summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/modern
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/modern')
-rw-r--r--old/modern/cidade-8.txt8769
-rw-r--r--old/modern/cidade.html17538
-rw-r--r--old/modern/images/p1.jpgbin0 -> 3430 bytes
-rw-r--r--old/modern/images/p2.jpgbin0 -> 29078 bytes
4 files changed, 26307 insertions, 0 deletions
diff --git a/old/modern/cidade-8.txt b/old/modern/cidade-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..2b67db9
--- /dev/null
+++ b/old/modern/cidade-8.txt
@@ -0,0 +1,8769 @@
+Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Cidade e as Serras
+
+Author: José Maria Eça de Queirós
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:
+Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg
+
+
+
+
+EÇA DE QUEIRÓS
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmão, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+EÇA DE QUEIRÓS
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+De Lello & Irmão, editores
+
+1901
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao cidadão
+Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
+que lhe oferece a lei n.^o 496 de 1 de Agosto de 1898, fez o competente
+depósito na Biblioteca Nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
+da mesma Lei.
+
+
+_Porto--Imprensa Moderna_
+
+
+
+
+[Figura de Eça de Queirós]
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+Obras do mesmo autor:
+
+
+*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
+
+*As minas de Salomão.* 1 volume $600
+
+*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
+
+*O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
+recomposta, e diferente na forma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
+volume 1$200
+
+*O primo Basílio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000
+
+*A Relíquia.* 1 grosso volume 1$000
+
+*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500
+
+*Correspondência de Fradique Mendes.* 1 volume $600
+
+*A ilustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
+
+
+
+
+A CIDADE E AS SERRAS
+
+
+
+
+I
+
+
+O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de
+renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.
+
+No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes
+ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras,
+estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já
+entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta
+e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
+Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro.
+E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora.
+Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em
+Paris, nos Campos Elísios, n.^o 202.
+
+Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em
+Lisboa o _D. Galeão_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa
+casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse
+momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
+botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou
+o enorme Jacinto--até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara
+para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
+
+--Oh Jacinto Galeão, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
+pedras?
+
+E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D. Miguel!
+
+Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de
+tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
+nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
+«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a
+bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo. Enquanto o
+adorável, desejado Infante penou no desterro de Viena, o barrigudo
+senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em
+Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer as saudades do
+_anjinho_, a tramar o regresso do _anjinho_. No dia, entre todos
+bendito, em que a _Pérola_ apareceu à barra com o Messias, engrinaldou
+a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
+Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de Arcanjo, furava
+de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
+vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
+mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
+caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós
+atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
+soube que o Sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um
+macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro--Jacinto _Galeão_
+correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando
+furiosamente:
+
+--Também cá não fico! também cá não fico!
+
+Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e
+escorraçado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos!
+Embarcou para França com a mulher, a Sr.^a D. Angelina Fafes (da tão
+falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o 'Cintinho, menino
+amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços; com a aia e com
+o moleque. Nas costas da Cantábria o paquete encontrou tão rijos mares
+que a Sr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
+beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcântara uma coroa
+de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em
+Baiona, onde arribaram, 'Cintinho teve icterícia. Na estrada
+de Orleães, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
+partiu, e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o
+menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio até uma
+aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
+nos bancos de uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
+sofreram os terrores de um fogo que rebentara na cavalariça, sob o
+quarto de _D. Galeão_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
+camisa, até ao pátio, enterrou o pé nu numa lasca de vidro. Então ergueu
+amargamente ao céu o punho cabeludo, e rugiu:
+
+--Irra! É de mais!
+
+Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto _Galeão_ comprou a um
+Príncipe polaco, que depois da tomada de Varsóvia se metera frade
+cartuxo, aquele palacete dos Campos Elísios, n.^o 202. E sob o pesado
+ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
+descansando de tantas agitações, numa vida de pachorra e de boa mesa,
+com alguns companheiros de emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
+de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, de uma
+lampreia de escabeche que lhe mandara o seu procurador em Montemor. Os
+amigos pensavam que a Sr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
+boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
+queria separar do seu Confessor, nem do seu Médico, que tão bem lhe
+compreendiam os escrúpulos e a asma.
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta
+a boa água de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em crescendo, que decida.
+
+O 'Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido que um círio, de
+longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
+pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
+e de sufocações, errava em camisa com uma lamparina através do 202; e
+os criados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. Nessa sua mudez e
+indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
+de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flor dos
+seus vinte anos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo,
+pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola,
+educada num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
+concertava relógios e fabricava chapéus de feltro. No Outono de 1851,
+quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elísios, o
+'Cintinho cuspilhou sangue. O médico, acarinhando o queixo e com uma
+ruga séria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para o
+golfo Juan ou para as tépidas areias de Arcachon.
+
+'Cintinho porém, no seu aferro de sombra, não se quis arredar da
+Teresinha Velho, de quem se tornara, através de Paris, a muda, tardonha
+sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
+um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
+
+Três meses e três dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.
+
+ * * * * *
+
+Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a
+_Sorte-Ruim_, Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
+de um pinheiro das dunas.
+
+Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim
+entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
+camaradas, nos pátios dos colégios, erguendo a sua espada de lata e
+lançando um brado de comando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
+e a quem se cede a fruta das merendas. Na idade em que se lê Balzac e
+Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepúsculos
+quentes o retiveram na solidão de uma janela, padecendo de um desejo sem
+forma e sem nome. Todos os seus amigos (éramos três, contando o seu
+velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e
+certas--sem que jamais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evidências do seu egoísmo. Sem coração bastante forte
+para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
+libertava, do amor só experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
+aos que o recolhem, à maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
+cantando. Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
+nunca lhe conhecemos outra ambição além de compreender bem as Ideias
+Gerais; e a sua inteligência, nos anos alegres de escolas e
+controvérsias, circulava dentro das Filosofias mais densas como enguia
+lustrosa na água limpa de um tanque. O seu valor, genuíno, de fino
+quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
+mera facécia que lançasse, logo encontrava uma aragem de simpatia e
+concordância que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando nas
+alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e não
+recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
+maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
+vivacidade e pressa uma gaveta pérfida emperrasse. Quando um dia, rindo
+com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacristão
+espanhol um Décimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
+a sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil
+pesetas. E no céu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacinto sem
+guarda-chuva, retinham com reverência as suas águas até que ele
+passasse... Ah! o âmbar e o funcho da Sr.^a D. Angelina tinham
+escorraçado do seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a
+_Sorte-Ruim_! A amorável avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
+citar um soneto natalício do desembargador Nunes Velho contendo um verso
+de boa lição:
+
+ Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...
+
+Pois um rio de Verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido
+sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
+aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem
+toldado e bem almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo,
+um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando à sirga, mais segurança
+e doçura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto.
+
+Por isso nós lhe chamávamos «o Príncipe da Grã-Ventura»!
+
+ * * * * *
+
+Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontrámos e acamaradámos em
+Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para onde me mandara meu bom tio
+Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me
+riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de
+procissão, na Sofia, a cara sórdida do dr. Pais Pita.
+
+Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Príncipe concebera
+a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
+civilizado». E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que,
+robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
+Aristóteles, e multiplicando a potência corporal dos seus órgãos com
+todos os mecanismos inventados desde Terâmenes, criador da roda, se
+torna um magnífico Adão, quase omnipotente, quase omnisciente, e apto
+portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso
+(tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
+proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto
+formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversávamos de fins e
+destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
+filosóficas, no Boulevard Saint-Michel.
+
+Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenáculo,
+que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a
+batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
+então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a Espingarda-de-Agulha
+que vencera em Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan,
+estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado
+desenvolvimento da Mecânica e da Erudição. Um desses moços mesmo, o
+nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, para lhe
+facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma forma algébrica:
+
+Suma ciência}
+ X }= Suma felicidade
+Suma potência}
+
+E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva
+a _Equação Metafísica de Jacinto_.
+
+Para Jacinto, porém, o seu conceito não era meramente metafísico e
+lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:--mas
+constituía uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
+conduta, modalizando a vida. E já a esse tempo, em concordância com o
+seu preceito--ele se surtira da _Pequena Enciclopédia dos Conhecimentos
+Universais_ em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados
+do 202, num mirante envidraçado, um telescópio. Justamente com esse
+telescópio me tornou ele palpável a sua ideia, numa noite de Agosto,
+de mole e dormente calor. Nos céus remotos lampejavam relâmpagos
+lânguidos. Pela Avenida dos Campos Elísios, os fiacres rolavam para as
+frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de
+vestidos claros.
+
+--Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacinto, encostado à janela do
+mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
+recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
+distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça
+alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
+simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça,
+presuntos, queijos, boiões de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo
+portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
+os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
+agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de
+composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
+mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia
+de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra
+noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
+elevado pela Civilização à sua máxima potência de visão. E desde já,
+pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o
+incivilizado, porque descubro realidades do Universo que ele não
+suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e
+compreendes o meu princípio. Enquanto à inteligência, e à felicidade
+que dela se tira pela incansável acumulação das noções, só te peço
+que compares Renan e o Grilo... Claro é portanto que nos devemos cercar
+de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções
+a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?
+
+Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
+Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha em
+distinguir através do espaço manchas num astro, ou através da Avenida
+dos Campos Elísios presuntos numa vidraça. Mas concordei, porque sou
+bom, e nunca desalojarei um espírito do conceito onde ele encontra
+segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete, e
+lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:
+
+--Vamos então beber, nas máximas proporções, _brandy and soda_, com
+gelo!
+
+Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilização, para Jacinto,
+não se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os
+seus vastos órgãos funcionando poderosamente. Nem este meu
+supercivilizado amigo compreendia que longe de Armazéns servidos por
+três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergéis e lezírias
+de trinta províncias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
+Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas
+abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas
+de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telégrafos, de fios
+de telefones, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante
+dos ónibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de
+luxo; e de dois milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar,
+através da Polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo--o
+homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver!
+
+Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
+lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado.
+Que criação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por
+ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!...
+
+--Oh Jacinto, e a religião? Pois a religião não prova a alma?
+
+Ele encolhia os ombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
+sumptuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o
+terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
+chicote, já constitui toscamente um devoto, o consciente devoto,
+prostrado em rezas ante o Deus que distribui o céu ou o inferno!... Mas
+o telefone! o fonógrafo!
+
+--Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz
+verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa
+do bicho. Acredita, não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a
+Cidade!
+
+E depois (acrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária
+à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
+considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na
+natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, só
+comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
+seu dromedário, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
+lumes e de armas...
+
+Eu murmurava, impressionado:
+
+--Caramba!
+
+Ao contrário no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade da
+Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
+Estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
+silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com
+fome nenhuma árvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fruto na
+ponta compassiva de um ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia à
+súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores.
+De que servia, entre plantas e bichos--ser um Génio ou ser um Santo? As
+searas não compreendem as _Geórgicas_; e fora necessário o socorro
+ansioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturais, e um violento
+milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco de Assis,
+que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
+Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a
+bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas únicas
+funções se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem
+ocupação, entre focinhos e raízes que não cessam de sugar e de pastar,
+sufocando no cálido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matéria; e nessa
+matéria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
+o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão
+nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo! A
+alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
+mergulhar nas ondas lustrais da Civilização, para largar nelas a
+crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e
+Jacíntico!
+
+E estas requintadas metáforas do meu amigo exprimiam sentimentos
+reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no único passeio que
+fizemos ao campo, à bem amável e bem sociável floresta de Montmorency.
+Oh delícias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se afastava
+dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer chão que os seus pés
+calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
+crestada, lhe parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
+da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de víboras, de
+formas rastejantes e viscosas. No silêncio do bosque sentia um lúgubre
+despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
+lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um acto
+degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flores que não
+tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos séculos de
+servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma
+melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a pressa
+esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorções
+do arvoredo e o seu resmungar solene e tonto.
+
+Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
+amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento minguar e sumir
+de alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desanuviou quando
+penetramos no lajedo e no gás de Paris--e a nossa vitória quase se
+despedaçou contra um ónibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
+aquela materialização em que sentia a cabeça pesada e vaga como a de um
+boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades para
+sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
+ficara dos melros cantando nos choupos altos.
+
+Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um
+soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais.
+Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma
+mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às
+delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das
+eras rudes, crespo e quase lanígero: e o bigode, como o de um Celta,
+caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu
+fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as
+luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
+de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta
+destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dissemelhantes,
+cravo, azálea, orquídea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
+leve folhagem de funcho.
+
+ * * * * *
+
+Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de chuva, recebi
+uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de
+lamentações sobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a
+pesada gerência dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
+mais rijas»--me ordenava que recolhesse à nossa casa de Guiães, no
+Douro! Encostado ao mármore partido do fogão, onde na véspera a minha
+Nini deixara um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
+severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
+flor do meu Saber Jurídico. Depois num Post-Scriptum ele
+acrescentava--«O tempo aqui está lindo, o que se pode chamar de rosas,
+e tua santa tia muito se recomenda, que anda lá pela cozinha, porque
+vai hoje em trinta e seis anos que casámos, temos cá o abade e o
+Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada».
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
+tia Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o
+arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
+do nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedaço
+de céu azul, do azul de Guiães, que outro não há tão lustroso e macio,
+entrou pelo quarto, alumiou, sobre a puída tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos andavam
+aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar fino e forte
+e cheiroso de serra e de pinheiral.
+
+Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
+meti solicitamente entre calças e peúgas um Tratado de Direito Civil,
+para aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
+leis que regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que
+partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
+e piedade:
+
+--Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
+deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
+longe da Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. «Leva uma
+poltrona! Leva a _Enciclopédia Geral_! Leva caixas de aspáragos!...»
+
+Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
+arbusto desarreigado que não reviverá. A mágoa com que me acompanhou ao
+comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
+mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.
+
+Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso pátio; comi
+com delícias a sopa dourada da tia Vicência; de tamancos nos pés assisti
+à ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
+poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando à candeia,
+atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presépios de Natal, por ali
+me passaram docemente sete anos, tão atarefados que nunca logrei abrir
+o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
+em vésperas de S. Nicolau, o abade caiu da égua à porta do Brás das
+Cortes. De Jacinto só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas à
+pressa por entre o tumulto da Civilização. Depois, num Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu, tão
+quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
+passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
+a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha casou na matança do porco.
+Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
+
+
+
+
+II
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu
+desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
+levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas
+recurvas do chapéu donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava
+elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás
+das costas, calçadas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com
+castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o
+nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
+
+--Oh Jacinto!
+
+--Oh Zé Fernandes!
+
+O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéu rolou na
+lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade:
+
+--Há sete anos!...
+
+--Há sete anos!...
+
+E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda
+entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
+varrida que a lã de um tapete. No meio o vaso coríntico esperava Abril
+para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
+margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
+as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galeão, sustentavam as
+antigas lâmpadas de globos foscos, onde já silvava o gás.
+
+Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado
+por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma
+escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Sr.^a D. Angelina!
+Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete
+segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro
+das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antecâmara, onde desembarcámos, encontrei a temperatura macia e tépida
+de uma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro
+que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do
+calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de
+Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente humedecendo
+aquele ar delicado e superfino.
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:
+
+--Eis a Civilização!
+
+Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de majestade e
+sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa
+de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa
+de lumes eléctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
+estantes monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores
+num concílio.
+
+Não contive a minha admiração:
+
+--Oh Jacinto! Que depósito!
+
+Ele murmurou, num sorriso descorado:
+
+--Há que ler, há que ler...
+
+Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara
+mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os
+anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a
+antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode
+murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava.
+
+Ele erguera uma tapeçaria--entrámos no seu gabinete de trabalho, que me
+inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
+perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
+divãs, as madeiras, eram verdes, de um verde profundo de folha de louro.
+Sedas verdes envolviam as luzes eléctricas, dispersas em lâmpadas tão
+baixas que lembravam estrelas caídas por cima das mesas, acabando de
+arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, nua e clara, no alto de uma
+estante quadrada, esguia, solitária como uma torre numa planície, e de
+que o lume parecia ser o farol melancólico. Um biombo de laca verde,
+fresco verde de relva, resguardava a chaminé de mármore verde, verde de
+mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha aromática. E entre
+aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestais, toda uma
+Mecânica sumptuosa, aparelhos, lâminas, rodas, tubos, engrenagens,
+hastes, friezas, rigidezes de metais...
+
+Mas Jacinto batia nas almofadas do divã, onde se enterrara com um modo
+cansado que eu não lhe conhecia:
+
+--Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessário reatarmos estas
+nossas vidas, tão apartadas há sete anos!... Em Guiães, sete anos! Que
+fizeste tu?
+
+--E tu, que tens feito, Jacinto?
+
+O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com
+serenidade todas as funções, as que pertencem à matéria e as que
+pertencem ao espírito...
+
+--E acumulaste Civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o
+202!
+
+Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
+vivacidade:
+
+--Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
+apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências.
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o
+meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?--Está
+lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma
+estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre,
+de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
+expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
+manejar--e logo uma ponta malévola me picou um dedo. Nesse instante
+rompeu doutro canto um «tic-tic-tic» açodado, quase ansioso. Jacinto
+acudiu, com a face no telefone:
+
+--Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve
+estar a correr.
+
+E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um
+aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a
+longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
+apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo
+Jacinto que a fragata russa _Azoff_ entrara em Marselha com avaria!
+
+Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquela avaria da _Azoff_.
+
+--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... Não! É uma notícia.
+
+Depois, consultando um relógio monumental que, ao fundo da Biblioteca,
+marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos os Planetas:
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, não, Zé
+Fernandes? Tens aí os jornais de Paris, da noite; e os de Londres,
+desta manhã. As Ilustrações além, naquela pasta de couro com
+ferragens.
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava à minha profanidade
+serrana todos os gostos de uma iniciação. Aos lados da cadeira de
+Jacinto pendiam gordos tubos acústicos, por onde ele decerto soprava
+as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões túmidos e moles,
+coleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra à maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
+como na água de um poço, pousava uma Máquina de escrever: e adiante era
+uma imensa Máquina de calcular, com fileiras de buracos donde
+espreitavam, esperando, números rígidos e de ferro. Depois parei em
+frente da estante que me preocupava, assim solitária, à maneira de uma
+torre numa planície, com o seu alto farol. Toda uma das suas faces
+estava repleta de Dicionários; a outra de Manuais; a outra de Atlas; a
+última de Guias, e entre eles, abrindo um fólio, encontrei o Guia das
+ruas de Samarcanda. Que maciça torre de informação! Sobre prateleiras
+admirei aparelhos que não compreendia:--um composto de lâminas de
+gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez
+amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
+decepar, um cutelo funesto; outro avançando a boca de uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invisível. Cingidos aos umbrais, liados às
+cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
+Todos mergulhavam em forças universais, todos transmitiam forças
+universais. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
+entrara na sua domesticidade!...
+
+Jacinto atirou uma exclamação impaciente:
+
+--Oh, estas penas eléctricas!... Que seca!
+
+Amarrotara com cólera a carta começada--eu escapei, respirando, para a
+Biblioteca. Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da
+Imaginação! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
+essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa
+lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
+Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Política. Depois
+avistei os Filósofos e os seus comentadores, que revestiam toda uma
+parede, desde as escolas Pré-Socráticas até às escolas Neopessimistas.
+Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil sistemas--e que
+todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
+doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
+cima, resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante começavam as
+Histórias Universais. Mas aí uma imensa pilha de livros brochados,
+cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
+como fresca terra de aluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
+colina, mergulhei na secção das Ciências Naturais, peregrinando, num
+assombro crescente, da Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia
+para a Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela
+rasgada sobre os Campos Elísios. Apartei as cortinas de veludo--e por
+trás descobri outra portentosa rima de volumes, todos de História
+Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
+últimos vidros, vedando, nas manhãs mais cândidas, o ar e a luz do
+Senhor.
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amável dos
+Poetas. Como um repouso para o espírito esfalfado de todo aquele saber
+positivo, Jacinto aconchegara aí um recanto, com um divã e uma mesa
+de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
+cigarros do Oriente, de tabaqueiras do século XVIII. Sobre um cofre de
+madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos secos do
+Japão. Cedi à sedução das almofadas; trinquei um damasco, abri um
+volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
+de asas harmoniosas. Sorri à ideia que fossem abelhas, compondo o seu mel
+naquele maciço de versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto
+e dormente vinha do cofre de mogno, de parecer tão discreto. Arredei uma
+_Gazeta de França_; e descortinei um cordão que emergia de um orifício,
+escavado no cofre, e rematava num funil de marfim. Com curiosidade,
+encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita à singeleza dos
+rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida,
+aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
+entendimento, sussurrou capciosamente:
+
+--...«E assim, pela disposição dos cubos diabólicos, eu chego a
+verificar os espaços hipermágicos!...»
+
+Pulei, com um berro.
+
+--Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro
+de uma caixa!
+
+O meu camarada, habituado aos prodígios, não se alvoroçou:
+
+--É o Conferençofone... Exactamente como o Teatrofone; somente
+aplicado às escolas e às conferências. Muito cómodo!... Que diz o
+homem, Zé Fernandes?
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
+
+--Eu sei! Cubos diabólicos, espaços mágicos, toda a sorte de horrores...
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:
+
+--Ah, é o coronel Dorchas... Lições de Metafísica Positiva sobre a
+Quarta Dimensão... Conjecturas, uma maçada! Ouve lá, tu hoje jantas
+comigo e com uns amigos, Zé Fernandes?
+
+--Não, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanela
+grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
+Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou que esta simplicidade
+montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
+Quem? O autor do _Coração Triplo_, um Psicólogo Feminista, de agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Ciências Sentimentais; e Vorcan, um pintor mítico, que interpretara
+etereamente, havia um ano, a simbolia rapsódica do cerco de Tróia,
+numa vasta composição, _Helena Devastadora_...
+
+Eu coçava a barba:
+
+--Não, Jacinto, não... Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
+em toda esta civilização, lentamente, com cautela, senão rebento. Logo
+na mesma tarde a electricidade, e o conferençofone, e os espaços
+hipermágicos e o feminista, e o etéreo, e a simbolia devastadora, é
+excessivo! Volto amanhã.
+
+Jacinto dobrava vagarosamente a sua carta, onde metera sem rebuço
+(como convinha à nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
+ramo que lhe floria o peito.
+
+--Amanhã, Zé Fernandes, tu vens antes de almoço, com as tuas malas dentro
+de um fiacre, para te instalares no 202, no teu quarto. No Hotel são
+embaraços, privações. Aqui tens o telefone, o teatrofone, livros...
+
+Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo acústico,
+murmurou:
+
+--Grilo!
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
+surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com _D.
+Galeão_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
+reluzente e venerável na sua tesa gravata, no seu colete branco de
+botões de ouro. Ele também estimou ver de novo «o siô Fernandes». E,
+quando soube que eu ocuparia o quarto do avô Jacinto, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
+sentir enfim reprovido de uma família.
+
+--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telefona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
+domingo... Escuta! Eu tomo uma duche antes de jantar, tépida, a 17.
+Fricção com malva-rosa.
+
+E caindo pesadamente para cima do divã, com um bocejo arrastado e
+vago:
+
+--Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como há sete anos,
+neste velho Paris...
+
+Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
+iniciação:
+
+--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve já
+aí um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... São úteis?
+
+Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais, pela
+simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
+penas velhas; o outro numerava rapidamente as páginas de um manuscrito;
+aqueloutro, além, raspava emendas... E ainda os havia para colar
+estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
+
+--Mas com efeito, acrescentou, é uma seca. Com as molas, com os
+bicos, às vezes magoam, ferem... Já me sucedeu inutilizar cartas por as
+ter sujado com dedadas de sangue. É uma maçada!
+
+Então, como o meu amigo espreitara novamente o relógio monumental, não
+lhe quis retardar a consolação da ducha e da malva-rosa.
+
+--Bem, Jacinto, já te revi, já me contentei... Agora até amanhã, com as
+malas.
+
+--Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
+jantar. Talvez te tentes!
+
+E, através da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que me
+encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, lacada,
+mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, encaixilhando
+medalhões de damasco cor de morango, de morango muito maduro e esmagado:
+os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
+resplandeciam com a mesma laca nevada: e damascos amorangados estofavam
+também as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
+gulas delicadas, de gulas intelectuais.
+
+--Viva o meu Príncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro muito
+compreensível e muito repousante, Jacinto!
+
+--Então janta, homem!
+
+Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
+correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
+impressionei quando Jacinto me desvendou que um era para as ostras,
+outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:--um
+Bordéus rosado em infusas de cristal, e Champanhe gelando dentro de
+baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
+quase assustador de águas--águas oxigenadas, águas carbonatadas, águas
+fosfatadas, águas esterilizadas, águas de sais, outras ainda, em
+garrafas bojudas, com tratados terapêuticos impressos em rótulos.
+
+--Santíssimo nome de Deus, Jacinto! Então és ainda o mesmo tremendo
+bebedor de água, hein?... _Un aquatico!_ como dizia o nosso poeta
+chileno, que andava a traduzir Klopstock.
+
+Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuçada em metal,
+um olhar desconsolado:
+
+--Não... É por causa das águas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
+micróbios... Mas ainda não encontrei uma boa água que me convenha, que
+me satisfaça... Até sofro sede.
+
+Desejei então conhecer o jantar do Psicólogo e do Simbolista--traçado,
+ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre lâminas de marfim.
+Começava honradamente por ostras clássicas, de Marennes. Depois
+aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa...
+
+--É bom?
+
+Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:
+
+--Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há tempos... Já há anos.
+
+Do outro prato só compreendi que continha frangos e túbaras. Depois
+saboreariam aqueles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
+geleia de noz. E por sobremesa simplesmente laranjas geladas em éter.
+
+--Em éter, Jacinto?
+
+O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação de um aroma que
+se evola.
+
+--É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aflorar a alma das
+frutas...
+
+Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:
+
+--Eis a Civilização!
+
+E, descendo os Campos Elísios, encolhido no paletó a cogitar neste
+prato simbólico, considerava a rudeza e atolado atraso da minha Guiães,
+onde desde séculos a alma das laranjas permanece ignorada e
+desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares
+que ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
+porém, bendito Deus, na convivência de um tão grande iniciado como
+Jacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civilização.
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de um
+homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e através dela e
+por ela recolhe a felicidade perfeita.
+
+Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipe da
+Grã-Ventura!
+
+
+
+
+III
+
+
+No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda
+em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo
+banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pêlo de
+cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal, (por
+causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga,
+marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita
+para não desfeiar o conjunto sumptuário da Civilização e manter nela
+o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
+meu espanto--porque as havia largas como a roda maciça de um carro
+sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange de um mouro; côncavas, em
+forma de telha aldeã; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que
+nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas,
+fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu
+Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu pêlo durante
+catorze minutos.
+
+No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de
+sedas lavradas, manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do
+lavatório--que era apenas um resumo das Máquinas monumentais da Sala de
+Banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes mármores simplificados
+existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
+duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os
+dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
+que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
+orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
+em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas,
+saía enfim o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
+uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
+circulação, a outra de seda frouxa para repolir a pele. Depois deste
+rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
+Jacinto, estendido num divã, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
+inscritas pelo Grilo ou por ele, as ocupações do seu dia, tão
+numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
+
+Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua Civilização muito
+complexa, ou a interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara
+para viver em mais consciente comunhão com todas as funções da Cidade.
+(Jacinto com efeito era presidente do Clube da _Espada e Alvo_;
+comanditário do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
+Telefones de Constantinopla_; sócio dos _Bazares unidos da Arte
+Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
+Esotéricas_, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia porém aprazível ao
+meu amigo--porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
+frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelião de homem
+livre, aquela Agenda que o escravizava. E numa dessas manhãs (de
+vento e neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica,
+de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacinto devia
+depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
+Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
+fidelidade a uma votação no Clube; acompanhar Madame d'Oriol a uma
+exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
+Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
+tribunal de honra numa questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecarté... E ainda se acavalavam outras indicações, escrevinhadas por
+Jacinto a lápis:--«Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A pequena das
+_Variedades_--Levar a nota ao jornal...» Considerei o meu Príncipe.
+Estirado no divã, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num
+bocejo imenso e mudo.
+
+Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, depois do
+banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava por ele,
+com impaciência, quase com cólera, como por um escravo tardio. E mal
+enxugado, dentro do seu roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossas
+pijamas de pelúcia cor de ouro velho, constantemente saía ao corredor a
+cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
+guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que
+pertencia decerto aos _Telefones de Constantinopla_), era
+temeroso--todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
+enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma peliça
+puída, como da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina.
+Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa
+salva... Depois eram fornecedores de Indústria e de Arte; negociantes de
+cavalos, rubicundos e de paletó branco; inventores com grossos rolos
+de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «única», quase
+inverosímil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacinto circulava
+estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone,
+desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que
+surdia das sombras da antecâmara, estendia como um trabuco o seu
+memorial ou o seu catálogo!
+
+Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico ressoava, chamando ao
+almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
+esperava sempre meia hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada,
+consultando o relógio, exalando com a face moída o seu queixume eterno:
+
+--Que maçada! E depois uma noite abominável, enrodilhada em sonhos...
+Tomei sulforal, chamei o Grilo para me esfregar com terebintina... Uma
+seca!
+
+Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
+o seduzia;--e, como através do seu tumulto matinal fumava incontáveis
+cigarretes que o ressequiam, começava por se encharcar com um imenso
+copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada de um cognac
+raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa.
+Depois, à pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
+além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
+impacientemente o café, um café de Moca, mandado cada mês por um feitor
+do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele remexia com um pau
+de canela!
+
+--E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?
+
+--Eu?
+
+Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas cavas do
+colete:
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
+
+O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau de canela, rebuscava
+através da numerosa Civilização da Cidade uma ocupação que me
+encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposição, ou uma Conferência, ou
+monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolados:
+
+--Por fim nem vale a pena, é uma seca!
+
+Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os fios do
+bigode, ainda escutava, à porta da Biblioteca, o seu procurador, o
+nédio e majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que sobraçava
+um maço tremendo de jornais para lhe abastecer o coupé, o Príncipe da
+Grã-Ventura mergulhava na Cidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o céu
+de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, saíamos
+depois de almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
+passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito
+querido de Jacinto--porque neles mais intensamente e mais
+minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
+companhia, só lhe davam uma impaciência e uma fadiga que desoladoramente
+destoava do antigo, iluminado êxtase. Com espanto (mesmo com dor,
+porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar de uma crença)
+descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
+denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos
+trens sobre o macadame, afligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
+pressa, do seu egoísmo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
+meu braço, este Jacinto novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civilização, não fossem calçadas de guta-percha! E a guta-percha
+claramente representava, para o meu amigo, a substância discreta que
+amortece o choque e a rudeza das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo
+borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funções
+da Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas
+e espelhadas lojas que ele outrora considerava como os «preciosos
+museus do século XIX»...
+
+--Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura
+de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas
+pelúcias... Não vale a pena!
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me
+impressionava o seu horror pela Multidão--por certos efeitos da
+Multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os «sulcos».
+
+--Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
+rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
+petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e
+estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende
+num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
+estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a
+imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
+intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou
+pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão
+repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
+são as pequeninas misérias de uma Civilização deliciosa!
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, naquele
+chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. Nessa mesma
+tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetrámos nos centros
+de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
+eriçado de chaminés de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as
+cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
+ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, ângulos ásperos: tudo
+seco, tudo rígido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
+tapando as varandas, comendo os muros, Tabuletas, Tabuletas...
+
+--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
+bazar!
+
+E, mais para sondar o meu Príncipe do que por persuasão, insisti na
+fealdade e tristeza destes prédios, duros armazéns, cujos andares são
+prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
+catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
+bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
+pranchas de pinho nu, entre o pó e a traça...
+
+Jacinto murmurou, com a face arrepiada:
+
+--É feio, é muito feio!
+
+E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
+produção!
+
+Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase
+religiosa afeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, ele construíra
+sobre o Bosque teorias complicadas e consideráveis. E sustentava, com
+olhos rutilantes de fanático, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
+Duquesas, das suas Cortesãs, dos seus Políticos, dos seus Financeiros,
+dos seus Generais, dos seus Académicos, dos seus Artistas, dos seus
+Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
+pessoal se mantinha em número, em vitalidade, em função, e que nenhum
+elemento da sua grandeza desaparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
+constituía então para o meu Príncipe um acto de consciência. E voltava
+sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuía todos os seus
+astros, garantindo a eternidade da sua luz!
+
+Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que ele me levava ao
+Bosque, onde eu, aproveitando a clemência de Abril, tentava enganar a
+minha saudade de arvoredos. Enquanto subíamos, ao trote nobre das suas
+éguas lustrosas, a Avenida dos Campos Elísios e a do Bosque,
+rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
+Jacinto, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
+permanecia o bom camarada, de veia amável, com quem era doce filosofar
+através de Paris. Mas logo que passávamos as grades douradas do Bosque,
+e penetrávamos na Avenida das Acácias, e enfiávamos na lenta fila dos
+trens de luxo e de praça, sob o silêncio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
+Príncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das almofadas, de onde
+só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
+hábito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
+ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vitória rodando com
+rodar rangente noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
+conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo
+nariz patrício de Madame de Trèves abrigando um sorriso perene; e as
+bochechas flácidas do poeta neoplatónico Dornan, sempre espapado no
+fundo de fiacres; e os longos bandós pré-rafaelitas e negros de Madame
+Verghane; e o monóculo defumado do director do _Boulevard_; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu faéton
+de guerra; e ainda outros sorrisos imóveis, e barbichas à Renascença, e
+pálpebras amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz,
+que eram todas ilustres e da intimidade do meu Príncipe. Mas, do topo
+da Avenida das Acácias, recomeçávamos a descer, em passo sopeado,
+esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
+atrás de landau, vitória atrás de fiacre, fatalmente revíamos o
+binóculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandós furiosamente
+negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neoplatónico, e a
+barba talmúdica, e todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera,
+super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
+revividos anos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó de arroz,
+na mesma imobilidade de cera; então Jacinto não se continha, gritava
+ao cocheiro:
+
+--Para casa, depressa!
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos Elísios, uma fuga ardente das
+éguas a quem a lentidão sopeada, num roer de freios, entre outras éguas
+também delas superconhecidas, lançavam numa exasperação comparável à
+de Jacinto.
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:
+
+--Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...
+
+Ele acudia, timidamente:
+
+--Não, é agradável, não há nada mais agradável; mas...
+
+E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres.
+Recolhíamos então ao 202, onde, com efeito, em breve embrulhado no seu
+roupão branco, diante da mesa de cristal, entre a legião das escovas,
+com toda a electricidade refulgindo, o meu Príncipe se começava a
+adornar para o serviço social da noite.
+
+E foi justamente numa dessas noites (um sábado) que nós passámos,
+naquele quarto tão civilizado e protegido, por um desses brutos e
+revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
+tarde, à pressa (jantávamos com Marizac no Clube para o acompanhar depois
+ao _Lohengrin_ na Ópera) Jacinto arrocheava o nó da gravata
+branca--quando no lavatório, ou porque se rompesse o tubo, ou se
+dessoldasse a torneira, o jacto de água a ferver rebentou furiosamente,
+fumegando e silvando. Uma névoa densa de vapor quente abafou as
+luzes--e, perdidos nela, sentíamos, por entre os gritos do escudeiro e
+do Grilo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
+que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
+se todas as forças da natureza, submetidas ao serviço de Jacinto, se
+agitassem, animadas por aquela rebelião da água--ouvimos roncos surdos
+no interior das paredes, e pelos fios dos lumes eléctricos sulcaram
+faíscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a névoa
+grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
+atraídas pela fumarada que se escapava das janelas, estacionava
+polícia, uma multidão. E na escada esbarrei com um repórter, de chapéu
+para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»
+
+Domada a água, clareada a bruma, vim encontrar Jacinto no meio do
+quarto, em ceroulas, lívido:
+
+--Oh Zé Fernandes, esta nossa indústria!... Que impotência, que
+impotência! Pela segunda vez, este desastre! E agora, aparelhos
+perfeitos, um processo novo...
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
+
+Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocatéis Luís XIII, cobertos de
+manchas negras, fumegavam. O meu Príncipe, enfiado, enxugava uma
+fotografia de Madame d'Oriol, de ombros decotados, que o jorro bruto
+maculara de empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a água
+aquecia em seguras panelas--e subia ao meu lavatório, pela mão forte da
+Catarina, em seguras infusas! Não jantámos com o duque de Marizac, no
+Clube. E, na Ópera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
+branco cisne e as suas brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos
+sovacos pela casaca que Jacinto me emprestara e que rescendia
+estonteadoramente a flores de Nessari.
+
+ * * * * *
+
+No domingo, muito cedo, o Grilo, que na véspera escaldara as mãos e as
+trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu quarto, descerrou as
+cortinas, e à beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
+
+--Vem no _Figaro_!
+
+Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos _Ecos, doze linhas, onde
+as nossas águas rugiam e espadavam, com tanta magnificência e tanta
+publicidade, que também sorri, deleitado.
+
+--E toda a manhã, o telefone, siô Fernandes! exclamava o Grilo,
+rebrilhando em ébano. A quererem saber, a quererem saber... «Está lá?
+Está escaldado?» Paris aflito, siô Fernandes!
+
+O telefone, com efeito, repicava, insaciável. E quando desci para o
+almoço, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas, que o meu
+Príncipe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «maçada». Só
+desanuviou, ao ler um desses papéis azuis, que atirou para cima do meu
+prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorríramos, o
+Grilo e eu:
+
+--É do Grão-Duque Casimiro... Ratão amável! Coitado!
+
+Saboreei, através dos ovos, o telegrama de S. Alteza. «O quê! o meu
+Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos Elísios! Não volto ao 202 sem
+bóia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei também com
+deferência:--«Amável! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
+de telegramas que se alastrava até ao meu copo:
+
+--Oh Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
+telefona, te telegrafa, te...?
+
+--Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!
+
+--Tua?
+
+--Minha, minha... Não! tenho um bocado.
+
+E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão rico e de tão fino
+orgulho, por economia de uma gamela própria chafurdasse com outros numa
+gamela pública--Jacinto levantou os ombros, com um camarão espetado
+no garfo:
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
+cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
+nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
+seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
+suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é
+necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um
+sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente
+por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
+não chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a
+pele cor de neve ou cor de limão.
+
+Arregalei um olho divertido:
+
+--Dos ombros para baixo?... E para cima?
+
+--Oh para cima tem pó de arroz!... Mas é uma seca! Sempre bilhetes,
+sempre telefones, sempre telegramas. E três mil francos por mês, além
+das flores... Uma maçada!
+
+E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
+sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.
+
+Acabávamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, num
+murmúrio, anunciou Madame d'Oriol. Jacinto pousou com tranquilidade o
+charuto; eu quase me engasguei, num sorvo alvoroçado de café. Entre os
+reposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro,
+de um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
+lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade
+docemente chalrada:
+
+--É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, não me
+contive, quis ver os estragos... Uma inundação em Paris, nos
+Campos Elísios! Não há senão este Jacinto. E vem no _Figaro!_ O que eu
+estava assustada, quando telefonei! Imaginem! Água a ferver, como no
+Vesúvio... Mas é de uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
+tapetes... Estou morrendo por admirar as ruínas!
+
+Jacinto, que não me pareceu comovido, nem agradecido com aquele
+interesse, retomara risonhamente o charuto:
+
+--Está tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi
+ontem, quando a água fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
+caído uma parede!
+
+Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
+de uma inundação. O _Figaro_ contara... E era uma aventura deliciosa, uma
+casa escaldada nos Campos Elísios!
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no chapéu até à
+ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
+tenro sob o boliço do pássaro a chalrar. Só o sorriso, por trás do véu
+espesso, conservava um brilho imóvel. E já no ar se espalhara um aroma,
+uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.
+
+Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
+ainda louvava o _Figaro_ amável, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Príncipe da Grã-Ventura
+por aquela perfeita flor de Civilização que lhe perfumava a vida.
+Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri
+vivamente à antecâmara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
+nó da minha gravata. Depois recolhi à sala de jantar, e junto da
+janela, folheando languidamente a _Revista do Século XIX_, tomei uma
+atitude de elegância e de alta cultura. Quase imediatamente eles
+reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrara que recordasse as águas furiosas, roçou pela
+mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, tangerinas de Malta,
+ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai.
+
+Ela recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
+forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, caía e ondulava
+harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véu
+cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
+olhos largos. E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do
+cabelo louro, de um louro quente, torcido fortemente sobre as peles
+negras que lhe orlavam o pescoço, toda ela derramava uma sensação de
+macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flor de
+Civilização:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
+necessitara o terreno onde ela tão delicadamente brotara, já
+desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esforço e
+de estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
+antemurcho.
+
+No entanto, com a sua volubilidade de pássaro, chalrando para mim,
+chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto por aquele
+montão de telegramas sobre a toalha.
+
+--Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacinto é hoje o
+homem, o único homem de Paris! Muitas mulheres nesses telegramas?
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Príncipe empurrou para a
+sua amiga o telegrama do Grão-Duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
+muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
+seus dedos acariciavam com uma reverência gulosa. E sempre grave, sempre
+séria:
+
+--É brilhante!
+
+Oh, certamente! naquele desastre tudo se passara com muito brilho,
+num tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura não se podia demorar,
+porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o sermão!
+
+Jacinto exclamou com inocência:
+
+--Sermão?... É já a estação dos sermões?
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escândalo e dor. O quê!
+pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da Quaresma? De
+resto não se admirava--Jacinto era um turco! E, imediatamente celebrou
+o pregador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh de uma eloquência!
+de uma violência! No derradeiro sermão pregara sobre o amor, a
+fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma inspiração, de uma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrível que esmagava, em que se lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nu, um braço soberbo,
+muito branco, muito forte!
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do véu
+negro. E Jacinto, rindo:
+
+--Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
+almas...
+
+Ela acudiu:
+
+--Não! infelizmente o Père Granon não confessa!
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um biscoito, um cálice de Tokai. Era
+necessário um cordial para afrontar as emoções do Père Granon! Ambos
+nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato
+de bombons. Franziu o véu para os olhos, chupou à pressa um bolo que
+ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no chapéu que
+ela trazia, se curvara com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
+apagou o sorriso, toda séria, ante uma coisa séria:
+
+--Elegante, não é verdade?... É uma criação inteiramente nova de Madame
+Vial. Muito respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.
+
+O seu olhar, que me envolvera, também me convidava a admirar. Aproximei
+o meu focinho de homem das serras para contemplar essa criação suprema
+do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das
+plumas frisadas, aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava
+delicadamente, feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!
+
+Ambos nos extasiámos. E Madame d'Oriol, num movimento e num sorriso
+que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Madalena.
+
+O meu Príncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles. E
+bruscamente, levantando os ombros com uma determinação imensa, como se
+deslocasse um mundo:
+
+--Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa simples e
+natural...
+
+--Em quê?
+
+Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, através da Vida
+Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois,
+descansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
+longe, cansados e com pouca esperança:
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!
+
+
+
+
+IV
+
+
+Nessa fecunda semana, uma noite, recolhíamos ambos da Ópera, quando
+Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202.
+
+--Uma festa?...
+
+--Por causa do Grão-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
+e muito raro que se pesca na Dalmácia. Eu queria um almoço curto. O
+Grão-Duque reclamou uma ceia. É um bárbaro, besuntado com literatura do
+século XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reúno no domingo
+três ou quatro mulheres, e uns dez homens bem típicos, para o divertir.
+Também aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas é uma maçada
+amarga!
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacinto não se afadigou em a compor com
+relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes (os
+Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia áspera das Czardas
+ainda nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
+Biblioteca, ligar o Teatrofone com a Ópera, com a Comédia Francesa,
+com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos desde o trágico
+até ao pícaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitámos a mesa
+da ceia, que resplandecia com as velhas baixelas de D. Galeão. E a
+faustosa profusão de orquídeas, em longas silvas por sobre a toalha
+bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe, transbordando de
+cristais lavrados e filagranados de ouro, espalhava uma tão fina sensação
+de luxo e gosto, que eu murmurei:--«Caramba, bendito, seja o dinheiro!»
+Pela primeira vez, também, admirei a copa e a sua instalação abundante
+e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
+da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos de água
+fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigoríficas. Oh, este 202!
+
+Às nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacinto para escrever
+a minha boa tia Vicência, enquanto ele ficara no toucador com o
+manicuro que lhe polia as unhas, passámos nesse delicioso palácio,
+florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes eléctricos,
+subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfiança
+daquelas forças universais, pulei logo para a porta, tropeçando nas
+trevas, ganindo um _Aqui d'El-Rei!_ que tresandava a Guiães. Jacinto em
+cima berrava, com o manicuro agarrado ao pijama. E de novo, como serva
+ralaça que recolhe arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com
+lentidão. Mas o meu Príncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro à Companhia Central da Electricidade Doméstica. Por precaução
+outro criado correu à mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo
+desenterrava já dos armários os candelabros abandonados, os pesados
+castiçais arcaicos dos tempos incientíficos de D. Galeão: era uma
+reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, à
+ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilização. O
+Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
+se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
+algibeira dois cotos de estearina.
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e só depois de uma busca
+furiosa e praguejada o encontrei caído por trás da cama!), todo o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antecâmara, sacudindo as guedelhas, atiravam
+as arcadas de uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os imensos
+Personagens das tapeçarias, Príamo, Nestor, o engenhoso Ulisses,
+arfavam, buliam com os pés venerandos!
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Trèves, que,
+acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa),
+percorria maravilhada os Aparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
+Mecânica do meu supercivilizado Príncipe. Nunca ela me parecera mais
+majestosa do que naquelas sedas cor de açafrão, com rendas cruzadas no
+peito à Maria Antonieta, o cabelo crespo e ruivo levantado em rolo
+sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patrício, abrigando o sorriso
+sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
+de um regato. Direita como num sólio, a longa luneta de tartaruga
+acercada dos olhos miúdos e turvamente azulados, ela escutava diante do
+Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores, os
+comentários que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma amabilidade
+penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
+torneados, em que atribuía a Jacinto, com astuta candura, todas
+aquelas invenções do Saber! Os utensílios misteriosos que atulhavam a
+mesa de ébano foram para ela uma iniciação que a enlevou. Oh, o
+«numerador de páginas»! oh, o «colador de estampilhas»! A carícia
+demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava os
+endereços dos fabricantes para se prover de todas aquelas utilidades
+adoráveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
+fácil! Mas era necessário o talento, o gosto de Jacinto, para escolher,
+para «criar!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ela
+ofertava o fino mel. Afagando com o cabo da luneta o Telégrafo, achou
+a possibilidade de recordar a eloquência do Historiador. Mesmo para mim
+(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Fonógrafo, e acerca de
+«vozes de amigos que é doce coleccionar», uma lisonjazinha redondinha e
+lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vai
+atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ela
+nutria uma vaidade. Sôfrego de outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
+sussurrante e cor de açafrão. Ela parara diante da Máquina de contar, de
+que Jacinto já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
+de novo roçou os buracos de onde espreitam os números negros, e com o seu
+enlevado sorriso murmurou:--«Prodigiosa, esta prensa eléctrica!...»
+
+Jacinto acudiu:
+
+--Não! Não! Esta é...
+
+Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não compreendera nenhum
+aparelho do meu Príncipe! Madame de Trèves não atendera a nenhuma
+dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete de sumptuosa Mecânica
+ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeição, a
+Arte de Agradar. Toda ela era uma sublime falsidade. Não escondi a
+Danjon a admiração que me penetrava.
+
+O facundo Académico revirou os olhos bogalhudos:
+
+--Oh! e um gosto, uma inteligência, uma sedução!... E depois como se
+janta bem em casa dela! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!
+
+Deslizei para a biblioteca. Logo à entrada da erudita nave, junto da
+estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
+a saudar o director do _Boulevard_ e o Psicólogo feminista, o autor do
+_Coração Triplo_, com quem na véspera me familiarizara ao almoço, no
+202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
+presença, reteve na sua mão ilustre, rutilante de anéis, com força e
+com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aqueles senhores, com
+efeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado nessa semana
+entre gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada à Van Dick e que parecia
+postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrara tão
+fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psicologia Experimental!
+Todos concordavam, se apertavam contra o Psicólogo, o tratavam por
+«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarela da
+_Couraça_, mas para quem ele voltava os olhos pedinchões e famintos de
+mais mel, murmurei com um leve assobio:--«uma delícia!»
+
+E o Psicólogo, reluzindo, com o lábio húmido, entalado num alto
+colarinho onde se enroscava uma gravata à 1830, confessava modestamente
+que dissecara todas aquelas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
+sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
+sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
+bolsos:
+
+--No entanto, meu caro, nesse livro tão profundamente estudado há um
+erro bem estranho, bem curioso!...
+
+O Psicólogo, vivamente, atirara a cabeça para trás:
+
+--Um erro?
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre tão experiente!... Era
+atribuir à esplêndida amorosa da _Couraça_, uma duquesa, e do gosto
+mais puro,--_um colete de cetim preto_! Esse colete, assim preto, de
+cetim, aparecia na bela página de análise e paixão em que ela se
+despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
+bolsos, mais grave, apelava para aqueles senhores. Pois era
+verosímil, numa mulher como a duquesa, estética, pré-rafaelítica, que
+se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um
+colete de cetim preto?
+
+O Psicólogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
+suprema autoridade sobre a roupa íntima das duquesas, que à tarde, em
+quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anseios de alma
+dolorida--se põem em colete e saia branca!... De resto o director do
+_Boulevard_ condenara logo sem piedade, com uma experiência firme,
+aquele colete, só possível nalguma merceeira atrasada que ainda
+procurasse efeitos de carne nédia sobre cetim negro. E eu, para que me
+não julgassem alheio às coisas dos adultérios ducais e do luxo, acudi,
+metendo os dedos pelo cabelo:
+
+--Realmente, preto, só se estivesse de luto pesado, pelo pai!
+
+O pobre mestre da _Couraça_ sucumbira. Era a sua glória de Doutor em
+Elegâncias Femininas desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira
+uma duquesa desatacar o colete na sua alcova de Psicólogo! Então,
+passando o lenço sobre os lábios que a angústia ressequira, confessou o
+erro, e contritamente o atribuiu a uma improvisação tumultuosa:
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
+efeito! é absurdo, um colete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
+da alma da duquesa devia ser lilás, talvez cor de reseda muito
+desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso
+como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas,
+bem documentadas!...
+
+Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confissão. Fora um engano de
+artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
+profundidades negras das almas! Não reparara no colete, confundira os
+tons... E gritou, com os braços estendidos para o director do
+_Boulevard_:
+
+--Estou pronto a fazer uma rectificação, numa _interview_, meu caro
+mestre! Mande um dos seus redactores... Amanhã, às dez horas! Fazemos
+uma _interview_, fixamos a cor. Evidentemente é lilás... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! É também uma ocasião para eu confessar,
+bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito às ciências
+psicológicas e feministas!
+
+Assim ele suplicava, encostado à estante, às lombadas dos Santos
+Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca Jacinto que se
+debatia e se recusava entre dois homens.
+
+Eram os dois homens de Madame de Trèves--o marido, conde de Trèves,
+descendente dos reis de Cândia, e o amante, o terrível banqueiro judeu,
+David Efraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Príncipe que nem
+me reconheceram, ambos num aperto de mão mole e vago me trataram por
+«caro conde»! Num relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
+limoeiro, compreendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
+Birmânia_, medonha empresa em que cintilavam milhões, e para que os
+dois confederados de bolsa e de alcova, desde o começo do ano, pediam o
+nome, a influência, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, num enfado
+dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da
+Ásia. E agora o conde de Trèves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, eriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarela
+como um melão, assegurava ao meu pobre Príncipe que no Prospecto já
+preparado, demonstrando a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das
+_Mil e Uma Noites_. Mas sobretudo aquela escavação de esmeraldas
+convidava todo o espírito culto pela sua acção civilizadora. Era uma
+corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele
+aceitara a direcção por patriotismo...
+
+--De resto é um negócio de jóias, de arte, de progresso, que deve ser
+feito, num mundo superior, entre amigos...
+
+E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão curta e gorda sobre a
+sua bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assírio, afiançava
+o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam, os
+Nagayers, os Bolsans, os Saccart...
+
+Jacinto franzia o nariz, enervado:
+
+--Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que há
+esmeraldas?
+
+Tanta ingenuidade exasperou Efraim:
+
+--Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas
+desde que haja accionistas!
+
+E eu admirava a grandeza daquela máxima--quando apareceu, esbaforido,
+desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
+(António de Todelle), moço já calvo, de infinitas prendas, que conduzia
+Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.
+
+--Já veio?... Já cá está o Grão-Duque?
+
+Não, S. Alteza ainda não chegara. E Madame de Todelle?
+
+--Não pôde... No sofá... Esfolou uma perna.
+
+--Oh!
+
+--Quase nada... Caiu do velocípede!
+
+Jacinto, logo interessado:
+
+--Ah! Madame de Todelle anda já de velocípede?
+
+--Aprende. Nem tem velocípede!... Agora, na Quaresma, é que se aplicou
+mais, no velocípede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas ontem, no
+Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.
+
+E na sua própria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
+Efraim, brutal e sério, murmurou:--«Diabo! é no melhor sítio!» Mas
+Todelle nem o escutara, correndo para o director do _Boulevard_, que se
+avançava, lento e barrigudo, com o seu monóculo negro semelhante a um
+pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar profundo.
+
+Jacinto e eu entrámos então no bilhar, forrado de velhos couros de
+Córdova, onde se fumava. Ao canto de um divã, o grande Dornan, o poeta
+neoplatónico e místico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado
+nas almofadas, com um dos pés sob a coxa gorda, como um Deus índio, dois
+botões do colete desabotoados, a papeira caída sobre o largo decote do
+colarinho, mamava majestosamente um imenso charuto. Ao pé dele,
+também sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de
+cabelos brancos em anéis passados por trás das orelhas, a face coberta
+de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findara
+certamente alguma história de bom e grosso sal--porque diante do divã,
+de pé, Joban, o supremo Crítico de Teatro, ria com a calva escarlate de
+gozo, e um moço muito ruivo (descendente de Coligny), de perfil de
+periquito, sacudia os braços curtos como asas, e gania: «delicioso!
+divino!» Só o poeta idealista permanecera impassível, na sua majestade
+obesa. Mas, quando nos acercámos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois
+de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+pálpebras, começou numa voz de rico e sonoro metal:
+
+--Há melhor, há infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
+Noredal. Madame Noredal tem umas imensas nádegas...
+
+Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
+Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
+Fonógrafo uma ária da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros,
+numa surda irritação:
+
+--Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
+disso o Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. Nenhum
+trabalha!
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_... É mais
+de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...
+
+Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão cor
+de rosa murcha, onde, como Deusas num círculo escolhido do Olimpo,
+resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princesa de Carman, e
+uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
+de ombros tão nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o seu vestido
+branco com bordados de ouro pálido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--«Quem é?» Mas já o
+festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, numa
+familiaridade superior e fácil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
+de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
+gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
+quando Madame Verghane se ergueu do sofá onde conversava com um velho
+(que tinha a Grã-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
+pequena e nédia, na sua copiosa cauda de veludo verde-negro. Tão fina
+era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nu
+e cor de nácar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu lento
+ondular. Os seus famosos bandós negros, de um negro furioso, inteiramente
+lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de ouro que os circundava,
+reluzia uma estrela de brilhantes, como na fronte dos anjos de
+Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha autoridade no 202, ela
+despediu sobre mim ao passar, como raio benéfico, um sorriso que lhe
+liquescia mais os olhos líquidos, e murmurou:
+
+--O Grão-Duque vem, com certeza?
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
+
+--P'ra o peixe?...
+
+Mas justamente, na antecâmara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais, a
+marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo
+anunciava:
+
+--S. Alteza o Grão-Duque Casimiro!
