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diff --git a/29120-8.txt b/29120-8.txt new file mode 100644 index 0000000..0a47889 --- /dev/null +++ b/29120-8.txt @@ -0,0 +1,21661 @@ +The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Morgadinha dos Cannaviaes + +Author: Júlio Dinis + +Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em + caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. + No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Jun. 2009) + + + + +BIBLIOTHECA ESCOLHIDA + +XXIII + +ROMANCE + +III + + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES + +Vol. I + + + + +CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL +LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28 +TELEPHONE 2337 + + + + +JULIO DINIZ + + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES + +(CHRONICA DA ALDEIA) + +DECIMA-SETIMA EDIÇÃO + + + +LISBOA +J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES +186--Rua Aurea--188 +_1920_ + + + + +OBRAS DE JULIO DINIZ + + +A Morgadinha dos Cannaviaes +Os Fidalgos da Casa Mourisca +As Pupillas do Senhor Reitor +Uma Familia Ingleza +Ineditos e Esparsos +Poesias +Serões da Provincia +Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças) + + + +_Todos os direitos d'esta publicação estão reservados em conformidade +com a lei em Portugal e Brasil_ + +J. Rodrigues & C.^a + + + + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES + + + + +I + + +Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro, +chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, +subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa +vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada, á falta de +competidora, em que melhor coubessem. + +Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia +começa já a resentir-se, senão ainda nos valles e planuras, nos visos +dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa +Traz-os-Montes. + +O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e, +n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoação importante, e +com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco +transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se +encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do +rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do +que a absoluta solidão. + +Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que +dissemos. + +Um, o mais moço e pela apparencia o de mais grada posição social, era +transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas +orelhas, musculos de marmore e articulações fieis; o outro seguia a pé, +ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o +caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso, +excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre +emulação. + +Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de +transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e +fadigas da jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro. + +A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, o olhar melancolico, +fito nas orelhas do macho, a indifferença, a taciturnidade ou o +manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem +natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silencio que apenas de +quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma +pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza +de gestos e desempenado jôgo de membros do pedestre, com a sua +torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, e com as joviaes +cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quaes +se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico +companheiro. + +Explica-se bem esta differença, dizendo que o cavalleiro era um elegante +rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um +almocreve de profissão. + +O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto +que o grato e quasi voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planisa +qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que d'ella +guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores +delicias, do que as impressões experimentadas no proprio momento de nos +vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e +mórmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas +impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou +que a saudade consegue até dourar e poetisar a seu modo; esses +microscopicos martyrios, que de longe não avultam, actuam-nos, na +occasião, a ponto de nos inhabilitar para o gôso do que é realmente +bello. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre +que se monta, o tempêro ou destempêro do heteróclito cozinhado com que +se enche o estomago, a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó que +se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o +sol que nos congestiona o cerebro, tudo então nos desafina o espirito, +que traziamos na tensão necessaria para vibrar perante as maravilhas da +natureza ou da arte. + +Só pelo preço de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel +no meio dos episodios d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e +exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse +habito, tambem nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as +commoções do bello. + +Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se +mais e melhor; porém a propria analyse é a prova de que se sente menos. +Onde domina o sentimento e a imaginação, mal teem cabida a paciencia e +phleúgma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio +recolhe de qualquer excursão á patria com a carteira cheia de +apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, +sentiu mais. + +Mas Henrique de Souzellas--que era este o nome do cavalleiro--fôra +educado e passado da infancia á plena juventude, em Lisboa, +levantando-se por avançada manhã, frequentando o theatro, o Gremio, as +camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a +Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da +capital. + +Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fôra esta jornada, +em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob tão maus +auspicios, que era para suffocar-lhe á nascença os instinctos de +_touriste_, se porventura quizessem despertar n'elle. + +Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo +accommodado aos caminhos por que passára. E então que dois dias! +D'aquelles, durante os quaes o céo, uniformemente pardo, parece +desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupção e com uma teimosia e +constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita já +a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares, +e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias; +em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente +despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos +mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e tão +densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de +que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul. + +Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir +cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera. + +E para quê e por quê a commettera elle assim? + +Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é +de suppôr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o. + +Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos, +vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e +dividindo as attenções do espirito pela politica, pela litteratura e +pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a +fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos. + +Não concebia vida fóra d'aquillo. + +O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava +possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria +maior façanha. + +Não que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta +natureza. + +Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia +folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia. + +Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia tão direita a +apostrophe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler +no livro setimo das _Viagens_. + +De certo tempo em deante começou, porém, a incommodal-o uma especie de +vácuo interior, um mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem +familia, quando chegam á idade a que chegou Henrique, e passam a vida +como elle. + +Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras, +bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos +seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de +insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que +o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros +forcejam por divertir-se. + +O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel +verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava, +apoderou-se d'elle em corpo e alma. + +Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito preoccupado com a sua +pessoa, imaginando-se victima de mil e uma molestias, as mais +disparatadas e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente predestinado +para a apoplexia e para a phtisica, para o cancro e para a alienação, +para a cegueira e para as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da +semana, folheando livros de medicina, construindo theorias +physiologicas, consultando todos os medicos da capital, experimentando +todo o arsenal pharmaceutico e todos os annuncios, em parangona, da +quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças do seu espirito +amedrontado até ás mysteriosas e nevoentas alturas do credo +homoepathico! Ao mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva +degeneração de gôsto; não podia ler uma pagina dos livros que lhe eram +predilectos; desfazia-se sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e +objectos curiosos que colleccionára com paixão; detestava a musica, o +theatro, n'uma palavra, tornára-se um dos maiores flagellos, que podem +pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o supplicio dos +medicos que os aturam. + +Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte com o desculpavel +intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho, +que fôsse viajar. + +Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia n'esta palavra: viajar. + +Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias apopleticas? E as +suas disposições para tantas outras enfermidades? Pois um homem pode lá +viajar com esta bagagem pathologica? + +E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a +receita, e ficou na capital. + +Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os medicos, +como se para isso apostados, a insistirem em que saisse de Lisboa. + +--O senhor não tem nada--diziam alguns. + +Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto. + +Prolongou-se este estado de coisas, até que um dia o hypocondriaco rapaz +persuadiu-se muito sériamente de que estava chegada a sua hora extrema. + +Um medico velho e grave, que por essa occasião o escutou, em vez de se +rir d'elle, disse-lhe, muito sisudo: + +--Homem! O senhor está realmente mal. Esse estado de imaginação não pode +prolongar-se mais tempo, sem romper por ahi em alguma doença que o +sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto é tempo. +Quebre por todos os habitos, e escolha entre as fortes impressões de uma +grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensações de um +completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emollientes curam por meios +oppostos ás vezes as mesmas molestias. + +Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse Henrique um presente de +fructa de uma sua tia, santa creatura que elle, desde creança, não +tornára a vêr. + +Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco +annos Henrique passára alguns mezes na companhia de sua mãe. + +Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo, já meio apagado na +memoria, e conseguira fazer-lhe saudades. D'ahi uns vagos desejos de +voltar a vêr aquelles sitios. + +Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em +que esta sua parenta vivia. + +O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para que fôsse abraçada. + +O sobrinho escreveu então á tia, e, passados dias, punha-se a caminho. + +Mil vezes se arrependeu, depois da resolução tomada; mil vezes mandou ao +diabo o conselho do medico e phantasiou horriveis exacerbações em todos +os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os +velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e +almocreve, ampliava-lh'os a proporções estupendas, o prisma da +hypocondria. + +No momento em que nos associámos ao cavalleiro, caira elle n'um +desalento profundo, n'um quasi convencimento de proxima anniquilação, do +qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas +eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar. + +Havia mais de uma hora que estavam luctando com as difficuldades da +ascensão do ingreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as +voltas de uma helice. + +Era este monte uma como irregular pyramide, levantada no meio da +amplissima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava; +por isso o estafado rapaz não podia atinar a razão de conveniencia pela +qual, tendo de procurar o valle, assim porfiavam em descrever as +fastidiosas curvas da quasi interminavel espiral, que os approximava do +vertice. + +Não se concebe uma estrada menos logica do que aquella. + +No nosso paiz são porém frequentes estas faltas de logica nas estradas. + +O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de +encurtar distancias, seguindo por um atalho só franqueavel a gente de +pé. + +Henrique nem desviára os olhos para o fundo valle, que se abria á +esquerda, velado pela densa nevoa d'aquella atmosphera saturada de +humidade, nem prestava attenção á agreste e selvatica paizagem, do lado +direito, toda encrespada de pinheiraes nascentes e de espinhosas +tojeiras. + +Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o mais alto da flexuosa +ladeira que subia, no sitio em que ella, formando um cotovello, furtava +á vista o seguimento ulterior. + +N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, cançado e +aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma promettedora esperança. + +--D'alli verei talvez o termo do caminho--pensa elle. + +Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança lhe foge! + +Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á almejada inflexão e quando +esperava principiar emfim a descer para o valle e approximar-se da +aldeia, viu que o macho, pratico no caminho, e á disposição de cujo +instincto elle collocára a razão, dobrava ainda para a direita e +continuava a contornar e a subir o monte. A espiral não terminára ainda. +Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do valle, +nada pôde descobrir, que lhe promettesse a aldeia procurada. Muita +arvore, povoação nenhuma! + +Teve um paroxismo de impaciencia! + +--Isto não é estrada!--exclamou elle, exasperado.--São os nove circulos +do Inferno de Dante virados para fóra. + +E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a augmentar, a calar +através do grosso gabão de jornada que Henrique vestia! O desgraçado +vergava sob o pêso da sua consternação. + +Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleugma +desesperadora. + +--Com um milhão de demonios!--bradou-lhe Henrique, não podendo +conter-se.--Essa maldicta terra foge deante de nós, homem! + +--Estamos quasi lá, meu patrão. É alli logo adeante--respondeu o +almocreve, sem se alterar. Vê aquella capellinha branca em cima +d'aquelle monte? pois fica já para além da povoação. É a ermida da +Senhora da Saude. É um instante. + +--Desde as duas horas da tarde que me dizes que é um instante, e eu +estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica +alli em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas que temos dado, +estou persuadido de que vamos tão adeantados como quando principiámos a +subir. + +--Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito lá por baixo, era mais +perto, mas... + +--Mas foi então pelo prazer de trepar, que me trouxeste por aqui? + +--Não é isso, patrão; mas bem vê v. s.^a que o caminho lá por baixo é +todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar taes voltas, que a +final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá ideia +de como estão os riachos por lá! Só o esteiro do almargeal é para uma +pessoa se afogar. Mas tenha o patrão paciencia, que pouco falta agora. +Vê v. s.^a aquelle tronco de sobreiro que parece, visto d'aqui, um frade +de capuz? + +--É alli? + +--Não, senhor--disse o homem, rindo;--mas vêem-se d'aquelle sitio as +primeiras casas da aldeia. + +--As primeiras!--murmurou Henrique em tom lastimoso; e penderam-lhe os +braços com mais desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna +vertebral. + +O almocreve proseguiu, para o distrair: + +--Tenho passado por estes sitios muita vez com neve de se cortar á faca +e de noite. E olhe que nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim! E +vamos lá! o sitio não é dos mais seguros. Vê o senhor essa cruz preta, +ahi á sua mão direita, pregada no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo +mataram um homem, que vinha com uns centos de mil réis da feira franca +de Vizeu, fez pelo S. Miguel um anno. E ainda hoje se está para saber +quem foi. N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma creatura. + +Henrique sentiu-se pouco á vontade com as elucidações do cicerone; olhou +para elle com desconfiança e quasi julgou vêr moverem-se sombras +suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os +cabos das pistolas, e approximou as esporas dos ilhaes da cavalgadura. + +Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do +qual deviam avistar a aldeia. + +Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas arvores, mas continuou a +não enxergar vestigios de casas. + +--Onde está a aldeia que dizias, homem? + +--D'ahi já se vê--disse o almocreve, correndo para alcançar o +cavalleiro.--Não vê v. s.^a, além, além, aquelles pinheiraes mansos? + +--Vejo, sim. + +--Pois já são da freguezia. Se fôsse mais claro havia de avistar a casa +do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence á morgadinha dos +Cannaviaes. + +Henrique não respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada +fel-o suspirar. + +Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando +sempre obliquamente o monte. + +Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco, +que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já +indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da +neblina. + +--Lá está a capella da freguezia--dizia o homem. + +--Alli? É um seculo para lá chegar! + +--Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo! + +E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o +passo. + +O homem continuou: + +--Até se fôsse mais dia podia-se vêr d'aqui a pedra, que está no +cemiterio novo, e que é da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a +mãe d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais +ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar +fóra da egreja. Elle, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do +costume... mas emfim a gente foi creada n'isto... Mas a pedra é coisa +asseada. É como as que estão na cidade. + +Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem attendia ao +que o homem ia dizendo. + +Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim o valle. O terreno +mudava agora de aspecto. Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de +cultura, annunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos +estreitavam, internando-se no valle, e seguiam tortuosamente por entre +muros tôscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, que +não cessára de cair, transformára estes caminhos, onde o declive não +dava escoamento ás aguas, em charcos e tremedaes. + +Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente apparecendo. + +Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por +uma creança de palhoça e pernas nuas, os quaes paravam a olhar com +aquella expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o +recem-chegado visitante da aldeia. Não faltou receio a Henrique, que +suppôz a estes bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e bravia dos +touros, a cuja chegada tantas vezes fôra assistir em Lisboa. + +Mais adeante passava por elles uma fileira de carros a vergarem sob o +pêso do matto e atroando os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o +eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de Henrique, cujos nervos se +irritavam com elle, mas apparentemente agradabilissimo para os +conductores aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle +acompanhamento. + +N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas casas de tectos de +colmo, de cujas innumeras fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera +humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado de Henrique +de Souzellas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas sêccas +dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações muito longe de +serem agradaveis. + +Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que já lhe tomára o +animo. + +--Tantas fadigas para este resultado!--pensava elle.--Sair de Lisboa +para me enterrar n'esta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do +doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus +lhe perdôe o homicidio. + +Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incómmodo de +trilhar; as curvas complicavam-se como as ruas de um labyrintho. Aqui +subiam; desciam mais além, para subir outra vez. Umas vezes caminhavam +em terreno descoberto, outras penetravam em tão estreitas quelhas, +apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas de ramos +entrelaçados, que só o instincto do animal podia evitar-lhes os perigos. +Ora soavam as patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes o +som um terreno, que a chuva encharcava, e a agua lamacenta vinha +salpicar o rosto do cavalleiro. + +As casas eram já frequentes, e algumas de menos humilde apparencia. + +Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam +raivosos por dentro dos portões ou de sobre os muros das quintas, ao +ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou +cantava sempre. + +Outras vezes era um inharmonico grunhir suino que accusava a vizinhança +das córtes ou, partindo de um casebre rustico, o chorar de creanças, +entremeado com os ralhos das mães e com as pragas dos chefes de familia. + +O almocreve não desistira das suas funcções de cicerone, que sómente +interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam. + +--Estes campos e lameiros--ia dizendo--são da morgadinha dos Cannaviaes; +andam arrendados a um compadre meu. + +E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente allumiada por +uma candeia: + +--Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada? + +--Ai, é vossemecê, sr. José? Então não entra?--respondia-lhe uma voz +feminina. + +--Agora, não, ámanhã. + +E proseguiu para Henrique: + +--É uma santa creatura. A morgadinha... + +Henrique interrompeu-o: + +--Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? onde mora minha tia? Não me +dirás? + +--É logo ahi adeante, meu patrão. Em nós passando umas casas amarellas +que ha ahi... é logo ao pé. Essas casas que digo são tambem da +morgadinha, mas ha uma demanda pelos modos. + +O almocreve falava pela decima ou undecima vez na morgadinha. Até esta +periodica referencia a uma personagem que elle não conhecia, +impacientava Henrique de Souzellas. + +E continuavam a succeder-se em enredado dedalo as quelhas e azinhagas, a +ponto de fazer perder toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido das +levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; adeante, transpunham +uma ponte rustica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ella +atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o ranger das rodas dos +moinhos. + +Henrique a cada momento imaginava cair n'um abysmo. + +--São os açudes do Casal--dizia o almocreve berrando para se fazer ouvir +através do estrondo da torrente.--Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes. + +Henrique nem alento já tinha para falar. + +Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia tão cerrada lhe +envolveu o coração a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistencia ao +crescente torpor que o invadia, como o que desespera da vida e da +salvação. + +Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma toada plangente, +melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos. + +--É uma fiada em casa do Tapadas--disse o almocreve.--É um dos maiores +amigos do pae da morgadinha. Vê aquelle muro acolá? + +--Eu não vejo nada. Deixa-me! + +--Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha... + +--Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha--exclamou Henrique. + +Era evidente emfim que estavam em pleno coração do povoado. As casas +appareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que +tinha o que quer que era de lugubre. Era a corôa rezada em familia a +Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e +trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das +raparigas e creanças n'aquelle piedoso côro, produzindo um effeito que +acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante. + +--Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que não a acabamos de +attingir? + +O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante +junto ás orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira +orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do almocreve, estacou em +frente de um portão de quinta resguardado por um telheiro rustico. + +--É aqui--disse o guia. + +--Até que emfim!--exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e +de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cançado da vida, quando +antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convicção de que a +quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio. + + + + +II + + +O almocreve assentou duas vigorosas pancadas no solido portão de +castanho, deante do qual tinham parado. + +As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois cães, que +acudiram de longe ao signal e vieram ladrar á porta com furia, que fez +agourar mal a Henrique da cordialidade da recepção que o esperava. De +facto as intenções dos quadrupedes não pareciam demasiado hospitaleiras. +O almocreve divertia-se excitando-os de fóra com uma vara de vime, +apesar de quantas recommendações de prudencia lhe fazia Henrique, não em +demasia socegado. + +A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando os cães á ordem, se é +licito, sem irreverencia, empregar n'este caso a phrase consagrada para +outro genero de algazarra. + +Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a aldraba, +gemerem os gonzos, e emfim um homem de lavoura alto e magro, trazendo em +punho um lampeão de frouxissima luz, appareceu-lhes á porta e saudou-os +com a fórmula do estylo: + +--Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites. + +E, levantando a luz á altura do rosto de Henrique, poz-se a miral-o com +a menos ceremoniosa curiosidade. + +--É o sobrinho cá da senhora, não é verdade? + +--Sou eu mesmo. + +--Está um tempo muito azêdo. Eu já julgava que não vinham. Entre. + +Henrique não se resolvia a acceitar o convite, porque lhe continuavam a +impôr respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois +façanhosos quadrupedes, cuja má vontade era a custo refreada. + +--Entre, entre--insistia o homem. + +--Mas esses animalejos?... + +--Ah! isto não faz mal. Sae-te p'ra lá, Lobo: passa, Tyranno! + +Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem que não faziam mal! + +--C'os diabos! ti'Manuel--disse o almocreve--em occasião de se esperarem +hospedes, não se soltam assim os cães. Os diabos não são nenhuns +cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joãosinho das Perdizes, que por pouco +lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas. + +--Forte perca!--resmoneou o outro.--Não trouxesse cá os d'elle. Não tem +dúvida; entre o senhor, que elles não lhe fazem mal. + +--Não entro; assim é que não entro--teimou Henrique, a quem as palavras +do almocreve acabaram de fortificar na sua resolução. + +O homem em vista d'isto encolheu os hombros e bradou: + +--Ó Luiz! + +Uma creança de cinco annos, e quasi nua, correu ao chamamento. + +--Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor tem mêdo. + +A creança, á palavra mêdo, fitou Henrique com uns olhos espantados, e +tomando do chão um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas +feras, que, com todos os signaes de respeito, de orelha baixa e cauda +abatida, fugiram deante d'ella. + +O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um tanto maltratado com o +desfecho da scena; mas a prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andára +ajuizadamente. + +--Agora vossemecê--disse o camponez para o almocreve--arranje-se como +puder e mais a bêsta ahi pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao +senhor. + +--Vão, vão com Nossa Senhora, que eu cá me arranjarei. Muito boas +noites, sr. Henriquinho. + +--Adeus, José--disse Henrique, passando para a mão do guia a esportula +da gorgeta, e após seguiu, com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem +do lampeão. + +Não era para dissipar a impressão penosa, que subjugava o espirito de +Henrique, o aspecto que lhe offerecia, áquella hora da noite, a parte da +quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha. + +Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro ou eido, estradado +de altas camadas de matto e embebido de chuva, d'onde se exhalava um +cheiro de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado a estes +aromas campezinos. A luz do lampeão a custo conseguiu evitar a Henrique +o tropeçar n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia para +gallinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo a +cancella que terminava este, seguiram por uma rua de folhas; +atravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia; +ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados mais alguns rodeios, +acharam-se finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia +para uma especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um +modesto portico á casa de Alvapenha. + +A propriedade da tia de Henrique era um genuino typo de casa rustica, á +moda do Minho. + +Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos á escassa +luz que os allumiava, recebeu Henrique a primeira impressão agradavel de +toda aquella mal estreada excursão. + +Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram n'elle +memorias, quasi apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter brincado +alli, a cavallo n'esse mesmo parapeito, então, como agora, enfeitado de +uma formidavel cohorte de aboboras meninas, victimas votadas ás festas +do proximo Natal. + +A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso de louça, que +elle, havia vinte e tantos annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia +vaga de haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de se certificar, +e viu que de facto ainda lhe faltava a aza, sendo este o unico estrago +que após tanto tempo o velho utensilio soffrêra. + +--É admiravel!--não pôde deixar de exclamar Henrique ao fazer a +descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma nos seus +aposentos em Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava em +Alvapenha. + +O hortelão bateu á porta e disse para dentro que era o sobrinho da +senhora que chegava. + +Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar de +passos; moveu-se a chave na fechadura; abriram-se as portas e no limiar +appareceu de braços abertos a tia Dorothéa, e por traz d'ella, elevando +a luz acima do hombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que, havia +trinta annos, lhe era companheira e interessada em lagrimas e pesares. +Já Henrique lhe andára ao collo no tempo em que estivera creança na +quinta. + +Deante da figura esbelta, do typo varonil e do comprido bigode de +Henrique, a sr.^a Dorothéa reprimiu as suas expansões e quasi recuou. + +Nunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco annos, deixára +Alvapenha, e dir-se-hia que esperava ainda encontrar os mesmos cabellos +louros e annelados e o mesmo rosto menineiro da travêssa creança de +outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos annos +volvidos o tinham transformado. + +Ha d'estas illusões na gente. + +A mais segura razão não está precavida contra ellas; a infundada +surpreza invade-nos de subito, e os labios não podem prender a +exclamação que a denuncia. + +--Pois na verdade tu és o Henriquinho?!--disse espantada a boa senhora. + +--Eu julgo que sim, tia Dorothéa. + +--Tu! Ai como estás um homem! Ó Maria de Jesus, você não quer vêr isto!? + +--Parece mesmo um soldado!--disse a criada, igualmente estupefacta. + +--Credo, mulher! Santissima Trindade! Você que está a dizer? Nossa +Senhora nos livre de tal!--exclamou a ama, em cujo conceito o soldado +estabelecia a transição do homem para o diabo. + +No entretanto Henrique de Souzellas abraçava a tia, que havia tanto +tempo que não vira, e ella correspondia-lhe, beijando-o com todo o +carinho e chorando. + +Chorando por quê? Por quê? Pela muita bondade que tinha n'aquella alma. +A bondade é um rico manancial, que brota lagrimas ao toque da menor +commoção. + +Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados +amplexos e mais provas de affecto de sua tia, quando se sentiu prêso em +novos laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava tambem e lhe pespegava +nas faces dois beijos muito chiados, como aquelles que veem a ferver do +coração, e isto acompanhado de um--Ai o meu rico filho!--tão eloquente +como os beijos. + +Henrique, habituado ás etiquetas da civilisação urbana, que estabelece +entre amos e criados distancias desconhecidas na aldeia, extranhou um +pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexões. + +Maria de Jesus dizia, ainda admirada: + +--Ó senhora! Não que uma coisa assim! Pois é este o menino que vinha á +cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada! + +--É verdade! E que boa marmelada cá se fazia! + +--Lambareiro!--disse a tia, sorrindo.--Se eu soubesse que eras assim, +não tinha mandado lavar o tacho do dôce, que ainda hoje serviu. + +--Sim? Então ainda se faz dôce cá em casa, como d'antes?--perguntou +Henrique. + +--Pois então? todos os annos. Mas valha-me Deus! E não querem vêr nós +aqui postas á palestra! Entra, menino, entra cá para dentro, que está +frio e tu deves vir cançado. + +--Um pouco, um pouco, tia Dorothéa. + +E Henrique entrou para a sala. + +Demoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas, em cuja +casa se vae alojar com Henrique de Souzellas. + +Não se imagina a santa paz de espirito, a placidez de paraiso, que estas +duas mulheres--D. Dorothéa e Maria de Jesus, ama e criada--gosavam na +quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar allivio aos +seus muitos e variados males. + +Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus habitos, ambas +muito tementes a Deus e amigas do proximo, as duas celibatarias passavam +alli uma vida, rescendente a um suave perfume de santidade, como o da +alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as gavetas e de que se +repassava toda a roupa branca, objecto muito dos seus cuidados. + +A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos entre as duas, +poderia ser exemplo á maior parte das familias d'este mundo. Entre +velhas, que nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral faz o humor +mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso. + +Tinham ellas porém a precisa tolerancia para fazerem mutuas concessões; +cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria +bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu uma só palavra, que, por +mais alto pronunciada ou por menos expressiva de paciencia, destoasse da +invariavel monotonia dos seus habituaes dialogos. + +Eram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maior parte, +devorados por demandas entre primos e irmãos, paes e filhos, marido e +mulher, mostravam infelizmente ser esta abençoada semente caída em +improductivo terreno. + +As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento affligiam as +duas sexagenarias e augmentavam o numero de Padre-Nossos com que todas +as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram validas, +pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua propria. + +Ouvir rezar as duas santas velhas--e era essa a occupação dos seus +curtos serões--equivalia a escutar uma resenha das differentes +calamidades, que perseguem e apoquentam o genero humano, e que ellas, +d'esta maneira, pretendiam evitar. + +--Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Marçal, para que nos livre do +fogo--dizia D. Dorothéa, e seguia-se o Padre-Nosso.--Outro a Santa Luzia +milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma e no corpo; outro a +S. Braz, para que nos proteja da garganta; outro a S. Vicente, por causa +das bexigas, etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os que andam sobre +as aguas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro por +os orphãos; outro pelos doentes; um pelos vivos; outro pelos mortos; um +pelos justos; outro pelas almas do purgatorio, não hesitando até a sua +caridade em transpôr as portas do inferno e pedir tambem a remissão dos +condemnados. E ainda depois d'esta minuciosa e longa enumeração, um +ultimo Padre-Nosso fechava a primeira serie, comprehendendo todos os não +contemplados por esquecidos, ou por não terem logar na classificação. + +Compunha a segunda serie a menção especial de cada uma das pessoas +fallecidas das suas relações: parentes, amigos e conhecidos, por cujo +«eterno descanço entre os resplendores da luz perpetua» oravam com +verdadeira compunção. N'esta phalange ia tambem D. João VI, por quem, +havia quarenta annos, se costumára a rezar D. Dorothéa, e não era ella +mulher que rompesse com habitos semi-seculares. Era esse talvez o unico +Padre-Nosso que a alma do monarcha recebia no Céo, com procedencia do +seu antigo reino. + +Quanto ás qualidades physicas, a imaginação dos leitores pintar-lh'as-ha +melhor do que a minha descripção. Forçosamente conheceram uma d'estas +boas velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem se estima e com +quem se brinca ao mesmo tempo; que nos podem inspirar sacrificios e +simultaneamente nos tentam a travessura; a quem mystificamos agora e +logo beijamos respeitosamente a mão; contra quem não reprimimos +impaciencias, escutando depois submissos os seus nunca terminados +sermões. + +Ora estas velhas assim teem quasi sempre um typo uniforme, que é o +reflexo exterior da bondade do coração; esse era o typo da tia Dorothéa +com o seu vestido rôxo, o seu lenço castamente cruzado no peito, a sua +touca de folhos alvissimos e de fitas escuras, o mólho de chaves á +cinta, o livro de orações na algibeira e os oculos a marcarem no livro a +reza habitual. + +Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edição popular da mesma +alma. Succedêra de mais com ellas o que é sempre de esperar de uma longa +e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado maneiras e modos de +pensar e de vêr e de dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer +d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo de conclusão, se deduzia +a outra facilmente. + +Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao primeiro exame que fez +das duas santas mulheres. + +Entremos agora com elle para dentro da sala. + +Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ahi +voltasse de novo com Henrique julgaria, á vista da uniforme disposição +de coisas mantida alli dentro em tão distantes épocas, que todo esse +tempo não fôra mais do que um sonho de momentos. + +Encontraria os mesmos móveis, na mesma collocação; as mesmas cobertas +nos leitos, apenas mais desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas +janellas; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosphera dos quartos, +os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas cómmodas. + +A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana memoria de rapaz +estouvado, sentia-se acordar, á vista d'aquillo tudo. + +A sala tinha uma physionomia caracteristica. + +Supponha-se uma não muito ampla quadra de pouca altura, toda pintada a +óca, e alumiada por duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus +competentes assentos de pedra, um defronte do outro, com meias cortinas +de cambraia sempre corridas--pleonasmo de discrição que se não +justificava, visto que as janelas, abrindo para a quinta, não tinham +vizinhança de cujos olhares precisassem de recatar-se. O tecto era de +almofadas de castanho, em tempos pintado de azul, agora de uma côr +duvidosa. Havia quinze annos que D. Dorothéa falava em o mandar retocar, +mas o projecto, momentoso como era, ia sendo adiado de primavera para +primavera. Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija saliente, onde +coroadas maçãs de inverno aguardavam, em vistosa fileira, a completa +maturação, e derramavam no aposento o mais agradavel aroma. O pavimento, +apesar de muito picado de caruncho, andava limpo e _escafunado_--termo +do vocabulario de casa--que mettia gôsto vêl-o. Cada parede era um museu +de estampas de devoção. Poucos santos e santas da côrte celestial não +estavam alli representados e com um colorido, que era o maior peccado, a +que estes bemaventurados haviam dado logar cá no mundo. + +Cá se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras; Santa Anna +ensinando Nossa Senhora a ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. João +Novo, no Porto; o Bom Jesus de Bouças, representação da imagem, que, +segundo reza a respectiva chronica, é obra das mãos de José de +Nicodemus; os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de S. Francisco, +etc., etc. Sobre a cómmoda de pau preto era devotamente venerado o mais +rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda modelaram +as mãos de santeiro afamado. E seja dito de passagem que não sei por que +a tradição popular dá a este austero franciscano o aspecto chorudo de um +moderno reitor de farta abbadia de aldeia. + +No interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido o +museu de raridades da tia Dorothéa. Eram flores artificiaes, +concharinhas e caramujos, um rosario de caroços de azeitonas, uns poucos +de vintens de prata, enfiados e pendentes do braço do menino Jesus, que +o santo sustentava ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha +benta, uma medida do braço do Senhor de Mattosinhos, um pão do sacco de +Santa Isabel, que vae na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos +curiosos. + +A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam quando +entravam em serviço, como militar, cujas articulações o rheumatismo +invadiu; mesas cobertas com colchas de chita; bahús cravados de pregaria +amarella, disposta em lettras e arabescos; uma papeleira de pau santo, e +uma gaiola com um canario decrepito, objecto, havia muitos annos, das +tentações de um gato, mais decrepito do que elle e pertencente ás +classes inactivas. + +Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de beatitude e de +antiguidade que alli se respirava, os habitos da casa, sentia já certo +desconfôrto, como de quem é arrancado de subito ao ambiente, em que se +educou e vive, e engolfado n'um ambiente extranho; especie de asphyxia +moral, não menos angustiosa do que a do peixe fóra da agua. + +A saudade que ao principio sentira, dissipára-se já. O perfume da +saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o +recebemos. Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se. + +Acontecera isto com Henrique. + +Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crença de que não seria +por muito tempo que se demoraria alli. + +--Os emollientes do doutor--pensava elle, emquanto sua tia falava--serão +efficazes para quem os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim... + +No entretanto sentou-se. + +--Ora o Henriquinho!--dizia ainda D. Dorothéa, pondo-se de braços +cruzados em contemplação defronte d'elle.--Ó menino, onde foste tu +arranjar esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se? + +Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique. + +--Quem quer usar, usa, tia. Não é obrigação--respondeu elle, com leve +mau humor. + +--Em nome do Padre e do Filho!--dizia Maria de Jesus, benzendo-se e +tomando logar ao lado da ama.--Até nem sei que parece, lembrar-se a +gente que trouxe este marmanjão ao collo! + +O termo «marmanjão» não soou bem a Henrique. Principiava tambem a +impaciental-o o vêr as duas embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito +a uma exposição d'estas, por mais que faça, não atina com o modo de +arrostar com ella, que não seja ridiculo. Ora Henrique, como todo o +homem da sociedade, o que mais que tudo temia n'este mundo era o +ridiculo. + +Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da tia Dorothéa, que fez +perceber á criada a conveniencia de ir preparando a ceia de Henrique, +que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não costumar cear, +acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas e a má alimentação dos +ultimos dias, haviam-lhe desafiado o appetite. Demais, o espanto de D. +Dorothéa, quando lhe ouviu dizer que as ceias não entravam nos seus +habitos, foi tal que lhe tirou o animo de rejeitar. + +--Não ceias! Ó menino, que me dizes? então vaes-te deitar sem ceia? Ora +essa! Por isso vocês são uns pelens. Vejam lá que arranjo este! ficar +toda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento ao estomago, que +aconchegue. Nada, nada; a ceinha em todo o caso. E tu has de tambem +querer mudar de fato? + +--Eu venho bastante molhado. + +--Ai, então depressa, menino, que não ha nada peor do que a roupa +molhada no corpo. Ó Maria... ou deixe estar, eu vou... Anda, +Henriquinho, anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares. + +Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado e commodamente vestido, +saboreava uma gorda gallinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha +lavada, e na melhor louça da copeira. + +Elle que tinha sempre severidades de critica contra os mais afamados +cozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquella comida +primitiva, com que o regalava a tia. + +Esta sentou-se a vêl-o comer, e com a mesma familiaridade, que Henrique +já anteriormente extranhára, Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama. + +Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao cerrar da noite. + +Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem de o observar com a natural +curiosidade de quem havia tanto tempo não tivera um hospede, faziam-lhe +perguntas, ás quaes elle ia respondendo conforme lhe era possivel. + +--Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; pois olha que na cara +não o parece. + +--Não--concordou a criada--tem boas côres, e, vamos, a magreza inda não +é lá essas coisas. + +Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu logo ao reclamo. + +--Não me digam isso! Então não vêem como estou? Pois isto é lá côr de +saude? de febre, será. Gordo? pois acham-me gordo?! + +--Gordo, não digo, mas assim, assim... E depois como vieste de +jornada... Mas a final que molestia é a tua, menino? + +--Eu sei lá, tia Dorothéa? Nem os medicos a conhecem bem. É, entre +outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me não deixa, que me +persegue por toda a parte. Ás vezes parece-me que sinto apertar-se-me +dolorosamente o coração; outras, são palpitações, ancias... Tenho quasi +vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem, +nada quero vêr, nada quero ouvir; não leio, não durmo, não como. +Finalmente todo eu sou doença e tristeza. + +A boa tia Dorothéa olhava com sisudez e attenção para o sobrinho, +emquanto elle falava, e na physionomia iam-se-lhe desenhando, ao +ouvil-o, os mais expressivos signaes de espanto e consternação. + +Assim que Henrique terminou a exposição, ella disse-lhe com uma adoravel +candura: + +--Então é assim uma especie de mania! + +Á palavra «mania» Henrique sobresaltou-se. Seria a consciencia que se +sentiu ferida? + +--Mania? Ó tia Dorothéa! Mania! Veja bem, olhe que o termo é forte? +Mania! + +--Sim, menino--insistiu ingenuamente a boa senhora--pois olha que não é +outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de quê... sim... porque +não te morrendo ninguem, nem te doendo nada... + +Ó poetas devaneiadores, ó almas melancolicas, que percebeis no sussurrar +das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios, queixas +occultas de dryades e de nayades, sentidas vibrações das harpas de fadas +aereas, que vivem em palacios de nuvens; ó corações inoculados de +poesia, que vos confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar do +dia, ao desfolhar das arvores no outomno; poetas, que escutaes, com +Victor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepusculo, e com elle +adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, perdoae a involuntaria +blasphemia da tia Dorothéa, que não contem o menor fermento de malicia; +perdoae-lhe a dura expressão de que ella se serviu para caracterisar os +vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e +crêde que, apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada para +sympathisar comvosco, do que tantas que por ahi fazem gala de vos +comprehender melhor. + +Henrique não podia porém digerir a expressão, de que se servira a tia, +para diagnosticar o seu mal. + +--Mania!--repetia elle--essa agora! Sempre é forte de mais. Mania, não, +tia Dorothéa, lá isso não. Mania! + +--Eu lhe digo--acudiu a criada.--Não vá sem resposta; que está quasi +como o cunhado da Rosa do Bacello. A senhora não se lembra? Andou +aquella alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só, até que a +final lá foi parar... + +--Aonde?--perguntou Henrique, erguendo os olhos interrogadoramente para +a criada. + +--Lá foi parar a Rilhafolles--concluiu esta, espevitando a véla o mais +naturalmente d'este mundo. + +Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade. + +Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo de arroz, que lhe estava +sabendo como nunca manjar lhe soubera. + +--Então não comes mais?--perguntou a tia. + +--Muito agradecido; eu o mais que tenho é somno. + +--Pois sim, mas é preciso fazer por comer--insistiu ella. + +--Ora vá mais este côxão--disse a criada. + +--Não é possivel--teimou Henrique, e insistiu para se recolher ao +quarto. + +--Tens razão, tens--concordou a tia Dorothéa--deves estar fatigado. Vae +com Nossa Senhora, menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que +isso não é bom. É fazer por espairecer. Come, bebe, passeia, que é o que +dá saude. Nada de malucar. + +--Sim--accrescentou a criada--e não queira estar doente, que não tem +graça nenhuma. + +--E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem te podes distrahir. O +brazileiro Seabra, que tem uma casa como um palacio; o Augustito do +doutor, que é um bom mocinho. E depois vae dar um passeio por ahi, um +dia até os moinhos outro dia até á ermida da Senhora da Saude. Agora me +lembra: a Lenita já mandou ahi outra vez saber se tinha chegado o +hospede--disse D. Dorothéa. + +--Não foi só a morgadinha... + +--Ahi está você a chamar-lhe tambem a morgadinha. + +--Então, senhora?! isto é o costume. Mas todas as outras senhoras +mandaram tambem o Torquato saber do sr. Henrique. A sr.^a D. Victoria e +a Christininha. + +--Ai, pois cuidadosas são ellas! Tu has de te entender com aquella +gente. É uma gente muito dada e sem ceremonia. É preciso lá ir. Olha, +ámanhã podes ir visital-as. É um passeio bonito. + +Henrique, que tinha estado distrahido durante a conversa das duas, nem +se dava ao trabalho de intervir no dialogo em que ellas dispunham já do +seu tempo e traçavam-lhe planos de vida. + +--Mas vae descançar, menino, vae e faze por dormir. Olha lá, tu costumas +dormir com luz? + +--Não, tia, não costumo. + +--É porque n'esse caso... Ó Maria, onde está aquella lamparina, que me +serviu quando eu estive doente, ha seis annos? + +--Está lá dentro, senhora; se a senhora quer eu... + +--Vê lá, menino... + +--Não tia, não quero. + +--Ha pessoas que não podem dormir ás escuras--dizia a criada.--Eu, +graças a Deus, durmo bem de qualquer fórma. + +--Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, has de vêr +se queres o travesseiro mais alto ou... + +--Muito agradecido, tia Dorothéa, tudo deve estar bom--disse Henrique, +procurando fugir ás muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as +duas o iam perseguindo até o quarto. + +--Olha, ó menino, tu bebes agua de noite? + +--Ás vezes. + +--Você poz-lhe agua no quarto, Maria? + +--Puz, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia, que +antes sem luz do que sem agua. + +--Bem, então está bom. Então muito boa noite, menino. + +--Boa noite, tia. + +--Ai, é verdade. Has de vêr se queres mais roupa na cama. + +--Não hei de querer, não, tia. + +--Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria? + +--Cinco, senhora. + +--Cinco!--exclamou Henrique, quasi horrorisado.--Cinco cobertores! + +--É pouco? + +--Pouco?--É de morrer esmagado debaixo d'elles. + +--Ai, quer não! Olha que está muito frio. + +--Bem, bem; eu cá me arranjarei. + +--Então, muito boa noite. + +--Muito boa noite, tia. + +E Henrique ia a fechar a porta. + +--Olha...--disse ainda a tia. + +Henrique parou. + +--Não sei o que é que me esquece... + +--Não ha de ser nada, tia; boa noite. + +--Não esquecerá?... Eu sei?... Emfim... boa noite. Ai, é verdade... +Sempre é bom ficar com lumes promptos. + +--Ai, sim; lá isso sempre é bom. + +--Vês? não que bem me parecia. + +--Já lá estão, senhora--disse a criada de longe. + +--Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino. + +--Muito boa noite, tia. + +E Henrique conseguiu fechar a porta. + +Estava finalmente só. + +--Que desastrada lembrança a minha!--disse o pobre rapaz, ao fechar a +porta sobre si.--Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, +que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinencias me +espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que só posso voltar para ti á +custa de outra jornada! + +O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de +almofadas na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava +o auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma commoda com um +pequeno espelho, um bahú, um lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam +a mobilia toda. + +Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos objectos de +toucador, a que estava habituado. Aquelle estrictamente necessario não +lhe promettia grandes confortos. + +Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo e respirava um asseio +e frescura convidativos: os travesseiros, de largos folhos engommados, +possuiam uma molleza agradavel ás faces; o colchão de pennas abatia-se +suavemente sob o peso do corpo fatigado. + +Henrique conchegou a roupa a si; á falta de velador, pousou o castiçal +no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a +ler, para obedecer a um habito adquirido. + +Não teria ainda lido um quarto de pagina, quando ouviu a voz da tia +Dorothéa, que lhe dizia de fóra da porta: + +--Ó menino, tu já te deitaste? + +--Já, sim, tia Dorothéa. + +--Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um mêdo de fogos! + +--Esteja descançada, tia. Eu apago já. + +--Então será melhor. S. Marçal nos acuda. + +E afastou-se, rezando ao santo. + +Henrique continuou a ler. + +D'ahi a pouco a mesma voz: + +--Tu já dormes, Henriquinho? + +--Não, tia, ainda não durmo. + +--Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um mêdo de +fogos! Não descanço, emquanto não vejo tudo apagado em casa. + +Henrique perdeu a paciencia. + +--Pois pode socegar, olhe. + +E apagou a véla, meio zangado. + +--Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por +dormir. Então, muito boas noites. + +--Muito boas noites--respondeu Henrique quasi amuado; e ageitando-se na +cama, dizia comsigo:--E esta! Já vejo que nem ler me é permittido aqui. +Olhem que vida me espera! É isto o que me devia curar? Que fatalidade! + +Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, unicos que +conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu effeito, +insinuando nos membros cançados da jornada um agradavel calor. +Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque que ficava por debaixo das +janellas do quarto e as gottas da chuva, que dos beiraes do telhado +caíam compassadas na taboa do peitoril. + +A noite socegára. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento, +já menos impetuosas, faziam bater as vidraças. + +Eram como estes estados, que succedem a um choro aberto. Correm ainda +algumas lagrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem +ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será +completa a serenidade. + +Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar +n'aquelle confortavel leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe +enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente, no mais +profundo, tranquillo e restaurador somno, que, havia muito tempo, tinha +dormido. + + + + + +III + + +Ao romper da manhã, quando a consciencia principia, pouco a pouco, a +acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpôr de um somno profundo, +Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente sentado em uma cadeira de +S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma opera favorita. + +Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos e contrabassos; +sopravam, a plena bôca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam +descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados +faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente +os ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta +riqueza de instrumentação, mais do que uma nota unica, arrastada, +continua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar +uma só phrase musical. + +Era de desesperar um _dilettante_ como elle; torcia-se na cadeira, +inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acusticas, +e sempre o mesmo resultado! + +Este violento estado de attenção, este esforço do sensorio, principiou +n'elle a obra de despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cêdo se +transmittiu a todos os outros orgãos. + +Antes de dar a si proprio conta do que era aquelle som, e quasi +esquecido ainda do logar em que estava, Henrique abriu os olhos. + +A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janellas e +espalhava no aposento uma tenue claridade. + +Veio então a Henrique a consciencia do logar em que estava, e uma +alegria profunda lhe dilatou o coração. + +O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de pesadêlos, ou de somnos +febris, não avalia por certo o contentamento intimo, que se apossa das +desgraçadas victimas d'esses demonios nocturnos, quando por excepção +elles as deixam em paz, e lhes respeitam o somno de uma noite completa. +Acordar só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis prazeres, a que +elles aspiram na vida. + +Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor; a arca do peito +expande-se-lhes mais livre e as sombras do espirito dissipam-se-lhes com +aquelle clarão matinal. + +Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos mezes, +dormira de um somno a noite inteira. + +Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade +de cantar. + +Mas o som, que o acordára, aquella nota unica, em que se confundiam +todas as notas da sonhada orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos. + +Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu que era o chiar dos +carros--o mesmo som, que na vespera o irritára, agora assim a distancia, +estava-lhe agradando, como nota extrahida por mão habil das cordas de um +violino. + +Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella manhã o incitava ao +exercicio, rara disposição no indolente filho da capital, que tinha por +habito ouvir o meio dia na cama. + +Ergueu-se e abriu as janellas. + +Não é licita a comparação entre a mais surprehendente transmutação de +uma d'essas apparatosas magicas, que tanto extasiam as multidões +embasbacadas nas plateias e camarotes de um theatro, e as que de +instante para instante, realisa a natureza. Descerrando o véo de nuvens +que encobre o fulgor do sol, elevando, acima do horizonte, esse +magestoso lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor que illumina +as noites desanuviadas, a natureza opéra, a cada momento, as mais +admiraveis e completas metamorphoses. + +Durante o somno de Henrique realisára-se um d'esses effeitos magicos. + +Abrandára gradualmente a violencia do sul; o vento, mudando, voltou em +sentido opposto a grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens; +luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram perante o +alvor do dia, e quando o sol assomou por sobre a crista das serras, +estendia-se-lhe deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que +tinha a percorrer. Só, muito para o occidente, ainda algumas nuvens +amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve +tingiu de carmim e de ouro. + +Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, cheia de aromas, que vem +dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique, +quando elle abriu as janellas. + +A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito uma exclamação de +prazer! + +A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste que, com o coração +apertado, atravessára na vespera, parecia outra. + +O sol da manhã baixára sobre ella, dissipára-lhe as sombras, +colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersára-se em +iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a +de aromas, animára-a de cantos, transformára-a emfim na mais risonha +paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas +galas do Minho, tinham nunca repousado. + +O inverno despojára parte d'essas galas; embora! Até da propria nudez de +algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos +despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza +poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde não haja uns tons +escuros de melancolia? + +Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se +cançava de admirar aquella scena. + +Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n'um momento, +elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina. + +Pois era esta a mesma aldeia, através da qual elle cavalgára de noite? + +Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que tão do fundo da alma +amaldiçoára na vespera, produziam, vistos então d'alli, os mais +pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo valle, +opulento em vegetação, e que a certa distancia se continuava insensivel +e gradualmente com uma amenissima collina. + +Além, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os +de folhas, tingira quasi da côr da violeta, contrastava com a fronde +sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a +qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mão do +lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas +encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos +aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres, +alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas +conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor +trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas +e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. +Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um +só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida +pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de +musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os +paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos +ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de +vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições +a pastel da mão de Pillement. + +A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e +disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava +observando. + +--É preciso sair! é preciso sair!--disse Henrique comsigo.--Quero vêr +isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por +aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras. + +E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa +_toilette_, saiu do quarto. + +Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente. + +--Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite? + +--Deliciosamente minha querida tia--respondeu elle, abraçando-a com +maior affecto e bom humor do que na vespera. + +O que é sentir-se a gente bem! + +--Então não estranhaste? + +--Estranhei immenso! + +--Sim?!--disse a tia, mortificada. + +--Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a +mais estranha das occorrencias. + +A tia sorriu satisfeita. + +--Pois antes assim. E agora... + +--E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um +paraiso terreal. + +--Espera, menino. Não vás sem almoçar. + +--Almoçar! Pois que horas são? + +--Não é cêdo; são já sete horas. + +--Já sete horas! + +E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr +como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava. + +--E então acha que se pode almoçar ás sete horas? + +--Por que não? Se está já prompto. + +--Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia. +Principiemos por este. + +Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de +leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo. + +Foi por elle que principiou o almoço. + +Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro, +o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os +physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das +georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle, +que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado +sôro, a que estava habituado na cidade. + +D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o +costume, continuadamente. + +Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas. + +Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e +paciencia. + +Falaram em muitas coisas. + +A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança, +sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas, +offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da +terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já +mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir +visital-as aquella manhã. + +Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o +almoço apressou-se a sair para o campo. + +--E se te perdes, menino?--lembrou a tia. + +--Se me perder, farei por achar-me. + +Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir. + +Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe +parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O +aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a +mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas +graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos. + +Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era +novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres +pensamentos. + +Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear +ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa +terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas, +sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta +d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços, +creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á +umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do +lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se +dirigiam todos os olhares. + +Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo +satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte +pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o +distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas. + +Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe +serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa, +Henrique entrou na repartição. + +Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e +dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal +do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento +Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e +solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em +interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso +paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de +posse s. s.^a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se +procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras +antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador +de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares, +e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem. + +Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou +cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para +cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o +nome de Henrique. + +Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e, +achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito, +convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas +alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar. + +Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de +certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio +não chegára ainda. + +--Saiba v. s.^a que ainda não--respondeu o sr. Bento Pertunhas--mas não +deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem +andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.^a ahi +vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do +Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um +inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está +paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de +latinidade. + +--Ah!... + +--É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que +eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão +era a musica. Eu ainda queria que v. s.^a me ouvisse tocar trompa, que é +o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.^a se demorar ha de +fazer-me o favor... + +--Com muito gôsto. + +--Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação! + +--Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas +deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de +arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida. + +O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos. + +--Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode +achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma +vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que +se tem falado no mundo! Se é que se falou--accrescentou em voz baixa. + +--Então duvida que se falasse latim?--perguntou Henrique, sorrindo. + +--Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella +endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar +volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa +desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando +precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o +latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As +armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem +percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles +punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É +quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois--continuou elle, enthusiasmado +com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação--e depois as +differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós +cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor; +diz-se _regnum_ e _regna_ e _regni_ e _regno_ e _regnis_ e até +_regnorum_. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua! + +Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento +Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor +pode imaginar, depois do que ouviu. + +--Ai, meu caro senhor--continuou o atribulado _magister_--eu se me vejo +um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei +de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres. + +É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a +Virgilio. + +Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de +facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de +cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia +Virgilio 1.^o, 2.^o e 3.^o, como quem se refere aos monarchas homonymos, +que succederam n'um mesmo reino. + +--Não me salvo se morro mestre de latim--proseguia elle.--Afunda-me no +inferno o trambolho da syntaxe. + +Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta, +principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não +comportava mais ninguem. + +--Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi +vem!--diziam todos á uma. + +O funccionario principiou a impacientar-se. + +--Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer? +Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem +logar. Não vêem que estão molestando este senhor? + +Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os +outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo, +como se lhe valesse algum especial privilegio. + +--Saia você, mulher--dizia um. + +--E você por que não sae? Olha agora! + +--A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá +por estar aqui não é que... + +--Pois então saia tambem. Ora essa! + +--Ó santinha, não empurre. + +--Ó filho, quem é que lhe faz mal? + +--Por onde é que se quer metter, homem de Deus? + +--Eu não sou menos que os outros. + +--Que quereis vós d'aqui, canalhada? + +--Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote. + +--Espera que eu te falo. + +Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas +declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar +para dentro da teia, para se salvar das ondas populares. + +Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a +alvoroçada anciedade do povo. + +Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e +da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos +sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um +observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos +semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta +de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia +da vida de cada um. + +Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem +encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas +vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os +pezares! + +Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato +dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem +segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no +anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos +com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de +desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com +que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem +depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta +impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo +momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em +que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada. + +Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao +mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de +assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que +formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu +fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de +cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos. + +Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que +seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas +abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para +receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que +lhes dominava os animos. + +Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a +Henrique: + +--Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar +trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e +expressão. + +Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação +d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe. + +--Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim? + +--Ah! pois já as espera hoje? + +--Não é provavel; porém... + +Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa +a leitura dos sobrescriptos. + +Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo. + +A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um +grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos +accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração. + +Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que +diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante. + +--Luiza Escolastica, do logar dos Cójos--lia mestre Pertunhas. + +--Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!--exclamou uma mulher +joven, apoderando-se ávidamente da carta. + +--Joanna Pedrosa, de Serzedo--continuava elle. + +--Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?--disse uma velha, pobremente +vestida. + +--Será do seu Antonio, será--respondeu o insensivel funccionario;--o que +lhe posso dizer é que traz obreia preta. + +A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo +aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da +loja, a chorar lastimosamente. + +--Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella--disse +um dos circumstantes. + +--Coisas do mundo!--respondeu outro. + +Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura. + +--João Carrasqueiro. + +--Prompto, senhor--bradou um velho. + +--A mezada, hein?--disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos +oculos.--O rapaz não se esquece. + +--Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido. + +--D. Magdalena Adelaide de... + +--É a morgadinha, é a morgadinha--disseram a um tempo muitas vozes. + +--Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação--disse o +Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de +fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou: + +--Leve-lh'a a casa. + +E proseguiu: + +--Augusto Gabriel... + +--É o mestre-escola... + +--Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui... +pode ficar... ainda que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve +tambem... + +--João Cancella. + +--É o João Herodes. + +--Esse foi a Lisboa. + +--Então, quando vier, que appareça. + +--O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle. + +--Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com +o seu zabumba e deixe lá os outros. + +A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu, +redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um +fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se +á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario +fechou a tarefa. + +--E acabou-se. + +Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má +vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel +sorte. + +Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por +muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas +amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em +melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de +obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte +imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha. + +Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu +interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão +satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de +trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra +occasião, bastaria para o fazer doente. + +Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a +deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um +rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli. + +Parou a certificar-se. + +Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde +tentava passar, que se estava falando. + +Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma +scena, que lhe moveu a curiosidade. + +Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com +religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes +fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava +montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e +simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que +Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas +paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os +collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a +periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta. + +Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço +do immovel quadrupede. + +A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do +rancho. + +Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao +socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique, +as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar +penetrar bem na intelligencia do auditorio. + +Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos +antes, vira na casa do correio. + +Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora. + +Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave, +elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma +mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa +côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o +desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi +dar nome apropriado. + +Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos, +porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser +alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a +magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular, +se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores. + +Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse; +olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar; +coração, que não se perturbasse na sua presença. + +Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e +punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente +dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da +airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a +cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas +delicadas. + +Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão +inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a +essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio. + +Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o +carinho com que ella o fazia. + +Henrique applicou a attenção. + +--...«E por isso, minha mãe»--lia ella--«se Deus me ajudar, espero +dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale +vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que +tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.» + +Aqui a leitora parou para perguntar: + +--Então que historia é esta das arrecadas, Anna? + +--É, senhora, que o aluguer estava vencido... + +--E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho? + +--Ora, senhora, bem basta o que... + +--Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda +a coragem! + +E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de +alegria da ouvinte, mais interessada n'ella. + +Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão +a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos +de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e +desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para +mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre +mulher, a quem era dirigida. + +Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de +filho para mãe; outra de noivo para noiva. + +Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e +no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel +bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados +conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão. + +A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era +evidente que estava exultando de jubilo. + +Com esta terminou a leitura. + +Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na +carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um +sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura +raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma +castellã rodeada dos seus vassallos. + +Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de +convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir. + +Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil +rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu +rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por +entre as arvores do caminho. + +Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em +que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella +preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era +necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e +como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára? + +Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia, +para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo; +tinham dispersado. + +Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em +que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas +lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar +ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras +do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não +transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha. + +Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do +Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho. + + + + +IV + + +A casa do Mosteiro, com a quinta annexa á casa, como o dava a entender o +nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem +monastica. + +Era um d'estes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruinas +ou transformados em solar de alguma _notabilidade_ provinciana. Ao de +que falamos coubera o ultimo destino. + +Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na lista dos bens +nacionaes, fôra, por insignificante preço, vendido a um modesto +proprietario das immediações, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais +convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se +inaugurava no paiz. + +E em tão auspiciosa hora lhe acudira aquella inspiração, que, em pouco +tempo, lhe restituia a quinta o capital empregado, regalando-o todos os +annos com não calculados juros, e elle, sem intermittencias, cresceu +d'ahi por deante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a familia +no numero das mais abastadas d'aquella terra. + +A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos e reformas +effectuados n'ella, offerecia, ainda claros, muitos vestigios de seus +primitivos usos. Não era raro encontrar-se, aqui e alli, em pé uma cruz +de pedra marcando antigos logares de devoção; no alto de algumas portas +conservava-se visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de +inscripções latinas; nas paredes da arcaria, em que se apoiava a face +posterior do edificio, mantinha-se ainda um azulejo contemporaneo dos +frades; finalmente resistira a successivas reformações certo colorido +monastico, que só após muitos annos se dissiparia de todo. + +Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e magestosa álea +de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, +por pouco trilhada, crescia espêssa e verdejante. Abria-se, ao fim +d'esta rua, o alto portão do pateo. + +Henrique, deixado só pelo guia ao chegar alli, foi caminhando +vagarosamente por esta avenida, dominado por a intima commoção e +sentimento quasi de temor, que se apodera de nós, em todos os logares a +que se ligam memorias do passado. + +A phantasia estava-o transportando a tempos, a que não chegavam já as +suas recordações, ás épocas, em que, por entre estas arvores gigantes, +se via passar, como um phantasma, o habito escuro do monge, cuja sombra +o sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e +estirada, ao longo d'aquella mesma avenida. + +Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao portão, +transpondo o qual se introduziu no pateo. Era um largo terreiro de +perfeita fórma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e +lateralmente por elevadas paredes, armadas á maneira de pannos de Arrás, +com tapeçarias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se +dois tanques de vasta capacidade. + +No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas +de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e purissima agua; +porém as medidas economicas do ultimo proprietario e as exigencias dos +seus projectos agricolas haviam derivado para outros fins, parte d'esta +abundante veia, de maneira que tres d'aquellas bacias estavam agora +completamente a sêcco. + +Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, os funchos +odoriferos, havia muito que tinham invadido a bôca dos encanamentos +inuteis onde encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas e +myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias de caracoes. + +A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel pelo lado architectonico. +A arte não tivera fadigas, ao concebel-a; o cinzel pouco se embotára a +executal-a; nem uma columna singela, nem um florão, nem um tympano lhe +davam a menos pretenciosa apparencia monumental. Imagine-se uma vasta +casaria de um andar além do terreo, com muitas janellas de peitoril e +uma só varanda de pedra sobranceira á porta principal; acima do telhado, +uma especie de agua furtada, de construcção evidentemente posterior e +aconselhada aos proprietarios modernos por conveniencias de accommodação +domestica; e ter-se-ha concebido o edificio. + +Emquanto Henrique se occupava a examinar estas particularidades, um +velhito, que, sentado em um banco de pedra, que havia á porta de casa, +se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do +recem-chegado, tossindo e arrastando os passos. + +Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia rustica, meia urbana, +depois de o saudar com grave cortezia, que deixou a descoberto o +_solideo_ fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se +havia alguma coisa, em que o pudesse servir. + +Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar +as senhoras, com nova cortezia lhe fez signal para que o acompanhasse, e +ambos atravessaram o pateo em direcção da casa. + +No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferencia para deixar +passar Henrique; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, +voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de annunciar. +Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significação +teve de explicar, porque o velho não a comprehendia bem. + +A final porém retirou-se por outra porta, levando o bilhete. + +A sala, em que Henrique ficou esperando, era toda mobilada com pesadas +cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e +pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, pertencentes +provavelmente aos antigos proprietarios do mosteiro. + +No momento em que o velho servo, que era uma especie de feitor honorario +da casa, abriu outra porta da sala, para ir annunciar á familia a visita +de Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura com um tinir de +louças e de crystaes, as vozes e risos de creanças, que falavam ao mesmo +tempo. Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, e após uma +voz de mulher, de timbre fresco e agradavel, disse audivelmente e como +em resposta ás palavras do criado: + +--Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! Mande entrar para aqui. + +O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a que ainda a mesma voz +redarguiu: + +--O que não é bonito é fazel-o esperar. Ande, vá. + +Torquato--chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram--appareceu +outra vez e fez signal a Henrique, de que o esperavam na sala immediata. + +Henrique que presentiu ir achar-se na presença de uma mulher nova e +porventura bonita, correu, com instincto de perfeito homem de côrte, os +dedos pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente o laço da +gravata e entrou. + +Era completo o contraste d'este aposento com o primeiro; transpondo +aquella porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o caracter de +vetustez, que até alli reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto, +modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobilia toda de um +cunho de actualidade, visivel aos olhos menos pesquizadores. Como para +tornar mais frizante o contraste, a presença do velho feitor estava aqui +substituida por a de duas creanças, a mais velha das quaes mal passaria +dos seis annos. + +O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como que uma cortina +corrida sobre o passado. A porta, que elle transpuzera, a barreira que +separava dois seculos. + +Sentadas no tôpo de uma longa mesa de jantar, coberta de louça fina +ingleza, estavam as duas creanças que dissemos, com os seus babeiros +brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sôpa. Em +pé, á cabeceira, presidia ao _lunch_ infantil uma mulher, de quem +Henrique só pôde notar vagamente os contornos geraes do corpo e não as +particularidades das feições, porque, ficando voltada de costas á luz +das janellas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras, que não favoreciam +o exame. + +Ao vêr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente: + +--Na aldeia a sala de recepções é aquella em que a gente se acha, quando +lhe annunciam uma visita. É assim pelo menos que eu comprehendo o viver +do campo. + +--E é assim que eu o aprecio, minha senhora--respondeu Henrique, +approximando-se da mesa. + +As creanças, interrompendo a refeição, fitavam o recem-chegado com +aquelles olhos espantados e penetrantes, com que ellas, promptamente, e +quasi sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, decidem para si +das sympathias ou antipathias de que lhes é merecedor um estranho, a +quem vêem pela primeira vez. + +A mulher, que presidia ao banquete, não suspendeu com a entrada de +Henrique a occupação domestica, na qual estava empenhada. Mostrava +receber-lhe a visita com um perfeito «á vontade», que nada tinha porém +de affectado. + +--Não sei se v. ex.^a sabe...--ia dizendo Henrique, quando, ao chegar +perto d'ella, parou subitamente em meio da phrase. + +Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a +interessante rapariga, que tanto o preoccupára. + +Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora +melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um +primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graça como +singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie +de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de fórma pouco mais ou +menos similhante á que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi +sempre absurda, e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada +denominação de _zuavo_! + +A surpreza de Henrique não passou despercebida a quem era causa d'ella e +que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação. + +--Perdão, minha senhora--disse Henrique, comprehendendo aquelle +gesto--mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não +era estranha. + +--E sou eu essa pessoa? + +--É v. ex.^a effectivamente. + +--Pois já nos vimos? + +--Já... quero dizer, eu já vi v. ex.^a + +--Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter +visto nunca. Apesar d'isso sei que é o sr. Henrique de Souzellas, +sobrinho d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; não é +verdade? + +--Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.^a não é antigo tambem; +data de algumas horas apenas. + +A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as +sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu á cabeça +uma ligeira inclinação sobre o hombro, d'onde resultou para aquella +gentil physionomia a mais adoravel expressão de estranheza, que pode +animar um semblante de mulher. + +--Esta manhã--proseguiu Henrique, a quem os encantos d'aquelle gesto não +tinham passado despercebidos--assisti a uma scena commovente. O logar +era uma deveza; uma joven senhora... joven e... e com outras qualidades, +além d'esta, para excitar attenções, lia, em voz alta, as cartas que +algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio... + +Ella não o deixou continuar. + +--Ah! entendo agora. Viu-me? Já andava por fóra? Não o suppunha assim +madrugador. Mas onde estava tão escondido? Vejo que é indiscreto... Não +admira, habitos da cidade. É verdade, é. Aquella gente encontrou-me no +caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e não me +deixou sem que eu lhe abrandasse a ancia de coração que a affligia. +Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, já pensou no supplicio que +deve ser olhar a gente para uma folha de papel escripta, na qual sabemos +que se fala de uma pessoa querida, e não ter poder para decifrar aquelle +enygma? Que martyrio! Eu por mim, confesso que me falta o animo para +recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria para negar uma gotta d'agua +ao desgraçado que visse a morrer de sêde. A crueldade seria quasi igual. +Não lhe parece? + +Henrique formulou um galanteio, que ella porém não ouviu, entretida já a +escutar o que uma das creanças lhe dizia. + +--Lena, olha a Annica, que está a deitar a sôpa d'ella no meu prato. + +--Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro a deitou no meu. +Não tem vergonha de mentir! + +--Então--disse Magdalena, que a este nome correspondia a contracção +familiar, de que se serviam as creanças.--Olhem agora se teem juizo. +Vejam se querem que eu vá dizer á mamã que venha para aqui. + +--Não é ella a mãe, visto isso--pensou Henrique, como quem modificava +uma opinião que concebera antes e folgava com a modificação.--Será irmã? +Talvez... Ou mestra... É mais provavel que seja mestra. Esta mulher foi +de certo educada na cidade. Tem uns ares distinctos... + +E elevando a voz: + +--V. ex.^a está-me recordando uma scena de um precioso livro, que nunca +me canço de ler. + +--Qual é? + +--Werther. + +--Ah! + +--Conhece? + +--Conheço... quero dizer, li-o, por acaso, ha pouco tempo. Compara-me a +Carlota? É por estar a distribuir as rações d'estas creanças? Que mulher +ha que não seja Carlota, n'essa parte? Em todas as casas se passa uma +scena assim. Bem se vê que não tem familia. + +--Por quê? + +--Por lhe fazer tanta sensação o espectaculo d'esta. + +--É certo--respondeu Henrique com melancolia.--Deve ser essa uma das +causas; mas não a unica--accrescentou galanteadoramente. + +E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora +tinha lido Werther. + +Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe: + +--Então que lhe parece esta nossa aldeia? + +--Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que me foi desagradavel a +impressão recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço. +Esta manhã, porém, a transformação foi completa. Estou encantado, +fascinado! N'uma palavra, minha senhora, eu, cidadão em corpo e alma, +reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo. + +--Desconfie da mudança rapida. Habitos radicados, qualidades ou defeitos +de educação não se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará +por Lisboa outra vez. + +--Talvez não. Hoje estou até em acreditar que tinha razão o doutor, que +me prometteu a cura das minhas doenças, se me costumasse devéras a estes +habitos campestres. + +--Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se? + +--Por que não? Hoje já almocei ás sete horas, já andei mais do que uma +semana inteira ando em Lisboa. E inda tenho por vêr as raridades da +terra. + +--As raridades?! E que raridades são essas que inda tem para vêr? A +nossa pobre aldeia não lhe merece essa ironia. + +--Então acha tão pouco curiosa esta terra? Do quasi nada que d'ella +observei esta manhã, parece-me até... + +--Ai, se fala da natureza, é outra coisa. A cada passo se encontra um +ponto de vista, que nos obriga a uma exclamação. Mas ha por ahi certos +cicerones, que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas da arte. +Peça a Deus que o livre d'esse flagello. + +--V. ex.^a assusta-me. Embora; se lhes cair nas mãos, farei por achar +curioso o que elles acharem. Vae ser esse o meu systema de cura. +Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o +regimen que me prescreveu o medico, quando me receitou o campo, a titulo +de emolliente; se o seguir, salvo-me. + +--E não o diga a rir. Se quizer prender-se á aldeia, abjurar os +attractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo; principiar por +cultivar o interesse por as questõesinhas da terra; deve, por exemplo, +declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia ou pela junta de +parochia contra o abbade; ralhar do regedor na questão com os +taberneiros ou defendel-o. Emquanto não chegar a isso, desconfie da sua +acclimação. + +--Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. Outra coisa necessaria +é deixar-me convencer ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito +das notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em perpetua +admiração deante de uns certos nomes famosos que ha sempre em todas as +terras pequenas, e que nos atiram á cabeça a cada momento. Por exemplo, +aqui já sei de um, com que encherei a bôca a proposito de tudo; é o de +uma celebre morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouço falar, desde +que puz os pés, ou por mim a alimaria que me trouxe, n'este productivo +torrão. + +Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto. + +--Então com que, tem ouvido falar muito n'essa morgadinha? + +--Oh! mas não faz ideia; de uma maneira desesperadora. Não ha pinhal, +quinta, azenha, choça ou lameiro que não pertença a essa entidade, para +mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, como um estribilho +de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na +loja do correio, em toda a parte o ouço pronunciar. Parece que voga nos +ares. + +--Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa. + +--Qual! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ella. E demais +parece-me que a estou a vêr. + +--Ora diga. Então como a imagina? Annica, não tens ahi um guardanapo? + +--Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dicto tudo; uma senhora +nutrida, a rever saude por todos os póros, encarnada como uma romã, +sobre quem os vestidos á moda assentam como pendurados de um cabide, as +mãos cheias de anneis, meias luvas de retroz, um chapéo com uma +cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça... V. ex.^a ri-se? +Acertei? + +--Parece-me que sim; mas julgue-o por si já que tem á vista o original. + +--Como?! + +--A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu. + +--Vossa Excellencia!... + +Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito +tempo sem saber como sair da situação em que se puzera. + +Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos riam, por contagio, sem +saberem de quê. Tudo augmentava pois a confusão de Henrique. + +--Ora confesse--insistia cruelmente Magdalena--confesse que o está +lisonjeando a exactidão das suas conjecturas. + +Henrique teve emfim uma lembrança. Tirou do bolso a carteira, em que, +horas antes, esboçára rapidamente a figura esbelta da morgadinha, +rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse: + +--Veja v. ex.^a se esse esboço, apesar da sua imperfeição, está de +accordo com a estupida concepção, que eu formára. + +Magdalena lançou a vista para a carteira e sorriu. + +--Ah! desenha? + +--Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. Os resultados são +lastimosos, como estes. Perdôe-me o original, que julguei possivel +copiar, o desacato, mas... + +Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante. + +--Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo advertil-o de uma coisa, sr. +Henrique de Souzellas. Não ha nada tão mal empregado como uma fineza no +campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez o achasse pouco +delicado... ou pelo menos pouco amavel, se me não dirigisse d'essas +phrases conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso lá. Aqui acho-as +affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da scena. Ha tanta +semceremonia no campo! Aqui todos nos tratamos como parentes: ha de vêr. +Não repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem nem sequer tirar +os babeiros a estas creanças? Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa... + +--Então v. ex.^a já lá esteve? + +--Eu nasci lá e lá me eduquei. + +--Ah! bem se vê. + +--Ah? Ahi está um _ah_, que eu desejaria muito que me explicasse. + +--Não me será difficil fazel-o. É que antes já de ouvir falar v. ex.^a, +só ao vêr certa distincção, certa elegancia de maneiras, conjecturei... + +--Basta. É um _ah_ portanto, que tem umas poucas de más qualidades. + +--Devéras? Uma interjeição tão innocente! + +--Pelo contrario, é a voz mais perfida e inconstante da nossa lingua; +tudo exprime, a hypocrita. O seu _ah_ é vaidoso, adulador e iniquo pelo +menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia que ainda se +abrigue no seu coração lisbonense; a adulação competia-me castigal-a, +mas perdôo-lh'a porque quero ainda suppôr que é um symptoma da doença +das cidades, a meu vêr, a principal doença, que o obrigou a procurar a +aldeia; da iniquidade, da injustiça, que faz á educação que se pode dar +na provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe +apresentar minha prima Christina, uma rapariga, que tem vivido aqui +sempre e que protesta contra essa sua opinião; possue tudo quanto pode +dar de bom a educação das cidades, e, o que mais vale, aquillo que lá é +tão facil perder-se depressa, uma candura adoravel. É a irmã mais velha +d'estas creanças--accrescentou, pousando a mão na cabeça dos pequenos, +que comiam e conversavam um com o outro. + +--Mas v. ex.^a... + +--Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no caminho das admoestações, +permitta-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei de por força +ter. Não me sôa bem o impertinente tratamento de excellencia, que me dá. +Essa excellencia está a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e, +confesso-lhe ingenuamente que me custaria a voltar na lingua uma palavra +tão comprida. + +--Como quer então que a trate? + +--Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco não me comparou á Carlota de +Goethe? Deixe-me pois adoptar uma lembrança d'ella. Está certo de que +tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? É um +tratamento como outro qualquer; e entre nós mais justificado, porque +sendo o sr. Henrique sobrinho direito de D. Dorothéa, e teimando minha +tia Victoria, a mãe d'estes pequenos e de Christina, que D. Dorothéa é +ainda uma especie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós a +final de contas vimos a ser uma especie de primos tambem. Pelo menos +assim o sustentou e decidiu hontem minha tia Victoria; e ha de vêr como +por primo o tratará! É um tratamento menos incómmodo; eu chamar-lhe-hei +primo Henrique; chamar-me-ha, se quizer, prima Magdalena, e +desterraremos para sempre a antipathica senhoria e excellencia; +concorda? + +--Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso, +admittido pela fidalguia em Portugal, de que «os primos dos nossos +primos, nossos primos são.» + +--Fica pois ajustado? + +--Fica ajustado. + +--Bem. Mas que ia dizer ha pouco? + +--Nem eu já sei... Ah!... Perguntava se tinha estado muito tempo em +Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui. + +--Isso é nem mais nem menos do que pedir-me a historia da minha vida. +Seja; é um sacrificio inevitavel a quem se vê pela primeira vez. +Deixe-me primeiro attender a estes pequenos, que eu principio. + +E, depois de partir a cada creança uma fatia de queijo, a morgadinha +principiou: + +--A historia é curta e sem peripecias, tranquillise-se. Eu sou filha de +Manuel Bernardo de Mesquita e... + +Este nome era o de um dos principaes vultos politicos da época, e que +então militava no campo opposicionista, sendo indigitado para ministro +na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade +politica, tendo sempre advogado no parlamento as ideias mais liberaes, e +militado no partido progressista. + +Henrique de Souzellas, que conhecia todas as personagens de importancia +no paiz, fitou Magdalena com olhar estupefacto: tão longe estava de +encontrar alli a filha de um futuro ministro. + +--Filha do conselheiro Manuel Bernardo! V. ex.