de
+dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença
+da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos
+olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios
+austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e
+penetrante, falando nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão
+que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua
+candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como
+virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente
+julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle
+perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia;
+e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentira que
+dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o
+sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da
+mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da
+alma.
+
+É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres
+como os da beata.
+
+O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.
+
+--Toma lá, Ermelinda--disse elle, tirando da mala uma pequena medalha
+com um retrato.--É um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou antes,
+para ti...
+
+Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a
+creança.
+
+A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o
+retrato.
+
+--Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!--rompeu ella, com um
+espanto exaggerado.--Este homem não tem a cabeça no seu logar, por mais
+que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida
+a uma creança!
+
+O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no chão, e
+com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o
+campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:
+
+--Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher?
+São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e
+deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creança,
+de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus
+peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar
+marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha
+mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a trazem a
+vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania
+lhe tirava.
+
+O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade
+do casal; e não levava á paciencia que outro, além d'elle, dissesse
+d'aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos
+que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas
+vacillantes, e bracejando sempre, bradou:
+
+--Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!...
+Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa!
+Compadre!... veja que eu é que sou aqui o chefe da familia e esta é
+minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora,
+senhores.
+
+Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão
+nas faces; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar
+cada vez mais. Ás exclamações de Zé P'reira respondia já azedamente.
+
+--Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... Não
+basta dar á lingua... Na taberna não é que se governa a casa...
+
+A sr.^a Catharina abstinha-se agora prudentemente.
+
+Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando.
+
+Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que
+precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.
+
+Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.
+
+Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas
+satisfações, e separaram-se apertando as mãos.
+
+Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.
+
+O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel
+contenda em que viviam.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito
+tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
+do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente
+offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado
+silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo
+soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão
+justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a
+final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.
+
+Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma
+banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
+
+Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha.
+N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe
+recordassem as do supplicio.
+
+Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só
+entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e
+encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira
+vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia,
+perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao
+caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os
+humanitarios instinctos.
+
+Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e
+amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
+presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores
+do penoso tirocinio;--mas que importa? nem por isso é menos real o
+supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O
+lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e
+semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e
+volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem
+os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado,
+coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem
+sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se
+olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos
+os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que
+lhe mingúa.
+
+De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as
+desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita
+vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande
+thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia
+concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em
+não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os
+momentos de alegria.
+
+Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam
+os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado
+absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro
+contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo,
+d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que
+a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde
+professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe
+com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas
+do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas.
+Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor
+as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas
+intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar
+agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não
+tinham azas para voar.
+
+Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus
+mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do
+esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os
+ensinou a ler.
+
+Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não
+são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres
+diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona
+do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão
+mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de
+instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por
+escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma
+de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na
+vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as
+suas obrigações lhe permittiam respirar.
+
+D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.
+
+Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma
+voz bem conhecida d'elle.
+
+Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
+
+--Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. _Amice!_ Pode falar a um amigo
+e colega?--dizia elle.
+
+Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado.
+
+O latinista entrou esfregando as mãos.
+
+--A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!--dizia elle,
+batendo no hombro a Augusto.--Invejo-lhe mais a pachorra do que o
+proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as
+canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este
+mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... Faça como eu.
+
+E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto,
+poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.
+
+--Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!...
+Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E não é
+agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz
+até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas
+nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocação é para a musica...
+Poh! poh!... Lá para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e
+Dorothéa--continuava elle, examinando os livros.--Novellas... Poh!... E
+isto que é? _Confessions_ de Rousseau--n'este nome deixou aos diphtongos
+o valor portuguez--Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada!
+Poh! poh! poh! poh!...--E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi
+arremessado como se estivesse em braza.
+
+Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de
+repulsão do mestre.
+
+--Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?--perguntou elle.
+
+--Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor,
+meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade...
+_Quousque tandem, Catilina_... Mas, é por esta vez...
+
+--Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes.
+
+--Ah! grande maganão, que adivinhou--exclamou o mestre, abraçando
+Augusto com effusão.--É isso mesmo, se lhe não custasse...
+
+--Irei.
+
+--É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica...
+Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal,
+e não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do
+_Trovador_ para ensinar á minha gente. São muito bonitas... Poh! poh!
+poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o
+pequeno... Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha.
+Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e
+julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá
+esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me
+que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem
+modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito
+feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor?
+Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
+d'isto. Pois não lhe parece, hein?
+
+--Não sei bem o que quer dizer com a imagem--respondeu Augusto,
+levemente enfadado.--Além de que não posso adivinhar as intenções de um
+homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.
+
+--Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo
+que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a
+boa musica, _et coetera_, andar leguas e leguas para se metter n'este
+desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é
+natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, _et coetera_...
+O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao
+dinheiro, meu amigo.
+
+A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
+Augusto, que não redarguia.
+
+--Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de
+ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas
+agora me lembro! o senhor é tambem da sucia.
+
+--Eu?!
+
+--Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o
+convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o
+caso, observe-o e verá se eu tenho razão.
+
+--Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a
+criada--disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa.--Em
+seguida irei aos seus rapazes.
+
+--Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe
+não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com
+ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a
+encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e
+falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições.
+O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por
+outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo
+pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas vá, vá jantar, que eu
+espero.
+
+--Se quizer fazer-me companhia...
+
+--Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua
+vontade.
+
+Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas
+voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto,
+poz-se a examinar os papeis que ella continha.
+
+Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções
+e esgares dos labios.
+
+A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto
+trazia, quando o vimos no Mosteiro.
+
+Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais
+curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o,
+desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo
+a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára.
+
+Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si,
+para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o
+escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a
+tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro
+e encetou novas variações de trompa.
+
+--Então já! Apre! Isso é jantar a vapor--disse o latinista, pondo-se a
+pé, logo que Augusto voltou.
+
+E momentos depois sairam juntos.
+
+Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de
+latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para
+voltarmos ao Mosteiro.
+
+Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao
+parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares
+vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens,
+que pareciam limital-o.
+
+D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As
+creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas
+vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que,
+a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.
+
+A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e
+longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que
+se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á
+tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos
+apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno
+costuma dar-lhe.
+
+Christina interrompeu o silencio por fim.
+
+--O que eu não sei--principiou ella--é como o primo Henrique de
+Souzellas...
+
+--Onze!--atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da
+perspectiva, que fitava.
+
+--Onze quê?--perguntou Christina, erguendo os d'ella.
+
+--Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo
+silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas,
+uma vez que está decidido que seja primo.
+
+Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.
+
+--E então que queres dizer com isso?
+
+--Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.
+
+--Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse
+caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece
+dezembro.
+
+--Não; vae magnifico para os nabaes--replicou Magdalena zombeteiramente.
+
+--Se não mudar com a nova lua--continuou Christina, ainda formalisada.
+
+--É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso,
+principalmente os das terras baixas.
+
+E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.
+
+--Não sei de que te ris!--acudiu Christina, cada vez mais séria.--Pois
+não é esta a conversa de que tu gostas?
+
+--Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.--E,
+mudando repentinamente de tom, accrescentou:--Ora vamos, Christe; não te
+zangues commigo.
+
+--Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas
+coisas que mettem raiva--respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
+
+--Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo
+Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.
+
+Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
+
+--Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle
+agora; por isso...
+
+--Pelo menos completa a duzia.
+
+--Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.
+
+--Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a
+gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que
+te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho
+na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas
+franquezas.
+
+Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão
+da prima.
+
+--E não sabes a razão d'isso?--respondeu-lhe ella--a razão é o genio que
+tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não
+perdesse a paciencia comtigo.
+
+--Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades
+que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante!
+Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se
+te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E
+pagas-me assim!
+
+--És muito infeliz commigo. Pobre Lena!
+
+--Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso
+vêr assim.--E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda
+certa malicia, Magdalena continuou:--Pois é verdade, dizias tu que não
+sabias por que o primo Henrique de Souzellas...
+
+Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.
+
+--Então que é isso? Não me acceitas a expiação?--perguntou Magdalena,
+sorrindo.
+
+--Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que
+te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
+razões que tens para isso...
+
+--Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam
+quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança!
+
+--Eu não quero dizer...
+
+--O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se
+fala n'este assumpto.
+
+--Que lembrança!--tornou Christina, cada vez mais embaraçada--pois
+imaginas devéras que eu?...
+
+--E por que não?
+
+--Lena!
+
+--Não ha nada mais natural.
+
+--Se queres, juro-te...
+
+--Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.--Isso não, que é
+mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua
+consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que
+ousadia ias pronunciar um juramento falso!
+
+--Falso!
+
+--Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres
+então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
+proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo
+agora que eram fundadas.
+
+--Suspeitas! que suspeitas?...
+
+--O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.
+
+--Lena!
+
+--Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora.
+Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do
+privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella
+timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma
+pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até
+descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me
+dares a preferencia.
+
+--Mas como imaginaste?...
+
+--Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por
+ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é
+espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato
+do mundo...
+
+--Mas...
+
+--Faça favor de me ouvir--atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios.
+Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por
+isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem
+receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço
+o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada.
+
+Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse.
+Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita
+demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez,
+suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto,
+que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais
+persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella
+o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a
+completou.
+
+Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para
+confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.
+
+A morgadinha proseguiu:
+
+--É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos
+de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são
+imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia
+hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas
+qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem
+esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que
+olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu
+sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso
+primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse
+titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto,
+Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos
+olhos muitos dos seus defeitos.
+
+--Quaes são?--perguntou Christina com viveza.
+
+--Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda
+perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
+que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu
+logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que
+n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um
+passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
+revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este
+sobrinho da tia Dorothéa te causára.
+
+--Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas
+horas? Julgo que me imaginas apaixonada?
+
+--Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer
+termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não
+é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me
+de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial,
+por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos
+medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.
+
+--Pois o tino enganou-te.
+
+--Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr
+realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais
+digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não
+fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso
+tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa
+fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em
+Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz
+mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em
+muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude,
+agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e
+desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais
+da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar
+cair a primeira capa, para que o natural appareça.
+
+--Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de
+outra--notou Christina, sorrindo.
+
+--Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha
+annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella
+suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o
+verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois
+o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais
+sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os
+inexperientes.
+
+Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou,
+olhando pela primeira vez fita para Magdalena:
+
+--Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar
+que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o
+meu, que vias dependente do estudo que fazias?
+
+A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas
+recriminações.
+
+--Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um
+sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido--a
+desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te
+falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e
+immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia.
+Satisfaz-te esta razão?
+
+A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára
+quasi o da commoção.
+
+Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida,
+apertou as mãos da amiga.
+
+--Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de
+ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para
+sempre, envenenado o coração.
+
+A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.
+
+--Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as
+nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa
+que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora
+tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize.
+
+Christina hesitou.
+
+--Vamos,--insistiu a morgadinha--acredita que preciso de uma declaração
+para me guiar... E crê que é para bem teu.
+
+--Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada.
+
+--Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um
+«agradada», por exemplo.
+
+--Confesso que...
+
+--Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz
+muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não
+corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente
+coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como
+se costuma dizer.
+
+--E então qual é o teu ideal?
+
+--Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma
+especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
+e não sei onde o procure.
+
+N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D.
+Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o
+costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo,
+attribuia umas dôres de cabeça com que acordára.
+
+No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de
+galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal
+podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a
+sua timidez não a deixava luctar.
+
+De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de
+Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos
+da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova
+visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua
+admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
+de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma
+sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á
+volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas
+pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos
+officiaes.
+
+Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa.
+
+
+
+
+IX
+
+
+Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára
+para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves.
+Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena
+abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da
+projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella
+rapariga, com tal preoccupação.
+
+As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem
+d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.
+
+Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta
+dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto.
+Christina foi acordal-a ao leito.
+
+A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.
+
+--Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares
+estremunhando a casa esta noite?
+
+--Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são
+estas as madrugadas em que falavas?
+
+--De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é.
+
+--Dentro em pouco é dia. Queres vêr?
+
+E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e
+correu as cortinas.
+
+A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave
+estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da
+natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos,
+scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
+
+--Vês?--disse Christina.
+
+--Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie
+melhor do que esta lamparina.
+
+Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de
+creança.
+
+--Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper
+do sol.
+
+--Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro!
+
+--Está tão bonita, que parece de primavera.
+
+--Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá
+coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.
+
+Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e
+voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel
+necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
+quando nos deixamos apossar da impaciencia.
+
+--Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê
+neve.
+
+--Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me
+que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia
+ganhando. Vês?
+
+--Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!...
+Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um
+engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.
+
+--Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma
+fogueira no coração, não precisa...
+
+--Ahi principias com as tuas coisas!
+
+--Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios
+matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu
+t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.
+
+--Não quero saber de explicações; veste-te, anda.
+
+--Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia
+Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo;
+dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que
+sorte de invejar!
+
+E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella
+madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e
+heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito
+para a vêr impaciente, principiou a vestir-se.
+
+Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e
+transmittindo á prima as observações que fazia.
+
+--Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os
+pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que
+não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar
+prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão
+ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
+
+--Elle! Quem é esse elle que vem ahi?
+
+--Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha?
+
+--É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em
+mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um
+«elle».
+
+--Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo--disse Christina,
+que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
+fazia de baixo.
+
+--Então, com effeito já chegou?--perguntou a morgadinha,
+admirada.--Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle
+tambem tem alguma coisa no coração!
+
+--Tambem o julgo--respondeu Christina, despeitada;--é vêr como hontem te
+falou.
+
+--Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a
+pessoa que causou esse mal.
+
+--Não sei o que elle me está a dizer--disse Christina, olhando para o
+pateo.--Posso abrir a janella, Lena?
+
+--Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã.
+Abre lá a janella, abre. Fala-lhe.
+
+Christina correu a vidraça.
+
+A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.
+
+--Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?--perguntou
+elle a Christina.
+
+Christina respondeu, sorrindo:
+
+--Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio
+dia.
+
+--Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha
+indolencia!--disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de
+Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a
+ella, mas sempre sem receber resposta.
+
+Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio
+tivera ainda.
+
+--De maneira que nós, priminha--continuou Henrique--damos uma lição de
+mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos
+appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se.
+
+--Eu vou chamal-a--disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena,
+com certo modo, que não podia escapar a esta:--Olha se appareces alli ao
+sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê.
+
+A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao
+penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha
+e disse-lhe sorrindo:
+
+--Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos
+ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que
+não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não
+via.
+
+--Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
+
+--Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir
+accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço
+falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para
+completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.
+
+Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
+
+Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois
+ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes
+companheiras na romagem.
+
+A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as
+pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
+talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de
+Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais
+vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas;
+no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do
+campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito
+esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos
+e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.
+
+Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro
+aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá
+margens a confidencias.
+
+Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles
+certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva.
+
+Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando
+não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois
+indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e
+fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção.
+
+Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas
+ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de
+dezembro.
+
+Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de
+D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e
+mesmo do leito perguntou-lhes:
+
+--Então já vão, meninas?
+
+--Vamos, tia; vamos, mamã--responderam as duas a um tempo.
+
+--O Luiz já partiu com o almoço?
+
+--Já partiu, já, minha senhora.
+
+--E ides agasalhadas?
+
+--Como se fôssemos para a Siberia--respondeu Magdalena.
+
+--Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa
+Senhora.
+
+--Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.
+
+--Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis.
+
+Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã
+d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára
+com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir.
+
+Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique,
+depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe
+attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
+porque se lembrou de Christina.
+
+--Muito obrigada, primo,--disse ella com vivacidade.--Mas é preciso que
+o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
+trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo
+isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em
+que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro,
+embora seja o de um heroe.
+
+--Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se
+escusa--replicou Henrique.
+
+--É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma
+pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço
+de giestas, por exemplo.
+
+--Vê lá, Lena,--disse Christina ao ouvido da prima.--Talvez seja melhor
+que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.
+
+--Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr.
+Augusto--continuou voltando-se para este--espero que tome a direcção do
+nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista;
+leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de
+perigos e de fadigas. Partamos!
+
+O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus
+milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era
+uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais
+de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica
+vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes,
+arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o
+gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava
+sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em
+vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés,
+permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma
+convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em
+colosso.
+
+Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda,
+que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da
+ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam.
+Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra
+os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma
+longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito
+deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
+tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus
+passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um
+absurdo.
+
+Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que
+d'elle o separava.
+
+O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava
+um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido
+pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.
+
+Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do
+monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi
+infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes
+negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o
+cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da
+madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos
+climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua
+verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral
+do quadro.
+
+A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com
+lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e
+atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o
+passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das
+outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir.
+
+Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se
+indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os
+córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e
+os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por
+aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.
+
+As difficuldades para Henrique eram continuas.
+
+A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte
+de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse
+d'aquillo.
+
+Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a
+paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava,
+apparecia mais surprehendente e maravilhosa.
+
+Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.
+
+As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a
+belleza do quadro.
+
+Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes
+mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia
+aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos
+canteiros de um jardim.
+
+Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.
+
+--É magnifico! é admiravel! é soberbo!--dizia elle, a cada momento e
+quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.
+
+O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os
+montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na
+planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.
+
+Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que
+viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
+que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
+
+Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.
+
+Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena;
+parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
+mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a
+ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem
+lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi
+achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio.
+
+A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava
+insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.
+
+--Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á
+necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos
+auxiliar--disse ella sorrindo.--A falar verdade, para quem tem passado a
+vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto.
+Tenho um pouco de alpestre. Adeante.
+
+E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:
+
+--Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve
+a lembrança de lh'o offerecer.
+
+Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o,
+offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando.
+
+--Então por que recusas?--perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.
+
+--Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.
+
+A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não
+lhe disse nada.
+
+Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já
+tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia
+encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo
+apparecimento do sol.
+
+--Chegamos a tempo!--exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a
+primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.
+
+Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella.
+
+Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á
+contemplação d'aquella perspectiva solemne.
+
+As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa,
+n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um
+espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam
+longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em
+simples phrases, como estas:
+
+--É bello!
+
+--É magnifico!
+
+--É sublime!
+
+E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E
+eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só
+bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o
+panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a
+imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse
+d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna.
+
+Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade
+precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a
+fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
+
+Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre
+os quatro.
+
+Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus
+projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua
+mutua frieza.
+
+--Lá está o Mosteiro--disse Magdalena, apontando para o logar
+indicado.--Como parece pequeno, visto d'aqui!
+
+--É verdade--respondia Christina--e olha, Lena, como se vêem bem as
+janellas do teu quarto.
+
+--Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares...
+
+Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu:
+
+--Para cumprimentares a estrella d'alva.
+
+--As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas.
+
+--Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia
+Victoria não é muito matinal.
+
+--Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?--perguntou Henrique,
+apontando n'outra direcção.
+
+--É--respondeu Augusto--e, mais adeante, alli tem a deveza, em que
+passou ante-hontem. Não é verdade?
+
+--É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei!
+D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter
+passado tambem.
+
+--Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?--perguntou
+Magdalena, apontando para um ponto distante.
+
+--Perfeitamente.
+
+--É a minha quinta dos Cannaviaes.
+
+--Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista.
+
+--Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de
+Nossa Senhora, muito milagrosa.
+
+--Sim? hei de visital-a.
+
+--Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é
+concedido--disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão
+da mais insinuante sinceridade.
+
+--Que quer dizer o voto da meia noite?
+
+--Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no
+altar da Senhora--continuou Christina.
+
+--Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra
+desejo que se não satisfaça.
+
+--Mais devagar,--acudiu Magdalena, sorrindo--pouca gente se atreve até a
+ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas
+mortas por a sua antiga casa, dizem.
+
+--Cada vez sinto mais desejos de lá ir--accrescentou Henrique, depois de
+ouvil-a.
+
+--Além, entre aquellas arvores, sr.^a D. Magdalena, vive um
+philosopho--disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.
+
+--É verdade; o bom do tio Vicente.
+
+--Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu
+possa augmentar o meu parentesco na aldeia?
+
+--O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos
+montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso
+parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim
+como quasi toda a gente por aqui.
+
+--Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da
+igreja?--perguntou Christina.
+
+--Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas--disse
+Henrique de Souzellas.
+
+--São as mulheres que vão ouvir o missionario--respondeu a
+morgadinha.--Escutem, lá está a tocar o sino.
+
+Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas
+do campanario da aldeia.
+
+--A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira,
+que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas
+devoções--notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a
+que na vespera assistira.
+
+--Degenerou aquella mulher!--disse Magdalena--e, se quer que lhe fale a
+verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue
+assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!
+
+--Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos
+missionarios?--perguntou Henrique.
+
+--E não tem lavrado pouco!--tornou Magdalena.
+
+Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as
+palavras da morgadinha.
+
+--Primo Henrique--disse ella--julgo que ainda será preciso o seu auxilio
+para livrar do contagio esta innocente Christina.
+
+--Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a
+minha vontade.
+
+--Olha, Lena, não vês?--exclamou Christina--são os pequenos que nos
+estão a dizer adeus das janellas do mirante.
+
+De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços
+brancos.
+
+Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a
+prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.
+
+Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
+
+--Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creação.
+
+Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da
+alameda já se tingiam de luz.
+
+Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida
+faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as
+extremidades até se perder de todo no azul-celeste.
+
+Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro
+inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal
+candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu
+nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões
+que o retinham.
+
+O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas
+meias sombras da madrugada.
+
+Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha,
+que veio annunciar que o almoço estava prompto.
+
+--Pois devéras temos um almoço?--exclamou Henrique, sinceramente
+surprehendido.
+
+--Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em
+casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que
+estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o
+appetite--respondeu Magdalena. E logo após continuou para
+Henrique:--Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os
+recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
+
+Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a
+ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender,
+limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena
+fingiu não perceber.
+
+E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de
+pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.
+
+D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A
+alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das
+iguarias convidavam.
+
+Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de
+circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido,
+correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.
+
+Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á
+cozinha do Mosteiro.
+
+Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças,
+conversou animada e espirituosamente.
+
+Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com
+vontade das que ouviu a Augusto.
+
+A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.
+
+N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de
+amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.
+
+Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do
+congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam
+contrariados.
+
+Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre
+o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas
+letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
+
+--Bravo!--exclamou, depois de as ler para si--não imaginava que havia
+poetas na aldeia! Querem ouvir?
+
+E leu:
+
+
+ Se estás mais perto do céo
+ N'estas alturas da serra,
+ Ai, porque tens, peito meu
+ Inda saudades de terra?
+
+ Em vez-de erguer os olhares
+ Á luz d'este firmamento,
+ Desço-os á sombra dos lares,
+ Onde tenho o pensamento.
+
+
+--É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima?
+
+--Não sei; da aldeia de certo que não é--respondeu Magdalena, com
+indifferença.
+
+Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.
+
+--Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil
+crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um
+romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever
+saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do
+poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se
+vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim,
+confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra
+companhia--accrescentou, olhando significativamente para a
+morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta
+expressão do meu sentir, porque...
+
+
+ Em vez de erguer os olhares.
+ Á luz d'este firmamento
+
+
+Eu tambem...
+
+
+ Os _abaixaria_ aos lares
+ Onde tenho o pensamento.
+
+
+Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda.
+
+Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito
+ao ficar só com Henrique.
+
+--Prima Magdalena,--disse em tom mais affectuoso Henrique, passado
+tempo, e depois de mais algumas palavras--deixe-me falar-lhe com
+franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém,
+sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode
+imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã.
+
+--Perdão,--atalhou Magdalena--diga-me primeiro o que é isso que me vae
+dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto
+de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir
+preparando uma resposta adequada.
+
+-Que prazer tem em ser cruel!
+
+-Deixemo-nos de loucuras--continuou Magdalena, séria já.--Quem ouvisse o
+sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer
+uma declaração.
+
+-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por
+que não?
+
+-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista
+d'ellas.
+
+--Por quê?
+
+--Porque não posso escutal-o.
+
+--Ou não quer.
+
+--Ou não quero; seja.
+
+--Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração
+já...
+
+--Que impertinente pergunta? Se _já_, não tenho ainda no sr. Henrique a
+necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas
+de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.--E accrescentou logo
+depois:--Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
+Henrique.
+
+--Que vae fazer?--perguntou-lhe Henrique, admirado.
+
+Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os
+olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:
+
+--O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter;
+o meu amor proprio disse-me que--era pouco delicado estar assim a
+lisonjear uma mulher na presença de outra--e redargui por isso, pondo em
+dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na
+tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora
+dize tu.
+
+Christina córou intensamente e não teve que responder.
+
+Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo
+sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou
+desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu:
+
+--Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á
+accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da
+doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima
+Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa
+Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que
+alludiu.»
+
+A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras;
+mas fingiu não comprehender.
+
+Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos
+n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave
+expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico,
+que não escapou tambem a Henrique.
+
+Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum
+parecesse disposto a baixar-se deante do outro.
+
+Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina,
+dizendo:
+
+--Olhem o tio Vicente por aqui!
+
+Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e
+approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos
+falado no decurso dos passados capitulos.
+
+
+
+
+X
+
+
+Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.
+
+A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e
+penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes
+meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle
+semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os
+annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
+os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o
+caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que
+atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem
+permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando
+para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes.
+
+Era um enigma vivo.
+
+Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe
+curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita
+consagrava as maiores attenções e canceiras.
+
+Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém
+ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que
+vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo
+velho.
+
+Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle,
+como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.
+
+Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns
+alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e
+mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros
+de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de
+astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais
+predilectos e consultados contava um exemplar da _Polyantheia_ de Curvo
+Semedo.
+
+O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que
+revézes de familia haviam interrompido.
+
+Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os
+erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou
+a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por
+maravilhosa.
+
+E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de
+concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
+
+Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos
+simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a
+austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que
+dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle
+typo, para ella quasi lendario.
+
+Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a
+Augusto, que lh'a apertou com affecto.
+
+--Bons dias, rapaz,--disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e
+Christina, accrescentou com maneiras paternaes:--Adeus, pequenas;
+grandes madrugadas hoje!
+
+Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi
+desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:
+
+--Guarde-o Deus!
+
+Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
+
+Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe
+com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:
+
+--Quem é?
+
+Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
+
+--O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa
+pergunta.
+
+O velho nem sequer o olhou.
+
+--Este senhor--respondeu Magdalena--é sobrinho de D. Dorothéa; está
+hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.
+
+Vicente tornou a examinar Henrique.
+
+--Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã...
+Umh!...
+
+Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam
+desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo
+jovialmente:
+
+--A doença d'este senhor é um pouco de imaginação.
+
+--E grandes effeitos nascem d'ahi--acudiu sentenciosamente o velho.--Lá
+veem na _Polyantheia_ muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
+umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto
+scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo
+uma pedra do feitio de uma amora.
+
+--Com effeito!--disse Henrique, com ironica expressão de pasmo--ahi
+estava um cerebro de concepções rijas!
+
+--É divertido!--disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para
+Magdalena.
+
+--Pelo contrario--acudiu a morgadinha--o seu mal é a melancolia. Não é
+verdade?
+
+--Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia
+Dorothéa, que lhe chamou mania.
+
+--Mania e melancolia não são a mesma coisa--emendou o velho.--Tambem lá
+na _Polyantheia_ se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem
+furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou
+cólera requeimada.
+
+--De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!--continuou
+Henrique, no mesmo tom.
+
+Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse
+por irritar o velho, perguntou a este:
+
+--Parece-lhe que terá cura a doença?
+
+--Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a
+final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de
+ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira.
+
+--Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer
+o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que
+receita para as manias--disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe
+ficava proximo.
+
+O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras
+impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um
+relampago de irritação.
+
+Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.
+
+--Está bom, menino,--replicou elle amargamente.--Não diga mais, para se
+não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
+costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os
+attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não
+pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que
+é isto?--exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas
+sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.--As folhas veem d'este
+lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo.
+
+E, depois de olhar para o ar, continuou:
+
+--Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e
+aquellas nuvens.
+
+E levantou-se.
+
+--Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que
+virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o
+quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não
+tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
+Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
+
+E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as
+hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu,
+depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
+
+Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que
+parecia haver o que quer que era de forçado.
+
+--É realmente curiosa esta antigualha--disse elle, que interiormente
+sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.
+
+--Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na
+aldeia!--disse a morgadinha.--Tem uns melindres e uma maneira de vêr as
+coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender!
+depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não
+estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é
+bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças
+suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?
+
+--Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado
+geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...
+
+--É um homem de bem--atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade
+de expressão, que até alli não mostrára ainda.
+
+Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou
+firmemente aquelle olhar.
+
+--Não o nego--respondeu Henrique, pouco depois--mas infelizmente os
+homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a
+imbecilidade.
+
+--Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um
+juizo são e uma razão clara.
+
+--Acha?--tornou Henrique, já algum tanto azedado.--Ha de dar-me licença
+de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.
+
+--Procede mal--redarguiu Augusto.--Porque eu conheço aquelle homem ha
+muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor
+quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma
+digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A
+consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.
+
+--Lê fundo nas consciencias dos outros!
+
+--Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de
+ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.
+
+--Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui
+suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção
+aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que
+dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei.
+
+Augusto córou, mas respondeu com firmeza:
+
+--Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que
+qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.
+
+Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada
+ironia:
+
+--É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu
+programma... de mestre-escola.
+
+--Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre;
+rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas n'esse ponto podem
+dar lições a elegantes filhos das cidades.
+
+--Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia,
+dever-lhe algumas lições tambem. Comtudo, como, felizmente, as
+circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do
+estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lições que
+receber.
+
+--Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o
+discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.
+
+--E acceita-a em toda a especie de moeda, não é verdade?--perguntou
+Henrique, cada vez mais petulantemente.
+
+Augusto respondeu com a mesma serenidade:
+
+--Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito
+salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo.
+
+O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais
+acerbo caracter.
+
+Christina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Magdalena, como
+para convidal-a a intervir.
+
+Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto.
+A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
+inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens,
+rivalisava com o d'elle, eram tão novos para a morgadinha, que a
+surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
+de uma intervenção. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade.
+
+--Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre
+os senhores é uma altercação--disse ella por fim.--Vejam que só teem por
+testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a
+contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha
+que fizeram da occasião, para uma justa tão pouco... amavel.
+
+--Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu
+proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o seu
+pensamento, quiz estender até mim este despotismo de... _magister_...
+Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...
+
+--Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me
+agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que
+levianamente formou de quem lh'a não merecia. Vejo que prefere ser
+injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu não soffro é que se
+diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem
+sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo
+por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer,
+lastimo-o; é porque não os tem.
+
+--Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois--disse
+Magdalena.--É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e
+aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja
+porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui
+traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo
+sacrilego, que se fizesse n'ella.
+
+Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo
+antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto,
+representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e
+florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles
+pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos
+desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé
+ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
+
+E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto.
+D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que
+reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que
+estava.
+
+Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique
+examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára
+mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da
+Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não
+sei se pensando n'ellas.
+
+Esperava-os uma surpreza á saida.
+
+Realisára-se o prognostico do herbanario.
+
+O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo,
+viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e
+empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se,
+pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de
+longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea.
+Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se,
+acabando por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. Ao
+mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a
+erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas
+moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as
+aguardavam firmes.
+
+Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da
+ermida.
+
+--Depressa!--exclamou Augusto--já não ha tempo a perder! Desçamos antes
+que a tormenta nos colha.
+
+--Tem medo?--disse Henrique em tom de mofa.--Um montanhez!
+
+--Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que não é de inimigo pouco
+digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, por amor
+d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida.
+Felizmente que o criado já partiu. É um embaraço de menos.
+Vamos.--Detendo-se, porém, disse para Magdalena:--Se descessemos por o
+outro lado, minha senhora?
+
+--Para quê?--respondeu esta.--É um momento, emquanto chegamos abaixo.
+
+A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerração do ar;
+os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a
+chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente;
+havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
+nuvens tomavam uma côr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas
+igualmente sinistras.
+
+Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas;
+Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.
+
+Não era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo
+d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi
+impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em
+catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro ás
+arestas salientes da rocha.--Era necessario estar muito amestrado para o
+descer sem perigo.
+
+Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim não tivesse de
+repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas
+aventuras; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos
+despenhadeiros do monte.
+
+A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que
+inspirava alento e confiança aos mais. Agil, como um animal montez,
+girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fôra reconhecido
+chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil
+transito, ora á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira em
+embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos
+braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára,
+sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O
+proprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso
+admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de
+Augusto.
+
+O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto
+mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e
+aptidões, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de
+baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este
+momento; ora Henrique não era homem que, tendo consciencia disto,
+ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma
+compensação.
+
+Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos
+quaes sómente a preoccupação, em que iam os animos, impedia achar
+risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser
+alimento de animadas e joviaes recordações.
+
+Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao
+lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a
+pique e erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas
+e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado
+tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a
+mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espaço arremeçou-a ao
+abysmo.
+
+Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria
+difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.
+
+Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror
+Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
+
+A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças ligeiramente
+desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado
+susto.
+
+A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo sobresalto que
+involuntariamente causára.
+
+--Descança em paz!--disse ella, olhando para a mantilha; e
+accrescentou:--Sigamos.
+
+--Mas não será possivel tiral-a d'alli?--perguntou Augusto, examinando o
+sitio.
+
+--Para quê? Não podemos demorar-nos agora com isso--respondeu Magdalena.
+
+--Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um
+momento--insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.
+
+Henrique notou, sorrindo:
+
+--O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes não eram de
+tão bom aviso.
+
+E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia
+humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia
+a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma
+desnecessaria imprudencia.
+
+Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão,
+deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos á borda
+do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha,
+até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um
+ramo mais tenaz; á fôrça de vontade dominou a sua impericia em
+exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço,
+segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio.
+
+Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos,
+pôde, roçando-se como reptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e
+nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em
+terra, sem acceitar a mão que Augusto lhe offerecia, e com gesto
+radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de
+triumpho.
+
+Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma
+palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.
+
+Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça
+murmurando:
+
+--Que imprudencia!
+
+--Na verdade!--disse Magdalena, ainda nervosa com a impressão que este
+incidente lhe causára--foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.
+
+E a perturbação era tal, que nem acertou com uma phrase de
+agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais
+desejava reprehender, do que recompensar.
+
+Esta reserva offendeu Henrique; serviços a seu vêr de menor importancia,
+tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.
+
+Revoltou-o esta ingratidão.
+
+Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo
+sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e
+aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o
+tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca
+aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o
+desespêro de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas loucuras!
+
+Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fôrça das
+enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares,
+era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado
+mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham
+encontrado quasi submersa.
+
+Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:
+
+--Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar
+já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do
+moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto.
+
+--Então deixa-nos sós?--exclamou Christina, assustada.
+
+--É um instante.
+
+--Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação--disse
+Magdalena.
+
+--O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte;
+o caminho indica-se por si.
+
+E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na
+rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.
+
+Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina
+fechava o cortejo.
+
+O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios
+com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
+a direcção do rancho.
+
+Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava
+merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella
+contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o
+humilhava.
+
+Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique
+perdera com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo
+o dia.
+
+Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular
+um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
+nem sempre demasiado affavel.
+
+Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar.
+Christina menos.
+
+Este silencio acabou por exasperar Henrique.
+
+Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do
+riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor
+do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
+
+Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.
+
+--Estou devéras arrependido, prima Magdalena,--disse elle com leve
+ironia--do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
+ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a
+gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era
+demasiado cauteloso para heroe...
+
+Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou
+proseguir.
+
+Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas,
+pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.
+
+Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa
+d'aquelle duplo grito.
+
+Refiramol-o em poucas palavras.
+
+Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou
+não transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.
+
+O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em
+taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não
+conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O
+andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou
+para descançar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o
+verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua
+pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio
+caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava.
+Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava
+muitos passos de avanço.
+
+Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se
+dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em
+descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente
+caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já não se viam
+signaes de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os
+açudes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em
+cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.
+
+O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas,
+sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.
+
+Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. Encontrou a primeira,
+pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como pôde, para resistir á fôrça da
+corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um
+passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de
+sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio,
+caiu na levada para o lado dos moinhos.
+
+Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o
+estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a
+urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, sem
+perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados
+do moinho.
+
+Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o
+espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se á agua.
+
+Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas
+abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto
+se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre n'um palco,
+deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o
+papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, arriscaria,
+para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por
+ventura, um impulso generoso, que não pudésse harmonisar-se com a
+convenção, que se chama elegancia.
+
+Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle.
+
+Augusto era differente.
+
+As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos,
+para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis.
+
+Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou temerariamente a vida
+para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais
+segurança, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida,
+para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o
+fazia recuar.
+
+Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a
+margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás
+anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:
+
+--Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe
+tambem arriscar a vida, quando uma razão de humanidade lh'o pede. A sua
+imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, mas... não posso approval-a.
+Confesse que não foi tão justificada como esta.
+
+Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia justa para vêr
+que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda,
+inferior ao seu companheiro.
+
+Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo
+que teve sobre a rebellião dos maus instinctos poder sufficiente para se
+obrigar a ir apertar a mão a Augusto.
+
+O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforço da lucta com a
+corrente; ainda assim abraçou tambem Augusto, dizendo:
+
+--Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião de te dever a vida,
+rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.
+
+Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
+
+Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D.
+Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
+o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto
+estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem
+ahi dentro mudar de fato.
+
+Augusto seguiu o herbanario a casa.
+
+Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de
+haverem renovado a roupa, que a chuva repassára.
+
+No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas
+exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas,
+como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os
+criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a não haverem
+avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante,
+repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de
+chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.
+
+Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma,
+ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
+cobertores, emborcaram-o de _punch_ e taes mêdos lhe insinuaram, que as
+apprehensões pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram
+reapossar-se da sua antiga victima.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Censuravel descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos
+logares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episodios
+d'esta narração.
+
+Que se diria de um _cicerone_ que, por esquecimento ou proposito,
+deixasse de apresentar um viajante, recem-chegado a uma cidade, na
+assembleia, club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem as
+principaes personagens d'ella, onde se compendiam as grandes questões e
+interesses locaes, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras,
+os voluveis caprichos que agitam os espiritos, onde se commenta o boato
+de hontem, se dão ao de hoje mil versões diversas e se adivinha já o de
+ámanhã?
+
+Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando a este undecimo capitulo,
+sem ter guiado os leitores á venda de Damião Canada, a qual podia
+dizer-se o verdadeiro coração d'aquelle organismo social.
+
+Tudo quanto na terra havia de certa representação alli ia falar da coisa
+publica e tambem da particular;--da particular dos outros mais do que da
+propria, entenda-se.
+
+Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza após horas continuadas
+de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permittiu que o
+sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o
+envolvia, e mandasse os raios amortecidos ás cristas das serras
+fronteiras; aproveitemos este intervallo de socego para entrarmos na
+taberna.
+
+Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.
+
+Henrique de Souzellas teve de condescender com uma leve angina, que lhe
+legaram os rigores d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha,
+entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a scismar n'uma imminente
+desorganisação da larynge, a que imaginava conduzirem-o os seus
+incómmodos actuaes.
+
+No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça narrar-se ao leitor.
+
+Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos o que
+dizem os frequentadores do estabelecimento de Damião Canada.
+
+Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do proprietario, barriguda e
+rubicunda figura, que, assim posta ao pé das pipas, podia servir de typo
+para a representação de um Sileno, havia varias individualidades de peso
+nos destinos de toda a comarca.
+
+Dê-se primeiro menção ao nosso já conhecido Bento Pertunhas, a quem as
+humanidades não faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em
+communicação social com os seus conterraneos.
+
+Observada esta deferencia, mencionemos os mais.
+
+Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho das Perdizes, em quem
+já temos ouvido falar por mais do que uma vez.
+
+Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario em uma das freguezias
+proximas, chamada de Pinchões; mas propriedades e morgadia andavam-lhe
+tão embaraçadas em redes de demandas e de hypothecas, que Deus nos
+acuda.
+
+Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes, enchiam um cartorio.
+Graças, porém, ao seu genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho
+deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os cuidados agricolas
+aos rendeiros e feitores; os do futuro, a Deus ou ao diabo; e para si
+não reservava nenhuns.
+
+Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era necessidade. Frequentava
+as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavallos com os ciganos,
+e ás vezes para dar e levar sovas monumentaes.--Nos mezes de caça, a
+vida do morgado era perfeitamente nómada: estendia por leguas e leguas
+as suas excursões venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida,
+de que, de ordinario, participavam os cães, que o acompanhavam;
+distrahia-se tambem a conquistar os corações femininos da freguezia,
+calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insoffridas de um ou
+outro pae, marido ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas
+tinha contas em aberto, o que não obstava a que entrasse em todas com
+ares de conquistador e expendesse alli as suas opiniões absolutas, com
+grande exhibição de berros e de punhadas.
+
+Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das Perdizes um homem
+verdadeiramente popular entre os da sua freguezia; movia-os no sentido
+que quizesse.
+
+Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não havia funcção, rixa, solemnidade
+official, para que elle não fôsse consultado. É que a superioridade do
+morgado das Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham o povo;
+ninguem hesitava em falar-lhe e em procural-o em casa, porque, falando e
+vivendo com elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem. Os seus
+defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a
+popularisal-o; justo é porém que se diga que algumas boas qualidades
+tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não era avarento, nem
+soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso, não consentia que
+pessoa alguma, desde o mais rico proprietario até o jornaleiro mais
+miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. Não eram poucos os
+filhos-familias que resgatára de soldado, sem a menor caução ou
+interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum
+desgraçado se via perseguido pela justiça, encontrava, fôsse qual fôsse
+a enormidade do crime, asylo seguro na herdade das Perdizes, que em
+certas épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.
+
+Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era o sr. Joãozinho uma
+verdadeira potencia eleitoral.
+
+Eis ahi o homem moralmente.
+
+Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta e cinco annos, gordo,
+vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado
+e a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na maneira de vestir
+inculcava os habitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe
+era peculiar. Trazia o collete quasi sempre desapertado e com alguns
+botões de menos de modo que os peitos da camisa formavam hernia pela
+abertura; entre as calças descaídas e o collete avistava-se o cóz das
+ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar a mão; ao pescoço trazia
+um lenço de seda escarlate, negligentemente atado e com longas pontas
+fluctuantes; uma jaqueta de pelles com alamares, calças de fazenda
+chamada pelle do diabo, botas de montar e esporas constituiam o resto do
+vestuario. O cigarro, que quasi sempre fumava até ás ultimas,
+crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e o canto dos labios. O
+palito andava-lhe sempre atraz da orelha; a navalha de ponta na
+algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa
+matilha de galgos, podengos e perdigueiros.
+
+Segunda e não menos importante personalidade era a do sr. Eusebio
+Seabra, chamado por antonomasia--o Brazileiro.
+
+Era um homem de cincoenta annos; bem figurado e sisudo, de falar
+compassado e com seus quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de
+protecção a todo o mundo.
+
+Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao Brazil. Por lá esteve
+quarenta annos, e voltou o homem grave que vemos e rico. Como enriqueceu
+não sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sitio em
+que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com tres andares e
+varandas, jardim com estatuas de louça e alegretes pintados de verde e
+amarello, o qual jardim tinha mais fama n'aquellas aldeias vizinhas do
+que os jardins suspensos da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma arara,
+igualmente famosos, e uma botica homoepatica, que elle proprio
+manipulava.
+
+As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a primeira
+personagem de influencia na aldeia. Para isso principiou por fazer
+alguns reparos na igreja parochial, presenteou com vestidos novos todos
+os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze annos
+tocava a rachado. Fez á sua custa a festa do orago, chegando a mandar
+vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do
+chão. Apesar, porém, de todos estes beneficios á localidade, o
+conselheiro Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto vivesse quasi
+sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as
+ambiciosas vistas. Por isso, apesar da apparente amizade com que Seabra
+o acolhia e lisonjeava até, conservava por elle no fundo uma má vontade,
+um ciume, de que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões.
+
+Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho das Perdizes descurado
+no seu vestir. Usava sempre de suissa irreprehensivelmente talhada em
+volta do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres grandes botões
+de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas côres de uma ave da
+America; e o ouro, distribuido com profusão por todos os accessorios da
+sua pessoa, attestava os bons resultados dos seus quarenta annos do
+Brazil. Passeiava pela aldeia de chinelos de marroquim verde ou sapato
+de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do andar, que voltava a casa
+sem que uma mancha ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino.
+Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a
+com bota de polimento.
+
+Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé P'reira, que bebia, em
+silencio, ao pé do taberneiro, havia um padre, coadjuctor da freguezia,
+dois lavradores abastados e já de avançada idade, e outros que
+deixaremos confundidos na massa indistincta dos comparsas.
+
+No momento, em que entramos, usava da palavra o brazileiro, que estava
+sentado á porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.
+
+--Pois é verdade--disse elle--fômos todos da mesma creação. O
+conselheiro Manoel Bernardo saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu
+ir para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola, que era a do padre
+Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. Vossemecê ha de estar lembrado,
+sr. Luiz--accrescentou, dirigindo-se com a affabilidade protectora, que
+o caracterisava, a um dos lavradores.
+
+--Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da
+Luciana.
+
+--É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro e aquelle ratão
+do Vicente, herbanario, que era já rapaz taludo. Lembra-me, como se
+fôsse hoje, de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro da
+Corredoura.
+
+--Olha lá, hein!--diziam dois lavradores com um sorriso cortezão nos
+labios--então com que o sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...
+
+--Ora, como um homem. Eu fui levadinho da bréca. Boa sóva levei de minha
+mãe, por causa de umas calças novas que rompi.
+
+--Ora vêdes?--diziam os outros.
+
+--Ai tempos, tempos!--disse, suspirando, o brazileiro.
+
+--Quem havia de dizer então ao que v. s.^a e o conselheiro tinham de
+chegar!--notou lisonjeiramente o sr. Bento Pertunhas.
+
+--Eu sim--respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.--A que cheguei
+eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um boccado de pão
+para o resto da vida; com isso me contento. O mais, sou um pobre diabo
+que ninguem conhece, um homem ignorante, sem principios. Elle é outra
+coisa.
+
+--Não é tanto assim--insistiu Pertunhas--todos sabem que v. s.^a se
+quizesse...
+
+--Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesse o juizo de muitos, que
+por ahi vejo figurando, então havia de me vêr na brecha; porque, não é
+por me gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles.
+
+--Ora pois, não, não--disseram os lavradores, Pertunhas e o padre.
+
+--Alguns que até ministros teem sido...
+
+--Por essa estou eu...
+
+--O conselheiro mesmo...--resmungou o padre, fungando uma pitada
+jesuitica--sim, aqui para nós...
+
+--Tanto não digo--continuou o brazileiro, mais jesuiticamente ainda.--O
+conselheiro... vamos... Faça-se-lhe justiça. Eu não quero dizer que elle
+seja uma coisa por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a
+final?... Mas... Não é dos peores, não é dos peores. Faça-se-lhe
+justiça. Não é homem de grandes talentos... isso não; nem mesmo de
+grande fundo. Sim... Devemos confessar que esta é a verdade... Mas...
+emfim, vamos andando... Cada um faz o que pode--concluiu o brazileiro,
+depois de ter feito justiça ao conselheiro.
+
+--No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode fazer. Ha
+quantos annos nos anda a falar na estrada, e até hoje ainda nem palmo
+d'ella?--opinou Pertunhas.
+
+--Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o dictado--ponderou o
+brazileiro.
+
+--A falar verdade!...--disse um dos lavradores--com a influencia que
+elle tem, podia...
+
+--Ora adeus! palanfrorio--atalhou o padre--bem me fio eu na influencia
+do conselheiro.
+
+--Eh! eh! eh!--respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do padre,
+e accrescentou com um sorriso velhaco:--Não, elle diz que fala com os
+ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. Emfim...
+Elle lá o sabe.
+
+--Para mim é que elle vem de carrinho...
+
+--Eu não sei--concluiu com requinte de velhaquez o brazileiro.
+
+--Pois eu cá--disse o sr. Joãozinho, que estivera bebendo em silencio, e
+descarregou um murro na banca, que fez tilintar os copos.--Eu cá já
+disse; se os taes homens das bandeirolas me tornam a passar por as
+terras, sempre lhes meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e
+que já me serviu para varrer a feira de Santo Estevão. Uns mariolas!...
+
+E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um pontapé a
+um podengo, que lhe viera roçar por as pernas, e fel-o sair ganindo.
+
+--Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das
+estradas--informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr.
+Joãozinho.
+
+--Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!--resmungou
+este.--Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente queimámos toda
+a papelada da camara e do escrivão da fazenda.
+
+--Agora no inverno é que elles hão de principiar com os trabalhos.
+Sempre se fia em boa!--disse, encolhendo os hombros, mestre Pertunhas.
+
+--Vossemecê é que está a ler--veio-lhe á mão o brazileiro.--Então não
+sabe que as eleições são em fevereiro?
+
+--Ai, é verdade! não me tinha lembrado d'isso!--exclamou o padre.
+
+--Tambem não sei como será d'esta vez essa historia das eleições--acudiu
+o sr. Joãozinho.--Cá eu e a minha gente ainda estamos a vêr no que param
+as coisas. Eu já não estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao
+conselheiro a freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo
+que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos de entrar
+n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá por umas contas, não anda o
+filho de meu pae.
+
+--Ora adeus!--disse o padre cura.--O conselheiro tem artes para o levar.
+
+--A mim? Está enganado. Não querendo eu? Então você não me conhece. Em
+eu embirrando, sou como um borrego teimoso.
+
+--Quando se fala em estradas, já estou a tremer--disse um dos
+lavradores.--O que elles veem cá fazer é cortar-nos os campos, e a final
+não sei para que servem.
+
+--Isso não é assim--atalhou o brazileiro, tomando uns ares
+cathedraticos, cheios de gravidade.--Vossemecê é ignorante e por isso é
+que fala d'esse modo.
+
+--Eu digo...--tartamudeou, intimidado, o lavrador.
+
+--Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que não entende. As
+estradas não servem para nada! As estradas são meios de communicação
+e... facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por
+conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um
+capital..., sim, senhores, mas... mas um capital... sim... um capital
+morto... quero dizer um capital que não vive... Quero dizer... sim...
+supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., sim... ahi está o
+credito... Pois que é o credito?... O credito é... é o credito...
+depende de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós não
+tivessemos estradas... Uma supposição... Partamos de um principio. A
+producção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a
+producção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta?
+Está claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... Não
+havendo estradas... Ahi está que se diz por ahi que a livre exportação,
+que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não é
+assim. É preciso que se attenda tambem ás condições economicas dos
+povos. Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em
+termos já se sabe... Mas... o commercio livre... a livre troca...
+entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que...
+Ora supponhamos... supponhamos que não havia estradas... Os transportes
+eram mais difficeis e portanto mais caros... E se além d'isso os generos
+fôssem escassos e... Diz vossemecê, para que servem as estradas? Ora
+diga-me uma coisa, sr. Manoel, supponhamos que... os impostos
+indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos
+indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer.
+
+--Impostos, Deus me livre d'elles!--murmurou o lavrador, cujos
+instinctos trepidaram á palavra «impostos».
+
+--Isso tambem não é assim... Deus me livre! Não se diz Deus me livre,
+porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra...
+isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a
+exploração... Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não...
+vamos cá por outro lado... Ha um _deficit_ n'um orçamento... desce o
+preço das inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que ha boas
+estradas, _et coetera_... A riqueza tende a augmentar... e... e... Emfim
+lá que as estradas são uteis, isso é que não tem questão.
+
+Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com profunda
+attenção.
+
+O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios periodicos
+politicos, conseguira, á fôrça de leitura, fixar na memoria certas
+phrases de artigo de fundo, e acabára por convencer-se de que possuia
+grandes noções de sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma
+sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos
+do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposição tal ou qual, mais
+ou menos regular, e assim lhe saia uma dissertação, como essa que viram.
+Em permanente indigestão economica vivia este portento. A doença não é
+das mais raras entre politicos.
+
+O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bôca,
+depois do discurso do brazileiro, e disse:
+
+--Eu cá por mim não sei d'essas coisas. Não se me dava das estradas para
+poder ir á feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que me
+não venham mexer na quinta; porque então teem que vêr.
+
+--Pois está arriscado a isso--disse o brazileiro.
+
+--Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da papelada outra
+vez.
+
+--Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, depois de tomar
+á esquerda pelo Castro e vir direito á Palhoça. Não tinha cruzes nem
+cunhos. Ia-me parte da propriedade.
+
+--Ah! ah! ah! Tambem não gosta? Diga-me d'isso!--berrou o sr. Joãozinho.
+
+--Não é não gostar, é que o traçado era pessimo.
+
+--Não sei por quê.
+
+--Só a expropriação da minha quinta por que preço não lhes ficava?
+
+--Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu modo--notou o padre
+cura.
+
+--E por onde ha de ir então a estrada?
+
+--O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do
+capitão-mór, faz um viaducto nos lameiros, atravessa o pinhal do Conego,
+passa o rio n'uma ponte e...
+
+--Oh com os diabos; o que ahi vae!
+
+--Não é tanto como parece; sendo as obras bem dirigidas... Até aos
+lameiros só tem a deitar abaixo a casa e o quintal do herbanario.
+
+--Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de paixão,
+se tal fazem--disse, com certa commiseração, o sr. Joãozinho das
+Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera affeição e respeito,
+n'elle excepcional, desde que lhe attribuia a cura de um typho que o
+tivera ás portas da morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com
+uns cozimentos sómente d'elle sabidos.
+
+--Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está maluco de
+todo--redarguiu o brazileiro.
+
+--Tambem está um bom magico, está--notou o padre.
+
+--Quer não, que sabe mais do que todos os medicos--acudiu o sr.
+Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. Oh que
+excommungada!
+
+E principiou a fazer a historia da sua doença.
+
+Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas attribuiam-lhe
+mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.
+
+--Pois a final por onde devia ir a estrada--continuou o
+brazileiro;--tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso
+não se fala, já se sabe.
+
+--Ora! pois está de vêr--concordou o padre.
+
+--E o conselheiro não se ha de oppôr á expropriação da casa do
+herbanario, porque pelos modos elles não andam muito correntes--lembrou
+um lavrador.
+
+--É verdade; por que seria aquillo?--perguntou outro.
+
+--Elles em tempo eram muito um do outro; e são até
+aparentados;--explicou o brazileiro--e o velho ainda hoje é tratado com
+familiaridade pela gente do Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle
+genio exquisito que tem, disse algumas verdades ao conselheiro, por
+occasião de umas eleições, quando elle pôz as auctoridades a trabalhar
+por si, e o velho entendia que as coisas não iam bem assim.
+
+--Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte
+conselheiros e toda a familia,--exclamou o sr. Joãozinho, batendo outra
+punhada--e queira elle, que o tal senhor não põe mais o pé nas camaras,
+mandado cá pela terra.
+
+--Eu gósto de os ouvir,--disse o padre--falam assim, mas em chegando a
+occasião, vão todos votar n'elle como carneiros.
+
+O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.
+
+--Pois havemos de vêr o que será!--berrou o sr. Joãozinho.--Isso é
+consoante cá umas coisas.
+
+--A falar a verdade--disse o Pertunhas--não tem pago muito bem ao
+circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só essa teima agora em
+querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!
+
+--Essa a falar a verdade!--disse um lavrador.
+
+--Quero vêr se me hão de enterrar a mim!--disse ameaçadoramente o sr.
+Joãosinho, como se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas
+vontades á fôrça de murros e de pragas.
+
+--Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. É moda e
+acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda a gente e não havia mais doenças
+do que agora--isto dizia o padre.
+
+--Os romanos tinham as suas catacumbas--ponderou o mestre de latinidade,
+forçando as suas reminiscencias romanas.
+
+--Vamos--ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo
+discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade
+scientifica.--O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque os
+chimicos sabem que... o ar que não é puro... é mau para a saude publica.
+Ora os cadaveres... em putrefacção produzem uns vapores que corrompem o
+ar... Ha uns insectozinhos invisiveis que a gente respira... e vão para
+a massa do sangue e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a
+febre são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se sáem,
+muito que bem; e se não sáem, ficam retidos e azedam o corpo todo.
+
+A theoria physiologica pathologica foi recebida com attenção igual á que
+merecera a economica.
+
+--Tudo isso será assim,--disse o padre--mas o conselheiro faz aquillo
+por instigações das lojas maçonicas e dos pedreiros livres.
+
+--Pois elle será tambem?...--disse um dos lavradores, arregalando os
+olhos assustados.
+
+--Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da sucia.
+
+--Corja!--resmungou o sr. Joãozinho.
+
+O brazileiro, que se filiára no Brazil na maçonaria, fez um discurso
+sobre os fins da sociedade, que ninguem entendeu; vendo, porém, que não
+calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.
+
+--Elle não será mação--disse d'ahi a momentos o padre--mas é vêr o que
+elle tem defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e ás freiras
+os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o exemplo do cunhado, que se
+encheu com a compra do Mosteiro; queria acabar com o santo sacramento do
+matrimonio; queria que cada qual seguisse a religião que muito bem lhe
+parecesse. Vejam que christão aquelle!
+
+Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras
+de censura.
+
+--E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.