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro de emoção, alteou o peito, como
+para lhe expor melhor a magnificência ebúrnea. E o homem do _Boulevard_,
+o velho da Grã-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a
+porta, na imensa sofreguidão de Pessoa Real.
+
+Precedido por Jacinto, o Grão-Duque surgiu. Era um possante homem, de
+barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
+com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
+quase sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a mão às senhoras que mergulhavam nos veludos e sedas, em
+mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
+ombro de Jacinto:
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?
+
+Um murmúrio de Jacinto tranquilizou S. Alteza.
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeirão de comando. Que
+eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
+deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
+Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
+Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
+galinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da galinhola!
+
+Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
+indignação:
+
+--Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
+Paris!
+
+Então, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde de
+Trèves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
+director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, atribuía
+a decadência da cozinha, em França, à República, ao gosto democrático e
+torpe pelo barato.
+
+--No Paillard, todavia...--começou o Efraim.
+
+--No Paillard! gritou logo o Grão-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
+os Borgonhas são tão maus!...
+
+Deixara pender os braços, os ombros, descoroçoado. Depois, com o seu
+lento andar balançado como o de um velho piloto, atirando um pouco para
+trás as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ela
+faiscou, no sorriso, nos olhos, nas jóias, em cada prega das suas sedas
+cor de salmão. Mas apenas a clara e macia criatura, batendo o leque como
+uma asa alegre, começara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do
+Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto:
+
+--Em comunicação com o Alcazar?... O Teatrofone?
+
+--Certamente, meu senhor.
+
+Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de não ouvir a Gilberte
+numa cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
+essa hora que ela cantava, no último acto da _Revista
+Eléctrica_...--Colou às orelhas os dois «receptores» do Teatrofone, e
+quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, num
+comando forte:
+
+--É ela! Chut! Venham ouvir!... É ela! Venham todos! Princesa de
+Carman, para aqui! Todos! É ela! Chut...
+
+Então, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada um
+provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles cavalheiros, se
+apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+imóveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão cor de rosa murcha,
+na nave da Biblioteca, onde se espalhara um silêncio augusto, só eu
+fiquei desligado do Teatrofone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.
+
+No relógio monumental, que marcava a hora de todas as Capitais e o
+movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
+mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos, daqueles decotes,
+a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
+orelha atenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
+Dornan, esboroado sobre a mesa, cerrara as pálpebras, numa meditação de
+monge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o «receptor» na ponta
+delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
+um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda lânguida, como se o fio
+lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo tímido.
+Mas caiu logo sobre mim um _chut_ severo do Grão-Duque! Recuei para
+entre as cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Filólogo
+da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
+o beiço, num esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
+numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane
+arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplicação
+conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone tão tristemente como sobre
+uma sepultura.
+
+Então, ante aqueles seres de superior civilização, sorvendo num
+silêncio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
+do solo de Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
+que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
+as chaminés negras dos Campos Elísios, também andava lá fugindo, mais
+lustrosa e mais doce, por cima dos pinheirais. As rãs coaxavam ao longe
+no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
+nuazinha e cândida...
+
+Uma das senhoras murmurou:
+
+--Mas, não é a Gilberte!...
+
+E um dos homens:
+
+--Parece um cornetim...
+
+--Agora são palmas...
+
+--Não, é o Paulin!
+
+O Grão-Duque lançou um _chut_ feroz... No pátio da nossa casa ladravam
+os cães. De além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
+encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
+ombro? E sentia, entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o
+cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos currais através
+das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...
+
+Despertei a um brado que não saía nem dos eidos, nem das sombras. Era o
+Grão-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os ombros:
+
+--Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que maçada!... Pois é
+uma beleza, a cançoneta:
+
+Oh les casquettes,
+Oh les casque-e-e-tes!...
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
+bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:
+
+--_Monseigneur est servi_!
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orquídeas mereceu os louvores ruidosos
+de S. Alteza, fiquei entre o etéreo poeta Dornan e aquele moço de
+penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
+desdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos,
+Dornan desenvencilhou da corrente do relógio uma enorme luneta para
+percorrer o _menu_--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de
+Apóstolo obeso:
+
+--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser autêntico...
+Hein?
+
+Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o «Porto» envelhecera nas adegas
+clássicas do avô Galeão. Ele afastou, numa preparação metódica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os
+escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço cor de milho,
+que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma
+desconsolação risonha:
+
+--Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!
+
+Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas
+do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lançara um riso mais
+cantado que um gorjeio. O Grão-Duque, numa silva de orquídeas que
+orlava o seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
+lacrau esverdinhado, de asas lustrosas, gordo e túmido de veneno: e
+muito delicadamente ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que,
+com trinado riso, solenemente, a colocou no seio. Colado àquela
+carne macia, de uma brancura de nata fina, o lacrau inchara, mais verde,
+com as asas frementes. Todos os olhos se acendiam, se cravavam no lindo
+peito, a que a flor disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela
+reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades
+flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o
+prato vazio. E o alto lírico do _Crepúsculo Místico_, passando a mão
+pelas barbas, rosnou com desdém:
+
+--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem nádegas!
+
+No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. Não
+possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo!...
+
+--Para quê, meu caro senhor?
+
+Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis faiscaram:
+
+--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de
+flores de Civilização, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de
+dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de
+século!
+
+E como eu o considerava assombrado, ele, bebendo golos de
+Chateau-Yquem, declarou que hoje a única emoção, verdadeiramente fina,
+seria aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as artes, nem o
+dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real às nossas
+almas saciadas. Todo o prazer que se extraíra de _criar_ estava
+esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
+Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido por outro
+cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacara
+como no conto do Palácio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
+famoso da Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os
+escudeiros sumidos!
+
+Felizmente o Grão-Duque contava a história de uma caçada, nas coutadas de
+Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara bruscamente
+do cavalo, num descampado, sem árvores. Ele e todos os caçadores
+param--e a galante senhora, lívida, com a amazona arregaçada, corre para
+trás de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a banqueira,
+nesse descampado, agachada atrás da pedra--porque justamente o mordomo
+apareceu, reluzente de suor, e balbuciou uma confidência a Jacinto,
+que mordeu o beiço, trespassado. O Grão-Duque emudecera. Todos se
+entreolhavam, numa ansiedade alegre. Então o meu Príncipe, com
+paciência, com heroicidade, forçando palidamente o sorriso:
+
+--Meus amigos, há uma desgraça...
+
+Dornan pulou na cadeira:
+
+--Fogo?
+
+Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
+subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado!
+
+O Grão-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
+um esmalte mal posto:
+
+--Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
+estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram à
+mão, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+tropeçava, vergava os ombros, ante esta esmagadora cólera de Príncipe.
+Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
+não me contive, também me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
+enquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe!
+
+O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
+mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
+Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
+larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
+fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata,
+torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos
+cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de
+bronze eterno.
+
+Sedas roçagaram à entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atrás Madame
+Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade daquele lance em que
+o Príncipe soltara tanta paixão. Marizac, nosso íntimo, surgiu também,
+risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
+Psicólogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo intenções sagazes
+ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Grão-Duque, escarlate,
+mostrava com dedo trágico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
+afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
+quase se despenhou. O periquito descendente de Coligny batia as asas,
+ganindo:--«Que cheiro ele deita, que delícia!» Na copa atulhada os
+decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
+de arroz meteu o pé num balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.
+
+De repente, Todelle teve uma ideia!
+
+--É muito simples... É pescar o peixe!
+
+O Grão-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Está claro! Pescar o
+peixe! E no gozo daquela facécia, tão rara e tão nova, toda a sua
+cólera se sumira, de novo se tornara o Príncipe amável, de magnífica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir à pesca
+miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
+divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
+Imediatamente Madame d'Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos.
+Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele,
+todos exaltámos a amorável dedicação. E o Psicólogo proclamou que nunca
+se pescara com tão divino anzol!
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
+cordel, já o Grão-Duque, radiante, vergara o gancho em anzol. Jacinto,
+com uma paciência lívida, erguia uma lâmpada sobre a escuridão do poço
+fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
+_Boulevard_, o Conde de Trèves, o homem de cabeça à Van-Dick, sorriam,
+amontoados à porta, num interesse reverente pela fantasia de S.
+Alteza. Madame de Trèves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
+luneta, a instalação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
+punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tédio
+sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
+
+No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
+agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
+fisgava.
+
+--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o pode prender.
+Agora... Qual! Que diabo! Não vai!
+
+Tirou a face do poço, resfolgando e afrontado. Não era possível! Só
+carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, bradámos que se
+abandonasse o peixe!
+
+O Príncipe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fora
+mais divertido pescá-lo do que comê-lo!» E o elegante bando refluiu
+sofregamente para a mesa, ao som de uma valsa de Strauss, que os Tziganes
+arremessaram em arcadas de lânguido ardor. Só Madame de Trèves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto admirava
+o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que compreensão da vida, que fina
+inteligência do conforto!
+
+S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvaziou poderosamente dois copos de
+Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os
+escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezírias
+marinhas, que, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome
+sonoro e entra no Nobiliário de França.
+
+Eu comi com o apetite de um herói de Homero. Sobre o meu copo e o de
+Dornan o Champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como uma
+fonte de Inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
+na boca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
+a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de penugem loura
+insistia pela destruição do velho mundo, também concordei, e, sorvendo o
+Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Século, a Civilização,
+todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das luzes, no
+entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
+que ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a
+doçura de S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martírio e da
+sua festa.
+
+Ela findou. Ainda recordo, às três horas da noite, o Grão-Duque na
+antecâmara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
+com as mangas da peliça que Jacinto e eu lhe ajudámos a
+enfiar--convidando o meu amigo, numa efusão carinhosa, a ir caçar às
+suas terras da Dalmácia...
+
+--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela
+caçada!
+
+E enquanto o acompanhávamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
+escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de três lumes,
+S. Alteza repisava, pegajoso:
+
+--Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom Fernandes, Zé
+Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O _Barão de Pauillac_,
+divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
+Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
+Ah!... Não venham fora! Não se constipem!
+
+E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:
+
+--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoço, frio,
+com molho verde!
+
+Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em
+que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Príncipe:
+
+--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
+elevador...
+
+E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:
+
+--Uma maçada! E tudo falha!
+
+ * * * * *
+
+Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu Príncipe
+inesperadamente, de Portugal, uma nova considerável. Sobre a sua quinta
+e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora de
+vento, corisco e água. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que
+os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
+Silvério), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o vale
+da Carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rústica
+do século XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacinto desde os
+tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos veneráveis desses Jacintos jaziam
+agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silvério já
+começara com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas
+esperava ansiosamente as ordens de sua exc.^a...
+
+Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo
+e firme desde os Godos, que de repente ruía! Esses jazigos de paz
+piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
+fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
+uma história, confundidas num lixo de ruína!
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...
+
+E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
+de faias seculares, se erguia a duas léguas da nossa casa, no antigo
+caminho de Guiães à estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
+depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casarão
+de granito, e avaliara o grão espalhado pelas salas sonoras, e provara o
+vinho novo nas adegas imensas...
+
+--E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja?
+
+--Nunca... Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra,
+onde há muitos anos vivia uma família de cegonhas... Terrível
+transtorno para as cegonhas!
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Príncipe, agourado.
+
+E telegrafou ao Silvério que desatulhasse o vale, recolhesse as
+ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e
+reverência, gastasse o dinheiro, sem contar, como a água de um rio largo.
+
+
+
+
+V
+
+
+No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
+torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
+encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
+resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas
+acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as
+rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas
+dos Campos Elísios que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu,
+envolta num pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o
+retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
+doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
+madrugada, ranchos de operários, de blusas brancas, assobiando o
+_Petit-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
+fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
+com perícia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
+uma pilha de tábuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme
+de argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente,
+como num cadáver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
+sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.
+
+Cada dia estacava diante do portão alguma lenta carroça, donde os
+criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
+de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao
+fundo do jardim, por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado
+pelo meu Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos tornaria a vida
+mais fácil, estabelecendo de um modo mais seguro o nosso domínio sobre a
+Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão,
+ensaiámos esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se amontoaram na
+copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um
+instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente.
+Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer
+freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
+o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos
+uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares, para aliviar ou
+apressar o esforço, se socorria Jacinto da Dinâmica. E agora era por
+intervenção de uma Máquina que abotoava as ceroulas.
+
+E simultaneamente, ou em obediência à sua Ideia, ou governado pelo
+despotismo do hábito, não cessava, ao lado da Mecânica acumulada, de
+acumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitários, aos
+pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
+autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de
+marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
+largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se
+repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas
+robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas,
+como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia
+espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
+restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um
+pensativo crepúsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A
+Biblioteca transbordara através de todo o 202! Não se abria um armário
+sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não
+se franzia uma cortina sem que de trás surgisse, hirta, uma ruma de
+livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo
+urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda
+colecção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet!
+
+Mais amargamente porém me lembro da noite histórica em que, no meu
+quarto, moído e mole de um passeio a Versalhes, com as pálpebras
+poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
+praguejando, um pavoroso Dicionário de Indústria em trinta e sete
+volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros,
+os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facúndia humana... E já me
+estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rótula do
+joelho, contra a lombada de um tomo que velhacamente se aninhara entre a
+parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
+nem sei se depois adormeci--porque os meus pés, a que não sentia nem o
+pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
+tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
+luar branqueava, depois na Avenida dos Campos Elísios, povoada e ruidosa
+como numa festa cívica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
+livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
+títulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
+brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia,
+avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
+arquejante, ora enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Crítica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das
+nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam
+serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
+donde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao
+Paraíso. Decerto era o Paraíso--porque com meus olhos de mortal argila
+avistei o Ancião da Eternidade, aquele que não tem Manhã nem Tarde.
+Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades,
+entre fundas estantes de ouro abarrotadas de códices, sentado em
+vetustíssimos fólios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
+sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos--o Altíssimo
+lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a mão
+superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria. Ousei,
+arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro
+coruscante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno lia
+Voltaire, numa edição barata, e sorria.
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se alguém penetrasse no Paraíso. Pensei
+que um Santo novo chegara da Terra. Era Jacinto, com o charuto em
+brasa, um molho de cravos na lapela, sobraçando três livros amarelos
+que a Princesa de Carman lhe emprestara para ler!
+
+ * * * * *
+
+Numa dessas activas semanas, porém, a minha atenção subitamente se
+despegou deste interessante Jacinto. Hóspede do 202, conservava no 202
+a minha mala e a minha roupa: e, acostado à bandeira do meu Príncipe,
+ainda ocasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha
+alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam então na rua do Hélder, n.^o 16, quarto andar, porta à
+esquerda.
+
+Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensações, o Boulevard da
+Madalena, quando avistei, diante da Estação dos Ónibus, rondando no
+asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena,
+quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata
+de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de
+plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A
+criatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
+telhado, ao luar de Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não
+recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e
+ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica por entre os
+dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
+silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e
+morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão de um rito triste,
+tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do
+corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram
+imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons
+amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma
+torta ao sair quente do forno.
+
+Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
+
+--E o nomezinho, hein?
+
+Ela séria, quase grave:
+
+--Madame Colombe, 16, rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.
+
+E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado
+por uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova de Café,
+a majestade de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado
+avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e
+Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
+convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a
+tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre
+saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo
+mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em
+frente à grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--«Moro
+ali, todo o ano!...» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela
+roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba--berrei
+desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Hélder, n.^o
+16, quarto andar, porta à esquerda!
+
+Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os
+Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
+como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um
+bode ama uma cabra. Era estúpida, era triste. Eu deliciosamente apagava
+a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com inefável gosto afundava
+a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
+semanas perdi a consciência da minha personalidade de Zé
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me afigurava
+ser um pedaço de cera que se derretia, com horrenda delícia, num forno
+rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
+flamejava, estalava e se consumia um molho de galhos secos. Desses
+dias de sublime sordidez só conservo a impressão de uma alcova forrada de
+cretones sujos, de uma bata de lã cor de lilás com sotaches negros, de
+vagas garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, e de um corpo
+tisnado que rangia e tinha cabelos no peito. E também me resta a
+sensação de incessantemente e com arroubado deleite me despojar,
+arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns
+joelhos agudos, o meu relógio, os meus berloques, os meus anéis, os
+meus botões de punho de safira, e as cento e noventa e sete libras em
+ouro que eu trouxera de Guiães numa cinta de camurça. Do sólido,
+decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando
+através de um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer.
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+Hélder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira aquele
+cartão de _Madame Colombe_ que eu lia sempre tão devotamente e que era a
+sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse!
+Aquela era a porta do Mundo que ante mim se fechara! Para além estavam
+as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho,
+naquele patamar do Não-Ser, fora da porta que se fechara, único ser
+fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoerência de uma
+pedra, até ao cubículo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
+em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado
+o Universo!
+
+--Madame Colombe?
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
+
+--Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de todo o
+pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
+tonel vazio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei num
+banco da Praça da Madalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a
+febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já
+se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, dentre
+todas estas confusas ruínas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
+as ruínas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
+entorpecidos de um ressuscitado. E, numa recordação que me escaldava a
+alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira
+da Madalena, pensei com desconforto:--«Santíssimo Nome de Deus! Que
+imensa sede me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao moço:--«Antes
+do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito gelo, e um grande
+copo!...» Creio que aquele Champanhe se engarrafara no Céu onde corre
+perenemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bendita que
+me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro largo dessa fonte
+inefável. Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo,
+embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois,
+garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortelã-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo arquejante de
+espancar, com o meu rijo marmeleiro de Guiães, a porca que fugira com
+outra porca! Dentro da tipóia fechada, que me transportou num galope ao
+202, não sufoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
+atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
+_via_ a mata imensa de pêlo amarelo, em que a minha alma uma tarde
+se perdera, e três meses se debatera, e para sempre se emporcalhara!
+Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a
+besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dois moços acudiram e me
+sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos
+cansados da minha cólera.
+
+Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao _siô_ Zé
+Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a imensa indignidade de um chá de
+macela! E estirado no leito de D. Galeão, com as botas sobre o
+travesseiro, o chapéu alto sobre os olhos, ri, num doloroso riso,
+deste Mundo burlesco e sórdido de Jacintos e de Colombes! E de repente
+senti uma angústia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que
+esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara
+o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as
+saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara o meu coração, e
+chupava a sorvos lentos, como na rua do Hélder, o sangue do meu coração!
+Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicência, pendi do leito para
+mergulhar na minha sepultura, que, através da névoa final, eu distinguia
+sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a
+minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao meu vaso,
+vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, num
+esforço ultrahumano, com um rugido, sentindo que, não somente toda a
+entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Recaí
+sobre o leito de D. Galeão... Recarreguei o chapéu sobre os olhos para
+não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
+erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente
+embalada num berço de verga pelo Anjo da Guarda.
+
+De manhã, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os
+aromas do 202, desde folhas de limonete da Índia até essência de jasmim
+de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicência, em letra
+farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
+compota de ginja que nunca lhe saíra tão fina, e da alegre fogueira do
+pátio em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabeluda que
+viera do céu para a minha afilhada Joaninha. Depois, à janela, bem
+limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca, tomando chá
+de Naïpò, respirando os rosais do jardim revividos pela chuva da
+madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
+emporcalhara, na rua do Hélder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera de uma longa sezão, sezão da carne, sezão
+da imaginação, apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se
+formam através da Cidade com as águas mortas, os limos, os lixos, os
+tortulhos e os vermes de uma Civilização que apodrece.
+
+ * * * * *
+
+Então, curado, todo o meu espírito, como uma agulha para o Norte, se
+virou logo para o meu complicado Príncipe, que, nas derradeiras semanas
+da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descaído por cima de
+sofás, ou vagueando através da Biblioteca entre os seus trinta mil
+volumes, com arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, só lhe lançava um distraído--«que é isso?» Ele, no seu
+moroso desalento, só murmurava um seco--«é calor!»
+
+E, nessa manhã da minha libertação, ao penetrar antes de almoço no seu
+quarto, no sofá o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
+barriga, a Agenda caída sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os pés abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
+as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e repurificado, a brancura das
+minhas flanelas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Príncipe--a quem a melancolia nunca embotava a
+agudeza. Ergueu molemente um braço mole:
+
+--Então esse capricho?
+
+Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:
+
+--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou
+antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
+esgoto!
+
+Jacinto bocejou, murmurou:
+
+--Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele Príncipe pela
+suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou
+esse consumado egoísmo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto
+atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na
+sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos de um camarada não o
+comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua
+sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe da
+Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do
+pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão bravamente
+todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a Força e
+a Matéria!--E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes
+quando recomeçou entre nós a comunhão de vida e de alma a que eu tão
+torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Estação dos Ónibus, no
+charco da Madalena.
+
+Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado
+Jacinto não torcia os braços, gemendo--«Oh vida maldita!» Eram apenas
+expressões saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das
+coisas; por vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo
+de um divã, donde se não desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava
+cada passo, continuado por fraqueza ou por dever iniludível; e
+sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural--«Para
+quê?»--«Não vale a pena!»--«Que maçada!...»
+
+Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo:
+
+--Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo?
+
+O venerando preto declarou com uma certeza imensa:
+
+--S. Exc.^a sofre de fartura.
+
+Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
+na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como
+ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia
+saborear plenamente a «delícia de viver», ele não encontrava agora
+forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
+esforço de uma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Crónica até aos Anúncios,
+com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitário,
+que só possuísse na sua Solidão esse alimento intelectual, do que o
+Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse Verão
+capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão
+d'Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira com um
+maravilhoso ramo de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o
+castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada,
+que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com veemente
+arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubes, ao fundo
+dos Campos Elísios. Não se ocupara mais das suas Sociedades e
+Companhias, nem dos _Telefones de Constantinopla_, nem das _Religiões
+Esotéricas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
+amontoavam sobre a mesa de ébano, donde o Grilo as varria tristemente
+como o lixo de uma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as
+suas convivências. As páginas da Agenda cor-de-rosa murcha andavam
+desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-Coach, ou a
+um convite para algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era tão
+arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletó leve,
+que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de província,
+a estalar, que, por polidez ou em obediência a um dogma, devesse ainda
+comer uma lampreia de ovos!
+
+Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem
+defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu
+Príncipe se o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de
+Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa de abafamento, de
+atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos móveis
+roliços e fofos, todos os seus metais e todos os seus livros, tão
+espessamente o oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para
+prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira,
+suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
+
+--Oh, este pó da Cidade!
+
+--Mas, oh Jacinto, por que não vamos para Fontainebleau, ou para
+Montmorency, ou...
+
+--P'ra o campo? O quê! P'ra o campo?!
+
+E na sua face enrugada, através deste berro, lampejava sempre tanta
+indignação, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento de ter
+afrontosamente ultrajado o Príncipe que tanto amava. Desventurado
+Príncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas
+salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeições
+e sem ocupações. Esses desafeiçoados e desocupados passos
+monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca
+de ébano, onde acumulara Civilização nas máximas proporções para gozar
+nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava em torno um olhar
+farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mãos,
+enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inércia de
+derrota. Anulado, bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais
+instrutivo e doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio
+de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios
+que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universais, e dos seus trinta
+mil volumes repletos do saber dos séculos--estacando, com as mãos
+derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão
+mole de um bocejo, o embaraço de viver!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o que
+cansa jamais cansam, Jacinto, às quatro horas, com regularidade devota,
+visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de Parisianismo permanecera
+em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
+Cidade. Numa dessas tardes, porém, o Telefone, ansiosamente repicado,
+avisou Jacinto de que a sua doce amiga jantava em Enghien com os
+Trèves. (Esses senhores gozavam o seu Verão à beira do lago, numa casa
+toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Efraim).
+
+Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri
+a Jacinto que subíssemos à Basílica do _Sacré-Coeur_, em construção
+nos altos de Montmartre.
+
+--É uma seca, Zé Fernandes...
+
+--Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...
+
+--Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha e Sande!
+
+E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de
+Paula, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província,
+com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas
+cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante
+das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando
+em canas--o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza
+das coisas.
+
+A vitória parou em frente à larga rua de escadarias que trepa, cortando
+vielazinhas campestres, até à esplanada, onde, envolta em andaimes, se
+ergue a Basílica imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto,
+forradas de paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
+Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retrós, claros molhos de
+Rosários. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Ave-Maria. Dois
+padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
+na doçura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:
+
+--É curioso!
+
+Mas a Basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e
+andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
+Jacinto, por um impulso bem Jacíntico, caminhou gulosamente para a
+borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície
+cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
+de caliça e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de
+fumo, mais ténue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo
+o vestígio visível da sua vida magnífica.
+
+Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. Aí estava pois a Cidade,
+augusta criação da Humanidade! Ei-la aí, belo Jacinto! Sobre a crosta
+cinzenta da Terra--uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No
+entanto ainda momentos antes a deixáramos prodigiosamente viva, cheia
+de um povo forte, com todos os seus poderosos órgãos funcionando,
+abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiência, na triunfal
+plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora
+eu e o belo Jacinto trepávamos a uma colina, espreitávamos,
+escutávamos--e de toda a estridente e radiante Civilização da Cidade não
+percebíamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
+seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mecânica, os seus
+trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para
+este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de cem
+metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço?
+Hein, Jacinto?... Onde estão os teus Armazéns servidos por três mil
+caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas
+atulhadas com o saber dos séculos? Tudo se fundiu numa nódoa parda que
+suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que ele suba,
+fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a sublime edificação dos
+Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do pó
+final. O que será então aos olhos de Deus!
+
+E ante estes clamores, lançados com afável malícia para espicaçar o meu
+Príncipe, ele murmurou, pensativo:
+
+--Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a Cidade a maior ilusão!
+
+Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. Certamente, meu
+Príncipe, uma Ilusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
+Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a
+sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza
+harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou
+obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos
+como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem
+sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
+espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na
+Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma
+necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre
+e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar,
+rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o
+enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos,
+serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A
+sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os Santos)
+onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada
+pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia
+rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de
+seres que tumultuam na arquejante ocupação de _desejar_--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança
+ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
+desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do
+viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
+faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com
+desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o
+interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata
+apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
+rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto?
+Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva
+se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho
+Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão
+a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
+caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei
+natural, e busca tristemente os recantos lôbregos de Sodoma ou de
+Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência,
+porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a
+extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que
+constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela
+envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as
+expressões já exprimidas:--ou então, para se destacar na pardacenta e
+chata Rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num
+gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e
+que detenha a multidão como um mostrengo numa Feira. Todos,
+intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
+mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
+as pegadas pisadas;--e alguns são macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade,
+nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e
+alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como
+o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram através de arames--o homem aparece como uma criatura
+anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem
+sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo
+ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a
+bela Cidade!
+
+E ante estas encanecidas e veneráveis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas bucólicos, desde Hesíodo, através
+dos séculos--o meu Príncipe vergou a nuca dócil, como se elas
+brotassem, inesperadas e frescas, de uma Revelação superior, naqueles
+cimos de Montmartre:
+
+--Sim, com efeito, a Cidade... É talvez uma ilusão perversa!
+
+Insisti logo, com abundância, puxando os punhos, saboreando o meu fácil
+filosofar. E se ao menos essa ilusão da Cidade tornasse feliz a
+totalidade dos seres, que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e
+reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O
+resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos
+especiais que só nela existem! Deste terraço, junto a esta rica
+Basílica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por ele sangrou, bem
+avistamos nós o lôbrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
+opróbrio de que nem Religiões, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua
+própria força brutal a poderão jamais libertar! Aí jaz, espalhada pela
+Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os séculos rolam; e
+sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles,
+através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com
+este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a
+abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se não
+abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham;
+abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a
+neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas
+pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
+cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus trapos: e a
+polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido
+sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
+Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! a tua
+Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,
+nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada
+arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que
+incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a
+condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigelas fumegasse a
+justa ração de caldo--não poderia aparecer nas baixelas de prata a
+luxuosa porção de _foie-gras_ e túbaras que são o orgulho da
+Civilização. Há andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas
+d'Oriol, resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce ondulação, a
+escadaria da Ópera. Há mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos
+que agradecem o dom magnânimo de um _sou_--para que os Efrains tenham
+dez milhões no Banco de França, se aqueçam à chama rica da lenha
+aromática, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas
+dos Duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
+pequeninos--para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando,
+sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio
+de éter!
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, tu e eu!
+
+Ele murmurou, desolado:
+
+--É horrível, comemos desses morangos... E talvez por uma ilusão!
+
+Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade,
+estendida na planície, fosse escandalosa. E caminhámos devagar, sob a
+moleza cinzenta da tarde, filosofando--considerando que para esta
+iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os
+Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só
+abandonarão ou afrouxarão a exploração das Plebes, se uma influência
+celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
+converter as almas! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no
+pecado--e contra ele são impotentes os prantos dos Humanitários, os
+raciocínios dos Lógicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão
+duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente
+posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Céus; e,
+para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
+porta de um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um
+meigo sermão numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma repreensão
+moderada aos Fariseus que então redigiam o _Boulevard_; algumas
+vergastadas nos Efrains vendilhões; e logo, através da porta da morte,
+a fuga radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus teve
+demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele
+incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influências
+dos Efrains, dos Trèves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
+esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberíade--e eis que por seu
+turno revestem a púrpura, e são Bispos, e são Papas, e se aliam à
+opressão, e reinam com ela, e edificam a duração do seu Reino sobre a
+miséria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da
+Redenção. Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que
+Deus por vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos vergéis da
+Ásia, deverá novamente descer à terra de servidão. Virá ele, o
+desejado? Porventura já algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a
+estrela, e tomou a mirra nas suas mãos reais, e montou pensativamente
+sobre o seu dromedário? Já por esses arredores da dura Cidade, de noite,
+enquanto Caifás e Madalena ceiam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
+atento, num voo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que
+os tanja, na gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca,
+trotando o burrinho?
+
+--Tu sabes, Jacinto?
+
+Não, Jacinto não sabia--e queria acender o charuto. Forneci um
+fósforo ao meu Príncipe. Ainda rondámos no terraço, espalhando pelo ar
+outras ideias sólidas que no ar se desfaziam. Depois penetrávamos na
+Basílica--quando um Sacristão nédio, de barrete de veludo, cerrou
+fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
+cansado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviário.
+
+--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
+comprou uma imagem da Basílica. E saltávamos para a vitória, quando
+alguém gritou rijamente, numa surpresa:
+
+--Eh Jacinto!
+
+O meu Príncipe abriu os braços, também espantado:
+
+--Eh Maurício!
+
+E, num alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de
+riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto,
+com o chapéu de palha descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
+de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras
+do seu jardim.
+
+E ambos, apertando as mãos, se admiravam daquele encontro, num
+domingo de Verão, sobre as alturas de Montmartre.
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Maurício. Em
+família, em chinelos... Há três meses que subi para estes cimos da
+Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planície e das ruas
+de Israel!
+
+O meu Príncipe mostrou o seu Zé Fernandes:
+
+--Com este amigo, em peregrinação à Basílica... O meu amigo Fernandes
+Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
+Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapéu de palha. E
+empurrava uma cadeira, insistia que nos acomodássemos para um absinto
+ou para um bock.
+
+--Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a ganir com
+sede!
+
+Corri lentamente a língua sobre os beiços, mais secos que pergaminhos:
+
+--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um
+vinhozinho gelado!
+
+Maurício saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malícia. E
+imediatamente, para o meu Príncipe:
+
+--Há três anos que te não vejo, Jacinto... Como tem sido possível,
+neste Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?
+
+--A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! Há três anos,
+desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuário?
+
+Maurício atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
+
+--Oh! Há mais de um ano que me separei dessa bicharia herética... Uma
+turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo
+estonteado, carência completa e cómica de toda a base experimental...
+Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola do 37, e à _Cerveja Ideal_,
+o que reinava?...
+
+Jacinto catou lentamente as suas recordações por entre os pêlos do
+bigode:
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Édica, e o Raganarock, e as
+Nornas... Muito Pré-Rafaelismo também, e Montagna, e Fra Angelico... Em
+moral, o Renanismo.
+
+Maurício sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
+arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilara a
+sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de açafrão, já o
+Renanismo passara, tão esquecido como o Cartesianismo...
+
+--Tu ainda és do tempo do culto do _Eu_?
+
+O meu Príncipe suspirou risonhamente:
+
+--Ainda o cultivei.
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um
+furor imenso de renunciamento neo-cenobítico. Ainda me lembro de um
+jantar em que apareceu um mostrengo de um eslavo, de guedelha sórdida,
+que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e
+que grunhia com o dedo espetado:--«Busquemos a luz, muito por baixo, no
+pó da terra!»--E à sobremesa bebemos à delícia da humildade e do
+trabalho servil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde
+dava nos grandes dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio
+Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma
+Babel de Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já havia uns
+desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
+coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada
+místico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que depois se fez
+Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
+repente, toda esta massa se precipita com ânsia para o Ruskinismo!
+
+Eu, agarrado à bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que
+redemoinhava, me torcia o crânio! E até Jacinto balbuciou, esgazeado:
+
+--O Ruskinismo?
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
+
+O meu ditoso Príncipe compreendeu:
+
+--Ah, Ruskin!... _As sete lâmpadas da Arquitectura_, _A Coroa de
+Oliveira Brava_... É o culto da Beleza.
+
+--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maurício. Mas a esse tempo eu,
+enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais
+seguro, mais fértil.
+
+Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as pálpebras. Jacinto
+esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flor de
+Novidade que ia desabrochar:
+
+--E então? então?...
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticências em que se
+velava:
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de génio, que
+percorreu toda a Índia... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
+Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
+de Urga... Gegen-Chutu foi a décima sexta encarnação de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões.
+Mas factos, experiências bem antigas, que vêm talvez desde os tempos de
+Cristna...
+
+Através destes nomes, que exalavam um perfume triste de vetustos
+ritos, arredara a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa,
+distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata e moedas de
+cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, mas perdidos
+noutra visão:
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
+suprema pureza da Vida. É toda a ciência e força dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstáculo!
+Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
+Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, já obtivemos resultados bem
+estranhos. Sabes as experiências de Tyndall, com as chamas
+sensitivas... O pobre químico, para demonstrar as vibrações do som,
+tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas quê! homem de ciência,
+portanto homem de estupidez, ficou aquém, entre as suas placas e as suas
+retortas! Nós fomos além. Verificámos as _ondulações da Vontade_! Diante
+de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadência com o
+seu mandado, uma chama, a três metros, ondulou, rastejou, despediu
+línguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
+resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
+morreu!
+
+E o estranho homem, com o chapéu para a nuca, ficou imóvel, de braços
+abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
+daquele prodígio. Depois, recaindo no seu modo fácil e sereno,
+acendendo de vagar um cigarro:
+
+--Uma destas manhãs, Jacinto, apareço no 202, para almoçar contigo, e
+levo o meu amigo. Ele só come arroz, uma pouca de salada, e fruta. E
+conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
+_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
+
+Apertou a mão do meu Príncipe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e
+serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapéu de palha para a nuca,
+as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre coisas
+naturais.
+
+--Oh Jacinto! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é ele, santíssimo nome
+de Deus?
+
+Recostado na vitória, ajeitando o vinco das calças, o meu Príncipe
+contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
+inteligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
+de Septimânia... E murmurou, através do costumado bocejo:
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo
+esotérico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma maçada!
+
+Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do
+crepúsculo de Verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão de Armenonville,
+onde os Tziganes, avistando Jacinto, tocaram o _Hino da Carta_ com
+paixão, com langor, numa cadência de _czarda_ dolorosa e áspera.
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
+
+--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado!
+Grandemente o mereço, caramba, que superiormente filosofei!... E creio
+que estabeleci definitivamente no espírito do Sr. D. Jacinto o salutar
+horror da cidade!
+
+O meu Príncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto
+o Copeiro, esperava com pensativa reverência:
+
+--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.^t Marceaux... Mas antes, um
+Barsac velho, apenas refrescado... Água de Evian... Não, de Bussang!
+Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
+com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde
+e dominar a Cidade...
+
+
+
+
+VII
+
+
+Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
+realizar finalmente a minha romagem às cidades da Europa, sempre
+retardada, através da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne.
+Mas, de repente, Jacinto começou a rogar e a reclamar que o seu Zé
+Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
+eu compreendi que o meu Príncipe (à maneira do divino Aquiles, que,
+sob a tenda, e junto da branca, insípida e dócil Briseis, nunca
+dispensava Pátroclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o
+conforto e o socorro da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manhã
+combinava pelo telefone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e
+doçura. E assim encontrávamos sempre a superfina Dama prevenida e
+solitária naquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal
+cabíamos, sufocávamos na confusão, entre os cestos de flores, e os
+ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos
+Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés de sofás adormecedores, e
+os biombos de Aubusson formando alcovas favoráveis e lânguidas...
+Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas
+aromatizadas de verbena da Índia, com um romance pousado no regaço, ela
+esperava o seu amigo, numa certa indolência passiva e mansa que me
+lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, pelas frescas sedinhas
+Pompadour, parecia também uma marquesinha de Versalhes cansada do grande
+século; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na
+intimidade daquelas tardes, não a contrariava--antes lhe trazia um
+vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu
+_cher Fernandez_!
+
+E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, semelhantes a uma
+ferida fresca, e começava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
+murmuração de Paris. Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
+resumo da sua Classe, e sobre a sua existência que era o resumo do seu
+Paris:--e a sua existência, desde casada, consistira em ornar com
+suprema ciência o seu lindo corpo; entrar com perfeição numa sala e
+irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
+costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vitória como uma imagem de
+cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em
+mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
+vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e
+as «Festas» do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--«Ah,
+és tu?...» Além disso, ao lusco-fusco, num sofá, alguns certos
+suspiros, entre os braços de alguém a quem era constante. Ao meu
+Príncipe, nesse ano, pertencia o sofá. E todos estes deveres de
+Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
+já duas pregas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas
+nem na alma, nem na pele, mostrava outras máculas de fadiga. A sua
+Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do Nobiliário.
+Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjara no cérebro
+(onde de certo penetrara o pó de arroz que desde o colégio acamava na
+testa) algumas Ideias Gerais. Em Política era pelos Príncipes; e todos os
+outros «horrores», a República, o Socialismo, a Democracia que se não
+lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
+juntava às rendas do chapéu a Coroa amarga de espinhos--por serem esses,
+para a gente bem-nascida, dias de penitência e dor. E, diante de todo o
+Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o
+juízo, que no seu Mundo, e nessa Semana, fosse elegante formular e
+sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embaraçara nos tormentos de uma
+paixão. Marcava, com rígida regularidade, todas as suas despesas num
+Livro de Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua religião íntima
+(e mais genuína do que a outra, que a levava todos os domingos à missa
+de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amável
+cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem
+abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava também os de Caridade--porque era boa, e
+concorria para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando fossem patrocinados
+pelas Duquesas do seu «rancho». Depois, na Primavera, muito
+metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
+Inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo.
+
+Pois respirando esta macia e fina flor passámos nós as tardes desse
+Julho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no pó.
+Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar esse
+contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era já com
+a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvários, os mais bem
+tapetados, que ele subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e
+orlada de tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com
+dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão
+desdobra a cauda, o meu pobre Príncipe puxava os pêlos do bigode
+murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, enquanto os
+melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso
+fúnebre por um Príncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mão da
+sua doce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e alívio.
+
+Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da
+Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telégrafo,
+atirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar
+desalentado sobre o saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a
+colina dos Jornais e Revistas, terminava por me chamar, já com a
+preguiça triste da façanha a que se impelia:
+
+--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para
+hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos lá, às vezes, há um bocado de frescura e paz.
+
+E foi numa dessas tardes, em que o meu Príncipe assim procurava
+desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio
+da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
+já o conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Café,
+ceando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um moço gordalhufo,
+indolente, de uma brancura crua de toucinho, com uma calvície já séria e
+já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
+carregados de anéis. Nessa tarde, porém, vinha vermelho, todo
+emocionado, calçando as luvas com cólera. Estacou diante de Jacinto--e
+sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:
+
+--Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima disposição... Tivemos
+uma cena, e tremenda.
+
+Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, já esgaçada:
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é excelente! Mas
+em tudo há medida e forma... Ela tem o meu nome, não posso consentir
+que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
+trintanário. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer
+dormir com os criados que emigre para o fundo da província, para a sua
+casa de Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que eu lhe disse!
+Ficou como uma fera.
+
+Sacudiu então a mão do Jacinto que «era da sua roda»--rebolou pela
+escadaria florida e nobre. O meu Príncipe, imóvel nos degraus, de face
+pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
+para mim, como um ser saturado de tédio e em quem nenhum tédio novo pode
+caber:
+
+--Já agora subamos, sim?
+
+ * * * * *
+
+Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem às
+Cidades da Europa.
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo
+o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num
+vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de
+suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas
+mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi
+derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida de um Hotel;
+e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
+cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas
+desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina
+que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com
+cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três
+ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé
+direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me
+chegasse o _boeuf-à-la-mode_, já frio, com molho coalhado--e que o
+copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava e repelia com
+desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
+mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei
+molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e
+quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos,
+ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezas, sombrias
+manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce
+foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
+inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o
+José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boavista...
+Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
+
+Enfim, numa bendita manhã de Outubro, na primeira friagem e névoa
+de Outono, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda
+fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do Porteiro. No patamar, onde
+encontrei o ar macio e tépido que deixara em Florença, apertei os ossos
+do Grilo excelente:
+
+--E Jacinto?
+
+O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes colarinhos:
+
+--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
+Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de
+Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a
+coçar a cabeça: «Eh! que maçada! Eh! que maçada!»
+
+Depois do banho e do chocolate, às dez horas, consolado e quentinho
+dentro do roupão de veludo, rompi pelo quarto do meu Príncipe, de
+braços abertos e sedentos:
+
+--Oh Jacinto!
+
+--Oh viajante!...
+
+Quando nos estreitámos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
+face--e nela a alma. Encolhido numa quinzena de pano cor de malva
+orlada de peles de marta, com os pêlos do bigode murchos, as suas
+duas rugas mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo
+parecia já vergado sob o peso e a opressão e o terror do seu dia. Eu
+sorri, para que ele sorrisse:
+
+--Valente Jacinto... Então como tens vivido?
+
+Ele respondeu, muito serenamente:
+
+--Como um morto.
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:
+
+--Aborrecidote, hein?
+
+O meu Príncipe lançou, num gesto tão vencido, um _oh_ tão cansado--que
+eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe comunicar
+uma parte desta alegria sólida e pura que recebi do meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+Desde essa manhã, Jacinto começou a mostrar claramente,
+escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existência o
+saturava. O seu cuidado realmente e o seu esforço consistiram então em
+sondar e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo que lhe
+conhecesse bem a origem e a potência. E o meu pobre Jacinto reproduziu
+a comédia pouco divertida de um Melancólico que perpetuamente raciocina a
+sua Melancolia! Nesse raciocínio, ele partia sempre do facto
+irrecusável e maciço--que a sua vida especial de Jacinto continha
+todos os interesses e todas as facilidades, possíveis no século XIX,
+numa vida de homem que não é um Génio, nem um Santo. Com efeito!
+Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e molhos ricos
+ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
+inteligência não aparecera nem tremor nem morrão; a boa terra de
+Portugal, e algumas Companhias maciças, pontualmente lhe forneciam a
+sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fiéis o cercavam as
+simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
+confortos; nenhuma amargura de coração o atormentava;--e todavia era um
+Triste. Porquê?... E daqui saltava, com certeza fulgurante, à conclusão
+de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacinto--mas da
+Vida, do lamentável, do desastroso facto de Viver! E assim o saudável,
+intelectual, riquíssimo, bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.
+
+E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para
+ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos
+doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua
+pele sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
+fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lágrimas eram
+para ele tão incompreensíveis que lhe pareciam viciosas. Só quando
+crescera, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara nele
+esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
+primeiras curiosidades, e que depois alastrara, o invadira todo, se lhe
+tornara consubstancial e como o sangue das suas veias. Sofrer portanto
+era inseparável de Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos
+diferentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada luta pelo pão,
+pelo tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas,
+é a amargura das desilusões, o mal da imaginação insatisfeita, o
+orgulho chocando contra obstáculo; nele, que tinha os bens todos e
+desejos nenhuns, era o tédio. Miséria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Inteligência--eis a Vida! E agora aos trinta e três anos a
+sua ocupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
+pendida para nela palpar e apetecer a caveira.
+
+Foi então que o meu Príncipe começou a ler apaixonadamente, desde o
+_Eclesiastes_ até Schopenhauer, todos os líricos e todos os teóricos
+do Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante comprovação
+de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacíntico»--mas grandiosamente
+resultante de uma Lei Universal. Já há quatro mil anos, na remota
+Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delícias mais triunfais, se resumia
+em Ilusão. Já o Rei incomparável, de sapiência divina, sumo Vencedor,
+sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
+conquistas, e os mármores novos dos seus Templos, e as suas três mil
+concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Etiópia para que ele
+as fecundasse e no seu ventre depusesse um Deus! Não há nada novo sob o
+sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males.
+Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
+pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó efémero, em Jerusalém e em Paris!
+E ele, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
+trono de ouro, entre os seus quatro leões de ouro, o filho magnífico de
+David.
+
+Não se separava então do _Eclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coupé Salomão, como irmão de dor, com quem repetia o grito
+desolado que é a suma da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo é
+Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sofá,
+num roupão de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o pedicuro,
+ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e perícia as unhas dos
+pés. Ao lado pousava a chávena de Saxe, cheia desse café de Moca
+enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela
+força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um
+olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dor o
+torturaria--pois que a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto o
+remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se
+erguia, Jacinto abria para ele um sorriso de confraternidade--com um
+«adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»
+
+Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido do seu tédio.
+Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupação grata--maldizer a Vida!
+E para que a pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as
+mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida própria de
+novo luxo, de interesses novos de espírito, e até de fervores
+humanitários, e até de curiosidades supernaturais.
+
+O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele
+iniciou em Paris, repetindo Heliogábalo, os Festins de Cor contados na
+História Augusta: e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa,
+em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças,
+os cristais, os gelados, os Champanhes, e até (por uma invenção da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
+serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor da rosa, enquanto do
+tecto, de um velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A
+Cidade, deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacinto!» E o meu Príncipe, ao
+rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mãos nas ilhargas e
+gritou triunfalmente:--«Hein? Que maçada!...»
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospício no campo, entre
+jardins, para velhinhos desamparados, outro para crianças débeis à beira
+do Mediterrâneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de
+Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experiências para
+verificar a misteriosa _exteriorização da motilidade_. Depois,
+desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegráficos do _Times_, para
+que no seu gabinete, como num coração, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.
+
+E a cada um destes esforços da elegância, do humanitarismo, da
+sociabilidade, e da inteligência indagadora, voltava para mim, de
+braços alegres, com um grito vitorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma
+maçada!»--Arrebatava então o seu _Eclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
+estendido no sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da Doutrina
+e da Experiência. Possuía uma Fé--o Pessimismo: era um apóstolo rico e
+esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
+sua Fé! Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!
+
+No começo do Inverno, porém, notei com inquietação que Jacinto já não
+folheava o _Eclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Teosofismos, nem os seus Hospícios, nem os fios do _Times_, pareciam
+interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua
+Crença. E a sua abominável função de novo se limitou a bocejar, a
+passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a caveira.
+Incessantemente aludia à morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo,
+no melancólico crepúsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes
+rápidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha eléctrica ou pela
+violência compassiva do acido cianídrico. Diabo! O Pessimismo, que
+aparecera na Inteligência do meu Príncipe como um conceito
+elegante--atacara bruscamente a Vontade!
+
+Todo o seu movimento então foi o de um boi inconsciente que marcha sob a
+canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
+lastimava que ela lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indiferente, Zé
+Fernandes!» E tão indiferentemente sairia à sua janela para receber
+uma Coroa Imperial oferecida por um Povo--como se estenderia numa
+poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo tudo inútil, e não
+conduzindo senão a maior desilusão, que podia importar a mais rutilante
+actividade ou a mais desgostada inércia? O seu gesto constante, que me
+irritava, era encolher os ombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
+dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?... E no mínimo acto,
+raspar um fósforo ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão
+desconsolada que todo ele parecia ligado, desde os dedos até à alma,
+pelas voltas apertadas de uma corda que se não via e que o travava.
+
+ * * * * *
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de
+Janeiro. Cedo, de manhã, recebera, com uma carta de Madame de Trèves, um
+açafate de camélias, azáleas, orquídeas e lírios do vale. E foi este
+mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre as pétalas o
+fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escárnio:
+
+--Então, há trinta e quatro anos que eu ando nesta maçada?
+
+E como eu propunha que telefonássemos aos amigos para beberem no 202 o
+Champanhe do «Natalício»--ele recusou, com o nariz enojado. Oh! Não!
+Que horrível seca!... E bradou mesmo para o Grilo:
+
+--Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei para o campo, abalei
+para Marselha... Morri!
+
+E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os
+telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a
+mesa de ébano, como um preito da Cidade. Outras flores que vieram, em
+vistosos cestos, com vistosos laços, foram por ele comparadas às que se
+depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
+de Efraim, uma engenhosa mesa, que se abaixava até ao tapete ou se
+alteava até ao tecto--para quê, senhor Deus meu?
+
+Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredámos do 202, com os
+pés estendidos ao lume, em preguiçoso silêncio. Eu terminara por
+adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grilo...
+Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
+E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a mocidade a
+acumular todas as noções formuladas desde Aristóteles e a juntar todos
+os inventos realizados desde Tharamenes, como nessa tarde de festa, em
+que ele, cercado de Civilização nas máximas proporções para gozar nas
+máximas proporções a delícia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
+seu lar, a recortar papéis com uma tesoura!
+
+O Grilo trazia um presente do Grão-Duque--uma caixa de prata, forrada
+de cedro, e cheia de um chá precioso, colhido, flor a flor, nas veigas de
+Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Ásia, em
+caravanas, com a veneração de uma relíquia. Então, para despertar o nosso
+torpor, lembrei que tomássemos o divino chá--ocupação bem harmónica com
+a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama
+bailando no fogão. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou logo a mesa
+de Efraim para que nós lhe estreássemos os serviços destros. Mas o meu
+Príncipe, depois de a altear, para meu espanto, até aos cristais do
+lustre, não conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as
+molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, quimérica,
+unicamente aproveitável para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
+chá entre chaleiras, lâmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de
+alfaias de prata, que comunicavam a essa ocupação, tão simples e doce
+em casa de minha tia, _fazer chá_, a majestade de um rito. Prevenido pelo
+meu camarada da sublimidade daquele chá de Kiang-Sou, ergui a chávena
+aos lábios com reverência. Era uma infusão descorada que sabia a malva e
+a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou... Não tomámos chá.
+
+Ao cabo doutro pensativo silêncio, murmurei, com os olhos perdidos no
+lume:
+
+--E as obras de Tormes? A igreja... Já haverá igreja nova?
+
+Jacinto retomara o papel e a tesoura:
+
+--Não sei... Não tornei a receber carta do Silvério... Nem imagino onde
+param os ossos... Que lúgubre história!
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo
+ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz doce, com as
+iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa
+meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor
+a ideia patriarcal:
+
+--Arroz doce! Está escrito com dois _ss_, mas não tem dúvida...
+Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz doce!... Desde a
+morte da avó.
+
+Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de
+pirâmide do Egipto, emergia de uma calda de cereja, e desaparecia sob os
+frutos secos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma
+coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
+iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingénua, vinham
+traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos,
+num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de
+Champanhe, murmurou como num funeral pagão:
+
+--_Ad Manes_, aos nossos mortos!
+
+Recolhemos à Biblioteca, a tomar o café no conchego e alegria do lume.
+Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as vidraças tremiam,
+alagadas, sob as bátegas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
+mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre
+cerro e vale, talvez assim rugisse a tormenta. Mas aí cada pobre, sob
+o abrigo da sua telha vã, com a sua panela atestada de couves, se
+agacha no seu mantéu ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha
+ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicência, ou o abade,
+que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no forno.
+Ah Portugal pequenino, que ainda és doce aos pequeninos!
+
+Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminámos por remexer languidamente os
+jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de
+prata--jornais de Paris, jornais de Londres, Semanários, Magazines,
+Revistas, Ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das Revistas
+espreitava o sumário, logo farto; às Ilustrações rasgava as folhas com
+o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
+estirado para o lume:
+
+--É uma seca... Não há que ler.
+
+E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravizava,
+saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou
+erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
+intimasse aquele seu 202, tão abarrotado de Civilização, a que por um
+momento sequer fornecesse à sua alma um interesse vivo, à sua vida um
+fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu insensível: nem uma luz, para o
+animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate
+mais rude de água e vento.
+
+Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu
+gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos completadores e
+facilitadores da Vida--o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu
+Fonógrafo, o seu Radiómetro, o seu Grafófono, o seu Microfone, a
+sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa
+Eléctrica, a outra Magnética, todos os seus utensílios, todos os seus
+tubos, todos os seus fios... Assim um Suplicante percorre altares
+donde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecânica se conservou
+rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lâmina
+vibrasse, para entreter o seu Senhor.
+
+Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o
+curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
+anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
+peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado.
+O Príncipe da Grã-Ventura, então, decidiu recolher para a cama--com um
+livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca,
+considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
+majestade como Doutores num Concílio--depois as pilhas tumultuárias dos
+livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
+consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode caminhou
+por fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou
+raças: pareceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: penetrou
+na Revolução Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mão
+indeliberada toda a vasta Grécia desde a criação de Atenas até a
+aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
+que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
+nos títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas almas. Não
+apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou, desconsolado, até
+aos Biólogos... Tão maciça e cerrada era a estante de Biologia que o
+meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até às alturas da Astronomia:
+destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema Solar desabou com
+fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das
+obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
+Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
+torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões:
+e relanceando uma linha, esgravatando além num índice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas
+grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de
+encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem
+coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo
+alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substância,
+já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua
+abundância. Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu
+melancolicamente um velho _Diário de Notícias_, e com ele debaixo do
+braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava
+na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo
+de Primavera ainda tímido--Jacinto assomou à porta do meu quarto,
+revestido de flanelas leves, de uma alvura de açucena. Parou lentamente
+à beira dos colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração
+formidável:
+
+--Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
+Galeão:
+
+--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...
+
+Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da
+algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas,
+fundamente estudadas:
+
+--«Il.^{mo} e Exc.^{mo} sr.--Tenho grande satisfação em comunicar a
+V. Exc.^a que por toda esta semana devem ficar prontas as obras da
+capela...»
+
+--É do Silvério? exclamei.
+
+--É do Silvério. «...as obras da capela nova. Os venerandos restos dos
+excelsos avós de V. Exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
+ser em breve trasladados da igreja de S. José, onde têm estado
+depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.
+Exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V. Exc.^a a respeito
+desta majestosa e aflitiva cerimónia...»
+
+Atirei os braços, compreendendo:
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir à trasladação...
+
+Jacinto sumiu a carta no bolso.
+
+--Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que
+são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galeão...
+Também não o conheci. Mas este 202 está cheio dele; tu estás deitado
+na cama dele; eu ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao
+Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo.
+Há aqui um escrúpulo de decência, de elegância moral... Enfim, decidi.
+Apertei os punhos na cabeça, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
+vens!
+
+Eu enfiara as chinelas, apertava os cordões do roupão:
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está
+inabitável...
+
+Ele cravou em mim os olhos aterrados.
+
+--Medonha, hein?
+
+--Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela pedra. Mas os
+caseiros, que lá vivem há trinta anos, dormem em catres, comem o caldo
+à lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio que os únicos
+móveis de Tormes, se bem recordo, são um armário, e uma espineta de
+charão, coxa, já sem teclas.
+
+O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
+ao Destino:
+
+--Acabou!... _Alea jacta est!_ E como só partimos para Abril, há tempo de
+pintar, de assoalhar, de envidraçar... Mando daqui de Paris tapetes e
+camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum
+buraco... Levamos livros, uma Máquina para fabricar gelo... E é mesmo
+uma ocasião de pôr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma
+decência e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de
+1410... Ainda existia o Império Bizantino!