^a? + +--Excellencia! Esquece-se da nossa convenção? Repare! É verdade. Não +sabia que meu pae era d'aqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda +actualmente n'um collegio em Lisboa, somos os unicos filhos de meu pae. +Nasci, como disse, em Lisboa, mas as continuas enfermidades de minha mãe +fizeram-nos vir para aqui viver na companhia d'ella; aqui mesmo morreu, +e aqui está sepultada. O Angelo nasceu já n'esta casa. A morte de minha +mãe deixou-me orphã aos doze annos, e incompleta a educação que ella +principiára a dar-me e para a qual, se vivesse, ella só bastaria. Fui +pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha +educação. Mas, ao chegar á idade dos quinze annos, receiando meu pae que +os ares da cidade desenvolvessem em mim germens de molestia, que +porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre +passava alguns mezes no anno, e para onde me chamavam tambem habitos +adquiridos em creança. Eu sou muito aldeã. Para aqui vim pois. A morte +de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia +Victoria, que ficou desde então um pouco... um pouco... com pouca +paciencia para olhar por as coisas domesticas. Isto creou-me novos +deveres; havia aqui muitas creanças, estas duas, outras que estão lá +dentro, e Christina, que era então creança tambem; occupei-me a ajudar +minha tia. + +--E tão admiravelmente, que a mais carinhosa mãe o não faria melhor. + +--Dou-me bem com as creanças, dou. E a meu pae devo, em parte, o ter +aprendido cedo esta sciencia. Porque é uma sciencia tambem. + +--Então como procedeu o conselheiro para a ensinar? + +--Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas umas ideias muito +singulares. Excellentes as acho eu. Oh! não imagina que boa e excellente +alma é a de meu pae! Era eu uma creança, tinha onze annos, talvez, +quando elle, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo comnosco, +me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberg. Nos +primeiros dias não me fartava de a vêr, de a beijar, até commigo a +deitava. Oito dias depois succedia o que era de esperar, já nem d'ella +sabia. Meu pae notou-o.--Então, Lena--aqui todos me chamam assim--já não +gostas da tua boneca?--Disse-lhe eu: Gosto, mas...--Bem sei, já fizeste +tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, pela sua parte ella nada faz +por ti, enfastias-te, canças-te de conceber, a cada momento, brinquedos +novos. Tens razão; onze annos já não é idade em que o interesse se +sustente com tão pouco, é necessario mais. Ora dize-me, Lena,--continuou +elle--se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braços e os olhos, +que te sorrisse, que chorasse tambem, que te beijasse até...--Pois ha +bonecas assim?--perguntei eu, admirada.--E desejaval-a?--Oh! se a +houvesse!...--Trago-t'a ámanhã. Não dormi aquella noite a pensar na +boneca. No dia seguinte apresentou-me meu pae uma creança de um anno, +orphã de uma pobre familia, que uma epidemia extinguira, e +disse-me:--Ahi tens a boneca que te prometti, Lena; vou confial-a aos +teus onze annos. Veremos se tens juizo para brincares com ella. É assim +que eu quero que aprendas os deveres de mãe, que é a verdadeira sciencia +apropriada a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o desgosto +dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer +áquella pobre creança, fui avara nas suas caricias, troquei por ella +todos os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a morte, quando, um +anno depois, ella me expirou nos braços. Quando fui para Lisboa, já ia +educada para amar creanças. + +Magdalena contára tudo isto naturalmente, sem a menor affectação, sem +deixar até de attender aos primos, o que augmentava o interesse com que +a escutava Henrique. + +--E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos Cannaviaes--concluiu +ella, desatando o babeiro das creanças, que tinham terminado o _lunch_. + +--É verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, prima +Magdalena?--perguntou Henrique, tomando ao collo uma das creanças, que a +morgadinha pousou no chão. + +--É que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha +madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui +perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa; +chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeição, e, +sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi começaram a +chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo +quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que +sou proprietaria ainda. Foi uma como confirmação do titulo, que já desde +creança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo na +verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo +Henrique da possuidora d'elle. + +--Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei a pessoa a quem elle +pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso... + +--Vamos, vamos. Confesse que o titulo não é dos mais romanticos e que, +de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de phantasia +que ahi fez, da mesma maneira que deu á humilde e fiel jumenta, que eu +montava ha pouco, a conformação e orelhas elegantes de um palafrem, e +quasi me transformou em uma amazona ingleza. + +Henrique respondeu, sorrindo: + +--Na impossibilidade de reproduzir as graças naturaes, soccorri-me ao +expediente das bellezas de convenção. Confesso o meu deploravel erro. + +--Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas +arvores e refreie o sestro galanteador, com que está. + +--Por quem é! Não leve o rigor a tal extremo. Tão injusta é comsigo, que +se recuse a acceitar, como naturaes e sinceras, as phrases que a sua +presença inspira? + +--Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa creança, que tem no collo, o +está encarando com os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim +aqui! + +Henrique beijou as faces da creança, movimento em que não ia uma +intenção menos lisonjeira do que nas phrases que dissera, porque elle +percebia que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos primos. + +Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra +creança mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma +folha de papel. + +--Lena--dizia ella em alta voz.--Olha; queres vêr o que o sr. Augusto só +me emendou hoje no thema francez? + +Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique. + +--É o sr. Henrique de Souzellas--disse Magdalena.--O hospede da tia +Dorothéa. Esta é Marianna, outra de minhas primas--accrescentou, +voltando-se para Henrique.--Já vê que não faltam creanças n'esta casa; e +ainda ha mais. É o que lhe dá o ar alegre que tem. + +Marianna cumprimentou Henrique e não se constrangeu por mais tempo; +mostrando á prima a composição que o mestre lhe emendára, disse: + +--Ora vê que não tive muitos erros. + +Magdalena sorria, examinando o thema. + +Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Marianna, quando á mesma +porta, por onde ella entrára, appareceu o mestre, de quem se falava. + +Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, era um rapaz de pouco +mais de vinte annos de idade; de rosto pallido e physionomia +intelligente. + +Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola de aldeia. + +Trajava com simplicidade, porém com asseio e gôsto, e havia em toda a +sua figura certo ar de distincção, que feria quem pela primeira vez o +visse. + +N'um leve pendor de cabeça, no olhar penetrante e fixo, e nos labios, +como habituados a fecharem-se á saida dos pensamentos intimos, lia-se o +caracter pouco expansivo d'aquelle adolescente. + +Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferencia. + +--Como vão os seus discipulos, sr. Augusto? + +--Optimamente, minha senhora--respondeu o interrogado. + +--O sr. Augusto--disse Magdalena, apresentando-o a Henrique--o primeiro +mestre de meu irmão Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo. + +--Esquece-se, minha senhora,--accrescentou Augusto--que de Angelo sou +discipulo tambem, e mais discipulo do que fui mestre. + +--Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não devia, foi de que de +Angelo é effectivamente mais do que mestre, é amigo; assim como de todos +nós. Este senhor--continuou ella, concluindo a apresentação--é o senhor +Henrique de Souzellas, que se esperava em Alvapenha; é ainda nosso +primo. + +Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza. + +--Teve carta de Angelo?--perguntou em seguida a morgadinha. + +--Não recebi ainda o correio de hoje. + +--Nem nós; e é de estranhar que meu pae pelo menos não me escrevesse! +Angelo não virá passar a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce +quando se vê aqui. É uma perfeita creança então. + +Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique ainda não vira, entrou +n'este momento na sala, trazendo um masso de cartas na mão. Depois de +cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, disse para +Augusto: + +--A mamã deu-me essas cartas para o sr. Augusto escolher d'ahi aquellas +que eu pudesse ler. + +--Eu verei devagar--disse Augusto, guardando-as n'uma pasta que trazia. + +--Ah! já temos o Eduardo a ler cartas!--disse a morgadinha, afagando o +primo. + +--Pelo que vejo--disse Henrique de Souzellas, vendo Augusto em +disposições de partir--tem uma vida muito occupada? + +--E tanto que sou obrigado a pedir licença para me retirar. Tenho de ir +esta tarde a casa do Seabra... + +--Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?--perguntou Magdalena. + +--Ainda, sim, minha senhora. + +--E como vão essas mulatinhas? + +Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto que não devia lisonjear a +vaidade do sobredicto brazileiro, se tomasse a peito os dotes +intellectuaes das referidas mulatinhas. + +Passados segundos, Augusto retirou-se, apertando a mão a Magdalena que +familiarmente lh'a estendeu, e a Henrique, que a imitou. + +--Ia apostar que vae alli uma intelligencia--disse Henrique ao vêl-o +sair--algum d'esses grandes espiritos, que vivem e morrem ignorados e +improductivos, porque os não aquece o sol do favor publico, nem os +bafeja a aura da moda caprichosa. É terra de maravilhas esta, ao que +estou vendo. + +--É um rapaz intelligente, é--disse a morgadinha--e uma alma generosa. +Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. Não tem familia. O pae foi um +pobre e honrado advogado de um logar perto d'aqui, que morreu quasi na +miseria, deixando-o por educar. A mãe, que era d'estes sitios, para ahi +veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, mestre de si +mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Angelo e hoje é o seu melhor +amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimonio para elle se +ordenar: não quiz, e preferiu ser mestre-escola. Meu pae, que lhe +reconhecia intelligencia para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada +conseguiu. Não ha quem o arranque d'estes sitios. + +--Prende-o talvez alguma paixão? + +--Não sei. É certo que é um professor modelo. O seu primeiro despacho +foi temporario; agora, porém, espera meu pae fazel-o effectivo; para o +que já elle fez novo concurso. Já vê que ambições são as d'este rapaz. + +--Na verdade! com muito menos fundamentos ha quem aspire a ser ministro. +Mas com certeza o coração entra como elemento no problema d'esse +caracter. + +--Mas ainda agora reparo!--exclamou a morgadinha--eu esquecida a +conversar, e sem avisar a minha tia e Christina da sua chegada! Não o +fiz logo, porque as sabia occupadas em umas longas novenas, em que +andam; mas agora é tempo. Vae, Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos +dizer-lhes que está aqui o... o primo Henrique de Souzellas. + +Marianna e o irmão sairam a correr. + +--Vae conhecer duas boas almas--disse Magdalena, voltando-se para +Henrique--minha tia é uma santa senhora, cujo peor defeito é suppôr-se +victima dos criados; e Christina... Christina é um anjo. + + + + +V + + +Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia, +que logo á primeira vista, aquella mulher lhe despertára. + +Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada +reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a +que tão espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e +etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles, +como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás +suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica +indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella. + +A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel, +absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o +menor constrangimento, proseguia nas suas occupações domesticas. + +Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala +immediata. + +--Ellas ahi veem--disse a morgadinha. + +De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D. +Victoria e Christina. + +A mãe vinha dizendo: + +--É o que eu digo... Não que vocês não querem crer! Ora vejam se isto se +atura... se isto não é para metter uma pessoa no inferno!... Não tem que +vêr!... Não ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja +tão mal servida como eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados +d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o que elles fazem, esse +bando de mandriões!... Elle é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o +Damião, elle é a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante... e não +havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo! É forte +coisa!... Compromettem uma pessoa! Então como está?--accrescentou ella, +mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mão. + +Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este um olhar malicioso. + +Henrique correspondeu delicadamente á saudação das senhoras e procurou +justificar os criados. + +--Não m'os desculpe,--atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de +voz--aquillo é de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem +me tira isto da cabeça... Aquillo é de proposito! + +--Mas a mamã não vê que as criadas estavam comnosco á novena?--lembrou +timidamente Christina. + +--Pois que não estivessem. Quem tem serviço a fazer não pode ouvir +novenas. + +--Mas se a mamã é que as mandou! + +--Pois sim... pois sim... mas... mas ellas é que me deviam dizer que +tinham que fazer. Então eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas +obrigações? Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas então +vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada? + +Henrique principiou a falar para desvanecer a irritação de D. Victoria. + +Como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a +occasião para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que +estão em scena. + +D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel dos quarenta e +tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descripção. +Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo, +e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez. +Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito +sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava +forçar o espirito a abraçar alguma ideia mais complexa; mãos rotas com a +pobreza; intolerante, em theoria, com os ladrões e malfeitores, porém +felizes d'elles se d'aquellas mãos lhes dependesse a condemnação; eis o +que era D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; e esta +idade gosa de privilegios, que eu não posso infringir. O leitor não me +perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de +Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua juventude e ao seu typo +feminino. Reparemos pois. + +Christina era mais bonita do que bella. Não havia n'aquelle rosto uma só +feição, que não fôsse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos +meigos e quebrando-se com suavidade infantil; bôca, d'onde parecia +sempre prestes a sair um afago ou uma consolação; voz, que da muita +piedade d'aquelle bom coração, tirava ás vezes modulações commoventes; +n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais +inspirados artistas, cuja mão representou na téla os augustos mysterios +do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas não +procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e +como por magnifico influxo, a attenção dos olhos, uma d'essas +particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com +arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais +fascinador; temperavam-se alli tão completamente todas as feições, que a +attenção não se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que +lhes diminuia muito a intensidade. É o grande senão dos rostos +harmonicamente perfeitos. + +Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria +sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, não se sentia dominado +por a sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram +suaves de mais as inflexões d'aquelles contornos, brandas as tintas que +lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente +o typo angelico, de que lhe ficára uma agradavel, mas vaga impressão. + +Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser +adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis, +difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura. + +Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe +primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se +continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal, +reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras +e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de +linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas +mulheres assim, é uma belleza subjectiva. + +De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia +sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava +timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão, +mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por +muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da +morgadinha--que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava +contraste completo com sua prima. + +Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e +principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena. + +D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a +fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á +tia. + +Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas, +impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora +classificára como mania. + +Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir. + +Henrique tornou para ella os olhos. + +--Ó menina, de que ris tu?--perguntou D. Victoria, com certo tom de +severidade. + +--Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo? +Ora diga? + +--Eu?... mas... + +--Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha +d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu +mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo... + +--Então não crê na realidade d'ellas. + +--Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao +suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a +natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos +naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses +doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações. +É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e +mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o +pode olhar a sério. + +--Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim. + +--Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não. + +--Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima +Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas... + +--Ah! tambem?--Com esse aspecto de robustez?!... + +--Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!--disse D. Victoria, que não +tinha percebido bem o dialogo. + +--É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os +maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode +curar-se. + +--Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio. + +--Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco... + +--Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso +renuncio á cura. + +--Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo... + +--Acabe. + +--Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais. + +--Eu adoro as sinceridades. + +--Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo... +desaffectado. + +Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando. + +--Então acha?... + +--Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de +galanteria, desnecessarios e perdidos. + +--Ó meninos, eu não vos entendo--repetia D. Victoria. + +Magdalena sorriu. + +--Digo eu que... + +Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar. + +--Sempre chegou o correio!--exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo +as cartas.--Por que veio tão tarde? + +--A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e... + +--Coitada! Aconteceu-lhe algum mal? + +--Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a +a correr. + +Magdalena abriu com pressa a carta recebida. + +--É de meu pae--disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir +licença, começou a ler para si. + +--Pois agora--dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique--o que +deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As +pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, +Christina? + +--Eu! disse Christina, córando. + +--Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?... + +--Á Senhora da Saude, mamã. + +--Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê? +Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o +ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante... + +--A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a +pé--notou Christina do lado. + +--Isso é por os açudes. + +--Pois por onde haviamos de ir? + +--Por a Granja, que é melhor. + +--Por a Granja! É uma legua! + +--Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que +é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os +cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem. + +--Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr. +Henrique...--disse Christina, embaraçada ao continuar. + +--Eu o quê, minha senhora? + +--Perdão--interrompeu D. Victoria.--Por que não has de tu chamar primo +ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa? + +--Por isso mesmo, mamã,--respondeu Christina--os sobrinhos da tia +Dorothéa não são... + +--Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,--acudiu Henrique--eu +acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus +primos. + +Christina baixou os olhos, sorrindo. + +Henrique proseguiu: + +--Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da +Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar. + +--Não tem que saber--disse D. Victoria, caminhando para uma +janella.--Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar. + +--Tendo duas tão galantes companheiras de viagem--tornou Henrique, +depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia +d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou--parece-me que daria a pé +uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife. + +--O que eu lhe digo, primo--accrescentou D. Victoria--é que se acautele, +porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr. + +--Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus +a morte. + +--Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento--disse Magdalena, que +continuava a ler.--Logo ajustaremos contas. + +--É implacavel esta nossa prima, não acha?--perguntou Henrique, +sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem. + +--Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha +que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para +mim, e depois estes criados... + +Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto +de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, +terminando a leitura da carta: + +--Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e +trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis. + +As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem +inveja a um clown de circo. + +D. Victoria zangou-se. + +--Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora +vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado +para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a +sua obrigação! + +As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas +ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o +seguinte: + +--Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé! + +--Pschiu! Calae-vos!--bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para +Magdalena:--Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que +vem... + +--Nas vesperas do Natal. + +--Sim, nas vesperas do Natal, e vae... + +--Depois dos Reis. + +--Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?... + +--O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta? + +--Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então... + +--Não ha nada menos confuso... É só isto. + +--Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó +meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha +mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles... + +--Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, +porque... + +--Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre +promptos para desculpal-os. São elles... + +--Ó Lena, Lena--diziam as creanças--o primo Angelo não torna para +Lisboa? + +--Ha de tornar. + +--Ora! + +--Olha lá, ó Lena--disse D. Victoria--sabes tu o que me lembra?... Mas +eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma +vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo +Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar +com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para +consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se... + +Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas +demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á +cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo: + +--Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de +ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos +de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande. + +D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço, +como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe +o riso dos labios. + +--Saiam d'aqui!--exclamava ella, quando conseguiu estar +séria.--Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem +caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então, +Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui, +estafermos! + +A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára +impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de +jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar +suave um fulgor pouco costumado. + +A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade. + +Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe +affectuosamente: + +--Ora ahi está o que é muito bem pensado. + +--Pois sim, sim, mas o peor é... os criados--disse D. Victoria. + +--Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. +Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da +tia Dorothéa. + +--Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella +sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se +importam os de cá com a Maria. + +--Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem, +melhor--aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario. + +--Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já +não estou. Então, não. + +--Está resolvido--disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da +tia.--Aqui o sr. de Souzellas--accrescentou, com maliciosa +inflexão--fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o +nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado. + +--Acceito da melhor vontade. + +--Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella +noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um +minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá.... + +--Ó menina, tens coisas!--disse D. Victoria.--Deixe-a falar, primo. + +--Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem. + +--E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os +pratos em que puzer a mão. Que mais querem? + +Foi alegremente acolhida a promessa. + +As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado +um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção, +trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, +difficultando-lhe as respostas. + +--Havemos de jogar o rapa, não havemos? + +--Havemos de jogar, havemos--respondeu Henrique. + +--E o par ou pernão? + +--Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão. + +--E?... + +--Tudo, tudo; havemos de jogar tudo. + +--Olhe: e sabe contar historias? + +--Sei tambem contar historias. + +--Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata +borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na +testa. + +--Ora, o sr. Henrique já as sabe--disse, fazendo-se sisuda, Marianna. + +--Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de +querer ouvir isso tudo. + +--Ó meninos!--exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a +discutir com Magdalena.--Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá +confiança, está arranjado, primo. + +--Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar; +pegam-se. + +--E não o diga a brincar--disse Magdalena--que tambem confio n'essas +creanças para o curarem dos seus males. + +--Então devéras emprehendeu curar-me? + +--Com toda a certeza. + +--N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia. + +--Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o +interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido +com fé, e cega. + +Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por +lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe. + +--Lena--disse ella--que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã? + +--A das consoadas? Excellente. + +--Não, menina, a do passeio á ermida. + +--Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia. + +--Quando queres? + +--Depois de ámanhã, que é quinta feira. + +--Seja. + +--Que diz, primo Henrique? + +--Quando quizerem, primas; agora mesmo... + +--Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada? + +--Pois não viu hoje? + +--Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que +se levante ás horas, a que se deitava na cidade. + +--Que estás a dizer, Lena?--acudiu Christina.--Deixa-a falar. Basta que +saiamos d'aqui ás cinco horas. + +--Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao +primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa. + +--Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou +valetudinario. + +--Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui +muita indolencia. + +--Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora +havemos de vêr--disse Christina. + +Magdalena poz-se a rir. + +E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse +Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos +pontos de vista. + +Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa +hora ao que promettera á tia Dorothéa. + +Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha. + +Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro, +do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem +que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse +n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos +entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que +fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda. + +Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não +passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco +artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam +a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o +espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos +costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem +reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a +ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe +trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via +manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira +de D. Victoria. + +Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes +quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes +mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da +mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a +immortalidade. + +De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura +de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no +eden, onde a mão de Deus o collocára. + +--Anda, vagaroso, anda--disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu +chegar.--Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua. + +--Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro... + +--Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente? + +--É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A +morgadinha, sobretudo, é adoravel! + +--Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina +boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu. + +Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa +malicia. + +--Que quer dizer, tia? + +--Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se +quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não +tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal. + +Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais +preoccupado e distrahido no resto da tarde. + + + + +VI + + +O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer +amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam +juntos n'uma terra para ambos desconhecida, tão alheios ás coisas como +ás pessoas, no meio das quaes se vêem, nem por momentos se soffrem +separados; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa +d'elle para communicar-lhe as primeiras impressões recebidas, e +pedir-lhe em troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, se vão +familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo +novo, afrouxa a constricção d'esses laços, e cada um principia a +readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia +abdicado. + +Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrámol-o +na estrada; na companhia d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos era +estranho; nada mais natural do que dar o braço um ao outro, passar +juntos a manhã, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porém, que +temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos +declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forçada, +a qual, embora seja de um amigo estimavel, se é forçada, é sempre jugo, +em certas occasiões. + +Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de +ter momentos em que se desejassem sós; se é que não deviam aos deuses a +felicidade de possuirem curtos espiritos, o que não creio. + +Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorothéa a +mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digestão de um jantar; +deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um +dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Marianna e +de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do +Mosteiro. + +Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos e á beira de vallados, +com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar. + +O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, é +já bastante para que nos não admire a quasi incessante melancolia de +Augusto. + +Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo, á custa +de sacrificios, cultival-a, e eleval-a á altura das suas aspirações! +Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os +infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!.. +não serão estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma +existencia, embora a juventude as illumine? + +Havia alguns annos que esta disposição para a tristeza se exacerbára em +Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convém +referir. + +A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o +nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao +morrer instituido um legado a favor de Augusto, então creança, com a +condição d'elle abraçar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de +Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas +de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até o da primeira +missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro. + +Isto succedeu no tempo em que a mãe de Augusto, que havia dois annos +viuvára, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo +enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da +localidade. + +Foi por todos abençoada a memoria da morgada, por tão bem cabido legado, +que era ao mesmo tempo que remedio ás privações de uma familia, premio e +estimulo á intelligencia e á applicação de uma creança, que promettia +vir a ser... Deus sabe o quê. + +Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela +legataria como condição á concessão do beneficio, não podia ser uma +crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem +querer saber a quantidade de aspirações, de esperanças, de phantasias +que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, não é uma +iniquidade; se não era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo +luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, propôr-lhe trocar por +estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por +mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo, +egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta; +essas meigas generosidades são ás vezes a causa do infortunio de uma +vida inteira; acceites ou recusadas, é raro que depois, a cada provação +que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que +abraçamos.--«Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de +phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos +de poetas o beneficio que te offereciam?»--dirá ella aos que rejeitaram +o pacto.--«Ambicioso!--clamará aos outros--ahi tens a felicidade que +julgaste comprar á custa do que ha de mais nobre na alma humana; +embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de +ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspirações.» +Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição +testamentaria. Era muito creança ainda; e depois uma ideia nobre o +preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre mãe, que só +podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo, +apenas conseguira deixar uma herança; foi á viuva o dever de velar pelo +filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando +elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a +vida. + +Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a +intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem +rudes eram os cuidados de cultura que o velho _magister_ lhe sabia dar. +Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do +estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas +duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso, +elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso. + +E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de +uma nobre missão a cumprir. Não ha fadigas que tal estimulo não vença; +abnegação, que não inspire. + +A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua mãe precisava d'elle. + +Quando ainda aos seus treze annos fôsse já bem conhecida a grandeza dos +sacrificios que lhe exigiam, não hesitaria talvez, instigado por aquella +aspiração; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as +doces imagens, tão gratas ao coração do adolescente, e a que teria de +renunciar. + +Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, graças aos esforços +empregados, não se fez esperar muito. + +Quando se approximava a occasião, o pae de Magdalena mandou vir Augusto +para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia. + +Não confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro +quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas lições de um professor +da cidade, e d'este obteve as melhores informações da intelligencia do +rapaz, que só por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos +vicios do ensino de campo. + +Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o +exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas +qualificações. + +Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se, +dizia-se por lá que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até +quem não hesitasse em affirmar que a creança confundira os mestres, que +fôra uma maravilha. + +O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se +em que, através do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre. + +Os invejosos disputavam-lhe porém tão inquestionavel gloria e riam-se +d'elle. + +A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graças +á Virgem, a quem tanto encommendára o filho. + +Voltou Augusto á terra. + +Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um +prodigio. Todos o queriam vêr, como se até alli o não tivessem visto +bem, e de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o administrador, +nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o +viram, não houve um só que não notasse que o pequeno vinha triste. + +Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as +interpretações é que variavam. + +--Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem não está costumado... dizia um. + +--São canceiras de estudos--aventava outro.--Ha lá coisa que puxe mais +por uma pessoa do que o estudo! + +--Não que vocês cuidam! Um exame sempre abala a gente cá por +dentro--dizia um doutor, que levára dez annos a vencer um curso de +cinco. + +Fôsse pelo que fôsse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os +ares da sua terra não dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam +no futuro e no legado da morgada. + +Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era +de suppôr, a receiosa mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos +e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, arguições, +lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder +que nada tinha que o affligisse, que era a illusão de quem o via a +tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era +mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse. + +Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, á +custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar +nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia. +Não se pôde atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia não era; +pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o +illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas. + +A saude vacillante da mãe de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio +dar outro motivo á demora do filho. + +Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo +os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. +Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto +abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um +cadaver. + +Era orphão. + +A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto, +condensou-se-lhe mais então. Era quasi um negrume de tristeza. + +Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois +receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa. + +O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a +Lisboa. Uma manhã, porém, este, de pouco mais de quinze annos, +procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção +meditada e irrevogavel: + +--Venho prevenir v. ex.^a de que desisto do legado da sr.^a morgada. Não +quero ordenar-me. + +O conselheiro fitou-o, estupefacto. + +--Não queres ordenar-te! Por quê?... + +--Já não tenho mãe a quem amparar. Por ella forçaria a minha vocação sem +remorsos; por interesse proprio não o posso fazer; parece-me um +sacrilegio. + +O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a +frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as +boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e +sabe-se que a candura de sentimentos não entra no numero das mais +habituaes d'essas qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se +abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas sómente +depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se +baseava; assim era que, em politica, se costumára a contemporisar, +espaçando a adopção de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para +tempos em que fôsse mais conveniente; não se apaixonava por utopias, +desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desviára dos olhos o prisma +encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais +sonhadores; costumára-se a marcar por modelo nas differentes carreiras +da vida, não um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos +os defeitos e vicios; assentára a menor altura o alvo: parecia-lhe que +bom fito eram já os individuos que tinham conseguido maior consideração +na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto, +maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance; +agradavel para entreter, porém mau nas applicações ás coisas da vida. +N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera +mundana; não um d'aquelles typos de pureza crystallina, através da qual +parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas já um tanto +embaciado do bafo social, que não o fazia ainda totalmente opaco. + +Por isso sorriu á declaração de Augusto. A carreira ecclesiastica não +lhe parecia tão escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem tão dura +a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro não pensava necessario +tomar ao pé da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle, +tolerante em naturaes infracções; por tudo isso se riu. Fez a Augusto +uma longa dissertação sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os +muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria +renunciar a uma carreira segura movido pelas instigações de um espirito +timorato ou de uma visão phantastica. + +Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso sceptico do conselheiro, +declarou que não abraçaria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com +a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha; +que era precisa uma grande abnegação, e que elle, depois da morte de sua +mãe, não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses não pensava, e +se pensasse, seria isso a primeira prova de não estar preparado para a +missão de que se queria encarregar. + +Quando alguem abraça com lealdade e franqueza uma boa causa, +difficilmente é vencido. O conselheiro, costumado a não recuar nas mais +acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás objecções +d'aquella creança. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as +illusões a que o via abraçado,--illusões pelo menos as suppunha elle; +parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em +que vivia.--Respeitou-o e calou-se. + +--Alguma creancice amorosa dos quinze annos--pensou para si. Deixemos ao +tempo convencel-o. Não me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco +sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcançado menos +no mundo, mas talvez tivesse gosado mais... ou melhor... + +O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflexão +modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz. + +Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as tenções, em que estava de não +se ordenar, pelo menos emquanto não passasse mais tempo sobre aquella +resolução. + +E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se +encarregasse da primeira educação de Angelo, então de nove annos; pois +mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official. + +Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus +gôstos, lhe abria uma carreira, que elle já imaginára adoptar. + +De então nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos +os progressos do discipulo, e não menos reaes as vantagens que ao mestre +resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a +intelligencia.--O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da +escolha. + +Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram +as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro não o deixou ser muito +ardente a combatel-as.--Espaçou-se mais uma vez a decisão. + +Outras lições appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com gôsto; o +mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido +da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou. + +O velho acabou por declinar n'elle o serviço todo, sem que Augusto +consentisse em receber por isso o menor estipendio. + +O publico não se cançava de perguntar quando seria que o rapaz +principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o não fazia já. Como +não obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos +os que não entende. + +No entretanto a educação de Augusto não ficára estacionaria. Com grandes +sacrificios a continuára elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia, +tinha muito de milagre o que fazia. + +O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás impaciencias do espirito +d'este discipulo enthusiasta; e não era raro que a intelligencia de +Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre. + +O acaso favoreceu os desejos do estudante. + +N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia, +homem de solido saber e de reputação extensa. + +Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prégar na +festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia +e, conversando-o, admirou-lhe a penetração, captivou-se da sua modestia +e lamentou não estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como +pudésse, nos estudos. + +Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o +padre que sim, respondeu que não seria então estorvo a distancia, porque +elle a venceria. + +E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás quintas feiras e domingos, +franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as +lições do erudito abbade. Assim se aperfeiçoou na latinidade, cultivou a +philosophia e adquiriu o gôsto pelos nossos velhos prosadores e poetas. +Vinha de lá carregado de livros para ler durante a semana. Toda a +bibliotheca do padre lhe passou pelas mãos. + +Era porém o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e +litteraturas modernas. + +A sorte não recusou ainda a Augusto um novo mestre. + +Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal +fazem preceder, vinte annos antes, a construcção definitiva de uma só, +que de ordinario sae sempre como se não fôsse tão estudada, um houve que +levou á aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi +fez quartel e centro de operações, durante tres mezes inteiros. + +A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cêdo travaram +conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de +mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e +bahús uma excellente provisão. + +Não tendo que fazer ás noites, entreteve-se a ensinar o francez a +Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as +horas a Augusto n'aquelles serões; n'elles aprendeu todos os nomes da +nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de França e de +Inglaterra. + +Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francez bastante +para se aperfeiçoar por si; este amigo deixou-lhe em lembrança grande +parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes. + +Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O +conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para +que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em vão, +encontrou-o ainda inabalavel. + +E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio +foi concedido a outro. + +Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia. + +Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle +logar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se +interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da +ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o +não ter ambições era indicio de uma profunda doença moral; que a posição +a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se +acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro +empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo +qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da +idade que ainda não tinha, pois mal completára dezenove annos, e Augusto +foi por conseguinte admittido a concurso para tão pouco disputado logar +e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem não fôra +impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de +tres annos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal recompensada +carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o +legado da morgada tivesse tido já outra applicação, o conselheiro não +hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho. + +Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer já +os espinhos da profissão, apresentou-se novamente ao concurso para obter +novo despacho. Na época em que abrimos esta narração, voltára Augusto de +pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decisão do +ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito +protegido por influencias da localidade, as quaes ainda não tinham +podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto. + +Desde que fôra para Lisboa, Angelo não se esquecera de escrever +amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e +descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a férias, +procurava transmittir ao que fôra seu mestre a sciencia que durante o +anno adquiríra. + +Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a +geographia e a historia. + +Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applicação faziam o +resto. + +Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo teremos de travar +conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um +louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu +contingente, para a educação de Augusto. + +De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle +com um pacote de livros debaixo do braço e, sorrindo, pousava-lh'os em +cima da mesa. + +Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos +de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto. +Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros, +alguns dos quaes eram de preço? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe +a surpreza: + +--Não queiras saber da minha vida, rapaz. Suppõe que eu tenho a +servir-me uma vara de condão ou uma fada qualquer, e deixa correr. + +Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado +riquezas, á fôrça de economias: porque de economias vivera sempre. + +De pequeno merecera áquelle velho uma singular sympathia, e com affecto +de pae fôra sempre tratado por elle. + +Resignou-se a acceitar sem reflexões; até porque sabia ser facil o +escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presença +d'elle, qualquer palavra que pudésse denunciar desejos de possuir um +livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder +occulto a informal-o, ás vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros +que Augusto devéras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza +de lhe não ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia. + +A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a crença supersticiosa do +povo a respeito d'aquelle seu velho amigo. + +Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informações, pelas +quaes o velho se guiava na escolha. Não lhe attribuia porém o presente, +porque as economias de Angelo não chegavam para tanto. + +Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor +estranhar os ares pensativos com que o vemos? + +Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a +distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle. +Era de Angelo. + +Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho. + +Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses +longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de +uma carta de amigo para amigo. + +Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanças e de +projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o +instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda á +aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo: + +«Peço-lhe que diga á Lindita que se não esqueça de mim. Dentro de poucos +dias conto ir vêr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a +agua do poço. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva +um livro para si.» + +Augusto sorriu, ao ler o _post-scriptum_. + +--Pobre Angelo!--murmurou elle,--Deus não permitta que sobreviva á tua +ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affeições +de creança muitas vezes, ao crescer, envenenam o coração. + +Havia tanta amargura n'estas reflexões de Augusto! + +E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que +era o pae da pequena, a quem na carta se alludia. + + + + +VII + + +A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das mais estreitas ruas da +aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das +diversões do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da +sua occupada e laboriosa vida. + +Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do +tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o +ámanhã já a mais de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a +multidão nas ruas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da +sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida +á custa de muitos annos de fadigas. + +As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que +conjunctamente vieram, não destruiram totalmente esse typo dos antigos +tempos, anterior a ellas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes +limite á existencia, passaram, sustentados pela fôrça dos habitos e +justificados pelas irregularidades do serviço das postas; e Deus sabe +quando de vez acabarão. Mas Cancella era além d'isso um recoveiro de uma +especie rara e superior. Em todas as profissões ha sempre, no meio do +vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gôsos, +superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de +escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia através das +sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d'estes; era o poeta +da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um _touriste_, e +assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar +algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido. + +Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do +conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza +relativa das recovagens operadas por este meio primitivo, +proporcionavam-lhe algumas occasiões d'isso, as quaes o Cancella de +boamente aproveitava. Era de uma d'essas expedições que elle devia +voltar aquella manhã, como o dava a entender a carta de Angelo. + +Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a ainda fechada; escutou á +fechadura, mas não pôde verificar o menor signal de que alguem estivesse +dentro. + +--É cêdo ainda--pensou comsigo.--Vejamos se estará em casa do compadre. + +Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.--A poucos passos mais, +e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos +rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma só porta e +uma só janella, e com o respectivo quintal ao fundo. + +Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada; +julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, além de +vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava +apenas cerrada e entrou. + +A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado +á volta de cruzes de pau, para as devoções da via sacra, e de imagens de +santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros +enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria, +havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual +occupava o logar de honra n'aquella devota exposição. + +Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta confraria, sociedade um +tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só +visavam a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se _apenas_, em +paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem +saudades já. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a +palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os +martyres no céo, lá andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a +acção d'esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor; +as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto +catholico era por elles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e +ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o +progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros +discursos. + +Ardente proselyta d'estes apostolos de fé duvidosa, a sr.^a Catharina do +Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão, +tomára por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as +desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita. + +Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando a alcova conjugal, que +era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e +folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d'onde +lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o +attrahira. + +Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha, +comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem. + +Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, ou vulgarmente +chamado ti' Zé P'reira--nome que lhe vinha do popular e ruidoso +instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje +aquelle nome.--Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso +homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e +cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas. + +O ti' Zé P'reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no +rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias +pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.^a +Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perenne sabatina +com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando +sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de +hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria +na retesada pelle do seu companheiro inseparavel--o zabumba. Era aos +cuidados e vigilancia d'este par conjugal que o recoveiro Cancella +confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa +creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem +elle mais queria do que á menina dos olhos. + +Ermelinda era afilhada da familia Zé P'reira, e a mesma a quem ouvimos +referir-se Angelo no fim da carta. + +Zé P'reira estava, como dissémos, só na cozinha, quando Augusto alli +chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo +para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e +vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e +rouca da sua escala de barytono, até o mais agudo e desafinado falsete. +A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, difficultando-lhe suspeitosamente +a articulação de algumas syllabas; era evidente que se apossára do +hortelão o espirito familiar, o qual n'este caso, era um verdadeiro +espirito, na accepção chimica do termo. + +Ze P'reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente nutrido, de +olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto +artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas que pareciam tentar +sumir-se-lhe pela bôca dentro; tinha longos braços, accommodados ás +difficuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para +baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus. + +Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando: + +--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... É forte desgraça!... +Aqui estou eu!... Um homem casado... casado á face da igreja... que me +casou em dia de S. Thiago o abbade que foi... e que Deus tenha em +descanço. Não faltou nada... correram-se banhos deante de quem os quiz +ouvir, e não houve quem puzesse impedimento... porque eu não devia nada +a ninguem... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catharina do +Nascimento de S. João Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos +Fójos... E casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?... +Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e +achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar +missas e novenas lá por essas igrejas... Ora, senhores, que é forte +desgraça a minha! É forte desgraça!... Bem morria eu de frio e de +fraqueza, se não fôsse aquelle quartilhito... o ultimo, que sempre me +deu sua aquella... sim... sempre me conchegou o estomago. Não que dizem +que o vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois casem-se com uma +mulher que vá de madrugada para a igreja e venha de lá quando muito bem +lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira +que se soffre... verão depois... Ora, senhores, que é forte desgraça a +minha!... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa +carne e o osso do nosso osso... Deus devia de vez em quando tornar a +dizer estas coisas... para não esquecerem... como se faz na escola com a +taboada. A minha Cath'rina já o não sabe, aposto... e pelos modos os +padres não lhe dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A carne da +minha carne e o osso do meu osso!... mas é carne e osso que me não fazem +caldo... Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!... Como ha de um +homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou +fazer qualquer sachada?... E tambem quero vêr como hei de no arraial e +procissão de Santo Amaro, que não tarda ahi, dar sequer um rufo assim +mais tal... assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo... + +A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida pela apparição +de nova personagem á porta do quintal. + +--Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de +paciencia. É um instante emquanto accendo o lume e lhe faço o caldo. +Verá. + +A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de +doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creança da cidade, com +os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doçura, e com os +mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil. +Não havia n'elles sombra, que desvanecesse aquella côr deslumbrante; +reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em +tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de +artificio, de um e de outro lado do collo. + +Condizia com a expressão angelica do semblante o suave e affectuoso +timbre de voz com que falára. + +O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha do Cancella, ou +Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creança que tem na +sua presença. + +Ermelinda sobraçava um mólho de hortaliça, que fôra colher ao quintal, e +dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal +deixavam ainda apagado áquella hora do dia. + +Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe. + +--Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem +reparar. + +A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça e fitou em Augusto +um dos seus desemparelhados olhos. + +--Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa é sua... De +jantar não lhe offereço... porque... porque... Forte desgraça a minha... +Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de +trabalho... e vejo o lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, a +confessar-se, a commungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os +está a tomar todos... Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de +consciencia, como eu estou do estomago... Ora, senhores... + +--Deixe estar, padrinho... Verá como isto se arranja depressa... Olhe; o +lume já está accêso--dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume +no lar. + +--Já o devias ter feito antes, Lindita,--disse Augusto, sentando-se +junto d'ella. + +--Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui lavar a roupa? + +--Pobre pequena--disse o Zé P'reira--tambem não te ha de faltar lazeira, +tambem! + +--A mim? Agora. Não que eu não saí de casa com as algibeiras vazias. + +--Pois sim... mas é sempre preciso coisa que conforte... Inda se tu +bebesses... já não digo um quartilho... + +--Credo, meu padrinho! Que está a dizer? + +--Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida +amaldiçoada, que todos lhe teem mêdo! É vêr se o padre na missa... + +--Padrinho! padrinho! que vae dizer?--interrompeu Ermelinda, quasi +aterrada. + +--Eu digo o que é verdade, rapariga!... Tenho minha presumpção de nunca +dizer senão a verdade... Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e +mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento, +por causa d'aquellas pancadas no recebedor... É que nenhum d'esses +santalhões, d'esses missionarios me teem que ensinar n'esse ponto... Os +missionarios!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao +trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se +Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não +tenham que comer, quando voltarem do trabalho... Um dia inda lhes vou +perguntar... isso vou... + +--Olhe; a agua não tarda a ferver; verá que dentro em +pouco...--continuou Ermelinda. + +--Bem, Lindita, bem--disse Augusto--em paga da boa vontade, com que +trabalhas, vou dar-te uma alegre nova. + +--A mim? Diga. + +--Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dará em vez de +visitas, um abraço. + +--De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe? + +--Como adivinhaste depressa! + +--Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que... em poucos dias... +Então? + +--Tel-o-hemos cá pelo Natal. + +--Fala verdade? + +--Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler? + +--Para quê?--respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos +cheios de curiosidade. + +--Ora lê, lê... Até para vêr se ainda te recordas das lições, que eu te +dei. + +--Ai, lá isso... mas, o caldo do meu padrinho... + +--Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não a tua presença. + +Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a +lêl-a com intensa curiosidade. + +Zé P'reira proseguiu no seu monologo: + +--A religião, senhores--dissertava elle--não manda tal... Isso é que não +manda... A religião é a palavra de Deus... e Deus disse... sim... Deus +disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixarás pae e +mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores; que tem lá isso? +mas não é mais mãe do que a outra mãe... e então... senhores, uma mulher +não deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o +tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, senhores, que é forte +desgraça. + +O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram +interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua. + + + O dinheiro paga tudo, + Não se fica a dever nada; + Toma, toma o limão verde, + Ó da fresca limonada. + + +E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns +passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a +figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda. +Cancella, ou o João Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter +creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do +sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela natureza dotado de uma +estatura e robustez, dignas de Adamastor. + +Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas realisações dos +temperamentos sanguineos que, sem ameaçarem de insultos apopleticos, dão +riqueza ao sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto e +colorido da saude e os reflexos da satisfação interior. + +A barba negra e espessa cercava-lhe as faces córadas, e o natural fulgor +dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas, +que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaçadoras, d'onde +fuzilavam relampagos. Era formidavel então! + +O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na presença de amigos, +descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes, +d'esses que os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram. + +Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes lhe chamaremos assim, +cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que +mais que tudo trazia na memoria--a filha.--Esta, pela sua parte, mal o +reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços. + +O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna, levantou-a á altura dos +labios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda +palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal. + +--Ah!--exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de +satisfazer uma intensa necessidade do coração.--Isto consola que nem o +copo de agua que a gente, em dias de calma, pede á borda da estrada, +quando se leva a bôca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me +sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?... Ó sr. +Augusto! tambem por cá? + +--Esperava-o, Cancella. + +--A mim?--continuou o homem, pousando no chão uma mala que trazia.--Pois +aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa no que +lhe irá por casa, sente ás vezes uns sustos, que parece que lhe fazem +tudo escuro... As desgraças, para succederem, não põem muito... De um +momento para outro... E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas +que parece que são agouros... e que nos fazem a noite no coração... Umas +vezes é um enterro... outras, um desastre... um fogo... um... E as +creanças sós, e os paes fóra de casa!... Ai! Isto é de ralar o coração +de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui +o compadre, tirante lá a sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram +já hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso, é homem de bem: a comadre +é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa devéras... mas +emfim... tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vae +por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A +primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando me vem +dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro o coração, que ninguem faz +uma ideia; eu bem canto a vêr se disfarço, mas... Ai, filha da minha +alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar +doente!... Assim me succedeu com tua mãe... Deixei-a uma vez tão +satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que +encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, sr. João, venha, que já não vem +sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vêr sua mulher...» Foi como se +recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e... + +A commoção impediu-o de continuar; disfarçou como envergonhado d'aquella +fraqueza, beijando a filha outra vez. + +Ermelinda percebeu a perturbação do pae e disse-lhe carinhosamente: + +--Para que está agora a pensar n'essas coisas que o affligem, meu pae? + +--Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem faz bem. Mas, por isso, +quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas côres e +alegre... nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar. +Ah!... ah!... Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto; +mal fica a mim dizel-o, mas... Lá por Lisboa e por o Porto ha muita +menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas +cabellos assim dourados?--e passava com orgulho os dedos pelos bastos +cabellos de Ermelinda--mas uma pelle assim delicada,--e afagava-lhe com +as mãos a face, quasi a mêdo--mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo +coração á gente?--e beijava-lh'os com paixão--isso é que eu ainda não +vi, nem tenho de vêr. Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um +selvagem como eu, é que não sei... É a imagem da mãe!... Ella tambem era +poucochinho de si... miudinha e... Mas não pensemos n'estas coisas. Sim, +senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por +arranjar e eu posto á taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e +muitos recados, muitos. + +--Já sei; Angelo escreveu-me. + +--Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo é uma perola! +Com tres milheiros de demonios do inferno! d'alli ha de sair coisa +grande. Eu não queria morrer sem vêr o que saía d'alli. Brinca como uma +creança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem. E nada de +soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da +cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle +tudo quer saber, tudo pergunta... isso é um nunca acabar, quando lá me +pilha... Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa, +e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle, +e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado... Ah! +ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois cá a respeito da rapariga?... +Isso é uma comedia!... Não se farta de me ouvir falar d'ella... Ah, sr. +Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha. + +Ermelinda fitou o pae com olhos espantados. + +--Sim, filha,--proseguiu elle.--Deus não te devia dar a um homem como +eu, que emfim... Com os diabos! lá alma e coração... não quero que haja +ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios, +até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do +corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha +tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que +eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto +que já se está ao sermão. + +Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido ao seu compadre um +olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas +amargas contra a sorte e contra a esposa. + +Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu uma das suas +lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com +reflexões proprias essa longa jeremiada. + +--Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a +falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste... Aqui +está um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe lá, compadre, que a +minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas berças... Tambem eu estou em +jejum desde as cinco horas da manhã... mas estes missionarios! Ah! com +seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia... + +--Deus nosso Senhor seja n'esta casa--disse uma voz gemida á porta da +cozinha. + +--E o demo na do abbade--resmungou Herodes. + +Era a sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, typo de beata, +que dispensa descripção, que regressava a casa depois de completar o +cyclo das suas devoções. + +--Viva a comadre!--disse o João Cancella, continuando a mexer na mala. + +Ermelinda foi beijar a mão á madrinha. + +Augusto saudou-a affavelmente. + +O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e, +voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos, +espalmadamente abertas: + +--Mulher dos meus peccados, mulher de não sei que diga, olha que a +paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto não pode continuar assim, +mulher! Eu não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na +igreja, mulher!... Isto são preparos, mulher?... Um homem chega a casa e +acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove +missas por dia e uma duzia de novenas! + +--Cala-te, cala-te,--retorquiu azedamente a devota metade do Zé +P'reira--cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que +assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha lá que não morresses +de fome! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus! Já não ha quem queira +soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que não tens de soffrer as do +purgatorio? E Deus nos queira dar só o purgatorio e livrar-nos das penas +do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que +não ha de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar +lamurias em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus +peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações, +que prometti á Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de esta +gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas +horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o +sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos +eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes... + +--Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com +uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois +raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça +a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má +christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres +deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem +a sôpa e o toucinho á espera d'elles? + +--Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n'essa +cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos. +Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar! + +--Confessar é parolar; ora adeus! + +--Tu estás doido, alma perdida?! + +--E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos? + +--Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?! + +--Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os +santos... de pau. + +--Vamos, vamos--disse o Herodes, intervindo.--Não vale zangarem-se por +causa d'isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em +santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos +entre marido e mulher. Você, compadre, tambem tem culpas em cartorio; +vamos lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante +tempo em devoção; emquanto á comadre, acredite o que lhe digo: a palavra +de Deus não é tão difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo +a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz +o coração, e que não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho +direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir +perdão por o não ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as +mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos +rochedos, nem... + +--Compadre!--atalhou escandalisada a sr.^a Catharina--compadre! É essa a +educação que dá á sua filha? São coisas que se digam deante de uma +creança de doze annos? Ande lá, ande lá... Ora Deus queira que lhe não +encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse +ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe d'ella. + +--Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre +á porta, a quem não dê esmola; creança que não afague; velho ou velha, +que não corteje; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o +Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus; +de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que ha de +ser... O Senhor me perdôe, se mais é preciso ainda, que mais não sei eu +ensinar-lhe. + +--Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas! E cautela com o mimo +que dá á pequena, que é o que perde muitas almas. + +--Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes é que hei de +dar mimo a esta pobre creança, que nem o da mãe conheceu! + +--Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar +andar a rapariga com esses cabellos soltos? Não sabe que o demonio... +cruzes! arma com elles laços ás almas das creaturas? + +--Fracas prisões são as do diabo, se as forja só de cabellos!... Então, +por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem +coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu á pequena +esses cabellos tão bonitos, é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que +lh'os tire, eu é que não. + +--Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos. + +--Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se +os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha +filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma d'essas cabeças +tosquiadas, que por ahi andam! + +--Talvez ainda se arrependa! + +--Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se +pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras... respeitaveis, como +a da comadre; ora então... + +A beata, apesar de trazer sempre na memoria o _Vanitas vanitatum_ do +_Ecclesiastes_, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre. +Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como +para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae: + +--Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar! +Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um +boi! É preciso não ter consciencia. + +E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto. + +Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro +recebido. + +Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creança, que +era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata +uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de +dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença +da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos +olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios +austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e +penetrante, falando nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão +que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua +candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como +virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente +julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle +perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia; +e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentira que +dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o +sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da +mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da +alma. + +É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres +como os da beata. + +O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe. + +--Toma lá, Ermelinda--disse elle, tirando da mala uma pequena medalha +com um retrato.--É um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou antes, +para ti... + +Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a +creança. + +A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o +retrato. + +--Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!--rompeu ella, com um +espanto exaggerado.--Este homem não tem a cabeça no seu logar, por mais +que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida +a uma creança! + +O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no chão, e +com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o +campo á cólera, que se lhe accumulou no seio: + +--Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher? +São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e +deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creança, +de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus +peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar +marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha +mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a trazem a +vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania +lhe tirava. + +O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade +do casal; e não levava á paciencia que outro, além d'elle, dissesse +d'aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos +que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas +vacillantes, e bracejando sempre, bradou: + +--Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!... +Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa! +Compadre!... veja que eu é que sou aqui o chefe da familia e esta é +minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora, +senhores. + +Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão +nas faces; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar +cada vez mais. Ás exclamações de Zé P'reira respondia já azedamente. + +--Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... Não +basta dar á lingua... Na taberna não é que se governa a casa... + +A sr.^a Catharina abstinha-se agora prudentemente. + +Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando. + +Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que +precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza. + +Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho. + +Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas +satisfações, e separaram-se apertando as mãos. + +Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda. + +O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel +contenda em que viviam. + + + + +VIII + + +Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito +tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza +do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente +offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado +silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo +soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão +justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a +final, porém pôde deixal-o e voltou a casa. + +Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma +banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou. + +Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha. +N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe +recordassem as do supplicio. + +Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só +entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e +encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira +vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia, +perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao +caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os +humanitarios instinctos. + +Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e +amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam +presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores +do penoso tirocinio;--mas que importa? nem por isso é menos real o +supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O +lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e +semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e +volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem +os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado, +coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem +sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se +olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos +os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que +lhe mingúa. + +De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as +desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita +vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande +thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia +concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em +não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os +momentos de alegria. + +Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam +os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado +absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro +contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo, +d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que +a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde +professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe +com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas +do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas. +Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor +as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas +intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar +agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não +tinham azas para voar. + +Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus +mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do +esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os +ensinou a ler. + +Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não +são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres +diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona +do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão +mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de +instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por +escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma +de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na +vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as +suas obrigações lhe permittiam respirar. + +D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer. + +Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma +voz bem conhecida d'elle. + +Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas. + +--Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. _Amice!_ Pode falar a um amigo +e colega?--dizia elle. + +Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado. + +O latinista entrou esfregando as mãos. + +--A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!--dizia elle, +batendo no hombro a Augusto.--Invejo-lhe mais a pachorra do que o +proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as +canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este +mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... Faça como eu. + +E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto, +poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa. + +--Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!... +Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E não é +agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz +até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas +nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocação é para a musica... +Poh! poh!... Lá para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e +Dorothéa--continuava elle, examinando os livros.--Novellas... Poh!... E +isto que é? _Confessions_ de Rousseau--n'este nome deixou aos diphtongos +o valor portuguez--Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada! +Poh! poh! poh! poh!...--E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi +arremessado como se estivesse em braza. + +Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de +repulsão do mestre. + +--Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?--perguntou elle. + +--Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor, +meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade... +_Quousque tandem, Catilina_... Mas, é por esta vez... + +--Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes. + +--Ah! grande maganão, que adivinhou--exclamou o mestre, abraçando +Augusto com effusão.--É isso mesmo, se lhe não custasse... + +--Irei. + +--É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica... +Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal, +e não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do +_Trovador_ para ensinar á minha gente. São muito bonitas... Poh! poh! +poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o +pequeno... Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. +Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e +julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá +esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me +que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem +modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito +feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor? +Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira +d'isto. Pois não lhe parece, hein? + +--Não sei bem o que quer dizer com a imagem--respondeu Augusto, +levemente enfadado.--Além de que não posso adivinhar as intenções de um +homem que pela primeira vez encontrei esta manhã. + +--Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo +que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a +boa musica, _et coetera_, andar leguas e leguas para se metter n'este +desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é +natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, _et coetera_... +O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao +dinheiro, meu amigo. + +A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando +Augusto, que não redarguia. + +--Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de +ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas +agora me lembro! o senhor é tambem da sucia. + +--Eu?! + +--Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o +convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o +caso, observe-o e verá se eu tenho razão. + +--Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a +criada--disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa.--Em +seguida irei aos seus rapazes. + +--Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe +não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com +ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a +encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e +falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições. +O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por +outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo +pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas vá, vá jantar, que eu +espero. + +--Se quizer fazer-me companhia... + +--Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua +vontade. + +Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas +voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto, +poz-se a examinar os papeis que ella continha. + +Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções +e esgares dos labios. + +A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto +trazia, quando o vimos no Mosteiro. + +Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais +curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o, +desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo +a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára. + +Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si, +para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o +escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a +tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro +e encetou novas variações de trompa. + +--Então já! Apre! Isso é jantar a vapor--disse o latinista, pondo-se a +pé, logo que Augusto voltou. + +E momentos depois sairam juntos. + +Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de +latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para +voltarmos ao Mosteiro. + +Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao +parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares +vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens, +que pareciam limital-o. + +D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As +creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas +vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que, +a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio. + +A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e +longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que +se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á +tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos +apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno +costuma dar-lhe. + +Christina interrompeu o silencio por fim. + +--O que eu não sei--principiou ella--é como o primo Henrique de +Souzellas... + +--Onze!--atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da +perspectiva, que fitava. + +--Onze quê?--perguntou Christina, erguendo os d'ella. + +--Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo +silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas, +uma vez que está decidido que seja primo. + +Christina fez um gesto de despeito e córou levemente. + +--E então que queres dizer com isso? + +--Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta. + +--Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse +caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece +dezembro. + +--Não; vae magnifico para os nabaes--replicou Magdalena zombeteiramente. + +--Se não mudar com a nova lua--continuou Christina, ainda formalisada. + +--É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso, +principalmente os das terras baixas. + +E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir. + +--Não sei de que te ris!--acudiu Christina, cada vez mais séria.--Pois +não é esta a conversa de que tu gostas? + +--Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.--E, +mudando repentinamente de tom, accrescentou:--Ora vamos, Christe; não te +zangues commigo. + +--Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas +coisas que mettem raiva--respondeu-lhe Christina, sempre agastada. + +--Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo +Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres. + +Christina reproduziu o gesto de impaciencia. + +--Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle +agora; por isso... + +--Pelo menos completa a duzia. + +--Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui. + +--Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a +gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que +te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho +na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas +franquezas. + +Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão +da prima. + +--E não sabes a razão d'isso?--respondeu-lhe ella--a razão é o genio que +tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não +perdesse a paciencia comtigo. + +--Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades +que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante! +Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se +te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E +pagas-me assim! + +--És muito infeliz commigo. Pobre Lena! + +--Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso +vêr assim.--E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda +certa malicia, Magdalena continuou:--Pois é verdade, dizias tu que não +sabias por que o primo Henrique de Souzellas... + +Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se. + +--Então que é isso? Não me acceitas a expiação?--perguntou Magdalena, +sorrindo. + +--Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que +te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as +razões que tens para isso... + +--Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam +quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança! + +--Eu não quero dizer... + +--O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se +fala n'este assumpto. + +--Que lembrança!--tornou Christina, cada vez mais embaraçada--pois +imaginas devéras que eu?... + +--E por que não? + +--Lena! + +--Não ha nada mais natural. + +--Se queres, juro-te... + +--Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.--Isso não, que é +mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua +consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que +ousadia ias pronunciar um juramento falso! + +--Falso! + +--Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres +então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de +proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo +agora que eram fundadas. + +--Suspeitas! que suspeitas?... + +--O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão. + +--Lena! + +--Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora. +Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do +privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella +timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma +pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até +descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me +dares a preferencia. + +--Mas como imaginaste?... + +--Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por +ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é +espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato +do mundo... + +--Mas... + +--Faça favor de me ouvir--atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios. +Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por +isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem +receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço +o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada. + +Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse. +Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita +demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez, +suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto, +que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais +persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella +o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a +completou. + +Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para +confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena. + +A morgadinha proseguiu: + +--É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos +de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são +imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia +hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas +qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem +esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que +olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu +sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso +primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse +titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto, +Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos +olhos muitos dos seus defeitos. + +--Quaes são?--perguntou Christina com viveza. + +--Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda +perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer +que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu +logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que +n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um +passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e +revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este +sobrinho da tia Dorothéa te causára. + +--Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas +horas? Julgo que me imaginas apaixonada? + +--Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer +termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não +é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me +de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial, +por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos +medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente. + +--Pois o tino enganou-te. + +--Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr +realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais +digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não +fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso +tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa +fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em +Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz +mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em +muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude, +agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e +desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais +da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar +cair a primeira capa, para que o natural appareça. + +--Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de +outra--notou Christina, sorrindo. + +--Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha +annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella +suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o +verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois +o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais +sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os +inexperientes. + +Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou, +olhando pela primeira vez fita para Magdalena: + +--Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar +que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o +meu, que vias dependente do estudo que fazias? + +A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas +recriminações. + +--Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um +sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido--a +desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te +falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e +immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia. +Satisfaz-te esta razão? + +A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára +quasi o da commoção. + +Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida, +apertou as mãos da amiga. + +--Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de +ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para +sempre, envenenado o coração. + +A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor. + +--Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as +nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa +que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora +tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize. + +Christina hesitou. + +--Vamos,--insistiu a morgadinha--acredita que preciso de uma declaração +para me guiar... E crê que é para bem teu. + +--Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada. + +--Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um +«agradada», por exemplo. + +--Confesso que... + +--Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz +muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não +corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente +coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como +se costuma dizer. + +--E então qual é o teu ideal? + +--Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma +especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim; +e não sei onde o procure. + +N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D. +Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o +costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo, +attribuia umas dôres de cabeça com que acordára. + +No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de +galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal +podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a +sua timidez não a deixava luctar. + +De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de +Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos +da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova +visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua +admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura +de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma +sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á +volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas +pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos +officiaes. + +Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa. + + + + +IX + + +Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára +para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves. +Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena +abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da +projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella +rapariga, com tal preoccupação. + +As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem +d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia. + +Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta +dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto. +Christina foi acordal-a ao leito. + +A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima. + +--Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares +estremunhando a casa esta noite? + +--Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são +estas as madrugadas em que falavas? + +--De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é. + +--Dentro em pouco é dia. Queres vêr? + +E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e +correu as cortinas. + +A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave +estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da +natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos, +scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena. + +--Vês?