+
+--A falar a verdade, os vinculos...--murmurou o sr. Joãozinho, que por
+vezes tropeçára nas disposições da antiga lei vincular, ao caminhar na
+estrada da dissipação; porém, recordando-se de um irmão que tinha,
+casado e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa de
+muito trabalho, a ideia da abolição dos morgados não lhe sorriu e
+exclamou com nova punhada:--Acabem lá com os morgados quando quizerem,
+que o que eu lhes digo é, que tem de se haver commigo quem quizer
+tirar-me um palmo de terra!
+
+O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o conselheiro.
+
+O pae de Magdalena militára sempre, como já dissémos, nas fileiras do
+partido mais liberal, e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a
+maioria do clero, que, entre nós, não espósa ardentemente aquellas
+ideias.
+
+No principio da sua carreira parlamentar, cedendo ao impulso do
+enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára desassombradamente a
+bandeira do partido progressista e pronunciára os mais absolutos artigos
+d'aquelle credo politico; liberdade era então o seu mote favorito; a
+liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as reformas
+consequentes nos codigos, a desamortisação e desvinculação da
+propriedade, tudo advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas
+palavras soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra de
+outro catecismo.
+
+Com o tempo arrefeceu, porém, esse enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o
+fogo da mocidade. Com quanto liberal ainda de convicção, ensinou-lhe a
+politica pratica a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios
+doutrinarios, a contemporisar, e até quando as conveniencias,
+infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos de
+retrocesso e a transigir com o partido opposto.
+
+Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformar em projecto de lei
+nenhuma d'aquellas medidas por que pugnára nos seus primeiros discursos,
+e que tantas malquerenças lhe acarretaram então.
+
+Já atraz dissémos, que o conselheiro era actualmente um espirito pouco
+apaixonado do ideal, respirava a atmosphera de desillusão e de
+scepticismo, em que nas grandes cidades se vive. Era um perfeito homem
+de côrte; tratava cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo
+d'elles mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás vezes da
+tribuna e depois apertava-lhes a mão nos corredores das camaras e nas
+praças. Se o julgava vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases
+sonoras, uma d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no
+principio da sua carreira adoptára com sinceridade; mas não tinha já aos
+principios o amor preciso para cair, abraçado n'elles, dos degraus do
+poder, se algum dia os chegasse a subir.
+
+Por isso os soldados rasos do seu partido, os politicos em abstracto,
+unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o taxavam de frouxo
+e tibio; e de gazeta na mão havia muito que lhe dictavam, do obscuro
+canto do paiz em que viviam, a estrada direita, de que elle, porém, a
+cada passo se desviava.
+
+Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por os
+seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má fé, a acoimal-o
+de impio, de republicano e de pedreiro livre.
+
+O brazileiro entrou em dissertação a respeito de todas as medidas
+politicas a que alludira.
+
+Segundo o costume, ninguem o entendeu.
+
+Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um
+tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra espreitar á
+porta, voltou-se, exclamando:
+
+--Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!
+
+Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que mais de má
+vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.
+
+Dentro em pouco todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que
+montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um pequeno
+baio de fórmas elegantes e olhar vivo.
+
+O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e
+patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi
+todo o effeito da conversa que descrevemos.
+
+Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, dispoz-se
+para entrar na venda.
+
+
+
+
+XII
+
+
+O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se sentar nos
+bancos de pinho do estabelecimento de Damião Canada, envernizados já
+pelo uso de muitos annos.
+
+Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com
+attenções e o flagellava com obsequios.
+
+O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia
+satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e
+conversando com aquella familiaridade, tão sabida de candidatos a
+procuradores do povo, nos circulos que pretendem representar. Até chegou
+a levar aos labios o copo de vinho, que um lavrador lhe offereceu.
+
+Não se lhe percebia porém no rosto, ao fazer isto, o menor vestigio de
+artificio, e, ao mesmo tempo, mantinha-se ainda n'elle tão apparente a
+superioridade intellectual, que os seus interlocutores nunca excediam os
+limites da deferencia. O pae de Magdalena era um perfeito homem de
+côrte: presença agradavel, modos insinuantes, palavras tão
+astuciosamente lisonjeiras, que desvaneciam os proprios que como taes as
+tinham.
+
+Alvejavam-lhe já algumas cãs nos cabellos e suissas, que usava talhadas
+á moda ingleza; principiava a predominar-lhe nas fórmas certa
+rotundidade caracteristica; mas no esmero e até elegancia distincta de
+casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, nos movimentos
+ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza das conversas,
+havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que ninguem se
+sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que não perdera
+ainda.
+
+Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e
+não obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se que assim
+fôsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro olhar lançado sobre elle.
+
+Possuia o dom especial de se encontrar á vontade em toda a parte, desde
+o mais perfumado gabinete da moda, até o menos asseiado local de um
+comicio popular. Nas camaras com graves diplomatas, nos cafés com
+rapazes estouvados, na sua aldeia com eleitores absurdos, com actores e
+actrizes nos bastidores, com padres nas sacristias, com militares nos
+quarteis, em toda a parte e com todos se achava este homem á vontade,
+acabando, quasi sempre, por captar sympathias.
+
+Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da
+opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezão, a phrase
+conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho
+popular, a figura oratoria, a maxima moral, e até a praga energicamente
+expressiva; mas, como os espadachins de profissão, jogava-as todas com
+frieza de animo, cada qual na occasião opportuna e com perfeita
+observancia do que o mundo chama conveniencias sociaes.
+
+Muito tinham que fazer com elle os La Bruyères, que, a cada passo, ahi
+encontramos no mundo; illudia os mais atilados. Ás vezes parecia
+abrir-se tão do intimo, tão completamente e sem condições nem reservas,
+havia tal uncção de sinceridade nas palavras, com que falava de si, dos
+seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado jesuita
+sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; outras,
+falava verdade, mas com taes hesitações na voz, com tal mobilidade no
+olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua creança experimentaria o
+despontar da primeira dúvida.
+
+Já se vê que um homem d'estes era um contendor de muita fôrça, para
+poder ser combatido por qualquer dos influentes locaes; o proprio
+brazileiro, apesar de toda a sua economia politica, ainda nada pudéra
+contra elle; nem ousára romper hostilidades com receio de ficar vencido.
+
+Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do
+Damião Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a conversa que
+precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. Tres ou quatro
+lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos modestamente pedidos
+com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.
+
+Deixemol-o nós na laboriosa e pouco invejada tarefa de manter a
+popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae á porta da
+venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.
+
+Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com
+aquelle alvoroço do coração, que conhece quem já foi estudante e se
+recorda ainda do que experimentava ao vêr de longe despontar o telhado
+da casa paterna, onde vinha gosar as delicias de umas almejadas férias.
+
+Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma agradavel
+figura de creança, expressiva de intelligencia e de vida. Tinha nas
+feições um mixto da delicadeza de Magdalena e da energia varonil, e ao
+mesmo tempo attrahente do conselheiro.
+
+O cabello louro e curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis
+naturaes, com grande vantagem para a espaçosa e bem modelada fronte.
+
+Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do
+Mosteiro estavam todas obscuras, á excepção das aguas-furtadas,
+correspondentes aos quartos das creanças. Angelo desmontou e
+cautelosamente se dirigiu a pé para casa.
+
+Torquato dormia á porta, como frequentemente lhe acontecia.--Angelo pôde
+assim penetrar sem ser percebido até o mais intimo da casa, até os
+aposentos onde dormiam as creanças, e em cujas janellas avistára luz.
+
+A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe no coração uma suave e
+encantadora alegria.
+
+O mais novo dos seus primos, creança de tres annos, estava meio nú e de
+joelhos sobre o leito com as mãos erguidas e os olhos fitos em um
+crucifixo que tinha á cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe
+as palavras da oração, que a creança repetia, cheia de fervor.
+
+Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar
+das continuadas advertencias da prima.
+
+Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para
+beijar a creança, elle estendeu a cabeça e pousou tambem um beijo nas
+faces da irmã.
+
+Magdalena soltou uma exclamação de surpreza e cingiu-o nos braços com
+effusão.
+
+A creança levantou um brado, que foi o signal de revolta dado a Marianna
+e Eduardo, que cêdo abandonaram os quartos e correram a abraçar Angelo.
+
+--Vens só?--perguntou Magdalena ao irmão, quando uma pergunta lhe foi
+possivel.
+
+--O pae ficou na loja do Canada--respondeu Angelo.--Estava em sessão a
+assembleia dos notaveis. E como estás tu, minha Lena, tu e Christe e a
+tia? Como vae toda essa gente?
+
+--Anda tu mesmo sabêl-o.
+
+--Eu vou dizer á mamã--disse Marianna, saindo aos saltos.
+
+--Eu vou chamar Christe--disse Eduardo, imitando-a.
+
+E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.
+
+O pequeno que Magdalena deitára, pedia, chorando, para se tornar a
+levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.
+
+--Dize-me--continuava no entretanto este para a irmã--tens-te enfastiado
+muito, aqui só?
+
+--Não, tenho-me divertido até.
+
+--Devéras? E que fazes? Em que passas o tempo?
+
+--Eu sei? O tempo é que passa, sem eu dar por isso. Leio pouco, passeio
+muito; trabalho mais.
+
+--Que tens lido?
+
+--Quasi sempre relido.
+
+--O quê?
+
+--Nem eu sei já. O primeiro livro em que pouso a mão, quando os vejo
+sobre a mesa.
+
+--O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?
+
+--Todos os dias.
+
+--E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?
+
+--Vae bom. Caiu no outro dia á levada da raiz do monte; valeu-lhe o
+Augusto para o salvar.
+
+--Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorothéa?
+
+--Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas;
+conheces?
+
+--Eu não.
+
+--É provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em que lhe
+chamemos primo. Aviso-te d'isso.
+
+--Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?
+
+--Coitada! Achei graça, ha dias, á Joanna, que com muita ingenuidade se
+me veio queixar de que ella até o anjo da guarda lhe occupava em serviço
+proprio. Tu sabes que a tia, quando está com muito somno, tem aquelle
+costume de dizer ás criadas que a encommendem ao anjo da guarda d'ellas.
+Mas vamos.
+
+--Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?
+
+--Trouxe.
+
+--É verdade; e a filha d'elle? A Lindita?
+
+--Já cá me ia tardando a pergunta--notou a morgadinha, rindo.--Essa anda
+contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades.
+
+--Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia.
+
+--Então devéras esse coração está assim tomado?
+
+--Não te informo do meu coração, que o não levo commigo, quando d'aqui
+vou. Cá me fica; e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que
+pergunto; em que estado m'o entregas?
+
+--Muito doente.
+
+--Sim? E o teu?
+
+--O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto de corações são como as
+creanças. As travêssas tantos cuidados dão ás mães, que a todos os
+instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; as socegadas
+inspiram tal confiança, que nem sequer n'ellas se pensa. O meu coração é
+um modelo de serenidade.
+
+--Então ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...
+
+--O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d'estas immediações,
+capaz de ferir a imaginação e commover os affectos de uma mulher, é o
+sr. Joãozinho das Perdizes; mas esse é um Actéon insensivel, que...
+
+--É verdade--disse Angelo, rindo--lá vi tambem esse javali na venda do
+Damião Canada. Mas... Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de
+dizer umas coisas.
+
+--A mim? A respeito de quê?
+
+--Do teu coração.
+
+--Que sabes d'elle?
+
+--A seu tempo direi.
+
+--Como te vieram essas presumpções de conhecedor dos corações alheios?
+Não tinhas isso, quando d'aqui foste.
+
+--Ás vezes vê-se melhor de longe.
+
+--Os de vista cançada... de muito vêr.
+
+--Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa gente, que o pae não
+tarda ahi.
+
+De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das salas
+principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de braços,
+tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, encostava-se-lhe familiarmente
+ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o braço, em
+que recostava a cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala,
+D. Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos pequenos
+que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficar a
+pé, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e
+Eduardo, com as historias que lhes contava.
+
+A conversa cêdo se generalisou. Era uma d'essas conversas intimas,
+familiares, em que se referem as mais insignificantes circumstancias da
+vida domestica; conversas cujo suave perfume só em familia se aprecia.
+
+Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos
+apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, e se vê
+obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que não
+é a sua! É uma pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que
+para todos é de igual interesse a narração dos successos domesticos, que
+tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifferente que se
+lhes depara; tudo trazem á luz, o dicto agudo da creança de tres annos,
+os incómmodos que soffreu na primeira dentição, as espertezas do gato
+favorito, as razões ponderosas que aconselharam a mudança de um movel, a
+combinação economica que favoravelmente modificou o orçamento domestico,
+a reforma nos processos culinarios consagrados pelo habito de muitos
+annos, o exame comparativo da conserva de um anno e da do anno
+antecedente, os defeitos e qualidades de um criado e mil outras pequenas
+coisas, que é forçoso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o
+que obriga a esforços sobrehumanos.
+
+É natural aquella illusão; e pathetica a dissemos nós tambem, porque os
+que mais de coração se entregam á vida domestica, são os mais sujeitos a
+ella. Todos estes episodios futeis e pueris os preoccupam e deliciam
+mais do que as mais estranhas peripecias, que ainda concebeu a
+imaginação de romancista fecundo. E quem se lembra de que é
+individualissimo esse interesse, inherente á pessoa e não aos factos, ás
+causas que tão curiosos lh'os fazem ser?
+
+Eu e o leitor, estranhos á familia do Mosteiro, vêr-nos-iamos, se
+fôssemos escutar todo o dialogo que se travou na sala, na posição da
+pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses relatorios
+domesticos, a que sobre tudo são tão inclinadas as mães de familia.
+
+É verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; e o
+conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle achasse
+curioso é porque realmente o era. D'esta vez, porém, damol-o por
+suspeito, porque o conselheiro tinha coração e, quando esta viscera se
+alvoroça com affectos, as intelligencias mais elevadas teem d'estas
+sympathicas fraquezas.
+
+O politico, o diplomata reservado, fica fóra do portão da quinta do
+Mosteiro; alli dentro, n'aquelle circulo de affectos, era o pae
+extremoso, o homem de familia, ingenuo, sincero, aberto a todos, porque
+em todos confiava, contente por não ter de estudar na expressão dos
+rostos os pensamentos que se guardam; nas palavras o sentido, que
+n'ellas não vem explicito.
+
+Era um salutar descanço dos continuados esforços da sua vida de Lisboa;
+lá a lucta; aqui o repouso.
+
+Por isso ouvia com attenção e applaudia com vontade as narrações da
+cunhada, de Magdalena, de Christina e até da pequena Marianna.
+
+E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro não
+poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o vertiginoso
+movimento da sua vida politica.
+
+Eram-lhe já necessidade aquella contenção, aquelle esforço de espirito,
+aquellas desconfianças continuas, aquelle jogo de astucias, que lhe
+tomavam em Lisboa todo o tempo.
+
+Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o
+afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.
+
+A politica é uma embriaguez; nos intervallos em que o espirito se sente
+desanuviado dos vapores em que ella o envolve, pesam-nos os desacertos a
+que fomos arrastados; o desgosto do mal feito insinua-se-nos no coração;
+cêdo, porém, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da consciencia,
+e de novo nos arrasta.
+
+O caracter intimo da conversação foi levemente modificado por a entrada
+de D. Dorothéa e de Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram
+visitar o conselheiro, mal tiveram noticia da sua chegada.
+
+O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e
+com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa.
+Frequentavam ambos os principaes círculos da capital e, por mais de uma
+vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em conversas e
+discussões communs.
+
+Passado algum tempo depois dos cumprimentos, o serão animou-se de novo,
+fragmentando-se porém a conversação.
+
+D. Victoria tomou á sua parte D. Dorothéa e passou a fazer-lhe amargas
+queixas a respeito dos criados do Mosteiro, ao que D. Dorothéa acudiu
+com conselhos de resignação christã.
+
+Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente fazia
+rir.
+
+Henrique e o conselheiro, proximos do fogão, estavam empenhados n'um
+dialogo muito animado.
+
+O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que
+surprehendiam Henrique, que ainda o não tinha observado por esta face.
+
+--É uma triste verdade--dizia por exemplo o conselheiro n'um ponto
+adeantado da conversa, referindo-se a algumas considerações de Henrique
+sobre a felicidade d'aquella vida do Mosteiro.--Tenho esta familia que
+vê; todos me querem sinceramente aqui, e não sei resistir á fatal
+necessidade que me arranca de todos estes braços para me lançar ao
+turbilhão da politica e d'isso que se chama o mundo! Pois amo devéras a
+minha Lena, creia.
+
+--É um dever que cumpre. N'estes tempos de má fé politica, quem se sente
+com a coragem de se votar, corpo e alma, á defeza despreoccupada dos
+bons principios...
+
+Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de
+descrença, meio de melancolia.
+
+--Defeza despreoccupada? Isso é quando Deus quer--respondeu elle.--Olhe,
+Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a cuja porta eu
+deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso no mundo,
+vae vêr em mim o homem que talvez não esperasse e que, já lhe digo,
+debalde procurará reconhecer um dia, se me observar outra vez em Lisboa.
+O que lhe vou dizer não lh'o diria, nem lh'o repetirei lá. É verdade que
+estes ares do campo tambem actuarão em si para me apreciar e tomar á boa
+parte a franqueza. Lá não acreditaria n'ella; se por acaso não a
+aproveitasse como arma politica contra mim...
+
+--Pois julga?...
+
+--Peço perdão, se o offendi com isto. Não era esse o meu intento, mas é
+pratica tão geral!... Se um dia fôr politico, o que lhe não desejo,
+dir-me-ha.
+
+Dizendo isto, fez uma curta pausa na conversação.
+
+Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:
+
+--Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e
+através de tudo. Não sei se quiz ser lisonjeiro e disse o que não
+sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo o caso, eu, aqui no
+Mosteiro, acho-me muito ás ordens da minha consciencia, a qual não me
+deixa calar hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem
+politico, a que alludiu. Humildemente o confesso; até porque, se
+quizesse sel-o, arriscar-me-hia a achar-me só, não teria partido.
+Porque, qual é o que vê nas condições de constancia de opiniões que
+disse? Tenho crenças politicas, é verdade; espóso no coração certos
+principios que quizera vêr realisados, mas não combato por elles a todo
+o transe, nem por elles affrontaria o supplicio; antes, por vezes, entro
+em transacções, que são a completa negação da divisa da minha bandeira.
+E este peccado não sou eu só que o commetto; é um peccado venial da
+nossa época. As grandes ideias, que definem e estremam os campos na
+politica, havemol-as eu e os mais calcado muitas vezes aos pés, para
+sustentar umas insignificantes fórmulas, um interesse mesquinho, um
+capricho pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem é
+isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que de fóra
+nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados na minha carreira
+publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro n'elles? quando me
+persuado de que não são de todo desculpaveis? quando... porque o não
+direi? quando sinto remorsos de os ter commettido? É aqui, é perante a
+boa fé, a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que
+me considera um homem perfeito, superior, impeccavel. É perante os
+generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella
+creança--e indicava Angelo com o gesto.--Parece-me que tenho n'elles
+juizes inflexiveis, e escondo por isso a minha face politica dos seus
+olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo é já
+indulgente, mas que receio elles me não perdoassem.
+
+Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta
+effusão de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:
+
+--Estou a vêr que não esperava estas palavras da minha bôca; esta
+confissão de peccador contricto.
+
+--Confesso que não.
+
+--Então que quer? Surprehendeu-me aqui com o coração aberto. Já agora
+deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual é?
+Vê aquella creança que alli está? Angelo? É uma intelligencia que, de
+dia para dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. Não é
+a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. Conhecendo-o de perto ha
+de dar-me razão. Mas o que ha além d'isso n'elle é um senso
+profundamente moral, raro até em idades menos tenras. Pois bem, quando
+penso n'elle por algum tempo, e conjectura que não serão poucas as vezes
+em que o faço?... quando penso n'elle e no futuro, sobresalto-me. De um
+lado, seduz-me abrir-lhe a carreira politica, onde ha grandes triumphos
+a embriagar as intelligencias e onde presinto que a d'elle terá o
+direito, se não o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que
+na atmosphera d'aquellas regiões não duram muito estas primitivas
+canduras da alma, tão adoraveis e consoladoras, quando me lembro de que
+Angelo será um dia... o que eu já hoje sou, um pouco desilludido, um
+pouco sceptico... com franqueza o digo, hesito em impellil-o ao
+redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais não valeria dizer-lhe: Angelo,
+vive obscuro e tranquillo n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a
+ideal pureza da tua alma e procura a felicidade nas satisfações do
+coração. A lucta da vida pode embriagar-te, filho, mas não te fará
+feliz.
+
+--Mas não admitte possivel que um homem possa atravessar a vida
+politica, sem sacrificar um só artigo do seu primitivo credo?
+
+O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:
+
+--É difficil. Se um dia a fôrça das circumstancias realisasse, como um
+phenomeno natural, uma revolução completa nas camadas politicas do paiz
+a ponto de trazer á superficie de uma só vez uma geração nova,
+impolluta, inspirada de sentimentos generosos e de sinceras crenças,
+então sim, não bastaria o tempo de uma vida para produzir n'esses homens
+reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo exemplo e vigilancia,
+a inquinação que eu receio. Mas lance esses mesmos homens, um a um, a
+sós com os seus principios e com os seus esforços, insulados no meio de
+uma camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, após uma
+lucta impotente de momentos, ou se retirará, fiel aos principios, mas
+desanimado pela inefficacia da sua intervenção, ou ficará, cedendo á
+corrente e deixando-se penetrar do espirito pouco ideal, que rege as
+massas. Só um d'esses caracteres de excepção, que são raros na historia
+do mundo, é que poderia luctar e vencer na lucta. E a esperar tanto de
+Angelo não chega o meu affecto paterno.
+
+--Não o fazia tão pessimista, sr. conselheiro;--disse
+Henrique--conceda-me que julgue em demasia carregadas as côres do quadro
+que me faz. Eu não creio que a corrupção...
+
+--Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, relaxação,
+tibieza de fé politica, indifferentismo... em todo o caso será uma
+doença social. Assim abrandada a fôrça da expressão, não ponha
+difficuldades em adoptal-a. Não se me pode levar a mal o propôl-a, desde
+que principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.
+
+--Nunca esperei encontral-o tão desilludido. Eu, que me não tenho ainda
+assim por demasiado crente, creio que quem entrar na politica sob a
+égide de uma convicção profunda, pode...
+
+O conselheiro interrompeu-o.
+
+--Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? É
+aquella de que nos dá uma eloquente mostra a historia do aldeão do
+Danubio. Sair um homem de um canto retirado da provincia, um pouco
+montanhez, e escudado só da sua boa fé, achar-se de repente no meio de
+um circulo luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir
+ahi aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra;
+vêr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder resalvar as
+suas crenças d'aquelles sorrisos; sentir o ridiculo a seu lado, e ousar
+fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada passo, as vozes seductoras da
+moral elegante e facil, que hoje domina, e conservar-se fiel á austera e
+rude moral que lhe falava entre o rumorejar das folhas da sua aldeia nas
+longas horas de vigilia e de estudo, que lá teve; cair embora, mas cair
+fiel á consciencia, como um leal cavalleiro da idade média caía pela
+dama de quem trazia a divisa: é uma especie de lucta, para que não
+abundam lidadores, e nem sempre se deve lançar o labéo de traidores aos
+que mentem á sua antiga profissão de fé. A maioria cede com boas
+intenções. O perigo está em chegar a persuadir-se de que as suas
+convicções eram sonhos, em perder o amor ás utopias. Eu confesso que só
+quando aqui estou é que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro
+tempo lhes tive.
+
+N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um
+dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do
+conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de processos, como o
+mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua
+paixão pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, só por gosto
+de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislação
+especialissima, reguladora da propriedade rural, fomenta estas
+disposições no espirito dos camponios, das quaes os juizes são as
+miserandas victimas.
+
+Depois de grande exhibição de cortezias, para a direita e para a
+esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu
+lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade.
+
+O homem que tão judiciosa dissertação acabava de fazer sobre a politica
+abstracta, sentiu, na presença do recem-chegado que de novo o abandonava
+o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica,
+sob a feição mais mexeriqueira que ella pode revestir.
+
+Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fôrça
+ou vontade dos representantes.
+
+Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das senhoras, no
+grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.
+
+Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores;
+reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve
+ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de
+Christina.
+
+D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco na conversa,
+e desviando-lhe o curso, fizeram-a cair sobre o assumpto das proximas
+consoadas.
+
+Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o
+Tapadas:
+
+--Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso é
+que eu não transijo. Ninguem é mais condescendente do que eu, menos no
+que pode arriscar a vida de muitos e entre essas as dos que me
+pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes dias deve chegar uma
+portaria, mandando expressamente cumprir a lei. Consegui isso do
+governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo,
+levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, graças
+a um preconceito tolo, á má fé de alguns padres, á frouxidão das
+auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se
+enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos
+d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da
+igreja onde a extrema devoção d'este povo accumula em certos dias,
+durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de fieis. Portanto,
+com isso não transijo. Hei de acabar com o abuso.
+
+--Pois sim... mas agora na occasião das eleições... sr. conselheiro, não
+sei se faz bem.
+
+--Para compensação trataremos de apressar o principio das estradas;
+tambem o pude conseguir.
+
+--Inda assim... Receio alguns motins.
+
+--Reprimem-se.
+
+--O peor é que ha de haver quem lance mão d'essa arma contra nós.
+
+--Quem?
+
+--Ora! não falta quem. Basta o missionario, que já prégou contra isso.
+
+--Não tenho mêdo. Quando muito, algum motimzito sem consequencia.
+Leve-os por bem. E se fôr preciso fale ao ouvido d'esse tal
+missionario... O homem que quer? Provavelmente alguma abbadia? algum
+canonicato? É preciso vêr isso.
+
+--Elle diz que não quer nada.
+
+--Bem sei, todos dizem o mesmo--disse o conselheiro, com a sua descrença
+de homem politico.
+
+Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto a opinião publica era, por
+toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo não
+estava de todo limpo do preconceito geral, mas a sua affeição ao
+conselheiro obrigava-o a digerir a disposição legal, conforme podia.
+
+Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:
+
+--Vem em má occasião a medida, vem; é arrojada para épocas eleitoraes;
+se houvesse um chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso
+não transijo.
+
+Eram dez horas quando se levantou a sessão, e Henrique voltou com a tia
+para Alvapenha.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ao outro dia a impaciencia de Angelo não lhe permittiu longa demora no
+leito. Tardava-lhe o vêr todos aquelles sitios, tão seus conhecidos;
+arvores que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos, e
+quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almoço; resignou-se
+porém a não ultrapassar, até então, os muros da quinta. Logo porém que
+sorveu á pressa o ultimo golo de chá, partiu, veloz como uma lebre, sem
+nem sequer dar ouvidos á enfiada de recommendações de sua tia D.
+Victoria, que teimava em o querer prevenir, com sócos, gabão e
+guarda-chuva, de uma hypothetica mudança de tempo.
+
+Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma
+recordação e uma saudade; mas seguia sempre, como quem não errava ao
+acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio por um intento,
+que tinha pressa de realisar.
+
+Atravessou grande parte da aldeia, cortejado, cumprimentado e festejado
+por quantos encontrava pelos caminhos, ou ás portas e janellas das
+casas, nos campos e nos ribeiros.
+
+Chegou emfim á casa, onde já dissemos morar o recoveiro Cancella e a sua
+filha Ermelinda.
+
+Era evidentemente aquelle o termo proposto por Angelo ao passeio
+matinal, porque retardou o passo á medida que se approximava, e parou á
+porta da casa.
+
+Achou-a fechada, mas não lhe causou isso embaraço.
+
+Como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente
+o muro do quintal, construido de pedras soltas, e dispoz-se á escalada.
+
+Com a agilidade e destreza proprias de quem passou na aldeia os
+primeiros annos da vida, o irmão de Magdalena trepou sem vacillar até o
+alto do muro, e n'um momento pousou os pés no chão do quintal.
+
+Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precaução e, com mais
+precaução ainda, se dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era o
+logar de recreio do pequeno horto.
+
+Foi motivo d'estas precauções o ter já avistado, por entre os troncos e
+a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou conhecido.
+
+Assim se foi approximando sem que o presentissem e, occulto por detraz
+de uma sebe de roseiras silvestres, poz-se á espreita.
+
+Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.
+
+Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que mezes antes
+havia sido derrubada, a filha do Cancella e afilhada da familia Zé
+P'reira, tinha todas as faculdades applicadas á decifração dos
+hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto, que segurava
+nas mãos, e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura e,
+erguendo a cabeça para o céo, parecia repetir o que lera, como se
+pretendesse decoral-o.
+
+Angelo applicou mais o ouvido, a vêr se alguma das palavras, que ella
+declamava, lhe revelava a natureza do manuscripto.
+
+De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais audivel e elle escutou a
+seguinte quadra:
+
+
+ --Que lamentavel tragedia,
+ Que os meus olhos tristes viram!
+ E publicam minhas vozes
+ Aquelles que não ouviram!
+
+ E principalmente o rei,
+ Que se chama o rei tyranno,
+ N'esta região remota
+ Do Egypto dilatado.
+
+
+Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabeça e repetiu:
+
+
+ --Que lamentavel tragedia
+ Que meus olhos tristes viram...
+
+
+Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precaução,
+veio collocar-se por detraz d'ella, sem que fôsse presentido ainda.
+
+Tão perto chegou, que, por cima do hombro de Ermelinda podia já ler as
+quadras que ella estava decorando:
+
+
+ --Tenho mil linguas, mil bôcas...
+
+
+ia Ermelinda continuar a ler, quando uma respiração mais profunda de
+Angelo a fez desviar a cabeça.
+
+Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de sobresalto; depois sorriu
+e instinctivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que
+lia.
+
+Angelo segurou-lhe a mão.
+
+--Que estavas a ler, Linda?
+
+--Não é nada...
+
+--Deixa vêr.
+
+--Não deixo.
+
+--Por que não deixas?
+
+--Para não ser curioso. Que modos são esses de andar a escutar a gente?
+
+--Pois sim, sim; mas deixa-me vêr os versos.
+
+--Não são versos. Quem lhe disse que eram versos?
+
+--Pois não ouvi? Que era isso de tyranno e de Egypto, que dizias?
+
+--Que ha de ser?--disse a final Ermelinda, dando-lhe o papel.--São os
+versos do auto dos Reis. Sabe agora?
+
+--Do auto dos Reis? Ai, sim; está a chegar o dia! Mas que tens tu com o
+auto dos Reis?
+
+--É que este anno meu pae quer que eu seja a Fama.
+
+--Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E já sabes os versos?
+
+--Estava a decoral-os.
+
+
+ --Tenho mil linguas, mil bôcas...
+
+
+dizia Angelo, lendo no principio.--O que é pena é pôr uma chochice
+d'estas na bôca de uma Fama como tu.
+
+--Que está a dizer? Então os versos não são bonitos?
+
+--Oh! pois não são!--exclamou Angelo, gracejando.--São uma perfeição!
+
+E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os com accentuação e
+emphase comicamente exaggeradas.
+
+--Ora ouve lá:
+
+
+ Sabei que aquelle Herodes,
+ Lobo cruel carniceiro,
+ Tremendo de inveja pura
+ Lhe venham tirar o reino...
+
+
+--Então que ha que dizer a isto?
+
+E proseguiu:
+
+
+ Feria raios de fogo
+ De seus olhos com mudança;
+ E só pretende fazer
+ Alvo da sua vingança.
+
+
+--Isto é claro e sublime!
+
+--Lendo assim, pudéra!--disse Ermelinda, rindo.
+
+É preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos
+estamos referindo, não são obra da nossa imaginação. Por ahi corre
+manuscripto o auto, mais ou menos extravagantemente orthographado,
+segundo o systema ou o capricho do copista. Em quasi todas as aldeias
+dos arredores do Porto podem vêr em cada anno representado este ou outro
+analogo, com applauso e gloria da arte. Ás mãos nos veio uma d'essas
+cópias, á qual, menos na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.
+
+Angelo era talvez em demasia severo na apreciação critica sobre o
+merecimento litterario da obra, ao chamar-lhe uma chochice. É raro que a
+musa popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspiração. N'este
+mesmo auto, se encontram vestigios d'ella. Mas não é nossa missão
+apreciar as opiniões dos actores que pomos em scena; tão sómente as
+registamos, sem nos responsabilisarmos por nenhuma.
+
+Angelo redarguiu á reflexão de Ermelinda:
+
+--Pois bem; para que não digas que é da maneira de ler, que elles
+parecem chôchos, repara; vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora
+escuta.
+
+
+ Que quantos até dois annos
+ Em Belem fôssem nascidos,
+ E toda a sua comarca
+ Matassem a ferro frio
+
+ Sem excepção a pessoa
+ Que nos districtos se achasse,
+ Entendendo d'esta sorte
+ Que nós lhe não escapassemos.
+
+
+--Olhem que semsaboria!
+
+Esta divisão administrativa e judicial, em districtos e comarcas, que o
+auctor fez na Judéa e que tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas
+liberdades shakspeareanas, que se devem perdoar aos genios.
+
+--E não foi assim?--perguntou Ermelinda, que não percebia ainda o motivo
+dos reparos de Angelo.--Pois Herodes mandou matar todas as creanças da
+Judéa; então não mandou?
+
+--Mandou, mandou; mas a Fama é que devia contar isso melhor.
+
+--Melhor?! Então não é bonito esse verso?
+
+E Ermelinda, tirando o manuscripto das mãos de Angelo, leu a seguinte
+quadra:
+
+
+ Para livrarem seus filhos
+ Da morte dos innocentes,
+ Dos braços faziam cruzes
+ Aquellas mães impacientes.
+
+
+Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam a belleza,
+talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.
+
+Esta pequena contenda litteraria entre duas creanças podia dar margem a
+profundas reflexões a quem para ellas estivesse disposto.
+
+Angelo estava no principio de uma educação esmerada. Principiára já a
+desenvolver-se n'elle a intelligencia, e a acordar os instinctos
+artisticos que estremeciam já sob as primeiras seducções da fórma.
+N'estas épocas criticas, em que esses segredos se revelam, é tal o
+encanto em que elles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo
+culto, com a fanatica intolerancia. Onde as louçanias do estylo, os
+primores e a sonora harmonia do metro, e o brilhantismo das imagens nos
+não afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na
+sombra muita belleza real, ás vezes occulta sob a grosseira revestidura
+da poesia ou narrativa popular.
+
+É necessario que passe o enthusiasmo, a violencia da paixão nascente,
+que venha a frieza de animo necessaria á imparcialidade do juizo, para
+que nos não cause repulsão a aspereza, e grosseria até, da fórma e
+consigamos apreciar o bello que por ventura n'ella se envolva.
+
+Dá-se com a belleza da ideia e da fórma de qualquer obra litteraria, o
+que se dá com a belleza moral e a belleza physica de uma mulher.
+
+Ambas são feitas para nos commoverem e dominarem. Mas, quando o assomar
+de um sentir novo começa a alvoroçar o sangue do adolescente, quando
+fórmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe os sonhos de suas
+noites febris, a paixão da fórma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma
+modelação perfeita, um delineamento gracioso poderá decidir da sua vida
+inteira, e na fascinação que o cega, nunca verá a formosura da alma, que
+se abriga n'uma pouco feliz encarnação. É que para apreciar a belleza
+moral, para a vêr transparecer, através do involucro exterior é preciso
+deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou não a ter ainda
+experimentado.
+
+Por isso na infancia e nas idades viris é que melhor se apreciam essas
+fealdades, que escondem um coração angelico. A adolescencia é impiamente
+cruel para com ellas.
+
+Por uma lei analoga é o povo, o simile da creança, porque não tem os
+sentidos educados para as mais subtis bellezas da fórma, e é o homem a
+quem ella já não fascina, embora ainda e sempre o deleite, como
+poderosissimo elemento de belleza litteraria,--são estes os leitores que
+mais aptos estão para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre
+muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou
+a officina do artista.
+
+Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo não perdoou ao auto.
+
+--Sabes que mais? Não decores isso--disse-lhe elle resolutamente.
+
+--Meu pae quer.
+
+--O que é que quer teu pae?
+
+--Quer que eu entre no auto.
+
+--E has de entrar. Quem te diz que não?
+
+--E quer que seja a Fama.
+
+--E has de ser a Fama.
+
+--E não hei de falar?
+
+--Has de falar. Tinha que vêr uma Fama que não falasse. Para que lhe
+serviriam as cem bôcas?
+
+--Então?
+
+--Então; é que não é forçoso que digas o que ahi está.
+
+--E que hei de eu dizer?
+
+--Outra coisa.
+
+Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir comprehendel-o.
+
+--Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.
+
+--Olha, proseguiu Angelo.--D'aqui até chegar o dia do auto vae muito
+tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em logar d'esses.
+
+--E onde os tem?
+
+--Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta que no dia recites, em vez
+d'esses, os que eu te der!...
+
+--Mas que dirá meu pae e o sr. Pertunhas?
+
+--O mestre de latim? Pois que tem elle com o auto?
+
+--É quem ensina como a gente ha de dizer.
+
+--Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda para a occasião os
+versos que eu te arranjar. Até ha de ter graça vêr a cara com que elles
+ficarão todos, quando lhes sair uma coisa bem differente do que esperam.
+
+--Mas... diga: onde é que vae buscar esses versos?
+
+--Não sairei da aldeia para isso. N'uma visita que d'aqui vou fazer,
+conto obtel-os. Agora falemos de outra coisa. Que é de teu pae?
+
+--Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, d'alli defronte, está
+para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de
+meu pae.
+
+--Pois vae, que eu faço-te companhia.
+
+E Angelo seguiu-a á cozinha, e ahi, ella sentada na soleira da porta a
+escolher hortaliça, elle a dar de comer aos coelhos e ás gallinhas, se
+entretiveram a conversar.
+
+Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe enredos de dramas
+que o tinham commovido; typos e situações de romances, que se lhe haviam
+gravado na memoria; invenções da arte moderna, versos, anecdotas,
+contos.
+
+Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.
+
+Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, para sair.
+
+--Onde é que vae?
+
+--Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa.
+
+--E ainda o não viu?
+
+--Ainda não. A minha primeira visita foi esta.
+
+--Então vá, que elle deve estar morto por o vêr. Ah!... já sei a pessoa
+a quem vae pedir os versos!
+
+--Quem te disse que Augusto os fazia?
+
+--Eu vi-o estar a escrever na parede da capella da Senhora da Saude de
+uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar
+para aquelles sitios.
+
+--E leste-os?
+
+--Não, que não quiz que elle me visse. Mas que havia elle de escrever na
+capella? Então não adivinhei?
+
+--Não sei. Adeus.
+
+--Diga.
+
+--E chamavas-me curioso!
+
+E Angelo saiu apressadamente.
+
+Momentos depois estava com Augusto.
+
+A conversa entre ambos teve toda a intimidade da de dois affectuosos
+amigos.
+
+Angelo fez a narração dos episodios da sua vida de collegio; das
+difficuldades e das bellezas dos seus estudos n'aquelle anno. Augusto,
+que da aldeia com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o sobre
+algumas dúvidas que tinha, e esclarecia ás vezes tambem, graças á sua
+poderosa penetração e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia
+deixado no espirito do seu antigo discipulo.
+
+A geographia e a historia, que eram as disciplinas estudadas n'aquelle
+anno por Angelo, deram assumpto a grande parte d'este dialogo.
+
+Augusto inclinára-se aos estudos historicos, inclinação em que o
+herbanario o entretinha com frequentes presentes de livros d'aquelle
+genero.
+
+Em exame de livros novos, referencias a outros lidos, e leituras de
+alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manhã, até que
+por fim Angelo disse a Augusto:
+
+--Ah! é verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.
+
+--Qual é?
+
+--Sabe que está para breve o dia dos Reis?
+
+--Sim.
+
+--E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; aquelle auto em que
+o Herodes faz tremer meio mundo?
+
+--Bem sei--respondeu Augusto, sorrindo.
+
+--Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo; mas
+se soubesse os versos que lhe deram para recitar!
+
+E Angelo reproduziu, como pôde, as quadras do monologo da Fama no auto
+dos Reis.
+
+De quando em quando passava um sorriso pelos labios de Augusto.
+
+--Eu já conhecia isso. É o costume--disse elle no fim.
+
+--Mas não lhe parece que de uma Fama como aquella, se devia esperar
+melhor do que isto?
+
+--E então que quer que eu lhe faça?
+
+--Outros versos para o logar d'estes.
+
+--Outros!... Eu?...--perguntou Augusto.
+
+--Por que não?
+
+--Que lembrança!
+
+--Não me venha negar que os faz.
+
+--Versos?
+
+--Sim.
+
+--Quer dizer que os leio.
+
+--E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me então quem
+é que os escreveu na parede da capella da Senhora da Saude, para eu me
+dirigir a elle.
+
+--Então houve quem escrevesse versos na parede da capella?--perguntou
+Augusto, sorrindo.
+
+--Não que eu visse; mas já duas pessoas m'o affirmaram, e as suspeitas
+de ambas recaíram no mesmo homem.
+
+--Quem foram essas pessoas?
+
+--De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.
+
+--Ah!
+
+--A outra foi Lena.
+
+--Le... A sr.^a D. Magdalena?
+
+--É verdade, minha irmã. E estranhou, com razão, que eu o não soubesse.
+
+--E como o soube ella?
+
+--Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.
+
+Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o
+preoccupava.
+
+Angelo continuou falando, sem que fôsse escutado; a final concluiu,
+dizendo:
+
+--Então quer falar ao poeta da Ermida para que me dê o que lhe peço?
+
+--Poesia não lhe pode elle dar, agora se... alguns versos o
+satisfazem...
+
+--Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu a procurarei n'elles, até
+a achar. Desde já lh'os agradeço.
+
+--A elle?
+
+--A ambos--respondeu Angelo, rindo.--E agora diga-me, Augusto: Ainda
+está resolvido a viver aqui sempre enterrado? Não pensa em mudar de
+vida?
+
+--Nenhuma outra me namora mais; o destino que a bondade da morgada me
+offerecia... não tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso do
+crepe.
+
+--Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas o Augusto não terá amigos
+que ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos
+pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pae já ...
+
+--Que quer? Não me posso vencer até pedir ou acceitar de outrem
+auxilios, quando Deus m'os não tem recusado ainda; nem sei até se esses
+destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. Ha indoles
+que nasceram affeiçoadas para a obscuridade. Incommoda-as a demasiada
+luz. Umas plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi em qualquer
+canto escuso e obscuro, e lá mesmo dão flôr. Porque é isto não sei,
+mas...
+
+--Sei eu--disse uma voz da parte de fóra da janella, junto da qual se
+passára o dialogo...
+
+Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario desenhava-se no
+vão da janella, como um retrato de velho n'um caixilho de galeria.
+
+--Ah! o tio Vicente!--exclamou Angelo, correndo-lhe ao encontro.
+
+O herbanario encostou-se, ainda de fóra, ao peitoril da janella, ficando
+assim com meio corpo para dentro da sala.
+
+--Viva o nosso doutor--disse elle, sorrindo, a Angelo.--Por emquanto
+ainda esse coraçãozito está como era. Não esqueceu os seus amigos da
+aldeia.
+
+--Está como sempre estará--respondeu Angelo.
+
+--Sempre!--repetiu o velho.--Sempre e nunca são duas palavras de
+terrivel significação... Mas emfim... de bom metal é o coração, assim o
+não enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos...
+
+E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:
+
+--Com que dizias tu que não sabes porque algumas plantas vivem de pouca
+luz e de pouco ar, ahi em qualquer buraco do muro? É porque vivem muito
+pelas raizes essas. As plantas vivem do ar pelas folhas e vivem da terra
+pelas raizes. Lá diz aquelle livro da _Historia Natural_ que eu tenho.
+Umas prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar
+para poderem viver; outras porém, profundam tanto a terra, com tantas
+raizes se seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e não desdobram
+muitas folhas, nem crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como
+outras ha homens no mundo. Tu és dos que deixam ganhar raizes ao coração
+e d'ellas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros
+procuram? Mas é preciso cautela, rapaz! Ha corações como a hera, que
+onde quer que se encosta, prende-se com raizes. Quem é assim deve
+dirigir com prudencia as suas inclinações. Se para mau lado dobra, se se
+encosta a arvore de preço... mal d'elle! que o separarão com fôrça,
+fazendo-lhe estalar todas as raizes, que o prendiam.
+
+As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas pelo herbanario, parecia
+terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao
+ouvil-as.
+
+--Que está ahi a dizer, tio Vicente!--disse Augusto, sem ousar fitar o
+velho.
+
+--Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que os annos dão, vê longe e
+fundo, rapaz... É verdade que... ás vezes... o arrojo dos mocos é tambem
+guia feliz... Anda lá com a tua estrella, anda. Ao que já vejo, não sei
+se te possa chamar louco... como ao principio não duvidei fazel-o. É
+certo que é pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus castellos.
+
+--Os meus castellos! Que castellos faço eu?
+
+--Não hei de ser eu que t'os mostre... Só te quero avisar que não ponhas
+grande fé em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida?
+
+--No monte da ermida?
+
+--Não viste por lá no outro dia uns signaes de trovoada? A inconstancia
+é sempre de receiar. O que n'aquella manhã se passou, o que então vi...
+
+--Que viu?... Que se passou?
+
+O herbanario demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal
+expressão, que o obrigou a desviar o seu; depois accrescentou:
+
+--Nada; o que todos os dias acontece. O céo azul fez-se pardo, a luz
+clara cobriu-se de sombras, os raios do sol tornaram-se torrentes de
+chuva. Pois não te lembras?... E tudo devido a uma mudança... de
+vento... a uns ares que vinham do sul...
+
+Augusto não entendia ou fingia não entender estes mysteriosos dizeres do
+herbanario. Angelo estava distrahido devéras.
+
+O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:
+
+--Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?
+
+--Esteve lá hontem.
+
+--É amigo das creanças?
+
+--Parece-o.
+
+--Conta muitas historias ás senhoras?
+
+--Entretem-as bastante.
+
+--E ao... e a teu pae? Ouve-o com attenção?
+
+--Conversaram muito toda a noite.
+
+O herbanario parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada
+resposta obtida, abanava pausadamente a cabeça com certo ar meditativo.
+
+Augusto relanceava tambem para a fronte, meio contrahida, do velho um
+olhar entre curioso e timido.
+
+O herbanario proseguiu:
+
+--Emfim... A desconfiança é um achaque de velhice e nem sempre os mais
+felizes são os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem
+ainda a graça da sua protecção.
+
+--O tio Vicente desconfia do primo Henrique? perguntou Angelo, rindo.
+
+--Primo?!--repetiu o velho, admirado.
+
+--Primo lhe chamamos nós, porque a tia Victoria teima que, sendo elle
+sobrinho da tia Dorothéa, é nosso primo tambem.
+
+--Ah? Já ahi vamos? E Lena?...
+
+--Lena, Christe, todos lhe chamam por lá assim.
+
+O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras inintelligiveis,
+terminando por estas:
+
+--E, como no Egypto, é o vento sul que traz a praga dos gafanhotos. Mas
+Deus que vele, Deus que vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda
+d'aqui aos pardieiros de Cernuche.
+
+--Á caça dos sapos, tio Vicente?--perguntou Angelo, gracejando.
+
+--Não, que não é agora o tempo--respondeu, sisudo, o velho.
+
+--Dos sapos! Galante caça, na verdade!--continuou Angelo no mesmo tom.
+
+--Galante não será ella, pequeno,--respondeu o velho;--mas abençoada a
+chamarias se te torcesses no leito com as dores do carbunculo, que não
+ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle d'estes animaes
+sêcca ao ar livre.
+
+--E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caça toupeiras?
+
+--Em seu tempo. Oh! a toupeira é animal de abençoadas virtudes! Basta
+que um dente que se lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoço,
+cura a mais desesperada dor de dentes.
+
+--Não deve ser facil operação a de tirar os dentes ás toupeiras--tornou
+Angelo.
+
+O herbanario continuou:
+
+--A quinta essencia das toupeiras é milagrosa contra cancros e herpes.
+
+--A quinta essencia das toupeiras!--repetiu Angelo, rindo.
+
+--Não rias, creança--acudiu severamente o herbanario.--Que não é bonito
+rir do que os homens doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que o
+li n'aquelle grande livro da _Polyantheia_, livro como se não faz hoje
+outro.
+
+--E como é que se tira a quinta essencia a uma toupeira, tio Vicente?
+
+--Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as fazer em cinzas. Mistura-se
+a estas cinzas o sumo de celidonia maior, até haver quatro dedos de sumo
+acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, que se enterra
+por dez dias e... e... Bem, bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo
+e paciencia com creanças.
+
+--Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... Então depois de
+enterrar tudo isso, que se faz?
+
+--Até logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com
+menos vontade de rir.
+
+--E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, tio Vicente, eu padeço ás
+vezes de um somno tão pesado que me não deixa estudar.
+
+O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu:
+
+--E julgas que não sei de remedio para isso? Experimenta e verás. Mette
+um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... Mas
+adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche é uma legua.
+
+E o herbanario retirou-se, meio agastado com o scepticismo de Angelo e
+sobraçando a caixa de lata e o sacco dos seus thesouros medicinaes.
+
+Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das singularidades do
+velho, riso em que não entrava, porém, o menor laivo de malignidade;
+porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que elle bem lhes
+merecia, pois sempre do coração o achavam votado a seu favor.
+
+O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se ainda, até ás horas do
+jantar.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não
+possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella
+festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se
+despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo
+mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
+não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia
+este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já
+n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias,
+olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas
+janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias
+que vão no seio das familias, e pela phantasia creando em cada morada um
+mundo intimo de affectos e de venturas, como o de que a sorte os privou,
+que esses me perdoem as amargas saudades, que por ventura lhes avive
+assim.
+
+É certo que não ha noite mais alegre; alegre d'esta alegria que vae
+direita ao coração, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez;
+alegre d'esta alegria candida a que o homem é sujeito do berço á
+velhice, a qual respeitam os estos das paixões, na idade d'ellas, e o
+gêlo do egoismo, no declinar da vida.
+
+Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas tu sempre, noite de
+vinte e quatro de dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste
+a luz, o calor, o conchêgo dos lares, e mais intimos se estreitarão os
+circulos da familia em roda da ceia patriarchal.
+
+E vós todos, a quem uma moda tôla não constrangeu ainda a abandonar os
+habitos que de pequenos contrahistes, e festejaes ainda o Natal de
+Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter genuinos esses
+costumes nacionaes, que não resultará d'ahi desdouro para o vosso nome
+ou brazão. A roda da civilisação, a que applicaes hombros com tanto
+denodo, não se cravará por isso.--Podeis, elegantes meninas, cantar lôas
+sem escrupulo deante do presepe armado na sala mais intima da casa, que
+nem por isso cantareis peor na das visitas as arias italianas, que
+aprendestes no collegio; não córeis de collaborar, por excepção, esta
+noite nos mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia e perfumes
+tendes no toucador para as abluções purificatorias. Homens graves, a
+republica perdoar-vos-ha uma pequena infidelidade, a politica do paiz e
+da Europa não periclitará desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a
+vossa attenção; humanisae-vos pois uma vez por anno, e baixae ao seio da
+familia os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem
+sublimados.--Entrae com as creanças em jogos pueris e faceis, que não
+destemperareis a intelligencia para as philosophicas cogitações do
+_boston_ e do _whist_.
+
+A familia do Mosteiro era fiel ás classicas usanças d'esta noite
+tradicional. E n'aquelle anno sobretudo as festas das consoadas deviam
+ser coisa falada, graças ao plano de D. Victoria de reunir no Mosteiro a
+resumida familia de Alvapenha; plano que vimos approvado por acclamação
+por toda a assembleia presente.
+
+D. Dorothéa veio effectivamente na companhia de Henrique de Souzellas e
+de Maria de Jesus.
+
+Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovação das creanças.
+
+D. Dorothéa viu-se litteralmente enlaçada em braços infantis, que lhe
+tolhiam os movimentos e que, dizia ella, quasi ameaçavam asphyxial-a.
+
+Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que inauguraram um estado
+de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquella noite.
+
+A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro é indescriptivel. Na
+cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruido.
+
+Aqui eram as creanças jogando, a pinhões, o «par ou pernão» e o «rapa»,
+jogos popularissimos e de occasião, que, de tão conhecidos, dispensam o
+trabalho de descrevel-os. Estes jogos, como é de prever, não se
+executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a
+impaciencia de D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que se
+passava na sala, ralhar com os criados á cozinha.
+
+No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, armára-se o presepe,
+deante do qual ardiam seis vélas de cêra em castiçaes de prata maciça.
+
+As duas velhas senhoras, D. Dorothéa e D. Victoria, encetaram logo no
+principio da noite uma longa e devota reza, meio recitada, meio cantada,
+a qual se continuava com uma interminavel enfiada de Padre-Nossos e
+Avé-Marias, a que respondia, em côro, a parte feminina, da familia, as
+creanças e as criadas.
+
+Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em voz trémula e quebrada pela
+idade, entoava em singela cantilena coplas como esta:
+
+
+ Ó infante suavissimo,
+ Vinde, vinde já ao mundo
+ Livrar-nos do captiveiro
+ D'este jazigo profundo.
+
+
+E seguia-se um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
+
+Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, desordenado um pouco
+o andamento regular das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico
+expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.
+
+Á sala, onde Henrique de Souzellas conversava com o conselheiro em
+assumptos, todos d'esta vez longe da politica, chegaram as surdas
+harmonias d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de
+saber o que era aquillo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a seguil-o
+para por si proprio se poder informar.
+
+E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introducção na
+sala da novena justamente ao lado de D. Victoria e de D. Dorothéa, que,
+de embebidas que estavam nas suas orações, nem por elles deram.
+
+O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado d'aquellas boas
+senhoras, e quando após um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorothéa, se
+devia seguir a resposta do côro feminino, este emmudecido, com a chegada
+dos dois, a qual desafiára risos a custo suffocados, foi substituido por
+um dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, e
+escandalisaram depois ambas as sisudas senhoras.
+
+O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as creanças; D. Victoria
+teve muito que fazer, muito que reprehender o cunhado, muito que ralhar
+com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dorothéa,
+muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de
+todas estas tarefas.
+
+Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. Os desordeiros
+sómente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometteram
+que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique voltou com o
+conselheiro a admirar o primor que a paciencia de um artista imaginoso
+realisára na confecção do presepe, onde estavam representados todos os
+episodios da natividade de Jesus, e muitos outros.
+
+Era effectivamente uma complicada machina aquelle presepe, e seria prova
+de profunda indifferença artistica passar por elle sem um exame, embora
+fugaz.
+
+Este traste antiquissimo na familia gosava de nomeada n'um circulo de
+leguas em redor. Havia empenhos para o vêr no tempo do Natal, e se algum
+viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe
+recommendasse o visitar o presepe, como coisa digna de vêr-se.
+
+Consistia elle n'uma espécie de santuario de pau preto, no meio do qual
+havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel,
+com estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava deitado o menino
+Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos
+impulsos do compadecido coração de D. Victoria, que, ainda que tarde,
+parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma
+bonita cama de lençoes de renda com cercadura dourada; colcha de setim
+bordado, e colchão e travesseiro da mais macia penugem de aves
+americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quasi iguaes
+ás do menino; mais longe a vacca e a mula tradicionaes. Os episodios
+porém eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Varios
+grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e
+vestuarios, ornavam a scena. Alli um cego tocador de sanfona; um grupo
+de gallegos dançando, ao som da gaita de folle; uma pastora com ovos
+mais adeante; ao lado, um grupo celebrando um _pic-nic_, perfeita
+actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata, e botas de
+cano;--outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona ingleza, com o seu
+Jockey, galopava pelas cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira
+caminhavam a par com offertas para o menino. Ao longe, nos visos da
+serra, appareciam os tres Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar
+abaixo.
+
+Não esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento esculptural os
+muros de Jerusalem. Elles lá estavam coroados de ameias e de milicianos
+fardados á ingleza e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aquelles
+guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do
+quadro, qualquer d'elles era duas vezes maior do que as figuras do plano
+da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portugueza. Havia
+varios santos espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, e, entre os
+additamentos feitos pela devoção de D. Victoria ao presepe, contava-se o
+de um Santo Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, parecia muito
+admirado de se vêr n'aquelle tempo e logar. Um gallo colossal soltava do
+telhado do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins espreitavam do
+céo por entre nuvens de algodão e estrellas de ouropel. Era um prodigio!
+
+Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, sentia eu vivo orgulho
+de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime
+admiração faria cêdo ou tarde justiça; tive porém de abandonar esta
+lisonjeira idéa, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais
+justificadamente populares da nação vizinha. Das paginas de um delicioso
+quadro de costumes de Fernan Caballero, a eminente escriptora de que a
+Andaluzia se ufana, conheci eu serem não sómente nacionaes, mas
+peninsulares pelo menos, estes modelos de presepes, com os seus ingenuos
+anachronismos, cunho irrecusavel que o povo imprime a todas as suas
+obras de arte. Onde falta o anachronismo, falta a assignatura do povo.
+
+Em todo o caso era digno da menção que d'elle fizemos o presepe do
+Mosteiro.
+
+Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miudo, D. Victoria
+fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o
+serviço, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as peores criadas
+do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar
+lôas deante do presepe. D. Dorothéa cêdo tomou com Magdalena e Christina
+o mesmo caminho.
+
+O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com elles
+entraram em jogos, como se fôssem creanças tambem.
+
+O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e sério das
+salas de Lisboa perdera todo o ar diplomatico: agora era sómente o homem
+da familia; pueril, travesso, alegre, folgazão.