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu
+Príncipe acendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do
+toucador, considerando o meu preparo com uma atenção triste que me
+incomodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe
+reter bem a moral e o suco:
+
+--Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um
+absoluto dever, ir eu a Tormes?
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
+meu Príncipe:
+
+--Oh Jacinto! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia desse dever! E
+honra te seja, menino... Não cedas a ninguém essa honra!
+
+Ele atirou o cigarro--e, com as mãos enterradas nas algibeiras das
+pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
+postes torneados do velho leito de D. Galeão, num balanço vago, como
+barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
+incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
+por gradações de sentimentos, desde o daguerreótipo do papá até à
+fotografia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Família.
+
+E nunca o meu Príncipe (que eu contemplava esticando os suspensórios) me
+pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde
+muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civilização, naquele super-requintado magricelas sem músculo e sem
+energia, a raça fortíssima dos Jacintos! Esses guedelhudos Jacintões,
+que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
+ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas chãs e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
+lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, ali estava
+aquele último Jacinto, um Jacintículo, com a macia pele embebida em
+aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando
+baixinho na miúda indecisão de viver.
+
+--Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?
+
+Estendi o pescoço para a Fotografia que ele erguera dentre a minha
+galeria, no seu honroso caixilho de pelúcia escarlate:
+
+--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... É minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da
+Malva.
+
+--Flor da Malva, murmurou o meu Príncipe. É a casa do Condestável, de
+Nun'Álvares.
+
+--Flor da Rosa, homem! A casa do Condestável era na Flor da Rosa, no
+Alentejo... Essa tua ignorância trapalhona das coisas de Portugal!
+
+O meu Príncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha
+prima dentre os dedos moles--que levou à face, no seu gesto horrendo
+de palpar através da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
+esforço, em que se endireitou e cresceu:
+
+--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
+reflexão, nem descanso!... À obra! E a caminho!
+
+Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
+abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e
+açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a de um Chefe
+ordenando, na alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
+marche, com pendões e bagagens...
+
+Logo nessa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
+enjoada de quem bebe óleo de rícino), escreveu ao Silvério mandando
+caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço apareceu na
+Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar a
+remessa de mobílias e confortos, o director da _Companhia Universal de
+Transportes_.
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num
+jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
+brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
+multicor resumindo as suas condecorações exóticas de Madagáscar, de
+Nicarágua, da Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
+seus serviços. Apenas Jacinto mencionou «Tormes, no Douro...»--ele
+logo, através de um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros
+esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto eu
+considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Corográfico, assim
+familiar com os recantos de uma serra de Portugal e com todos os seus
+velhos solares. Já ele atirara a carteira para o bolso... E «nós, seus
+caros senhores, não tínhamos senão a encaixotar as roupas, as mobílias,
+as preciosidades! Ele mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a
+que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...»
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histórico!
+Perfeitamente, perfeitamente!
+
+Desengonçou a cabeça numa vénia profundíssima--e saiu da Biblioteca,
+com passos que devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus
+Transportes.
+
+--Vê tu, murmurou Jacinto muito sério. Que prontidão, que
+facilidade!... Em Portugal era uma tragédia. Não há senão Paris!
+
+Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos
+necessários ao meu Príncipe para um mês de serra áspera--camas de pena,
+banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, cortinas para
+vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
+sótãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galeão, foram
+esvaziados--porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós
+românticos de 1830. De todos os armazéns de Paris chegavam cada manhã
+fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emaladores desfaziam,
+atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
+nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+organizava a remessa de fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de
+conservas, bojudas garrafas de águas minerais. Jacinto, lembrando as
+trovoadas da serra, comprou um imenso pára-raios. Desde o amanhecer,
+nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto fragor, como
+na construção de uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do
+portão, lembrava uma página de Heródoto contando a marcha dos Persas.
+
+Das janelas, Jacinto com o braço estendido, saboreava aquela
+actividade e aquela disciplina:
+
+--Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Saímos do 202, chegamos à
+serra, encontramos o 202. Não há senão Paris!
+
+Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto preparava o seu
+Êxodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores,
+descortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas
+listas de encomendas a cada loja de Paris--era com delícia que se
+vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vitória ou saltava
+para a almofada do faéton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o
+Psicólogo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de
+oito molas fornecida pelas operações conjuntas da Bolsa e da alcova.
+Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no
+Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciência de uma fome
+alegre, vigiando fervorosamente que os Bordéus estivessem bem aquecidos
+e os Champanhes bem granitados. E no teatro das _Nouveautés_, no
+_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na coxa, com encanecidas
+facécias de encanecidas farsas, antiquíssimos trejeitos de antiquíssimos
+actores, com que já rira na sua infância, antes da guerra, sob o segundo
+Napoleão!
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua Agenda. A
+magnificência do seu traje, como imperador Frederico II de Suábia,
+deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde também
+fui, de «moço de forcado».) E na _Associação para o Desenvolvimento das
+Religiões Esotéricas_ discursou e batalhou bravamente pela construção
+de um Templo Budista em Montmartre!
+
+Com espanto meu recomeçou também a conversar, como nos tempos de Escola,
+da «famosa Civilização nas suas máximas proporções.» Mandou encaixotar o
+seu velho telescópio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
+espírito germinasse a ideia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com
+todos os seus órgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacinto que essas
+semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das
+noções--porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
+entre tantos confortos e formas de Civilização esquecêramos os livros!
+Assim era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Príncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
+História Natural--e nós mesmos, imediatamente, deitámos para o fundo
+de um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio.
+Despejámos depois para dentro, às braçadas, Geologia, Mineralogia,
+Botânica... Espalhámos por cima uma camada aérea de Astronomia. E, para
+fixar bem no caixote estas Ciências oscilantes, entalámos em redor
+cunhas de Metafísica.
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do
+portão do 202 na derradeira carroça da _Companhia dos Transportes_, toda
+esta animação de Jacinto se abateu como a efervescência num copo de
+Champanhe. Era em meados já tépidos de Março. E de novo os seus
+desagradáveis bocejos atroaram o 202, e todos os sofás rangeram sob o
+peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
+fartura e pelo tédio, num desejo de repouso eterno, bem envolto de
+solidão e silêncio. Desesperei. O quê! Aturaria eu ainda aquele
+Príncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepúsculo
+entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, à doçura das
+mortes rápidas pela violência misericordiosa do acido cianídrico? Ah
+não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divã, de
+braços em cruz, como se fosse a sua estátua de mármore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
+
+--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto, a
+reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em
+cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os
+vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!
+
+O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de pedra:
+
+--O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito,
+deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente criados, o
+cozinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grilo, e o Anatole que enverniza
+bem o calçado, e tem jeito como pedicuro... Hoje é Domingo.
+
+Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:
+
+--Bem, partimos no Sábado!... Avisa tu o Silvério!
+
+Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horários--e o dedo
+magro de Jacinto, por sobre o mapa, avançando e recuando entre Paris e
+Tormes. Para escolher o «salão» que devíamos habitar durante a temida
+jornada, duas vezes percorremos o depósito da Estação de Orléans,
+atolados em lama, atrás do Chefe do Tráfico que entontecia. O meu
+Príncipe recusava este salão por causa da cor tristonha dos estofos;
+depois recusava aquele por causa da mesquinhez aflitiva do
+Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que
+passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto,
+indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del
+Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do
+Norte de Espanha e a de Salamanca, por cartas, por telegramas,
+sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no
+comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe
+ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
+conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--«E os
+sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun
+para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores
+de Medina eram os mais rápidos, os mais destros de toda a Europa! Ele
+murmurava:--«Pois sim, mas em Espanha, de noite!...» A noite, longe da
+Cidade, sem telefone, sem luz eléctrica, sem postos de polícia, parecia
+ao meu Príncipe povoada de surpresas e assaltos. Só acalmou depois de
+verificar no Observatório Astronómico, sob a garantia do sábio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
+
+Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organização daquela viagem
+histórica! O sábado predestinado amanheceu com generoso sol, de
+afagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
+pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e
+sete meses de Paris, me tinham chamado «_mon petit chou! mon rat
+cheri!_»--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
+orquídeas na sobrecasaca, pálido e todo nervoso.
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?
+
+Fomos--à grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da
+vitória senti logo uma elasticidade mais embaladora. Depois, pela
+Avenida do Bosque, quase me pesava não ficar sempiternamente rolando, ao
+trote rimado das éguas perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes,
+sobre aquele macadame mais alisado que mármore, entre tão bem regadas
+flores e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
+de elegância bem acabada, que almoçara o seu chocolate em porcelanas de
+Sèvres ou de Minton, saíra de entre sedas e tapetes de três mil francos,
+e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
+ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde, azul e ouro.
+Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas áleas que a Arte
+traçou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
+as ondulações macias da folhagem que o Estado escova e lava. O piar das
+aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;--e
+mais natural parecia, entre o arvoredo sociável, o ranger das selas
+novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas
+pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzámos
+Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na carícia do seu sorriso, mais
+avivado àquela hora pelo vermelhão ainda húmido. Logo atrás a barba
+talmúdica de Efraim negrejou, fresca também da brilhantina da manhã, no
+alto de um faéton tilintante. Outros amigos de Jacinto circulavam nas
+Acácias--e as mãos que lhe acenavam, lentas e afáveis, calçavam luvas
+frescas cor de palha, cor de pérola, cor de lilás. Todelle relampejou
+rente de nós sobre uma grande bicicleta. Dornan, alastrado numa cadeira
+de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto, como
+perdido na busca de rimas sensuais e nédias. Adiante foi o Psicólogo,
+que nos não avistou, conversando com um requebro melancólico para dentro
+de um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
+dignidade e decência. E rolávamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
+cavalo, ergueu a bengala, estacou a nossa vitória para perguntar a
+Jacinto se aparecia à noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu
+Príncipe rosnou um--«não, parto para o sul...»--que mal lhe passou
+de entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
+estupenda. Quadros vivos da História Sagrada e da História Romana!...
+Madame Verghane, de Madalena, de braços nus, peitos nus, pernas nuas,
+limpando com os cabelos os pés do Cristo!--O Cristo, um latagão
+soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministério da Guerra, gemendo,
+derreado, sob uma cruz de papelão! Havia também Lucrécia na cama, e
+Tarquínio ao lado, de punhal, a puxar os lençóis! E depois ceia, em
+mesas soltas, todos nos seus trajes históricos. Ele já estava
+aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina! Quadro portentoso
+esse--Agripina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
+formas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
+polidez, ficara combinado que Nero admiraria sem reserva todas as formas
+de Madame de Malbe... Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!
+
+Acenámos um longo adeus àquele alegre Marizac. E recolhemos sem que
+Jacinto emergisse do silêncio enrugado em que se abismara, com os
+braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
+fortes. Depois, em frente ao Arco de Triunfo, moveu a cabeça, murmurou:
+
+--É muito grave, deixar a Europa!
+
+ * * * * *
+
+Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se enublara deixámos o
+202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de
+estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras, de águas
+minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas: e mais atrás um
+ónibus rangia sob a carga de vinte e três malas. Na Estação, Jacinto
+ainda comprou todos os Jornais, todas as Ilustrações, Horários, mais
+livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo
+Chefe do Tráfico, pelo Secretário da Companhia, ocupámos copiosamente o
+nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as minhas chinelas. Um
+silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num derradeiro clarão de
+janelas... Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou à portinhola.
+Mas rolávamos já na treva da Província. O meu Príncipe então recaiu nas
+almofadas:
+
+--Que aventura, Zé Fernandes!
+
+Até Chartres, em silêncio, folheámos as Ilustrações. Em Orléans, o
+guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
+aqueles catorze meses de Civilização adormeci--e só acordei em Bordéus
+quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva
+miudinha pingava molemente de um espesso céu de algodão sujo. Jacinto
+não se deitara, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençóis. E,
+metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
+
+--Este horror!... E agora com chuva!
+
+Em Biarritz, ambos observámos com uma certeza indolente:
+
+--É Biarritz.
+
+Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
+Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de uma dama
+roliça que levava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a
+vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ânsia de comunicar
+ainda, através dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
+mergulhara na chuva e névoa.
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, os abrolhos
+da Incivilização, Jacinto suspirou com desalento:
+
+--Agora adeus, começa a Espanha!...
+
+Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei
+para diante do meu Príncipe, e num saracoteio de tremendo salero,
+castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna:
+
+A la puerta de mi casa
+Ay Soledad, Soleda... á... á... á.
+
+Ele estendeu os braços, suplicante:
+
+--Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
+
+--_Irun_! _Irun_!...
+
+Nessa Irun almoçámos com suculência--porque sobre nós velava, como
+Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el
+jefe d'Estacion», preciosamente nos instalaram noutro salão, novo, com
+cetins cor de azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos
+confortos em mantas, livros, sacos e impermeáveis, passou para o
+compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole,
+ambos de bonés escoceses, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
+_Gracias_! _Servidores_!--E entrámos silvando nos Pirenéus.
+
+Sob a influência da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais,
+que se desenrolavam, arrepiadas, diluídas na névoa, resvalei a uma
+sonolência doce;--e, quando descerrava as pálpebras, encontrava
+Jacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
+cruzara os magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia
+de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
+arremessando o livro, enterrando mais o chapéu mole, se ergueu com
+tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar à estrada,
+correr através das Vascongadas e da Navarra, para trás, para o 202!
+Sacudi o meu torpor, exclamei:--«oh menino!...» Não! O pobre amigo ia
+apenas continuar o seu tédio para outro canto, enterrado noutra
+almofada, com outro livro fechado. E à maneira que a escuridão da tarde
+crescia, e com ela a borrasca de vento e água, uma inquietação mais
+aterrada se apoderava do meu Príncipe, assim desgarrado da Civilização,
+arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não
+cessou então de me interrogar sobre Tormes:
+
+--As noites são horríveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme
+solidão... E médico?... Há médico?
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
+vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
+grande vento solto. A Máquina apitava, com angústia. Uma lanterna
+lampejou, correndo. Jacinto batia o pé:--«É medonho! é medonho!»...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam
+cabeças esticadas, assustadas.--«_Que hay_? _Que hay_?»--A uma rajada,
+que me alagou, recuei:--e esperámos durante lentos, calados minutos,
+esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.
+
+Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma estação abarracada. Um
+condutor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão:--e
+por ele soubemos, enquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
+trem, muito atrasado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de
+Salamanca!
+
+--Mas então?...
+
+O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetámos um novo
+tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até
+Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
+nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
+vinte e três malas, numa rude confusão espanhola, sob a tormenta de
+ventania e de água!
+
+--Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!
+
+Ao meu Príncipe aparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
+numa _fonda_ sórdida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
+através dos lençóis de estopa encardida!... Não cessei então de fitar,
+num desassossego, os ponteiros do relógio:--enquanto Jacinto, pela
+vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio
+paciente fumegando... Depois recaía no divã, limpava os bigodes e os
+olhos, maldizia a Espanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
+planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! Algum
+sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+enquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas,
+rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam
+mais soturno. Jacinto esmurrava o joelho:--«Mas por que pára este
+infame comboio? Não há tráfico, não há gente! Oh esta Espanha!...» A
+sineta badalava, moribunda. De novo fendíamos a noite e a borrasca.
+
+Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Comércio_, antigo,
+trazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do salão com
+passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, às
+gotas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
+mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo de
+barracão alvejou--e bruscamente, à portinhola aberta com violência,
+aparece um cavalheiro barbudo, de capa à espanhola, gritando pelo Sr.
+D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
+
+--«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!»
+
+Agarro estonteadamente o meu paletó, o _Jornal do Comércio_. Saltámos
+com ânsia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de
+charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
+à espanhola, enfiámos outra portinhola, que se fechou com um estalo
+tremendo... Ambos arquejávamos. Era um salão forrado de um pano verde
+que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos
+carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em silêncio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
+Ambos nos atirámos às vidraças, em brados furiosos:
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grilo!
+Oh Grilo!
+
+Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num furor
+que o engasgava:
+
+--Oh! Que serviço! Oh que canalhas!... Só em Espanha!... E agora? As
+malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!
+
+Calmei o meu desgraçado amigo:
+
+--Escuta! eu entrevi dois carregadores arrebanhando as nossas coisas...
+Decerto o Grilo fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
+tudo para o seu compartimento... Foi um erro não trazer o Grilo
+connosco, no salão... Até podíamos jogar a manilha!
+
+De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
+nosso conforto--pois que à porta do lavatório branquejava o cesto da
+nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
+palavras a lápis--_à D. Jacinto y su egregio amigo, que les dè gusto_!
+Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no
+coração sentindo também as nossas malas sob a tutela da Deusa
+omnipresente.
+
+--Tens fome Jacinto?
+
+--Não. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.
+
+Com efeito! depois de tão desencontradas emoções só apetecíamos as
+camas que esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que não se despira, apenas
+embrulhara os pés no _meu_ paletó, nosso único agasalho, ressonava com
+majestade.
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
+boné, que murmuravam baixinho com imensa doçura:
+
+--V. Exc.^as não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:
+
+--Não temos aqui nada... Pergunte V. Exc.^a pelo Grilo... Aí atrás,
+num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grilo.
+
+A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu readormeci
+com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicência, atarefada, de lenço
+branco cruzado no peito, de certo já preparava o leitão.
+
+Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito
+sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
+outras rosas em moitas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de
+limos dormia sob duas mimosas em flor que rescendiam. Um moço pálido,
+de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava
+pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha,
+diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o
+telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
+azul de que meus olhos andavam aguados.
+
+Sacudi violentamente Jacinto:
+
+--Acorda, homem, que estás na tua terra!
+
+Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem
+pressa, à vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.
+
+--Então é Portugal, hein?... Cheira bem.
+
+--Está claro que cheira bem, animal!
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso,
+como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de aço, assobiando
+e gozando a beleza da terra e do céu.
+
+O meu Príncipe alargava os braços, desolado:
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de água-de-colónia!...
+Entro em Portugal, imundo!
+
+--Na Régua há uma demora, temos tempo de chamar o Grilo, reaver os
+nossos confortos... Olha para o rio!
+
+Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até
+largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada,
+branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito
+caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem
+se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
+carregado de pipas. Para além, outros socalcos, de um verde pálido de
+reseda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até
+outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abundância do azul. Jacinto acariciava os pêlos corredios do bigode:
+
+--O Douro, hein?... É interessante, tem grandeza. Mas agora é que eu
+estou com uma fome, Zé Fernandes!
+
+Também eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um bodo
+grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
+de duas nobres garrafas de Amontillado, além de duas garrafas de Rioja,
+aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacinto
+lamentou contritamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
+histórico, assim abandonado e vazio! Que delícia, por aquela manhã tão
+lustrosa e tépida, subir à serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
+bem civilizada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silvério,
+tantos caixotes de Civilização remetidos de Paris, Tormes estaria
+confortável mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um palácio
+perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacámos as
+perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
+muito sorrateiramente, penetrou numa Estação. Era a Régua. E o meu
+Príncipe pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que
+traziam o asseio dos nossos corpos.
+
+--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio pára aqui uma hora...
+Come com tranquilidade. Não escangalhemos este almocinho com arrumações
+de maletas... O Grilo não tarda a aparecer.
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com uma
+ponta de cigarro colada ao beiço, parara a espreitar indiscretamente o
+nosso festim. Mas quando acabámos as perdizes, e Jacinto confiadamente
+desembrulhava um queijo manchego, sem que Grilo ou Anatole
+comparecessem, eu, inquieto, corri à portinhola para apressar esses
+servos tardios... E nesse instante o comboio, largando, deslizou com o
+mesmo silêncio sorrateiro. Para o meu Príncipe foi um desgosto:
+
+--Aí ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
+mudar de camisa! Por culpa tua, Zé Fernandes!
+
+--É espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
+Paciência, Jacinto. Em duas horas estamos na Estação de Tormes...
+Também não valia a pena mudar de camisa para subir à serra! Em casa
+tomamos um banho, antes de jantar... Já deve estar instalada a
+banheira.
+
+Ambos nos consolámos com copinhos de uma divina aguardente Chinchon.
+Depois, estendidos nos sofás, saboreando os dois charutos que nos
+restavam, com as vidraças abertas ao ar adorável, conversámos de Tormes.
+Na estação certamente estaria o Silvério, com os cavalos...
+
+--Que tempo leva a subir?
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
+terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor de
+Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E à noite o
+primeiro bródio da serra, com os pitéus vernáculos do velho Portugal!
+
+Jacinto sorria, seduzido:
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvério. Eu recomendei
+que fosse um soberbo cozinheiro português, clássico. Mas que soubesse
+trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples
+da cozinha de França!... O pior é não te demorares, seguires logo para
+Guiães...
+
+--Ah, menino, anos da tia Vicência no sábado... Dia sagrado! Mas
+volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
+Bucólica. E, está claro, para assistir à trasladação.
+
+Jacinto estendera o braço:
+
+--Que casarão é aquele, além no outeiro, com a torre?
+
+Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era nesse
+feitio atarracado e maciço. Casa de séculos e para séculos--mas sem
+torre.
+
+--E logo se vê, da estação, Tormes?...
+
+--Não! Muito no alto, numa prega da serra, entre arvoredo.
+
+No meu Príncipe já evidentemente nascera uma curiosidade pela sua rude
+casa ancestral. Mirava o relógio, impaciente. Ainda trinta minutos!
+Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
+iniciado:
+
+--Que doçura, que paz...
+
+--Três horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!
+
+Guardei o meu velho _Jornal do Comércio_ dentro do bolso do paletó,
+que deitei sobre o braço;--e ambos em pé, às janelas, esperámos com
+alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas
+provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre
+rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as
+duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás a serra coberta de
+velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta,
+meu condiscípulo em Retórica, no Liceu de Braga. Os cavalos decerto
+esperavam, à sombra, sob as figueiras.
+
+Mal o trem parou ambos saltámos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
+rebolou para mim com amizade:
+
+--Viva o amigo Zé Fernandes!
+
+--Oh belo Pimentão!...
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:
+
+--Ouve lá, Pimentinha... Não está aí o Silvério?
+
+--Não... O Silvério há quase dois meses que partiu para Castelo de
+Vide, ver a mãe que apanhou uma cornada de um boi!
+
+Atirei a Jacinto um olhar inquieto:
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão aí os cavalos
+para subirmos à quinta?
+
+O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:
+
+--Não!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... Há que tempos eu
+não vejo o Melchior!
+
+O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então,
+não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem criados nem
+malas, o meu Príncipe e eu lançámos o mesmo grito de angústia:
+
+--E o Grilo? as bagagens?...
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
+
+--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!
+
+Na esperança que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
+trepávamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos
+compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
+retumbava:--«Grilo, estás aí, Grilo?»--Já de uma terceira classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando:--«Não há por aí um
+grilo? Andam por aí uns senhores a pedir um grilo!»--E nem Anatole,
+nem Grilo!
+
+A sineta tilintou.
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As
+nossas bagagens, homem!
+
+E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgão de carga, a
+pesquisar, descortinar as nossas vinte e três malas! Apenas encontrámos
+barris, cestos de vime, latas de azeite, um baú amarrado com cordas...
+Jacinto mordia os beiços, lívido. E o Pimentinha, esgazeado:
+
+--Oh filhos, eu não posso atrasar o comboio!...
+
+A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu por
+detrás das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
+Ali ficávamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem
+procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o
+paletó alvadio, donde surdia o _Jornal do Comércio_. Jacinto, uma
+bengala. Eram todos os nossos bens!
+
+O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos.
+Contei então àquele amigo o atarantado trasfego em Medina sob a
+borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado com as vinte e três malas, ou
+rolando talvez para Madrid sem nos deixar um lenço...
+
+--Eu não tenho um lenço!... Tenho este _Jornal do Comércio_. É toda a
+minha roupa branca.
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?
+
+--Agora, exclamei, é trepar, para a quinta, à pata... A não ser que se
+arranjassem aí uns burros.
+
+Então o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
+pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa égua e um
+jumento... E o prestante homem enfiou numa carreira para a
+Giesta--enquanto o meu Príncipe e eu caíamos para cima de um banco,
+arquejantes e sucumbidos, como náufragos. O vasto Pimentinha, com as
+mãos nas algibeiras, não cessava de nos contemplar, de murmurar:--«É de
+arrelia».--O rio defronte descia, preguiçoso e como adormentado sob a
+calma já pesada de Maio, abraçando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
+pedra que rebrilhava. Para além a serra crescia em corcovas doces, com
+uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
+vilazinha clara. O espaço imenso repousava num imenso silêncio.
+Naquelas solidões de monte e penedia os pardais, revoando no telhado,
+pareciam aves consideráveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
+dominava, atulhava a região.
+
+--Está tudo arranjado, meu senhor! Vêm aí os bichos!... Só o que não
+calhou foi um selinzinho para a jumenta!
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mão
+duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E não tardaram a aparecer no
+córrego, para nos levarem a Tormes, uma égua ruça, um jumento com
+albarda, um rapaz e um podengo. Apertámos a mão suada e amiga do
+Pimentinha. Eu cedi a égua ao senhor de Tormes. E começámos a trepar o
+caminho, que não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os
+Jacintos do século XIV! Logo depois de atravessarmos uma trémula ponte
+de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o
+olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável
+beleza daquela serra bendita!
+
+Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz
+as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu
+Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales,
+poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e
+redondos, de um verde tão moço que eram como um musgo macio onde
+apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
+largas ramadas estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos
+pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm
+as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que
+mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores
+silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do
+seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de
+silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas: e,
+dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá
+galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
+as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas.
+Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante... Espertos
+regatinhos fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da égua e do
+burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
+fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
+alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava
+por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral,
+solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
+laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos
+prados com carneiros e vacas retouçando:--ou mais estreitos, entalados
+em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de
+repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou
+doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar
+pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar
+fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um
+esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
+
+Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
+
+--Que beleza!
+
+E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
+
+--Que beleza!
+
+Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por
+trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam
+as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros
+de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
+quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
+olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de
+macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos,
+serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as
+serras!
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, chegámos àquela avenida de faias,
+que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
+vergastada ao burro e à égua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
+calcanhares, gritou:--«Aqui é que estemos, meus amos!» E ao fundo das
+faias, com efeito, aparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu
+brasão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
+envelhecia. Dentro já os cães ladravam com furor. E quando Jacinto, na
+sua suada égua, e eu atrás, no burro de Sancho, transpusemos o limiar
+solarengo, desceu para nós, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
+gasta, um homem nédio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca,
+acalmando os cães que se encarniçavam contra o meu Príncipe. Era o
+Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a boca se lhe
+escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
+lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes louros que descia da égua
+esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
+colhido de espanto e terror como diante de uma avantesma.
+
+--Ora essa!... Santíssimo nome de Deus! Pois então...
+
+E, entre o rosnar dos cães, num bracejar desolado, balbuciou uma
+história que por seu turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do
+casarão pendesse para desabar. O Melchior não esperava S. Ex.^a! Ninguém
+esperava S. Ex.^a!... (Ele dizia _sua incelência_)... O Sr. Silvério
+estava para Castelo de Vide desde Março, com a mãe, que apanhara uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
+o Sr. Silvério só contava com S. Exc.^a em Setembro, para a vindima! Na
+casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
+ainda continuava sem telhas; muitas vidraças esperavam, ainda sem
+vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...
+
+Jacinto cruzou os braços numa cólera tumultuosa que o sufocava. Por
+fim, com um berro:
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, há
+quatro meses?...
+
+O desgraçado Melchior arregalava os olhos miúdos, que se embaciavam de
+lágrimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!... E na sua
+perturbação mirava pelas arcadas do pátio, palpava na algibeira das
+pantalonas. Os caixotes?... Não, não tinha os caixotes!
+
+--E agora, Zé Fernandes?
+
+Encolhi os ombros:
+
+--Agora, meu filho, só vires comigo para Guiães... Mas são duas horas
+fartas a cavalo. E não temos cavalos! O melhor é ver o casarão, comer
+a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
+numa enxerga, e amanhã cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
+tia Vicência.
+
+Jacinto replicou, com uma decisão furiosa:
+
+--Amanhã troto, mas para baixo, para a estação!... E depois, para
+Lisboa!
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
+uma larga varanda acompanhava a fachada do casarão, sob um alpendre de
+negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
+de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo---e penetrei atrás
+de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmúrio de
+horror. Eram enormes, de uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
+muros enegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
+nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
+através dos rasgões manchas de céu. As janelas, sem vidraças,
+conservavam essas maciças portadas, com fechos para as trancas, que,
+quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além,
+uma tábua podre rangia e cedia.
+
+--Inabitável! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma infâmia!...
+
+Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de tábuas
+novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhíssimos tectos de
+rico carvalho sombrio. As paredes repeliam pela alvura crua da cal
+fresca. E o sol mal atravessava as vidraças--embaciadas e gordurentas da
+massa e das mãos dos vidraceiros.
+
+Penetrámos enfim na última, a mais vasta, rasgada por seis janelas,
+mobilada com um armário e com uma enxerga parda e curta estirada a um
+canto: e junto dela parámos, e sobre ela depusemos tristemente o que
+nos restava de vinte e três malas--o meu paletó alvadio, a bengala de
+Jacinto, e o _Jornal do Comércio_ que nos era comum. Através das
+janelas escancaradas, sem vidraças, o grande ar da serra entrava e
+circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o
+que avistávamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
+cabeço e descendo pelo pendor suave, à maneira de uma hoste em marcha,
+com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
+longe as serras de além rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a
+brancura do céu, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade divina. E lá
+debaixo, dos vales, subia, desgarrada e melancólica, uma voz de
+pegureiro cantando.
+
+Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resistência ante aquele brusco
+desaparecimento de toda a Civilização! Eu palpava a enxerga, dura e
+regelada como um granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colchões de
+penas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei também
+a minha indignação:
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...
+
+Jacinto sacudiu amargamente os ombros:
+
+--Encalhados, por aí, algures, num barracão!... Em Medina, talvez,
+nessa horrenda Medina. Indiferença das Companhias, inércia do
+Silvério... Enfim a Península, a barbárie!
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por céu
+e monte:
+
+--É uma beleza!
+
+O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, com a face
+encostada à mão:
+
+--É uma lindeza... E que paz!
+
+Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talhões de alface, gordas folhas de abóbora rastejando. Uma eira, velha
+e mal alisada, dominava o vale, donde já subia tenuemente a névoa
+de algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão desse lado se
+encravava em laranjal. E de uma fontinha rústica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.
+
+--Estou com apetite desesperado daquela água! declarou Jacinto,
+muito sério.
+
+--Também eu... Desçamos ao quintal, hein? E passamos pela cozinha, a
+saber do frango.
+
+Voltámos à varanda. O meu Príncipe, mais conciliado com o destino
+inclemente, colheu um cravo amarelo. E por outra porta baixa, de
+rijíssimas ombreiras, mergulhámos numa sala, alastrada de caliça, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada de
+pardais.
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.
+
+E descemos por uma lôbrega escada de castelo, tenteando depois um
+corredor tenebroso de lajes ásperas, atravancado por profundas arcas,
+capazes de guardar todo o grão de uma província. Ao fundo a cozinha,
+imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra,
+densas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um
+canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
+e panelas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
+no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
+onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e boi os
+Jacintos medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade
+toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
+rústico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
+roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depenava frangos, remexia
+as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
+emudeceram quando aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior,
+estonteado, com o sangue a espirrar na nédia face de abade, correu para
+nós, jurando «que o jantarinho de suas Incelências não demorava um
+credo»...
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida «sobre enxergazinhas no
+chão...»
+
+--É o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lençóis
+frescos...
+
+--Ah, lá pelos lençoizinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
+senhor! A gente apanhada sem um colchãozinho de lã, sem um lombozinho de
+vaca... Que eu já pensei, até lembrei à minha comadre, V. Inc.^{as}
+podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silvério. Tinham lá camas de
+ferro, lavatórios... Ele sempre é uma leguazita e mau caminho...
+
+Jacinto, bondoso, acudiu:
+
+--Não, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... Até gosto mais de
+dormir em Tormes, na minha casa da serra!
+
+Saímos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
+encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
+lourejava o centeio. O meu Príncipe bebeu da água nevada e luzidia da
+fonte, regaladamente, com os beiços na bica; apeteceu a alface
+rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos de uma copada
+cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
+que um bando de pombas branqueava o telhado, deslizámos até ao carreiro,
+cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Príncipe
+pasmava para os milheirais, para os vetustos carvalhos plantados por
+vetustos Jacintos, para os casebres espalhados sobre os cabeços à orla
+negra dos pinheirais.
+
+De novo penetrámos na avenida de faias e transpusemos o portão senhorial
+entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacinto
+reconheceu «certa nobreza» na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
+agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para
+nela se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens.
+Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o
+Silvério, «esse ralaço», por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
+
+--E esta varanda também é agradável, murmurou ele mergulhando a face no
+aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divãs de verga...
+
+Dentro, na «nossa sala», ambos nos sentámos nos poiais da janela,
+contemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia
+sobre vale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a Vénus
+diamantina, lânguida anunciadora da noite e dos seus contentamentos.
+Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa
+refulgência, que perpetua no nosso Céu católico a memória da Deusa
+incomparável:--nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso
+adormecer da Natureza. E este enegrecimento dos montes que se embuçam
+em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar; o rebrilho
+dos casais mansamente apagado; o cobertor de névoa, sob que se acama e
+agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola
+pelas quebradas; o segredado cochichar das águas e das relvas
+escuras--eram para ele como iniciações. Daquela janela, aberta sobre
+as serras, entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim
+descansa.
+
+Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do «jantarinho de
+suas Incelências». Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:--e aí
+logo à porta o meu supercivilizado Príncipe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
+denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
+duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de
+louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
+Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
+neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro,
+atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea
+de um imenso pão reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial
+reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira roída de caruncho, a clina fugia
+em melenas pelos rasgões do assento puído.
+
+Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
+ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira,
+entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
+seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incelências lhe
+perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto
+ocupou a sede ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade
+para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da
+toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado,
+provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos.
+Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
+com espanto:--«Está bom!»
+
+Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
+três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
+
+--Também lá volto! exclamava Jacinto com uma convicção imensa. É que
+estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
+
+Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta,
+esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que
+enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
+uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto,
+em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada
+tímida--e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara,
+luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
+lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
+
+--Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao
+bródio...
+
+--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
+
+O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:
+
+--Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até
+suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também
+vai engordar e enrijar!
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o
+Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
+E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma
+longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em
+louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
+salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da
+serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar:--«É divino!» Mas
+nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda
+infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
+entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela
+de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu
+Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio:
+
+--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantará, vinho
+amável destas serras?
+
+Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, espanejei logo
+também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
+
+--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
+Sabinos. Assim Rómulo e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim
+Roma se tornou a maravilha do mundo!
+
+E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós
+os olhos em infinito assombro e religiosa reverência.
+
+ * * * * *
+
+Ah! Jantámos deliciosissimamente, sob os auspícios do Melchior--que
+ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós
+se alongava uma noite de monte, voltámos para as janelas desvidraçadas,
+na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. Filosofámos
+então com pachorra e facúndia.
+
+Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de electricidade
+que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa
+comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da
+Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a
+fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaços de chumbo puxam
+a alma para o pó rasteiro--um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem
+jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os
+astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime
+imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros curiosamente,
+ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
+tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe
+compreender os nossos...
+
+--Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do
+telhado?
+
+--Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
+
+--Não sei.
+
+Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí
+do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque na sua
+Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
+Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse
+Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de
+nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos,
+somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
+Sande, constituímos modos diversos de um Ser único, e as nossas
+diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Moléculas do
+mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
+astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar
+sonoro--tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
+Deus. E nenhum frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse
+sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até
+às que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que não avisto, nunca
+avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno
+estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto
+abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:
+
+--Acredita!... O sol tremeu.
+
+E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses
+grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce,
+perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zés
+Fernandes, sentados às janelas doutras Tormes, contemplam o céu
+nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante
+Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa forma, bem
+frágil, bem desconfortável, e (a não ser no Apolo do Vaticano, na Vénus
+de Milo e talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca.
+Mas, horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne mais
+dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos eles
+são seres pensantes e têm consciência da Vida--porque decerto cada
+Mundo possui o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a
+todos com o seu Método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a única certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
+Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, às janelas dos nossos
+casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terrícula, constantemente
+perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que é
+sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e
+portanto realizarmos um momento, dentro da Consciência, a Unidade do
+Universo!--Hein, Jacinto?...
+
+O meu amigo rosnou:
+
+--Talvez... Estou a cair com sono.
+
+--Também eu. «Remontámos muito, Ex.^{mo} Sr.!» como dizia o Pestaninha
+em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanhã?
+
+--Concerteza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso _logo
+fujo_!» Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma
+poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas
+demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu Administrador. E
+também à espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
+voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...
+
+--É verdade, os ossos...
+
+--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andará esse perdido?
+
+Então, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sebo já
+derretida no castiçal de lata era como um lume de cigarro num
+descampado, meditámos na sorte do Grilo. O estimado negro ou fora
+despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
+gritos--ou, regaladamente adormecido, rolara com o Anatole no comboio
+para Madrid. Mas ambos os casos apareciam ao meu Príncipe como
+irremediavelmente destruidores do seu conforto...
+
+--Não, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na
+Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
+amanhã desceres à Estação, às quatro horas, encontras o teu precioso
+homem, com as tuas preciosas malas, metido nesse comboio que te leva
+ao Porto e à Capital...
+
+Jacinto sacudiu os braços como quem se debate nas malhas de uma rede:
+
+--E se seguiu para Madrid?
+
+--Então, por esta semana, cá aparece em Tormes, onde encontra ordem
+para regressar a Lisboa e reentrar no teu séquito... Resta o
+interessante caso das minhas bagagens. Se amanhã encontrares na Estação
+o Grilo, separa a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira.
+O Grilo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Guiães. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
+essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior... Eu amanhã
+falo ao Melchior.
+
+Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanhã, com esta camisa de dois
+dias, que já me faz uma comichão horrenda? E sem um lenço... Nem ao
+menos uma escova de dentes!
+
+Fértil em ideias, estendi as mãos, num belo gesto tutelar:
+
+--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui
+cedo, pelas seis horas, chego a Guiães às dez, ainda sem calor. E, mesmo
+antes do almoço e da cavaqueira com a tia Vicência, imediatamente te
+mando por um moço um saco de roupa branca. As minhas camisas e as
+minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu não tem
+direito a elegâncias e a roupas bem cortadas. O moço, num bom trote,
+entra aqui às duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Estação... Posso meter na mala uma escova de dentes.
+
+--Oh Zé Fernandes! Então mete também uma esponja... E um frasco de água-de-colónia!
+
+--Água de alfazema, excelente, feita pela tia Vicência...
+
+O meu Príncipe suspirou, impressionado com a sua miséria esquálida, e
+esta dádiva de roupas:
+
+--Bem, então vamos dormir, que estou esfalfado de emoções e de astros...
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
+«estavam preparadinhas as camas de suas Incelências.» E seguindo o bom
+caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos nós, o meu Príncipe e eu,
+ainda há pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
+abertura em arco, lôbrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
+soalho. Junto à cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um castiçal de latão sobre um alqueire; aos pés, como lavatório,
+um alguidar vidrado em cima de uma tripeça. Para mim, serrano daquelas
+serras, nem alguidar nem alqueire.
+
+Lentamente, com o pé, o meu supercivilizado amigo palpou a enxerga. E
+decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
+ela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.
+
+--E o pior não é ainda a enxerga, murmurou enfim com um suspiro. É que
+não tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E não me posso deitar de
+camisa engomada.
+
+Por inspiração minha recorremos ao Melchior. De novo, esse benemérito
+providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar os pés, uns
+tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
+estopa, áspera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
+e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Príncipe lembrei
+que Platão quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
+Cabo, não dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
+fortes, oh Jacinto!... E é só vestido de estamenha que se penetra no
+Paraíso.
+
+--Tens tu, volveu o meu amigo secamente, alguma coisa que eu leia? Não
+posso adormecer sem um livro.
+
+Eu? Um livro? Possuía apenas o velho numero do _Jornal do Comércio_,
+que escapara à dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
+meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade,
+que era a dos anúncios... E quem não viu então Jacinto, senhor de
+Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente da vela de sebo que se
+derretia no alqueire, com os pés encafuados nos socos, perdido dentro
+das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
+num pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--não pode saber o que é uma intensa e verídica imagem do
+Desalento.
+
+Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, num
+delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me reclamou:
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Diz.
+
+--Manda também no saco um abotoador de botas.
+
+Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
+penetrar no Sono, que é um primo da Morte, «Deus seja louvado!» Depois
+tomei a metade do _Jornal do Comércio_ que me pertencia.
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Que é?
+
+--Também podias meter no saco pós dos dentes... E uma lima das
+unhas... E um romance!
+
+Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova,
+depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:
+
+--Zé Fernandes...
+
+--Hein?
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são
+frescos, cheiram bem, a sadio!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacinto, que,
+com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
+de granito--parti para Guiães.
+
+Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no
+corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta
+trouxera num carro com «recados do Sr. Pimentinha». O meu pensamento
+pulou para o meu Príncipe. E lancei pelo telégrafo, para Lisboa, para o
+Hotel Bragança, este brado alegre:--«Estás lá? Sei recuperaste Grilo e
+Civilização! Hurrah! Abraço!»--Só depois de sete dias, ocupados numa
+delicada apanha de espargos com que outrora civilizara a horta da tia
+Vicência, notei o silêncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei,
+desenvolvi o grito amigo:--«Estás lá? São os prazeres da Baixa que assim
+te tornam desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas?
+Tempo delicioso! 23^o à sombra. E os ossos?...»--Veio depois a devota
+romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei num corte
+de mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicência vomitou, com uma
+indigestão de morcelas. E o silêncio do meu Príncipe era ingrato e
+ferrenho.
+
+Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.
+
+Defronte, à porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
+e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num
+banco. Mandei encher outro quartilho: ele acariciou o pescoço da minha
+égua que já salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
+Melchior, o Severo contou que na véspera jantara com ele em Tormes, e
+se abeirara também do fidalgo...
+
+--Ora essa! Então o Sr. D. Jacinto está em Tormes?
+
+O meu espanto divertiu o Severo:
+
+--Então V. Exc.^a... Pois em Tormes é que ele está, há mais de cinco
+semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma
+grandeza!
+
+Santíssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
+assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes.
+Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre do
+Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
+encostado à cintura.--Então o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto
+andava lá para baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos campos de
+Freixomil...
+
+--E o Sr. Grilo, o preto?
+
+--Há bocadinho também o enxerguei no pomar, com o francês, a apanhar
+limões doces...
+
+Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas.
+A um canto do pátio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada
+de pedreiro descansara durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
+rente ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montões de palha
+desempacotada de caixotes consideráveis.
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civilização!
+
+Recolhi a égua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
+reluzia num raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
+os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
+e nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me levaram
+três portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
+Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
+coberta de fustão, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
+canto, entre o muro e a banquinha onde um castiçal de latão resplandecia
+sobre um volume do _D. Quixote_ no lavatório pintado de amarelo,
+imitando bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabão; e
+uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da tesoura, do
+pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de água de alfazema que
+eu mandara de Guiães. As três janelas, sem cortinas, contemplavam a
+beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
+nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
+corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
+previdência do meu Príncipe o destinara ao seu Zé Fernandes. Pendurei
+logo dentro, no cabide, o meu guarda-pó de lustrina.
+
+Mas na sala imensa, onde tanto filosofáramos considerando as
+estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de estudo--e
+desenrolara essa «grandeza» que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de braços, ofereciam o conforto de
+almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
+em Tormes, admirei um candeeiro de metal de três bicos, um tinteiro de
+frade armado de penas de pato, um vaso de capela transbordando de
+cravos. Entre duas janelas uma cómoda antiga, embutida, com ferragens
+lavradas, recebera sobre o seu mármore rosado o devoto peso de um
+Presépio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros
+de esguedelhada lã, se apressavam através de alcantis para o Menino, que
+na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por uma enorme Coroa Real.
+Uma estante de madeira enchia outro pedaço de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
+repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
+primeiros Doutores nas bancadas de um concílio, alguns nobres livros, um
+Plutarco, um Virgílio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as Crónicas
+de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
+novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de varapaus.
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janelas, cerradas,
+abrigavam do sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os
+peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia, na suavizada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
+casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manhã santa. E,
+penetrado por aquela consoladora quietação de convento rural, terminei
+por me estender numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir
+languidamente um tomo de Virgílio, e murmurar, apropriando o doce verso
+que encontrara:
+
+Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
+
+Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus e
+águas que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de égua e calor
+desde Guiães, irreverentemente adormecia sobre o divino
+Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Príncipe. E
+muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abraço, o comparei
+a uma planta estiolada, emurchecida na escuridão, entre tapetes e
+sedas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
+desabrocha e honra a Natureza! Jacinto já não corcovava. Sobre a sua
+arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais
+verdadeira, espalhara um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
+o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre tão
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
+resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Até o
+bigode se lhe encrespara. E já não deslizava a mão desencantada sobre a
+face,--mas batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um
+Jacinto novíssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, neste novo Príncipe, os modos e as ideias novas.
+
+--Caramba, Jacinto, mas então...?
+
+Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E só me soube contar,
+trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de pó o soalho
+remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e
+de enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
+_desanuviado_,desenvencilhado! Almoçara uma pratada de ovos com
+chouriço, sublime. Passeara por toda aquela magnificência da serra com
+pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma
+cama, uns cabides... E ali estava...
+
+--Para todo o Verão?
+
+--Não! Mas um mês... Dois meses! Enquanto houver chouriços, e a água da
+fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber tão
+divinamente!
+
+Caí sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quase
+esgazeado, o meu Príncipe! Ele enrolava numa mortalha tabaco picado,
+tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E exclamava:
+
+--Ando aí pelas terras desde o romper de alva! Pesquei já hoje quatro
+trutas, magníficas... Lá em baixo, no Naves, um riachote que se atira
+pelo vale da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!
+
+Mas eu, ávido pela história daquela ressurreição:
+
+--Então, não estiveste em Lisboa?... Eu telegrafei...
+
+--Qual telégrafo! Qual Lisboa! Estive lá em cima, ao pé da fonte da
+Lira, à sombra de uma grande árvore, _sub tegmine_ não sei quê, a ler
+esse adorável Virgílio... E também a arranjar o meu palácio! Que te
+parece, Zé Fernandes? Em três semanas, tudo soalhado, envidraçado,
+caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguesia inteira! Até eu pintei,
+com uma imensa brocha. Viste o comedouro?
+
+--Não.
+
+--Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro!
+
+Era a mesma onde nós tanto exaltáramos o arroz com favas--mas muito
+esfregada, muito caiada, com um rodapé besuntado de azul estridente onde
+logo adivinhei a obra do meu Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães
+cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de
+louça forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma louça
+em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões dos cavadores...
+
+Mas no pátio os cães latiram. E Jacinto correu à varanda, com uma
+ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
+esfrangalhara aquela rede de malha que se não percebia e que outrora o
+travava!--Nesse momento apareceu o Grilo, de quinzena de linho,
+segurando em cada mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em
+ver na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda face já não
+resplandecia, como em Paris, com um tão sereno e ditoso brilho de ébano.
+Até me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela
+mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso:
+
+--O menino gosta, eu então também gosto... Que o ar aqui é muito bom,
+siô Fernandes, o ar é muito bom!
+
+Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a louça de Barcelos,
+as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como num refeitório de
+Franciscanos:
+
+--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!
+
+Jacinto voltava com um maço de jornais cintados:
+
+--Era o carteiro. Já vês que não amuei inteiramente com a Civilização.
+Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
+Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
+para esta nobre educação, já me bastavam as _Geórgicas_, que tu ignoras!
+
+Eu ri:
+
+--Alto lá! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
+
+Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas--como
+Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
+
+--Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha!
+
+Pulei, imensamente divertido:
+
+--Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? e as fosfatadas? e as
+esterilizadas? e as sódicas?...
+
+O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a
+aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água
+refulgente, que uma bela moça trazia num prato. Eu admirei sobretudo a
+moça... Que olhos, de um negro tão líquido e sério! No andar, no quebrar
+da cinta, que harmonia e que graça de Ninfa latina!
+
+E apenas pela porta desaparecera a esplêndida aparição:
+
+--Oh Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a
+esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
+coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
+viva, da serra...
+
+O meu Príncipe sorria, com sinceridade:
+
+--Não! não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela
+moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade,
+nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca taurina. Merece o seu
+nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
+a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não
+parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu
+filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
+fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... São
+porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé
+Fernandes, é para mim um repouso.
+
+Lentamente, gozando a frescura, o silêncio, a liberdade do vasto
+casarão, retrocedemos à sala que Jacinto já denominara a _Livraria_. E,
+de repente, ao avistar num canto uma caixa com a tampa meio despregada,
+quase me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
+
+--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que nós
+mandámos, abarrotada de Civilização? Soubeste? Apareceram?
+
+O meu Príncipe parou, bateu alegremente na coxa:
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a
+tiracolo, que nós admirámos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
+geográfico?... Lembras? Apenas falei em Tormes, gritou que conhecia,
+rabiscou uma nota... Nem era necessário mais! «Oh! Tormes,
+perfeitamente, muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo para
+Alba-de-Tormes, em Espanha! Está tudo em Espanha!
+
+Cocei o queixo, desconsolado:
+
+--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra
+ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir?
+
+--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta
+delícia de me erguer pela manhã, e de ter só uma escova para alisar o
+cabelo.
+
+Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:
+
+--Tinhas umas nove...
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me
+bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
+setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
+minhas ocupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil!
+
+ * * * * *
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes
+daquela quinta rica, que, através de duas léguas, ondula por vale e
+monte. Não me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde o
+remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no sociável e policiado
+bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idílico amor
+ele se movia através dessa Natureza, donde andara tantos anos
+desviado por teoria e por hábito! Já não arreceava a humidade mortal
+das relvas; nem repelia como impertinente o roçar das ramagens; nem o
+silêncio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
+com delícias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
+que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu elemento
+natural e paterno: sem razão, deixava os trilhos fáceis, para se
+embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a carícia
+das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os meus
+gestos e quase o meu hálito, para se embeber de silêncio e de paz: e
+duas vezes o surpreendi atento e sorrindo à beira de um regatinho
+palreiro, como se lhe escutasse a confidência...
+
+Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um
+convertido, ávido de converter:
+
+--Como a inteligência aqui se liberta, hein? E como tudo é animado
+de uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há
+aqui pensamento...
+
+--Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...
+
+--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
+
+--Ora essa! Mas eu...
+
+--Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...
+
+--Que não sou!
+
+--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedaço de
+terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que
+se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não,
+essa tua filosofia está ainda extremamente grosseira...
+
+--Irra! mas eu não...
+
+--E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade de
+formas... E todas belas!
+
+Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverência. Na
+Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
+folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
+pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
+faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias
+têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras;
+e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e
+todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A
+_mesmice_--eis o horror das Cidades!
+
+--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada
+manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
+nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e
+nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...
+
+Eu murmurei:
+
+--É pena que não converse!
+
+O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apóstolo:
+
+--Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está
+claro, não tem ditos, nem parola teorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
+passo junto dele que não me sugira um pensamento ou me não desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é
+isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe;
+não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
+abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se
+inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade.
+Pois não achas?
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
+que importavam as requintadas metáforas, e essa Metafísica mal madura,
+colhida à pressa nos ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia
+transparecia uma excelente realidade--a reconciliação do meu Príncipe
+com a Vida. Segura estava a sua Ressurreição depois de tantos anos de
+cova, da cova mole em que jazera, enfaixado como uma múmia nas faixas
+do Pessimismo!
+
+E o que esse Príncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
+curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços
+correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca
+contemplados de um Mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os
+nomes das árvores, da mais rasteira planta brotando das fendas de um
+socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da
+Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um
+amieiro ou um sobreiro...
+
+--É um azinheiro, Jacinto.
+
+Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
+adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada
+folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente
+desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava
+tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que
+caíramos, suspirar de puro alívio.
+
+Depois, muito gravemente:
+
+--Tu dizes que na natureza não há pensamento...
+
+--Outra vez! Olha que maçada! Eu...
+
+--Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o
+sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas
+certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se
+esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
+realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que
+aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se
+agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada apeteça, nada tema,
+contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando dele
+senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro
+da mão de Deus. Hein, não te parece, Zé Fernandes?
+
+--Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento
+de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
+certos Jacintos... E também me parece que andámos léguas. Estou
+derreado. E que fome!
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...
+
+--Bravo! Quem te cozinha?
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Hás-de ver a canja! Hás-de
+ver a cabidela! Ela é horrenda, quase anã, com os olhos tortos, um
+verde e outro preto. Mas que paladar! Que génio!
+
+Com efeito! Horácio dedicaria uma ode àquele cabrito assado num
+espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidela,
+em que a sublime anã de olhos tortos pusera inspirações que não são da
+terra, e aquela doçura da noite de Junho, que pelas janelas abertas
+nos envolveu no seu veludo negro, tão mole e tão consolado fiquei,
+que, na sala onde nos esperava o café, caí numa cadeira de verga, na
+mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delícia.
+
+Depois, com uma recordação, limpando o café do pêlo dos bigodes:
+
+--Ó Jacinto, e quando nós andávamos por Paris com o Pessimismo às
+costas, a gemer que tudo era ilusão e dor?
+
+O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a
+grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
+sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava ele,
+remexendo a chávena--o Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os
+que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o
+tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o
+carácter pungente de uma injustiça especial, cometida contra o
+sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
+vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se
+queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam
+os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
+borrasca de um Inverno especial, organizado nos céus para o envolver a
+ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade de uma Primavera?
+
+--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razão para
+urrar...
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é excelente para os
+Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito da Inércia. Se toda
+a meta é um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para quê marchar
+para a meta, através dos embaraços do mundo? E de resto todos os Líricos
+e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer,
+lançam o seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das
+suas misérias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
+Cósmica, e ornando assim com a auréola de uma origem quase divina as
+suas miúdas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
+Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando é um filósofo
+sem editor, e um professor sem discípulos; e sofre horrendamente de
+terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
+as suas contas em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e vive
+nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo de lata na
+algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem
+contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas
+apenas penetra na celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e
+o cerca uma paz amável, não há então, em todo Francfort, burguês mais
+optimista, de face mais jucunda, e gozando mais regradamente os bens da
+inteligência e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
+rei de Jerusalém! quando descobre esse sublime Retórico que o mundo é
+Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa
+das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
+ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é
+vaidade e aflição de espírito! nada existe estável sob o sol! Com
+efeito, meu bom Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático,
+besuntado de Literatura, a sua virilidade,--e onde se sumirá o lamento
+do Eclesiastes? Então voltará, em segunda e triunfal edição, o êxtase
+do _Livro dos Cantares_!...
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno silêncio de Tormes. Creio que
+ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou
+elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
+doçura.
+
+Em breve porém, me fez pular, escancarar as pálpebras moles, uma rija,
+larga, sadia e genuína risada. Era Jacinto, estirado numa cadeira, que
+lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Príncipe! Conservara ele o agudo
+poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
+clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom
+divino de rir, com as facécias de Sancho!
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica ociosidade
+que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou então a cerimónia tão
+falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos--dos
+«respeitáveis ossos» como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o
+procurador, nessa manhã de sexta-feira, em que almoçava connosco,
+metido num espantoso jaquetão de veludilho amarelo debruado de seda
+azul! A cerimónia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão
+incertos, quase impessoais, aqueles restos, que nós estabeleceríamos na
+Capelinha do vale da Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda
+fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
+
+--Por que enfim V. Ex.^a compreende,--explicava o Silvério passando o
+guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas
+negras, como as de um turco--, naquela mixórdia... Oh! peço desculpa a
+V. Ex.^a! Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais
+conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, nós
+sabíamos bem que dignos avós de V. Ex.^a jaziam na capela velha, assim
+tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
+respeito, certamente, mas, se V. Ex.^a me permite, senhores já muito
+desfeitos... Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que
+decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo,
+quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, entre o
+lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
+caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu
+caixão. Depois... Que quer V. Ex.^a? Não havia outro meio! E aqui o Sr.
+Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa porção de ossos, uma porção razoável... Não havia
+outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo,
+faltavam! E é bem possível que as costelas de um daqueles senhores
+ficasse com a cabeça de outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Enfim
+fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juízo, cada um
+destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.
+
+Lançava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quase
+com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Príncipe, os olhinhos
+agudos e reluzentes como vidrilhos.
+
+Eu aprovei o pitoresco homem:
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silvério. São tão vagos, tão
+anónimos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do avô Galeão.
+
+--Não estava cá! acudiu Jacinto. Vim a Tormes expressamente por causa
+do avô Galeão, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da
+Carriça... Felizmente!
+
+O Silvério sacudia gravemente a calva trigueira:
+
+--Nunca tivemos o Ex.^{mo} Sr. Galeão. Há cem anos, Sr. Fernandes, há
+cem anos que se não depositava na capela velha corpo de cavalheiro cá
+da casa.
+
+--Onde estará então?...
+
+O meu Príncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na igrejinha, no
+cemitério de alguma das freguesias numerosas, onde ele possuía terras.
+Casa tão espalhada!
+
+--Bem! concluí. Então, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem
+data, convém uma ceremoniazinha muito simples, muito sóbria.
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silvério, dando um forte sorvo
+assobiado ao café.
+
+E foi quietinha, de uma rústica e doce singeleza, a cerimónia daqueles
+altos senhores. Cedo, por uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões
+pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de funeral,
+com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montezinho
+de ossos incertos, saíram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos moços
+da quinta, da Igreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada
+doçura da manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso moço de sobrepeliz, erguia com zelo a velha
+cruz prateada; abrigando o pescoço sob um imenso lenço de rapé, de
+quadrados azuis, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a
+caldeirinha de água benta; e o bom abade de S. José, com os dedos entre
+o breviário fechado, movia os lábios, numa lenta, murmurosa reza, que
+ia, pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atrás do último cofre, o
+mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu, a
+estalar dentro de um fato preto de Jacinto, tirado à pressa de uma das
+malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me
+lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais e pastoris.
+
+Depois marchava o Silvério, soleníssimo, com um imenso peitilho, onde
+as barbas imensas se alastravam, negríssimas. De casaca, com o grosso
+beiço descaído, descaído todo ele por aquela melancolia de enterro
+que se juntava à melancolia da serra, o Grilo enfiava no braço a sua
+coroa, enorme, de rosas e de heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
+rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando
+longos rosários, rosnavam surdas ave-marias, através de espaçados
+suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
+daqueles Jacintos. Assim, pelas várzeas entrecorridas de regueiros,
+lenta nos recostos dos matos, escorregando mais rápida, pelos córregos
+pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e
+prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol que,
+vagarosamente, surdia da névoa desfeita. Ramos baixos de lodão ou de
+salgueiro passavam uma derradeira carícia sobre o veludo dos caixões.
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
+relvas, sussurrando e como rezando também, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, à nossa passagem, os galos, de cima das pilhas
+de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
+Lira, como o caminho se alongava, e desejássemos poupar o nosso velho
+abade, cortámos através de uma seara, já alta, quase madura, toda
+entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara a
+névoa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em que se
+balouçavam os esquifes; e, como enorme papoila, a mais vermelha,
+rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo sacristão para
+abrigar o abade.
+
+Jacinto tocou no meu cotovelo:
+
+--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... Num simples enterrar
+de ossos, quanta graça e quanta beleza!
+
+Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carriça, solitária e muito
+nua, no meio de um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
+frescura de arbusto, dois moços seguravam à porta molhos de tochas, que o
+Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, soleníssimo.
+Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal derramavam a sua amarelidão
+triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estacados, na jovial
+claridade que caía das altas vidraças bem polidas. Em torno dos
+esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam, o
+abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas
+na sombra dos seus negros lenços, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
+respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom
+abade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos
+incertos Jacintos. E todos desfilámos por diante do meu Príncipe,
+timidamente encostado à ombreira, com o Silvério ao lado esmagando
+contra o peitilho as barbas imensas, a face descaída, cerradas as
+pálpebras como contendo lágrimas.
+
+No adro, o meu Príncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao
+Melchior:
+
+--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delícia.
+
+Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, já com o seu
+grande casaco de lustrina, e seu velho chapéu desabado, trazidos pelo
+moço da Residência, num saco de chita. Jacinto, imediatamente lhe
+agradeceu tantos cuidados, a afável hospitalidade que oferecera aos
+ossos, durante a construção da Capelinha nova. E o suave velho, todo
+branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
+dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de tão longe, em tão
+longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.
+
+--São avós muito remotos, e agora tão confusos! murmurava Jacinto
+sorrindo.
+
+--Pois mais mérito ainda o de V. Ex.^a. Respeitar um avô morto, bem é
+corrente... Mas respeitar os ossos de um quinto avô, de um sétimo avô!
+
+--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim, quem
+muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
+não há coisa ou ser inútil. Ainda ontem eu lia num jornal do Porto,
+que por fim, segundo se descobriu, são as minhocas que estrumam e lavram
+a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. Até as
+minhocas são úteis. Não há nada inútil... Eu tinha lá na residência uma
+porção de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois reflecti e
+terminei por me regalar com eles em xarope. Os avós de V. Ex.^a por cá
+andaram, por cá trabalharam, por cá padeceram. Quer dizer: por cá
+serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
+não lhes pode fazer senão bem, a eles e a nós.
+
+E assim, docemente filosofando, parámos num souto de carvalheiras,
+onde esperava a velhíssima égua do Abade, por que o santo homem agora,
+depois do reumatismo do último Inverno, já não afrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente
+Jacinto segurou o estribo. E enquanto a égua se empurrava pelo córrego
+acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava
+o velho, nós recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, através
+dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
+preta do meu Príncipe.
+
+--Estão pois acomodados estes senhores, Zé Fernandes! Só resta rezar
+por eles o Padre-Nosso, que recomenda o abade... Somente, eu não sei,
+já não me lembro do Padre-Nosso.
+
+--Não te aflijas, Jacinto: peço à tia Vicência que reze por mim e por
+ti. É sempre a tia Vicência que reza os meus Padres-Nossos.
+
+Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
+enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas
+relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação,
+em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
+Sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava
+para o desejo da Acção... E de uma acção directa e material, em que a sua
+mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.
+
+Depois de tanto _comentar_, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a
+_criar_.
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque,
+enquanto o Manuel hortelão apanhava laranjas no alto de uma escada arrimada
+a uma alta laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:
+
+--É curioso... Nunca plantei uma árvore!
+
+--Pois é um dos três grandes actos, sem os quais segundo diz não sei que
+Filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
+uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. É
+possível que talvez nunca prestasses um serviço a uma árvore, como se
+presta a um semelhante!
+
+--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Verão é
+um belo serviço! Mas nunca semeei.
+
+E como o Manuel descia da escada, o meu Príncipe, que nunca acreditara
+inteiramente--pobre homem!--no meu saber agrícola, imediatamente
+reclamou o parecer daquela autoridade:
+
+--Oh Manuel, ouça lá, o que é que se poderia agora semear?
+
+Com o cesto das laranjas enfiado no braço, o Manuel exclamou, através
+de um lento riso, entre respeitoso e divertido:
+
+--Semear, patrão? Agora é antes colher... Olhe que já se anda a limpar a
+eirazinha para a debulha, meu patrão.
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Então ali no pomar, rente
+do muro velho, não se podia plantar uma fila de pessegueiros?
+
+O riso do Manuel crescia.
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso é lá para os Santos ou para o Natal. Agora
+só a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijãozinho em
+terra muito fresca...
+
+O meu Príncipe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.
+
+--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas são da tal laranjeira que diz o
+Melchior, muito doces, muito finas? Então leve para os seus pequenos.
+Leve muitas para os pequenos.
+
+Não! o empenho era criar a árvore. Pela árvore contemplada na serra em
+sua verdadeira majestade, na beneficência da sua sombra, na frescura
+embaladora do seu rumorejar, na graça e santidade dos ninhos que a
+povoam, começara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
+sonhava uma Tormes toda coberta de árvores, cujos frutos e verduras, e
+sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
+cuidado das suas mãos paternais.
+
+No silêncio grave do crepúsculo, que descia, murmurou ainda:
+
+--Oh Zé Fernandes; quais são as árvores que crescem mais depressa?
+
+--Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o
+feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de
+eucaliptos...
+
+--Tudo tão lento, Zé Fernandes...
+
+Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caroços que
+subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
+ele voltar ao 202, no começo do Inverno...
+
+--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! É bom
+para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta anos!
+Daqui a trinta anos, árvores só para me cobrirem a sepultura!
+
+--Já é um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto...
+
+--Filhos! onde os tenho eu?
+
+--É o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. Não faltam por aí terras
+agradáveis... Em nove meses tens uma planta feita. E quanto mais
+tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.
+
+Ele murmurou, cruzando as mãos sobre o joelho:
+
+--Tudo leva tanto tempo!...
+
+E à borda do tanque nos quedámos, calados, na fresca doçura do
+anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o
+crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.
+
+E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza não mais um
+sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os
+gados! Repetidamente, nos nossos passeios através da quinta, ele lhe
+notava a solidão.
+
+--Faltam aqui animais, Zé Fernandes!
+
+Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
+pavões. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
+escasso de águas, agora mais ressequido por Verão de tanta secura, o meu
+Príncipe parou a considerar os três carneiros do caseiro, que retouçavam
+com penúria uma relvagem pobre.
+
+E, de repente, como magoado:
+
+--Justamente! Aqui está o espaço para um belo prado, um imenso prado,
+muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordíssimos
+como bolas de algodão pousadas na relva!... Era lindo, hein? É fácil,
+não é verdade, Zé Fernandes?
+
+--Sim... Trazes a água para o prado. Águas não faltam, na serra.
+
+E o meu Príncipe encadeando logo nesta inspirada ideia outra, mais rica
+e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados,
+esses verdes ferragiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas,
+bem nédias e bem luzidias. Hein? Uma beleza. Para abrigar esses gados
+ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e útil,
+toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
+pela água... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o
+leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, e até mais moral, que
+a instalação de uma queijeira, à fresca moda Holandesa, toda branca e
+reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os
+Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
+serra, que actividade!
+
+--Pois não te parece, Zé Fernandes?
+
+--Concerteza. Tu tens, em abundância, os quatro Elementos: o ar, a
+água, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
+faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!
+
+--Pois não é verdade? E até como negócio! Está claro, para mim o lucro é
+o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a instalações iguais, implanta talvez no país uma
+indústria nova e rica! Ora com essa instalação, perfeita, quanto me
+poderá custar cada queijo?
+
+Fechei um olho, calculando:
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Rabaçal, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro,
+entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis.
+
+O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim.
+
+--Como trezentos mil réis?
+
+--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
+encanamentos de água e a configuração da serra alterada, e as vacas
+inglesas, e os edifícios de porcelana e vidro, e as máquinas, a
+extravagância, e a patuscada bucólica, cada queijo te custa, a ti
+produtor, duzentos mil réis. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tostão. Põe cinquenta réis para a caixa, rótulos, transporte, comissão,
+etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
+oitocentos e cinquenta réis!
+
+O meu Príncipe não desanimou.
+
+--Perfeitamente! Faço um desses espantosos queijos por semana, ao
+sábado, para o comermos nós ambos ao domingo!
+
+E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, tão ansiosamente
+aspirava a criar, que logo, arrastando o Silvério e o Melchior por
+cabeços e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
+onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
+ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os currais elegantes. Com a
+esplêndida segurança dos seus cento e nove contos de renda, não surgia
+dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
+respeitoso pasmo, pelo Silvério, que ele não afastasse brandamente, com
+jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa vereda.
+
+Aquelas rochas, além, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno
+dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silvério suspirava, enxugando
+sobre a escura calva um suor quase de angústia. Pobre Silvério! Rijamente
+sacudido na doce pachorra da sua administração, calculando despesas que
+se afiguravam sobre-humanas à sua parcimónia serrana, forçado a
+arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgraçado retomara
+na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris,--e era ele que corria
+pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde
+desabafou comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na
+livraria, escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor
+da Corte, pedindo desenhos, e planos, e orçamentos de uma queijeira
+perfeita.
+
+--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre lhe
+digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos...
+Dezenas de contos!
+
+E como eu aludia à fortuna do meu Príncipe, a quem todas essas obras
+tão vastas, que alterariam o antiquíssimo rosto da serra, não custavam
+mais que a outros o concerto de um socalco,--o bom Silvério atirou os
+longos braços para as coxas gordas, ainda mais desolado:
+
+--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto não tivesse
+a dinheirama, recuava. Assim, é zás zás, para diante; e eu não o censuro
+pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava também a uma
+lavoura de capricho. Mas não aqui, Sr. Fernandes, nestas serranias,
+entre alcantis. Pois um senhor que possui aquela linda propriedade de
+Montemor, nos campos do Mondego, onde até podia plantar jardins de
+desbancar os do Palácio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr.
+Fernandes não conhece a Veleira, lá para os lados de Penafiel? Isso é
+um condado! E uma terra chã, boa terra, toda junta, ali em volta da
+casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes. Mas sobretudo Montemor!
+Lá é que eram prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta
+rica, de fartar, e aí trinta perus na capoeira...
+
+--Então que quer, Silvério? O Jacinto gosta da serra. E depois este é o
+solar da família, e aqui começaram no século XIV os Jacintos...
+
+O pobre Silvério, no seu desespero, esquecia o respeito devido à secular
+nobreza da casa.
+
+--Ora! até ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste século da
+liberdade... Pois estamos lá em tempos de se falar em fidalguias, agora
+que por toda a parte anda tudo em República? Leia o _Século_, Sr.
+Fernandes! leia o _Século_, e verá! E depois eu sempre quero ver o Sr.
+D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
+manhã, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
+carvalheiras de raízes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
+serra!... Olhe, até mesmo por amor da saúde o Sr. D. Jacinto, que é
+fraquinho e acostumado à cidade, necessita sair da serra. Em Montemor,
+em Montemor é que S. Ex.^a estava bem. E o Sr. Fernandes, tão amigo
+dele e assim com tanta influência, devia teimar, e berrar, até que o
+levasse para Montemor.
+
+Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto lançara raízes,
+e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, donde brotara a
+sua raça, e o antiquíssimo húmus refluísse e o penetrasse todo, e o
+andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal, tão do chão, e
+preso ao chão, como as árvores que ele tanto amava.
+
+E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que na
+Cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca,--dias tão
+cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso interesse, que
+sempre penetrava neles, como numa festa ou numa glória.
+
+Logo de manhã, às seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
+regaladamente o meu corpo nos colchões de fresco folhelho, sentia os
+seus rijos sapatões pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
+ditoso como o de um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
+minha porta, já de chapéu desabado, já de bengalão de cerejeira,
+disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
+sempre a mesma nova, quase orgulhosa:
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Zé Fernandes. Tão bem, com uma tal
+serenidade, que começo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
+Quando abri a janela, às cinco horas, quase gritei de puro gosto!
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
+eu repetia a risca mal começada do cabelo, aquele antigo homem das
+trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato efeminado de um
+tempo devido aos fortes gozos da terra.
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pátio, desembocávamos da
+alameda de plátanos, e diante de nós se dividiam matutinamente, mais
+brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a
+sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentidão de
+quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser «contrário à
+Estética, à Filosofia e à Religião, andar depressa através dos
+campos.» De resto, com aquela subtil sensibilidade bucólica que nele
+se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve beleza,
+do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
+poderia ele entreter toda uma manhã, caminhar por entre um pinheiral,
+de tronco a tronco, calado, embebido no silêncio, na frescura, no
+resinoso aroma, empurrando com o pé as agulhas e as pinhas secas.
+Qualquer água corrente o retinha, enternecido naquela serviçal
+actividade, que se apressa, cantando, para o torrão que tem sede, e
+nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
+domingo, depois da Missa, no cabeço, junto a um velho curral
+desmantelado, sob uma grande árvore,--só por que em torno havia
+quietação, doce aragem, um fino piar de ave na ramaria, um murmúrio de
+regato entre canas verdes, e por sobre a sebe, ao lado, um perfume,
+muito fino e muito fresco, de flores escondidas.
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me não abandonava aos
+mesmos êxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda noviça--o meu
+Príncipe rugia, com a indignação de um poeta que descobre um merceeiro
+bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.
+
+--Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário. Para mim
+não se trata de saber se a terra é _linda_, mas se a terra é _boa_. Olha
+o que diz a Bíblia! «Trabalharás a quinta com o suor do teu rosto!» E
+não diz «contemplarás a quinta com o enlevo da tua imaginação!»
+
+--Pudera! exclamava o meu Príncipe. Um livro escrito por Judeus, por
+ásperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repara, homem,
+para aquele bocadinho de vale, e consegue não pensar, por um momento,
+nos trinta mil réis que ele rende! Verás que pela sua beleza e graça
+ele te dá mais contentamento à alma que os trinta mil réis ao corpo. E
+na vida só a alma importa.
+
+Recolhendo ao casarão, já o encontrávamos com as janelas meio cerradas,
+os soalhos borrifados para aquelas quentes réstias de sol de Junho, que
+depois do almoço docemente nos retinham na livraria, preguiçando.
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Príncipe não cessava, nem
+amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo
+mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
+imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto com o espírito
+acordado,--ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa
+faculdade,--tomava com delícia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
+mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o
+homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das
+ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo _Ambula_,
+caminha!--também certamente lhe gritara _et lege_, e lê. E libertado
+enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso
+amigo compreendia enfim a incomparável delícia de _ler um livro_.
+Quando eu correra a Tormes, (depois das revelações do Severo na venda do
+Torto,) ele findava o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as
+derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e de certo profundas, que
+o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
+meu Príncipe mergulhara na _Odisseia_,--e todo ele vivia no espanto e no
+deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
+velho errante, o velho Homero!
+
+--Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter
+lido Homero?...
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...
+
+--Tu leste a _Ilíada_?
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Ilíada_.
+
+Os olhos do meu Príncipe fuzilavam.
+
+--Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista,
+um desavergonhado de um sofista, que se gabava de não ter lido a
+_Ilíada_?
+
+--Não.
+
+--Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
+
+--Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a _Odisseia_!
+
+Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E
+insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual.
+Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me
+estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira,
+abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava
+numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da _Odisseia_,--
+resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das
+gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
+as rochas de mármore das Ilhas divinas,--exalava logo uma frescura
+salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra
+se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus
+perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes, e um anseio tão
+espalhado da Pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava
+os Heróis, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor
+ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
+engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada
+manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
+águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado
+pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras
+docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me alvoroçava...
+E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses
+roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para
+Jacinto, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, nesse momento o engenhoso
+Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com
+a sua facúndia a clemência dos Príncipes, ou reclamava presentes devidos
+ao Hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
+dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras
+consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+Hélade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
+hesitante, procurando Ítaca...
+
+Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os campos. E a
+essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos «seus planos», a
+essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de
+magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite de uma
+horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os
+legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
+talhões, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazema, de
+dálias. A água das regas desceria por lindos córregos de louça
+esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel,
+pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o
+plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que
+o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram,--um
+coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e
+o sobrolho trágico.
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, de um
+pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco
+e todo fremente de asas--não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos
+papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa,
+platónicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra
+serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência
+rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do
+Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu Príncipe, como
+galeras vistosas em rochas ou em lodo.
+
+Não convinha bulir em nada, (clamava o Silvério) antes das colheitas e
+da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
+promessa) «para boas obras mês de Janeiro» porque lá ensina o ditado:
+
+Em Janeiro--mete obreiro
+Mês meante--que não ante.
+
+E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
+bengala por cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas
+aformoseariam, bastava por ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo
+que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito
+progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os
+homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
+Príncipe sofria de uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
+jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
+vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os
+moços, quando à borda de um caminho ou num campo em monda eles se
+endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. De
+certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o púdico recato de transpor
+toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada
+super-civilização até à rude simplicidade daquelas almas
+naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da
+lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de
+interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia
+então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos,
+tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de
+polidez que eu por vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros:
+«Tenha V. Ex.^a muito boas tardes;... Criado de V. Ex.^a!»
+
+Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um
+saber ainda frágil,) a época das sementeiras e das ceifas, e que as
+árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto
+dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas
+afáveis e vagas.
+
+--Então, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torrão
+aqui é rico... O talude ali adiante está precisando conserto...
+
+E cada um destes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio
+deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarnação em «homem do campo,» deixando de ser uma
+mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não cruzava no
+caminho o mocinho atrás das vacas, que não o detivesse, o não
+interrogasse: «Para onde vais tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E,
+contente consigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a
+esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Príncipe era conhecer
+os nomes de todos os campos, as nascentes de água, e as delimitações da
+sua quinta.
+
+--Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos
+Albuquerques.
+
+E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto
+casarão, eram fáceis e curtas. O meu Príncipe era então uma alma que se
+simplificava:--e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele
+entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delícia ficava, depois do café,
+estendido numa cadeira, sentindo através das janelas abertas, a
+nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez estrelada do céu.
+
+As histórias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
+Guiães, do abade, da tia Vicência, dos nossos parentes da Flor da
+Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetara, para seu regalo,
+a crónica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de
+forças, e as desavenças por causa de servidões ou de águas. Também por
+vezes nos enfronhávamos, com aferro numa partida de gamão, sobre um
+belo tabuleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
+emprestara o Silvério. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e
+aí ficar encostado à janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar
+longamente, languidamente, os rouxinóis que cantavam no laranjal.
+
+
+
+
+X
+
+
+Numa dessas manhãs--justamente na véspera do meu regresso a Guiães--, o
+tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz
+rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
+alegrando toda a natureza, desde os pássaros até os regatos,
+subitamente, com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento
+tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo
+embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e
+contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais pássaro que
+cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das ervas com um lento
+murmúrio de choro.
+
+Quando Jacinto entrou no meu quarto, não resisti à malícia de o
+aterrar:
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+água, Sr. D. Jacinto! Talvez duas semanas de água! E agora é se vai
+saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
+vendaval, com a serra toda a escorrer!
+
+O meu Príncipe caminhou para a janela com as mãos nas algibeiras:
+
+--Com efeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e
+tirar um casacão impermeável... Não importa! Fica o arvoredo mais verde.
+E é bom que eu conheça Tormes nos seus hábitos de Inverno.
+
+Mas como o Melchior lhe afiançara que a «chuvinha só viria para a
+tarde», Jacinto decidiu ir antes de almoço à Corujeira, onde o Silvério
+o esperava para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos,
+muito pitorescos, inteiramente interessantes, mas já roídos, e
+ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem
+que Jacinto se vestisse à prova de água. Não andáramos porém meio
+caminho, quando, depois de um arrepio nas árvores, um negrume carregou,
+e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva oblíqua, vergastada
+pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapéus,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava
+no vento, avistámos num campo mais alto, à beira de um alpendre, o
+Silvério, debaixo de um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
+o trilho mais curto para aquele abrigo. E para lá rompemos, com a chuva
+a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
+atordoados no vendaval, que num instante alagara os campos, inchara os
+ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançara num desespero todo o
+arvoredo, tornara a serra negra, bravamente agreste, hostil,
+inabitável.
+
+Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silvério nos
+esperava à beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiámos
+naquele abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Príncipe,
+enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfalecido:
+
+--Apre! que ferocidade!
+
+Parecia espantado daquela brusca, violenta cólera de uma serra tão
+amável e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, só lhe
+oferecera doçura e sombra, e suaves céus, e quietas ramagens, e
+murmúrios discretos de ribeirinhos mansos.
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
+
+Imediatamente o Silvério aterrou o meu Príncipe:
+
+--Isto agora são brincadeiras de Verão, meu senhor! Mas há-de V. Ex.^a
+ver no Inverno, se V. Ex.^a se aguentar por cá! Então é cada temporal,
+que até parece que os montes estremecem!
+
+E contou como fora também apanhado, quando ia para a Corujeira.
+Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as
+folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o chapéu de chuva e
+calçara as suas grandes botas.
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de
+cá. Aquela casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem
+estado doente, já há dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas
+ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
+Meti para o alpendre... E não passara um credo quando lobriguei a V.
+Ex.^a... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto é voltar para casa, e
+mudar-se, que temos um dia e uma noite de água.
+
+Mas, justamente, a chuva começara a cair perpendicular, de um céu ainda
+negro, onde o vento se calara; e para além do rio e dos montes havia uma
+claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
+
+Jacinto repousava. Eu não cessara de me sacudir, de bater os pés
+encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silvério, passando a mão
+pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+prognósticos:
+
+--Pois, não senhor... Ainda estia! Nunca pensei. É que tornejou o vento.
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em ângulo, de
+pedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
+fazendo cunhal. Nesse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos
+vazios, e um carro de bois, onde o meu Príncipe se sentara, enrolando um
+cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
+reluzentes. E todos três nos calávamos, naquela contemplação inerte e
+sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e
+retém olhos e almas.
+
+--Ó Sr. Silvério, murmurou lentamente o meu Príncipe, que é que o
+senhor esteve aí a dizer de bexigas?
+
+O procurador voltou a face surpreendido:
+
+--Eu, Ex.^{mo} Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! É que pode ser,
+pode ser... Não imagine V. Ex.^a que faltam por cá doenças. O ar é bom.
+Não digo que não! Arzinho são, aguazinha leve. Mas às vezes, se V. Ex.^a
+me dá licença, vai por aí muita maleita.
+
+--Mas não há médico, não há botica?
+
+O Silvério teve o riso superior de quem habita regiões civilizadas e bem
+providas...
+
+--Então não havia de haver? Pois há um boticário, em Guiães, lá quase ao
+pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
+Sr. Fernandes? Homem capaz. Médico é o Dr. Avelino, daqui a légua e
+meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.^a vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram
+eles para pão, quanto mais para remédios!
+
+E de novo se estabeleceu um silêncio, sob o alpendre, onde penetrava a
+friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a prometedora
+claridade não se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas.
+No campo, em declive diante de nós, ia um longo correr de ribeiros
+barrentos. Eu terminara por me sentar na ponta de um madeiro, enervado,
+já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacinto, na borda do carro,
+com os pés no ar, cofiava os bigodes húmidos, palpava a face, onde, com
+espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
+sombra do 202!
+
+E, então, surdiu por trás da parede do alpendre um rapazito, muito
+rotinho, muito magrinho, com uma carita miúda, toda amarela sob a
+porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com
+vago pasmo e vago medo. Silvério imediatamente o conheceu.
+
+--Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar aí.
+Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?
+
+Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
+interessado:
+
+--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
+
+Foi o Silvério que informou respeitosamente:
+
+--É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
+figueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada não lhe falta.
+
+--Mas este pequeno também parece doente!--exclamou Jacinto. Coitadito,
+tão amarelo!... Tu também estás doente?
+
+O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
+E o Silvério sorria, com bondade:
+
+--Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e enfezadito, por
+que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miséria... Quando há o
+bocadito de pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
+
+Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
+
+--Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome?
+
+Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a
+mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeitada. E fui
+eu que esclareci o meu Príncipe:
+
+--Homem! está claro que há fome! Tu imaginavas talvez que o Paraíso se
+tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria... Em toda
+a parte há pobres, até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho
+há proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
+
+O meu Príncipe, teve um gesto de aflita impaciência:
+
+--Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em
+Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que são meus, há
+gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como
+esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
+
+O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das
+realidades da Serra:
+
+--Pois está bem de ver, meu senhor, que há para aí caseiros que são
+muito pobres. Quase todos... É uma miséria, que se não fosse algum
+socorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
+filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.^a de ver as casitas em
+que eles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...
+
+--Vamos vê-la! atalhou Jacinto com uma decisão exaltada.
+
+E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caía, mais
+leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele,
+com ansiedade, como para o salvar de um precipício.
+
+--Não! V. Ex.^a lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o
+que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha...
+
+Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu chapéu de chuva, e
+avante!
+
+Então o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
+com estrondo o imenso pára-águas, abrigou respeitosamente Jacinto,
+através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
+o bom Deus mandava àquele pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
+postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
+fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
+através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e
+cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e
+panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
+enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
+deliciosa, para uma Écloga, aquela morada da Fome, da Doença e da
+Tristeza.
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a
+porta, chamando:
+
+--Eh! tia Maria... Olá rapariga!
+
+E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja,
+com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.
+
+--Então como vai a tua mãe?--Abre lá a porta, que estão aqui estes
+senhores...
+
+Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
+
+--Ora, coitada! como há-de ir? Malzinha... malzinha.
+
+E dentro, num gemido que subia como do chão, dentre abafos, amodorrado
+e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
+
+O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
+aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga:
+
+--Não há-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão
+friagem!
+
+E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:
+
+--Já V. Ex.^a vê... Muita miséria! Até lhe chove lá dentro.
+
+E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha húmida
+reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de
+fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E
+aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de
+trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam forma
+compreensível uma arca de pau negro, e por cima, pendurado de um prego,
+entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
+
+Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:
+
+--Está bem, está bem...
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto o
+Silvério decerto revelava à rapariga, a presença augusta do «fidalgo»,
+porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
+
+Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
+colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos
+trémulos a torturar o bigode, e murmurava:
+
+--É horrível, Zé Fernandes, é horrível.
+
+Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso
+pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que
+delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou
+proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os
+olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade,
+embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu
+vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que dei ao pequenito um tostão,
+para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu
+tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
+magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo
+as mãos, e de lhe gritar:
+
+--Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!...
+
+--E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o relógio. O dia ainda vai
+estar lindo.
+
+Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e
+a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do
+vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do céu.
+
+Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda íngreme, que
+ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e
+chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura,
+que bebera largamente, reluzia consolada.
+
+Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
+socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a
+cigarreira:
+
+--Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na quinta.
+
+O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago _eh_! _eh_!
+de obediência e dúvida.
+
+--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande já hoje chamar esse Dr.
+Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios que os vão buscar
+logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, e em cada
+dia; até que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
+dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil réis...
+Bastará?
+
+O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns
+tostões bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
+aquela gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
+
+--Mas é que todos hão-de ter, disse Jacinto simplesmente.
+
+--V. Ex.^a manda, murmurou o Silvério.
+
+Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas
+extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:
+
+--Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!
+
+Caminhámos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
+vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca
+exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E
+Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras ideias
+benfazejas, cautelosamente, no seu indominável medo do Silvério:
+
+--E as casas também... Aquela casa é um covil!... Gostava de abrigar
+melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são
+pocilgas iguais... Era necessário uma reforma! Construir casas novas a
+todos os rendeiros da quinta...
+
+--A todos?...--O Silvério gaguejava,--emudeceu.
+
+E Jacinto balbuciava aterrado:
+
+--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?
+
+Silvério atirou um gesto enorme:
+
+--São vinte e coisas... Vinte e três! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
+sete...
+
+Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo a vastidão do número.
+Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
+simples, mas limpa, confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao
+pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
+Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra
+imensa, para esmagar Jacinto:
+
+--Duzentos mil réis, Ex^mo Senhor! E é para mais que não para menos!
+
+Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito
+docemente, para conciliar o Silvério:
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que
+eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.
+
+Então o Silvério teve um brado de terror:
+
+--Mas então, Ex.^mo Senhor, é uma revolução!
+
+E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos esgazeados de
+horror, dos seus imensos braços abertos para trás, como se visse o
+mundo desabar,--o bom Silvério encavacou:
+
+--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobílias, pratas, bragal, dez
+contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela
+chalaça!... Está boa a risota!
+
+E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade naquele disparate magnífico:
+
+--Enfim, V. Ex.^a é quem manda!
+
+--Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa
+gente, os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que
+melhorar. Venha você almoçar connosco. E conversamos.
+
+Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem recebeu mais espanto
+com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
+licença a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
+estava em seguida às ordens de S. Ex.^a.
+
+Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E nós seguimos, com passos
+que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul
+alegre que reaparecia, e por toda aquela justiça feita à pobreza da
+serra.
+
+--Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo, com uma
+ternura que não disfarcei, no ombro do meu amigo.
+
+--Que miséria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por aí, à vista da
+minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível...
+
+Estávamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre duas
+grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao
+fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E
+um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
+frémito alegre e doce.
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela
+lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio... Não me lembra
+o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavaleiro pecador, que se
+enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a
+avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu,
+entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma
+chaga! Tu, também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua
+beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua
+grande úlcera... É talvez a tua preparação para S. Jacinto.
+
+Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:
+
+---É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é das que
+eu posso curar!
+
+Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
+casarão.
+
+
+
+
+XI
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde
+então, tantas vezes trotei por aquelas três léguas entre a nossa e a
+velha alameda dos Jacintos, que a minha égua, quando a desviava dessa
+estrada familiar, conduzindo a uma cavalariça familiar, (onde ela
+privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia
+Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu
+sempre corria, daquele Príncipe de quem incessantemente celebrava o
+rejuvenescimento, a caridade, os pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um
+dia com um grão de sal e ironia,--o único que cabia num coração todo
+cheio de inocência,--ela me dissera, movendo com mais vivacidade as
+agulhas da sua meia:
+
+--Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer
+esse Jacinto... Traz cá essa maravilha, menino!
+
+Eu rira:
+
+--Sossegue, tia Vicência, que o trarei agora, para o dia dos meus anos,
+a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pátio, e vem aí
+toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para
+o Jacinto.
+
+Eu, com efeito, já convidara o meu Príncipe para este «natalício». E de
+resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores
+das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
+que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes
+raparigas dos solares serranos, porque Tormes tinha uma solidão muito
+monástica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
+enrudece e ganha uma casca áspera como a das árvores, na solidão.
+
+--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, e o
+renunciamento às mentiras da Civilização é uma linda história... Mas,
+caramba, faltam mulheres!
+
+Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
+
+--Com efeito, há aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
+senhoras aí das casas dos arredores... Não sei, estou pensando que se
+devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a
+panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às
+Flores são sempre as mulheres das Cortes, das Capitais, às quais,
+invariavelmente, desde Hesíodo e de Horácio, se rendem os poetas... E
+evidentemente não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte,
+numa cenoura ou numa couve... Não devem ser interessantes as senhoras
+da minha serra.
+
+--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D. Teotónio, com
+efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um
+mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, também não
+tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse,
+por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos
+nutritivos.
+
+--Tu o disseste: espinafre!
+
+--Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é bonita... Mas, menino, que
+horrivelmente bem falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca
+leste o Camilo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o
+tom com que se fala em D. Maria, em peças de sentimento. Tu também
+nunca viste o Teatro de D. Maria... Enfim, um horror! E perguntas
+pavorosas. «V. Ex.^a. Sr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me
+disse esta, a indecente!
+
+--E tu?
+
+--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma
+excelente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas
+de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
+e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicência morre por elas.
+Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma beleza. Oh! uma criatura
+esplêndida! Mas, enfim, é a mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos
+deveres da Civilização... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida
+nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem
+mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
+Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo... Borda
+na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regime... Havia
+também uma Júlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro
+mais. Mas falta a flor da Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor
+da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.
+
+--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?
+
+--Somos como irmãos, criados de pequeninos, mais acostumados e
+familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe dela
+era a única irmã da tia Vicência, e morreu muito nova. A Joaninha,
+quase desde o berço que se criou em nossa casa, em Guiães. O pai é bom
+homem, o tio Adrião. Erudito, antiquário, coleccionador... Colecciona
+toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
+fivelas... Tem uma colecção curiosa. Ele há muito que deseja vir a
+Tormes, para te visitar... Mas, coitado, sofre da bexiga, não pode
+montar a cavalo. E a estrada da Flor da Malva aqui é impossível para
+carruagens...
+
+O meu Príncipe espreguiçara longamente os braços:
+
+--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicência...
+Desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde, quando sossegar. Agora
+ando todo ocupado com o meu povo.
+
+E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu domínio de Tormes andavam obras, para
+o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
+mais velhas, que se derrubavam para se reconstruírem com uma largueza
+cómoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
+pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheirais.
+
+Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, ia um desusado movimento,
+de pedreiros e carpinteiros contratados para as obras;--e o Pedro, com
+as mangas arregaçadas, por trás do balcão, não cessava de encher os
+decilitros com uma vasta infusa.
+
+Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhãs cedo percorria
+as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
+no meu Príncipe o seu velho, maníaco furor de acumular Civilização! O
+plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado.
+Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
+da serra, decidira pôr vidraças, apesar do mestre de obras lhe dizer
+honradamente, que depois de habitadas um mês, não haveria casa com um só
+vidro. Para substituir as traves clássicas queria estucar os tectos;--e
+eu via bem claramente que ele se continha, se retesava dentro do
+Bom-Senso, para não dotar cada casa com campainhas eléctricas. Nem
+sequer me espantei, quando ele uma manhã me declarou que a porcaria da
+gente do campo provinha de eles não terem onde comodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Descíamos
+nesse momento, com os cavalos à rédea, por uma azinhaga precipitada e
+escabrosa; um vento leve ramalhava nas árvores, um regato saltava
+ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei--mas realmente me
+pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
+alegremente do meu Príncipe. E além destes confortos, a que o João,
+mestre de obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as
+grandezas», Jacinto meditava o bem das almas. Já encomendara ao seu
+arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma escola, que ele queria
+erguer, naquele campo da Carriça, junto à capelinha que abrigava «os
+ossos». Pouco a pouco, aí criaria também uma biblioteca, com livros
+de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era
+possível ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando:--«Aí vem a
+terrível acumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas
+outras ideias de Jacinto eram tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e
+excitei o entusiasmo da tia Vicência com o seu plano de uma Creche, onde
+ele esperava ter manhãs muito divertidas vendo as criancinhas a
+gatinhar, a correr tropegamente atrás de uma bola. De resto, o nosso
+boticário de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena
+farmácia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da
+tia Vicência, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
+Douro no _Almanaque de Lembranças_. E já fora oferecido o partido médico
+de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.
+
+--Não te falta senão um Teatro! dizia eu, rindo.
+
+--Um teatro não. Mas tenho a ideia de uma sala, com projecções de
+lanterna mágica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse
+mundo, e as coisas de África, e um bocado de História.
+
+E também me ensoberbeci com esta inovação!--E quando a contei ao tio
+Adrião, o digno antiquário bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada
+tremenda na coxa. «Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar
+àquela gente iletrada, vivamente, por imagens, a História Santa, a
+História Romana, até a História de Portugal!...» E voltado para a prima
+Joaninha, o tio Adrião declarou Jacinto um «homem de coração!»
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Príncipe.
+Naquele, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o
+saudavam, se voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de oração, o
+bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianças a quem
+ele distribuía tostões, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
+torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
+grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham
+medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da
+alameda, numas grossas pedras que aí deformavam a estrada, logo ao
+outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por
+dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço perigoso de caminho,
+aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se
+espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais idosos da freguesia não o
+encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--_Este é o nosso benfeitor!_ Por vezes, alguma velha corria
+do fundo do eido, ou vinha à porta do casebre, ao avistá-lo no caminho,
+para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra
+de bênçãos! Que Deus o cubra de bênçãos!»
+
+Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha
+de Sandofim, na sua égua ruça, a Tormes, para celebrar a missa na
+Capelinha. Jacinto assistia ao ofício na sua tribuna, como os
+Jacintos doutras eras, para que aqueles simples o não supusessem
+estranho a Deus. Quase sempre então ele recebia presentes, que as
+filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe à
+varanda, e eram vasos de manjericão, ou um grosso ramalhete de cravos, e
+por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e
+merengues de Guiães, às raparigas e às crianças,--e, no pátio, para os
+homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvério já sustentava
+com espanto, e redobrado respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve
+disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alípio. E eu próprio me
+impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho
+singular daqueles sítios, de grandes barbas brancas, ervanário,
+vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso de uma cova no
+alto da serra, a todos afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D.
+Sebastião, que voltara!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num
+Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da
+vindima,--e de manhã cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debruçar da
+varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde
+devia aparecer o meu Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé
+Fernandes. A tia Vicência, desde a madrugada, andava atarefada pela
+cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Príncipe «o
+pessoal» da serra, convidara para jantar algumas famílias amigas, dos
+arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre,
+no pátio, já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo
+às dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flor da Malva,
+uma carta da prima Joaninha, em que dizia «a pena de não poder vir
+porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço, e ela não o
+queria abandonar.» Corri indignado à cozinha, onde a tia Vicência
+presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa
+terrina.
+
+--A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leicenço...
+Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou
+para ter a pontada...
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vicência enterneceu-se.
+
+--Coitado! será em sítio que não se pudesse sentar na carruagem!
+Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que ponha um emplastrozinho
+de folhas de alecrim. É com que teu tio se dava bem.
+
+Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pátio:
+
+--Diz à Sr.^a D. Joaninha que sentimos muito... Que talvez eu lá
+apareça amanhã.
+
+E voltei à janela, impaciente, por que o relógio do corredor, muito
+atrasado, já cantara a meia hora depois das dez e o Príncipe tardava
+para o almoço. Mas, mal eu me chegara à varanda, apareceu justamente na
+volta da estrada Jacinto, de grande chapéu de palha, no seu cavalo,
+seguido do Grilo que, também de chapéu de palha, e abrigado sob um
+imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha égua do
+Melchior. Atrás, um moço com uma maleta à cabeça. E eu, na alegria de
+avistar enfim o meu Príncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no dele, em
+Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós
+bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!
+
+--_Salvé!_ gritei da varanda. _Salvè, domine Jacinthi_!
+
+E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da Carta!
+
+--Isto por aqui também é lindo!--gritou ele de baixo. E o teu palácio
+tem um soberbo ar... Por onde é a porta?
+
+Mas eu já me precipitava para o pátio--onde Jacinto, apeando, contou
+alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e não
+cessara de berrar ante os perigos daquela aventura.
+
+E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o esplendor
+da sua negrura, exclamava, apontando com a mão trémula para a pobre
+égua, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
+mais imóveis que marcos:
+
+--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre
+para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me
+sacudir! Só para me sacudir!
+
+E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
+contra a égua, sobre o albardão.
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
+janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava grandemente
+a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
+feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da
+tia Vicência, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
+cómoda, e adornara a cama com uma das nossas colchas da Índia mais
+ricas, cor de canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido.
+Então estreitámos os ossos num grande abraço, pelo natalício... «Trinta
+e oito, hein, Zé Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu
+Príncipe abrindo a mala, sóbria maleta de filósofo, ofereceu os
+«nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na
+Odisseia. Era um alfinete de gravata, com uma safira, uma cigarreira de
+aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
+e uma faca para livros de velho lavor Chinês. Eu protestava contra a
+prodigalidade.
+
+--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem à noite. E tomei a
+liberdade de trazer esta lembrança à tua tia Vicência. Não vale nada...
+É só por ter pertencido à princesa de Lamballe.
+
+Era uma caldeirinha de água benta, em prata lavrada, de um gosto florido e quase galante.
+
+--A tia Vicência não sabe quem é a princesa de Lamballe, mas ficará
+encantada! E é uma garantia, por que ela suspeita da tua religião, como
+homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almoço!
+
+A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu
+camarada, que ela supusera realmente um Príncipe, arrogante, escarpado
+e difícil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado
+pedido «para se lembrar dele nas suas orações», duas largas rosas,
+mais róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
+redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com
+tão linda palavra. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo
+apetite de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele,
+acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de
+forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha,
+jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela resplandecia:
+
+--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma destas batatinhas
+recheadas...
+
+--Concerteza, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas
+destas, tão perfeitas, são sempre as de Gargântua.
+
+--Não cites Rabelais, que a tia Vicência não conhece os autores
+profanos! exclamava eu, também radiante. E prova esse vinho branco cá da
+nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
+
+E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito conversado, sobre as
+obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
+Vicência, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joaninha, que
+tinha o papá doente, e o péssimo estado dos caminhos. Mas o
+enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado
+de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado
+pau de canela. Não o esquecera a tia Vicência! Ali tinha o seu pauzinho
+de canela!--Queria que ele, em Guiães, continuasse os seus hábitos
+como em Tormes... E aquele pau de canela foi o símbolo de adopção do
+meu Príncipe como novo sobrinho da tia Vicência.
+
+Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do banquete. Nós
+fumámos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a
+recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietário,
+mostrei ao meu Príncipe a propriedade toda, com desapiedada
+minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma árvore, um pé
+de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empalidecer, de
+cansaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um
+vago--«muito bonito! bela terra!»--é que voltei os passos para casa,
+tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
+plantação de espargos, e o sítio onde existira a ruína de um velho castro
+romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
+empurrei, como uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe
+mostrar as preciosidades, uma magnífica crónica de D. João I por Fernão
+Lopes, a primeira edição do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
+a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel, e outras
+maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
+arrastei à adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Príncipe tinha o ar esgazeado e lívido. Cravando
+nele os olhos inexoráveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
+ferocidade, declarei «que iríamos agora ver a tulha.» Mas então, com as
+mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmúrio de criança:
+
+--Não se me dava de me sentar um poucochinho!
+
+Tive então piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse, atrás
+de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se
+atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando num
+abatimento profundo:--«Bela propriedade!»
+
+Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
+no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos,
+escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
+pátio, a velha caleche do D. Teotónio, com a parelha ruça. Espreitando
+da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob
+o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da
+tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava à pressa as suas
+pulseiras ricas de topázios.
+
+--Tia Vicência! chegou o D. Teotónio! Felizmente vem sem a filha... Não
+se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de
+gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Ai de mim! a festa no meu aniversário não se passou com brilho, nem com
+alegria!
+
+Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância, (onde eu senti
+as malas de Paris, abertas na véspera)--uma rosa branca no jaquetão
+preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda
+branca, tufando, e presa por uma pérola negra,--já todos os convidados
+estavam na sala,--o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o Dr. Alípio, o
+gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
+da Loja--; todos de pé, num pelotão cerrado. Em torno do sofá onde a
+tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a tornava
+mais aérea e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riçado; as duas
+Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoesas, ambas de
+branco; e a mulher do Dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus
+Rústica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Príncipe,
+desses países do Norte onde os Príncipes são magníficos, muito
+distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silêncio, como se o tecto
+de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
+contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla
+da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
+apresentações, com que eu o levava através da sala,--os seus apertos de
+mão, os sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer» foram
+repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
+permaneciam reservados, observando o Príncipe, que subira à serra: e as
+senhoras mais se aconchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à
+volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei
+o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.
+
+--O Sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai
+da sua linda casa da Abrujeira.
+
+O digno D. Teotónio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
+velho brigadeiro:
+
+--V. Ex.^a chegou directamente de Viena?
+
+Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D.
+Teotónio insistiu:
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Viena...
+
+Jacinto sorria surpreendido:
+
+--Viena, porquê?... Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.
+
+O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de pálpebras baixas,
+como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da
+longa sobrecasaca azul.
+
+Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo
+o distrito.
+
+O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto,
+admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicência, que se erguera do
+sofá, chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar,
+mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiriçado e vermelho.
+
+À mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos
+da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
+fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou
+entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luizinha, sua afilhada, que,
+por costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se colocava à
+sombra da sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarrão,
+foi comida num tão largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o
+quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois
+de tanto tempo e em minha própria casa:
+
+--Deliciosa, esta sopa!
+
+Jacinto ecoou:
+
+--Divina!!
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
+excessiva admiração de Jacinto, o silêncio, carregado de cerimónia,
+mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicência, com aquele seu
+bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida
+portuguesa... E eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei
+que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, e
+gritei:
+
+--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
+privado dos pitéus lusitanos...
+
+E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na
+ocasião do natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a
+história, profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce
+continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a
+bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
+doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessara
+ninguém. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendência, quando
+eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordinário, hein?
+
+D. Teotónio observou, misteriosamente, que o «cozinheiro sabia para
+quem cozinhava.» E a bela mulher do Dr. Alípio ousou murmurar, corando:
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!
+
+Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir
+conversação, ataquei com desabrida alegria a Sr.^a D. Luísa, por ela
+assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
+de mim! tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que
+ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
+silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência,
+providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!
+ali na Serra era impossível, ainda a peso de ouro, ter peixe, a não ser a
+pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, com aquele seu
+modo, tão suave que cada sílaba para correr mais docemente parecia
+lubrificada com óleos santos, lembrou que o Sr. D. Jacinto possuía uma
+larga faixa do rio Douro com privilégio para a pesca do sável. Jacinto
+não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. Alípio não se
+admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
+há vinte anos, na mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D.
+Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!... E a
+propósito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
+entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as
+senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa até os frangos
+guisados. Receoso de que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e sem
+alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
+interpelar Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia
+encalhado no ascensor.
+
+--Isso foi uma das melhores histórias que nos sucederam em Paris! O
+Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o Grão-Duque
+Casimiro, dava uma magnífica ceia, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque
+Casimiro, o irmão do Imperador...
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de
+ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu
+contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol
+feito com um gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo
+quase no poço do elevador... Mas não se produziu um único riso, e a
+atenção mesma era dada com esforço, por cortesia. Debalde eu
+arremessava aqueles nomes magníficos de Príncipes e princesas,
+misturados a coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados
+compreendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado num poço
+negro... Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos.
+E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais
+regelada pela exclamação inocente da tia Vicência:
+
+--Oh! filho, que coisas!
+
+Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a
+Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
+libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas
+conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava
+mais viveza. Eram os soturnos murmúrios, em torno da mesa, que
+definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o
+jantar. Mergulhei com a bela mulher do Doutor Alípio na grande questão
+social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o
+feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se
+alargou um silêncio,--e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.
+
+--Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
+de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se
+ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao
+Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, também de pé, atirando
+para trás a sobrecasaca:
+
+--Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto,
+que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
+primeira vez honra com a sua presença a sua querida pátria! E que por cá
+fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu velho!
+
+Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa
+oratória, positivamente, não incendiara as imaginações! A tia Vicência
+fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto, que tocou no
+copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais
+vermelha que uma peónia. Depois foi um encadeamento de saúdes, com os
+copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
+Adrião, e o Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia
+Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de
+cadeiras,--quando D. Teotónio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
+com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa
+voz respeitosa, quase cava:
+
+--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!
+
+Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto bebeu
+assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o braço à
+tia Albergaria.
+
+E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a sua chávena de
+café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares
+finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--«Espero que ao menos,
+cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...» E o mesmo fino olhar me
+indicava o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas
+de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o
+miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto como um
+hereditário, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
+solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda
+enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na
+reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a
+suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas Eleições
+próximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas
+naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o
+café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo,
+que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+_Dr. Agudo_.
+
+--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes
+trabalhar no miguelismo?
+
+Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:
+
+--Até corre, como certo, que o Príncipe D. Miguel está com ele em
+Tormes!
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio--tão agudo!--confirmou:
+
+--É o que corre... Disfarçado em criado!
+
+Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso
+veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom
+Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois não corria, que o filho de
+D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
+
+--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.
+
+Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:
+
+--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o ver.
+Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz
+Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida... E se
+recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...
+
+Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e ainda
+conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim,
+desabafar:
+
+--Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
+ruga, as velhas e boas ideias...
+
+Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:
+
+--É conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideias_.
+
+E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava
+de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite
+de anos, intervim, vivamente:
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... Então vamos arranjar duas
+mesas... O D. Teotónio há-de querer cartas.
+
+E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra
+da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se calavam,
+parecia encolherem-se ante a aparição do meu Príncipe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do Dr.
+Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves tímidas) que lhe dera
+grande prazer aquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes...
+Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacinto
+admirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
+Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
+substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara
+«afrontado», e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles
+cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janelas
+que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, ao baralhar, parava,
+bufando, como oprimido:
+
+--Está abafado... Ainda temos trovoada!
+
+E o Dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e
+uma das éguas da caleche era escabriada, correu à janela, espreitar o
+céu, que enegrecera, morno e pesado.
+
+--Com efeito, vai cair água.
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria
+apareceu, avisando o mano Jorge.
+
+Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alípio,
+puxando o relógio, propôs que, levantada aquela remissa, se preparasse
+a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado,
+aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas,
+anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.
+
+Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que
+se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto, a história da sua
+chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com
+a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava,
+desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada
+com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando
+lentamente as luvas, a bela mulher do Dr. Alípio perguntava se ainda
+havia a remissa. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel seguido
+pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às
+senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava:
+
+--Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha?
+
+Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu
+Príncipe:
+
+--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...
+
+--Sempre o queríamos ver... se fosse agora para Tormes, com esta noite
+cerrada!
+
+O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das
+janelas, gritavam ordens para o pátio negro, onde as carruagens
+esperavam atreladas:
+
+--Desce a cabeça da vitória, ó Diogo!
+
+--Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
+
+A criada Quitéria chegava à porta com os braços carregados de xales, de
+mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante na
+vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se
+abrigar se a chuva viesse. E só o D. Teotónio, que tinha até casa
+apenas meia légua de estrada boa, se não apressava, filado outra vez no
+meu Príncipe, que levava para os cantos mais solitários, em conversas
+profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas
+a tia Albergaria gritou que já chovia;--e então foi uma pressa das
+senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens,
+na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós.
+
+Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada,--e
+uma a uma, a traquitana do Dr. Alípio, a vitória das Albergarias, a
+velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os
+nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas
+pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais
+que se passar, algum bem resulte a esta terra!
+
+Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou:
+
+--Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?... Que
+me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
+restauração de D. Miguel?!
+
+--E tu?
+
+--Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi!
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão
+desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E
+corre que tu tens o Príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado
+em criado. E sabes quem ele é? o Baptista!
+
+--Isso é sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.
+
+Na sala, a tia Vicência nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
+que ardiam ainda no silêncio e paz do serão debandado:
+
+--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+geleia, um cálice de vinho do Porto!
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! exclamei desafogando o meu
+tédio. Todo esse mulherio emudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
+
+Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
+
+Não! pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples...
+Todas estas raparigas me pareceram óptimas. E tão frescas, tão alegres!
+Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.
+
+Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel
+escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau seria...
+
+--Mas o Sr. Jacinto, não é?
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...
+
+Acudi, explicando à tia Vicência, que socialista era ser pelos pobres. A
+doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
+
+--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai, também e até
+amigo do Duque da Terceira...
+
+Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma bátega de água
+cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
+
+--Santa Bárbara! gritou a tia Vicência! Ai aquela pobre gente!... Até
+estou com cuidado... As Rojões, que vão na vitória!
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas
+costumadas no oratório, ainda antes de ir guardar as pratas, e rezar o
+terço, com a Gertrudes.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Ao outro dia, depois de almoço, eu e Jacinto montámos a cavalo para um
+grande passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu
+furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de
+testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima
+Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando
+todos no jardim a escolher uma bela rosa-chá para a botoeira do meu
+Príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça,
+a caridade, e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:
+
+--Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à
+Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O
+Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um
+desapontamento tremendo!
+
+E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela
+manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu
+quarto, e lhe chamara uma _lavradeirona_. Com efeito, era grande e
+forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço
+rústico, quando ela era apenas uma bela forte e sã planta da serra.
+Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia,--e a alma que
+nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor
+rubicundo.
+
+A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras
+reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura
+luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Eurípedes ou
+o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa
+nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
+e roçava-nos com uma carícia quase alada. O vale parecia a Jacinto,
+que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do século XVIII,
+tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de
+fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras tenras! Os
+nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da
+manhã adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e
+escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
+naquele caminho, ao começar o Outono.
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da
+Malva é o caminho do céu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão
+doce, tão bom?
+
+Eu sorri, com certo pensamento:
+
+--Não sei... É talvez já o cheiro do céu!