--disse Christina. + +--Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie +melhor do que esta lamparina. + +Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de +creança. + +--Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper +do sol. + +--Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro! + +--Está tão bonita, que parece de primavera. + +--Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá +coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos. + +Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e +voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel +necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos +quando nos deixamos apossar da impaciencia. + +--Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê +neve. + +--Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me +que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia +ganhando. Vês? + +--Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!... +Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um +engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum. + +--Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma +fogueira no coração, não precisa... + +--Ahi principias com as tuas coisas! + +--Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios +matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu +t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso. + +--Não quero saber de explicações; veste-te, anda. + +--Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia +Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo; +dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que +sorte de invejar! + +E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella +madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e +heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito +para a vêr impaciente, principiou a vestir-se. + +Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e +transmittindo á prima as observações que fazia. + +--Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os +pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que +não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar +prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão +ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo. + +--Elle! Quem é esse elle que vem ahi? + +--Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha? + +--É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em +mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um +«elle». + +--Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo--disse Christina, +que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe +fazia de baixo. + +--Então, com effeito já chegou?--perguntou a morgadinha, +admirada.--Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle +tambem tem alguma coisa no coração! + +--Tambem o julgo--respondeu Christina, despeitada;--é vêr como hontem te +falou. + +--Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a +pessoa que causou esse mal. + +--Não sei o que elle me está a dizer--disse Christina, olhando para o +pateo.--Posso abrir a janella, Lena? + +--Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã. +Abre lá a janella, abre. Fala-lhe. + +Christina correu a vidraça. + +A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena. + +--Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?--perguntou +elle a Christina. + +Christina respondeu, sorrindo: + +--Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio +dia. + +--Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha +indolencia!--disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de +Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a +ella, mas sempre sem receber resposta. + +Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio +tivera ainda. + +--De maneira que nós, priminha--continuou Henrique--damos uma lição de +mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos +appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se. + +--Eu vou chamal-a--disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena, +com certo modo, que não podia escapar a esta:--Olha se appareces alli ao +sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê. + +A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao +penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha +e disse-lhe sorrindo: + +--Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos +ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que +não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não +via. + +--Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas... + +--Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir +accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço +falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para +completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos. + +Augusto havia effectivamente chegado ao pateo. + +Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois +ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes +companheiras na romagem. + +A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as +pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique, +talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de +Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais +vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas; +no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do +campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito +esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos +e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia. + +Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro +aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá +margens a confidencias. + +Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles +certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva. + +Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando +não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois +indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e +fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção. + +Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas +ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de +dezembro. + +Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de +D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e +mesmo do leito perguntou-lhes: + +--Então já vão, meninas? + +--Vamos, tia; vamos, mamã--responderam as duas a um tempo. + +--O Luiz já partiu com o almoço? + +--Já partiu, já, minha senhora. + +--E ides agasalhadas? + +--Como se fôssemos para a Siberia--respondeu Magdalena. + +--Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa +Senhora. + +--Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã. + +--Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis. + +Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã +d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára +com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir. + +Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique, +depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe +attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia, +porque se lembrou de Christina. + +--Muito obrigada, primo,--disse ella com vivacidade.--Mas é preciso que +o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos +trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo +isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em +que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro, +embora seja o de um heroe. + +--Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se +escusa--replicou Henrique. + +--É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma +pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço +de giestas, por exemplo. + +--Vê lá, Lena,--disse Christina ao ouvido da prima.--Talvez seja melhor +que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto. + +--Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr. +Augusto--continuou voltando-se para este--espero que tome a direcção do +nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista; +leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de +perigos e de fadigas. Partamos! + +O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus +milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era +uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais +de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica +vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes, +arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o +gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava +sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em +vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés, +permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma +convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em +colosso. + +Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda, +que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da +ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam. +Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra +os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma +longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito +deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram +tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus +passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um +absurdo. + +Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que +d'elle o separava. + +O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava +um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido +pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia. + +Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do +monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi +infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes +negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o +cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da +madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos +climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua +verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral +do quadro. + +A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com +lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e +atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o +passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das +outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir. + +Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se +indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os +córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e +os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por +aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos. + +As difficuldades para Henrique eram continuas. + +A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte +de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse +d'aquillo. + +Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a +paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava, +apparecia mais surprehendente e maravilhosa. + +Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração. + +As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a +belleza do quadro. + +Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes +mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia +aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos +canteiros de um jardim. + +Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava. + +--É magnifico! é admiravel! é soberbo!--dizia elle, a cada momento e +quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho. + +O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os +montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na +planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta. + +Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que +viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, +que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar. + +Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã. + +Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena; +parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam +mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a +ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem +lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi +achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio. + +A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava +insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia. + +--Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á +necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos +auxiliar--disse ella sorrindo.--A falar verdade, para quem tem passado a +vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. +Tenho um pouco de alpestre. Adeante. + +E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz: + +--Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve +a lembrança de lh'o offerecer. + +Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o, +offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando. + +--Então por que recusas?--perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa. + +--Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua. + +A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não +lhe disse nada. + +Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já +tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia +encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo +apparecimento do sol. + +--Chegamos a tempo!--exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a +primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou. + +Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella. + +Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á +contemplação d'aquella perspectiva solemne. + +As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa, +n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um +espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam +longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em +simples phrases, como estas: + +--É bello! + +--É magnifico! + +--É sublime! + +E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E +eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só +bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o +panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a +imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse +d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna. + +Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade +precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a +fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos. + +Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre +os quatro. + +Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus +projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua +mutua frieza. + +--Lá está o Mosteiro--disse Magdalena, apontando para o logar +indicado.--Como parece pequeno, visto d'aqui! + +--É verdade--respondia Christina--e olha, Lena, como se vêem bem as +janellas do teu quarto. + +--Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares... + +Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu: + +--Para cumprimentares a estrella d'alva. + +--As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas. + +--Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia +Victoria não é muito matinal. + +--Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?--perguntou Henrique, +apontando n'outra direcção. + +--É--respondeu Augusto--e, mais adeante, alli tem a deveza, em que +passou ante-hontem. Não é verdade? + +--É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei! +D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter +passado tambem. + +--Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?--perguntou +Magdalena, apontando para um ponto distante. + +--Perfeitamente. + +--É a minha quinta dos Cannaviaes. + +--Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista. + +--Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de +Nossa Senhora, muito milagrosa. + +--Sim? hei de visital-a. + +--Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é +concedido--disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão +da mais insinuante sinceridade. + +--Que quer dizer o voto da meia noite? + +--Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no +altar da Senhora--continuou Christina. + +--Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra +desejo que se não satisfaça. + +--Mais devagar,--acudiu Magdalena, sorrindo--pouca gente se atreve até a +ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas +mortas por a sua antiga casa, dizem. + +--Cada vez sinto mais desejos de lá ir--accrescentou Henrique, depois de +ouvil-a. + +--Além, entre aquellas arvores, sr.^a D. Magdalena, vive um +philosopho--disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva. + +--É verdade; o bom do tio Vicente. + +--Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu +possa augmentar o meu parentesco na aldeia? + +--O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos +montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso +parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim +como quasi toda a gente por aqui. + +--Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da +igreja?--perguntou Christina. + +--Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas--disse +Henrique de Souzellas. + +--São as mulheres que vão ouvir o missionario--respondeu a +morgadinha.--Escutem, lá está a tocar o sino. + +Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas +do campanario da aldeia. + +--A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira, +que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas +devoções--notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a +que na vespera assistira. + +--Degenerou aquella mulher!--disse Magdalena--e, se quer que lhe fale a +verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue +assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva! + +--Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos +missionarios?--perguntou Henrique. + +--E não tem lavrado pouco!--tornou Magdalena. + +Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as +palavras da morgadinha. + +--Primo Henrique--disse ella--julgo que ainda será preciso o seu auxilio +para livrar do contagio esta innocente Christina. + +--Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a +minha vontade. + +--Olha, Lena, não vês?--exclamou Christina--são os pequenos que nos +estão a dizer adeus das janellas do mirante. + +De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços +brancos. + +Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a +prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes. + +Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo: + +--Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creação. + +Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da +alameda já se tingiam de luz. + +Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida +faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as +extremidades até se perder de todo no azul-celeste. + +Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro +inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal +candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu +nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões +que o retinham. + +O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas +meias sombras da madrugada. + +Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha, +que veio annunciar que o almoço estava prompto. + +--Pois devéras temos um almoço?--exclamou Henrique, sinceramente +surprehendido. + +--Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em +casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que +estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o +appetite--respondeu Magdalena. E logo após continuou para +Henrique:--Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os +recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina? + +Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a +ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, +limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena +fingiu não perceber. + +E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de +pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço. + +D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A +alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das +iguarias convidavam. + +Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de +circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido, +correspondente a lesão organica e como tal sem poesia. + +Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á +cozinha do Mosteiro. + +Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças, +conversou animada e espirituosamente. + +Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com +vontade das que ouviu a Augusto. + +A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá. + +N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de +amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir. + +Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do +congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam +contrariados. + +Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre +o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas +letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça. + +--Bravo!--exclamou, depois de as ler para si--não imaginava que havia +poetas na aldeia! Querem ouvir? + +E leu: + + + Se estás mais perto do céo + N'estas alturas da serra, + Ai, porque tens, peito meu + Inda saudades de terra? + + Em vez-de erguer os olhares + Á luz d'este firmamento, + Desço-os á sombra dos lares, + Onde tenho o pensamento. + + +--É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima? + +--Não sei; da aldeia de certo que não é--respondeu Magdalena, com +indifferença. + +Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda. + +--Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil +crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um +romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever +saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do +poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se +vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim, +confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra +companhia--accrescentou, olhando significativamente para a +morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta +expressão do meu sentir, porque... + + + Em vez de erguer os olhares. + Á luz d'este firmamento + + +Eu tambem... + + + Os _abaixaria_ aos lares + Onde tenho o pensamento. + + +Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda. + +Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito +ao ficar só com Henrique. + +--Prima Magdalena,--disse em tom mais affectuoso Henrique, passado +tempo, e depois de mais algumas palavras--deixe-me falar-lhe com +franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém, +sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode +imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã. + +--Perdão,--atalhou Magdalena--diga-me primeiro o que é isso que me vae +dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto +de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir +preparando uma resposta adequada. + +-Que prazer tem em ser cruel! + +-Deixemo-nos de loucuras--continuou Magdalena, séria já.--Quem ouvisse o +sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer +uma declaração. + +-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por +que não? + +-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista +d'ellas. + +--Por quê? + +--Porque não posso escutal-o. + +--Ou não quer. + +--Ou não quero; seja. + +--Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração +já... + +--Que impertinente pergunta? Se _já_, não tenho ainda no sr. Henrique a +necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas +de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.--E accrescentou logo +depois:--Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo +Henrique. + +--Que vae fazer?--perguntou-lhe Henrique, admirado. + +Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os +olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina: + +--O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter; +o meu amor proprio disse-me que--era pouco delicado estar assim a +lisonjear uma mulher na presença de outra--e redargui por isso, pondo em +dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na +tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora +dize tu. + +Christina córou intensamente e não teve que responder. + +Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo +sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou +desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu: + +--Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á +accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da +doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima +Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa +Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que +alludiu.» + +A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras; +mas fingiu não comprehender. + +Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos +n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave +expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico, +que não escapou tambem a Henrique. + +Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum +parecesse disposto a baixar-se deante do outro. + +Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina, +dizendo: + +--Olhem o tio Vicente por aqui! + +Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e +approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos +falado no decurso dos passados capitulos. + + + + +X + + +Era uma expressiva figura de ancião o herbanario. + +A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e +penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes +meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle +semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os +annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos; +os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o +caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que +atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem +permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando +para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes. + +Era um enigma vivo. + +Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe +curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita +consagrava as maiores attenções e canceiras. + +Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém +ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que +vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo +velho. + +Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle, +como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre. + +Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns +alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e +mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros +de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de +astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais +predilectos e consultados contava um exemplar da _Polyantheia_ de Curvo +Semedo. + +O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que +revézes de familia haviam interrompido. + +Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os +erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou +a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por +maravilhosa. + +E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de +concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo. + +Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos +simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a +austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que +dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle +typo, para ella quasi lendario. + +Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a +Augusto, que lh'a apertou com affecto. + +--Bons dias, rapaz,--disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e +Christina, accrescentou com maneiras paternaes:--Adeus, pequenas; +grandes madrugadas hoje! + +Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi +desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente: + +--Guarde-o Deus! + +Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom. + +Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe +com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle: + +--Quem é? + +Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa: + +--O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa +pergunta. + +O velho nem sequer o olhou. + +--Este senhor--respondeu Magdalena--é sobrinho de D. Dorothéa; está +hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude. + +Vicente tornou a examinar Henrique. + +--Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã... +Umh!... + +Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam +desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo +jovialmente: + +--A doença d'este senhor é um pouco de imaginação. + +--E grandes effeitos nascem d'ahi--acudiu sentenciosamente o velho.--Lá +veem na _Polyantheia_ muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido +umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto +scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo +uma pedra do feitio de uma amora. + +--Com effeito!--disse Henrique, com ironica expressão de pasmo--ahi +estava um cerebro de concepções rijas! + +--É divertido!--disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para +Magdalena. + +--Pelo contrario--acudiu a morgadinha--o seu mal é a melancolia. Não é +verdade? + +--Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia +Dorothéa, que lhe chamou mania. + +--Mania e melancolia não são a mesma coisa--emendou o velho.--Tambem lá +na _Polyantheia_ se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem +furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou +cólera requeimada. + +--De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!--continuou +Henrique, no mesmo tom. + +Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse +por irritar o velho, perguntou a este: + +--Parece-lhe que terá cura a doença? + +--Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a +final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de +ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira. + +--Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer +o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que +receita para as manias--disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe +ficava proximo. + +O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras +impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um +relampago de irritação. + +Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade. + +--Está bom, menino,--replicou elle amargamente.--Não diga mais, para se +não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou +costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os +attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não +pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que +é isto?--exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas +sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.--As folhas veem d'este +lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo. + +E, depois de olhar para o ar, continuou: + +--Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e +aquellas nuvens. + +E levantou-se. + +--Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que +virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o +quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não +tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!... +Emfim tudo tem de acabar. Adeus! + +E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as +hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu, +depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina. + +Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que +parecia haver o que quer que era de forçado. + +--É realmente curiosa esta antigualha--disse elle, que interiormente +sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho. + +--Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na +aldeia!--disse a morgadinha.--Tem uns melindres e uma maneira de vêr as +coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender! +depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não +estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é +bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças +suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo? + +--Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado +geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem... + +--É um homem de bem--atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade +de expressão, que até alli não mostrára ainda. + +Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou +firmemente aquelle olhar. + +--Não o nego--respondeu Henrique, pouco depois--mas infelizmente os +homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a +imbecilidade. + +--Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um +juizo são e uma razão clara. + +--Acha?--tornou Henrique, já algum tanto azedado.--Ha de dar-me licença +de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido. + +--Procede mal--redarguiu Augusto.--Porque eu conheço aquelle homem ha +muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor +quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma +digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A +consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu. + +--Lê fundo nas consciencias dos outros! + +--Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de +ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa. + +--Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui +suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção +aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que +dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei. + +Augusto córou, mas respondeu com firmeza: + +--Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que +qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade. + +Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada +ironia: + +--É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu +programma... de mestre-escola. + +--Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre; +rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas n'esse ponto podem +dar lições a elegantes filhos das cidades. + +--Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia, +dever-lhe algumas lições tambem. Comtudo, como, felizmente, as +circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do +estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lições que +receber. + +--Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o +discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio. + +--E acceita-a em toda a especie de moeda, não é verdade?--perguntou +Henrique, cada vez mais petulantemente. + +Augusto respondeu com a mesma serenidade: + +--Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito +salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo. + +O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais +acerbo caracter. + +Christina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Magdalena, como +para convidal-a a intervir. + +Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto. +A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza +inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens, +rivalisava com o d'elle, eram tão novos para a morgadinha, que a +surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade +de uma intervenção. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade. + +--Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre +os senhores é uma altercação--disse ella por fim.--Vejam que só teem por +testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a +contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha +que fizeram da occasião, para uma justa tão pouco... amavel. + +--Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu +proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o seu +pensamento, quiz estender até mim este despotismo de... _magister_... +Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia... + +--Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me +agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que +levianamente formou de quem lh'a não merecia. Vejo que prefere ser +injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu não soffro é que se +diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem +sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo +por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer, +lastimo-o; é porque não os tem. + +--Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois--disse +Magdalena.--É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e +aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja +porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui +traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo +sacrilego, que se fizesse n'ella. + +Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo +antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, +representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e +florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles +pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos +desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé +ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem. + +E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto. +D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que +reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que +estava. + +Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique +examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára +mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da +Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não +sei se pensando n'ellas. + +Esperava-os uma surpreza á saida. + +Realisára-se o prognostico do herbanario. + +O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo, +viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e +empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se, +pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de +longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea. +Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se, +acabando por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. Ao +mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a +erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas +moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as +aguardavam firmes. + +Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da +ermida. + +--Depressa!--exclamou Augusto--já não ha tempo a perder! Desçamos antes +que a tormenta nos colha. + +--Tem medo?--disse Henrique em tom de mofa.--Um montanhez! + +--Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que não é de inimigo pouco +digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, por amor +d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida. +Felizmente que o criado já partiu. É um embaraço de menos. +Vamos.--Detendo-se, porém, disse para Magdalena:--Se descessemos por o +outro lado, minha senhora? + +--Para quê?--respondeu esta.--É um momento, emquanto chegamos abaixo. + +A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerração do ar; +os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a +chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente; +havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas +nuvens tomavam uma côr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas +igualmente sinistras. + +Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas; +Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta. + +Não era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo +d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi +impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em +catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro ás +arestas salientes da rocha.--Era necessario estar muito amestrado para o +descer sem perigo. + +Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim não tivesse de +repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas +aventuras; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos +despenhadeiros do monte. + +A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que +inspirava alento e confiança aos mais. Agil, como um animal montez, +girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fôra reconhecido +chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil +transito, ora á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira em +embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos +braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára, +sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O +proprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso +admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de +Augusto. + +O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto +mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e +aptidões, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de +baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este +momento; ora Henrique não era homem que, tendo consciencia disto, +ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma +compensação. + +Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos +quaes sómente a preoccupação, em que iam os animos, impedia achar +risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser +alimento de animadas e joviaes recordações. + +Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao +lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a +pique e erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas +e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado +tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a +mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espaço arremeçou-a ao +abysmo. + +Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria +difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse. + +Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror +Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados. + +A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças ligeiramente +desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado +susto. + +A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo sobresalto que +involuntariamente causára. + +--Descança em paz!--disse ella, olhando para a mantilha; e +accrescentou:--Sigamos. + +--Mas não será possivel tiral-a d'alli?--perguntou Augusto, examinando o +sitio. + +--Para quê? Não podemos demorar-nos agora com isso--respondeu Magdalena. + +--Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um +momento--insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia. + +Henrique notou, sorrindo: + +--O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes não eram de +tão bom aviso. + +E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia +humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia +a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma +desnecessaria imprudencia. + +Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão, +deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos á borda +do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha, +até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um +ramo mais tenaz; á fôrça de vontade dominou a sua impericia em +exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço, +segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio. + +Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos, +pôde, roçando-se como reptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e +nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em +terra, sem acceitar a mão que Augusto lhe offerecia, e com gesto +radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de +triumpho. + +Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma +palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto. + +Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça +murmurando: + +--Que imprudencia! + +--Na verdade!--disse Magdalena, ainda nervosa com a impressão que este +incidente lhe causára--foi uma loucura; uma loucura imperdoavel. + +E a perturbação era tal, que nem acertou com uma phrase de +agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais +desejava reprehender, do que recompensar. + +Esta reserva offendeu Henrique; serviços a seu vêr de menor importancia, +tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras. + +Revoltou-o esta ingratidão. + +Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo +sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e +aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o +tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca +aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o +desespêro de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas loucuras! + +Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fôrça das +enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares, +era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado +mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham +encontrado quasi submersa. + +Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo: + +--Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar +já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do +moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto. + +--Então deixa-nos sós?--exclamou Christina, assustada. + +--É um instante. + +--Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação--disse +Magdalena. + +--O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte; +o caminho indica-se por si. + +E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na +rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava. + +Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina +fechava o cortejo. + +O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios +com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos, +a direcção do rancho. + +Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava +merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella +contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o +humilhava. + +Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique +perdera com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo +o dia. + +Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular +um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, +nem sempre demasiado affavel. + +Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar. +Christina menos. + +Este silencio acabou por exasperar Henrique. + +Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do +riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor +do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito. + +Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento. + +--Estou devéras arrependido, prima Magdalena,--disse elle com leve +ironia--do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que +ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a +gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era +demasiado cauteloso para heroe... + +Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou +proseguir. + +Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas, +pallidas, olhando com anciedade para a base do monte. + +Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa +d'aquelle duplo grito. + +Refiramol-o em poucas palavras. + +Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou +não transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado. + +O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em +taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não +conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O +andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou +para descançar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o +verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua +pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio +caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava. +Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava +muitos passos de avanço. + +Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se +dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em +descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente +caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já não se viam +signaes de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os +açudes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em +cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor. + +O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas, +sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras. + +Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. Encontrou a primeira, +pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como pôde, para resistir á fôrça da +corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um +passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de +sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio, +caiu na levada para o lado dos moinhos. + +Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o +estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a +urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, sem +perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados +do moinho. + +Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o +espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se á agua. + +Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas +abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto +se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre n'um palco, +deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o +papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, arriscaria, +para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por +ventura, um impulso generoso, que não pudésse harmonisar-se com a +convenção, que se chama elegancia. + +Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle. + +Augusto era differente. + +As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos, +para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis. + +Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou temerariamente a vida +para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais +segurança, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida, +para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o +fazia recuar. + +Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a +margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás +anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura: + +--Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe +tambem arriscar a vida, quando uma razão de humanidade lh'o pede. A sua +imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, mas... não posso approval-a. +Confesse que não foi tão justificada como esta. + +Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia justa para vêr +que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda, +inferior ao seu companheiro. + +Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo +que teve sobre a rebellião dos maus instinctos poder sufficiente para se +obrigar a ir apertar a mão a Augusto. + +O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforço da lucta com a +corrente; ainda assim abraçou tambem Augusto, dizendo: + +--Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião de te dever a vida, +rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse. + +Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados. + +Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D. +Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem +o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto +estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem +ahi dentro mudar de fato. + +Augusto seguiu o herbanario a casa. + +Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de +haverem renovado a roupa, que a chuva repassára. + +No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas +exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas, +como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os +criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a não haverem +avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante, +repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de +chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio. + +Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma, +ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de +cobertores, emborcaram-o de _punch_ e taes mêdos lhe insinuaram, que as +apprehensões pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram +reapossar-se da sua antiga victima. + + + + +XI + + +Censuravel descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos +logares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episodios +d'esta narração. + +Que se diria de um _cicerone_ que, por esquecimento ou proposito, +deixasse de apresentar um viajante, recem-chegado a uma cidade, na +assembleia, club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem as +principaes personagens d'ella, onde se compendiam as grandes questões e +interesses locaes, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras, +os voluveis caprichos que agitam os espiritos, onde se commenta o boato +de hontem, se dão ao de hoje mil versões diversas e se adivinha já o de +ámanhã? + +Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando a este undecimo capitulo, +sem ter guiado os leitores á venda de Damião Canada, a qual podia +dizer-se o verdadeiro coração d'aquelle organismo social. + +Tudo quanto na terra havia de certa representação alli ia falar da coisa +publica e tambem da particular;--da particular dos outros mais do que da +propria, entenda-se. + +Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza após horas continuadas +de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permittiu que o +sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o +envolvia, e mandasse os raios amortecidos ás cristas das serras +fronteiras; aproveitemos este intervallo de socego para entrarmos na +taberna. + +Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos. + +Henrique de Souzellas teve de condescender com uma leve angina, que lhe +legaram os rigores d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha, +entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a scismar n'uma imminente +desorganisação da larynge, a que imaginava conduzirem-o os seus +incómmodos actuaes. + +No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça narrar-se ao leitor. + +Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos o que +dizem os frequentadores do estabelecimento de Damião Canada. + +Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do proprietario, barriguda e +rubicunda figura, que, assim posta ao pé das pipas, podia servir de typo +para a representação de um Sileno, havia varias individualidades de peso +nos destinos de toda a comarca. + +Dê-se primeiro menção ao nosso já conhecido Bento Pertunhas, a quem as +humanidades não faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em +communicação social com os seus conterraneos. + +Observada esta deferencia, mencionemos os mais. + +Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho das Perdizes, em quem +já temos ouvido falar por mais do que uma vez. + +Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario em uma das freguezias +proximas, chamada de Pinchões; mas propriedades e morgadia andavam-lhe +tão embaraçadas em redes de demandas e de hypothecas, que Deus nos +acuda. + +Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes, enchiam um cartorio. +Graças, porém, ao seu genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho +deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os cuidados agricolas +aos rendeiros e feitores; os do futuro, a Deus ou ao diabo; e para si +não reservava nenhuns. + +Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era necessidade. Frequentava +as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavallos com os ciganos, +e ás vezes para dar e levar sovas monumentaes.--Nos mezes de caça, a +vida do morgado era perfeitamente nómada: estendia por leguas e leguas +as suas excursões venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida, +de que, de ordinario, participavam os cães, que o acompanhavam; +distrahia-se tambem a conquistar os corações femininos da freguezia, +calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insoffridas de um ou +outro pae, marido ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas +tinha contas em aberto, o que não obstava a que entrasse em todas com +ares de conquistador e expendesse alli as suas opiniões absolutas, com +grande exhibição de berros e de punhadas. + +Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das Perdizes um homem +verdadeiramente popular entre os da sua freguezia; movia-os no sentido +que quizesse. + +Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não havia funcção, rixa, solemnidade +official, para que elle não fôsse consultado. É que a superioridade do +morgado das Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham o povo; +ninguem hesitava em falar-lhe e em procural-o em casa, porque, falando e +vivendo com elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem. Os seus +defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a +popularisal-o; justo é porém que se diga que algumas boas qualidades +tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não era avarento, nem +soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso, não consentia que +pessoa alguma, desde o mais rico proprietario até o jornaleiro mais +miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. Não eram poucos os +filhos-familias que resgatára de soldado, sem a menor caução ou +interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum +desgraçado se via perseguido pela justiça, encontrava, fôsse qual fôsse +a enormidade do crime, asylo seguro na herdade das Perdizes, que em +certas épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores. + +Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era o sr. Joãozinho uma +verdadeira potencia eleitoral. + +Eis ahi o homem moralmente. + +Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta e cinco annos, gordo, +vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado +e a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na maneira de vestir +inculcava os habitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe +era peculiar. Trazia o collete quasi sempre desapertado e com alguns +botões de menos de modo que os peitos da camisa formavam hernia pela +abertura; entre as calças descaídas e o collete avistava-se o cóz das +ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar a mão; ao pescoço trazia +um lenço de seda escarlate, negligentemente atado e com longas pontas +fluctuantes; uma jaqueta de pelles com alamares, calças de fazenda +chamada pelle do diabo, botas de montar e esporas constituiam o resto do +vestuario. O cigarro, que quasi sempre fumava até ás ultimas, +crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e o canto dos labios. O +palito andava-lhe sempre atraz da orelha; a navalha de ponta na +algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa +matilha de galgos, podengos e perdigueiros. + +Segunda e não menos importante personalidade era a do sr. Eusebio +Seabra, chamado por antonomasia--o Brazileiro. + +Era um homem de cincoenta annos; bem figurado e sisudo, de falar +compassado e com seus quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de +protecção a todo o mundo. + +Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao Brazil. Por lá esteve +quarenta annos, e voltou o homem grave que vemos e rico. Como enriqueceu +não sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sitio em +que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com tres andares e +varandas, jardim com estatuas de louça e alegretes pintados de verde e +amarello, o qual jardim tinha mais fama n'aquellas aldeias vizinhas do +que os jardins suspensos da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma arara, +igualmente famosos, e uma botica homoepatica, que elle proprio +manipulava. + +As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a primeira +personagem de influencia na aldeia. Para isso principiou por fazer +alguns reparos na igreja parochial, presenteou com vestidos novos todos +os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze annos +tocava a rachado. Fez á sua custa a festa do orago, chegando a mandar +vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do +chão. Apesar, porém, de todos estes beneficios á localidade, o +conselheiro Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto vivesse quasi +sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as +ambiciosas vistas. Por isso, apesar da apparente amizade com que Seabra +o acolhia e lisonjeava até, conservava por elle no fundo uma má vontade, +um ciume, de que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões. + +Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho das Perdizes descurado +no seu vestir. Usava sempre de suissa irreprehensivelmente talhada em +volta do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres grandes botões +de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas côres de uma ave da +America; e o ouro, distribuido com profusão por todos os accessorios da +sua pessoa, attestava os bons resultados dos seus quarenta annos do +Brazil. Passeiava pela aldeia de chinelos de marroquim verde ou sapato +de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do andar, que voltava a casa +sem que uma mancha ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino. +Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a +com bota de polimento. + +Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé P'reira, que bebia, em +silencio, ao pé do taberneiro, havia um padre, coadjuctor da freguezia, +dois lavradores abastados e já de avançada idade, e outros que +deixaremos confundidos na massa indistincta dos comparsas. + +No momento, em que entramos, usava da palavra o brazileiro, que estava +sentado á porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento. + +--Pois é verdade--disse elle--fômos todos da mesma creação. O +conselheiro Manoel Bernardo saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu +ir para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola, que era a do padre +Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. Vossemecê ha de estar lembrado, +sr. Luiz--accrescentou, dirigindo-se com a affabilidade protectora, que +o caracterisava, a um dos lavradores. + +--Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da +Luciana. + +--É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro e aquelle ratão +do Vicente, herbanario, que era já rapaz taludo. Lembra-me, como se +fôsse hoje, de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro da +Corredoura. + +--Olha lá, hein!--diziam dois lavradores com um sorriso cortezão nos +labios--então com que o sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!... + +--Ora, como um homem. Eu fui levadinho da bréca. Boa sóva levei de minha +mãe, por causa de umas calças novas que rompi. + +--Ora vêdes?--diziam os outros. + +--Ai tempos, tempos!--disse, suspirando, o brazileiro. + +--Quem havia de dizer então ao que v. s.^a e o conselheiro tinham de +chegar!--notou lisonjeiramente o sr. Bento Pertunhas. + +--Eu sim--respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.--A que cheguei +eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um boccado de pão +para o resto da vida; com isso me contento. O mais, sou um pobre diabo +que ninguem conhece, um homem ignorante, sem principios. Elle é outra +coisa. + +--Não é tanto assim--insistiu Pertunhas--todos sabem que v. s.^a se +quizesse... + +--Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesse o juizo de muitos, que +por ahi vejo figurando, então havia de me vêr na brecha; porque, não é +por me gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles. + +--Ora pois, não, não--disseram os lavradores, Pertunhas e o padre. + +--Alguns que até ministros teem sido... + +--Por essa estou eu... + +--O conselheiro mesmo...--resmungou o padre, fungando uma pitada +jesuitica--sim, aqui para nós... + +--Tanto não digo--continuou o brazileiro, mais jesuiticamente ainda.--O +conselheiro... vamos... Faça-se-lhe justiça. Eu não quero dizer que elle +seja uma coisa por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a +final?... Mas... Não é dos peores, não é dos peores. Faça-se-lhe +justiça. Não é homem de grandes talentos... isso não; nem mesmo de +grande fundo. Sim... Devemos confessar que esta é a verdade... Mas... +emfim, vamos andando... Cada um faz o que pode--concluiu o brazileiro, +depois de ter feito justiça ao conselheiro. + +--No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode fazer. Ha +quantos annos nos anda a falar na estrada, e até hoje ainda nem palmo +d'ella?--opinou Pertunhas. + +--Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o dictado--ponderou o +brazileiro. + +--A falar verdade!...--disse um dos lavradores--com a influencia que +elle tem, podia... + +--Ora adeus! palanfrorio--atalhou o padre--bem me fio eu na influencia +do conselheiro. + +--Eh! eh! eh!--respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do padre, +e accrescentou com um sorriso velhaco:--Não, elle diz que fala com os +ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. Emfim... +Elle lá o sabe. + +--Para mim é que elle vem de carrinho... + +--Eu não sei--concluiu com requinte de velhaquez o brazileiro. + +--Pois eu cá--disse o sr. Joãozinho, que estivera bebendo em silencio, e +descarregou um murro na banca, que fez tilintar os copos.--Eu cá já +disse; se os taes homens das bandeirolas me tornam a passar por as +terras, sempre lhes meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e +que já me serviu para varrer a feira de Santo Estevão. Uns mariolas!... + +E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um pontapé a +um podengo, que lhe viera roçar por as pernas, e fel-o sair ganindo. + +--Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das +estradas--informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr. +Joãozinho. + +--Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!--resmungou +este.--Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente queimámos toda +a papelada da camara e do escrivão da fazenda. + +--Agora no inverno é que elles hão de principiar com os trabalhos. +Sempre se fia em boa!--disse, encolhendo os hombros, mestre Pertunhas. + +--Vossemecê é que está a ler--veio-lhe á mão o brazileiro.--Então não +sabe que as eleições são em fevereiro? + +--Ai, é verdade! não me tinha lembrado d'isso!--exclamou o padre. + +--Tambem não sei como será d'esta vez essa historia das eleições--acudiu +o sr. Joãozinho.--Cá eu e a minha gente ainda estamos a vêr no que param +as coisas. Eu já não estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao +conselheiro a freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo +que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos de entrar +n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá por umas contas, não anda o +filho de meu pae. + +--Ora adeus!--disse o padre cura.--O conselheiro tem artes para o levar. + +--A mim? Está enganado. Não querendo eu? Então você não me conhece. Em +eu embirrando, sou como um borrego teimoso. + +--Quando se fala em estradas, já estou a tremer--disse um dos +lavradores.--O que elles veem cá fazer é cortar-nos os campos, e a final +não sei para que servem. + +--Isso não é assim--atalhou o brazileiro, tomando uns ares +cathedraticos, cheios de gravidade.--Vossemecê é ignorante e por isso é +que fala d'esse modo. + +--Eu digo...--tartamudeou, intimidado, o lavrador. + +--Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que não entende. As +estradas não servem para nada! As estradas são meios de communicação +e... facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por +conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um +capital..., sim, senhores, mas... mas um capital... sim... um capital +morto... quero dizer um capital que não vive... Quero dizer... sim... +supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., sim... ahi está o +credito... Pois que é o credito?... O credito é... é o credito... +depende de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós não +tivessemos estradas... Uma supposição... Partamos de um principio. A +producção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a +producção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta? +Está claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... Não +havendo estradas... Ahi está que se diz por ahi que a livre exportação, +que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não é +assim. É preciso que se attenda tambem ás condições economicas dos +povos. Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em +termos já se sabe... Mas... o commercio livre... a livre troca... +entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que... +Ora supponhamos... supponhamos que não havia estradas... Os transportes +eram mais difficeis e portanto mais caros... E se além d'isso os generos +fôssem escassos e... Diz vossemecê, para que servem as estradas? Ora +diga-me uma coisa, sr. Manoel, supponhamos que... os impostos +indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos +indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer. + +--Impostos, Deus me livre d'elles!--murmurou o lavrador, cujos +instinctos trepidaram á palavra «impostos». + +--Isso tambem não é assim... Deus me livre! Não se diz Deus me livre, +porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra... +isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a +exploração... Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não... +vamos cá por outro lado... Ha um _deficit_ n'um orçamento... desce o +preço das inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que ha boas +estradas, _et coetera_... A riqueza tende a augmentar... e... e... Emfim +lá que as estradas são uteis, isso é que não tem questão. + +Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com profunda +attenção. + +O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios periodicos +politicos, conseguira, á fôrça de leitura, fixar na memoria certas +phrases de artigo de fundo, e acabára por convencer-se de que possuia +grandes noções de sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma +sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos +do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposição tal ou qual, mais +ou menos regular, e assim lhe saia uma dissertação, como essa que viram. +Em permanente indigestão economica vivia este portento. A doença não é +das mais raras entre politicos. + +O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bôca, +depois do discurso do brazileiro, e disse: + +--Eu cá por mim não sei d'essas coisas. Não se me dava das estradas para +poder ir á feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que me +não venham mexer na quinta; porque então teem que vêr. + +--Pois está arriscado a isso--disse o brazileiro. + +--Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da papelada outra +vez. + +--Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, depois de tomar +á esquerda pelo Castro e vir direito á Palhoça. Não tinha cruzes nem +cunhos. Ia-me parte da propriedade. + +--Ah! ah! ah! Tambem não gosta? Diga-me d'isso!--berrou o sr. Joãozinho. + +--Não é não gostar, é que o traçado era pessimo. + +--Não sei por quê. + +--Só a expropriação da minha quinta por que preço não lhes ficava? + +--Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu modo--notou o padre +cura. + +--E por onde ha de ir então a estrada? + +--O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do +capitão-mór, faz um viaducto nos lameiros, atravessa o pinhal do Conego, +passa o rio n'uma ponte e... + +--Oh com os diabos; o que ahi vae! + +--Não é tanto como parece; sendo as obras bem dirigidas... Até aos +lameiros só tem a deitar abaixo a casa e o quintal do herbanario. + +--Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de paixão, +se tal fazem--disse, com certa commiseração, o sr. Joãozinho das +Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera affeição e respeito, +n'elle excepcional, desde que lhe attribuia a cura de um typho que o +tivera ás portas da morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com +uns cozimentos sómente d'elle sabidos. + +--Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está maluco de +todo--redarguiu o brazileiro. + +--Tambem está um bom magico, está--notou o padre. + +--Quer não, que sabe mais do que todos os medicos--acudiu o sr. +Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. Oh que +excommungada! + +E principiou a fazer a historia da sua doença. + +Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas attribuiam-lhe +mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina. + +--Pois a final por onde devia ir a estrada--continuou o +brazileiro;--tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso +não se fala, já se sabe. + +--Ora! pois está de vêr--concordou o padre. + +--E o conselheiro não se ha de oppôr á expropriação da casa do +herbanario, porque pelos modos elles não andam muito correntes--lembrou +um lavrador. + +--É verdade; por que seria aquillo?--perguntou outro. + +--Elles em tempo eram muito um do outro; e são até +aparentados;--explicou o brazileiro--e o velho ainda hoje é tratado com +familiaridade pela gente do Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle +genio exquisito que tem, disse algumas verdades ao conselheiro, por +occasião de umas eleições, quando elle pôz as auctoridades a trabalhar +por si, e o velho entendia que as coisas não iam bem assim. + +--Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte +conselheiros e toda a familia,--exclamou o sr. Joãozinho, batendo outra +punhada--e queira elle, que o tal senhor não põe mais o pé nas camaras, +mandado cá pela terra. + +--Eu gósto de os ouvir,--disse o padre--falam assim, mas em chegando a +occasião, vão todos votar n'elle como carneiros. + +O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto. + +--Pois havemos de vêr o que será!--berrou o sr. Joãozinho.--Isso é +consoante cá umas coisas. + +--A falar a verdade--disse o Pertunhas--não tem pago muito bem ao +circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só essa teima agora em +querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio! + +--Essa a falar a verdade!--disse um lavrador. + +--Quero vêr se me hão de enterrar a mim!--disse ameaçadoramente o sr. +Joãosinho, como se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas +vontades á fôrça de murros e de pragas. + +--Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. É moda e +acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda a gente e não havia mais doenças +do que agora--isto dizia o padre. + +--Os romanos tinham as suas catacumbas--ponderou o mestre de latinidade, +forçando as suas reminiscencias romanas. + +--Vamos--ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo +discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade +scientifica.--O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque os +chimicos sabem que... o ar que não é puro... é mau para a saude publica. +Ora os cadaveres... em putrefacção produzem uns vapores que corrompem o +ar... Ha uns insectozinhos invisiveis que a gente respira... e vão para +a massa do sangue e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a +febre são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se sáem, +muito que bem; e se não sáem, ficam retidos e azedam o corpo todo. + +A theoria physiologica pathologica foi recebida com attenção igual á que +merecera a economica. + +--Tudo isso será assim,--disse o padre--mas o conselheiro faz aquillo +por instigações das lojas maçonicas e dos pedreiros livres. + +--Pois elle será tambem?...--disse um dos lavradores, arregalando os +olhos assustados. + +--Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da sucia. + +--Corja!--resmungou o sr. Joãozinho. + +O brazileiro, que se filiára no Brazil na maçonaria, fez um discurso +sobre os fins da sociedade, que ninguem entendeu; vendo, porém, que não +calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo. + +--Elle não será mação--disse d'ahi a momentos o padre--mas é vêr o que +elle tem defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e ás freiras +os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o exemplo do cunhado, que se +encheu com a compra do Mosteiro; queria acabar com o santo sacramento do +matrimonio; queria que cada qual seguisse a religião que muito bem lhe +parecesse. Vejam que christão aquelle! + +Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras +de censura. + +--E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos. + +--A falar a verdade, os vinculos...--murmurou o sr. Joãozinho, que por +vezes tropeçára nas disposições da antiga lei vincular, ao caminhar na +estrada da dissipação; porém, recordando-se de um irmão que tinha, +casado e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa de +muito trabalho, a ideia da abolição dos morgados não lhe sorriu e +exclamou com nova punhada:--Acabem lá com os morgados quando quizerem, +que o que eu lhes digo é, que tem de se haver commigo quem quizer +tirar-me um palmo de terra! + +O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o conselheiro. + +O pae de Magdalena militára sempre, como já dissémos, nas fileiras do +partido mais liberal, e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a +maioria do clero, que, entre nós, não espósa ardentemente aquellas +ideias. + +No principio da sua carreira parlamentar, cedendo ao impulso do +enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára desassombradamente a +bandeira do partido progressista e pronunciára os mais absolutos artigos +d'aquelle credo politico; liberdade era então o seu mote favorito; a +liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as reformas +consequentes nos codigos, a desamortisação e desvinculação da +propriedade, tudo advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas +palavras soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra de +outro catecismo. + +Com o tempo arrefeceu, porém, esse enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o +fogo da mocidade. Com quanto liberal ainda de convicção, ensinou-lhe a +politica pratica a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios +doutrinarios, a contemporisar, e até quando as conveniencias, +infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos de +retrocesso e a transigir com o partido opposto. + +Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformar em projecto de lei +nenhuma d'aquellas medidas por que pugnára nos seus primeiros discursos, +e que tantas malquerenças lhe acarretaram então. + +Já atraz dissémos, que o conselheiro era actualmente um espirito pouco +apaixonado do ideal, respirava a atmosphera de desillusão e de +scepticismo, em que nas grandes cidades se vive. Era um perfeito homem +de côrte; tratava cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo +d'elles mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás vezes da +tribuna e depois apertava-lhes a mão nos corredores das camaras e nas +praças. Se o julgava vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases +sonoras, uma d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no +principio da sua carreira adoptára com sinceridade; mas não tinha já aos +principios o amor preciso para cair, abraçado n'elles, dos degraus do +poder, se algum dia os chegasse a subir. + +Por isso os soldados rasos do seu partido, os politicos em abstracto, +unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o taxavam de frouxo +e tibio; e de gazeta na mão havia muito que lhe dictavam, do obscuro +canto do paiz em que viviam, a estrada direita, de que elle, porém, a +cada passo se desviava. + +Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por os +seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má fé, a acoimal-o +de impio, de republicano e de pedreiro livre. + +O brazileiro entrou em dissertação a respeito de todas as medidas +politicas a que alludira. + +Segundo o costume, ninguem o entendeu. + +Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um +tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra espreitar á +porta, voltou-se, exclamando: + +--Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro! + +Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que mais de má +vontade o fez foi ainda assim o brazileiro. + +Dentro em pouco todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que +montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um pequeno +baio de fórmas elegantes e olhar vivo. + +O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e +patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi +todo o effeito da conversa que descrevemos. + +Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, dispoz-se +para entrar na venda. + + + + +XII + + +O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se sentar nos +bancos de pinho do estabelecimento de Damião Canada, envernizados já +pelo uso de muitos annos. + +Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com +attenções e o flagellava com obsequios. + +O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia +satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e +conversando com aquella familiaridade, tão sabida de candidatos a +procuradores do povo, nos circulos que pretendem representar. Até chegou +a levar aos labios o copo de vinho, que um lavrador lhe offereceu. + +Não se lhe percebia porém no rosto, ao fazer isto, o menor vestigio de +artificio, e, ao mesmo tempo, mantinha-se ainda n'elle tão apparente a +superioridade intellectual, que os seus interlocutores nunca excediam os +limites da deferencia. O pae de Magdalena era um perfeito homem de +côrte: presença agradavel, modos insinuantes, palavras tão +astuciosamente lisonjeiras, que desvaneciam os proprios que como taes as +tinham. + +Alvejavam-lhe já algumas cãs nos cabellos e suissas, que usava talhadas +á moda ingleza; principiava a predominar-lhe nas fórmas certa +rotundidade caracteristica; mas no esmero e até elegancia distincta de +casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, nos movimentos +ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza das conversas, +havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que ninguem se +sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que não perdera +ainda. + +Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e +não obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se que assim +fôsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro olhar lançado sobre elle. + +Possuia o dom especial de se encontrar á vontade em toda a parte, desde +o mais perfumado gabinete da moda, até o menos asseiado local de um +comicio popular. Nas camaras com graves diplomatas, nos cafés com +rapazes estouvados, na sua aldeia com eleitores absurdos, com actores e +actrizes nos bastidores, com padres nas sacristias, com militares nos +quarteis, em toda a parte e com todos se achava este homem á vontade, +acabando, quasi sempre, por captar sympathias. + +Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da +opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezão, a phrase +conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho +popular, a figura oratoria, a maxima moral, e até a praga energicamente +expressiva; mas, como os espadachins de profissão, jogava-as todas com +frieza de animo, cada qual na occasião opportuna e com perfeita +observancia do que o mundo chama conveniencias sociaes. + +Muito tinham que fazer com elle os La Bruyères, que, a cada passo, ahi +encontramos no mundo; illudia os mais atilados. Ás vezes parecia +abrir-se tão do intimo, tão completamente e sem condições nem reservas, +havia tal uncção de sinceridade nas palavras, com que falava de si, dos +seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado jesuita +sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; outras, +falava verdade, mas com taes hesitações na voz, com tal mobilidade no +olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua creança experimentaria o +despontar da primeira dúvida. + +Já se vê que um homem d'estes era um contendor de muita fôrça, para +poder ser combatido por qualquer dos influentes locaes; o proprio +brazileiro, apesar de toda a sua economia politica, ainda nada pudéra +contra elle; nem ousára romper hostilidades com receio de ficar vencido. + +Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do +Damião Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a conversa que +precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. Tres ou quatro +lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos modestamente pedidos +com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente. + +Deixemol-o nós na laboriosa e pouco invejada tarefa de manter a +popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae á porta da +venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro. + +Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com +aquelle alvoroço do coração, que conhece quem já foi estudante e se +recorda ainda do que experimentava ao vêr de longe despontar o telhado +da casa paterna, onde vinha gosar as delicias de umas almejadas férias. + +Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma agradavel +figura de creança, expressiva de intelligencia e de vida. Tinha nas +feições um mixto da delicadeza de Magdalena e da energia varonil, e ao +mesmo tempo attrahente do conselheiro. + +O cabello louro e curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis +naturaes, com grande vantagem para a espaçosa e bem modelada fronte. + +Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do +Mosteiro estavam todas obscuras, á excepção das aguas-furtadas, +correspondentes aos quartos das creanças. Angelo desmontou e +cautelosamente se dirigiu a pé para casa. + +Torquato dormia á porta, como frequentemente lhe acontecia.--Angelo pôde +assim penetrar sem ser percebido até o mais intimo da casa, até os +aposentos onde dormiam as creanças, e em cujas janellas avistára luz. + +A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe no coração uma suave e +encantadora alegria. + +O mais novo dos seus primos, creança de tres annos, estava meio nú e de +joelhos sobre o leito com as mãos erguidas e os olhos fitos em um +crucifixo que tinha á cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe +as palavras da oração, que a creança repetia, cheia de fervor. + +Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar +das continuadas advertencias da prima. + +Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para +beijar a creança, elle estendeu a cabeça e pousou tambem um beijo nas +faces da irmã. + +Magdalena soltou uma exclamação de surpreza e cingiu-o nos braços com +effusão. + +A creança levantou um brado, que foi o signal de revolta dado a Marianna +e Eduardo, que cêdo abandonaram os quartos e correram a abraçar Angelo. + +--Vens só?--perguntou Magdalena ao irmão, quando uma pergunta lhe foi +possivel. + +--O pae ficou na loja do Canada--respondeu Angelo.--Estava em sessão a +assembleia dos notaveis. E como estás tu, minha Lena, tu e Christe e a +tia? Como vae toda essa gente? + +--Anda tu mesmo sabêl-o. + +--Eu vou dizer á mamã--disse Marianna, saindo aos saltos. + +--Eu vou chamar Christe--disse Eduardo, imitando-a. + +E sairam ambos, pregoando a chegada do primo. + +O pequeno que Magdalena deitára, pedia, chorando, para se tornar a +levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido. + +--Dize-me--continuava no entretanto este para a irmã--tens-te enfastiado +muito, aqui só? + +--Não, tenho-me divertido até. + +--Devéras? E que fazes? Em que passas o tempo? + +--Eu sei? O tempo é que passa, sem eu dar por isso. Leio pouco, passeio +muito; trabalho mais. + +--Que tens lido? + +--Quasi sempre relido. + +--O quê? + +--Nem eu sei já. O primeiro livro em que pouso a mão, quando os vejo +sobre a mesa. + +--O Augusto tem vindo ensinar os pequenos? + +--Todos os dias. + +--E o tio Vicente? Que me dizes d'elle? + +--Vae bom. Caiu no outro dia á levada da raiz do monte; valeu-lhe o +Augusto para o salvar. + +--Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorothéa? + +--Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas; +conheces? + +--Eu não. + +--É provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em que lhe +chamemos primo. Aviso-te d'isso. + +--Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados? + +--Coitada! Achei graça, ha dias, á Joanna, que com muita ingenuidade se +me veio queixar de que ella até o anjo da guarda lhe occupava em serviço +proprio. Tu sabes que a tia, quando está com muito somno, tem aquelle +costume de dizer ás criadas que a encommendem ao anjo da guarda d'ellas. +Mas vamos. + +--Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas? + +--Trouxe. + +--É verdade; e a filha d'elle? A Lindita? + +--Já cá me ia tardando a pergunta--notou a morgadinha, rindo.--Essa anda +contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades. + +--Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia. + +--Então devéras esse coração está assim tomado? + +--Não te informo do meu coração, que o não levo commigo, quando d'aqui +vou. Cá me fica; e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que +pergunto; em que estado m'o entregas? + +--Muito doente. + +--Sim? E o teu? + +--O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto de corações são como as +creanças. As travêssas tantos cuidados dão ás mães, que a todos os +instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; as socegadas +inspiram tal confiança, que nem sequer n'ellas se pensa. O meu coração é +um modelo de serenidade. + +--Então ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador... + +--O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d'estas immediações, +capaz de ferir a imaginação e commover os affectos de uma mulher, é o +sr. Joãozinho das Perdizes; mas esse é um Actéon insensivel, que... + +--É verdade--disse Angelo, rindo--lá vi tambem esse javali na venda do +Damião Canada. Mas... Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de +dizer umas coisas. + +--A mim? A respeito de quê? + +--Do teu coração. + +--Que sabes d'elle? + +--A seu tempo direi. + +--Como te vieram essas presumpções de conhecedor dos corações alheios? +Não tinhas isso, quando d'aqui foste. + +--Ás vezes vê-se melhor de longe. + +--Os de vista cançada... de muito vêr. + +--Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa gente, que o pae não +tarda ahi. + +De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das salas +principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de braços, +tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, encostava-se-lhe familiarmente +ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o braço, em +que recostava a cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, +D. Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos pequenos +que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficar a +pé, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e +Eduardo, com as historias que lhes contava. + +A conversa cêdo se generalisou. Era uma d'essas conversas intimas, +familiares, em que se referem as mais insignificantes circumstancias da +vida domestica; conversas cujo suave perfume só em familia se aprecia. + +Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos +apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, e se vê +obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que não +é a sua! É uma pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que +para todos é de igual interesse a narração dos successos domesticos, que +tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifferente que se +lhes depara; tudo trazem á luz, o dicto agudo da creança de tres annos, +os incómmodos que soffreu na primeira dentição, as espertezas do gato +favorito, as razões ponderosas que aconselharam a mudança de um movel, a +combinação economica que favoravelmente modificou o orçamento domestico, +a reforma nos processos culinarios consagrados pelo habito de muitos +annos, o exame comparativo da conserva de um anno e da do anno +antecedente, os defeitos e qualidades de um criado e mil outras pequenas +coisas, que é forçoso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o +que obriga a esforços sobrehumanos. + +É natural aquella illusão; e pathetica a dissemos nós tambem, porque os +que mais de coração se entregam á vida domestica, são os mais sujeitos a +ella. Todos estes episodios futeis e pueris os preoccupam e deliciam +mais do que as mais estranhas peripecias, que ainda concebeu a +imaginação de romancista fecundo. E quem se lembra de que é +individualissimo esse interesse, inherente á pessoa e não aos factos, ás +causas que tão curiosos lh'os fazem ser? + +Eu e o leitor, estranhos á familia do Mosteiro, vêr-nos-iamos, se +fôssemos escutar todo o dialogo que se travou na sala, na posição da +pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses relatorios +domesticos, a que sobre tudo são tão inclinadas as mães de familia. + +É verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; e o +conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle achasse +curioso é porque realmente o era. D'esta vez, porém, damol-o por +suspeito, porque o conselheiro tinha coração e, quando esta viscera se +alvoroça com affectos, as intelligencias mais elevadas teem d'estas +sympathicas fraquezas. + +O politico, o diplomata reservado, fica fóra do portão da quinta do +Mosteiro; alli dentro, n'aquelle circulo de affectos, era o pae +extremoso, o homem de familia, ingenuo, sincero, aberto a todos, porque +em todos confiava, contente por não ter de estudar na expressão dos +rostos os pensamentos que se guardam; nas palavras o sentido, que +n'ellas não vem explicito. + +Era um salutar descanço dos continuados esforços da sua vida de Lisboa; +lá a lucta; aqui o repouso. + +Por isso ouvia com attenção e applaudia com vontade as narrações da +cunhada, de Magdalena, de Christina e até da pequena Marianna. + +E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro não +poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o vertiginoso +movimento da sua vida politica. + +Eram-lhe já necessidade aquella contenção, aquelle esforço de espirito, +aquellas desconfianças continuas, aquelle jogo de astucias, que lhe +tomavam em Lisboa todo o tempo. + +Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o +afan da capital; nem os affectos da familia o retinham. + +A politica é uma embriaguez; nos intervallos em que o espirito se sente +desanuviado dos vapores em que ella o envolve, pesam-nos os desacertos a +que fomos arrastados; o desgosto do mal feito insinua-se-nos no coração; +cêdo, porém, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da consciencia, +e de novo nos arrasta. + +O caracter intimo da conversação foi levemente modificado por a entrada +de D. Dorothéa e de Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram +visitar o conselheiro, mal tiveram noticia da sua chegada. + +O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e +com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa. +Frequentavam ambos os principaes círculos da capital e, por mais de uma +vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em conversas e +discussões communs. + +Passado algum tempo depois dos cumprimentos, o serão animou-se de novo, +fragmentando-se porém a conversação. + +D. Victoria tomou á sua parte D. Dorothéa e passou a fazer-lhe amargas +queixas a respeito dos criados do Mosteiro, ao que D. Dorothéa acudiu +com conselhos de resignação christã. + +Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente fazia +rir. + +Henrique e o conselheiro, proximos do fogão, estavam empenhados n'um +dialogo muito animado. + +O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que +surprehendiam Henrique, que ainda o não tinha observado por esta face. + +--É uma triste verdade--dizia por exemplo o conselheiro n'um ponto +adeantado da conversa, referindo-se a algumas considerações de Henrique +sobre a felicidade d'aquella vida do Mosteiro.--Tenho esta familia que +vê; todos me querem sinceramente aqui, e não sei resistir á fatal +necessidade que me arranca de todos estes braços para me lançar ao +turbilhão da politica e d'isso que se chama o mundo! Pois amo devéras a +minha Lena, creia. + +--É um dever que cumpre. N'estes tempos de má fé politica, quem se sente +com a coragem de se votar, corpo e alma, á defeza despreoccupada dos +bons principios... + +Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de +descrença, meio de melancolia. + +--Defeza despreoccupada? Isso é quando Deus quer--respondeu elle.--Olhe, +Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a cuja porta eu +deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso no mundo, +vae vêr em mim o homem que talvez não esperasse e que, já lhe digo, +debalde procurará reconhecer um dia, se me observar outra vez em Lisboa. +O que lhe vou dizer não lh'o diria, nem lh'o repetirei lá. É verdade que +estes ares do campo tambem actuarão em si para me apreciar e tomar á boa +parte a franqueza. Lá não acreditaria n'ella; se por acaso não a +aproveitasse como arma politica contra mim... + +--Pois julga?... + +--Peço perdão, se o offendi com isto. Não era esse o meu intento, mas é +pratica tão geral!... Se um dia fôr politico, o que lhe não desejo, +dir-me-ha. + +Dizendo isto, fez uma curta pausa na conversação. + +Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu: + +--Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e +através de tudo. Não sei se quiz ser lisonjeiro e disse o que não +sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo o caso, eu, aqui no +Mosteiro, acho-me muito ás ordens da minha consciencia, a qual não me +deixa calar hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem +politico, a que alludiu. Humildemente o confesso; até porque, se +quizesse sel-o, arriscar-me-hia a achar-me só, não teria partido. +Porque, qual é o que vê nas condições de constancia de opiniões que +disse? Tenho crenças politicas, é verdade; espóso no coração certos +principios que quizera vêr realisados, mas não combato por elles a todo +o transe, nem por elles affrontaria o supplicio; antes, por vezes, entro +em transacções, que são a completa negação da divisa da minha bandeira. +E este peccado não sou eu só que o commetto; é um peccado venial da +nossa época. As grandes ideias, que definem e estremam os campos na +politica, havemol-as eu e os mais calcado muitas vezes aos pés, para +sustentar umas insignificantes fórmulas, um interesse mesquinho, um +capricho pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem é +isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que de fóra +nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados na minha carreira +publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro n'elles? quando me +persuado de que não são de todo desculpaveis? quando... porque o não +direi? quando sinto remorsos de os ter commettido? É aqui, é perante a +boa fé, a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que +me considera um homem perfeito, superior, impeccavel. É perante os +generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella +creança--e indicava Angelo com o gesto.--Parece-me que tenho n'elles +juizes inflexiveis, e escondo por isso a minha face politica dos seus +olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo é já +indulgente, mas que receio elles me não perdoassem. + +Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta +effusão de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo: + +--Estou a vêr que não esperava estas palavras da minha bôca; esta +confissão de peccador contricto. + +--Confesso que não. + +--Então que quer? Surprehendeu-me aqui com o coração aberto. Já agora +deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual é? +Vê aquella creança que alli está? Angelo? É uma intelligencia que, de +dia para dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. Não é +a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. Conhecendo-o de perto ha +de dar-me razão. Mas o que ha além d'isso n'elle é um senso +profundamente moral, raro até em idades menos tenras. Pois bem, quando +penso n'elle por algum tempo, e conjectura que não serão poucas as vezes +em que o faço?... quando penso n'elle e no futuro, sobresalto-me. De um +lado, seduz-me abrir-lhe a carreira politica, onde ha grandes triumphos +a embriagar as intelligencias e onde presinto que a d'elle terá o +direito, se não o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que +na atmosphera d'aquellas regiões não duram muito estas primitivas +canduras da alma, tão adoraveis e consoladoras, quando me lembro de que +Angelo será um dia... o que eu já hoje sou, um pouco desilludido, um +pouco sceptico... com franqueza o digo, hesito em impellil-o ao +redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais não valeria dizer-lhe: Angelo, +vive obscuro e tranquillo n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a +ideal pureza da tua alma e procura a felicidade nas satisfações do +coração. A lucta da vida pode embriagar-te, filho, mas não te fará +feliz. + +--Mas não admitte possivel que um homem possa atravessar a vida +politica, sem sacrificar um só artigo do seu primitivo credo? + +O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu: + +--É difficil. Se um dia a fôrça das circumstancias realisasse, como um +phenomeno natural, uma revolução completa nas camadas politicas do paiz +a ponto de trazer á superficie de uma só vez uma geração nova, +impolluta, inspirada de sentimentos generosos e de sinceras crenças, +então sim, não bastaria o tempo de uma vida para produzir n'esses homens +reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo exemplo e vigilancia, +a inquinação que eu receio. Mas lance esses mesmos homens, um a um, a +sós com os seus principios e com os seus esforços, insulados no meio de +uma camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, após uma +lucta impotente de momentos, ou se retirará, fiel aos principios, mas +desanimado pela inefficacia da sua intervenção, ou ficará, cedendo á +corrente e deixando-se penetrar do espirito pouco ideal, que rege as +massas. Só um d'esses caracteres de excepção, que são raros na historia +do mundo, é que poderia luctar e vencer na lucta. E a esperar tanto de +Angelo não chega o meu affecto paterno. + +--Não o fazia tão pessimista, sr. conselheiro;--disse +Henrique--conceda-me que julgue em demasia carregadas as côres do quadro +que me faz. Eu não creio que a corrupção... + +--Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, relaxação, +tibieza de fé politica, indifferentismo... em todo o caso será uma +doença social. Assim abrandada a fôrça da expressão, não ponha +difficuldades em adoptal-a. Não se me pode levar a mal o propôl-a, desde +que principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa. + +--Nunca esperei encontral-o tão desilludido. Eu, que me não tenho ainda +assim por demasiado crente, creio que quem entrar na politica sob a +égide de uma convicção profunda, pode... + +O conselheiro interrompeu-o. + +--Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? É +aquella de que nos dá uma eloquente mostra a historia do aldeão do +Danubio. Sair um homem de um canto retirado da provincia, um pouco +montanhez, e escudado só da sua boa fé, achar-se de repente no meio de +um circulo luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir +ahi aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra; +vêr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder resalvar as +suas crenças d'aquelles sorrisos; sentir o ridiculo a seu lado, e ousar +fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada passo, as vozes seductoras da +moral elegante e facil, que hoje domina, e conservar-se fiel á austera e +rude moral que lhe falava entre o rumorejar das folhas da sua aldeia nas +longas horas de vigilia e de estudo, que lá teve; cair embora, mas cair +fiel á consciencia, como um leal cavalleiro da idade média caía pela +dama de quem trazia a divisa: é uma especie de lucta, para que não +abundam lidadores, e nem sempre se deve lançar o labéo de traidores aos +que mentem á sua antiga profissão de fé. A maioria cede com boas +intenções. O perigo está em chegar a persuadir-se de que as suas +convicções eram sonhos, em perder o amor ás utopias. Eu confesso que só +quando aqui estou é que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro +tempo lhes tive. + +N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um +dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do +conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de processos, como o +mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua +paixão pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, só por gosto +de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislação +especialissima, reguladora da propriedade rural, fomenta estas +disposições no espirito dos camponios, das quaes os juizes são as +miserandas victimas. + +Depois de grande exhibição de cortezias, para a direita e para a +esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu +lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade. + +O homem que tão judiciosa dissertação acabava de fazer sobre a politica +abstracta, sentiu, na presença do recem-chegado que de novo o abandonava +o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica, +sob a feição mais mexeriqueira que ella pode revestir. + +Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fôrça +ou vontade dos representantes. + +Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das senhoras, no +grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo. + +Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores; +reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve +ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de +Christina. + +D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco na conversa, +e desviando-lhe o curso, fizeram-a cair sobre o assumpto das proximas +consoadas. + +Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o +Tapadas: + +--Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso é +que eu não transijo. Ninguem é mais condescendente do que eu, menos no +que pode arriscar a vida de muitos e entre essas as dos que me +pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes dias deve chegar uma +portaria, mandando expressamente cumprir a lei. Consegui isso do +governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo, +levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, graças +a um preconceito tolo, á má fé de alguns padres, á frouxidão das +auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se +enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos +d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da +igreja onde a extrema devoção d'este povo accumula em certos dias, +durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de fieis. Portanto, +com isso não transijo. Hei de acabar com o abuso. + +--Pois sim... mas agora na occasião das eleições... sr. conselheiro, não +sei se faz bem. + +--Para compensação trataremos de apressar o principio das estradas; +tambem o pude conseguir. + +--Inda assim... Receio alguns motins. + +--Reprimem-se. + +--O peor é que ha de haver quem lance mão d'essa arma contra nós. + +--Quem? + +--Ora! não falta quem. Basta o missionario, que já prégou contra isso. + +--Não tenho mêdo. Quando muito, algum motimzito sem consequencia. +Leve-os por bem. E se fôr preciso fale ao ouvido d'esse tal +missionario... O homem que quer? Provavelmente alguma abbadia? algum +canonicato? É preciso vêr isso. + +--Elle diz que não quer nada. + +--Bem sei, todos dizem o mesmo--disse o conselheiro, com a sua descrença +de homem politico. + +Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto a opinião publica era, por +toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo não +estava de todo limpo do preconceito geral, mas a sua affeição ao +conselheiro obrigava-o a digerir a disposição legal, conforme podia. + +Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se: + +--Vem em má occasião a medida, vem; é arrojada para épocas eleitoraes; +se houvesse um chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso +não transijo. + +Eram dez horas quando se levantou a sessão, e Henrique voltou com a tia +para Alvapenha. + + + + +XIII + + +Ao outro dia a impaciencia de Angelo não lhe permittiu longa demora no +leito. Tardava-lhe o vêr todos aquelles sitios, tão seus conhecidos; +arvores que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos, e +quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almoço; resignou-se +porém a não ultrapassar, até então, os muros da quinta. Logo porém que +sorveu á pressa o ultimo golo de chá, partiu, veloz como uma lebre, sem +nem sequer dar ouvidos á enfiada de recommendações de sua tia D. +Victoria, que teimava em o querer prevenir, com sócos, gabão e +guarda-chuva, de uma hypothetica mudança de tempo. + +Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma +recordação e uma saudade; mas seguia sempre, como quem não errava ao +acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio por um intento, +que tinha pressa de realisar. + +Atravessou grande parte da aldeia, cortejado, cumprimentado e festejado +por quantos encontrava pelos caminhos, ou ás portas e janellas das +casas, nos campos e nos ribeiros. + +Chegou emfim á casa, onde já dissemos morar o recoveiro Cancella e a sua +filha Ermelinda. + +Era evidentemente aquelle o termo proposto por Angelo ao passeio +matinal, porque retardou o passo á medida que se approximava, e parou á +porta da casa. + +Achou-a fechada, mas não lhe causou isso embaraço. + +Como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente +o muro do quintal, construido de pedras soltas, e dispoz-se á escalada. + +Com a agilidade e destreza proprias de quem passou na aldeia os +primeiros annos da vida, o irmão de Magdalena trepou sem vacillar até o +alto do muro, e n'um momento pousou os pés no chão do quintal. + +Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precaução e, com mais +precaução ainda, se dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era o +logar de recreio do pequeno horto. + +Foi motivo d'estas precauções o ter já avistado, por entre os troncos e +a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou conhecido. + +Assim se foi approximando sem que o presentissem e, occulto por detraz +de uma sebe de roseiras silvestres, poz-se á espreita. + +Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal. + +Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que mezes antes +havia sido derrubada, a filha do Cancella e afilhada da familia Zé +P'reira, tinha todas as faculdades applicadas á decifração dos +hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto, que segurava +nas mãos, e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura e, +erguendo a cabeça para o céo, parecia repetir o que lera, como se +pretendesse decoral-o. + +Angelo applicou mais o ouvido, a vêr se alguma das palavras, que ella +declamava, lhe revelava a natureza do manuscripto. + +De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais audivel e elle escutou a +seguinte quadra: + + + --Que lamentavel tragedia, + Que os meus olhos tristes viram! + E publicam minhas vozes + Aquelles que não ouviram! + + E principalmente o rei, + Que se chama o rei tyranno, + N'esta região remota + Do Egypto dilatado. + + +Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabeça e repetiu: + + + --Que lamentavel tragedia + Que meus olhos tristes viram... + + +Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precaução, +veio collocar-se por detraz d'ella, sem que fôsse presentido ainda. + +Tão perto chegou, que, por cima do hombro de Ermelinda podia já ler as +quadras que ella estava decorando: + + + --Tenho mil linguas, mil bôcas... + + +ia Ermelinda continuar a ler, quando uma respiração mais profunda de +Angelo a fez desviar a cabeça. + +Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de sobresalto; depois sorriu +e instinctivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que +lia. + +Angelo segurou-lhe a mão. + +--Que estavas a ler, Linda? + +--Não é nada... + +--Deixa vêr. + +--Não deixo. + +--Por que não deixas? + +--Para não ser curioso. Que modos são esses de andar a escutar a gente? + +--Pois sim, sim; mas deixa-me vêr os versos. + +--Não são versos. Quem lhe disse que eram versos? + +--Pois não ouvi? Que era isso de tyranno e de Egypto, que dizias? + +--Que ha de ser?