+
+--Meu caro,--dissera elle a Henrique no principio da noite--vou
+fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assumpto politico, a
+menor discussão séria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o
+contrario seria uma profanação, que attrahiria sobre nossas cabeças as
+justas iras dos anjos domesticos que n'estas noites andam invisiveis
+misturados com a familia.
+
+--Apoiado,--respondeu Henrique;--acceito e comprometto-me a cumprir a
+proposta.
+
+Henrique possuia em alto grau o talento de se tornar agradavel.
+Comprehendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, tão frio e
+pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da
+familia, e ao proprio conselheiro parecia já impossivel que ainda fôssem
+tão recentes as suas relações mais intimas com aquelle rapaz.
+
+--Animo, sr. conselheiro,--dizia-lhe Henrique, no momento em que elles
+ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.--Coragem,
+que temos gloriosos exemplos a animar-nos; até, entre outros, o do meu
+homonymo Henrique IV. É sabido o episodio recordado por uma gravura
+celebre.
+
+O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes jogos, a sala estava
+dentro em pouco em desordem; os moveis fóra da sua posição, o chão
+alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes
+desviados, as cortinas soltas.
+
+Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique:
+
+--Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d'estas festas, o
+principal. É dirigir uma visita á cozinha. Porque a obra principal
+d'esta noite é fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o a
+acompanhar-me lá.
+
+--Com tanto mais vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso
+com as senhoras.
+
+--N'esse caso é tempo.
+
+E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á cozinha.
+
+Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente,
+annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.
+
+A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto
+recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas
+monumentaes, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda
+saudosa dos odoriferos vapores que outr'ora espalhavam os tachos e as
+grelhas monasticas.
+
+Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae
+de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certãs, um
+borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de
+crystaes no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamações,
+de conselhos, todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria
+ralhava, e a sr.^a de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus
+desdenhava do serviço das collegas, e Magdalena e Christina riam de
+todos e de tudo, e Angelo a todos impacientava.
+
+Não se imagina!
+
+A chegada do conselheiro e do seu hospede veio exacerbar a desordem.
+Ergueram-se risos e exclamações, as quaes ainda assim eram subjugadas
+pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia para o
+conselheiro:
+
+--Sempre o mano tem coisas! Olhem agora para o que lhe havia de dar! Vão
+lá para dentro, vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do que
+estamos. E o primo Henrique tambem! Ora esta!...
+
+--Não se afflija, mana. Nós não podiamos resignar-nos a ficar alheios á
+tarefa principal do dia. E até porque é necessario dar andamento a isto
+para chegarmos a tempo da missa do gallo.
+
+--Pois querem ir á missa do gallo?
+
+--Está de vêr que sim.
+
+--Eu tambem vou--disse Christina.
+
+--E eu--acudiu Magdalena.
+
+--Mais um, que irá tambem--disse Henrique.
+
+--E eu, e eu--accrescentaram differentes vozes.
+
+--Ai, minhas encommendas!--suspirou D. Victoria.--Então por que não
+disseram isso logo? Agora como ha de ser?
+
+E saiu em direcção á sala da ceia a dispôr as coisas.
+
+É preciso que se diga que D. Victoria vivia na candida illusão de que
+era ella quem fazia tudo em casa, emquanto que manda a verdade declarar
+que nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas do que quanto
+dormia esta aliás excellente senhora.
+
+--Mãos á obra, sr. Henrique!--bradou o conselheiro, insistindo na
+resolução com que viera.
+
+--Prompto--respondeu Henrique.
+
+--Então? então?... Que vão fazer?--perguntava D. Victoria, afflicta,
+voltando á cozinha.
+
+--Querem vêr que preparos?!--dizia D. Dorothéa, sorrindo e olhando com
+curiosidade para o que faziam os dois.
+
+--Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia--dizia
+Henrique, approximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena
+e Christina.
+
+--É verdade que sim,--acudiu Magdalena--e eu exijo o cumprimento da
+promessa.
+
+--Vamos lá, sr. Henrique,--tornou o conselheiro--acceite-me alguns
+preceitos da pratica. A regra é fazer tudo o mais indigesto possivel;
+porque essa qualidade é o caracteristico dos manjares d'esta noite.
+
+--N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois
+desafio o melhor estomago do mundo a que subjugue os meus guisados com
+os seus succos digestivos.
+
+--Eu já escolhi tarefa--disse o conselheiro, tirando das mãos de
+Christina a colhér com que ella mexia o vaso onde se preparava o vinho
+quente, esse _punch_ nacional, que n'esta noite seria uma falta
+imperdoavel se esquecesse no programma d'aquelle banquete.
+
+Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, e cêdo principiou a
+desempenhar-se d'este trabalho, no meio de hilaridade geral.
+
+Angelo dispensou a tia Dorothéa do trabalho da preparação dos mexidos.
+
+Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu
+constante proposito, approximou-se da morgadinha, que n'aquelle momento
+se occupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas.
+
+--Peço trabalho, prima Magdalena.
+
+--Não ha falta de braços n'esta repartição, primo Henrique. Vá a outra
+porta.
+
+--Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas fôrças.
+
+--Esta? Como se engana! Não sabe que as rabanadas são a essencia da ceia
+de Natal? E logo havia de confiar-lh'as?
+
+--Ah! não ligava tanta importancia a estas representantes da pastelaria
+primitiva, notaveis porque recordam a infancia da arte! Emquanto a mim,
+já no tempo da peregrinação dos hebreus, Moysés lhes ensinava a cozinhar
+d'isto.
+
+Magdalena abanou a cabeça em signal de reprehensão.
+
+--Perdôe ás pobres rabanadas o pouco ar de moda que teem. A sua
+elegancia é implacavel, primo Henrique. Um indigesto manjar francez
+seria de melhor tom, bem sei. Até n'isso!
+
+--Para provar que estou arrependido da minha irreverencia, consinta-me
+que a coadjuve, prima.
+
+--Não pode ser; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.
+
+--Isso equivale a recusar-me o fôro de familia, que tão humildemente
+reclamo.
+
+--Justamente--respondeu Magdalena.--Eu sou muito escrupulosa n'isso. Faz
+mal em não reclamar esse fôro de Christina, que talvez encontrasse mais
+disposta a conceder-lh'o.
+
+--Mas, se me não engano, foi a prima Magdalena que primeiro me conferiu
+o apreciavel titulo de parentesco com que nos tratamos.
+
+--O de primos? Esse sim; mas não tem os privilegios, que lhe quer dar.
+
+--Que privilegios são?
+
+--Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, por exemplo.
+
+--Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o que eu peço?--perguntou
+Henrique a Christina, que principiára a escutal-os.
+
+--Não ouvi--respondeu esta, córando e sorrindo, como sempre que lhe
+falava Henrique.
+
+--Escusado é consultar Christina--acudiu a morgadinha--porque em muitas
+coisas pensa ella em opposição commigo. E n'isto...
+
+--E n'isto...
+
+--N'isto de attender a requerimentos, é talvez mais condescendente.
+
+--Ao que estou vendo--disse o conselheiro jovialmente--grandes coisas se
+tinham passado aqui, antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade
+entre Lena e o sr. de Souzellas, que me dá sérias inquietações.
+
+--E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu
+a nossa Lena no Mosteiro!...--disse D. Dorothéa, com toda a indiscreção
+da sua ingenuidade.
+
+Magdalena procurou acudir a tempo á corrente das revelações, a que viu
+disposta a boa senhora.
+
+Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que tendo feito uma digressão
+pela sala do refeitorio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava
+na mesa.
+
+O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. Suspenderam-se
+trabalhos, quasi completos, ultimaram-se á pressa outros, e a companhia
+dirigiu-se para o corredor.
+
+Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o e pretendendo
+suster a corrente, que ameaçava invadir a sala, que ella ainda não dera
+por prompta. Já não era tempo. O conselheiro, tomando duas creanças ao
+collo, rompia a marcha, e atraz d'elle até a pacifica D. Dorothéa
+clamava insubordinada que não recuaria um passo.
+
+E falando e rindo assim entraram na sala.
+
+Estava offuscante de luzes, esplendida de louças e baixellas, enfeitada
+de flores e de crystaes e ennevoada dos vapores das iguarias.
+
+Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confusão e
+incoherencia de ordens de D. Victoria para marcar logares, infracções
+d'estas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudésse perigar a
+ordem natural e social do mundo, e, como justa consequencia, caía sôbre
+a cabeça dos criados uma enfiada de recriminações, que elles por habito
+já soffriam com exemplar paciencia.
+
+Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se á ceia.
+
+Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas
+mesmas disposições de animo em que ordenava Christo estivessem os que
+fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com tão pouca
+vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos
+eméritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados,
+outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem
+da França e da Allemanha; cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e
+furta-te ás mãos da extranha geração de Vateis, que aspiram a dominar
+pelos paladares o espirito nacional.
+
+Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeições, mas
+respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo
+facto de que quasi não é feita para ser comida.
+
+Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro,
+das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorothéa sobre a
+innocuidade dos guisados, os pratos corriam á roda da mesa quasi
+intactos e intactos voltavam á cozinha d'onde sairam.
+
+Mas se se comia pouco--e de facto, á excepção de Henrique, do
+conselheiro e das creanças, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli
+para ceiar--mas, diziamos nós, se se comia pouco, em compensação
+falava-se muito.
+
+O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa
+efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar
+constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma creança, a
+anecdota contada por Henrique, as distracções de D. Victoria, as
+canduras de D. Dorothéa, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as
+allusões da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, as maliciosas
+insinuações de Angelo.
+
+Assim procedeu o repasto nocturno até á altura das saudações e dos
+_toasts_. N'esta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro
+fôram menos abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade dos
+vinhos.
+
+Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro,
+voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propôr tambem um brinde.
+
+Angelo levantou-se então para brindar Augusto.
+
+O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios.
+
+--Ah! o sr. Augusto--disse Henrique, antes de beber e com certo tom de
+ironia.--Conheço; é uma ave rara d'estas immediações, que tem brios de
+cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.
+
+--Brios de cavalleiro?--disse Angelo, com vivacidade.--Inda isso não é
+tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem.
+
+--Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr preciso até consciencia
+de santo. Vá á saude da phenix!
+
+E bebeu.
+
+Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior:
+
+--O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverencia
+d'esta personagem; corre-se o risco de vêr voltar contra o impio, que
+tanto ousa, os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; prometto
+acatar essa preciosidade.
+
+--E creia--disse-lhe o conselheiro--que lhe é merecedor de toda a
+consideração. Augusto é um d'estes caracteres excepcionaes que vivem á
+sombra de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella muitas vezes
+morrem. É necessario ter a vista muita exercitada n'estas explorações de
+almas modestas, para descobrir uma assim.
+
+--Felizmente para os myopes como eu--proseguiu Henrique--ellas fazem ás
+vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á luz.
+Não é verdade, prima Magdalena?
+
+--Que admira;--respondeu Magdalena--bem occulto está o fogo na
+pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca.
+
+--Pobre rapaz;--notou a sr.^a de Alvapenha--aquillo nem parece d'este
+tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque elle se não resolveu a
+tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa!
+
+--Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra
+qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para seguil-a até o fim.
+Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio
+singular aquelle rapaz!
+
+--É uma phenix--insistiu Henrique, ironicamente.--Vejo que não é
+susceptivel de discussão, impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho
+habitos de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir no meu credo
+esse dogma.
+
+--Perdão--replicou Angelo.--Um axioma não se demonstra, e a boa alma de
+Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas.
+
+--Por favor!! Dêem como não ditas as minhas palavras! Arrependo-me da
+minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a
+penitenciar-me na sua presença.
+
+--E é certo que nos falta aqui Augusto. Como te não lembraste d'elle,
+Angelo?
+
+--Não viria. N'esta noite não deixaria o tio Vicente.
+
+--Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.
+
+--É do herbanario que falam?--perguntou Henrique.
+
+--Justamente.
+
+--Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos
+inviolaveis; não é verdade, prima?
+
+--Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se
+uma especie de inviolabilidade.
+
+A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a
+desviar do ponto principal da questão, dizendo:
+
+--Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em
+si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de
+perturbar-lh'a. Além de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa
+soberania, que deve lisonjeal-o.
+
+--E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em
+coisas de doenças e de remedios, menino,--disse D. Dorothéa, que era uma
+das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.
+
+--É na verdade um homem singular!--disse o conselheiro.--D'antes, na
+noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem
+por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu
+em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e
+dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação.
+Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com
+maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e
+o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar mais a
+ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não
+houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante n'estas
+condições.
+
+--Sei-o já por experiencia;--disse Henrique--que n'uma unica entrevista
+que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer
+a irritabilidade.
+
+--Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa
+entrevista não demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades
+de que o accusa.
+
+--Agora--continuou o conselheiro--vão consideravelmente exacerbar-se os
+despeites do herbanario contra mim.
+
+--Porquê?--perguntou Magdalena.
+
+--Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada.
+
+--Então?--disseram simultaneamente Angelo e Magdalena.
+
+--A casa e o quintal do herbanario são os primeiros cortados.
+
+--Não pode ser!--exclamou Magdalena, com evidente expressão de susto.
+
+Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.
+
+Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza.
+
+--É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O
+primeiro era uma luva lançada a uma influencia eleitoral, poderosissima;
+o brazileiro Seabra.
+
+--Ah!--disse Magdalena, com certa amargura na expressão e no olhar.
+
+O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se não lia
+menos intenso desgosto.
+
+--Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse
+com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem
+d'essas exigencias absolutas.
+
+Magdalena respondeu:
+
+--Julguei que era a da consciencia, meu pae.
+
+--A consciencia diz-me que ha interesses superiores ás contemplações com
+as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira
+politica ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo
+exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto ás vezes a um
+sacrificio individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores
+e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos. É muito
+tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua
+casa; porém, mais respeitavel é o bem-estar e a conveniencia de uma
+localidade.
+
+--E é tão necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que
+se quer obrigar o herbanario?--perguntou Angelo, e Magdalena secundou
+com o olhar a pergunta do irmão.
+
+--Eu te digo, Angelo--respondeu o conselheiro, levemente despeitado.--Eu
+tinha a vaidade de me suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem
+elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em
+familia, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato,
+muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão d'este
+povo, e elles, á falta de outros, acceitariam ámanhã qualquer nome
+inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e
+que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se
+propunha ser representante. Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja
+parecendo um censuravel excesso de vaidade.
+
+--Não, meu pae, ninguem acredita mais do que eu no muito valor da sua
+influencia, mas... Ó meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio
+Vicente! Imagine bem o que é n'aquellas idades e com aquelle genio, a
+grandeza do sacrificio que vão exigir d'elle?
+
+--Custa-me ser obrigado a isso; porém...
+
+--Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle não pode ser muito
+longa. Deixem-o morrer em paz, á sombra d'aquellas arvores a que elle
+quer tanto. Que importa passar mais alguns annos sem uma estrada?
+
+--Poesia!--disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe
+correspondeu.
+
+--Perdão!--acudiu Magdalena, córando--é caridade.
+
+--Ora vamos, Lena. Sê razoavel. Todos soffrem no mundo sacrificios
+maiores do que esse; eu mesmo, que me não tenho ainda assim por victima
+da sorte...
+
+--E não haveria outro meio?--perguntou Angelo.--Acaso ha só esses dois
+logares para dirigir a estrada?
+
+--Que antes nunca se fizesse!--exclamou Magdalena, apaixonadamente.
+
+--Ahi temos como o sentimento me torna retrograda a minha Lena. Já clama
+contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro
+traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo.
+
+--Ah! então esse, esse! São bens nossos!--exclamou Magdalena com
+vivacidade.
+
+--São bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles que um dia mais
+valiosos se tornarão para teu irmão.
+
+--Os charcos?--disse Angelo, encolhendo os hombros--ora! Só para viveiro
+de rãs.
+
+--Hoje pouco mais são do que isso, e como tal nol-os pagariam agora.
+Dentro, porém, de alguns annos, operados alli os trabalhos de esgoto,
+que eu projecto, verão em que se transforma aquillo. É exigir a um homem
+muita abnegação pretender d'elle que sacrifique assim os elementos da
+riqueza futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens não seriam
+taes que...
+
+--Não pediriamos esmola, meu pae--notou timidamente Angelo.
+
+--Nem o Vicente a pedirá. Visto que estaes tão desprendidos de
+interesse, que não hesitaes em fazer-lhe sacrificio dos vossos bens,
+podeis ceder-lhe o sufficiente para o compensar da perda.
+
+--Mas quem o compensará dos golpes nos seus affectos?--perguntou
+Magdalena.
+
+--Tambem tu! São segredos do coração feminino essas compensações.
+Deixo-as á tua disposição.
+
+--Meu pae! meu pae! se é ainda possivel atalhar-se!
+
+--É impossivel.
+
+--Meu tio!--secundou Christina.
+
+--Mano! Primo!--disseram a um tempo as senhoras mais idosas.
+
+--O que posso fazer é ir eu proprio falar com o Vicente, para o mover a
+consentir na expropriação amigavel, que farei que lhe seja o mais
+vantajosa possivel.
+
+--E tem coração para lhe ir propôr isso?
+
+--Dize antes se tenho coragem para arrostar com as iras do velho, e com
+as maldições que já sei vae sacudir sobre mim.
+
+Lena calou-se, suspirando.
+
+--Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!--continuou o
+conselheiro.--Eu, que tinha feito voto de não me entreter de negocios
+publicos esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu!
+
+--Eu?! Eu, que abomino a politica! que só ella podia fazer entrar uma
+crueldade no coração de meu pae!
+
+--Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por outro sitio!--implorou
+meigamente Christina.
+
+--Tambem tu, Christe! tambem tu!
+
+--Pudera, mano! Não, que uma coisa assim! Isso é até uma ingratidão para
+com um homem a quem esta aldeia tanto deve--disse D. Victoria.
+
+--Pois não é! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de
+virtudes!--accrescentou D. Dorothéa.
+
+--Vá vendo, sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim. Veja como
+um sentimento insignificante organisa uma opposição.
+
+--É uma lição que estou recebendo, sr. conselheiro.
+
+--Meu pae,--insistiu Magdalena--eu espero ainda que, ouvindo o tio
+Vicente, se commoverá e trabalhará por alterar esse fatal plano que
+principia por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, com ellas
+arrancará uma vida.
+
+--Romances! Lena, romances! Os romances, lidos em plena aldeia, são
+perigosos. Falta aqui nos ares um certo scepticismo que, não sendo em
+dóses exaggeradas, tem a vantagem de não deixar vêr as coisas da vida
+através do prisma dos livros de imaginação. Mas basta de falar em
+politica. Ámanhã procurarei o herbanario. Espero uma recepção de gêlo, e
+vou preparado para uma ladainha de recriminações, mas irei. Nada
+esperes, porém, da entrevista, Lena; nem o mal, se mal é, se poderia já
+atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permittiria expansões á
+sensibilidade, que cheguem a commover-me. Conheço-o.
+
+Magdalena não instou. Ficou, porém, pensativa e sem o menor vestigio da
+alegria, com que principiara o serão.
+
+N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.
+
+--Já toca para a missa do gallo! Ouvem?--disse D. Victoria.
+
+--Vamos! Não ha tempo para demoras--exclamou o conselheiro,
+levantando-se.
+
+Todos o imitaram, menos Magdalena.
+
+--Não vens, Lena?--perguntou Christina.
+
+--Não.
+
+--São amúos, filha!--disse-lhe o conselheiro, indo por traz d'ella; e,
+tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-a na fronte.
+
+--Não, meu pae, é uma dôr de cabeça tão violenta!
+
+--A maldita politica é o que faz! Pois fica; fica, porque está fria a
+noite.
+
+--Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.
+
+--Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair.
+
+--Aviem-se!--dizia D. Dorothéa.--Henriquinho, vens?
+
+Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia noite esfriou desde que
+viu Magdalena ficar, respondeu:
+
+--Ó tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...
+
+--Vem d'ahi, preguiçoso! anda!
+
+--É que... para um homem doente...
+
+--Ai, não; se te ha de ás vezes fazer mal, então não--apressou-se a
+dizer a precavida senhora.
+
+E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cêdo
+depois Torquato foi ensinar. o caminho para o quarto onde devia
+pernoitar.
+
+O conselheiro, D. Dorothéa, Christina e Angelo fôram para a missa do
+gallo.
+
+D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no Mosteiro.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de
+Souzellas sentiu poucas disposições de dormir. Uma profunda excitação
+impedia-lhe o repouso; em parte era devida ás occorrencias d'aquella
+noite, tão fóra dos seus habitos de vida; em parte, digamol-o em
+verdade, á influencia dos vinhos, com que secundára os brindes do
+conselheiro, e com que elle proprio iniciára outros.
+
+A imaginação, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe
+representava mais bella a de Magdalena. A especie de hostilidade
+permanente, com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia
+seduzil-o.
+
+Nos poucos dias que passára na aldeia, havia Henrique, com novos
+habitos, adquirido uma maneira de vêr e de julgar as coisas e as
+pessoas, differente da que lhe era habitual na cidade, no circulo de
+amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou tacitamente, e sem dar
+por isso, certo scepticismo convencional, que uma antipathica escola
+conseguiu pôr muito na moda.
+
+Graças a estas melhoras moraes, tão verdadeiras n'elle como as physicas,
+as quaes até o constante pensamento das doenças lhe haviam dissipado,
+pudéra elle considerar Magdalena como uma mulher superior ao typo, pelo
+qual a mencionada escola costuma modelar o sexo: e acceitou sem má
+prevenção a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, que
+descrevia com enthusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais intimos
+amigos de Lisboa.
+
+Taes estados de convalescença são porém sujeitos a recaídas.
+
+N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta áquellas cartas,
+e sob as impressões com que ficou da leitura, tinha vindo para o
+Mosteiro.
+
+O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo de um homem da moda, da
+candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado á
+vista dos profundos estragos que alguns dias de provincia tinham operado
+n'elle. Via-o disposto a idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina
+monomania que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro de qualquer
+homem.
+
+Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos os dias caracteres,
+aliás não pervertidos, levianamente calumniam ou ferem de suspeitas
+reputações de todo o genero, elle fazia irreverentes allusões á
+morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a sério as isenções
+de uma rapariga de vinte e tres annos. Acabava por o aconselhar a que
+indagasse de algum primo timido e modesto, ainda que menos ingenuo de
+certo do que elle Henrique se estava mostrando.
+
+Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doença, que estava em via
+de cura. Um espirito mephistophelico parecia havel-a dictado. Henrique
+transportou-se pela imaginação, depois de lel-a, a um dos circulos que
+habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração
+da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o
+escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria
+por certo commentada a narração. E então uma vergonha de má indole,
+vergonha do homem que põe um preceito de elegancia acima de um dictame
+de moral, fazia-o córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a ler a
+carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso,
+emquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e
+desarrazoada.
+
+Quem ha que não tenha tido momentos d'estes? Quem se pode gabar de não
+ter perguntado um dia aos seus escrupulos mais nobres se não são meros
+preconceitos, que ficaram de uma educação acanhada? Quem não poz um
+momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em creança?
+Henrique estava passando por um d'esses accessos de scepticismo.
+Magdalena era já para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido
+da sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, que promettia a
+si proprio ser d'ahi por deante mais arrojado. Esta ordem de reflexões
+estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se
+apoderára d'elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça
+em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do
+quarto, saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.
+
+A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no
+céo, que com forte scintillação parecia illuminarem a terra de um tenue
+crepusculo, que mal deixava distinguir os objectos.
+
+O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle
+procurava prolongar.
+
+Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostára á varanda
+do quarto, quando lhe attrahiu a attenção certo vulto alvacento, que
+furtivamente se movia n'uma das ruas da quinta.
+
+Pareceu-lhe uma figura de mulher.
+
+Justamente n'aquella occasião tinha Henrique na memoria o periodo final
+da carta do seu amigo.
+
+Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.
+
+--Ah!... Querem vêr que... A dôr de cabeça subita... A insistencia em
+ficar só... Percebo... Um primo timido e modesto...
+
+E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os labios de
+Henrique.
+
+--Se eu pudésse averiguar isto... Mas ella corre com uma ligeireza que,
+antes que eu ache meio de sair para a quinta... já a levará bem longe.
+
+O meio porém não era difficil de encontrar. Da varanda em que estava
+Henrique passava-se com grande facilidade para outra immediata, na qual
+havia uma escada de communicação para a quinta.
+
+Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique operou n'um momento a
+descida, e pouco depois procurava através da quinta os vestigios da
+mulher que tinha perdido de vista.
+
+N'esta operação esforçava-se por combinar com a maxima ligeireza a
+possivel precaução, para não ser por causa alguma frustrada a sua
+pesquiza.
+
+A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda em volta por um solido
+muro de alvenaria. Aqui e alli abriam-se n'elle differentes portas que
+deitavam para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto havia
+pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava á tôa, já
+desanimado de ser bem succedido no empenho.
+
+De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar de uma chave na
+fechadura. Parou por precaução e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o
+bater de uma porta e mais nada.
+
+Então adeantou-se rapidamente; n'um momento deu com a porta, que ainda
+se conservava aberta.
+
+Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.
+
+Dirigiu-se á esquina que d'alli avistava; dobrou-a, mas nada viu; as
+ruas eram solitarias, e uma só casa terrea que havia ao lado de um
+quintal estava discretamente fechada e silenciosa.
+
+Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, Henrique voltou para a
+porta.
+
+--Esperemos aqui por esta donzella destemida que assim anda de noite a
+correr aventuras. Ha de ser curioso observar como ella fica, quando me
+encontrar por guarda portão. Veremos se ainda depois d'isto durarão
+aquelles ares de soberania, com que me trata. Um primo timido e
+modesto!...
+
+E, sorrindo á lembrança da scena que se preparava, Henrique fechou a
+porta por dentro, e accendendo um charuto, poz-se a passeiar, aguardando
+o regresso da morgadinha.
+
+Para não perdermos muito tempo á espera tambem, aproveital-o-hemos a
+inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento é util á continuação
+da nossa historia.
+
+A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro e n'um sitio a que a
+abundancia de vegetação e a suavidade de perspectiva davam o mais
+pittoresco aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, casa e
+quintal já condemnados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e
+offerecidos em sacrificio aos melhoramentos municipaes e concelhios.
+
+Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena e Angelo escutaram
+a nova d'esta expropriação, quem conhecesse a vivenda rustica do
+herbanario e soubesse do amor que elle votava a cada objecto d'ella,
+assim como da vida que, havia tantos annos, alli vivia escondido e
+obscuro.
+
+Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre
+verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o
+herbanario se entregava ás suas leituras e lucubrações scientificas.
+Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas
+flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices
+medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle
+cultivava.
+
+Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar-lhe.
+Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes
+curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a
+responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as
+amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando
+nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fôra dado a
+singularidades, augmentaram estas disposicões, que tinham o que quer que
+era de pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando com
+ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo.
+
+A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os
+trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe
+faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão.
+
+O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Elle proprio
+cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domesticos.
+
+É pois de imaginar que não seria muito complicado o banquete das
+consoadas n'aquella casa, e que devia formar em tudo contraste com o que
+á mesma hora se celebrava no Mosteiro.
+
+De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas e mais espontaneos
+os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma
+pequena mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta sala o santo
+anniversario. Um era o proprietario da casa, o outro Augusto, um dos
+poucos que se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a habitação do
+velho.
+
+Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, maçãs,
+nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na
+confecção da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa de vinho do
+Porto de promettedora côr de topazio, consistia o resto da mobilia n'uma
+estante de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas
+encadernações e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e
+bancos tambem occupados com livros e com varios utensilios empregados
+nas explorações scientificas do velho, taes como caixas de lata,
+frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes ainda sobravam para
+alastrarem o chão.
+
+Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro de azeite, e a
+escassa luz, que dos tres lumes que, em attenção á solemnidade da noite,
+o velho accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Christo de
+marfim pendente de um crucifixo negro, que sobresaía n'aquellas paredes
+nuas e caiadas.
+
+Havia bastante tempo que aquelles dois homens, sentados defronte um do
+outro, guardavam silencio; um d'esses silencios, durante os quaes os
+espiritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se
+desembaraçado d'ella, voam a par, para adeantarem caminho e voltarem
+mais longe a associarem-se á sua mais lenta companheira.
+
+Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava a scena, parecia
+alheio a quanto o rodeava.
+
+O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com o braço estendido para o
+calice que tinha defronte de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar,
+um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles os pensamentos
+que o preoccupavam. Emfim rompeu o primeiro o silencio:
+
+--Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. Para que te mettes a
+esconder de mim aquillo que eu ha tanto te leio nos olhos, creança?
+
+--O quê, tio Vicente?--perguntou Augusto, inquieto.
+
+--O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o
+coração: são dons do Céo, que se pagam caro e com lagrimas, rapaz.
+Bondade de coração, com a cabeça... assim, assim... a dar esmolas aos
+pobres se satisfaz; cabeça de fogo, mas coração de gêlo... todos os
+meios de levar ao fim ambições, tanto os bons como os maus, todos lhe
+servem; mas coração como o teu, com o espirito que tens!... ai, pobre
+Augusto, se se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do Senhor.
+
+--Não o entendo, tio Vicente,--disse Augusto, com manifesta confusão.
+
+--Não! Olha para mim. E vê se te atreves a repetil-o.
+
+Augusto baixou a cabeça.
+
+O velho sorriu com ar de commiseração e sympathia.
+
+--Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas que me não havia de
+custar, se não tivesse acertado?--E, depois de breve pausa,
+continuou:--Mas ainda quando penso em como tu, uma cabeça forte, assim
+te deixaste enfeitiçar!...--E tomando o calice, que tinha defronte de
+si, disse com resolução--Quero beber á tua saude, Augusto, e para que em
+breve se te desfaça essa loucura.
+
+Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão de Augusto susteve-lhe o
+braço.
+
+--Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ella. Sou feliz
+assim.
+
+--Ah!--disse o velho herbanario, tomando um ar mais grave; e pousou o
+copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.
+
+Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu com maior vehemencia e
+colorindo-lhe as faces um não costumado rubor:
+
+--Sim. Por que o não hei de confessar? Essa loucura que diz, trago-a
+commigo, vivo com ella e quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a
+desejaria perder. Amor? não é; a tanto não chega... antes um culto, isso
+sim. É uma adoração como aquella, em que de pequenos nos educam para com
+a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem procuro alimental-as. Quer
+que lhe diga? Vêl-a; respirar estes ares que ella respira; atravessar
+estas devezas em que ella passeia; amimar as mesmas crenças que ella
+amima; soccorrer, com o meu óbulo de pobre, a miseria sobre a qual ella
+espalha caridosa as dadivas da sua abençoada opulencia... e, ahi está;
+são as minhas aspirações; é o futuro que desejo, e com que me contento.
+Leu no meu coração, disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas não viu
+claro de todo, confesse. Julgou talvez que haveria em volta d'este
+sentimento um enxame de esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por
+certo foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. Enganou-se,
+porém, tio Vicente; vê agora que se enganou, não é verdade? Essas
+esperanças não existem. Se existissem, bem vê que não estaria aqui. Não
+me teria impellido a ambição pelo caminho de realisal-as? Não se me teem
+offerecido os meios para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto
+me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não arrisco um instante
+d'ella para tentar uma ventura maior.
+
+O herbanario escutava silencioso, porém meneando a cabeça com ares de
+quem não punha demasiada fé n'aquellas palavras.
+
+--Aos vinte annos!...--disse elle por fim--sentir o que dizes... ser
+feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e
+verás... verás depois...
+
+--Tem dez annos--disse Augusto, sorrindo.
+
+--Dez annos!
+
+--É verdade. De creança a conheço, a paixão que diz; por isso confio
+n'ella. Tenho fé em que se não transviará.
+
+--Dez annos!--repetia o velho, admirado.--Porém... ha dez annos...
+
+--Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não se lembra? Era então uma
+pobre creança da aldeia, educada entre os braços de minha mãe, e
+conhecendo, uma por uma, as arvores d'estes sitios e mais nada. Saí
+d'aqui e fui para Lisboa. Não imagina as fortes impressões que recebi na
+noite que alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de fadas e de
+encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginação
+assim! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os
+palacios, os edificios, os carros produziam-me quasi uma vertigem;
+sentia-me vacillar. Achei-me, nem sei bem como, de tão atordoado que ia,
+n'uma casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, n'aquella
+noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de creanças,
+muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembleia á parte. A
+sala era magnifica; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, moveis
+dourados, tapetes, quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, o
+piano, objecto novo para mim, e que eu me não fartava de admirar. Tudo
+isto me perturbava, como imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares
+de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; deu explicações ás
+pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue ás
+creanças. Ahi fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta
+mal talhada, o meu olhar timido, os meus modos acanhados, no meio de uma
+turba de creanças elegantes, que se me figuravam de uma essencia
+superior á minha. As creanças são desapiedadas, quando assim em
+companhia. Cêdo percebi que estava sendo o alvo da zombaria d'ellas;
+riam ao principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de
+relance; redobravam as risadas e transmittiam reflexões a meu respeito,
+cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas,
+dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; formaram
+grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Então
+apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o coração de
+tristeza. Lembrei-me, com saudades, das arvores da minha aldeia, do meu
+pobre quarto, de minha mãe; e achei-me alli tão só, tão sem conforto nem
+amizades, que as lagrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje não
+hesito em dizel-o, foi aquelle um dos mais amargos momentos da minha
+vida. Nós, quando adultos, esquecemos facilmente os martyrios da
+infancia, quando n'esta idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos
+os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha piedosa superstição
+de rapaz aldeão, quasi me pareceu de intervenção divina. Abriu-se a
+porta e entrou na sala uma creança, que eu não tinha ainda visto. Era
+uma menina pallida, de gesto affavel e angelico. Vestia toda de branco.
+Entrou e approximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigos. O
+conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe disse ao ouvido. Ella
+correu então a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim.
+
+--Não conhecias já da aldeia, Magdalena?--perguntou o herbanario.
+
+--Não; minha mãe veio para aqui no anno em que, por morte da sua,
+Magdalena voltou a Lisboa. A affabilidade, a singeleza desaffectada com
+que me falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje sinto como que
+os reflexos d'aquella suave impressão. Parecia-me ouvir a voz de minha
+mãe; tinha o timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança o
+coração. Com ella não senti mais aquelle acanhamento que me enleiava.
+Depois falava-me de coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a
+respeito dos campos, das arvores, das abelhas, dos ninhos dos passaros,
+das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escutando-me com
+tanta deferencia e attenção, que me inspirava coragem, e julgo que me
+estava dando ares de mais importancia junto d'aquelles pequenos senhores
+e senhoras que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus desdens e
+acabaram por me escutar e interrogar tambem com curiosidade. Já uns me
+lançavam os braços ao hombro, outros formavam circulo em volta de mim, e
+cêdo fui eu a principal personagem d'aquella noite. Essa creança...
+
+--Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o não soubesse. Não podia
+deixar de ser ella--exclamou o herbanario, com um fulgor de sympathia a
+illuminar-lhe o olhar.--Era ella; sempre assim foi!
+
+--Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia no meu espirito.
+Hoje ainda, se penso n'ella, acho-a de uma grande significação moral.
+Pois não é mais apreciavel n'uma creança esta prova de superioridade de
+caracter, do que nas idades em que muitas vezes a razão e o calculo a
+impõem a uma indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo
+espontaneidade. Desde então a adoro.
+
+O herbanario parecia não ter já animo para sorrir.
+
+--Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella grande tristeza. Tão
+novo!
+
+--É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi sempre para mim affavel;
+inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os
+defeitos da minha educação aldeã, e, se reconhecia progressos no
+discipulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e
+o maior premio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena com certo
+ar de gravidade, que aquella creança já então tomava, perguntou-me, no
+meio de uma conversa propria de creanças: «E sente-se com genio para ser
+padre, Augusto?» Já me não lembro do que lhe respondi. Trouxe porém
+commigo aquella pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia.
+Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde então m'a repetia
+sempre, até junto da cabeceira de minha mãe, cuja maior aspiração era,
+como sabe, vêr-me padre. Mas em vão! foi desde então uma dúvida
+constante com que luctava. Com a morte de minha mãe tudo mudou. Pela
+primeira vez respondi á interrogação, que havia tanto tempo dirigia a
+mim proprio, e consegui por fim responder: «Não». Eis o segredo do meu
+passado.
+
+--E por que disseste «Não»?
+
+--Porque vi que toda a minha vida era para a consagrar a um sonho; que o
+sonharia no altar, no pulpito e no confessionario; que para toda a parte
+me seguiria a imagem, a que eu já não podia renunciar, e a qual então já
+não contemplaria sem remorsos, como agora o faço. Foi por isto.
+
+--Só? Não te illudirás a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que n'isso pode
+ir a tua felicidade! Estás bem certo de que não ha uma esperança dentro
+do teu coração?
+
+--Se a tivesse...
+
+Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua. Cêdo
+batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fóra:
+
+--Está acordado ainda, tio Vicente?
+
+O herbanario trocou um olhar com Augusto. A voz era de Magdalena.
+
+Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario quiz retêl-o.
+
+--Onde vaes?
+
+--Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora. Não estou preparado com a
+minha indifferença.
+
+--Pobre mascara!--N'esse caso sae pelo quintal.
+
+--Tio Vicente!--repetiu Magdalena, de fóra.
+
+--Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera--continuou em voz baixa
+para Augusto:--dá-me a tua palavra que não escutarás.
+
+--Dou; mas... promette que nada lhe dirá?
+
+--Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer, quanto mais... Adeus!
+
+Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo lado do quintal, o
+herbanario foi abrir a porta da rua á morgadinha.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+--Ora com Deus venha a minha fada; esta querida Lena, que se não esquece
+dos seus amigos velhos... Boas festas me trazes pela noite, filha!
+
+No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes indicios de
+preoccupação.
+
+--Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; eu venho...
+
+O herbanario conduziu-a para junto da mesa, onde estavam ainda os
+signaes de refeição, que havia pouco findára. Vendo os dois talheres, a
+morgadinha olhou interrogadamente para Vicente:
+
+--Estava alguem comsigo?
+
+--Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porquê? Temos por ahi mais alguns
+livros a comprar-lhe?--continuou, sorrindo com benevola malicia.--Tenho
+eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada que, de vez em quando,
+me ensina em segredo quaes os livros, que o rapaz mais deseja e de que
+eu mal sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos, que
+não mereço, e que elle mais de coração daria, a quem são de justiça
+devidos?
+
+--Não, tio Vicente; não se trata agora d'isso.
+
+--Ai, Lena, Lena, que não sei bem o que devo pensar de todas estas
+coisas.
+
+A morgadinha parecia um pouco perturbada com as palavras do herbanario.
+
+--Que ha de pensar? Ha nada mais natural? Angelo foi que me deu o
+exemplo. Elle sabia o amor que Augusto tem á leitura. Porém o cofre de
+Angelo é pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego a nem saber em que
+hei de consumir o que me sobra. Por isso foi que me lembrei... porém
+como não conviria que eu propria fizesse o presente, nem elle de mim o
+acceitaria, é que eu lhe pedi que o fizesse em seu nome. Mas falemos de
+outra coisa, porque me não posso demorar. Venho ás occultas e emquanto a
+minha gente foi á missa do gallo. Tio Vicente, um objecto muito grave me
+obrigou a procural-o a estas horas.
+
+--Ah!--disse o velho, sentando-se em tom de gracejo.--Adivinho a
+gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem
+algum principio de sarampo ou de garrotilho, e vens...
+
+--Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este
+quintal?
+
+O velho tornou-se immediatamente sério.
+
+--Se lhe tenho amor?! Que pergunta!
+
+--Tem?
+
+--Nasci aqui, filha.
+
+--Custar-lhe-ia a...
+
+--A quê?
+
+--A... a...
+
+E Magdalena hesitava.
+
+--Fala!--insistiu o velho, já inquieto.
+
+--A separar-se d'ella?
+
+O herbanario respondeu simplesmente:
+
+--Ah! morreria.
+
+Magdalena fez um gesto de afflicção.
+
+Em Vicente crescia o desassocego.
+
+--Mas... Dize, Magdalena; o que significam essas palavras?
+
+--É que...
+
+--Explica-te!--exclamou o herbanario, quasi imperiosamente.
+
+--Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas não se afflija. Eu vim de proposito
+para o prevenir. Mas, por amor de Deus, socegue; senão tira-me o animo
+de continuar.
+
+--Que socegue, e tu a atormentares-me com essas demoras!
+
+--Perdôe... Fala-se em deitar abaixo estas arvores e esta casa, para...
+
+O herbanario de um impeto poz-se a pé. Fulgurou-lhe nos olhos um
+relampago de ira terrivel!
+
+Magdalena calou-se, assustada.
+
+--Deitar abaixo estas arvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve?
+Pois que venham! que venham!
+
+Mas reparando no terror que estava causando a Magdalena, procurou
+reprimir-se, e com uma voz que elle se esforçava por tornar tranquilla,
+continuou:
+
+--Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Dize o que
+sabes. Quem é?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala,
+bem vês que eu estou socegado, filha.
+
+--Ha um projecto de estrada...
+
+--Ah!--disse Vicente, com um grito de raiva.--Não digas mais. Já
+sei--continuou com renascente exaltação.--Já sei. Adivinho o resto. É
+teu pae que o determina; é teu pae que o resolveu?
+
+Magdalena abaixou a cabeça com dolorosa expressão.
+
+O furor do velho exaltou-se outra vez.
+
+--Teu pae! Teu pae, Lena! Então esse homem jurou matar-me?
+
+--Tio Vicente!
+
+--Elle não sabe o que são para mim estas arvores e estas paredes? Elle
+não sabe que a minha alma está n'ellas, presa a estas raizes? que com
+ellas se despedaçará? Esse homem sem coração não vê que são estas as
+minhas affeições, as unicas? a minha unica familia? Elle, o companheiro
+dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou, á sombra d'essas
+mesmas arvores e sob os olhares de meu pae, que tambem o abençoava, tão
+duro de coração se fez que, sem respeito por estas memorias todas, assim
+me quer separar do que me dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é
+teu pae este homem, Lena?
+
+--Por quem é, tio Vicente; ouça-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que
+talvez tudo se remedeie ainda.
+
+--Sim, sim; tudo se remediará... com a minha morte. Talvez que ella seja
+util a teu pae... Talvez precise d'ella.
+
+--Oh! não creia, não creia.
+
+--É duas vezes doloroso o golpe; porque me separa do que amo deveras e
+por vir da mão de quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita que
+o era... ainda. Conheci-o tão generoso e tão innocente, como teu irmão
+Angelo. Muitas vezes me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus
+projectos. E acreditei n'elle. Tinha então no olhar um fogo, que não
+mentia. Vi-o seguir a carreira publica e acompanhei-o com a minha fé.
+Não tardaram os primeiros desenganos; não lhes quiz dar credito ao
+principio. Vieram outros e outros. Fui vendo então que os maus ares
+d'aquella terra tinham embaçado o brilho do caracter, que eu julguei
+melhor do que os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me reservado
+ainda. Para teu pae hoje os homens são medidos pelos votos, que podem
+lançar na urna eleitoral!
+
+--Por amor de Deus, tio Vicente, não fale assim! Não duvide de meu
+pae!--exclamou Magdalena, a quem cruelmente estavam affligindo as
+recriminações amargas do herbanario.--Meu pae estima-o e respeita-o. Não
+tem o coração endurecido que diz. Elle mesmo ámanhã aqui ha de vir. Verá
+então...
+
+--Elle? Ámanhã?...
+
+--Para isso venho prevenil-o. Não o receba com asperezas, tio Vicente;
+fale-lhe com brandura. Talvez o commova, talvez seja ainda possivel
+valer a tudo. Ainda não está decidido... Julgo... E que estivesse...
+
+--Ámanhã! Teu pae vem aqui ámanhã? E ousa vir elle proprio annunciar-me
+o que sabe que vae ser uma sentença de morte?
+
+--Não; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia. Sabendo-o, verá
+como...
+
+--Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me, e ha muito. Não
+julgues que pode errar, calculando o effeito d'este golpe. Mas que
+queres tu? ensinaram-lhe já a avaliar em pouco as venetas de um velho
+quasi tonto. Homens que trazem o pensamento em interesses tão altos, não
+teem vista para estas pequenas desgraças.
+
+Magdalena sentia-se possuir de uma profunda tristeza, ao ouvir falar o
+herbanario. Era uma dolorosa provação para o seu amor de filha vêr assim
+uma nuvem de desconfiança offuscar a ideal concepção que ella formára do
+pae, e não ter fôrças para a afugentar. Ás vezes uma dúvida cruel
+fazia-lhe, a seu pesar, suppôr que o herbanario tinha razão. Agora só
+conseguia oppôr um gesto supplicante áquellas acerbas accusações, que
+por muito tempo ainda desattenderam esta supplica muda.
+
+A final serenou a violencia da irritação do velho; succedeu-lhe, porém,
+uma commoção profunda, dominado por a qual disse a Magdalena:
+
+--Socega, Lena; ámanhã eu receberei teu pae sem a menor aspereza.
+Fizeste bem em vir primeiro, filha. Se o não esperasse, talvez não
+soubesse conter-me. Agradecido. Uma noite é bastante para me preparar.
+Agora vae, deixa-me só; deixa-me... chorar.
+
+E cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair, soluçando, sobre a mesa,
+junto da qual se achava.
+
+Magdalena correu para elle, commovida.
+
+--Então, tio Vicente, então! Socegue! Ámanhã meu pae virá. Fale-lhe, e
+eu espero que ainda será tempo de evitar... o mal.
+
+--Pode ser, pode ser...--respondia o velho.--E se não pudér, Deus me
+acudirá, para não viver por muito tempo fóra da casa em que nasci.
+
+Magdalena já não tinha que lhe dizer.
+
+--Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos, como já pedimos.
+Tenho esperança.
+
+--Não, filha, não peças tu. Deixa-me só com teu pae ámanhã. Disseste que
+tinhas vindo, sem ninguem saber?--continuou elle.--Olha que te não dêem
+pela falta. Vae, que é tempo.
+
+--Mas...
+
+--Vae, filha. Eu estou já tranquillo. Bem vês. Deus te recompense a
+bondade que tiveste. Vae. Queres que te acompanhe?
+
+--Não é preciso. Vim pela porta das prezas, que deixei aberta. São dois
+passos e estou na quinta. Mas, tio Vicente...
+
+--Vae então; e Deus te abençoe.
+
+E o velho pousou a mão sobre a cabeça de Magdalena, que saiu commovida.
+
+E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o pranto que lhe rebentava
+dos olhos.
+
+É sombria a saudade n'aquellas idades, porque as esperanças são já muito
+debeis para lhe darem luz.
+
+Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda pelos sentimentos que
+alli a tinham agitado, a morgadinha dirigiu-se á pressa para a porta da
+quinta, por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta resistiu.
+Este facto surprehendeu e inquietou um pouco Magdalena. Quem poderia ter
+fechado a porta? E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe
+necessario um longo rodeio pela aldeia para chegar a outra, que pudesse
+encontrar aberta.
+
+N'esta hesitação impelliu outra vez instinctivamente a porta, que lhe
+oppoz a mesma resistencia.
+
+Cêdo, porém, sentiu o rodar da chave na fechadura e viu mover-se
+lentamente a porta, e no vão, que augmentava, desenhar-se uma figura de
+homem.
+
+Antes que pudésse, através da obscuridade da noite, reconhecer a pessoa,
+que assim tão a proposito lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas
+palavras:
+
+--Muito boas noites, prima Magdalena. Espero que pelo menos me concederá
+licença para exercer, junto de si, as humildes funcções de porteiro.
+
+Era Henrique de Souzellas.
+
+Magdalena não foi superior a um vago sentimento de receio, ao
+encontrar-se ahi com o hospede de Alvapenha; comtudo esforçou-se por
+dominar-se e respondeu, com apparente presença de espirito:
+
+--Ah! É o primo Henrique. Muito boas noites. Ahi temos um requinte de
+galanteria, que eu estava muito longe de esperar.
+
+--E de desejar, não?
+
+--E de desejar tambem; confesso-o. Por mais diligente que seja um
+porteiro, nunca o é tanto como uma porta aberta.
+
+--Mas é mais discreto.
+
+--Duvido. Em todo o caso, agradeço o incómmodo.
+
+E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explicações.
+
+--Uma palavra, prima Magdalena--disse Henrique, retendo-a por o braço e
+com certa expressão nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto
+da morgadinha.--Não ha mais accommodado terreno para um dialogo solemne
+do que o limiar de uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o
+homem muda de mascara; depõe a que apresenta na sociedade e afivela a
+que traz na familia, e vice-versa. Ora n'estas mudanças é facil
+surprehender o verdadeiro rosto da pessoa.
+
+--Será tudo o que quizer o limiar de uma porta, primo; menos um logar
+muito confortavel para serões n'uma noite de dezembro.
+
+E Magdalena tentou de novo seguir para deante.
+
+Henrique susteve-a outra vez.
+
+--Um momento só, prima Magdalena; tenho necessidade de saber se me quer
+para alliado ou para inimigo.
+
+--Não vejo a necessidade da alliança que propõe, nem as razões para a
+lucta.
+
+--Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aqui foi
+um desagradavel contratempo. Uma certa altivez e consciencia de
+invulnerabilidade, de que tinha o incómmodo de se revestir, sempre que
+tratava commigo, depois d'esta importuna occorrencia terá de se
+modificar.
+
+--Não havia dado por essa... _revestidura_ que diz; mas, se ella
+existiu, far-me-ha o favor de dizer: por que não pode continuar?
+
+--Essa é boa! porque eu faço a justiça á prima de suppôr que não vae tão
+longe a sua hypocrisia.
+
+--Hypocrisia!--disse Magdalena, com accento mais severo.
+
+--Perdão; não tive tempo para inventar outro termo mais... brando.
+Dissimulação talvez lhe agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do
+occorrido...
+
+--Agora exijo eu que se explique, senhor.
+
+--Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar uma explicação...
+edificante... d'esta sua excursão nocturna?
+
+--Obsta apenas a que eu lh'a dê, sr. Henrique de Souzellas, a falta de
+uma pequena formalidade: a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.
+
+--Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha ideia. A prima é uma mulher
+admiravel, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade
+distincta, sobranceira por isso a pieguices provincianas. Tanto mais me
+encanta! E creia que me envergonho só ao lembrar-me do que terá pensado
+de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de
+franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, não é
+verdade?
+
+--Agora é que me está parecendo bem enygmatico!
+
+--Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo.
+
+--Pois ignorava!--atalhou Magdalena, com ironia.
+
+--E sabe de certo, por experiencia do mundo, que para homens como eu, a
+indifferenca, a frieza e os desdens redobram o ardor da paixão.
+
+--Sim; já li isso n'um romance.
+
+--A prima tem sido para commigo de uma crueldade revoltante, mas pouco
+sincera. Eu resignava-me a soffrer, porque um resto de ingenuidade que
+me ficou dos quinze annos, illudia-me na interpretação de taes
+resistencias. Tive a puerilidade de a suppôr uma mulher de excepção;
+pouco me faltou para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel
+noite de Natal o desengano.
+
+--Ah! então parece-lhe...
+
+--Que a prima representa admiravelmente o seu papel. Pode gabar-se de
+ter illudido um homem habituado ás scenas da comedia social.
+
+Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza:
+
+--Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas, sem que eu
+propria bem saiba o que me retem aqui: se é a compaixão que me inspira a
+profunda doença moral de que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a
+que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por
+um facto, que a sua pouco delicada indiscreção preparou, eu ficarei de
+hoje em deante á mercê da sua generosidade. Conhece-me muito pouco, sr.
+Henrique! Ainda quando esse facto não pudésse ter uma explicação
+natural, e que me não repugnará declarar quando quizer, saiba que tenho
+orgulho de mais para arrostar com tudo, até com a calumnia, de
+preferencia a resignar-me ao menor predominio que me seja odioso.
+
+--Bravo!
+
+--Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se eu não lhe fizesse a
+justiça de acreditar que d'esses seus actos e palavras não é
+absolutamente irresponsavel talvez a má influencia da ceia d'esta noite,
+bastariam elles para me inspirarem por si e pelo seu caracter o mais
+completo desprezo; e então seria, como nunca, manifesta a minha
+independencia, porque eu nunca temi os seres que desprezo.
+
+Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de
+energia, com que a morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de
+scepticismo obrigou-o a replicar:
+
+--Santo Deus! prima Magdalena; não dê um colorido tão pavoroso ás minhas
+supposições. Despojal-a de uma crueza deshumana, para a dotar de uma
+sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma justiça feita ao seu
+coração. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me auctorisa. O
+pequeno e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se
+já, creia; e agora só me resta invejar a sorte de quem tem a
+felicidade...
+
+--Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o
+escutarei; poupar-lhe-hei assim os remorsos, que ámanhã teria da sua
+infamia...
+
+E animada por uma resolução mais energica, Magdalena caminhou
+soberanamente para a porta.
+
+Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.
+
+--Um momento mais.
+
+--Deixe-me passar, senhor.
+
+--Não, sem que me ouça antes.
+
+--É uma violencia?
+
+--É uma supplica.
+
+N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avançou
+para elles.
+
+--Sr.^a D. Magdalena, se fôr preciso reter o insolente, que se lhe
+atravessa no caminho, ponho um braço á sua disposição.
+
+E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio collocar-se entre
+Henrique e Magdalena.
+
+Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de cólera. O olhar que
+fixou no recem-chegado trahiu a vehemencia da impressão recebida. Depois
+succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias. Olhou para Magdalena,
+em quem não era menor a surpreza causada pela inesperada presença de
+Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de
+malignidade e de ironia, que a ambos fez estremecer.
+
+--Ahi está uma apparição tanto a tempo, prima Magdalena, que aos mais
+incredulos infundiria fé na intervenção da Providencia. Que foi sem
+dúvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas,
+um tão generoso e intrepido salvador. Não é verdade, prima? O que vale
+estar de bem com Deus!
+
+Estas palavras mostraram a Augusto que a sua intervenção, ainda que
+generosa e devida a um espontaneo impulso da alma, não fôra porventura
+das mais convenientes.
+
+--Senhor!--exclamou elle, indignado, dando um passo para Henrique.
+
+--Socegue--tornou este, com dobrado sarcasmo.--O senhor é um perfeito
+heroe de romance; enthusiasta, cavalheiresco, mas, em certas occasiões,
+incómmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio
+causar a um bello dialogo que eu sustentava aqui com a sr.^a D.
+Magdalena! Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu com a sua vinda o fio
+da comedia, que desempenhava com perfeita sciencia de actriz. As almas
+ingenuas e generosas, como a sua, sr. Augusto, são ás vezes de uma
+impertinencia! Vamos, sr.^a D. Magdalena; não descoroçôe. Assim exgotou
+todos os recursos da sua imaginação? Vamos, introduza mais este elemento
+de apparição de um heroe no enredo, e organise a comedia com o superior
+talento que tem! Eu por mim acceito todos os papeis que me distribuir.
+
+Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou, dizendo com voz firme:
+
+--Perdão; vejo n'esta noite em todos uma notavel disposição para
+usurparem direitos, que não possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar;
+o sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que já ha pouco lhe
+disse; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas acções,
+fal-o-hei deante de outros juizes, em quem reconheça o direito de o
+serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar que, se o titulo de
+hospede e de parente não fôsse bastante para me assegurar da parte do
+sr. Henrique de Souzellas os respeitos que me são devidos, tinha ainda
+na minha familia defensores legitimos e não seria por isso obrigada a
+recorrer á protecção de um estranho. Meus senhores...
+
+E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre elles e
+entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.
+
+--Se esta senhora acceitasse a sua protecção e eu teimasse n'aquillo que
+chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu
+procedimento? Poder-se-ha saber?--perguntou Henrique, logo que a
+morgadinha desappareceu.
+
+Augusto, em quem a fria altivez da resposta d'ella deixára o desespero
+no coração, respondeu acerbamente:
+
+--Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem vê que não me esqueço
+facilmente do meu programma de mestre-escola.
+
+--Vejo; é a segunda tentativa de lição que lhe mereço. Permitte-me que
+ámanhã o procure para dar principio a um curso de educação mais regular?
+
+Augusto respondeu, sorrindo:
+
+--É um cartel em fórma? Não sei se estarei ensaiado para essa comedia.
+
+--Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha esse sabor.
+
+--Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa.
+Qualquer scena d'essas entre nós seria pouco delicada... ámanhã.
+
+--Pois bem, contemporisemos; e até lá é de esperar que algum motivo
+occorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.
+
+--Como queira; a minha porta não se fecha a quem me procura.
+
+E separaram-se depois de se cortejarem.
+
+--Se me não engano--dizia comsigo Henrique, em caminho do quarto--é um
+verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me
+parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando um mestre-escola. Se
+lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos
+o que ámanhã, á luz do dia, eu penso d'isto tudo. Eu já não fico por mim
+esta noite. Estou a querer convencer-me de que tenho andado
+estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É que esta
+mulher e este creancelho são irritantes. Ella com a sua altivez, elle
+com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endymião d'esta esquiva
+Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo e timido... A
+ociosidade da aldeia para alguma coisa ha de dar. Mas da maneira por que
+ella lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é
+certo é que estou em lucta com uma mulher superior... Pois luctemos,
+priminha, mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo que o
+acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ella ámanhã me
+trata...