+
+Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:
+
+--Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são
+terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais
+deliciosos de Portugal... Hei-de pedir à prima Joaninha que te mande um
+cesto deles. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma
+coisa de celeste. Também lhe hei-de pedir que te mande o doce.
+
+Ele ria:
+
+--Será explorar de mais a prima Joaninha. E eu (porquê?) recordei e
+atirei ao meu Príncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca,
+composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:
+
+--Manda-lhe um servo querido,
+Bem hajas dona formosa!
+E que lhe entregue um anel
+E com um anel uma rosa.
+
+Jacinto riu alegremente:
+
+--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia dúzia de pêssegos,
+e de um boião de doce.
+
+Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da
+quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E
+imediatamente piquei para o largo, para a taverna do Torto, por causa
+daquele vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
+alma me pede. O meu Príncipe reprovou, indignado:
+
+--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoço, vais beber
+vinho branco?
+
+--É um costumezinho antigo... Aqui à taverninha do Torto... um
+decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.
+
+E parámos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa
+pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
+
+--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.
+
+Depois de um pálido protesto, o meu Príncipe também quis, mirou o
+límpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delícia,
+e um estalinho de alto apreço.
+
+--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes... É
+perfeito.
+
+--Hein? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!... Encha lá
+outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D.
+Jacinto, o fidalgo de Tormes.
+
+Então, de trás da ombreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
+solenemente:
+
+--Bendito seja o pai dos Pobres!
+
+E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe
+comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um
+bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois
+olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o
+profeta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem
+despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
+outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à
+pobreza.
+
+O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e
+quase negro, de uma manga muito curta.
+
+--A mão!
+
+E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João
+Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo,
+murmurando:
+
+--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
+
+Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa
+lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a
+caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe,
+que não o meu dia, e vi um homem!
+
+Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência:
+
+--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos
+sítios, que El-Rei D. Sebastião voltara?
+
+O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo
+de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como
+seguindo a percussão dos seus pensamentos:
+
+--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem
+vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há
+corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa...
+Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
+quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
+esconde bom senhor!
+
+E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, e
+para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:
+
+--Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciência, pensa que El-Rei
+D. Sebastião não morreu na batalha?
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa desconfiança:
+
+--Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do
+Torto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flor da Flor
+da Malva lá tem o paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo
+com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Por
+cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está
+lindo!
+
+Com a magra mão lançou um gesto para que seguíssemos. E já passávamos o
+cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade
+cava:
+
+--Bendito seja o Pai dos Pobres.
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+aclamações de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino
+um Sebastianista.
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada
+um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma
+do Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro,
+espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
+D. Sebastiana... E tu, felizardo?
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o último
+Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa é aquela com os dois
+torreões?
+
+--A Flor da Malva.
+
+Jacinto tirou o relógio:
+
+--São três horas. Gastámos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e
+instrutivo. É lindo este sítio.
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o Sol
+a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de
+varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado
+por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
+imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
+raízes descarnadas da grande árvore, um pequeno esperava segurando um
+burro pela arreata.
+
+--Está por aí o Manuel da Porta?
+
+--Ainda agora subiu pela alameda.
+
+--Bem: empurra lá o portão.
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota
+de cão, de onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
+Tritão, que eu logo sosseguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé
+Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
+balde, para nos segurar os cavalos.
+
+--Como está o tio Adrião?
+
+Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
+
+--E então vossa excelência, bem? A Sr.^a D. Joaninha ainda agora
+andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
+
+Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto,
+enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era
+um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado
+todo.
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma
+verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
+as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixão deste
+Josezinho.
+
+Mas quando chegámos ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que
+levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh,
+prima Joaninha!...
+
+--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...
+
+Descemos a rua, entre árvores, que a cobriam com as densas ramas
+encruzadas. Uma fresca, límpida água de rega corria e luzia num caneiro
+de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
+de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com
+doçura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e botões de ouro.
+
+O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes
+vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
+Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque pousava um cesto
+cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as
+camélias, vira a Sr.^a D. Joana seguir para o lado da parreira.
+
+Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
+mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes
+nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por aí a Sr.^a D. Joana? Uma
+das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.
+
+--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.
+
+--É uma bela quinta, murmurava o meu Príncipe encantado.
+
+--Magnífica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excelente...
+Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele
+cebolinho!
+
+Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu
+Príncipe, com os seus talhões debruados de alfazema, e madressilva
+enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de
+parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da
+porta uma roseira-chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de
+baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrámos
+no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
+enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta:
+e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a
+Flor da Malva repousava, até à antecâmara, de altos tectos apainelados,
+com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
+complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que
+tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um
+canário.
+
+--É curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu Presépio... E as minhas
+cadeiras.
+
+E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
+presépio semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro
+lavrado tinham, como as que ele descobrira no sótão, umas armas sob um
+chapéu de Cardeal.
+
+--Oh senhores! exclamei. Não haverá um criado?
+
+Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio permaneceu, muito
+largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
+pelo saltitar dos canários nos poleiros das gaiolas.
+
+--É o Palácio da Bela Adormecida no bosque! murmurou Jacinto, quase
+indignado. Dá um berro!
+
+--Não, caramba! Vou lá dentro!
+
+Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha,
+corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
+pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor
+branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos
+cabelos,--lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e
+cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis.
+
+E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva,
+viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando o
+grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.
+
+
+
+
+XV
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco
+anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último
+Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que decaíra,
+correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha
+afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. E, pai de
+família, principiara a fazer-se monótono, pela perfeição da beleza
+moral, aquele homem tão pitoresco pela inquietação filosófica, e
+pelos variados tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom
+sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas
+palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse
+outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore, e riscando
+o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para
+fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!
+
+Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía
+agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com
+falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as
+suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara já as
+suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
+crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que
+definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma
+do meu Príncipe, foi quando ele, já sabido daquele primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes à Civilização.
+Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida
+de plátanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
+freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
+tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma
+recaída! Mas os confortos mais complicados, que continha aquela
+caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos
+imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
+com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas
+desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos,
+por que ele suspirara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta
+moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
+Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas,
+tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e
+mais caixotes, para instalar um telefone!
+
+--Um telefone, em Tormes, Jacinto?
+
+O meu Príncipe explicou, com humildade:
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem vês.
+
+--Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente,
+estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os
+braços, quase suplicante:
+
+--Para casa do médico. Compreendes...
+
+Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia
+Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo
+arame, para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia
+Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia
+doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu,
+encolhendo os ombros:
+
+--Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro... E,
+depois, estás tu!
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a
+pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina! Pois não! o
+Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer
+aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e não avistámos mais
+sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então
+compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o
+equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto tempo ele
+fora o Príncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
+nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
+lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu _Figaro_, armado de imensos óculos redondos:
+
+--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. Jacinto
+está firme.
+
+O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
+dedos em curva como pétalas de uma tulipa:
+
+--S. Ex.^a brotou!
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade,
+plantado na serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara
+seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara
+em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos,
+derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos,
+cem casais em redor a bendiziam.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num
+regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima
+Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da
+minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho
+completasse dois anos, para poder jornadear sem desconforto, e
+apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas, quando
+ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha
+sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! está um
+tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao
+rijo pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado.
+«Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem
+em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a
+prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o
+roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre
+aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março
+prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem
+feita, viúva, que surtia as necessidades do meu coração, partira com o
+irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno,
+sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.
+
+Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento,
+como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu ver um enorme
+cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se
+estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na
+outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
+surpresa! eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint
+Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no
+meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe
+sacudi a mão fina, por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto
+do vagão um paletó, um maço de jornais, que o escudeiro lhe passara, o
+bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:
+
+--E Jacinto?
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
+grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia
+escarranchados no pescoço.
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! É
+capaz de ser feliz!
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! não há advérbios...
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito sério. Que canalha!
+
+Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os
+ombros, acendendo a cigarette:
+
+--Todo esse mundo circula...
+
+--Madame d'Oriol?
+
+--Continua.
+
+--Os Trèves? o Efraim?
+
+--Continuam, todos três.
+
+Lançou um gesto lânguido.
+
+--Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um
+pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os
+homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
+Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de
+Inverno... E--e voilà!
+
+--Dornan?
+
+--Continua... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo às vezes o nome
+dele, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
+apuradas, muito subtis.
+
+--E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...
+
+--Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinquenta...
+Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que se vendem bem!
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o
+comboio entrou na estação de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
+paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac
+saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:
+
+--Até Paris!... Sempre rue Cambori.
+
+Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de
+monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas,
+murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito ditas, através de
+sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície
+monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
+retalhada, de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
+lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a
+mediocridade discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da
+mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
+verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o
+céu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um
+vasto espelho muito lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse
+o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.
+
+Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já
+macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo,
+sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos veludos, grossos
+cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova
+de penas sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel e que em
+volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, a própria tia
+Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as
+comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já
+se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei,
+ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que
+todos esses cinco anos eu ali permanecera à porta do Grand-Hotel, tão
+estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as
+magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados
+sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com
+grossas rosetas da legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos
+obscenas... Santo Deus! pensei, há que anos eu estou em Paris! Comprei
+então, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me
+contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque
+desaparecia, alastrada de jornais ilustrados:--e em todos se repetia a
+mesma mulher, sempre nua, ou meia despida, ora mostrando as costelas
+magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
+nádegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No Café da Paz, o criado
+lívido, e com um resto de pó de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
+meu apetite, por ser tão tarde, um linguado frito e uma costeleta.
+
+--E que vinho, Sr. Conde?
+
+--Chablis, Sr. Duque!
+
+Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria,--e eu abri, contente, a Voz de
+Paris. Na primeira coluna, através de uma prosa muito retorcida, toda em
+brilhos de jóia barata, entrevi uma Princesa nua, e um Capitão de
+Dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde se contavam feitos
+de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloquentes
+celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois eram os crimes do
+costume.--Não há nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e então
+foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se
+frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da
+sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola
+impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei
+pelo moço lívido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
+sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas
+e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada
+findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No
+troco, que o moço me deu, com a polidez requintada de uma civilização
+muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de
+Maio saí para tomar no terraço um café cor de chapéu coco, que sabia a
+fava.
+
+Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a
+pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
+ónibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente,
+como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa
+pressa inquieta. Aquele movimento continuado e rude bem depressa
+entonteceu este espírito, por cinco anos afeito à quietação das serras
+imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel,
+ónibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da pileca:
+mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia,
+ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ónibus:--e,
+rápido, recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, de certo, estavam os
+altos prédios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
+disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em
+cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas,
+que outras tabuletas apertavam:--e mais me cansava o perceber a tenaz
+incessância do trabalho latente, a devorante canseira do lucro,
+arquejante por trás das frontarias decorosas e mudas. Então, enquanto
+fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos
+que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza, e que tanto me
+divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da
+Cidade, também eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido
+num mundo, que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
+interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
+ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflitamente que a minha
+face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam também as excelências de alma, que só na
+alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria
+com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no
+Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os homens, mais ferozes que o lobo
+ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois
+impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem
+vivos naquela multidão,--o lucro e o gozo. Isolada entre eles, e ao
+contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se
+contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu
+trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e nele,
+vivos, os dois apetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
+pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacinto perante a Natureza me
+invadiam perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo
+mortal, extraído dos seus milhões de micróbios. De cada porta me
+parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face, avistada à
+portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
+mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só podridão por
+dentro. E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda
+aquela Multidão, a sua pressa áspera e vã, a afectação das atitudes,
+as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a
+pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase cómico da minha
+parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
+remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
+da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé-Fernândico!
+
+Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação
+dos ónibus, pensei:--Que será feito de Madame Colombe? E, oh miséria!
+pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
+por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
+que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
+rue Royale para a Praça da Concórdia, topei com um robusto e possante
+homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, num modo de
+comando:
+
+--Eh, Fernandes!
+
+O Grão-Duque! O belo Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapéu tirolês
+cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Príncipe, que me
+reconhecera.
+
+--E Jacinto? Em Paris?...
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às
+cavaleiras. O Grão-Duque encolheu os ombros, desolado:
+
+--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
+perdido! Ora não há!... E um rapaz útil! que nos divertia, e tinha
+gosto! Aquele jantar cor-de-rosa foi uma festa linda... Não se fez, não
+se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
+Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo... Potável, mulher ainda muito
+potável... Não é todavia o meu género... Adocicada, leitosa, pomadada,
+neve à la vanille!... Ora esse Jacinto!...
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?
+
+O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial:
+
+--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, positivamente
+estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest,
+que era maitre-d'hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o
+Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá
+almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
+palhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma
+estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda assim, num
+dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê:
+_Para cá as mulheres_!--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
+diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?
+
+Curvei a cabeça:
+
+--Sua Majestade, bem.
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que me desola!
+Vá vêr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal _Amor
+no Water-Closet_.
+
+Um rijíssimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
+vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou... Excelente
+homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com
+os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei
+a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços
+arqueados, e gâmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
+rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada.
+E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes,
+giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equívoco da carreira,
+escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
+máquinas passavam, vitórias e faétons a vapor, com uma complicação de
+tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação
+estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para
+o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fídias, se visse esta
+nova beleza e graça do caminhar humano!...
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto,
+e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu
+aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da
+Primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
+solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que
+fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na
+antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias heróicas, e igual lona
+parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
+de ébano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente
+enfileirados como Doutores num Concílio, pareciam separados do mundo
+por aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia da
+sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa
+de escrita, desaparecera aquela confusão de instrumentozinhos, de que
+eu perdera já a memória: e só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
+tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade
+definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para
+exemplificar a instrumentação caduca de um mundo passado. Tentei mover o
+telefone, que se não moveu; a mola da electricidade não acendeu nenhum
+lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202,
+como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente
+me pareceu que percorria um museu de antiguidades; e que mais tarde
+outros homens, com uma compreensão mais pura e exacta da Vida e da
+Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
+instrumentos da Super-Civilização, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para
+sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardada debaixo de
+lona.
+
+Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
+rolara momentos pela avenida das Acácias, no silêncio decoroso,
+unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
+esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
+mesmo sorriso, o mesmo pó de arroz; as mesmas pálpebras amortecidas, os
+mesmos olhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da
+_Couraça_ passou numa vitória, fixou em mim o monóculo defumado, mas
+permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane,
+tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
+harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e
+corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio,
+sob as Acácias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
+mamava o resto do seu charuto. E num grande landeau, Madame de Trèves
+continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais
+moles aos cantos dos lábios secos.
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E findei
+o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma
+comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo
+parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta de uma Cama,
+onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
+ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de
+meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
+esfuziar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, no
+meio de um áspero e lúgubre namoro de prostitutas, fariscando a presa.
+Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos
+duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina...
+Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida,
+de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:
+
+--Mulheres de Madagáscar... Foram importadas quando a França ocupou a
+ilha!
+
+Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard
+revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartara havia cinco anos,
+sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem
+descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de
+cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova e
+de pós- de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como
+rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
+ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e
+sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e
+dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços
+garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, enobrecido
+com o título de Château isto, Château aquilo, e pó postiço no gargalo.
+À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
+e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai
+os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
+de erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planície me levou
+a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em
+Montmartre; e aí, no meio de uma multidão elegante de Senhoras, de
+Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
+alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
+gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os
+corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres
+damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente
+dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente
+comigo, por me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através
+dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula de um
+Censor, de um Catão austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu não me
+divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrará comigo o bolor da velhice?
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a
+memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as
+escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro,
+um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
+alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da
+Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi
+sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça
+bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
+Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor
+parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
+Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele
+recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
+substanciais, expressas numa língua pura e forte; mas, imediatamente,
+rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
+galo, por entre magras mãos, que se estendiam levantadas para
+estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
+endefluxado. Perguntei ao velho:
+
+--Que querem eles? É embirração com o professor... é política?
+
+O velho abanou a cabeça, espirrando:
+
+--Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem
+ideias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.
+
+Então, indignado, berrei:
+
+--Silêncio, brutos!
+
+E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
+berra:
+
+--_Sale Maure_!
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraçado, numa confusão de
+melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um montão de trapos
+moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furacão de uivos e
+cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os
+braços, esperando, com uma serenidade simples.
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o único dia
+alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os
+meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente
+complicados pela Civilização,--vapores de aço e cobre, providos de
+caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo
+pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafo no
+ventre...
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o
+Boulevard, as minhas despedidas à Cidade:
+
+--Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da
+tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu
+génio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do comboio, que
+vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo
+feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estação da minha
+aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito
+vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que
+empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e
+beijei aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
+vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a
+Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se
+açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.
+
+Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e jaqueta, de novo me
+abraçou:
+
+--E esse Paris?
+
+--Medonho!
+
+Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.
+
+--Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?
+
+--É a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela seriedade nos
+seus grandes olhos.
+
+A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé,
+apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara mais; com ela
+almoçara, com ela descera de Tormes!
+
+--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho
+daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio
+Adrião, e a tia Vicência?
+
+--Tudo óptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado, prospera. E
+agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.
+
+No largo por trás da estação, debaixo dos eucaliptos, que revi com
+gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com
+cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter
+dentro o heróico Jacintinho, um e outro servidos à estribeira por um
+criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador
+apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na
+carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estação de Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
+de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:
+
+--Deita isso fora!
+
+E eu atirei, para um montão de lixo, ao canto do Pátio, aquele pútrido
+rebotalho da Civilização. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
+quem me esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo, apanhava,
+sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de
+Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a
+sedução de Paris.
+
+Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor
+de estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores
+silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
+suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num
+alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes,
+luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada.
+Vidraças distantes de casas amáveis, flamejavam com um fulgor de ouro. A
+serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre
+adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira
+branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a
+haste bem segura na mão. Era _a bandeira do Castelo_, afirmara ele.
+
+E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natureza
+campestre e mansa,--o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos
+ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os
+dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu--, tão longe
+de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno,
+e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós,
+serenamente e seguramente subíamos--para o Castelo da Grã-Ventura!
+
+
+Fim
+
+
+
+
+ADVERTÊNCIA
+
+
+Desde a página 241, até o final, as provas deste livro não foram
+revistas pelo autor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
+parte da sua escrita aquela última demão, em que habitualmente ele
+punha a diligência mais perseverante e mais admiravelmente lúcida.
+
+Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
+trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito póstumo de Eça de
+Queirós, ao concluir o desempenho de tal missão, beija com o mais
+enternecido e saudoso respeito a mão, para todo sempre imobilizada, que
+traçou estas páginas encantadoras; e faz votos por que a revisão de que
+se incumbiu não deslustre muito grosseiramente a imortal auréola com
+que ficará resplandecendo na literatura portuguesa este livro, em que o
+espírito do grande escritor parece exalar-se da vida num terno
+suspiro de doçura, de paz, e de puro amor à terra da sua pátria.
+
+24 de Abril de 1901.
+
+
+
+
+*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmão*
+
+96--CLÉRIGOS--98
+
+
+*Basílio Teles*
+
+O problema agrícola $600
+Estudos históricos e económicos $600
+
+_No prelo:_
+
+Introdução ao problema do trabalho nacional.
+
+
+*Abel Botelho*
+
+O barão de Lavos $800
+O livro de Alda $800
+Sem remédio... $500
+
+_No prelo:_
+
+Amanhã.
+
+
+*José Caldas*
+
+Humildes $400
+Os Jesuítas; a sua influência na actual
+ sociedade portuguesa; meio de a conjurar _no prelo_
+
+
+*Sílvio Romero*
+
+Martins Pena $400
+
+
+*Rebelo da Silva*
+
+Mocidade de D. João V. 1$500
+
+
+*Andrade Corvo*
+
+Um ano na corte 1$500
+
+
+*António C. Lousada*
+
+Rua escura $500
+Na consciência $500
+
+
+*Dumas*
+
+Jorge ou o capitão dos piratas $500
+Três mosqueteiros, 2 volumes 1$000
+
+
+*Lermina*
+
+Filho do Monte Cristo, 2 volumes 1$000
+
+
+*Eugénio Sue*
+
+Mistérios de Paris, 3 volumes cart. 2$000
+
+
+*Zola*
+
+Naná $500
+História da lavadeira Gervásia, 2 vols 1$000
+O Capitão Burle $500
+Ventre de Paris, 2 vols 1$000
+
+
+*Arnaldo Gama*
+
+Caldeira de Pero Botelho $500
+Honra ou loucura $500
+Filho do Baldaia $600
+
+
+*Bruno*
+
+O Brasil mental $800
+Notas do exílio $500
+
+ * * * * *
+
+História da Prostituição 1$800
+
+
+*Camilo Castelo Branco*
+
+Maria da Fonte $500
+Livro de consolação $500
+D. Luís de Portugal $300
+Brasileira de Prazins $500
+Eusébio Macário $500
+Vulcões da lama $500
+Carta de guia de casados $300
+
+
+*Grainha*
+
+Jesuítas $600
+
+
+*Tolstoi*
+
+A Sonata de Kreutzer $400
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by José Maria Eça de Queirós
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:
+Actualização ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+/ \ No newline at end of file
diff --git a/old/modern/cidade.html b/old/modern/cidade.html
new file mode 100644
index 0000000..32d1d38
--- /dev/null
+++ b/old/modern/cidade.html
@@ -0,0 +1,17538 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN">
+<html lang="en">
+<head>
+
+
+
+
+
+ <title>A Cidade e as Serras</title>
+ <meta name="AUTOR" content="E&ccedil;a de Queir&oacute;s">
+
+
+
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=us-ascii">
+
+
+
+ <style type="text/css">
+body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;}
+h1, h2, h3, h4 { text-align: center;}
+h1 {margin: 2em; text-align: center;}
+h2, h4 {margin-top: 2em;}
+.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;}
+.signature {
+font-style: italic;
+text-align: right;}
+.smallcaps {font-variant: small-caps;}
+.quote {margin-left: 20%;}
+.break { width: 40%; margin-left:30%;}
+.pagenum { position: absolute; right: 35%;
+font-size: 75%;
+text-align: right;
+text-indent: 0em;
+font-style: normal;
+font-weight: normal;
+color: silver; background-color: inherit;
+font-variant: normal;}
+ </style>
+
+
+ <style type="text/css">
+ td.c24 {vertical-align: top; text-align: right; width: 72px;}
+ td.c23 {text-align: right; vertical-align: bottom; width: 101px;}
+ td.c22 {text-align: right; vertical-align: top; width: 72px;}
+ td.c21 {vertical-align: top; width: 353px;}
+ td.c20 {text-align: right; vertical-align: bottom; width: 72px;}
+ td.c19 {text-align: right; width: 72px;}
+ td.c18 {vertical-align: bottom; width: 353px;}
+ td.c17 {vertical-align: bottom; text-align: right; width: 72px;}
+ div.c16 {margin-left: 40px;}
+ td.c15 {width: 72px;}
+ td.c14 {text-align: right; width: 101px;}
+ td.c13 {vertical-align: bottom; width: 72px;}
+ td.c12 {width: 353px;}
+ td.c11 {vertical-align: bottom; text-align: right; width: 101px;}
+ td.c10 {width: 475px;}
+ td.c9 {width: 101px;}
+ table.c8 {text-align: center; width: 100%;}
+ table.c7 {text-align: left; width: 100%;}
+ td.c6 {text-align: right; vertical-align: bottom;}
+ td.c5 {text-align: right;}
+ span.c4 {font-weight: bold;}
+ img.c3 {width: 282px; height: 444px;}
+ div.c2 {text-align: center;}
+ img.c1 {width: 97px; height: 115px;}
+ </style>
+</head>
+
+
+<body>
+
+
+<pre>Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos&eacute; Maria E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br><br>This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with<br>almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br><br>Title: A Cidade e as Serras<br><br>Author: Jos&eacute; Maria E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br><br>Language: Portuguese<br><br>Character set encoding: ISO-8859-1<br><br>*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***<br><br><br><br><br>Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo; Nota dos transcritores:<br>Actualiza&ccedil;&atilde;o ortogr&aacute;fica da vers&atilde;o original, j&aacute; dispon&iacute;vel no Project Gutenberg<br><br><br>NOTA: Este texto tem duas vers&otilde;es em l&iacute;ngua portuguesa de acordo com o livro original,<br>a que pode ser aceder clicando numa das seguintes op&ccedil;&otilde;es:<br> <a href="../../18220-8.txt"><big><b>TEXT</b></big></a> <a href="../18220-h.htm"><big><b>HTML</b></big></a>
+<br><br><br><br><br></pre>
+
+
+<div><br>
+
+
+<br>
+
+
+<h1>E&Ccedil;A DE QUEIR&Oacute;S</h1>
+
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>PORTO</h2>
+
+
+<h2>LIVRARIA CHARDRON</h2>
+
+
+<h2>De Lello &amp; Irm&atilde;o, editores</h2>
+
+
+
+<h2>1901</h2>
+
+
+<h3>Todos os direitos reservados</h3>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="bbox c2"><br>
+
+
+<br>
+
+
+E&Ccedil;A DE QUEIR&Oacute;S<br>
+
+
+<br>
+
+
+<big><big><b>A CIDADE E AS SERRAS</b></big></big><br>
+
+
+
+<br>
+
+<br>
+
+
+<img style="width: 97px; height: 115px;" alt="" src="images/p1.jpg"><br>
+
+
+<br>
+
+
+PORTO<br>
+
+
+LIVRARIA CHARDRON<br>
+
+
+De Lello &amp; Irm&atilde;o, editores<br>
+
+
+1901<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Todos os direitos reservados<br>
+
+
+<br>
+
+</div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Pertence no Brasil o direito de propriedade desta obra ao
+cidad&atilde;o Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro,
+que, para a garantia que lhe oferece a lei n.&ordm; 496 de 1 de
+Agosto de 1898, fez o competente dep&oacute;sito na Biblioteca
+Nacional, segundo a determina&ccedil;&atilde;o do art. 13.&ordm; da
+mesma Lei.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="c2"><em>Porto--Imprensa Moderna</em></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="c2"><img style="width: 282px; height: 444px;" alt="" src="images/p2.jpg"><br>
+
+</div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>Obras do mesmo autor:</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<table class="c7" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">Revista de Portugal.</span> 4 grossos
+volumes</td>
+
+
+
+ <td class="c5">12$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">As minas de Salom&atilde;o.</span> 1
+volume</td>
+
+
+ <td class="c5">$600</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">Os Maias.</span> 2 grossos volumes</td>
+
+
+
+ <td class="c5">2$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">O crime do padre Amaro.</span> Terceira
+edi&ccedil;&atilde;o inteiramente refundida, recomposta, e
+diferente na forma e na ac&ccedil;&atilde;o da edi&ccedil;&atilde;o
+primitiva.<br>
+
+
+1 grosso volume</td>
+
+
+ <td class="c6">1$200</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+
+ <td><span class="c4">O primo Bas&iacute;lio.</span> Quarta
+edi&ccedil;&atilde;o. 1 grosso volume</td>
+
+
+ <td class="c5">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">A Rel&iacute;quia.</span> 1 grosso volume</td>
+
+
+ <td class="c5">1$000</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">O Mandarim.</span> Quarta
+edi&ccedil;&atilde;o. 1 volume</td>
+
+
+ <td class="c5">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">Correspond&ecirc;ncia de Fradique
+Mendes.</span> 1 volume</td>
+
+
+ <td class="c5">$600</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="c4">A ilustre casa de Ramires.</span> 1
+volume</td>
+
+
+ <td class="c5">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h1>A CIDADE E AS SERRAS</h1>
+
+
+<h2>I</h2>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo Jacinto nasceu num pal&aacute;cio, com cento e nove
+contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de
+corti&ccedil;a e de olival. No Alentejo, pela Estremadura,
+atrav&eacute;s das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e
+vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os
+campos desta velha fam&iacute;lia agr&iacute;cola que j&aacute;
+entulhava gr&atilde;o e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.
+A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam
+uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas l&eacute;guas,
+todo o torr&atilde;o lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus
+negrejavam desde Arga at&eacute; ao mar de &Acirc;ncora. Mas o
+pal&aacute;cio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em
+Paris, nos Campos El&iacute;sios, n.&ordm; 202. <span class="pagenum">[2]</span> Seu av&ocirc;, aquele gord&iacute;ssimo e
+riqu&iacute;ssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o <i>D.
+Gale&atilde;o</i>, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
+rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou
+numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta
+sa&iacute;a nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso
+casaco de baet&atilde;o verde e botas altas de picador, que,
+galhofando e com uma for&ccedil;a f&aacute;cil, levantou o enorme
+Jacinto--at&eacute; lhe apanhou a bengala de cast&atilde;o de ouro
+que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos
+e pretos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto Gale&atilde;o, que andas tu aqui, a estas horas, a
+rebolar pelas pedras?<br>
+
+
+<br>
+
+
+E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Sr. Infante D.
+Miguel!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar
+de t&atilde;o guloso, o seu ventre, e apesar de t&atilde;o devoto o
+seu Deus! Na sala nobre da sua casa (&agrave; Pampulha) pendurou
+sobre os damascos o retrato do &laquo;seu Salvador&raquo;,
+enfeitado de palmitos como um ret&aacute;bulo, e por baixo a
+bengala que as magn&acirc;nimas m&atilde;os reais tinham erguido do
+lixo. Enquanto o ador&aacute;vel, desejado Infante penou no
+desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege
+amarela, do botequim<span class="pagenum">[3]</span> do Z&eacute;
+
+Maria em Bel&eacute;m &agrave; botica do Pl&aacute;cido nos
+Algibebes, a gemer as saudades do <i>anjinho</i>, a tramar o
+regresso do <i>anjinho</i>. No dia, entre todos bendito, em que a
+<i>P&eacute;rola</i> apareceu &agrave; barra com o Messias,
+engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de
+papel&atilde;o e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de
+aur&eacute;ola e asas de Arcanjo, furava de cima do seu corcel de
+Alter o Drag&atilde;o do Liberalismo, que se estorcia vomitando a
+Carta. Durante a guerra com o &laquo;outro, com o pedreiro
+livre&raquo; mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao
+Rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e
+bolsas de retr&oacute;s atochadas de pe&ccedil;as que ele ensaboava
+para lhes avivar o ouro. E quando soube que o Sr. D. Miguel, com
+dois velhos ba&uacute;s amarrados sobre um macho, tomara o caminho
+de Sines e do final desterro--Jacinto <i>Gale&atilde;o</i> correu
+pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando
+furiosamente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m c&aacute; n&atilde;o fico! tamb&eacute;m c&aacute;
+n&atilde;o fico! N&atilde;o, n&atilde;o queria ficar na terra
+perversa donde partia, esbulhado e escorra&ccedil;ado, aquele Rei
+de Portugal que levantava na rua os Jacintos! Embarcou para
+Fran&ccedil;a com a mulher, a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes (da
+t&atilde;o falada <span class="pagenum">[4]</span> casa dos Fafes
+da Avel&atilde;); com o filho, o 'Cintinho, menino amarelinho,
+molezinho, coberto de caro&ccedil;os e leicen&ccedil;os; com a aia
+e com o moleque. Nas costas da Cant&aacute;bria o paquete encontrou
+t&atilde;o rijos mares que a Sr.<sup>a</sup> D. Angelina,
+esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor
+dos Passos de Alc&acirc;ntara uma coroa de espinhos, de ouro, com
+as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Baiona, onde arribaram,
+'Cintinho teve icter&iacute;cia. Na estrada de Orle&atilde;es, numa
+noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o
+n&eacute;dio senhor, a delicada senhora da casa da Avel&atilde;, o
+menino, marcharam tr&ecirc;s horas na chuva e na lama do
+ex&iacute;lio at&eacute; uma aldeia, onde, depois de baterem como
+mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos de uma taberna. No
+
+&laquo;Hotel dos Santos Padres&raquo;, em Paris, sofreram os
+terrores de um fogo que rebentara na cavalari&ccedil;a, sob o
+quarto de <i>D. Gale&atilde;o</i>, e o digno fidalgo, rebolando
+pelas escadas em camisa, at&eacute; ao p&aacute;tio, enterrou o
+p&eacute; nu numa lasca de vidro. Ent&atilde;o ergueu amargamente
+ao c&eacute;u o punho cabeludo, e rugiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Irra! &Eacute; de mais!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto <i>Gale&atilde;o</i>
+comprou a um Pr&iacute;ncipe polaco, que depois da tomada de
+Vars&oacute;via se metera frade<span class="pagenum">[5]</span>
+cartuxo, aquele palacete dos Campos El&iacute;sios, n.&ordm; 202. E
+sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas
+se enconchou, descansando de tantas agita&ccedil;&otilde;es, numa
+vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros de
+emigra&ccedil;&atilde;o (o desembargador Nuno Velho, o conde de
+Rabacena, outros menores), at&eacute; que morreu de
+indigest&atilde;o, de uma lampreia de escabeche que lhe mandara o
+seu procurador em Montemor. Os amigos pensavam que a
+Sr.<sup>a</sup> D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa
+senhora temia a jornada, os mares, as cale&ccedil;as que racham. E
+n&atilde;o se queria separar do seu Confessor, nem do seu
+M&eacute;dico, que t&atilde;o bem lhe compreendiam os
+escr&uacute;pulos e a asma.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz
+falta a boa &aacute;gua de Alcolena... O 'Cintinho, esse, em
+crescendo, que decida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O 'Cintinho crescera. Era um mo&ccedil;o mais esguio e
+l&iacute;vido que um c&iacute;rio, de longos cabelos corredios,
+narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e
+bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de
+sufoca&ccedil;&otilde;es, errava em camisa com uma lamparina
+atrav&eacute;s do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a
+<i>Sombra</i>. Nessa sua mudez e indecis&atilde;o de sombra
+surdira, ao fim<span class="pagenum">[6]</span> do luto do
+pap&aacute;, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno:
+depois, mais tarde, com a melada flor dos seus vinte anos, brotou
+nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do
+desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada
+num convento de Paris, e t&atilde;o habilidosa que esmaltava,
+dourava, concertava rel&oacute;gios e fabricava chap&eacute;us de
+feltro. No Outono de 1851, quando j&aacute; se desfolhavam os
+castanheiros dos Campos El&iacute;sios, o 'Cintinho cuspilhou
+sangue. O m&eacute;dico, acarinhando o queixo e com uma ruga
+s&eacute;ria na testa imensa, aconselhou que o menino abalasse para
+o golfo Juan ou para as t&eacute;pidas areias de Arcachon.
+'Cintinho por&eacute;m, no seu aferro de sombra, n&atilde;o se quis
+arredar da Teresinha Velho, de quem se tornara, atrav&eacute;s de
+Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais
+algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como
+uma sombra.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Tr&ecirc;s meses e tr&ecirc;s dias depois do seu enterro o meu
+Jacinto nasceu.<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde o ber&ccedil;o, onde a av&oacute; espalhava funcho e
+&acirc;mbar para afugentar a <i>Sorte-Ruim</i>, Jacinto medrou com
+a seguran&ccedil;a, a rijeza, a seiva rica de um pinheiro das
+dunas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[7]</span>N&atilde;o teve sarampo e
+n&atilde;o teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim entraram
+por ele t&atilde;o facilmente como o sol por uma vidra&ccedil;a.
+Entre os camaradas, nos p&aacute;tios dos col&eacute;gios, erguendo
+a sua espada de lata e lan&ccedil;ando um brado de comando, foi
+logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das
+merendas. Na idade em que se l&ecirc; Balzac e Musset nunca
+atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crep&uacute;sculos
+quentes o retiveram na solid&atilde;o de uma janela, padecendo de
+um desejo sem forma e sem nome. Todos os seus amigos (&eacute;ramos
+tr&ecirc;s, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe
+conservaram sempre amizades puras e certas--sem que jamais a
+participa&ccedil;&atilde;o do seu luxo as avivasse ou fossem
+desanimadas pelas evid&ecirc;ncias do seu ego&iacute;smo. Sem
+cora&ccedil;&atilde;o bastante forte para conceber um amor forte, e
+contente com esta incapacidade que o libertava, do amor s&oacute;
+
+experimentou o mel--esse mel que o amor reserva aos que o recolhem,
+&agrave; maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando.
+Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca
+lhe conhecemos outra ambi&ccedil;&atilde;o al&eacute;m de
+compreender bem as Ideias Gerais; e a sua intelig&ecirc;ncia, nos
+anos alegres de escolas e controv&eacute;rsias, circulava dentro
+das Filosofias mais <span class="pagenum">[8]</span>densas como
+enguia lustrosa na &aacute;gua limpa de um tanque. O seu valor,
+genu&iacute;no, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem
+desapreciado; e toda a opini&atilde;o, ou mera fac&eacute;cia que
+lan&ccedil;asse, logo encontrava uma aragem de simpatia e
+concord&acirc;ncia que a erguia, a mantinha embalada e rebrilhando
+nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade e carinho;--e
+n&atilde;o recordo que jamais lhe estalasse um bot&atilde;o da
+camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus
+olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta
+p&eacute;rfida emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso
+da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sacrist&atilde;o espanhol um
+D&eacute;cimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a
+sua Roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil
+pesetas. E no c&eacute;u as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam
+Jacinto sem guarda-chuva, retinham com rever&ecirc;ncia as suas
+
+&aacute;guas at&eacute; que ele passasse... Ah! o &acirc;mbar e o
+funcho da Sr.<sup>a</sup> D. Angelina tinham escorra&ccedil;ado do
+seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a <i>Sorte-Ruim</i>!
+A amor&aacute;vel av&oacute; (que eu conheci obesa, com barba)
+costumava citar um soneto natal&iacute;cio do desembargador Nunes
+Velho contendo um verso de boa li&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+<div class="break">Sabei, senhora, que esta Vida &eacute; um
+rio...</div>
+
+
+<br>
+
+
+Pois um rio de Ver&atilde;o, manso, transl&uacute;cido,
+harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre
+arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, n&atilde;o ofereceria
+&agrave;quele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem
+almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo, um Anjo
+governando ao leme, outros Anjos puxando &agrave; sirga, mais
+seguran&ccedil;a e do&ccedil;ura do que a Vida oferecia ao meu
+amigo Jacinto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Por isso n&oacute;s lhe cham&aacute;vamos &laquo;o Pr&iacute;ncipe
+da Gr&atilde;-Ventura&raquo;!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto e eu, Jos&eacute; Fernandes, ambos nos encontr&aacute;mos e
+acamarad&aacute;mos em Paris, nas Escolas do Bairro Latino--para
+onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e
+Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu
+ter esborrachado, numa tarde de prociss&atilde;o, na Sofia, a cara
+s&oacute;rdida do dr. Pais Pita.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia... Este Pr&iacute;ncipe
+concebera a Ideia de que &laquo;o homem s&oacute; &eacute;
+superiormente feliz quando &eacute; superiormente
+civilizado&raquo;. E por homem civilizado o meu camarada entendia
+aquele <span class="pagenum">[10]</span>que, robustecendo a sua
+for&ccedil;a pensante com todas as no&ccedil;&otilde;es adquiridas
+desde Arist&oacute;teles, e multiplicando a pot&ecirc;ncia corporal
+dos seus &oacute;rg&atilde;os com todos os mecanismos inventados
+desde Ter&acirc;menes, criador da roda, se torna um
+magn&iacute;fico Ad&atilde;o, quase omnipotente, quase omnisciente,
+e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do
+Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e
+todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos
+assim Jacinto formulava copiosamente a sua Ideia, quando
+convers&aacute;vamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks
+poeirentos, sob o toldo das cervejarias filos&oacute;ficas, no
+Boulevard Saint-Michel.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de
+cen&aacute;culo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866
+a 1875, entre a batalha de Sadova e a batalha de Sedan, e ouvindo
+constantemente, desde ent&atilde;o, aos t&eacute;cnicos e aos
+fil&oacute;sofos, que fora a Espingarda-de-Agulha que vencera em
+Sadova e fora o Mestre-de-Escola quem vencera em Sedan, estavam
+largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
+indiv&iacute;duos, como a das na&ccedil;&otilde;es, se realiza pelo
+ilimitado desenvolvimento da Mec&acirc;nica e da
+Erudi&ccedil;&atilde;o. Um desses mo&ccedil;os mesmo, o nosso
+inventivo Jorge <span class="pagenum">[11]</span>Carlande, reduzira
+a teoria de Jacinto, para lhe facilitar a circula&ccedil;&atilde;o
+e lhe condensar o brilho, a uma forma alg&eacute;brica:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<table class="c8" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td>Suma ci&ecirc;ncia</td>
+
+
+ <td colspan="1" rowspan="3">
+ <big><big><big><big><big>}</big></big></big></big></big></td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td>X</td>
+
+
+ <td>Suma pot&ecirc;ncia</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td>Suma felicidade</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+E durante dias, do Odeon &agrave; Sorbona, foi louvada pela
+mocidade positiva a <i>Equa&ccedil;&atilde;o Metaf&iacute;sica de
+Jacinto</i>.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Para Jacinto, por&eacute;m, o seu conceito n&atilde;o era meramente
+metaf&iacute;sico e lan&ccedil;ado pelo gozo elegante de exercer a
+raz&atilde;o especulativa:--mas constitu&iacute;a uma regra, toda
+de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a
+vida. E j&aacute; a esse tempo, em concord&acirc;ncia com o seu
+preceito--ele se surtira da <i>Pequena Enciclop&eacute;dia dos
+Conhecimentos Universais</i> em setenta e cinco volumes e
+instalara, sobre os telhados do 202, num mirante
+envidra&ccedil;ado, um telesc&oacute;pio. Justamente com esse
+telesc&oacute;pio me tornou ele palp&aacute;vel a sua ideia, numa
+noite de Agosto, de mole e dormente calor. Nos c&eacute;us remotos
+lampejavam rel&acirc;mpagos l&acirc;nguidos. Pela Avenida dos
+Campos El&iacute;sios, os fiacres rolavam para as frescuras do
+Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos
+claros.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[12]</span>--Aqui tens tu, Z&eacute;
+Fernandes, (come&ccedil;ou Jacinto, encostado &agrave; janela do
+mirante) a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos
+que recebemos da Madre natureza, lestos e s&atilde;os, n&oacute;s
+podemos apenas distinguir al&eacute;m, atrav&eacute;s da Avenida,
+naquela loja, uma vidra&ccedil;a alumiada. Mais nada! Se eu
+por&eacute;m aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um
+bin&oacute;culo de corridas, percebo, por tr&aacute;s da
+vidra&ccedil;a, presuntos, queijos, boi&otilde;es de geleia e
+caixas de ameixa seca. Concluo portanto que &eacute; uma mercearia.
+Obtive uma no&ccedil;&atilde;o; tenho sobre ti, que com os olhos
+desarmados v&ecirc;s s&oacute; o luzir da vidra&ccedil;a, uma
+vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu
+usasse os do meu telesc&oacute;pio, de composi&ccedil;&atilde;o
+mais cient&iacute;fica, poderia avistar al&eacute;m, no planeta
+Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a
+geografia de um astro que circula a milhares de l&eacute;guas dos
+Campos El&iacute;sios. &Eacute; outra no&ccedil;&atilde;o, e
+tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado
+pela Civiliza&ccedil;&atilde;o &agrave; sua m&aacute;xima
+pot&ecirc;ncia de vis&atilde;o. E desde j&aacute;, pelo lado do
+olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado,
+porque descubro realidades do Universo que ele n&atilde;o suspeita
+e de que est&aacute; privado. Aplica esta prova a todos os
+
+&oacute;rg&atilde;os e compreendes o meu princ&iacute;pio.
+Enquanto<span class="pagenum">[13]</span> &agrave;
+intelig&ecirc;ncia, e &agrave; felicidade que dela se tira pela
+incans&aacute;vel acumula&ccedil;&atilde;o das
+no&ccedil;&otilde;es, s&oacute; te pe&ccedil;o que compares Renan e
+o Grilo... Claro &eacute; portanto que nos devemos cercar de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es para gozar nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es a vantagem de viver. Agora concordas,
+Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais
+feliz que o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou
+temporal se colha em distinguir atrav&eacute;s do espa&ccedil;o
+manchas num astro, ou atrav&eacute;s da Avenida dos Campos
+El&iacute;sios presuntos numa vidra&ccedil;a. Mas concordei, porque
+sou bom, e nunca desalojarei um esp&iacute;rito do conceito onde
+ele encontra seguran&ccedil;a, disciplina e motivo de energia.
+Desabotoei o colete, e lan&ccedil;ando um gesto para o lado dos
+caf&eacute;s e das luzes:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos ent&atilde;o beber, nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es, <i>brandy and soda</i>, com gelo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Por uma conclus&atilde;o bem natural, a ideia de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, para Jacinto, n&atilde;o se separava da
+imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os seus vastos
+&oacute;rg&atilde;os funcionando poderosamente. Nem este meu
+supercivilizado amigo compreendia que longe de Armaz&eacute;ns
+servidos por tr&ecirc;s mil caixeiros; e de Mercados onde se
+despejam os verg&eacute;is e lez&iacute;rias de trinta
+prov&iacute;ncias; e de Bancos em que retine <span class="pagenum">[14]</span>o ouro universal; e de F&aacute;bricas
+fumegando com &acirc;nsia, inventando com &acirc;nsia; e de
+Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos
+s&eacute;culos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e
+por cima, de fios de tel&eacute;grafos, de fios de telefones, de
+canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos
+
+&oacute;nibus, tramways, carro&ccedil;as, veloc&iacute;pedes,
+calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milh&otilde;es de uma
+vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, atrav&eacute;s da
+Pol&iacute;cia, na busca dura do p&atilde;o ou sob a ilus&atilde;o
+do gozo--o homem do s&eacute;culo XIX pudesse saborear, plenamente,
+a del&iacute;cia de viver!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre
+os lilases, me desenrolava estas imagens, todo ele crescia,
+iluminado. Que cria&ccedil;&atilde;o augusta, a da Cidade!
+S&oacute; por ela, Z&eacute; Fernandes, s&oacute; por ela, pode o
+homem soberbamente afirmar a sua alma!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, e a religi&atilde;o? Pois a religi&atilde;o
+n&atilde;o prova a alma?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele encolhia os ombros. A religi&atilde;o! A religi&atilde;o
+&eacute; o desenvolvimento sumptuoso de um instinto rudimentar,
+comum a todos os brutos, o terror. Um c&atilde;o lambendo a
+m&atilde;o do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, j&aacute;
+constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em
+rezas ante o Deus que<span class="pagenum">[15]</span> distribui o
+c&eacute;u ou o inferno!... Mas o telefone! o fon&oacute;grafo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A&iacute; tens tu, o fon&oacute;grafo!... S&oacute; o
+fon&oacute;grafo, Z&eacute; Fernandes, me faz verdadeiramente
+sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho.
+Acredita, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o a Cidade, Z&eacute;
+Fernandes, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o a Cidade!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E depois (acrescentava) s&oacute; a Cidade lhe dava a
+sensa&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o necess&aacute;ria &agrave; vida
+como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava
+em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
+milh&otilde;es de seres arquejando na obra da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o (para manter na natureza o dom&iacute;nio
+dos Jacintos!) sentia um sossego, um conchego, s&oacute;
+compar&aacute;veis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto,
+se ergue no seu dromed&aacute;rio, e avista a longa fila da
+caravana marchando, cheia de lumes e de armas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu murmurava, impressionado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Caramba!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao contr&aacute;rio no campo, entre a inconsci&ecirc;ncia e a
+impassibilidade da Natureza, ele tremia com o terror da sua
+fragilidade e da sua solid&atilde;o. Estava a&iacute; como perdido
+num mundo que lhe n&atilde;o fosse fraternal; nenhum silvado
+encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com fome
+nenhuma &aacute;rvore, <span class="pagenum">[16]</span>por mais
+carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um
+ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia &agrave;
+
+s&uacute;bita e humilhante inutiliza&ccedil;&atilde;o de todas as
+suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e
+bichos--ser um G&eacute;nio ou ser um Santo? As searas n&atilde;o
+compreendem as <i>Ge&oacute;rgicas</i>; e fora necess&aacute;rio o
+socorro ansioso de Deus, e a invers&atilde;o de todas as leis
+naturais, e um violento milagre para que o lobo de Agubio
+n&atilde;o devorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe
+estendia os bra&ccedil;os e lhe chamava &laquo;meu irm&atilde;o
+lobo&raquo;! Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e
+s&oacute; resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e
+do Animal duas &uacute;nicas fun&ccedil;&otilde;es se mant&ecirc;m
+vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem
+ocupa&ccedil;&atilde;o, entre focinhos e ra&iacute;zes que
+n&atilde;o cessam de sugar e de pastar, sufocando no c&aacute;lido
+bafo da universal fecunda&ccedil;&atilde;o, a sua pobre alma toda
+se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha
+espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de
+mat&eacute;ria; e nessa mat&eacute;ria dois instintos surdiam,
+imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma
+semana rural, de todo o seu ser t&atilde;o nobremente composto
+s&oacute; restava um est&ocirc;mago e por baixo um falo! A alma?
+Sumida sob a besta. E necessitava <span class="pagenum">[17]</span>correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas
+ondas lustrais da Civiliza&ccedil;&atilde;o, para largar nelas a
+crosta vegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e
+Jac&iacute;ntico!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E estas requintadas met&aacute;foras do meu amigo exprimiam
+sentimentos reais--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no
+&uacute;nico passeio que fizemos ao campo, &agrave; bem
+am&aacute;vel e bem soci&aacute;vel floresta de Montmorency. Oh
+del&iacute;cias de entremez, Jacinto entre a Natureza! Logo que se
+afastava dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer
+ch&atilde;o que os seus p&eacute;s calcassem o enchia de
+desconfian&ccedil;a e terror. Toda a relva, por mais crestada, lhe
+parecia ressumar uma humidade mortal. De sob cada torr&atilde;o, da
+sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de
+v&iacute;boras, de formas rastejantes e viscosas. No sil&ecirc;ncio
+do bosque sentia um l&uacute;gubre despovoamento do Universo.
+N&atilde;o tolerava a familiaridade dos galhos que lhe
+ro&ccedil;assem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para ele um
+acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as
+flores que n&atilde;o tivesse j&aacute; encontrado em jardins,
+domesticadas por longos s&eacute;culos de servid&atilde;o
+ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava de uma
+melancolia funambulesca certos modos e formas do Ser inanimado, a
+pressa esperta e v&atilde; dos regatinhos, <span class="pagenum">[18]</span>a careca dos rochedos, todas as
+contor&ccedil;&otilde;es do arvoredo e o seu resmungar solene e
+tonto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois de uma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu
+pobre amigo abafava, apavorado, experimentando j&aacute; esse lento
+minguar e sumir de alma que o tornava como um bicho entre bichos.
+S&oacute; desanuviou quando penetramos no lajedo e no g&aacute;s de
+Paris--e a nossa vit&oacute;ria quase se despeda&ccedil;ou contra
+um &oacute;nibus retumbante, atulhado de cidad&atilde;os. Mandou
+descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa
+sociabilidade, aquela materializa&ccedil;&atilde;o em que sentia a
+cabe&ccedil;a pesada e vaga como a de um boi. E reclamou que eu o
+acompanhasse ao teatro das Variedades para sacudir, com os
+estribilhos da <i>Femme &agrave; Papa</i>, o rumor importuno que
+lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Este delicioso Jacinto fizera ent&atilde;o vinte e tr&ecirc;s anos,
+e era um soberbo mo&ccedil;o em quem reaparecera a for&ccedil;a dos
+velhos Jacintos rurais. S&oacute; pelo nariz, afilado, com narinas
+quase transparentes, de uma mobilidade inquieta, como se andasse
+fariscando perfumes, pertencia &agrave;s delicadezas do
+s&eacute;culo XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras
+rudes, crespo e quase lan&iacute;gero: e o bigode, como o de um
+Celta, ca&iacute;a em fios sedosos, que ele necessitava aparar e
+frisar. Todo o seu fato, as espessas <span class="pagenum">[19]</span>gravatas de cetim escuro que uma p&eacute;rola
+prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de
+Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor,
+n&atilde;o natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira
+com p&eacute;talas de flores dissemelhantes, cravo, az&aacute;lea,
+orqu&iacute;dea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve
+folhagem de funcho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manh&atilde; de
+chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que,
+depois de lamenta&ccedil;&otilde;es sobre os seus setenta anos, os
+seus males hemorroidais, e a pesada ger&ecirc;ncia dos seus bens
+&laquo;que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas&raquo;--me
+ordenava que recolhesse &agrave; nossa casa de Gui&atilde;es, no
+Douro! Encostado ao m&aacute;rmore partido do fog&atilde;o, onde na
+v&eacute;spera a minha Nini deixara um espartilho embrulhado no
+
+<i>Jornal dos Debates</i>, censurei severamente meu tio que assim
+cortava em bot&atilde;o, antes de desabrochar, a flor do meu Saber
+Jur&iacute;dico. Depois num Post-Scriptum ele
+acrescentava--&laquo;O tempo aqui est&aacute; lindo, o que se pode
+chamar de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda
+l&aacute; pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis
+<span class="pagenum">[20]</span>anos que cas&aacute;mos, temos
+c&aacute; o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa
+dourada&raquo;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa
+dourada da tia Vic&ecirc;ncia. H&aacute; quantos anos n&atilde;o a
+provava, nem o leit&atilde;o assado, nem o arroz de forno da nossa
+casa! Com o tempo assim t&atilde;o lindo, j&aacute; as mimosas do
+nosso p&aacute;tio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos.
+Um peda&ccedil;o de c&eacute;u azul, do azul de Gui&atilde;es, que
+outro n&atilde;o h&aacute; t&atilde;o lustroso e macio, entrou pelo
+quarto, alumiou, sobre a pu&iacute;da tristeza do tapete, relvas,
+ribeirinhos, malmequeres e flores de trevo de que meus olhos
+andavam aguados. E, por entre as bambinelas de sarja, passou um ar
+fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assobiando um <i>fado</i> meigo tirei debaixo da cama a minha velha
+mala, e meti solicitamente entre cal&ccedil;as e pe&uacute;gas um
+Tratado de Direito Civil, para aprender enfim, nos vagares da
+aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois,
+nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Gui&atilde;es. O
+meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para Gui&atilde;es!... Oh Z&eacute; Fernandes, que horror!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E toda essa semana me lembrou solicitamente <span class="pagenum">[21]</span>confortos de que eu me deveria prover para que
+pudesse conservar, nos ermos silvestres, t&atilde;o longe da
+Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo. &laquo;Leva
+uma poltrona! Leva a <i>Enciclop&eacute;dia Geral</i>! Leva caixas
+de asp&aacute;ragos!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu
+era arbusto desarreigado que n&atilde;o reviver&aacute;. A
+m&aacute;goa com que me acompanhou ao comboio conviria
+excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a
+portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
+sepultura, eu quase solucei--com saudades minhas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Cheguei a Gui&atilde;es. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso
+p&aacute;tio; comi com del&iacute;cias a sopa dourada da tia
+Vic&ecirc;ncia; de tamancos nos p&eacute;s assisti &agrave; ceifa
+dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
+eiras, ca&ccedil;ando a perdiz nos matos geados, rachando a
+melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos,
+serandando &agrave; candeia, ati&ccedil;ando fogueiras de S.
+Jo&atilde;o, enfeitando pres&eacute;pios de Natal, por ali me
+passaram docemente sete anos, t&atilde;o atarefados que nunca
+logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e t&atilde;o singelos que
+apenas me recordo quando, em v&eacute;speras de S. Nicolau, o
+abade<span class="pagenum">[22]</span> caiu da &eacute;gua &agrave;
+
+porta do Br&aacute;s das Cortes. De Jacinto s&oacute; recebia
+raramente algumas linhas, escrevinhadas &agrave; pressa por entre o
+tumulto da Civiliza&ccedil;&atilde;o. Depois, num Setembro muito
+quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes morreu,
+t&atilde;o quietamente, Deus seja louvado por esta gra&ccedil;a,
+como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado
+dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joaninha
+casou na matan&ccedil;a do porco. Andaram obras no nosso telhado.