--disse a final Ermelinda, dando-lhe o papel.--São os +versos do auto dos Reis. Sabe agora? + +--Do auto dos Reis? Ai, sim; está a chegar o dia! Mas que tens tu com o +auto dos Reis? + +--É que este anno meu pae quer que eu seja a Fama. + +--Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E já sabes os versos? + +--Estava a decoral-os. + + + --Tenho mil linguas, mil bôcas... + + +dizia Angelo, lendo no principio.--O que é pena é pôr uma chochice +d'estas na bôca de uma Fama como tu. + +--Que está a dizer? Então os versos não são bonitos? + +--Oh! pois não são!--exclamou Angelo, gracejando.--São uma perfeição! + +E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os com accentuação e +emphase comicamente exaggeradas. + +--Ora ouve lá: + + + Sabei que aquelle Herodes, + Lobo cruel carniceiro, + Tremendo de inveja pura + Lhe venham tirar o reino... + + +--Então que ha que dizer a isto? + +E proseguiu: + + + Feria raios de fogo + De seus olhos com mudança; + E só pretende fazer + Alvo da sua vingança. + + +--Isto é claro e sublime! + +--Lendo assim, pudéra!--disse Ermelinda, rindo. + +É preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos +estamos referindo, não são obra da nossa imaginação. Por ahi corre +manuscripto o auto, mais ou menos extravagantemente orthographado, +segundo o systema ou o capricho do copista. Em quasi todas as aldeias +dos arredores do Porto podem vêr em cada anno representado este ou outro +analogo, com applauso e gloria da arte. Ás mãos nos veio uma d'essas +cópias, á qual, menos na orthographia, escrupulosamente nos cingimos. + +Angelo era talvez em demasia severo na apreciação critica sobre o +merecimento litterario da obra, ao chamar-lhe uma chochice. É raro que a +musa popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspiração. N'este +mesmo auto, se encontram vestigios d'ella. Mas não é nossa missão +apreciar as opiniões dos actores que pomos em scena; tão sómente as +registamos, sem nos responsabilisarmos por nenhuma. + +Angelo redarguiu á reflexão de Ermelinda: + +--Pois bem; para que não digas que é da maneira de ler, que elles +parecem chôchos, repara; vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora +escuta. + + + Que quantos até dois annos + Em Belem fôssem nascidos, + E toda a sua comarca + Matassem a ferro frio + + Sem excepção a pessoa + Que nos districtos se achasse, + Entendendo d'esta sorte + Que nós lhe não escapassemos. + + +--Olhem que semsaboria! + +Esta divisão administrativa e judicial, em districtos e comarcas, que o +auctor fez na Judéa e que tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas +liberdades shakspeareanas, que se devem perdoar aos genios. + +--E não foi assim?--perguntou Ermelinda, que não percebia ainda o motivo +dos reparos de Angelo.--Pois Herodes mandou matar todas as creanças da +Judéa; então não mandou? + +--Mandou, mandou; mas a Fama é que devia contar isso melhor. + +--Melhor?! Então não é bonito esse verso? + +E Ermelinda, tirando o manuscripto das mãos de Angelo, leu a seguinte +quadra: + + + Para livrarem seus filhos + Da morte dos innocentes, + Dos braços faziam cruzes + Aquellas mães impacientes. + + +Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam a belleza, +talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem. + +Esta pequena contenda litteraria entre duas creanças podia dar margem a +profundas reflexões a quem para ellas estivesse disposto. + +Angelo estava no principio de uma educação esmerada. Principiára já a +desenvolver-se n'elle a intelligencia, e a acordar os instinctos +artisticos que estremeciam já sob as primeiras seducções da fórma. +N'estas épocas criticas, em que esses segredos se revelam, é tal o +encanto em que elles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo +culto, com a fanatica intolerancia. Onde as louçanias do estylo, os +primores e a sonora harmonia do metro, e o brilhantismo das imagens nos +não afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na +sombra muita belleza real, ás vezes occulta sob a grosseira revestidura +da poesia ou narrativa popular. + +É necessario que passe o enthusiasmo, a violencia da paixão nascente, +que venha a frieza de animo necessaria á imparcialidade do juizo, para +que nos não cause repulsão a aspereza, e grosseria até, da fórma e +consigamos apreciar o bello que por ventura n'ella se envolva. + +Dá-se com a belleza da ideia e da fórma de qualquer obra litteraria, o +que se dá com a belleza moral e a belleza physica de uma mulher. + +Ambas são feitas para nos commoverem e dominarem. Mas, quando o assomar +de um sentir novo começa a alvoroçar o sangue do adolescente, quando +fórmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe os sonhos de suas +noites febris, a paixão da fórma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma +modelação perfeita, um delineamento gracioso poderá decidir da sua vida +inteira, e na fascinação que o cega, nunca verá a formosura da alma, que +se abriga n'uma pouco feliz encarnação. É que para apreciar a belleza +moral, para a vêr transparecer, através do involucro exterior é preciso +deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou não a ter ainda +experimentado. + +Por isso na infancia e nas idades viris é que melhor se apreciam essas +fealdades, que escondem um coração angelico. A adolescencia é impiamente +cruel para com ellas. + +Por uma lei analoga é o povo, o simile da creança, porque não tem os +sentidos educados para as mais subtis bellezas da fórma, e é o homem a +quem ella já não fascina, embora ainda e sempre o deleite, como +poderosissimo elemento de belleza litteraria,--são estes os leitores que +mais aptos estão para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre +muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou +a officina do artista. + +Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo não perdoou ao auto. + +--Sabes que mais? Não decores isso--disse-lhe elle resolutamente. + +--Meu pae quer. + +--O que é que quer teu pae? + +--Quer que eu entre no auto. + +--E has de entrar. Quem te diz que não? + +--E quer que seja a Fama. + +--E has de ser a Fama. + +--E não hei de falar? + +--Has de falar. Tinha que vêr uma Fama que não falasse. Para que lhe +serviriam as cem bôcas? + +--Então? + +--Então; é que não é forçoso que digas o que ahi está. + +--E que hei de eu dizer? + +--Outra coisa. + +Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir comprehendel-o. + +--Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente. + +--Olha, proseguiu Angelo.--D'aqui até chegar o dia do auto vae muito +tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em logar d'esses. + +--E onde os tem? + +--Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta que no dia recites, em vez +d'esses, os que eu te der!... + +--Mas que dirá meu pae e o sr. Pertunhas? + +--O mestre de latim? Pois que tem elle com o auto? + +--É quem ensina como a gente ha de dizer. + +--Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda para a occasião os +versos que eu te arranjar. Até ha de ter graça vêr a cara com que elles +ficarão todos, quando lhes sair uma coisa bem differente do que esperam. + +--Mas... diga: onde é que vae buscar esses versos? + +--Não sairei da aldeia para isso. N'uma visita que d'aqui vou fazer, +conto obtel-os. Agora falemos de outra coisa. Que é de teu pae? + +--Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, d'alli defronte, está +para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de +meu pae. + +--Pois vae, que eu faço-te companhia. + +E Angelo seguiu-a á cozinha, e ahi, ella sentada na soleira da porta a +escolher hortaliça, elle a dar de comer aos coelhos e ás gallinhas, se +entretiveram a conversar. + +Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe enredos de dramas +que o tinham commovido; typos e situações de romances, que se lhe haviam +gravado na memoria; invenções da arte moderna, versos, anecdotas, +contos. + +Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o. + +Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, para sair. + +--Onde é que vae? + +--Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa. + +--E ainda o não viu? + +--Ainda não. A minha primeira visita foi esta. + +--Então vá, que elle deve estar morto por o vêr. Ah!... já sei a pessoa +a quem vae pedir os versos! + +--Quem te disse que Augusto os fazia? + +--Eu vi-o estar a escrever na parede da capella da Senhora da Saude de +uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar +para aquelles sitios. + +--E leste-os? + +--Não, que não quiz que elle me visse. Mas que havia elle de escrever na +capella? Então não adivinhei? + +--Não sei. Adeus. + +--Diga. + +--E chamavas-me curioso! + +E Angelo saiu apressadamente. + +Momentos depois estava com Augusto. + +A conversa entre ambos teve toda a intimidade da de dois affectuosos +amigos. + +Angelo fez a narração dos episodios da sua vida de collegio; das +difficuldades e das bellezas dos seus estudos n'aquelle anno. Augusto, +que da aldeia com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o sobre +algumas dúvidas que tinha, e esclarecia ás vezes tambem, graças á sua +poderosa penetração e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia +deixado no espirito do seu antigo discipulo. + +A geographia e a historia, que eram as disciplinas estudadas n'aquelle +anno por Angelo, deram assumpto a grande parte d'este dialogo. + +Augusto inclinára-se aos estudos historicos, inclinação em que o +herbanario o entretinha com frequentes presentes de livros d'aquelle +genero. + +Em exame de livros novos, referencias a outros lidos, e leituras de +alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manhã, até que +por fim Angelo disse a Augusto: + +--Ah! é verdade! Tenho um favor a pedir-lhe. + +--Qual é? + +--Sabe que está para breve o dia dos Reis? + +--Sim. + +--E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; aquelle auto em que +o Herodes faz tremer meio mundo? + +--Bem sei--respondeu Augusto, sorrindo. + +--Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo; mas +se soubesse os versos que lhe deram para recitar! + +E Angelo reproduziu, como pôde, as quadras do monologo da Fama no auto +dos Reis. + +De quando em quando passava um sorriso pelos labios de Augusto. + +--Eu já conhecia isso. É o costume--disse elle no fim. + +--Mas não lhe parece que de uma Fama como aquella, se devia esperar +melhor do que isto? + +--E então que quer que eu lhe faça? + +--Outros versos para o logar d'estes. + +--Outros!... Eu?...--perguntou Augusto. + +--Por que não? + +--Que lembrança! + +--Não me venha negar que os faz. + +--Versos? + +--Sim. + +--Quer dizer que os leio. + +--E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me então quem +é que os escreveu na parede da capella da Senhora da Saude, para eu me +dirigir a elle. + +--Então houve quem escrevesse versos na parede da capella?--perguntou +Augusto, sorrindo. + +--Não que eu visse; mas já duas pessoas m'o affirmaram, e as suspeitas +de ambas recaíram no mesmo homem. + +--Quem foram essas pessoas? + +--De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda. + +--Ah! + +--A outra foi Lena. + +--Le... A sr.^a D. Magdalena? + +--É verdade, minha irmã. E estranhou, com razão, que eu o não soubesse. + +--E como o soube ella? + +--Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor. + +Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o +preoccupava. + +Angelo continuou falando, sem que fôsse escutado; a final concluiu, +dizendo: + +--Então quer falar ao poeta da Ermida para que me dê o que lhe peço? + +--Poesia não lhe pode elle dar, agora se... alguns versos o +satisfazem... + +--Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu a procurarei n'elles, até +a achar. Desde já lh'os agradeço. + +--A elle? + +--A ambos--respondeu Angelo, rindo.--E agora diga-me, Augusto: Ainda +está resolvido a viver aqui sempre enterrado? Não pensa em mudar de +vida? + +--Nenhuma outra me namora mais; o destino que a bondade da morgada me +offerecia... não tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso do +crepe. + +--Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas o Augusto não terá amigos +que ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos +pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pae já ... + +--Que quer? Não me posso vencer até pedir ou acceitar de outrem +auxilios, quando Deus m'os não tem recusado ainda; nem sei até se esses +destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. Ha indoles +que nasceram affeiçoadas para a obscuridade. Incommoda-as a demasiada +luz. Umas plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi em qualquer +canto escuso e obscuro, e lá mesmo dão flôr. Porque é isto não sei, +mas... + +--Sei eu--disse uma voz da parte de fóra da janella, junto da qual se +passára o dialogo... + +Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario desenhava-se no +vão da janella, como um retrato de velho n'um caixilho de galeria. + +--Ah! o tio Vicente!--exclamou Angelo, correndo-lhe ao encontro. + +O herbanario encostou-se, ainda de fóra, ao peitoril da janella, ficando +assim com meio corpo para dentro da sala. + +--Viva o nosso doutor--disse elle, sorrindo, a Angelo.--Por emquanto +ainda esse coraçãozito está como era. Não esqueceu os seus amigos da +aldeia. + +--Está como sempre estará--respondeu Angelo. + +--Sempre!--repetiu o velho.--Sempre e nunca são duas palavras de +terrivel significação... Mas emfim... de bom metal é o coração, assim o +não enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos... + +E mudando subitamente de tom, disse para Augusto: + +--Com que dizias tu que não sabes porque algumas plantas vivem de pouca +luz e de pouco ar, ahi em qualquer buraco do muro? É porque vivem muito +pelas raizes essas. As plantas vivem do ar pelas folhas e vivem da terra +pelas raizes. Lá diz aquelle livro da _Historia Natural_ que eu tenho. +Umas prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar +para poderem viver; outras porém, profundam tanto a terra, com tantas +raizes se seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e não desdobram +muitas folhas, nem crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como +outras ha homens no mundo. Tu és dos que deixam ganhar raizes ao coração +e d'ellas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros +procuram? Mas é preciso cautela, rapaz! Ha corações como a hera, que +onde quer que se encosta, prende-se com raizes. Quem é assim deve +dirigir com prudencia as suas inclinações. Se para mau lado dobra, se se +encosta a arvore de preço... mal d'elle! que o separarão com fôrça, +fazendo-lhe estalar todas as raizes, que o prendiam. + +As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas pelo herbanario, parecia +terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao +ouvil-as. + +--Que está ahi a dizer, tio Vicente!--disse Augusto, sem ousar fitar o +velho. + +--Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que os annos dão, vê longe e +fundo, rapaz... É verdade que... ás vezes... o arrojo dos mocos é tambem +guia feliz... Anda lá com a tua estrella, anda. Ao que já vejo, não sei +se te possa chamar louco... como ao principio não duvidei fazel-o. É +certo que é pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus castellos. + +--Os meus castellos! Que castellos faço eu? + +--Não hei de ser eu que t'os mostre... Só te quero avisar que não ponhas +grande fé em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida? + +--No monte da ermida? + +--Não viste por lá no outro dia uns signaes de trovoada? A inconstancia +é sempre de receiar. O que n'aquella manhã se passou, o que então vi... + +--Que viu?... Que se passou? + +O herbanario demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal +expressão, que o obrigou a desviar o seu; depois accrescentou: + +--Nada; o que todos os dias acontece. O céo azul fez-se pardo, a luz +clara cobriu-se de sombras, os raios do sol tornaram-se torrentes de +chuva. Pois não te lembras?... E tudo devido a uma mudança... de +vento... a uns ares que vinham do sul... + +Augusto não entendia ou fingia não entender estes mysteriosos dizeres do +herbanario. Angelo estava distrahido devéras. + +O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe: + +--Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha? + +--Esteve lá hontem. + +--É amigo das creanças? + +--Parece-o. + +--Conta muitas historias ás senhoras? + +--Entretem-as bastante. + +--E ao... e a teu pae? Ouve-o com attenção? + +--Conversaram muito toda a noite. + +O herbanario parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada +resposta obtida, abanava pausadamente a cabeça com certo ar meditativo. + +Augusto relanceava tambem para a fronte, meio contrahida, do velho um +olhar entre curioso e timido. + +O herbanario proseguiu: + +--Emfim... A desconfiança é um achaque de velhice e nem sempre os mais +felizes são os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem +ainda a graça da sua protecção. + +--O tio Vicente desconfia do primo Henrique? perguntou Angelo, rindo. + +--Primo?!--repetiu o velho, admirado. + +--Primo lhe chamamos nós, porque a tia Victoria teima que, sendo elle +sobrinho da tia Dorothéa, é nosso primo tambem. + +--Ah? Já ahi vamos? E Lena?... + +--Lena, Christe, todos lhe chamam por lá assim. + +O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras inintelligiveis, +terminando por estas: + +--E, como no Egypto, é o vento sul que traz a praga dos gafanhotos. Mas +Deus que vele, Deus que vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda +d'aqui aos pardieiros de Cernuche. + +--Á caça dos sapos, tio Vicente?--perguntou Angelo, gracejando. + +--Não, que não é agora o tempo--respondeu, sisudo, o velho. + +--Dos sapos! Galante caça, na verdade!--continuou Angelo no mesmo tom. + +--Galante não será ella, pequeno,--respondeu o velho;--mas abençoada a +chamarias se te torcesses no leito com as dores do carbunculo, que não +ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle d'estes animaes +sêcca ao ar livre. + +--E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caça toupeiras? + +--Em seu tempo. Oh! a toupeira é animal de abençoadas virtudes! Basta +que um dente que se lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoço, +cura a mais desesperada dor de dentes. + +--Não deve ser facil operação a de tirar os dentes ás toupeiras--tornou +Angelo. + +O herbanario continuou: + +--A quinta essencia das toupeiras é milagrosa contra cancros e herpes. + +--A quinta essencia das toupeiras!--repetiu Angelo, rindo. + +--Não rias, creança--acudiu severamente o herbanario.--Que não é bonito +rir do que os homens doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que o +li n'aquelle grande livro da _Polyantheia_, livro como se não faz hoje +outro. + +--E como é que se tira a quinta essencia a uma toupeira, tio Vicente? + +--Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as fazer em cinzas. Mistura-se +a estas cinzas o sumo de celidonia maior, até haver quatro dedos de sumo +acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, que se enterra +por dez dias e... e... Bem, bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo +e paciencia com creanças. + +--Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... Então depois de +enterrar tudo isso, que se faz? + +--Até logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com +menos vontade de rir. + +--E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, tio Vicente, eu padeço ás +vezes de um somno tão pesado que me não deixa estudar. + +O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu: + +--E julgas que não sei de remedio para isso? Experimenta e verás. Mette +um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... Mas +adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche é uma legua. + +E o herbanario retirou-se, meio agastado com o scepticismo de Angelo e +sobraçando a caixa de lata e o sacco dos seus thesouros medicinaes. + +Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das singularidades do +velho, riso em que não entrava, porém, o menor laivo de malignidade; +porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que elle bem lhes +merecia, pois sempre do coração o achavam votado a seu favor. + +O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se ainda, até ás horas do +jantar. + + + + +XIV + + +Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não +possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella +festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se +despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo +mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que +não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia +este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já +n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias, +olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas +janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias +que vão no seio das familias, e pela phantasia creando em cada morada um +mundo intimo de affectos e de venturas, como o de que a sorte os privou, +que esses me perdoem as amargas saudades, que por ventura lhes avive +assim. + +É certo que não ha noite mais alegre; alegre d'esta alegria que vae +direita ao coração, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez; +alegre d'esta alegria candida a que o homem é sujeito do berço á +velhice, a qual respeitam os estos das paixões, na idade d'ellas, e o +gêlo do egoismo, no declinar da vida. + +Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas tu sempre, noite de +vinte e quatro de dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste +a luz, o calor, o conchêgo dos lares, e mais intimos se estreitarão os +circulos da familia em roda da ceia patriarchal. + +E vós todos, a quem uma moda tôla não constrangeu ainda a abandonar os +habitos que de pequenos contrahistes, e festejaes ainda o Natal de +Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter genuinos esses +costumes nacionaes, que não resultará d'ahi desdouro para o vosso nome +ou brazão. A roda da civilisação, a que applicaes hombros com tanto +denodo, não se cravará por isso.--Podeis, elegantes meninas, cantar lôas +sem escrupulo deante do presepe armado na sala mais intima da casa, que +nem por isso cantareis peor na das visitas as arias italianas, que +aprendestes no collegio; não córeis de collaborar, por excepção, esta +noite nos mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia e perfumes +tendes no toucador para as abluções purificatorias. Homens graves, a +republica perdoar-vos-ha uma pequena infidelidade, a politica do paiz e +da Europa não periclitará desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a +vossa attenção; humanisae-vos pois uma vez por anno, e baixae ao seio da +familia os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem +sublimados.--Entrae com as creanças em jogos pueris e faceis, que não +destemperareis a intelligencia para as philosophicas cogitações do +_boston_ e do _whist_. + +A familia do Mosteiro era fiel ás classicas usanças d'esta noite +tradicional. E n'aquelle anno sobretudo as festas das consoadas deviam +ser coisa falada, graças ao plano de D. Victoria de reunir no Mosteiro a +resumida familia de Alvapenha; plano que vimos approvado por acclamação +por toda a assembleia presente. + +D. Dorothéa veio effectivamente na companhia de Henrique de Souzellas e +de Maria de Jesus. + +Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovação das creanças. + +D. Dorothéa viu-se litteralmente enlaçada em braços infantis, que lhe +tolhiam os movimentos e que, dizia ella, quasi ameaçavam asphyxial-a. + +Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que inauguraram um estado +de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquella noite. + +A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro é indescriptivel. Na +cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruido. + +Aqui eram as creanças jogando, a pinhões, o «par ou pernão» e o «rapa», +jogos popularissimos e de occasião, que, de tão conhecidos, dispensam o +trabalho de descrevel-os. Estes jogos, como é de prever, não se +executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a +impaciencia de D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que se +passava na sala, ralhar com os criados á cozinha. + +No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, armára-se o presepe, +deante do qual ardiam seis vélas de cêra em castiçaes de prata maciça. + +As duas velhas senhoras, D. Dorothéa e D. Victoria, encetaram logo no +principio da noite uma longa e devota reza, meio recitada, meio cantada, +a qual se continuava com uma interminavel enfiada de Padre-Nossos e +Avé-Marias, a que respondia, em côro, a parte feminina, da familia, as +creanças e as criadas. + +Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em voz trémula e quebrada pela +idade, entoava em singela cantilena coplas como esta: + + + Ó infante suavissimo, + Vinde, vinde já ao mundo + Livrar-nos do captiveiro + D'este jazigo profundo. + + +E seguia-se um Padre-Nosso e uma Avé-Maria. + +Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, desordenado um pouco +o andamento regular das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico +expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou. + +Á sala, onde Henrique de Souzellas conversava com o conselheiro em +assumptos, todos d'esta vez longe da politica, chegaram as surdas +harmonias d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de +saber o que era aquillo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a seguil-o +para por si proprio se poder informar. + +E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introducção na +sala da novena justamente ao lado de D. Victoria e de D. Dorothéa, que, +de embebidas que estavam nas suas orações, nem por elles deram. + +O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado d'aquellas boas +senhoras, e quando após um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorothéa, se +devia seguir a resposta do côro feminino, este emmudecido, com a chegada +dos dois, a qual desafiára risos a custo suffocados, foi substituido por +um dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, e +escandalisaram depois ambas as sisudas senhoras. + +O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as creanças; D. Victoria +teve muito que fazer, muito que reprehender o cunhado, muito que ralhar +com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dorothéa, +muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de +todas estas tarefas. + +Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. Os desordeiros +sómente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometteram +que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique voltou com o +conselheiro a admirar o primor que a paciencia de um artista imaginoso +realisára na confecção do presepe, onde estavam representados todos os +episodios da natividade de Jesus, e muitos outros. + +Era effectivamente uma complicada machina aquelle presepe, e seria prova +de profunda indifferença artistica passar por elle sem um exame, embora +fugaz. + +Este traste antiquissimo na familia gosava de nomeada n'um circulo de +leguas em redor. Havia empenhos para o vêr no tempo do Natal, e se algum +viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe +recommendasse o visitar o presepe, como coisa digna de vêr-se. + +Consistia elle n'uma espécie de santuario de pau preto, no meio do qual +havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel, +com estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava deitado o menino +Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos +impulsos do compadecido coração de D. Victoria, que, ainda que tarde, +parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma +bonita cama de lençoes de renda com cercadura dourada; colcha de setim +bordado, e colchão e travesseiro da mais macia penugem de aves +americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quasi iguaes +ás do menino; mais longe a vacca e a mula tradicionaes. Os episodios +porém eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Varios +grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e +vestuarios, ornavam a scena. Alli um cego tocador de sanfona; um grupo +de gallegos dançando, ao som da gaita de folle; uma pastora com ovos +mais adeante; ao lado, um grupo celebrando um _pic-nic_, perfeita +actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata, e botas de +cano;--outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona ingleza, com o seu +Jockey, galopava pelas cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira +caminhavam a par com offertas para o menino. Ao longe, nos visos da +serra, appareciam os tres Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar +abaixo. + +Não esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento esculptural os +muros de Jerusalem. Elles lá estavam coroados de ameias e de milicianos +fardados á ingleza e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aquelles +guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do +quadro, qualquer d'elles era duas vezes maior do que as figuras do plano +da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portugueza. Havia +varios santos espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, e, entre os +additamentos feitos pela devoção de D. Victoria ao presepe, contava-se o +de um Santo Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, parecia muito +admirado de se vêr n'aquelle tempo e logar. Um gallo colossal soltava do +telhado do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins espreitavam do +céo por entre nuvens de algodão e estrellas de ouropel. Era um prodigio! + +Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, sentia eu vivo orgulho +de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime +admiração faria cêdo ou tarde justiça; tive porém de abandonar esta +lisonjeira idéa, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais +justificadamente populares da nação vizinha. Das paginas de um delicioso +quadro de costumes de Fernan Caballero, a eminente escriptora de que a +Andaluzia se ufana, conheci eu serem não sómente nacionaes, mas +peninsulares pelo menos, estes modelos de presepes, com os seus ingenuos +anachronismos, cunho irrecusavel que o povo imprime a todas as suas +obras de arte. Onde falta o anachronismo, falta a assignatura do povo. + +Em todo o caso era digno da menção que d'elle fizemos o presepe do +Mosteiro. + +Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miudo, D. Victoria +fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o +serviço, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as peores criadas +do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar +lôas deante do presepe. D. Dorothéa cêdo tomou com Magdalena e Christina +o mesmo caminho. + +O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com elles +entraram em jogos, como se fôssem creanças tambem. + +O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e sério das +salas de Lisboa perdera todo o ar diplomatico: agora era sómente o homem +da familia; pueril, travesso, alegre, folgazão. + +--Meu caro,--dissera elle a Henrique no principio da noite--vou +fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assumpto politico, a +menor discussão séria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o +contrario seria uma profanação, que attrahiria sobre nossas cabeças as +justas iras dos anjos domesticos que n'estas noites andam invisiveis +misturados com a familia. + +--Apoiado,--respondeu Henrique;--acceito e comprometto-me a cumprir a +proposta. + +Henrique possuia em alto grau o talento de se tornar agradavel. +Comprehendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, tão frio e +pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da +familia, e ao proprio conselheiro parecia já impossivel que ainda fôssem +tão recentes as suas relações mais intimas com aquelle rapaz. + +--Animo, sr. conselheiro,--dizia-lhe Henrique, no momento em que elles +ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.--Coragem, +que temos gloriosos exemplos a animar-nos; até, entre outros, o do meu +homonymo Henrique IV. É sabido o episodio recordado por uma gravura +celebre. + +O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes jogos, a sala estava +dentro em pouco em desordem; os moveis fóra da sua posição, o chão +alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes +desviados, as cortinas soltas. + +Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique: + +--Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d'estas festas, o +principal. É dirigir uma visita á cozinha. Porque a obra principal +d'esta noite é fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o a +acompanhar-me lá. + +--Com tanto mais vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso +com as senhoras. + +--N'esse caso é tempo. + +E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á cozinha. + +Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente, +annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria. + +A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto +recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas +monumentaes, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda +saudosa dos odoriferos vapores que outr'ora espalhavam os tachos e as +grelhas monasticas. + +Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae +de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certãs, um +borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de +crystaes no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamações, +de conselhos, todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria +ralhava, e a sr.^a de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus +desdenhava do serviço das collegas, e Magdalena e Christina riam de +todos e de tudo, e Angelo a todos impacientava. + +Não se imagina! + +A chegada do conselheiro e do seu hospede veio exacerbar a desordem. +Ergueram-se risos e exclamações, as quaes ainda assim eram subjugadas +pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia para o +conselheiro: + +--Sempre o mano tem coisas! Olhem agora para o que lhe havia de dar! Vão +lá para dentro, vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do que +estamos. E o primo Henrique tambem! Ora esta!... + +--Não se afflija, mana. Nós não podiamos resignar-nos a ficar alheios á +tarefa principal do dia. E até porque é necessario dar andamento a isto +para chegarmos a tempo da missa do gallo. + +--Pois querem ir á missa do gallo? + +--Está de vêr que sim. + +--Eu tambem vou--disse Christina. + +--E eu--acudiu Magdalena. + +--Mais um, que irá tambem--disse Henrique. + +--E eu, e eu--accrescentaram differentes vozes. + +--Ai, minhas encommendas!--suspirou D. Victoria.--Então por que não +disseram isso logo? Agora como ha de ser? + +E saiu em direcção á sala da ceia a dispôr as coisas. + +É preciso que se diga que D. Victoria vivia na candida illusão de que +era ella quem fazia tudo em casa, emquanto que manda a verdade declarar +que nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas do que quanto +dormia esta aliás excellente senhora. + +--Mãos á obra, sr. Henrique!--bradou o conselheiro, insistindo na +resolução com que viera. + +--Prompto--respondeu Henrique. + +--Então? então?... Que vão fazer?--perguntava D. Victoria, afflicta, +voltando á cozinha. + +--Querem vêr que preparos?!--dizia D. Dorothéa, sorrindo e olhando com +curiosidade para o que faziam os dois. + +--Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia--dizia +Henrique, approximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena +e Christina. + +--É verdade que sim,--acudiu Magdalena--e eu exijo o cumprimento da +promessa. + +--Vamos lá, sr. Henrique,--tornou o conselheiro--acceite-me alguns +preceitos da pratica. A regra é fazer tudo o mais indigesto possivel; +porque essa qualidade é o caracteristico dos manjares d'esta noite. + +--N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois +desafio o melhor estomago do mundo a que subjugue os meus guisados com +os seus succos digestivos. + +--Eu já escolhi tarefa--disse o conselheiro, tirando das mãos de +Christina a colhér com que ella mexia o vaso onde se preparava o vinho +quente, esse _punch_ nacional, que n'esta noite seria uma falta +imperdoavel se esquecesse no programma d'aquelle banquete. + +Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, e cêdo principiou a +desempenhar-se d'este trabalho, no meio de hilaridade geral. + +Angelo dispensou a tia Dorothéa do trabalho da preparação dos mexidos. + +Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu +constante proposito, approximou-se da morgadinha, que n'aquelle momento +se occupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas. + +--Peço trabalho, prima Magdalena. + +--Não ha falta de braços n'esta repartição, primo Henrique. Vá a outra +porta. + +--Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas fôrças. + +--Esta? Como se engana! Não sabe que as rabanadas são a essencia da ceia +de Natal? E logo havia de confiar-lh'as? + +--Ah! não ligava tanta importancia a estas representantes da pastelaria +primitiva, notaveis porque recordam a infancia da arte! Emquanto a mim, +já no tempo da peregrinação dos hebreus, Moysés lhes ensinava a cozinhar +d'isto. + +Magdalena abanou a cabeça em signal de reprehensão. + +--Perdôe ás pobres rabanadas o pouco ar de moda que teem. A sua +elegancia é implacavel, primo Henrique. Um indigesto manjar francez +seria de melhor tom, bem sei. Até n'isso! + +--Para provar que estou arrependido da minha irreverencia, consinta-me +que a coadjuve, prima. + +--Não pode ser; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade. + +--Isso equivale a recusar-me o fôro de familia, que tão humildemente +reclamo. + +--Justamente--respondeu Magdalena.--Eu sou muito escrupulosa n'isso. Faz +mal em não reclamar esse fôro de Christina, que talvez encontrasse mais +disposta a conceder-lh'o. + +--Mas, se me não engano, foi a prima Magdalena que primeiro me conferiu +o apreciavel titulo de parentesco com que nos tratamos. + +--O de primos? Esse sim; mas não tem os privilegios, que lhe quer dar. + +--Que privilegios são? + +--Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, por exemplo. + +--Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o que eu peço?--perguntou +Henrique a Christina, que principiára a escutal-os. + +--Não ouvi--respondeu esta, córando e sorrindo, como sempre que lhe +falava Henrique. + +--Escusado é consultar Christina--acudiu a morgadinha--porque em muitas +coisas pensa ella em opposição commigo. E n'isto... + +--E n'isto... + +--N'isto de attender a requerimentos, é talvez mais condescendente. + +--Ao que estou vendo--disse o conselheiro jovialmente--grandes coisas se +tinham passado aqui, antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade +entre Lena e o sr. de Souzellas, que me dá sérias inquietações. + +--E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu +a nossa Lena no Mosteiro!...--disse D. Dorothéa, com toda a indiscreção +da sua ingenuidade. + +Magdalena procurou acudir a tempo á corrente das revelações, a que viu +disposta a boa senhora. + +Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que tendo feito uma digressão +pela sala do refeitorio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava +na mesa. + +O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. Suspenderam-se +trabalhos, quasi completos, ultimaram-se á pressa outros, e a companhia +dirigiu-se para o corredor. + +Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o e pretendendo +suster a corrente, que ameaçava invadir a sala, que ella ainda não dera +por prompta. Já não era tempo. O conselheiro, tomando duas creanças ao +collo, rompia a marcha, e atraz d'elle até a pacifica D. Dorothéa +clamava insubordinada que não recuaria um passo. + +E falando e rindo assim entraram na sala. + +Estava offuscante de luzes, esplendida de louças e baixellas, enfeitada +de flores e de crystaes e ennevoada dos vapores das iguarias. + +Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confusão e +incoherencia de ordens de D. Victoria para marcar logares, infracções +d'estas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudésse perigar a +ordem natural e social do mundo, e, como justa consequencia, caía sôbre +a cabeça dos criados uma enfiada de recriminações, que elles por habito +já soffriam com exemplar paciencia. + +Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se á ceia. + +Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas +mesmas disposições de animo em que ordenava Christo estivessem os que +fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com tão pouca +vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos +eméritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados, +outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem +da França e da Allemanha; cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e +furta-te ás mãos da extranha geração de Vateis, que aspiram a dominar +pelos paladares o espirito nacional. + +Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeições, mas +respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo +facto de que quasi não é feita para ser comida. + +Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro, +das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorothéa sobre a +innocuidade dos guisados, os pratos corriam á roda da mesa quasi +intactos e intactos voltavam á cozinha d'onde sairam. + +Mas se se comia pouco--e de facto, á excepção de Henrique, do +conselheiro e das creanças, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli +para ceiar--mas, diziamos nós, se se comia pouco, em compensação +falava-se muito. + +O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa +efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar +constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma creança, a +anecdota contada por Henrique, as distracções de D. Victoria, as +canduras de D. Dorothéa, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as +allusões da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, as maliciosas +insinuações de Angelo. + +Assim procedeu o repasto nocturno até á altura das saudações e dos +_toasts_. N'esta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro +fôram menos abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade dos +vinhos. + +Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro, +voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propôr tambem um brinde. + +Angelo levantou-se então para brindar Augusto. + +O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios. + +--Ah! o sr. Augusto--disse Henrique, antes de beber e com certo tom de +ironia.--Conheço; é uma ave rara d'estas immediações, que tem brios de +cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho. + +--Brios de cavalleiro?--disse Angelo, com vivacidade.--Inda isso não é +tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem. + +--Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr preciso até consciencia +de santo. Vá á saude da phenix! + +E bebeu. + +Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior: + +--O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverencia +d'esta personagem; corre-se o risco de vêr voltar contra o impio, que +tanto ousa, os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; prometto +acatar essa preciosidade. + +--E creia--disse-lhe o conselheiro--que lhe é merecedor de toda a +consideração. Augusto é um d'estes caracteres excepcionaes que vivem á +sombra de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella muitas vezes +morrem. É necessario ter a vista muita exercitada n'estas explorações de +almas modestas, para descobrir uma assim. + +--Felizmente para os myopes como eu--proseguiu Henrique--ellas fazem ás +vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á luz. +Não é verdade, prima Magdalena? + +--Que admira;--respondeu Magdalena--bem occulto está o fogo na +pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca. + +--Pobre rapaz;--notou a sr.^a de Alvapenha--aquillo nem parece d'este +tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque elle se não resolveu a +tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa! + +--Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra +qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para seguil-a até o fim. +Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio +singular aquelle rapaz! + +--É uma phenix--insistiu Henrique, ironicamente.--Vejo que não é +susceptivel de discussão, impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho +habitos de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir no meu credo +esse dogma. + +--Perdão--replicou Angelo.--Um axioma não se demonstra, e a boa alma de +Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas. + +--Por favor!! Dêem como não ditas as minhas palavras! Arrependo-me da +minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a +penitenciar-me na sua presença. + +--E é certo que nos falta aqui Augusto. Como te não lembraste d'elle, +Angelo? + +--Não viria. N'esta noite não deixaria o tio Vicente. + +--Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente. + +--É do herbanario que falam?--perguntou Henrique. + +--Justamente. + +--Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos +inviolaveis; não é verdade, prima? + +--Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se +uma especie de inviolabilidade. + +A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a +desviar do ponto principal da questão, dizendo: + +--Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em +si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de +perturbar-lh'a. Além de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa +soberania, que deve lisonjeal-o. + +--E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em +coisas de doenças e de remedios, menino,--disse D. Dorothéa, que era uma +das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario. + +--É na verdade um homem singular!--disse o conselheiro.--D'antes, na +noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem +por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu +em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e +dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação. +Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com +maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e +o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar mais a +ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não +houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante n'estas +condições. + +--Sei-o já por experiencia;--disse Henrique--que n'uma unica entrevista +que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer +a irritabilidade. + +--Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa +entrevista não demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades +de que o accusa. + +--Agora--continuou o conselheiro--vão consideravelmente exacerbar-se os +despeites do herbanario contra mim. + +--Porquê?--perguntou Magdalena. + +--Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada. + +--Então?--disseram simultaneamente Angelo e Magdalena. + +--A casa e o quintal do herbanario são os primeiros cortados. + +--Não pode ser!--exclamou Magdalena, com evidente expressão de susto. + +Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto. + +Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza. + +--É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O +primeiro era uma luva lançada a uma influencia eleitoral, poderosissima; +o brazileiro Seabra. + +--Ah!--disse Magdalena, com certa amargura na expressão e no olhar. + +O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se não lia +menos intenso desgosto. + +--Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse +com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem +d'essas exigencias absolutas. + +Magdalena respondeu: + +--Julguei que era a da consciencia, meu pae. + +--A consciencia diz-me que ha interesses superiores ás contemplações com +as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira +politica ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo +exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto ás vezes a um +sacrificio individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores +e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos. É muito +tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua +casa; porém, mais respeitavel é o bem-estar e a conveniencia de uma +localidade. + +--E é tão necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que +se quer obrigar o herbanario?--perguntou Angelo, e Magdalena secundou +com o olhar a pergunta do irmão. + +--Eu te digo, Angelo--respondeu o conselheiro, levemente despeitado.--Eu +tinha a vaidade de me suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem +elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em +familia, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato, +muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão d'este +povo, e elles, á falta de outros, acceitariam ámanhã qualquer nome +inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e +que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se +propunha ser representante. Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja +parecendo um censuravel excesso de vaidade. + +--Não, meu pae, ninguem acredita mais do que eu no muito valor da sua +influencia, mas... Ó meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio +Vicente! Imagine bem o que é n'aquellas idades e com aquelle genio, a +grandeza do sacrificio que vão exigir d'elle? + +--Custa-me ser obrigado a isso; porém... + +--Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle não pode ser muito +longa. Deixem-o morrer em paz, á sombra d'aquellas arvores a que elle +quer tanto. Que importa passar mais alguns annos sem uma estrada? + +--Poesia!--disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe +correspondeu. + +--Perdão!--acudiu Magdalena, córando--é caridade. + +--Ora vamos, Lena. Sê razoavel. Todos soffrem no mundo sacrificios +maiores do que esse; eu mesmo, que me não tenho ainda assim por victima +da sorte... + +--E não haveria outro meio?--perguntou Angelo.--Acaso ha só esses dois +logares para dirigir a estrada? + +--Que antes nunca se fizesse!--exclamou Magdalena, apaixonadamente. + +--Ahi temos como o sentimento me torna retrograda a minha Lena. Já clama +contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro +traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo. + +--Ah! então esse, esse! São bens nossos!--exclamou Magdalena com +vivacidade. + +--São bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles que um dia mais +valiosos se tornarão para teu irmão. + +--Os charcos?--disse Angelo, encolhendo os hombros--ora! Só para viveiro +de rãs. + +--Hoje pouco mais são do que isso, e como tal nol-os pagariam agora. +Dentro, porém, de alguns annos, operados alli os trabalhos de esgoto, +que eu projecto, verão em que se transforma aquillo. É exigir a um homem +muita abnegação pretender d'elle que sacrifique assim os elementos da +riqueza futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens não seriam +taes que... + +--Não pediriamos esmola, meu pae--notou timidamente Angelo. + +--Nem o Vicente a pedirá. Visto que estaes tão desprendidos de +interesse, que não hesitaes em fazer-lhe sacrificio dos vossos bens, +podeis ceder-lhe o sufficiente para o compensar da perda. + +--Mas quem o compensará dos golpes nos seus affectos?--perguntou +Magdalena. + +--Tambem tu! São segredos do coração feminino essas compensações. +Deixo-as á tua disposição. + +--Meu pae! meu pae! se é ainda possivel atalhar-se! + +--É impossivel. + +--Meu tio!--secundou Christina. + +--Mano! Primo!--disseram a um tempo as senhoras mais idosas. + +--O que posso fazer é ir eu proprio falar com o Vicente, para o mover a +consentir na expropriação amigavel, que farei que lhe seja o mais +vantajosa possivel. + +--E tem coração para lhe ir propôr isso? + +--Dize antes se tenho coragem para arrostar com as iras do velho, e com +as maldições que já sei vae sacudir sobre mim. + +Lena calou-se, suspirando. + +--Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!--continuou o +conselheiro.--Eu, que tinha feito voto de não me entreter de negocios +publicos esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu! + +--Eu?! Eu, que abomino a politica! que só ella podia fazer entrar uma +crueldade no coração de meu pae! + +--Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por outro sitio!--implorou +meigamente Christina. + +--Tambem tu, Christe! tambem tu! + +--Pudera, mano! Não, que uma coisa assim! Isso é até uma ingratidão para +com um homem a quem esta aldeia tanto deve--disse D. Victoria. + +--Pois não é! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de +virtudes!--accrescentou D. Dorothéa. + +--Vá vendo, sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim. Veja como +um sentimento insignificante organisa uma opposição. + +--É uma lição que estou recebendo, sr. conselheiro. + +--Meu pae,--insistiu Magdalena--eu espero ainda que, ouvindo o tio +Vicente, se commoverá e trabalhará por alterar esse fatal plano que +principia por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, com ellas +arrancará uma vida. + +--Romances! Lena, romances! Os romances, lidos em plena aldeia, são +perigosos. Falta aqui nos ares um certo scepticismo que, não sendo em +dóses exaggeradas, tem a vantagem de não deixar vêr as coisas da vida +através do prisma dos livros de imaginação. Mas basta de falar em +politica. Ámanhã procurarei o herbanario. Espero uma recepção de gêlo, e +vou preparado para uma ladainha de recriminações, mas irei. Nada +esperes, porém, da entrevista, Lena; nem o mal, se mal é, se poderia já +atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permittiria expansões á +sensibilidade, que cheguem a commover-me. Conheço-o. + +Magdalena não instou. Ficou, porém, pensativa e sem o menor vestigio da +alegria, com que principiara o serão. + +N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo. + +--Já toca para a missa do gallo! Ouvem?--disse D. Victoria. + +--Vamos! Não ha tempo para demoras--exclamou o conselheiro, +levantando-se. + +Todos o imitaram, menos Magdalena. + +--Não vens, Lena?--perguntou Christina. + +--Não. + +--São amúos, filha!--disse-lhe o conselheiro, indo por traz d'ella; e, +tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-a na fronte. + +--Não, meu pae, é uma dôr de cabeça tão violenta! + +--A maldita politica é o que faz! Pois fica; fica, porque está fria a +noite. + +--Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina. + +--Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair. + +--Aviem-se!--dizia D. Dorothéa.--Henriquinho, vens? + +Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia noite esfriou desde que +viu Magdalena ficar, respondeu: + +--Ó tia... a falar verdade!... se me dispensassem!... + +--Vem d'ahi, preguiçoso! anda! + +--É que... para um homem doente... + +--Ai, não; se te ha de ás vezes fazer mal, então não--apressou-se a +dizer a precavida senhora. + +E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cêdo +depois Torquato foi ensinar. o caminho para o quarto onde devia +pernoitar. + +O conselheiro, D. Dorothéa, Christina e Angelo fôram para a missa do +gallo. + +D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no Mosteiro. + + + + +XV + + +Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de +Souzellas sentiu poucas disposições de dormir. Uma profunda excitação +impedia-lhe o repouso; em parte era devida ás occorrencias d'aquella +noite, tão fóra dos seus habitos de vida; em parte, digamol-o em +verdade, á influencia dos vinhos, com que secundára os brindes do +conselheiro, e com que elle proprio iniciára outros. + +A imaginação, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe +representava mais bella a de Magdalena. A especie de hostilidade +permanente, com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia +seduzil-o. + +Nos poucos dias que passára na aldeia, havia Henrique, com novos +habitos, adquirido uma maneira de vêr e de julgar as coisas e as +pessoas, differente da que lhe era habitual na cidade, no circulo de +amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou tacitamente, e sem dar +por isso, certo scepticismo convencional, que uma antipathica escola +conseguiu pôr muito na moda. + +Graças a estas melhoras moraes, tão verdadeiras n'elle como as physicas, +as quaes até o constante pensamento das doenças lhe haviam dissipado, +pudéra elle considerar Magdalena como uma mulher superior ao typo, pelo +qual a mencionada escola costuma modelar o sexo: e acceitou sem má +prevenção a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, que +descrevia com enthusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais intimos +amigos de Lisboa. + +Taes estados de convalescença são porém sujeitos a recaídas. + +N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta áquellas cartas, +e sob as impressões com que ficou da leitura, tinha vindo para o +Mosteiro. + +O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo de um homem da moda, da +candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado á +vista dos profundos estragos que alguns dias de provincia tinham operado +n'elle. Via-o disposto a idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina +monomania que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro de qualquer +homem. + +Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos os dias caracteres, +aliás não pervertidos, levianamente calumniam ou ferem de suspeitas +reputações de todo o genero, elle fazia irreverentes allusões á +morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a sério as isenções +de uma rapariga de vinte e tres annos. Acabava por o aconselhar a que +indagasse de algum primo timido e modesto, ainda que menos ingenuo de +certo do que elle Henrique se estava mostrando. + +Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doença, que estava em via +de cura. Um espirito mephistophelico parecia havel-a dictado. Henrique +transportou-se pela imaginação, depois de lel-a, a um dos circulos que +habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração +da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o +escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria +por certo commentada a narração. E então uma vergonha de má indole, +vergonha do homem que põe um preceito de elegancia acima de um dictame +de moral, fazia-o córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a ler a +carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso, +emquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e +desarrazoada. + +Quem ha que não tenha tido momentos d'estes? Quem se pode gabar de não +ter perguntado um dia aos seus escrupulos mais nobres se não são meros +preconceitos, que ficaram de uma educação acanhada? Quem não poz um +momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em creança? +Henrique estava passando por um d'esses accessos de scepticismo. +Magdalena era já para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido +da sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, que promettia a +si proprio ser d'ahi por deante mais arrojado. Esta ordem de reflexões +estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se +apoderára d'elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça +em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do +quarto, saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre. + +A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no +céo, que com forte scintillação parecia illuminarem a terra de um tenue +crepusculo, que mal deixava distinguir os objectos. + +O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle +procurava prolongar. + +Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostára á varanda +do quarto, quando lhe attrahiu a attenção certo vulto alvacento, que +furtivamente se movia n'uma das ruas da quinta. + +Pareceu-lhe uma figura de mulher. + +Justamente n'aquella occasião tinha Henrique na memoria o periodo final +da carta do seu amigo. + +Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica. + +--Ah!... Querem vêr que... A dôr de cabeça subita... A insistencia em +ficar só... Percebo... Um primo timido e modesto... + +E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os labios de +Henrique. + +--Se eu pudésse averiguar isto... Mas ella corre com uma ligeireza que, +antes que eu ache meio de sair para a quinta... já a levará bem longe. + +O meio porém não era difficil de encontrar. Da varanda em que estava +Henrique passava-se com grande facilidade para outra immediata, na qual +havia uma escada de communicação para a quinta. + +Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique operou n'um momento a +descida, e pouco depois procurava através da quinta os vestigios da +mulher que tinha perdido de vista. + +N'esta operação esforçava-se por combinar com a maxima ligeireza a +possivel precaução, para não ser por causa alguma frustrada a sua +pesquiza. + +A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda em volta por um solido +muro de alvenaria. Aqui e alli abriam-se n'elle differentes portas que +deitavam para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto havia +pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava á tôa, já +desanimado de ser bem succedido no empenho. + +De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar de uma chave na +fechadura. Parou por precaução e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o +bater de uma porta e mais nada. + +Então adeantou-se rapidamente; n'um momento deu com a porta, que ainda +se conservava aberta. + +Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta. + +Dirigiu-se á esquina que d'alli avistava; dobrou-a, mas nada viu; as +ruas eram solitarias, e uma só casa terrea que havia ao lado de um +quintal estava discretamente fechada e silenciosa. + +Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, Henrique voltou para a +porta. + +--Esperemos aqui por esta donzella destemida que assim anda de noite a +correr aventuras. Ha de ser curioso observar como ella fica, quando me +encontrar por guarda portão. Veremos se ainda depois d'isto durarão +aquelles ares de soberania, com que me trata. Um primo timido e +modesto!... + +E, sorrindo á lembrança da scena que se preparava, Henrique fechou a +porta por dentro, e accendendo um charuto, poz-se a passeiar, aguardando +o regresso da morgadinha. + +Para não perdermos muito tempo á espera tambem, aproveital-o-hemos a +inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento é util á continuação +da nossa historia. + +A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro e n'um sitio a que a +abundancia de vegetação e a suavidade de perspectiva davam o mais +pittoresco aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, casa e +quintal já condemnados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e +offerecidos em sacrificio aos melhoramentos municipaes e concelhios. + +Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena e Angelo escutaram +a nova d'esta expropriação, quem conhecesse a vivenda rustica do +herbanario e soubesse do amor que elle votava a cada objecto d'ella, +assim como da vida que, havia tantos annos, alli vivia escondido e +obscuro. + +Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre +verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o +herbanario se entregava ás suas leituras e lucubrações scientificas. +Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas +flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices +medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle +cultivava. + +Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar-lhe. +Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes +curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a +responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as +amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando +nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fôra dado a +singularidades, augmentaram estas disposicões, que tinham o que quer que +era de pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando com +ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo. + +A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os +trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe +faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão. + +O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Elle proprio +cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domesticos. + +É pois de imaginar que não seria muito complicado o banquete das +consoadas n'aquella casa, e que devia formar em tudo contraste com o que +á mesma hora se celebrava no Mosteiro. + +De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas e mais espontaneos +os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma +pequena mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta sala o santo +anniversario. Um era o proprietario da casa, o outro Augusto, um dos +poucos que se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a habitação do +velho. + +Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, maçãs, +nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na +confecção da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa de vinho do +Porto de promettedora côr de topazio, consistia o resto da mobilia n'uma +estante de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas +encadernações e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e +bancos tambem occupados com livros e com varios utensilios empregados +nas explorações scientificas do velho, taes como caixas de lata, +frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes ainda sobravam para +alastrarem o chão. + +Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro de azeite, e a +escassa luz, que dos tres lumes que, em attenção á solemnidade da noite, +o velho accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Christo de +marfim pendente de um crucifixo negro, que sobresaía n'aquellas paredes +nuas e caiadas. + +Havia bastante tempo que aquelles dois homens, sentados defronte um do +outro, guardavam silencio; um d'esses silencios, durante os quaes os +espiritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se +desembaraçado d'ella, voam a par, para adeantarem caminho e voltarem +mais longe a associarem-se á sua mais lenta companheira. + +Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava a scena, parecia +alheio a quanto o rodeava. + +O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com o braço estendido para o +calice que tinha defronte de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar, +um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles os pensamentos +que o preoccupavam. Emfim rompeu o primeiro o silencio: + +--Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. Para que te mettes a +esconder de mim aquillo que eu ha tanto te leio nos olhos, creança? + +--O quê, tio Vicente?--perguntou Augusto, inquieto. + +--O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o +coração: são dons do Céo, que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. +Bondade de coração, com a cabeça... assim, assim... a dar esmolas aos +pobres se satisfaz; cabeça de fogo, mas coração de gêlo... todos os +meios de levar ao fim ambições, tanto os bons como os maus, todos lhe +servem; mas coração como o teu, com o espirito que tens!... ai, pobre +Augusto, se se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do Senhor. + +--Não o entendo, tio Vicente,--disse Augusto, com manifesta confusão. + +--Não! Olha para mim. E vê se te atreves a repetil-o. + +Augusto baixou a cabeça. + +O velho sorriu com ar de commiseração e sympathia. + +--Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas que me não havia de +custar, se não tivesse acertado?--E, depois de breve pausa, +continuou:--Mas ainda quando penso em como tu, uma cabeça forte, assim +te deixaste enfeitiçar!...--E tomando o calice, que tinha defronte de +si, disse com resolução--Quero beber á tua saude, Augusto, e para que em +breve se te desfaça essa loucura. + +Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão de Augusto susteve-lhe o +braço. + +--Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ella. Sou feliz +assim. + +--Ah!--disse o velho herbanario, tomando um ar mais grave; e pousou o +copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo. + +Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu com maior vehemencia e +colorindo-lhe as faces um não costumado rubor: + +--Sim. Por que o não hei de confessar? Essa loucura que diz, trago-a +commigo, vivo com ella e quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a +desejaria perder. Amor? não é; a tanto não chega... antes um culto, isso +sim. É uma adoração como aquella, em que de pequenos nos educam para com +a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem procuro alimental-as. Quer +que lhe diga? Vêl-a; respirar estes ares que ella respira; atravessar +estas devezas em que ella passeia; amimar as mesmas crenças que ella +amima; soccorrer, com o meu óbulo de pobre, a miseria sobre a qual ella +espalha caridosa as dadivas da sua abençoada opulencia... e, ahi está; +são as minhas aspirações; é o futuro que desejo, e com que me contento. +Leu no meu coração, disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas não viu +claro de todo, confesse. Julgou talvez que haveria em volta d'este +sentimento um enxame de esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por +certo foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. Enganou-se, +porém, tio Vicente; vê agora que se enganou, não é verdade? Essas +esperanças não existem. Se existissem, bem vê que não estaria aqui. Não +me teria impellido a ambição pelo caminho de realisal-as? Não se me teem +offerecido os meios para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto +me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não arrisco um instante +d'ella para tentar uma ventura maior. + +O herbanario escutava silencioso, porém meneando a cabeça com ares de +quem não punha demasiada fé n'aquellas palavras. + +--Aos vinte annos!...--disse elle por fim--sentir o que dizes... ser +feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e +verás... verás depois... + +--Tem dez annos--disse Augusto, sorrindo. + +--Dez annos! + +--É verdade. De creança a conheço, a paixão que diz; por isso confio +n'ella. Tenho fé em que se não transviará. + +--Dez annos!--repetia o velho, admirado.--Porém... ha dez annos... + +--Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não se lembra? Era então uma +pobre creança da aldeia, educada entre os braços de minha mãe, e +conhecendo, uma por uma, as arvores d'estes sitios e mais nada. Saí +d'aqui e fui para Lisboa. Não imagina as fortes impressões que recebi na +noite que alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de fadas e de +encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginação +assim! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os +palacios, os edificios, os carros produziam-me quasi uma vertigem; +sentia-me vacillar. Achei-me, nem sei bem como, de tão atordoado que ia, +n'uma casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, n'aquella +noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de creanças, +muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembleia á parte. A +sala era magnifica; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, moveis +dourados, tapetes, quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, o +piano, objecto novo para mim, e que eu me não fartava de admirar. Tudo +isto me perturbava, como imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares +de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; deu explicações ás +pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue ás +creanças. Ahi fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta +mal talhada, o meu olhar timido, os meus modos acanhados, no meio de uma +turba de creanças elegantes, que se me figuravam de uma essencia +superior á minha. As creanças são desapiedadas, quando assim em +companhia. Cêdo percebi que estava sendo o alvo da zombaria d'ellas; +riam ao principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de +relance; redobravam as risadas e transmittiam reflexões a meu respeito, +cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas, +dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; formaram +grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Então +apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o coração de +tristeza. Lembrei-me, com saudades, das arvores da minha aldeia, do meu +pobre quarto, de minha mãe; e achei-me alli tão só, tão sem conforto nem +amizades, que as lagrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje não +hesito em dizel-o, foi aquelle um dos mais amargos momentos da minha +vida. Nós, quando adultos, esquecemos facilmente os martyrios da +infancia, quando n'esta idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos +os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha piedosa superstição +de rapaz aldeão, quasi me pareceu de intervenção divina. Abriu-se a +porta e entrou na sala uma creança, que eu não tinha ainda visto. Era +uma menina pallida, de gesto affavel e angelico. Vestia toda de branco. +Entrou e approximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigos. O +conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe disse ao ouvido. Ella +correu então a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim. + +--Não conhecias já da aldeia, Magdalena?--perguntou o herbanario. + +--Não; minha mãe veio para aqui no anno em que, por morte da sua, +Magdalena voltou a Lisboa. A affabilidade, a singeleza desaffectada com +que me falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje sinto como que +os reflexos d'aquella suave impressão. Parecia-me ouvir a voz de minha +mãe; tinha o timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança o +coração. Com ella não senti mais aquelle acanhamento que me enleiava. +Depois falava-me de coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a +respeito dos campos, das arvores, das abelhas, dos ninhos dos passaros, +das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escutando-me com +tanta deferencia e attenção, que me inspirava coragem, e julgo que me +estava dando ares de mais importancia junto d'aquelles pequenos senhores +e senhoras que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus desdens e +acabaram por me escutar e interrogar tambem com curiosidade. Já uns me +lançavam os braços ao hombro, outros formavam circulo em volta de mim, e +cêdo fui eu a principal personagem d'aquella noite. Essa creança... + +--Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o não soubesse. Não podia +deixar de ser ella--exclamou o herbanario, com um fulgor de sympathia a +illuminar-lhe o olhar.--Era ella; sempre assim foi! + +--Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia no meu espirito. +Hoje ainda, se penso n'ella, acho-a de uma grande significação moral. +Pois não é mais apreciavel n'uma creança esta prova de superioridade de +caracter, do que nas idades em que muitas vezes a razão e o calculo a +impõem a uma indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo +espontaneidade. Desde então a adoro. + +O herbanario parecia não ter já animo para sorrir. + +--Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella grande tristeza. Tão +novo! + +--É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi sempre para mim affavel; +inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os +defeitos da minha educação aldeã, e, se reconhecia progressos no +discipulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e +o maior premio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena com certo +ar de gravidade, que aquella creança já então tomava, perguntou-me, no +meio de uma conversa propria de creanças: «E sente-se com genio para ser +padre, Augusto?» Já me não lembro do que lhe respondi. Trouxe porém +commigo aquella pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia. +Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde então m'a repetia +sempre, até junto da cabeceira de minha mãe, cuja maior aspiração era, +como sabe, vêr-me padre. Mas em vão! foi desde então uma dúvida +constante com que luctava. Com a morte de minha mãe tudo mudou. Pela +primeira vez respondi á interrogação, que havia tanto tempo dirigia a +mim proprio, e consegui por fim responder: «Não». Eis o segredo do meu +passado. + +--E por que disseste «Não»? + +--Porque vi que toda a minha vida era para a consagrar a um sonho; que o +sonharia no altar, no pulpito e no confessionario; que para toda a parte +me seguiria a imagem, a que eu já não podia renunciar, e a qual então já +não contemplaria sem remorsos, como agora o faço. Foi por isto. + +--Só? Não te illudirás a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que n'isso pode +ir a tua felicidade! Estás bem certo de que não ha uma esperança dentro +do teu coração? + +--Se a tivesse... + +Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua. Cêdo +batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fóra: + +--Está acordado ainda, tio Vicente? + +O herbanario trocou um olhar com Augusto. A voz era de Magdalena. + +Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario quiz retêl-o. + +--Onde vaes? + +--Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora. Não estou preparado com a +minha indifferença. + +--Pobre mascara!--N'esse caso sae pelo quintal. + +--Tio Vicente!--repetiu Magdalena, de fóra. + +--Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera--continuou em voz baixa +para Augusto:--dá-me a tua palavra que não escutarás. + +--Dou; mas... promette que nada lhe dirá? + +--Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer, quanto mais... Adeus! + +Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo lado do quintal, o +herbanario foi abrir a porta da rua á morgadinha. + + + + +XVI + + +--Ora com Deus venha a minha fada; esta querida Lena, que se não esquece +dos seus amigos velhos... Boas festas me trazes pela noite, filha! + +No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes indicios de +preoccupação. + +--Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; eu venho... + +O herbanario conduziu-a para junto da mesa, onde estavam ainda os +signaes de refeição, que havia pouco findára. Vendo os dois talheres, a +morgadinha olhou interrogadamente para Vicente: + +--Estava alguem comsigo? + +--Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porquê? Temos por ahi mais alguns +livros a comprar-lhe?--continuou, sorrindo com benevola malicia.--Tenho +eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada que, de vez em quando, +me ensina em segredo quaes os livros, que o rapaz mais deseja e de que +eu mal sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos, que +não mereço, e que elle mais de coração daria, a quem são de justiça +devidos? + +--Não, tio Vicente; não se trata agora d'isso. + +--Ai, Lena, Lena, que não sei bem o que devo pensar de todas estas +coisas. + +A morgadinha parecia um pouco perturbada com as palavras do herbanario. + +--Que ha de pensar? Ha nada mais natural? Angelo foi que me deu o +exemplo. Elle sabia o amor que Augusto tem á leitura. Porém o cofre de +Angelo é pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego a nem saber em que +hei de consumir o que me sobra. Por isso foi que me lembrei... porém +como não conviria que eu propria fizesse o presente, nem elle de mim o +acceitaria, é que eu lhe pedi que o fizesse em seu nome. Mas falemos de +outra coisa, porque me não posso demorar. Venho ás occultas e emquanto a +minha gente foi á missa do gallo. Tio Vicente, um objecto muito grave me +obrigou a procural-o a estas horas. + +--Ah!--disse o velho, sentando-se em tom de gracejo.--Adivinho a +gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem +algum principio de sarampo ou de garrotilho, e vens... + +--Não, não. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este +quintal? + +O velho tornou-se immediatamente sério. + +--Se lhe tenho amor?! Que pergunta! + +--Tem? + +--Nasci aqui, filha. + +--Custar-lhe-ia a... + +--A quê? + +--A... a... + +E Magdalena hesitava. + +--Fala!--insistiu o velho, já inquieto. + +--A separar-se d'ella? + +O herbanario respondeu simplesmente: + +--Ah! morreria. + +Magdalena fez um gesto de afflicção. + +Em Vicente crescia o desassocego. + +--Mas... Dize, Magdalena; o que significam essas palavras? + +--É que... + +--Explica-te!--exclamou o herbanario, quasi imperiosamente. + +--Ouça-me, tio Vicente; ouça-me, mas não se afflija. Eu vim de proposito +para o prevenir. Mas, por amor de Deus, socegue; senão tira-me o animo +de continuar. + +--Que socegue, e tu a atormentares-me com essas demoras! + +--Perdôe... Fala-se em deitar abaixo estas arvores e esta casa, para... + +O herbanario de um impeto poz-se a pé. Fulgurou-lhe nos olhos um +relampago de ira terrivel! + +Magdalena calou-se, assustada. + +--Deitar abaixo estas arvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve? +Pois que venham! que venham! + +Mas reparando no terror que estava causando a Magdalena, procurou +reprimir-se, e com uma voz que elle se esforçava por tornar tranquilla, +continuou: + +--Mas vejamos. Então querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Dize o que +sabes. Quem é?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala, +bem vês que eu estou socegado, filha. + +--Ha um projecto de estrada... + +--Ah!--disse Vicente, com um grito de raiva.--Não digas mais. Já +sei--continuou com renascente exaltação.--Já sei. Adivinho o resto. É +teu pae que o determina; é teu pae que o resolveu? + +Magdalena abaixou a cabeça com dolorosa expressão. + +O furor do velho exaltou-se outra vez. + +--Teu pae! Teu pae, Lena! Então esse homem jurou matar-me? + +--Tio Vicente! + +--Elle não sabe o que são para mim estas arvores e estas paredes? Elle +não sabe que a minha alma está n'ellas, presa a estas raizes? que com +ellas se despedaçará? Esse homem sem coração não vê que são estas as +minhas affeições, as unicas? a minha unica familia? Elle, o companheiro +dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou, á sombra d'essas +mesmas arvores e sob os olhares de meu pae, que tambem o abençoava, tão +duro de coração se fez que, sem respeito por estas memorias todas, assim +me quer separar do que me dá vida, do que ainda me prende ao mundo? E é +teu pae este homem, Lena? + +--Por quem é, tio Vicente; ouça-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que +talvez tudo se remedeie ainda. + +--Sim, sim; tudo se remediará... com a minha morte. Talvez que ella seja +util a teu pae... Talvez precise d'ella. + +--Oh! não creia, não creia. + +--É duas vezes doloroso o golpe; porque me separa do que amo deveras e +por vir da mão de quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita que +o era... ainda. Conheci-o tão generoso e tão innocente, como teu irmão +Angelo. Muitas vezes me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus +projectos. E acreditei n'elle. Tinha então no olhar um fogo, que não +mentia. Vi-o seguir a carreira publica e acompanhei-o com a minha fé. +Não tardaram os primeiros desenganos; não lhes quiz dar credito ao +principio. Vieram outros e outros. Fui vendo então que os maus ares +d'aquella terra tinham embaçado o brilho do caracter, que eu julguei +melhor do que os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me reservado +ainda. Para teu pae hoje os homens são medidos pelos votos, que podem +lançar na urna eleitoral! + +--Por amor de Deus, tio Vicente, não fale assim! Não duvide de meu +pae!--exclamou Magdalena, a quem cruelmente estavam affligindo as +recriminações amargas do herbanario.--Meu pae estima-o e respeita-o. Não +tem o coração endurecido que diz. Elle mesmo ámanhã aqui ha de vir. Verá +então... + +--Elle? Ámanhã?... + +--Para isso venho prevenil-o. Não o receba com asperezas, tio Vicente; +fale-lhe com brandura. Talvez o commova, talvez seja ainda possivel +valer a tudo. Ainda não está decidido... Julgo... E que estivesse... + +--Ámanhã! Teu pae vem aqui ámanhã? E ousa vir elle proprio annunciar-me +o que sabe que vae ser uma sentença de morte? + +--Não; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia. Sabendo-o, verá +como... + +--Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me, e ha muito. Não +julgues que pode errar, calculando o effeito d'este golpe. Mas que +queres tu? ensinaram-lhe já a avaliar em pouco as venetas de um velho +quasi tonto. Homens que trazem o pensamento em interesses tão altos, não +teem vista para estas pequenas desgraças. + +Magdalena sentia-se possuir de uma profunda tristeza, ao ouvir falar o +herbanario. Era uma dolorosa provação para o seu amor de filha vêr assim +uma nuvem de desconfiança offuscar a ideal concepção que ella formára do +pae, e não ter fôrças para a afugentar. Ás vezes uma dúvida cruel +fazia-lhe, a seu pesar, suppôr que o herbanario tinha razão. Agora só +conseguia oppôr um gesto supplicante áquellas acerbas accusações, que +por muito tempo ainda desattenderam esta supplica muda. + +A final serenou a violencia da irritação do velho; succedeu-lhe, porém, +uma commoção profunda, dominado por a qual disse a Magdalena: + +--Socega, Lena; ámanhã eu receberei teu pae sem a menor aspereza. +Fizeste bem em vir primeiro, filha. Se o não esperasse, talvez não +soubesse conter-me. Agradecido. Uma noite é bastante para me preparar. +Agora vae, deixa-me só; deixa-me... chorar. + +E cobrindo o rosto com as mãos, deixou-se cair, soluçando, sobre a mesa, +junto da qual se achava. + +Magdalena correu para elle, commovida. + +--Então, tio Vicente, então! Socegue! Ámanhã meu pae virá. Fale-lhe, e +eu espero que ainda será tempo de evitar... o mal. + +--Pode ser, pode ser...--respondia o velho.--E se não pudér, Deus me +acudirá, para não viver por muito tempo fóra da casa em que nasci. + +Magdalena já não tinha que lhe dizer. + +--Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos, como já pedimos. +Tenho esperança. + +--Não, filha, não peças tu. Deixa-me só com teu pae ámanhã. Disseste que +tinhas vindo, sem ninguem saber?--continuou elle.--Olha que te não dêem +pela falta. Vae, que é tempo. + +--Mas... + +--Vae, filha. Eu estou já tranquillo. Bem vês. Deus te recompense a +bondade que tiveste. Vae. Queres que te acompanhe? + +--Não é preciso. Vim pela porta das prezas, que deixei aberta. São dois +passos e estou na quinta. Mas, tio Vicente... + +--Vae então; e Deus te abençoe. + +E o velho pousou a mão sobre a cabeça de Magdalena, que saiu commovida. + +E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o pranto que lhe rebentava +dos olhos. + +É sombria a saudade n'aquellas idades, porque as esperanças são já muito +debeis para lhe darem luz. + +Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda pelos sentimentos que +alli a tinham agitado, a morgadinha dirigiu-se á pressa para a porta da +quinta, por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta resistiu. +Este facto surprehendeu e inquietou um pouco Magdalena. Quem poderia ter +fechado a porta? E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe +necessario um longo rodeio pela aldeia para chegar a outra, que pudesse +encontrar aberta. + +N'esta hesitação impelliu outra vez instinctivamente a porta, que lhe +oppoz a mesma resistencia. + +Cêdo, porém, sentiu o rodar da chave na fechadura e viu mover-se +lentamente a porta, e no vão, que augmentava, desenhar-se uma figura de +homem. + +Antes que pudésse, através da obscuridade da noite, reconhecer a pessoa, +que assim tão a proposito lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas +palavras: + +--Muito boas noites, prima Magdalena. Espero que pelo menos me concederá +licença para exercer, junto de si, as humildes funcções de porteiro. + +Era Henrique de Souzellas. + +Magdalena não foi superior a um vago sentimento de receio, ao +encontrar-se ahi com o hospede de Alvapenha; comtudo esforçou-se por +dominar-se e respondeu, com apparente presença de espirito: + +--Ah! É o primo Henrique. Muito boas noites. Ahi temos um requinte de +galanteria, que eu estava muito longe de esperar. + +--E de desejar, não? + +--E de desejar tambem; confesso-o. Por mais diligente que seja um +porteiro, nunca o é tanto como uma porta aberta. + +--Mas é mais discreto. + +--Duvido. Em todo o caso, agradeço o incómmodo. + +E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explicações. + +--Uma palavra, prima Magdalena--disse Henrique, retendo-a por o braço e +com certa expressão nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto +da morgadinha.--Não ha mais accommodado terreno para um dialogo solemne +do que o limiar de uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o +homem muda de mascara; depõe a que apresenta na sociedade e afivela a +que traz na familia, e vice-versa. Ora n'estas mudanças é facil +surprehender o verdadeiro rosto da pessoa. + +--Será tudo o que quizer o limiar de uma porta, primo; menos um logar +muito confortavel para serões n'uma noite de dezembro. + +E Magdalena tentou de novo seguir para deante. + +Henrique susteve-a outra vez. + +--Um momento só, prima Magdalena; tenho necessidade de saber se me quer +para alliado ou para inimigo. + +--Não vejo a necessidade da alliança que propõe, nem as razões para a +lucta. + +--Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aqui foi +um desagradavel contratempo. Uma certa altivez e consciencia de +invulnerabilidade, de que tinha o incómmodo de se revestir, sempre que +tratava commigo, depois d'esta importuna occorrencia terá de se +modificar. + +--Não havia dado por essa... _revestidura_ que diz; mas, se ella +existiu, far-me-ha o favor de dizer: por que não pode continuar? + +--Essa é boa! porque eu faço a justiça á prima de suppôr que não vae tão +longe a sua hypocrisia. + +--Hypocrisia!--disse Magdalena, com accento mais severo. + +--Perdão; não tive tempo para inventar outro termo mais... brando. +Dissimulação talvez lhe agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do +occorrido... + +--Agora exijo eu que se explique, senhor. + +--Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar uma explicação... +edificante... d'esta sua excursão nocturna? + +--Obsta apenas a que eu lh'a dê, sr. Henrique de Souzellas, a falta de +uma pequena formalidade: a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me. + +--Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha ideia. A prima é uma mulher +admiravel, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade +distincta, sobranceira por isso a pieguices provincianas. Tanto mais me +encanta! E creia que me envergonho só ao lembrar-me do que terá pensado +de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de +franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, não é +verdade? + +--Agora é que me está parecendo bem enygmatico! + +--Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo. + +--Pois ignorava!--atalhou Magdalena, com ironia. + +--E sabe de certo, por experiencia do mundo, que para homens como eu, a +indifferenca, a frieza e os desdens redobram o ardor da paixão. + +--Sim; já li isso n'um romance. + +--A prima tem sido para commigo de uma crueldade revoltante, mas pouco +sincera. Eu resignava-me a soffrer, porque um resto de ingenuidade que +me ficou dos quinze annos, illudia-me na interpretação de taes +resistencias. Tive a puerilidade de a suppôr uma mulher de excepção; +pouco me faltou para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel +noite de Natal o desengano. + +--Ah! então parece-lhe... + +--Que a prima representa admiravelmente o seu papel. Pode gabar-se de +ter illudido um homem habituado ás scenas da comedia social. + +Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza: + +--Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas, sem que eu +propria bem saiba o que me retem aqui: se é a compaixão que me inspira a +profunda doença moral de que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a +que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por +um facto, que a sua pouco delicada indiscreção preparou, eu ficarei de +hoje em deante á mercê da sua generosidade. Conhece-me muito pouco, sr. +Henrique! Ainda quando esse facto não pudésse ter uma explicação +natural, e que me não repugnará declarar quando quizer, saiba que tenho +orgulho de mais para arrostar com tudo, até com a calumnia, de +preferencia a resignar-me ao menor predominio que me seja odioso. + +--Bravo! + +--Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se eu não lhe fizesse a +justiça de acreditar que d'esses seus actos e palavras não é +absolutamente irresponsavel talvez a má influencia da ceia d'esta noite, +bastariam elles para me inspirarem por si e pelo seu caracter o mais +completo desprezo; e então seria, como nunca, manifesta a minha +independencia, porque eu nunca temi os seres que desprezo. + +Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de +energia, com que a morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de +scepticismo obrigou-o a replicar: + +--Santo Deus! prima Magdalena; não dê um colorido tão pavoroso ás minhas +supposições. Despojal-a de uma crueza deshumana, para a dotar de uma +sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma justiça feita ao seu +coração. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me auctorisa. O +pequeno e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se +já, creia; e agora só me resta invejar a sorte de quem tem a +felicidade... + +--Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o +escutarei; poupar-lhe-hei assim os remorsos, que ámanhã teria da sua +infamia... + +E animada por uma resolução mais energica, Magdalena caminhou +soberanamente para a porta. + +Henrique collocou-se-lhe outra vez deante. + +--Um momento mais. + +--Deixe-me passar, senhor. + +--Não, sem que me ouça antes. + +--É uma violencia? + +--É uma supplica. + +N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avançou +para elles. + +--Sr.^a D. Magdalena, se fôr preciso reter o insolente, que se lhe +atravessa no caminho, ponho um braço á sua disposição. + +E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio collocar-se entre +Henrique e Magdalena. + +Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de cólera. O olhar que +fixou no recem-chegado trahiu a vehemencia da impressão recebida. Depois +succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias. Olhou para Magdalena, +em quem não era menor a surpreza causada pela inesperada presença de +Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de +malignidade e de ironia, que a ambos fez estremecer. + +--Ahi está uma apparição tanto a tempo, prima Magdalena, que aos mais +incredulos infundiria fé na intervenção da Providencia. Que foi sem +dúvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas, +um tão generoso e intrepido salvador. Não é verdade, prima? O que vale +estar de bem com Deus! + +Estas palavras mostraram a Augusto que a sua intervenção, ainda que +generosa e devida a um espontaneo impulso da alma, não fôra porventura +das mais convenientes. + +--Senhor!--exclamou elle, indignado, dando um passo para Henrique. + +--Socegue--tornou este, com dobrado sarcasmo.--O senhor é um perfeito +heroe de romance; enthusiasta, cavalheiresco, mas, em certas occasiões, +incómmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio +causar a um bello dialogo que eu sustentava aqui com a sr.^a D. +Magdalena! Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu com a sua vinda o fio +da comedia, que desempenhava com perfeita sciencia de actriz. As almas +ingenuas e generosas, como a sua, sr. Augusto, são ás vezes de uma +impertinencia! Vamos, sr.^a D. Magdalena; não descoroçôe. Assim exgotou +todos os recursos da sua imaginação? Vamos, introduza mais este elemento +de apparição de um heroe no enredo, e organise a comedia com o superior +talento que tem! Eu por mim acceito todos os papeis que me distribuir. + +Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou, dizendo com voz firme: + +--Perdão; vejo n'esta noite em todos uma notavel disposição para +usurparem direitos, que não possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar; +o sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que já ha pouco lhe +disse; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas acções, +fal-o-hei deante de outros juizes, em quem reconheça o direito de o +serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar que, se o titulo de +hospede e de parente não fôsse bastante para me assegurar da parte do +sr. Henrique de Souzellas os respeitos que me são devidos, tinha ainda +na minha familia defensores legitimos e não seria por isso obrigada a +recorrer á protecção de um estranho. Meus senhores... + +E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre elles e +entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter. + +--Se esta senhora acceitasse a sua protecção e eu teimasse n'aquillo que +chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu +procedimento? Poder-se-ha saber?--perguntou Henrique, logo que a +morgadinha desappareceu. + +Augusto, em quem a fria altivez da resposta d'ella deixára o desespero +no coração, respondeu acerbamente: + +--Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem vê que não me esqueço +facilmente do meu programma de mestre-escola. + +--Vejo; é a segunda tentativa de lição que lhe mereço. Permitte-me que +ámanhã o procure para dar principio a um curso de educação mais regular? + +Augusto respondeu, sorrindo: + +--É um cartel em fórma? Não sei se estarei ensaiado para essa comedia. + +--Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha esse sabor. + +--Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa. +Qualquer scena d'essas entre nós seria pouco delicada... ámanhã. + +--Pois bem, contemporisemos; e até lá é de esperar que algum motivo +occorra que a explique melhor... aos olhos dos outros. + +--Como queira; a minha porta não se fecha a quem me procura. + +E separaram-se depois de se cortejarem. + +--Se me não engano--dizia comsigo Henrique, em caminho do quarto--é um +verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me +parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando um mestre-escola. Se +lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos +o que ámanhã, á luz do dia, eu penso d'isto tudo. Eu já não fico por mim +esta noite. Estou a querer convencer-me de que tenho andado +estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É que esta +mulher e este creancelho são irritantes. Ella com a sua altivez, elle +com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endymião d'esta esquiva +Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo e timido... A +ociosidade da aldeia para alguma coisa ha de dar. Mas da maneira por que +ella lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é +certo é que estou em lucta com uma mulher superior... Pois luctemos, +priminha, mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo que o +acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ella ámanhã me +trata... + +Esta scena deixou em Augusto uma perturbação de espirito mais profunda. + +As operações mentaes, que o preoccuparam toda a noite, eram d'aquellas a +que repugna chamar pensar. É mais uma febre intellectual, um succeder de +imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que +não aconselha nenhum partido, que não esclarece, offusca. + +Como se explica esta differença entre os dois? Por um apparente +parodoxo; porque Augusto tinha mais habitos de reflectir. Quando n'uma +vida de episodios uniformes e apparentemente vulgares, o espirito exerce +demasiado a analyse, habitua-se a estudar factos que para outros passam +por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas. +Costumado assim a ligar valor a tudo, quando succede que no decurso da +vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confusão do primeiro +momento é inevitavel. Assim como a balança de precisão, apropriada para +oscillar com pesos tenuissimos, não é a que pode servir para os grandes +pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar subtis accidentes, de +que se compõe o drama habitual da vida, não é a que de subito pode +avaliar algum mais complexo e importante. + +A resolução n'estes espiritos, depois de formada, é mais tenaz; mas, +emquanto se não fórma, vae n'elles um tumulto de ideias, que se não +podem analysar. + +Não analysemos, pois, as de Augusto. + +Magdalena não socegou emquanto não viu Henrique voltar ao quarto, pelo +mesmo caminho por que saíra. + +--Que resultará d'isto?--pensava ella.