+
+Esta scena deixou em Augusto uma perturbação de espirito mais profunda.
+
+As operações mentaes, que o preoccuparam toda a noite, eram d'aquellas a
+que repugna chamar pensar. É mais uma febre intellectual, um succeder de
+imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que
+não aconselha nenhum partido, que não esclarece, offusca.
+
+Como se explica esta differença entre os dois? Por um apparente
+parodoxo; porque Augusto tinha mais habitos de reflectir. Quando n'uma
+vida de episodios uniformes e apparentemente vulgares, o espirito exerce
+demasiado a analyse, habitua-se a estudar factos que para outros passam
+por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.
+Costumado assim a ligar valor a tudo, quando succede que no decurso da
+vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confusão do primeiro
+momento é inevitavel. Assim como a balança de precisão, apropriada para
+oscillar com pesos tenuissimos, não é a que pode servir para os grandes
+pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar subtis accidentes, de
+que se compõe o drama habitual da vida, não é a que de subito pode
+avaliar algum mais complexo e importante.
+
+A resolução n'estes espiritos, depois de formada, é mais tenaz; mas,
+emquanto se não fórma, vae n'elles um tumulto de ideias, que se não
+podem analysar.
+
+Não analysemos, pois, as de Augusto.
+
+Magdalena não socegou emquanto não viu Henrique voltar ao quarto, pelo
+mesmo caminho por que saíra.
+
+--Que resultará d'isto?--pensava ella.--Que fará elle ámanhã?... É
+preciso não me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois
+que os deixei?... Veremos ámanhã.
+
+No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena sorriu.
+
+É que lhe occorrera então este pensamento:
+
+--Dizem que nós, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar
+amadas. Pois será mais difficil fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?
+
+
+FIM DO PRIMEIRO VOLUME
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
+
+XXIII
+
+ROMANCE
+
+III
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+Vol. II
+
+
+
+
+CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
+LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
+TELEPHONE 2337
+
+
+
+
+JULIO DINIZ
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+(CHRONICA DA ALDEIA)
+
+DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
+
+
+
+LISBOA
+J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES
+186--Rua Aurea--188
+_1920_
+
+
+
+
+A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal.
+
+A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo
+pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os
+gêlos dos montes e os gêlos da velhice.
+
+O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os
+sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos,
+saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na
+direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da
+Natividade.
+
+Era dia santo entre os que mais o são; e os dias santos na aldeia teem
+uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a
+vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia
+duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas
+arvores das nossas praças e jardins.
+
+Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia
+santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na
+lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em
+vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os
+da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição typica e
+interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer
+apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no
+domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.
+
+Dirá então se não parece que até o sol tem outra luz e que as arvores e
+as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os
+dias de festa.
+
+Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo
+Henrique de Souzellas, encostado á varanda do quarto em que pernoitára,
+e emquanto esperava que o chamassem para o almoço.
+
+De vez em quando a recordação das scenas nocturnas da vespera
+desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento; acudiam-lhe
+todos aquelles incidentes á memoria, mas vagos e confusos, como se
+tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles.
+
+Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber
+como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na
+presença d'ella.
+
+Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.
+
+D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o toque da campainha
+annunciando o almoço.
+
+--Vamos,--disse Henrique--preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos
+a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle
+regular o meu plano de tactica.
+
+E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do
+almoço.
+
+Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha
+presidindo á mesa e preparando o chá.
+
+Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que
+elle tinha passado a noite.
+
+Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando,
+desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural,
+sem timidez nem audacia.
+
+Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de
+cumprimentar Magdalena.
+
+--Bons dias, prima Magdalena,--disse Henrique, estendendo a mão e
+fixando-a com olhar investigador.
+
+Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de
+affectado nem de constrangido:
+
+--Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos
+habitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha.
+Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã.
+
+--Eu é que não consentia:--disse o conselheiro--na aldeia como na
+aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são mais tardias.
+
+--Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o
+toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu
+quarto.
+
+--Eu não pude dormir toda a santa noite--disse D. Dorothéa.--Estranhei a
+cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...
+
+--Ó prima, não vá sem resposta--disse D. Victoria--que tambem eu não puz
+olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber
+quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram
+que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo
+Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
+
+--Não, minha senhora; eu não senti rumor.
+
+E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que
+justamente n'aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de
+novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença.
+
+Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco á sua vaidade
+este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em
+Magdalena.
+
+No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorothéa o facto
+das passadas que ouvira de noite.
+
+--Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o que vae. São coisas
+d'estes criados. Não faz ideia! É uma pouca vergonha! É preciso
+paciencia de santa para os aturar.
+
+--Angelo,--disse a morgadinha ao irmão--entretido como estás a conversar
+com as creanças, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece
+de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão!
+
+Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e
+caida em uma d'aquellas abstracções, a que ultimamente era sujeita.
+
+--Eu não sei que tem hoje esta Christe--disse Angelo.--Julgo que lhe fez
+mal o frio na noite de hontem.
+
+--É verdade, até está falta de côr! Ora queira Deus que não seja coisa
+de cuidado. Dóe-te alguma coisa, menina?--perguntou D. Victoria,
+apprehensiva.
+
+--Não, mamã--respondeu Christina.
+
+--Ó meninas, vocês tambem são umas desacauteladas. Eu bem te dizia
+hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não
+tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.
+
+Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido.
+Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era
+objecto d'ellas.
+
+Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta côr e
+d'esta expressão recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava
+mais graciosa.
+
+Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creança, em que mal
+fixára a attenção até alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a
+com alguma insistencia.
+
+--É interessante esta pequenita--pensava elle comsigo.
+
+Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorothéa, quando
+encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal
+pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos
+baixaram-se de novo.
+
+--Ha de ser adoravel esta mulher--pensou d'esta vez Henrique, vendo-a
+sob novo aspecto.
+
+O conselheiro disse, sorrindo:
+
+--Ora, que estão a dizer? A Christe até está com umas côres muito
+bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados.
+Provavelmente está agora n'algum episodio sentimental no romance da sua
+imaginação. Não sondemos aquelles mysterios, mana. Já não é para nós
+comprehendel-os, prima Dorothéa.
+
+Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina.
+
+A morgadinha, a quem não passára despercebida a impressão, que a prima
+d'está vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que
+havia tanto procurava, e para isso propoz que se désse uma volta pela
+aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenções de
+Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se não decorresse o
+tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a
+impressão que o dominava.
+
+A manhã convidava á excursão campestre. A proposta da morgadinha foi
+acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa
+do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã.
+
+Levantaram-se todos da mesa, e á excepção de D. Victoria e D. Dorothéa,
+todos saíram.
+
+A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz
+para dar tempo a Henrique de offerecer o braço a Christina, o que
+effectivamente aconteceu.
+
+--Bem,--disse Magdalena comsigo ao vêl-os--agora que os anjos bons de um
+e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.
+
+E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no braço.
+
+Angelo ia com as creanças adeante.
+
+Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, para vêr se os anjos
+bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena.
+
+--Não ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos,
+n'uma manhã como a de hoje, e em companhia tão amavel--dizia Henrique,
+procurando aquilatar o espirito da sua _partner_, n'um certame de
+galanteria, fóra do qual não concebia que se pudesse temperar uma
+paixão.
+
+Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava
+porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os
+labios, não lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder:
+
+--Está muito agradavel a manhã, está; nem parece de inverno!
+
+--Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural em uma senhora isso.
+Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque
+prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as leituras em
+commum, e traz-me á ideia as imagens de um viver a que a phantasia de
+todos sorri; de todos os que teem um resto de coração; refiro-me ás
+imagens de uma familia.
+
+Não ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma
+revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra não
+sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expansões. Na
+apparencia é fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforços
+realisados, que os fortes nem concebem sequer.
+
+Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios só
+puderam responder:
+
+--Na cidade o inverno é mais facil de passar, julgo eu; porém na
+aldeia...
+
+--Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino.
+Não é fóra das portas de casa que devemos procurar os elementos para
+instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar
+admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e
+sete annos sem familia. Não é verdade?
+
+Christina só pôde sorrir:
+
+--Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do
+ideal e abraçado á peor das realidades. É a consequencia legitima e
+triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres
+formosas, amaveis, interessantes; porém nenhuma que satisfizesse ás
+necessidades do meu coração, de quem me affirmasse a consciencia poder
+esperar a realisação do meu sonho. Perdôe-me falar-lhe n'isto, priminha;
+é uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no
+coração bastante bondade para m'a perdoar.
+
+--Está a gracejar?--disse Christina, em quem redobrava a turbação, e
+que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a
+sua felicidade: contradicções proprias dos timidos.
+
+--A prima é muito moça--continuou Henrique, que não desesperava ainda de
+animar esta Galatheia--e talvez por isso lhe causará estranheza este meu
+modo de falar. Um dia virá, porém, em que o comprehenderá melhor. Se
+então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha
+misericordia d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem a
+conheceu n'uma época, em que só podia vêr em si, priminha, a aurora de
+uma esperança que já não tinha de luzir para elle.
+
+--Mas... salval-o!... como salval-o!...
+
+--Como as mulheres salvam; amando.
+
+--Bem digo eu que está a gracejar--balbuciou Christina, com voz trémula.
+
+--Tem o defeito da innocencia--disse Henrique para si.--Não se lhe tira
+uma resposta de geito.
+
+N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha saído da
+quinta na noite passada.
+
+--Agora deixo-os por aqui--disse o conselheiro--irei encontral-os á
+igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil.
+
+--Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei--disse Magdalena.
+
+--Socega, filha; serei de cera. Até logo.
+
+--Até logo.
+
+E o conselheiro tomou a direcção da casa do herbanario.
+
+--Era tempo!--disse Henrique comsigo.--A minha eloquencia arrefecia na
+proximidade d'este gêlo.
+
+A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de
+Christina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.
+
+--Ainda não!--murmurou ella.--Pobre Christe! como se deve estar odiando
+a si mesma! Como ha de esta creança vencer este obstinado? Mas não perco
+ainda as esperanças.
+
+Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e
+tentou outra vez experimentar Magdalena.
+
+--Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima?
+
+--É--respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:--O
+que te faz lembrar esta porta, Angelo?--perguntou ella.
+
+--Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas já de noite, e sem a
+tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das
+borboletas.
+
+--Fica perto a casa d'elle?--perguntou Henrique.
+
+--É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina--respondeu Angelo.
+
+Henrique pensava:
+
+--Seria para provocar uma explicação que ella fez a pergunta? Esta
+mulher é admiravel! Não lhe sei resistir.
+
+E já lhe não restavam vestigios da impressão causada por Christina.
+
+--Este herbanario--continuou elle em voz alta--deve, pelos seus habitos
+excentricos e até pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra
+certa famazinha de feiticeiro.
+
+--E tem,--affirmou Magdalena--mas de feiticeiro bem intencionado.
+
+--Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver.
+
+--É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o
+bem que elle faz de dia.
+
+--Ah! Então temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que
+lhe valerá é algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que
+diz, prima Magdalena? haverá?
+
+Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse:
+
+--Á excepção de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais
+o visita.
+
+--Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?!
+
+Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
+
+--Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não
+chegava o seu animo não, prima?
+
+--Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido só, e a altas
+horas--respondeu Magdalena com a maior firmeza.
+
+--Sim?! E não tem mêdo?
+
+--De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De
+malfeitores? não os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com
+uma suspeita me offendem--disse a morgadinha, accentuando com expressão
+as ultimas palavras.
+
+Henrique acudiu immediatamente:
+
+--Longe de mim duvidal-o.
+
+E calaram-se por muito tempo.
+
+Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do
+herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanças de aspecto
+doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos
+seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanças de aspecto
+rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio
+humano.
+
+--São os peregrinos que veem de Meca--disse comsigo o conselheiro.--Pelo
+que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como
+d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito
+respeito o codigo.
+
+Entrou emfim a porta do quintal.
+
+Poucos passos andados encontrou-se com o Zé P'reira, que vinha virando e
+revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume:
+
+--Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta
+mexerofada! Isso até era um peccado. N'essa não caio eu!
+
+O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel.
+
+O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe
+dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho,
+causa dos seus males. A receita era extrahida da _Polyantheia_, e tinha
+por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabellos de homem e
+figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a
+efficacia.
+
+Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de
+limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal.
+Cêdo chegou á vista do herbanario, que dera audiencia _sub tegmine
+fagi_.
+
+Estava sentado á borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava
+sombra.
+
+O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle.
+
+Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer
+quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.
+
+--Bons dias, Vicente--disse o conselheiro com familiariedade e parando
+defronte d'elle.
+
+--Bons dias, Manoel--respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado.
+
+--Saía agora d'aqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua
+medicina. Padece de mal que se não cura.
+
+--Os vicios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo,
+são.
+
+--Já que tu não appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar
+comnosco as festas do Natal, vim eu vêr-te.
+
+--Obrigado.
+
+--A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente--continuou o conselheiro,
+sentando-se á beira do tanque.--Cada vez te estás a sequestrar mais dos
+homens, cada vez mais os aborreces.
+
+--Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a
+vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus
+semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo
+pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por
+isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
+
+--És um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que
+cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse banco,
+com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão?
+
+--No passado. Pois não t'o disse já? O domingo reservo-o eu para me
+recordar. Ahi está que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os
+repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu
+pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje.
+Lembras-te d'elle, Manoel?
+
+--Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.
+
+--Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cêdo do
+que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou
+menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós
+ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo
+traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço,
+uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os
+dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos
+transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns
+segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz
+os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces
+a arvore hoje?
+
+--Não--disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum
+pequeno arbusto.
+
+--Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É esta a que me
+encosto.
+
+O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore,
+como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas
+mãos.
+
+--É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa--disse
+elle, distrahidamente.
+
+--Depois da nossa tarefa, sentámo-nos--proseguiu o herbanario.--Tu
+ficaste, exactamente como estás agora, á beira d'este tanque. Então,
+lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda
+não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará mais
+do que nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O machado vem, quando menos se
+espera.»
+
+--Como te lembras bem d'essas coisas!--disse o conselheiro, sorrindo
+constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a
+entrevista.
+
+--Ai, eu tenho boa memoria!
+
+Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente,
+dizendo:
+
+--Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
+
+O conselheiro respondeu com resolução:
+
+--Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.
+
+--Sim? E commigo é que vens tratar os objectos graves?
+
+--Por que não? sempre foste homem de bom conselho.
+
+--Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim.
+
+--Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos
+genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a
+pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem
+divergencias naturaes, que comtudo nos não obrigam a deixar de nos
+estimarmos, julgo eu.
+
+--Bem, então dizias tu que vinhas?...
+
+--Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente.
+
+--Dize.
+
+--Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios?
+
+--Pouco tenho que sacrificar.
+
+--Tens, e é um sacrificio doloroso.
+
+--Acaba.
+
+--Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por
+aqui a estrada em projecto.
+
+O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza
+estas palavras, e respondeu, com certa ironia:
+
+--E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para
+eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu,
+a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel,
+em teres ainda em conta a vida de um homem inutil.
+
+--Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...
+
+--Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte
+n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre
+mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os
+interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro
+partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas
+coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não déste a isso o nome
+de ingratidão.
+
+--Ouve.
+
+--Sê franco, que eu te ouvirei.
+
+--Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta
+estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra
+e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por
+causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situação politica me
+ser contraria. Tres traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande
+parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está
+no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella não
+teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os
+seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos,
+vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo,
+convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias
+que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito?
+
+--Fizeste bem--respondeu o herbanario.
+
+--O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este
+homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir
+a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabeça
+que, entregue a si, não faz coisa de geito. O homem oppunha-se
+formalmente a esse traçado; se o não attendesse, declarava-se, por
+despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para
+luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar
+áquellas mãos os seus destinos; vencido, era perder a esperança de tirar
+dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do
+que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos
+altares. Eu ando a catequisar o homem, para vêr se consigo d'elle uma
+casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um
+estabecimento sericicola; se o desattendesse, lá iam as esperanças
+d'estes melhoramentos tão uteis, e que o mais que nos poderão custar é
+um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te não agradam estes
+meios, porém olha que em politica são dos mais innocentes que podem
+empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o
+circulo, por cujo interesse me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois
+o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem
+scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia
+para o teu coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo
+memorias ligadas a estas arvores, e não ha homem que, aos cincoenta
+annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos
+de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma
+generosa e heroica, e que não duvidarias comprar, á custa das tuas dores
+e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta
+estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de má vontade,
+corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os
+trabalhos; a menor opposição dos proprietarios, o menor embargo
+dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido.
+Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me?
+
+O herbanario estava cada vez mais pensativo.
+
+--Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais importancia a
+dois annos de vida que me restam, do que á vida nova que vae haver para
+esta terra. Fizeste bem.
+
+--Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as
+apprehensões com que estás; em toda a parte terás arvores...
+
+O herbanario interrompeu-o:
+
+--Se não entendes o amor que eu tenho a estas, não faças por
+consolar-me, Manoel, porque me affliges mais.
+
+--Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das
+nossas propriedades, tens sempre um logar vago á tua espera, tanto á
+mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.
+
+--Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria
+tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.
+
+--Eu farei com que o contracto da expropriação seja o mais favoravel
+possivel. Vejamos, em quanto avalias...
+
+--Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o
+pagaria; a não attender a isso, tudo será pagal-o bem.
+
+--Mas...
+
+--Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouçam
+propôr o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te,
+então...
+
+--Tudo. Dize em que te posso servir.
+
+--Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que
+te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte
+annos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da
+gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais
+uma justiça: lembra-te d'isso.
+
+--Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa facilima; mais
+que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por
+modesto. Acredita, ás vezes é mais facil servir os ambiciosos. Nem eu
+sei o que tem empatado esse negocio. É certo que ha um competidor, por
+quem alguem trabalha; mas não importa; conta com isso, como negocio
+concluido.
+
+--Emquanto não vir...
+
+--Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes? Vê lá.
+
+--E que me deixes agora só.
+
+--E não me ficas querendo mal, Vicente?
+
+--Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que suppões
+que a tens. Basta-me isso para te perdoar.
+
+--Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a
+Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.
+
+--Não prometto.
+
+--Adeus.
+
+O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que não retirou a sua, e
+partiu.
+
+--Está feito!--ia pensando o conselheiro á saída--não foi tão difficil
+como julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o vê! O que faz a
+idade! Bem! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a vêr
+se acalmam algum fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que
+pequeno será.
+
+N'estas cogitações chegou á igreja. Magdalena esperava-o no adro.
+
+--Então?--perguntou ella, com anciedade.
+
+--Tudo está remediado; entendemo-nos perfeitamente--respondeu o
+conselheiro, com manifesta satisfação.
+
+--Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!--exclamou Magdalena, com
+alegria.
+
+--Como ceder?--tornou o pae.--Elle é que foi mais condescendente do que
+eu esperava. Não oppôz a menor resistencia, nem se queixou muito
+amargamente.
+
+--Pois consentiu?!
+
+--Sem grande custo, ao que parecia.
+
+--Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo devéras. Pobre tio Vicente!
+assusta-me isso que diz, meu pae!
+
+--Ora vamos; a tua imaginação é que te illude. Mas deixa-me aqui falar
+com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me
+dizer. Vae para a igreja, que eu vou já ter comvosco.
+
+E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que
+estavam aquellas duas notabilidades.
+
+--Dou-lhes uma boa nova, meus senhores--disse o conselheiro, depois de
+cumprimental-os--dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na
+terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do
+homem, que nos obrigassem a expropriações judiciaes, sempre demoradas.
+Mas não, achei-o nas melhores disposições; e assim, dentro em poucos
+dias...
+
+--Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios não
+sejam tão doceis--lembrou o brazileiro.
+
+--Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores com pouco
+se contentam.
+
+--Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco--disse o
+brazileiro, sorrindo velhacamente--mas os modernos...
+
+--Pois mudaram de senhorio?
+
+--Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.
+
+--E quem os comprou?
+
+--Este seu criado.
+
+O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, dizendo:
+
+--Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e
+independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos
+publicos, do que...
+
+--Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os
+melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.
+
+--De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma empreza como esta.
+
+--Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios á parte.
+
+O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o
+espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.
+
+--Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?--requereu do lado o sr.
+Joãozinho das Perdizes.
+
+--Mil que pretenda--acudiu o conselheiro; e tomando o braço do morgado
+afastou-se do grupo.
+
+--Eu tenho a pedir-lhe um favor--principiou o morgado.-- Eu, como sabe,
+interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir
+ensinar para aqui. Este negocio está empatado, como sabe; por isso
+queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.
+
+--Pois sim, mas...--fez-lhe notar o conselheiro--não sabe que é Augusto
+o outro concorrente?
+
+--Então que tem isso?
+
+--Não lhe parece que seria uma injustiça? Um rapaz de merecimento, como
+elle é, aqui da terra, que já exerce o emprego ha tres annos e com tanta
+intelligencia? e haviamos de...
+
+--É verdade,--atalhou o outro--pois isso é verdade, mas... Emfim, elle
+que passe para outra parte.
+
+--Mas se o rapaz quer isto?
+
+--Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr.
+conselheiro, a gente tambem não ha de estar só a fazer favores, sem os
+receber quando os pede. Com este já são tres. Pedi-lhe para o meu tio
+abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias lá
+para a freguezia... estou á espera d'ellas... Ora isto não se faz. O
+senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha
+freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A
+não se decidir este negocio depressa...
+
+--Ora não será isso motivo para tanto.
+
+--Com certeza que é--insistiu o sr. Joãozinho.--Então digo-lhe mais: a
+mim já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria dos votos de que eu
+disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que
+não é peor.
+
+O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:
+
+--Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por
+qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que
+me diz, eu verei.
+
+--Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás eleições
+não estiver feito o despacho, não conte commigo.
+
+--Mas quem lhe diz que não ha de estar?
+
+--Pois lá isso...
+
+--Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.
+
+--Bem.
+
+O sino tocava a chamar para a festa.
+
+Terminou o dialogo.
+
+--O peor--ia pensando o conselheiro--o peor é que prometti ao Vicente
+que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a
+posta, que não vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma
+coisa melhor. É preciso ter ambição por elle. Se elle quizesse ir para
+Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo
+contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o que sabe.
+
+Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o
+pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de impaciencia,
+assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, á fôrça de
+cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção.
+
+Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o
+latinista com tanto ardor namorava.
+
+O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor
+que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:
+
+--Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não farta de chupar.
+Contente-se com o que tem; vá conjugando o _laudo, laudas_, que outros,
+com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me.
+
+O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se
+para deixar passar o conselheiro.
+
+Mas lá comsigo dizia:
+
+--Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te não pica.
+
+E entrou tambem para a igreja, com não muito christãs disposições de
+espirito.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em
+visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral,
+visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com
+gôsto, n'estas excursões politicas.
+
+Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de Pinchões,
+passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e
+desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se trilhava a cauda
+a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o
+proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dóses de carne
+de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar.
+
+No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do
+chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos
+leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram
+desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor
+que escutavam fóra.
+
+Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o
+obrigava a esta noitada.
+
+Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua
+propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em
+affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli.
+
+As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana,
+por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de
+fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia,
+fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com
+assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram
+as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar;
+lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados,
+diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo
+encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de
+Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de
+ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno
+brazileiro.
+
+Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.
+
+Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das
+festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia
+occorresse coisa que mereça nota.
+
+Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem
+outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas
+palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então.
+Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural esta ausencia,
+contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a
+ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de
+quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os
+dissipava com uma palavra.
+
+Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do
+Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
+
+Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para
+assistir á solemnidade popular.
+
+Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia ser coisa
+memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o
+sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a
+ensaial-o, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da
+Fama, que lhe competia desempenhar.
+
+Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os
+restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira
+deixou ficar pelo chão.
+
+Não obstante as extravagancias e as modelações toscas e risiveis de
+muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado
+mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada musa das
+cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularissimas redondilhas, tão
+apreciadas ainda na Hespanha.
+
+Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pateo de quinta
+um tablado; veem adornal-o as mais vistosas colchas de chita, das quaes
+tambem se formam os bastidores; alugam-se nos depositos mais modestos da
+cidade ou villa proxima vestidos de reis, de principes e de guerreiros,
+em que se combinam os elementos de épocas e de nacionalidades
+disparatadas, e perante uma plateia rustica, ao ar livre, como no
+theatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentaes
+peripecias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os
+episodios comicos do algum enredo popular.
+
+A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do
+Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do circulo, em
+parte por conveniencia dos emprezarios, pela apropriação do terreno a
+todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes casos
+recebiam de s. ex.^a, essa circumstancia, dizemos, augmentava o numero
+de espectadores.
+
+Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do
+espectaculo popular.
+
+O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem
+pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava pôr á
+disposição dos seus representados.
+
+Desde a vespera havia grande agitação e azafama no pateo do Mosteiro. Os
+artifices levantavam o tablado scenico; pregavam e despregavam taboas;
+serravam barrotes; os directores, e á frente d'elles o infatigavel e
+imaginoso Pertunhas, davam ordens contradictorias; e os curiosos
+estacionavam em magotes, difficultando tudo, censurando o que viam
+fazer, e aventando alvitres absurdos.
+
+Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora dos
+seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida e de
+enthusiasmo.
+
+Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir a
+espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia chorar
+as creanças e estremecer as mães; ia resuscitar Herodes, o déspota
+legendario.
+
+Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e
+insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos
+scenicos futuros.
+
+Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com
+a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a
+ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a d'elle.
+
+E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do recoveiro; alli
+havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico,
+deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha
+abafado mineral de lei.
+
+Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam porventura
+arrebatar plateias inteiras com as revelações do genio, que ás vezes
+n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda assim
+inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da
+arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no
+calor do desempenho; não mentia aquella embriaguez que lhe causavam os
+applausos da multidão. Não ha verdadeiro genio artistico, que se não
+namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O
+homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será poeta nem
+artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da gloria adeantou a meio
+caminho os emprehendedores d'esta nova conquista de vellocino.
+
+Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista novel, á lembrança do
+espectaculo, em que pela primeira vez ia entrar.
+
+As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido
+encarregar-se da _toilette_ da Fama.
+
+Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das
+mãos de Magdalena para as de Christina e das d'esta para as d'aquella, e
+sempre com recato preciso para que ninguem mais lhe puzesse os olhos,
+pois que pretendiam reservar para a occasião a surpreza toda. Contra a
+curiosidade de Angelo é que mais tiveram que luctar.
+
+Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo de
+espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto
+por as colchas de chita aos olhares da multidão.
+
+Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica,
+dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de
+batuta.
+
+Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a
+flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das torturas.
+
+Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos,
+deu o signal de principiar.
+
+Um, dois, tres; um, dois--dizia ou fazia elle com os olhos e com os
+movimentos da cabeça e pés, porque a bôca, essa já estava applicada á
+embocadura da trompa. O segundo «tres» era o tempo fatal. Os musicos,
+porém, ou por distrahidos, ou por a commoção propria dos actos solemnes,
+não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do
+mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a
+esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os
+ouvidos quasi em sangue.
+
+Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando
+as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota
+chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atraz d'ella, cada uma
+por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito.
+
+O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e
+o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a
+vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da
+banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão.
+
+Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade!
+
+Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia.
+
+Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que fôram
+de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de um Cham ou
+Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaçava estalar todas
+as costuras da farda, primitivamente feita para um individuo de metade
+das dimensões d'elle, com as faces insufladas, a testa contrahida e os
+olhos injectados para extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava
+com arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um flautim,
+de braços compridos e tibias esquinadas, com meio braço fóra das mangas,
+com meia perna de fóra das calças, figura em que havia não sei o que de
+onomatopaico, tão bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos,
+que arrancava do exiguo instrumento. O artista pratilheiro era um velho
+recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em
+tufos no meio das faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava
+os pulmões dentro de um figle; um corcovado e semi-anão repicava os
+ferrinhos com uma prodigalidade assustadora; as baquetas da caixa
+estavam confiadas ás mãos callosas de um moço de lavoura, de rêpas
+hirsutas a cobrir-lhe a testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E,
+no meio d'estas e analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas,
+torcendo-se, batendo com o pé, suando, arregalando os olhos,
+piscando-os, marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa,
+que lhe dava então não sei que apparencias de proboscidiano.
+
+Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a
+familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram de
+dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista que
+se conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforços fez para soffrer
+com paciencia aquellas torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de
+S. Carlos perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso
+aquella banda pandemonica!
+
+--Coragem! coragem!--murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como
+perfeito politico.--Nas occasiões é que os homens se conhecem! Coragem.
+
+--É em extremo forte a provação!--respondia-lhe, gemendo, Henrique.
+
+--Firmeza; que a pallidez do susto nos não atraiçoe--continuava aquelle.
+
+Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a seriedade.
+
+A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido
+tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o
+estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares de tantos
+espectadores fixavam-se na coberta de chita que já se via ondular.
+Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, como se fôra a
+resultante do palpitar de tantos corações.
+
+Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes.
+
+A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros
+largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas
+negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as
+juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho
+selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na multidão um quasi
+pavor, que nem o conhecimento intimo que tinha do homem conseguia
+dissipar.
+
+Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos,
+corpete de velludilho azul, calções golpeados. Pendia-lhe á cinta um
+alfange e uma pistola; ao peito algumas condecorações.
+
+Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões.
+
+O auto rompe com um monologo de Herodes.
+
+O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz considerações
+substanciosas sobre a condição dos reis em geral e a sua em particular.
+Principia elle assim:
+
+
+ Não ha vida mais inquieta,
+ Nem mais cheia de cuidados,
+ Do que a de um rei que pretende
+ Conservar os seus estados.
+
+
+O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços cruzados, medindo o
+palco a passos largos.
+
+Continuavam varias proposições de physiologia do throno, e, do caso
+generico baixando ao particular, da these á hypothese, principia a falar
+de si. Cancella, conhecedor dos segredos da arte, começava aqui a dar
+mais vida á recitação, como para mostrar o maior empenho que tomava a
+alma n'este capitulo da especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda
+do Messias, e inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz
+traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de
+desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos
+paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a fôrça á sua voz potente,
+soltava berros, que participavam da natureza dos do tigre.
+
+
+ Começarei desde logo
+ A publicar leis tyrannas,
+ Que aterrem os meus montes,
+ Os palacios e as choupanas.
+
+ Será tal o meu furor,
+ Tal a minha indignação,
+ Que ninguem se atreverá
+ A conquistar meu brazão.
+
+
+O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam
+a fixar-se. A excitação de animos a que os transportes de Herodes,
+inquieto pelo seu brazão, levára o publico, foi serenada por um chorado
+côro de anjos que cantavam atraz da cortina:
+
+
+ Não temas, ó rei cruel,
+ Que te conquiste o docel.
+
+
+Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afiançarem
+a segurança do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla,
+entra-lhe o mêdo no coração, mêdo que procura afugentar com bravatas, em
+que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com
+abundancia de gestos e de movimentos.
+
+Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do Herodes. Para este
+final do monologo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se
+d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os
+espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade
+propria; suppunha-se Herodes; e até... ó fôrça da arte!
+offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava
+a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado
+por o artista, e n'um d'estes silencios que todos prevêem se
+desencadeiará em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas
+quadras finaes:
+
+
+ Porém o furor me incita!
+
+
+Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o alfange e
+abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.
+
+
+ O brio dá-me ousadia.
+
+
+Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda.
+
+
+ Para defender o sceptro
+ A favor da tyrannia!
+
+
+Aqui agitava os braços como azas de moinhos.
+
+
+ Será cada lança um raio!
+
+
+E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago.
+
+
+ Cada espada um corisco,
+
+
+E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile.
+
+
+ Cada soldado um trovão,
+
+
+E trovejava-lhe a voz.
+
+
+ Cada golpe um basilisco!
+
+
+E na posição e gesto em que ficava, não era menos terrivel e pavoroso do
+que a fera da comparação.
+
+Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as mulheres e
+as creanças ficaram silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um
+peccado applaudirem Herodes. E não sei se, o que fizera menos
+escrupulosa n'este ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das
+janellas do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no palco
+são admirados, mas raras vezes applaudidos.
+
+Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o
+auto.
+
+Dariamos de bom grado na integra tão importante peça dramatica ou pelo
+menos circumstanciada noticia d'ella, se não receiassemos o recheio
+excessivo para esta ordem de alimentos litterarios, que se querem leves.
+Não podemos comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente.
+
+Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro do dito--assim se lhe
+chama pelo menos no folheto, o que dá a entender que Herodes era homem
+de escripturacão regular,--o capitão das tropas reaes, os tres reis
+magos, o anjo, a Virgem, S. José e o menino Jesus, a criada de Santa
+Isabel, dois cidadãos de differentes cidades, o criado de um d'elles, a
+Fama e duas creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho.
+
+As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na lapa de
+Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto.
+
+A imaginação do espectador era a encarregada da mudança do scenario.
+
+O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas as cordas do
+coração.
+
+Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a sympathia
+pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres moços de lavoura,
+de manto, luvas de algodão e turbante, os quaes, em lamuria nasal e com
+profusão de _xes_, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das
+quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao Deus
+nascido a protecção para Portugal.
+
+Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como carpinteiro
+que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina, emquanto a Virgem
+dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a
+despontar o buço da puberdade. O anjo apparecia, como nas procissões,
+carregado de cordões de ouro.
+
+No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica
+simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, chega a
+elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocetão em
+trajes femininos, e da parte da ama offerece aos foragidos algum
+dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por não poder dar quanto queria,
+o que tudo a Senhora agradece com as phrases da tarifa, recommendando-se
+muito a sua prima.
+
+O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha
+personagens, reflexões e scenas sempre apreciadas e já aguardadas pelo
+publico, que as saúda com sinceras gargalhadas. D'estas a principal é
+evidentemente a que se passa entre um cidadão, de quem a sacra familia
+recebe gasalhado, e o criado do mesmo.
+
+É uma scena de disputa domestica, cheia de allusões satyricas á classe
+dos criados de servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois
+de mostrar ao criado, de relogio em punho--anachronismo shakspeareano--a
+demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o auditorio:
+
+
+ Não se pode ter criados
+ Hoje em dia, n'esta vida,
+ Ou quem houver de os ter
+ Não lhes deve dar guarida.
+
+
+N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso
+episodio.
+
+D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa
+de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, não pôde
+conter-se, que não exclamasse:
+
+--Aquillo é que é uma verdade!
+
+A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro, riso que
+teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo.
+
+A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir pelo caixeiro o
+rapé ao auditorio; outra liberdade que produzia sempre o maior effeito.
+
+O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia
+pitadas ao publico, dizendo:
+
+
+ O meu amo, com ser rico,
+ Gosta d'estas patuscadas.
+ Nunca os senhores tiveram
+ As pitadas tão baratas.
+
+
+Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo
+a regularidade do espectaculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam,
+riam e guinchavam, todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: «Dominus
+tecum» e «Deus te salve» no meio de toda aquella confusão. Porém a um
+signal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espirito
+das massas, tudo entrou na ordem.
+
+Preparava-se nova transição dramatica. O criado, que vae a saír, volta,
+dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio:
+
+
+ Jesus, Jesus, que é isto?
+ Jesus do meu coração!
+ O signal da cruz me livre
+ De tão terrivel visão.
+
+
+Era a Fama que apparecia.
+
+Ermelinda entrava em scena.
+
+No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que
+entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia tão
+completo contraste, que um murmurio significativo de profunda sensação
+correu o auditorio.
+
+Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao que
+era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, para
+lhe darem a apparencia superior.
+
+O proprio Henrique, que até alli estivera commentando maliciosamente o
+espectaculo, não pôde reter uma exclamação de surpreza, que foi
+secundada por o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo
+occupava agora a scena.
+
+A simplicidade do vestir concorria para esse effeito.
+
+Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe
+descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos
+contornos e esbeltas proporções d'aquella creança, que promettia ser uma
+mulher esculptural. Os cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara,
+caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando como fios de
+ouro, na alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das
+faces sobresaía n'aquella moldura natural. Com os braços descaídos, os
+dedos encruzados, e a cabeça ligeiramente pendida, em expressão de
+melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de
+Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem
+o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto
+da innocencia, tendo nos passos a hesitação da timidez. Havia tanto de
+sobrenatural no vulto candido, franzino e melancolicamente suave
+d'aquella creança, que o actor que estava em scena não teve de simular
+espanto, porque o sentia real, e não podia desviar os olhos d'aquella
+apparição.
+
+O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a fôrça de
+um encantamento.
+
+Como na antiga tragedia, o facto principal da acção, a carnificina dos
+innocentes, passava-se fóra de scena. Á Fama competia narral-o.
+
+Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor
+de commoção, principiou lentamente e no meio de um religioso silencio a
+recitar os versos da narração, os quaes, como o leitor já sabe, não eram
+os do auto, que mestre Pertunhas se estafára a ensaiar.
+
+Os versos que Ermelinda recitou diziam assim:
+
+
+ Desci dos celestes córos,
+ Por Deus mandada a escutar
+ Da infancia as queixas e os choros,
+ Para lh'os ir confiar.
+
+ Desci. Na terra, nos mares
+ Tanta miseria encontrei.
+ Que os meus magoados olhares
+ Da terra e mar desviei.
+
+ Desci. E tantos gemidos,
+ Tão dolorosos ouvi!
+ Que, turbados os sentidos,
+ Quiz recuar... mas desci.
+
+ N'esta colheita de dôres
+ Pelo mundo todo andei,
+ No pranto dos peccadores
+ As minhas vestes molhei.
+
+ Vagueando dias e dias,
+ Chegára á Judéa emfim,
+ Quando um clamor de agonias
+ Veio de longe até mim.
+
+ O sol, o sol inflammado
+ D'estas terras orientaes,
+ Tinha no disco afogueado
+ Não sei que estranhos signaes.
+
+ Soavam menos distantes
+ Sinistros brados de dôr,
+ Choros de mães e de infantes,
+ Cantos de morte e terror.
+
+ Vi anjos de azas nevadas
+ Em bandos subir ao céo,
+ Quaes pombas amedrontadas
+ Fugindo á voz de escarcéo.
+
+ «Onde ídes? Quem vos persegue?
+ A que tormentas fugis?»
+ Um, que triste o bando segue,
+ Estas palavras me diz:
+
+ «Somos as almas de infantes
+ Mortos em guerra feroz;
+ Inda das mães delirantes
+ Nos chama a sentida voz.
+
+ «Só a materna saudade
+ Nossa carreira detem,
+ Embora no céo, quem ha de
+ Esquecer, o amor de mãe?»
+
+ Disse e o semblante formoso
+ Com as azas encobriu,
+ E ao bando silencioso
+ Silencioso se uniu.
+
+ Eu segui. Na impia cidade
+ Aterrada penetrei...
+ Ai, da fera humanidade
+ Os meus olhos desviei!
+
+ Que scena! Corre nas praças
+ Sanguinaria multidão,
+ Como nuvem de desgraças
+ Semeando a desolação.
+
+ Cáem por terra sem vida
+ Tenras creanças ás mil,
+ E uma turba enfurecida
+ Corre á matança febril,
+
+ As mães pallidas, chorosas,
+ Supplicam, pedem em vão!
+ N'essas feras sanguinosas
+ Não palpita um coração.
+
+ Outras tentam em delirio,
+ Os seus filhos disputar,
+ E com elles no martyrio
+ Gostosas se vão juntar.
+
+ Sobre a terra ensanguentada
+ Eu soluçando, ajoelhei,
+ E de intensa dôr magoada,
+ A Deus piedade implorei.
+
+ Findava a prece, e uma estrella
+ No horisonte despontou,
+ Pura, scintillante, bella
+ O caminho me traçou.
+
+ Á humilde e escondida estancia
+ Da venturosa Belem
+ Cheguei; vi um Deus na infancia
+ Nos ternos braços da mãe.
+
+ Minha colheita de dôres
+ N'aquelle berço depuz,
+ Da humanidade aos rigores
+ Pedi remedio a Jesus.
+
+ No olhar do divino infante
+ Raiou a luz e fulgor,
+ Foi a aurora radiante
+ Que annuncia um redemptor.
+
+
+Não se descreve a impressão causada por estes versos, que assim
+transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infancia. Muitas
+causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto
+de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e
+depois aquellas palavras inesperadas, aquella exposição desconhecida e
+em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia
+augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da impressão d'aquella
+voz sonora e infantil, ninguem procurava explicar o mysterio. Milagre
+lhes parecia e quasi como milagre o acceitavam, e de ouvidos attentos,
+collos estendidos e bôcas semi-abertas parecia recolherem, uma a uma,
+aquellas palavras, como se de um verdadeiro emissario celeste as
+escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguem dera
+por isso. Os actores que estavam atraz da cortina tinham sido feridos
+pelos primeiros versos, differentes dos que elles esperavam; isto
+obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz
+e d'aquelle gesto, vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram
+circulo á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O
+espanto, os affectos, o orgulho de pae, a exaltação de artista
+combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expressão quasi de extase.
+Olhava para a filha como se a visse animada de inspiração divina.
+
+Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo
+trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bôca
+aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria,
+elle só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente
+aquella voz de creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos
+espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse
+alguma coisa de sobrehumana.
+
+Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que
+os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem
+de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi
+encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena,
+exprimiu n'um «bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal.
+
+O silencio degenerou na mais altisona ovação.
+
+O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a
+sustentar, a logica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo
+debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os
+outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braços
+para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a,
+os lenços das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes
+parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo
+e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entre beijos e afagos,
+transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos
+calorosa a recepção.
+
+Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre
+Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vêr as
+restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas.
+
+O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do
+Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não fôsse bastante
+pathetico para commover.
+
+--Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai
+que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os
+dizia!--exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena
+que vira.
+
+Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:
+
+--Foi Augusto que fez aquelles versos?
+
+Angelo sorriu.
+
+--Por que me perguntas isso a mim?
+
+--Porque o deves saber.
+
+--Então não crês no milagre?
+
+--Responde.
+
+Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o
+conselheiro:
+
+--Se eu digo a v. ex.^a que o Bernardim existe.
+
+--Mas quem é?--perguntou o conselheiro.
+
+--Não sei; porém posso afiançar a v. ex.^a que não são estes os
+primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos
+montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Magdalena, de umas
+quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude?
+
+--Sim; recordo-me.
+
+--Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a
+attribuil-as á mesma pessoa?
+
+--Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.
+
+--Mas talvez este lhe seja habitual.
+
+Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a
+accrescentar:
+
+--Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes de capellas e ruinas,
+e nos troncos das arvores.
+
+Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. Quando lhe perguntavam quem
+lhe ensinára os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não
+podia dizel-o.
+
+--Apostemos que n'isto entra Angelo?--disse o conselheiro.
+
+O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura inspiração.
+
+Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da morgadinha,
+disse-lhe ao ouvido:
+
+--Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta
+sem se mostrar.
+
+--Sim?
+
+--Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediações. Estas
+aves melancolicas amam as inspirações nocturnas.
+
+--Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora
+favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o.
+Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a
+verdade. Não ha quem se tema d'ella.
+
+E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.
+
+--D'esta vez foi de uma severidade!!--pensou Henrique.--Cada vez me
+convenço mais de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas
+agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? Não foi
+má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que
+o caso não vale a pena.
+
+O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d'esta vez mais
+intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava
+ainda, pois disse a Christina:
+
+--Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.
+
+--Que dizes?!
+
+--Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.
+
+Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no
+pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram
+dispersando pouco a pouco.
+
+A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as
+serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem
+era devido o cantar os Reis.
+
+Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao
+pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.
+
+Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á
+fronte e ao coração do pobre rapaz.
+
+Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; na manhã seguinte
+devia partir com o pae para Lisboa.
+
+Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades não se
+amontoam no coração das creanças ao expirar o termo d'esse feliz espaço
+de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos
+despreoccupados!
+
+Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que á menor
+palavra rebentam.
+
+Quem não terá recordações de infancia a falar-lhe d'isto?
+
+O pateo despovoára-se de gente; através das vidraças da casa viam-se já
+brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça
+inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e
+mulheres, sem que elle désse por isso.
+
+De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos.
+Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a pôr em ordem
+as roupas e mais objectos que serviram no auto.
+
+--Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus--disse Angelo.
+
+--Então vae-se embora?
+
+--Vou ámanhã--respondeu Angelo, com a voz presa de commoção.
+
+--Muito cêdo?
+
+--De madrugada.
+
+Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.
+
+--E agora quando volta?
+
+--Eu sei lá? agora... só para agosto.
+
+Novo silencio.
+
+--Então... adeus...
+
+--Adeus, Ermelinda.
+
+E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo
+estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como irmã, e que
+chorava ainda mais do que elle.
+
+Que melancolico fim de dia tão alegre!
+
+A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.
+
+--Ermelinda--disse logo a voz esganiçada e colerica, que saiu d'aquelle
+vulto.
+
+Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.
+
+Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas devoções e ficára
+surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadiça castidade
+d'aquella matrona toda se alvoroçou com a tocante despedida das duas
+creanças.
+
+Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou
+pelo braço e a levou comsigo.
+
+Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella harpia a
+innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.
+
+A sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista ia dizendo, ao levar
+comsigo a afilhada:
+
+--Que terão ainda de vêr meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo
+este de abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem das Dores, isto é para se
+vêr e não se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer,
+e já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus crucificado!...
+
+--Minha madrinha--dizia Ermelinda, chorando.
+
+--Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e riem de
+contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por
+entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da igreja, que é a
+casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados são
+estes!... Ai, filha, que muita penitencia te é já precisa para salvares
+a alma!
+
+--Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga
+isso--exclamava Ermelinda, aterrada.
+
+--Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, assanhados como
+cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de
+Satanaz, onde não ha religião nem temor de Deus... Ó meu divino Jesus, e
+para isto tanto padeceste por nós! E nós tão pouco caso fazemos dos
+vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois
+queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do
+inferno...!
+
+A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.
+
+A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamações, bramando
+contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes,
+contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso,
+desenvolvia sobre o thema do peccado dissertações não em demasia
+apropriadas aos ouvidos de uma creança.
+
+O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das
+palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma horrivel
+convicção de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a
+pobre creança bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que já tinha
+remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente.
+
+Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os
+triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraçal-a,
+Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde saber que explicasse os
+vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o
+pranto; desistiu pois.
+
+Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de
+levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.
+
+Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na fronte
+desmaiada, abençoou-a e saiu.
+
+--Comadre,--disse ao passar por casa do Zé P'reira--ahi lhe deixo a
+pequena. Olhe-me por ella, que não está lá muito boa.
+
+--Vá com Deus--disse uma voz de dentro.
+
+Era a sr.^a Catharina.
+
+O recoveiro partiu, silencioso e triste.
+
+
+
+
+XIX
+
+
+No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
+determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
+muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das
+eleições geraes que estavam proximas.
+
+Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
+padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava
+Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia
+e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de
+coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção.
+
+Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
+posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
+cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de
+Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume
+patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a
+memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias
+e frequentes inexactidões em que a via cair.
+
+Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não
+ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava,
+achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.
+
+Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto
+dos Reis.
+
+--Eu ainda estou para saber como aquillo foi!--dizia D.
+Dorothéa.--Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!
+
+--Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito--disse
+Maria de Jesus, com ar de mysterio.
+
+--Olhem o milagre!--respondeu D. Dorothéa.--Por essa estou eu.
+
+--Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
+mesma.
+
+--Então é mais do que certo.
+
+--Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!--disse Henrique,
+rindo.--Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?
+
+--Pois, menino, aquillo a falar a verdade!
+
+--E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?
+
+--Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que
+aquelles não calhavam bem nas lôas?
+
+--O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e
+até suspeito com que fim.
+
+--Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do
+Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem
+um livro. A senhora não se lembra?
+
+--Ora se lembra!
+
+--Digam-me--insistiu Henrique.--Quem ha aqui na aldeia que faça versos?
+
+--Versos!--repetiu a D. Dorothéa, admirada.--Ninguem, que eu saiba.
+
+--Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos
+desafios?
+
+--Sem ser o João do Trolha--tornou Henrique, sorrindo.
+
+--Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no
+outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que
+elle botou?
+
+
+ Viva a senhora D. Dorothéa,
+ Raminho de bem-me-queres,
+ Quando põe a sua touca
+ É a rainha das mulheres.
+
+
+--E depois a mim:
+
+
+ Viva a senhora Maria,
+ A perola das criadas,
+ Quando se chega á janella
+ Ficam as estrellas pasmadas.
+
+
+--Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer
+do que pasmarem--disse D. Dorothéa.
+
+--Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que
+diz...
+
+--E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?--perguntou
+Henrique.
+
+--Que eu saiba...--disseram as duas.
+
+--E aquelle Augusto?
+
+--O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
+Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.
+
+--Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos?
+
+--Tolos não digo, mas...
+
+--Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?
+
+--Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um
+homem de respeito, faz versos?
+
+--Por que não?
+
+--Versos?!
+
+--Versos, sim, senhora.
+
+D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade.
+
+Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da
+entrada e após algumas pancadas á porta da sala.
+
+--Abra, tia Dorothéa--disseram de fóra as vozes de Magdalena e de
+Christina, que fôram logo reconhecidas.
+
+E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria,
+que vinha mais retardada.
+
+D. Dorothéa levantou-se para recebel-as.
+
+--Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já
+jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que
+não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do
+missionario--disse a morgadinha.
+
+--Eu não; para apertos e barafundas é que não estou.
+
+--E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.
+
+--Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer?
+Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.
+
+--Dizem que préga tão bem--atalhou Christina.
+
+--Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões--ponderou D.
+Victoria.
+
+--Vou eu tambem ouvir o missionario--disse Henrique, levantando-se.--Já
+m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á
+figura...
+
+--Então?--interrogou D. Dorothéa.
+
+--É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da
+grossura do pulso.
+
+--Pois bom é que vás, menino--disse D. Dorothéa--para acompanhares as
+pequenas.
+
+--Como quizer, primo,--acudiu Magdalena--mas não se constranja. O
+Torquato tambem vae.
+
+--Que quer dizer? Que me dispensa?
+
+--Não; mas que se é só por condescendencia que...
+
+--É por prazer. É por devoção.
+
+--N'esse caso...
+
+E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á
+igreja.
+
+O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua
+invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da
+igreja, nada faltára para solemnisar a festa.
+
+O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido
+concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas
+catechéses.
+
+A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e
+Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita
+gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial.
+
+Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de
+sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as
+aguas impetuosas.
+
+A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
+missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.
+
+As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
+popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por
+deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a
+capella-mór.
+
+Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião.
+Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a
+extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres
+de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á
+cabeça.
+
+Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
+dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.
+
+Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
+orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se
+escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao
+entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de
+pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com
+Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no
+chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a
+Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos
+deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de
+promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns
+pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes
+nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos
+rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a
+circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá
+regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e
+inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé
+porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a
+consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa.
+
+Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e
+exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina,
+ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo
+cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se
+não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes
+cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção,
+satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles
+gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo,
+tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os
+ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel.
+
+De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as
+luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta
+arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.
+
+Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.
+
+Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
+sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja
+influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por
+aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios
+improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião,
+de que se dizem ministros.
+
+Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não
+pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que
+os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico.
+
+A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os
+differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos
+os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem
+de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia,
+na rua, se prolongava a multidão.
+
+Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
+hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta
+por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.
+
+Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto.
+
+Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois
+causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi
+a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão,
+reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do
+Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto
+enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
+labios, que tanta graça lhe davam!
+
+E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim
+ficar tanto tempo aos pés do confessor?
+
+Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e,
+como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres
+ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo
+rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes.
+
+Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas
+teria a expiar aquella inconsolavel dor?
+
+O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas,
+que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e
+fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das
+sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.
+
+Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou
+aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.
+
+Era o missionario.
+
+A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
+triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as
+borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com
+profusão.
+
+Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
+do chão um estorvo.
+
+Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e
+realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para
+abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua.
+
+Dizia o homem:
+
+--Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu
+quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A
+religião manda... Quando um homem se casa...
+
+O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com
+modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de
+cólera:
+
+--Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter
+commigo?!
+
+E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que
+rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para
+afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se
+a dizer mansamente:
+
+--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode
+dizer o que sente?
+
+Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:
+
+--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!
+
+Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
+este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:
+
+--Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe
+do que de pastor?
+
+O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
+vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico.
+Henrique arrostou-o com audacia provocadora.
+
+O padre entrou para a sacristia.
+
+No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais
+commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.
+
+No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
+pouco attrahente do famigerado educador dos povos.
+
+Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
+Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
+firmeza.
+
+Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia
+talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um
+sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:
+
+Emfim soltou o texto latino do sermão.
+
+Seguiu-se nova pausa, e principiou.
+
+Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas
+humoristicas da _Vida e opiniões de Tristam Shandy_, um sermão sobre a
+consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia
+sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.
+
+Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a
+extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador
+acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta
+prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da
+vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e
+prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja
+voz é abafada por aquella gritaria.
+
+As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
+
+Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
+fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
+um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á
+missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as
+almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de
+tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo
+Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os
+delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e
+desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do
+inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.
+
+Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
+de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor
+sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com
+imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do
+seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que
+se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e
+as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria.
+
+Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava
+a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.
+
+Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e
+principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro
+manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em
+toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco
+impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para
+Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas,
+tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.
+
+Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
+tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.
+
+Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que
+se estava exercendo no animo timido de Christina.
+
+Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
+com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador,
+que ambas offereciam farto alimento para elles.
+
+D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse.
+
+Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios
+improprios do logar.
+
+Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os
+commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena;
+e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador,
+exacerbando-lhe a virulencia da phrase.
+
+Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera,
+estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.
+
+Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes,
+haviam attingido já a causa d'elles.
+
+D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.
+
+No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas
+do que nenhumas. A sr.^a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de
+anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração
+da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao
+cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
+fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a
+prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a
+pensar.
+
+N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os
+progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do
+inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique
+approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão
+tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria
+Christina sorriu tambem.
+
+Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces
+apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos
+e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:
+
+--Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da
+palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes
+os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram
+esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos,
+se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze
+esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das
+cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as
+estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na
+alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros
+livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
+requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...
+
+E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o
+braço na direcção de Henrique.
+
+Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e
+fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder
+alli mesmo.
+
+Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
+desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
+má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam
+alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas,
+os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções
+assustadoras.
+
+Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
+presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de
+Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
+
+Henrique resistia e procurava falar.
+
+O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.
+
+O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a
+cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.
+
+Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
+havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja
+por a porta da sacristia.
+
+Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em
+confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da
+sacristia, e correu clamando atordoadoramente.
+
+E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel
+parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de
+braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos
+pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.»
+
+Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
+
+Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente
+furiosa e ameaçadora.
+
+--Que querem de mim e d'estas senhoras?--perguntou elle, com voz firme.
+
+Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:
+
+--Morra o pedreiro livre!
+
+--Ensinem esses senhores da cidade!
+
+--Pouca vergonha!
+
+--Isto não fica assim! Isto é de mais!
+
+--Mação!
+
+--Hereje!
+
+--Quero passar!--repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.
+
+--Havemos de ensinar estes fidalgos.
+
+--Excommungados!
+
+--Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.
+
+Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo
+para elles, levantando o chicote que trazia na mão.
+
+Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
+varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.
+
+E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!»
+levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a
+tremer, o braço de Henrique.
+
+E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.
+
+Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
+sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que,
+entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto
+de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil
+curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos,
+procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a
+cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e
+em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse
+para toda aquella gente:
+
+--Não vêem que iam matando esta creança?
+
+Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais
+effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia
+n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e
+será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as
+massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por
+simulal-a, quando precisam do povo.
+
+--Quem foi que atirou a pedra?--perguntou um.
+
+--Temos tolice!
+
+--Nada de pedra, olá!
+
+--Então isto é coisa de garotos!
+
+Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
+«morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E
+comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era
+evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia
+resolveria a crise.
+
+O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
+irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
+apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem.
+
+Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e
+concorreu para dissipar a tempestade.
+
+Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que,
+pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da
+interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio
+desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro,
+tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que
+ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão.
+
+Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a
+dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas
+e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na
+caixa--pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles
+floridissimos periodos acusticos.
+
+Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era
+habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.
+
+Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara
+metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e
+sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as
+maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.
+
+Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.
+
+Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
+philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado.
+
+N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um _ceci tuera cela_, como o que
+preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris,
+analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico
+entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador
+era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira
+extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos
+portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um
+commetimento digno de menção na historia da arte.
+
+Pobre Zé P'reira!
+
+Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto
+de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento
+de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma
+melancolia quasi poetica.
+
+N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo
+pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A
+intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que
+via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão,
+principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.
+
+Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem
+ergueu-se.
+
+Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
+tiracollo a alça do tambor.
+
+Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que,
+estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.
+
+Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé
+P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao
+rapaz, e...
+
+_Pom_--fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada
+superficie do bombo.
+
+_Taplão, taplão, rataplão, rataplão_...--responderam as baquetas movidas
+pelas amestradas mãos do Zé P'reira.
+
+Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.
+
+O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das
+baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.
+
+Principiou a acudir o povo para junto do artista.
+
+Este tomára-se já do _raptus_, do phrenesi musical. Já não eram só as
+mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De
+olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes,
+contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para
+traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia,
+não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo,
+delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes
+electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor,
+desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos,
+aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o
+torciam, desconjunctavam e desfiguravam.