+Voltei a Paris.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>II</h2>
+
+
+Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento,
+quando eu desci os Campos El&iacute;sios em demanda do 202. Adiante
+de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas
+rebrilhantes at&eacute; &agrave;s abas recurvas do chap&eacute;u
+donde fugiam an&eacute;is de um cabelo crespo, ressumava
+eleg&acirc;ncia e a familiaridade das coisas finas. Nas
+m&atilde;os, cruzadas atr&aacute;s das costas, cal&ccedil;adas de
+anta branca, sustentava uma bengala grossa com cast&atilde;o de
+cristal. E s&oacute; quando ele parou ao port&atilde;o do 202
+reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e
+sedosos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O abra&ccedil;o que nos enla&ccedil;ou foi t&atilde;o
+alvoro&ccedil;ado que o meu chap&eacute;u rolou na lama. E ambos
+murmur&aacute;vamos, comovidos, entrando a grade:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[24]</span> --H&aacute; sete anos!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; sete anos!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202!
+Ainda entre as duas &aacute;leas bem areadas se arredondava uma
+relva, mais lisa e varrida que a l&atilde; de um tapete. No meio o
+vaso cor&iacute;ntico esperava Abril para resplandecer com tulipas
+e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das
+escadas limiares, que uma vidra&ccedil;aria toldava, as duas magras
+Deusas de pedra, do tempo de D. Gale&atilde;o, sustentavam as
+antigas l&acirc;mpadas de globos foscos, onde j&aacute; silvava o
+g&aacute;s.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado
+por Jacinto--apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por
+uma escadaria t&atilde;o doce que nunca ofendera a asma da
+Sr.<sup>a</sup> D. Angelina! Espa&ccedil;oso, tapetado, ele
+oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos
+numerosos, um div&atilde;, uma pele de urso, um roteiro das ruas de
+Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
+antec&acirc;mara, onde desembarc&aacute;mos, encontrei a
+temperatura macia e t&eacute;pida de uma tarde de Maio, em
+Gui&atilde;es. Um criado, mais atento ao term&oacute;metro que um
+piloto &agrave; agulha, regulava destramente a boca dourada do
+calor&iacute;fero. E perfumadores entre palmeiras, como num
+terra&ccedil;o santo de Benares, <span class="pagenum">[25]</span>esparziam um vapor, aromatizando e
+salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eis a Civiliza&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto empurrou uma porta, penetr&aacute;mos numa nave cheia de
+majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por trope&ccedil;ar
+numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo ro&ccedil;ou de
+leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes el&eacute;ctricos,
+refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes
+monumentais, todas de &eacute;bano. Nelas repousavam mais de trinta
+mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
+retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como
+doutores num conc&iacute;lio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+N&atilde;o contive a minha admira&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+--Oh Jacinto! Que dep&oacute;sito!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele murmurou, num sorriso descorado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; que ler, h&aacute; que ler...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Reparei ent&atilde;o que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se
+lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um
+comediante cansado. Os an&eacute;is do seu cabelo lan&iacute;gero
+rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de
+m&aacute;rmore bem polido. N&atilde;o frisava agora o bigode
+murcho, ca&iacute;do <span class="pagenum">[26]</span>em fios
+pensativos. Tamb&eacute;m notei que corcovava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele erguera uma tape&ccedil;aria--entr&aacute;mos no seu gabinete
+de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes
+sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade.
+O damasco das paredes, os div&atilde;s, as madeiras, eram verdes,
+de um verde profundo de folha de louro. Sedas verdes envolviam as
+luzes el&eacute;ctricas, dispersas em l&acirc;mpadas t&atilde;o
+baixas que lembravam estrelas ca&iacute;das por cima das mesas,
+acabando de arrefecer e morrer: s&oacute; uma rebrilhava, nua e
+clara, no alto de uma estante quadrada, esguia, solit&aacute;ria
+como uma torre numa plan&iacute;cie, e de que o lume parecia ser o
+farol melanc&oacute;lico. Um biombo de laca verde, fresco verde de
+relva, resguardava a chamin&eacute; de m&aacute;rmore verde, verde
+de mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha
+arom&aacute;tica. E entre aqueles verdes reluzia, por sobre peanhas
+e pedestais, toda uma Mec&acirc;nica sumptuosa, aparelhos,
+l&acirc;minas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas,
+rigidezes de metais...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas Jacinto batia nas almofadas do div&atilde;, onde se enterrara
+com um modo cansado que eu n&atilde;o lhe conhecia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para aqui, Z&eacute; Fernandes, para aqui! &Eacute;
+necess&aacute;rio reatarmos estas nossas vidas, t&atilde;o
+<span class="pagenum">[27]</span>apartadas h&aacute; sete anos!...
+Em Gui&atilde;es, sete anos! Que fizeste tu?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu, que tens feito, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera--cumprira com
+serenidade todas as fun&ccedil;&otilde;es, as que pertencem
+&agrave; mat&eacute;ria e as que pertencem ao
+esp&iacute;rito...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E acumulaste Civiliza&ccedil;&atilde;o, Jacinto! Santo Deus...
+Est&aacute; tremendo, o 202!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele espalhou em torno um olhar onde j&aacute; n&atilde;o faiscava a
+antiga vivacidade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, h&aacute; confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda
+est&aacute; mal apetrechada, Z&eacute; Fernandes... E a vida
+conserva resist&ecirc;ncias.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E
+enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente
+&laquo;<i>Est&aacute; l&aacute;?--Est&aacute;
+l&aacute;?</i>&raquo;, examinei curiosamente, sobre a sua imensa
+mesa de trabalho, uma estranha e mi&uacute;da legi&atilde;o de
+instrumentozinhos de n&iacute;quel, de a&ccedil;o, de cobre, de
+ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com
+dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que
+tentei manejar--e logo uma ponta mal&eacute;vola me picou um dedo.
+Nesse instante rompeu doutro canto um &laquo;tic-tic-tic&raquo;
+a&ccedil;odado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no
+telefone:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[28]</span> --V&ecirc; a&iacute; o
+tel&eacute;grafo!... Ao p&eacute; do div&atilde;. Uma tira de papel
+que deve estar a correr.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo
+um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma
+t&eacute;nia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que
+eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, tra&ccedil;ada
+em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa
+
+<i>Azoff</i> entrara em Marselha com avaria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+J&aacute; ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o
+prejudicava directamente aquela avaria da <i>Azoff</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Da <i>Azoff</i>?... A avaria? A mim?... N&atilde;o! &Eacute; uma
+not&iacute;cia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois, consultando um rel&oacute;gio monumental que, ao fundo da
+Biblioteca, marcava a hora de todas as Capitais e o curso de todos
+os Planetas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas,
+n&atilde;o, Z&eacute; Fernandes? Tens a&iacute; os jornais de
+Paris, da noite; e os de Londres, desta manh&atilde;. As
+Ilustra&ccedil;&otilde;es al&eacute;m, naquela pasta de couro com
+ferragens.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava &agrave; minha
+profanidade serrana todos os gostos de uma inicia&ccedil;&atilde;o.
+Aos lados da cadeira de Jacinto pendiam gordos tubos
+ac&uacute;sticos, <span class="pagenum">[29]</span>por onde ele
+decerto soprava as suas ordens atrav&eacute;s do 202. Dos
+p&eacute;s da mesa cord&otilde;es t&uacute;midos e moles, coleando
+sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra &agrave; maneira
+de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu
+verniz como na &aacute;gua de um po&ccedil;o, pousava uma
+M&aacute;quina de escrever: e adiante era uma imensa M&aacute;quina
+de calcular, com fileiras de buracos donde espreitavam, esperando,
+n&uacute;meros r&iacute;gidos e de ferro. Depois parei em frente da
+estante que me preocupava, assim solit&aacute;ria, &agrave; maneira
+de uma torre numa plan&iacute;cie, com o seu alto farol. Toda uma
+das suas faces estava repleta de Dicion&aacute;rios; a outra de
+Manuais; a outra de Atlas; a &uacute;ltima de Guias, e entre eles,
+abrindo um f&oacute;lio, encontrei o Guia das ruas de Samarcanda.
+Que maci&ccedil;a torre de informa&ccedil;&atilde;o! Sobre
+prateleiras admirei aparelhos que n&atilde;o compreendia:--um
+composto de l&acirc;minas de gelatina, onde desmaiavam,
+meio-chupadas, as linhas de uma carta, talvez amorosa; outro, que
+erguia sobre um pobre livro brochado, como para o decepar, um
+cutelo funesto; outro avan&ccedil;ando a boca de uma tuba, toda
+aberta para as vozes do invis&iacute;vel. Cingidos aos umbrais,
+liados &agrave;s cimalhas, luziam arames, que fugiam atrav&eacute;s
+do tecto, para o espa&ccedil;o. Todos mergulhavam em for&ccedil;as
+universais, todos <span class="pagenum">[30]</span>transmitiam
+for&ccedil;as universais. A Natureza convergia disciplinada ao
+servi&ccedil;o do meu amigo e entrara na sua domesticidade!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto atirou uma exclama&ccedil;&atilde;o impaciente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh, estas penas el&eacute;ctricas!... Que seca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Amarrotara com c&oacute;lera a carta come&ccedil;ada--eu escapei,
+respirando, para a Biblioteca. Que majestoso armaz&eacute;m dos
+produtos do Racioc&iacute;nio e da Imagina&ccedil;&atilde;o! Ali
+jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma
+cultura humana. Logo &agrave; entrada notei, em ouro numa lombada
+verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regi&atilde;o dos
+Economistas. Avancei--e percorri, espantado, oito metros de
+Economia Pol&iacute;tica. Depois avistei os Fil&oacute;sofos e os
+seus comentadores, que revestiam toda uma parede, desde as escolas
+Pr&eacute;-Socr&aacute;ticas at&eacute; &agrave;s escolas
+Neopessimistas. Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil
+sistemas--e que todos se contradiziam. Pelas
+encaderna&ccedil;&otilde;es logo se deduziam as doutrinas: Hobbes,
+em baixo, era pesado, de couro negro; Plat&atilde;o, em cima,
+resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante come&ccedil;avam
+as Hist&oacute;rias Universais. Mas a&iacute; uma imensa pilha de
+livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos
+
+<span class="pagenum">[31]</span>novos, subia contra a estante,
+como fresca terra de aluvi&atilde;o tapando uma riba secular.
+Contornei essa colina, mergulhei na sec&ccedil;&atilde;o das
+Ci&ecirc;ncias Naturais, peregrinando, num assombro crescente, da
+Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia para a
+Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela rasgada
+sobre os Campos El&iacute;sios. Apartei as cortinas de veludo--e
+por tr&aacute;s descobri outra portentosa rima de volumes, todos de
+Hist&oacute;ria Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam
+montanhosamente at&eacute; aos &uacute;ltimos vidros, vedando, nas
+manh&atilde;s mais c&acirc;ndidas, o ar e a luz do Senhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante
+am&aacute;vel dos Poetas. Como um repouso para o esp&iacute;rito
+esfalfado de todo aquele saber positivo, Jacinto aconchegara
+a&iacute; um recanto, com um div&atilde; e uma mesa de limoeiro,
+mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de cigarros
+do Oriente, de tabaqueiras do s&eacute;culo XVIII. Sobre um cofre
+de madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos
+secos do Jap&atilde;o. Cedi &agrave; sedu&ccedil;&atilde;o das
+almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti
+estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto de asas
+harmoniosas. Sorri &agrave; ideia que fossem abelhas, compondo o
+seu <span class="pagenum">[32]</span>mel naquele maci&ccedil;o de
+versos em flor. Depois percebi que o sussurro remoto e dormente
+vinha do cofre de mogno, de parecer t&atilde;o discreto. Arredei
+uma <i>Gazeta de Fran&ccedil;a</i>; e descortinei um cord&atilde;o
+que emergia de um orif&iacute;cio, escavado no cofre, e rematava
+num funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha
+confiada orelha, afeita &agrave; singeleza dos rumores da serra. E
+logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida, aproveitando a minha
+curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento,
+sussurrou capciosamente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--...&laquo;E assim, pela disposi&ccedil;&atilde;o dos cubos
+diab&oacute;licos, eu chego a verificar os espa&ccedil;os
+hiperm&aacute;gicos!...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Pulei, com um berro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, aqui h&aacute; um homem! Est&aacute; aqui um homem a
+falar dentro de uma caixa!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu camarada, habituado aos prod&iacute;gios, n&atilde;o se
+alvoro&ccedil;ou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; o Conferen&ccedil;ofone... Exactamente como o
+Teatrofone; somente aplicado &agrave;s escolas e &agrave;s
+confer&ecirc;ncias. Muito c&oacute;modo!... Que diz o homem,
+Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu sei! Cubos diab&oacute;licos, espa&ccedil;os m&aacute;gicos,
+toda a sorte de horrores...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[33]</span> --Ah, &eacute; o coronel
+Dorchas... Li&ccedil;&otilde;es de Metaf&iacute;sica Positiva sobre
+a Quarta Dimens&atilde;o... Conjecturas, uma ma&ccedil;ada! Ouve
+l&aacute;, tu hoje jantas comigo e com uns amigos, Z&eacute;
+
+Fernandes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, Jacinto... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da
+serra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquet&atilde;o de
+flanela grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao
+domingo, em Gui&atilde;es, visitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou
+que esta simplicidade montesina interessaria os seus convidados,
+que eram dois artistas... Quem? O autor do <i>Cora&ccedil;&atilde;o
+Triplo</i>, um Psic&oacute;logo Feminista, de agudeza
+transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
+Ci&ecirc;ncias Sentimentais; e Vorcan, um pintor m&iacute;tico, que
+interpretara etereamente, havia um ano, a simbolia raps&oacute;dica
+do cerco de Tr&oacute;ia, numa vasta composi&ccedil;&atilde;o,
+
+<i>Helena Devastadora</i>...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu co&ccedil;ava a barba:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, Jacinto, n&atilde;o... Eu venho de Gui&atilde;es, das
+serras; preciso entrar em toda esta civiliza&ccedil;&atilde;o,
+lentamente, com cautela, sen&atilde;o rebento. Logo na mesma tarde
+a electricidade, e o conferen&ccedil;ofone, e os espa&ccedil;os
+hiperm&aacute;gicos e o feminista, e o et&eacute;reo, e a simbolia
+devastadora, &eacute; excessivo! Volto amanh&atilde;.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>Jacinto dobrava vagarosamente a
+sua carta, onde metera sem rebu&ccedil;o (como convinha &agrave;
+nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do ramo que lhe
+floria o peito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Amanh&atilde;, Z&eacute; Fernandes, tu vens antes de
+almo&ccedil;o, com as tuas malas dentro de um fiacre, para te
+instalares no 202, no teu quarto. No Hotel s&atilde;o
+embara&ccedil;os, priva&ccedil;&otilde;es. Aqui tens o telefone, o
+teatrofone, livros...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo
+ac&uacute;stico, murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Grilo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se
+fendeu, surdiu o seu velho escudeiro (aquele moleque que viera com
+<i>D. Gale&atilde;o</i>), que eu me alegrei de encontrar t&atilde;o
+rijo, mais negro, reluzente e vener&aacute;vel na sua tesa gravata,
+no seu colete branco de bot&otilde;es de ouro. Ele tamb&eacute;m
+estimou ver de novo &laquo;o si&ocirc; Fernandes&raquo;. E, quando
+soube que eu ocuparia o quarto do av&ocirc; Jacinto, teve um claro
+sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de
+o sentir enfim reprovido de uma fam&iacute;lia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
+Telefona para casa dos Tr&egrave;ves que os espiritistas s&oacute;
+est&atilde;o livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma duche
+<span class="pagenum">[35]</span>antes de jantar, t&eacute;pida, a
+17. Fric&ccedil;&atilde;o com malva-rosa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E caindo pesadamente para cima do div&atilde;, com um bocejo
+arrastado e vago:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois &eacute; verdade, meu Z&eacute; Fernandes, aqui estamos,
+como h&aacute; sete anos, neste velho Paris...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu n&atilde;o me arredava da mesa, no desejo de completar a
+minha inicia&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve
+j&aacute; a&iacute; um desavergonhado que me picou. Parecem
+perversos... S&atilde;o &uacute;teis?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto esbo&ccedil;ou, com languidez, um gesto que os
+sublimava.--Providenciais, meu filho, absolutamente providenciais,
+pela simplifica&ccedil;&atilde;o que d&atilde;o ao trabalho!
+Assim... E apontou. Este arrancava as penas velhas; o outro
+numerava rapidamente as p&aacute;ginas de um manuscrito;
+aqueloutro, al&eacute;m, raspava emendas... E ainda os havia para
+colar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar
+documentos...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas com efeito, acrescentou, &eacute; uma seca. Com as molas, com
+os bicos, &agrave;s vezes magoam, ferem... J&aacute; me sucedeu
+inutilizar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. &Eacute;
+uma ma&ccedil;ada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, como o meu amigo espreitara novamente <span class="pagenum">[36]</span>o rel&oacute;gio monumental, n&atilde;o lhe
+quis retardar a consola&ccedil;&atilde;o da ducha e da
+malva-rosa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, Jacinto, j&aacute; te revi, j&aacute; me contentei... Agora
+at&eacute; amanh&atilde;, com as malas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que diabo, Z&eacute; Fernandes, espera um momento... Vamos pela
+sala de jantar. Talvez te tentes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, atrav&eacute;s da Biblioteca, penetramos na sala de jantar,--que
+me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca,
+lacada, mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes,
+encaixilhando medalh&otilde;es de damasco cor de morango, de
+morango muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente
+lavrados em flor&otilde;es e rocalhas, resplandeciam com a mesma
+laca nevada: e damascos amorangados estofavam tamb&eacute;m as
+cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentid&atilde;o de
+gulas delicadas, de gulas intelectuais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Viva o meu Pr&iacute;ncipe! Sim senhor... Eis aqui um comedouro
+muito compreens&iacute;vel e muito repousante, Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o janta, homem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas j&aacute; eu me come&ccedil;ava a inquietar, reparando que a
+cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios
+astuciosos. E mais me impressionei quando Jacinto me desvendou
+<span class="pagenum">[37]</span>que um era para as ostras, outro
+para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
+para as frutas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
+sobriedade que louvaria Salom&atilde;o, s&oacute; dois copos, para
+dois vinhos:--um Bord&eacute;us rosado em infusas de cristal, e
+Champanhe gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador
+por&eacute;m vergava, sob o luxo redundante, quase assustador de
+
+&aacute;guas--&aacute;guas oxigenadas, &aacute;guas carbonatadas,
+&aacute;guas fosfatadas, &aacute;guas esterilizadas, &aacute;guas
+de sais, outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados
+terap&ecirc;uticos impressos em r&oacute;tulos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sant&iacute;ssimo nome de Deus, Jacinto! Ent&atilde;o &eacute;s
+ainda o mesmo tremendo bebedor de &aacute;gua, hein?... <i>Un
+aquatico!</i> como dizia o nosso poeta chileno, que andava a
+traduzir Klopstock.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapu&ccedil;ada
+em metal, um olhar desconsolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o... &Eacute; por causa das &aacute;guas da Cidade,
+contaminadas, atulhadas de micr&oacute;bios... Mas ainda n&atilde;o
+encontrei uma boa &aacute;gua que me convenha, que me
+satisfa&ccedil;a... At&eacute; sofro sede.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Desejei ent&atilde;o conhecer o jantar do Psic&oacute;logo e do
+Simbolista--tra&ccedil;ado, ao lado dos <span class="pagenum">[38]</span>talheres, em tinta vermelha, sobre
+l&acirc;minas de marfim. Come&ccedil;ava honradamente por ostras
+cl&aacute;ssicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de
+alcachofras e ovas de carpa...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; bom?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim... Eu n&atilde;o tenho nunca apetite, j&aacute; h&aacute;
+tempos... J&aacute; h&aacute; anos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Do outro prato s&oacute; compreendi que continha frangos e
+t&uacute;baras. Depois saboreariam aqueles senhores um filete de
+veado, macerado em Xerez, com geleia de noz. E por sobremesa
+simplesmente laranjas geladas em &eacute;ter.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Em &eacute;ter, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo hesitou, esbo&ccedil;ou com os dedos a
+ondula&ccedil;&atilde;o de um aroma que se evola.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; novo... Parece que o &eacute;ter desenvolve, faz aflorar
+a alma das frutas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Curvei a cabe&ccedil;a ignara, murmurei nas minhas
+profundidades:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eis a Civiliza&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, descendo os Campos El&iacute;sios, encolhido no palet&oacute; a
+cogitar neste prato simb&oacute;lico, considerava a rudeza e
+atolado atraso da minha Gui&atilde;es, onde desde s&eacute;culos a
+alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos
+gomos sumarentos, por todos <span class="pagenum">[39]</span>aqueles pomares que ensombram e perfumam o
+vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora por&eacute;m, bendito Deus,
+na conviv&ecirc;ncia de um t&atilde;o grande iniciado como Jacinto,
+eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade de
+um homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza--e
+atrav&eacute;s dela e por ela recolhe a felicidade perfeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Pr&iacute;ncipe da
+Gr&atilde;-Ventura!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>III</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No 202, todas as manh&atilde;s, &agrave;s nove horas, depois do meu
+chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto.
+Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num
+roup&atilde;o branco de p&ecirc;lo de cabra do Tibete, diante da
+sua mesa de toilette, toda de cristal, (por causa dos
+micr&oacute;bios) e atulhada com esses utens&iacute;lios de
+tartaruga, marfim, prata, a&ccedil;o e madrep&eacute;rola que o
+homem do s&eacute;culo XIX necessita para n&atilde;o desfeiar o
+conjunto sumptu&aacute;rio da Civiliza&ccedil;&atilde;o e manter
+nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu
+regalo e o meu espanto--porque as havia largas como a roda
+maci&ccedil;a de um carro sabino; estreitas e mais recurvas que o
+alfange de um mouro; c&ocirc;ncavas, em forma de telha
+alde&atilde;; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas que nem
+cerdas de javali; macias que nem penugem <span class="pagenum">[42]</span>de rola! De todas, fielmente, como amo que
+n&atilde;o desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E
+assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,
+permanecia este Pr&iacute;ncipe passando p&ecirc;los sobre o seu
+p&ecirc;lo durante catorze minutos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No entanto o Grilo e outro escudeiro, por tr&aacute;s dos biombos
+de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com per&iacute;cia e
+vigor, os aparelhos do lavat&oacute;rio--que era apenas um resumo
+das M&aacute;quinas monumentais da Sala de Banho, a mais estremada
+maravilha do 202. Nestes m&aacute;rmores simplificados existiam
+unicamente dois jactos graduados desde <i>zero</i> at&eacute;
+<i>cem</i>; as duas duchas, fina e grossa, para a cabe&ccedil;a; a
+fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a
+barba; e ainda bot&otilde;es discretos, que, ro&ccedil;ados,
+desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho
+estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em
+disciplina e servid&atilde;o tantas &aacute;guas ferventes, tantas
+
+&aacute;guas violentas, sa&iacute;a enfim o meu Jacinto enxugando
+as m&atilde;os a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a
+outra de corda entran&ccedil;ada para restabelecer a
+circula&ccedil;&atilde;o, a outra de seda frouxa para repolir a
+pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um
+suspiro, ora um bocejo, Jacinto, estendido num div&atilde;,
+<span class="pagenum">[43]</span>folheava uma Agenda, onde se
+arrolavam, inscritas pelo Grilo ou por ele, as
+ocupa&ccedil;&otilde;es do seu dia, t&atilde;o numerosas por vezes
+que cobriam duas laudas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todas elas se prendiam &agrave; sua sociabilidade, &agrave; sua
+Civiliza&ccedil;&atilde;o muito complexa, ou a interesses que o meu
+Pr&iacute;ncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais
+consciente comunh&atilde;o com todas as fun&ccedil;&otilde;es da
+Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do Clube da <i>Espada e
+Alvo</i>; comandit&aacute;rio do Jornal o <i>Boulevard</i>;
+director da <i>Companhia dos Telefones de Constantinopla</i>;
+s&oacute;cio dos <i>Bazares unidos da Arte Espiritualista</i>;
+membro do <i>Comit&eacute; de Inicia&ccedil;&atilde;o das
+Religi&otilde;es Esot&eacute;ricas</i>, etc.) Nenhuma destas
+ocupa&ccedil;&otilde;es parecia por&eacute;m apraz&iacute;vel ao
+meu amigo--porque, apesar da mansid&atilde;o e harmonia dos seus
+modos, frequentemente arremessava para o tapete, numa
+rebeli&atilde;o de homem livre, aquela Agenda que o escravizava. E
+numa dessas manh&atilde;s (de vento e neve), apanhando eu o livro
+opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa
+murcha--descobri que o meu Jacinto devia depois do almo&ccedil;o
+fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau,
+outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por fidelidade
+a uma vota&ccedil;&atilde;o no Clube; acompanhar Madame
+
+<span class="pagenum">[44]</span>d'Oriol a uma
+exposi&ccedil;&atilde;o de leques; escolher um presente de noivado
+para a sobrinha dos Tr&egrave;ves; comparecer no funeral do velho
+conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa
+quest&atilde;o de roubalheira, entre cavalheiros, ao
+ecart&eacute;... E ainda se acavalavam outras
+indica&ccedil;&otilde;es, escrevinhadas por Jacinto a
+l&aacute;pis:--&laquo;Carroceiro--Five-oclock dos Efrains--A
+pequena das <i>Variedades</i>--Levar a nota ao jornal...&raquo;
+Considerei o meu Pr&iacute;ncipe. Estirado no div&atilde;, de olhos
+miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Mas os afazeres de Jacinto come&ccedil;avam logo no 202, cedo,
+depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone
+repicava por ele, com impaci&ecirc;ncia, quase com c&oacute;lera,
+como por um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu
+roup&atilde;o de p&ecirc;lo de cabra do Tibete ou de grossas
+pijamas de pel&uacute;cia cor de ouro velho, constantemente
+sa&iacute;a ao corredor a cochichar com sujeitos t&atilde;o
+apressados, que conservavam na m&atilde;o o guarda-chuva pingando
+sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que pertencia decerto
+aos <i>Telefones de Constantinopla</i>), era temeroso--todo ele
+chupado, tisnado, com maus dentes, sobra&ccedil;ando uma enorme
+pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola de uma
+peli&ccedil;a pu&iacute;da, <span class="pagenum">[45]</span>como
+da abertura de um covil, dois olhinhos torvos e de rapina. Sem
+cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa
+salva... Depois eram fornecedores de Ind&uacute;stria e de Arte;
+negociantes de cavalos, rubicundos e de palet&oacute; branco;
+inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na
+algibeira uma edi&ccedil;&atilde;o &laquo;&uacute;nica&raquo;,
+quase inveros&iacute;mil, de Ulrich Zell ou do <i>Lapidanus</i>.
+Jacinto circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira,
+repicando o telefone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao
+passar algum emboscado que surdia das sombras da antec&acirc;mara,
+estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu
+cat&aacute;logo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ao meio-dia, um tant&atilde; argentino e melanc&oacute;lico
+ressoava, chamando ao almo&ccedil;o. Com o <i>Figaro</i> ou as
+<i>Novidades</i> abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia
+hora pelo meu Pr&iacute;ncipe, que entrava numa rajada, consultando
+o rel&oacute;gio, exalando com a face mo&iacute;da o seu queixume
+eterno:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que ma&ccedil;ada! E depois uma noite abomin&aacute;vel,
+enrodilhada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grilo para me
+esfregar com terebintina... Uma seca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Espalhava pela mesa um olhar j&aacute; farto. Nenhum prato, por
+mais engenhoso, o seduzia;--e, como atrav&eacute;s do seu tumulto
+matinal fumava <span class="pagenum">[46]</span>incont&aacute;veis
+cigarretes que o ressequiam, come&ccedil;ava por se encharcar com
+um imenso copo de &aacute;gua oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa,
+misturada de um cognac raro, muito caro, horrendamente adocicado,
+de moscatel de Siracusa. Depois, &agrave; pressa, sem gosto, com a
+ponta incerta do garfo, picava aqui e al&eacute;m uma lasca de
+fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava impacientemente o
+caf&eacute;, um caf&eacute; de Moca, mandado cada m&ecirc;s por um
+feitor do Dedjah, fervido &agrave; turca, muito espesso, que ele
+remexia com um pau de canela!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu, Z&eacute; Fernandes, que vais tu fazer?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recostado na cadeira, com del&iacute;cias, os dedos metidos nas
+cavas do colete:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vou vadiar, regaladamente, como um c&atilde;o natural!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu sol&iacute;cito amigo, remexendo o caf&eacute; com o pau de
+canela, rebuscava atrav&eacute;s da numerosa
+Civiliza&ccedil;&atilde;o da Cidade uma ocupa&ccedil;&atilde;o que
+me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposi&ccedil;&atilde;o, ou
+uma Confer&ecirc;ncia, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os
+ombros desconsolados:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Por fim nem vale a pena, &eacute; uma seca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
+impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os
+
+<span class="pagenum">[47]</span>fios do bigode, ainda escutava,
+&agrave; porta da Biblioteca, o seu procurador, o n&eacute;dio e
+majestoso Laporte. E enfim, seguido de um criado, que
+sobra&ccedil;ava um ma&ccedil;o tremendo de jornais para lhe
+abastecer o coup&eacute;, o Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura
+mergulhava na Cidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o
+c&eacute;u de Mar&ccedil;o nos concedia caridosamente um pouco de
+azul aguado, sa&iacute;amos depois de almo&ccedil;o, a p&eacute;,
+atrav&eacute;s de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram
+outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito querido de
+Jacinto--porque neles mais intensamente e mais minuciosamente
+saboreava a Cidade. Agora por&eacute;m, apesar da minha companhia,
+s&oacute; lhe davam uma impaci&ecirc;ncia e uma fadiga que
+desoladoramente destoava do antigo, iluminado &ecirc;xtase. Com
+espanto (mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o
+desmoronar de uma cren&ccedil;a) descobri eu, na primeira tarde em
+que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o
+asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam
+o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu ego&iacute;smo,
+<span class="pagenum">[48]</span>e do seu estridor. Encostado e
+como refugiado no meu bra&ccedil;o, este Jacinto novo
+come&ccedil;ou a lamentar que as ruas, na nossa
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o fossem cal&ccedil;adas de
+guta-percha! E a guta-percha claramente representava, para o meu
+amigo, a subst&acirc;ncia discreta que amortece o choque e a rudeza
+das coisas. Oh maravilha! Jacinto querendo borracha, a borracha
+isoladora, entre a sua sensibilidade e as fun&ccedil;&otilde;es da
+Cidade! Depois, nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas e
+espelhadas lojas que ele outrora considerava como os
+
+&laquo;preciosos museus do s&eacute;culo XIX&raquo;...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o vale a pena, Z&eacute; Fernandes. H&aacute; uma imensa
+pobreza e secura de inven&ccedil;&atilde;o! Sempre os mesmos
+flor&otilde;es Lu&iacute;s XV, sempre as mesmas pel&uacute;cias...
+N&atilde;o vale a pena!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo
+me impressionava o seu horror pela Multid&atilde;o--por certos
+efeitos da Multid&atilde;o, s&oacute; para ele sens&iacute;veis, e
+a que chamava os &laquo;sulcos&raquo;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu n&atilde;o os sentes, Z&eacute; Fernandes. Vens das serras...
+Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos!
+&Eacute; um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao
+passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar
+respir&aacute;vel. &Eacute; um dito que se surpreende num grupo,
+que <span class="pagenum">[49]</span>revela um mundo de velhacaria,
+ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado &agrave;
+
+alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar.
+Ou ent&atilde;o, meu filho, &eacute; uma figura intoler&aacute;vel
+pela pretens&atilde;o, ou pelo mau gosto, ou pela
+impertin&ecirc;ncia, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se
+n&atilde;o pode sacudir mais a vis&atilde;o repulsiva... Um pavor,
+estes sulcos, Z&eacute; Fernandes! De resto, que diabo, s&atilde;o
+as pequeninas mis&eacute;rias de uma Civiliza&ccedil;&atilde;o
+deliciosa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava,
+naquele chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da
+devo&ccedil;&atilde;o. Nessa mesma tarde, se bem recordo, sob uma
+luz macia e fina, penetr&aacute;mos nos centros de Paris, nas ruas
+longas, nas milhas de casario, todo de cali&ccedil;a parda,
+eri&ccedil;ado de chamin&eacute;s de lata negra, com as janelas
+sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando,
+escondendo a vida. S&oacute; tijolo, s&oacute; ferro, s&oacute;
+
+argamassa, s&oacute; estuque: linhas hirtas, &acirc;ngulos
+&aacute;speros: tudo seco, tudo r&iacute;gido. E dos ch&atilde;os
+aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os
+muros, Tabuletas, Tabuletas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que
+grosseiro bazar!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, mais para sondar o meu Pr&iacute;ncipe do que <span class="pagenum">[50]</span>por persuas&atilde;o, insisti na fealdade e
+tristeza destes pr&eacute;dios, duros armaz&eacute;ns, cujos
+andares s&atilde;o prateleiras onde se apilha humanidade! E uma
+humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e
+de luxo nas prateleiras baixas, bem envernizadas. A reles e de
+trabalho nos altos, nos desv&atilde;os, sobre pranchas de pinho nu,
+entre o p&oacute; e a tra&ccedil;a...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto murmurou, com a face arrepiada:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; feio, &eacute; muito feio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas que maravilhoso organismo, Z&eacute; Fernandes! Que solidez!
+Que produ&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase
+religiosa afei&ccedil;&atilde;o pelo Bosque de Bolonha. Quando
+mo&ccedil;o, ele constru&iacute;ra sobre o Bosque teorias
+complicadas e consider&aacute;veis. E sustentava, com olhos
+rutilantes de fan&aacute;tico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
+retemperar salutarmente a sua for&ccedil;a, recebendo, pela
+presen&ccedil;a das suas Duquesas, das suas Cortes&atilde;s, dos
+seus Pol&iacute;ticos, dos seus Financeiros, dos seus Generais, dos
+seus Acad&eacute;micos, dos seus Artistas, dos seus Clubistas, dos
+seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se
+mantinha em n&uacute;mero, em vitalidade, em fun&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[51]</span>e que nenhum elemento da sua
+grandeza desaparecera ou deperecera! &laquo;Ir ao Bois&raquo;
+
+constitu&iacute;a ent&atilde;o para o meu Pr&iacute;ncipe um acto
+de consci&ecirc;ncia. E voltava sempre confirmando com orgulho que
+a Cidade possu&iacute;a todos os seus astros, garantindo a
+eternidade da sua luz!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Agora, por&eacute;m, era sem fervor, arrastadamente, que ele me
+levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clem&ecirc;ncia de Abril,
+tentava enganar a minha saudade de arvoredos. Enquanto
+sub&iacute;amos, ao trote nobre das suas &eacute;guas lustrosas, a
+Avenida dos Campos El&iacute;sios e a do Bosque, rejuvenescidas
+pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacinto,
+soprando o fumo da cigarrete pelas vidra&ccedil;as abertas do
+coup&eacute;, permanecia o bom camarada, de veia am&aacute;vel, com
+quem era doce filosofar atrav&eacute;s de Paris. Mas logo que
+pass&aacute;vamos as grades douradas do Bosque, e
+penetr&aacute;vamos na Avenida das Ac&aacute;cias, e
+enfi&aacute;vamos na lenta fila dos trens de luxo e de
+pra&ccedil;a, sob o sil&ecirc;ncio decoroso, apenas cortado pelo
+tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o
+meu Pr&iacute;ncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das
+almofadas, de onde s&oacute; despegava a face para escancarar
+bocejos de fartura. Pelo antigo h&aacute;bito de verificar a
+presen&ccedil;a confortadora <span class="pagenum">[52]</span>do
+
+&laquo;pessoal, dos astros&raquo;, ainda, por vezes, apontava para
+algum coup&eacute; ou vit&oacute;ria rodando com rodar rangente
+noutra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui conhecendo
+a encaracolada barba hebraica do banqueiro Efraim; e o longo nariz
+patr&iacute;cio de Madame de Tr&egrave;ves abrigando um sorriso
+perene; e as bochechas fl&aacute;cidas do poeta neoplat&oacute;nico
+Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos
+band&oacute;s pr&eacute;-rafaelitas e negros de Madame Verghane; e
+o mon&oacute;culo defumado do director do <i>Boulevard</i>; e o
+bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu
+fa&eacute;ton de guerra; e ainda outros sorrisos im&oacute;veis, e
+barbichas &agrave; Renascen&ccedil;a, e p&aacute;lpebras
+amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz, que
+eram todas ilustres e da intimidade do meu Pr&iacute;ncipe. Mas, do
+topo da Avenida das Ac&aacute;cias, recome&ccedil;&aacute;vamos a
+descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila
+vagarosa que subia, calhambeque atr&aacute;s de landau,
+vit&oacute;ria atr&aacute;s de fiacre, fatalmente rev&iacute;amos o
+bin&oacute;culo sombrio do homem do <i>Boulevard</i>, e os
+band&oacute;s furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre
+espapado do neoplat&oacute;nico, e a barba talm&uacute;dica, e
+todas aquelas figuras, de uma imobilidade de cera, super-conhecidas
+do meu <span class="pagenum">[53]</span>camarada, recruzadas cada
+tarde atrav&eacute;s de revividos anos, sempre com os mesmos
+sorrisos, sob o mesmo p&oacute; de arroz, na mesma imobilidade de
+cera; ent&atilde;o Jacinto n&atilde;o se continha, gritava ao
+cocheiro:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Para casa, depressa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos El&iacute;sios, uma fuga
+ardente das &eacute;guas a quem a lentid&atilde;o sopeada, num roer
+de freios, entre outras &eacute;guas tamb&eacute;m delas
+superconhecidas, lan&ccedil;avam numa exaspera&ccedil;&atilde;o
+compar&aacute;vel &agrave; de Jacinto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Para o sondar eu denegria o Bosque:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; n&atilde;o &eacute; t&atilde;o divertido, perdeu o
+brilho!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele acudia, timidamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, &eacute; agrad&aacute;vel, n&atilde;o h&aacute; nada
+mais agrad&aacute;vel; mas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres.
+Recolh&iacute;amos ent&atilde;o ao 202, onde, com efeito, em breve
+embrulhado no seu roup&atilde;o branco, diante da mesa de cristal,
+entre a legi&atilde;o das escovas, com toda a electricidade
+refulgindo, o meu Pr&iacute;ncipe se come&ccedil;ava a adornar para
+o servi&ccedil;o social da noite.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E foi justamente numa dessas noites (um s&aacute;bado) que
+n&oacute;s pass&aacute;mos, naquele quarto t&atilde;o civilizado e
+protegido, por um desses brutos <span class="pagenum">[50]</span>e
+revoltos terrores como s&oacute; os produz a ferocidade dos
+Elementos. J&aacute; tarde, &agrave; pressa (jant&aacute;vamos com
+Marizac no Clube para o acompanhar depois ao <i>Lohengrin</i> na
+
+&Oacute;pera) Jacinto arrocheava o n&oacute; da gravata
+branca--quando no lavat&oacute;rio, ou porque se rompesse o tubo,
+ou se dessoldasse a torneira, o jacto de &aacute;gua a ferver
+rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma n&eacute;voa densa
+de vapor quente abafou as luzes--e, perdidos nela,
+sent&iacute;amos, por entre os gritos do escudeiro e do Grilo, o
+jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que
+escaldava. Sob os p&eacute;s o tapete ensopado era uma lama
+ardente. E como se todas as for&ccedil;as da natureza, submetidas
+ao servi&ccedil;o de Jacinto, se agitassem, animadas por aquela
+rebeli&atilde;o da &aacute;gua--ouvimos roncos surdos no interior
+das paredes, e pelos fios dos lumes el&eacute;ctricos sulcaram
+fa&iacute;scas amea&ccedil;adoras! Eu fugira para o corredor, onde
+se alargava a n&eacute;voa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de
+desastre. Diante do port&atilde;o, atra&iacute;das pela fumarada
+que se escapava das janelas, estacionava pol&iacute;cia, uma
+multid&atilde;o. E na escada esbarrei com um rep&oacute;rter, de
+chap&eacute;u para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente
+
+&laquo;se havia mortos?&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Domada a &aacute;gua, clareada a bruma, vim <span class="pagenum">[55]</span>encontrar Jacinto no meio do quarto, em
+ceroulas, l&iacute;vido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, esta nossa ind&uacute;stria!... Que
+impot&ecirc;ncia, que impot&ecirc;ncia! Pela segunda vez, este
+desastre! E agora, aparelhos perfeitos, um processo novo...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocat&eacute;is Lu&iacute;s
+XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Pr&iacute;ncipe,
+enfiado, enxugava uma fotografia de Madame d'Oriol, de ombros
+decotados, que o jorro bruto maculara de empolas. E eu, com rancor,
+pensava que na minha Gui&atilde;es a &aacute;gua aquecia em seguras
+panelas--e subia ao meu lavat&oacute;rio, pela m&atilde;o forte da
+Catarina, em seguras infusas! N&atilde;o jant&aacute;mos com o
+duque de Marizac, no Clube. E, na &Oacute;pera, nem saboreei
+Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cisne e as suas
+brancas armas--entalado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca
+que Jacinto me emprestara e que rescendia estonteadoramente a
+flores de Nessari.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No domingo, muito cedo, o Grilo, que na v&eacute;spera escaldara as
+m&atilde;os e as trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu
+quarto, descerrou as <span class="pagenum">[56]</span>cortinas, e
+&agrave; beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vem no <i>Figaro</i>!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos <i>Ecos</i>, doze
+linhas, onde as nossas &aacute;guas rugiam e espadavam, com tanta
+magnific&ecirc;ncia e tanta publicidade, que tamb&eacute;m sorri,
+deleitado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E toda a manh&atilde;, o telefone, si&ocirc; Fernandes! exclamava
+o Grilo, rebrilhando em &eacute;bano. A quererem saber, a quererem
+saber... &laquo;Est&aacute; l&aacute;? Est&aacute;
+
+escaldado?&raquo; Paris aflito, si&ocirc; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O telefone, com efeito, repicava, insaci&aacute;vel. E quando desci
+para o almo&ccedil;o, a toalha desaparecia sob uma camada de
+telegramas, que o meu Pr&iacute;ncipe fendia com a faca, enrugado,
+rosnando contra a &laquo;ma&ccedil;ada&raquo;. S&oacute;
+desanuviou, ao ler um desses pap&eacute;is azuis, que atirou para
+cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de
+manh&atilde; sorr&iacute;ramos, o Grilo e eu:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; do Gr&atilde;o-Duque Casimiro... Rat&atilde;o
+am&aacute;vel! Coitado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Saboreei, atrav&eacute;s dos ovos, o telegrama de S. Alteza.
+&laquo;O qu&ecirc;! o meu Jacinto inundado! Muito chic, nos Campos
+El&iacute;sios! N&atilde;o volto ao 202 sem b&oacute;ia de
+salva&ccedil;&atilde;o! Compassivo abra&ccedil;o!
+Casimiro...&raquo; Murmurei tamb&eacute;m<span class="pagenum">[57]</span> com defer&ecirc;ncia:--&laquo;Am&aacute;vel!
+Coitado!&raquo; Depois, revolvendo lentamente o mont&atilde;o de
+telegramas que se alastrava at&eacute; ao meu copo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! Quem &eacute; esta Diana que incessantemente te
+escreve, te telefona, te telegrafa, te...?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Diana?... Diana de Lorge. &Eacute; uma cocotte. &Eacute; uma
+grande cocotte!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tua?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Minha, minha... N&atilde;o! tenho um bocado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como eu lamentava que o meu Pr&iacute;ncipe, senhor t&atilde;o
+rico e de t&atilde;o fino orgulho, por economia de uma gamela
+pr&oacute;pria chafurdasse com outros numa gamela
+p&uacute;blica--Jacinto levantou os ombros, com um camar&atilde;o
+espetado no garfo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z&eacute; Fernandes,
+precisa ter cortes&atilde;s de grande pompa e grande fausto. Ora
+para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte
+com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus
+lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua
+publicidade, a sua insol&ecirc;ncia, &eacute; necess&aacute;rio que
+se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos
+uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo,
+para dotar a cidade com uma cocotte monumental. <span class="pagenum">[58]</span>De resto n&atilde;o chafurdo. Pobre Diana!...
+Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de
+lim&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Arregalei um olho divertido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Dos ombros para baixo?... E para cima?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh para cima tem p&oacute; de arroz!... Mas &eacute; uma seca!
+Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E tr&ecirc;s
+mil francos por m&ecirc;s, al&eacute;m das flores... Uma
+ma&ccedil;ada!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E as duas rugas do meu Pr&iacute;ncipe, aos lados do seu afilado
+nariz, curvado sobre a salada, eram como dois vales muito tristes,
+ao entardecer.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acab&aacute;vamos o almo&ccedil;o, quando um escudeiro, muito
+discretamente, num murm&uacute;rio, anunciou Madame d'Oriol.
+Jacinto pousou com tranquilidade o charuto; eu quase me engasguei,
+num sorvo alvoro&ccedil;ado de caf&eacute;. Entre os reposteiros de
+damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, de um negro
+liso e austero de Semana Santa, lan&ccedil;ando com o regalo um
+lindo gesto para nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade
+docemente chalrada:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena,
+n&atilde;o me contive, quis ver os estragos... Uma
+inunda&ccedil;&atilde;o em Paris, nos Campos El&iacute;sios!
+N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o este Jacinto. <span class="pagenum">[59]</span>E vem no <i>Figaro</i>! O que eu estava
+assustada, quando telefonei! Imaginem! &Aacute;gua a ferver, como
+no Ves&uacute;vio... Mas &eacute; de uma novidade! E os estofos
+perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as
+ru&iacute;nas!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, que n&atilde;o me pareceu comovido, nem agradecido com
+aquele interesse, retomara risonhamente o charuto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza
+foi ontem, quando a &aacute;gua fumegava e rugia! Ora que pena
+n&atilde;o ter ao menos ca&iacute;do uma parede!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os
+destro&ccedil;os de uma inunda&ccedil;&atilde;o. O <i>Figaro</i>
+
+contara... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos
+Campos El&iacute;sios!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no
+chap&eacute;u at&eacute; &agrave; ponta reluzente das botinas de
+verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boli&ccedil;o
+do p&aacute;ssaro a chalrar. S&oacute; o sorriso, por tr&aacute;s
+do v&eacute;u espesso, conservava um brilho im&oacute;vel. E
+j&aacute; no ar se espalhara um aroma, uma do&ccedil;ura, emanadas
+de toda a sua mobilidade e de toda a sua gra&ccedil;a.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto no entanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame
+d'Oriol ainda louvava <span class="pagenum">[60]</span>o
+<i>Figaro</i> am&aacute;vel, e confessava quanto tremera... Eu
+voltei ao meu caf&eacute;, felicitando mentalmente o
+Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura por aquela perfeita flor de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o que lhe perfumava a vida. Pensei
+ent&atilde;o na apurada harmonia em que se movia essa flor. E corri
+vivamente &agrave; antec&acirc;mara, verificar diante do espelho o
+meu penteado e o n&oacute; da minha gravata. Depois recolhi
+
+&agrave; sala de jantar, e junto da janela, folheando languidamente
+a <i>Revista do S&eacute;culo XIX</i>, tomei uma atitude de
+eleg&acirc;ncia e de alta cultura. Quase imediatamente eles
+reapareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
+espoliada, nada encontrara que recordasse as &aacute;guas furiosas,
+ro&ccedil;ou pela mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer,
+tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscoito molhado
+em vinho de Tokai.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ela recusava com as m&atilde;os guardadas no regalo. N&atilde;o era
+alta, nem forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa,
+ca&iacute;a e ondulava harmoniosamente, como
+perfei&ccedil;&otilde;es recobrindo perfei&ccedil;&otilde;es. Sob o
+v&eacute;u cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a
+escurid&atilde;o dos olhos largos. E com aquelas sedas e veludos
+negros, e um pouco do cabelo louro, de um louro quente, torcido
+fortemente sobre as peles negras que lhe orlavam <span class="pagenum">[61]</span>o pesco&ccedil;o, toda ela derramava uma
+sensa&ccedil;&atilde;o de macio e de fino. Eu teimosamente a
+considerava como uma flor de Civiliza&ccedil;&atilde;o:--e pensava
+no secular trabalho e na cultura superior que necessitara o terreno
+onde ela t&atilde;o delicadamente brotara, j&aacute; desabrochada,
+em pleno perfume, mais graciosa por ser flor de esfor&ccedil;o e de
+estufa, e trazendo nas suas p&eacute;talas um n&atilde;o sei
+qu&ecirc; de desbotado e de antemurcho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No entanto, com a sua volubilidade de p&aacute;ssaro, chalrando
+para mim, chalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto
+por aquele mont&atilde;o de telegramas sobre a toalha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo esta manh&atilde;, por causa da inunda&ccedil;&atilde;o?...
+Ah, Jacinto &eacute; hoje o homem, o &uacute;nico homem de Paris!
+Muitas mulheres nesses telegramas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Pr&iacute;ncipe
+empurrou para a sua amiga o telegrama do Gr&atilde;o-Duque.
+Ent&atilde;o Madame d'Oriol teve um <i>ah!</i> muito grave e muito
+sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os seus dedos
+acariciavam com uma rever&ecirc;ncia gulosa. E sempre grave, sempre
+s&eacute;ria:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; brilhante!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Oh, certamente! naquele desastre tudo <span class="pagenum">[62]</span>se passara com muito brilho, num tom muito
+Parisiense. E a deliciosa criatura n&atilde;o se podia demorar,
+porque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o
+serm&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto exclamou com inoc&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Serm&atilde;o?... &Eacute; j&aacute; a esta&ccedil;&atilde;o dos
+serm&otilde;es?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso esc&acirc;ndalo e
+dor. O qu&ecirc;! pois nem na austera casa dos Tr&egrave;ves dera
+pela entrada da Quaresma? De resto n&atilde;o se admirava--Jacinto
+era um turco! E, imediatamente celebrou o pregador, um frade
+dominicano, o P&egrave;re Granon! Oh de uma eloqu&ecirc;ncia! de
+uma viol&ecirc;ncia! No derradeiro serm&atilde;o pregara sobre o
+amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas de uma
+inspira&ccedil;&atilde;o, de uma brutalidade! Depois que gesto, um
+gesto terr&iacute;vel que esmagava, em que se lhe arrega&ccedil;ava
+toda a manga, mostrando o bra&ccedil;o nu, um bra&ccedil;o soberbo,
+muito branco, muito forte!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do
+v&eacute;u negro. E Jacinto, rindo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um bom bra&ccedil;o de director espiritual, hein? Para vergar,
+espancar almas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ela acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! infelizmente o P&egrave;re Granon n&atilde;o
+confessa!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E de repente reconsiderou--aceitava um <span class="pagenum">[63]</span>biscoito, um c&aacute;lice de Tokai. Era
+necess&aacute;rio um cordial para afrontar as emo&ccedil;&otilde;es
+do P&egrave;re Granon! Ambos nos precipit&aacute;ramos, um
+arrebatando a garrafa, outro oferecendo o prato de bombons. Franziu
+o v&eacute;u para os olhos, chupou &agrave; pressa um bolo que
+ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente no
+chap&eacute;u que ela trazia, se curvara com curiosidade,
+impressionado, Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda s&eacute;ria,
+ante uma coisa s&eacute;ria:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Elegante, n&atilde;o &eacute; verdade?... &Eacute; uma
+cria&ccedil;&atilde;o inteiramente nova de Madame Vial. Muito
+respeitoso, e muito sugestivo, agora na Quaresma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O seu olhar, que me envolvera, tamb&eacute;m me convidava a
+admirar. Aproximei o meu focinho de homem das serras para
+contemplar essa cria&ccedil;&atilde;o suprema do luxo de Quaresma.
+E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra das plumas frisadas,
+aninhada entre rendas, fixada por um prego, pousava delicadamente,
+feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ambos nos extasi&aacute;mos. E Madame d'Oriol, num movimento e num
+sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a
+Madalena.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe arrastou pelo tapete alguns <span class="pagenum">[64]</span>passos pensativos e moles. E bruscamente,
+levantando os ombros com uma determina&ccedil;&atilde;o imensa,
+como se deslocasse um mundo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa
+simples e natural...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Em qu&ecirc;?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se,
+atrav&eacute;s da Vida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa
+natural e simples. Depois, descansando sobre mim os mesmos largos
+olhos que voltavam de muito longe, cansados e com pouca
+esperan&ccedil;a:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>IV</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Nessa fecunda semana, uma noite, recolh&iacute;amos ambos da
+&Oacute;pera, quando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no
+202.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Uma festa?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Por causa do Gr&atilde;o-Duque, coitado, que me vai mandar um
+peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalm&aacute;cia. Eu
+queria um almo&ccedil;o curto. O Gr&atilde;o-Duque reclamou uma
+ceia. &Eacute; um b&aacute;rbaro, besuntado com literatura do
+s&eacute;culo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris!
+Re&uacute;no no domingo tr&ecirc;s ou quatro mulheres, e uns dez
+homens bem t&iacute;picos, para o divertir. Tamb&eacute;m
+aproveitas. Folheias Paris num resumo... Mas &eacute; uma
+ma&ccedil;ada amarga!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sem interesse pela sua festa, Jacinto n&atilde;o se afadigou em a
+compor com relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de
+Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates; <span class="pagenum">[66]</span>a melancolia &aacute;spera das Czardas ainda
+nesses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na Biblioteca,
+ligar o Teatrofone com a &Oacute;pera, com a Com&eacute;dia
+Francesa, com o Alcazar e com os Bufos, prevendo todos os gostos
+desde o tr&aacute;gico at&eacute; ao p&iacute;caro. Depois no
+domingo, ao entardecer, ambos visit&aacute;mos a mesa da ceia, que
+resplandecia com as velhas baixelas de D. Gale&atilde;o. E a
+faustosa profus&atilde;o de orqu&iacute;deas, em longas silvas por
+sobre a toalha bordada a seda, enroladas aos fruteiros de Saxe,
+transbordando de cristais lavrados e filagranados de ouro,
+espalhava uma t&atilde;o fina sensa&ccedil;&atilde;o de luxo e
+gosto, que eu murmurei:--&laquo;Caramba, bendito, seja o
+dinheiro!&raquo; Pela primeira vez, tamb&eacute;m, admirei a copa e
+a sua instala&ccedil;&atilde;o abundante e minuciosa--sobretudo os
+dois ascensores que rolavam das profundidades da cozinha, um para
+os peixes e carnes aquecido por tubos de &aacute;gua fervente, o
+outro para as saladas e gelados revestido de placas
+frigor&iacute;ficas. Oh, este 202!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+&Agrave;s nove horas, por&eacute;m, descendo eu ao gabinete de
+Jacinto para escrever a minha boa tia Vic&ecirc;ncia, enquanto ele
+ficara no toucador com o manicuro que lhe polia as unhas,
+pass&aacute;mos nesse delicioso pal&aacute;cio, florido e em gala,
+por bem corriqueiro susto! <span class="pagenum">[67]</span>Todos
+os lumes el&eacute;ctricos, subitamente, em todo o 202, se
+apagaram! Na minha imensa desconfian&ccedil;a daquelas
+for&ccedil;as universais, pulei logo para a porta,
+trope&ccedil;ando nas trevas, ganindo um <i>Aqui d'El-Rei!</i> que
+tresandava a Gui&atilde;es. Jacinto em cima berrava, com o manicuro
+agarrado ao pijama. E de novo, como serva rala&ccedil;a que recolhe
+arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com lentid&atilde;o. Mas o
+meu Pr&iacute;ncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um
+engenheiro &agrave; Companhia Central da Electricidade
+Dom&eacute;stica. Por precau&ccedil;&atilde;o outro criado correu
+
+&agrave; mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo desenterrava
+j&aacute; dos arm&aacute;rios os candelabros abandonados, os
+pesados casti&ccedil;ais arcaicos dos tempos incient&iacute;ficos
+de D. Gale&atilde;o: era uma reserva de veteranos fortes, para o
+caso pavoroso em que mais tarde, &agrave; ceia, falhassem
+perfidamente as for&ccedil;as bisonhas da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o. O Electricista, que acudira esbaforido,
+afian&ccedil;ou por&eacute;m que a Electricidade se conservaria
+fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira
+dois cotos de estearina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
+quarto, tarde (porque perdera o colete de baile e s&oacute; depois
+de uma busca furiosa e praguejada o encontrei ca&iacute;do por
+tr&aacute;s da cama!), todo <span class="pagenum">[68]</span>o 202
+refulgia, e os Tziganes, na antec&acirc;mara, sacudindo as
+guedelhas, atiravam as arcadas de uma valsa t&atilde;o arrastadora
+que, pelas paredes, os imensos Personagens das tape&ccedil;arias,
+Pr&iacute;amo, Nestor, o engenhoso Ulisses, arfavam, buliam com os
+p&eacute;s venerandos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
+Jacinto. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de
+Tr&egrave;ves, que, acompanhada pelo ilustre historiador Danjon (da
+Academia Francesa), percorria maravilhada os Aparelhos, os
+Instrumentos, toda a sumptuosa Mec&acirc;nica do meu
+supercivilizado Pr&iacute;ncipe. Nunca ela me parecera mais
+majestosa do que naquelas sedas cor de a&ccedil;afr&atilde;o, com
+rendas cruzadas no peito &agrave; Maria Antonieta, o cabelo crespo
+e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz
+patr&iacute;cio, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre
+corrente, como um arco abriga o correr e o luzir de um regato.