--Que fará elle ámanhã?... É +preciso não me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois +que os deixei?... Veremos ámanhã. + +No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena sorriu. + +É que lhe occorrera então este pensamento: + +--Dizem que nós, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar +amadas. Pois será mais difficil fazer-se aborrecida? Como o conseguirei? + + +FIM DO PRIMEIRO VOLUME + + + + +BIBLIOTHECA ESCOLHIDA + +XXIII + +ROMANCE + +III + + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES + +Vol. II + + + + +CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL +LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28 +TELEPHONE 2337 + + + + +JULIO DINIZ + + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES + +(CHRONICA DA ALDEIA) + +DECIMA-SETIMA EDIÇÃO + + + +LISBOA +J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES +186--Rua Aurea--188 +_1920_ + + + + +A MORGADINHA DOS CANNAVIAES + + + + +XVII + + +Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal. + +A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo +pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os +gêlos dos montes e os gêlos da velhice. + +O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os +sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, +saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na +direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da +Natividade. + +Era dia santo entre os que mais o são; e os dias santos na aldeia teem +uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a +vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia +duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas +arvores das nossas praças e jardins. + +Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia +santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na +lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em +vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os +da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição typica e +interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer +apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no +domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal. + +Dirá então se não parece que até o sol tem outra luz e que as arvores e +as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os +dias de festa. + +Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo +Henrique de Souzellas, encostado á varanda do quarto em que pernoitára, +e emquanto esperava que o chamassem para o almoço. + +De vez em quando a recordação das scenas nocturnas da vespera +desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento; acudiam-lhe +todos aquelles incidentes á memoria, mas vagos e confusos, como se +tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles. + +Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber +como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na +presença d'ella. + +Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma. + +D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o toque da campainha +annunciando o almoço. + +--Vamos,--disse Henrique--preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos +a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle +regular o meu plano de tactica. + +E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do +almoço. + +Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha +presidindo á mesa e preparando o chá. + +Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que +elle tinha passado a noite. + +Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando, +desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural, +sem timidez nem audacia. + +Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de +cumprimentar Magdalena. + +--Bons dias, prima Magdalena,--disse Henrique, estendendo a mão e +fixando-a com olhar investigador. + +Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de +affectado nem de constrangido: + +--Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos +habitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha. +Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã. + +--Eu é que não consentia:--disse o conselheiro--na aldeia como na +aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são mais tardias. + +--Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o +toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu +quarto. + +--Eu não pude dormir toda a santa noite--disse D. Dorothéa.--Estranhei a +cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!... + +--Ó prima, não vá sem resposta--disse D. Victoria--que tambem eu não puz +olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber +quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram +que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo +Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto. + +--Não, minha senhora; eu não senti rumor. + +E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que +justamente n'aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de +novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença. + +Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco á sua vaidade +este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em +Magdalena. + +No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorothéa o facto +das passadas que ouvira de noite. + +--Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o que vae. São coisas +d'estes criados. Não faz ideia! É uma pouca vergonha! É preciso +paciencia de santa para os aturar. + +--Angelo,--disse a morgadinha ao irmão--entretido como estás a conversar +com as creanças, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece +de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão! + +Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e +caida em uma d'aquellas abstracções, a que ultimamente era sujeita. + +--Eu não sei que tem hoje esta Christe--disse Angelo.--Julgo que lhe fez +mal o frio na noite de hontem. + +--É verdade, até está falta de côr! Ora queira Deus que não seja coisa +de cuidado. Dóe-te alguma coisa, menina?--perguntou D. Victoria, +apprehensiva. + +--Não, mamã--respondeu Christina. + +--Ó meninas, vocês tambem são umas desacauteladas. Eu bem te dizia +hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não +tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se. + +Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido. +Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era +objecto d'ellas. + +Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta côr e +d'esta expressão recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava +mais graciosa. + +Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creança, em que mal +fixára a attenção até alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a +com alguma insistencia. + +--É interessante esta pequenita--pensava elle comsigo. + +Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorothéa, quando +encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal +pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos +baixaram-se de novo. + +--Ha de ser adoravel esta mulher--pensou d'esta vez Henrique, vendo-a +sob novo aspecto. + +O conselheiro disse, sorrindo: + +--Ora, que estão a dizer? A Christe até está com umas côres muito +bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados. +Provavelmente está agora n'algum episodio sentimental no romance da sua +imaginação. Não sondemos aquelles mysterios, mana. Já não é para nós +comprehendel-os, prima Dorothéa. + +Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina. + +A morgadinha, a quem não passára despercebida a impressão, que a prima +d'está vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que +havia tanto procurava, e para isso propoz que se désse uma volta pela +aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenções de +Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se não decorresse o +tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a +impressão que o dominava. + +A manhã convidava á excursão campestre. A proposta da morgadinha foi +acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa +do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã. + +Levantaram-se todos da mesa, e á excepção de D. Victoria e D. Dorothéa, +todos saíram. + +A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz +para dar tempo a Henrique de offerecer o braço a Christina, o que +effectivamente aconteceu. + +--Bem,--disse Magdalena comsigo ao vêl-os--agora que os anjos bons de um +e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se. + +E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no braço. + +Angelo ia com as creanças adeante. + +Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, para vêr se os anjos +bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena. + +--Não ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos, +n'uma manhã como a de hoje, e em companhia tão amavel--dizia Henrique, +procurando aquilatar o espirito da sua _partner_, n'um certame de +galanteria, fóra do qual não concebia que se pudesse temperar uma +paixão. + +Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava +porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os +labios, não lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder: + +--Está muito agradavel a manhã, está; nem parece de inverno! + +--Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural em uma senhora isso. +Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque +prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as leituras em +commum, e traz-me á ideia as imagens de um viver a que a phantasia de +todos sorri; de todos os que teem um resto de coração; refiro-me ás +imagens de uma familia. + +Não ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma +revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra não +sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expansões. Na +apparencia é fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforços +realisados, que os fortes nem concebem sequer. + +Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios só +puderam responder: + +--Na cidade o inverno é mais facil de passar, julgo eu; porém na +aldeia... + +--Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino. +Não é fóra das portas de casa que devemos procurar os elementos para +instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar +admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e +sete annos sem familia. Não é verdade? + +Christina só pôde sorrir: + +--Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do +ideal e abraçado á peor das realidades. É a consequencia legitima e +triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres +formosas, amaveis, interessantes; porém nenhuma que satisfizesse ás +necessidades do meu coração, de quem me affirmasse a consciencia poder +esperar a realisação do meu sonho. Perdôe-me falar-lhe n'isto, priminha; +é uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no +coração bastante bondade para m'a perdoar. + +--Está a gracejar?--disse Christina, em quem redobrava a turbação, e +que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a +sua felicidade: contradicções proprias dos timidos. + +--A prima é muito moça--continuou Henrique, que não desesperava ainda de +animar esta Galatheia--e talvez por isso lhe causará estranheza este meu +modo de falar. Um dia virá, porém, em que o comprehenderá melhor. Se +então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha +misericordia d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem a +conheceu n'uma época, em que só podia vêr em si, priminha, a aurora de +uma esperança que já não tinha de luzir para elle. + +--Mas... salval-o!... como salval-o!... + +--Como as mulheres salvam; amando. + +--Bem digo eu que está a gracejar--balbuciou Christina, com voz trémula. + +--Tem o defeito da innocencia--disse Henrique para si.--Não se lhe tira +uma resposta de geito. + +N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha saído da +quinta na noite passada. + +--Agora deixo-os por aqui--disse o conselheiro--irei encontral-os á +igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil. + +--Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei--disse Magdalena. + +--Socega, filha; serei de cera. Até logo. + +--Até logo. + +E o conselheiro tomou a direcção da casa do herbanario. + +--Era tempo!--disse Henrique comsigo.--A minha eloquencia arrefecia na +proximidade d'este gêlo. + +A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de +Christina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido. + +--Ainda não!--murmurou ella.--Pobre Christe! como se deve estar odiando +a si mesma! Como ha de esta creança vencer este obstinado? Mas não perco +ainda as esperanças. + +Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e +tentou outra vez experimentar Magdalena. + +--Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima? + +--É--respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:--O +que te faz lembrar esta porta, Angelo?--perguntou ella. + +--Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas já de noite, e sem a +tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das +borboletas. + +--Fica perto a casa d'elle?--perguntou Henrique. + +--É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina--respondeu Angelo. + +Henrique pensava: + +--Seria para provocar uma explicação que ella fez a pergunta? Esta +mulher é admiravel! Não lhe sei resistir. + +E já lhe não restavam vestigios da impressão causada por Christina. + +--Este herbanario--continuou elle em voz alta--deve, pelos seus habitos +excentricos e até pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra +certa famazinha de feiticeiro. + +--E tem,--affirmou Magdalena--mas de feiticeiro bem intencionado. + +--Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver. + +--É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o +bem que elle faz de dia. + +--Ah! Então temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que +lhe valerá é algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que +diz, prima Magdalena? haverá? + +Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse: + +--Á excepção de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais +o visita. + +--Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?! + +Magdalena luctava para reprimir a impaciencia. + +--Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não +chegava o seu animo não, prima? + +--Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido só, e a altas +horas--respondeu Magdalena com a maior firmeza. + +--Sim?! E não tem mêdo? + +--De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De +malfeitores? não os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com +uma suspeita me offendem--disse a morgadinha, accentuando com expressão +as ultimas palavras. + +Henrique acudiu immediatamente: + +--Longe de mim duvidal-o. + +E calaram-se por muito tempo. + +Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do +herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanças de aspecto +doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos +seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanças de aspecto +rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio +humano. + +--São os peregrinos que veem de Meca--disse comsigo o conselheiro.--Pelo +que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como +d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito +respeito o codigo. + +Entrou emfim a porta do quintal. + +Poucos passos andados encontrou-se com o Zé P'reira, que vinha virando e +revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume: + +--Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta +mexerofada! Isso até era um peccado. N'essa não caio eu! + +O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel. + +O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe +dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, +causa dos seus males. A receita era extrahida da _Polyantheia_, e tinha +por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabellos de homem e +figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a +efficacia. + +Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de +limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal. +Cêdo chegou á vista do herbanario, que dera audiencia _sub tegmine +fagi_. + +Estava sentado á borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava +sombra. + +O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle. + +Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer +quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso. + +--Bons dias, Vicente--disse o conselheiro com familiariedade e parando +defronte d'elle. + +--Bons dias, Manoel--respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado. + +--Saía agora d'aqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua +medicina. Padece de mal que se não cura. + +--Os vicios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo, +são. + +--Já que tu não appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar +comnosco as festas do Natal, vim eu vêr-te. + +--Obrigado. + +--A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente--continuou o conselheiro, +sentando-se á beira do tanque.--Cada vez te estás a sequestrar mais dos +homens, cada vez mais os aborreces. + +--Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a +vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus +semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo +pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por +isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle. + +--És um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que +cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse banco, +com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão? + +--No passado. Pois não t'o disse já? O domingo reservo-o eu para me +recordar. Ahi está que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os +repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu +pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje. +Lembras-te d'elle, Manoel? + +--Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não. + +--Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cêdo do +que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou +menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós +ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo +traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço, +uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os +dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos +transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns +segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz +os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces +a arvore hoje? + +--Não--disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum +pequeno arbusto. + +--Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É esta a que me +encosto. + +O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore, +como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas +mãos. + +--É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa--disse +elle, distrahidamente. + +--Depois da nossa tarefa, sentámo-nos--proseguiu o herbanario.--Tu +ficaste, exactamente como estás agora, á beira d'este tanque. Então, +lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda +não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará mais +do que nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O machado vem, quando menos se +espera.» + +--Como te lembras bem d'essas coisas!--disse o conselheiro, sorrindo +constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a +entrevista. + +--Ai, eu tenho boa memoria! + +Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente, +dizendo: + +--Mas a final o que te trouxe hoje aqui? + +O conselheiro respondeu com resolução: + +--Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave. + +--Sim? E commigo é que vens tratar os objectos graves? + +--Por que não? sempre foste homem de bom conselho. + +--Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim. + +--Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos +genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a +pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem +divergencias naturaes, que comtudo nos não obrigam a deixar de nos +estimarmos, julgo eu. + +--Bem, então dizias tu que vinhas?... + +--Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente. + +--Dize. + +--Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios? + +--Pouco tenho que sacrificar. + +--Tens, e é um sacrificio doloroso. + +--Acaba. + +--Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por +aqui a estrada em projecto. + +O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza +estas palavras, e respondeu, com certa ironia: + +--E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para +eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu, +a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel, +em teres ainda em conta a vida de um homem inutil. + +--Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu... + +--Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte +n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre +mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os +interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro +partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas +coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não déste a isso o nome +de ingratidão. + +--Ouve. + +--Sê franco, que eu te ouvirei. + +--Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta +estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra +e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por +causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situação politica me +ser contraria. Tres traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande +parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está +no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella não +teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os +seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, +vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, +convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias +que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito? + +--Fizeste bem--respondeu o herbanario. + +--O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este +homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir +a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabeça +que, entregue a si, não faz coisa de geito. O homem oppunha-se +formalmente a esse traçado; se o não attendesse, declarava-se, por +despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para +luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar +áquellas mãos os seus destinos; vencido, era perder a esperança de tirar +dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do +que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos +altares. Eu ando a catequisar o homem, para vêr se consigo d'elle uma +casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um +estabecimento sericicola; se o desattendesse, lá iam as esperanças +d'estes melhoramentos tão uteis, e que o mais que nos poderão custar é +um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te não agradam estes +meios, porém olha que em politica são dos mais innocentes que podem +empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o +circulo, por cujo interesse me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois +o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem +scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia +para o teu coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo +memorias ligadas a estas arvores, e não ha homem que, aos cincoenta +annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos +de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma +generosa e heroica, e que não duvidarias comprar, á custa das tuas dores +e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta +estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de má vontade, +corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os +trabalhos; a menor opposição dos proprietarios, o menor embargo +dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido. +Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me? + +O herbanario estava cada vez mais pensativo. + +--Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais importancia a +dois annos de vida que me restam, do que á vida nova que vae haver para +esta terra. Fizeste bem. + +--Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as +apprehensões com que estás; em toda a parte terás arvores... + +O herbanario interrompeu-o: + +--Se não entendes o amor que eu tenho a estas, não faças por +consolar-me, Manoel, porque me affliges mais. + +--Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das +nossas propriedades, tens sempre um logar vago á tua espera, tanto á +mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer. + +--Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria +tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei. + +--Eu farei com que o contracto da expropriação seja o mais favoravel +possivel. Vejamos, em quanto avalias... + +--Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o +pagaria; a não attender a isso, tudo será pagal-o bem. + +--Mas... + +--Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouçam +propôr o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, +então... + +--Tudo. Dize em que te posso servir. + +--Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que +te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte +annos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da +gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais +uma justiça: lembra-te d'isso. + +--Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa facilima; mais +que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por +modesto. Acredita, ás vezes é mais facil servir os ambiciosos. Nem eu +sei o que tem empatado esse negocio. É certo que ha um competidor, por +quem alguem trabalha; mas não importa; conta com isso, como negocio +concluido. + +--Emquanto não vir... + +--Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes? Vê lá. + +--E que me deixes agora só. + +--E não me ficas querendo mal, Vicente? + +--Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que suppões +que a tens. Basta-me isso para te perdoar. + +--Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a +Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral. + +--Não prometto. + +--Adeus. + +O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que não retirou a sua, e +partiu. + +--Está feito!--ia pensando o conselheiro á saída--não foi tão difficil +como julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o vê! O que faz a +idade! Bem! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a vêr +se acalmam algum fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que +pequeno será. + +N'estas cogitações chegou á igreja. Magdalena esperava-o no adro. + +--Então?--perguntou ella, com anciedade. + +--Tudo está remediado; entendemo-nos perfeitamente--respondeu o +conselheiro, com manifesta satisfação. + +--Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!--exclamou Magdalena, com +alegria. + +--Como ceder?--tornou o pae.--Elle é que foi mais condescendente do que +eu esperava. Não oppôz a menor resistencia, nem se queixou muito +amargamente. + +--Pois consentiu?! + +--Sem grande custo, ao que parecia. + +--Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo devéras. Pobre tio Vicente! +assusta-me isso que diz, meu pae! + +--Ora vamos; a tua imaginação é que te illude. Mas deixa-me aqui falar +com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me +dizer. Vae para a igreja, que eu vou já ter comvosco. + +E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que +estavam aquellas duas notabilidades. + +--Dou-lhes uma boa nova, meus senhores--disse o conselheiro, depois de +cumprimental-os--dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na +terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do +homem, que nos obrigassem a expropriações judiciaes, sempre demoradas. +Mas não, achei-o nas melhores disposições; e assim, dentro em poucos +dias... + +--Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios não +sejam tão doceis--lembrou o brazileiro. + +--Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores com pouco +se contentam. + +--Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco--disse o +brazileiro, sorrindo velhacamente--mas os modernos... + +--Pois mudaram de senhorio? + +--Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo. + +--E quem os comprou? + +--Este seu criado. + +O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, dizendo: + +--Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e +independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos +publicos, do que... + +--Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os +melhoramentos particulares. Eh, eh, eh. + +--De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma empreza como esta. + +--Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios á parte. + +O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o +espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo. + +--Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?--requereu do lado o sr. +Joãozinho das Perdizes. + +--Mil que pretenda--acudiu o conselheiro; e tomando o braço do morgado +afastou-se do grupo. + +--Eu tenho a pedir-lhe um favor--principiou o morgado.-- Eu, como sabe, +interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir +ensinar para aqui. Este negocio está empatado, como sabe; por isso +queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito. + +--Pois sim, mas...--fez-lhe notar o conselheiro--não sabe que é Augusto +o outro concorrente? + +--Então que tem isso? + +--Não lhe parece que seria uma injustiça? Um rapaz de merecimento, como +elle é, aqui da terra, que já exerce o emprego ha tres annos e com tanta +intelligencia? e haviamos de... + +--É verdade,--atalhou o outro--pois isso é verdade, mas... Emfim, elle +que passe para outra parte. + +--Mas se o rapaz quer isto? + +--Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr. +conselheiro, a gente tambem não ha de estar só a fazer favores, sem os +receber quando os pede. Com este já são tres. Pedi-lhe para o meu tio +abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias lá +para a freguezia... estou á espera d'ellas... Ora isto não se faz. O +senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha +freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A +não se decidir este negocio depressa... + +--Ora não será isso motivo para tanto. + +--Com certeza que é--insistiu o sr. Joãozinho.--Então digo-lhe mais: a +mim já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria dos votos de que eu +disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que +não é peor. + +O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo: + +--Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por +qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que +me diz, eu verei. + +--Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás eleições +não estiver feito o despacho, não conte commigo. + +--Mas quem lhe diz que não ha de estar? + +--Pois lá isso... + +--Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa. + +--Bem. + +O sino tocava a chamar para a festa. + +Terminou o dialogo. + +--O peor--ia pensando o conselheiro--o peor é que prometti ao Vicente +que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a +posta, que não vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma +coisa melhor. É preciso ter ambição por elle. Se elle quizesse ir para +Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo +contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o que sabe. + +Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o +pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de impaciencia, +assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, á fôrça de +cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção. + +Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o +latinista com tanto ardor namorava. + +O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor +que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: + +--Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não farta de chupar. +Contente-se com o que tem; vá conjugando o _laudo, laudas_, que outros, +com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me. + +O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se +para deixar passar o conselheiro. + +Mas lá comsigo dizia: + +--Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te não pica. + +E entrou tambem para a igreja, com não muito christãs disposições de +espirito. + + + + +XVIII + + +Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em +visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral, +visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com +gôsto, n'estas excursões politicas. + +Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de Pinchões, +passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e +desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se trilhava a cauda +a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o +proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dóses de carne +de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar. + +No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do +chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos +leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram +desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor +que escutavam fóra. + +Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o +obrigava a esta noitada. + +Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua +propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em +affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli. + +As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, +por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de +fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia, +fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com +assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram +as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar; +lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados, +diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo +encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de +Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de +ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno +brazileiro. + +Henrique saíu de lá exhausto de paciencia. + +Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das +festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia +occorresse coisa que mereça nota. + +Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem +outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas +palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então. +Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural esta ausencia, +contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a +ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de +quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os +dissipava com uma palavra. + +Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do +Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando. + +Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para +assistir á solemnidade popular. + +Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia ser coisa +memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o +sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a +ensaial-o, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da +Fama, que lhe competia desempenhar. + +Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os +restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira +deixou ficar pelo chão. + +Não obstante as extravagancias e as modelações toscas e risiveis de +muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado +mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada musa das +cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularissimas redondilhas, tão +apreciadas ainda na Hespanha. + +Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pateo de quinta +um tablado; veem adornal-o as mais vistosas colchas de chita, das quaes +tambem se formam os bastidores; alugam-se nos depositos mais modestos da +cidade ou villa proxima vestidos de reis, de principes e de guerreiros, +em que se combinam os elementos de épocas e de nacionalidades +disparatadas, e perante uma plateia rustica, ao ar livre, como no +theatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentaes +peripecias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os +episodios comicos do algum enredo popular. + +A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do +Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do circulo, em +parte por conveniencia dos emprezarios, pela apropriação do terreno a +todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes casos +recebiam de s. ex.^a, essa circumstancia, dizemos, augmentava o numero +de espectadores. + +Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do +espectaculo popular. + +O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem +pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava pôr á +disposição dos seus representados. + +Desde a vespera havia grande agitação e azafama no pateo do Mosteiro. Os +artifices levantavam o tablado scenico; pregavam e despregavam taboas; +serravam barrotes; os directores, e á frente d'elles o infatigavel e +imaginoso Pertunhas, davam ordens contradictorias; e os curiosos +estacionavam em magotes, difficultando tudo, censurando o que viam +fazer, e aventando alvitres absurdos. + +Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora dos +seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida e de +enthusiasmo. + +Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir a +espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia chorar +as creanças e estremecer as mães; ia resuscitar Herodes, o déspota +legendario. + +Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e +insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos +scenicos futuros. + +Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com +a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a +ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a d'elle. + +E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do recoveiro; alli +havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico, +deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha +abafado mineral de lei. + +Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam porventura +arrebatar plateias inteiras com as revelações do genio, que ás vezes +n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda assim +inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da +arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no +calor do desempenho; não mentia aquella embriaguez que lhe causavam os +applausos da multidão. Não ha verdadeiro genio artistico, que se não +namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O +homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será poeta nem +artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da gloria adeantou a meio +caminho os emprehendedores d'esta nova conquista de vellocino. + +Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista novel, á lembrança do +espectaculo, em que pela primeira vez ia entrar. + +As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido +encarregar-se da _toilette_ da Fama. + +Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das +mãos de Magdalena para as de Christina e das d'esta para as d'aquella, e +sempre com recato preciso para que ninguem mais lhe puzesse os olhos, +pois que pretendiam reservar para a occasião a surpreza toda. Contra a +curiosidade de Angelo é que mais tiveram que luctar. + +Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo de +espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto +por as colchas de chita aos olhares da multidão. + +Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica, +dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de +batuta. + +Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a +flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das torturas. + +Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos, +deu o signal de principiar. + +Um, dois, tres; um, dois--dizia ou fazia elle com os olhos e com os +movimentos da cabeça e pés, porque a bôca, essa já estava applicada á +embocadura da trompa. O segundo «tres» era o tempo fatal. Os musicos, +porém, ou por distrahidos, ou por a commoção propria dos actos solemnes, +não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do +mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a +esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os +ouvidos quasi em sangue. + +Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando +as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota +chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atraz d'ella, cada uma +por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito. + +O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e +o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a +vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da +banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão. + +Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade! + +Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia. + +Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que fôram +de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de um Cham ou +Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaçava estalar todas +as costuras da farda, primitivamente feita para um individuo de metade +das dimensões d'elle, com as faces insufladas, a testa contrahida e os +olhos injectados para extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava +com arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um flautim, +de braços compridos e tibias esquinadas, com meio braço fóra das mangas, +com meia perna de fóra das calças, figura em que havia não sei o que de +onomatopaico, tão bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos, +que arrancava do exiguo instrumento. O artista pratilheiro era um velho +recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em +tufos no meio das faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava +os pulmões dentro de um figle; um corcovado e semi-anão repicava os +ferrinhos com uma prodigalidade assustadora; as baquetas da caixa +estavam confiadas ás mãos callosas de um moço de lavoura, de rêpas +hirsutas a cobrir-lhe a testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, +no meio d'estas e analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, +torcendo-se, batendo com o pé, suando, arregalando os olhos, +piscando-os, marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa, +que lhe dava então não sei que apparencias de proboscidiano. + +Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a +familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram de +dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista que +se conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforços fez para soffrer +com paciencia aquellas torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de +S. Carlos perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso +aquella banda pandemonica! + +--Coragem! coragem!--murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como +perfeito politico.--Nas occasiões é que os homens se conhecem! Coragem. + +--É em extremo forte a provação!--respondia-lhe, gemendo, Henrique. + +--Firmeza; que a pallidez do susto nos não atraiçoe--continuava aquelle. + +Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a seriedade. + +A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido +tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o +estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares de tantos +espectadores fixavam-se na coberta de chita que já se via ondular. +Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, como se fôra a +resultante do palpitar de tantos corações. + +Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes. + +A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros +largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas +negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as +juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho +selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na multidão um quasi +pavor, que nem o conhecimento intimo que tinha do homem conseguia +dissipar. + +Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos, +corpete de velludilho azul, calções golpeados. Pendia-lhe á cinta um +alfange e uma pistola; ao peito algumas condecorações. + +Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões. + +O auto rompe com um monologo de Herodes. + +O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz considerações +substanciosas sobre a condição dos reis em geral e a sua em particular. +Principia elle assim: + + + Não ha vida mais inquieta, + Nem mais cheia de cuidados, + Do que a de um rei que pretende + Conservar os seus estados. + + +O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços cruzados, medindo o +palco a passos largos. + +Continuavam varias proposições de physiologia do throno, e, do caso +generico baixando ao particular, da these á hypothese, principia a falar +de si. Cancella, conhecedor dos segredos da arte, começava aqui a dar +mais vida á recitação, como para mostrar o maior empenho que tomava a +alma n'este capitulo da especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda +do Messias, e inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz +traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de +desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos +paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a fôrça á sua voz potente, +soltava berros, que participavam da natureza dos do tigre. + + + Começarei desde logo + A publicar leis tyrannas, + Que aterrem os meus montes, + Os palacios e as choupanas. + + Será tal o meu furor, + Tal a minha indignação, + Que ninguem se atreverá + A conquistar meu brazão. + + +O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam +a fixar-se. A excitação de animos a que os transportes de Herodes, +inquieto pelo seu brazão, levára o publico, foi serenada por um chorado +côro de anjos que cantavam atraz da cortina: + + + Não temas, ó rei cruel, + Que te conquiste o docel. + + +Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afiançarem +a segurança do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla, +entra-lhe o mêdo no coração, mêdo que procura afugentar com bravatas, em +que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com +abundancia de gestos e de movimentos. + +Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do Herodes. Para este +final do monologo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se +d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os +espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade +propria; suppunha-se Herodes; e até... ó fôrça da arte! +offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava +a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado +por o artista, e n'um d'estes silencios que todos prevêem se +desencadeiará em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas +quadras finaes: + + + Porém o furor me incita! + + +Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o alfange e +abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim. + + + O brio dá-me ousadia. + + +Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda. + + + Para defender o sceptro + A favor da tyrannia! + + +Aqui agitava os braços como azas de moinhos. + + + Será cada lança um raio! + + +E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago. + + + Cada espada um corisco, + + +E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile. + + + Cada soldado um trovão, + + +E trovejava-lhe a voz. + + + Cada golpe um basilisco! + + +E na posição e gesto em que ficava, não era menos terrivel e pavoroso do +que a fera da comparação. + +Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as mulheres e +as creanças ficaram silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um +peccado applaudirem Herodes. E não sei se, o que fizera menos +escrupulosa n'este ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das +janellas do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no palco +são admirados, mas raras vezes applaudidos. + +Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o +auto. + +Dariamos de bom grado na integra tão importante peça dramatica ou pelo +menos circumstanciada noticia d'ella, se não receiassemos o recheio +excessivo para esta ordem de alimentos litterarios, que se querem leves. +Não podemos comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente. + +Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro do dito--assim se lhe +chama pelo menos no folheto, o que dá a entender que Herodes era homem +de escripturacão regular,--o capitão das tropas reaes, os tres reis +magos, o anjo, a Virgem, S. José e o menino Jesus, a criada de Santa +Isabel, dois cidadãos de differentes cidades, o criado de um d'elles, a +Fama e duas creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho. + +As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na lapa de +Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto. + +A imaginação do espectador era a encarregada da mudança do scenario. + +O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas as cordas do +coração. + +Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a sympathia +pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres moços de lavoura, +de manto, luvas de algodão e turbante, os quaes, em lamuria nasal e com +profusão de _xes_, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das +quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao Deus +nascido a protecção para Portugal. + +Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como carpinteiro +que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina, emquanto a Virgem +dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a +despontar o buço da puberdade. O anjo apparecia, como nas procissões, +carregado de cordões de ouro. + +No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica +simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, chega a +elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocetão em +trajes femininos, e da parte da ama offerece aos foragidos algum +dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por não poder dar quanto queria, +o que tudo a Senhora agradece com as phrases da tarifa, recommendando-se +muito a sua prima. + +O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha +personagens, reflexões e scenas sempre apreciadas e já aguardadas pelo +publico, que as saúda com sinceras gargalhadas. D'estas a principal é +evidentemente a que se passa entre um cidadão, de quem a sacra familia +recebe gasalhado, e o criado do mesmo. + +É uma scena de disputa domestica, cheia de allusões satyricas á classe +dos criados de servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois +de mostrar ao criado, de relogio em punho--anachronismo shakspeareano--a +demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o auditorio: + + + Não se pode ter criados + Hoje em dia, n'esta vida, + Ou quem houver de os ter + Não lhes deve dar guarida. + + +N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso +episodio. + +D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa +de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, não pôde +conter-se, que não exclamasse: + +--Aquillo é que é uma verdade! + +A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro, riso que +teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo. + +A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir pelo caixeiro o +rapé ao auditorio; outra liberdade que produzia sempre o maior effeito. + +O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia +pitadas ao publico, dizendo: + + + O meu amo, com ser rico, + Gosta d'estas patuscadas. + Nunca os senhores tiveram + As pitadas tão baratas. + + +Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo +a regularidade do espectaculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam, +riam e guinchavam, todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: «Dominus +tecum» e «Deus te salve» no meio de toda aquella confusão. Porém a um +signal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espirito +das massas, tudo entrou na ordem. + +Preparava-se nova transição dramatica. O criado, que vae a saír, volta, +dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio: + + + Jesus, Jesus, que é isto? + Jesus do meu coração! + O signal da cruz me livre + De tão terrivel visão. + + +Era a Fama que apparecia. + +Ermelinda entrava em scena. + +No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que +entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia tão +completo contraste, que um murmurio significativo de profunda sensação +correu o auditorio. + +Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao que +era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, para +lhe darem a apparencia superior. + +O proprio Henrique, que até alli estivera commentando maliciosamente o +espectaculo, não pôde reter uma exclamação de surpreza, que foi +secundada por o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo +occupava agora a scena. + +A simplicidade do vestir concorria para esse effeito. + +Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe +descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos +contornos e esbeltas proporções d'aquella creança, que promettia ser uma +mulher esculptural. Os cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara, +caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando como fios de +ouro, na alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das +faces sobresaía n'aquella moldura natural. Com os braços descaídos, os +dedos encruzados, e a cabeça ligeiramente pendida, em expressão de +melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de +Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem +o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto +da innocencia, tendo nos passos a hesitação da timidez. Havia tanto de +sobrenatural no vulto candido, franzino e melancolicamente suave +d'aquella creança, que o actor que estava em scena não teve de simular +espanto, porque o sentia real, e não podia desviar os olhos d'aquella +apparição. + +O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a fôrça de +um encantamento. + +Como na antiga tragedia, o facto principal da acção, a carnificina dos +innocentes, passava-se fóra de scena. Á Fama competia narral-o. + +Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor +de commoção, principiou lentamente e no meio de um religioso silencio a +recitar os versos da narração, os quaes, como o leitor já sabe, não eram +os do auto, que mestre Pertunhas se estafára a ensaiar. + +Os versos que Ermelinda recitou diziam assim: + + + Desci dos celestes córos, + Por Deus mandada a escutar + Da infancia as queixas e os choros, + Para lh'os ir confiar. + + Desci. Na terra, nos mares + Tanta miseria encontrei. + Que os meus magoados olhares + Da terra e mar desviei. + + Desci. E tantos gemidos, + Tão dolorosos ouvi! + Que, turbados os sentidos, + Quiz recuar... mas desci. + + N'esta colheita de dôres + Pelo mundo todo andei, + No pranto dos peccadores + As minhas vestes molhei. + + Vagueando dias e dias, + Chegára á Judéa emfim, + Quando um clamor de agonias + Veio de longe até mim. + + O sol, o sol inflammado + D'estas terras orientaes, + Tinha no disco afogueado + Não sei que estranhos signaes. + + Soavam menos distantes + Sinistros brados de dôr, + Choros de mães e de infantes, + Cantos de morte e terror. + + Vi anjos de azas nevadas + Em bandos subir ao céo, + Quaes pombas amedrontadas + Fugindo á voz de escarcéo. + + «Onde ídes? Quem vos persegue? + A que tormentas fugis?» + Um, que triste o bando segue, + Estas palavras me diz: + + «Somos as almas de infantes + Mortos em guerra feroz; + Inda das mães delirantes + Nos chama a sentida voz. + + «Só a materna saudade + Nossa carreira detem, + Embora no céo, quem ha de + Esquecer, o amor de mãe?» + + Disse e o semblante formoso + Com as azas encobriu, + E ao bando silencioso + Silencioso se uniu. + + Eu segui. Na impia cidade + Aterrada penetrei... + Ai, da fera humanidade + Os meus olhos desviei! + + Que scena! Corre nas praças + Sanguinaria multidão, + Como nuvem de desgraças + Semeando a desolação. + + Cáem por terra sem vida + Tenras creanças ás mil, + E uma turba enfurecida + Corre á matança febril, + + As mães pallidas, chorosas, + Supplicam, pedem em vão! + N'essas feras sanguinosas + Não palpita um coração. + + Outras tentam em delirio, + Os seus filhos disputar, + E com elles no martyrio + Gostosas se vão juntar. + + Sobre a terra ensanguentada + Eu soluçando, ajoelhei, + E de intensa dôr magoada, + A Deus piedade implorei. + + Findava a prece, e uma estrella + No horisonte despontou, + Pura, scintillante, bella + O caminho me traçou. + + Á humilde e escondida estancia + Da venturosa Belem + Cheguei; vi um Deus na infancia + Nos ternos braços da mãe. + + Minha colheita de dôres + N'aquelle berço depuz, + Da humanidade aos rigores + Pedi remedio a Jesus. + + No olhar do divino infante + Raiou a luz e fulgor, + Foi a aurora radiante + Que annuncia um redemptor. + + +Não se descreve a impressão causada por estes versos, que assim +transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infancia. Muitas +causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto +de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e +depois aquellas palavras inesperadas, aquella exposição desconhecida e +em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia +augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da impressão d'aquella +voz sonora e infantil, ninguem procurava explicar o mysterio. Milagre +lhes parecia e quasi como milagre o acceitavam, e de ouvidos attentos, +collos estendidos e bôcas semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, +aquellas palavras, como se de um verdadeiro emissario celeste as +escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguem dera +por isso. Os actores que estavam atraz da cortina tinham sido feridos +pelos primeiros versos, differentes dos que elles esperavam; isto +obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz +e d'aquelle gesto, vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram +circulo á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O +espanto, os affectos, o orgulho de pae, a exaltação de artista +combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expressão quasi de extase. +Olhava para a filha como se a visse animada de inspiração divina. + +Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo +trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bôca +aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria, +elle só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente +aquella voz de creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos +espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse +alguma coisa de sobrehumana. + +Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que +os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem +de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi +encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena, +exprimiu n'um «bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal. + +O silencio degenerou na mais altisona ovação. + +O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a +sustentar, a logica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo +debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os +outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braços +para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, +os lenços das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes +parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo +e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entre beijos e afagos, +transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos +calorosa a recepção. + +Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre +Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vêr as +restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas. + +O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do +Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não fôsse bastante +pathetico para commover. + +--Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai +que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os +dizia!--exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena +que vira. + +Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe: + +--Foi Augusto que fez aquelles versos? + +Angelo sorriu. + +--Por que me perguntas isso a mim? + +--Porque o deves saber. + +--Então não crês no milagre? + +--Responde. + +Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o +conselheiro: + +--Se eu digo a v. ex.^a que o Bernardim existe. + +--Mas quem é?--perguntou o conselheiro. + +--Não sei; porém posso afiançar a v. ex.^a que não são estes os +primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos +montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Magdalena, de umas +quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude? + +--Sim; recordo-me. + +--Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a +attribuil-as á mesma pessoa? + +--Estou pouco habituada a analysar estylos, primo. + +--Mas talvez este lhe seja habitual. + +Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a +accrescentar: + +--Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes de capellas e ruinas, +e nos troncos das arvores. + +Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. Quando lhe perguntavam quem +lhe ensinára os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não +podia dizel-o. + +--Apostemos que n'isto entra Angelo?--disse o conselheiro. + +O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura inspiração. + +Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da morgadinha, +disse-lhe ao ouvido: + +--Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta +sem se mostrar. + +--Sim? + +--Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediações. Estas +aves melancolicas amam as inspirações nocturnas. + +--Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora +favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o. +Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a +verdade. Não ha quem se tema d'ella. + +E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente. + +--D'esta vez foi de uma severidade!!--pensou Henrique.--Cada vez me +convenço mais de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas +agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? Não foi +má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que +o caso não vale a pena. + +O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d'esta vez mais +intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava +ainda, pois disse a Christina: + +--Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle. + +--Que dizes?! + +--Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos. + +Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no +pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram +dispersando pouco a pouco. + +A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as +serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem +era devido o cantar os Reis. + +Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao +pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus. + +Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á +fronte e ao coração do pobre rapaz. + +Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; na manhã seguinte +devia partir com o pae para Lisboa. + +Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades não se +amontoam no coração das creanças ao expirar o termo d'esse feliz espaço +de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos +despreoccupados! + +Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que á menor +palavra rebentam. + +Quem não terá recordações de infancia a falar-lhe d'isto? + +O pateo despovoára-se de gente; através das vidraças da casa viam-se já +brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça +inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e +mulheres, sem que elle désse por isso. + +De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos. +Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a pôr em ordem +as roupas e mais objectos que serviram no auto. + +--Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus--disse Angelo. + +--Então vae-se embora? + +--Vou ámanhã--respondeu Angelo, com a voz presa de commoção. + +--Muito cêdo? + +--De madrugada. + +Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado. + +--E agora quando volta? + +--Eu sei lá? agora... só para agosto. + +Novo silencio. + +--Então... adeus... + +--Adeus, Ermelinda. + +E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo +estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como irmã, e que +chorava ainda mais do que elle. + +Que melancolico fim de dia tão alegre! + +A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou. + +--Ermelinda--disse logo a voz esganiçada e colerica, que saiu d'aquelle +vulto. + +Ermelinda estremeceu ao ouvil-a. + +Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas devoções e ficára +surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadiça castidade +d'aquella matrona toda se alvoroçou com a tocante despedida das duas +creanças. + +Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou +pelo braço e a levou comsigo. + +Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella harpia a +innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o. + +A sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista ia dizendo, ao levar +comsigo a afilhada: + +--Que terão ainda de vêr meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo +este de abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem das Dores, isto é para se +vêr e não se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, +e já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus crucificado!... + +--Minha madrinha--dizia Ermelinda, chorando. + +--Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e riem de +contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por +entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da igreja, que é a +casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados são +estes!... Ai, filha, que muita penitencia te é já precisa para salvares +a alma! + +--Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga +isso--exclamava Ermelinda, aterrada. + +--Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, assanhados como +cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de +Satanaz, onde não ha religião nem temor de Deus... Ó meu divino Jesus, e +para isto tanto padeceste por nós! E nós tão pouco caso fazemos dos +vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois +queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do +inferno...! + +A pequena Ermelinda tremia cada vez mais. + +A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamações, bramando +contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, +contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso, +desenvolvia sobre o thema do peccado dissertações não em demasia +apropriadas aos ouvidos de uma creança. + +O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das +palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma horrivel +convicção de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a +pobre creança bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que já tinha +remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente. + +Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os +triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraçal-a, +Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde saber que explicasse os +vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o +pranto; desistiu pois. + +Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de +levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem. + +Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na fronte +desmaiada, abençoou-a e saiu. + +--Comadre,--disse ao passar por casa do Zé P'reira--ahi lhe deixo a +pequena. Olhe-me por ella, que não está lá muito boa. + +--Vá com Deus--disse uma voz de dentro. + +Era a sr.^a Catharina. + +O recoveiro partiu, silencioso e triste. + + + + +XIX + + +No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava +determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a +muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das +eleições geraes que estavam proximas. + +Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o +padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava +Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia +e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de +coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção. + +Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda +posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da +cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de +Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume +patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a +memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias +e frequentes inexactidões em que a via cair. + +Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não +ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava, +achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel. + +Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto +dos Reis. + +--Eu ainda estou para saber como aquillo foi!--dizia D. +Dorothéa.--Quando me lembro! Como aquella rapariga falava! + +--Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito--disse +Maria de Jesus, com ar de mysterio. + +--Olhem o milagre!--respondeu D. Dorothéa.--Por essa estou eu. + +--Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a +mesma. + +--Então é mais do que certo. + +--Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!--disse Henrique, +rindo.--Então parece-lhe que traz espirito aquella creança? + +--Pois, menino, aquillo a falar a verdade! + +--E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos? + +--Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que +aquelles não calhavam bem nas lôas? + +--O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e +até suspeito com que fim. + +--Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do +Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem +um livro. A senhora não se lembra? + +--Ora se lembra! + +--Digam-me--insistiu Henrique.--Quem ha aqui na aldeia que faça versos? + +--Versos!--repetiu a D. Dorothéa, admirada.--Ninguem, que eu saiba. + +--Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos +desafios? + +--Sem ser o João do Trolha--tornou Henrique, sorrindo. + +--Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no +outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que +elle botou? + + + Viva a senhora D. Dorothéa, + Raminho de bem-me-queres, + Quando põe a sua touca + É a rainha das mulheres. + + +--E depois a mim: + + + Viva a senhora Maria, + A perola das criadas, + Quando se chega á janella + Ficam as estrellas pasmadas. + + +--Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer +do que pasmarem--disse D. Dorothéa. + +--Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que +diz... + +--E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?--perguntou +Henrique. + +--Que eu saiba...--disseram as duas. + +--E aquelle Augusto? + +--O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim! +Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo. + +--Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos? + +--Tolos não digo, mas... + +--Mas um pouco feridos na aza, não é verdade? + +--Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um +homem de respeito, faz versos? + +--Por que não? + +--Versos?! + +--Versos, sim, senhora. + +D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade. + +Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da +entrada e após algumas pancadas á porta da sala. + +--Abra, tia Dorothéa--disseram de fóra as vozes de Magdalena e de +Christina, que fôram logo reconhecidas. + +E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria, +que vinha mais retardada. + +D. Dorothéa levantou-se para recebel-as. + +--Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já +jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que +não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do +missionario--disse a morgadinha. + +--Eu não; para apertos e barafundas é que não estou. + +--E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa. + +--Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer? +Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender. + +--Dizem que préga tão bem--atalhou Christina. + +--Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões--ponderou D. +Victoria. + +--Vou eu tambem ouvir o missionario--disse Henrique, levantando-se.--Já +m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á +figura... + +--Então?--interrogou D. Dorothéa. + +--É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da +grossura do pulso. + +--Pois bom é que vás, menino--disse D. Dorothéa--para acompanhares as +pequenas. + +--Como quizer, primo,--acudiu Magdalena--mas não se constranja. O +Torquato tambem vae. + +--Que quer dizer? Que me dispensa? + +--Não; mas que se é só por condescendencia que... + +--É por prazer. É por devoção. + +--N'esse caso... + +E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á +igreja. + +O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua +invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da +igreja, nada faltára para solemnisar a festa. + +O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido +concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas +catechéses. + +A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e +Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita +gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial. + +Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de +sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as +aguas impetuosas. + +A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do +missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão. + +As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa +popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por +deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a +capella-mór. + +Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião. +Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a +extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres +de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á +cabeça. + +Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli +dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar. + +Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, +orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se +escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao +entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de +pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com +Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no +chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a +Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos +deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de +promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns +pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes +nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos +rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a +circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá +regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e +inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé +porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a +consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa. + +Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e +exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina, +ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo +cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se +não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes +cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção, +satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles +gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, +tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os +ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel. + +De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as +luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta +arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar. + +Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via. + +Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e +sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja +influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por +aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios +improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião, +de que se dizem ministros. + +Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não +pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que +os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico. + +A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os +differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos +os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem +de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia, +na rua, se prolongava a multidão. + +Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma +hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta +por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario. + +Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto. + +Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois +causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi +a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão, +reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do +Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto +enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos +labios, que tanta graça lhe davam! + +E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim +ficar tanto tempo aos pés do confessor? + +Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e, +como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres +ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo +rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes. + +Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas +teria a expiar aquella inconsolavel dor? + +O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas, +que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e +fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das +sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio. + +Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou +aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu. + +Era o missionario. + +A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente +triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as +borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com +profusão. + +Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi +do chão um estorvo. + +Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e +realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para +abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua. + +Dizia o homem: + +--Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu +quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A +religião manda... Quando um homem se casa... + +O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com +modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de +cólera: + +--Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter +commigo?! + +E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que +rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para +afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se +a dizer mansamente: + +--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode +dizer o que sente? + +Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir: + +--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! + +Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou +este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha: + +--Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe +do que de pastor? + +O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma +vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico. +Henrique arrostou-o com audacia provocadora. + +O padre entrou para a sacristia. + +No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais +commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto. + +No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e +pouco attrahente do famigerado educador dos povos. + +Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em +Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com +firmeza. + +Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia +talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um +sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador: + +Emfim soltou o texto latino do sermão. + +Seguiu-se nova pausa, e principiou. + +Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas +humoristicas da _Vida e opiniões de Tristam Shandy_, um sermão sobre a +consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia +sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia. + +Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a +extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador +acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta +prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da +vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e +prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja +voz é abafada por aquella gritaria. + +As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso. + +Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as +fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como +um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á +missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as +almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de +tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo +Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os +delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e +desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do +inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno. + +Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto +de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor +sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com +imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do +seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que +se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e +as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria. + +Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava +a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens. + +Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e +principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro +manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em +toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco +impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para +Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, +tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor. + +Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e +tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia. + +Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que +se estava exercendo no animo timido de Christina. + +Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as +com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador, +que ambas offereciam farto alimento para elles. + +D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse. + +Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios +improprios do logar. + +Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os +commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena; +e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador, +exacerbando-lhe a virulencia da phrase. + +Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera, +estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso. + +Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes, +haviam attingido já a causa d'elles. + +D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja. + +No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas +do que nenhumas. A sr.^a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de +anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração +da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao +cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se +fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a +prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a +pensar. + +N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os +progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do +inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique +approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão +tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria +Christina sorriu tambem. + +Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces +apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos +e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos: + +--Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da +palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes +os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram +esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, +se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze +esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das +cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as +estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na +alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros +livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos +requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!... + +E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o +braço na direcção de Henrique. + +Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e +fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder +alli mesmo. + +Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em +desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja +má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam +alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas, +os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções +assustadoras. + +Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a +presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de +Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja. + +Henrique resistia e procurava falar. + +O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia. + +O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a +cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando. + +Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que +havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja +por a porta da sacristia. + +Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em +confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da +sacristia, e correu clamando atordoadoramente. + +E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel +parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de +braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos +pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.» + +Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada. + +Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente +furiosa e ameaçadora. + +--Que querem de mim e d'estas senhoras?--perguntou elle, com voz firme. + +Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia: + +--Morra o pedreiro livre! + +--Ensinem esses senhores da cidade! + +--Pouca vergonha! + +--Isto não fica assim! Isto é de mais! + +--Mação! + +--Hereje! + +--Quero passar!--repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso. + +--Havemos de ensinar estes fidalgos. + +--Excommungados! + +--Havemos de lhes dar os risinhos na egreja. + +Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo +para elles, levantando o chicote que trazia na mão. + +Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de +varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle. + +E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!» +levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a +tremer, o braço de Henrique. + +E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo. + +Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da +sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que, +entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto +de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil +curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos, +procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a +cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e +em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse +para toda aquella gente: + +--Não vêem que iam matando esta creança? + +Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais +effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia +n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e +será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as +massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por +simulal-a, quando precisam do povo. + +--Quem foi que atirou a pedra?--perguntou um. + +--Temos tolice! + +--Nada de pedra, olá! + +--Então isto é coisa de garotos! + +Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam +«morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E +comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era +evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia +resolveria a crise. + +O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e, +irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido, +apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem. + +Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e +concorreu para dissipar a tempestade. + +Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que, +pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da +interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio +desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro, +tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que +ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão. + +Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a +dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas +e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na +caixa--pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles +floridissimos periodos acusticos. + +Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era +habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar. + +Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara +metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e +sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as +maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito. + +Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão. + +Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a +philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado. + +N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um _ceci tuera cela_, como o que +preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris, +analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico +entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador +era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira +extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos +portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um +commetimento digno de menção na historia da arte. + +Pobre Zé P'reira! + +Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto +de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento +de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma +melancolia quasi poetica. + +N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo +pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A +intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que +via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão, +principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular. + +Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem +ergueu-se. + +Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao +tiracollo a alça do tambor. + +Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que, +estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento. + +Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé +P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao +rapaz, e... + +_Pom_--fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada +superficie do bombo. + +_Taplão, taplão, rataplão, rataplão_...--responderam as baquetas movidas +pelas amestradas mãos do Zé P'reira. + +Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som. + +O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das +baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo. + +Principiou a acudir o povo para junto do artista. + +Este tomára-se já do _raptus_, do phrenesi musical. Já não eram só as +mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De +olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes, +contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para +traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia, +não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo, +delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes +electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, +desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, +aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o +torciam, desconjunctavam e desfiguravam. + +Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo +era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou +com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se +moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos +sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que +succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de +uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo. + +O povo inteiro applaudiu o artista. + +E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já +fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro. +O povo dispersou pacificamente. + + + + +XX + + +Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da +aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos. + +O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é +impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal +pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia, +villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha. + +Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta +curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento. + +Isto aconteceu com o Cancella. + +Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os +olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos +chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras. + +--Passaros de arribação...--pensava o Herodes comsigo--que vento traria +isto para aqui? + +E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente. + +Um d'elles dirigiu-lhe a palavra: + +--Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos +alojemos? + +--Por pouco ou por muito tempo, meu amo? + +--Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada. + +--Ah! então v. sr.^{as} são engenheiros? + +--Julgo que sim. + +--Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar? + +--Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não. + +--Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os +meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de +uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem +uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á +direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira; +ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um +larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e +perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem. + +Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a +explicação. + +Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma +rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os +engenheiros. + +--Se v. s.^{as} querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho. + +Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone. + +--Grande novidade!--ficou dizendo o Cancella comsigo--sim, senhor; com +que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus +dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que +vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O +pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza... +Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é +outro arranjo para quem tem de ir á cidade... + +Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe +ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia +que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias +toma as proporções de um grande successo. + +--Ui! Temos novidade--disse o Herodes ao vêl-o.--Edital á porta da +igreja!--e approximou-se para ler. + +Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens +terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente +prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da +igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido. +Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando +contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim. + +--Bom, mais outra!--dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.--Grandes +coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que +não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi +rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma +pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e +ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois +de morta. + +E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho. + +Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a +invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella +imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no +regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e +separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou +triste e sobresaltado. Porquê? + +É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e +estremecia agora na incerteza de como a iria achar. + +Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes, +tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros +da casa parou irresoluto. + +Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo +aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas, +se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos, +que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de +sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam. + +Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao +avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas. + +Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol +crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe +estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito +esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão +despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em +que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que +chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte +obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as +sombras. + +Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros +degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera +coragem de perguntar; receiou sair da incerteza. + +Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que +encontrou aberta. + +Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de +surpreza. + +Fôra a causa o achar novidades na primeira sala. + +Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que +cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que +não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o. + +--Crédo!--disse o Cancella, desgostoso.--Para longe o agouro! Cruzes +negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me +scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe +acudo...--Ermelinda!--exclamou, chamando por a filha. + +Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores. + +Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua +benta, em que mergulhava um ramo de alecrim. + +--Mau!--disse o Herodes, cada vez mais descontente.--Vou vendo que a +minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus... +Ermelinda! + +E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o +quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais +retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por +dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que +na porta exerceu o Herodes. + +Franqueando assim a passagem, parou no limiar. + +Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um +canto escuro do quarto. + +--És tu, Linda? Estás ahi?--perguntou o Cancella, affirmando-se +n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer, + +--Meu pae... respondeu com voz fraca. + +--Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto +mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga, +quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca +pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas +esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me +consola... + +E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro. +Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e +principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não +bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas +assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o +corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e +de espanto, bradando emfim, com voz consternada: + +--Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as +tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem +risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás +doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, +fala! + +A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar. + +--Meu Deus! Isto que é, meu Deus?--exclamava, mais assustado, o +pae.--Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens +pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar; +mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então? + +E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no +coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação +d'aquelle doloroso mysterio. + +Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais +commovido: + +--Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não +sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em +que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim? +Fala! + +E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais +lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar. + +Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle +apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao +collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber +o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito +inquieto. + +Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e +pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos +trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as, +soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror. + +Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma +palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no +corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o +lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco, +abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o +desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança. + +É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor +beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o +enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos +golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente. + +Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta +descoberta lançou o coração d'aquelle. + +Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem. + +Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de +ambos. + +A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do +Cancella. + +Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os +olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e +gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe +amontoavam no coração: + +--Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?... +Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te +deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha +desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas +riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te +tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É +com este desamor?! e com esta ingratidão?! + +--Meu pae! meu pae!--implorava Ermelinda, suffocada pelo +pranto.--Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?... +Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os +cortei... A vaidade é um peccado grande. + +--Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses? +Fala!... + +--Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta! + +--Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de +saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae. +Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi? + +--O missionario...--ia a dizer Ermelinda. + +O pae não a deixou proseguir. + +--Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua +madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim! +Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem +religião, sem Deus... + +--Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado. + +--Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu +pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou... +Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus, +e eu não o reconheço nem adoro! + +Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o +desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca +horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas, +e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as. + +--Por amor de Deus--murmurava ella, com a voz chorosa e quasi +sumida--por alma de minha mãe!... + +--Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua +mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me +não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão +amargas e tantas, como eu choro agora! + +E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e +valente, chorava, porque tinha um coração de pae. + +Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos. + +--Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!--dizia ella.--Se soubesse... Fui eu que +pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe +ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da +minha alma, porque... + +--E foi tua madrinha que t'os cortou? + +--Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um +santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo. + +E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do +Cancella. + +--Querem matar-me a filha--bradava elle.--Ó meu Deus! pois não é isto um +grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, +esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um +crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com +lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse +missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem +traz assim o desespero ao coração de um pae. + +E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, +cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no +corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos +postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o +Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De +repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que +alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com +jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia +oração, quasi extatica, quando o pae entrou. + +--Coração de Maria!--disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a +vista fixa na imagem, e como falando para si.--Coração de mãe, e de mãe +extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a +um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que +deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as +desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres--continuou +allucinado, voltando-se para a imagem--e se não podes ser adorada senão +assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como +as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te! + +E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o +caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços +no pavimento. + +Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O +terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi +lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os +labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta. + +Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra +vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua +benta, bradando: + +--Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura. + +Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter, +mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a +levou de rastos á outra sala. + +Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo +despedaçava ou rasgava. + +N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que, +como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços +estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento +inerte e fria como um cadaver. + +Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a +madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo. + +Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que +descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella +cortou-lhe a fala na garganta. + +Era de facto um olhar selvagem e sinistro. + +A sr.