+
+Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo
+era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou
+com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se
+moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos
+sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que
+succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de
+uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo.
+
+O povo inteiro applaudiu o artista.
+
+E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já
+fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro.
+O povo dispersou pacificamente.
+
+
+
+
+XX
+
+
+Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da
+aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.
+
+O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é
+impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal
+pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia,
+villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha.
+
+Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta
+curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento.
+
+Isto aconteceu com o Cancella.
+
+Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os
+olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos
+chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.
+
+--Passaros de arribação...--pensava o Herodes comsigo--que vento traria
+isto para aqui?
+
+E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.
+
+Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:
+
+--Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos
+alojemos?
+
+--Por pouco ou por muito tempo, meu amo?
+
+--Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.
+
+--Ah! então v. sr.^{as} são engenheiros?
+
+--Julgo que sim.
+
+--Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar?
+
+--Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não.
+
+--Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os
+meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de
+uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem
+uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á
+direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira;
+ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um
+larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e
+perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.
+
+Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a
+explicação.
+
+Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma
+rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os
+engenheiros.
+
+--Se v. s.^{as} querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.
+
+Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.
+
+--Grande novidade!--ficou dizendo o Cancella comsigo--sim, senhor; com
+que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus
+dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que
+vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O
+pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza...
+Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é
+outro arranjo para quem tem de ir á cidade...
+
+Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe
+ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia
+que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias
+toma as proporções de um grande successo.
+
+--Ui! Temos novidade--disse o Herodes ao vêl-o.--Edital á porta da
+igreja!--e approximou-se para ler.
+
+Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens
+terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente
+prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da
+igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido.
+Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando
+contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim.
+
+--Bom, mais outra!--dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.--Grandes
+coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que
+não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi
+rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma
+pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e
+ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois
+de morta.
+
+E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.
+
+Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a
+invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella
+imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no
+regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e
+separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou
+triste e sobresaltado. Porquê?
+
+É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e
+estremecia agora na incerteza de como a iria achar.
+
+Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,
+tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros
+da casa parou irresoluto.
+
+Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo
+aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas,
+se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos,
+que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de
+sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.
+
+Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao
+avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.
+
+Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol
+crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe
+estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito
+esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão
+despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em
+que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que
+chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte
+obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as
+sombras.
+
+Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros
+degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera
+coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.
+
+Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que
+encontrou aberta.
+
+Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de
+surpreza.
+
+Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.
+
+Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que
+cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que
+não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o.
+
+--Crédo!--disse o Cancella, desgostoso.--Para longe o agouro! Cruzes
+negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me
+scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe
+acudo...--Ermelinda!--exclamou, chamando por a filha.
+
+Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.
+
+Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua
+benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.
+
+--Mau!--disse o Herodes, cada vez mais descontente.--Vou vendo que a
+minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...
+Ermelinda!
+
+E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o
+quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais
+retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por
+dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que
+na porta exerceu o Herodes.
+
+Franqueando assim a passagem, parou no limiar.
+
+Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um
+canto escuro do quarto.
+
+--És tu, Linda? Estás ahi?--perguntou o Cancella, affirmando-se
+n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,
+
+--Meu pae... respondeu com voz fraca.
+
+--Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto
+mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga,
+quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca
+pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas
+esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me
+consola...
+
+E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro.
+Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e
+principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não
+bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas
+assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o
+corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e
+de espanto, bradando emfim, com voz consternada:
+
+--Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as
+tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem
+risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás
+doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda,
+fala!
+
+A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
+
+--Meu Deus! Isto que é, meu Deus?--exclamava, mais assustado, o
+pae.--Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens
+pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar;
+mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?
+
+E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no
+coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação
+d'aquelle doloroso mysterio.
+
+Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais
+commovido:
+
+--Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não
+sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em
+que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim?
+Fala!
+
+E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais
+lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.
+
+Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle
+apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao
+collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber
+o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito
+inquieto.
+
+Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e
+pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos
+trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as,
+soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.
+
+Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma
+palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no
+corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o
+lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco,
+abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o
+desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.
+
+É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor
+beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o
+enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos
+golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.
+
+Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta
+descoberta lançou o coração d'aquelle.
+
+Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.
+
+Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de
+ambos.
+
+A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do
+Cancella.
+
+Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os
+olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e
+gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe
+amontoavam no coração:
+
+--Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?...
+Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te
+deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha
+desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas
+riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te
+tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É
+com este desamor?! e com esta ingratidão?!
+
+--Meu pae! meu pae!--implorava Ermelinda, suffocada pelo
+pranto.--Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?...
+Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os
+cortei... A vaidade é um peccado grande.
+
+--Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?
+Fala!...
+
+--Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!
+
+--Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de
+saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae.
+Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?
+
+--O missionario...--ia a dizer Ermelinda.
+
+O pae não a deixou proseguir.
+
+--Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua
+madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim!
+Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem
+religião, sem Deus...
+
+--Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.
+
+--Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu
+pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...
+Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus,
+e eu não o reconheço nem adoro!
+
+Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o
+desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca
+horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas,
+e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.
+
+--Por amor de Deus--murmurava ella, com a voz chorosa e quasi
+sumida--por alma de minha mãe!...
+
+--Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua
+mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me
+não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão
+amargas e tantas, como eu choro agora!
+
+E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e
+valente, chorava, porque tinha um coração de pae.
+
+Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.
+
+--Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!--dizia ella.--Se soubesse... Fui eu que
+pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe
+ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da
+minha alma, porque...
+
+--E foi tua madrinha que t'os cortou?
+
+--Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um
+santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.
+
+E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do
+Cancella.
+
+--Querem matar-me a filha--bradava elle.--Ó meu Deus! pois não é isto um
+grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui,
+esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um
+crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com
+lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse
+missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem
+traz assim o desespero ao coração de um pae.
+
+E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,
+cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no
+corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos
+postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o
+Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De
+repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que
+alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com
+jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia
+oração, quasi extatica, quando o pae entrou.
+
+--Coração de Maria!--disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a
+vista fixa na imagem, e como falando para si.--Coração de mãe, e de mãe
+extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a
+um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que
+deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as
+desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres--continuou
+allucinado, voltando-se para a imagem--e se não podes ser adorada senão
+assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como
+as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!
+
+E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o
+caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços
+no pavimento.
+
+Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O
+terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi
+lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os
+labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.
+
+Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra
+vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua
+benta, bradando:
+
+--Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.
+
+Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter,
+mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a
+levou de rastos á outra sala.
+
+Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo
+despedaçava ou rasgava.
+
+N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que,
+como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços
+estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento
+inerte e fria como um cadaver.
+
+Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a
+madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.
+
+Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que
+descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella
+cortou-lhe a fala na garganta.
+
+Era de facto um olhar selvagem e sinistro.
+
+A sr.^a Catharina parou.
+
+--Que vem fazer aqui, mulher?--dizia-lhe o Cancella com voz cavada.
+
+--Eu...
+
+--Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares,
+onde metteu a tristeza?
+
+E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava
+outro.
+
+Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.
+
+--Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a
+esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.
+
+A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:
+
+--Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!
+
+Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.
+
+Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a
+pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu
+para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo
+nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão
+a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.
+
+A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora
+chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de
+Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos,
+e implorando misericordia.
+
+--Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto.
+Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o
+coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr...
+pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o
+coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella
+precisa.
+
+E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.
+
+Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres,
+attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára
+de falar.
+
+Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e
+pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.
+
+Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.
+Ermelinda tinha aberto os olhos.
+
+Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o
+aspecto d'elle lhe causasse terror.
+
+--Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com
+maior consternação na voz e no olhar.
+
+Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer
+convulsivamente e n'uma anciedade extrema.
+
+--Deixe a pequena!--disse a beata--não vê que lhe faz mêdo? E com razão,
+pobre creança! depois do que viu!
+
+--Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?--repetiu timidamente o
+pae.--Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...
+
+Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.
+Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a
+soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:
+
+--Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que
+desgraçado que eu sou!...
+
+A scena era bastante commovente, para que se não sentissem
+impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.
+
+Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do
+infeliz, em quem entrára o desespero no coração.
+
+Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,
+que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a
+toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.
+
+Ouviram-se perfeitamente estas palavras:
+
+
+ Vinde, vinde, ó missionarios,
+ Com a palavra de Deus
+ Libertar-nos do peccado,
+ Encaminhar-nos aos céos.
+
+
+O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar.
+
+As vozes continuaram:
+
+
+ Minha alma por vós anceia,
+ Ó ministros do Senhor!
+ E o meu peito em chammas arde,
+ Em chammas do vosso amor.
+
+
+O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos animaram-se-lhe de
+um fulgor extranho.
+
+O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco desembocou na rua,
+em que se passavam estas scenas, um singular cortejo.
+
+O missionario, que nós já conhecemos, por o termos visto em pleno
+exercicio de suas funcções predicatorias, vinha seguido por uma cohorte
+de mulheres de roupas escuras e cabellos cortados, que cantavam em
+chorada cantilena estas e analogas quadras, que os missionarios ou os
+agentes seus teem quasi sempre o cuidado de vulgarisar como
+preparatorios dos animos impressionaveis das mulheres e das creanças.
+
+Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a procissão da
+casa do Cancella.
+
+Este já estava em pé no meio da rua, á espera d'ella.
+
+O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu caminho,
+aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, se lhe
+apresentava escuro como um phantasma, e não conjecturou bem do que via.
+Por isso parou tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se.
+
+O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:
+
+--Sabe quem sou?
+
+O padre fez um signal negativo com a cabeça.
+
+--Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve Deus.
+
+O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem
+procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razão que
+um homem que não ouve Deus não estaria muito disposto a escutal-o, a
+elle, humilde creatura.
+
+--Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de
+minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;
+perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella creança sem
+culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o coração,
+e depois... depois matal-o.
+
+O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu caminhar para elle
+o Cancella, viu no ar aquella mão musculosa e larga, e, calculando a
+violencia do embate pelo volume do braço, julgou-se de antemão esmagado,
+e só pôde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as
+feições, e suspender a respiração, aguardando n'esta postura o golpe,
+que não podia evitar.
+
+Este de facto não foi suave. A mão do Cancella caíu em parte sobre o
+cabeção, em parte sobre o pescoço do padre, e com tal fôrça, que este
+foi constrangido a ajoelhar.
+
+--Anda, meu impostor do inferno!
+
+E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo á
+primeira posição. O chapéo rolou a alguns passos de distancia.
+
+--Anda, meu envenenador de almas!
+
+Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o
+caminho do chapéo.
+
+--Anda, meu calumniador de Deus!
+
+E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em pé, e após,
+dando-lhe um forte impulso e soltando-o das mãos, deixou-o ir á mercê da
+fôrça transmittida.
+
+O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar na quéda
+provavel, e, pé aqui, pé acolá, a passos descommunaes, escapou
+miraculosamente de cair, porém não conseguiu parar senão a muitos metros
+de distancia.
+
+Escusado é dizer que esta scena não correu entre o silencio dos
+espectadores. Mal o Cancella levantou a mão sobre a cabeça do padre, as
+beatas ergueram um alarido de atroar céo e terra.
+
+--Aqui d'El-rei!
+
+--Aqui d'El-rei sobre o Herodes!
+
+--Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José!
+
+--Quem acode ao sr. fr. José?!
+
+--Ai, que matam o santinho do missionario!
+
+E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas esganiçadas
+mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, porém, a intervir mais
+activamente.
+
+A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, em
+cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com respeito.
+
+Este, porém, não oppoz resistencia.
+
+Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento.
+
+Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das imprecações das beatas
+e dos gritos de indignação dos homens.
+
+As devotas mulheres correram para o missionario.
+
+Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o capote.
+
+--Magoou-se, sr. fr. José?
+
+--Doe-lhe alguma coisa?
+
+--Feriu-se?
+
+Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a abanar com a
+cabeça negativamente e deitou a correr, como se visse atraz de si ainda
+a mão espalmada do Cancella, prompta a cair-lhe outra vez sobre a
+cabeça.
+
+Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a multidão engrossára e
+em altos gritos pedia o castigo do criminoso.
+
+O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a multidão.
+In continenti, redigiu um officio ao administrador, no qual foi tão
+feliz que escreveu tres palavras com boa orthographia; e, falando ás
+turbas, disse que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de
+ser punido com todo o rigor das leis.
+
+
+
+
+XXI
+
+
+O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi
+assumpto das conversações geraes de toda a aldeia. Era com indignação
+que se commentava a façanha. Dizia-se que o Cancella fôra apenas o
+instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do
+padre, pela occorrencia da tarde do sermão.
+
+Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes
+offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual
+havia muito suspiravam.
+
+O missionario e os seus ardentes sequazes fôram dos mais acerbos
+propugnadores d'estas ideias, que reforçavam com muitas accusações, de
+hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do
+conselheiro.
+
+A politica viu n'isto uma arma favoravel para combater o adversario, e
+não a desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio,
+manifestamente devida á iniciativa do pae de Magdalena, e
+impopularissima na aldeia, augmentar a irritação dos animos e servir de
+thema a uma violenta diatribe do missionario contra a impiedade da
+época, que nem aos fieis concedia a santa consolação de repousar á
+sombra dos templos.
+
+Tudo isto começou pois a fomentar uma reacção contra o conselheiro, a
+qual ameaçava o resultado da sua candidatura.
+
+Não pequena parte n'esta guerra surda, que principiára a lavrar, tomava
+o seu companheiro de infancia e particular amigo o brazileiro Seabra.
+
+Nunca elle sentira entranhada no coração metade da bem-querença que
+apparentemente ostentava para com o conselheiro: mas depois de uma
+conferencia que tivera com mestre Pertunhas tornára-se mais manifesta a
+sua hostilidade e menos observadora de etiquetas e rebuços.
+
+Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do
+conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o
+missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos
+bens da Igreja.
+
+Foi tambem o brazileiro quem trouxe á flor de agua os antigos excessos
+demagogicos, que caracterisaram o principio de carreira politica do
+conselheiro, e referira, com modos de horrorisado, a substancia dos
+exaltados discursos que elle proferira nas camaras, advogando ideias
+cuja só exposição ferira de pavor a imaginação dos povos.
+
+Finalmente, até o principio dos trabalhos para as estradas, cujo
+protrahido adiamento fôra até aquelle tempo um capitulo de accusação
+contra o pae de Magdalena, servia agora de arma á opposição.
+
+O brazileiro, em attenção a quem se adoptára o traçado que ia ser posto
+em execução, era o que provava á saciedade com grande exhibição de
+cifras e de razões economicas, ser esse traçado, sobre dispendioso,
+irracional.
+
+E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio
+conselheiro, quando este os allegava para vêr se conseguia demovel-o do
+empenho que mostrava em que o traçado em questão fôsse preferido aos
+outros. Tal era o estado das coisas publicas na terra no dia em que
+principiaram os primeiros trabalhos de campo.
+
+Tinham-se passado alguns dias depois da prisão do Herodes.
+
+A aldeia vira-se invadida por um bando de sêres desconhecidos, que
+vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma população habituada
+a considerar como occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros
+ou das cancellas de qualquer proprietario da localidade.
+
+A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais
+operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou
+maiores mudanças na vida moral da aldeia do que nas condições physicas
+d'ella as bandeirolas, os niveladores, as enxadas, as pás, alviões,
+picaretas, carros de mão e padiolas, de que era armada essa cohorte.
+
+Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior
+actividade tinham começado os trabalhos. Era como já dissemos, na casa
+do herbanario. Pela demolição d'ella, e do quintal que a rodeava,
+principiaram as obras.
+
+O velho Vicente assignára dias antes o auto de expropriação e recebera o
+preço da venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro, não
+lhe foi muito regateado.
+
+Elle, porém, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por as arvores
+nada quiz; não podia resignar-se a vendel-as. Podia vêl-as cair, como
+amigos sacrificados no cadafalso, mas mercadejar-lhes com os restos,
+isso não.
+
+O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu á Fazenda Nacional de
+compensação ao excessivo preço por que fôram expropriados os bens de que
+o brazileiro se apossára, com o patriotico intuito de promover os seus
+melhoramentos particulares, preço que por empenho do conselheiro não foi
+litigado.
+
+Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram resistir,
+mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido á cohorte de operarios
+melhor armados do que elles, em parte cedendo ás imperiosas ordens do
+herbanario, que, ao sair pela ultima vez da casa, onde envelhecera, lhes
+disse, com voz irritada e severa:
+
+--Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes
+vós, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz!
+
+Os instigadores das massas conheceram que não era aquella a occasião nem
+aquelle o pretexto proprio para os seus projectos, e adiaram, em vista
+d'isso, a empresa prudentemente.
+
+Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em
+que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.
+
+Na baixa em que ficava a habitação do herbanario, ia uma azafama
+extraordinaria.
+
+O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de destruição;
+desconjuntavam-se as pedras dos muros, desfazia-se em pó a argamassa
+secular, caíam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos das
+arvores, alastrava-se de tijolo e caliça a verdura dos taboleiros, e
+cêdo, de toda aquella vivenda tão amena e virente, só restavam ruinas.
+
+Numerosos grupos de já pacificados espectadores seguiam com curiosidade
+as operações de devastação; mas, longe d'alli, a maior distancia do que
+os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que elle
+orvalhava de lagrimas, o unico coração que elle devéras apertava de dor.
+
+O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se
+divisava toda a scena. Com a cabeça pousada na mão e o braço apoiado
+sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore, que d'alli
+via vacillar e cair, como se fôsse um amigo que o precedesse no tumulo.
+Parecia ter fugido para longe, para pelo menos não lhes ouvir o estertor
+da agonia.
+
+Ao lado do velho estava Augusto.
+
+Não era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da demolição.
+
+Mais do que uma vez tentára arrancar o herbanario d'aquelle sitio. O
+velho, porém, resistiu; queria estar alli até vêr cair a ultima arvore.
+
+Ao pinheiral d'onde assistia á scena, chegava em confusão o alarido dos
+trabalhadores, o rumor do manobrar dos instrumentos, e até o da quéda
+das arvores cortadas.
+
+O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore,
+recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava
+ligada.
+
+--Lá vae aquella faia!--dizia elle, com intensa melancolia--pobre velha!
+Era á tua sombra que meu pae me ensinava a ler! Encostava-se áquelle
+tronco sobre a grossa raiz que elle tem á flor da terra e pegando em mim
+ao collo, guiava-me nas primeiras lições! E viver eu para te vêr cair!
+
+E, ao perceber-lhe balançar as sumidades, o velho fechou os olhos
+instinctivamente. Cêdo ouviu um estrondo... Quando os abriu, estava por
+terra a faia.
+
+--Agora é a tua vez, pobre carvalho!--dizia algum tempo depois--muito
+queria minha mãe áquella arvore! Por suas mãos a plantou bem tenra.
+Nunca me sentei áquella sombra, que me não lembrasse da santa mulher!
+Parecia que eram vozes tuas, que m'a recordavam, infeliz! Barbaros! Olha
+com que desamor a decepam! Perdôa-me, meu velho amigo, mas bem vês que
+te não posso valer.
+
+E o carvalho caíu.
+
+--Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno
+passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto
+cubiçavam as creanças, que pela ultima vez o fazias!... Adeus, pobre
+amiga, adeus.
+
+E caía a cerdeira tambem.
+
+E caíam, uma após outra, todas as arvores do quintal, os limoeiros, as
+nogueiras, os salgueiros e toda a familia vegetal do velho Vicente, que
+sentia ir-se-lhe com ella a alma. Memorias de infancia, sonhos de
+juventude, e reminiscencias de velho, como aves invisiveis, occultas nas
+copas d'aquellas arvores, surgiam agora, espavoridas e desnorteadas, a
+procurar o refugio que não encontravam fóra dalli.
+
+Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram dolorosamente
+feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena casa, onde elle
+envelhecêra e contava morrer, e ao patentear-se indiscretamente aos
+olhos irreverentes e curiosos do povo aquelle recatado asylo.
+
+A demolição proseguia com ardor e actividade. Em pouco tempo, só
+restavam da casa os muros, meio derrocados; e, no quintal, a serra e o
+machado principiavam a exercer no tronco da ultima arvore a sua obra
+destruidora. Era o castanheiro da entrada, gigante de outro seculo, que
+desafiára os raios de muitos invernos successivos.
+
+A exaltação do herbanario cresceu n'aquelle momento. Ergueu-se, pallido
+e trémulo, apoiou-se no hombro de Augusto, murmurando:
+
+--Tambem o castanheiro! Já era arvore quando eu nasci! Como elles se
+encarniçam contra elle! Mas não te parece, Augusto, que não soffre muito
+o castanheiro?... Sabes? É que elle já não agradeceria a vida, porque
+tinha de viver assim desamparado dos seus outros companheiros, que vê
+caídos no chão... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao lado d'elles... É como
+eu.
+
+O castanheiro principiou a oscillar.
+
+--Repara--disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o
+braço de Augusto.--Elle já treme! Não vês!... Lá lhe deitam a corda...
+Vae cair!... Parece-me que estou a sentir aquelle estalar de fibras...
+
+E a arvore caíu com fragor no chão, que por tanto tempo cobrira de
+sombras.
+
+Estava ultimada a obra.
+
+O herbanario encostou a cabeça ao hombro de Augusto e rompeu em soluços.
+
+--Então, tio Vicente, tenha animo--dizia-lhe Augusto, igualmente
+commovido.
+
+--Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para acolá e
+não ver em pé uma só das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um
+sonho isto, um sonho de afflicção! Sinto-me tão só no mundo! Ai! se a
+morte me ferisse agora!
+
+A dor, a saudade e o desalento davam uma uncção de poesia elegiaca á
+figura, ao gesto e ás palavras do velho, que desvanecia tudo o que
+n'elle pudésse haver, nas situações ordinarias da vida, capaz de
+desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente.
+
+Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos
+materiaes, lagrima que não importa uma ironia á civilisação. Exalte-se
+embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como meteoro, as
+povoações e os êrmos; mas não seja isso motivo para condemnar a
+compaixão pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada á
+beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a
+cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de redempção, o vencido, desde
+que cáe, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima de saudade.
+Não tenteis a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos áridos
+que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida á vossa alma sêcca
+e esteril. Quem devéras confia nos destinos da humanidade não tem mêdo
+das lagrimas. Pode-se triumphar com ellas nos olhos.
+
+Passado algum tempo, e quando já as sombras da noite se condensavam nos
+valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o velho disse para
+Augusto:
+
+--Agora que não tenho casa, dá-me por alguns dias o abrigo da tua.
+
+--Por alguns dias?--repetiu Augusto, admirado.--Pois quer deixar-me
+depois!
+
+--Quero. Vou com ellas.
+
+E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas.
+
+Atravessaram a aldeia á hora a que vibravam nos ares os sons
+melancolicos das Avé-Marias.
+
+Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois.
+
+--Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!--disse o
+herbanario, ao transpor o limiar.--Má companhia te fará a minha velhice.
+
+--Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua
+presença podia desalentar quem na mocidade é mais fraco e desalentado do
+que ninguem o pode ser na velhice.
+
+--Custou-me muito este golpe de hoje! Não contava com elle! Desde hontem
+envelheci muitos annos. Podes crêl-o.
+
+Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de fóra da
+porta:
+
+--Dão licença?
+
+E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes
+sorrisos.
+
+O herbanario e Augusto não reprimiram um gesto de impaciencia.
+
+O homem entrou.
+
+--Ora Deus seja aqui! Tão grande é o dia como a romaria, sr. Augusto!
+Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que tinha ido de manhã para
+casa do tio Vicente; vou lá... estava um mundo de gente no sitio... Mas
+qual sr. Augusto, nem tio Vicente! Então com que escorraçaram-n'o do seu
+ninho?... Pobre homem! A falar verdade, n'essa idade! Já sei que vem
+para casa do nosso Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda
+bem que o temos por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que
+tambem fizeram-n'a fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa
+assim!... Coisas cá do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheirão na
+tal estrada! E já por ahi se rosnam coisas! Emfim, politicos! politicos!
+Todos são os mesmos... Vae por ahi uma poeira dos meus peccados com a
+ordem a respeito do cemiterio; e com a historia do Herodes! Sabem que
+elle esteve hontem para matar o missionario?... E valha a verdade, dizem
+que por ordem de alguem do Mosteiro... Que eu não acredito, mas emfim,
+aquella historia no sermão do outro dia... E o tal sr. Henrique, que é
+unha e carne com elles... Elle será muito boa pessoa, mas não me
+calha... Lá feliz, isso como não sei de outro, com dinheiro e sem
+cuidados! E sempre se faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi
+dizer que sim.
+
+O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente
+impassibilidade d'este não illudiu o velho.
+
+O Pertunhas não se exgotára ainda:
+
+--Ora agora, quem anda fulo é o brazileiro, o Seabra. Pelos modos, eu
+não sei o que ahi houve; o conselheiro não o tratou muito bem, dizem,
+n'uma carta que escreveu ao ministro, ou creatura do ministro. Umas
+historias muito complicadas, que eu não entendo, mas que promettem dar
+de si... Veremos em que ficam as eleições este anno... O conselheiro bem
+pode trabalhar, senão... Elle cuidava que era só apresentar-se, e
+emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr. Joãozinho das Perdizes?
+Será fiel esse? Já me disseram tambem que...
+
+--Ó sr. Pertunhas,--atalhou o herbanario, enfastiado--antes queremos não
+saber. Importa-nos pouco a politica.
+
+--Estão como eu... Isto tambem não é politica, mas emfim... Pelo que
+vejo estão cançados? Eu tambem não os maço mais... E antes que me
+esqueça, ha muitas horas que estou de posse de uma carta para vossemecê,
+tio Vicente. É de Lisboa, veio por o correio de hoje. Não lh'a mandei a
+casa, porque... não sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como
+o vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso...
+
+O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando
+para o sobrescripto, disse com indifferença:
+
+--É do Manoel.
+
+E abriu-a lentamente.
+
+O mestre de latim deixou-se ficar, na esperança de ouvir novidades.
+
+A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio de
+indignação e de colera:
+
+--Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem
+sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos amigos,
+com a justiça das causas e com a voz da propria consciencia, do que com
+os caprichos e interesses dos poderosos com quem vive!
+
+--Mas que é?--perguntou Augusto, sem atinar com a significação
+d'aquellas palavras.
+
+--Lê.
+
+E passou a carta para as mãos de Augusto.
+
+O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira
+obrigado a ceder, na questão do despacho de Augusto, a fortes
+influencias que se empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que
+mais tarde lhe explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle,
+talvez fôsse isto até uma vantagem; que o logar que pedia era a sua
+annullação perpetua, e que elle, conselheiro, havia de luctar contra a
+grande modestia do rapaz, trazendo-lhe á luz os merecimentos reaes,
+dando-lhe melhor collocação, e que esperava ainda empregal-o na capital.
+
+Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia.
+
+Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios:
+
+--Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui.
+
+--A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria despachar,
+e breve; e quebrou-a como um pêrro! Oh! o que fizeram d'aquelle homem!
+
+--Quê?! Pois é possivel?--perguntou, exaggerando a sua consternação e
+espanto, o officioso Pertunhas.--É possível que o sr. Augusto não fôsse
+despachado?!
+
+E dizendo isto, passou a desfiar uma série de consolações, qual d'ellas
+mais tôla e sem cabimento.
+
+Até que emfim, tendo já novidades para contar, e almejando communical-as
+aos frequentadores da taberna do Canada, onde devia estar reunida grande
+e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a pretexto de não ser mais tempo
+incómmodo, e deixou-os outra vez sós.
+
+--Estão-me guardados para o fim da vida todos os desenganos! todas as
+amarguras! todos os desesperos!...--disse o herbanario momentos
+depois.--É para se odiar o mundo e os homens vêr um, que conhecemos
+generoso e innocente, contaminado tambem!... Pobre Augusto! Não basta
+que sejam modestos os teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.
+
+Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo:
+
+--Por que te não fazes politico? Por que não vaes tambem para a taberna
+do Canada dizer tolices sobre a governança do paiz? Talvez levasses
+comtigo alguns tôlos, e tinhas n'isso uma recommendação poderosa. Olha
+para aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um
+influente... Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer?
+
+--Ficar--respondeu Augusto, com firmeza.
+
+O herbanario fixou-o com um olhar penetrante.
+
+--Ainda?... Mas... não te vae ser suave agora a vida, rapaz. Para se
+viver não basta uma... uma loucura. Repara bem. Se quizeres... O Manoel
+é leviano, mas creio que ainda não perverso; eu lhe escreverei... talvez
+que em Lisboa...
+
+--Não lhe escreva. Sabe que não partiria para Lisboa...
+
+--Mas... repara!... Estás muito novo, Augusto... Tens um longo futuro
+deante de ti. E, ficando, o que te espera?...
+
+--A morte que fôsse, a morte de miseria e de fome, ficava. Mas resta-me
+ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o.
+
+O herbanario baixou a cabeça, pensativo.
+
+Soaram n'isto á porta da sala duas pancadas lentas.
+
+O herbanario fez um gesto de enfado.
+
+--Não abras sem eu sair,--disse elle a Augusto, que se erguera--não
+estou de animo para aturar importunos.
+
+E passou para uma sala contigua.
+
+Augusto foi abrir ao novo visitante.
+
+Achou-se na presença do brazileiro Seabra.
+
+A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer
+valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro.
+
+Augusto offereceu-lhe cadeira para se sentar, sem inquirir do motivo de
+tão inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou:
+
+--Acabo agora mesmo de saber da injustiça que lhe fizeram. Senti-a como
+se fôra propria, e venho aqui declarar-lh'o.
+
+Augusto curvou-se, em signal de agradecimento.
+
+--Mas então que quer?--proseguiu o homem.--Hoje em dia é tudo assim.
+Padrinhos e mais padrinhos, e o mais são historias. Estamos n'uma época
+de corrupção e de immoralidades, e ninguem sabe onde isto irá parar.
+
+Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu:
+
+--Tôlo é quem não faz como os mais. O mundo está para os velhacos.
+
+Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de
+Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo:
+
+--Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias não pode receber as
+offensas e ficar-se com ellas assim. O perdão evangelico é muito bonito,
+mas não é para homens. Não lhe parece? Eu por mim não gósto de genios de
+lama. Falemos como amigos. Nós ambos somos victimas de um mesmo homem. O
+sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se
+apregoava seu protector. Ahi temos a protecção que elle lhe deu. Eu
+tambem lhe devo finezas.
+
+--V. s.^a?--perguntou Augusto, que não podia saber o que lhe queria no
+fim de tudo o brazileiro.
+
+--Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi.
+
+E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu
+principio á exposição dos seus aggravos:
+
+--O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a
+causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me
+visconde por fôrça. Coisas de que eu me estou rindo... Mas... emfim,
+para me livrar d'aquelle importuno, disse-lhe que... fizesse lá o que
+quizesse... Pois, senhores, não teve o petulante o atrevimento de
+escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da opposição, mantem
+aturada correspondencia; não teve a audacia de lhe dizer que eu andava
+sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel, pois
+promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao Estado,
+visto que com tão pouco me contentava, e outras coisas n'este gôsto? O
+petulante!...
+
+Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam,
+luctava para se conservar sério perante aquella indignação do sr.
+Seabra.
+
+--Mas tem a certeza d'isso?--perguntou elle.--Ás vezes são calumnias...
+
+--Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro não, mas do
+secretario, que é o mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse á
+mão... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo; mas era de
+parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo quanto eu pudésse
+dar, porque... porque... por umas tolices de que eu me lembrei a
+tempo... Ora ahi tem como elles são!... Que venham para cá com os seus
+melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se hão de
+arrepender.
+
+--Mas... talvez haja equivoco.
+
+--Equivoco? Ora essa! Pois eu não li a carta? Ella ha de apparecer em
+publico; oh! se ha de! Isto é, não a parte que me diz respeito,
+porque... porque emfim são negocios particulares, que não interessam a
+terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella, umas promessas do ministro,
+que põem a calva á mostra a este Catão, que nos anda aqui a prégar
+liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com
+muita vontade.
+
+--Acaso tenciona?...
+
+--Se tenciono?! Pudéra não! Eu lhe afianço que o homem ha de saber com
+quem se metteu. Deixe vir as eleições, deixe-as vir. Já ha de achar o
+caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto eu... A lição ha
+de leval-a breve.
+
+--Vão guerrear a eleição do conselheiro?
+
+--Faço essa tenção.
+
+--E quem lhe oppõem?
+
+--O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa.
+
+--Que nem o circulo conhece?
+
+--Que importa? É uma lição. Aqui não ha politica nem meia politica. Eu
+não morro pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro.
+Mas é preciso aproveitar tudo. E assim temos por nós a auctoridade, além
+dos padres.
+
+Augusto não se sentia com disposições para discutir esta questão
+politica; por isso nada mais lhe replicou.
+
+O Seabra proseguiu:
+
+--O que eu quero saber é se o amigo quer entrar na nossa alliança e
+acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A vingança é o prazer dos
+deuses, e visto que foi tambem offendido...
+
+--Não, senhor, não acceito--acudiu com vivacidade Augusto.
+
+--Escute. Deixe-me concluir. Não sabe do que falo. Pouco se exige. A
+coisa é esta: na carta a que me referi, e que por acaso me chegou ás
+mãos, fala-se n'uma outra, ou em outras anteriores, em que se tratava,
+mais por miudo, de uma curiosa transacção politica que n'esta se revela
+claro. O conselheiro é pouco acautelado; haja vista ao extravio d'esta,
+e por isso...
+
+Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se não pudésse
+comprehender onde elle queria chegar.
+
+O Seabra proseguiu:
+
+--Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro... sim,
+porque julgo que continúa a ensinar os pequenos, e, já se sabe... como
+mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais
+como a D. Victoria é... um tanto descuidada, como todos nós sabemos...
+Não sei se me percebe?... Dizia eu... sim, que se ás vezes, por acaso,
+encontrasse coisa que valesse...
+
+Augusto levantou-se, indignado.
+
+--Sr. Seabra!--exclamou, cheio de cólera.
+
+--Valha-me Deus, eu não quero dizer... Não me entendeu... Bem vê que se
+o senhor devesse obrigações ao conselheiro, eu não ousava... Mas...
+
+--Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se não insistir...
+
+--Entendamo-nos. O senhor está no principio da vida. Precisa do auxilio
+de alguem. Offerece-se-lhe occasião para fazer serviços ao governo, que
+é finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para isso? Quasi
+nada... O senhor sabe perfeitamente que se não trata aqui de desgraçar
+ninguem, de levar ninguem á forca.
+
+--Visto que v. s.^a insiste, sou obrigado a retirar-me.
+
+--Espere, sr. Augusto--acudiu o brazileiro, segurando-o.--Repare no que
+faz. Não seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns sacrificios,
+se vir que nas suas circumstancias...
+
+--Visto que v. s.^a não se cala, nem quer que eu me retire, ouça então o
+que tenho para lhe dizer. A sua proposta seria para mim o maior dos
+insultos, se não fôsse tal a baixeza d'ella, que até despe de toda a
+imputação a pessoa que a faz. Os homens, faltos de sentimentos de honra,
+não offendem, quando insultam; não se lhes pode pedir razão da infamia,
+porque não a conhecem como tal; identificaram-se com ella. Por isso, só
+me resta um partido, é convidal-o a sair.
+
+O brazileiro fôra erguendo-se á medida que Augusto falava. Estava
+espantado por vêr que um rapaz, sem um vintem de seu, ousasse falar com
+tal irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crédito em tantos
+bancos! A ordem do mundo estava perturbada!
+
+--Ora esta!--disse elle no fim.--Então o senhor ordena-me?...
+
+--Que saia!--respondeu Augusto, indicando-lhe a porta.
+
+O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do que
+ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra vez,
+e, no limiar, parou para dizer:
+
+--Veja lá o que faz! Eu só lhe digo que me não convem dar a minhas
+filhas um mestre de soberbas.
+
+--Decerto que lhe não poderá convir a educação que eu désse a suas
+filhas; é natural não querer educar consciencias que sejam juizes da sua
+corrupção. Deixe-as ignorantes, para não ser castigado pelo desprezo
+d'ellas.
+
+--Quer então dizer...
+
+--Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra.
+
+O brazileiro saiu, bufando.
+
+Augusto, que ficára só, sentiu-se apertar nos braços de alguem que
+entrou, sem elle sentir.
+
+Era o herbanario.
+
+--É assim, é assim que te vingas de todos, rapaz! Esmaga-m'os com a tua
+nobreza!
+
+Augusto sorriu-se tristemente.
+
+--O peor é, meu amigo--disse elle--que é a segunda subtracção que hoje
+se opéra no meu orçamento, e... a nobreza não nutre!
+
+--Mas consola!--replicou o velho.
+
+
+
+
+XXII
+
+
+Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
+morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu
+atraz de si correr o reposteiro da entrada.
+
+Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.
+
+--Retiro-me, se sou importuno--disse a pessoa que entrára, e que ficára
+no limiar da porta.
+
+Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas.
+
+--Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.
+
+--Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação
+de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno...
+
+--Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da
+correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante.
+
+--Então utiliso-me da concessão.
+
+--Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em
+relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar
+de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E
+como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de
+dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão
+delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
+a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da
+madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir.
+
+--E como vae a pequena?
+
+--Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem
+esperanças, que eu mesma não tenho.
+
+--Que disse o cirurgião?
+
+--Nada animador.
+
+--Como capitulou a molestia?
+
+--Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a
+necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que
+lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão
+que me interessa. Tudo o mais me é indifferente. N'uma pessoa doente
+vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos
+peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero
+saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia
+e a morte.
+
+--Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura,
+prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo
+muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É
+voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
+d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine
+o clamor que por ahi vae!
+
+--Deixe clamar--respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.
+
+--Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
+quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não
+sou muito bem tratado.
+
+--É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente.
+
+--Não receie. Esta gente a final é cobarde.
+
+--Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. Foi uma
+desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario.
+
+--Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o
+ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.
+
+--Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das mais
+agradaveis.
+
+--Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e
+talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se
+interessa em organisar contra o sr. conselheiro.
+
+--Ah! pois trata-se d'isso?
+
+--Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio,
+a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um
+grande mal.
+
+--Oh! se meu pae perdia!...
+
+--Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a
+expressão de um desejo.
+
+--E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez
+para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.
+
+--Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á
+politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia,
+aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as
+politicas, a politica local.
+
+A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
+dizia.
+
+Henrique proseguiu:
+
+--Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O
+brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a
+propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e
+sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto
+seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia
+inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. Já vê,
+prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o
+meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a
+interessar-me pelas questões locaes, como se aqui estivesse, ha annos.
+
+--E é um bom indicio de cura, pode crer.
+
+--E ainda tem empenho de me curar?
+
+--Empenho, todo; esperança é que menos.
+
+--Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a
+sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não
+falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente,
+foi n'uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então
+até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito
+desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei...
+
+--De quê?--perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de
+altivez.--É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção,
+no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu
+interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.
+
+--Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella
+alguma misericordia para com o peccádor?
+
+--Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me
+obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado
+delicadas, com que me mortifica.
+
+--Está sendo tão amavel!...
+
+--Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.
+
+--Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
+Magdalena.
+
+--Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
+do mal, inda não desisti de cural-o.
+
+--Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?
+
+--Ha já agora uma unica maneira de o salvar.
+
+--E é?...
+
+--Apaixonal-o.
+
+--Ah! n'esse caso estou salvo!--exclamou Henrique, n'um impeto, que não
+pôde passar sem um sorriso da morgadinha.
+
+--Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixão,
+sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.
+
+--E como hei de escolher?
+
+-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio.
+
+--A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser mais clara...
+
+--De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
+persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão
+heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa
+indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da
+inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao
+papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma
+inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter
+igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe
+que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o
+esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres
+nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas
+superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se
+n'elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo,
+domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio
+que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes é que deve
+procurar para salvar-se; só d'elle pode esperar a realisação da vaga
+ideia de felicidade, que todos concebem na vida.
+
+--E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia
+encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se
+apoiar?
+
+--Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente
+nas necessidades do seu coração.
+
+Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
+do correio.
+
+--Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu
+pae--disse Magdalena, examinando a carta recebida.
+
+--Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que
+chegaram.
+
+E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas
+de Lisboa.
+
+Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a
+leitura, exclamando:
+
+--Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?
+
+Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.
+
+Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro.
+
+--Ha alguma má nova?--perguntou Henrique, ferido por aquella expressão.
+
+Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura
+até o fim.
+
+Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
+n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a
+mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.
+
+--Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
+perturbar?--perguntou Henrique, já assustado tambem.
+
+--Não sei bem; não posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas
+sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.
+
+--Mas a final o que se diz ahi?
+
+--Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
+certo doloroso.
+
+Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos.
+
+N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um
+abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer
+quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias
+uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem
+politica do que o secretario intimo do ministro.
+
+O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
+compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação
+que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O
+periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado
+os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
+discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre
+quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia,
+recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança
+que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como
+por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á
+filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e
+por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos
+comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa
+classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa,
+como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão--a
+vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres
+a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar
+offendidos, é natural encontrar o criminoso.»
+
+--Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.--De que se
+trata aqui?
+
+--Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é
+necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os
+que, como eu, teem entrada n'esta casa, é isto um mysterio em que a
+nossa honra está empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar
+suspeitas.
+
+-Por amor de Deus!--acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.--Não
+pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até
+aqui não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.
+
+--Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador,
+prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.
+
+--Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
+occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma
+intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu
+Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do
+dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! Meu pae não tem crimes;
+meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos
+as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?
+
+--Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
+criminosos...
+
+--A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para
+explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica
+sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois...
+ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da
+sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma
+nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre
+necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?
+
+--Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem
+fôr escrupulosamente fiel á sua.
+
+--Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh!
+ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vêr...
+quero saber que carta é esta.
+
+Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que não
+costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o
+que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido
+e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
+effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
+Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de
+filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente
+nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas
+frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
+fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém.
+Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe
+revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os
+periodicos:
+
+--Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga
+ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha.
+
+E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de
+que elle mais receiava.
+
+E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.
+
+Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
+Magdalena.
+
+Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, que até
+alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n'um ponto;
+contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou
+e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um
+movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção
+profunda:
+
+--Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d'elle, a fôrça precisa para
+fugir d'estes enredos! Isto é de enlouquecer!...
+
+Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
+examinou-a.
+
+Tinha conjecturado bem.
+
+O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
+tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia.
+Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época,
+impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
+lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande
+significação nem gravidade. O caso era o seguinte:
+
+Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questão
+politica; uma d'estas questões que servem para estremar os campos e
+descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os
+principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
+inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avançadas
+ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir
+n'esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem
+apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem
+que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a fé nas
+utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer
+pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a
+localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a,
+sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se
+parlamentar, se chama conveniencias politicas.
+
+Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no
+conselheiro.
+
+Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua eloquencia,
+variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão
+espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o
+proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discussão, de que
+falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os
+adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o
+conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação
+taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das
+contingencias. Entenderam-se.
+
+Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou
+ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma
+opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á
+provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a
+questão.
+
+Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
+inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
+contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi
+apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós
+a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a
+discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar
+nos circulos politicos contra o resultado da votação e expender as
+razões que deveriam fazer repellir a medida.
+
+Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia;
+e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d'ella.
+
+Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do
+secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as
+condições do pacto.
+
+Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia
+politica do conselheiro soffreu com isso.
+
+Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
+possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
+declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.
+
+Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem,
+invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora
+caia com elles o partido a que se filiam.
+
+Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos
+taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu
+risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.
+
+Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a
+consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma
+significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique
+de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam
+attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.
+
+A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de
+familia.
+
+É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de
+quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos
+lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da
+virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel
+julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas
+dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes,
+filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á
+prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com
+lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter
+duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para
+os actos domesticos.
+
+Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no
+animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente
+moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.
+
+Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem
+cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e
+penosa impressão que lhe ficára da leitura.
+
+Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se
+julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse,
+em tom já apparentemente sereno:
+
+--Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as
+cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas
+não se pronuncia claramente.
+
+N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma
+viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em
+grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de
+manhã os fogões da casa.
+
+Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado,
+levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um
+interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos
+quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique
+tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e
+inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar
+de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.
+
+--Aqui entre nós--dizia Henrique--vejamos em quem se pode, com
+plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem;
+um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de
+valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra
+especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta
+o Mosteiro...
+
+E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para
+elle com um gesto espantado:
+
+--Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos
+indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem
+processo.
+
+--Ora essa, primo Henrique!--exclamou D. Victoria.--Era o que faltava!
+Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.
+
+Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este
+episodio.
+
+Henrique proseguiu:
+
+--Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem
+deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém,
+alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que
+n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que
+por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu
+pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a
+ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações,
+porém...
+
+Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,
+antes de enuncial-a.
+
+--Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.
+
+--Diga, primo, diga--acudiu logo D. Victoria.
+
+--A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha
+áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores
+velhas...
+
+--Então julga que foi o Vicente?--perguntou D. Victoria.--Mas elle não
+vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.
+
+--Não digo que fôsse elle, minha senhora--disse Henrique, cujo embaraço
+augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante,
+como se lhe estivesse lendo o pensamento.
+
+--Então?--insistia D. Victoria.
+
+--Mas--proseguiu Henrique--o velho exerce certa fascinação na gente da
+terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e
+alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero
+seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse
+rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos
+resentimentos da minha parte.
+
+--Faz bem em o abandonar, primo Henrique--disse Magdalena, com
+severidade.--Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita
+injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um
+passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais
+tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio,
+não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da
+suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada
+respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e
+filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia;
+culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer
+arvorar.
+
+--Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento
+sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e
+adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode
+dar do proprio caracter.
+
+D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:
+
+--Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo!
+Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.
+
+Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora
+das lições dos pequenos.
+
+Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao
+Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e
+com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de
+Natal.
+
+A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais
+pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até
+sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o
+caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor,
+cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D.
+Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos
+termos trocados entre Henrique e Magdalena.
+
+--Muito bons dias, sr. Augusto,--disse D. Victoria affavelmente--então
+são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De
+manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!
+
+--Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte
+das minhas obrigações--disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e
+Henrique.
+
+--Como?
+
+--Pois v. ex.^a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu
+logar?
+
+--Que me diz?
+
+Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.
+
+D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O
+gesto de Henrique tinha uma expressão particular.
+
+--Recebi ha dias a participação official--continuou placidamente
+Augusto.
+
+--Mas--proseguiu D. Victoria--o mano tinha aqui dito que o seu despacho
+estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu
+cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo
+menos com esta gente. Isto de politicos...
+
+Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.
+
+--Bem vê v. ex.^a--disse Augusto, com leve tom de amargura--que ás vezes
+ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto
+professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve
+extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.
+
+Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os
+de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.
+
+A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe
+manifestou na contracção da fronte.
+
+--V. ex.^a dá-me licença que principie os meus trabalhos?--disse
+Augusto.
+
+--Ai, quando quizer--respondeu D. Victoria.--Os pequenos estão na sala
+verde.
+
+Augusto saiu.
+
+D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se
+fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que
+aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.
+
+--Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um
+homem--dizia ella.--Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta;
+ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.
+
+E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi
+buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do
+filho.
+
+--Não vejo ...--disse ella, remexendo os papeis.--Isto que é?... Ai,
+isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.
+
+Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.
+
+--Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não
+entendo, mas hão de estar bons.
+
+E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma
+attenção.
+
+--Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse.
+Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja,
+primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a
+leio... Quer vêr?
+
+Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe
+ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos
+filhos.
+
+Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no
+fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e
+outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos
+labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.
+
+Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a
+impressionou:
+
+--Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta
+do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças
+não a comprehenderiam bem.
+
+Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a
+ler.
+
+Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade,
+que a obrigou a ler com rapidez até o fim.
+
+Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto
+entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.
+
+D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.
+
+--Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
+
+--É que ha momentos, minha tia,--respondeu Magdalena, fitando-a com os
+olhos arrazados de lagrimas--em que eu não sei como se resiste á
+loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar
+da Providencia, que dizem que protege os bons.
+
+E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos
+soluços.
+
+D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que
+ella não podia comprehender.
+
+Henrique respondeu simplesmente:
+
+--Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr.
+Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro
+se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.
+
+D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da
+resposta.
+
+--Mas... n'esse caso... visto isso...
+
+--Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha
+pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham
+infelizmente um fundo de verdade.
+
+D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:
+
+--Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não
+esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora
+deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi
+está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...
+
+--Eu retiro-me--disse Henrique, pegando no chapéo para sair.
+
+--Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...
+
+--Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para
+isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.^a e elle, e, se me é licito um
+conselho, bom será que não seja demasiado violenta.
+
+Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.
+
+Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha
+feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e
+irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?
+
+Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel
+ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de
+todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a
+justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que
+commettemos um mal, formulando uma accusação.
+
+Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos
+escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.
+
+D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e
+castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo
+que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.
+
+Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que
+lhe esquecêra na sala.
+
+--Que procura?--disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.
+
+--Uma pasta que deixei aqui!
+
+--Será esta?--disse D. Victoria, mostrando-a.
+
+--É essa mesma--respondeu Augusto, indo para buscal-a.
+
+--Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr.
+Augusto?--perguntou D. Victoria, retendo a pasta.
+
+--Muito bem, minha senhora.
+
+--Já entenderam esta carta?
+
+Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.
+
+--É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver
+escolhido esta entre as que v. ex.^a me deu.
+
+--Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe
+pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a
+imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses
+gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que
+fez, para se mandar pagar.
+
+D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior
+aos seus habituaes expedientes de espirito.
+
+Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia
+comprehender aquellas singulares palavras.
+
+--Diz v. ex.^a que...
+
+Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que
+Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou:
+
+--Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
+
+Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia
+nem o que queria dizer tudo aquillo.
+
+--Mas, por amor de Deus, minha senhora,--disse elle, já
+sobresaltado--que quer dizer tudo isto?
+
+--Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de
+atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em
+esconder as provas da sua villeza.
+
+--Minha senhora!--exclamou Augusto, fazendo-se pallido.
+
+--Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós
+ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a
+carta.
+
+--Oh, meu Deus! pois suspeita-se...
+
+E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e
+começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem
+que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.
+
+Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:
+
+--Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é
+um homem que sabe o que é o mundo...
+
+Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e
+scintillou-lhe o olhar de cólera:
+
+--Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar
+que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame,
+uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...
+
+--Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos--disse D. Victoria,
+interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.
+
+Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:
+
+--Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não
+lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham
+habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É
+uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar
+para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a
+desconfiança que lhes semeia tão cêdo.
+
+D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não
+ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as
+singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso,
+onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.
+
+É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos,
+commovida.
+
+Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento
+tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas
+inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no
+seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos
+olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos
+os prestigios.
+
+Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a
+reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.
+
+--Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não
+succumbir;--exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o
+rubor da exaltação--obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa
+memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a
+intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao
+encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador
+leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta
+casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena,
+unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que
+no teu pensamento o meu nome não é o de um infame.
+
+Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.
+
+Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se
+respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.
+
+--Espere,--disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda
+melancolia--não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o
+reputou sempre innocente.
+
+Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.
+
+Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a
+estender-lhe a mão.
+
+Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.
+
+--Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!--exclamou elle--precisava
+d'essas palavras para não enlouquecer.
+
+--Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão.
+Creio-o firmemente.
+
+--E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa
+generosa confiança. Juro-lh'o.
+
+As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos;
+iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando
+Christina entrou na sala.
+
+Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a
+scena e a commoção dos dois.
+
+Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.
+
+Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando
+correr livremente o pranto.
+
+Christina correu a abraçal-a.
+
+--Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?--exclamou Christina.
+
+E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel
+ingenuidade:
+
+--Pois tu... amaval-o?
+
+Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.
+
+E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu do
+Mosteiro, ainda sem plano formado, sem tenção definida, mas
+comprehendendo vagamente a necessidade de abraçar uma resolução
+qualquer.
+
+As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltára, tinham-lhe feito
+conceber a suspeita de que Henrique não fôra alheio á calumnia que
+pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga não ia
+longe, e justo é confessar que não era destituida de plausibilidade a
+ideia.
+
+A especie de aversão reciproca que, desde o primeiro encontro, os
+dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de Natal, em que
+ficára pendente entre elles uma provocação, só á espera de pretexto,
+concorriam para dar vigor a esta supposição.
+
+Por isso, depois de por muito tempo percorrer á tôa os caminhos dos
+campos, sem consciencia nem destino, Augusto encaminhou-se resolutamente
+para Alvapenha.
+
+Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que
+occasionaram a sua accusação. Mal poderia até dizer de que era accusado.
+Percebeu que se tratava de um abuso de confiança, de uma infamia, mas a
+impressão recebida fôra tal que não o deixára investigar os pormenores
+do facto. Previa em tudo isto uma traição, e, para a esclarecer,
+dirigiu-se á unica pessoa de quem lhe parecia provavel que ella
+partisse.
+
+Quando chegou a Alvapenha já tinha alli passado a hora de jantar.
+
+Henrique retirára-se para o quarto, D. Dorothéa e Maria de Jesus,
+aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a rezar parte das
+suas longas orações quotidianas.
+
+Quando Augusto bateu á porta, estavam ellas de volta com a ladainha, que
+D. Dorothéa dizia em latim, a seu modo, e a que Maria de Jesus respondia
+no mesmo idioma.
+
+--_Turris e burris, fedilisarca, espeque da justiça, Joannes
+asellis_--dizia D. Dorothéa.
+
+--_Orá pér nós_--respondia invariavelmente a criada.
+
+A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala.
+
+Poucas situações se podem conceber mais exasperadoras de animo do que a
+de Augusto n'aquelle momento.
+
+Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixões, trazer no
+coração uma verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na
+presença de duas indoles essencialmente pacificas, de dois corações a
+que a paixão nunca alterou o rithmo, de duas consciencias de que nunca a
+dúvida, o remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, é um
+martyrio cruel.
+
+Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.
+
+--Ditosos olhos que o vêem!--disse D. Dorothéa, arredando deante de si a
+dobadoura, para mais á vontade contemplar o recem-chegado.--Não sei que
+mal lhe fizeram n'esta casa!
+
+--As minhas occupações...--balbuciou Augusto, sem saber o que dizia.
+
+Maria de Jesus veio de reforço á ama.
+
+--Isso! fale-nos nas suas occupações, nem que se não soubesse cá que
+todos os dias dá o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas
+quintas-feiras e domingos...
+
+Augusto não respondeu.
+
+--Pois olhe que todos aqui lhe querem bem--disse D. Dorothéa.
+
+--Assim o creio, minha senhora.
+
+--Eu fui muito amiga de sua mãe, que era uma santa creatura. Inda me
+parece que a estou a vêr ahi sentada, com aquella capa rôxa que trazia.
+A alegria d'ella, quando o Augustito veio de Lisboa! Vi-a chorar e
+agradecer a Deus o filho que lhe tinha dado... Todo o seu desejo era não
+morrer antes de o vêr padre; queria pelo menos uma vez commungar das
+suas mãos... Coitada!... Não lhe concedeu isso o Senhor, que bem cêdo a
+chamou a si.
+
+E continuou para Augusto:
+
+--Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui
+do legado que ella deixára, eu disse logo: «Ora a alma tem ella no Céo
+por isto, quando por mais não seja». Porque, emfim... só quem não
+conheceu sua mãe é que não diria outro tanto. Verdade é que elle não
+chegou a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o
+que lhe não convem. E eu digo, a vida de sacerdote é muito bonita, isso
+é, mas... não havendo inclinação...
+
+Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha.
+
+--O sr. Henrique de Souzellas está em casa?--perguntou elle, logo que
+pôde.--Desejava muito falar-lhe.
+
+--Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle
+deve estar no quarto... Ha de estar a ler. Não tem outra vida aquelle
+rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: «Henriquinho, olha que
+isso faz-te mal...» É o mesmo que nada. Só ler, ler, ler, que é uma
+coisa por maior. Ao principio ainda por ahi dava alguns passeios...
+Agora, tirando lá as suas visitas ao Mosteiro, elle para ahi fica. Lá ao
+Mosteiro sim, para ahi ainda elle vae.
+
+--É que os ares são por alli muito saudaveis--disse maliciosamênte Maria
+de Jesus.
+
+--Adeus! ahi vem vossê com as suas coisas. E então que tem? Pois está
+claro que um rapaz, como elle, dá-se com a gente nova.
+
+--Pois sim, senhora, eu não digo...
+
+--E as raparigas de lá já não estão bem sem elle... Ora eu confesso,
+quando elle está de maré, é um gôsto ouvil-o. Sempre ás vezes tem coisas
+que fazem rir as pedras.
+
+--E pondo-se a contar historias? Ih! isso então é que é! Eu não sei onde
+elle as vae buscar!--accrescentou a criada.
+
+--Com esta--continuou D. Dorothéa, apontando para Maria de Jesus--é ás
+vezes um passo. Eu ainda queria que o Augustito os ouvisse a ambos. É
+perdido em pouca gente. Elle põe-se lá a inventar patranhas, e ella a
+tôla, que sabe já como elle é, ouve tudo muito séria e fiada, e no fim
+então é que são os escarcéos. Emfim, uma coisa é dizer, outra é vêr!
+
+E D. Dorothéa ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em que ha não
+sei que indicios de uma existencia placida, que consola ouvir.