+Direita como num s&oacute;lio, a longa luneta de tartaruga acercada
+dos olhos mi&uacute;dos e turvamente azulados, ela escutava diante
+do Grafofono, depois diante do Microfono, como melodias superiores,
+os coment&aacute;rios que o meu Jacinto ia atabalhoando com uma
+amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos,
+louvores finamente torneados, <span class="pagenum">[69]</span>em
+que atribu&iacute;a a Jacinto, com astuta candura, todas aquelas
+inven&ccedil;&otilde;es do Saber! Os utens&iacute;lios misteriosos
+que atulhavam a mesa de &eacute;bano foram para ela uma
+inicia&ccedil;&atilde;o que a enlevou. Oh, o &laquo;numerador de
+p&aacute;ginas&raquo;! oh, o &laquo;colador de estampilhas&raquo;!
+A car&iacute;cia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E
+suplicava os endere&ccedil;os dos fabricantes para se prover de
+todas aquelas utilidades ador&aacute;veis! Como a vida, assim
+apetrechada, se tornava escorregadia e f&aacute;cil! Mas era
+necess&aacute;rio o talento, o gosto de Jacinto, para escolher,
+para &laquo;criar!&raquo; E n&atilde;o s&oacute; ao meu amigo (que
+o recebia com resigna&ccedil;&atilde;o) ela ofertava o fino mel.
+Afagando com o cabo da luneta o Tel&eacute;grafo, achou a
+possibilidade de recordar a eloqu&ecirc;ncia do Historiador. Mesmo
+para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do
+Fon&oacute;grafo, e acerca de &laquo;vozes de amigos que &eacute;
+
+doce coleccionar&raquo;, uma lisonjazinha redondinha e lustrosa,
+que eu chupei como um rebu&ccedil;ado celeste. Boa casaleira que
+vai atirando o gr&atilde;o aos frangos famintos, a cada passo,
+maternalmente, ela nutria uma vaidade. S&ocirc;frego de outro
+rebu&ccedil;ado, acompanhei a sua cauda sussurrante e cor de
+a&ccedil;afr&atilde;o. Ela parara diante da M&aacute;quina de
+contar, de que Jacinto j&aacute; lhe fornecera pacientemente uma
+explica&ccedil;&atilde;o sapiente. <span class="pagenum">[70]</span>E de novo ro&ccedil;ou os buracos de onde
+espreitam os n&uacute;meros negros, e com o seu enlevado sorriso
+murmurou:--&laquo;Prodigiosa, esta prensa
+el&eacute;ctrica!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! N&atilde;o! Esta &eacute;...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas ela sorria, seguia... Madame de Tr&egrave;ves n&atilde;o
+compreendera nenhum aparelho do meu Pr&iacute;ncipe! Madame de
+Tr&egrave;ves n&atilde;o atendera a nenhuma
+disserta&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe! Naquele gabinete
+de sumptuosa Mec&acirc;nica ela somente se ocupara em exercer, com
+proveito e com perfei&ccedil;&atilde;o, a Arte de Agradar. Toda ela
+era uma sublime falsidade. N&atilde;o escondi a Danjon a
+admira&ccedil;&atilde;o que me penetrava.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O facundo Acad&eacute;mico revirou os olhos bogalhudos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! e um gosto, uma intelig&ecirc;ncia, uma
+sedu&ccedil;&atilde;o!... E depois como se janta bem em casa dela!
+Que caf&eacute;!... Mulher superior, meu caro senhor,
+verdadeiramente superior!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deslizei para a biblioteca. Logo &agrave; entrada da erudita nave,
+junto da estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros
+conversavam, parei a saudar o director do <i>Boulevard</i>e o
+Psic&oacute;logo feminista, o autor do <i>Cora&ccedil;&atilde;o
+Triplo</i>, com quem na v&eacute;spera me familiarizara ao
+almo&ccedil;o, no 202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se
+necessitasse a minha<span class="pagenum">[71]</span>
+
+presen&ccedil;a, reteve na sua m&atilde;o ilustre, rutilante de
+an&eacute;is, com for&ccedil;a e com gula, a minha grossa palma
+serrana. Todos aqueles senhores, com efeito, celebravam o seu
+Romance, a <i>Coura&ccedil;a</i>, lan&ccedil;ado nessa semana entre
+gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoro&ccedil;adas. Um
+sobretudo, com uma vasta cabe&ccedil;a arranjada &agrave; Van Dick
+e que parecia posti&ccedil;a, proclamava, al&ccedil;ado na ponta
+das botas, que nunca penetrara t&atilde;o fundamente, na velha alma
+humana, a ponta da Psicologia Experimental! Todos concordavam, se
+apertavam contra o Psic&oacute;logo, o tratavam por
+
+&laquo;mestre&raquo;. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa
+amarela da <i>Coura&ccedil;a</i>, mas para quem ele voltava os
+olhos pedinch&otilde;es e famintos de mais mel, murmurei com um
+leve assobio:--&laquo;uma del&iacute;cia!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o Psic&oacute;logo, reluzindo, com o l&aacute;bio h&uacute;mido,
+entalado num alto colarinho onde se enroscava uma gravata &agrave;
+1830, confessava modestamente que dissecara todas aquelas almas da
+<i>Coura&ccedil;a</i> com &laquo;algum cuidado&raquo;, sobre
+documentos, sobre peda&ccedil;os de vida ainda quentes, ainda a
+sangrar... E foi ent&atilde;o que Marizac, o duque de Marizac,
+notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem
+tirar as m&atilde;os dos bolsos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--No entanto, meu caro, nesse livro t&atilde;o <span class="pagenum">[72]</span>profundamente estudado h&aacute; um erro bem
+estranho, bem curioso!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Psic&oacute;logo, vivamente, atirara a cabe&ccedil;a para
+tr&aacute;s:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um erro?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Oh, sim, um erro! E bem inesperado num mestre t&atilde;o
+experiente!... Era atribuir &agrave; espl&ecirc;ndida amorosa da
+<i>Coura&ccedil;a</i>, uma duquesa, e do gosto mais puro,--<i>um
+colete de cetim preto</i>! Esse colete, assim preto, de cetim,
+aparecia na bela p&aacute;gina de an&aacute;lise e paix&atilde;o em
+que ela se despia no quarto de Rui d'Alize. E Marizac, sempre com
+as m&atilde;os nos bolsos, mais grave, apelava para aqueles
+senhores. Pois era veros&iacute;mil, numa mulher como a duquesa,
+est&eacute;tica, pr&eacute;-rafael&iacute;tica, que se vestia no
+Doucet, no Paquin, nos costureiros intelectuais, um colete de cetim
+preto?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Psic&oacute;logo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma
+t&atilde;o suprema autoridade sobre a roupa &iacute;ntima das
+duquesas, que &agrave; tarde, em quartos de rapazes, por impulsos
+idealistas e anseios de alma dolorida--se p&otilde;em em colete e
+saia branca!... De resto o director do <i>Boulevard</i> condenara
+logo sem piedade, com uma experi&ecirc;ncia firme, aquele colete,
+s&oacute; poss&iacute;vel nalguma merceeira atrasada que ainda
+procurasse efeitos <span class="pagenum">[73]</span>de carne
+n&eacute;dia sobre cetim negro. E eu, para que me n&atilde;o
+julgassem alheio &agrave;s coisas dos adult&eacute;rios ducais e do
+luxo, acudi, metendo os dedos pelo cabelo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Realmente, preto, s&oacute; se estivesse de luto pesado, pelo
+pai!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pobre mestre da <i>Coura&ccedil;a</i> sucumbira. Era a sua
+gl&oacute;ria de Doutor em Eleg&acirc;ncias Femininas
+desmantelada--e Paris supondo que ele nunca vira uma duquesa
+desatacar o colete na sua alcova de Psic&oacute;logo! Ent&atilde;o,
+passando o len&ccedil;o sobre os l&aacute;bios que a
+ang&uacute;stia ressequira, confessou o erro, e contritamente o
+atribuiu a uma improvisa&ccedil;&atilde;o tumultuosa:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!...
+Com efeito! &eacute; absurdo, um colete preto!... Mesmo por
+harmonia com o estado da alma da duquesa devia ser lil&aacute;s,
+talvez cor de reseda muito desmaiada, com um frouxo de rendas
+antigas de Malines... &Eacute; prodigioso como me escapou! Pois
+tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem
+documentadas!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na sua amargura, terminou por suplicar a Marizac que espalhasse por
+toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confiss&atilde;o. Fora um
+engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas,
+perdido nas profundidades <span class="pagenum">[74]</span>negras
+das almas! N&atilde;o reparara no colete, confundira os tons... E
+gritou, com os bra&ccedil;os estendidos para o director do
+<i>Boulevard</i>:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Estou pronto a fazer uma rectifica&ccedil;&atilde;o, numa
+<i>interview</i>, meu caro mestre! Mande um dos seus redactores...
+Amanh&atilde;, &agrave;s dez horas! Fazemos uma <i>interview</i>,
+fixamos a cor. Evidentemente &eacute; lil&aacute;s... Mande um dos
+seus homens, meu caro mestre! &Eacute; tamb&eacute;m uma
+ocasi&atilde;o para eu confessar, bem alto, os servi&ccedil;os que
+o <i>Boulevard</i> tem feito &agrave;s ci&ecirc;ncias
+psicol&oacute;gicas e feministas!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assim ele suplicava, encostado &agrave; estante, &agrave;s lombadas
+dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca
+Jacinto que se debatia e se recusava entre dois homens.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eram os dois homens de Madame de Tr&egrave;ves--o marido, conde de
+Tr&egrave;ves, descendente dos reis de C&acirc;ndia, e o amante, o
+terr&iacute;vel banqueiro judeu, David Efraim. E t&atilde;o
+enfronhadamente assaltavam o meu Pr&iacute;ncipe que nem me
+reconheceram, ambos num aperto de m&atilde;o mole e vago me
+trataram por &laquo;caro conde&raquo;! Num relance, rebuscando
+charutos sobre a mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a
+
+<i>Companhia das Esmeraldas da Birm&acirc;nia</i>, medonha empresa
+em que cintilavam milh&otilde;es, e para que os dois confederados
+<span class="pagenum">[75]</span>de bolsa e de alcova, desde o
+come&ccedil;o do ano, pediam o nome, a influ&ecirc;ncia, o dinheiro
+de Jacinto. Ele resistira, num enfado dos neg&oacute;cios,
+desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da &Aacute;sia.
+E agora o conde de Tr&egrave;ves, um homem esgrouviado, de face
+rechupada, eri&ccedil;ada de barba rala, sob uma fronte rotunda e
+amarela como um mel&atilde;o, assegurava ao meu pobre
+Pr&iacute;ncipe que no Prospecto j&aacute; preparado, demonstrando
+a grandeza do neg&oacute;cio, perpassava um fulgor das <i>Mil e Uma
+Noites</i>. Mas sobretudo aquela escava&ccedil;&atilde;o de
+esmeraldas convidava todo o esp&iacute;rito culto pela sua
+ac&ccedil;&atilde;o civilizadora. Era uma corrente de ideias
+ocidentais, invadindo, educando a Birm&acirc;nia. Ele aceitara a
+direc&ccedil;&atilde;o por patriotismo...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--De resto &eacute; um neg&oacute;cio de j&oacute;ias, de arte, de
+progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre
+amigos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E do outro lado o terr&iacute;vel Efraim, passando a m&atilde;o
+curta e gorda sobre a sua bela barba, mais frisada e negra que a de
+um Rei Ass&iacute;rio, afian&ccedil;ava o triunfo da empresa pelas
+grossas for&ccedil;as que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans,
+os Saccart...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto franzia o nariz, enervado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, ao menos, est&atilde;o feitos os estudos? J&aacute; se
+provou que h&aacute; esmeraldas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span>Tanta ingenuidade exasperou
+Efraim:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esmeraldas! Est&aacute; claro que h&aacute; esmeraldas!...
+H&aacute; sempre esmeraldas desde que haja accionistas!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E eu admirava a grandeza daquela m&aacute;xima--quando apareceu,
+esbaforido, desdobrando o len&ccedil;o muito perfumado, um dos
+familiares do 202, Todelle (Ant&oacute;nio de Todelle), mo&ccedil;o
+j&aacute; calvo, de infinitas prendas, que conduzia Cotillons,
+imitava cantores de Caf&eacute; Concerto, temperava saladas raras,
+conhecia todos os enredos de Paris.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; veio?... J&aacute; c&aacute; est&aacute; o
+Gr&atilde;o-Duque?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o, S. Alteza ainda n&atilde;o chegara. E Madame de
+Todelle?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o p&ocirc;de... No sof&aacute;... Esfolou uma perna.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Quase nada... Caiu do veloc&iacute;pede!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, logo interessado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah! Madame de Todelle anda j&aacute; de veloc&iacute;pede?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Aprende. Nem tem veloc&iacute;pede!... Agora, na Quaresma,
+&eacute; que se aplicou mais, no veloc&iacute;pede do padre
+Ernesto, do cura de S. Jos&eacute;! Mas ontem, no Bosque,
+z&aacute;s, terra!... Perna esfolada. Aqui.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E na sua pr&oacute;pria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o
+esfol&atilde;o. Efraim, brutal e <span class="pagenum">[77]</span>s&eacute;rio, murmurou:--&laquo;Diabo!
+&eacute; no melhor s&iacute;tio!&raquo; Mas Todelle nem o escutara,
+correndo para o director do <i>Boulevard</i>, que se
+avan&ccedil;ava, lento e barrigudo, com o seu mon&oacute;culo negro
+semelhante a um pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num
+cochichar profundo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto e eu entr&aacute;mos ent&atilde;o no bilhar, forrado de
+velhos couros de C&oacute;rdova, onde se fumava. Ao canto de um
+div&atilde;, o grande Dornan, o poeta neoplat&oacute;nico e
+m&iacute;stico, o Mestre subtil de todos os ritmos, espapado nas
+almofadas, com um dos p&eacute;s sob a coxa gorda, como um Deus
+&iacute;ndio, dois bot&otilde;es do colete desabotoados, a papeira
+ca&iacute;da sobre o largo decote do colarinho, mamava
+majestosamente um imenso charuto. Ao p&eacute; dele, tamb&eacute;m
+sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de
+cabelos brancos em an&eacute;is passados por tr&aacute;s das
+orelhas, a face coberta de p&oacute; de arroz, um bigodinho muito
+negro e arrebitado, findara certamente alguma hist&oacute;ria de
+bom e grosso sal--porque diante do div&atilde;, de p&eacute;,
+Joban, o supremo Cr&iacute;tico de Teatro, ria com a calva
+escarlate de gozo, e um mo&ccedil;o muito ruivo (descendente de
+Coligny), de perfil de periquito, sacudia os bra&ccedil;os curtos
+como asas, e gania: &laquo;delicioso! divino!&raquo; S&oacute; o
+poeta idealista permanecera impass&iacute;vel, na sua majestade
+obesa. <span class="pagenum">[78]</span>Mas, quando nos
+acerc&aacute;mos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois de soprar
+uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
+p&aacute;lpebras, come&ccedil;ou numa voz de rico e sonoro
+metal:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; melhor, h&aacute; infinitamente melhor... Todos aqui
+conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas
+n&aacute;degas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desgra&ccedil;adamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar,
+reclamando Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam
+ouvir no Fon&oacute;grafo uma &aacute;ria da Patti! O meu amigo
+sacudiu logo os ombros, numa surda irrita&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Aacute;ria da Patti... Eu sei l&aacute;! Todos esses rolos
+est&atilde;o em confus&atilde;o. Al&eacute;m disso o
+Fon&oacute;grafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tr&ecirc;s.
+Nenhum trabalha!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a <i>Pauvre
+fille</i>... &Eacute; mais de ceia! <i>Oh, la pauv', pauv',
+pauv'</i>...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Travou do meu bra&ccedil;o, e arrastou a minha timidez serrana para
+o sal&atilde;o cor de rosa murcha, onde, como Deusas num
+c&iacute;rculo escolhido do Olimpo, resplandeciam Madame d'Oriol,
+Madame Verghane, a princesa de Carman, e uma outra loura, com
+grandes brilhantes nas grandes farripas, e de ombros t&atilde;o
+nus, e bra&ccedil;os t&atilde;o nus, e peitos t&atilde;o nus, que o
+seu vestido <span class="pagenum">[72]</span> branco com bordados
+de ouro p&aacute;lido parecia uma camisa, a escorregar.
+Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--&laquo;Quem
+
+&eacute;?&raquo; Mas j&aacute; o festivo homem correra para Madame
+d'Oriol, com quem riam, numa familiaridade superior e f&aacute;cil,
+Marizac (o duque de Marizac) e um mo&ccedil;o de barba cor de milho
+e mais leve que uma penugem, que se balou&ccedil;ava gracilmente
+sobre os p&eacute;s, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
+contra o piano, esfregava lentamente as m&atilde;os, amassando o
+meu embara&ccedil;o, quando Madame Verghane se ergueu do
+sof&aacute; onde conversava com um velho (que tinha a
+Gr&atilde;-Cruz de Santo Andr&eacute;), e avan&ccedil;ou, deslizou
+no tapete, pequena e n&eacute;dia, na sua copiosa cauda de veludo
+verde-negro. T&atilde;o fina era a cinta, entre os encontros
+fecundos e a vastid&atilde;o do peito, todo nu e cor de
+n&aacute;car, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu
+lento ondular. Os seus famosos band&oacute;s negros, de um negro
+furioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de
+ouro que os circundava, reluzia uma estrela de brilhantes, como na
+fronte dos anjos de Boticelli. Conhecendo sem d&uacute;vida a minha
+autoridade no 202, ela despediu sobre mim ao passar, como raio
+ben&eacute;fico, um sorriso que lhe liquescia mais os olhos
+l&iacute;quidos, e murmurou:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[80]</span>--O Gr&atilde;o-Duque vem, com
+certeza?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--P'ra o peixe?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas justamente, na antec&acirc;mara, rompeu, em rufos e arcadas
+triunfais, a marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso
+retumbante mordomo anunciava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S. Alteza o Gr&atilde;o-Duque Casimiro!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Madame de Verghane, com um curto suspiro de emo&ccedil;&atilde;o,
+alteou o peito, como para lhe expor melhor a magnific&ecirc;ncia
+eb&uacute;rnea. E o homem do <i>Boulevard</i>, o velho da
+Gr&atilde;-Cruz, Efraim, quase me empurraram, investindo para a
+porta, na imensa sofreguid&atilde;o de Pessoa Real.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Precedido por Jacinto, o Gr&atilde;o-Duque surgiu. Era um possante
+homem, de barba em bico, j&aacute; grisalha, um pouco calvo.
+Durante um momento hesitou, com um balan&ccedil;o lento sobre os
+p&eacute;s pequeninos, cal&ccedil;ados de sapatos rasos, quase
+sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
+veio apertar a m&atilde;o &agrave;s senhoras que mergulhavam nos
+veludos e sedas, em mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com
+carinhosa jovialidade no ombro de Jacinto:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[81]</span>Um murm&uacute;rio de Jacinto
+tranquilizou S. Alteza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda bem, ainda bem! exclamou ele, no seu vozeir&atilde;o de
+comando. Que eu n&atilde;o jantei, absolutamente n&atilde;o jantei!
+&Eacute; que se est&aacute; jantando deploravelmente em casa do
+Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego
+a Paris, pergunto: &laquo;Onde &eacute; que se janta agora?&raquo;
+
+Em casa do Joseph!... Qual! n&atilde;o se janta! Hoje, por exemplo,
+galinholas... Uma peste! N&atilde;o tem, n&atilde;o tem a
+no&ccedil;&atilde;o da galinhola!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Os seus olhos azulados, de um azul sujo, rebrilhavam, alargados
+pela indigna&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Paris est&aacute; perdendo todas as suas superioridades.
+J&aacute; se n&atilde;o janta, em Paris!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O
+conde de Tr&egrave;ves defendeu o Bignon, onde se conservavam
+nobres tradi&ccedil;&otilde;es. E o director do <i>Boulevard</i>,
+que se empurrava todo para S. Alteza, atribu&iacute;a a
+decad&ecirc;ncia da cozinha, em Fran&ccedil;a, &agrave;
+Rep&uacute;blica, ao gosto democr&aacute;tico e torpe pelo
+barato.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--No Paillard, todavia...--come&ccedil;ou o Efraim.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--No Paillard! gritou logo o Gr&atilde;o-Duque. Mas os Borgonhas
+s&atilde;o t&atilde;o maus! os Borgonhas s&atilde;o t&atilde;o
+maus!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[82]</span>Deixara pender os bra&ccedil;os,
+os ombros, descoro&ccedil;oado. Depois, com o seu lento andar
+balan&ccedil;ado como o de um velho piloto, atirando um pouco para
+tr&aacute;s as lapelas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que
+toda ela faiscou, no sorriso, nos olhos, nas j&oacute;ias, em cada
+prega das suas sedas cor de salm&atilde;o. Mas apenas a clara e
+macia criatura, batendo o leque como uma asa alegre,
+come&ccedil;ara a chalrar, S. Alteza reparou no aparelho do
+Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou
+Jacinto:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Em comunica&ccedil;&atilde;o com o Alcazar?... O Teatrofone?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Certamente, meu senhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Excelente! Muito chic! Ele ficara com pena de n&atilde;o ouvir a
+Gilberte numa can&ccedil;oneta nova, as <i>Casquettes</i>. Onze e
+meia! Era justamente a essa hora que ela cantava, no &uacute;ltimo
+acto da <i>Revista El&eacute;ctrica</i>...--Colou &agrave;s orelhas
+os dois &laquo;receptores&raquo; do Teatrofone, e quedou embebido,
+com uma ruga s&eacute;ria na testa dura. De repente, num comando
+forte:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; ela! Chut! Venham ouvir!... &Eacute; ela! Venham todos!
+Princesa de Carman, para aqui! Todos! &Eacute; ela! Chut...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones,
+cada um provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles
+cavalheiros, <span class="pagenum">[83]</span>se apressaram a
+acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
+im&oacute;veis para saborear <i>Les Casquettes</i>. E no
+sal&atilde;o cor de rosa murcha, na nave da Biblioteca, onde se
+espalhara um sil&ecirc;ncio augusto, s&oacute; eu fiquei desligado
+do Teatrofone, com as m&atilde;os nas algibeiras e ocioso.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No rel&oacute;gio monumental, que marcava a hora de todas as
+Capitais e o movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado
+adormeceu. Sobre a mudez e a imobilidade pensativa daqueles dorsos,
+daqueles decotes, a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol
+regelado. E de cada orelha atenta, que a m&atilde;o tapava, pendia
+um fio negro, como uma tripa. Dornan, esboroado sobre a mesa,
+cerrara as p&aacute;lpebras, numa medita&ccedil;&atilde;o de monge
+obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o
+&laquo;receptor&raquo; na ponta delicada dos dedos, erguendo o
+nariz agudo e triste, gravemente cumpria um dever palaciano. Madame
+d'Oriol sorria, toda l&acirc;nguida, como se o fio lhe murmurasse
+do&ccedil;uras. Para desentorpecer arrisquei um passo
+t&iacute;mido. Mas caiu logo sobre mim um <i>chut</i> severo do
+Gr&atilde;o-Duque! Recuei para entre as cortinas da janela, a
+abrigar a minha ociosidade. O Fil&oacute;logo da
+
+<i>Coura&ccedil;a</i>, distante da mesa, com o seu comprido fio
+esticado, mordia o bei&ccedil;o, num esfor&ccedil;o de
+penetra&ccedil;&atilde;o. <span class="pagenum">[84]</span>A
+beatitude de S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era
+perfeita. Ao lado o colo de Madame Verghane arfava como uma onda de
+leite. E o meu pobre Jacinto, numa aplica&ccedil;&atilde;o
+conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone t&atilde;o tristemente
+como sobre uma sepultura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, ante aqueles seres de superior
+civiliza&ccedil;&atilde;o, sorvendo num sil&ecirc;ncio devoto as
+obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de
+Paris, atrav&eacute;s de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
+canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de
+lua, que, seguido de uma estrelinha, corria entre nuvens sobre os
+telhados e as chamin&eacute;s negras dos Campos El&iacute;sios,
+tamb&eacute;m andava l&aacute; fugindo, mais lustrosa e mais doce,
+por cima dos pinheirais. As r&atilde;s coaxavam ao longe no Pego da
+Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabe&ccedil;o,
+nuazinha e c&acirc;ndida...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma das senhoras murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, n&atilde;o &eacute; a Gilberte!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E um dos homens:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Parece um cornetim...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Agora s&atilde;o palmas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, &eacute; o Paulin!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque lan&ccedil;ou um <i>chut</i> feroz... No
+p&aacute;tio da nossa casa ladravam os c&atilde;es. De al&eacute;m
+<span class="pagenum">[85]</span>do ribeiro respondiam os
+c&atilde;es do Jo&atilde;o Saranda. Como me encontrei descendo por
+uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia,
+entre a seda das cortinas, num fino ar macio, o cheiro das pinhas
+estalando nas lareiras, o calor dos currais atrav&eacute;s das
+sebes altas, e o sussurro dormente das levadas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Despertei a um brado que n&atilde;o sa&iacute;a nem dos eidos, nem
+das sombras. Era o Gr&atilde;o-Duque que se erguera, encolhia
+furiosamente os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o se ouve nada!... S&oacute; guinchos! E um zumbido! Que
+ma&ccedil;ada!... Pois &eacute; uma beleza, a can&ccedil;oneta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<div class="break">Oh les casquettes,<br>
+
+
+Oh les casque-e-e-tes!...</div>
+
+
+<br>
+
+
+Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o
+mordomo bendito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Monseigneur est servi</i>!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na mesa, que pelo esplendor das orqu&iacute;deas mereceu os
+louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o et&eacute;reo poeta
+Dornan e aquele mo&ccedil;o de penugem loura que balou&ccedil;ava
+como uma espiga ao vento. Depois de <span class="pagenum">[86]</span> desdobrar o guardanapo, de o acomodar
+regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente
+do rel&oacute;gio uma enorme luneta para percorrer o
+
+<i>menu</i>--que aprovou. E inclinando para mim a sua face de
+Ap&oacute;stolo obeso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Este Porto de 1834, aqui em casa do Jacinto, deve ser
+aut&ecirc;ntico... Hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o &laquo;Porto&raquo;
+envelhecera nas adegas cl&aacute;ssicas do av&ocirc; Gale&atilde;o.
+Ele afastou, numa prepara&ccedil;&atilde;o met&oacute;dica, os
+longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os
+escudeiros serviram um consomm&eacute; frio com trufas. E o
+mo&ccedil;o cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul
+e doce, murmurou, com uma desconsola&ccedil;&atilde;o risonha:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que pena!... S&oacute; falta aqui um general e um bispo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as
+trufas do meu Jacinto... Mas defronte Madame d'Oriol lan&ccedil;ara
+um riso mais cantado que um gorjeio. O Gr&atilde;o-Duque, numa
+silva de orqu&iacute;deas que orlava o seu talher, notara uma,
+sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de asas
+lustrosas, gordo e t&uacute;mido de veneno: e muito delicadamente
+ofertara a flor monstruosa a Madame d'Oriol, que, com trinado
+<span class="pagenum">[87]</span>riso, solenemente, a colocou no
+seio. Colado &agrave;quela carne macia, de uma brancura de nata
+fina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os
+olhos se acendiam, se cravavam no lindo peito, a que a flor
+disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela reluzia,
+triunfava. Para ajeitar melhor a orqu&iacute;dea os seus dedos
+alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades
+flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o
+prato vazio. E o alto l&iacute;rico do <i>Crep&uacute;sculo
+M&iacute;stico</i>, passando a m&atilde;o pelas barbas, rosnou com
+desd&eacute;m:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que n&atilde;o tem
+n&aacute;degas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+No entanto o mo&ccedil;o de loura penugem voltara &agrave; sua
+estranha m&aacute;goa. N&atilde;o possuirmos um general com a sua
+espada, e um bispo com seu b&aacute;culo!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para qu&ecirc;, meu caro senhor?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele atirou um gesto suave em que todos os seus an&eacute;is
+faiscaram:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um espl&ecirc;ndido
+ramalhete de flores de Civiliza&ccedil;&atilde;o, com um
+Gr&atilde;o-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada
+da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de s&eacute;culo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>E como eu o considerava
+assombrado, ele, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje
+a &uacute;nica emo&ccedil;&atilde;o, verdadeiramente fina, seria
+aniquilar a Civiliza&ccedil;&atilde;o. Nem a ci&ecirc;ncia, nem as
+artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam j&aacute; dar um gosto
+intenso e real &agrave;s nossas almas saciadas. Todo o prazer que
+se extra&iacute;ra de <i>criar</i> estava esgotado. S&oacute;
+
+restava, agora, o divino prazer de <i>destruir</i>!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos
+claros. Mas eu n&atilde;o atendia o gentil pedante, colhido por
+outro cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o
+servi&ccedil;o estacara como no conto do Pal&aacute;cio
+Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da
+Dalm&aacute;cia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
+Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os
+escudeiros sumidos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Felizmente o Gr&atilde;o-Duque contava a hist&oacute;ria de uma
+ca&ccedil;ada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher
+de um banqueiro, saltara bruscamente do cavalo, num descampado, sem
+&aacute;rvores. Ele e todos os ca&ccedil;adores param--e a galante
+senhora, l&iacute;vida, com a amazona arrega&ccedil;ada, corre para
+tr&aacute;s de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a
+banqueira, nesse descampado, agachada atr&aacute;s da pedra--porque
+justamente <span class="pagenum">[89]</span>o mordomo apareceu,
+reluzente de suor, e balbuciou uma confid&ecirc;ncia a Jacinto, que
+mordeu o bei&ccedil;o, trespassado. O Gr&atilde;o-Duque emudecera.
+Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre. Ent&atilde;o o meu
+Pr&iacute;ncipe, com paci&ecirc;ncia, com heroicidade,
+for&ccedil;ando palidamente o sorriso:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Meus amigos, h&aacute; uma desgra&ccedil;a...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Dornan pulou na cadeira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Fogo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o, n&atilde;o era fogo. Fora o elevador dos pratos, que
+inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e
+n&atilde;o se movia, encalhado!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez
+estalava como um esmalte mal posto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Essa &eacute; forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho!
+Para que estamos n&oacute;s aqui ent&atilde;o a cear? Que
+estupidez! E porque o n&atilde;o trouxeram &agrave; m&atilde;o,
+simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde &eacute; a copa?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
+trope&ccedil;ava, vergava os ombros, ante esta esmagadora
+c&oacute;lera de Pr&iacute;ncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra,
+levado na rajada de S. Alteza. E eu n&atilde;o me contive,
+tamb&eacute;m me atirei para a copa, a contemplar <span class="pagenum">[90]</span>o desastre, enquanto Dornan, batendo na coxa,
+clamava que se ceasse sem peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque l&aacute; estava, debru&ccedil;ado sobre o
+po&ccedil;o escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe
+avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu
+ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe
+precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre
+rodelas de lim&atilde;o. Jacinto, branco como a gravata, torturava
+desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
+Gr&atilde;o-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um
+empux&atilde;o tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O
+aparelho enrijara numa in&eacute;rcia de bronze eterno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sedas ro&ccedil;agaram &agrave; entrada da copa. Era Madame
+d'Oriol, e atr&aacute;s Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na
+curiosidade daquele lance em que o Pr&iacute;ncipe soltara tanta
+paix&atilde;o. Marizac, nosso &iacute;ntimo, surgiu tamb&eacute;m,
+risonho, propondo uma descida ao po&ccedil;o com escadas. Depois
+foi o Psic&oacute;logo, que se abeirou, psicologou, atribuindo
+inten&ccedil;&otilde;es sagazes ao peixe que assim se recusava. E a
+cada um o Gr&atilde;o-Duque, escarlate, mostrava com dedo
+tr&aacute;gico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam a
+face, murmuravam: &laquo;l&aacute; est&aacute;!&raquo; Todelle, na
+sua precipita&ccedil;&atilde;o, quase se <span class="pagenum">[91]</span>despenhou. O periquito descendente de Coligny
+batia as asas, ganindo:--&laquo;Que cheiro ele deita, que
+del&iacute;cia!&raquo; Na copa atulhada os decotes das senhoras
+ro&ccedil;avam a farda dos lacaios. O velho caiado de p&oacute; de
+arroz meteu o p&eacute; num balde de gelo, com um berro ferino. E o
+Historiador dos Duques de Anjou movia por cima de todos o seu nariz
+bicudo e triste.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+De repente, Todelle teve uma ideia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; muito simples... &Eacute; pescar o peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Est&aacute;
+claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela fac&eacute;cia, t&atilde;o
+rara e t&atilde;o nova, toda a sua c&oacute;lera se sumira, de novo
+se tornara o Pr&iacute;ncipe am&aacute;vel, de magn&iacute;fica
+polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir
+
+&agrave; pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se
+necessitava, para a divertida fa&ccedil;anha, mais que uma bengala,
+uma guita e um gancho. Imediatamente Madame d'Oriol, excitada,
+ofereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o
+seu perfume, o calor da sua pele, todos exalt&aacute;mos a
+amor&aacute;vel dedica&ccedil;&atilde;o. E o Psic&oacute;logo
+proclamou que nunca se pescara com t&atilde;o divino anzol!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e
+um cordel, j&aacute; o Gr&atilde;o-Duque, radiante, vergara o
+gancho em <span class="pagenum">[92]</span>anzol. Jacinto, com uma
+paci&ecirc;ncia l&iacute;vida, erguia uma l&acirc;mpada sobre a
+escurid&atilde;o do po&ccedil;o fundo. E os senhores mais graves, o
+Historiador, o director do _Boulevard_, o Conde de Tr&egrave;ves, o
+homem de cabe&ccedil;a &agrave; Van-Dick, sorriam, amontoados
+
+&agrave; porta, num interesse reverente pela fantasia de S. Alteza.
+Madame de Tr&egrave;ves, essa, examinava serenamente, com a sua
+nobre luneta, a instala&ccedil;&atilde;o da copa. S&oacute; Dornan
+n&atilde;o se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a
+toalha, o gordo pesco&ccedil;o encovado, no t&eacute;dio sombrio de
+fera a quem arrancaram a posta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho,
+pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa,
+n&atilde;o fisgava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, erga essa luz! gritava ele, inchado e suado. Mais!...
+Agora! Agora! &Eacute; na guelra! S&oacute; na guelra &eacute; que
+o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! N&atilde;o
+vai!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Tirou a face do po&ccedil;o, resfolgando e afrontado. N&atilde;o
+era poss&iacute;vel! S&oacute; carpinteiros, com alavancas!... E
+todos, ansiosamente, brad&aacute;mos que se abandonasse o
+peixe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Pr&iacute;ncipe, risonho, sacudindo as m&atilde;os, concordava
+que por fim &laquo;fora mais divertido pesc&aacute;-lo do que
+com&ecirc;-lo!&raquo; E o elegante bando <span class="pagenum">[93]</span>refluiu sofregamente para a mesa, ao som de
+uma valsa de Strauss, que os Tziganes arremessaram em arcadas de
+l&acirc;nguido ardor. S&oacute; Madame de Tr&egrave;ves se demorou
+ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto
+admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que
+compreens&atilde;o da vida, que fina intelig&ecirc;ncia do
+conforto!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+S. Alteza, encalmado pelo esfor&ccedil;o, esvaziou poderosamente
+dois copos de Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador
+genial. E os escudeiros serviram o _Bar&atilde;o de Pauillac_,
+cordeiro das lez&iacute;rias marinhas, que, preparado com ritos
+quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no
+Nobili&aacute;rio de Fran&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu comi com o apetite de um her&oacute;i de Homero. Sobre o meu
+copo e o de Dornan o Champanhe cintilou e jorrou
+ininterrompidamente como uma fonte de Inverno. Quando se serviram
+ortolans gelados, que se derretiam na boca, o divino poeta
+murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a &laquo;Santa
+Clara&raquo;. E como, do outro lado, o mo&ccedil;o de penugem loura
+insistia pela destrui&ccedil;&atilde;o do velho mundo,
+tamb&eacute;m concordei, e, sorvendo o Champanhe coalhado em
+sorvete, maldissemos o S&eacute;culo, a Civiliza&ccedil;&atilde;o,
+todos os orgulhos da Ci&ecirc;ncia! Atrav&eacute;s das flores e das
+luzes, <span class="pagenum">[94]</span>no entanto, eu seguia as
+ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma
+bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a do&ccedil;ura de
+S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu mart&iacute;rio e da
+sua festa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ela findou. Ainda recordo, &agrave;s tr&ecirc;s horas da noite, o
+Gr&atilde;o-Duque na antec&acirc;mara, muito vermelho, mal firme
+nos p&eacute;s pequeninos, sem acertar com as mangas da
+peli&ccedil;a que Jacinto e eu lhe ajud&aacute;mos a
+enfiar--convidando o meu amigo, numa efus&atilde;o carinhosa, a ir
+ca&ccedil;ar &agrave;s suas terras da Dalm&aacute;cia...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma
+bela ca&ccedil;ada!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E enquanto o acompanh&aacute;vamos, entre as alas dos escudeiros,
+pela vasta escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro
+de tr&ecirc;s lumes, S. Alteza repisava, pegajoso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Uma bela ca&ccedil;ada... E tamb&eacute;m vai Fernandes! Bom
+Fernandes, Z&eacute; Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O
+_Bar&atilde;o de Pauillac_, divino!... Creio que o devemos nomear
+Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do
+Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... N&atilde;o venham fora!
+N&atilde;o se constipem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[95]</span>E do fundo do coup&eacute;, ao
+rodar, ainda bradou:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao
+almo&ccedil;o, frio, com molho verde!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono
+em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande
+pena, o elevador...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Uma ma&ccedil;ada! E tudo falha!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tr&ecirc;s dias depois desta festa no 202 recebeu o meu
+Pr&iacute;ncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova
+consider&aacute;vel. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda
+a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e
+&aacute;gua. Com as grossas chuvas, &laquo;ou por outras causas que
+os peritos dir&atilde;o&raquo; (como exclamava na sua carta
+angustiada o procurador Silv&eacute;rio), um peda&ccedil;o de
+monte, que se avan&ccedil;ava em socalco sobre o vale da
+Carri&ccedil;a, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha
+r&uacute;stica do s&eacute;culo XVI, onde jaziam sepultados os
+av&oacute;s de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os
+ossos vener&aacute;veis <span class="pagenum">[96]</span>desses
+Jacintos jaziam agora soterrados sob um mont&atilde;o informe de
+terra e pedra. O Silv&eacute;rio j&aacute; come&ccedil;ara com os
+mo&ccedil;os da quinta a desatulhar dos &laquo;preciosos
+restos&raquo;. Mas esperava ansiosamente as ordens de sua
+exc.&ordf;...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano,
+t&atilde;o rijo e firme desde os Godos, que de repente ru&iacute;a!
+Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca
+e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas
+conservavam um nome, uma data, uma hist&oacute;ria, confundidas num
+lixo de ru&iacute;na!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Coisa estranha, coisa estranha!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu
+conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre
+alameda de faias seculares, se erguia a duas l&eacute;guas da nossa
+casa, no antigo caminho de Gui&atilde;es &agrave;
+esta&ccedil;&atilde;o e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
+Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas
+vezes, depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no
+robusto casar&atilde;o de granito, e avaliara o gr&atilde;o
+espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo nas adegas
+imensas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E a igreja, Z&eacute; Fernandes?... Entraste na igreja?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nunca... Mas era pitoresca, com uma <span class="pagenum">[97]</span>torrezinha quadrada, toda negra, onde
+h&aacute; muitos anos vivia uma fam&iacute;lia de cegonhas...
+Terr&iacute;vel transtorno para as cegonhas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Pr&iacute;ncipe,
+agourado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E telegrafou ao Silv&eacute;rio que desatulhasse o vale, recolhesse
+as ossadas, reedificasse a Igreja, e, para esta obra de piedade e
+rever&ecirc;ncia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a
+&aacute;gua de um rio largo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>V</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres
+humilhadores--as torneiras que dessoldavam, os elevadores que
+emperravam, o Vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia,
+decidiu valorosamente vencer as resist&ecirc;ncias finais da
+Mat&eacute;ria e da For&ccedil;a por novas e mais poderosas
+acumula&ccedil;&otilde;es de Mecanismos. E nessas semanas de Abril,
+enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre
+aquelas quietas casas dos Campos El&iacute;sios que
+pregui&ccedil;avam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num
+p&oacute; de cali&ccedil;a e de empreitada, com o bruto picar de
+pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores,
+onde me era doce fumar antes do almo&ccedil;o um pensativo cigarro,
+circulavam agora, desde madrugada, ranchos de oper&aacute;rios, de
+blusas brancas, assobiando o <i>Petit-Bleu</i>, e intimidando os
+meus passos <span class="pagenum">[100]</span>quando eu atravessava
+em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se
+varava com per&iacute;cia algum andaime obstruindo as portas--logo
+se esbarrava com uma pilha de t&aacute;buas, uma seira de
+ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os peda&ccedil;os de
+soalho levantado mostravam tristemente, como num cad&aacute;ver
+aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os sens&iacute;veis
+nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Cada dia estacava diante do port&atilde;o alguma lenta
+carro&ccedil;a, donde os criados, em mangas de camisa,
+descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se
+despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim,
+por tr&aacute;s da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu
+Pr&iacute;ncipe, para admirar uma nova M&aacute;quina que nos
+tornaria a vida mais f&aacute;cil, estabelecendo de um modo mais
+seguro o nosso dom&iacute;nio sobre a Subst&acirc;ncia. Durante os
+calores, que apertaram depois da Ascens&atilde;o, ensai&aacute;mos
+esperan&ccedil;adamente, para refrescar as &aacute;guas minerais, a
+Soda-Water e os Medocs ligeiros, tr&ecirc;s geleiras, que se
+amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos
+novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os
+p&eacute;s, delicadamente. <span class="pagenum">[101]</span>Depois
+recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer
+freneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei,
+todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Pr&iacute;ncipe,
+que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos actos mais elementares,
+para aliviar ou apressar o esfor&ccedil;o, se socorria Jacinto da
+Din&acirc;mica. E agora era por interven&ccedil;&atilde;o de uma
+M&aacute;quina que abotoava as ceroulas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E simultaneamente, ou em obedi&ecirc;ncia &agrave; sua Ideia, ou
+governado pelo despotismo do h&aacute;bito, n&atilde;o cessava, ao
+lado da Mec&acirc;nica acumulada, de acumular
+Erudi&ccedil;&atilde;o. Oh, a invas&atilde;o dos livros no 202!
+Solit&aacute;rios, aos pares, em pacotes, dentro de caixas,
+franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebeia
+capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente,
+torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Biblioteca,
+onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras
+macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo
+trepavam contra as janelas, em s&ocirc;fregas pilhas, como se,
+sufocados pela sua pr&oacute;pria multid&atilde;o, procurassem com
+&acirc;nsia espa&ccedil;o e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns
+vidros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros,
+perenemente se adensava um pensativo <span class="pagenum">[102]</span>crep&uacute;sculo de Outono enquanto fora
+Junho refulgia. A Biblioteca transbordara atrav&eacute;s de todo o
+202! N&atilde;o se abria um arm&aacute;rio sem que de dentro se
+despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! N&atilde;o se
+franzia uma cortina sem que de tr&aacute;s surgisse, hirta, uma
+ruma de livros! E imensa foi a minha indigna&ccedil;&atilde;o
+quando uma manh&atilde;, correndo urgentemente, de m&atilde;os nas
+al&ccedil;as, encontrei, vedada por uma tremenda
+colec&ccedil;&atilde;o de Estudos Sociais, a porta do
+Water-Closet!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mais amargamente por&eacute;m me lembro da noite hist&oacute;rica
+em que, no meu quarto, mo&iacute;do e mole de um passeio a
+Versalhes, com as p&aacute;lpebras poeirentas e meio adormecidas,
+tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso
+Dicion&aacute;rio de Ind&uacute;stria em trinta e sete volumes!
+Senti ent&atilde;o a suprema fartura do livro. Ajeitando, com
+murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Fac&uacute;ndia
+humana... E j&aacute; me estirara, adormecia, quando topei, quase
+parti a preciosa r&oacute;tula do joelho, contra a lombada de um
+tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os
+colch&otilde;es. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
+afrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de
+Daghestan. E nem sei se depois adormeci--porque os meus p&eacute;s,
+a que n&atilde;o sentia nem o pisar nem <span class="pagenum">[103]</span>o rumor, como se um vento brando me levasse,
+continuaram a trope&ccedil;ar em livros no corredor apagado, depois
+na areia do jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos
+Campos El&iacute;sios, povoada e ruidosa como numa festa
+c&iacute;vica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
+constru&iacute;das com livros. Nos ramos dos castanheiros
+ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos
+de papel impresso, com t&iacute;tulos nos dorsos, mostravam em vez
+de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as
+folhas. Ao fundo, na Pra&ccedil;a da Conc&oacute;rdia, avistei uma
+escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora
+enterrando a perna em fl&aacute;cidas camadas de versos, ora
+batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
+Cr&iacute;tica. A t&atilde;o vastas alturas subi, para al&eacute;m
+da terra, para al&eacute;m das nuvens, que me encontrei,
+maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e
+mudos, recobertos por espessas crostas de livros, donde surdia,
+aqui e al&eacute;m, por alguma fenda, entre dois volumes mal
+juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao
+Para&iacute;so. Decerto era o Para&iacute;so--porque com meus olhos
+de mortal argila avistei o Anci&atilde;o da Eternidade, aquele que
+n&atilde;o tem Manh&atilde; nem Tarde. Numa claridade que dele
+irradiava <span class="pagenum">[104]</span>mais clara que todas as
+claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de
+c&oacute;dices, sentado em vetust&iacute;ssimos f&oacute;lios, com
+os flocos das infinitas barbas espalhados por sobre resmas de
+folhetos, brochuras, gazetas e cat&aacute;logos--o Alt&iacute;ssimo
+lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a
+m&atilde;o superforte que o Mundo criara--e o Criador lia e sorria.
+Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro
+coruscante. O livro era brochado, de tr&ecirc;s francos... O Eterno
+lia Voltaire, numa edi&ccedil;&atilde;o barata, e sorria.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma porta faiscou e rangeu, como se algu&eacute;m penetrasse no
+Para&iacute;so. Pensei que um Santo novo chegara da Terra. Era
+Jacinto, com o charuto em brasa, um molho de cravos na lapela,
+sobra&ccedil;ando tr&ecirc;s livros amarelos que a Princesa de
+Carman lhe emprestara para ler!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Numa dessas activas semanas, por&eacute;m, a minha
+aten&ccedil;&atilde;o subitamente se despegou deste interessante
+Jacinto. H&oacute;spede do 202, conservava no 202 a minha mala e a
+minha roupa: e, acostado &agrave; bandeira do meu Pr&iacute;ncipe,
+ainda ocasionalmente comia do seu caldeir&atilde;o sumptuoso. Mas a
+minha alma, a minha embrutecida <span class="pagenum">[105]</span>alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
+habitavam ent&atilde;o na rua do H&eacute;lder, n.^o 16, quarto
+andar, porta &agrave; esquerda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e
+sensa&ccedil;&otilde;es, o Boulevard da Madalena, quando avistei,
+diante da Esta&ccedil;&atilde;o dos &Oacute;nibus, rondando no
+asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena,
+quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma
+mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o
+chap&eacute;u velho de plumas negras. Parei, como colhido por um
+repux&atilde;o nas entranhas. A criatura passou--no seu magro
+rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de
+Janeiro. Dois po&ccedil;os fundos n&atilde;o luzem mais negra e
+taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros.
+N&atilde;o recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de
+seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma
+s&uacute;plica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos
+ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um
+gabinete do Caf&eacute; Durand, safado e morno. Diante do espelho,
+a criatura, com a lentid&atilde;o de um rito triste, tirou o
+chap&eacute;u e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda
+pu&iacute;da do corpete esgar&ccedil;ava nos cotovelos agudos. E os
+seus cabelos eram imensos, de uma <span class="pagenum">[106]</span>dureza e espessura de juba brava, em dois
+tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a
+c&ocirc;dea de uma torta ao sair quente do forno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com um riso tr&eacute;mulo, agarrei os seus dedos compridos e
+frios:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o nomezinho, hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ela s&eacute;ria, quase grave:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Madame Colombe, 16, rua do H&eacute;lder, quarto andar, porta
+&agrave; esquerda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E eu (miser&aacute;vel Z&eacute; Fernandes!) tamb&eacute;m me senti
+muito s&eacute;rio, trespassado por uma emo&ccedil;&atilde;o grave,
+como se nos envolvesse, naquela alcova de Caf&eacute;, a majestade
+de um Sacramento. &Agrave; porta, empurrada levemente, o criado
+avan&ccedil;ou a face n&eacute;dia. Ordenei uma lagosta, pato com
+piment&otilde;es, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que
+me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe
+beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terr&iacute;vel,
+em que deixei a alma, entre saliva e gosto de piment&atilde;o!
+Depois, numa tip&oacute;ia aberta, sob um bafo mole de leste e de
+trovoada, subimos a Avenida dos Campos El&iacute;sios. Em frente
+
+&agrave; grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu
+luxo:--&laquo;Moro ali, todo o ano!...&raquo; E como ao mirar o
+Palacete, debru&ccedil;ada, ela ro&ccedil;ara a mata fulva do
+p&ecirc;lo crespo pela minha barba--berrei<span class="pagenum">[107]</span> desesperadamente ao cocheiro; que galopasse
+para a rua do H&eacute;lder, n.&ordm; 16, quarto andar, porta
+&agrave; esquerda!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os
+Amores que est&atilde;o no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o
+Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava
+Julieta, como um bode ama uma cabra. Era est&uacute;pida, era
+triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua
+tristeza; e com inef&aacute;vel gosto afundava a minha raz&atilde;o
+na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi
+a consci&ecirc;ncia da minha personalidade de Z&eacute;
+Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Gui&atilde;es! Ora se
+me afigurava ser um peda&ccedil;o de cera que se derretia, com
+horrenda del&iacute;cia, num forno rubro e rugidor: ora me parecia
+ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se consumia um
+molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez s&oacute;
+conservo a impress&atilde;o de uma alcova forrada de cretones
+sujos, de uma bata de l&atilde; cor de lil&aacute;s com sotaches
+negros, de vagas garrafas de cerveja no m&aacute;rmore de um
+lavat&oacute;rio, e de um corpo tisnado que rangia e tinha cabelos
+no peito. E tamb&eacute;m me resta a sensa&ccedil;&atilde;o de
+incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar
+
+<span class="pagenum">[108]</span>para um rega&ccedil;o, que se
+cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu
+rel&oacute;gio, os meus berloques, os meus an&eacute;is, os meus
+bot&otilde;es de punho de safira, e as cento e noventa e sete
+libras em ouro que eu trouxera de Gui&atilde;es numa cinta de
+camur&ccedil;a. Do s&oacute;lido, decoroso, bem fornecido Z&eacute;
+Fernandes, s&oacute; restava uma carca&ccedil;a errando
+atrav&eacute;s de um sonho, com as g&acirc;mbias moles e a baba a
+escorrer.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
+H&eacute;lder, encontrei a porta fechada--e arrancado da ombreira
+aquele cart&atilde;o de <i>Madame Colombe</i> que eu lia sempre
+t&atilde;o devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser
+tremeu como se o ch&atilde;o de Paris tremesse! Aquela era a porta
+do Mundo que ante mim se fechara! Para al&eacute;m estavam as
+gentes, as cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho,
+naquele patamar do N&atilde;o-Ser, fora da porta que se fechara,
+&uacute;nico ser fora do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e
+a incoer&ecirc;ncia de uma pedra, at&eacute; ao cub&iacute;culo da
+porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra,
+como se t&atilde;o pavoroso abalo n&atilde;o tivesse desmantelado o
+Universo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Madame Colombe?<br>
+
+
+<br>
+
+
+A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[109]</span>--J&aacute; n&atilde;o mora...
+Abalou esta manh&atilde;, para outra terra, com outra porca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Para outra terra! com outra porca!... Vazio, negramente vazio de
+todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos
+tombos, como um tonel vazio, na corrente a&ccedil;odada do
+Boulevard, at&eacute; que encalhei num banco da Pra&ccedil;a da
+Madalena, onde tapei com as m&atilde;os, a que n&atilde;o sentia a
+febre, os olhos a que n&atilde;o sentia o pranto! Tarde, muito
+tarde, quando j&aacute; se cerravam com estrondo as cortinas de
+ferro das lojas, surdiu, dentre todas estas confusas ru&iacute;nas
+do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ru&iacute;nas--a
+ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos de
+um ressuscitado. E, numa recorda&ccedil;&atilde;o que me escaldava
+a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
+colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a
+poeira da Madalena, pensei com
+desconforto:--&laquo;Sant&iacute;ssimo Nome de Deus! Que imensa
+sede me fez esta desgra&ccedil;a!...&raquo; De manso acenei ao
+mo&ccedil;o:--&laquo;Antes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe,
+com muito gelo, e um grande copo!...&raquo; Creio que aquele
+Champanhe se engarrafara no C&eacute;u onde corre perenemente a
+fresca fonte da Consola&ccedil;&atilde;o, e que na garrafa bendita
+que me coube penetrara, antes de arrolhada, <span class="pagenum">[110</span>um jorro largo dessa fonte inef&aacute;vel.