^a Catharina parou. + +--Que vem fazer aqui, mulher?--dizia-lhe o Cancella com voz cavada. + +--Eu... + +--Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares, +onde metteu a tristeza? + +E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava +outro. + +Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes. + +--Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a +esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar. + +A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse: + +--Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco! + +Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella. + +Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a +pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu +para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo +nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão +a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se. + +A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora +chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de +Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos, +e implorando misericordia. + +--Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto. +Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o +coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr... +pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o +coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella +precisa. + +E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua. + +Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres, +attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára +de falar. + +Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e +pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo. + +Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido. +Ermelinda tinha aberto os olhos. + +Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o +aspecto d'elle lhe causasse terror. + +--Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com +maior consternação na voz e no olhar. + +Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer +convulsivamente e n'uma anciedade extrema. + +--Deixe a pequena!--disse a beata--não vê que lhe faz mêdo? E com razão, +pobre creança! depois do que viu! + +--Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?--repetiu timidamente o +pae.--Eu?! Ó Ermelinda... pois tu... + +Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar. +Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a +soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos: + +--Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que +desgraçado que eu sou!... + +A scena era bastante commovente, para que se não sentissem +impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli. + +Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do +infeliz, em quem entrára o desespero no coração. + +Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua, +que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a +toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta. + +Ouviram-se perfeitamente estas palavras: + + + Vinde, vinde, ó missionarios, + Com a palavra de Deus + Libertar-nos do peccado, + Encaminhar-nos aos céos. + + +O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar. + +As vozes continuaram: + + + Minha alma por vós anceia, + Ó ministros do Senhor! + E o meu peito em chammas arde, + Em chammas do vosso amor. + + +O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos animaram-se-lhe de +um fulgor extranho. + +O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco desembocou na rua, +em que se passavam estas scenas, um singular cortejo. + +O missionario, que nós já conhecemos, por o termos visto em pleno +exercicio de suas funcções predicatorias, vinha seguido por uma cohorte +de mulheres de roupas escuras e cabellos cortados, que cantavam em +chorada cantilena estas e analogas quadras, que os missionarios ou os +agentes seus teem quasi sempre o cuidado de vulgarisar como +preparatorios dos animos impressionaveis das mulheres e das creanças. + +Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a procissão da +casa do Cancella. + +Este já estava em pé no meio da rua, á espera d'ella. + +O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu caminho, +aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, se lhe +apresentava escuro como um phantasma, e não conjecturou bem do que via. +Por isso parou tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se. + +O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe: + +--Sabe quem sou? + +O padre fez um signal negativo com a cabeça. + +--Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve Deus. + +O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem +procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razão que +um homem que não ouve Deus não estaria muito disposto a escutal-o, a +elle, humilde creatura. + +--Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de +minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou; +perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella creança sem +culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o coração, +e depois... depois matal-o. + +O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu caminhar para elle +o Cancella, viu no ar aquella mão musculosa e larga, e, calculando a +violencia do embate pelo volume do braço, julgou-se de antemão esmagado, +e só pôde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as +feições, e suspender a respiração, aguardando n'esta postura o golpe, +que não podia evitar. + +Este de facto não foi suave. A mão do Cancella caíu em parte sobre o +cabeção, em parte sobre o pescoço do padre, e com tal fôrça, que este +foi constrangido a ajoelhar. + +--Anda, meu impostor do inferno! + +E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo á +primeira posição. O chapéo rolou a alguns passos de distancia. + +--Anda, meu envenenador de almas! + +Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o +caminho do chapéo. + +--Anda, meu calumniador de Deus! + +E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em pé, e após, +dando-lhe um forte impulso e soltando-o das mãos, deixou-o ir á mercê da +fôrça transmittida. + +O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar na quéda +provavel, e, pé aqui, pé acolá, a passos descommunaes, escapou +miraculosamente de cair, porém não conseguiu parar senão a muitos metros +de distancia. + +Escusado é dizer que esta scena não correu entre o silencio dos +espectadores. Mal o Cancella levantou a mão sobre a cabeça do padre, as +beatas ergueram um alarido de atroar céo e terra. + +--Aqui d'El-rei! + +--Aqui d'El-rei sobre o Herodes! + +--Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José! + +--Quem acode ao sr. fr. José?! + +--Ai, que matam o santinho do missionario! + +E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas esganiçadas +mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, porém, a intervir mais +activamente. + +A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, em +cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com respeito. + +Este, porém, não oppoz resistencia. + +Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento. + +Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das imprecações das beatas +e dos gritos de indignação dos homens. + +As devotas mulheres correram para o missionario. + +Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o capote. + +--Magoou-se, sr. fr. José? + +--Doe-lhe alguma coisa? + +--Feriu-se? + +Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a abanar com a +cabeça negativamente e deitou a correr, como se visse atraz de si ainda +a mão espalmada do Cancella, prompta a cair-lhe outra vez sobre a +cabeça. + +Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a multidão engrossára e +em altos gritos pedia o castigo do criminoso. + +O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a multidão. +In continenti, redigiu um officio ao administrador, no qual foi tão +feliz que escreveu tres palavras com boa orthographia; e, falando ás +turbas, disse que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de +ser punido com todo o rigor das leis. + + + + +XXI + + +O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi +assumpto das conversações geraes de toda a aldeia. Era com indignação +que se commentava a façanha. Dizia-se que o Cancella fôra apenas o +instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do +padre, pela occorrencia da tarde do sermão. + +Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes +offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual +havia muito suspiravam. + +O missionario e os seus ardentes sequazes fôram dos mais acerbos +propugnadores d'estas ideias, que reforçavam com muitas accusações, de +hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do +conselheiro. + +A politica viu n'isto uma arma favoravel para combater o adversario, e +não a desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio, +manifestamente devida á iniciativa do pae de Magdalena, e +impopularissima na aldeia, augmentar a irritação dos animos e servir de +thema a uma violenta diatribe do missionario contra a impiedade da +época, que nem aos fieis concedia a santa consolação de repousar á +sombra dos templos. + +Tudo isto começou pois a fomentar uma reacção contra o conselheiro, a +qual ameaçava o resultado da sua candidatura. + +Não pequena parte n'esta guerra surda, que principiára a lavrar, tomava +o seu companheiro de infancia e particular amigo o brazileiro Seabra. + +Nunca elle sentira entranhada no coração metade da bem-querença que +apparentemente ostentava para com o conselheiro: mas depois de uma +conferencia que tivera com mestre Pertunhas tornára-se mais manifesta a +sua hostilidade e menos observadora de etiquetas e rebuços. + +Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do +conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o +missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos +bens da Igreja. + +Foi tambem o brazileiro quem trouxe á flor de agua os antigos excessos +demagogicos, que caracterisaram o principio de carreira politica do +conselheiro, e referira, com modos de horrorisado, a substancia dos +exaltados discursos que elle proferira nas camaras, advogando ideias +cuja só exposição ferira de pavor a imaginação dos povos. + +Finalmente, até o principio dos trabalhos para as estradas, cujo +protrahido adiamento fôra até aquelle tempo um capitulo de accusação +contra o pae de Magdalena, servia agora de arma á opposição. + +O brazileiro, em attenção a quem se adoptára o traçado que ia ser posto +em execução, era o que provava á saciedade com grande exhibição de +cifras e de razões economicas, ser esse traçado, sobre dispendioso, +irracional. + +E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio +conselheiro, quando este os allegava para vêr se conseguia demovel-o do +empenho que mostrava em que o traçado em questão fôsse preferido aos +outros. Tal era o estado das coisas publicas na terra no dia em que +principiaram os primeiros trabalhos de campo. + +Tinham-se passado alguns dias depois da prisão do Herodes. + +A aldeia vira-se invadida por um bando de sêres desconhecidos, que +vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma população habituada +a considerar como occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros +ou das cancellas de qualquer proprietario da localidade. + +A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais +operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou +maiores mudanças na vida moral da aldeia do que nas condições physicas +d'ella as bandeirolas, os niveladores, as enxadas, as pás, alviões, +picaretas, carros de mão e padiolas, de que era armada essa cohorte. + +Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior +actividade tinham começado os trabalhos. Era como já dissemos, na casa +do herbanario. Pela demolição d'ella, e do quintal que a rodeava, +principiaram as obras. + +O velho Vicente assignára dias antes o auto de expropriação e recebera o +preço da venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro, não +lhe foi muito regateado. + +Elle, porém, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por as arvores +nada quiz; não podia resignar-se a vendel-as. Podia vêl-as cair, como +amigos sacrificados no cadafalso, mas mercadejar-lhes com os restos, +isso não. + +O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu á Fazenda Nacional de +compensação ao excessivo preço por que fôram expropriados os bens de que +o brazileiro se apossára, com o patriotico intuito de promover os seus +melhoramentos particulares, preço que por empenho do conselheiro não foi +litigado. + +Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram resistir, +mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido á cohorte de operarios +melhor armados do que elles, em parte cedendo ás imperiosas ordens do +herbanario, que, ao sair pela ultima vez da casa, onde envelhecera, lhes +disse, com voz irritada e severa: + +--Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes +vós, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz! + +Os instigadores das massas conheceram que não era aquella a occasião nem +aquelle o pretexto proprio para os seus projectos, e adiaram, em vista +d'isso, a empresa prudentemente. + +Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em +que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda. + +Na baixa em que ficava a habitação do herbanario, ia uma azafama +extraordinaria. + +O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de destruição; +desconjuntavam-se as pedras dos muros, desfazia-se em pó a argamassa +secular, caíam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos das +arvores, alastrava-se de tijolo e caliça a verdura dos taboleiros, e +cêdo, de toda aquella vivenda tão amena e virente, só restavam ruinas. + +Numerosos grupos de já pacificados espectadores seguiam com curiosidade +as operações de devastação; mas, longe d'alli, a maior distancia do que +os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que elle +orvalhava de lagrimas, o unico coração que elle devéras apertava de dor. + +O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se +divisava toda a scena. Com a cabeça pousada na mão e o braço apoiado +sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore, que d'alli +via vacillar e cair, como se fôsse um amigo que o precedesse no tumulo. +Parecia ter fugido para longe, para pelo menos não lhes ouvir o estertor +da agonia. + +Ao lado do velho estava Augusto. + +Não era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da demolição. + +Mais do que uma vez tentára arrancar o herbanario d'aquelle sitio. O +velho, porém, resistiu; queria estar alli até vêr cair a ultima arvore. + +Ao pinheiral d'onde assistia á scena, chegava em confusão o alarido dos +trabalhadores, o rumor do manobrar dos instrumentos, e até o da quéda +das arvores cortadas. + +O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore, +recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava +ligada. + +--Lá vae aquella faia!--dizia elle, com intensa melancolia--pobre velha! +Era á tua sombra que meu pae me ensinava a ler! Encostava-se áquelle +tronco sobre a grossa raiz que elle tem á flor da terra e pegando em mim +ao collo, guiava-me nas primeiras lições! E viver eu para te vêr cair! + +E, ao perceber-lhe balançar as sumidades, o velho fechou os olhos +instinctivamente. Cêdo ouviu um estrondo... Quando os abriu, estava por +terra a faia. + +--Agora é a tua vez, pobre carvalho!--dizia algum tempo depois--muito +queria minha mãe áquella arvore! Por suas mãos a plantou bem tenra. +Nunca me sentei áquella sombra, que me não lembrasse da santa mulher! +Parecia que eram vozes tuas, que m'a recordavam, infeliz! Barbaros! Olha +com que desamor a decepam! Perdôa-me, meu velho amigo, mas bem vês que +te não posso valer. + +E o carvalho caíu. + +--Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno +passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto +cubiçavam as creanças, que pela ultima vez o fazias!... Adeus, pobre +amiga, adeus. + +E caía a cerdeira tambem. + +E caíam, uma após outra, todas as arvores do quintal, os limoeiros, as +nogueiras, os salgueiros e toda a familia vegetal do velho Vicente, que +sentia ir-se-lhe com ella a alma. Memorias de infancia, sonhos de +juventude, e reminiscencias de velho, como aves invisiveis, occultas nas +copas d'aquellas arvores, surgiam agora, espavoridas e desnorteadas, a +procurar o refugio que não encontravam fóra dalli. + +Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram dolorosamente +feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena casa, onde elle +envelhecêra e contava morrer, e ao patentear-se indiscretamente aos +olhos irreverentes e curiosos do povo aquelle recatado asylo. + +A demolição proseguia com ardor e actividade. Em pouco tempo, só +restavam da casa os muros, meio derrocados; e, no quintal, a serra e o +machado principiavam a exercer no tronco da ultima arvore a sua obra +destruidora. Era o castanheiro da entrada, gigante de outro seculo, que +desafiára os raios de muitos invernos successivos. + +A exaltação do herbanario cresceu n'aquelle momento. Ergueu-se, pallido +e trémulo, apoiou-se no hombro de Augusto, murmurando: + +--Tambem o castanheiro! Já era arvore quando eu nasci! Como elles se +encarniçam contra elle! Mas não te parece, Augusto, que não soffre muito +o castanheiro?... Sabes? É que elle já não agradeceria a vida, porque +tinha de viver assim desamparado dos seus outros companheiros, que vê +caídos no chão... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao lado d'elles... É como +eu. + +O castanheiro principiou a oscillar. + +--Repara--disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o +braço de Augusto.--Elle já treme! Não vês!... Lá lhe deitam a corda... +Vae cair!... Parece-me que estou a sentir aquelle estalar de fibras... + +E a arvore caíu com fragor no chão, que por tanto tempo cobrira de +sombras. + +Estava ultimada a obra. + +O herbanario encostou a cabeça ao hombro de Augusto e rompeu em soluços. + +--Então, tio Vicente, tenha animo--dizia-lhe Augusto, igualmente +commovido. + +--Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para acolá e +não ver em pé uma só das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um +sonho isto, um sonho de afflicção! Sinto-me tão só no mundo! Ai! se a +morte me ferisse agora! + +A dor, a saudade e o desalento davam uma uncção de poesia elegiaca á +figura, ao gesto e ás palavras do velho, que desvanecia tudo o que +n'elle pudésse haver, nas situações ordinarias da vida, capaz de +desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente. + +Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos +materiaes, lagrima que não importa uma ironia á civilisação. Exalte-se +embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como meteoro, as +povoações e os êrmos; mas não seja isso motivo para condemnar a +compaixão pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada á +beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a +cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de redempção, o vencido, desde +que cáe, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima de saudade. +Não tenteis a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos áridos +que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida á vossa alma sêcca +e esteril. Quem devéras confia nos destinos da humanidade não tem mêdo +das lagrimas. Pode-se triumphar com ellas nos olhos. + +Passado algum tempo, e quando já as sombras da noite se condensavam nos +valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o velho disse para +Augusto: + +--Agora que não tenho casa, dá-me por alguns dias o abrigo da tua. + +--Por alguns dias?--repetiu Augusto, admirado.--Pois quer deixar-me +depois! + +--Quero. Vou com ellas. + +E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas. + +Atravessaram a aldeia á hora a que vibravam nos ares os sons +melancolicos das Avé-Marias. + +Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois. + +--Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!--disse o +herbanario, ao transpor o limiar.--Má companhia te fará a minha velhice. + +--Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua +presença podia desalentar quem na mocidade é mais fraco e desalentado do +que ninguem o pode ser na velhice. + +--Custou-me muito este golpe de hoje! Não contava com elle! Desde hontem +envelheci muitos annos. Podes crêl-o. + +Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de fóra da +porta: + +--Dão licença? + +E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes +sorrisos. + +O herbanario e Augusto não reprimiram um gesto de impaciencia. + +O homem entrou. + +--Ora Deus seja aqui! Tão grande é o dia como a romaria, sr. Augusto! +Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que tinha ido de manhã para +casa do tio Vicente; vou lá... estava um mundo de gente no sitio... Mas +qual sr. Augusto, nem tio Vicente! Então com que escorraçaram-n'o do seu +ninho?... Pobre homem! A falar verdade, n'essa idade! Já sei que vem +para casa do nosso Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda +bem que o temos por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que +tambem fizeram-n'a fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa +assim!... Coisas cá do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheirão na +tal estrada! E já por ahi se rosnam coisas! Emfim, politicos! politicos! +Todos são os mesmos... Vae por ahi uma poeira dos meus peccados com a +ordem a respeito do cemiterio; e com a historia do Herodes! Sabem que +elle esteve hontem para matar o missionario?... E valha a verdade, dizem +que por ordem de alguem do Mosteiro... Que eu não acredito, mas emfim, +aquella historia no sermão do outro dia... E o tal sr. Henrique, que é +unha e carne com elles... Elle será muito boa pessoa, mas não me +calha... Lá feliz, isso como não sei de outro, com dinheiro e sem +cuidados! E sempre se faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi +dizer que sim. + +O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente +impassibilidade d'este não illudiu o velho. + +O Pertunhas não se exgotára ainda: + +--Ora agora, quem anda fulo é o brazileiro, o Seabra. Pelos modos, eu +não sei o que ahi houve; o conselheiro não o tratou muito bem, dizem, +n'uma carta que escreveu ao ministro, ou creatura do ministro. Umas +historias muito complicadas, que eu não entendo, mas que promettem dar +de si... Veremos em que ficam as eleições este anno... O conselheiro bem +pode trabalhar, senão... Elle cuidava que era só apresentar-se, e +emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr. Joãozinho das Perdizes? +Será fiel esse? Já me disseram tambem que... + +--Ó sr. Pertunhas,--atalhou o herbanario, enfastiado--antes queremos não +saber. Importa-nos pouco a politica. + +--Estão como eu... Isto tambem não é politica, mas emfim... Pelo que +vejo estão cançados? Eu tambem não os maço mais... E antes que me +esqueça, ha muitas horas que estou de posse de uma carta para vossemecê, +tio Vicente. É de Lisboa, veio por o correio de hoje. Não lh'a mandei a +casa, porque... não sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como +o vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso... + +O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando +para o sobrescripto, disse com indifferença: + +--É do Manoel. + +E abriu-a lentamente. + +O mestre de latim deixou-se ficar, na esperança de ouvir novidades. + +A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio de +indignação e de colera: + +--Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem +sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos amigos, +com a justiça das causas e com a voz da propria consciencia, do que com +os caprichos e interesses dos poderosos com quem vive! + +--Mas que é?--perguntou Augusto, sem atinar com a significação +d'aquellas palavras. + +--Lê. + +E passou a carta para as mãos de Augusto. + +O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira +obrigado a ceder, na questão do despacho de Augusto, a fortes +influencias que se empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que +mais tarde lhe explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle, +talvez fôsse isto até uma vantagem; que o logar que pedia era a sua +annullação perpetua, e que elle, conselheiro, havia de luctar contra a +grande modestia do rapaz, trazendo-lhe á luz os merecimentos reaes, +dando-lhe melhor collocação, e que esperava ainda empregal-o na capital. + +Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia. + +Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios: + +--Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui. + +--A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria despachar, +e breve; e quebrou-a como um pêrro! Oh! o que fizeram d'aquelle homem! + +--Quê?! Pois é possivel?--perguntou, exaggerando a sua consternação e +espanto, o officioso Pertunhas.--É possível que o sr. Augusto não fôsse +despachado?! + +E dizendo isto, passou a desfiar uma série de consolações, qual d'ellas +mais tôla e sem cabimento. + +Até que emfim, tendo já novidades para contar, e almejando communical-as +aos frequentadores da taberna do Canada, onde devia estar reunida grande +e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a pretexto de não ser mais tempo +incómmodo, e deixou-os outra vez sós. + +--Estão-me guardados para o fim da vida todos os desenganos! todas as +amarguras! todos os desesperos!...--disse o herbanario momentos +depois.--É para se odiar o mundo e os homens vêr um, que conhecemos +generoso e innocente, contaminado tambem!... Pobre Augusto! Não basta +que sejam modestos os teus desejos... nem assim t'os deixam realisar. + +Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo: + +--Por que te não fazes politico? Por que não vaes tambem para a taberna +do Canada dizer tolices sobre a governança do paiz? Talvez levasses +comtigo alguns tôlos, e tinhas n'isso uma recommendação poderosa. Olha +para aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um +influente... Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer? + +--Ficar--respondeu Augusto, com firmeza. + +O herbanario fixou-o com um olhar penetrante. + +--Ainda?... Mas... não te vae ser suave agora a vida, rapaz. Para se +viver não basta uma... uma loucura. Repara bem. Se quizeres... O Manoel +é leviano, mas creio que ainda não perverso; eu lhe escreverei... talvez +que em Lisboa... + +--Não lhe escreva. Sabe que não partiria para Lisboa... + +--Mas... repara!... Estás muito novo, Augusto... Tens um longo futuro +deante de ti. E, ficando, o que te espera?... + +--A morte que fôsse, a morte de miseria e de fome, ficava. Mas resta-me +ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o. + +O herbanario baixou a cabeça, pensativo. + +Soaram n'isto á porta da sala duas pancadas lentas. + +O herbanario fez um gesto de enfado. + +--Não abras sem eu sair,--disse elle a Augusto, que se erguera--não +estou de animo para aturar importunos. + +E passou para uma sala contigua. + +Augusto foi abrir ao novo visitante. + +Achou-se na presença do brazileiro Seabra. + +A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer +valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro. + +Augusto offereceu-lhe cadeira para se sentar, sem inquirir do motivo de +tão inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou: + +--Acabo agora mesmo de saber da injustiça que lhe fizeram. Senti-a como +se fôra propria, e venho aqui declarar-lh'o. + +Augusto curvou-se, em signal de agradecimento. + +--Mas então que quer?--proseguiu o homem.--Hoje em dia é tudo assim. +Padrinhos e mais padrinhos, e o mais são historias. Estamos n'uma época +de corrupção e de immoralidades, e ninguem sabe onde isto irá parar. + +Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu: + +--Tôlo é quem não faz como os mais. O mundo está para os velhacos. + +Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de +Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo: + +--Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias não pode receber as +offensas e ficar-se com ellas assim. O perdão evangelico é muito bonito, +mas não é para homens. Não lhe parece? Eu por mim não gósto de genios de +lama. Falemos como amigos. Nós ambos somos victimas de um mesmo homem. O +sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se +apregoava seu protector. Ahi temos a protecção que elle lhe deu. Eu +tambem lhe devo finezas. + +--V. s.^a?--perguntou Augusto, que não podia saber o que lhe queria no +fim de tudo o brazileiro. + +--Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi. + +E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu +principio á exposição dos seus aggravos: + +--O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a +causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me +visconde por fôrça. Coisas de que eu me estou rindo... Mas... emfim, +para me livrar d'aquelle importuno, disse-lhe que... fizesse lá o que +quizesse... Pois, senhores, não teve o petulante o atrevimento de +escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da opposição, mantem +aturada correspondencia; não teve a audacia de lhe dizer que eu andava +sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel, pois +promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao Estado, +visto que com tão pouco me contentava, e outras coisas n'este gôsto? O +petulante!... + +Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam, +luctava para se conservar sério perante aquella indignação do sr. +Seabra. + +--Mas tem a certeza d'isso?--perguntou elle.--Ás vezes são calumnias... + +--Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro não, mas do +secretario, que é o mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse á +mão... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo; mas era de +parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo quanto eu pudésse +dar, porque... porque... por umas tolices de que eu me lembrei a +tempo... Ora ahi tem como elles são!... Que venham para cá com os seus +melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se hão de +arrepender. + +--Mas... talvez haja equivoco. + +--Equivoco? Ora essa! Pois eu não li a carta? Ella ha de apparecer em +publico; oh! se ha de! Isto é, não a parte que me diz respeito, +porque... porque emfim são negocios particulares, que não interessam a +terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella, umas promessas do ministro, +que põem a calva á mostra a este Catão, que nos anda aqui a prégar +liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com +muita vontade. + +--Acaso tenciona?... + +--Se tenciono?! Pudéra não! Eu lhe afianço que o homem ha de saber com +quem se metteu. Deixe vir as eleições, deixe-as vir. Já ha de achar o +caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto eu... A lição ha +de leval-a breve. + +--Vão guerrear a eleição do conselheiro? + +--Faço essa tenção. + +--E quem lhe oppõem? + +--O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa. + +--Que nem o circulo conhece? + +--Que importa? É uma lição. Aqui não ha politica nem meia politica. Eu +não morro pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro. +Mas é preciso aproveitar tudo. E assim temos por nós a auctoridade, além +dos padres. + +Augusto não se sentia com disposições para discutir esta questão +politica; por isso nada mais lhe replicou. + +O Seabra proseguiu: + +--O que eu quero saber é se o amigo quer entrar na nossa alliança e +acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A vingança é o prazer dos +deuses, e visto que foi tambem offendido... + +--Não, senhor, não acceito--acudiu com vivacidade Augusto. + +--Escute. Deixe-me concluir. Não sabe do que falo. Pouco se exige. A +coisa é esta: na carta a que me referi, e que por acaso me chegou ás +mãos, fala-se n'uma outra, ou em outras anteriores, em que se tratava, +mais por miudo, de uma curiosa transacção politica que n'esta se revela +claro. O conselheiro é pouco acautelado; haja vista ao extravio d'esta, +e por isso... + +Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se não pudésse +comprehender onde elle queria chegar. + +O Seabra proseguiu: + +--Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro... sim, +porque julgo que continúa a ensinar os pequenos, e, já se sabe... como +mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais +como a D. Victoria é... um tanto descuidada, como todos nós sabemos... +Não sei se me percebe?... Dizia eu... sim, que se ás vezes, por acaso, +encontrasse coisa que valesse... + +Augusto levantou-se, indignado. + +--Sr. Seabra!--exclamou, cheio de cólera. + +--Valha-me Deus, eu não quero dizer... Não me entendeu... Bem vê que se +o senhor devesse obrigações ao conselheiro, eu não ousava... Mas... + +--Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se não insistir... + +--Entendamo-nos. O senhor está no principio da vida. Precisa do auxilio +de alguem. Offerece-se-lhe occasião para fazer serviços ao governo, que +é finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para isso? Quasi +nada... O senhor sabe perfeitamente que se não trata aqui de desgraçar +ninguem, de levar ninguem á forca. + +--Visto que v. s.^a insiste, sou obrigado a retirar-me. + +--Espere, sr. Augusto--acudiu o brazileiro, segurando-o.--Repare no que +faz. Não seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns sacrificios, +se vir que nas suas circumstancias... + +--Visto que v. s.^a não se cala, nem quer que eu me retire, ouça então o +que tenho para lhe dizer. A sua proposta seria para mim o maior dos +insultos, se não fôsse tal a baixeza d'ella, que até despe de toda a +imputação a pessoa que a faz. Os homens, faltos de sentimentos de honra, +não offendem, quando insultam; não se lhes pode pedir razão da infamia, +porque não a conhecem como tal; identificaram-se com ella. Por isso, só +me resta um partido, é convidal-o a sair. + +O brazileiro fôra erguendo-se á medida que Augusto falava. Estava +espantado por vêr que um rapaz, sem um vintem de seu, ousasse falar com +tal irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crédito em tantos +bancos! A ordem do mundo estava perturbada! + +--Ora esta!--disse elle no fim.--Então o senhor ordena-me?... + +--Que saia!--respondeu Augusto, indicando-lhe a porta. + +O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do que +ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra vez, +e, no limiar, parou para dizer: + +--Veja lá o que faz! Eu só lhe digo que me não convem dar a minhas +filhas um mestre de soberbas. + +--Decerto que lhe não poderá convir a educação que eu désse a suas +filhas; é natural não querer educar consciencias que sejam juizes da sua +corrupção. Deixe-as ignorantes, para não ser castigado pelo desprezo +d'ellas. + +--Quer então dizer... + +--Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra. + +O brazileiro saiu, bufando. + +Augusto, que ficára só, sentiu-se apertar nos braços de alguem que +entrou, sem elle sentir. + +Era o herbanario. + +--É assim, é assim que te vingas de todos, rapaz! Esmaga-m'os com a tua +nobreza! + +Augusto sorriu-se tristemente. + +--O peor é, meu amigo--disse elle--que é a segunda subtracção que hoje +se opéra no meu orçamento, e... a nobreza não nutre! + +--Mas consola!--replicou o velho. + + + + +XXII + + +Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a +morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu +atraz de si correr o reposteiro da entrada. + +Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta. + +--Retiro-me, se sou importuno--disse a pessoa que entrára, e que ficára +no limiar da porta. + +Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas. + +--Ah! é o primo Henrique? Pode entrar. + +--Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação +de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno... + +--Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da +correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante. + +--Então utiliso-me da concessão. + +--Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em +relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar +de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E +como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de +dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão +delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve +a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da +madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir. + +--E como vae a pequena? + +--Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem +esperanças, que eu mesma não tenho. + +--Que disse o cirurgião? + +--Nada animador. + +--Como capitulou a molestia? + +--Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a +necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que +lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão +que me interessa. Tudo o mais me é indifferente. N'uma pessoa doente +vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos +peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero +saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia +e a morte. + +--Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura, +prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo +muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É +voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras +d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine +o clamor que por ahi vae! + +--Deixe clamar--respondeu Magdalena, encolhendo os hombros. + +--Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me, +quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não +sou muito bem tratado. + +--É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente. + +--Não receie. Esta gente a final é cobarde. + +--Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. Foi uma +desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario. + +--Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o +ter presenciado o accesso de furor rabico do homem. + +--Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das mais +agradaveis. + +--Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e +talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se +interessa em organisar contra o sr. conselheiro. + +--Ah! pois trata-se d'isso? + +--Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio, +a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um +grande mal. + +--Oh! se meu pae perdia!... + +--Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a +expressão de um desejo. + +--E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez +para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus. + +--Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á +politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia, +aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as +politicas, a politica local. + +A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique +dizia. + +Henrique proseguiu: + +--Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O +brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a +propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e +sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto +seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia +inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. Já vê, +prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o +meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a +interessar-me pelas questões locaes, como se aqui estivesse, ha annos. + +--E é um bom indicio de cura, pode crer. + +--E ainda tem empenho de me curar? + +--Empenho, todo; esperança é que menos. + +--Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a +sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não +falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente, +foi n'uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então +até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito +desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei... + +--De quê?--perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de +altivez.--É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção, +no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu +interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o. + +--Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella +alguma misericordia para com o peccádor? + +--Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me +obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado +delicadas, com que me mortifica. + +--Está sendo tão amavel!... + +--Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias. + +--Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima +Magdalena. + +--Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia +do mal, inda não desisti de cural-o. + +--Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento? + +--Ha já agora uma unica maneira de o salvar. + +--E é?... + +--Apaixonal-o. + +--Ah! n'esse caso estou salvo!--exclamou Henrique, n'um impeto, que não +pôde passar sem um sorriso da morgadinha. + +--Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixão, +sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o. + +--E como hei de escolher? + +-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio. + +--A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser mais clara... + +--De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de +persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão +heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa +indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da +inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao +papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma +inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter +igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe +que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o +esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres +nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas +superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se +n'elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo, +domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio +que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes é que deve +procurar para salvar-se; só d'elle pode esperar a realisação da vaga +ideia de felicidade, que todos concebem na vida. + +--E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia +encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se +apoiar? + +--Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente +nas necessidades do seu coração. + +Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas +do correio. + +--Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu +pae--disse Magdalena, examinando a carta recebida. + +--Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que +chegaram. + +E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas +de Lisboa. + +Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a +leitura, exclamando: + +--Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto? + +Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos. + +Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro. + +--Ha alguma má nova?--perguntou Henrique, ferido por aquella expressão. + +Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura +até o fim. + +Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria +n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a +mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga. + +--Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a +perturbar?--perguntou Henrique, já assustado tambem. + +--Não sei bem; não posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas +sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse. + +--Mas a final o que se diz ahi? + +--Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por +certo doloroso. + +Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos. + +N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um +abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer +quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias +uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem +politica do que o secretario intimo do ministro. + +O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado +compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação +que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O +periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado +os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a +discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre +quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia, +recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança +que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como +por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á +filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e +por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos +comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa +classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa, +como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão--a +vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres +a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar +offendidos, é natural encontrar o criminoso.» + +--Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.--De que se +trata aqui? + +--Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é +necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os +que, como eu, teem entrada n'esta casa, é isto um mysterio em que a +nossa honra está empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar +suspeitas. + +-Por amor de Deus!--acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.--Não +pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até +aqui não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia. + +--Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador, +prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição. + +--Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido +occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma +intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu +Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do +dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! Meu pae não tem crimes; +meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos +as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim? + +--Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem +criminosos... + +--A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para +explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica +sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois... +ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da +sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma +nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre +necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio? + +--Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem +fôr escrupulosamente fiel á sua. + +--Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh! +ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vêr... +quero saber que carta é esta. + +Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que não +costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o +que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido +e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que +effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante +Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de +filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente +nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas +frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que +fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém. +Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe +revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os +periodicos: + +--Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga +ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha. + +E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de +que elle mais receiava. + +E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril. + +Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de +Magdalena. + +Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, que até +alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n'um ponto; +contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou +e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um +movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção +profunda: + +--Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d'elle, a fôrça precisa para +fugir d'estes enredos! Isto é de enlouquecer!... + +Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e +examinou-a. + +Tinha conjecturado bem. + +O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem +tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia. +Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época, +impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que +lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande +significação nem gravidade. O caso era o seguinte: + +Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questão +politica; uma d'estas questões que servem para estremar os campos e +descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os +principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico +inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avançadas +ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir +n'esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem +apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem +que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a fé nas +utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer +pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a +localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a, +sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se +parlamentar, se chama conveniencias politicas. + +Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no +conselheiro. + +Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua eloquencia, +variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão +espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o +proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discussão, de que +falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os +adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o +conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação +taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das +contingencias. Entenderam-se. + +Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou +ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma +opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á +provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a +questão. + +Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que +inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que +contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi +apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós +a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a +discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar +nos circulos politicos contra o resultado da votação e expender as +razões que deveriam fazer repellir a medida. + +Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia; +e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d'ella. + +Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do +secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as +condições do pacto. + +Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia +politica do conselheiro soffreu com isso. + +Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto +possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas +declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio. + +Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem, +invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora +caia com elles o partido a que se filiam. + +Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos +taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu +risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos. + +Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a +consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma +significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique +de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam +attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto. + +A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de +familia. + +É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de +quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos +lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da +virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel +julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas +dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes, +filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á +prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com +lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter +duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para +os actos domesticos. + +Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no +animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente +moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava. + +Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem +cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e +penosa impressão que lhe ficára da leitura. + +Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se +julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, +em tom já apparentemente sereno: + +--Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as +cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas +não se pronuncia claramente. + +N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma +viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em +grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de +manhã os fogões da casa. + +Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado, +levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um +interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos +quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique +tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e +inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar +de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa. + +--Aqui entre nós--dizia Henrique--vejamos em quem se pode, com +plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem; +um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de +valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra +especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta +o Mosteiro... + +E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para +elle com um gesto espantado: + +--Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos +indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem +processo. + +--Ora essa, primo Henrique!--exclamou D. Victoria.--Era o que faltava! +Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados. + +Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este +episodio. + +Henrique proseguiu: + +--Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem +deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém, +alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que +n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que +por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu +pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a +ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações, +porém... + +Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, +antes de enuncial-a. + +--Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o. + +--Diga, primo, diga--acudiu logo D. Victoria. + +--A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha +áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores +velhas... + +--Então julga que foi o Vicente?--perguntou D. Victoria.--Mas elle não +vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo. + +--Não digo que fôsse elle, minha senhora--disse Henrique, cujo embaraço +augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante, +como se lhe estivesse lendo o pensamento. + +--Então?--insistia D. Victoria. + +--Mas--proseguiu Henrique--o velho exerce certa fascinação na gente da +terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e +alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero +seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse +rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos +resentimentos da minha parte. + +--Faz bem em o abandonar, primo Henrique--disse Magdalena, com +severidade.--Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita +injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um +passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais +tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, +não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da +suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada +respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e +filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; +culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer +arvorar. + +--Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento +sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e +adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode +dar do proprio caracter. + +D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou: + +--Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! +Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira. + +Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora +das lições dos pequenos. + +Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao +Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e +com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de +Natal. + +A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais +pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até +sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o +caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, +cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D. +Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos +termos trocados entre Henrique e Magdalena. + +--Muito bons dias, sr. Augusto,--disse D. Victoria affavelmente--então +são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De +manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre! + +--Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte +das minhas obrigações--disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e +Henrique. + +--Como? + +--Pois v. ex.^a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu +logar? + +--Que me diz? + +Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia. + +D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O +gesto de Henrique tinha uma expressão particular. + +--Recebi ha dias a participação official--continuou placidamente +Augusto. + +--Mas--proseguiu D. Victoria--o mano tinha aqui dito que o seu despacho +estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu +cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo +menos com esta gente. Isto de politicos... + +Magdalena inclinou a cabeça, suspirando. + +--Bem vê v. ex.^a--disse Augusto, com leve tom de amargura--que ás vezes +ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto +professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve +extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo. + +Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os +de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção. + +A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe +manifestou na contracção da fronte. + +--V. ex.^a dá-me licença que principie os meus trabalhos?--disse +Augusto. + +--Ai, quando quizer--respondeu D. Victoria.--Os pequenos estão na sala +verde. + +Augusto saiu. + +D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se +fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que +aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção. + +--Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um +homem--dizia ella.--Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; +ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr. + +E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi +buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do +filho. + +--Não vejo ...--disse ella, remexendo os papeis.--Isto que é?... Ai, +isto é uma escripta de Marianna... Ora veja. + +Henrique fingiu examinar com attenção a escripta. + +--Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não +entendo, mas hão de estar bons. + +E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma +attenção. + +--Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse. +Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja, +primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a +leio... Quer vêr? + +Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe +ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos +filhos. + +Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no +fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e +outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos +labios um sorriso entre de ironia e de triumpho. + +Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a +impressionou: + +--Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta +do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças +não a comprehenderiam bem. + +Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a +ler. + +Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade, +que a obrigou a ler com rapidez até o fim. + +Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto +entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos. + +D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta. + +--Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina? + +--É que ha momentos, minha tia,--respondeu Magdalena, fitando-a com os +olhos arrazados de lagrimas--em que eu não sei como se resiste á +loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar +da Providencia, que dizem que protege os bons. + +E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos +soluços. + +D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que +ella não podia comprehender. + +Henrique respondeu simplesmente: + +--Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. +Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro +se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa. + +D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da +resposta. + +--Mas... n'esse caso... visto isso... + +--Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha +pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham +infelizmente um fundo de verdade. + +D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou: + +--Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não +esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora +deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi +está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa... + +--Eu retiro-me--disse Henrique, pegando no chapéo para sair. + +--Fique, primo, fique... Até é bom que ouça... + +--Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para +isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.^a e elle, e, se me é licito um +conselho, bom será que não seja demasiado violenta. + +Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se. + +Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha +feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e +irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára? + +Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel +ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de +todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a +justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que +commettemos um mal, formulando uma accusação. + +Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos +escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique. + +D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e +castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo +que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto. + +Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que +lhe esquecêra na sala. + +--Que procura?--disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa. + +--Uma pasta que deixei aqui! + +--Será esta?--disse D. Victoria, mostrando-a. + +--É essa mesma--respondeu Augusto, indo para buscal-a. + +--Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. +Augusto?--perguntou D. Victoria, retendo a pasta. + +--Muito bem, minha senhora. + +--Já entenderam esta carta? + +Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente. + +--É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver +escolhido esta entre as que v. ex.^a me deu. + +--Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe +pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a +imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses +gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que +fez, para se mandar pagar. + +D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior +aos seus habituaes expedientes de espirito. + +Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia +comprehender aquellas singulares palavras. + +--Diz v. ex.^a que... + +Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que +Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou: + +--Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda. + +Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia +nem o que queria dizer tudo aquillo. + +--Mas, por amor de Deus, minha senhora,--disse elle, já +sobresaltado--que quer dizer tudo isto? + +--Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de +atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em +esconder as provas da sua villeza. + +--Minha senhora!--exclamou Augusto, fazendo-se pallido. + +--Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós +ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a +carta. + +--Oh, meu Deus! pois suspeita-se... + +E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e +começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem +que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia. + +Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia: + +--Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é +um homem que sabe o que é o mundo... + +Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e +scintillou-lhe o olhar de cólera: + +--Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar +que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame, +uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que... + +--Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos--disse D. Victoria, +interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta. + +Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido: + +--Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não +lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham +habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É +uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar +para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a +desconfiança que lhes semeia tão cêdo. + +D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não +ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as +singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, +onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto. + +É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos, +commovida. + +Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento +tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas +inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no +seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos +olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos +os prestigios. + +Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a +reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem. + +--Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não +succumbir;--exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o +rubor da exaltação--obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa +memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a +intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao +encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador +leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta +casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena, +unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que +no teu pensamento o meu nome não é o de um infame. + +Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta. + +Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se +respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se. + +--Espere,--disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda +melancolia--não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o +reputou sempre innocente. + +Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração. + +Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a +estender-lhe a mão. + +Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas. + +--Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!--exclamou elle--precisava +d'essas palavras para não enlouquecer. + +--Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão. +Creio-o firmemente. + +--E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa +generosa confiança. Juro-lh'o. + +As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos; +iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando +Christina entrou na sala. + +Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a +scena e a commoção dos dois. + +Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra. + +Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando +correr livremente o pranto. + +Christina correu a abraçal-a. + +--Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?--exclamou Christina. + +E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel +ingenuidade: + +--Pois tu... amaval-o? + +Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio. + +E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas. + + + + +XXIII + + +Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu do +Mosteiro, ainda sem plano formado, sem tenção definida, mas +comprehendendo vagamente a necessidade de abraçar uma resolução +qualquer. + +As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltára, tinham-lhe feito +conceber a suspeita de que Henrique não fôra alheio á calumnia que +pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga não ia +longe, e justo é confessar que não era destituida de plausibilidade a +ideia. + +A especie de aversão reciproca que, desde o primeiro encontro, os +dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de Natal, em que +ficára pendente entre elles uma provocação, só á espera de pretexto, +concorriam para dar vigor a esta supposição. + +Por isso, depois de por muito tempo percorrer á tôa os caminhos dos +campos, sem consciencia nem destino, Augusto encaminhou-se resolutamente +para Alvapenha. + +Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que +occasionaram a sua accusação. Mal poderia até dizer de que era accusado. +Percebeu que se tratava de um abuso de confiança, de uma infamia, mas a +impressão recebida fôra tal que não o deixára investigar os pormenores +do facto. Previa em tudo isto uma traição, e, para a esclarecer, +dirigiu-se á unica pessoa de quem lhe parecia provavel que ella +partisse. + +Quando chegou a Alvapenha já tinha alli passado a hora de jantar. + +Henrique retirára-se para o quarto, D. Dorothéa e Maria de Jesus, +aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a rezar parte das +suas longas orações quotidianas. + +Quando Augusto bateu á porta, estavam ellas de volta com a ladainha, que +D. Dorothéa dizia em latim, a seu modo, e a que Maria de Jesus respondia +no mesmo idioma. + +--_Turris e burris, fedilisarca, espeque da justiça, Joannes +asellis_--dizia D. Dorothéa. + +--_Orá pér nós_--respondia invariavelmente a criada. + +A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala. + +Poucas situações se podem conceber mais exasperadoras de animo do que a +de Augusto n'aquelle momento. + +Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixões, trazer no +coração uma verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na +presença de duas indoles essencialmente pacificas, de dois corações a +que a paixão nunca alterou o rithmo, de duas consciencias de que nunca a +dúvida, o remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, é um +martyrio cruel. + +Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava. + +--Ditosos olhos que o vêem!--disse D. Dorothéa, arredando deante de si a +dobadoura, para mais á vontade contemplar o recem-chegado.--Não sei que +mal lhe fizeram n'esta casa! + +--As minhas occupações...--balbuciou Augusto, sem saber o que dizia. + +Maria de Jesus veio de reforço á ama. + +--Isso! fale-nos nas suas occupações, nem que se não soubesse cá que +todos os dias dá o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas +quintas-feiras e domingos... + +Augusto não respondeu. + +--Pois olhe que todos aqui lhe querem bem--disse D. Dorothéa. + +--Assim o creio, minha senhora. + +--Eu fui muito amiga de sua mãe, que era uma santa creatura. Inda me +parece que a estou a vêr ahi sentada, com aquella capa rôxa que trazia. +A alegria d'ella, quando o Augustito veio de Lisboa! Vi-a chorar e +agradecer a Deus o filho que lhe tinha dado... Todo o seu desejo era não +morrer antes de o vêr padre; queria pelo menos uma vez commungar das +suas mãos... Coitada!... Não lhe concedeu isso o Senhor, que bem cêdo a +chamou a si. + +E continuou para Augusto: + +--Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui +do legado que ella deixára, eu disse logo: «Ora a alma tem ella no Céo +por isto, quando por mais não seja». Porque, emfim... só quem não +conheceu sua mãe é que não diria outro tanto. Verdade é que elle não +chegou a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o +que lhe não convem. E eu digo, a vida de sacerdote é muito bonita, isso +é, mas... não havendo inclinação... + +Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha. + +--O sr. Henrique de Souzellas está em casa?--perguntou elle, logo que +pôde.--Desejava muito falar-lhe. + +--Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle +deve estar no quarto... Ha de estar a ler. Não tem outra vida aquelle +rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: «Henriquinho, olha que +isso faz-te mal...» É o mesmo que nada. Só ler, ler, ler, que é uma +coisa por maior. Ao principio ainda por ahi dava alguns passeios... +Agora, tirando lá as suas visitas ao Mosteiro, elle para ahi fica. Lá ao +Mosteiro sim, para ahi ainda elle vae. + +--É que os ares são por alli muito saudaveis--disse maliciosamênte Maria +de Jesus. + +--Adeus! ahi vem vossê com as suas coisas. E então que tem? Pois está +claro que um rapaz, como elle, dá-se com a gente nova. + +--Pois sim, senhora, eu não digo... + +--E as raparigas de lá já não estão bem sem elle... Ora eu confesso, +quando elle está de maré, é um gôsto ouvil-o. Sempre ás vezes tem coisas +que fazem rir as pedras. + +--E pondo-se a contar historias? Ih! isso então é que é! Eu não sei onde +elle as vae buscar!--accrescentou a criada. + +--Com esta--continuou D. Dorothéa, apontando para Maria de Jesus--é ás +vezes um passo. Eu ainda queria que o Augustito os ouvisse a ambos. É +perdido em pouca gente. Elle põe-se lá a inventar patranhas, e ella a +tôla, que sabe já como elle é, ouve tudo muito séria e fiada, e no fim +então é que são os escarcéos. Emfim, uma coisa é dizer, outra é vêr! + +E D. Dorothéa ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em que ha não +sei que indicios de uma existencia placida, que consola ouvir. + +Augusto forçava-se a sorrir áquellas narrações das duas velhas, a que +elle mal attendia. + +--Eu digo--continuou D. Dorothéa--que já nos havia de fazer falta se +saisse d'aqui; quando cá não está parece-me a casa morta. + +--Deixe lá, senhora, que este já d'aqui não sae. + +--Ora bem sabe vossê d'isso. + +--Pois a senhora verá. Ora! Os passeios ao Mosteiro são muito bonitos. + +Augusto ergueu-se, devéras resolvido a cortar a conversa por uma vez. + +--Se me dá licença, eu vou procural-o ao quarto. Desejava falar-lhe, +quanto antes, para um negocio de urgencia. + +Depois de mais algumas reflexões, resignaram-se a deixal-o partir. + +Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto de +Henrique, e bateu á porta d'este. + +--Entre quem é--disse de dentro Henrique. + +Augusto entrou. + +O sobrinho de D. Dorothéa estava sentado junto da janella, lendo uma +folha e fumando. + +Ao vêr Augusto levantou-se. + +A lembrança das scenas d'aquella manhã no Mosteiro, e a expressão de +physionomia de Augusto, fizeram-lhe prevêr a indole da entrevista que se +ia seguir. + +Evitando porém o menor indicio, que pudesse revelar a prevenção em que +estava, disse naturalmente, estendendo a mão a Augusto: + +--Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita? + +Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente: + +--Assim estende a mão a um miseravel? Ou é tibieza de pundonor, ou +excesso de magnanimidade! + +Henrique retirou logo a mão e respondeu com orgulhoso desdem: + +--Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para não me +arvorar em superintendente de negocios que me não dizem respeito; é um +sentido especial, que se chama delicadeza. + +--É um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso sentido--replicou +Augusto no mesmo tom.--Nem sempre são tão observadas pelo senhor, essas +delicadas abstenções, como agora. Sei-o por experiencia. + +--Não o são desde que os interessados me ordenam que intervenha, e desde +que a minha intervenção pode ser util a amigos. + +--Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em relação +ao objecto que me traz aqui, espero que me explique a natureza da sua +intervenção. + +--Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui explicações? + +--Com o direito que me dá a consciencia, senhor!--respondeu +energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de +ironia.--Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e +infamemente, como eu fui, de provocar uma accusação aberta e leal. +Direito? É mais ainda do que direito, é dever. É um dever para com a +moral, é um dever para com a consciencia, é um dever para com a memoria +d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado. + +--Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e não +lh'o contestarei, por que singularidade acontece que seja eu a pessoa +que tem de responder por tudo isso? Por acaso será este o pretexto, para +depois do qual tinhamos adiado uma entrevista que suppuzemos +necesssaria? + +--Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem infame +e vil. Não lh'o invejo. Da minha não é pretexto; é uma interrogação bem +positiva e terminante. Todos os motivos anteriores, que podiam +auctorisar-me a procural-o, cessaram ante a impreterivel exigencia +d'este. Preciso de justificar-me, e por isso preciso de conhecer e de +ouvir os meus accusadores. + +--E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia +escolher uma hora mais cómmoda. Sabe que na Alvapenha se janta +patriarchalmente ao meio dia. + +--Não julgue que com essas ironias de mau gôsto, se esquivará a +responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a falar com seriedade. + +--E tem meios para isso? + +--Faço-lhe a justiça de acreditar que sim; creio que ainda não estará +tão envilecido que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe +infligir... + +--É provavel que não risse, no caso que diz; mas tambem não falava, +acredite. Ha, para interrogações d'essas, respostas mais adequadas e +discretas. Não tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, quem lhe disse +que eu não queria dar-lhe todas as explicações que souber? Sente-se, +conversemos placidamente, que é a melhor maneira de vêr claro nas +coisas. Não fuma? + +Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia: + +--Está-me causando tedio e compaixão ao mesmo tempo, senhor. Deve ter já +uma alma bem corrompida para me receber assim. Ainda quando eu fôsse um +criminoso, se no seu caracter houvesse brio, dignidade e sentimento +moral, devia a minha presença ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto, +para o não deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza em que +está, em que deve estar por fôrça, a só ideia de que pode calumniar um +homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a gravidade +d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser attendido. +Para não comprehender isto, para não respeitar esse sagrado direito, que +tem todo o accusado de se defender, é necessario estar corrompido até o +fundo da alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, só se +dá em quem duvída de si proprio, e a si proprio se não respeita, porque +se conhece. O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia, +cujos amigos generosos não a receberam sem dor; e quando o calumniado +lhe vem pedir explicações, porque se trata da sua unica riqueza, porque, +sem familia e pobre, e ámanhã talvez na miseria, precisa de defender o +unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um sorriso ultrajante, +para occultar talvez a cobardia, que não ousa repetir na face do +accusado as insinuações que contra elle fez na ausencia. Se a +consciencia lhe não exprobra esta infamia, teve razão ao dizer-me que me +enganei procurando-o. A caracteres d'esses não se pede a explicação da +calumnia; é a sua manifestação natural. + +E terminando estas palavras, que a mais violenta paixão lhe dictára, +Augusto caminhou para a porta do quarto. + +Henrique deteve-o. + +No espirito do leviano hospede de Alvapenha passára-se n'este curto +intervallo de tempo uma profunda revolução moral. + +Na voz, no gesto e na indignação de Augusto pareceu-lhe perceber +vestigios de sinceridade, em que até alli não acreditára, e desde esse +momento, além dos remorsos pelos desdens com que o recebêra, sentia viva +a necessidade de uma reparação. + +Magdalena tinha razão. + +No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um não exgotado +fundo de pundonor e de moralidade. + +--Não saia--disse elle para Augusto, já sem a menor sombra de +ironia.--Se para isso fôr necessario pedir-lhe perdão, pedir-lh'o-hei. +Que mais quer?... Reconheço-lhe o direito que tem de ser escutado. +Fique. E creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu, +que em bem pouco concorri para ellas, sinto-me já movido a não lhes dar +fé. É já um convencimento tão intimo como o que até agora tinha da sua +culpa, confesso-o. Se na minha mão estiver esclarecer o mysterio, conte +commigo. Fale. + +Augusto fitava-o ainda com desconfiança. + +Henrique percebeu-o e continuou: + +--É justa a dúvida que lhe leio no olhar, mas, como sómente o meu +procedimento futuro a pode desvanecer, peço-lhe que não deixe por isso +de falar. + +--Antes de mais nada: de que me accusam?--perguntou Augusto. + +--Pois não sabe?!--exclamou Henrique, admirado. + +--Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a conclusão em +que fiquei, mal me deixou comprehender... + +Henrique contou então tudo o que se passára no Mosteiro, e terminou +dizendo: + +--Já vê que eu não fiz mais do que faria outro qualquer em meu logar. +Pesava sobre todos quantos frequentavam aquella casa uma desconfiança +odiosa: esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lançar aos hombros +do culpado toda a responsabilidade da traição, era o natural empenho de +todos. A descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta +foi occasionalmente feita por D. Victoria. Eu não o conhecia bastante +para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das +apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por +aquella occasião confirmaram, explicavam muito bem certas tentações de +vingança... Nada mais natural do que suppôr... + +Augusto cobriu o rosto com as mãos, murmurando: + +--Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de... + +Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a indiscreção da sua dor. + +Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas disposições para +com Augusto; por isso, quando este cortou assim em meio a expressão do +pensamento, elle, que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo: + +--D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto, +advogados eloquentes. + +Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador. + +--Diz que... + +--Que não deve temer da impressão produzida, por todas as provas d'este +mundo, no animo de quem, através de tudo, acreditará sempre na sua +innocencia. + +--Refere-se a... + +--Ao seu segredo, que ha muito o não é para mim. Veja como eu estou +virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com elle, quando ha pouco +tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a causa occulta de tal ou +qual antipathia, que sentia pelo senhor... que sentiamos um pelo outro, +digamos assim. + +--Mas... + +--Vamos, vamos... eu sei que é discreto; nem esta era occasião para +entrar em confidencias. Tratemos do que mais importa... Não sei como é +que iria jurar agora a sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e +com o tempo... porque francamente lhe declaro que me é necessario algum +tempo para desvanecer em mim todos os restos de despeito e de... +paixão... porém, com o tempo, talvez venha a ser seu verdadeiro amigo... +sem a menor prevenção. + +E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom: + +--Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes +inimigos aqui na terra para o enredarem assim! É preciso esclarecer +isto. + +--Inimigos?!... Não os conheço, nem vejo motivos...--disse Augusto, +pensativo. Mas de repente, como se lhe acudisse um pensamento luminoso, +fez um gesto que Henrique percebeu. + +--Que é?--perguntou este logo.--Descobriu?... Diga... Uma suspeita é já +um rasto precioso... guia os primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei +a seguil-o. + +--Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi. É isso... + +E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro. + +--E ainda agora se lembra d'elle?--exclamou Henrique, ao ouvil-o--e inda +hesita?! O senhor é de uma boa fé!... Temos o fio! + +--Mas como pôde elle...? + +--Isso depois; o mais virá a seu tempo. Agora trata-se de vigiar esse +senhor... E agora me lembra; elle é um dos oradores do club do Canada... +Sondarei esse antro tenebroso... Eu já devia suppor que andava aqui +miseria politica... Estou a achar razão áquella adoravel Magdalena... +Perdão... inda não perdi o habito de a adorar... Tambem, desde que o +consiga, serei seu amigo sem restricções. Até lá, porém, não será isso +motivo para de corpo e alma me não dedicar á sua causa... Eu posso ter +todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma velhacaria; +e, fôsse o meu maior inimigo que eu visse victima d'ella, creia que +procuraria desfazel-a. + +--Agradeço-lhe essas palavras, que acredito são sinceras; não posso, +porém, acceitar a intervenção que me offerece. Eu sou que devo +justificar-me. Está empenhada n'isso a minha dignidade. + +--Como queira. Em todo o caso espero que uma má prevenção o não +constranja a não recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio lhe puder +servir. Agora peço-lhe perdão, se alguma vez o offendi de mais; mas +vamos lá, o senhor tambem não está de todo isento de culpa... E quanto +ao pretexto... adiado mais uma vez, não lhe parece? + +Augusto não podia fechar-se áquelle caracter, que se lhe estava +mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso respondeu, +sorrindo: + +--Adiado para sempre. + +E estenderam as mãos um ao outro, apertando-as já sem o menor +resentimento. + +Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender. + +--É notavel;--pensava comsigo Henrique--estou sympathisando á ultima +hora com este rapaz! Mas como se combina isto com a minha paixão por +Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha que ella acertasse, e +que não fôsse paixão o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista tão +apurada para estas discriminações! + + + + +XXIV + + +O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes; +porém, graças ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a +favor do prêso, e apesar da perseguição que lhe moviam os padres, +contava-se que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia dentro em +poucos dias. + +Magdalena não se descuidára de mandar todos os dias ao pobre homem +noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado +sérios cuidados á medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo +de convalescença. + +Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber +por quê, ella propria não sentia as esperanças que dava. + +Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, á +maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximação +do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feição +assustadora. + +Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de +saude principia a tingir as faces, até então pallidas, e elles sentem-se +ainda estremecer de secretas apprehensões. + +Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feições da pequena +Ermelinda. + +A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de +vida principiára já a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de +terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancolico, +distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras +nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia +assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as +vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar +n'ella. + +O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado +pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar +d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a +dar-lhe a boa nova. + +E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehensões +da morgadinha. + +Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais tranquilla +e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os +indicios do mal profundo. + +Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores, +gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia +despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao +dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi +completa insensibilidade de funesta significação. + +Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e +trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, já +quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante. + +Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de +inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que +principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creança; +ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas +para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um +reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára. + +Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já vacillante, com a +expressão, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se +despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente +para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade. + +Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes +lagrimas. + +A morgadinha apertou-a ao seio, commovida. + +--Que tens tu, minha filha?--disse-lhe com meiguice, afagando-a. + +Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma +expressão de affecto e de tristeza. + +A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a. + +A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a +como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a Magdalena +haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a inquietou. + +Palpou as mãos da creança; estavam frias; o coração, parado; chamou-a +pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas +feições... estava morta. + +Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o +adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella, +arrebatasse nas azas para o throno de Deus. + +A morte de uma creança como Ermelinda é um facto de ordinario +indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz +que emmudece nos festivos córos da infancia; algumas sentidas lagrimas +de mãe sobre um berço vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á +superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a rosa +desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis tudo. + +A multidão segue no delirio das festas, na lucta das paixões, na febre +da ambição e das glorias, e o perfume da flor pendida não lhe affecta os +sentidos embriagados. + +Ás vezes, porém, não succede assim, e assim não devia succeder com +Ermelinda. + +As paixões humanas, que ante o cadaver de uma creança, coroada de flores +candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como +deante de uma visão do Céo, tomam-n'o ás vezes por estimulo para mais +furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedição e a +vingança. + +Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente os +enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito do povo, não +tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em +execução. + +A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas instigações de +alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do +conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas não rompêra em explosão +por falta de pretexto. + +Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um +maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á formação de +magotes nas encruzilhadas e nos largos. + +Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a +effervescencia dos animos. Era chegado o momento. + +A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz +que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa do Mosteiro. Cumprindo +assim a lei, prestava-se tambem culto á affeição que todos sentiam pela +creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irmã. + +Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a indignação popular. + +No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde +do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada +extraordinario ajuntamento. + +O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas, +alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joãozinho, +falavam, berravam e gesticulavam a um tempo. + +O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e +guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que +pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraiçoar, achava-se +agora muito abalado, porque na questão dos cemiterios era intolerante, +não podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, como +elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio. + +O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joãozinho, não +se cançava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e +atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia. + +Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão do morgado +para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do coração do +conselheiro, que privára cruelmente o pobre velho da sua propriedade, +golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito +contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe +poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha +interesse em que não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma +grande porção dos proprios bens. + +Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de grosseiro e +bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos +de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes. + +Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o espirito +tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que +elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de +Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este +negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o +que dava logar a novas punhadas, novas irritações e a novas pragas do +sr. Joãozinho. + +No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de costume, as +suas libações de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio +fechados, ouvia com irritação os commentarios dos circumstantes e +distribuia com profusão pragas e murros. + +--Com os diabos!--berrava elle, acabando de despejar um copo de +quartilho.--Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir á +igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena. + +--Isso não se faz assim com essa facilidade e arreganhos--disse +velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais. + +--Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa que me +dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do Cancella... não tenho eu +nada... lá se avenham. + +--A questão não é ser filha do Cancella ou deixar de ser;--tornava o +brazileiro--a questão é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os +outros. + +--Menos eu--exclamou o morgado. + +--Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar. + +--Diabos me levem se... + +--Pelos modos--disse um padre do lado--elles enterram a rapariga no +tumulo da familia do conselheiro. + +--Pois vêdes; se elles são todos da mesma confraria!--ponderou o +Pertunhas. + +--E se não, é vêr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Então +julgam que aquillo não foi combinação?--disse o padre. + +--Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe +bater--accrescentou um lavrador. + +--A mim me disseram que trinta. + +--Sempre uma pouca vergonha como aquella! + +--E verão que não lhe succede mal. + +--Pois não, não; elle está alli, está na rua. + +--Diz-se que o soltam á fiança. + +--Não pode ser; aquelle crime não tem fiança--ponderou um fazendeiro, +que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justiça. + +--Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles... + +--Aquillo parece uma seita. + +--E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles são pedreiros-livres. + +--E o tal lisboeta? + +--Esse, então, é que é d'aquelles! + +O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique. + +--Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caçoar +com o missionario? Sempre vossês são uns homens de lama, tambem! Ó +Cosme--continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao +lado d'elle--olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo? + +O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros. + +--Pois, senhores--proseguiu o brazileiro, que não queria deixar +arrefecer o enthusiasmo e a irritação do publico--hoje decide-se a +coisa... D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso +faz lei. + +--Isso é que é verdade--secundou o Pertunhas. + +--Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir desenterral-a--respondeu, +cada vez mais azedado, o sr. Joãozinho + +--Não; isso lá mais devagar--acudiu o brazileiro--vossemecê bem sabe +que, estando ella no mausoléo do conselheiro... + +--Importa-me cá o mausoléo? O senhor está a ler. Eu com um empurrão +arrumo aquella platafórma a terra. Ó Cosme, olha nós, hein? + +O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo. + +--Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de +vontade, que não deixasse fazer o enterro--disse o padre. + +--Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca assim com o +povo. + +--Lá isso era!--repetiram algumas vozes. + +--Eu por mim... se alguem fôr...--aventurou um. + +--E eu, eu--ouviu-se dizer de alguns pontos da sala. + +--Deixem-se de contos,--continuou o padre--elles fazem o que querem, +porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha á frente do +povo... + +--Lá isso é que é verdade. + +--Já não ha homens para as occasiões. + +O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de valente, e se gabava de +ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e +protestou dizendo: + +--Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, não vou ao cemiterio, +eu só, e ponho tudo aquillo em cacos? hein? + +--Isso não se faz com essa facilidade--disse o brazileiro +impertinentemente. + +--A quanto aposta vossê?--bradou, cada vez mais afogueado, o sr. +Joãozinho. + +--Ora vamos--continuava o brazileiro com os mesmos modos--não que a +auctoridade... + +--A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! O regedor +commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco? + +O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes: + +--Se queres tentar... + +--Com mil demonios!--disse o morgado, exgotando mais um copo--vamos a +isto! anda d'ahi, ó Cosme! + +O Cosme levantou-se. + +--Nada de imprudencias--aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a +significação contraria ao pensamento que exprimia. + +--Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se +ha ou não ha um homem para as occasiões. + +E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus arrojados camaradas, +e o brazileiro já conferenciava com o padre, que lhe respondia com +signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle +movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por não +habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou +geral extranheza. + +Era Henrique de Souzellas. + +Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos +occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a +cavallo e deu um longo passeio pelos arredores. + +Na volta achou-se defronte da taberna do Canada. + +Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e das pragas que iam lá +dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que +fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vêr se encontrava +vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto. + +Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou. + +Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a sua presença, e até, +pela expressão com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse +demasiado prudente o passo que dera. + +Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor +manifestação de receio. + +Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia. + +O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente +do que desejava o recem-chegado. + +Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não obstante estar +firmemente resolvido a não lhe tocar. + +O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio +associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da +sêde. + +Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu +a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos +havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se +lançasse uma pedra de gêlo. + +Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e +que ameaçava degenerar em maior tormenta. + +O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para não ser +visto; o sr. Joãozinho olhou para Henrique, como se o não conhecesse, e +conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no +recem-chegado olhares sombrios e ameaçadores. + +Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, sustentava-os sem +desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a +pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos. + +--É preciso ensinar estes espiões--dizia uma voz audivelmente. + +--Que quererá d'aqui este figurão?