+
+Augusto forçava-se a sorrir áquellas narrações das duas velhas, a que
+elle mal attendia.
+
+--Eu digo--continuou D. Dorothéa--que já nos havia de fazer falta se
+saisse d'aqui; quando cá não está parece-me a casa morta.
+
+--Deixe lá, senhora, que este já d'aqui não sae.
+
+--Ora bem sabe vossê d'isso.
+
+--Pois a senhora verá. Ora! Os passeios ao Mosteiro são muito bonitos.
+
+Augusto ergueu-se, devéras resolvido a cortar a conversa por uma vez.
+
+--Se me dá licença, eu vou procural-o ao quarto. Desejava falar-lhe,
+quanto antes, para um negocio de urgencia.
+
+Depois de mais algumas reflexões, resignaram-se a deixal-o partir.
+
+Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto de
+Henrique, e bateu á porta d'este.
+
+--Entre quem é--disse de dentro Henrique.
+
+Augusto entrou.
+
+O sobrinho de D. Dorothéa estava sentado junto da janella, lendo uma
+folha e fumando.
+
+Ao vêr Augusto levantou-se.
+
+A lembrança das scenas d'aquella manhã no Mosteiro, e a expressão de
+physionomia de Augusto, fizeram-lhe prevêr a indole da entrevista que se
+ia seguir.
+
+Evitando porém o menor indicio, que pudesse revelar a prevenção em que
+estava, disse naturalmente, estendendo a mão a Augusto:
+
+--Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita?
+
+Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:
+
+--Assim estende a mão a um miseravel? Ou é tibieza de pundonor, ou
+excesso de magnanimidade!
+
+Henrique retirou logo a mão e respondeu com orgulhoso desdem:
+
+--Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para não me
+arvorar em superintendente de negocios que me não dizem respeito; é um
+sentido especial, que se chama delicadeza.
+
+--É um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso sentido--replicou
+Augusto no mesmo tom.--Nem sempre são tão observadas pelo senhor, essas
+delicadas abstenções, como agora. Sei-o por experiencia.
+
+--Não o são desde que os interessados me ordenam que intervenha, e desde
+que a minha intervenção pode ser util a amigos.
+
+--Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em relação
+ao objecto que me traz aqui, espero que me explique a natureza da sua
+intervenção.
+
+--Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui explicações?
+
+--Com o direito que me dá a consciencia, senhor!--respondeu
+energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de
+ironia.--Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e
+infamemente, como eu fui, de provocar uma accusação aberta e leal.
+Direito? É mais ainda do que direito, é dever. É um dever para com a
+moral, é um dever para com a consciencia, é um dever para com a memoria
+d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado.
+
+--Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e não
+lh'o contestarei, por que singularidade acontece que seja eu a pessoa
+que tem de responder por tudo isso? Por acaso será este o pretexto, para
+depois do qual tinhamos adiado uma entrevista que suppuzemos
+necesssaria?
+
+--Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem infame
+e vil. Não lh'o invejo. Da minha não é pretexto; é uma interrogação bem
+positiva e terminante. Todos os motivos anteriores, que podiam
+auctorisar-me a procural-o, cessaram ante a impreterivel exigencia
+d'este. Preciso de justificar-me, e por isso preciso de conhecer e de
+ouvir os meus accusadores.
+
+--E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia
+escolher uma hora mais cómmoda. Sabe que na Alvapenha se janta
+patriarchalmente ao meio dia.
+
+--Não julgue que com essas ironias de mau gôsto, se esquivará a
+responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a falar com seriedade.
+
+--E tem meios para isso?
+
+--Faço-lhe a justiça de acreditar que sim; creio que ainda não estará
+tão envilecido que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe
+infligir...
+
+--É provavel que não risse, no caso que diz; mas tambem não falava,
+acredite. Ha, para interrogações d'essas, respostas mais adequadas e
+discretas. Não tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, quem lhe disse
+que eu não queria dar-lhe todas as explicações que souber? Sente-se,
+conversemos placidamente, que é a melhor maneira de vêr claro nas
+coisas. Não fuma?
+
+Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia:
+
+--Está-me causando tedio e compaixão ao mesmo tempo, senhor. Deve ter já
+uma alma bem corrompida para me receber assim. Ainda quando eu fôsse um
+criminoso, se no seu caracter houvesse brio, dignidade e sentimento
+moral, devia a minha presença ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto,
+para o não deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza em que
+está, em que deve estar por fôrça, a só ideia de que pode calumniar um
+homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a gravidade
+d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser attendido.
+Para não comprehender isto, para não respeitar esse sagrado direito, que
+tem todo o accusado de se defender, é necessario estar corrompido até o
+fundo da alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, só se
+dá em quem duvída de si proprio, e a si proprio se não respeita, porque
+se conhece. O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia,
+cujos amigos generosos não a receberam sem dor; e quando o calumniado
+lhe vem pedir explicações, porque se trata da sua unica riqueza, porque,
+sem familia e pobre, e ámanhã talvez na miseria, precisa de defender o
+unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um sorriso ultrajante,
+para occultar talvez a cobardia, que não ousa repetir na face do
+accusado as insinuações que contra elle fez na ausencia. Se a
+consciencia lhe não exprobra esta infamia, teve razão ao dizer-me que me
+enganei procurando-o. A caracteres d'esses não se pede a explicação da
+calumnia; é a sua manifestação natural.
+
+E terminando estas palavras, que a mais violenta paixão lhe dictára,
+Augusto caminhou para a porta do quarto.
+
+Henrique deteve-o.
+
+No espirito do leviano hospede de Alvapenha passára-se n'este curto
+intervallo de tempo uma profunda revolução moral.
+
+Na voz, no gesto e na indignação de Augusto pareceu-lhe perceber
+vestigios de sinceridade, em que até alli não acreditára, e desde esse
+momento, além dos remorsos pelos desdens com que o recebêra, sentia viva
+a necessidade de uma reparação.
+
+Magdalena tinha razão.
+
+No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um não exgotado
+fundo de pundonor e de moralidade.
+
+--Não saia--disse elle para Augusto, já sem a menor sombra de
+ironia.--Se para isso fôr necessario pedir-lhe perdão, pedir-lh'o-hei.
+Que mais quer?... Reconheço-lhe o direito que tem de ser escutado.
+Fique. E creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu,
+que em bem pouco concorri para ellas, sinto-me já movido a não lhes dar
+fé. É já um convencimento tão intimo como o que até agora tinha da sua
+culpa, confesso-o. Se na minha mão estiver esclarecer o mysterio, conte
+commigo. Fale.
+
+Augusto fitava-o ainda com desconfiança.
+
+Henrique percebeu-o e continuou:
+
+--É justa a dúvida que lhe leio no olhar, mas, como sómente o meu
+procedimento futuro a pode desvanecer, peço-lhe que não deixe por isso
+de falar.
+
+--Antes de mais nada: de que me accusam?--perguntou Augusto.
+
+--Pois não sabe?!--exclamou Henrique, admirado.
+
+--Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a conclusão em
+que fiquei, mal me deixou comprehender...
+
+Henrique contou então tudo o que se passára no Mosteiro, e terminou
+dizendo:
+
+--Já vê que eu não fiz mais do que faria outro qualquer em meu logar.
+Pesava sobre todos quantos frequentavam aquella casa uma desconfiança
+odiosa: esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lançar aos hombros
+do culpado toda a responsabilidade da traição, era o natural empenho de
+todos. A descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta
+foi occasionalmente feita por D. Victoria. Eu não o conhecia bastante
+para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das
+apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por
+aquella occasião confirmaram, explicavam muito bem certas tentações de
+vingança... Nada mais natural do que suppôr...
+
+Augusto cobriu o rosto com as mãos, murmurando:
+
+--Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de...
+
+Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a indiscreção da sua dor.
+
+Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas disposições para
+com Augusto; por isso, quando este cortou assim em meio a expressão do
+pensamento, elle, que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo:
+
+--D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto,
+advogados eloquentes.
+
+Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador.
+
+--Diz que...
+
+--Que não deve temer da impressão produzida, por todas as provas d'este
+mundo, no animo de quem, através de tudo, acreditará sempre na sua
+innocencia.
+
+--Refere-se a...
+
+--Ao seu segredo, que ha muito o não é para mim. Veja como eu estou
+virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com elle, quando ha pouco
+tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a causa occulta de tal ou
+qual antipathia, que sentia pelo senhor... que sentiamos um pelo outro,
+digamos assim.
+
+--Mas...
+
+--Vamos, vamos... eu sei que é discreto; nem esta era occasião para
+entrar em confidencias. Tratemos do que mais importa... Não sei como é
+que iria jurar agora a sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e
+com o tempo... porque francamente lhe declaro que me é necessario algum
+tempo para desvanecer em mim todos os restos de despeito e de...
+paixão... porém, com o tempo, talvez venha a ser seu verdadeiro amigo...
+sem a menor prevenção.
+
+E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom:
+
+--Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes
+inimigos aqui na terra para o enredarem assim! É preciso esclarecer
+isto.
+
+--Inimigos?!... Não os conheço, nem vejo motivos...--disse Augusto,
+pensativo. Mas de repente, como se lhe acudisse um pensamento luminoso,
+fez um gesto que Henrique percebeu.
+
+--Que é?--perguntou este logo.--Descobriu?... Diga... Uma suspeita é já
+um rasto precioso... guia os primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei
+a seguil-o.
+
+--Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi. É isso...
+
+E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.
+
+--E ainda agora se lembra d'elle?--exclamou Henrique, ao ouvil-o--e inda
+hesita?! O senhor é de uma boa fé!... Temos o fio!
+
+--Mas como pôde elle...?
+
+--Isso depois; o mais virá a seu tempo. Agora trata-se de vigiar esse
+senhor... E agora me lembra; elle é um dos oradores do club do Canada...
+Sondarei esse antro tenebroso... Eu já devia suppor que andava aqui
+miseria politica... Estou a achar razão áquella adoravel Magdalena...
+Perdão... inda não perdi o habito de a adorar... Tambem, desde que o
+consiga, serei seu amigo sem restricções. Até lá, porém, não será isso
+motivo para de corpo e alma me não dedicar á sua causa... Eu posso ter
+todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma velhacaria;
+e, fôsse o meu maior inimigo que eu visse victima d'ella, creia que
+procuraria desfazel-a.
+
+--Agradeço-lhe essas palavras, que acredito são sinceras; não posso,
+porém, acceitar a intervenção que me offerece. Eu sou que devo
+justificar-me. Está empenhada n'isso a minha dignidade.
+
+--Como queira. Em todo o caso espero que uma má prevenção o não
+constranja a não recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio lhe puder
+servir. Agora peço-lhe perdão, se alguma vez o offendi de mais; mas
+vamos lá, o senhor tambem não está de todo isento de culpa... E quanto
+ao pretexto... adiado mais uma vez, não lhe parece?
+
+Augusto não podia fechar-se áquelle caracter, que se lhe estava
+mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso respondeu,
+sorrindo:
+
+--Adiado para sempre.
+
+E estenderam as mãos um ao outro, apertando-as já sem o menor
+resentimento.
+
+Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender.
+
+--É notavel;--pensava comsigo Henrique--estou sympathisando á ultima
+hora com este rapaz! Mas como se combina isto com a minha paixão por
+Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha que ella acertasse, e
+que não fôsse paixão o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista tão
+apurada para estas discriminações!
+
+
+
+
+XXIV
+
+
+O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes;
+porém, graças ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a
+favor do prêso, e apesar da perseguição que lhe moviam os padres,
+contava-se que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia dentro em
+poucos dias.
+
+Magdalena não se descuidára de mandar todos os dias ao pobre homem
+noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado
+sérios cuidados á medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo
+de convalescença.
+
+Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber
+por quê, ella propria não sentia as esperanças que dava.
+
+Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, á
+maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximação
+do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feição
+assustadora.
+
+Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de
+saude principia a tingir as faces, até então pallidas, e elles sentem-se
+ainda estremecer de secretas apprehensões.
+
+Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feições da pequena
+Ermelinda.
+
+A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de
+vida principiára já a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de
+terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancolico,
+distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras
+nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia
+assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as
+vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar
+n'ella.
+
+O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado
+pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar
+d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a
+dar-lhe a boa nova.
+
+E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehensões
+da morgadinha.
+
+Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais tranquilla
+e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os
+indicios do mal profundo.
+
+Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores,
+gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia
+despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao
+dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi
+completa insensibilidade de funesta significação.
+
+Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e
+trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, já
+quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.
+
+Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de
+inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que
+principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creança;
+ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas
+para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um
+reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára.
+
+Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já vacillante, com a
+expressão, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se
+despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente
+para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade.
+
+Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes
+lagrimas.
+
+A morgadinha apertou-a ao seio, commovida.
+
+--Que tens tu, minha filha?--disse-lhe com meiguice, afagando-a.
+
+Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma
+expressão de affecto e de tristeza.
+
+A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a.
+
+A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a
+como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a Magdalena
+haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a inquietou.
+
+Palpou as mãos da creança; estavam frias; o coração, parado; chamou-a
+pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas
+feições... estava morta.
+
+Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o
+adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella,
+arrebatasse nas azas para o throno de Deus.
+
+A morte de uma creança como Ermelinda é um facto de ordinario
+indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz
+que emmudece nos festivos córos da infancia; algumas sentidas lagrimas
+de mãe sobre um berço vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á
+superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a rosa
+desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis tudo.
+
+A multidão segue no delirio das festas, na lucta das paixões, na febre
+da ambição e das glorias, e o perfume da flor pendida não lhe affecta os
+sentidos embriagados.
+
+Ás vezes, porém, não succede assim, e assim não devia succeder com
+Ermelinda.
+
+As paixões humanas, que ante o cadaver de uma creança, coroada de flores
+candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como
+deante de uma visão do Céo, tomam-n'o ás vezes por estimulo para mais
+furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedição e a
+vingança.
+
+Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente os
+enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito do povo, não
+tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em
+execução.
+
+A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas instigações de
+alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do
+conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas não rompêra em explosão
+por falta de pretexto.
+
+Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um
+maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á formação de
+magotes nas encruzilhadas e nos largos.
+
+Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a
+effervescencia dos animos. Era chegado o momento.
+
+A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz
+que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa do Mosteiro. Cumprindo
+assim a lei, prestava-se tambem culto á affeição que todos sentiam pela
+creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irmã.
+
+Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a indignação popular.
+
+No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde
+do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada
+extraordinario ajuntamento.
+
+O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas,
+alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joãozinho,
+falavam, berravam e gesticulavam a um tempo.
+
+O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e
+guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que
+pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraiçoar, achava-se
+agora muito abalado, porque na questão dos cemiterios era intolerante,
+não podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, como
+elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio.
+
+O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joãozinho, não
+se cançava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e
+atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia.
+
+Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão do morgado
+para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do coração do
+conselheiro, que privára cruelmente o pobre velho da sua propriedade,
+golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito
+contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe
+poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha
+interesse em que não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma
+grande porção dos proprios bens.
+
+Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de grosseiro e
+bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos
+de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes.
+
+Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o espirito
+tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que
+elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de
+Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este
+negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o
+que dava logar a novas punhadas, novas irritações e a novas pragas do
+sr. Joãozinho.
+
+No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de costume, as
+suas libações de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio
+fechados, ouvia com irritação os commentarios dos circumstantes e
+distribuia com profusão pragas e murros.
+
+--Com os diabos!--berrava elle, acabando de despejar um copo de
+quartilho.--Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir á
+igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena.
+
+--Isso não se faz assim com essa facilidade e arreganhos--disse
+velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais.
+
+--Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa que me
+dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do Cancella... não tenho eu
+nada... lá se avenham.
+
+--A questão não é ser filha do Cancella ou deixar de ser;--tornava o
+brazileiro--a questão é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os
+outros.
+
+--Menos eu--exclamou o morgado.
+
+--Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar.
+
+--Diabos me levem se...
+
+--Pelos modos--disse um padre do lado--elles enterram a rapariga no
+tumulo da familia do conselheiro.
+
+--Pois vêdes; se elles são todos da mesma confraria!--ponderou o
+Pertunhas.
+
+--E se não, é vêr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Então
+julgam que aquillo não foi combinação?--disse o padre.
+
+--Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe
+bater--accrescentou um lavrador.
+
+--A mim me disseram que trinta.
+
+--Sempre uma pouca vergonha como aquella!
+
+--E verão que não lhe succede mal.
+
+--Pois não, não; elle está alli, está na rua.
+
+--Diz-se que o soltam á fiança.
+
+--Não pode ser; aquelle crime não tem fiança--ponderou um fazendeiro,
+que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justiça.
+
+--Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles...
+
+--Aquillo parece uma seita.
+
+--E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles são pedreiros-livres.
+
+--E o tal lisboeta?
+
+--Esse, então, é que é d'aquelles!
+
+O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique.
+
+--Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caçoar
+com o missionario? Sempre vossês são uns homens de lama, tambem! Ó
+Cosme--continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao
+lado d'elle--olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo?
+
+O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros.
+
+--Pois, senhores--proseguiu o brazileiro, que não queria deixar
+arrefecer o enthusiasmo e a irritação do publico--hoje decide-se a
+coisa... D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso
+faz lei.
+
+--Isso é que é verdade--secundou o Pertunhas.
+
+--Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir desenterral-a--respondeu,
+cada vez mais azedado, o sr. Joãozinho
+
+--Não; isso lá mais devagar--acudiu o brazileiro--vossemecê bem sabe
+que, estando ella no mausoléo do conselheiro...
+
+--Importa-me cá o mausoléo? O senhor está a ler. Eu com um empurrão
+arrumo aquella platafórma a terra. Ó Cosme, olha nós, hein?
+
+O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
+
+--Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de
+vontade, que não deixasse fazer o enterro--disse o padre.
+
+--Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca assim com o
+povo.
+
+--Lá isso era!--repetiram algumas vozes.
+
+--Eu por mim... se alguem fôr...--aventurou um.
+
+--E eu, eu--ouviu-se dizer de alguns pontos da sala.
+
+--Deixem-se de contos,--continuou o padre--elles fazem o que querem,
+porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha á frente do
+povo...
+
+--Lá isso é que é verdade.
+
+--Já não ha homens para as occasiões.
+
+O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de valente, e se gabava de
+ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e
+protestou dizendo:
+
+--Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, não vou ao cemiterio,
+eu só, e ponho tudo aquillo em cacos? hein?
+
+--Isso não se faz com essa facilidade--disse o brazileiro
+impertinentemente.
+
+--A quanto aposta vossê?--bradou, cada vez mais afogueado, o sr.
+Joãozinho.
+
+--Ora vamos--continuava o brazileiro com os mesmos modos--não que a
+auctoridade...
+
+--A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! O regedor
+commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco?
+
+O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes:
+
+--Se queres tentar...
+
+--Com mil demonios!--disse o morgado, exgotando mais um copo--vamos a
+isto! anda d'ahi, ó Cosme!
+
+O Cosme levantou-se.
+
+--Nada de imprudencias--aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a
+significação contraria ao pensamento que exprimia.
+
+--Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se
+ha ou não ha um homem para as occasiões.
+
+E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus arrojados camaradas,
+e o brazileiro já conferenciava com o padre, que lhe respondia com
+signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle
+movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por não
+habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou
+geral extranheza.
+
+Era Henrique de Souzellas.
+
+Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos
+occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a
+cavallo e deu um longo passeio pelos arredores.
+
+Na volta achou-se defronte da taberna do Canada.
+
+Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e das pragas que iam lá
+dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que
+fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vêr se encontrava
+vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto.
+
+Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou.
+
+Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a sua presença, e até,
+pela expressão com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse
+demasiado prudente o passo que dera.
+
+Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor
+manifestação de receio.
+
+Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia.
+
+O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente
+do que desejava o recem-chegado.
+
+Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não obstante estar
+firmemente resolvido a não lhe tocar.
+
+O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio
+associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da
+sêde.
+
+Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu
+a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos
+havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se
+lançasse uma pedra de gêlo.
+
+Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e
+que ameaçava degenerar em maior tormenta.
+
+O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para não ser
+visto; o sr. Joãozinho olhou para Henrique, como se o não conhecesse, e
+conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no
+recem-chegado olhares sombrios e ameaçadores.
+
+Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, sustentava-os sem
+desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a
+pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos.
+
+--É preciso ensinar estes espiões--dizia uma voz audivelmente.
+
+--Que quererá d'aqui este figurão?--perguntava outro.
+
+--Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a nossa vida...
+
+O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braços sobre a
+mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para
+Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe já algum tanto a voz nas
+fauces:
+
+--Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar,
+sempre lhe dou uma lição, que lhe ha de lembrar toda a vida! Não, que
+isto aqui não é Lisboa! Eu não admitto que se olhe para mim com falta de
+respeito... Já disse! Eu não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto!
+O senhor não ouve?
+
+Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado.
+
+--Ó senhor lá... Faz favor de não olhar para mim d'essa maneira?
+
+Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu.
+
+--Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera!
+
+E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se.
+
+O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos.
+
+Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos.
+
+--Então! então! isso o que é?
+
+--Quero perguntar áquelle senhor de que é que se ri--bradava o morgado,
+furioso.
+
+--Para isso não se incommode--respondeu Henrique--eu mesmo d'aqui lhe
+respondo. Rio-me da ridicula figura que está fazendo.
+
+--Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó Cosme!...
+
+E o morgado barafustava entre os braços debeis que o retinham. No povo
+principiou a subir a maré das murmurações contra Henrique.
+
+--O senhor vem para aqui armar desordens?
+
+--É para espiar?
+
+--Depois queixe-se...
+
+--Não se metta com a gente.
+
+O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mãos
+que o retinham, conseguiu, graças aos seus musculos robustos, sacudir de
+si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por prevenção se
+collocou a pé.
+
+O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para
+elle:
+
+--O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para
+mim... Quero vêr agora se ainda se ri.
+
+--Por que não? Se cada vez está mais ridiculo!
+
+O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a
+Henrique.
+
+Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante
+de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, dizendo
+motejadoramente:
+
+--Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar.
+
+O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho ficaram litteralmente
+tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mão á faxa da cinta, como
+a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se
+a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si.
+
+O morgado torcia-se e espumava sob a constricção de Henrique, e já
+congestionado e rouco bradou:
+
+--Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse maldito!...
+
+A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do
+Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zangão.
+
+O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crédito do
+estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que
+infallivelmente lhe seria fatal.
+
+A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido.
+
+Henrique estava incólume, e o morgado sôlto.
+
+Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado preparava-se com os
+seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre
+bradarem:
+
+--Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo!
+
+E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por
+varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e tão
+convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco:
+
+--Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao
+cemiterio!
+
+--Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.
+
+--E queime-se a papelada da camara!
+
+--E mate-se o escrivão de fazenda!
+
+--E quebrem-se os vidros do Mosteiro!
+
+--E pegue-se fogo á casa!
+
+Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho.
+
+--Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio!
+Atiremos a terra com o tal mausoléo!
+
+E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto,
+percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do
+Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o
+e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se
+anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar
+por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no
+ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada,
+partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique,
+acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.
+
+Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do
+cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se
+pacificamente aos lares.
+
+O sino da igreja continuava a repicar.
+
+
+
+
+XXV
+
+
+Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia
+por aquella tarde de inverno!
+
+Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de
+toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo
+ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes.
+No centro d'este espaço elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da
+familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os
+ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a
+erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes
+ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se
+um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se
+podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos
+campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli,
+a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro,
+agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria.
+
+A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a
+tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em
+quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas
+sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido
+melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente
+se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente
+uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul
+recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado.
+As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o
+aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais
+carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda,
+apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.
+
+Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme,
+cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em
+quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos.
+
+Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.
+
+Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a
+infeliz creança.
+
+Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando
+a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
+
+Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos;
+muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova
+fórma de enterro lhes suscitava.
+
+As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do
+Canada, nem por isso faltavam.
+
+Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão
+e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam
+assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam
+enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta,
+aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de
+peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus
+threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do
+inferno.
+
+Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
+entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos
+proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.
+
+A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
+
+Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára
+adoentada.
+
+Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á
+campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma
+d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as
+outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham
+por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
+extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas
+para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa
+religiosa.
+
+Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres
+ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que,
+saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda
+devia ser sepultada.
+
+O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
+que as nuvens não toldavam.
+
+A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
+que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
+intensidade.
+
+A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
+reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
+verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina,
+recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto
+venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era
+o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os
+preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes
+energicamente os combatia e censurava.
+
+Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de
+creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a
+formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
+innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica
+alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça,
+cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa
+inclinação que lhe era habitual em vida.
+
+As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e
+Christina, entre as mais gentis da aldeia.
+
+Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
+formoso.
+
+A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com
+o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo
+melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no
+cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de
+inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que
+morrem.
+
+Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já
+occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos
+em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres
+abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a
+borda da sepultura.
+
+O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
+
+Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
+
+Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que
+tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se
+approximasse em tropel.
+
+As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
+activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa
+por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas,
+tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio,
+gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a
+distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.
+
+Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do
+dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a
+cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar.
+Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já
+antevista.
+
+Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto
+feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e
+todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre
+sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.
+
+Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
+estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que
+no caminho se incorporam as aguas dos algares.
+
+Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o
+_factotum_ Cosme.
+
+Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando
+em confusão:
+
+--Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
+
+--Esperem! Isso não vae assim!
+
+--Não façam a festa sem nós!
+
+--Fóra com os do cemiterio!
+
+--Morram os pedreiros-livres!
+
+--Para a igreja!
+
+--Enterre-se na igreja!
+
+--Olá, sr. abbade, espere por nós!
+
+--Aqui vamos para abençoar a cova!
+
+E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
+gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
+
+O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos,
+abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o
+esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e
+chorosas.
+
+A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade
+para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o
+cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que
+já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo
+de piedade.
+
+O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
+
+--Que querem d'aqui?--perguntou elle, fitando-os--com que fins vieram
+perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
+
+--Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio--respondeu o sr.
+Joãozinho.
+
+--É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!--confirmaram
+differentes vozes.
+
+--Por quê?--continuou o padre--julgam que Deus não receberá as almas,
+cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da
+igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
+
+--Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!
+
+--Eu não lhes reconheço o direito de querer.
+
+--Ora o padre mestre tem vagares!--disse o façanhudo Cosme--e tu
+pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões
+para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me
+para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a
+enxada e vem d'ahi.
+
+E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que
+jazia Ermelinda.
+
+--A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar
+n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!--exclamou o velho,
+indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.
+
+Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação
+religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do
+padre se cumprisse alli mesmo.
+
+Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
+hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas;
+ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos
+procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.
+
+Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares,
+que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua
+quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se
+dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos
+momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os
+precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito
+sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos,
+mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião,
+apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das
+massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a
+segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a
+embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento
+reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra.
+Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem
+de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não
+vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto;
+mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
+campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.
+
+Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das
+Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra
+severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
+
+Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este
+seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos
+quaes se encontravam padres e mulheres.
+
+A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.
+
+Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.
+
+--Viva o missionario!
+
+--Viva o santo!
+
+--Abaixo os pedreiros-livres!
+
+E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:
+
+--Abaixo os maçonicos!
+
+--Morram os jacobinos!
+
+--Viva a santa religião!
+
+Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das
+injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o
+fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o
+mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da
+christandade.
+
+A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes.
+Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não
+fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.
+
+Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento
+popular.
+
+Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
+
+--Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo
+estas pedras--bradou elle, apontando para o tumulo da familia do
+conselheiro.
+
+--É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
+
+--São invenções dos pedreiros-livres!
+
+--É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!
+
+--Abaixo! Abaixo!
+
+O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de
+um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.
+
+Magdalena collocou-se deante d'elle.
+
+Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da
+indignação.
+
+--Afaste-se, senhor!--bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que
+parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos
+degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!
+
+A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
+resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos
+affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi
+varonis.
+
+O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
+ficou enleado.
+
+Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que
+elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca
+humana.
+
+Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um
+sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
+
+--Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
+
+Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
+
+--Ah! ah! Faz-se fidalga!--disse o sr. Joãozinho, despeitado.--Pois não
+anda bem.
+
+O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
+escutal-o, bradou:
+
+--Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
+
+--Abaixo!...--repetiram muitas vozes.
+
+--Pois vá abaixo!--repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o
+machado.
+
+--Para traz!--exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.
+
+O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
+
+O sr. Joãozinho sorriu.
+
+--Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe
+queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!--e soltou,
+ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
+
+--Abaixo, abaixo!--repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
+para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava.
+Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda
+que fôsse á custa da propria vida.
+
+Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as
+lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a
+palavra «piedade».
+
+O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
+achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:
+
+--Mau! se temos chôro, nada feito.
+
+Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e
+outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de
+profanação.
+
+O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
+
+Imitaram-n'o muitos.
+
+Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da
+violencia.
+
+Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
+
+Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns
+baixaram-n'os, como arrependidos.
+
+O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a
+scena.
+
+Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
+
+--Tirem essa mulher d'ahi.
+
+Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
+facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo
+popular.
+
+Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do
+cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos
+alli reunidos.
+
+Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
+
+A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a
+elle, dominava toda aquella multidão.
+
+Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação,
+como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella
+scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no
+logar do motim.
+
+Era tempo.
+
+A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas
+violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas
+luctas em que elle toma parte.
+
+--Que é isto aqui?--disse o homem, rompendo com os braços potentes a
+onda que se lhe antolhava.
+
+Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até
+ao meio do circulo.
+
+Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.
+
+--O Herodes... É o Herodes!...--diziam, afastando-se.
+
+Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
+
+Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra,
+ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o
+atormentara.
+
+O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
+
+Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o
+encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.
+
+Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as
+ultimas noticias recebidas.
+
+Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos,
+conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no
+adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.
+
+Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
+mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a
+acudir-lhe.
+
+Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia
+a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do
+esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos
+n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso
+de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.
+
+Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de
+surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança
+morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.
+
+Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para
+n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos,
+calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.
+
+Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
+fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido,
+quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos
+cruzadas da creança.
+
+Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas,
+tomando-as outra vez, murmurava:
+
+--Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode
+ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?
+
+A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no
+tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão
+intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que
+as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda,
+como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá
+dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca.
+Aquelle homem estava perdido.
+
+--Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
+tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr
+assim!
+
+E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
+que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.
+
+Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
+ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
+fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.
+
+O Cancella continuava:
+
+--Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
+despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras
+antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que
+me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu
+que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que
+te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!...
+Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?
+
+Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
+
+O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.
+
+--Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha
+filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?...
+Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha
+filha não me perdoou?
+
+Magdalena respondeu a custo:
+
+--Que tinha ella a perdoar-lhe?
+
+--Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por
+ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus
+me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
+
+E outra vez a estreitava nos braços.
+
+Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
+voz alterada:
+
+--Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de
+minha filha morta?
+
+--Queremos que elles a enterrem na igreja--responderam, já tibiamente,
+algumas vozes.
+
+--Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram
+elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as
+alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a
+conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas
+festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem
+aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram
+sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te
+entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha;
+aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas
+vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu
+Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...
+
+E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae
+ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
+
+--Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de
+sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em
+socêgo... A minha pobre filha!
+
+E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de
+paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias
+mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez
+aquella de que mal podia separar-se.
+
+Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
+
+Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra
+o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
+
+Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
+
+O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a
+figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco
+agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
+
+Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não
+estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a
+secundal-os.
+
+Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella
+contra os excessos do fanatismo e do beaterio.
+
+--A falar verdade--dizia um--este pobre homem tem alguma razão. Isto de
+metter scismas ás creanças!...
+
+--E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
+
+--Tambem é de mais.
+
+--Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.
+
+N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
+
+Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e
+armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro
+os convocára.
+
+Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de
+joelhos, suffocado em pranto.
+
+As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita
+aquella idade, choraram tambem.
+
+Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.
+
+Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.
+
+O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
+desafogado pranto do que nunca.
+
+A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
+
+Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.
+
+O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica.
+Responderam-lhe as creancas!
+
+Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
+
+O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
+
+A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.
+
+
+
+
+XXVI
+
+
+Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa
+agitação.
+
+Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem accôrdo,
+Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se encarregára de trazer
+da taberna, onde o Canada o recolhera, até o Mosteiro, sobre um carro de
+herva que vinha guiando.
+
+Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, D. Victoria
+perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as providencias que o caso
+pedia, deu em ralhar, em fazer exclamações, em andar de sala em sala, de
+corredor em corredor, sem tenção formada, sem methodo, sem direcção.
+Levava as mãos á cabeça, ajuntava-as consternada; dava uma ordem ociosa;
+mandava logo suspender a execução d'ella; impacientava-se; chamava a
+toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para dizer-lhe;
+extranhava a tardança de outro que não mandára chamar, e sem dar a final
+expediente a coisa nenhuma, nem saber o que fizesse.
+
+Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente direcção; paravam
+embaraçados, ou corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem
+adeantarem serviço.
+
+As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque, cheias de
+susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria, que nem sequer dava
+por ellas.
+
+Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de espirito
+n'aquella occasião.
+
+Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que pudesse dizer-se
+ociosa; graças ao methodo com que procedia ás instrucções que ordenava,
+a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria o
+percebesse até.
+
+Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado assustador,
+sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe era precisa
+toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem sómente
+poderia descançar, e logo achou na necessidade valor, e, com serenidade
+apparente, só trahida pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu,
+tudo previu, tudo providenciou.
+
+Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero ou de susto, sem nem ao
+menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel, que lhe era
+natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os aprestes que
+o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros com
+intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião, enviou a Alvapenha
+parte do succedido, e ordenou que procurassem Magdalena, occupando
+n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra toda como alimento á
+impaciencia de sua mãe.
+
+A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e
+sympathicas. Não era para o salão que se formára e educára o ingenuo e
+meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um acanhamento, que
+já não conseguiria vencer, mas nas lides domesticas, na vida do lar era
+d'essas corajosas luctadoras, a quem a desventura não derruba, cuja
+intelligencia por tudo se reparte; d'estes genios providenciaes, que
+pairam sobre o estreito horisonte da familia, activos, laboriosos,
+achando nas fadigas um prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar,
+nos sorrisos que provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que
+enxugam, premio bastante para compensar as penas que soffrem.
+
+Mulheres são estas nascidas para serem esposas e mães, o que é quasi o
+mesmo que dizer: nascidas para serem mulheres.
+
+A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que soube o que
+succedera ao sobrinho, não dispensou Christina d'estes cuidados, que
+voluntariamente tomára.
+
+Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que D. Victoria,
+e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis effervescencias,
+em que esta se deixava arrebatar, não era tambem mulher para casos
+d'estes.
+
+Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa perdera ou
+embotára a faculdade preciosa de acertar bom caminho em qualquer
+imprevista occorrencia.
+
+Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos
+já a lançava em sérios embaraços. Ella propria confessava que inda havia
+pouco tempo principiára a afazer-se á estada de Henrique em Alvapenha, e
+a fazer o que era seu costume fazer antes de elle vir.
+
+É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia fazer do que rezar, e
+para isso ninguem estava mais habilitado do que ella. Em relação á côrte
+celestial era a boa senhora como esses almanachs vivos, que nos sabem
+dizer todos os canaes por onde os differentes negocios poderão ser
+melhor conduzidos nas côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade
+de cada santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento
+particular.
+
+Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de Henrique, onde,
+com as melhores intenções, mais embaraçava o serviço do que auxiliàva;
+usando de uma debil violencia foi-a levando para a sala do oratorio,
+onde ella encetou uma reza sem fim.
+
+Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do cemiterio,
+e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para verificar a
+realidade do que lhe diziam.
+
+Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido,
+uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. Victoria
+tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos.
+
+Magdalena dirigiu-se para lá.
+
+Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas
+interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a fecunda
+verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres, seja dito antes em
+honra do que em censura do sexo, são oradoras de muito mais folego que
+os homens que blasonam de eloquentes. O assumpto mais simples, uma
+colhér que se perdeu, uma peça de louça que se quebrou, por exemplo,
+fornecem-lhes thema para uma prédica de duas horas.
+
+Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil fórmas e
+estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo que a um homem a
+custo daria para uma magra oração.
+
+--Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu estavas. Faça
+favor de me dizer onde é que estava?
+
+Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara
+e postura de réo.
+
+--Eu... senhora...--ia elle a dizer.
+
+--Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que é. Um desafôro
+assim!... Eu só quero saber se vossemecê ganha soldada para andar lá por
+onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as vendas... Porque
+elle não ha mais... Como o dinheiro se vae roubar á estrada... O que tu
+merecias... Estou eu aqui a chamar ha mais de duas horas e vossemecê
+apparece-me lá quando é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem
+quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é roubar?
+
+--Mas...
+
+--Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para responder.
+Ora toma-me cautela, senão vaes já, já pela porta fóra. Pouca vergonha!
+Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer mandar onde
+é preciso e não apparecer um criado n'esta casa! A pagar-se aqui umas
+soldadas por ahi além, e, quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa
+de o fazer por suas mãos!... Tu cuidas que isso não é peccado tambem?
+Deixa, meu amigo, que tens boas contas a dar de ti. Quem é que lhe deu
+licença para sair sem ordem de seus amos? Faz favor de me dizer?
+
+--A sr.^a Christininha...
+
+--Eu não quero saber da sr.^a Christininha, quero saber quem lhe deu
+licença para sair?
+
+--Mas é o que eu estou dizendo á senhora.
+
+--É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e veja como responde.
+
+Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a urgencia do
+serviço de que falava D. Victoria, serviço que ella propria adiava com
+este importuno sermão.
+
+A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria esqueceu-se do
+criado, o qual pôde retirar-se sem ser percebido e sem receber as ordens
+urgentes para que fôra chamado.
+
+D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella
+propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique.
+
+--Andam desaforados--concluiu ella.--Já nem attendem a uma pessoa de
+respeito. É porque não ha justiça n'esta terra. Estão para ahi uns
+patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era preciso um
+exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse rei, não tinha pena nenhuma: havia
+de os esquartejar e era bem feito!
+
+Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um gato.
+
+A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio.
+
+Então é que trasbordou a indignação da tia.
+
+--Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar sério?... Pois elles?... Em
+nome do Padre... Que mais teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E
+esses malvados ainda estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda
+saber... Não, isso não fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no
+pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se fizeram as forcas... Ora
+deixa que... Isto aqui anda trama.
+
+--Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado do ferido.
+
+--Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu não sei onde elles
+se metteram. Ha de ser preciso ir á botica, e muitas mais coisas, e não
+vejo nenhum!
+
+Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha.
+
+Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em direcção ao
+quarto de Henrique, com um copo de agua acidulada.
+
+--Que ha, Christe?--perguntou-lhe Magdalena.
+
+--Que ha de haver, Lena?--respondeu Christina com tristeza, mas com
+serenidade ao mesmo tempo--uma desgraça, mas que Deus ha de permittir
+que não seja sem remedio.
+
+--Como está elle?
+
+--Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou.
+Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas calmantes que lhe
+tenho dado, achou-se bem.
+
+--E ainda não mandaram chamar o cirurgião?
+
+--Já mandei, já veio, já o sangrou, já...
+
+--Mas tua mãe não o sabe e ia mandar...
+
+--Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados, que por ora não convem
+que venha. Elle precisa de socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia Dorothéa,
+que não adeantava serviço. Queres vir vêl-o?
+
+Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique.
+
+Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda commoção
+cerebral, que lhe produzira a quéda. A tendencia ao estado comatoso, que
+apresentava, tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso.
+
+Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia aquella, e estes sem
+possibilidade de longa fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que
+n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma indifferença morbida
+pelo seu estado e por tudo quanto o cercava.
+
+Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que ella mesma
+preparára, com os movimentos quasi instinctivos do somnambulo.
+
+No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causára lhe
+avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de
+gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a cabeça outra vez no travesseiro,
+fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual.
+
+Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel,
+desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar
+calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma dúvida suscitada por
+os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a
+espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E
+sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confusão.
+
+Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi subjugada pelas
+muitas e violentas commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade da
+prima e extranhava-a.
+
+Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a
+suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito
+methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.
+
+Apreciára-lhe até então os dotes de creança, a bondade do coração, os
+extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto tomando
+assim tanto a sério a sua missão de mulher e desempenhando-se d'ella tão
+dignamente.
+
+Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o espirito da
+morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como
+que sob a protecção de uma timida e debil creança que, mais do que elle,
+parecia carecer de amparo, Magdalena não pôde reprimir um sorriso
+benigno e pensou:
+
+--Sim; aquella cabeça estouvada pôde até hoje passar por este anjo sem o
+conhecer; mas é preciso não ter coração para que, ao erguer-se d'aquelle
+leito, não seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella
+para a adorar. E Henrique não é falto de coração. Lida, lida, minha boa
+Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz
+que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu á mulher.
+Confio em Deus que vencerás. Deixar-te-hei todas as fadigas, para te
+pertencer todo o prazer.
+
+E em harmonia com esta resolução, a morgadinha absteve-se de intervir no
+tratamento de Henrique.
+
+
+
+
+XXVII
+
+
+Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este
+correra sérios riscos durante a primeira semana, por não sei que
+complicação que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou
+o prático, não nos compete a nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como
+de legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso intento.
+
+Ao fim dos oito dias, porém, começaram a manifestar-se melhoras
+evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar ás
+senhoras, que sempre o vinham consultar á saida com anciosa curiosidade,
+que «o homem estava salvo».
+
+De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, como já
+dissémos, n'um d'aquelles estados de indifferença para tudo e para
+todos, de que se não pode agourar nunca bem. Agora, porém, começava já a
+manifestar attenção para os cuidados de que era objecto, e a agradecer,
+com palavras de sincera gratidão, o tratamento affectuoso que recebia
+n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina.
+
+Esta fôra effectivamente sempre incançavel, solícita e carinhosa
+enfermeira.
+
+Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe todos os
+instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe
+allivio ás dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de
+cada momento, a preoccupacão permanente de todos os seus pensamentos.
+
+Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto aquella meiga e
+delicada figura de mulher, creança de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave
+e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar
+brando que o fitava com sympathia e meiguice; já se não sentia bem,
+longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas
+para a porta á espera de a vêr apparecer.
+
+Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
+Christina sobre o animo do rebelde, que até alli fôra insensivel, e
+exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
+cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que obriga os pintores a
+deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a attenção
+se fixe no objecto principal.
+
+Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
+devia ser a figura principal.
+
+N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha fazer a
+Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
+familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos
+da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem comprehendia os deveres
+da sua missão, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais
+extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que tão
+irresistivel influencia exercem no coração do homem que experimenta a
+ventura de ser objecto d'elles.
+
+De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
+crescia á custa de Magdalena.
+
+Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a descoberta. É
+necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um
+coração de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo contentamento
+que Magdalena sentia. É tão natural defeito a vaidade! Não se exprime o
+prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida
+domestica, que punha em relêvo o predominio de Christina.
+
+Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
+placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado.
+
+Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
+a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o
+chá. Não era, porém, a presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena,
+que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
+circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade embotada,
+emquanto o facto se não der com elle. Era que Christina, que em outra
+qualquer occasião cedia sempre a Magdalena a direcção dos trabalhos
+domesticos, alli dentro não resignava em ninguem essas funcções. Tomava
+naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a mãe, a prima e
+todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso,
+visitas.
+
+Não se imaginam os encantos que Henrique achava áquillo. A elle proprio
+parecia já que de facto o prendiam a Christina laços mais intimos, laços
+mais de familia, do que ás outras senhoras. Era assim que qualquer
+pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a
+uma irmã; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra
+qualquer pessoa, e não o fazia sem as desculpas e cumprimentos do
+estylo, que para ella não usava já.
+
+Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
+despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir á risca as
+dietas e as prescripções do facultativo, recusando-se obstinadamente a
+deixal-o lêr, e até ralhando-lhe ás vezes com severidade quasi maternal:
+apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de
+affecto.
+
+O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do seu leito de
+doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma
+mãe, de uma irmã ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o
+com essas entonações carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a
+mão que nos estende a taça do mais amargo remedio; elle, que não sabia
+ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo
+apoio de uma debil mão de mulher, a que o amor dá fôrças
+extraordinarias, commovia-se até ás lagrimas agora, e quasi não pensava
+sem tristeza na convalescença, que havia de o privar d'aquelles cuidados
+affectuosos.
+
+O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
+approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas
+as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer.
+
+Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.
+
+Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
+se agitava no leito com a inquietação da febre, Christina, depois de lhe
+dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com
+a mais adoravel candura:
+
+--Não sabe rezar?
+
+Henrique sorriu, respondendo:
+
+--Julgo que desapprendi já as orações que minha mãe me ensinou.
+
+Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.
+
+Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolação encontraria
+nas provações da vida um espirito que não soubesse recolher-se na
+oração.
+
+Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:
+
+--Quer-me ensinar a rezar, Christina?
+
+Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
+intenção d'aquellas palavras.
+
+--Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz a minha
+alma, as orações que me ensinar.
+
+Christina respondeu-lhe gravemente:
+
+--Reze, reze e verá como n'isso acha consolação. Vou emprestar-lhe o meu
+livro de orações, quer?
+
+--Por que me não ha de antes ensinar, como minha mãe o fazia?
+
+Christina ouviu com seriedade a proposta.
+
+E o certo é que um dia, em que Henrique passára peor, Magdalena ouviu,
+na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece á Virgem, e o
+doente repetindo-a com docilidade de creança.
+
+Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
+vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
+modificações a que todos os caracteres estão sujeitos, quando se dão a
+actual-os dois elementos tão poderosos, como se davam em Henrique: a
+doença, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o coração
+ás doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e
+irresistivel de todas.
+
+Não direi que fôsse com inteira fé que o doente orava; talvez que
+houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava
+ao orar assim. É certo, porém, que, desde então, frequentes vezes se lhe
+desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do
+seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique.
+
+Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
+Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratidão, beijou-lhe,
+commovido, a mão, que ella ia a retirar.
+
+--Que faz?--disse Christina, córando e afastando-a.
+
+--Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só
+agora comecei a amar.
+
+--Ora vamos--acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.
+
+--Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me
+salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda?
+
+--Repare que eu não tenho azas de anjo.
+
+--Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre
+doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa
+dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?
+
+--Nenhuns titulos! que diz?--tornou Christina, com um sorriso adoravel.
+
+--Pois quaes?
+
+--Então não somos primos? disse ella, jovialmente.
+
+E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
+Henrique.
+
+Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe
+alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para
+Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de
+umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do
+quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam
+serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de
+ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para
+junto d'elle, para lhe fazer companhia.
+
+D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações.
+
+--Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta
+pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que hão de estar
+molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão
+molhados...
+
+Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de
+uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade
+affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira
+fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção.
+
+--Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor?
+
+--Estou triste, porque estou melhor--respondeu Henrique.
+
+--Que está a dizer?!
+
+--A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede commigo. Este
+renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias,
+este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós,
+que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como
+que estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei prostrado
+no leito da doença, Christina.
+
+--Não diga isso.
+
+--E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! Não sabe
+que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia
+que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da
+solidão, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino,
+desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber,
+Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...
+
+--E tenciona voltar?
+
+A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma
+intima commoção. Ha d'estes effeitos. Ás vezes o olhar menos
+significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de
+maneira tal que elle proprio se sente estremecer.
+
+--E queria que eu ficasse, Christina?--perguntou Henrique, sob o dominio
+d'essa impressão.
+
+Christina não respondeu logo.
+
+--Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, para não
+vêr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de
+irmã. Esta ideia será a minha consolação; deixe-me partir com ella.
+
+--Partir?... mas... para que ha de partir?
+
+--Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorothéa,
+cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidadãos?
+
+--Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! E depois... que vae
+fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que está doente, que é
+quasi a mesma coisa.
+
+--E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?
+
+--Por que havia de lh'a negar?
+
+--Tempo virá em que outros me disputarão a menor porção de affecto que
+me conceder, Christina... e então... então é que eu ficarei mais só do
+que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou.
+
+--Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por esse mundo?
+
+--Então a menina não sabe que se está só mesmo em companhia? Quem está
+só é a alma. Ai, a alma está só quasi sempre!
+
+--Por que quer.
+
+--Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que não
+obteve a que desejava. Além de que, ha almas tão tristes, que intimidam
+outras. E a minha é d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer
+companhia á minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci,
+não hesitaria? Confesse.
+
+Depois de um momento de silencio e hesitação, Christina respondeu:
+
+--Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa tristeza...
+
+--Concedia-m'a?
+
+--E por que havia de negar-lh'a?
+
+Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado.
+
+--Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras?
+Se o meu coração é tão ousado...
+
+Christina, córando, retirou a mão de que Henrique se apoderou, e
+levantando-se, sobresaltada, disse:
+
+--Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.
+
+E fugiu, correndo em direcção de casa.
+
+Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias
+durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma como
+perfumada atmosphera, que exercia profundas revoluções no caracter de
+Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas
+exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em
+vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas
+metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, da infancia, estado de
+chrysalida para a imaginação, passava á verdadeira juventude, ao periodo
+em que a imaginação ganha azas, em que o coração se completa.
+
+Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não havia razão
+possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a
+mudança para Alvapenha.
+
+Já se não fez sem lagrimas a despedida.
+
+Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu
+commovida; só Christina não se achava na sala em que se passou a scena.
+
+Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.
+
+Seria casual esta circumstancia?
+
+Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe o coração que a
+encontraria alli.
+
+--Volto á minha solidão, Christina--disse-lhe, commovido.--Não lh'o
+tinha eu dicto?
+
+A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez só lhe
+resultaram lagrimas.
+
+--Não diga mais nada--disse Henrique, levando aos labios a mão que ella
+não retirou.--Essas lagrimas bastam-me.
+
+Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas produziram.
+
+E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.
+
+Christina ficou a chorar na varanda.
+
+A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo:
+
+--Pago-te hoje o abraço que me déste no outro dia; mas eu escuso de te
+perguntar... «Pois tu amaval-o?»
+
+--Ai, Lena!...--exclamou Christina, cada vez chorando mais.
+
+--Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e imaginaram
+uma separação de duzentos passos para poderem representar a scena das
+despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!--dizia
+Magdalena, para consolal-a.
+
+Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia.
+Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual
+taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar á ama a ideia de que a
+doença tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa
+levou muito a mal.
+
+Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignação que lhe
+causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava
+novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam
+enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do coração,
+contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu.
+
+Depois teve Henrique uma visão.
+
+Não se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha
+aqui que se pareça com as visões épicas; foi uma visão como muitas, que
+nós todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses
+espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginação, esta
+fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A
+quem não terá de facto succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma
+perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da visão exterior,
+enfraquecerem as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem fórma,
+realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa
+visão?
+
+Estava Henrique á janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos
+já que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde
+parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos
+differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mêdas,
+colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural,
+resentindo-se, porém, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora
+velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura.
+
+Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta como ella era.
+
+Principiava a visão interior.
+
+As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos
+campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de
+cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o chão das eiras; gemiam as
+noras e os lagares; soltavam-se ás prêsas os diques, e uma verdadeira
+rede liquida envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; alvejavam
+as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as
+cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da
+vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados,
+do sobrinho de D. Dorothéa. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir
+todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro patriarcha ao modo
+antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, á sombra de uma arvore, á
+borda do tanque, debruçada no muro, por entre os silvados das sébes
+vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina!
+
+Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem
+elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as
+qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de ter uma
+visão como esta!
+
+No quasi extase, em que a imaginação o lançára permanecia ainda, quando
+soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.
+
+Apressou-se logo a receber a visita.
+
+Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e
+das meninas.
+
+O pobre homem era um dos que ficára com affeição a Henrique depois que
+estivera no Mosteiro.
+
+Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos encontrava,
+contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o
+bastante para o velho lhe querer bem.
+
+--Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incómmodo
+que estão tendo commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes
+passeios.
+
+--Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... É exercicio a final... Pois é
+verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe
+que eu já tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu era
+já homem feito... Inda me lembra...
+
+Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem transição sensivel:
+
+--Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado
+um cuidado!... Todas!... Até a Christininha!
+
+--Sim? Tambem essa?
+
+--Ora se tambem!... Pois a sr.^a D. Victoria?
+
+--Mas... mas... Christina... a sr.^a D. Christina, então...
+
+--Isso é um coração de pomba. Inda ha pouco, ao sair, já vinha no pateo,
+e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de
+reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais triste.»
+
+--Ella disse-lhe isso?
+
+--É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o encontrei alegre como...
+
+--Não, não; não lhe diga isso, homem--atalhou Henrique.
+
+--Então por quê?!
+
+--Porque... porque... porque não é verdade... Então eu estou assim tão
+alegre como isso?
+
+--Não digo que esteja, mas para a socegar...
+
+--Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse ella mais
+nada?
+
+--A sr.^a D. Victoria...
+
+--Falo de Christina.
+
+--Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo.
+
+--Diga, diga.
+
+--Não é nada; é uma promessa que...
+
+--Uma promessa? Que promessa?
+
+--Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve
+muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a Christinita prometteu
+rezar na capella dos Cannaviaes as estações da meia noite...
+
+--As estações da meia noite?
+
+--Sim; as estações rezadas á meia noite á Senhora que está na capella da
+casa dos Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que
+se lhe pedisse assim. Contava meu pae...
+
+E vinha um caso comprovativo da tradição popular.
+
+--Sim, lembra-me que já me falaram n'isso--disse Henrique, pensativo.
+
+--É verdade. O peor é que é este seu criado quem tem de a acompanhar até
+á quinta, depois d'ámanhã á meia noite...
+
+--Então depois de ámanhã á meia noite?
+
+--Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da pequena.
+
+--Esteja descançado.
+
+E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que
+Henrique não ligou attenção, aquelle retirou-se.
+
+Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda abstracção.
+Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para
+presenciar aquelle acto de fervorosa devoção de Christina, que
+supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crença, com a
+effusão do mais generoso affecto.
+
+N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que
+conduziam á quinta, que elle ainda não visitára, e sobre como penetrar
+até á capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa.
+
+D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos
+precisos sem que suspeitassem das intenções com que elle lh'os pedia.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+
+A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha
+morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um
+dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia.
+
+O tempo, cuja acção não contrastada se exercera livremente n'ellas,
+viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta
+casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados,
+de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos
+e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstição popular terminára
+a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e
+corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue á natureza.
+
+A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia senão depois de ter
+gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e
+brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava
+n'esta pequena terra, onde passára o resto da vida, de uma fama de
+espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a
+opinião de que a sua alma andava ainda penando por cá.
+
+Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relação aos annos da
+mocidade da morgada. A imaginação popular fazia a biographia d'aquella
+senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma
+phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.
+
+A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos começaram a
+falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza,
+passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da
+vida elegante ás práticas de devoção.
+
+Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as
+semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente
+os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade natural.
+Trajava sempre com distincção e esmero, e ao corrente das modas.
+
+Tudo isto e as proprias devoções da morgada, acabaram por convencer o
+povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava
+remir á fôrça de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das
+contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava á terra penando.
+
+Já se vê que o logar era para apavorar as imaginações timidas, e de
+noite pouca gente da aldeia gostava de passar por lá.
+
+Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao
+Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora devida, e
+fazendo obra pelas informações da morgadinha, dirigiu-se para os
+Cannaviaes para escolher posição d'onde pudesse, sem ser visto, observar
+Christina, não tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria
+imperturbada na sua piedosa tarefa.
+
+A noite fizera-se escura e ameaçava chuva.
+
+Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um pouco
+habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a
+aldeia, examinando com attenção todos os objectos que lhe deviam servir
+de indicadores da estrada.
+
+Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que
+por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.
+
+Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um
+lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique
+achou ainda fechada.
+
+O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver
+acertado.
+
+Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escuridão a
+fazer receiar grandes aguaceiros.
+
+Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se.
+N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto seu, achou-o
+aberto.
+
+Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria
+habitada a quinta?
+
+Estas tres explicações do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito,
+sem que elle soubesse qual adoptar.
+
+Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida.
+
+A chuva caía com mais fôrça. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus
+de pedra, no tôpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente
+toldado.
+
+Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de
+um corredor pareceu-lhe divisar luz.
+
+Henrique parou indeciso.
+
+--Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre
+perguntarei.
+
+E bateu as palmas.
+
+Ninguem lhe respondeu.
+
+Bateu outra vez; o mesmo resultado.
+
+Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.
+
+O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou
+a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada
+por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco
+brilhavam ainda uns carvões candentes.
+
+--Parece uma historia de fadas!--pensava Henrique.--Dar-se-ha que a alma
+da morgada goste ainda das commodidades?
+
+Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado
+opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do
+campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e
+preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:
+
+--Procurava alguem, o senhor?
+
+--Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim
+como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a
+casa dos Cannaviaes.
+
+--A casa dos Cannaviaes é esta mesma.
+
+--Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui
+ninguem.
+
+--E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.^a morgada.
+
+--A sr.^a morgada?--perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar
+da resposta e de tudo que via.
+
+--Sim, senhor; a sr.^a morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o.
+
+--Ah! A sr.^a morgada esperava-me?
+
+--É verdade--disse a mulher, sorrindo.--Adivinhou que o senhor vinha
+aqui. E o que é que ella não adivinha?
+
+Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena.
+
+--Então é a sr.^a morgada em pessoa que...
+
+--Que o convida para tomar uma chavena de chá--disse uma voz por traz
+d'elle.
+
+Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.
+
+Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos
+labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras,
+que de tantos encantos a revestia.