--perguntava outro. + +--Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a nossa vida... + +O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braços sobre a +mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para +Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe já algum tanto a voz nas +fauces: + +--Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar, +sempre lhe dou uma lição, que lhe ha de lembrar toda a vida! Não, que +isto aqui não é Lisboa! Eu não admitto que se olhe para mim com falta de +respeito... Já disse! Eu não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto! +O senhor não ouve? + +Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado. + +--Ó senhor lá... Faz favor de não olhar para mim d'essa maneira? + +Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu. + +--Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera! + +E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se. + +O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos. + +Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos. + +--Então! então! isso o que é? + +--Quero perguntar áquelle senhor de que é que se ri--bradava o morgado, +furioso. + +--Para isso não se incommode--respondeu Henrique--eu mesmo d'aqui lhe +respondo. Rio-me da ridicula figura que está fazendo. + +--Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó Cosme!... + +E o morgado barafustava entre os braços debeis que o retinham. No povo +principiou a subir a maré das murmurações contra Henrique. + +--O senhor vem para aqui armar desordens? + +--É para espiar? + +--Depois queixe-se... + +--Não se metta com a gente. + +O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mãos +que o retinham, conseguiu, graças aos seus musculos robustos, sacudir de +si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por prevenção se +collocou a pé. + +O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para +elle: + +--O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para +mim... Quero vêr agora se ainda se ri. + +--Por que não? Se cada vez está mais ridiculo! + +O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a +Henrique. + +Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante +de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, dizendo +motejadoramente: + +--Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar. + +O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho ficaram litteralmente +tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mão á faxa da cinta, como +a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se +a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si. + +O morgado torcia-se e espumava sob a constricção de Henrique, e já +congestionado e rouco bradou: + +--Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse maldito!... + +A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do +Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zangão. + +O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crédito do +estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que +infallivelmente lhe seria fatal. + +A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido. + +Henrique estava incólume, e o morgado sôlto. + +Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado preparava-se com os +seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre +bradarem: + +--Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo! + +E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por +varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e tão +convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco: + +--Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao +cemiterio! + +--Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes. + +--E queime-se a papelada da camara! + +--E mate-se o escrivão de fazenda! + +--E quebrem-se os vidros do Mosteiro! + +--E pegue-se fogo á casa! + +Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho. + +--Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio! +Atiremos a terra com o tal mausoléo! + +E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto, +percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do +Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o +e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se +anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar +por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no +ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada, +partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique, +acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto. + +Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do +cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se +pacificamente aos lares. + +O sino da igreja continuava a repicar. + + + + +XXV + + +Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia +por aquella tarde de inverno! + +Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de +toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo +ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes. +No centro d'este espaço elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da +familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os +ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a +erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes +ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se +um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se +podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos +campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli, +a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro, +agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria. + +A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a +tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em +quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas +sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido +melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente +se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente +uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul +recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado. +As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o +aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais +carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda, +apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais. + +Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme, +cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em +quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos. + +Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda. + +Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a +infeliz creança. + +Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando +a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos. + +Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos; +muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova +fórma de enterro lhes suscitava. + +As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do +Canada, nem por isso faltavam. + +Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão +e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam +assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam +enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta, +aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de +peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus +threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do +inferno. + +Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se +entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos +proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa. + +A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella. + +Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára +adoentada. + +Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á +campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma +d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as +outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham +por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com +extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas +para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa +religiosa. + +Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres +ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que, +saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda +devia ser sepultada. + +O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, +que as nuvens não toldavam. + +A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, +que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior +intensidade. + +A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, +reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma +verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina, +recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto +venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era +o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os +preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes +energicamente os combatia e censurava. + +Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de +creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a +formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da +innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica +alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça, +cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa +inclinação que lhe era habitual em vida. + +As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e +Christina, entre as mais gentis da aldeia. + +Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais +formoso. + +A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com +o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo +melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no +cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de +inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que +morrem. + +Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já +occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos +em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres +abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a +borda da sepultura. + +O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova. + +Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena. + +Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que +tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se +approximasse em tropel. + +As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se +activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa +por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, +tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, +gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a +distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente. + +Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do +dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a +cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. +Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já +antevista. + +Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto +feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e +todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre +sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição. + +Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito +estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que +no caminho se incorporam as aguas dos algares. + +Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o +_factotum_ Cosme. + +Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando +em confusão: + +--Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui! + +--Esperem! Isso não vae assim! + +--Não façam a festa sem nós! + +--Fóra com os do cemiterio! + +--Morram os pedreiros-livres! + +--Para a igreja! + +--Enterre-se na igreja! + +--Olá, sr. abbade, espere por nós! + +--Aqui vamos para abençoar a cova! + +E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, +gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente. + +O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, +abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o +esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e +chorosas. + +A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade +para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o +cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que +já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo +de piedade. + +O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados. + +--Que querem d'aqui?--perguntou elle, fitando-os--com que fins vieram +perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas? + +--Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio--respondeu o sr. +Joãozinho. + +--É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!--confirmaram +differentes vozes. + +--Por quê?--continuou o padre--julgam que Deus não receberá as almas, +cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da +igreja e a envenenar o ar que se respira lá? + +--Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse! + +--Eu não lhes reconheço o direito de querer. + +--Ora o padre mestre tem vagares!--disse o façanhudo Cosme--e tu +pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões +para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me +para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a +enxada e vem d'ahi. + +E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que +jazia Ermelinda. + +--A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar +n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!--exclamou o velho, +indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel. + +Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação +religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do +padre se cumprisse alli mesmo. + +Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de +hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas; +ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos +procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto. + +Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares, +que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua +quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se +dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos +momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os +precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito +sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, +mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião, +apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das +massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a +segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a +embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento +reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. +Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem +de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não +vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; +mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no +campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados. + +Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das +Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra +severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão. + +Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este +seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos +quaes se encontravam padres e mulheres. + +A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço. + +Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão. + +--Viva o missionario! + +--Viva o santo! + +--Abaixo os pedreiros-livres! + +E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo: + +--Abaixo os maçonicos! + +--Morram os jacobinos! + +--Viva a santa religião! + +Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das +injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o +fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o +mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da +christandade. + +A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes. +Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não +fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões. + +Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento +popular. + +Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico. + +--Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo +estas pedras--bradou elle, apontando para o tumulo da familia do +conselheiro. + +--É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo! + +--São invenções dos pedreiros-livres! + +--É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra! + +--Abaixo! Abaixo! + +O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de +um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo. + +Magdalena collocou-se deante d'elle. + +Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da +indignação. + +--Afaste-se, senhor!--bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que +parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos +degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz! + +A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das +resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos +affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi +varonis. + +O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e +ficou enleado. + +Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que +elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca +humana. + +Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um +sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido: + +--Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque! + +Magdalena repelliu-o com despreso e aversão. + +--Ah! ah! Faz-se fidalga!--disse o sr. Joãozinho, despeitado.--Pois não +anda bem. + +O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de +escutal-o, bradou: + +--Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres. + +--Abaixo!...--repetiram muitas vozes. + +--Pois vá abaixo!--repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o +machado. + +--Para traz!--exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação. + +O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella. + +O sr. Joãozinho sorriu. + +--Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe +queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!--e soltou, +ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava. + +--Abaixo, abaixo!--repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se +para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava. +Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda +que fôsse á custa da propria vida. + +Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as +lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a +palavra «piedade». + +O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda +achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando: + +--Mau! se temos chôro, nada feito. + +Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e +outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de +profanação. + +O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado. + +Imitaram-n'o muitos. + +Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da +violencia. + +Antes de o abater haviam de a ferir a ella. + +Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns +baixaram-n'os, como arrependidos. + +O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a +scena. + +Desviando os olhos, disse, com modo desabrido: + +--Tirem essa mulher d'ahi. + +Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo +facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo +popular. + +Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do +cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos +alli reunidos. + +Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa. + +A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a +elle, dominava toda aquella multidão. + +Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação, +como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella +scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no +logar do motim. + +Era tempo. + +A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas +violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas +luctas em que elle toma parte. + +--Que é isto aqui?--disse o homem, rompendo com os braços potentes a +onda que se lhe antolhava. + +Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até +ao meio do circulo. + +Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados. + +--O Herodes... É o Herodes!...--diziam, afastando-se. + +Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado. + +Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra, +ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o +atormentara. + +O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella. + +Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o +encontrára na prisão, para onde fôra dirigida. + +Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as +ultimas noticias recebidas. + +Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos, +conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no +adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra. + +Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da +mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a +acudir-lhe. + +Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia +a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do +esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos +n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso +de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha. + +Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de +surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança +morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas. + +Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para +n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos, +calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações. + +Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento +fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido, +quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos +cruzadas da creança. + +Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas, +tomando-as outra vez, murmurava: + +--Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode +ser, Senhor!... Pois minha filha está morta? + +A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no +tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão +intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que +as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda, +como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá +dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca. +Aquelle homem estava perdido. + +--Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes +tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr +assim! + +E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, +que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces. + +Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a +ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, +fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados. + +O Cancella continuava: + +--Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me, +despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras +antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que +me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu +que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que +te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!... +Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê? + +Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas. + +O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas. + +--Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha +filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?... +Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha +filha não me perdoou? + +Magdalena respondeu a custo: + +--Que tinha ella a perdoar-lhe? + +--Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por +ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus +me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse! + +E outra vez a estreitava nos braços. + +Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com +voz alterada: + +--Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de +minha filha morta? + +--Queremos que elles a enterrem na igreja--responderam, já tibiamente, +algumas vozes. + +--Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram +elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as +alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a +conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas +festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem +aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram +sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te +entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha; +aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas +vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu +Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!... + +E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae +ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha. + +--Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de +sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em +socêgo... A minha pobre filha! + +E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de +paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias +mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez +aquella de que mal podia separar-se. + +Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular. + +Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra +o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular. + +Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo. + +O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a +figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco +agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo. + +Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não +estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a +secundal-os. + +Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella +contra os excessos do fanatismo e do beaterio. + +--A falar verdade--dizia um--este pobre homem tem alguma razão. Isto de +metter scismas ás creanças!... + +--E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma. + +--Tambem é de mais. + +--Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria. + +N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio. + +Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e +armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro +os convocára. + +Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de +joelhos, suffocado em pranto. + +As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita +aquella idade, choraram tambem. + +Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar. + +Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro. + +O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais +desafogado pranto do que nunca. + +A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento. + +Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes. + +O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica. +Responderam-lhe as creancas! + +Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro. + +O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli. + +A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza. + + + + +XXVI + + +Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa +agitação. + +Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem accôrdo, +Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se encarregára de trazer +da taberna, onde o Canada o recolhera, até o Mosteiro, sobre um carro de +herva que vinha guiando. + +Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, D. Victoria +perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as providencias que o caso +pedia, deu em ralhar, em fazer exclamações, em andar de sala em sala, de +corredor em corredor, sem tenção formada, sem methodo, sem direcção. +Levava as mãos á cabeça, ajuntava-as consternada; dava uma ordem ociosa; +mandava logo suspender a execução d'ella; impacientava-se; chamava a +toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para dizer-lhe; +extranhava a tardança de outro que não mandára chamar, e sem dar a final +expediente a coisa nenhuma, nem saber o que fizesse. + +Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente direcção; paravam +embaraçados, ou corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem +adeantarem serviço. + +As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque, cheias de +susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria, que nem sequer dava +por ellas. + +Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de espirito +n'aquella occasião. + +Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que pudesse dizer-se +ociosa; graças ao methodo com que procedia ás instrucções que ordenava, +a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria o +percebesse até. + +Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado assustador, +sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe era precisa +toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem sómente +poderia descançar, e logo achou na necessidade valor, e, com serenidade +apparente, só trahida pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, +tudo previu, tudo providenciou. + +Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero ou de susto, sem nem ao +menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel, que lhe era +natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os aprestes que +o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros com +intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião, enviou a Alvapenha +parte do succedido, e ordenou que procurassem Magdalena, occupando +n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra toda como alimento á +impaciencia de sua mãe. + +A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e +sympathicas. Não era para o salão que se formára e educára o ingenuo e +meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um acanhamento, que +já não conseguiria vencer, mas nas lides domesticas, na vida do lar era +d'essas corajosas luctadoras, a quem a desventura não derruba, cuja +intelligencia por tudo se reparte; d'estes genios providenciaes, que +pairam sobre o estreito horisonte da familia, activos, laboriosos, +achando nas fadigas um prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, +nos sorrisos que provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que +enxugam, premio bastante para compensar as penas que soffrem. + +Mulheres são estas nascidas para serem esposas e mães, o que é quasi o +mesmo que dizer: nascidas para serem mulheres. + +A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que soube o que +succedera ao sobrinho, não dispensou Christina d'estes cuidados, que +voluntariamente tomára. + +Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que D. Victoria, +e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis effervescencias, +em que esta se deixava arrebatar, não era tambem mulher para casos +d'estes. + +Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa perdera ou +embotára a faculdade preciosa de acertar bom caminho em qualquer +imprevista occorrencia. + +Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos +já a lançava em sérios embaraços. Ella propria confessava que inda havia +pouco tempo principiára a afazer-se á estada de Henrique em Alvapenha, e +a fazer o que era seu costume fazer antes de elle vir. + +É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia fazer do que rezar, e +para isso ninguem estava mais habilitado do que ella. Em relação á côrte +celestial era a boa senhora como esses almanachs vivos, que nos sabem +dizer todos os canaes por onde os differentes negocios poderão ser +melhor conduzidos nas côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade +de cada santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento +particular. + +Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de Henrique, onde, +com as melhores intenções, mais embaraçava o serviço do que auxiliàva; +usando de uma debil violencia foi-a levando para a sala do oratorio, +onde ella encetou uma reza sem fim. + +Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do cemiterio, +e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para verificar a +realidade do que lhe diziam. + +Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido, +uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. Victoria +tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos. + +Magdalena dirigiu-se para lá. + +Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas +interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a fecunda +verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres, seja dito antes em +honra do que em censura do sexo, são oradoras de muito mais folego que +os homens que blasonam de eloquentes. O assumpto mais simples, uma +colhér que se perdeu, uma peça de louça que se quebrou, por exemplo, +fornecem-lhes thema para uma prédica de duas horas. + +Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil fórmas e +estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo que a um homem a +custo daria para uma magra oração. + +--Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu estavas. Faça +favor de me dizer onde é que estava? + +Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara +e postura de réo. + +--Eu... senhora...--ia elle a dizer. + +--Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que é. Um desafôro +assim!... Eu só quero saber se vossemecê ganha soldada para andar lá por +onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as vendas... Porque +elle não ha mais... Como o dinheiro se vae roubar á estrada... O que tu +merecias... Estou eu aqui a chamar ha mais de duas horas e vossemecê +apparece-me lá quando é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem +quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é roubar? + +--Mas... + +--Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para responder. +Ora toma-me cautela, senão vaes já, já pela porta fóra. Pouca vergonha! +Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer mandar onde +é preciso e não apparecer um criado n'esta casa! A pagar-se aqui umas +soldadas por ahi além, e, quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa +de o fazer por suas mãos!... Tu cuidas que isso não é peccado tambem? +Deixa, meu amigo, que tens boas contas a dar de ti. Quem é que lhe deu +licença para sair sem ordem de seus amos? Faz favor de me dizer? + +--A sr.^a Christininha... + +--Eu não quero saber da sr.^a Christininha, quero saber quem lhe deu +licença para sair? + +--Mas é o que eu estou dizendo á senhora. + +--É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e veja como responde. + +Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a urgencia do +serviço de que falava D. Victoria, serviço que ella propria adiava com +este importuno sermão. + +A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria esqueceu-se do +criado, o qual pôde retirar-se sem ser percebido e sem receber as ordens +urgentes para que fôra chamado. + +D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella +propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique. + +--Andam desaforados--concluiu ella.--Já nem attendem a uma pessoa de +respeito. É porque não ha justiça n'esta terra. Estão para ahi uns +patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era preciso um +exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse rei, não tinha pena nenhuma: havia +de os esquartejar e era bem feito! + +Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um gato. + +A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio. + +Então é que trasbordou a indignação da tia. + +--Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar sério?... Pois elles?... Em +nome do Padre... Que mais teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E +esses malvados ainda estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda +saber... Não, isso não fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no +pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se fizeram as forcas... Ora +deixa que... Isto aqui anda trama. + +--Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado do ferido. + +--Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu não sei onde elles +se metteram. Ha de ser preciso ir á botica, e muitas mais coisas, e não +vejo nenhum! + +Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha. + +Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em direcção ao +quarto de Henrique, com um copo de agua acidulada. + +--Que ha, Christe?--perguntou-lhe Magdalena. + +--Que ha de haver, Lena?--respondeu Christina com tristeza, mas com +serenidade ao mesmo tempo--uma desgraça, mas que Deus ha de permittir +que não seja sem remedio. + +--Como está elle? + +--Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou. +Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas calmantes que lhe +tenho dado, achou-se bem. + +--E ainda não mandaram chamar o cirurgião? + +--Já mandei, já veio, já o sangrou, já... + +--Mas tua mãe não o sabe e ia mandar... + +--Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados, que por ora não convem +que venha. Elle precisa de socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia Dorothéa, +que não adeantava serviço. Queres vir vêl-o? + +Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique. + +Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda commoção +cerebral, que lhe produzira a quéda. A tendencia ao estado comatoso, que +apresentava, tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso. + +Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia aquella, e estes sem +possibilidade de longa fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que +n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma indifferença morbida +pelo seu estado e por tudo quanto o cercava. + +Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que ella mesma +preparára, com os movimentos quasi instinctivos do somnambulo. + +No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causára lhe +avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de +gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a cabeça outra vez no travesseiro, +fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual. + +Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel, +desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar +calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma dúvida suscitada por +os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a +espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E +sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confusão. + +Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi subjugada pelas +muitas e violentas commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade da +prima e extranhava-a. + +Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a +suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito +methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas. + +Apreciára-lhe até então os dotes de creança, a bondade do coração, os +extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto tomando +assim tanto a sério a sua missão de mulher e desempenhando-se d'ella tão +dignamente. + +Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o espirito da +morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como +que sob a protecção de uma timida e debil creança que, mais do que elle, +parecia carecer de amparo, Magdalena não pôde reprimir um sorriso +benigno e pensou: + +--Sim; aquella cabeça estouvada pôde até hoje passar por este anjo sem o +conhecer; mas é preciso não ter coração para que, ao erguer-se d'aquelle +leito, não seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella +para a adorar. E Henrique não é falto de coração. Lida, lida, minha boa +Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz +que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu á mulher. +Confio em Deus que vencerás. Deixar-te-hei todas as fadigas, para te +pertencer todo o prazer. + +E em harmonia com esta resolução, a morgadinha absteve-se de intervir no +tratamento de Henrique. + + + + +XXVII + + +Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este +correra sérios riscos durante a primeira semana, por não sei que +complicação que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou +o prático, não nos compete a nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como +de legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso intento. + +Ao fim dos oito dias, porém, começaram a manifestar-se melhoras +evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar ás +senhoras, que sempre o vinham consultar á saida com anciosa curiosidade, +que «o homem estava salvo». + +De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, como já +dissémos, n'um d'aquelles estados de indifferença para tudo e para +todos, de que se não pode agourar nunca bem. Agora, porém, começava já a +manifestar attenção para os cuidados de que era objecto, e a agradecer, +com palavras de sincera gratidão, o tratamento affectuoso que recebia +n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina. + +Esta fôra effectivamente sempre incançavel, solícita e carinhosa +enfermeira. + +Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe todos os +instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe +allivio ás dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de +cada momento, a preoccupacão permanente de todos os seus pensamentos. + +Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto aquella meiga e +delicada figura de mulher, creança de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave +e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar +brando que o fitava com sympathia e meiguice; já se não sentia bem, +longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas +para a porta á espera de a vêr apparecer. + +Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de +Christina sobre o animo do rebelde, que até alli fôra insensivel, e +exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da +cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que obriga os pintores a +deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a attenção +se fixe no objecto principal. + +Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina +devia ser a figura principal. + +N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha fazer a +Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante +familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos +da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem comprehendia os deveres +da sua missão, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais +extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que tão +irresistivel influencia exercem no coração do homem que experimenta a +ventura de ser objecto d'elles. + +De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e +crescia á custa de Magdalena. + +Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a descoberta. É +necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um +coração de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo contentamento +que Magdalena sentia. É tão natural defeito a vaidade! Não se exprime o +prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida +domestica, que punha em relêvo o predominio de Christina. + +Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres +placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado. + +Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e +a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o +chá. Não era, porém, a presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, +que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena +circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade embotada, +emquanto o facto se não der com elle. Era que Christina, que em outra +qualquer occasião cedia sempre a Magdalena a direcção dos trabalhos +domesticos, alli dentro não resignava em ninguem essas funcções. Tomava +naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a mãe, a prima e +todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, +visitas. + +Não se imaginam os encantos que Henrique achava áquillo. A elle proprio +parecia já que de facto o prendiam a Christina laços mais intimos, laços +mais de familia, do que ás outras senhoras. Era assim que qualquer +pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a +uma irmã; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra +qualquer pessoa, e não o fazia sem as desculpas e cumprimentos do +estylo, que para ella não usava já. + +Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira +despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir á risca as +dietas e as prescripções do facultativo, recusando-se obstinadamente a +deixal-o lêr, e até ralhando-lhe ás vezes com severidade quasi maternal: +apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de +affecto. + +O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do seu leito de +doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma +mãe, de uma irmã ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o +com essas entonações carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a +mão que nos estende a taça do mais amargo remedio; elle, que não sabia +ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo +apoio de uma debil mão de mulher, a que o amor dá fôrças +extraordinarias, commovia-se até ás lagrimas agora, e quasi não pensava +sem tristeza na convalescença, que havia de o privar d'aquelles cuidados +affectuosos. + +O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe +approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas +as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer. + +Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa. + +Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que +se agitava no leito com a inquietação da febre, Christina, depois de lhe +dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com +a mais adoravel candura: + +--Não sabe rezar? + +Henrique sorriu, respondendo: + +--Julgo que desapprendi já as orações que minha mãe me ensinou. + +Christina calou-se e ficou tristemente pensativa. + +Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolação encontraria +nas provações da vida um espirito que não soubesse recolher-se na +oração. + +Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe: + +--Quer-me ensinar a rezar, Christina? + +Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a +intenção d'aquellas palavras. + +--Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz a minha +alma, as orações que me ensinar. + +Christina respondeu-lhe gravemente: + +--Reze, reze e verá como n'isso acha consolação. Vou emprestar-lhe o meu +livro de orações, quer? + +--Por que me não ha de antes ensinar, como minha mãe o fazia? + +Christina ouviu com seriedade a proposta. + +E o certo é que um dia, em que Henrique passára peor, Magdalena ouviu, +na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece á Virgem, e o +doente repetindo-a com docilidade de creança. + +Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o +vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas +modificações a que todos os caracteres estão sujeitos, quando se dão a +actual-os dois elementos tão poderosos, como se davam em Henrique: a +doença, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o coração +ás doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e +irresistivel de todas. + +Não direi que fôsse com inteira fé que o doente orava; talvez que +houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava +ao orar assim. É certo, porém, que, desde então, frequentes vezes se lhe +desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do +seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique. + +Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio, +Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratidão, beijou-lhe, +commovido, a mão, que ella ia a retirar. + +--Que faz?--disse Christina, córando e afastando-a. + +--Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só +agora comecei a amar. + +--Ora vamos--acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão. + +--Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me +salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda? + +--Repare que eu não tenho azas de anjo. + +--Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre +doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa +dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias? + +--Nenhuns titulos! que diz?--tornou Christina, com um sorriso adoravel. + +--Pois quaes? + +--Então não somos primos? disse ella, jovialmente. + +E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava +Henrique. + +Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe +alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para +Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de +umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do +quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam +serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de +ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para +junto d'elle, para lhe fazer companhia. + +D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações. + +--Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta +pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que hão de estar +molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão +molhados... + +Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de +uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade +affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira +fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção. + +--Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor? + +--Estou triste, porque estou melhor--respondeu Henrique. + +--Que está a dizer?! + +--A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede commigo. Este +renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias, +este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós, +que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como +que estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei prostrado +no leito da doença, Christina. + +--Não diga isso. + +--E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! Não sabe +que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia +que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da +solidão, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, +desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, +Christina! Quando penso em voltar para Lisboa... + +--E tenciona voltar? + +A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma +intima commoção. Ha d'estes effeitos. Ás vezes o olhar menos +significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de +maneira tal que elle proprio se sente estremecer. + +--E queria que eu ficasse, Christina?--perguntou Henrique, sob o dominio +d'essa impressão. + +Christina não respondeu logo. + +--Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, para não +vêr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de +irmã. Esta ideia será a minha consolação; deixe-me partir com ella. + +--Partir?... mas... para que ha de partir? + +--Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorothéa, +cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidadãos? + +--Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! E depois... que vae +fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que está doente, que é +quasi a mesma coisa. + +--E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar? + +--Por que havia de lh'a negar? + +--Tempo virá em que outros me disputarão a menor porção de affecto que +me conceder, Christina... e então... então é que eu ficarei mais só do +que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou. + +--Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por esse mundo? + +--Então a menina não sabe que se está só mesmo em companhia? Quem está +só é a alma. Ai, a alma está só quasi sempre! + +--Por que quer. + +--Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que não +obteve a que desejava. Além de que, ha almas tão tristes, que intimidam +outras. E a minha é d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer +companhia á minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci, +não hesitaria? Confesse. + +Depois de um momento de silencio e hesitação, Christina respondeu: + +--Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa tristeza... + +--Concedia-m'a? + +--E por que havia de negar-lh'a? + +Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado. + +--Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras? +Se o meu coração é tão ousado... + +Christina, córando, retirou a mão de que Henrique se apoderou, e +levantando-se, sobresaltada, disse: + +--Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o. + +E fugiu, correndo em direcção de casa. + +Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias +durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma como +perfumada atmosphera, que exercia profundas revoluções no caracter de +Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas +exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em +vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas +metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, da infancia, estado de +chrysalida para a imaginação, passava á verdadeira juventude, ao periodo +em que a imaginação ganha azas, em que o coração se completa. + +Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não havia razão +possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a +mudança para Alvapenha. + +Já se não fez sem lagrimas a despedida. + +Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu +commovida; só Christina não se achava na sala em que se passou a scena. + +Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair. + +Seria casual esta circumstancia? + +Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe o coração que a +encontraria alli. + +--Volto á minha solidão, Christina--disse-lhe, commovido.--Não lh'o +tinha eu dicto? + +A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez só lhe +resultaram lagrimas. + +--Não diga mais nada--disse Henrique, levando aos labios a mão que ella +não retirou.--Essas lagrimas bastam-me. + +Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas produziram. + +E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas. + +Christina ficou a chorar na varanda. + +A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo: + +--Pago-te hoje o abraço que me déste no outro dia; mas eu escuso de te +perguntar... «Pois tu amaval-o?» + +--Ai, Lena!...--exclamou Christina, cada vez chorando mais. + +--Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e imaginaram +uma separação de duzentos passos para poderem representar a scena das +despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!--dizia +Magdalena, para consolal-a. + +Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia. +Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual +taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar á ama a ideia de que a +doença tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa +levou muito a mal. + +Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignação que lhe +causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava +novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam +enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do coração, +contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu. + +Depois teve Henrique uma visão. + +Não se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha +aqui que se pareça com as visões épicas; foi uma visão como muitas, que +nós todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses +espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginação, esta +fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A +quem não terá de facto succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma +perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da visão exterior, +enfraquecerem as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem fórma, +realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa +visão? + +Estava Henrique á janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos +já que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde +parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos +differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mêdas, +colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural, +resentindo-se, porém, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora +velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura. + +Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta como ella era. + +Principiava a visão interior. + +As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos +campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de +cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o chão das eiras; gemiam as +noras e os lagares; soltavam-se ás prêsas os diques, e uma verdadeira +rede liquida envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; alvejavam +as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as +cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da +vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados, +do sobrinho de D. Dorothéa. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir +todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro patriarcha ao modo +antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, á sombra de uma arvore, á +borda do tanque, debruçada no muro, por entre os silvados das sébes +vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina! + +Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem +elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as +qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de ter uma +visão como esta! + +No quasi extase, em que a imaginação o lançára permanecia ainda, quando +soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro. + +Apressou-se logo a receber a visita. + +Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e +das meninas. + +O pobre homem era um dos que ficára com affeição a Henrique depois que +estivera no Mosteiro. + +Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos encontrava, +contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o +bastante para o velho lhe querer bem. + +--Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incómmodo +que estão tendo commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes +passeios. + +--Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... É exercicio a final... Pois é +verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe +que eu já tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu era +já homem feito... Inda me lembra... + +Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem transição sensivel: + +--Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado +um cuidado!... Todas!... Até a Christininha! + +--Sim? Tambem essa? + +--Ora se tambem!... Pois a sr.^a D. Victoria? + +--Mas... mas... Christina... a sr.^a D. Christina, então... + +--Isso é um coração de pomba. Inda ha pouco, ao sair, já vinha no pateo, +e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de +reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais triste.» + +--Ella disse-lhe isso? + +--É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o encontrei alegre como... + +--Não, não; não lhe diga isso, homem--atalhou Henrique. + +--Então por quê?! + +--Porque... porque... porque não é verdade... Então eu estou assim tão +alegre como isso? + +--Não digo que esteja, mas para a socegar... + +--Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse ella mais +nada? + +--A sr.^a D. Victoria... + +--Falo de Christina. + +--Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo. + +--Diga, diga. + +--Não é nada; é uma promessa que... + +--Uma promessa? Que promessa? + +--Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve +muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a Christinita prometteu +rezar na capella dos Cannaviaes as estações da meia noite... + +--As estações da meia noite? + +--Sim; as estações rezadas á meia noite á Senhora que está na capella da +casa dos Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que +se lhe pedisse assim. Contava meu pae... + +E vinha um caso comprovativo da tradição popular. + +--Sim, lembra-me que já me falaram n'isso--disse Henrique, pensativo. + +--É verdade. O peor é que é este seu criado quem tem de a acompanhar até +á quinta, depois d'ámanhã á meia noite... + +--Então depois de ámanhã á meia noite? + +--Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da pequena. + +--Esteja descançado. + +E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que +Henrique não ligou attenção, aquelle retirou-se. + +Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda abstracção. +Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para +presenciar aquelle acto de fervorosa devoção de Christina, que +supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crença, com a +effusão do mais generoso affecto. + +N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que +conduziam á quinta, que elle ainda não visitára, e sobre como penetrar +até á capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa. + +D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos +precisos sem que suspeitassem das intenções com que elle lh'os pedia. + + + + +XXVIII + + +A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha +morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um +dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia. + +O tempo, cuja acção não contrastada se exercera livremente n'ellas, +viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta +casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados, +de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos +e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstição popular terminára +a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e +corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue á natureza. + +A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia senão depois de ter +gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e +brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava +n'esta pequena terra, onde passára o resto da vida, de uma fama de +espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a +opinião de que a sua alma andava ainda penando por cá. + +Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relação aos annos da +mocidade da morgada. A imaginação popular fazia a biographia d'aquella +senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma +phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada. + +A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos começaram a +falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza, +passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da +vida elegante ás práticas de devoção. + +Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as +semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente +os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade natural. +Trajava sempre com distincção e esmero, e ao corrente das modas. + +Tudo isto e as proprias devoções da morgada, acabaram por convencer o +povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava +remir á fôrça de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das +contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava á terra penando. + +Já se vê que o logar era para apavorar as imaginações timidas, e de +noite pouca gente da aldeia gostava de passar por lá. + +Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao +Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora devida, e +fazendo obra pelas informações da morgadinha, dirigiu-se para os +Cannaviaes para escolher posição d'onde pudesse, sem ser visto, observar +Christina, não tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria +imperturbada na sua piedosa tarefa. + +A noite fizera-se escura e ameaçava chuva. + +Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um pouco +habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a +aldeia, examinando com attenção todos os objectos que lhe deviam servir +de indicadores da estrada. + +Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que +por apparencia, julgou ser a demandada propriedade. + +Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um +lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique +achou ainda fechada. + +O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver +acertado. + +Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escuridão a +fazer receiar grandes aguaceiros. + +Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se. +N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto seu, achou-o +aberto. + +Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria +habitada a quinta? + +Estas tres explicações do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito, +sem que elle soubesse qual adoptar. + +Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida. + +A chuva caía com mais fôrça. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus +de pedra, no tôpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente +toldado. + +Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de +um corredor pareceu-lhe divisar luz. + +Henrique parou indeciso. + +--Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre +perguntarei. + +E bateu as palmas. + +Ninguem lhe respondeu. + +Bateu outra vez; o mesmo resultado. + +Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu. + +O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou +a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada +por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco +brilhavam ainda uns carvões candentes. + +--Parece uma historia de fadas!--pensava Henrique.--Dar-se-ha que a alma +da morgada goste ainda das commodidades? + +Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado +opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do +campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e +preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse: + +--Procurava alguem, o senhor? + +--Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim +como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a +casa dos Cannaviaes. + +--A casa dos Cannaviaes é esta mesma. + +--Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui +ninguem. + +--E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.^a morgada. + +--A sr.^a morgada?--perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar +da resposta e de tudo que via. + +--Sim, senhor; a sr.^a morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o. + +--Ah! A sr.^a morgada esperava-me? + +--É verdade--disse a mulher, sorrindo.--Adivinhou que o senhor vinha +aqui. E o que é que ella não adivinha? + +Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena. + +--Então é a sr.^a morgada em pessoa que... + +--Que o convida para tomar uma chavena de chá--disse uma voz por traz +d'elle. + +Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz. + +Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos +labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras, +que de tantos encantos a revestia. + +Henrique exclamou, admirado: + +--A prima Magdalena! + +--A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras +da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje. +Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a +minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que +aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de +quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a +destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes. + +--Mas como soube que eu?... + +--Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que +nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi. +Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem +em recolher-se... Ouve? + +E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças. + +--O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção. + +--O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros--notou Brizida, como +para desvanecer aquelle receio. + +--Pois sabe que Christina vem? + +--Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o +lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco +hospitaleiro.--Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que +podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da +capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, +porque a cozinha está pouco habitavel. + +Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta, +chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de +Souzellas. + +--Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada, +responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui? + +--Pois não diz que sabe tudo? + +--Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades +que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia +de quem as fórma, repugne acceitar. + +--Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e +approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo +commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não +assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade? + +--Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença +esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias +de duas doenças. + +--De duas? + +--Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou. + +--Então? + +--A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe +tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se +por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder +verdadeiramente doentia. + +--Estou curado d'isso. + +--Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era +doença. + +--Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me +aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos +negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera. + +--Ah! e experimentou a receita? + +--Experimentei e curei-me. + +--Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da +convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são +perigosas as recaidas. + +--Pois teme que eu recaia? + +--Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto +motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição +romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum +accidente. + +--É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios +que prescreve. + +--Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me +com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa +não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já? + +--Confesso que algumas... + +--E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do +coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que +puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr. + +--Desde o primeiro dia? Pois Christina... + +--Christina deixou de ser creança desde aquelle dia. + +--Querido anjo! + +--Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua, +timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma +indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um +caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais +coragem e mais fé no futuro. + +Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para +Magdalena: + +--Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as +necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu? + +--E quem lhe disse que as tinha? + +--Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se +julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a +observam. + +--Ah! Então leu? + +--Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que +eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém, +tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado +n'ella. Cego, como eu fui. + +--Não leria?--perguntou Magdalena, sorrindo.--Está certo d'isso? + +--E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a +adivinhasse. Ha casos d'esses. + +Magdalena tornou, mudando de tom: + +--É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que +sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio. + +--E por que demora o tratamento? + +--Pois parece-lhe que será urgente o caso? + +--Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do +que.... + +--Silencio!--disse a morgadinha, escutando.--Pareceu-me ouvir... + +N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo +em voz baixa: + +--Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles. + +--Então depressa--disse Magdalena.--Abra-nos o côro; mas antes apaguemos +as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de +furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho. + +Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um +corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir +missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior. + +Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar +as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava +longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a +varanda do côro. + +Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem +Christina e Torquato. + +Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres +degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera +que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da +Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não +dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto. + +Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho, +com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro +em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo. + +Tudo ficou depois em silencio. + +Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a +tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou +immovel a rezar a devoção promettida. + +Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella +angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle +anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e +candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de +gosar um amor assim! + +Magdalena via com alegria a commoção de Henrique. + +A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos. + +Henrique murmurou, ajuntando as mãos: + +--Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás. + +--Não peça a Deus o que está na sua mão--respondeu-lhe em voz baixa +Magdalena. + +--Que diz? + +--Está ou não sinceramente apaixonado? + +--Como nunca imaginei que fôsse possivel estar. + +--Crê na pureza d'aquelle coração? + +--Como na dos anjos. + +--Está convencido de que o pode salvar, ella? + +--Não ha crédo que professe com mais fé. + +--Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o? + +--E consente? + +A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas +escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór. + +--Aqui tem o caminho--disse ella.--Siga-me. E, servindo-se da lanterna +de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a. + +No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns +passos, parou junto de um reposteiro. + +--Agora faça o que lhe dictar o coração--disse ella para Henrique. + +Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella. + +Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava +por detraz d'ella, não o viu chegar. + +Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração. + +Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um +grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou +perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror. + +Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe: + +--Não tenha receio, Christina. Sou eu. + +Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a +presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar +explicações. Henrique accrescentou: + +--Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto +fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado, +Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados +prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me +as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda +a paixão que pode haver na minha alma. + +E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem +ousára retirar das suas. + +--Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do +viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr +realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de +que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e +gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir +occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de +mãe, de irmã, e de... + +--Henrique!...--murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada +creança. + +--É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a +mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que +uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada +de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. +Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração. + +Christina tremia sem poder responder. + +Magdalena entrou por sua vez na capella. + +--Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique--disse +ella. + +Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e +inesperadas apparições, correu para a prima. + +--Tu, Lena! Tu tambem aqui?! + +--Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos, +dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr. +Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito +terminantemente, a tua mão. + +Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio. + +--Não responderam os labios, primo,--continuou a morgadinha--mas falou o +coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo. + +--E disse?... + +--Que havia de dizer? Que sim. + +E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique, +que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo. + +Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia. + +O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as +rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina. + +Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e +recuou estupefacto e aterrado. + +Suppôz que almas penadas andavam na capella. + +O bom do homem não ousava approximar-se. + +Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo: + +--Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de +fazer esta noite as suas vezes. Sou eu. + +O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se +receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para +Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via. + +Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção. + +Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra +recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá. + +A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já +percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou +algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena. + +Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita +intimidade. + +--Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!--disse +Henrique.--Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A +morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites. + +--É verdade, como foi que vieram aqui?--perguntou Christina, já mais +desenleiada.--Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O +que merecia!... + +--Eu, menina?! Ora essa! Eu até... + +--N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a +indiscreção--disse Magdalena. + +--Que é?--tornou a prima. + +--É a discreção. + +--Então por quê? + +--Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que +a verdade. + +--Eu...--ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o +interrompeu. + +--Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui. + +--N'esse caso é justo que fale primeiro Christina. + +--Que hei de eu dizer? + +--Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique? + +--Ora, já o sabem. + +--Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca. + +--Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar. + +--Que diz, primo Henrique? + +--Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já. + +--Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida +por um sentimento de piedade e de... + +--Lena! + +--Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella +sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era +decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores. + +Christina poz-se a rir. + +--Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o +Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique... + +--Eu?! + +Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão. + +--Se eu o soubesse!... + +--Eu... eu não disse... eu... só disse... + +Henrique tomou a palavra. + +--Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim +alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se +involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima... + +--Eu? Soube-o tambem do Torquato. + +--Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo! + +--Isso é que não. Eu não disse á sr.^a D. Magdalena... Ella é que... + +--Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o +segredo. + +--Como? + +--O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario. + +--Eu a esse não disse. + +--Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal. + +--Ora, ora... + +--O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e +ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha +merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de +umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha +propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz +ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito +enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a +verdade, porque do Torquato soubera tudo. + +--Eu não disse... + +--E depois a prima... + +--Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e +exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a +respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final +falou. + +--Mas sabia tambem que eu vinha?--perguntou Henrique. + +--Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a +respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a +insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao +Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua +hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de +receber o primo em minha casa. + +--E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste? + +--Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste +sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo. + +--São mesmo coisas tuas--disse Christina, rindo. + +--Mas eu não disse nada--insistiu Torquato. + +--Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?--perguntou +Henrique.--Que imaginava elle a final? + +-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias +palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas +de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui +um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que +respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas +attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo +Henrique... + +--Ah! percebo agora--disse Henrique, rindo.--O velho é ciumento por +procuração. + +Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem. + +Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique, +sorriu com elles. + +O Torquato foi o unico que nada percebeu. + +Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de +voltarem a casa. + +--Choverá?--perguntou Brizida. + +--Julgo que não--respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a +vidraça da janella e examinou o firmamento. + +Henrique acompanhou-a. + +--A noite está serena--disse ella.--São horas de voltarmos. + +--Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas +horas--disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:--Mas que +agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade! + +--Vamos, vamos,--respondeu Magdalena--o dia d'ámanhã deve ser feliz +ainda, porque... + +N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse +a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito. + +--Que foi?--perguntou Henrique, que o percebeu. + +--Nada--respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella. + +--Viu a alma da morgada?--perguntou jovialmente Henrique, vendo-a +preoccupada. + +--Não--respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.--Pode porém +haver apparições peores. + +--Que é, Lena? Que viste tu?--perguntou Christina, assustada. + +--Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos. + +E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam +aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em +silencio e na sua quasi desolação. + + + + +XXIX + + +No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada +do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda que a este ultimo +causára a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo +para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D. +Dorothéa apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; +Henrique acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu +coração, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de +fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mão de Christina. + +D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se não desacostumára de +considerar Christina como uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava +ainda vestidos curtos! + +Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e +agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera. + +Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não se fartou +de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as +habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram enfastial-o. +Estava devéras apaixonado! + +Chegaram ao Mosteiro. + +O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e apparente tranquillidade +de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o +que quer que era forçado a revelar certa preoccupação interior. + +É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o animo do publico da +terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava +muito arriscada d'esta vez a sua candidatura. + +Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias +realisavam-se as eleições. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus +adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens +politicas, com que contava, falharam-lhe, e até nem o visitaram. As +auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o +administrador até o cabo de policia. + +Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro +para conversar em assumptos alheios á questão que o interessava, para +sorrir e prestar attenção ao que se dizia. + +De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento, +escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente +eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente não podia +socegar. + +Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista dos +recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena +faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou +D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorothéa, e em nome +de Henrique, o pedido da mão de Christina. D. Victoria trazia bem +visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causára. Era muito +amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais +que tudo a lisonjeára, fôra a preferencia dada por Henrique a sua filha +sobre a morgadinha. + +--Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique--dizia ella.--Estou mesmo +muito arrenegada comsigo. + +--Por quê, minha senhora?--perguntou Henrique, sorrindo. + +--Pois então isso é coisa que se faça? Já precisa de embaixadores para +se dirigir a mim? + +--Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v. +ex.^a para fazer todas as reflexões que a proposta lhe suggerisse e +discutil-a á vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.^a ás vezes, sendo +eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se... + +--Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade um rapaz de tão má +nota! Ora sempre tem coisas! + +--Visto isso, posso esperar? + +--Da minha parte uma guerra de morte--disse D. Victoria, não resistindo +a dar um abraço a Henrique, já com familiaridade de mãe; abraço que +Henrique retribuiu com affecto. + +O conselheiro não dava attenção á scena. + +--Então, mano!--bradou-lhe D. Victoria.--Deixe lá essas politicas que +temos negocios sérios em casa. + +--Sim?--disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um +ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.--Então de +que se trata? + +--De um negocio importante, em que é preciso que seja ouvido. + +--Ah! Então é um caso de consciencia? + +--E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de +me fazer um pedido... Isto é, a prima Dorothéa foi que m'o fez. + +--Mas por ordem d'elle--acudiu esta. + +--Pois sim, o que era escusado. + +--Mas então que pede de nós este caro sr. Henrique? + +--Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas. + +O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por mais de uma +vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado +pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom +nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade, +e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos. + +Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz +tiral-o quanto antes da illusão e disse: + +--Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a +amizade de Christina. + +--Ah!--disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.--Então +quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique? + +--É apenas uma restituição que peço, sr. conselheiro, porque não me +posso resignar a viver sem coração. + +--Faz madrigal? Está então apaixonado devéras, já vejo--disse o +conselheiro.--Pela minha parte folgo de o vêr assim associado á minha +familia, por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, que fez o +milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa +a rir-se do casamento? + +--Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima Magdalena, +que é tão rigorosa nos castigos! + +--Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas. + +--Mas o mano tem razão--disse D. Victoria.--Onde está a Christe? +Admira-me não a vêr aqui! + +--Admirar, não me admiro eu--tornou o conselheiro.--É provavel que +soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi +decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso +tribunal. + +Henrique e Magdalena sorriram. + +--Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S. +Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no fogo ao ateares d'estes +fachos. + +--Eu vou buscar a Christe--disse a morgadinha, rindo das palavras do +pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direcção +que elle lhe deu. + +O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas, +emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa tentava +distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de creanças, que elle +mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado +á intelligencia d'elle. + +Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual +já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no chão. + +--Aqui está a accusada--disse a morgadinha ao entrar. + +O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse jovialmente para a +sobrinha: + +--Ora venha cá, venha cá, que temos muito que falar. + +E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o, +continuou: + +--Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente +com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de +bonecas, e já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, é +energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me +peça explicações por os que lhe roubar. + +E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces +tingidas pelo pejo e pela alegria. + +Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo: + +--São os penultimos. + +--Os penultimos?--disse D. Victoria, rindo.--Ora essa! Então para quando +ficam os ultimos? + +--Para quando a vir com a grinalda de noiva. + +--O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo +á prima. Não tens vergonha, Lena--disse D. Dorothéa para a morgadinha, +em quem esta reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe +aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manhã. + +O conselheiro e Henrique sorriram tambem. + +--Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia--disse +Henrique com intenção. + +--Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou +teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo +que se devem decidir pelo coração sómente. + +--E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios +actos. + +--O _sómente_ é que veio de mais, filha--disse o +conselheiro.--Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era +bom se vivessemos em um mundo de corações. + +A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e +modificou a scena. + +Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se. +Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas +entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o +latinista era de suspeitosa natureza. + +Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que +n'estas épocas não comia, não dormia, não respirava, por assim dizer, +senão eleições, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a +todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por +desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas. + +--Então que novas temos da campanha, meus senhores?--perguntou o +conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando +um tom de confiança que não sentia. + +--Más, sr. conselheiro,--respondeu o Tapadas--muito más. Vejo isto muito +feio. + +--Ora a coisa ainda não ha de ser tão má como diz. + +--Nada, nada; não me agrada. V. ex.^a descuidou-se. Tenha paciencia, mas +eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas são. É preciso não as +desacompanhar. V. ex.^a devia vir ha mais tempo. + +O Pertunhas acudiu: + +--Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os +serviços que fez á terra... + +--Ora com o que vmc.^ê vem!--replicou o Tapadas, com modo azedo.--Então +não sabe como é esta gente? Então não os ouve ahi berrar já contra as +estradas, quando até agora berravam por não as terem? + +--Meia duzia de garotos--tornou o Pertunhas. + +--Não, senhor, não é assim; não estejamos a enganar-nos. Os que não +dizem mal das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as +devem, e estamos na mesma. A coisa vae mal. + +--Então decididamente o Seabra?...--perguntou o conselheiro. + +--Esse é o chefe de todos elles--disse um merceeiro.--Á porta da minha +loja o ouvi eu estar a dizer ao cunhado do administrador que o traçado +da estrada era o peor que podia ser, que se gastava alli um dinheiro +louco, sem utilidade para o povo. + +O conselheiro olhou para Henrique, dizendo: + +--Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este +traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? Admire agora o +velhaco. + +Henrique sorriu, encolhendo os hombros. + +--Arremedos do que se faz em terras maiores--disse elle.--Não extranho. + +--E tem razão--respondeu o conselheiro. + +--Mas, a final--continuou o conselheiro--o homem não tinha na freguezia +grande influencia. Como é que...? + +--Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho +por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com elle e de mal +com v. ex.^a. + +--Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra mim? +Deixámo-nos em janeiro nas melhores disposições um para com outro... + +--Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao +ministro...--disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera grande +importancia ao objecto a que se referia. + +O conselheiro mudou logo de assumpto. + +--E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande +commetti, para me terem esse odio? + +--Dizem que v. ex.^a é mação--respondeu um lavrador. + +--O diacho da questão do cemiterio...--acudiu o Tapadas. + +--Isso acalmou já. + +--Não acalmou, não senhor. O povo não está contente. É certo que lhe +passou a furia do principio, depois d'aquella historia com o Cancella, +mas... + +--Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha +filha! + +--É melhor não falar n'isso--aconselhou prudentemente o Tapadas.--O que +lá vae, lá vae. Os homens estão meio arrependidos, e até o missionario +perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi berrado que +foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette pena. Até me +dizem que por causa d'isso o padre já se retirou da aldeia. O que era +bom era vêr até se se falava ao Herodes; porque talvez elle possa agora +ainda arranjar alguns votos--accrescentou o Tapadas, disposto a +servir-se da dôr de um pae como arma eleitoral. + +E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas +politicos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potencias +eleitoraes do circulo. Estudaram-se as ambições de cada uma; +ponderaram-se as exigencias feitas por uns, os desejos adivinhados em +outros, para este o emprego de um afilhado, áquelle o bom exito de uma +demanda, a outro o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma +hypotheca, e a alguns até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta +empresa de subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o +conciliabulo, sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o +que estava fazendo alli. + +Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos principaes. + +--Então sempre é certo que me roeu a corda esse basbaque?--perguntou, ao +falar-se n'elle, o conselheiro. + +--É dos mais assanhados--responderam-lhe. + +--Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem tantas vezes +tenho tirado de apuros! + +--Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos +cemiterios...--disse o Pertunhas. + +--Deixe lá, alli andou tambem um presente que lhe fez o brazileiro. O +morgado está muitas vezes com a corda na garganta--explicou malignamente +o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das demandas e da +politica, não achava explicações tão plausiveis como a corrupção. + +--E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario--insistiu o +tendeiro. + +--Ora adeus!--disse o Tapadas.--Bem me fio eu n'essas compaixões. Quem +não os conhecer... + +--E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?--insistiu o +conselheiro, de mau humor. + +--Então? Deu-lhe para alli. + +--Qual historia! Para mim é que vem com isso?!--teimava o sceptico +Tapadas. + +--Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na +taberna com este senhor--disse o Pertunhas, designando Henrique. + +--Sinto, sr. conselheiro--disse este--se de alguma maneira concorri... + +--De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram. Á ultima +hora é capaz de mudar de tenção. E por causa d'elle é que ficou +despachado professor um pateta em vez de Augusto. + +Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com +despeito: + +--Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito do caracter +de certos homens. Ha vinganças tão torpes e mesquinhas, que nenhum +aggravo as justifica. + +Henrique procurou defender Augusto; achou porém o conselheiro obstinado +na sua crença. + +Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor da +intriga. + +--Embora o fôsse--respondeu o conselheiro--mas que tem isso? O Seabra +não veio a minha casa, não suspeitava da existencia de tal carta. Alguem +houve que a leu primeiro e que lh'a foi entregar depois, e já é ser +muito indulgente suppôr que fôram só cegueiras de vingança e não a +sordidez da cubiça quem o moveu a essa infamia. + +Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou +pela innocencia d'elle. + +O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma altercação +travada entre Pertunhas e o Tapadas. + +Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias +eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente: + +--Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor parolar menos e fazer coisa que se +veja; ou deixa só as obras para o seu amigo Seabra? + +D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a altercação virulenta, que o +conselheiro teve de apaziguar. + +A conferencia durou até ás horas do jantar. + + + + +XXX + + +Chegára o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a batalha +eleitoral. + +A azáfama politica activára-se n'estes ultimos dias consideravelmente. +De parte a parte tinham-se posto em campo todos os influentes e em +exercicio todas as armas. Promessas, alliciações, pressão de +auctoridades, exigencias a dependentes, subornos, ameaças mais ou menos +declaradas; de tudo se lançava mão. + +Ás vezes até o calor das discussões degenerava em pugnas menos +pacificas; os argumentos physicos, que figuram no catalogo das razões +mais convincentes, haviam já sido invocados a pleitear ambas as causas, +berrando-se depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do +governo, do outro, contra os manejos sediciosos e anarchicos da +opposição. + +Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os +padres que arvorando a cruz e o estandarte, prégavam a cruzada contra o +conselheiro e instavam com o povo para que não elegesse para +representante um atheu e um pedreiro-livre; em outras eram os agentes do +brazileiro e os da auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos +populares, resgatando penhores, levantando hypothecas, remindo dividas, +empregando afilhados, e conquistando assim para o seu partido. + +O conselheiro e os seus parciaes não desprezavam tambem nenhum d'estes +mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater as do brazileiro +Seabra. + +Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha. +Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores dos +dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas, +assignando-se: o _Amigo da verdade_; o _Epaminondas_; o _Vígilante_; a +_Sentinella_; o _Alerta_, etc., e pondo ao soalheiro as máculas da vida +privada uns dos outros, e todas as bisbilhotices da terra, +correspondencias que, felizmente para crédito da humanidade, por ninguem +mais, além dos interessados e dos que já os conheciam, eram lidas. + +O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta +secção periodistica. Os seus communicados eram estirados, compactos, +obscuros e enrevezados tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se +em minuciosos incidentes; em labyrinthos de orações secundarias, d'onde +a grammatica da principal saía frequentemente maltratada, deixando ficar +por lá o sujeito, o verbo ou qualquer complemento necessario. Mas o +brazileiro imaginava que o paiz inteiro aguardava com ancia os seus +escriptos. Era frequente abrir uma resposta a alguma zargunchada de um +seu adversario, por estas palavras: «Os leitores hão de ter notado o meu +silencio, depois das calumniosas asserções...» Os leitores não tinham +notado nada. + +Finalmente a aldeia achava-se em plena fermentação politica. + +Eu tenho a fraqueza de a não amar debaixo d'aquelle aspecto. + +A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado é +o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e conhecidos +são os que vivem d'ella, tanto mais acanhada, mexeriqueira e antipathica +se torna. Se a politica do nosso paiz é já pequena, como elle, e +degenera em desavença de senhoras vizinhas, que fará das terras pequenas +d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos partidos estão os +mexericos e as vaidadesinhas que brotam como tortulhos á sombra das +arvores do campanario?! + +Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos! + +Henrique de Souzellas não ficára indifferente ao movimento politico da +aldeia. Pegára-se-lhe a febre eleitoral. Impedido de votar, auxiliava, +porém, os parciaes do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um +dia lembrou um _meeting_. O conselheiro poz-se a rir. + +--Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que está tratando? Um +_meeting_, para quê? Não se esqueça de ir domingo á igreja e lá se +desenganará por os seus olhos. O espectaculo não é muito para alegrar, +porque mostra como em geral o nosso paiz está ainda pouco educado no +regimen constitucional. Mas em todo o caso é instructivo. + +Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel +Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em relação ao tempo em +que principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com +que já se podia contar. + +A eleição, porém, estava muito arriscada ainda. O sr. Joãozinho das +Perdizes devia decidir a contenda. Para onde se inclinasse o morgado, +com todo o peso dos seus comparochianos, desceria o prato da balança. + +Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o +menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e +aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte +nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, não se descuidava +de o manter nas disposições hostis contra o conselheiro. A todo o +momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a +necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma lição ao +conselheiro, com quem Henrique estava ligado. Depois disse-lhe que o +conselheiro se gabava de ter dinheiro para comprar o morgado e toda a +freguezia. + +O morgado, sob estas e analogas instigações, praguejava e jurava +despejar na urna ministerial o suffragio da sua freguezia. + +Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do +governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido +para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que +era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser +representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o +custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa +feição. + +Logo pela manhã do domingo, marcado para a grande solemnidade civil, o +adro da igreja parochial apresentava uma animação fóra do costume. +Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se com +desconfiança, ou correspondendo-se por signaes de intelligencia, +conforme pertenciam á mesma ou a opposta parcialidade. Os agentes +eleitoraes, os influentes dos dois campos acercavam-se d'este, apertavam +a mão áquelle, segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam +com um terceiro, e, sempre que era possivel, distribuiam listas ao maior +numero. + +O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava +a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as +mãos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por entre os +grupos, recommendava ordem e respeito ás auctoridades, e dava de olho +aos cabos, seus subordinados, para que se não esquecessem de cumprir as +instrucções recebidas, votando no candidato ministerial. + +Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a constituição +da mesa. O parocho, o administrador e o regedor foram occupar o seu +logar. Ficou presidente o brazileiro, e o resto da mesa formou-se +d'entre as duas parcialidades. + +Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as +probabilidades da victoria. + +N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios +do brazileiro, dizia-se: + +--Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; verão! + +--Só a freguezia de Pinchões enche-nos ahi a urna. + +--E estará bem seguro o morgado? + +--O sr. Joãozinho!? Ora! Está de ferro e fogo contra o conselheiro. + +--Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram na taberna, +e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!... + +--Não é só por isso. Elle já estava do nosso lado, desde que soube +tinham deitado abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava +succumbido de todo. + +--É verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro d'esta vez. + +--Quem? O Vicente? Esse sim. Então não sabes que o pobre velho já se não +levanta da cama? + +--Ai, não? + +--Andava já muito fraco e doente; mas ha tres dias, sobretudo, tem ido +de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi dizer, aquillo está +por pouco tempo: nem deita a semana fóra. + +--Coitado! + +--Ahi vem quem ainda hoje o viu. Não é verdade, sr. Pertunhas? + +--O quê, meus amigos, o quê? o que é que é verdade? o que é que +dizem?--perguntou o mestre de latim, esfregando sempre as mãos. + +--Não é verdade que o Vicente herbanario está a ajustar contas? + +--Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o coração! Sempre eu digo que uma +crueldade assim, como a do conselheiro! + +--Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, só por causa do +mal que fez áquelle santo velho. + +--E com razão. + +--E então para quê? senhores, para quê?--continuava Pertunhas.--Para +fazer uma estrada em que se gastam rios de dinheiro, e que a final não +presta! Pois eu passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer, +por a casa do Augusto, que é onde vive agora o Vicente. O rapaz estava á +porta. Então, sr. Augusto, disse-lhe eu, á urna! vamos á urna! Elle +encolheu os hombros como quem diz: «bem me importa a mim com isso.» + +--Ahi está outro, que tambem não é pelo conselheiro. + +--Por que não? Pois não é elle todo do Mosteiro? + +--Foi, foi--replicou o Pertunhas.--Então vmc.^ê não sabe que o +conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de lhe arranjar a demissão, +inda por cima o poz fóra de casa, porque pelos modos o rapaz... fez +publicar umas certas cartas... que compromettiam o homem? A falar +verdade, tambem não foi bonito. + +--Fez elle muito bem. + +--Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o +povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar +a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o +Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi então +que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem vossês, outro tanto de +magro e outro tanto de velho... Mettia dó! Poz-se a perguntar-me muitas +coisas, o que havia, o que não havia, por quem estava este, por quem +estava aquelle... Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que +fizesse, já não podia vencer; que não arranjaria os votos precisos para +cobrir a freguezia de Pinchões. O velho ficou admirado quando eu lhe +disse que o sr. Joãozinho era dos nossos. E lá o deixei a remoer a +noticia. Ao menos resta-me a consolação de lhe ter adoçado com ella os +ultimos momentos. + +N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter com +um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer não sei que +eleitor recalcitrante. + +--Ahi anda este--disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.--Era bem +feito que lhe dessem outra lição, como a da taberna do Canada. + +--Ordem, ordem e prudencia!--disse o Pertunhas.--É preciso manter a +liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes! + +--Mas que tem este senhor com as nossas eleições? + +--Quem o manda metter-se cá n'estas coisas? + +--Ora é boa! Então não sabem que elle casa no Mosteiro?--disse o +Pertunhas, que andava sempre informado das vidas alheias. + +--Sim?! + +--É verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o Augusto, veio a +nós o José Barbeiro, que nos deu essa novidade, que lh'a dissera o +Manoel da Quinta, que a ouvira á Gertrudes, criada do Mosteiro. + +--Casa com a morgadinha, já se sabe? + +--Pois vêdes! não que a bolada convida! A mim logo me farejou isso, +quando vi chegar esse figurão cá á terra. Mas querem vossês saber uma +coisa engraçada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor não gostou da +novidade. + +--Não? Então por quê?! + +--Vi-o fazer-se de mil côres quando a ouviu... Pois ter-se-lhe-ha +mettido na cabeça... Hein?! + +--Tinha graça. Mas olha o milagre!... + +--Ah! ah!... Este mundo é muito divertido! + +N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a +olhar para todos os lados, como procurando alguem. + +--Que temos nós lá, ó sr. Luiz?--perguntou-lhe o Pertunhas. + +--Onde diabo estão os de Pinchões?--perguntou o interpellado. + +-Inda não vieram. + +--Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles não apparecem. O +morgado é homem para se esquecer a catar os cães. + +--Mas vamos nós principiando, e no emtanto elles virão--disse o +Pertunhas, que fôra nomeado para revezador do secretario da mesa. + +--Mas a primeira freguezia que vota é justamente a d'elle. O sr. Seabra +está como uma bicha! + +E, dizendo isto, o homem voltou para dentro. + +A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do +beaterio, que pela voz dos padres chamava áquillo artes do demonio, ia +principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais tarde, de +proposito para não formar parte da mesa, requereu, com o relogio na mão, +que se abrisse a urna aos eleitores, visto ser a hora marcada no edital. + +Este requerimento, simples e justo como era, suscitou discussão. + +O brazileiro allegou que, sendo os de Pinchões os primeiros a votar, em +virtude do artigo 62.^o do decreto eleitoral, que manda votar primeiro a +freguezia mais distante, e não estando na assembléa ninguem d'aquella +freguezia, convinha esperar. + +O conselheiro insistiu, dizendo que a lei não mandava esperar por os +eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que portanto +votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas horas de +espera, votariam os ausentes que depois viessem. + +Esta questão não se resolveu de prompto. Trocados alguns alvitres, lida +a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados os recenseamentos e +mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao administrador, e ao +parocho, é que se approvou a proposta do conselheiro e principiou a +chamada. + +A freguezia de Pinchões faltou em pêso. + +O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a lista +dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os adversarios, e +sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em principiar a +votação julgou descobrir cavillação. Na urna não tinha entrado uma só +lista. Pregoou-se o ultimo nome dos eleitores de Pinchões. Ninguem +ainda! + +Passou-se a outra freguezia. + +O brazileiro já não estava em si. + +Os primeiros votos recolhidos mal os pôde introduzir na urna, de trémulo +e sobresaltado que estava. + +O homem suppunha que lhe tinha sido roubada á ultima hora uma freguezia +inteira. Não estava muito longe de acreditar que os agentes do +conselheiro a haviam arrasado completamente. + +A freguezia que se seguia na votação era uma das que se conservavam +fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a indisposição do +Seabra. + +A votação ia, porém, correndo, interrompida apenas por algumas +questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e sobre a +regularidade d'esta ou d'aquella lista, graças aos futeis pretextos de +que os contendores lançavam mão para disputarem, voto a voto, o +suffragio popular. + +Ia adeantada a votação, quando correu na igreja uma voz, que veio +infundir alento no animo desfallecido do brazileiro. + +-Veem ahi os de Pinchões!... Ahi estão os de Pinchões... Ahi vem o sr. +Joãozinho e toda a sua gente!--dizia-se de toda a parte. + +Esta nova passou de bôca em bôca, a ponto de produzir um sussurro na +assembléa. + +Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados. + +Chegára de facto alli o sr. Joãozinho das Perdizes, á frente da sua +freguezia. + +Leitor, se tens, como eu, esperança e sincera fé no systema +representativo, perdôa-me o obrigar-te a assistir a uma scena que faz +subir a côr ao rosto de quem, como nós, abençôa os sacrificios por cujo +preço nossos paes nos compraram a nobre regalia de intervir, como povo, +na governação do Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa +tutela de um homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos, +contra os quaes o instincto e a razão igualmente se revoltam. A scena, +porém, humilhante como é, não envolve a minima censura á excellencia do +systema; mas apenas aos que nos quarenta annos que elle quasi tem de +vida entre nós, não souberam ou não quizeram ainda fazer comprehender ao +povo toda a grandeza da augusta missão que lhe cabe executar. + +Depois das nossas luctas civis, já muitas creanças se fizeram homens; se +a escola fôsse entre nós o que devia ser, já haveria sobra de eleitores +com perfeita consciencia dos seus direitos civis. + +O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, sómente devem impellir os +homens de intenções sinceras e puras a applicar os esforços de +intelligencia e de acção para ministrar com a educação a moralidade, e +para acordar a consciencia d'esta entidade social. + +Era o sr. Joãozinho das Perdizes á frente da sua freguezia, disse eu. + +E é justamente este o espectaculo humilhante de que falava. + +Tendes visto um guardador de cabras á frente do seu rebanho, conduzindo +com acenos e assobios todas as barbudas cabeças d'aquelle regimento +quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da scena que se +presenciava agora no adro da igreja matriz. + +O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mãos o sceptro da +sua soberania, não era menos docil do que os irracionaes que recordamos. + +O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava; +quando podia dispôr dos destinos dos seus senhores, era quando mais +vergava a cabeça sob o pêso que estes lhe assentavam. + +Não é similhante esta fôrça inconsciente do povo á do boi robusto e +válido, que uma creança dirige e subjuga? Forte como elle, como elle +docil, como elle laborioso, como elle util, não vê que a mesma fôrça que +emprega no trabalho lhe poderia servir para repellir o jugo. Ou quando o +vê, é quando o desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas +tremendas. + +Mas o povo de Pinchões, o povo do sr. Joãozinho, estava muito longe +d'esses excessos. + +O morgado vinha, como já disse, á frente. + +A barba por fazer, as melenas despenteadas, o lenço do pescoço sôlto, +sem botões o collarinho da camisa, com as mãos mettidas no cós das +ceroulas, o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas +até o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bôca, o palito atraz da +orelha, o chapéo sobre o occiput, dois galgos adeante de si, e o +inseparavel Cosme quasi _à latere_. Entrou no adro com ares +triumphantes, sorrindo e piscando os olhos para os seus amigos e +partidarios, como para lhes fazer notar a numerosa procissão que o +seguia e a docilidade dos membros d'ella. + +Atraz vinham os eleitores de Pinchões, velhos e moços, ricos e pobres, +mas todos com o olhar timido e estupido, todos com movimentos enleados, +todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle +parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com elle; a direcção que +tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo, +segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se +praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou á porta da igreja. + +O morgado passou revista á sua tropa, á qual deu instrucções. + +Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braços estendidos e +a cabeça baixa, não ousavam fazer um movimento, e conservaram-se +enfileirados até nova ordem do sr. Joãozinho. + +Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem. + +No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel almaço +dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de um homem que elles +nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um d'elles, +chamado pela voz do escrutinador eleitoral, responderia: «presente»; +approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle +papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um pêso que o +opprimia. + +Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto +que acabavam de executar, não saberiam dizel-o; se lhes perguntassem o +nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das suas +liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a resignação do +direito de votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem +que n'aquelle dia estavam nas suas mãos e dos seus pares os destinos do +paiz, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiança +propria dos ignorantes. + +Innocente povo! + +Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómmodo degrau. + +Quando disseram ao sr. Joãozinho que já tinha passado a sua vez de +votar, o homem rompeu pela igreja dentro, berrando, bracejando, +ameaçando céos e terra, sem attender a quantos lhe clamavam que tinha de +se proceder a nova chamada, e que portanto socegasse. + +O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justiças. + +Custou a serenar o morgado, e não o fez senão depois de duas pragas +contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas que razões politicas +fizeram engulir ao brazileiro, sem nem sequer lhe tirarem dos labios o +sorriso com que saudára a vinda do morgado. + +Caindo em si, o sr. Joãozinho deu ordem á sua gente para que entrasse +para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos lados d'ella, promptos á +primeira voz. + +A chamada proseguia, e a votação não ia já muito favoravel ao +conselheiro, a julgar pelos indicios, que não escapam aos olhos +amestrados dos mirones. + +O brazileiro exultava comsigo mesmo, principalmente quando, por sobre as +cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do +morgado, compactas e decididas. + +O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo +cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo +sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do +brazileiro. + +Era caso desesperado. + +Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde +estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo +eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a +nossa narração. + +Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre +os quaes o Zé P'reira. + +Com este deu-se um episodio comico, que merece menção. + +O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o +parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que +era contra a expressa determinação do artigo 61.^o, § unico, da lei +eleitoral. + +Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi +impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé +P'reira. Era uma nódoa de vinho. + +Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se +lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.^o. + +A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a +maior candura: + +--Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que +vocemecê me deu. + +O proprio conselheiro desatou a rir. + +O brazileiro resmungou: + +--Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso? + +-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir--disse o Tapadas, e +accrescentou:--ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé. + +Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista +caiu na urna. + +Estava a findar a primeira chamada. + +Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica. + +A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve +entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar. + +Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do +herbanario, cuja inicial era um V. + +Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a +actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram +affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e +paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna +para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição +inevitavelmente. + +O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se +desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento. + +O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario. + +--Vicente Rodrigues da Fragosa--disse elle, preparando-se já para voltar +o caderno. + +--Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe--disseram alguns. + +E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja +uma voz trémula, mas sonora ainda, responder: + +--Presente. + +Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra. + +Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o +velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio. + +Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo. + +Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o +herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido, +segurando a lista que vinha lançar na urna. + +Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor, +perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do +tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do +caminho com respeito, senão com supersticioso terror. + +Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som +dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja. + +O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do +herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia, +parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade +politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição +de um espectro, que devia perseguil-o no futuro. + +Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam +approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura. + +Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um +pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um +pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne. + +O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão +em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao +encontro, dizendo commovido: + +--Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!... + +O velho fez um gesto energico para afastal-o de si. + +--Arreda-te!--disse com severidade--deixa-me, serpente, que mordes a mão +do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia, +quando estiver a expirar! + +O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas +palavras. + +--Ó tio Vicente!...--exclamou, ajuntando as mãos--pois eu que lhe fiz? + +--Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar +contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle +a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso: +eu não o quero para mim. + +E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro, +que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe: + +--Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente. + +O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna. + +Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela +assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava +approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim +estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido. + +--Manoel,--disse-lhe o velho em voz sumida--não me cegava tanto o +resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo. + +--E sel-o-has sempre, Vicente. + +--Sempre que o seja... por pouco tempo será--respondeu o velho, sorrindo +tristemente. + +--Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes? + +--Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e +outros mais. + +A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia +luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na +garganta. + +--Já não posso...--murmurou elle.--Queria dizer-te... + +E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda: + +--Era... d'este... Elle é... elle está... + +Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes, +ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra. + +Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras +morto, quando o fôram a erguer. + +O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o +adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o. +Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um +agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro. + +Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis. + +Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver. + +Os indifferentes voltaram a continuar a eleição. + +Ia principiar a segunda chamada. + +O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava +desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja. + +O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo, +acharam-se sós junto do cadaver. + +A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens +precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em +que o conselheiro esteve só com Augusto. + +N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao +resentimento. + +--Augusto--disse elle a meia voz--a morte não deixou este infeliz +completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu +adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo. + +E, dizendo isto, estendia-lhe a mão. + +Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida: + +--A mão que v. ex.^a me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as +injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso. +Desde que uma vez v. ex.^a formulou a accusação e se fez juiz, prefiro, +a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico +mais em paz com o meu orgulho. + +A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo. + +Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver. + +Augusto acompanhou a casa o herbanario. + +O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco +disposto a permanecer alli. + +--Fique se quizer--disse elle para Henrique.--Não estou em estado de +receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a +mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar +esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande +novidade. Adeus. + +E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro. + +Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias +circumstancias que a acompanharam. + +Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou +ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára. + +A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da +vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina +alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava +exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das +suas previsões, infelizmente realisadas. + +Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira, +o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito +pela derrota que se lhe preparava na urna. + +Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação +era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir. + +Assim, por exemplo, dizia elle á filha: + +--Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma +vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer; +a vida politica ia-me cançando já. + +Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal +simulada satisfação! + +Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem +estas exterioridades lhe permittia já. + +Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de +votos. + +Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só +pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de +uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella. + +Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos +afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos +tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram +preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a +ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões +ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos +sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão +intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada +individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o +effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a +todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da +sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a +ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e +comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas +exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta +d'ellas. + +O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava +preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que +esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de +que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma +grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento +prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a +tranquillidade da certeza. + +É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um +desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como +as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os +ramos cortados? + +O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos, +passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de +vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e +melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano. + +Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando +viesse, feril-o-ia como imprevista. + +Sempre assim succede. + +No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções +por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes. + +O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido. + +Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo +bateram precipitados. + +A causa estava, emfim, decidida. + +A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do +vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle? + +O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um +sorriso amargo, disse para a familia: + +--Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios! + +--Quem sabe, mano? Ás vezes... + +Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando +Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou: + +--Ahi vem um homem a correr a toda a pressa! + +--A correr?!--disse o conselheiro, em quem esta simples noticia +infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das +pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella. + +As senhoras seguiram-n'o alli. + +O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os +silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro. + +--Parece o Domingos, o criado do Tapadas...--disse o conselheiro, +affirmando-se. + +--Mas que pressa elle traz!--notou D. Victoria. + +--Já nos viu--disse Angelo. + +--Lá acenou com o chapéo--exclamaram todos. + +--Que quer elle dizer com aquelles signaes?--tornou o conselheiro, +nervoso. + +--Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano. + +--Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É +boa!--disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer +que lhe descubram uma esperança. + +Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia +n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros. + +Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir +alli. Mal se respirava. + +--Eil-o--disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle +appareceu. + +--Viva! sr. conselheiro, viva!--bradou elle de lá, apesar de esfalfado. + +O conselheiro teve quasi uma vertigem. + +--Elle que diz?... Como pode... + +Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com +frenetico enthusiasmo. + +Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae +desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e +celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião +da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um +partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o +ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos +momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a +commoção que esta produz, se se realisa. + +O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava: + +--Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano... + +Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez +a sair d'ella. + +Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto. + +O conselheiro interrogou o. + +--Então que dizes tu? Que vivas são esses? + +--Digo que vencemos--respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na +primeira pessoa do plural. + +--Estás a sonhar? + +-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para +lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.^ê... tinha v. s.^a mais +cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por +junto. No caminho ouvi a girandola... + +--Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser! + +--Cento e cinco! + +--Estás bem certo no que te disse teu amo? + +--Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo. + +O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel +aquillo que lhe annunciavam. + +Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para +ir por seus proprios olhos averiguar do facto. + +Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira +nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares +com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre +Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca! + +O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram +estrondosas. + +A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime. + +O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação. + +Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes +eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa. + +--Que quer dizer isto?--perguntou o conselheiro, abraçando-os. + +--Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem +menos--respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas. + +--Cento e trinta e cinco--repetiu o Pertunhas. + +--Mas d'onde vieram! + +--Ora essa é boa! De Pinchões. + +--De Pinchões--repetiu o Pertunhas. + +--Como?... Pois o morgado?... + +--Votou comnosco como um homem. Ora pudéra! + +--É verdade... votou... comnosco--dizia mestre Pertunhas. + +--Mas não se viu ainda ha pouco... + +--Que estavam com metralha inimiga?--concluiu o Tapadas.--Que tem lá +isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um +destrôço! Parece a loja de um farrapeiro. + +--Mas explica-me isso, Tapadas. + +--Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda +que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao +morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente +expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que +se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me +metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse +e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada +ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um +momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se +põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda. +Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a +urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a +vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é +que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás +cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no +fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra +o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á +girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles, +pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto! + +E o Tapadas terminou com outra gargalhada. + +O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe +as costas, dizendo: + +--Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se. + +E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que +estavam proximos: + +--Este Tapadas tem cada graça! + +Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario. +Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com +exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o +elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito +calculam. + +As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as +suas demonstrações de alegria. + +O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e +das festas populares que se faziam no pateo. + + + + +XXXI + + +A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, não só pela +qualidade de homem que era aquelle, como pelas circumstancias, no meio +das quaes o facto succedêra. + +O resultado da eleição, comquanto momentoso, não distraía do assumpto as +attenções; pois que, tendo sido successos simultaneos, associavam-se +naturalmente nas conversas e discussões, e um chamava o outro. + +O herbanario não fôra colhido desprevenidamente pela morte; havia muito +tempo que fizera as suas disposições e por ellas legára a Augusto tudo +quanto possuia, isto é, alguns livros, entre os quaes a _Polyanthea_, e +o preço, quasi intacto, que recebêra pela casa expropriada. + +Logo que estas disposições fôram sabidas, não faltou quem achasse +n'ellas a explicação da amizade desvelada com que Augusto sempre tratára +o velho, e do piedoso acatamento com que o recebêra em casa, assim que +da sua o expelliram. + +Nós que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos julgar a fundo +do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos taes juizos. + +É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no +desinteresse dos outros! + +Não ha explicação mais difficil de ser recebida do que a que se +fundamenta n'um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade. + +É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim desconfiarmos do +proximo. Porque a final o que é verdade é que a mais exacta e infallivel +sciencia do coração humano só se adquire pelo estudo do proprio coração: +esse é o unico que nos está bem patente. É por isso que as melhores +almas são de ordinario as mais crentes. + +Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as +apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado +o coração como suppõe o dos outros. + +O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi +muito concorrido. + +Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinação do fallecido, em campa +rasa, e não no tumulo da familia do Mosteiro, como o conselheiro +desejára. + +Tudo se passou sem o menor signal de opposição. + +Não se explicam bem estas versatilidades da opinião publica. Uma medida +que hoje ateia uma revolução, ámanhã executa-se no meio do +indifferentismo geral, e sem apostolado prévio, sem providencias +repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao +legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia +das leis naturaes. + +O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do +herbanario, e receberam as visitas de pêsames, que em parte eram tambem +de parabens pelo exito do suffragio popular. + +Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam na +igreja matriz as badaladas das Avé-Marias, Augusto entrou no cemiterio, +já deserto, e approximou-se lentamente da sepultura, inda coberta de +pouco, como o denunciava a terra revolvida. + +Elle, cujo coração era decerto o que a morte do herbanario mais +dolorosamente ferira, não recebêra pêsames de ninguem. Passára a tarde +só com o seu pensamento, o qual, como o leitor prevê, lhe não devia ser +muito jovial companheiro. + +Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado +pelo ar abatido, revelador de uma profunda prostração de animo, que lhe +quebrára as fôrças. + +Que era feito d'aquella energia, com que se revoltára contra as +perseguições da sorte, e que lhe animára os primeiros passos para obter +a justificação devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem +mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir +nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe +perdão; vimol-o recusar o auxilio que este já lhe offerecia, e +considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da +sua innocencia. + +Que é feito d'essa energia? + +O que é feito d'ella? leitor, talvez o teu coração te possa responder +por mim, se és uma d'essas victimas, para quem a sorte parece +personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios +lentos. + +Quando, uns após outros, se repetem os golpes da adversidade, quando +todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldição de +Deus, é raro encontrar-se têmpera de alma tão rija que resista e não +ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta +com um poder superior. + +A razão mais clara deixa-se tomar então da cegueira do fatalismo, e +eivado d'esta grave doença dissipa-se a fortaleza do espirito, como se +extinguem as fôrças do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador. + +Então encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a que é tão +sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gôso em succumbir sem +lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema +infelicidade. + +Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provações da vida: a miseria +em perspectiva, a ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que +ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade +o insulto e a calumnia: sorrira á miseria e á ingratidão, e dera á +amizade as consolações que a amizade lhe inspirára. + +Mas não desfallecêra com tudo isto. + +Maior provação lhe estava reservada, porque ha maiores provações para a +alma humana, do que todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de +subito a estrella que a guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia, +dormindo no meio de uma desencantada realidade; privae-a da ideia +querida, que havia muito concebêra, que comsigo vivia, que para si +guardava, ciosa dos olhares extranhos, e vêl-a-heis desnorteada, +perdida, louca, contorcer-se em desespero e succumbir. + +Se resiste e sobrevive, se não desfallece, nem vacilla, é porque é de +essencia mais elevada do que a humana. + +Ás vezes aquella ideia era tão irrealisavel, aquelle sonho tão +chimerico, que a pobre devia estar prevenida para o perder um dia, e +julgou que o estava. + +Mas illudira-se. Se nos dermos de coração a uma chimera, se ella, nas +fórmas vagas e aereas que reveste, nos sorrir e namorar, em vão julgamos +têl-a por o que verdadeiramente é; ha sempre um ou outro momento em que +a acreditamos realisavel e até realisada. + +E, ao convencermo-nos devéras da sua impossibilidade, sentimos a dor +profunda que nos causa a perda de um objecto querido. + +Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes +vestiam a fórma humana, assim o impossivel, quando nos apaixonamos +d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a feição da realidade aos nossos +olhos namorados. + +E ao revelar-se como impossivel, destróe o coração que o abraça, como +Jupiter sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua +gloria de deus. + +Qual fôsse a ideia constante, o pensamento recatado de Augusto, +sabem-n'o os leitores: era o amor de Magdalena. A natureza d'esta paixão +dizia elle conhecel-a. Não tinha outra aspiração além de existir, era +como o culto pela Virgem do Christianismo, era que se adora por adorar, +em que na mesma adoração se acha o premio do culto, em que o deixar-se +adorar é o mais que pode pedir-se ao objecto d'elle. + +De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto. + +Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique, +sentiu quasi aversão para elle? por que foi que, amavel e bondoso para +com todos, só para com um desconhecido se mostrou frio e irritante? por +que foi emfim que, ao persuadir-se, por certos indicios, de que +Magdalena e Henrique se amavam, caiu no desalento, em que tantas causas +de infortunio o não tinham lançado ainda? Porque a verdade era que foi +este o golpe que o venceu. + +Por quê? porque amava Magdalena, porque este amor não tinha nada +excepcional; era inconscientemente apprehensivo, ambicioso, devaneador e +ciumento, como todos os amores verdadeiros; porque era aquelle o seu +sonho mais querido, e desde que era obrigado a convencer-se de que não +passára de um sonho, não se sentia de animo para fitar a realidade; +porque era aquella a luz da sua alma, e ao vêl-a apagar, vacillou nas +trevas e parou. Desde que não avistava um alvo, não havia para elle +retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que não valia mais +do que a quietação. + +Esta fôra a causa do desalento de Augusto, que só então conheceu que se +illudira com o estado do seu coração, que o que em si se passava era o +verdadeiro amor. + +Desde que teve de renunciar a elle, não fez mais um esforço para +justificar-se da calumnia que pesava sobre si. Sentia-se indifferente á +condemnação do mundo. Já nem lhe importava justificar-se para com +Magdalena; era quasi uma vingança, que tirava d'aquella por quem +soffria, obrigal-a a ser injusta. + +E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto! + +O herbanario fôra victima da mesma illusão de Augusto, e concorrêra +involuntariamente para o levar a este estado moral. + +Das explicações dadas por Magdalena na casa dos Cannaviaes, sabemos como +das meias palavras e meias revelações de Torquato, o herbanario +acreditára que a morgadinha combinára imprudentemente com Henrique uma +visita nocturna á quinta dos Cannaviaes. O velho, que suspeitára sempre +da natureza dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vêr +n'aquillo a confirmação das suas suspeitas, e encontrando Magdalena, +reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a quiz. + +Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dúvida, se deveria +ou não revelar tudo a Augusto. + +A noite cerrou de todo e deslizou com a lentidão de uma noite de +inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia seguinte +passou-o na mesma indecisão. Mas a inquietação do herbanario crescia; +desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha exposta Magdalena, cuja +confiança em Henrique a podia perder. + +O herbanario continuava a desconfiar de Henrique. + +Chegára a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com uma das +meninas de visitar á meia noite, por causa de Henrique, a casa dos +Cannaviaes. O velho não pôde mais tempo conter-se e disse a Augusto, +depois de muito luctar comsigo: + +--Não devo calar-me. É preciso coragem, meu filho. Arranca do coração a +loucura que lá tens ainda, embora o deixes em sangue, ou estás perdido. + +Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto. + +O velho proseguiu: + +--Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que +vires te não curar, se é sem remedio esse mal, ao menos sê generoso, e +acode e salva, se fôr possivel, quem, perdendo-te, se perde tambem. + +E após estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto tremeu de +investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma noite, +recommendando-lhe que fôsse preparado para receber uma grande dor. + +Augusto seguiu as indicações do herbanario, e foi. + +Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da +piedosa devoção de Christina, a vimos chegar á janella dos Cannaviaes. + +A morgadinha reconhecêra Augusto através das sombras nocturnas, e tivera +um presentimento do que significava a presença d'elle n'aquelle logar e +n'aquella occasião. + +Por concentrada e discreta que fôsse a paixão de Augusto, não era um +mysterio para Magdalena. + +A extranhar alguem esta penetração de vista não será decerto nenhuma das +minhas leitoras. + +Magdalena adivinhára havia muito Augusto, e não lhe fôra difficil +explicar até a instinctiva hostilidade com que elle sempre acolhêra +Henrique. + +Por isso, ao vêl-o alli, previu que pesava sôbre ella uma suspeita, que +era victima de uma illusão, e que as apparencias a podiam condemnar. + +De feito Augusto chegára tarde aos Cannaviaes, porque só tarde o +herbanario vencêra a hesitação que experimentára ao dizer-lhe que fôsse. +Por isso só pôde reconhecer a voz e a figura da morgadinha e de Henrique +no curto dialogo, que entre os dois se trocára, quando vieram examinar á +janella o estado da noite. + +As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas de uma maneira +cruel para o seu coração. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais querer +vêr nem ouvir, retirou-se como um louco. + +Foi n'essa occasião que Magdalena o viu. + +Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava, +viu-o pallido, e com uma expressão singular no rosto. + +--Então?--interrogou-o anciosamente o velho. + +--Tinha razão, tio Vicente. Tem sido uma longa e má loucura a minha. +Verei se me curo d'ella. + +E, sentando-se, encostou a cabeça ás mãos e permaneceu silencioso. + +O velho não lhe perguntou o que se tinha passado. + +D'ahi em deante foi em rapido progresso a prostração de animo em +Augusto. + +A doença do herbanario que se exacerbou consideravelmente tambem, era o +unico motivo de uma fôrça ficticia que ainda o sustentava. Os seus +desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes. + +A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a do +cirurgião que tratava do herbanario. + +Falador por indole e por cálculo profissional, o facultativo contava á +cabeceira do leito as novidades do dia. Entre essas trouxe uma das que +mais vogavam, que era a de que Henrique casava no Mosteiro com a +morgadinha. + +Um equivoco dizer do Torquato, na presença dos criados do mosteiro, uma +das meias discreções do velho, mais perigosas do que a propria +indiscreção originára esta versão. + +Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, que +o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto impassivel. + +No dia das eleições, o estado do velho Vicente era mais grave ainda. O +cirurgião prolongou a sua visita e falou da campanha eleitoral. +Assegurou que era certa a derrota do conselheiro, desde que contra elle +se manifestára o sr. Joãozinho das Perdizes. + +O herbanario escutou-o com admiração e sobresalto. + +Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma +predilecção que a tudo sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o +affecto que alguns paes sentem pelos filhos, de quem só teem recebido +desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais +motivos ha para a esfriar. + +Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo. + +Foi então que o herbanario, dominado por energia febril, quiz erguer-se +do leito, e, apoiado no braço de Augusto, que em vão tentou dissuadil-o, +se dirigiu á igreja para votar. O resultado sabem-n'o os leitores. + +Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar o +alento a Augusto. Facil é, pois, de conceber qual o estado do seu +espirito ao entrar no cemiterio. + +Oração ou meditação, por muito tempo durou aquelle tributo de saudade, +que o aspecto sombrio da tarde e a melancolia do logar e da hora mais +solemne faziam. + +Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava +d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do +tumulo da filha. + +Não era o Cancella já o mesmo robusto e alegre aldeão que vimos, +dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado rustico, representar com +applauso o tyranno perseguidor do Messias. Desde a morte da filha +parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, nem tinha fôrças para o +trabalho, nem coração para alegrias. + +Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o que +se movia alli. + +--Ah! logo vi que era o sr. Augusto--disse o pobre homem, estendendo a +mão, que Augusto apertou com affecto.--Só nós temos amigos aqui. + +--É verdade, Cancella. Ou só nós, fóra d'aqui, não temos outros, pelos +quaes esqueçamos estes, que ahi dormem. + +--Eu decerto que não! Está-me toda a alegria, está-me todo o coração +debaixo d'aquella pedra--disse o Herodes, apontando para o tumulo da +filha.--Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar? + +--Ha quem aos vinte já não tenha coragem para principiar outra! + +O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras. + +--Fala de si, sr. Augusto?... Não tem razão. Que são as suas dores ao +lado da minha? Se ainda não experimentou o amor e as alegrias de pae, +como ha de imaginar a dor, que a morte de uma filha unica nos traz ao +coração?... A minha pobre Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o +têl-a perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com razão, que +era seu amigo e quasi um pae para si... mas não é sem remedio a sua +saudade, verá... A minha porém... + +Augusto sorriu amargamente. + +--Tu sabes lá, homem, o que eu tenho no coração? + +N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de +acclamações e applausos. Eram os clamores dos grupos populares, +celebrando a victoria do conselheiro. + +Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais. + +--Uns riem, emquanto outros choram--disse o Cancella.--Ha alegria acolá. + +E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli. + +--Ha...--respondeu Augusto, pensativo.--Somos de mais n'esta terra, meu +pobre Cancella; nós, os infelizes. + +--Por isso parto ámanhã. + +--Partes? + +--Se eu não posso viver aqui! Se tudo isto me está falando na filha!... +A cada passo estou á espera de vêl-a... É como se a todo o instante me +morresse. Vou para a cidade; dizem que estão engajando por lá +trabalhadores para o Brazil... Quero vêr se o trabalho me mata, antes +que o desgôsto me não tente a morrer de outra sorte. + +--E dizes que partes ámanhã? + +--De madrugada. Já tenho tudo prompto. + +Augusto reflectiu por algum tempo. + +--Far-te-hei companhia. + +O Herodes olhou-o, admirado. + +--O sr. Augusto?! Pois quer?... + +--Quero que me batas á porta, quando passares. + +--Mas que tenções são as suas, sr. Augusto? + +--As mesmas talvez que as tuas. Não dizes,que queres vêr se o trabalho +te mata? Por que não hei de eu tentar o mesmo tambem? + +--Mas... não lhe morreu uma filha. + +--E cuidas tu que só um amor de filha nos pode prender á vida? que só a +morte de uma creança nos pode ferir no coração?... + +O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois +disse, com hesitação ainda: + +--Não é por certo a morte d'este santo velho que o faz falar assim, sr. +Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez que lhe fizesse bem. +Bem vê que eu sou infeliz e... havia de entendel-o... + +Augusto apertou-lhe a mão, commovido. + +--Pobre amigo! Não, não me entenderias; porque não basta ser infeliz +para me entender. É necessario ter sido louco como eu fui. + +--Louco?!... + +--Sim, louco, meu bom Cancella, louco. Não te lembras d'aquelle +desgraçado do Pé do Monte, que se suppunha rei? Como ria n'aquelle +tempo! Um dia voltou-lhe o juizo, mas ficou tão triste até morrer, que +parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe devesse os unicos +instantes de felicidade que sentiu na vida. + +O Herodes já não comprehendia Augusto, o que lhe fez crêr que o não +entenderia se elle o tomasse por confidente. + +Augusto mudou de tom, dizendo-lhe: + +--Promettes passar por minha casa esta madrugada? + +--Pois sempre quer?... + +--Se não partir comtigo, partirei só. + +--N'esse caso... + +--Espero-te. Aonde vaes agora? + +--Ao Mosteiro. + +--Ah!... vaes ao Mosteiro?... + +--Vou despedir-me d'aquella santa familia, que tão bem me tratou da +filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se não +consolou tambem da morte da minha pobre Linda. + +--Angelo?... É um nobre coração... Espera... Não quero partir sem lhe +dirigir algumas palavras... Devo-lh'as. + +--Só a elle? + +--Só elle m'as agradecerá. + +E Augusto approximou-se do tumulo da mãe de Magdalena, e á frouxa +claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em um quarto de papel +estas palavras: + + + «Angelo.--Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que repousam sua + mãe e Ermelinda, duas imagens que serão sempre para o seu coração + rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ouça-me, que em nome + d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre + estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as + sombras de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem + custo. Não o tornando talvez a vêr, Angelo, tinha um dever a + cumprir para com a sua generosidade. Hão de ensinal-o a + desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creança + recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razão do + adolescente talvez venha a ser mais docil. Não podendo + justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a + consciencia tranquilla. Não é por mim que faço este protesto, é + para lhe evitar, se fôr possivel, a dúvida no caracter dos homens. + Para um coração, como eu lhe conheço, deve ser um martyrio. Os mais + que me condemnem; nem necessidade sinto já de me justificar. Parto + com um desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo + acceito com indifferença.--Seu amigo, _Augusto_. + + +Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a +que deviam encontrar-se, separaram-se. + +O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que +ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento. + +Não pôde, porém, chegar tão depressa ao Mosteiro como esperava; +distrahiu-o no caminho o seu compadre Zé P'reira. + +A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso +Zé P'reira, estava cada vez mais transtornada. + +A beatice azedára o animo da sr.^a Catharina do Nascimento de S. João +Baptista. + +A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro na terra +depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle +imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle santo varão do +prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoção +pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia. + +Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Zé +P'reira, peor se tornou depois d'essa época. + +A mulher passava todo o tempo em devoções na igreja. O marido, +desconsolado, procurava lenitivo na taberna. + +Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado +habitual, e já menos inoffensiva e pacifica do que nos primeiros tempos. + +A miseria ameaçava invadir aquelle lar, até alli remediado. + +Tudo isto exacerbára a acrimonia das discussões conjugaes. + +Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e +attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal. + +De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais +ameaçadora. + +Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais além do que a sua +timidez habitual o permittira até alli, e a sr.^a Catharina soube, pela +primeira vez, que o osso de que ella era osso não tinha a brandura que +lhe suspeitava. + +Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhança. D'ahi por +deante fôram frequentes iguaes espectaculos. + +Na noite em que o Herodes o encontrou, o Zé P'reira, em completa +embriaguez, acabára de fazer sentir mais uma vez a sua mulher toda a +fôrça da auctoridade marital. Ella revoltou-se e abandonou os penates, +jurando que nunca mais voltaria a elles. + +O pobre do homem andava agora perdido nas ruas á procura d'ella, +arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia dó. O Cancella +condoeu-se d'elle, e dando-lhe o braço, para lhe firmar os passos +cambaleantes, conduziu-o a casa, promettendo restituir-lhe a mulher +fugida. + +E n'esta tarefa de reconciliação passou grande parte da noite, +conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de que não seria muito +duradoura a paz. + +E tinha razão o Cancella em pensar assim. Ao lar domestico, onde uma vez +se passa uma scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia. + +O pobre do Zé P'reira estava condemnado a levar assim o resto da sua +vida de familia. + +Esta occorrencia demorou o Herodes, que só tarde entrou no Mosteiro a +despedir-se da familia que tanto lhe estimára a filha. + + + + +XXXII + + +Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada á +insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na aldeia, não porque +os preparativos da jornada lhe impedissem o repouso, mas a lucta de +tantos pensamentos e paixões encontradas, decerto lhe disputaria o +espirito. + +Partir é já uma palavra, que quasi nunca se pronuncia com indifferença; +partir para não voltar é uma ideia afflictiva, que mais violenta +commoção desafia; partir sem esperanças no futuro... poucas torturas de +alma se podem comparar a esta! + +Experimentava-a Augusto. + +Era quasi uma resolução de suicida a sua. Nenhuma ambição tivera poder +sobre elle para o arrancar d'alli; tivera-o o desespero. + +A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os +olhos fitos na chamma da véla, com a cabeça entre as mãos, sem saber em +que pensava, sem consciencia de si. + +A noite estava socegada, e apenas o som monótono de uma fonte proxima +interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas. + +Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se +costuma ler em situações identicas. + +Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os +seus movimentos uma indecisão, uma falta de consciencia, que não deixava +dúvidas sobre o estado do animo que os regia. + +Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as suas +acções; e no meio do cumprimento de uma tenção, perdia a consciencia +d'ella. + +Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria +comsigo; mas cêdo afastava-o de si com enfado. + +Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de +passados devaneios, effusão de uma alma sensivel, fructos da juventude e +da solidão, a que a primeira inspirára o enthusiasmo, e a segunda a +melancolia, tudo consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a +chamma, desapparecerem as lettras, reduzir-se tudo a cinzas. + +Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em +algumas de Magdalena. O sobresalto do seu coração, ao ler aquelle nome, +era então mais violento que nunca. + +N'estas pesquizas veio-lhe ás mãos um pequeno masso, que pertencêra ao +herbanario. + +Ia para as queimar tambem, quando a inscripção, que viu por fóra da +cinta que as enfeixava, o fez hesitar. + +Liam-se estas palavras:--_Cartas de Magdalena_. + +Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma +tentação. + +Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que já tinha +renunciado; era entrar em communhão de pensamentos com ella, e infeliz +de quem não concebe a casta voluptuosidade d'este gôso. + +Mas ao mesmo tempo hesitava. + +Pertencia-lhe tambem aquelle legado? Não seria um abuso lel-as? Devia +antes queimal-as, mas... eram cartas de Magdalena. E depois, que mal +poderia vir da indiscreção? Não tinha elle um coração que não devia +abrir-se mais a ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o +quasi em um tumulo. + +E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente? + +De que se poderia tratar alli, a não ser de algum affectuoso cumprimento +da morgadinha ao velho, que sempre tratára com intima familiaridade, ou +algumas meigas reprehensões por a sua porfiada ausencia do Mosteiro? + +Augusto recordava-se até do velho lhe ter falado na indole d'estas +cartas. + +Nas vesperas de renunciar para sempre á felicidade, devia-se perdoar a +tentação. + +Abriu-as. + +Não ia muito adeantado na leitura, quando já todos os signaes de +hesitação cediam o logar aos da mais irreprimivel avidez. E terminada a +primeira, abriu, leu ou devorou outra, e após outra e outra, até a +ultima; da ultima voltava de novo á primeira, e cada vez mais profunda +commoção parecia dominal-o. + +Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de +todas. + +Dizia uma: + + + «Meu bom amigo.--Hontem, depois que nos separámos, recebi de Lisboa + a encommenda que esperava. O Angelo não se esqueceu. Mando-lh'a, + para que mais uma vez faça de feiticeiro, _adivinhando_ os gostos + do seu amigo. + + «Afianço-lhe que vae acertar com os desejos d'elle. Ha tempos que o + vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, procurar de + preferencia na estante os livros de historia franceza. Custa-me a + perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a Revolução, mas emfim + seja feita a sua vontade. Escuso de lhe recommendar discreção. E, + quando nos virmos, peço-lhe que me não torne a falar nos laços em + que diz que eu estou a prender o coração. Mette-me mêdo.--Sua + amiga, _Lena_.» + + +Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam: + + + «Meu amigo.--Hontem separámo-nos de tão mau humor, que hoje acordei + com remorsos, e não pude socegar emquanto lhe não escrevi para lhe + pedir perdão. Espero que perdoará a este rebelde genio que tenho. + + «Mas tambem para que me está sempre a ralhar? Não se assuste pelo + meu coração; o maior perigo que o tio Vicente receia para elle, + faz-me sorrir.--É o de me apaixonar?--Então que tinha? Não sonhe + com nuvens, e vá representando o seu papel de _adivinho_, que é uma + generosa acção que pratica.--Sua arrependida inimiga, _Lena_.» + + + «Meu bom tio.--Ahi vão uns livros, de que eu não entendo nada. + Augusto falou d'elles ao filho do administrador, que veio de + Coimbra. Conheci n'elle desejos de possuil-os. Tomei nota. O Angelo + remetteu-m'os hontem. Para Augusto não desconfiar, finja atraiçoar + um pouco o mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, já + nada digo.» + + +A de mais recente data dizia apenas: + + + «Tio Vicente.--Pensei no que me disse do estado do coração do + seu... do nosso amigo. Parece-me que exaggera. Mas, se fôsse + verdade, podia tranquillisar-se. Eu lhe afianço que d'ahi nunca + para elle virá a infelicidade. No entretanto, discreção por + ora.--Sua affeiçoada sobrinha, _Magdalena_.» + + +Por a amostra, que lhe damos, o leitor não deve estranhar que estas +cartas estivessem causando a Augusto o effeito que dissemos. + +Cada uma era uma revelação. + +Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha; +d'ella lhe viera pois grande parte da instrucção que recebera, alli, na +solidão d'aquella aldeia! + +O mysterio dos presentes do herbanario, a que tão diversas explicações +dera, esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; suspeitára, +pelo menos, que era a elle que o herbanario se dirigia para escolher os +livros. + +Nunca, porém, se lembrára de Magdalena; agora, que sabia de que origem +provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, venerava-os com +expansões de verdadeira idolatria. Já não tinha coração para se separar +d'elles. + +Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos +cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella +por Augusto, não havia para elle menor encanto. Pelo que tantas vezes +lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza deviam ser as +reflexões a que Magdalena alludia. + +O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois +corações, estudando-os a ambos, receiando por ambos, lidando por +extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer e que ameaçava +degenerar em paixão. Toda a sua intervenção consistia em fazer com que +elles se não revelassem; era o meio isolador que impedia que se ateasse +o incendio. Nas suas mãos paravam os dois fios da corrente, só elle a +interrompia. + +Esta situação do herbanario era para elle causa de grandes iuctas. + +Amando Augusto com sentimento paterno, tinha ambições por o amigo; e, ás +vezes, movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella paixão. Por +outro lado, não estimava menos Magdalena, e prevendo as resistencias e +repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos a soffrer, +hesitava e desejava poder abafar no coração dos dois os germens de +pesares futuros. + +Tivemos occasião de o vêr sob estas diversos impressões. Umas vezes +reprehendendo Augusto, outras quasi deixando-lhe entrever esperanças. A +chegada de Henrique de Souzellas e os successos subsequentes despertaram +no velho uma especie de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de +Augusto. + +Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto. + +Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao coração, e tão +enlevado estava pelo perfume do affecto que rescendia de todas, que nem +se lembrava já da hora proxima da partida do motivo que a originára. +Motivo que era o desmentido da sua illusão. + +Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impressão que produziu foi +dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as lagrimas aos +olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os braços, e assim +permaneceu por muito tempo. + +Depois levantou a cabeça n'um impeto de desesperação, exclamando: + +--Para que me haviam de vir á mão estas cartas? Que espirito diabolico +se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um anjo me acompanhava com +a sua vista protectora só quando elle me vae deixar para sempre! E dizia +ella que me não podia vir o infortunio d'aqui!... Não contava com as +mudanças do proprio coração. + +Na vidraça da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram algumas +leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer. + +--O Cancella já?... É pois certo que vou partir? + +Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe como os do condemnado +ao caminhar para o supplicio. + +Chegára o momento de romper com todas as esperanças. + +--Estou prompto--disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, sem +reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis que +tinha dispersos na mesa. + +--Cuidei que era mais cêdo--continuou elle.--Distrahi-me a ler umas +cartas que estive a pôr em ordem, e o tempo correu. Vamos lá, meu pobre +amigo, deixemos esta terra para os venturosos. + +E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia +estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e +Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico +sorriso. + +Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito em +Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda contemplação. + +Magdalena foi a primeira que falou. + +--Admira-se de nos vêr aqui?--disse ella.--Que ha de mais natural? +Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o mesmo +pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe +deviamos... visto que vae partir. + +E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de +recriminação, que feriu Augusto. + +--E é certo que quer partir?--perguntou Angelo. + +--Sim... parto...--respondeu Augusto, perturbado. + +--Mas por quê? Que significa essa resolução? Lena contou-me ha pouco +tudo. Eu nada sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame, +e em nossa casa! Mas, já resolvemos; ámanhã, eu e Lena, havemos de +falar, havemos de conseguir... + +--Não, Angelo. É inutil. Deixe-me com o meu destino. É a elle que eu +obedeço. + +--Não fala verdade,--acudiu a morgadinha--diga que obedece á sua +phantasia, e commette uma ingratidão. + +Á palavra «ingratidão», Augusto não pôde reprimir um sorriso de +amargura. + +--Uma ingratidão, sim--repetiu Magdalena, respondendo com firmeza e +serenidade áquelle sorriso.--Ha dias, depois de uma scena dolorosa para +todos nós, quando saía do Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel +fatalidade, encontrou alguem no limiar da porta, que lhe pediu que não +partisse sem se despedir... de quem através de tudo, o acreditaria +innocente. E para esta pessoa não houve uma só palavra na carta de +despedida que mandou a meu irmão! E escreveu-a sobre o tumulo de minha +mãe! + +Estas palavras fôram ditas com tão sentida commoção, que Augusto esteve +quasi a lançar-se-lhe aos pés, para pedir perdão; reteve-se, porém, e +respondeu turbamente: + +--Porém, minha senhora, por essa occasião eu jurei tambem á pessoa de +quem fala, e a quem serei sempre grato, que não procuraria tornar a +vêl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de todos digno +da sua generosa confiança. + +--Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser visto?--perguntou +Magdalena, sorrindo.--Veja qual d'esses juramentos será mais em harmonia +com os seus actos. + +A lembrança da excursão nocturna aos Cannaviaes, para espiar Magdalena, +tirou a Augusto o animo de responder. + +Magdalena comprehendeu aquelle embaraço, e não insistiu. + +--Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as provas +da sua justificação? + +--Não, minha senhora, parto, porque desisto d'ella. Basta-me estar +justificado para com a consciencia. + +--Não tem direito para o fazer. Uma alma, que é nobre, deve homenagem a +si propria. Resignar-se á suspeita, é como um suicidio moral. + +--Justamente, minha senhora; e não concebe que haja casos em que o +suicidio seja natural? + +--Meu Deus, Augusto--exclamou Angelo--como eu o estranho! o que o levou +a esse desespero? + +A morgadinha sorria, ao responder ao irmão: + +--É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale com franqueza, sr. +Augusto? Tenho um secreto presentimento a dizer-me que, apesar d'essa +descrença, apesar d'essa carta, e apesar de estar por minutos o momento +da partida, não só não partirá, mas até ha de tomar parte na nossa +primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina. + +Estas ultimas palavras fizeram impressão em Augusto, que +instinctivamente repetiu: + +--Do proximo casamento de Christina?! + +--Pois não sabia que Christina vae casar?-perguntou Magdalena com a +maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto.--É verdade, o sr. +Henrique de Souzellas teve pressa de legitimar o titulo de primos, com +que arbitrariamente nos tratavamos. + +Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expressão, dizendo: + +--Quê?... pois é com Christina... pois Henrique vae casar com... + +Só depois de lhe romperem dos labios estas palavras, é que, reconhecendo +a indiscreção da sua surpresa, accrescentou com mal simulada +indifferença: + +--Ah! não sabia! + +--Devéras? Pois não tinha ouvido falar d'este casamento? Oh... querem +vêr que suppunha tambem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque +o Cancella tambem estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na +aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n'elles! + +E, mudando de inflexão, proseguiu: + +--São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o +outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre +aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o +doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma +maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as circumstancias em que +isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na +capella-mór da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fôra +rezar, pela saude de Henrique, as estações da meia noite; onde Henrique +foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para +os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; intervenção algum tanto +perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas +intenções de que as de qualquer dos tres, e que, ao vêr-me em tão +extraordinario sitio, a taes horas, não me concedesse a confiança +precisa para acreditar, através de tudo, na minha innocencia. + +A allusão era clara, e mais clara a fazia a inflexão com que foi +pronunciada. + +Augusto curvou a cabeça e murmurou: + +--Tem razão, algum miseravel. + +--Ou algum infeliz--corrigiu delicadamente Magdalena.--Os infelizes são +tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mal isso? + +Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse +mais jovialmente: + +--Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei? + +Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha animo nem razão +para dizer que partia. Calou-se. + +Angelo, a cuja prompta intelligencia não tinha ficado latente o +verdadeiro sentido d'este dialogo, graças tambem ao conhecimento que +elle tinha, havia muito, do coração de sua irmã e do de Augusto, +respondeu por elle: + +--Não te enganaste, não, Lena. Tambem eu já digo que Augusto não +partirá. + +E Augusto sem protestar! + +Magdalena tornou-se de subito mais séria e grave do que até alli, e a +mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmão, +dizendo: + +--Para vir aqui, pedi o auxilio do teu braço de creanca, Angelo, como se +fôra o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da +mesma maneira, emquanto não termino a minha missão. Ha pouco, depois que +me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que +tencionas fazer?» Não é assim? + +--Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te +acompanhasse aqui. + +--Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo, +que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse +pensamento não está cumprido ainda. + +--Vejo que não. + +--Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom +conselheiro, é deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi +estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento. + +E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que só +um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse bastante para o denunciar: + +--Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provação, +até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que +herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. É +uma especie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por +isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo +para estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer, +as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas +sympathias podem bastar ás aspirações da sua, se, para ganhar coragem, +os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... +e dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta confissão, Angelo. +Terás que me ralhar por causa d'ella? + +Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação, e tomando +entre as suas a mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos +apaixonados. + +Magdalena não teve pressa de retiral-a. + +Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que respondia á +pergunta d'ella. + +Pobres creanças! Porque a final eram creanças todos tres, creanças a +quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao +transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só +regando-os de lagrimas é que as mais das vezes se consegue nutril-os. + +O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria. + +--Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas. +Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que +tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar as provas da minha +innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois... + +Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o +rosto. + +Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu: + +--E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. Bem vê que, +depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu +coração, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a +mão, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a +seguir o caminho do Mosteiro. + +Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com +firmeza: + +--Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever. + +Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só. + +O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão +inesperada companhia, mas não lhe foi difficil, depois do que viu e +ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de +resolução o seu companheiro de jornada. + +Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos. + +Estes não conseguiram dissuadil-o de partir. + +Não havia já estimulo para arrancar aquelle coração ao desalento. + +Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro. + +O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão violentas +paixões, que desisto de descrevel-as. + + + + +XXXIII + + +Na manhã do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, na qual +incluimos já D. Dorothéa e Henrique, reunida em uma das salas do +Mosteiro. + +As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e +Henrique jogavam o xadrez; D. Dorothéa e D. Victoria conversavam a +respeito do preço de umas meadas de linho, que esta tinha dado a córar, +e da pessima qualidade do fiado, effeito evidente, segundo D. Victoria, +das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro +examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que recebera, +já a pedir empregos e graças em paga dos serviços eleitoraes, ás vezes +hypotheticos. + +A cada passo, porém, Magdalena suspendia o trabalho, para olhar para a +porta da sala, principalmente quando nos immediatos aposentos se +escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que não com menor +frequencia os desviava das pedras do taboleiro para encontrar os da +irmã. + +Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, e +esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os olhos +da costura. + +D. Victoria e D. Dorothéa não era raro metterem-se na conversa dos +outros, d'onde facil transição achavam logo para voltarem aos seus +assumptos favoritos: meadas e criados. + +O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia +notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que examinava. + +Era evidente que todas aquellas cabeças estavam pouco preoccupadas com +os assumptos apparentes das suas cogitações. + +--Ó Lena!--dizia Christina, que pela terceira vez chamava a prima, sem +conseguir ser ouvida--que tens tu esta manhã? Que distracções são essas, +que não respondes quando te chamam? + +--Pois falaste-me? + +--É o que eu digo! Ó menina, ha que seculos te estou eu a perguntar em +que tempo é que as laranjeiras teem flor? + +--Ah! Christe!--acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.--Esse pensamento +é linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em que tens estado a +scismar. + +Christina córou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do +conselheiro, e tentou defender-se, dizendo: + +--Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque... + +--Socega, quando o véo estiver prompto, a laranjeira não nos faltará com +ramos e flores. + +--Não, mano--disse D. Victoria--olhe que se não trata de vêr o que é que +está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não ha uma só na quinta. Que +tambem para serem comidas as laranjas pelos criados... Porque quasi que +são só para elles. Não que não faz ideia!... + +E continuou com D. Dorothéa a narração dos abusos de que os criados eram +culpados. + +D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar. + +--Esta é galante!--disse elle, examinando uns papeis e rindo.--Ora ouça +isto, Henrique. Aqui está um homem que deseja que eu lhe empregue nada +menos do que sete sobrinhos que tem. Sete! É uma geração como a de +Jacob; se estivessemos na côrte de Pharaó!... + +--Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio +completo--disse Henrique. + +--Oh! oh!--disse o conselheiro, passados alguns momentos.--Cá está o meu +amigo Pertunhas, teimando com o logar de recebedor. + +--Pois o maroto ainda se atreve? + +--E que despeza de estylo que faz! É uma ode congratulatoria em prosa. + +N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos +passou-se o tempo até a chegada do correio, successo que marca época +n'uma manhã passada na aldeia. + +N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os +periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das eleições dos +differentes circulos do paiz. + +O conselheiro já por tres vezes consultára o relogio, extranhando que o +correio se demorasse. + +Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos; +Henrique deu subito desfecho ao jôgo com um lanço absurdo, e ambos se +precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo veio encostar-se ao +espaldar da cadeira de Henrique. + +O conselheiro principiou por ler uma carta. + +Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico. + +--Oh! oh!--disse o conselheiro, logo ás primeiras linhas que leu.--Temos +crise ministerial. As eleições fôram pouco favoraveis ao governo; +perderam-se em quasi toda a parte! + +--Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo +de fundo--disse Henrique. + +--Dizem-me n'esta carta que já se fala em que o ministerio vae pedir a +sua demissão. + +--Este artigo allude apenas a uma reconstrucção do gabinete. + +-«O governo--proseguiu o conselheiro, lendo,--nem espera pela +constituição da camara e cáe por estes dias, infallivelmente. Quando +vossê receber esta, já talvez elle pertença aos livros findos.» + +--«Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para resolver +sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na futura +camara»--lia Henrique no periodico, que logo em seguida pôz de lado, +para consultar outro. + +--«Não imagina--continuava o conselheiro, lendo a carta--o movimento de +ambições que vae já por aqui». Ora se não imagino! + +--Um numero do _Suffragio Nacional_!--exclamou Henrique, abrindo segundo +periodico.--Provavelmente é alguma amabilidade que lhe dirigem, sr. +conselheiro; elles que lh'o mandam! + +--Sim, decerto. Como da outra vez. Veja lá,--disse o conselheiro, +sorrindo--aos moribundos tudo se perdôa. + +Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivára a remessa +d'ella para o Mosteiro, onde não costumava vir. + +--Ah! temos correspondencia cá da terra!--exclamou por fim. + +--Deve ser isso. Já tardava. É communicado do Seabra. Leia, que são +curiosos. O homem a apreciar as eleições de domingo deve ser soberbo. +Isso não se pode perder. Leia, leia. + +--Assigna-se _um eleitor indignado_. + +--Justo. É o estylo do homem. Vamos lá a vêr isso. + +Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro. + +A peça litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra contava ao +mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu +transcrevel-a aqui, se, pela sua extensão, não tomasse demasiado espaço, +e se, pela sua unidade e estreita ligação logica, se não subtrahisse á +menor tentativa de fragmentação. + +Aquelle communicado era indivisivel. + +Apesar d'esta forçada omissão, espero que os leitores farão a justiça de +suppôr o escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar +com tanta proficiencia na taberna do Canada. + +O homem escrevia recheado de indignação pela serie de illegalidades, +escandalos, subornos e pressões de todo o genero, de que, dizia elle, +fôra theatro aquella pacifica aldeia do Minho. + +Em _linguagem chã e rude_ ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de +todos uma _pestifera chaga do organismo social_. _Sophismára-se a urna e +calcára-se aos pés a Carta_. As phrases em italico são d'elle. Depois de +um exordio por esta afinação, em que fazia a conveniente razão de ordem, +entrava o homem na materia. Era um modêlo de impertinente bisbilhotice o +escripto; desfiava-se alli a vida de todos os eleitores com uma +minuciosidade esmagadora. + +Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho +de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse +que havia de fazer, e não fez; e como aquelle nem disse nem fez; e como +aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos mais +maltratados era o sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o auctor da +correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera +pressão sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem de pessimos +costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberrão cheio de +dividas, amigo de malfeitores, _et coetera_. + +O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas. + +O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas. + +O brazileiro não lhe perdoára a pressa com que este celebrára a victoria +do conselheiro, á frente da philarmonica que regia. + +Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe +suggeria, inclusivé o de estafador de trompa, e fechava por estas +memoraveis palavras: + +«Para levar á evidencia o caracter infame e intriguista d'este +sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos dias antes, subtrahiu +de uma pasta aquella celebre carta politica, que tanto deu que falar no +paiz. E este homem exerce o cargo de administrador do correio. _Proh +pudor!_» + +Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu sensação +no auditorio. + +Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as bôcas uma +exclamação de surpresa ou de alegria. + +--Como é?... como é?...--perguntou o conselheiro.--Diz que...? + +--É o mysterio que se explica--respondeu Henrique.--A traição +encarrega-se de a si propria se desmascarar. + +--Então foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta de uma +pasta! + +--Era a de Augusto. + +--Mas como estava ella ahi? + +--Lá isso sei eu como foi,--disse D. Victoria--fui eu que, por engano, +lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma para a +leitura dos pequenos. + +Christina celebrou a descoberta, beijando com effusão a morgadinha, e +dizia: + +--Venceste, Lena! agora está bem provada a innocencia d'elle, até para +os que mais duvidavam! + +--E quem não duvidaria?--acudiu o conselheiro, como para se desculpar da +desconfiança. + +--Quem o conhecesse bem, meu pae--respondeu Magdalena, a quem a commoção +recebida dava animação ao olhar e ao semblante.--Eu e Angelo, por +exemplo. + +--E então eu?--accrescentou Christina.--Eu não entro na conta? + +Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que +recebera. + +--Olhem o pobre rapaz!--dizia D. Victoria, sinceramente consternada.--E +eu que o tratei tão mal! Bem me dizia elle: «Não tenha pressa de dizer +nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar de um homem +que elles se costumaram a amar e a respeitar.» E o caso é que eu, desde +que lhe ouvi dizer aquillo, de um modo tão sério e triste, fiquei +resentida, e não disse nada ás creanças, que todos os dias me +perguntavam ainda por elle. + +--Mas...--dizia D. Dorothéa, deveras embaraçada--eu não sei ainda bem do +que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê?... + +--Ó tia Dorothéa--atalhou Henrique--por quem é, não insista na pergunta. +Depois que se sabe que uma suspeita é falsa, não ha nada que mais +escalde os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles. + +--Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não +é verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique, +está-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na +consciencia. Ora anda lá. + +--Não, tia. Ha muito que lhe faço justiça. Ao principio não digo que +não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me +pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em +expiação, me não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é porque +elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu desastre... quero +dizer--emendou, olhando para Christina--a felicidade que me procurou sob +a fórma de doença... + +Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio. + +O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras reflexões que +lhe ouvimos fazer, disse, suspirando: + +--Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei +áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As +apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de politica, +apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a +quem eu estimava devéras, fôram exactamente os que mais fiz padecer! +Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me +teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia, +dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e +talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se +nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sairá da ideia aquella +scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e já então de +viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou +para o perder, e não só o privei do modesto logar que elle exercia, mas +até levantei contra elle uma accusação infamante, e quasi o expulsei de +minha casa... É triste que a vida politica me tenha obrigado a estas +crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que +maneira lhes parece melhor? + +--Eu se fôsse--disse D. Dorothéa--fazia como a morgada, e o rapaz, em +vez de vir a ser só padre havia de se formar em Coimbra, como o reitor +de Friande... + +--Isso era se elle quizesse ser padre;--acudiu D. Victoria--mas +parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era demittir aquelle +velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre de latim, e +arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, já que o outro foi +tratante!... + +O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não pôde deixar de +dizer: + +--N'esse caso deixava só ao Pertunhas a regencia da philarmonica? E tu, +Lena, qual é a tua opinião? + +Magdalena respondeu sem vacillar: + +--A minha opinião é que o pae deve ir a casa de Augusto, pedir-lhe +humildemente perdão pela offensa que lhe fez. + +--Mas involuntaria--ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que não +pôde bem disfarçar. + +--Mas offensa--repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse +totalmente a fôrça da expressão. + +--É um pouco dura de cumprir a sentença, sobretudo esse adverbio +humildemente... Não lhe parece?--perguntou o conselheiro, voltando-se +para Henrique. + +--Eu tinha vontade de dizer tambem a minha opinião--respondeu +Henrique;--mas receio certos melindres... Comtudo, parece-me que +encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a +offensa e dores muito mais pungentes do que as que soffreu em virtude +d'esta desagradavel occorrencia. + +--Qual é?--perguntou o conselheiro. + +Henrique olhou para Magdalena, respondendo: + +--Repito que tenho escrupulos em dizêl-o, porque talvez não seja eu o +mais competente para o fazer. + +--Tem razão, primo--disse Magdalena.--Elle proprio o dirá. É mais +natural. + +--Mas sábel-o tambem tu, Lena? + +--Sei. + +--Então dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir desejos. + +Magdalena hesitou. + +--Vamos, Henrique--disse Cristina, sorrindo--não esteja com tantos +escrupulos. Diga o que pensa. + +--Pois quer? mas se sua prima me não perdôa? + +--Eu o protegerei. Fale. + +--Então, Christe?--tornou Magdalena. + +--Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode. + +--Fale, fale--disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D. +Dorothéa. + +--Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer parte da +familia de... da nossa familia--respondeu Henrique, olhando para +Magdalena, que já não tentava retêl-o. + +--De fazer parte da nossa familia?--repetiu o conselheiro.--Mas como? + +--Como ha de ser? visto eu não estar resolvido a prescindir de +Christina, e Marianna ser ainda creança, facil é de conjecturar o unico +meio que ainda resta de realisar aquella pretensão. + +O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir, +dizendo: + +--Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabeça? + +--Mas que é a final? eu não entendo--dizia, embaraçada, D. Victoria. + +--É uma coisa muito simples--respondeu Henrique.--Augusto sentiu o +effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a ponto de +ligar a elles a sua felicidade, e de cair em adoração para com a +magnetisadora. + +Esta explicação foi recebida com espanto por D. Victoria. + +--Ora! está a brincar, primo Henrique? Não ouve aquillo, prima Dorothéa? + +--Mas que é, que é?--perguntou esta. + +-Diz que o Augusto aspirava... + +--Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não aspirava. Quem pode tomar +contas a um coração do culto que elle guarda religiosamente em si? A +prima Lena é adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porém... + +--É possivel!--exclamou tambem D. Dorothéa, espantada.--Por essa não +esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto! + +O conselheiro ria ainda da noticia que recebera. + +Magdalena córou ao ouvir todas aquellas exclamações de estranheza. +Cedendo ao impulso energico do seu caracter impetuoso e apaixonado, +disse com vivacidade: + +--Não sei que haja no que diz o primo Henrique nada que mereça esses +espantos. Pois quem sou eu a final? Que distancia me separa da +humanidade, para que se tenha por um desacato uma affeição que inspire? +É verdade. Julgo que não se enganou o primo Henrique. Tambem eu descobri +esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no coração e não na cabeça, meu pae. +Ha muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo +nos outros. Digo mais, causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque é natural +sentil-o por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter +generoso que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais +nobre e mais puro do que d'antes. + +O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom +profundamente irritado: + +--Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê lá se me +queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom +senso, até o ponto de tomares a sério phantasias e creancices. + +--Não é phantasia nem creancice, é uma resolução de mulher--respondeu +Magdalena, com firmeza. + +--Uma resolução de creança, que está na minha mão remediar--tornou o +conselheiro, como quem desejava cortar o incidente. + +Porém para o génio de Magdalena já não era possivel recuar nem parar; +replicou: + +--Talvez não. E deixe-me então dizer-lhe tudo, meu pae. Augusto nunca me +revelou esse segredo do seu coração. Adivinhei-lh'o eu. Longe de +procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem estava +resolvido a deixar a aldeia para sempre. + +--Mas ficou--notou o conselheiro com ironia. + +--Ficou--respondeu tranquillamente Magdalena--porque eu lhe pedi que +ficasse. + +O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a +filha com olhar severo e interrogador. + +A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um esfôrço +interior: + +--Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava a +affeição desinteressada e pura que elle guardava no coração; ficou, +porque eu, que só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e +que o sabia tão leal como pobre, tão innocente como perseguido pelo +infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, sob o pêso de uma +accusação em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir +eu propria procural-o para lhe estender a mão e dizer-lhe: «fique, e +prometto-lhe que todos lhe farão justiça em breve.» + +Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltação +crescentes, ninguem ousou falar na sala; e os olhos de todos +dirigiram-se quasi instinctivamente para o conselheiro. + +Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo +sentiram-se profundamente inquietos. + +Todos viram passar por differentes côres as faces do conselheiro, os +labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz evidentemente +alterada pela cólera, disse para a filha, passados alguns instantes: + +--Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga +estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem +naturalissimos á sua razão estragada pelos romances. Eu ainda não +prescindi da minha auctoridade paterna, e ella me servirá para corrigir +essas levezas, de que deveria envergonhar-se. + +Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da posição +de todos os que estavam presentes. Ninguem ousava intervir, ou, +desejando-o, ninguem sabia a maneira de o fazer. + +Entre as falsas situações, em que nos achamos ás vezes n'esta vida, +poucas se podem comparar no incómmodo que produzem, á de assistir a uma +questão domestica, por qualquer motivo que seja originada. + +Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que +prendeu Lena nos braços, não sei se para instinctivamente a defender, se +para reprimir-lhe o impeto de reacção que receiava n'ella. + +A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu ao +pae: + +--Ás vezes aos caracteres levianos estão confiadas tarefas generosas. +Cabe-lhes sanar muitas injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e +por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem +arrependo do passo que dei. Não fiz mais do que salvar do desespêro uma +alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua +consciencia, senhor, o accusasse de não ser innocente n'essa perda. Quiz +evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m'a +não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana +assim, a ser cruel como... + +O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou: + +--Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá de escolher +entre os seus caprichos e a minha approvação. Fique certa que, com o +consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posição, +especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida +do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria casa, +sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada á sua credula +sensibilidade. + +Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na sala. + +Era Augusto. + +Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que o +conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu +venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar. + +O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou. + +Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza: + +--Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, tem n'esse triplice +infortunio outros tantos titulos para ser respeitado dos felizes, como +v. ex.^a, e eu não prescindo d'esses direitos. + +O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse +responder a Augusto. A irritação dictava-lhe uma violenta resposta, mas +já lh'o não permittia a consciencia. + +Augusto continuou: + +--Sei que v. ex.^a está já convencido de que as suspeitas, que pesavam +sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que ainda tem na mão, veem +as provas da minha innocencia. Vi-o em casa do Seabra, d'onde venho +agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preço +que fôsse; elle não m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, +sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo, +antes que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a +receber-me a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o +insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu +encontrei! + +--Menos justificado?--repetiu o conselheiro, azedadamente. + +--Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.^a podia julgar-me +criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas não tem o +de duvidar de sua filha; porque a sr.^a D. Magdalena pedindo a seu irmão +que a acompanhasse a casa de um pobre, que ella sabia ser victima de uma +immerecida accusação, e a quem o desalento e o desespêro faziam +succumbir, não se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrario, +aos seus devia aquelle acto de sublime generosidade, porque das mãos dos +seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr. +conselheiro, como um miseravel e infame; os filhos de v. ex.^a, que +sempre fôram meus amigos, a quem v. ex.^a ensinára a sel-o, vieram á +minha dizer-me: «Não parta, deve á nossa confiança a justiça de ficar». + +--É verdade--disse Angelo--eu acompanhei Magdalena. O pae diz-me muitas +vezes que não tenha pressa de principiar a duvidar; eu não podia +principiar por Augusto. Não duvidei. + +O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarçado despeito, +ainda que em tom moderado: + +--Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do coração, creia. +Ainda que as apparencias o culpassem, arrependo-me de não ter tido mais +fôrça a minha confiança para não ceder. Peço-lhe por isso... +humildemente... perdão. Iria a sua casa pedir-lh'o se não viesse aqui. +Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para +antevêr realisadas loucuras de rapaz?... + +Augusto não o deixou continuar. + +--Ouça-me, sr. conselheiro--disse elle placidamente--deante de todas as +pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu +coração. É verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde +creança até hoje, tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros, +se eu commigo as guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha +vida? Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz +sempre por suffocar. Nem ambições me despertou, como meio de realisal-o, +porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a morrer com elle, sem +o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o fizera nascer, e, +deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito +era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar +pelo fulgor de imprevistas esperanças? Perdôe-se-me a fraqueza. As +illusões duraram pouco; as palavras de v. ex.^a dissiparam-n'as... um +tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, +que o ser pobre, sem familia e sem nome, impõe tambem uma certa ordem de +deveres, a que eu serei fiel. Não é o de humilhar-me, é o de manter a +unica dignidade que me resta, a dignidade moral. Já vê v. ex.^a que se +enganou de duas maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve especulação, +nem da parte da herdeira rica estouvamento. + +E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente +deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um +extremo olhar de despedida. + +A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Christina para +a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão +disse: + +--Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço que não saia. + +--Magdalena!--disse o conselheiro com severidade. + +--Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de +remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do +coração, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente +depois. + +--Magdalena!--repetiu o conselheiro com mais fôrça. + +--Minha senhora! disse Augusto. + +Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á vehemencia do caracter +apaixonado. + +--Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu coração; todos me +ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma +franqueza e lealdade, com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza +dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se envergonharia +d'elles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer-lhe seria offendel-o, +porque seria acreditar na constancia d'essa má paixão que o domina, e no +seu bom coração não pode ella durar muito tempo. + +O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder +violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as +outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras +tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de intervenção, que +elle suppunha já indispensavel, quando um incidente veio interromper +esta scena e modificar a feição critica do caso. + +O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao serviço +de um proprietario da villa proxima. Este criado era portador de uma +mensagem para o conselheiro. + +O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio +dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar á +presença do conselheiro. + +A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a +carregar-se. + +O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita. + +O criado respondeu: + +--Venho para entregar a v. ex.^a esta parte telegraphica, que chegou a +meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira +que não pôde mandal-a com ellas. + +O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu, +e correu-o com a vista. + +Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos. + +Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta: + +--Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim. + +O criado saiu. + +N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e +combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique +desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa. + +O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que uma +visivel satisfação se lhe desenhára no semblante. + +--Leia e admire--disse elle. + +Henrique leu, e não reteve uma exclamação de surpresa. + +A parte dizia: + +«Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apresentar em +Lisboa. Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle +acceite uma das pastas.» + +Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz. + +Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a +surpresa da noticia não fez esquecer a crise domestica a que assistira, +disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena: + +--Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os +emboras pela sua nomeação. + +A palavra «ministro» produziu sensação na sala. D. Victoria exclamou: + +--Ministro! Pois quem é que está ministro? O mano?... Ora, sim senhor! +acertou sua magestade!... + +--Mas... valha-nos Deus! O ponto está que não façam por ahi alguma +revolução para o deitar abaixo--acudiu D. Dorothéa, em cujo animo os +factos das nossas dissenções civis tinham deixado sinistras ideias +ligadas á palavra ministro. + +Magdalena, Angelo e Christina correram a abraçar o conselheiro; Henrique +reteve, porém, os dois ultimos dizendo: + +--Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a s. ex.^a, e á +primeira não ha caracter de ministro que não ceda. + +O conselheiro sorriu já. + +Magdalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela violencia das +scenas anteriores, e até alli a custo reprimido, rebentou agora +abundante, banhando as mãos do pae. + +Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não deixar sair da +sala. + +O coração do conselheiro não era de pedra. Duas causas poderosissimas +conspiravam-se para abrandal-o. Como homem politico, havia a satisfação +da maxima ambição de todos, a noticia de ser chamado ao ministerio. Nos +momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso +coração, abrimo-nos ás sympathias para com os desejos dos outros; se de +nós depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as +lagrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das +lagrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida: quanto mais se a +mulher é joven e bella! quanto mais se a mulher é filha! + +Sem o menor vestigio da irritação anterior, o conselheiro ergueu +Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente: + +--Por que choras tu, Lena? Creança! Então promettes-me ser muito feliz, +se eu te deixar fazer as tuas loucuras? + +Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e beijando-o. + +Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa +contra as severidades de um pae? + +O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e +voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi +affectuoso: + +--Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a +felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz, +tornando-m'a venturosa. É a unica vingança á altura da sua alma. + +Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho +tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforços +combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorothéa, que o +arrastaram quasi para junto do conselheiro. + +E toda aquella familia, em que não havia n'aquelle momento um só coração +triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e +pathetico grupo, que pode desenhar um artista. + +Para mais tocante confusão ainda, as creanças, que voltavam dos seus +brinquedos na quinta, entraram então na sala, e de boa vontade se +associaram áquella manifestação de alegria, sem querer saber o que a +motivára, + +São assim as creanças. Alegres por instincto, saudam as scenas alegres +sempre que as vêem, sentem-as antes de as explicarem. + +Fôram innumeraveis os beijos, os abraços, as palavras de affecto, os +sorrisos, as lagrimas, as exclamações pueris que se trocaram entre os +diversos actores d'esta scena de familia. + +Chegado a este ponto da minha narração, nada melhor posso fazer do que +deixar á imaginação dos leitores concluil-a. + +Haverá algum tão malfadado, que na sua vida não tenha visto representada +uma scena assim? + +Esse mesmo, se existe, obriga-me a não proseguir. + +O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de +que por certo é victima. + +Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de +beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a +narração, vêl-o-hiamos abafado pelos sons revolucionados e anarchicos da +philarmonica da terra, que não tardará a festejar a nomeação do +conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba +verdadeiramente épica, e capaz de mudar a côr ao gesto, como a de que +fala o poeta. + +Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos +acontecimentos ulteriores. + + + + +CONCLUSÃO + + +O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na +pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de +animo dos meus leitores, que, sob a direcção dos talentos e aptidões do +novo estadista, se locupletou a fazenda publica, prosperou a agricultura +e a industria, refulgiram as artes e as lettras; e que Portugal, como a +Grecia, sob Pericles, causou o assombro das nações do mundo. + +Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e +prospero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espirito dos +leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse com isto a +desconfiança no chronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a +direcção do conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se +tem regido sob as duzias de ministerios, que nós todos havemos já +conhecido. + +O conselheiro, já ministro, voltou tempos depois á aldeia, para assistir +aos casamentos de Magdalena e de Christina, que se verificaram no mesmo +dia. + +Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com +D. Dorothéa, que não podia resignar-se a viver só. + +Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se +completamente a quinta, e é hoje uma das mais rendosas e bem geridas +propriedades d'aquelles sitios. + +Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S. Carlos, +está um rico e laborioso proprietario rural. Apaixonou-se pela +agricultura, e promette realisar o typo do antigo patriarcha. + +Cumpriu-se a sua visão. + +Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, já nem memoria lhe +resta. + +Christina, além de ser adorada pelo marido, vê-se rodeada pelo amor e +carinhos de D. Dorothéa e de Maria de Jesus, as quaes, sem o menor +despeito, a viram tomar o sceptro da realeza domestica, que usa com +adoravel brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de +mulher. + +No Mosteiro não correm peor as coisas, sob os cuidados de Augusto e de +Magdalena, que ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, além +de se occupar de agricultura, alimenta a imaginação, já não a fazer +versos, mas em outra fórma de poesia: a organisar a escola sob bases +mais racionaes, e dotação mais fecunda; a generalisar e educar os +processos agricolas; a implantar industrias novas. + +É assim que a sericultura, graças aos seus cuidados, é hoje alli +cultivada com bons resultados, e outras já principiam a ensaiar-se. + +Magdalena é sempre a mulher que foi; se é que as nobres qualidades já +reveladas nos seus actos de juventude, não se vão caracterisando inda +melhor, á medida que de mais graves deveres se incumbe a sua missão de +mulher. Intelligencia temperada por um bom senso natural, que a educação +esmerada não estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado, mas +de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem +severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que não faz sentir +a ninguem o peso da obediencia. + +É hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos, querida por +D. Victoria, adorada pelo marido e abençoada pelo povo, que soccorre com +esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina n'aquelles sitios. + +D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o +direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do +mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando +despedidos. + +Em relação ás personagens secundarias d'esta historia pouco teremos a +dizer. + +O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que +entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava +visconde de não sei quê o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto +politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a sem-razão de não +applaudir. + +O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de +melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia. + +O sr. Joãozinho, em vista d'esta fusão de partidos, achou-se encorporado +na liga, e em pouco tempo teve occasião de demonstrar de novo a sua +influencia eleitoral, trazendo compacta á urna a freguezia de Pinchões, +para reeleger o conselheiro que, pela sua nomeação, perdera o logar de +deputado. D'esta vez ninguem lh'o disputou, e era edificante vêr o +brazileiro ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de +commum accordo e de boa harmonia. + +A reconciliação entre dois adversarios commove sempre a alma. + +O sr. Joãozinho não mudou de habitos, e cada vez tem mais dividas, mais +cães e mais bebedeiras. + +O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas funcções de +ensino e na commissão do correio, odiando os irmãos Virgilios e +desafogando as suas mágoas na embocadura da trompa. + +O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingança. Confessa que por +brincadeira tirára uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornára a +collocar no seu logar e por isso... + +A familia Zé P'reira vae em rapida decadencia; o homem já nem tem fôrça +para fazer resoar o zabumba. É esta uma das que mais deve á caridade de +Magdalena. + +O conselheiro, ainda hoje no gôso imperturbado dos votos unanimes +d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o animo +exhausto nas fadigas parlamentares e nas diversões da capital, no seio +da sua feliz familia, e volta melhor. + +Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores, corre +com alvoroço de creança a gosar na aldeia os dias que elle já presente +terem de ser os mais felizes de toda a sua vida. + +A quinta dos Cannaviaes, á qual andam ligadas suaves recordações dos +dois venturosos pares, que os incidentes d'esta historia reuniram, foi +transformada por Magdalena n'uma habitação de recreio, onde as duas +familias celebram, durante o anno, algumas festas em commum. + +Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia +muito estava de posse. + +E hoje é ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de +«Morgadinha dos Cannaviaes». + + +FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + | Volume I | | | + |#pág. 144| precipios | precipicios | + |#pág. 162| se se sentem | se sentem | + |#pág. 169| a seu seu vêr | a seu vêr | + |#pág. 264| uma uma explicação | uma explicação | + | | | | + | Volume II| | | + |#pág. 27| glo['r]ia | gloria | + |#pág. 68| examimal-a | examinal-a | + |#pág. 95| encontrassse | encontrasse | + |#pág. 148| coisapor | coisa por | + |#pág. 200| ovialmente | jovialmente | + |#pág. 215| fregrezia | freguezia | + |#pág. 218| principalte | principalmente | + |#pág. 248| saparámo-nos | separámo-nos | + +----------+---------------------+----------------------+ + + + + + +End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Júlio Dinis + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES *** + +***** This file should be named 29120-8.txt or 29120-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/1/2/29120/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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