+
+Henrique exclamou, admirado:
+
+--A prima Magdalena!
+
+--A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras
+da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje.
+Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a
+minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que
+aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de
+quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a
+destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.
+
+--Mas como soube que eu?...
+
+--Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que
+nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi.
+Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem
+em recolher-se... Ouve?
+
+E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças.
+
+--O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção.
+
+--O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros--notou Brizida, como
+para desvanecer aquelle receio.
+
+--Pois sabe que Christina vem?
+
+--Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o
+lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco
+hospitaleiro.--Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que
+podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da
+capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo,
+porque a cozinha está pouco habitavel.
+
+Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta,
+chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de
+Souzellas.
+
+--Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada,
+responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?
+
+--Pois não diz que sabe tudo?
+
+--Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades
+que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia
+de quem as fórma, repugne acceitar.
+
+--Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e
+approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo
+commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não
+assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?
+
+--Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença
+esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias
+de duas doenças.
+
+--De duas?
+
+--Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou.
+
+--Então?
+
+--A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe
+tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se
+por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder
+verdadeiramente doentia.
+
+--Estou curado d'isso.
+
+--Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era
+doença.
+
+--Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me
+aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos
+negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.
+
+--Ah! e experimentou a receita?
+
+--Experimentei e curei-me.
+
+--Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da
+convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são
+perigosas as recaidas.
+
+--Pois teme que eu recaia?
+
+--Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto
+motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição
+romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum
+accidente.
+
+--É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios
+que prescreve.
+
+--Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me
+com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa
+não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?
+
+--Confesso que algumas...
+
+--E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do
+coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que
+puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr.
+
+--Desde o primeiro dia? Pois Christina...
+
+--Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.
+
+--Querido anjo!
+
+--Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua,
+timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma
+indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um
+caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais
+coragem e mais fé no futuro.
+
+Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para
+Magdalena:
+
+--Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as
+necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu?
+
+--E quem lhe disse que as tinha?
+
+--Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se
+julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a
+observam.
+
+--Ah! Então leu?
+
+--Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que
+eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém,
+tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado
+n'ella. Cego, como eu fui.
+
+--Não leria?--perguntou Magdalena, sorrindo.--Está certo d'isso?
+
+--E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a
+adivinhasse. Ha casos d'esses.
+
+Magdalena tornou, mudando de tom:
+
+--É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que
+sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio.
+
+--E por que demora o tratamento?
+
+--Pois parece-lhe que será urgente o caso?
+
+--Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do
+que....
+
+--Silencio!--disse a morgadinha, escutando.--Pareceu-me ouvir...
+
+N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo
+em voz baixa:
+
+--Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
+
+--Então depressa--disse Magdalena.--Abra-nos o côro; mas antes apaguemos
+as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de
+furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.
+
+Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um
+corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir
+missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.
+
+Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar
+as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava
+longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a
+varanda do côro.
+
+Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem
+Christina e Torquato.
+
+Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres
+degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera
+que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da
+Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não
+dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
+
+Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho,
+com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro
+em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.
+
+Tudo ficou depois em silencio.
+
+Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a
+tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou
+immovel a rezar a devoção promettida.
+
+Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella
+angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle
+anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e
+candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de
+gosar um amor assim!
+
+Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
+
+A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos.
+
+Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
+
+--Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás.
+
+--Não peça a Deus o que está na sua mão--respondeu-lhe em voz baixa
+Magdalena.
+
+--Que diz?
+
+--Está ou não sinceramente apaixonado?
+
+--Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
+
+--Crê na pureza d'aquelle coração?
+
+--Como na dos anjos.
+
+--Está convencido de que o pode salvar, ella?
+
+--Não ha crédo que professe com mais fé.
+
+--Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?
+
+--E consente?
+
+A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas
+escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór.
+
+--Aqui tem o caminho--disse ella.--Siga-me. E, servindo-se da lanterna
+de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a.
+
+No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns
+passos, parou junto de um reposteiro.
+
+--Agora faça o que lhe dictar o coração--disse ella para Henrique.
+
+Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella.
+
+Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava
+por detraz d'ella, não o viu chegar.
+
+Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração.
+
+Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um
+grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou
+perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror.
+
+Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
+
+--Não tenha receio, Christina. Sou eu.
+
+Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a
+presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar
+explicações. Henrique accrescentou:
+
+--Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto
+fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado,
+Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados
+prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me
+as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda
+a paixão que pode haver na minha alma.
+
+E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem
+ousára retirar das suas.
+
+--Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do
+viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr
+realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de
+que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e
+gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir
+occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de
+mãe, de irmã, e de...
+
+--Henrique!...--murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada
+creança.
+
+--É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a
+mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que
+uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada
+de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo.
+Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração.
+
+Christina tremia sem poder responder.
+
+Magdalena entrou por sua vez na capella.
+
+--Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique--disse
+ella.
+
+Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e
+inesperadas apparições, correu para a prima.
+
+--Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
+
+--Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos,
+dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr.
+Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito
+terminantemente, a tua mão.
+
+Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio.
+
+--Não responderam os labios, primo,--continuou a morgadinha--mas falou o
+coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
+
+--E disse?...
+
+--Que havia de dizer? Que sim.
+
+E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique,
+que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
+
+Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia.
+
+O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as
+rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
+
+Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e
+recuou estupefacto e aterrado.
+
+Suppôz que almas penadas andavam na capella.
+
+O bom do homem não ousava approximar-se.
+
+Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
+
+--Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de
+fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
+
+O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se
+receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para
+Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via.
+
+Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
+
+Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra
+recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá.
+
+A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já
+percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou
+algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena.
+
+Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita
+intimidade.
+
+--Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!--disse
+Henrique.--Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A
+morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
+
+--É verdade, como foi que vieram aqui?--perguntou Christina, já mais
+desenleiada.--Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O
+que merecia!...
+
+--Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
+
+--N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a
+indiscreção--disse Magdalena.
+
+--Que é?--tornou a prima.
+
+--É a discreção.
+
+--Então por quê?
+
+--Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que
+a verdade.
+
+--Eu...--ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o
+interrompeu.
+
+--Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
+
+--N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
+
+--Que hei de eu dizer?
+
+--Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique?
+
+--Ora, já o sabem.
+
+--Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca.
+
+--Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar.
+
+--Que diz, primo Henrique?
+
+--Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já.
+
+--Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida
+por um sentimento de piedade e de...
+
+--Lena!
+
+--Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella
+sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era
+decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores.
+
+Christina poz-se a rir.
+
+--Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o
+Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...
+
+--Eu?!
+
+Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão.
+
+--Se eu o soubesse!...
+
+--Eu... eu não disse... eu... só disse...
+
+Henrique tomou a palavra.
+
+--Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim
+alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se
+involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima...
+
+--Eu? Soube-o tambem do Torquato.
+
+--Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
+
+--Isso é que não. Eu não disse á sr.^a D. Magdalena... Ella é que...
+
+--Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o
+segredo.
+
+--Como?
+
+--O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
+
+--Eu a esse não disse.
+
+--Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal.
+
+--Ora, ora...
+
+--O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e
+ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha
+merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de
+umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha
+propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz
+ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito
+enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a
+verdade, porque do Torquato soubera tudo.
+
+--Eu não disse...
+
+--E depois a prima...
+
+--Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e
+exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a
+respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final
+falou.
+
+--Mas sabia tambem que eu vinha?--perguntou Henrique.
+
+--Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a
+respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a
+insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao
+Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua
+hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de
+receber o primo em minha casa.
+
+--E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
+
+--Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste
+sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo.
+
+--São mesmo coisas tuas--disse Christina, rindo.
+
+--Mas eu não disse nada--insistiu Torquato.
+
+--Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?--perguntou
+Henrique.--Que imaginava elle a final?
+
+-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias
+palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas
+de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui
+um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que
+respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas
+attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo
+Henrique...
+
+--Ah! percebo agora--disse Henrique, rindo.--O velho é ciumento por
+procuração.
+
+Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
+
+Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique,
+sorriu com elles.
+
+O Torquato foi o unico que nada percebeu.
+
+Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de
+voltarem a casa.
+
+--Choverá?--perguntou Brizida.
+
+--Julgo que não--respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a
+vidraça da janella e examinou o firmamento.
+
+Henrique acompanhou-a.
+
+--A noite está serena--disse ella.--São horas de voltarmos.
+
+--Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas
+horas--disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:--Mas que
+agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
+
+--Vamos, vamos,--respondeu Magdalena--o dia d'ámanhã deve ser feliz
+ainda, porque...
+
+N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse
+a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito.
+
+--Que foi?--perguntou Henrique, que o percebeu.
+
+--Nada--respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella.
+
+--Viu a alma da morgada?--perguntou jovialmente Henrique, vendo-a
+preoccupada.
+
+--Não--respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.--Pode porém
+haver apparições peores.
+
+--Que é, Lena? Que viste tu?--perguntou Christina, assustada.
+
+--Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
+
+E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam
+aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em
+silencio e na sua quasi desolação.
+
+
+
+
+XXIX
+
+
+No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada
+do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda que a este ultimo
+causára a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo
+para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D.
+Dorothéa apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro;
+Henrique acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu
+coração, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de
+fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mão de Christina.
+
+D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se não desacostumára de
+considerar Christina como uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava
+ainda vestidos curtos!
+
+Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e
+agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera.
+
+Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não se fartou
+de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as
+habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram enfastial-o.
+Estava devéras apaixonado!
+
+Chegaram ao Mosteiro.
+
+O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e apparente tranquillidade
+de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o
+que quer que era forçado a revelar certa preoccupação interior.
+
+É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o animo do publico da
+terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava
+muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.
+
+Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias
+realisavam-se as eleições. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus
+adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens
+politicas, com que contava, falharam-lhe, e até nem o visitaram. As
+auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o
+administrador até o cabo de policia.
+
+Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro
+para conversar em assumptos alheios á questão que o interessava, para
+sorrir e prestar attenção ao que se dizia.
+
+De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
+escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente
+eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente não podia
+socegar.
+
+Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista dos
+recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena
+faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou
+D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorothéa, e em nome
+de Henrique, o pedido da mão de Christina. D. Victoria trazia bem
+visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causára. Era muito
+amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais
+que tudo a lisonjeára, fôra a preferencia dada por Henrique a sua filha
+sobre a morgadinha.
+
+--Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique--dizia ella.--Estou mesmo
+muito arrenegada comsigo.
+
+--Por quê, minha senhora?--perguntou Henrique, sorrindo.
+
+--Pois então isso é coisa que se faça? Já precisa de embaixadores para
+se dirigir a mim?
+
+--Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v.
+ex.^a para fazer todas as reflexões que a proposta lhe suggerisse e
+discutil-a á vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.^a ás vezes, sendo
+eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se...
+
+--Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade um rapaz de tão má
+nota! Ora sempre tem coisas!
+
+--Visto isso, posso esperar?
+
+--Da minha parte uma guerra de morte--disse D. Victoria, não resistindo
+a dar um abraço a Henrique, já com familiaridade de mãe; abraço que
+Henrique retribuiu com affecto.
+
+O conselheiro não dava attenção á scena.
+
+--Então, mano!--bradou-lhe D. Victoria.--Deixe lá essas politicas que
+temos negocios sérios em casa.
+
+--Sim?--disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
+ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.--Então de
+que se trata?
+
+--De um negocio importante, em que é preciso que seja ouvido.
+
+--Ah! Então é um caso de consciencia?
+
+--E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de
+me fazer um pedido... Isto é, a prima Dorothéa foi que m'o fez.
+
+--Mas por ordem d'elle--acudiu esta.
+
+--Pois sim, o que era escusado.
+
+--Mas então que pede de nós este caro sr. Henrique?
+
+--Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.
+
+O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por mais de uma
+vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado
+pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom
+nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade,
+e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.
+
+Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
+tiral-o quanto antes da illusão e disse:
+
+--Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a
+amizade de Christina.
+
+--Ah!--disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.--Então
+quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique?
+
+--É apenas uma restituição que peço, sr. conselheiro, porque não me
+posso resignar a viver sem coração.
+
+--Faz madrigal? Está então apaixonado devéras, já vejo--disse o
+conselheiro.--Pela minha parte folgo de o vêr assim associado á minha
+familia, por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, que fez o
+milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa
+a rir-se do casamento?
+
+--Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima Magdalena,
+que é tão rigorosa nos castigos!
+
+--Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas.
+
+--Mas o mano tem razão--disse D. Victoria.--Onde está a Christe?
+Admira-me não a vêr aqui!
+
+--Admirar, não me admiro eu--tornou o conselheiro.--É provavel que
+soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi
+decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso
+tribunal.
+
+Henrique e Magdalena sorriram.
+
+--Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
+Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no fogo ao ateares d'estes
+fachos.
+
+--Eu vou buscar a Christe--disse a morgadinha, rindo das palavras do
+pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direcção
+que elle lhe deu.
+
+O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
+emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa tentava
+distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de creanças, que elle
+mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado
+á intelligencia d'elle.
+
+Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
+já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no chão.
+
+--Aqui está a accusada--disse a morgadinha ao entrar.
+
+O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse jovialmente para a
+sobrinha:
+
+--Ora venha cá, venha cá, que temos muito que falar.
+
+E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o,
+continuou:
+
+--Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente
+com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de
+bonecas, e já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, é
+energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me
+peça explicações por os que lhe roubar.
+
+E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
+tingidas pelo pejo e pela alegria.
+
+Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:
+
+--São os penultimos.
+
+--Os penultimos?--disse D. Victoria, rindo.--Ora essa! Então para quando
+ficam os ultimos?
+
+--Para quando a vir com a grinalda de noiva.
+
+--O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo
+á prima. Não tens vergonha, Lena--disse D. Dorothéa para a morgadinha,
+em quem esta reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe
+aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manhã.
+
+O conselheiro e Henrique sorriram tambem.
+
+--Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia--disse
+Henrique com intenção.
+
+--Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou
+teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo
+que se devem decidir pelo coração sómente.
+
+--E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios
+actos.
+
+--O _sómente_ é que veio de mais, filha--disse o
+conselheiro.--Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era
+bom se vivessemos em um mundo de corações.
+
+A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e
+modificou a scena.
+
+Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
+Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas
+entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o
+latinista era de suspeitosa natureza.
+
+Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
+n'estas épocas não comia, não dormia, não respirava, por assim dizer,
+senão eleições, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a
+todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por
+desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas.
+
+--Então que novas temos da campanha, meus senhores?--perguntou o
+conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando
+um tom de confiança que não sentia.
+
+--Más, sr. conselheiro,--respondeu o Tapadas--muito más. Vejo isto muito
+feio.
+
+--Ora a coisa ainda não ha de ser tão má como diz.
+
+--Nada, nada; não me agrada. V. ex.^a descuidou-se. Tenha paciencia, mas
+eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas são. É preciso não as
+desacompanhar. V. ex.^a devia vir ha mais tempo.
+
+O Pertunhas acudiu:
+
+--Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os
+serviços que fez á terra...
+
+--Ora com o que vmc.^ê vem!--replicou o Tapadas, com modo azedo.--Então
+não sabe como é esta gente? Então não os ouve ahi berrar já contra as
+estradas, quando até agora berravam por não as terem?
+
+--Meia duzia de garotos--tornou o Pertunhas.
+
+--Não, senhor, não é assim; não estejamos a enganar-nos. Os que não
+dizem mal das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as
+devem, e estamos na mesma. A coisa vae mal.
+
+--Então decididamente o Seabra?...--perguntou o conselheiro.
+
+--Esse é o chefe de todos elles--disse um merceeiro.--Á porta da minha
+loja o ouvi eu estar a dizer ao cunhado do administrador que o traçado
+da estrada era o peor que podia ser, que se gastava alli um dinheiro
+louco, sem utilidade para o povo.
+
+O conselheiro olhou para Henrique, dizendo:
+
+--Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
+traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? Admire agora o
+velhaco.
+
+Henrique sorriu, encolhendo os hombros.
+
+--Arremedos do que se faz em terras maiores--disse elle.--Não extranho.
+
+--E tem razão--respondeu o conselheiro.
+
+--Mas, a final--continuou o conselheiro--o homem não tinha na freguezia
+grande influencia. Como é que...?
+
+--Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
+por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com elle e de mal
+com v. ex.^a.
+
+--Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra mim?
+Deixámo-nos em janeiro nas melhores disposições um para com outro...
+
+--Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
+ministro...--disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera grande
+importancia ao objecto a que se referia.
+
+O conselheiro mudou logo de assumpto.
+
+--E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
+commetti, para me terem esse odio?
+
+--Dizem que v. ex.^a é mação--respondeu um lavrador.
+
+--O diacho da questão do cemiterio...--acudiu o Tapadas.
+
+--Isso acalmou já.
+
+--Não acalmou, não senhor. O povo não está contente. É certo que lhe
+passou a furia do principio, depois d'aquella historia com o Cancella,
+mas...
+
+--Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
+filha!
+
+--É melhor não falar n'isso--aconselhou prudentemente o Tapadas.--O que
+lá vae, lá vae. Os homens estão meio arrependidos, e até o missionario
+perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi berrado que
+foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette pena. Até me
+dizem que por causa d'isso o padre já se retirou da aldeia. O que era
+bom era vêr até se se falava ao Herodes; porque talvez elle possa agora
+ainda arranjar alguns votos--accrescentou o Tapadas, disposto a
+servir-se da dôr de um pae como arma eleitoral.
+
+E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
+politicos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potencias
+eleitoraes do circulo. Estudaram-se as ambições de cada uma;
+ponderaram-se as exigencias feitas por uns, os desejos adivinhados em
+outros, para este o emprego de um afilhado, áquelle o bom exito de uma
+demanda, a outro o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma
+hypotheca, e a alguns até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta
+empresa de subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o
+conciliabulo, sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o
+que estava fazendo alli.
+
+Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos principaes.
+
+--Então sempre é certo que me roeu a corda esse basbaque?--perguntou, ao
+falar-se n'elle, o conselheiro.
+
+--É dos mais assanhados--responderam-lhe.
+
+--Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem tantas vezes
+tenho tirado de apuros!
+
+--Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
+cemiterios...--disse o Pertunhas.
+
+--Deixe lá, alli andou tambem um presente que lhe fez o brazileiro. O
+morgado está muitas vezes com a corda na garganta--explicou malignamente
+o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das demandas e da
+politica, não achava explicações tão plausiveis como a corrupção.
+
+--E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario--insistiu o
+tendeiro.
+
+--Ora adeus!--disse o Tapadas.--Bem me fio eu n'essas compaixões. Quem
+não os conhecer...
+
+--E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?--insistiu o
+conselheiro, de mau humor.
+
+--Então? Deu-lhe para alli.
+
+--Qual historia! Para mim é que vem com isso?!--teimava o sceptico
+Tapadas.
+
+--Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
+taberna com este senhor--disse o Pertunhas, designando Henrique.
+
+--Sinto, sr. conselheiro--disse este--se de alguma maneira concorri...
+
+--De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram. Á ultima
+hora é capaz de mudar de tenção. E por causa d'elle é que ficou
+despachado professor um pateta em vez de Augusto.
+
+Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
+despeito:
+
+--Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito do caracter
+de certos homens. Ha vinganças tão torpes e mesquinhas, que nenhum
+aggravo as justifica.
+
+Henrique procurou defender Augusto; achou porém o conselheiro obstinado
+na sua crença.
+
+Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor da
+intriga.
+
+--Embora o fôsse--respondeu o conselheiro--mas que tem isso? O Seabra
+não veio a minha casa, não suspeitava da existencia de tal carta. Alguem
+houve que a leu primeiro e que lh'a foi entregar depois, e já é ser
+muito indulgente suppôr que fôram só cegueiras de vingança e não a
+sordidez da cubiça quem o moveu a essa infamia.
+
+Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
+pela innocencia d'elle.
+
+O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma altercação
+travada entre Pertunhas e o Tapadas.
+
+Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
+eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente:
+
+--Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor parolar menos e fazer coisa que se
+veja; ou deixa só as obras para o seu amigo Seabra?
+
+D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a altercação virulenta, que o
+conselheiro teve de apaziguar.
+
+A conferencia durou até ás horas do jantar.
+
+
+
+
+XXX
+
+
+Chegára o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a batalha
+eleitoral.
+
+A azáfama politica activára-se n'estes ultimos dias consideravelmente.
+De parte a parte tinham-se posto em campo todos os influentes e em
+exercicio todas as armas. Promessas, alliciações, pressão de
+auctoridades, exigencias a dependentes, subornos, ameaças mais ou menos
+declaradas; de tudo se lançava mão.
+
+Ás vezes até o calor das discussões degenerava em pugnas menos
+pacificas; os argumentos physicos, que figuram no catalogo das razões
+mais convincentes, haviam já sido invocados a pleitear ambas as causas,
+berrando-se depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do
+governo, do outro, contra os manejos sediciosos e anarchicos da
+opposição.
+
+Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os
+padres que arvorando a cruz e o estandarte, prégavam a cruzada contra o
+conselheiro e instavam com o povo para que não elegesse para
+representante um atheu e um pedreiro-livre; em outras eram os agentes do
+brazileiro e os da auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos
+populares, resgatando penhores, levantando hypothecas, remindo dividas,
+empregando afilhados, e conquistando assim para o seu partido.
+
+O conselheiro e os seus parciaes não desprezavam tambem nenhum d'estes
+mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater as do brazileiro
+Seabra.
+
+Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha.
+Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores dos
+dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas,
+assignando-se: o _Amigo da verdade_; o _Epaminondas_; o _Vígilante_; a
+_Sentinella_; o _Alerta_, etc., e pondo ao soalheiro as máculas da vida
+privada uns dos outros, e todas as bisbilhotices da terra,
+correspondencias que, felizmente para crédito da humanidade, por ninguem
+mais, além dos interessados e dos que já os conheciam, eram lidas.
+
+O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta
+secção periodistica. Os seus communicados eram estirados, compactos,
+obscuros e enrevezados tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se
+em minuciosos incidentes; em labyrinthos de orações secundarias, d'onde
+a grammatica da principal saía frequentemente maltratada, deixando ficar
+por lá o sujeito, o verbo ou qualquer complemento necessario. Mas o
+brazileiro imaginava que o paiz inteiro aguardava com ancia os seus
+escriptos. Era frequente abrir uma resposta a alguma zargunchada de um
+seu adversario, por estas palavras: «Os leitores hão de ter notado o meu
+silencio, depois das calumniosas asserções...» Os leitores não tinham
+notado nada.
+
+Finalmente a aldeia achava-se em plena fermentação politica.
+
+Eu tenho a fraqueza de a não amar debaixo d'aquelle aspecto.
+
+A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado é
+o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e conhecidos
+são os que vivem d'ella, tanto mais acanhada, mexeriqueira e antipathica
+se torna. Se a politica do nosso paiz é já pequena, como elle, e
+degenera em desavença de senhoras vizinhas, que fará das terras pequenas
+d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos partidos estão os
+mexericos e as vaidadesinhas que brotam como tortulhos á sombra das
+arvores do campanario?!
+
+Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos!
+
+Henrique de Souzellas não ficára indifferente ao movimento politico da
+aldeia. Pegára-se-lhe a febre eleitoral. Impedido de votar, auxiliava,
+porém, os parciaes do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um
+dia lembrou um _meeting_. O conselheiro poz-se a rir.
+
+--Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que está tratando? Um
+_meeting_, para quê? Não se esqueça de ir domingo á igreja e lá se
+desenganará por os seus olhos. O espectaculo não é muito para alegrar,
+porque mostra como em geral o nosso paiz está ainda pouco educado no
+regimen constitucional. Mas em todo o caso é instructivo.
+
+Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel
+Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em relação ao tempo em
+que principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com
+que já se podia contar.
+
+A eleição, porém, estava muito arriscada ainda. O sr. Joãozinho das
+Perdizes devia decidir a contenda. Para onde se inclinasse o morgado,
+com todo o peso dos seus comparochianos, desceria o prato da balança.
+
+Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o
+menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e
+aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte
+nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, não se descuidava
+de o manter nas disposições hostis contra o conselheiro. A todo o
+momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a
+necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma lição ao
+conselheiro, com quem Henrique estava ligado. Depois disse-lhe que o
+conselheiro se gabava de ter dinheiro para comprar o morgado e toda a
+freguezia.
+
+O morgado, sob estas e analogas instigações, praguejava e jurava
+despejar na urna ministerial o suffragio da sua freguezia.
+
+Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do
+governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido
+para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que
+era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser
+representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o
+custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa
+feição.
+
+Logo pela manhã do domingo, marcado para a grande solemnidade civil, o
+adro da igreja parochial apresentava uma animação fóra do costume.
+Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se com
+desconfiança, ou correspondendo-se por signaes de intelligencia,
+conforme pertenciam á mesma ou a opposta parcialidade. Os agentes
+eleitoraes, os influentes dos dois campos acercavam-se d'este, apertavam
+a mão áquelle, segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam
+com um terceiro, e, sempre que era possivel, distribuiam listas ao maior
+numero.
+
+O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava
+a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as
+mãos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por entre os
+grupos, recommendava ordem e respeito ás auctoridades, e dava de olho
+aos cabos, seus subordinados, para que se não esquecessem de cumprir as
+instrucções recebidas, votando no candidato ministerial.
+
+Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a constituição
+da mesa. O parocho, o administrador e o regedor foram occupar o seu
+logar. Ficou presidente o brazileiro, e o resto da mesa formou-se
+d'entre as duas parcialidades.
+
+Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as
+probabilidades da victoria.
+
+N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios
+do brazileiro, dizia-se:
+
+--Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; verão!
+
+--Só a freguezia de Pinchões enche-nos ahi a urna.
+
+--E estará bem seguro o morgado?
+
+--O sr. Joãozinho!? Ora! Está de ferro e fogo contra o conselheiro.
+
+--Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram na taberna,
+e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!...
+
+--Não é só por isso. Elle já estava do nosso lado, desde que soube
+tinham deitado abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava
+succumbido de todo.
+
+--É verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro d'esta vez.
+
+--Quem? O Vicente? Esse sim. Então não sabes que o pobre velho já se não
+levanta da cama?
+
+--Ai, não?
+
+--Andava já muito fraco e doente; mas ha tres dias, sobretudo, tem ido
+de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi dizer, aquillo está
+por pouco tempo: nem deita a semana fóra.
+
+--Coitado!
+
+--Ahi vem quem ainda hoje o viu. Não é verdade, sr. Pertunhas?
+
+--O quê, meus amigos, o quê? o que é que é verdade? o que é que
+dizem?--perguntou o mestre de latim, esfregando sempre as mãos.
+
+--Não é verdade que o Vicente herbanario está a ajustar contas?
+
+--Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o coração! Sempre eu digo que uma
+crueldade assim, como a do conselheiro!
+
+--Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, só por causa do
+mal que fez áquelle santo velho.
+
+--E com razão.
+
+--E então para quê? senhores, para quê?--continuava Pertunhas.--Para
+fazer uma estrada em que se gastam rios de dinheiro, e que a final não
+presta! Pois eu passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer,
+por a casa do Augusto, que é onde vive agora o Vicente. O rapaz estava á
+porta. Então, sr. Augusto, disse-lhe eu, á urna! vamos á urna! Elle
+encolheu os hombros como quem diz: «bem me importa a mim com isso.»
+
+--Ahi está outro, que tambem não é pelo conselheiro.
+
+--Por que não? Pois não é elle todo do Mosteiro?
+
+--Foi, foi--replicou o Pertunhas.--Então vmc.^ê não sabe que o
+conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de lhe arranjar a demissão,
+inda por cima o poz fóra de casa, porque pelos modos o rapaz... fez
+publicar umas certas cartas... que compromettiam o homem? A falar
+verdade, tambem não foi bonito.
+
+--Fez elle muito bem.
+
+--Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o
+povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar
+a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o
+Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi então
+que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem vossês, outro tanto de
+magro e outro tanto de velho... Mettia dó! Poz-se a perguntar-me muitas
+coisas, o que havia, o que não havia, por quem estava este, por quem
+estava aquelle... Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que
+fizesse, já não podia vencer; que não arranjaria os votos precisos para
+cobrir a freguezia de Pinchões. O velho ficou admirado quando eu lhe
+disse que o sr. Joãozinho era dos nossos. E lá o deixei a remoer a
+noticia. Ao menos resta-me a consolação de lhe ter adoçado com ella os
+ultimos momentos.
+
+N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter com
+um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer não sei que
+eleitor recalcitrante.
+
+--Ahi anda este--disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.--Era bem
+feito que lhe dessem outra lição, como a da taberna do Canada.
+
+--Ordem, ordem e prudencia!--disse o Pertunhas.--É preciso manter a
+liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes!
+
+--Mas que tem este senhor com as nossas eleições?
+
+--Quem o manda metter-se cá n'estas coisas?
+
+--Ora é boa! Então não sabem que elle casa no Mosteiro?--disse o
+Pertunhas, que andava sempre informado das vidas alheias.
+
+--Sim?!
+
+--É verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o Augusto, veio a
+nós o José Barbeiro, que nos deu essa novidade, que lh'a dissera o
+Manoel da Quinta, que a ouvira á Gertrudes, criada do Mosteiro.
+
+--Casa com a morgadinha, já se sabe?
+
+--Pois vêdes! não que a bolada convida! A mim logo me farejou isso,
+quando vi chegar esse figurão cá á terra. Mas querem vossês saber uma
+coisa engraçada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor não gostou da
+novidade.
+
+--Não? Então por quê?!
+
+--Vi-o fazer-se de mil côres quando a ouviu... Pois ter-se-lhe-ha
+mettido na cabeça... Hein?!
+
+--Tinha graça. Mas olha o milagre!...
+
+--Ah! ah!... Este mundo é muito divertido!
+
+N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a
+olhar para todos os lados, como procurando alguem.
+
+--Que temos nós lá, ó sr. Luiz?--perguntou-lhe o Pertunhas.
+
+--Onde diabo estão os de Pinchões?--perguntou o interpellado.
+
+-Inda não vieram.
+
+--Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles não apparecem. O
+morgado é homem para se esquecer a catar os cães.
+
+--Mas vamos nós principiando, e no emtanto elles virão--disse o
+Pertunhas, que fôra nomeado para revezador do secretario da mesa.
+
+--Mas a primeira freguezia que vota é justamente a d'elle. O sr. Seabra
+está como uma bicha!
+
+E, dizendo isto, o homem voltou para dentro.
+
+A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do
+beaterio, que pela voz dos padres chamava áquillo artes do demonio, ia
+principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais tarde, de
+proposito para não formar parte da mesa, requereu, com o relogio na mão,
+que se abrisse a urna aos eleitores, visto ser a hora marcada no edital.
+
+Este requerimento, simples e justo como era, suscitou discussão.
+
+O brazileiro allegou que, sendo os de Pinchões os primeiros a votar, em
+virtude do artigo 62.^o do decreto eleitoral, que manda votar primeiro a
+freguezia mais distante, e não estando na assembléa ninguem d'aquella
+freguezia, convinha esperar.
+
+O conselheiro insistiu, dizendo que a lei não mandava esperar por os
+eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que portanto
+votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas horas de
+espera, votariam os ausentes que depois viessem.
+
+Esta questão não se resolveu de prompto. Trocados alguns alvitres, lida
+a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados os recenseamentos e
+mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao administrador, e ao
+parocho, é que se approvou a proposta do conselheiro e principiou a
+chamada.
+
+A freguezia de Pinchões faltou em pêso.
+
+O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a lista
+dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os adversarios, e
+sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em principiar a
+votação julgou descobrir cavillação. Na urna não tinha entrado uma só
+lista. Pregoou-se o ultimo nome dos eleitores de Pinchões. Ninguem
+ainda!
+
+Passou-se a outra freguezia.
+
+O brazileiro já não estava em si.
+
+Os primeiros votos recolhidos mal os pôde introduzir na urna, de trémulo
+e sobresaltado que estava.
+
+O homem suppunha que lhe tinha sido roubada á ultima hora uma freguezia
+inteira. Não estava muito longe de acreditar que os agentes do
+conselheiro a haviam arrasado completamente.
+
+A freguezia que se seguia na votação era uma das que se conservavam
+fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a indisposição do
+Seabra.
+
+A votação ia, porém, correndo, interrompida apenas por algumas
+questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e sobre a
+regularidade d'esta ou d'aquella lista, graças aos futeis pretextos de
+que os contendores lançavam mão para disputarem, voto a voto, o
+suffragio popular.
+
+Ia adeantada a votação, quando correu na igreja uma voz, que veio
+infundir alento no animo desfallecido do brazileiro.
+
+-Veem ahi os de Pinchões!... Ahi estão os de Pinchões... Ahi vem o sr.
+Joãozinho e toda a sua gente!--dizia-se de toda a parte.
+
+Esta nova passou de bôca em bôca, a ponto de produzir um sussurro na
+assembléa.
+
+Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados.
+
+Chegára de facto alli o sr. Joãozinho das Perdizes, á frente da sua
+freguezia.
+
+Leitor, se tens, como eu, esperança e sincera fé no systema
+representativo, perdôa-me o obrigar-te a assistir a uma scena que faz
+subir a côr ao rosto de quem, como nós, abençôa os sacrificios por cujo
+preço nossos paes nos compraram a nobre regalia de intervir, como povo,
+na governação do Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa
+tutela de um homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos,
+contra os quaes o instincto e a razão igualmente se revoltam. A scena,
+porém, humilhante como é, não envolve a minima censura á excellencia do
+systema; mas apenas aos que nos quarenta annos que elle quasi tem de
+vida entre nós, não souberam ou não quizeram ainda fazer comprehender ao
+povo toda a grandeza da augusta missão que lhe cabe executar.
+
+Depois das nossas luctas civis, já muitas creanças se fizeram homens; se
+a escola fôsse entre nós o que devia ser, já haveria sobra de eleitores
+com perfeita consciencia dos seus direitos civis.
+
+O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, sómente devem impellir os
+homens de intenções sinceras e puras a applicar os esforços de
+intelligencia e de acção para ministrar com a educação a moralidade, e
+para acordar a consciencia d'esta entidade social.
+
+Era o sr. Joãozinho das Perdizes á frente da sua freguezia, disse eu.
+
+E é justamente este o espectaculo humilhante de que falava.
+
+Tendes visto um guardador de cabras á frente do seu rebanho, conduzindo
+com acenos e assobios todas as barbudas cabeças d'aquelle regimento
+quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da scena que se
+presenciava agora no adro da igreja matriz.
+
+O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mãos o sceptro da
+sua soberania, não era menos docil do que os irracionaes que recordamos.
+
+O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava;
+quando podia dispôr dos destinos dos seus senhores, era quando mais
+vergava a cabeça sob o pêso que estes lhe assentavam.
+
+Não é similhante esta fôrça inconsciente do povo á do boi robusto e
+válido, que uma creança dirige e subjuga? Forte como elle, como elle
+docil, como elle laborioso, como elle util, não vê que a mesma fôrça que
+emprega no trabalho lhe poderia servir para repellir o jugo. Ou quando o
+vê, é quando o desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas
+tremendas.
+
+Mas o povo de Pinchões, o povo do sr. Joãozinho, estava muito longe
+d'esses excessos.
+
+O morgado vinha, como já disse, á frente.
+
+A barba por fazer, as melenas despenteadas, o lenço do pescoço sôlto,
+sem botões o collarinho da camisa, com as mãos mettidas no cós das
+ceroulas, o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas
+até o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bôca, o palito atraz da
+orelha, o chapéo sobre o occiput, dois galgos adeante de si, e o
+inseparavel Cosme quasi _à latere_. Entrou no adro com ares
+triumphantes, sorrindo e piscando os olhos para os seus amigos e
+partidarios, como para lhes fazer notar a numerosa procissão que o
+seguia e a docilidade dos membros d'ella.
+
+Atraz vinham os eleitores de Pinchões, velhos e moços, ricos e pobres,
+mas todos com o olhar timido e estupido, todos com movimentos enleados,
+todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle
+parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com elle; a direcção que
+tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo,
+segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se
+praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou á porta da igreja.
+
+O morgado passou revista á sua tropa, á qual deu instrucções.
+
+Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braços estendidos e
+a cabeça baixa, não ousavam fazer um movimento, e conservaram-se
+enfileirados até nova ordem do sr. Joãozinho.
+
+Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem.
+
+No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel almaço
+dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de um homem que elles
+nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um d'elles,
+chamado pela voz do escrutinador eleitoral, responderia: «presente»;
+approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle
+papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um pêso que o
+opprimia.
+
+Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto
+que acabavam de executar, não saberiam dizel-o; se lhes perguntassem o
+nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das suas
+liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a resignação do
+direito de votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem
+que n'aquelle dia estavam nas suas mãos e dos seus pares os destinos do
+paiz, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiança
+propria dos ignorantes.
+
+Innocente povo!
+
+Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómmodo degrau.
+
+Quando disseram ao sr. Joãozinho que já tinha passado a sua vez de
+votar, o homem rompeu pela igreja dentro, berrando, bracejando,
+ameaçando céos e terra, sem attender a quantos lhe clamavam que tinha de
+se proceder a nova chamada, e que portanto socegasse.
+
+O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justiças.
+
+Custou a serenar o morgado, e não o fez senão depois de duas pragas
+contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas que razões politicas
+fizeram engulir ao brazileiro, sem nem sequer lhe tirarem dos labios o
+sorriso com que saudára a vinda do morgado.
+
+Caindo em si, o sr. Joãozinho deu ordem á sua gente para que entrasse
+para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos lados d'ella, promptos á
+primeira voz.
+
+A chamada proseguia, e a votação não ia já muito favoravel ao
+conselheiro, a julgar pelos indicios, que não escapam aos olhos
+amestrados dos mirones.
+
+O brazileiro exultava comsigo mesmo, principalmente quando, por sobre as
+cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do
+morgado, compactas e decididas.
+
+O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo
+cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo
+sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do
+brazileiro.
+
+Era caso desesperado.
+
+Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde
+estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo
+eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a
+nossa narração.
+
+Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre
+os quaes o Zé P'reira.
+
+Com este deu-se um episodio comico, que merece menção.
+
+O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o
+parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que
+era contra a expressa determinação do artigo 61.^o, § unico, da lei
+eleitoral.
+
+Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi
+impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé
+P'reira. Era uma nódoa de vinho.
+
+Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se
+lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.^o.
+
+A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a
+maior candura:
+
+--Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que
+vocemecê me deu.
+
+O proprio conselheiro desatou a rir.
+
+O brazileiro resmungou:
+
+--Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?
+
+-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir--disse o Tapadas, e
+accrescentou:--ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé.
+
+Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista
+caiu na urna.
+
+Estava a findar a primeira chamada.
+
+Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.
+
+A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve
+entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar.
+
+Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do
+herbanario, cuja inicial era um V.
+
+Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a
+actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram
+affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e
+paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna
+para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição
+inevitavelmente.
+
+O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se
+desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.
+
+O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.
+
+--Vicente Rodrigues da Fragosa--disse elle, preparando-se já para voltar
+o caderno.
+
+--Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe--disseram alguns.
+
+E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja
+uma voz trémula, mas sonora ainda, responder:
+
+--Presente.
+
+Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.
+
+Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o
+velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio.
+
+Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.
+
+Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o
+herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido,
+segurando a lista que vinha lançar na urna.
+
+Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor,
+perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do
+tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do
+caminho com respeito, senão com supersticioso terror.
+
+Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som
+dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja.
+
+O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do
+herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia,
+parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade
+politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição
+de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.
+
+Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam
+approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura.
+
+Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um
+pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um
+pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.
+
+O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão
+em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao
+encontro, dizendo commovido:
+
+--Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!...
+
+O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.
+
+--Arreda-te!--disse com severidade--deixa-me, serpente, que mordes a mão
+do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia,
+quando estiver a expirar!
+
+O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas
+palavras.
+
+--Ó tio Vicente!...--exclamou, ajuntando as mãos--pois eu que lhe fiz?
+
+--Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar
+contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle
+a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso:
+eu não o quero para mim.
+
+E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro,
+que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:
+
+--Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
+
+O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.
+
+Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela
+assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava
+approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim
+estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.
+
+--Manoel,--disse-lhe o velho em voz sumida--não me cegava tanto o
+resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo.
+
+--E sel-o-has sempre, Vicente.
+
+--Sempre que o seja... por pouco tempo será--respondeu o velho, sorrindo
+tristemente.
+
+--Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?
+
+--Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e
+outros mais.
+
+A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia
+luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na
+garganta.
+
+--Já não posso...--murmurou elle.--Queria dizer-te...
+
+E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:
+
+--Era... d'este... Elle é... elle está...
+
+Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes,
+ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.
+
+Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras
+morto, quando o fôram a erguer.
+
+O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o
+adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o.
+Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um
+agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
+
+Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis.
+
+Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.
+
+Os indifferentes voltaram a continuar a eleição.
+
+Ia principiar a segunda chamada.
+
+O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava
+desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja.
+
+O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo,
+acharam-se sós junto do cadaver.
+
+A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens
+precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em
+que o conselheiro esteve só com Augusto.
+
+N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao
+resentimento.
+
+--Augusto--disse elle a meia voz--a morte não deixou este infeliz
+completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu
+adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo.
+
+E, dizendo isto, estendia-lhe a mão.
+
+Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:
+
+--A mão que v. ex.^a me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as
+injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso.
+Desde que uma vez v. ex.^a formulou a accusação e se fez juiz, prefiro,
+a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico
+mais em paz com o meu orgulho.
+
+A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.
+
+Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver.
+
+Augusto acompanhou a casa o herbanario.
+
+O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco
+disposto a permanecer alli.
+
+--Fique se quizer--disse elle para Henrique.--Não estou em estado de
+receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a
+mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar
+esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande
+novidade. Adeus.
+
+E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.
+
+Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias
+circumstancias que a acompanharam.
+
+Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou
+ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára.
+
+A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da
+vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina
+alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava
+exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das
+suas previsões, infelizmente realisadas.
+
+Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira,
+o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito
+pela derrota que se lhe preparava na urna.
+
+Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação
+era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir.
+
+Assim, por exemplo, dizia elle á filha:
+
+--Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma
+vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer;
+a vida politica ia-me cançando já.
+
+Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal
+simulada satisfação!
+
+Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem
+estas exterioridades lhe permittia já.
+
+Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de
+votos.
+
+Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só
+pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de
+uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.
+
+Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos
+afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos
+tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram
+preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a
+ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões
+ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos
+sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão
+intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada
+individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o
+effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a
+todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da
+sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a
+ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e
+comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas
+exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta
+d'ellas.
+
+O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava
+preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que
+esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de
+que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma
+grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento
+prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a
+tranquillidade da certeza.
+
+É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um
+desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como
+as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os
+ramos cortados?
+
+O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos,
+passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de
+vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e
+melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.
+
+Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando
+viesse, feril-o-ia como imprevista.
+
+Sempre assim succede.
+
+No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções
+por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes.
+
+O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.
+
+Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo
+bateram precipitados.
+
+A causa estava, emfim, decidida.
+
+A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do
+vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle?
+
+O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um
+sorriso amargo, disse para a familia:
+
+--Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!
+
+--Quem sabe, mano? Ás vezes...
+
+Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando
+Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:
+
+--Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!
+
+--A correr?!--disse o conselheiro, em quem esta simples noticia
+infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das
+pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella.
+
+As senhoras seguiram-n'o alli.
+
+O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os
+silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro.
+
+--Parece o Domingos, o criado do Tapadas...--disse o conselheiro,
+affirmando-se.
+
+--Mas que pressa elle traz!--notou D. Victoria.
+
+--Já nos viu--disse Angelo.
+
+--Lá acenou com o chapéo--exclamaram todos.
+
+--Que quer elle dizer com aquelles signaes?--tornou o conselheiro,
+nervoso.
+
+--Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano.
+
+--Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É
+boa!--disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer
+que lhe descubram uma esperança.
+
+Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia
+n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.
+
+Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir
+alli. Mal se respirava.
+
+--Eil-o--disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle
+appareceu.
+
+--Viva! sr. conselheiro, viva!--bradou elle de lá, apesar de esfalfado.
+
+O conselheiro teve quasi uma vertigem.
+
+--Elle que diz?... Como pode...
+
+Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com
+frenetico enthusiasmo.
+
+Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae
+desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e
+celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião
+da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um
+partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o
+ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos
+momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a
+commoção que esta produz, se se realisa.
+
+O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava:
+
+--Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano...
+
+Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez
+a sair d'ella.
+
+Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto.
+
+O conselheiro interrogou o.
+
+--Então que dizes tu? Que vivas são esses?
+
+--Digo que vencemos--respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na
+primeira pessoa do plural.
+
+--Estás a sonhar?
+
+-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para
+lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.^ê... tinha v. s.^a mais
+cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por
+junto. No caminho ouvi a girandola...
+
+--Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser!
+
+--Cento e cinco!
+
+--Estás bem certo no que te disse teu amo?
+
+--Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo.
+
+O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel
+aquillo que lhe annunciavam.
+
+Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para
+ir por seus proprios olhos averiguar do facto.
+
+Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira
+nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares
+com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre
+Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!
+
+O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram
+estrondosas.
+
+A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime.
+
+O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação.
+
+Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes
+eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa.
+
+--Que quer dizer isto?--perguntou o conselheiro, abraçando-os.
+
+--Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem
+menos--respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas.
+
+--Cento e trinta e cinco--repetiu o Pertunhas.
+
+--Mas d'onde vieram!
+
+--Ora essa é boa! De Pinchões.
+
+--De Pinchões--repetiu o Pertunhas.
+
+--Como?... Pois o morgado?...
+
+--Votou comnosco como um homem. Ora pudéra!
+
+--É verdade... votou... comnosco--dizia mestre Pertunhas.
+
+--Mas não se viu ainda ha pouco...
+
+--Que estavam com metralha inimiga?--concluiu o Tapadas.--Que tem lá
+isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um
+destrôço! Parece a loja de um farrapeiro.
+
+--Mas explica-me isso, Tapadas.
+
+--Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda
+que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao
+morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente
+expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que
+se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me
+metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse
+e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada
+ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um
+momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se
+põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda.
+Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a
+urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a
+vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é
+que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás
+cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no
+fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra
+o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á
+girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles,
+pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto!
+
+E o Tapadas terminou com outra gargalhada.
+
+O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe
+as costas, dizendo:
+
+--Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se.
+
+E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que
+estavam proximos:
+
+--Este Tapadas tem cada graça!
+
+Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario.
+Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com
+exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o
+elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito
+calculam.
+
+As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as
+suas demonstrações de alegria.
+
+O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e
+das festas populares que se faziam no pateo.
+
+
+
+
+XXXI
+
+
+A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, não só pela
+qualidade de homem que era aquelle, como pelas circumstancias, no meio
+das quaes o facto succedêra.
+
+O resultado da eleição, comquanto momentoso, não distraía do assumpto as
+attenções; pois que, tendo sido successos simultaneos, associavam-se
+naturalmente nas conversas e discussões, e um chamava o outro.
+
+O herbanario não fôra colhido desprevenidamente pela morte; havia muito
+tempo que fizera as suas disposições e por ellas legára a Augusto tudo
+quanto possuia, isto é, alguns livros, entre os quaes a _Polyanthea_, e
+o preço, quasi intacto, que recebêra pela casa expropriada.
+
+Logo que estas disposições fôram sabidas, não faltou quem achasse
+n'ellas a explicação da amizade desvelada com que Augusto sempre tratára
+o velho, e do piedoso acatamento com que o recebêra em casa, assim que
+da sua o expelliram.
+
+Nós que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos julgar a fundo
+do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos taes juizos.
+
+É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no
+desinteresse dos outros!
+
+Não ha explicação mais difficil de ser recebida do que a que se
+fundamenta n'um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade.
+
+É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim desconfiarmos do
+proximo. Porque a final o que é verdade é que a mais exacta e infallivel
+sciencia do coração humano só se adquire pelo estudo do proprio coração:
+esse é o unico que nos está bem patente. É por isso que as melhores
+almas são de ordinario as mais crentes.
+
+Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as
+apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado
+o coração como suppõe o dos outros.
+
+O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi
+muito concorrido.
+
+Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinação do fallecido, em campa
+rasa, e não no tumulo da familia do Mosteiro, como o conselheiro
+desejára.
+
+Tudo se passou sem o menor signal de opposição.
+
+Não se explicam bem estas versatilidades da opinião publica. Uma medida
+que hoje ateia uma revolução, ámanhã executa-se no meio do
+indifferentismo geral, e sem apostolado prévio, sem providencias
+repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao
+legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia
+das leis naturaes.
+
+O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do
+herbanario, e receberam as visitas de pêsames, que em parte eram tambem
+de parabens pelo exito do suffragio popular.
+
+Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam na
+igreja matriz as badaladas das Avé-Marias, Augusto entrou no cemiterio,
+já deserto, e approximou-se lentamente da sepultura, inda coberta de
+pouco, como o denunciava a terra revolvida.
+
+Elle, cujo coração era decerto o que a morte do herbanario mais
+dolorosamente ferira, não recebêra pêsames de ninguem. Passára a tarde
+só com o seu pensamento, o qual, como o leitor prevê, lhe não devia ser
+muito jovial companheiro.
+
+Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado
+pelo ar abatido, revelador de uma profunda prostração de animo, que lhe
+quebrára as fôrças.
+
+Que era feito d'aquella energia, com que se revoltára contra as
+perseguições da sorte, e que lhe animára os primeiros passos para obter
+a justificação devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem
+mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir
+nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe
+perdão; vimol-o recusar o auxilio que este já lhe offerecia, e
+considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da
+sua innocencia.
+
+Que é feito d'essa energia?
+
+O que é feito d'ella? leitor, talvez o teu coração te possa responder
+por mim, se és uma d'essas victimas, para quem a sorte parece
+personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios
+lentos.
+
+Quando, uns após outros, se repetem os golpes da adversidade, quando
+todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldição de
+Deus, é raro encontrar-se têmpera de alma tão rija que resista e não
+ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta
+com um poder superior.
+
+A razão mais clara deixa-se tomar então da cegueira do fatalismo, e
+eivado d'esta grave doença dissipa-se a fortaleza do espirito, como se
+extinguem as fôrças do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador.
+
+Então encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a que é tão
+sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gôso em succumbir sem
+lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema
+infelicidade.
+
+Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provações da vida: a miseria
+em perspectiva, a ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que
+ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade
+o insulto e a calumnia: sorrira á miseria e á ingratidão, e dera á
+amizade as consolações que a amizade lhe inspirára.
+
+Mas não desfallecêra com tudo isto.
+
+Maior provação lhe estava reservada, porque ha maiores provações para a
+alma humana, do que todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de
+subito a estrella que a guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia,
+dormindo no meio de uma desencantada realidade; privae-a da ideia
+querida, que havia muito concebêra, que comsigo vivia, que para si
+guardava, ciosa dos olhares extranhos, e vêl-a-heis desnorteada,
+perdida, louca, contorcer-se em desespero e succumbir.
+
+Se resiste e sobrevive, se não desfallece, nem vacilla, é porque é de
+essencia mais elevada do que a humana.
+
+Ás vezes aquella ideia era tão irrealisavel, aquelle sonho tão
+chimerico, que a pobre devia estar prevenida para o perder um dia, e
+julgou que o estava.
+
+Mas illudira-se. Se nos dermos de coração a uma chimera, se ella, nas
+fórmas vagas e aereas que reveste, nos sorrir e namorar, em vão julgamos
+têl-a por o que verdadeiramente é; ha sempre um ou outro momento em que
+a acreditamos realisavel e até realisada.
+
+E, ao convencermo-nos devéras da sua impossibilidade, sentimos a dor
+profunda que nos causa a perda de um objecto querido.
+
+Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes
+vestiam a fórma humana, assim o impossivel, quando nos apaixonamos
+d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a feição da realidade aos nossos
+olhos namorados.
+
+E ao revelar-se como impossivel, destróe o coração que o abraça, como
+Jupiter sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua
+gloria de deus.
+
+Qual fôsse a ideia constante, o pensamento recatado de Augusto,
+sabem-n'o os leitores: era o amor de Magdalena. A natureza d'esta paixão
+dizia elle conhecel-a. Não tinha outra aspiração além de existir, era
+como o culto pela Virgem do Christianismo, era que se adora por adorar,
+em que na mesma adoração se acha o premio do culto, em que o deixar-se
+adorar é o mais que pode pedir-se ao objecto d'elle.
+
+De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto.
+
+Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique,
+sentiu quasi aversão para elle? por que foi que, amavel e bondoso para
+com todos, só para com um desconhecido se mostrou frio e irritante? por
+que foi emfim que, ao persuadir-se, por certos indicios, de que
+Magdalena e Henrique se amavam, caiu no desalento, em que tantas causas
+de infortunio o não tinham lançado ainda? Porque a verdade era que foi
+este o golpe que o venceu.
+
+Por quê? porque amava Magdalena, porque este amor não tinha nada
+excepcional; era inconscientemente apprehensivo, ambicioso, devaneador e
+ciumento, como todos os amores verdadeiros; porque era aquelle o seu
+sonho mais querido, e desde que era obrigado a convencer-se de que não
+passára de um sonho, não se sentia de animo para fitar a realidade;
+porque era aquella a luz da sua alma, e ao vêl-a apagar, vacillou nas
+trevas e parou. Desde que não avistava um alvo, não havia para elle
+retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que não valia mais
+do que a quietação.
+
+Esta fôra a causa do desalento de Augusto, que só então conheceu que se
+illudira com o estado do seu coração, que o que em si se passava era o
+verdadeiro amor.
+
+Desde que teve de renunciar a elle, não fez mais um esforço para
+justificar-se da calumnia que pesava sobre si. Sentia-se indifferente á
+condemnação do mundo. Já nem lhe importava justificar-se para com
+Magdalena; era quasi uma vingança, que tirava d'aquella por quem
+soffria, obrigal-a a ser injusta.
+
+E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto!
+
+O herbanario fôra victima da mesma illusão de Augusto, e concorrêra
+involuntariamente para o levar a este estado moral.
+
+Das explicações dadas por Magdalena na casa dos Cannaviaes, sabemos como
+das meias palavras e meias revelações de Torquato, o herbanario
+acreditára que a morgadinha combinára imprudentemente com Henrique uma
+visita nocturna á quinta dos Cannaviaes. O velho, que suspeitára sempre
+da natureza dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vêr
+n'aquillo a confirmação das suas suspeitas, e encontrando Magdalena,
+reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a quiz.
+
+Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dúvida, se deveria
+ou não revelar tudo a Augusto.
+
+A noite cerrou de todo e deslizou com a lentidão de uma noite de
+inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia seguinte
+passou-o na mesma indecisão. Mas a inquietação do herbanario crescia;
+desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha exposta Magdalena, cuja
+confiança em Henrique a podia perder.
+
+O herbanario continuava a desconfiar de Henrique.
+
+Chegára a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com uma das
+meninas de visitar á meia noite, por causa de Henrique, a casa dos
+Cannaviaes. O velho não pôde mais tempo conter-se e disse a Augusto,
+depois de muito luctar comsigo:
+
+--Não devo calar-me. É preciso coragem, meu filho. Arranca do coração a
+loucura que lá tens ainda, embora o deixes em sangue, ou estás perdido.
+
+Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto.
+
+O velho proseguiu:
+
+--Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que
+vires te não curar, se é sem remedio esse mal, ao menos sê generoso, e
+acode e salva, se fôr possivel, quem, perdendo-te, se perde tambem.
+
+E após estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto tremeu de
+investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma noite,
+recommendando-lhe que fôsse preparado para receber uma grande dor.
+
+Augusto seguiu as indicações do herbanario, e foi.
+
+Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da
+piedosa devoção de Christina, a vimos chegar á janella dos Cannaviaes.
+
+A morgadinha reconhecêra Augusto através das sombras nocturnas, e tivera
+um presentimento do que significava a presença d'elle n'aquelle logar e
+n'aquella occasião.
+
+Por concentrada e discreta que fôsse a paixão de Augusto, não era um
+mysterio para Magdalena.
+
+A extranhar alguem esta penetração de vista não será decerto nenhuma das
+minhas leitoras.
+
+Magdalena adivinhára havia muito Augusto, e não lhe fôra difficil
+explicar até a instinctiva hostilidade com que elle sempre acolhêra
+Henrique.
+
+Por isso, ao vêl-o alli, previu que pesava sôbre ella uma suspeita, que
+era victima de uma illusão, e que as apparencias a podiam condemnar.
+
+De feito Augusto chegára tarde aos Cannaviaes, porque só tarde o
+herbanario vencêra a hesitação que experimentára ao dizer-lhe que fôsse.
+Por isso só pôde reconhecer a voz e a figura da morgadinha e de Henrique
+no curto dialogo, que entre os dois se trocára, quando vieram examinar á
+janella o estado da noite.
+
+As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas de uma maneira
+cruel para o seu coração. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais querer
+vêr nem ouvir, retirou-se como um louco.
+
+Foi n'essa occasião que Magdalena o viu.
+
+Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava,
+viu-o pallido, e com uma expressão singular no rosto.
+
+--Então?--interrogou-o anciosamente o velho.
+
+--Tinha razão, tio Vicente. Tem sido uma longa e má loucura a minha.
+Verei se me curo d'ella.
+
+E, sentando-se, encostou a cabeça ás mãos e permaneceu silencioso.
+
+O velho não lhe perguntou o que se tinha passado.
+
+D'ahi em deante foi em rapido progresso a prostração de animo em
+Augusto.
+
+A doença do herbanario que se exacerbou consideravelmente tambem, era o
+unico motivo de uma fôrça ficticia que ainda o sustentava. Os seus
+desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes.
+
+A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a do
+cirurgião que tratava do herbanario.
+
+Falador por indole e por cálculo profissional, o facultativo contava á
+cabeceira do leito as novidades do dia. Entre essas trouxe uma das que
+mais vogavam, que era a de que Henrique casava no Mosteiro com a
+morgadinha.
+
+Um equivoco dizer do Torquato, na presença dos criados do mosteiro, uma
+das meias discreções do velho, mais perigosas do que a propria
+indiscreção originára esta versão.
+
+Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, que
+o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto impassivel.
+
+No dia das eleições, o estado do velho Vicente era mais grave ainda. O
+cirurgião prolongou a sua visita e falou da campanha eleitoral.
+Assegurou que era certa a derrota do conselheiro, desde que contra elle
+se manifestára o sr. Joãozinho das Perdizes.
+
+O herbanario escutou-o com admiração e sobresalto.
+
+Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma
+predilecção que a tudo sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o
+affecto que alguns paes sentem pelos filhos, de quem só teem recebido
+desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais
+motivos ha para a esfriar.
+
+Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.
+
+Foi então que o herbanario, dominado por energia febril, quiz erguer-se
+do leito, e, apoiado no braço de Augusto, que em vão tentou dissuadil-o,
+se dirigiu á igreja para votar. O resultado sabem-n'o os leitores.
+
+Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar o
+alento a Augusto. Facil é, pois, de conceber qual o estado do seu
+espirito ao entrar no cemiterio.
+
+Oração ou meditação, por muito tempo durou aquelle tributo de saudade,
+que o aspecto sombrio da tarde e a melancolia do logar e da hora mais
+solemne faziam.
+
+Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava
+d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do
+tumulo da filha.
+
+Não era o Cancella já o mesmo robusto e alegre aldeão que vimos,
+dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado rustico, representar com
+applauso o tyranno perseguidor do Messias. Desde a morte da filha
+parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, nem tinha fôrças para o
+trabalho, nem coração para alegrias.
+
+Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o que
+se movia alli.
+
+--Ah! logo vi que era o sr. Augusto--disse o pobre homem, estendendo a
+mão, que Augusto apertou com affecto.--Só nós temos amigos aqui.
+
+--É verdade, Cancella. Ou só nós, fóra d'aqui, não temos outros, pelos
+quaes esqueçamos estes, que ahi dormem.
+
+--Eu decerto que não! Está-me toda a alegria, está-me todo o coração
+debaixo d'aquella pedra--disse o Herodes, apontando para o tumulo da
+filha.--Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar?
+
+--Ha quem aos vinte já não tenha coragem para principiar outra!
+
+O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras.
+
+--Fala de si, sr. Augusto?... Não tem razão. Que são as suas dores ao
+lado da minha? Se ainda não experimentou o amor e as alegrias de pae,
+como ha de imaginar a dor, que a morte de uma filha unica nos traz ao
+coração?... A minha pobre Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o
+têl-a perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com razão, que
+era seu amigo e quasi um pae para si... mas não é sem remedio a sua
+saudade, verá... A minha porém...
+
+Augusto sorriu amargamente.
+
+--Tu sabes lá, homem, o que eu tenho no coração?
+
+N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de
+acclamações e applausos. Eram os clamores dos grupos populares,
+celebrando a victoria do conselheiro.
+
+Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais.
+
+--Uns riem, emquanto outros choram--disse o Cancella.--Ha alegria acolá.
+
+E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli.
+
+--Ha...--respondeu Augusto, pensativo.--Somos de mais n'esta terra, meu
+pobre Cancella; nós, os infelizes.
+
+--Por isso parto ámanhã.
+
+--Partes?
+
+--Se eu não posso viver aqui! Se tudo isto me está falando na filha!...
+A cada passo estou á espera de vêl-a... É como se a todo o instante me
+morresse. Vou para a cidade; dizem que estão engajando por lá
+trabalhadores para o Brazil... Quero vêr se o trabalho me mata, antes
+que o desgôsto me não tente a morrer de outra sorte.
+
+--E dizes que partes ámanhã?
+
+--De madrugada. Já tenho tudo prompto.
+
+Augusto reflectiu por algum tempo.
+
+--Far-te-hei companhia.
+
+O Herodes olhou-o, admirado.
+
+--O sr. Augusto?! Pois quer?...
+
+--Quero que me batas á porta, quando passares.
+
+--Mas que tenções são as suas, sr. Augusto?
+
+--As mesmas talvez que as tuas. Não dizes,que queres vêr se o trabalho
+te mata? Por que não hei de eu tentar o mesmo tambem?
+
+--Mas... não lhe morreu uma filha.
+
+--E cuidas tu que só um amor de filha nos pode prender á vida? que só a
+morte de uma creança nos pode ferir no coração?...
+
+O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois
+disse, com hesitação ainda:
+
+--Não é por certo a morte d'este santo velho que o faz falar assim, sr.
+Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez que lhe fizesse bem.
+Bem vê que eu sou infeliz e... havia de entendel-o...
+
+Augusto apertou-lhe a mão, commovido.
+
+--Pobre amigo! Não, não me entenderias; porque não basta ser infeliz
+para me entender. É necessario ter sido louco como eu fui.
+
+--Louco?!...
+
+--Sim, louco, meu bom Cancella, louco. Não te lembras d'aquelle
+desgraçado do Pé do Monte, que se suppunha rei? Como ria n'aquelle
+tempo! Um dia voltou-lhe o juizo, mas ficou tão triste até morrer, que
+parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe devesse os unicos
+instantes de felicidade que sentiu na vida.
+
+O Herodes já não comprehendia Augusto, o que lhe fez crêr que o não
+entenderia se elle o tomasse por confidente.
+
+Augusto mudou de tom, dizendo-lhe:
+
+--Promettes passar por minha casa esta madrugada?
+
+--Pois sempre quer?...
+
+--Se não partir comtigo, partirei só.
+
+--N'esse caso...
+
+--Espero-te. Aonde vaes agora?
+
+--Ao Mosteiro.
+
+--Ah!... vaes ao Mosteiro?...
+
+--Vou despedir-me d'aquella santa familia, que tão bem me tratou da
+filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se não
+consolou tambem da morte da minha pobre Linda.
+
+--Angelo?... É um nobre coração... Espera... Não quero partir sem lhe
+dirigir algumas palavras... Devo-lh'as.
+
+--Só a elle?
+
+--Só elle m'as agradecerá.
+
+E Augusto approximou-se do tumulo da mãe de Magdalena, e á frouxa
+claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em um quarto de papel
+estas palavras:
+
+
+ «Angelo.--Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que repousam sua
+ mãe e Ermelinda, duas imagens que serão sempre para o seu coração
+ rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ouça-me, que em nome
+ d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre
+ estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as
+ sombras de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem
+ custo. Não o tornando talvez a vêr, Angelo, tinha um dever a
+ cumprir para com a sua generosidade. Hão de ensinal-o a
+ desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creança
+ recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razão do
+ adolescente talvez venha a ser mais docil. Não podendo
+ justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a
+ consciencia tranquilla. Não é por mim que faço este protesto, é
+ para lhe evitar, se fôr possivel, a dúvida no caracter dos homens.
+ Para um coração, como eu lhe conheço, deve ser um martyrio. Os mais
+ que me condemnem; nem necessidade sinto já de me justificar. Parto
+ com um desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo
+ acceito com indifferença.--Seu amigo, _Augusto_.
+
+
+Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a
+que deviam encontrar-se, separaram-se.
+
+O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que
+ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.
+
+Não pôde, porém, chegar tão depressa ao Mosteiro como esperava;
+distrahiu-o no caminho o seu compadre Zé P'reira.
+
+A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso
+Zé P'reira, estava cada vez mais transtornada.
+
+A beatice azedára o animo da sr.^a Catharina do Nascimento de S. João
+Baptista.
+
+A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro na terra
+depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle
+imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle santo varão do
+prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoção
+pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia.
+
+Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Zé
+P'reira, peor se tornou depois d'essa época.
+
+A mulher passava todo o tempo em devoções na igreja. O marido,
+desconsolado, procurava lenitivo na taberna.
+
+Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado
+habitual, e já menos inoffensiva e pacifica do que nos primeiros tempos.
+
+A miseria ameaçava invadir aquelle lar, até alli remediado.
+
+Tudo isto exacerbára a acrimonia das discussões conjugaes.
+
+Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e
+attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal.
+
+De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais
+ameaçadora.
+
+Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais além do que a sua
+timidez habitual o permittira até alli, e a sr.^a Catharina soube, pela
+primeira vez, que o osso de que ella era osso não tinha a brandura que
+lhe suspeitava.
+
+Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhança. D'ahi por
+deante fôram frequentes iguaes espectaculos.
+
+Na noite em que o Herodes o encontrou, o Zé P'reira, em completa
+embriaguez, acabára de fazer sentir mais uma vez a sua mulher toda a
+fôrça da auctoridade marital. Ella revoltou-se e abandonou os penates,
+jurando que nunca mais voltaria a elles.
+
+O pobre do homem andava agora perdido nas ruas á procura d'ella,
+arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia dó. O Cancella
+condoeu-se d'elle, e dando-lhe o braço, para lhe firmar os passos
+cambaleantes, conduziu-o a casa, promettendo restituir-lhe a mulher
+fugida.
+
+E n'esta tarefa de reconciliação passou grande parte da noite,
+conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de que não seria muito
+duradoura a paz.
+
+E tinha razão o Cancella em pensar assim. Ao lar domestico, onde uma vez
+se passa uma scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia.
+
+O pobre do Zé P'reira estava condemnado a levar assim o resto da sua
+vida de familia.
+
+Esta occorrencia demorou o Herodes, que só tarde entrou no Mosteiro a
+despedir-se da familia que tanto lhe estimára a filha.
+
+
+
+
+XXXII
+
+
+Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada á
+insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na aldeia, não porque
+os preparativos da jornada lhe impedissem o repouso, mas a lucta de
+tantos pensamentos e paixões encontradas, decerto lhe disputaria o
+espirito.
+
+Partir é já uma palavra, que quasi nunca se pronuncia com indifferença;
+partir para não voltar é uma ideia afflictiva, que mais violenta
+commoção desafia; partir sem esperanças no futuro... poucas torturas de
+alma se podem comparar a esta!
+
+Experimentava-a Augusto.
+
+Era quasi uma resolução de suicida a sua. Nenhuma ambição tivera poder
+sobre elle para o arrancar d'alli; tivera-o o desespero.
+
+A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os
+olhos fitos na chamma da véla, com a cabeça entre as mãos, sem saber em
+que pensava, sem consciencia de si.
+
+A noite estava socegada, e apenas o som monótono de uma fonte proxima
+interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas.
+
+Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se
+costuma ler em situações identicas.
+
+Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os
+seus movimentos uma indecisão, uma falta de consciencia, que não deixava
+dúvidas sobre o estado do animo que os regia.
+
+Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as suas
+acções; e no meio do cumprimento de uma tenção, perdia a consciencia
+d'ella.
+
+Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria
+comsigo; mas cêdo afastava-o de si com enfado.
+
+Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de
+passados devaneios, effusão de uma alma sensivel, fructos da juventude e
+da solidão, a que a primeira inspirára o enthusiasmo, e a segunda a
+melancolia, tudo consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a
+chamma, desapparecerem as lettras, reduzir-se tudo a cinzas.
+
+Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em
+algumas de Magdalena. O sobresalto do seu coração, ao ler aquelle nome,
+era então mais violento que nunca.
+
+N'estas pesquizas veio-lhe ás mãos um pequeno masso, que pertencêra ao
+herbanario.
+
+Ia para as queimar tambem, quando a inscripção, que viu por fóra da
+cinta que as enfeixava, o fez hesitar.
+
+Liam-se estas palavras:--_Cartas de Magdalena_.
+
+Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma
+tentação.
+
+Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que já tinha
+renunciado; era entrar em communhão de pensamentos com ella, e infeliz
+de quem não concebe a casta voluptuosidade d'este gôso.
+
+Mas ao mesmo tempo hesitava.
+
+Pertencia-lhe tambem aquelle legado? Não seria um abuso lel-as? Devia
+antes queimal-as, mas... eram cartas de Magdalena. E depois, que mal
+poderia vir da indiscreção? Não tinha elle um coração que não devia
+abrir-se mais a ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o
+quasi em um tumulo.
+
+E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente?
+
+De que se poderia tratar alli, a não ser de algum affectuoso cumprimento
+da morgadinha ao velho, que sempre tratára com intima familiaridade, ou
+algumas meigas reprehensões por a sua porfiada ausencia do Mosteiro?
+
+Augusto recordava-se até do velho lhe ter falado na indole d'estas
+cartas.
+
+Nas vesperas de renunciar para sempre á felicidade, devia-se perdoar a
+tentação.
+
+Abriu-as.
+
+Não ia muito adeantado na leitura, quando já todos os signaes de
+hesitação cediam o logar aos da mais irreprimivel avidez. E terminada a
+primeira, abriu, leu ou devorou outra, e após outra e outra, até a
+ultima; da ultima voltava de novo á primeira, e cada vez mais profunda
+commoção parecia dominal-o.
+
+Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de
+todas.
+
+Dizia uma:
+
+
+ «Meu bom amigo.--Hontem, depois que nos separámos, recebi de Lisboa
+ a encommenda que esperava. O Angelo não se esqueceu. Mando-lh'a,
+ para que mais uma vez faça de feiticeiro, _adivinhando_ os gostos
+ do seu amigo.
+
+ «Afianço-lhe que vae acertar com os desejos d'elle. Ha tempos que o
+ vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, procurar de
+ preferencia na estante os livros de historia franceza. Custa-me a
+ perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a Revolução, mas emfim
+ seja feita a sua vontade. Escuso de lhe recommendar discreção. E,
+ quando nos virmos, peço-lhe que me não torne a falar nos laços em
+ que diz que eu estou a prender o coração. Mette-me mêdo.--Sua
+ amiga, _Lena_.»
+
+
+Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam:
+
+
+ «Meu amigo.--Hontem separámo-nos de tão mau humor, que hoje acordei
+ com remorsos, e não pude socegar emquanto lhe não escrevi para lhe
+ pedir perdão. Espero que perdoará a este rebelde genio que tenho.
+
+ «Mas tambem para que me está sempre a ralhar? Não se assuste pelo
+ meu coração; o maior perigo que o tio Vicente receia para elle,
+ faz-me sorrir.--É o de me apaixonar?--Então que tinha? Não sonhe
+ com nuvens, e vá representando o seu papel de _adivinho_, que é uma
+ generosa acção que pratica.--Sua arrependida inimiga, _Lena_.»
+
+
+ «Meu bom tio.--Ahi vão uns livros, de que eu não entendo nada.
+ Augusto falou d'elles ao filho do administrador, que veio de
+ Coimbra. Conheci n'elle desejos de possuil-os. Tomei nota. O Angelo
+ remetteu-m'os hontem. Para Augusto não desconfiar, finja atraiçoar
+ um pouco o mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, já
+ nada digo.»
+
+
+A de mais recente data dizia apenas:
+
+
+ «Tio Vicente.--Pensei no que me disse do estado do coração do
+ seu... do nosso amigo. Parece-me que exaggera. Mas, se fôsse
+ verdade, podia tranquillisar-se. Eu lhe afianço que d'ahi nunca
+ para elle virá a infelicidade. No entretanto, discreção por
+ ora.--Sua affeiçoada sobrinha, _Magdalena_.»
+
+
+Por a amostra, que lhe damos, o leitor não deve estranhar que estas
+cartas estivessem causando a Augusto o effeito que dissemos.
+
+Cada uma era uma revelação.
+
+Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha;
+d'ella lhe viera pois grande parte da instrucção que recebera, alli, na
+solidão d'aquella aldeia!
+
+O mysterio dos presentes do herbanario, a que tão diversas explicações
+dera, esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; suspeitára,
+pelo menos, que era a elle que o herbanario se dirigia para escolher os
+livros.
+
+Nunca, porém, se lembrára de Magdalena; agora, que sabia de que origem
+provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, venerava-os com
+expansões de verdadeira idolatria. Já não tinha coração para se separar
+d'elles.
+
+Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos
+cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella
+por Augusto, não havia para elle menor encanto. Pelo que tantas vezes
+lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza deviam ser as
+reflexões a que Magdalena alludia.
+
+O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois
+corações, estudando-os a ambos, receiando por ambos, lidando por
+extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer e que ameaçava
+degenerar em paixão. Toda a sua intervenção consistia em fazer com que
+elles se não revelassem; era o meio isolador que impedia que se ateasse
+o incendio. Nas suas mãos paravam os dois fios da corrente, só elle a
+interrompia.
+
+Esta situação do herbanario era para elle causa de grandes iuctas.
+
+Amando Augusto com sentimento paterno, tinha ambições por o amigo; e, ás
+vezes, movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella paixão. Por
+outro lado, não estimava menos Magdalena, e prevendo as resistencias e
+repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos a soffrer,
+hesitava e desejava poder abafar no coração dos dois os germens de
+pesares futuros.
+
+Tivemos occasião de o vêr sob estas diversos impressões. Umas vezes
+reprehendendo Augusto, outras quasi deixando-lhe entrever esperanças. A
+chegada de Henrique de Souzellas e os successos subsequentes despertaram
+no velho uma especie de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de
+Augusto.
+
+Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto.
+
+Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao coração, e tão
+enlevado estava pelo perfume do affecto que rescendia de todas, que nem
+se lembrava já da hora proxima da partida do motivo que a originára.
+Motivo que era o desmentido da sua illusão.
+
+Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impressão que produziu foi
+dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as lagrimas aos
+olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os braços, e assim
+permaneceu por muito tempo.
+
+Depois levantou a cabeça n'um impeto de desesperação, exclamando:
+
+--Para que me haviam de vir á mão estas cartas? Que espirito diabolico
+se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um anjo me acompanhava com
+a sua vista protectora só quando elle me vae deixar para sempre! E dizia
+ella que me não podia vir o infortunio d'aqui!... Não contava com as
+mudanças do proprio coração.
+
+Na vidraça da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram algumas
+leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer.
+
+--O Cancella já?... É pois certo que vou partir?
+
+Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe como os do condemnado
+ao caminhar para o supplicio.
+
+Chegára o momento de romper com todas as esperanças.
+
+--Estou prompto--disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, sem
+reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis que
+tinha dispersos na mesa.
+
+--Cuidei que era mais cêdo--continuou elle.--Distrahi-me a ler umas
+cartas que estive a pôr em ordem, e o tempo correu. Vamos lá, meu pobre
+amigo, deixemos esta terra para os venturosos.
+
+E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia
+estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e
+Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico
+sorriso.
+
+Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito em
+Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda contemplação.
+
+Magdalena foi a primeira que falou.
+
+--Admira-se de nos vêr aqui?--disse ella.--Que ha de mais natural?
+Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o mesmo
+pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe
+deviamos... visto que vae partir.
+
+E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de
+recriminação, que feriu Augusto.
+
+--E é certo que quer partir?--perguntou Angelo.
+
+--Sim... parto...--respondeu Augusto, perturbado.
+
+--Mas por quê? Que significa essa resolução? Lena contou-me ha pouco
+tudo. Eu nada sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame,
+e em nossa casa! Mas, já resolvemos; ámanhã, eu e Lena, havemos de
+falar, havemos de conseguir...
+
+--Não, Angelo. É inutil. Deixe-me com o meu destino. É a elle que eu
+obedeço.
+
+--Não fala verdade,--acudiu a morgadinha--diga que obedece á sua
+phantasia, e commette uma ingratidão.
+
+Á palavra «ingratidão», Augusto não pôde reprimir um sorriso de
+amargura.
+
+--Uma ingratidão, sim--repetiu Magdalena, respondendo com firmeza e
+serenidade áquelle sorriso.--Ha dias, depois de uma scena dolorosa para
+todos nós, quando saía do Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel
+fatalidade, encontrou alguem no limiar da porta, que lhe pediu que não
+partisse sem se despedir... de quem através de tudo, o acreditaria
+innocente. E para esta pessoa não houve uma só palavra na carta de
+despedida que mandou a meu irmão! E escreveu-a sobre o tumulo de minha
+mãe!
+
+Estas palavras fôram ditas com tão sentida commoção, que Augusto esteve
+quasi a lançar-se-lhe aos pés, para pedir perdão; reteve-se, porém, e
+respondeu turbamente:
+
+--Porém, minha senhora, por essa occasião eu jurei tambem á pessoa de
+quem fala, e a quem serei sempre grato, que não procuraria tornar a
+vêl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de todos digno
+da sua generosa confiança.
+
+--Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser visto?--perguntou
+Magdalena, sorrindo.--Veja qual d'esses juramentos será mais em harmonia
+com os seus actos.
+
+A lembrança da excursão nocturna aos Cannaviaes, para espiar Magdalena,
+tirou a Augusto o animo de responder.
+
+Magdalena comprehendeu aquelle embaraço, e não insistiu.
+
+--Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as provas
+da sua justificação?
+
+--Não, minha senhora, parto, porque desisto d'ella. Basta-me estar
+justificado para com a consciencia.
+
+--Não tem direito para o fazer. Uma alma, que é nobre, deve homenagem a
+si propria. Resignar-se á suspeita, é como um suicidio moral.
+
+--Justamente, minha senhora; e não concebe que haja casos em que o
+suicidio seja natural?
+
+--Meu Deus, Augusto--exclamou Angelo--como eu o estranho! o que o levou
+a esse desespero?
+
+A morgadinha sorria, ao responder ao irmão:
+
+--É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale com franqueza, sr.
+Augusto? Tenho um secreto presentimento a dizer-me que, apesar d'essa
+descrença, apesar d'essa carta, e apesar de estar por minutos o momento
+da partida, não só não partirá, mas até ha de tomar parte na nossa
+primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina.
+
+Estas ultimas palavras fizeram impressão em Augusto, que
+instinctivamente repetiu:
+
+--Do proximo casamento de Christina?!
+
+--Pois não sabia que Christina vae casar?-perguntou Magdalena com a
+maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto.--É verdade, o sr.
+Henrique de Souzellas teve pressa de legitimar o titulo de primos, com
+que arbitrariamente nos tratavamos.
+
+Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expressão, dizendo:
+
+--Quê?... pois é com Christina... pois Henrique vae casar com...
+
+Só depois de lhe romperem dos labios estas palavras, é que, reconhecendo
+a indiscreção da sua surpresa, accrescentou com mal simulada
+indifferença:
+
+--Ah! não sabia!
+
+--Devéras? Pois não tinha ouvido falar d'este casamento? Oh... querem
+vêr que suppunha tambem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque
+o Cancella tambem estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na
+aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n'elles!
+
+E, mudando de inflexão, proseguiu:
+
+--São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o
+outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre
+aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o
+doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma
+maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as circumstancias em que
+isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na
+capella-mór da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fôra
+rezar, pela saude de Henrique, as estações da meia noite; onde Henrique
+foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para
+os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; intervenção algum tanto
+perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas
+intenções de que as de qualquer dos tres, e que, ao vêr-me em tão
+extraordinario sitio, a taes horas, não me concedesse a confiança
+precisa para acreditar, através de tudo, na minha innocencia.
+
+A allusão era clara, e mais clara a fazia a inflexão com que foi
+pronunciada.
+
+Augusto curvou a cabeça e murmurou:
+
+--Tem razão, algum miseravel.
+
+--Ou algum infeliz--corrigiu delicadamente Magdalena.--Os infelizes são
+tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mal isso?
+
+Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse
+mais jovialmente:
+
+--Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei?
+
+Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha animo nem razão
+para dizer que partia. Calou-se.
+
+Angelo, a cuja prompta intelligencia não tinha ficado latente o
+verdadeiro sentido d'este dialogo, graças tambem ao conhecimento que
+elle tinha, havia muito, do coração de sua irmã e do de Augusto,
+respondeu por elle:
+
+--Não te enganaste, não, Lena. Tambem eu já digo que Augusto não
+partirá.
+
+E Augusto sem protestar!
+
+Magdalena tornou-se de subito mais séria e grave do que até alli, e a
+mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmão,
+dizendo:
+
+--Para vir aqui, pedi o auxilio do teu braço de creanca, Angelo, como se
+fôra o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da
+mesma maneira, emquanto não termino a minha missão. Ha pouco, depois que
+me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que
+tencionas fazer?» Não é assim?
+
+--Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te
+acompanhasse aqui.
+
+--Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo,
+que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse
+pensamento não está cumprido ainda.
+
+--Vejo que não.
+
+--Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom
+conselheiro, é deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi
+estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.
+
+E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que só
+um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse bastante para o denunciar:
+
+--Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provação,
+até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que
+herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. É
+uma especie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por
+isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo
+para estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer,
+as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas
+sympathias podem bastar ás aspirações da sua, se, para ganhar coragem,
+os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma...
+e dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta confissão, Angelo.
+Terás que me ralhar por causa d'ella?
+
+Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação, e tomando
+entre as suas a mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos
+apaixonados.
+
+Magdalena não teve pressa de retiral-a.
+
+Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que respondia á
+pergunta d'ella.
+
+Pobres creanças! Porque a final eram creanças todos tres, creanças a
+quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao
+transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só
+regando-os de lagrimas é que as mais das vezes se consegue nutril-os.
+
+O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria.
+
+--Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas.
+Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que
+tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar as provas da minha
+innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois...
+
+Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o
+rosto.
+
+Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu:
+
+--E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. Bem vê que,
+depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu
+coração, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a
+mão, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a
+seguir o caminho do Mosteiro.
+
+Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com
+firmeza:
+
+--Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.
+
+Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só.
+
+O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão
+inesperada companhia, mas não lhe foi difficil, depois do que viu e
+ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de
+resolução o seu companheiro de jornada.
+
+Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.
+
+Estes não conseguiram dissuadil-o de partir.
+
+Não havia já estimulo para arrancar aquelle coração ao desalento.
+
+Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro.
+
+O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão violentas
+paixões, que desisto de descrevel-as.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+
+Na manhã do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, na qual
+incluimos já D. Dorothéa e Henrique, reunida em uma das salas do
+Mosteiro.
+
+As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e
+Henrique jogavam o xadrez; D. Dorothéa e D. Victoria conversavam a
+respeito do preço de umas meadas de linho, que esta tinha dado a córar,
+e da pessima qualidade do fiado, effeito evidente, segundo D. Victoria,
+das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro
+examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que recebera,
+já a pedir empregos e graças em paga dos serviços eleitoraes, ás vezes
+hypotheticos.
+
+A cada passo, porém, Magdalena suspendia o trabalho, para olhar para a
+porta da sala, principalmente quando nos immediatos aposentos se
+escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que não com menor
+frequencia os desviava das pedras do taboleiro para encontrar os da
+irmã.
+
+Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, e
+esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os olhos
+da costura.
+
+D. Victoria e D. Dorothéa não era raro metterem-se na conversa dos
+outros, d'onde facil transição achavam logo para voltarem aos seus
+assumptos favoritos: meadas e criados.
+
+O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia
+notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que examinava.
+
+Era evidente que todas aquellas cabeças estavam pouco preoccupadas com
+os assumptos apparentes das suas cogitações.
+
+--Ó Lena!--dizia Christina, que pela terceira vez chamava a prima, sem
+conseguir ser ouvida--que tens tu esta manhã? Que distracções são essas,
+que não respondes quando te chamam?
+
+--Pois falaste-me?
+
+--É o que eu digo! Ó menina, ha que seculos te estou eu a perguntar em
+que tempo é que as laranjeiras teem flor?
+
+--Ah! Christe!--acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.--Esse pensamento
+é linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em que tens estado a
+scismar.
+
+Christina córou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do
+conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:
+
+--Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque...
+
+--Socega, quando o véo estiver prompto, a laranjeira não nos faltará com
+ramos e flores.
+
+--Não, mano--disse D. Victoria--olhe que se não trata de vêr o que é que
+está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não ha uma só na quinta. Que
+tambem para serem comidas as laranjas pelos criados... Porque quasi que
+são só para elles. Não que não faz ideia!...
+
+E continuou com D. Dorothéa a narração dos abusos de que os criados eram
+culpados.
+
+D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.
+
+--Esta é galante!--disse elle, examinando uns papeis e rindo.--Ora ouça
+isto, Henrique. Aqui está um homem que deseja que eu lhe empregue nada
+menos do que sete sobrinhos que tem. Sete! É uma geração como a de
+Jacob; se estivessemos na côrte de Pharaó!...
+
+--Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio
+completo--disse Henrique.
+
+--Oh! oh!--disse o conselheiro, passados alguns momentos.--Cá está o meu
+amigo Pertunhas, teimando com o logar de recebedor.
+
+--Pois o maroto ainda se atreve?
+
+--E que despeza de estylo que faz! É uma ode congratulatoria em prosa.
+
+N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos
+passou-se o tempo até a chegada do correio, successo que marca época
+n'uma manhã passada na aldeia.
+
+N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os
+periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das eleições dos
+differentes circulos do paiz.
+
+O conselheiro já por tres vezes consultára o relogio, extranhando que o
+correio se demorasse.
+
+Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos;
+Henrique deu subito desfecho ao jôgo com um lanço absurdo, e ambos se
+precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo veio encostar-se ao
+espaldar da cadeira de Henrique.
+
+O conselheiro principiou por ler uma carta.
+
+Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico.
+
+--Oh! oh!--disse o conselheiro, logo ás primeiras linhas que leu.--Temos
+crise ministerial. As eleições fôram pouco favoraveis ao governo;
+perderam-se em quasi toda a parte!
+
+--Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo
+de fundo--disse Henrique.
+
+--Dizem-me n'esta carta que já se fala em que o ministerio vae pedir a
+sua demissão.
+
+--Este artigo allude apenas a uma reconstrucção do gabinete.
+
+-«O governo--proseguiu o conselheiro, lendo,--nem espera pela
+constituição da camara e cáe por estes dias, infallivelmente. Quando
+vossê receber esta, já talvez elle pertença aos livros findos.»
+
+--«Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para resolver
+sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na futura
+camara»--lia Henrique no periodico, que logo em seguida pôz de lado,
+para consultar outro.
+
+--«Não imagina--continuava o conselheiro, lendo a carta--o movimento de
+ambições que vae já por aqui». Ora se não imagino!
+
+--Um numero do _Suffragio Nacional_!--exclamou Henrique, abrindo segundo
+periodico.--Provavelmente é alguma amabilidade que lhe dirigem, sr.
+conselheiro; elles que lh'o mandam!
+
+--Sim, decerto. Como da outra vez. Veja lá,--disse o conselheiro,
+sorrindo--aos moribundos tudo se perdôa.
+
+Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivára a remessa
+d'ella para o Mosteiro, onde não costumava vir.
+
+--Ah! temos correspondencia cá da terra!--exclamou por fim.
+
+--Deve ser isso. Já tardava. É communicado do Seabra. Leia, que são
+curiosos. O homem a apreciar as eleições de domingo deve ser soberbo.
+Isso não se pode perder. Leia, leia.
+
+--Assigna-se _um eleitor indignado_.
+
+--Justo. É o estylo do homem. Vamos lá a vêr isso.
+
+Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro.
+
+A peça litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra contava ao
+mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu
+transcrevel-a aqui, se, pela sua extensão, não tomasse demasiado espaço,
+e se, pela sua unidade e estreita ligação logica, se não subtrahisse á
+menor tentativa de fragmentação.
+
+Aquelle communicado era indivisivel.
+
+Apesar d'esta forçada omissão, espero que os leitores farão a justiça de
+suppôr o escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar
+com tanta proficiencia na taberna do Canada.
+
+O homem escrevia recheado de indignação pela serie de illegalidades,
+escandalos, subornos e pressões de todo o genero, de que, dizia elle,
+fôra theatro aquella pacifica aldeia do Minho.
+
+Em _linguagem chã e rude_ ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de
+todos uma _pestifera chaga do organismo social_. _Sophismára-se a urna e
+calcára-se aos pés a Carta_. As phrases em italico são d'elle. Depois de
+um exordio por esta afinação, em que fazia a conveniente razão de ordem,
+entrava o homem na materia. Era um modêlo de impertinente bisbilhotice o
+escripto; desfiava-se alli a vida de todos os eleitores com uma
+minuciosidade esmagadora.
+
+Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho
+de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse
+que havia de fazer, e não fez; e como aquelle nem disse nem fez; e como
+aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos mais
+maltratados era o sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o auctor da
+correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera
+pressão sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem de pessimos
+costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberrão cheio de
+dividas, amigo de malfeitores, _et coetera_.
+
+O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.
+
+O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas.
+
+O brazileiro não lhe perdoára a pressa com que este celebrára a victoria
+do conselheiro, á frente da philarmonica que regia.
+
+Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe
+suggeria, inclusivé o de estafador de trompa, e fechava por estas
+memoraveis palavras:
+
+«Para levar á evidencia o caracter infame e intriguista d'este
+sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos dias antes, subtrahiu
+de uma pasta aquella celebre carta politica, que tanto deu que falar no
+paiz. E este homem exerce o cargo de administrador do correio. _Proh
+pudor!_»
+
+Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu sensação
+no auditorio.
+
+Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as bôcas uma
+exclamação de surpresa ou de alegria.
+
+--Como é?... como é?...--perguntou o conselheiro.--Diz que...?
+
+--É o mysterio que se explica--respondeu Henrique.--A traição
+encarrega-se de a si propria se desmascarar.
+
+--Então foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta de uma
+pasta!
+
+--Era a de Augusto.
+
+--Mas como estava ella ahi?
+
+--Lá isso sei eu como foi,--disse D. Victoria--fui eu que, por engano,
+lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma para a
+leitura dos pequenos.
+
+Christina celebrou a descoberta, beijando com effusão a morgadinha, e
+dizia:
+
+--Venceste, Lena! agora está bem provada a innocencia d'elle, até para
+os que mais duvidavam!
+
+--E quem não duvidaria?--acudiu o conselheiro, como para se desculpar da
+desconfiança.
+
+--Quem o conhecesse bem, meu pae--respondeu Magdalena, a quem a commoção
+recebida dava animação ao olhar e ao semblante.--Eu e Angelo, por
+exemplo.
+
+--E então eu?--accrescentou Christina.--Eu não entro na conta?
+
+Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que
+recebera.
+
+--Olhem o pobre rapaz!--dizia D. Victoria, sinceramente consternada.--E
+eu que o tratei tão mal! Bem me dizia elle: «Não tenha pressa de dizer
+nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar de um homem
+que elles se costumaram a amar e a respeitar.» E o caso é que eu, desde
+que lhe ouvi dizer aquillo, de um modo tão sério e triste, fiquei
+resentida, e não disse nada ás creanças, que todos os dias me
+perguntavam ainda por elle.
+
+--Mas...--dizia D. Dorothéa, deveras embaraçada--eu não sei ainda bem do
+que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê?...
+
+--Ó tia Dorothéa--atalhou Henrique--por quem é, não insista na pergunta.
+Depois que se sabe que uma suspeita é falsa, não ha nada que mais
+escalde os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles.
+
+--Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não
+é verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique,
+está-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na
+consciencia. Ora anda lá.
+
+--Não, tia. Ha muito que lhe faço justiça. Ao principio não digo que
+não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me
+pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em
+expiação, me não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é porque
+elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu desastre... quero
+dizer--emendou, olhando para Christina--a felicidade que me procurou sob
+a fórma de doença...
+
+Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.
+
+O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras reflexões que
+lhe ouvimos fazer, disse, suspirando:
+
+--Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei
+áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As
+apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de politica,
+apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a
+quem eu estimava devéras, fôram exactamente os que mais fiz padecer!
+Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me
+teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia,
+dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e
+talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se
+nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sairá da ideia aquella
+scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e já então de
+viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou
+para o perder, e não só o privei do modesto logar que elle exercia, mas
+até levantei contra elle uma accusação infamante, e quasi o expulsei de
+minha casa... É triste que a vida politica me tenha obrigado a estas
+crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que
+maneira lhes parece melhor?
+
+--Eu se fôsse--disse D. Dorothéa--fazia como a morgada, e o rapaz, em
+vez de vir a ser só padre havia de se formar em Coimbra, como o reitor
+de Friande...
+
+--Isso era se elle quizesse ser padre;--acudiu D. Victoria--mas
+parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era demittir aquelle
+velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre de latim, e
+arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, já que o outro foi
+tratante!...
+
+O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não pôde deixar de
+dizer:
+
+--N'esse caso deixava só ao Pertunhas a regencia da philarmonica? E tu,
+Lena, qual é a tua opinião?
+
+Magdalena respondeu sem vacillar:
+
+--A minha opinião é que o pae deve ir a casa de Augusto, pedir-lhe
+humildemente perdão pela offensa que lhe fez.
+
+--Mas involuntaria--ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que não
+pôde bem disfarçar.
+
+--Mas offensa--repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse
+totalmente a fôrça da expressão.
+
+--É um pouco dura de cumprir a sentença, sobretudo esse adverbio
+humildemente... Não lhe parece?--perguntou o conselheiro, voltando-se
+para Henrique.
+
+--Eu tinha vontade de dizer tambem a minha opinião--respondeu
+Henrique;--mas receio certos melindres... Comtudo, parece-me que
+encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a
+offensa e dores muito mais pungentes do que as que soffreu em virtude
+d'esta desagradavel occorrencia.
+
+--Qual é?--perguntou o conselheiro.
+
+Henrique olhou para Magdalena, respondendo:
+
+--Repito que tenho escrupulos em dizêl-o, porque talvez não seja eu o
+mais competente para o fazer.
+
+--Tem razão, primo--disse Magdalena.--Elle proprio o dirá. É mais
+natural.
+
+--Mas sábel-o tambem tu, Lena?
+
+--Sei.
+
+--Então dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.
+
+Magdalena hesitou.
+
+--Vamos, Henrique--disse Cristina, sorrindo--não esteja com tantos
+escrupulos. Diga o que pensa.
+
+--Pois quer? mas se sua prima me não perdôa?
+
+--Eu o protegerei. Fale.
+
+--Então, Christe?--tornou Magdalena.
+
+--Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode.
+
+--Fale, fale--disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D.
+Dorothéa.
+
+--Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer parte da
+familia de... da nossa familia--respondeu Henrique, olhando para
+Magdalena, que já não tentava retêl-o.
+
+--De fazer parte da nossa familia?--repetiu o conselheiro.--Mas como?
+
+--Como ha de ser? visto eu não estar resolvido a prescindir de
+Christina, e Marianna ser ainda creança, facil é de conjecturar o unico
+meio que ainda resta de realisar aquella pretensão.
+
+O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir,
+dizendo:
+
+--Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabeça?
+
+--Mas que é a final? eu não entendo--dizia, embaraçada, D. Victoria.
+
+--É uma coisa muito simples--respondeu Henrique.--Augusto sentiu o
+effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a ponto de
+ligar a elles a sua felicidade, e de cair em adoração para com a
+magnetisadora.
+
+Esta explicação foi recebida com espanto por D. Victoria.
+
+--Ora! está a brincar, primo Henrique? Não ouve aquillo, prima Dorothéa?
+
+--Mas que é, que é?--perguntou esta.
+
+-Diz que o Augusto aspirava...
+
+--Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não aspirava. Quem pode tomar
+contas a um coração do culto que elle guarda religiosamente em si? A
+prima Lena é adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porém...
+
+--É possivel!--exclamou tambem D. Dorothéa, espantada.--Por essa não
+esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto!
+
+O conselheiro ria ainda da noticia que recebera.
+
+Magdalena córou ao ouvir todas aquellas exclamações de estranheza.
+Cedendo ao impulso energico do seu caracter impetuoso e apaixonado,
+disse com vivacidade:
+
+--Não sei que haja no que diz o primo Henrique nada que mereça esses
+espantos. Pois quem sou eu a final? Que distancia me separa da
+humanidade, para que se tenha por um desacato uma affeição que inspire?
+É verdade. Julgo que não se enganou o primo Henrique. Tambem eu descobri
+esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no coração e não na cabeça, meu pae.
+Ha muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo
+nos outros. Digo mais, causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque é natural
+sentil-o por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter
+generoso que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais
+nobre e mais puro do que d'antes.
+
+O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom
+profundamente irritado:
+
+--Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê lá se me
+queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom
+senso, até o ponto de tomares a sério phantasias e creancices.
+
+--Não é phantasia nem creancice, é uma resolução de mulher--respondeu
+Magdalena, com firmeza.
+
+--Uma resolução de creança, que está na minha mão remediar--tornou o
+conselheiro, como quem desejava cortar o incidente.
+
+Porém para o génio de Magdalena já não era possivel recuar nem parar;
+replicou:
+
+--Talvez não. E deixe-me então dizer-lhe tudo, meu pae. Augusto nunca me
+revelou esse segredo do seu coração. Adivinhei-lh'o eu. Longe de
+procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem estava
+resolvido a deixar a aldeia para sempre.
+
+--Mas ficou--notou o conselheiro com ironia.
+
+--Ficou--respondeu tranquillamente Magdalena--porque eu lhe pedi que
+ficasse.
+
+O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a
+filha com olhar severo e interrogador.
+
+A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um esfôrço
+interior:
+
+--Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava a
+affeição desinteressada e pura que elle guardava no coração; ficou,
+porque eu, que só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e
+que o sabia tão leal como pobre, tão innocente como perseguido pelo
+infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, sob o pêso de uma
+accusação em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir
+eu propria procural-o para lhe estender a mão e dizer-lhe: «fique, e
+prometto-lhe que todos lhe farão justiça em breve.»
+
+Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltação
+crescentes, ninguem ousou falar na sala; e os olhos de todos
+dirigiram-se quasi instinctivamente para o conselheiro.
+
+Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo
+sentiram-se profundamente inquietos.
+
+Todos viram passar por differentes côres as faces do conselheiro, os
+labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz evidentemente
+alterada pela cólera, disse para a filha, passados alguns instantes:
+
+--Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga
+estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem
+naturalissimos á sua razão estragada pelos romances. Eu ainda não
+prescindi da minha auctoridade paterna, e ella me servirá para corrigir
+essas levezas, de que deveria envergonhar-se.
+
+Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da posição
+de todos os que estavam presentes. Ninguem ousava intervir, ou,
+desejando-o, ninguem sabia a maneira de o fazer.
+
+Entre as falsas situações, em que nos achamos ás vezes n'esta vida,
+poucas se podem comparar no incómmodo que produzem, á de assistir a uma
+questão domestica, por qualquer motivo que seja originada.
+
+Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que
+prendeu Lena nos braços, não sei se para instinctivamente a defender, se
+para reprimir-lhe o impeto de reacção que receiava n'ella.
+
+A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu ao
+pae:
+
+--Ás vezes aos caracteres levianos estão confiadas tarefas generosas.
+Cabe-lhes sanar muitas injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e
+por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem
+arrependo do passo que dei. Não fiz mais do que salvar do desespêro uma
+alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua
+consciencia, senhor, o accusasse de não ser innocente n'essa perda. Quiz
+evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m'a
+não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana
+assim, a ser cruel como...
+
+O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou:
+
+--Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá de escolher
+entre os seus caprichos e a minha approvação. Fique certa que, com o
+consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posição,
+especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida
+do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria casa,
+sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada á sua credula
+sensibilidade.
+
+Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na sala.
+
+Era Augusto.
+
+Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que o
+conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu
+venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar.
+
+O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou.
+
+Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza:
+
+--Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, tem n'esse triplice
+infortunio outros tantos titulos para ser respeitado dos felizes, como
+v. ex.^a, e eu não prescindo d'esses direitos.
+
+O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse
+responder a Augusto. A irritação dictava-lhe uma violenta resposta, mas
+já lh'o não permittia a consciencia.
+
+Augusto continuou:
+
+--Sei que v. ex.^a está já convencido de que as suspeitas, que pesavam
+sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que ainda tem na mão, veem
+as provas da minha innocencia. Vi-o em casa do Seabra, d'onde venho
+agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preço
+que fôsse; elle não m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui,
+sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo,
+antes que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a
+receber-me a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o
+insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu
+encontrei!
+
+--Menos justificado?--repetiu o conselheiro, azedadamente.
+
+--Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.^a podia julgar-me
+criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas não tem o
+de duvidar de sua filha; porque a sr.^a D. Magdalena pedindo a seu irmão
+que a acompanhasse a casa de um pobre, que ella sabia ser victima de uma
+immerecida accusação, e a quem o desalento e o desespêro faziam
+succumbir, não se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrario,
+aos seus devia aquelle acto de sublime generosidade, porque das mãos dos
+seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr.
+conselheiro, como um miseravel e infame; os filhos de v. ex.^a, que
+sempre fôram meus amigos, a quem v. ex.^a ensinára a sel-o, vieram á
+minha dizer-me: «Não parta, deve á nossa confiança a justiça de ficar».
+
+--É verdade--disse Angelo--eu acompanhei Magdalena. O pae diz-me muitas
+vezes que não tenha pressa de principiar a duvidar; eu não podia
+principiar por Augusto. Não duvidei.
+
+O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarçado despeito,
+ainda que em tom moderado:
+
+--Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do coração, creia.
+Ainda que as apparencias o culpassem, arrependo-me de não ter tido mais
+fôrça a minha confiança para não ceder. Peço-lhe por isso...
+humildemente... perdão. Iria a sua casa pedir-lh'o se não viesse aqui.
+Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para
+antevêr realisadas loucuras de rapaz?...
+
+Augusto não o deixou continuar.
+
+--Ouça-me, sr. conselheiro--disse elle placidamente--deante de todas as
+pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu
+coração. É verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde
+creança até hoje, tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros,
+se eu commigo as guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha
+vida? Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz
+sempre por suffocar. Nem ambições me despertou, como meio de realisal-o,
+porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a morrer com elle, sem
+o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o fizera nascer, e,
+deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito
+era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar
+pelo fulgor de imprevistas esperanças? Perdôe-se-me a fraqueza. As
+illusões duraram pouco; as palavras de v. ex.^a dissiparam-n'as... um
+tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro,
+que o ser pobre, sem familia e sem nome, impõe tambem uma certa ordem de
+deveres, a que eu serei fiel. Não é o de humilhar-me, é o de manter a
+unica dignidade que me resta, a dignidade moral. Já vê v. ex.^a que se
+enganou de duas maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve especulação,
+nem da parte da herdeira rica estouvamento.
+
+E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente
+deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um
+extremo olhar de despedida.
+
+A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Christina para
+a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão
+disse:
+
+--Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço que não saia.
+
+--Magdalena!--disse o conselheiro com severidade.
+
+--Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de
+remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do
+coração, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente
+depois.
+
+--Magdalena!--repetiu o conselheiro com mais fôrça.
+
+--Minha senhora! disse Augusto.
+
+Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á vehemencia do caracter
+apaixonado.
+
+--Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu coração; todos me
+ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma
+franqueza e lealdade, com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza
+dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se envergonharia
+d'elles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer-lhe seria offendel-o,
+porque seria acreditar na constancia d'essa má paixão que o domina, e no
+seu bom coração não pode ella durar muito tempo.
+
+O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder
+violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as
+outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras
+tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de intervenção, que
+elle suppunha já indispensavel, quando um incidente veio interromper
+esta scena e modificar a feição critica do caso.
+
+O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao serviço
+de um proprietario da villa proxima. Este criado era portador de uma
+mensagem para o conselheiro.
+
+O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio
+dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar á
+presença do conselheiro.
+
+A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a
+carregar-se.
+
+O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.
+
+O criado respondeu:
+
+--Venho para entregar a v. ex.^a esta parte telegraphica, que chegou a
+meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira
+que não pôde mandal-a com ellas.
+
+O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu,
+e correu-o com a vista.
+
+Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.
+
+Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta:
+
+--Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim.
+
+O criado saiu.
+
+N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e
+combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique
+desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa.
+
+O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que uma
+visivel satisfação se lhe desenhára no semblante.
+
+--Leia e admire--disse elle.
+
+Henrique leu, e não reteve uma exclamação de surpresa.
+
+A parte dizia:
+
+«Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apresentar em
+Lisboa. Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle
+acceite uma das pastas.»
+
+Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz.
+
+Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a
+surpresa da noticia não fez esquecer a crise domestica a que assistira,
+disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena:
+
+--Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os
+emboras pela sua nomeação.
+
+A palavra «ministro» produziu sensação na sala. D. Victoria exclamou:
+
+--Ministro! Pois quem é que está ministro? O mano?... Ora, sim senhor!
+acertou sua magestade!...
+
+--Mas... valha-nos Deus! O ponto está que não façam por ahi alguma
+revolução para o deitar abaixo--acudiu D. Dorothéa, em cujo animo os
+factos das nossas dissenções civis tinham deixado sinistras ideias
+ligadas á palavra ministro.
+
+Magdalena, Angelo e Christina correram a abraçar o conselheiro; Henrique
+reteve, porém, os dois ultimos dizendo:
+
+--Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a s. ex.^a, e á
+primeira não ha caracter de ministro que não ceda.
+
+O conselheiro sorriu já.
+
+Magdalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela violencia das
+scenas anteriores, e até alli a custo reprimido, rebentou agora
+abundante, banhando as mãos do pae.
+
+Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não deixar sair da
+sala.
+
+O coração do conselheiro não era de pedra. Duas causas poderosissimas
+conspiravam-se para abrandal-o. Como homem politico, havia a satisfação
+da maxima ambição de todos, a noticia de ser chamado ao ministerio. Nos
+momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso
+coração, abrimo-nos ás sympathias para com os desejos dos outros; se de
+nós depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as
+lagrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das
+lagrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida: quanto mais se a
+mulher é joven e bella! quanto mais se a mulher é filha!
+
+Sem o menor vestigio da irritação anterior, o conselheiro ergueu
+Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:
+
+--Por que choras tu, Lena? Creança! Então promettes-me ser muito feliz,
+se eu te deixar fazer as tuas loucuras?
+
+Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e beijando-o.
+
+Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa
+contra as severidades de um pae?
+
+O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e
+voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi
+affectuoso:
+
+--Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a
+felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz,
+tornando-m'a venturosa. É a unica vingança á altura da sua alma.
+
+Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho
+tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforços
+combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorothéa, que o
+arrastaram quasi para junto do conselheiro.
+
+E toda aquella familia, em que não havia n'aquelle momento um só coração
+triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e
+pathetico grupo, que pode desenhar um artista.
+
+Para mais tocante confusão ainda, as creanças, que voltavam dos seus
+brinquedos na quinta, entraram então na sala, e de boa vontade se
+associaram áquella manifestação de alegria, sem querer saber o que a
+motivára,
+
+São assim as creanças. Alegres por instincto, saudam as scenas alegres
+sempre que as vêem, sentem-as antes de as explicarem.
+
+Fôram innumeraveis os beijos, os abraços, as palavras de affecto, os
+sorrisos, as lagrimas, as exclamações pueris que se trocaram entre os
+diversos actores d'esta scena de familia.
+
+Chegado a este ponto da minha narração, nada melhor posso fazer do que
+deixar á imaginação dos leitores concluil-a.
+
+Haverá algum tão malfadado, que na sua vida não tenha visto representada
+uma scena assim?
+
+Esse mesmo, se existe, obriga-me a não proseguir.
+
+O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de
+que por certo é victima.
+
+Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de
+beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a
+narração, vêl-o-hiamos abafado pelos sons revolucionados e anarchicos da
+philarmonica da terra, que não tardará a festejar a nomeação do
+conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba
+verdadeiramente épica, e capaz de mudar a côr ao gesto, como a de que
+fala o poeta.
+
+Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos
+acontecimentos ulteriores.
+
+
+
+
+CONCLUSÃO
+
+
+O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na
+pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de
+animo dos meus leitores, que, sob a direcção dos talentos e aptidões do
+novo estadista, se locupletou a fazenda publica, prosperou a agricultura
+e a industria, refulgiram as artes e as lettras; e que Portugal, como a
+Grecia, sob Pericles, causou o assombro das nações do mundo.
+
+Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e
+prospero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espirito dos
+leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse com isto a
+desconfiança no chronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a
+direcção do conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se
+tem regido sob as duzias de ministerios, que nós todos havemos já
+conhecido.
+
+O conselheiro, já ministro, voltou tempos depois á aldeia, para assistir
+aos casamentos de Magdalena e de Christina, que se verificaram no mesmo
+dia.
+
+Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com
+D. Dorothéa, que não podia resignar-se a viver só.
+
+Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se
+completamente a quinta, e é hoje uma das mais rendosas e bem geridas
+propriedades d'aquelles sitios.
+
+Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S. Carlos,
+está um rico e laborioso proprietario rural. Apaixonou-se pela
+agricultura, e promette realisar o typo do antigo patriarcha.
+
+Cumpriu-se a sua visão.
+
+Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, já nem memoria lhe
+resta.
+
+Christina, além de ser adorada pelo marido, vê-se rodeada pelo amor e
+carinhos de D. Dorothéa e de Maria de Jesus, as quaes, sem o menor
+despeito, a viram tomar o sceptro da realeza domestica, que usa com
+adoravel brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de
+mulher.
+
+No Mosteiro não correm peor as coisas, sob os cuidados de Augusto e de
+Magdalena, que ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, além
+de se occupar de agricultura, alimenta a imaginação, já não a fazer
+versos, mas em outra fórma de poesia: a organisar a escola sob bases
+mais racionaes, e dotação mais fecunda; a generalisar e educar os
+processos agricolas; a implantar industrias novas.
+
+É assim que a sericultura, graças aos seus cuidados, é hoje alli
+cultivada com bons resultados, e outras já principiam a ensaiar-se.
+
+Magdalena é sempre a mulher que foi; se é que as nobres qualidades já
+reveladas nos seus actos de juventude, não se vão caracterisando inda
+melhor, á medida que de mais graves deveres se incumbe a sua missão de
+mulher. Intelligencia temperada por um bom senso natural, que a educação
+esmerada não estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado, mas
+de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem
+severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que não faz sentir
+a ninguem o peso da obediencia.
+
+É hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos, querida por
+D. Victoria, adorada pelo marido e abençoada pelo povo, que soccorre com
+esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina n'aquelles sitios.
+
+D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o
+direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do
+mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando
+despedidos.
+
+Em relação ás personagens secundarias d'esta historia pouco teremos a
+dizer.
+
+O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que
+entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava
+visconde de não sei quê o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto
+politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a sem-razão de não
+applaudir.
+
+O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de
+melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia.
+
+O sr. Joãozinho, em vista d'esta fusão de partidos, achou-se encorporado
+na liga, e em pouco tempo teve occasião de demonstrar de novo a sua
+influencia eleitoral, trazendo compacta á urna a freguezia de Pinchões,
+para reeleger o conselheiro que, pela sua nomeação, perdera o logar de
+deputado. D'esta vez ninguem lh'o disputou, e era edificante vêr o
+brazileiro ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de
+commum accordo e de boa harmonia.
+
+A reconciliação entre dois adversarios commove sempre a alma.
+
+O sr. Joãozinho não mudou de habitos, e cada vez tem mais dividas, mais
+cães e mais bebedeiras.
+
+O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas funcções de
+ensino e na commissão do correio, odiando os irmãos Virgilios e
+desafogando as suas mágoas na embocadura da trompa.
+
+O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingança. Confessa que por
+brincadeira tirára uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornára a
+collocar no seu logar e por isso...
+
+A familia Zé P'reira vae em rapida decadencia; o homem já nem tem fôrça
+para fazer resoar o zabumba. É esta uma das que mais deve á caridade de
+Magdalena.
+
+O conselheiro, ainda hoje no gôso imperturbado dos votos unanimes
+d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o animo
+exhausto nas fadigas parlamentares e nas diversões da capital, no seio
+da sua feliz familia, e volta melhor.
+
+Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores, corre
+com alvoroço de creança a gosar na aldeia os dias que elle já presente
+terem de ser os mais felizes de toda a sua vida.
+
+A quinta dos Cannaviaes, á qual andam ligadas suaves recordações dos
+dois venturosos pares, que os incidentes d'esta historia reuniram, foi
+transformada por Magdalena n'uma habitação de recreio, onde as duas
+familias celebram, durante o anno, algumas festas em commum.
+
+Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia
+muito estava de posse.
+
+E hoje é ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de
+«Morgadinha dos Cannaviaes».
+
+
+FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | Volume I | | |
+ |#pág. 144| precipios | precipicios |
+ |#pág. 162| se se sentem | se sentem |
+ |#pág. 169| a seu seu vêr | a seu vêr |
+ |#pág. 264| uma uma explicação | uma explicação |
+ | | | |
+ | Volume II| | |
+ |#pág. 27| glo['r]ia | gloria |
+ |#pág. 68| examimal-a | examinal-a |
+ |#pág. 95| encontrassse | encontrasse |
+ |#pág. 148| coisapor | coisa por |
+ |#pág. 200| ovialmente | jovialmente |
+ |#pág. 215| fregrezia | freguezia |
+ |#pág. 218| principalte | principalmente |
+ |#pág. 248| saparámo-nos | separámo-nos |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***
+
+***** This file should be named 29120-8.txt or 29120-8.zip *****
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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