+Jesus! que transcendente regalo, o daquele nobre copo, embaciado,
+nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois, garrafa
+de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
+Hortel&atilde;-Pimenta granitada em gelo! E depois um desejo
+arquejante de espancar, com o meu rijo marmeleiro de Gui&atilde;es,
+a porca que fugira com outra porca! Dentro da tip&oacute;ia
+fechada, que me transportou num galope ao 202, n&atilde;o sufoquei
+este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros
+retumbantes contra as almofadas, onde <i>via</i>, furiosamente
+
+<i>via</i> a mata imensa de p&ecirc;lo amarelo, em que a minha alma
+uma tarde se perdera, e tr&ecirc;s meses se debatera, e para sempre
+se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava
+t&atilde;o desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do
+cocheiro, dois mo&ccedil;os acudiram e me sustiveram, recebendo
+pelos ombros, sobre as nucas servis, os restos cansados da minha
+c&oacute;lera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao
+<i>si&ocirc;</i> Z&eacute; Fernandes, a Z&eacute; Fernandes de
+Gui&atilde;es, a imensa indignidade de um ch&aacute; de macela! E
+estirado no leito de D. Gale&atilde;o, com as botas sobre o
+travesseiro, o chap&eacute;u alto sobre os olhos, ri, num doloroso
+
+<span class="pagenum">[111]</span>riso, deste Mundo burlesco e
+s&oacute;rdido de Jacintos e de Colombes! E de repente senti uma
+ang&uacute;stia horrenda. Era Ela! Era a Madame Colombe, que
+esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e
+desabotoara o meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda
+ela, com as saias sujas, mergulhara dentro do meu peito, e abocara
+o meu cora&ccedil;&atilde;o, e chupava a sorvos lentos, como na rua
+do H&eacute;lder, o sangue do meu cora&ccedil;&atilde;o!
+Ent&atilde;o, certo da Morte, ganindo pela tia Vic&ecirc;ncia,
+pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que,
+atrav&eacute;s da n&eacute;voa final, eu distinguia sobre o
+tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a
+minha sepultura, que t&atilde;o irreverentemente se assemelhava ao
+meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta.
+Depois, num esfor&ccedil;o ultrahumano, com um rugido, sentindo
+que, n&atilde;o somente toda a entranha, mas a alma se esvaziava
+toda, vomitei Madame Colombe! Reca&iacute; sobre o leito de D.
+Gale&atilde;o... Recarreguei o chap&eacute;u sobre os olhos para
+n&atilde;o sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol
+espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma
+criancinha docemente embalada num ber&ccedil;o de verga pelo Anjo
+da Guarda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+De manh&atilde;, lavei a pele num banho profundo, perfumado com
+todos os aromas do <span class="pagenum">[112]</span>202, desde
+folhas de limonete da &Iacute;ndia at&eacute; ess&ecirc;ncia de
+jasmim de Fran&ccedil;a: e lavei a alma com uma rica carta da Tia
+Vic&ecirc;ncia, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda
+promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe
+sa&iacute;ra t&atilde;o fina, e da alegre fogueira do p&aacute;tio
+em noite de S. Jo&atilde;o, e da menininha muito gorda e cabeluda
+que viera do c&eacute;u para a minha afilhada Joaninha. Depois,
+&agrave; janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de
+sedinha branca, tomando ch&aacute; de Na&iuml;p&ograve;, respirando
+os rosais do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei,
+em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhara, na
+rua do H&eacute;lder, com um estardalho muito magro e muito
+tisnado! E conclui que padecera de uma longa sez&atilde;o,
+sez&atilde;o da carne, sez&atilde;o da imagina&ccedil;&atilde;o,
+apanhada num charco de Paris--nesses charcos que se formam
+atrav&eacute;s da Cidade com as &aacute;guas mortas, os limos, os
+lixos, os tortulhos e os vermes de uma Civiliza&ccedil;&atilde;o
+que apodrece.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, curado, todo o meu esp&iacute;rito, como uma agulha
+para o Norte, se virou logo para o meu complicado Pr&iacute;ncipe,
+que, nas derradeiras semanas da minha infec&ccedil;&atilde;o
+sentimental, eu entrevira sempre desca&iacute;do por cima
+<span class="pagenum">[113]</span>de sof&aacute;s, ou vagueando
+atrav&eacute;s da Biblioteca entre os seus trinta mil volumes, com
+arrastados bocejos de in&eacute;rcia e de vacuidade. Eu, na minha
+pressa indigna, s&oacute; lhe lan&ccedil;ava um
+distra&iacute;do--&laquo;que &eacute; isso?&raquo; Ele, no seu
+moroso desalento, s&oacute; murmurava um seco--&laquo;&eacute;
+
+calor!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, nessa manh&atilde; da minha liberta&ccedil;&atilde;o, ao
+penetrar antes de almo&ccedil;o no seu quarto, no sof&aacute; o
+encontrei enterrado, com o <i>Figaro</i> aberto sobre a barriga, a
+Agenda ca&iacute;da sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
+e os p&eacute;s abandonados, numa soberana tristeza, ao pedicuro
+que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado e
+repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a
+quieta&ccedil;&atilde;o das minhas sensa&ccedil;&otilde;es, e a
+segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
+impressionaram o meu Pr&iacute;ncipe--a quem a melancolia nunca
+embotava a agudeza. Ergueu molemente um bra&ccedil;o mole:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o esse capricho?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Derramei, sobre ele todo o fulgor de um riso vitorioso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Morto! E, como o Sr. de Malbrouck, &laquo;morto e bem
+enterrado.&raquo; Jaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora
+rolando por dentro do cano do esgoto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto bocejou, murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[114]</span>--Este Z&eacute; Fernandes de
+Noronha e Sande!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com
+desprendida ironia, se resumiu todo o interesse daquele
+Pr&iacute;ncipe pela suja tormenta em que se debatera o meu
+cora&ccedil;&atilde;o! Mas n&atilde;o me melindrou esse consumado
+ego&iacute;smo... Claramente percebia eu que o meu Jacinto
+atravessava uma densa n&eacute;voa de t&eacute;dio, t&atilde;o
+densa, e ele t&atilde;o afundado na sua mole densidade, que as
+gl&oacute;rias ou os tormentos de um camarada n&atilde;o o
+comoviam, como muito remotas, intang&iacute;veis, separadas da sua
+sensibilidade por imensas camadas de algod&atilde;o. Pobre
+Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura, tombado para o sof&aacute;
+
+de in&eacute;rcia, com os p&eacute;s no rega&ccedil;o do pedicuro!
+Em que lodoso fastio ca&iacute;ra, depois de renovar t&atilde;o
+bravamente todo o recheio mec&acirc;nico e erudito do 202, na sua
+luta contra a For&ccedil;a e a Mat&eacute;ria!--E esse fastio
+n&atilde;o o escondeu mais do seu velho Z&eacute; Fernandes quando
+recome&ccedil;ou entre n&oacute;s a comunh&atilde;o de vida e de
+alma a que eu t&atilde;o torpemente me arrancara, uma tarde, diante
+da Esta&ccedil;&atilde;o dos &Oacute;nibus, no charco da
+Madalena.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o eram certamente confiss&otilde;es enunciadas. O elegante
+e reservado Jacinto n&atilde;o torcia <span class="pagenum">[115]</span>os bra&ccedil;os, gemendo--&laquo;Oh vida
+maldita!&raquo; Eram apenas express&otilde;es saciadas; um gesto de
+repelir com rancor a importunidade das coisas; por vezes uma
+imobilidade determinada, de protesto, no fundo de um div&atilde;,
+donde se n&atilde;o desenterrava, como para um repouso que
+desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que
+sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever
+inilud&iacute;vel; e sobretudo aquele murmurar que se tornara
+perene e natural--&laquo;Para qu&ecirc;?&raquo;--&laquo;N&atilde;o
+vale a pena!&raquo;--&laquo;Que ma&ccedil;ada!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma noite no meu quarto, descal&ccedil;ando as botas, consultei o
+Grilo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Jacinto anda t&atilde;o murcho, t&atilde;o corcunda... Que
+ser&aacute;, Grilo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O venerando preto declarou com uma certeza imensa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S. Exc.&ordf; sofre de fartura.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era fartura! O meu Pr&iacute;ncipe sentia abafadamente a fartura de
+Paris:--e na Cidade, na simb&oacute;lica Cidade, fora de cuja vida
+culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do
+s&eacute;culo XIX nunca poderia saborear plenamente a
+&laquo;del&iacute;cia de viver&raquo;, ele n&atilde;o encontrava
+agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe
+valesse o esfor&ccedil;o de uma corrida curta numa tip&oacute;ia
+<span class="pagenum">[116]</span>f&aacute;cil. Pobre Jacinto! Um
+jornal velho, setenta vezes relido desde a Cr&oacute;nica
+at&eacute; aos An&uacute;ncios, com a tinta delida, as dobras
+ro&iacute;das, n&atilde;o enfastiaria mais o Solit&aacute;rio, que
+s&oacute; possu&iacute;sse na sua Solid&atilde;o esse alimento
+intelectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada!
+Se eu nesse Ver&atilde;o capciosamente o arrastava a um
+Caf&eacute;-Concerto, ou ao festivo Pavilh&atilde;o d'Armenonville,
+o meu bom Jacinto, colado pesadamente &agrave; cadeira com um
+maravilhoso ramo de orqu&iacute;deas na casaca, as finas
+m&atilde;os abatidas sobre o cast&atilde;o da bengala, conservava
+toda a noite uma gravidade t&atilde;o estafada, que eu,
+compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
+abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e ent&atilde;o com
+veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus
+Clubes, ao fundo dos Campos El&iacute;sios. N&atilde;o se ocupara
+mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos <i>Telefones de
+Constantinopla</i>, nem das <i>Religi&otilde;es
+Esot&eacute;ricas</i>, nem do <i>Bazar Espiritualista</i>, cujas
+cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de &eacute;bano, donde o
+Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda.
+Tamb&eacute;m lentamente se despegava de todas as suas
+conviv&ecirc;ncias. As p&aacute;ginas da Agenda cor-de-rosa murcha
+andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de
+Mail-Coach, <span class="pagenum">[117]</span>ou a um convite para
+algum Castelo amigo dos arredores de Paris, era t&atilde;o
+arrastadamente, com um esfor&ccedil;o t&atilde;o saturado ao enfiar
+o palet&oacute; leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um
+gordo jantar de prov&iacute;ncia, a estalar, que, por polidez ou em
+obedi&ecirc;ncia a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de
+ovos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jazer, jazer em casa, na seguran&ccedil;a das portas bem cerradas e
+bem defendidas contra toda a intrus&atilde;o do mundo, seria uma
+do&ccedil;ura para o meu Pr&iacute;ncipe se o seu pr&oacute;prio
+202, com todo aquele tremendo recheio de Civiliza&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o lhe desse uma sensa&ccedil;&atilde;o dolorosa de
+abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as
+alcatifas, tantos m&oacute;veis roli&ccedil;os e fofos, todos os
+seus metais e todos os seus livros, t&atilde;o espessamente o
+oprimiam, que escancarava sem cessar as janelas para prolongar o
+espa&ccedil;o, a claridade, a frescura. Mas era ent&atilde;o a
+poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Oh, este p&oacute; da Cidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, oh Jacinto, por que n&atilde;o vamos para Fontainebleau, ou
+para Montmorency, ou...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--P'ra o campo? O qu&ecirc;! P'ra o campo?!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E na sua face enrugada, atrav&eacute;s deste berro, lampejava
+sempre tanta indigna&ccedil;&atilde;o, que <span class="pagenum">[118]</span>eu curvava os ombros, humilde, no
+arrependimento de ter afrontosamente ultrajado o Pr&iacute;ncipe
+que tanto amava. Desventurado Pr&iacute;ncipe! Com o seu dourado
+cigarro de Yaka a fumegar, errava ent&atilde;o pelas salas, lenta e
+murchamente, como quem vaga em terra alheia sem
+afei&ccedil;&otilde;es e sem ocupa&ccedil;&otilde;es. Esses
+desafei&ccedil;oados e desocupados passos monotonamente o traziam
+ao seu centro, ao gabinete verde, &agrave; Biblioteca de
+
+&eacute;bano, onde acumulara Civiliza&ccedil;&atilde;o nas
+m&aacute;ximas propor&ccedil;&otilde;es para gozar nas
+m&aacute;ximas propor&ccedil;&otilde;es a del&iacute;cia de viver.
+Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse
+lhe solicitavam as m&atilde;os, enterradas nas algibeiras das
+pantalonas de seda, numa in&eacute;rcia de derrota. Anulado,
+bocejava com descoro&ccedil;oada moleza. E nada mais instrutivo e
+doloroso do que este supremo homem do s&eacute;culo XIX, no meio de
+todos os aparelhos refor&ccedil;adores dos seus
+&oacute;rg&atilde;os, e de todos os fios que disciplinavam ao seu
+servi&ccedil;o as For&ccedil;as Universais, e dos seus trinta mil
+volumes repletos do saber dos s&eacute;culos--estacando, com as
+m&atilde;os derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na
+face e na indecis&atilde;o mole de um bocejo, o embara&ccedil;o de
+viver!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>VI</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o
+que cansa jamais cansam, Jacinto, &agrave;s quatro horas, com
+regularidade devota, visitava Madame d'Oriol:--porque essa flor de
+Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a
+desbotar na calma e no cisco da Cidade. Numa dessas tardes,
+por&eacute;m, o Telefone, ansiosamente repicado, avisou Jacinto de
+que a sua doce amiga jantava em Enghien com os Tr&egrave;ves.
+(Esses senhores gozavam o seu Ver&atilde;o &agrave; beira do lago,
+numa casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a
+Efraim).<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando &agrave;s
+voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma)
+sugeri a Jacinto que sub&iacute;ssemos &agrave; Bas&iacute;lica do
+
+<i>Sacr&eacute;-Coeur</i>, em constru&ccedil;&atilde;o nos altos de
+Montmartre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[120]</span>--&Eacute; uma seca, Z&eacute;
+Fernandes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com mil dem&oacute;nios! Eu nunca vi a Bas&iacute;lica...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, bem! Vamos &agrave; Bas&iacute;lica, homem fatal de Noronha
+e Sande!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E por fim logo que come&ccedil;&aacute;mos a penetrar, para
+al&eacute;m de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e
+&iacute;ngremes, de uma quieta&ccedil;&atilde;o de
+prov&iacute;ncia, com muros velhos fechando quintalejos
+r&uacute;sticos, mulheres despenteadas cosendo &agrave; soleira das
+portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas,
+galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em
+canas--o meu fastidioso camarada sorriu &agrave;quela liberdade e
+singeleza das coisas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A vit&oacute;ria parou em frente &agrave; larga rua de escadarias
+que trepa, cortando vielazinhas campestres, at&eacute; &agrave;
+esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Bas&iacute;lica
+imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, forradas de
+paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos,
+Cora&ccedil;&otilde;es de Jesus bordados a retr&oacute;s, claros
+molhos de Ros&aacute;rios. Pelos cantos, velhas agachadas
+resmungavam a Ave-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente
+uma pitada. Um sino lento tilintava na do&ccedil;ura cinzenta da
+tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; curioso!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[121]</span>Mas a Bas&iacute;lica em cima
+n&atilde;o nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda
+branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por
+um impulso bem Jac&iacute;ntico, caminhou gulosamente para a borda
+do terra&ccedil;o, a contemplar Paris. Sob o c&eacute;u cinzento,
+na plan&iacute;cie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como
+uma vasta e grossa camada de cali&ccedil;a e telha. E, na sua
+imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais t&eacute;nue e
+ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o
+vest&iacute;gio vis&iacute;vel da sua vida magn&iacute;fica.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o chasqueei risonhamente o meu Pr&iacute;ncipe.
+A&iacute; estava pois a Cidade, augusta cria&ccedil;&atilde;o da
+Humanidade! Ei-la a&iacute;, belo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta
+da Terra--uma camada de cali&ccedil;a, apenas mais cinzenta! No
+entanto ainda momentos antes a deix&aacute;ramos prodigiosamente
+viva, cheia de um povo forte, com todos os seus poderosos
+
+&oacute;rg&atilde;os funcionando, abarrotada de riqueza,
+resplandecente de sapi&ecirc;ncia, na triunfal plenitude do seu
+orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Gra&ccedil;a. E agora eu e
+o belo Jacinto trep&aacute;vamos a uma colina,
+espreit&aacute;vamos, escut&aacute;vamos--e de toda a estridente e
+radiante Civiliza&ccedil;&atilde;o da Cidade n&atilde;o
+perceb&iacute;amos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo
+<span class="pagenum">[122]</span>202, com os seus arames, os seus
+aparelhos, a pompa da sua Mec&acirc;nica, os seus trinta mil
+livros? Sumido, esva&iacute;do na confus&atilde;o de telha e cinza!
+Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla de
+cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em t&atilde;o
+angustioso esfor&ccedil;o? Hein, Jacinto?... Onde est&atilde;o os
+teus Armaz&eacute;ns servidos por tr&ecirc;s mil caixeiros? E os
+Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliotecas atulhadas
+com o saber dos s&eacute;culos? Tudo se fundiu numa n&oacute;doa
+parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z&eacute; Fernandes,
+logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada colina--a
+sublime edifica&ccedil;&atilde;o dos Tempos n&atilde;o &eacute;
+
+mais que um silencioso monturo da espessura e da cor do p&oacute;
+final. O que ser&aacute; ent&atilde;o aos olhos de Deus!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E ante estes clamores, lan&ccedil;ados com af&aacute;vel
+mal&iacute;cia para espica&ccedil;ar o meu Pr&iacute;ncipe, ele
+murmurou, pensativo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, &eacute; talvez tudo uma ilus&atilde;o... E a Cidade a maior
+ilus&atilde;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+T&atilde;o facilmente vitorioso redobrei de fac&uacute;ndia.
+Certamente, meu Pr&iacute;ncipe, uma Ilus&atilde;o! E a mais
+amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua
+grandeza e s&oacute; nela tem a fonte de toda a sua mis&eacute;ria.
+V&ecirc;, Jacinto! Na Cidade perdeu <span class="pagenum">[123]</span>ele a for&ccedil;a e beleza harmoniosa do
+corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e
+afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos
+tr&eacute;mulos como arames, com cangalhas, com chin&oacute;s, com
+dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem vi&ccedil;o,
+torto, corcunda--esse ser em que Deus, espantado, mal pode
+reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ad&atilde;o! Na Cidade
+findou a sua liberdade moral: cada manh&atilde; ela lhe
+imp&otilde;e uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para
+uma depend&ecirc;ncia: pobre e subalterno, a sua vida &eacute; um
+constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e
+superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em
+tradi&ccedil;&otilde;es, preceitos, etiquetas, cerim&oacute;nias,
+praxes, ritos, servi&ccedil;os mais disciplinares que os de um
+c&aacute;rcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem
+t&atilde;o alto que Deus com ele recompensa os Santos) onde
+est&aacute;, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha
+desesperada pelo p&atilde;o, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo
+gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haver&aacute;
+
+na Cidade para esses milh&otilde;es de seres que tumultuam na
+arquejante ocupa&ccedil;&atilde;o de <i>desejar</i>--e que, nunca
+fartando o desejo, incessantemente padecem de desilus&atilde;o,
+desesperan&ccedil;a ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente
+<span class="pagenum">[124]</span>humanos logo na Cidade se
+desumanizam! V&ecirc;, meu Jacinto! S&atilde;o como luzes que o
+&aacute;spero vento do viver social n&atilde;o deixa arder com
+serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e al&eacute;m
+brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada
+viol&ecirc;ncia. As amizades nunca passam de alian&ccedil;as que o
+interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora s&ocirc;frega do
+assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam
+ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade,
+meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armaz&eacute;ns com
+espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao
+arr&aacute;tel, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do
+Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da
+Paix&atilde;o a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que
+foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as
+Ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos
+l&ocirc;bregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais
+deteriora no homem &eacute; a Intelig&ecirc;ncia, porque ou lha
+arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a
+extravag&acirc;ncia. Nesta densa e pairante camada de Ideias e
+F&oacute;rmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o
+homem que a respira, nela envolto, s&oacute; pensa todos os
+
+<span class="pagenum">[125]</span>pensamentos j&aacute; pensados,
+s&oacute; exprime todas as express&otilde;es j&aacute;
+exprimidas:--ou ent&atilde;o, para se destacar na pardacenta e
+chata Rotina e trepar ao fr&aacute;gil andaime da glor&iacute;ola,
+inventa num gemente esfor&ccedil;o, inchando o cr&acirc;nio, uma
+novidade disforme que espante e que detenha a multid&atilde;o como
+um mostrengo numa Feira. Todos, intelectualmente, s&atilde;o
+carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o
+focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas
+pisadas;--e alguns s&atilde;o macacos, saltando no topo de mastros
+vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade,
+nesta cria&ccedil;&atilde;o t&atilde;o antinatural onde o solo
+
+&eacute; de pau e feltro e alcatr&atilde;o, e o carv&atilde;o tapa
+o c&eacute;u, e a gente vive acamada nos pr&eacute;dios como o
+paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
+murmuram atrav&eacute;s de arames--o homem aparece como uma
+criatura anti-humana, sem beleza, sem for&ccedil;a, sem liberdade,
+sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um esp&iacute;rito que
+&eacute; passivo como um escravo ou impudente como um
+histri&atilde;o... E aqui tem o belo Jacinto o que &eacute; a bela
+Cidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E ante estas encanecidas e vener&aacute;veis invectivas, retumbadas
+pontualmente por todos os Moralistas buc&oacute;licos, desde
+Hes&iacute;odo, atrav&eacute;s <span class="pagenum">[126]</span>dos s&eacute;culos--o meu Pr&iacute;ncipe
+vergou a nuca d&oacute;cil, como se elas brotassem, inesperadas e
+frescas, de uma Revela&ccedil;&atilde;o superior, naqueles cimos de
+Montmartre:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, com efeito, a Cidade... &Eacute; talvez uma ilus&atilde;o
+perversa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Insisti logo, com abund&acirc;ncia, puxando os punhos, saboreando o
+meu f&aacute;cil filosofar. E se ao menos essa ilus&atilde;o da
+Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres, que a mant&ecirc;m...
+Mas n&atilde;o! S&oacute; uma estreita e reluzente casta goza na
+Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa
+plebe, s&oacute; nela sofre, e com sofrimentos especiais que
+s&oacute; nela existem! Deste terra&ccedil;o, junto a esta rica
+Bas&iacute;lica consagrada ao Cora&ccedil;&atilde;o que amou o
+Pobre e por ele sangrou, bem avistamos n&oacute;s o l&ocirc;brego
+casario onde a plebe se curva sob esse antigo opr&oacute;brio de
+que nem Religi&otilde;es, nem Filosofias, nem Morais, nem a sua
+pr&oacute;pria for&ccedil;a brutal a poder&atilde;o jamais
+libertar! A&iacute; jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil
+que fecunda a Cidade. Os s&eacute;culos rolam; e sempre
+imut&aacute;veis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo
+deles, atrav&eacute;s do longo dia, os homens labutar&atilde;o e as
+mulheres chorar&atilde;o. E com este labor e este pranto dos
+pobres, meu Pr&iacute;ncipe, se edifica a abund&acirc;ncia da
+Cidade! <span class="pagenum">[127]</span>Ei-la agora coberta de
+moradas em que eles se n&atilde;o abrigam; armazenada de estofos,
+com que eles se n&atilde;o agasalham; abarrotada de alimentos, com
+que eles se n&atilde;o saciam! Para eles s&oacute; a neve, quando a
+neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos
+bancos das pra&ccedil;as ou sob os arcos das pontes de Paris... A
+neve cai, muda e branca na treva: as criancinhas gelam nos seus
+trapos: e a pol&iacute;cia, em torno, ronda atenta para que
+n&atilde;o seja perturbado o t&eacute;pido sono daqueles que amam a
+neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com
+peli&ccedil;as de tr&ecirc;s mil francos. Mas qu&ecirc;, meu
+Jacinto! a tua Civiliza&ccedil;&atilde;o reclama insaciavelmente
+regalos e pompas, que s&oacute; obter&aacute;, nesta amarga
+desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, por cada
+arquejante esfor&ccedil;o, uma migalha ratinhada.
+Irremedi&aacute;vel &eacute;, pois, que incessantemente a plebe
+sirva, a plebe pene! A sua esfalfada mis&eacute;ria &eacute; a
+condi&ccedil;&atilde;o do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas
+tigelas fumegasse a justa ra&ccedil;&atilde;o de caldo--n&atilde;o
+poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa
+por&ccedil;&atilde;o de <i>foie-gras</i> e t&uacute;baras que
+s&atilde;o o orgulho da Civiliza&ccedil;&atilde;o. H&aacute;
+
+andrajos em trapeiras--para que as belas Madamas d'Oriol,
+resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce
+ondula&ccedil;&atilde;o, a escadaria da &Oacute;pera. H&aacute;
+m&atilde;os <span class="pagenum">[128]</span>regeladas que se
+estendem, e bei&ccedil;os sumidos que agradecem o dom
+magn&acirc;nimo de um <i>sou</i>--para que os Efrains tenham dez
+milh&otilde;es no Banco de Fran&ccedil;a, se aque&ccedil;am
+&agrave; chama rica da lenha arom&aacute;tica, e surtam de colares
+de safiras as suas concubinas, netas dos Duques de Atenas. E um
+povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos--para que os
+Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe,
+morangos gelados em Champanhe e avivados de um fio de
+
+&eacute;ter!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miser&aacute;veis, tu e
+eu!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele murmurou, desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; horr&iacute;vel, comemos desses morangos... E talvez por
+uma ilus&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Pensativamente deixou a borda do terra&ccedil;o, como se a
+presen&ccedil;a da Cidade, estendida na plan&iacute;cie, fosse
+escandalosa. E caminh&aacute;mos devagar, sob a moleza cinzenta da
+tarde, filosofando--considerando que para esta iniquidade
+n&atilde;o havia cura humana, trazida pelo esfor&ccedil;o humano.
+Ah, os Efrains, os Tr&egrave;ves, os vorazes e sombrios
+tubar&otilde;es do mar humano, s&oacute; abandonar&atilde;o ou
+afrouxar&atilde;o a explora&ccedil;&atilde;o das Plebes, se uma
+influ&ecirc;ncia celeste, por milagre novo, mais alto que os
+milagres velhos, lhes converter as almas! <span class="pagenum">[129]</span>O burgu&ecirc;s triunfa, muito forte, todo
+endurecido no pecado--e contra ele s&atilde;o impotentes os prantos
+dos Humanit&aacute;rios, os racioc&iacute;nios dos L&oacute;gicos,
+as bombas dos Anarquistas. Para amolecer t&atilde;o duro granito
+s&oacute; uma do&ccedil;ura divina. Eis pois esperan&ccedil;a da
+terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos
+grandes C&eacute;us; e, para mostrar bem que mandado trazia,
+penetrou mansamente no mundo pela porta de um curral. Mas a sua
+passagem entre os homens foi t&atilde;o curta! Um meigo
+serm&atilde;o numa montanha, ao fim de uma tarde meiga; uma
+repreens&atilde;o moderada aos Fariseus que ent&atilde;o redigiam o
+
+<i>Boulevard</i>; algumas vergastadas nos Efrains
+vendilh&otilde;es; e logo, atrav&eacute;s da porta da morte, a fuga
+radiosa para o Para&iacute;so! Esse ador&aacute;vel filho de Deus
+teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a
+quem ele incumbira a continua&ccedil;&atilde;o da sua obra,
+envolvidos logo pelas influ&ecirc;ncias dos Efrains, dos
+Tr&egrave;ves, da gente do <i>Boulevard</i>, bem depressa
+esqueceram a li&ccedil;&atilde;o da Montanha e do lago de
+Tiber&iacute;ade--e eis que por seu turno revestem a
+p&uacute;rpura, e s&atilde;o Bispos, e s&atilde;o Papas, e se aliam
+&agrave; opress&atilde;o, e reinam com ela, e edificam a
+dura&ccedil;&atilde;o do seu Reino sobre a mis&eacute;ria dos
+sem-p&atilde;o e dos sem-lar! Assim tem de ser recome&ccedil;ada a
+obra <span class="pagenum">[130]</span>da Reden&ccedil;&atilde;o.
+Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que Deus por
+vezes escolhe no seio de uma Virgem, nos quietos verg&eacute;is da
+
+&Aacute;sia, dever&aacute; novamente descer &agrave; terra de
+servid&atilde;o. Vir&aacute; ele, o desejado? Porventura j&aacute;
+algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a estrela, e tomou a
+mirra nas suas m&atilde;os reais, e montou pensativamente sobre o
+seu dromed&aacute;rio? J&aacute; por esses arredores da dura
+Cidade, de noite, enquanto Caif&aacute;s e Madalena ceiam lagosta
+no Paillard, andou um Anjo, atento, num voo lento, escolhendo um
+curral? J&aacute; de longe, sem mo&ccedil;o que os tanja, na
+gostosa pressa de um divino encontro, vem trotando a vaca, trotando
+o burrinho?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tu sabes, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o, Jacinto n&atilde;o sabia--e queria acender o charuto.
+Forneci um f&oacute;sforo ao meu Pr&iacute;ncipe. Ainda
+rond&aacute;mos no terra&ccedil;o, espalhando pelo ar outras ideias
+s&oacute;lidas que no ar se desfaziam. Depois penetr&aacute;vamos
+na Bas&iacute;lica--quando um Sacrist&atilde;o n&eacute;dio, de
+barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou,
+enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para
+sempre, o seu velho Brevi&aacute;rio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Descemos a escadaria, armada em arraial <span class="pagenum">[131]</span>devoto. O meu pensativo camarada comprou uma
+imagem da Bas&iacute;lica. E salt&aacute;vamos para a
+vit&oacute;ria, quando algu&eacute;m gritou rijamente, numa
+surpresa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eh Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe abriu os bra&ccedil;os, tamb&eacute;m
+espantado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eh Maur&iacute;cio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, num alvoro&ccedil;o, atravessou a rua, para um caf&eacute;,
+onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em
+bico, remexia o seu absinto, com o chap&eacute;u de palha
+desca&iacute;do na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda,
+sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu
+jardim.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E ambos, apertando as m&atilde;os, se admiravam daquele encontro,
+num domingo de Ver&atilde;o, sobre as alturas de Montmartre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente
+Maur&iacute;cio. Em fam&iacute;lia, em chinelos... H&aacute;
+tr&ecirc;s meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na
+Santa Colina, homem profano da plan&iacute;cie e das ruas de
+Israel!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe mostrou o seu Z&eacute; Fernandes:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com este amigo, em peregrina&ccedil;&atilde;o &agrave;
+
+Bas&iacute;lica... <span class="pagenum">[132]</span>O meu amigo
+Fernandes Lorena... Maur&iacute;cio de Mayolle, velho camarada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso,
+lembrava Francisco de Valois, Rei de Fran&ccedil;a) ergueu o seu
+chap&eacute;u de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos
+acomod&aacute;ssemos para um absinto ou para um bock.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Toma um bock, Z&eacute; Fernandes! lembrou Jacinto. Tu estavas a
+ganir com sede!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Corri lentamente a l&iacute;ngua sobre os bei&ccedil;os, mais secos
+que pergaminhos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Estou a guardar esta sedezinha para logo, para o jantar, com um
+vinhozinho gelado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Maur&iacute;cio saudou, com silenciosa admira&ccedil;&atilde;o,
+esta minha avisada mal&iacute;cia. E imediatamente, para o meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; tr&ecirc;s anos que te n&atilde;o vejo, Jacinto... Como
+tem sido poss&iacute;vel, neste Paris que &eacute; uma aldeola e
+que tu atravancas?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A vida, Maur&iacute;cio, a espalhada vida... Com efeito!
+H&aacute; tr&ecirc;s anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda
+visitas esse santu&aacute;rio?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Maur&iacute;cio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um
+mundo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! H&aacute; mais de um ano que me separei dessa bicharia
+her&eacute;tica... Uma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma
+fixidez, um diletantismo estonteado, car&ecirc;ncia completa e
+
+<span class="pagenum">[133]</span>c&oacute;mica de toda a base
+experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e &agrave; Parola
+do 37, e &agrave; <i>Cerveja Ideal</i>, o que reinava?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto catou lentamente as suas recorda&ccedil;&otilde;es por
+entre os p&ecirc;los do bigode:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia &Eacute;dica, e o
+Raganarock, e as Nornas... Muito Pr&eacute;-Rafaelismo
+tamb&eacute;m, e Montagna, e Fra Angelico... Em moral, o
+Renanismo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Maur&iacute;cio sacudia os ombros. Oh, tudo isso pertencia a um
+passado arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel
+remobilara a sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre
+tons de a&ccedil;afr&atilde;o, j&aacute; o Renanismo passara,
+t&atilde;o esquecido como o Cartesianismo...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu ainda &eacute;s do tempo do culto do <i>Eu</i>?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe suspirou risonhamente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda o cultivei.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
+Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o
+Tolsto&iuml;smo, um furor imenso de renunciamento
+neo-cenob&iacute;tico. Ainda me lembro de um jantar em que apareceu
+um mostrengo de um eslavo, de guedelha s&oacute;rdida, que atirava
+olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e que
+grunhia com o dedo espetado:--&laquo;Busquemos a luz, muito por
+baixo, no p&oacute; da <span class="pagenum">[134]</span>terra!&raquo;--E &agrave; sobremesa bebemos
+&agrave; del&iacute;cia da humildade e do trabalho servil, com
+aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes
+dias em copos da forma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas
+a praga cruel foi Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de
+
+&Eacute;ticas e Est&eacute;ticas. Paris parecia demente. J&aacute;
+havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas
+nossas, coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada
+m&iacute;stico-brejeira, pregada por aquele pobre La Carte que
+depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E
+uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com &acirc;nsia
+para o Ruskinismo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu, agarrado &agrave; bengala, bem fincada no ch&atilde;o, sentia
+como um vendaval que redemoinhava, me torcia o cr&acirc;nio! E
+at&eacute; Jacinto balbuciou, esgazeado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--O Ruskinismo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu ditoso Pr&iacute;ncipe compreendeu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah, Ruskin!... <i>As sete l&acirc;mpadas da Arquitectura</i>,
+<i>A Coroa de Oliveira Brava</i>... &Eacute; o culto da Beleza.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Sim! O culto da Beleza, confirmou Maur&iacute;cio. Mas a esse
+tempo eu, enojado, j&aacute; descera <span class="pagenum">[135]</span>de todas essas nuvens v&atilde;s... Pisava um
+ch&atilde;o mais seguro, mais f&eacute;rtil.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as p&aacute;lpebras.
+Jacinto esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar
+a Flor de Novidade que ia desabrochar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E ent&atilde;o? ent&atilde;o?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre retic&ecirc;ncias em
+que se velava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de
+g&eacute;nio, que percorreu toda a &Iacute;ndia... Viveu com os
+Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e
+estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi
+a d&eacute;cima sexta encarna&ccedil;&atilde;o de Guatama, e era
+portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... N&atilde;o
+s&atilde;o vis&otilde;es. Mas factos, experi&ecirc;ncias bem
+antigas, que v&ecirc;m talvez desde os tempos de Cristna...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Atrav&eacute;s destes nomes, que exalavam um perfume triste de
+vetustos ritos, arredara a cadeira. E de p&eacute;, deixando cair
+sobre a mesa, distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata
+e moedas de cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto,
+mas perdidos noutra vis&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade
+dentro da suprema <span class="pagenum">[136]</span>pureza da Vida.
+&Eacute; toda a ci&ecirc;ncia e for&ccedil;a dos grandes mestres
+Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o
+obst&aacute;culo! N&atilde;o basta mesmo o Deserto, nem o bosque do
+mais velho templo no alto Tibete... Ainda assim, meu Jacinto,
+j&aacute; obtivemos resultados bem estranhos. Sabes as
+experi&ecirc;ncias de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre
+qu&iacute;mico, para demonstrar as vibra&ccedil;&otilde;es do som,
+tocou quase &agrave;s portas da verdade esot&eacute;rica. Mas
+qu&ecirc;! homem de ci&ecirc;ncia, portanto homem de estupidez,
+ficou aqu&eacute;m, entre as suas placas e as suas retortas!
+N&oacute;s fomos al&eacute;m. Verific&aacute;mos as
+
+<i>ondula&ccedil;&otilde;es da Vontade</i>! Diante de n&oacute;s,
+pela expans&atilde;o da energia do meu companheiro, e em
+cad&ecirc;ncia com o seu mandado, uma chama, a tr&ecirc;s metros,
+ondulou, rastejou, despediu l&iacute;nguas ardentes, lambeu uma
+alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e
+silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o estranho homem, com o chap&eacute;u para a nuca, ficou
+im&oacute;vel, de bra&ccedil;os abertos e os olhares esgazeados,
+como no renovado assombro e no transe daquele prod&iacute;gio.
+Depois, recaindo no seu modo f&aacute;cil e sereno, acendendo de
+vagar um cigarro:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Uma destas manh&atilde;s, Jacinto, apare&ccedil;o no 202, para
+almo&ccedil;ar contigo, e levo o meu <span class="pagenum">[137]</span>amigo. Ele s&oacute; come arroz, uma pouca de
+salada, e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do
+<i>Sepher-Zerijah</i> e outro do <i>Targum d'Onkelus</i>. Preciso
+folhear esses livros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Apertou a m&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe, saudou este assombrado
+Z&eacute; Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o
+chap&eacute;u de palha para a nuca, as m&atilde;os enterradas nas
+algibeiras, como um homem natural entre coisas naturais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! Quem &eacute; este bruxo? Conta!... Quem &eacute;
+ele, sant&iacute;ssimo nome de Deus?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recostado na vit&oacute;ria, ajeitando o vinco das cal&ccedil;as, o
+meu Pr&iacute;ncipe contou, concisamente. Era um nobre e leal
+rapaz, muito rico, muito inteligente, da antiga casa soberana de
+Mayolle, descendente dos Duques de Septim&acirc;nia... E murmurou,
+atrav&eacute;s do costumado bocejo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--O desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo
+esot&eacute;rico... Aspira&ccedil;&otilde;es,
+decep&ccedil;&otilde;es... J&aacute; experimentei... Uma
+ma&ccedil;ada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do
+crep&uacute;sculo de Ver&atilde;o, para jantar no Bosque, no
+Pavilh&atilde;o de Armenonville, onde os Tziganes, avistando
+Jacinto, tocaram o <i>Hino da Carta</i> com paix&atilde;o,
+
+<span class="pagenum">[138]</span>com langor, numa cad&ecirc;ncia
+de <i>czarda</i> dolorosa e &aacute;spera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado!
+Grandemente o mere&ccedil;o, caramba, que superiormente
+filosofei!... E creio que estabeleci definitivamente no
+esp&iacute;rito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da cidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos
+Vinhos, enquanto o Copeiro, esperava com pensativa
+rever&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mande gelar duas garrafas de champanhe S.<sup>t</sup> Marceaux...
+Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... &Aacute;gua de
+Evian... N&atilde;o, de Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para
+come&ccedil;ar, um bock.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca
+cinzenta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de
+Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para
+descansar de tarde e dominar a Cidade...<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>VII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu
+pensava em realizar finalmente a minha romagem &agrave;s cidades da
+Europa, sempre retardada, atrav&eacute;s da Primavera, pelas
+surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto
+come&ccedil;ou a rogar e a reclamar que o seu Z&eacute; Fernandes o
+acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E eu
+compreendi que o meu Pr&iacute;ncipe (&agrave; maneira do divino
+Aquiles, que, sob a tenda, e junto da branca, ins&iacute;pida e
+d&oacute;cil Briseis, nunca dispensava P&aacute;troclo) desejava
+ter, no retiro do Amor, a presen&ccedil;a, o conforto e o socorro
+da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manh&atilde; combinava pelo
+telefone com Madame d'Oriol essa hora de quieta&ccedil;&atilde;o e
+do&ccedil;ura. E assim encontr&aacute;vamos sempre a superfina Dama
+prevenida e solit&aacute;ria naquela sala da rua de Lisbonne, onde
+Jacinto e eu mal <span class="pagenum">[140]</span>cab&iacute;amos,
+sufoc&aacute;vamos na confus&atilde;o, entre os cestos de flores, e
+os ouros rocalhados, e os monstros do Jap&atilde;o, e a galante
+fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos p&eacute;s
+de sof&aacute;s adormecedores, e os biombos de Aubusson formando
+alcovas favor&aacute;veis e l&acirc;nguidas... Aninhada numa
+cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas aromatizadas de
+verbena da &Iacute;ndia, com um romance pousado no rega&ccedil;o,
+ela esperava o seu amigo, numa certa indol&ecirc;ncia passiva e
+mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Har&eacute;m. Mas,
+pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia tamb&eacute;m uma
+marquesinha de Versalhes cansada do grande s&eacute;culo; ou
+ent&atilde;o, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
+como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha
+intrus&atilde;o, na intimidade daquelas tardes, n&atilde;o a
+contrariava--antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos
+para a contemplar. Eu era j&aacute; o seu <i>cher
+Fernandez</i>!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E apenas descerrava os l&aacute;bios avivados de vermelho,
+semelhantes a uma ferida fresca, e come&ccedil;ava a chalrar--logo
+nos envolvia o burburinho e a murmura&ccedil;&atilde;o de Paris.
+Ela s&oacute; sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da
+sua Classe, e sobre a sua exist&ecirc;ncia <span class="pagenum">[141]</span>que era o resumo do seu Paris:--e a sua
+exist&ecirc;ncia, desde casada, consistira em ornar com suprema
+ci&ecirc;ncia o seu lindo corpo; entrar com perfei&ccedil;&atilde;o
+numa sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar
+pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na
+sua vit&oacute;ria como uma imagem de cera; decotar e branquear o
+colo; debicar uma perna de galinhola em mesas de luxo; fender
+turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada;
+percorrer de manh&atilde;, tomando chocolate, os
+&laquo;Echos&raquo; e as &laquo;Festas&raquo; do <i>Figaro</i>; e
+de vez em quando murmurar para o marido--&laquo;Ah, &eacute;s
+tu?...&raquo; Al&eacute;m disso, ao lusco-fusco, num sof&aacute;,
+alguns certos suspiros, entre os bra&ccedil;os de algu&eacute;m a
+quem era constante. Ao meu Pr&iacute;ncipe, nesse ano, pertencia o
+sof&aacute;. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria
+sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que j&aacute; duas pregas
+lhe vincavam os cantos dos bei&ccedil;os, indelevelmente. Mas nem
+na alma, nem na pele, mostrava outras m&aacute;culas de fadiga. A
+sua Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos do
+Nobili&aacute;rio. Atrav&eacute;s, por&eacute;m, desta fulgurante
+sociabilidade arranjara no c&eacute;rebro (onde de certo penetrara
+o p&oacute; de arroz que desde o col&eacute;gio acamava na testa)
+algumas Ideias Gerais. Em Pol&iacute;tica era pelos
+Pr&iacute;ncipes; e todos os outros &laquo;horrores&raquo;, a
+Rep&uacute;blica, o Socialismo, <span class="pagenum">[142]</span>a
+Democracia que se n&atilde;o lava, os sacudia risonhamente, com um
+bater de leque. Na Semana Santa juntava &agrave;s rendas do
+chap&eacute;u a Coroa amarga de espinhos--por serem esses, para a
+gente bem-nascida, dias de penit&ecirc;ncia e dor. E, diante de
+todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emo&ccedil;&atilde;o e
+formulava finamente o ju&iacute;zo, que no seu Mundo, e nessa
+Semana, fosse elegante formular e sentir. Tinha trinta anos. Nunca
+se embara&ccedil;ara nos tormentos de uma paix&atilde;o. Marcava,
+com r&iacute;gida regularidade, todas as suas despesas num Livro de
+Contas encadernado em pel&uacute;cia verde-mar. A sua
+religi&atilde;o &iacute;ntima (e mais genu&iacute;na do que a
+outra, que a levava todos os domingos &agrave; missa de S. Philippe
+du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na am&aacute;vel cidade
+come&ccedil;avam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas
+sem abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de
+patinagem. E preparava tamb&eacute;m os de Caridade--porque era
+boa, e concorria para Bazares, Concertos e T&ocirc;mbolas, quando
+fossem patrocinados pelas Duquesas do seu &laquo;rancho&raquo;.
+Depois, na Primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma
+adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava nela uma
+suprema flor de Parisianismo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Pois respirando esta macia e fina flor pass&aacute;mos <span class="pagenum">[143]</span>n&oacute;s as tardes desse Julho enquanto as
+outras flores pendiam e murchavam na calma e no p&oacute;. Mas, na
+intimidade do seu perfume, Jacinto n&atilde;o parecia encontrar
+esse contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa.
+Era j&aacute; com a paciente lentid&atilde;o com que se sobem todos
+os Calv&aacute;rios, os mais bem tapetados, que ele subia a
+escadaria de Madame d'Oriol, t&atilde;o suave e orlada de
+t&atilde;o frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com
+dedica&ccedil;&atilde;o, para o entreter, desdobrava a sua
+vivacidade como um pav&atilde;o desdobra a cauda, o meu pobre
+Pr&iacute;ncipe puxava os p&ecirc;los do bigode murcho, na murcha
+postura de quem, por uma manh&atilde; de Maio, enquanto os melros
+cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso
+f&uacute;nebre por um Pr&iacute;ncipe. E no beijo que ele
+chuchurreava sobre a m&atilde;o da sua doce amiga, para se
+despedir, havia sempre alacridade e al&iacute;vio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas ao outro dia, ao come&ccedil;ar da tarde, depois de errar
+atrav&eacute;s da Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade
+a tira do tel&eacute;grafo, atirando algum recado mole pelo
+telefone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber imenso dos
+trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas,
+terminava por me chamar, j&aacute; com a pregui&ccedil;a triste da
+fa&ccedil;anha a que se impelia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[144]</span>--Vamos a casa de Madame d'Oriol,
+Z&eacute; Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete
+coisas, mas n&atilde;o posso, &eacute; uma seca! Vamos a casa de
+Madame d'Oriol... Ao menos l&aacute;, &agrave;s vezes, h&aacute; um
+bocado de frescura e paz.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E foi numa dessas tardes, em que o meu Pr&iacute;ncipe assim
+procurava desesperadamente um &laquo;bocado de frescura e
+paz&raquo;, que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as
+palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu j&aacute; o
+conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand
+Caf&eacute;, ceando com dan&ccedil;arinas do _Moulin Rouge_. Era um
+mo&ccedil;o gordalhufo, indolente, de uma brancura crua de
+toucinho, com uma calv&iacute;cie j&aacute; s&eacute;ria e
+j&aacute; lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos
+dedos carregados de an&eacute;is. Nessa tarde, por&eacute;m, vinha
+vermelho, todo emocionado, cal&ccedil;ando as luvas com
+c&oacute;lera. Estacou diante de Jacinto--e sem mesmo lhe apertar a
+m&atilde;o, atirando um gesto para o patamar:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Visita l&aacute; acima? Vai achar a Joana em p&eacute;ssima
+disposi&ccedil;&atilde;o... Tivemos uma cena, e tremenda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deu outro pux&atilde;o desesperado &agrave; luva cor de palha,
+j&aacute; esga&ccedil;ada:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, &eacute;
+excelente! Mas em tudo h&aacute; <span class="pagenum">[145]</span>medida e forma... Ela tem o meu nome,
+n&atilde;o posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o
+Paris, seja a amante do trintan&aacute;rio. Amantes na nossa roda,
+v&aacute;! Um lacaio, n&atilde;o!... Se quer dormir com os criados
+que emigre para o fundo da prov&iacute;ncia, para a sua casa de
+Corbelle. E l&aacute; at&eacute; com os animais!... Foi o que eu
+lhe disse! Ficou como uma fera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Sacudiu ent&atilde;o a m&atilde;o do Jacinto que &laquo;era da sua
+roda&raquo;--rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu
+Pr&iacute;ncipe, im&oacute;vel nos degraus, de face pendida,
+cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para
+mim, como um ser saturado de t&eacute;dio e em quem nenhum
+t&eacute;dio novo pode caber:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; agora subamos, sim?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Parti ent&atilde;o, com muita alegria, para a minha apetecida
+romagem &agrave;s Cidades da Europa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, &agrave; pressa,
+bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze
+vezes passei o dia num vag&atilde;o, envolto em poeirada e fumo,
+sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada
+esta&ccedil;&atilde;o para sorver desesperadamente limonadas mornas
+que me escangalhavam <span class="pagenum">[146]</span>a entranha.
+Catorze vezes subi derreadamente, atr&aacute;s de um criado, a
+escadaria desconhecida de um Hotel; e espalhei o olhar incerto por
+um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde
+me erguia, estremunhado, para pedir em l&iacute;nguas desconhecidas
+um caf&eacute; com leite que me sabia a fava, um banho de tina que
+me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomin&aacute;veis na
+rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze
+len&ccedil;os, tr&ecirc;s ceroulas, e duas botas, uma branca, outra
+envernizada, ambas do p&eacute; direito. Em mais de trinta
+mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o
+
+<i>boeuf-&agrave;-la-mode</i>, j&aacute; frio, com molho
+coalhado--e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bord&eacute;us
+que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na
+fresca penumbra dos granitos e dos m&aacute;rmores, com p&eacute;
+respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente,
+com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta
+salas revestidas at&eacute; aos tectos de Cristos, her&oacute;is,
+santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras,
+nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas
+im&oacute;veis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde
+chovia desabaladamente, encontrei um velho <span class="pagenum">[147]</span>ingl&ecirc;s de penca flamejante que habitara
+o Porto, conhecera o Ricardo, o Jos&eacute; Duarte, o Visconde do
+Bom Sucesso, e as Limas da Boavista... Gastei seis mil francos.
+Tinha viajado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Enfim, numa bendita manh&atilde; de Outubro, na primeira friagem e
+n&eacute;voa de Outono, avistei com enternecido alvoro&ccedil;o as
+cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Afaguei o ombro do
+Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e t&eacute;pido que
+deixara em Floren&ccedil;a, apertei os ossos do Grilo
+excelente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes
+colarinhos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S. Exc.&ordf; circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile
+da Duquesa de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle
+de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch&aacute; gelado...
+E disse a co&ccedil;ar a cabe&ccedil;a: &laquo;Eh! que
+ma&ccedil;ada! Eh! que ma&ccedil;ada!&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois do banho e do chocolate, &agrave;s dez horas, consolado e
+quentinho dentro do roup&atilde;o de veludo, rompi pelo quarto do
+meu Pr&iacute;ncipe, de bra&ccedil;os abertos e sedentos:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh viajante!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando nos estreit&aacute;mos, fartamente, eu recuei para lhe
+contemplar a face--e nela a <span class="pagenum">[148]</span>alma.
+Encolhido numa quinzena de pano cor de malva orlada de peles de
+marta, com os p&ecirc;los do bigode murchos, as suas duas rugas
+mais cavadas, uma moleza nos ombros largos, o meu amigo parecia
+j&aacute; vergado sob o peso e a opress&atilde;o e o terror do seu
+dia. Eu sorri, para que ele sorrisse:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Valente Jacinto... Ent&atilde;o como tens vivido?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele respondeu, muito serenamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como um morto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Aborrecidote, hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe lan&ccedil;ou, num gesto t&atilde;o vencido,
+um <i>oh</i> t&atilde;o cansado--que eu compadecido de novo o
+abracei, o estreitei, como para lhe comunicar uma parte desta
+alegria s&oacute;lida e pura que recebi do meu Deus!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde essa manh&atilde;, Jacinto come&ccedil;ou a mostrar
+claramente, escancaradamente, ao seu Z&eacute; Fernandes, o
+t&eacute;dio de que a exist&ecirc;ncia o saturava. O seu cuidado
+realmente e o seu esfor&ccedil;o consistiram ent&atilde;o em sondar
+e formular esse t&eacute;dio--na esperan&ccedil;a de o vencer logo
+que lhe conhecesse bem a origem e a pot&ecirc;ncia. <span class="pagenum">[149]</span>E o meu pobre Jacinto reproduziu a
+com&eacute;dia pouco divertida de um Melanc&oacute;lico que
+perpetuamente raciocina a sua Melancolia! Nesse racioc&iacute;nio,
+ele partia sempre do facto irrecus&aacute;vel e maci&ccedil;o--que
+a sua vida especial de Jacinto continha todos os interesses e todas
+as facilidades, poss&iacute;veis no s&eacute;culo XIX, numa vida de
+homem que n&atilde;o &eacute; um G&eacute;nio, nem um Santo. Com
+efeito! Apesar do apetite embotado por doze anos de Champanhes e
+molhos ricos ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz
+da sua intelig&ecirc;ncia n&atilde;o aparecera nem tremor nem
+morr&atilde;o; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias
+maci&ccedil;as, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de
+contos; sempre activas e sempre fi&eacute;is o cercavam as
+simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava
+de confortos; nenhuma amargura de cora&ccedil;&atilde;o o
+atormentava;--e todavia era um Triste. Porqu&ecirc;?... E daqui
+saltava, com certeza fulgurante, &agrave; conclus&atilde;o de que a
+sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
+amortalhada, n&atilde;o provinham da sua individualidade de
+Jacinto--mas da Vida, do lament&aacute;vel, do desastroso facto de
+Viver! E assim o saud&aacute;vel, intelectual, riqu&iacute;ssimo,
+bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[150]</span>E um Pessimismo irritado! Porque
+(segundo afirmava) ele nascera para ser t&atilde;o naturalmente
+optimista como um pardal ou um gato. E, at&eacute; aos doze anos,
+enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele sempre
+bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou
+melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as l&aacute;grimas eram
+para ele t&atilde;o incompreens&iacute;veis que lhe pareciam
+viciosas. S&oacute; quando crescera, e da animalidade penetrara na
+humanidade, despontara nele esse fermento de tristeza, muito tempo
+indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois
+alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como o
+sangue das suas veias. Sofrer portanto era insepar&aacute;vel de
+Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na
+turba dos humanos &eacute; a angustiada luta pelo p&atilde;o, pelo
+tecto, pelo lume; numa casta, agitada por necessidades mais altas,
+&eacute; a amargura das desilus&otilde;es, o mal da
+imagina&ccedil;&atilde;o insatisfeita, o orgulho chocando contra
+obst&aacute;culo; nele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns,
+era o t&eacute;dio. Mis&eacute;ria do Corpo, tormento da Vontade,
+fastio da Intelig&ecirc;ncia--eis a Vida! E agora aos trinta e
+tr&ecirc;s anos a sua ocupa&ccedil;&atilde;o era bocejar, correr
+com os <span class="pagenum">[151]</span>dedos desalentados a face
+pendida para nela palpar e apetecer a caveira.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Foi ent&atilde;o que o meu Pr&iacute;ncipe come&ccedil;ou a ler
+apaixonadamente, desde o <i>Eclesiastes</i> at&eacute;
+Schopenhauer, todos os l&iacute;ricos e todos os te&oacute;ricos do
+Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante
+comprova&ccedil;&atilde;o de que o seu mal n&atilde;o era
+mesquinhamente &laquo;Jac&iacute;ntico&raquo;--mas grandiosamente
+resultante de uma Lei Universal. J&aacute; h&aacute; quatro mil
+anos, na remota Jerusal&eacute;m, a Vida, mesmo nas suas
+del&iacute;cias mais triunfais, se resumia em Ilus&atilde;o.
+J&aacute; o Rei incompar&aacute;vel, de sapi&ecirc;ncia divina,
+sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os
+despojos das suas conquistas, e os m&aacute;rmores novos dos seus
+Templos, e as suas tr&ecirc;s mil concubinas, e as Rainhas que
+subiam do fundo da Eti&oacute;pia para que ele as fecundasse e no
+seu ventre depusesse um Deus! N&atilde;o h&aacute; nada novo sob o
+sol, e a eterna repeti&ccedil;&atilde;o das coisas &eacute; a
+eterna repeti&ccedil;&atilde;o dos males. Quanto mais se sabe mais
+se pena. E o justo como o perverso, nascidos do p&oacute;, em
+p&oacute; se tornam. Tudo tende ao p&oacute; ef&eacute;mero, em
+Jerusal&eacute;m e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia por ser
+homem e por viver--como no seu trono de ouro, entre os seus quatro
+le&otilde;es de ouro, o filho magn&iacute;fico de David.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[152]</span>N&atilde;o se separava
+ent&atilde;o do <i>Eclesiastes</i>. E circulava por Paris trazendo
+dentro do coup&eacute; Salom&atilde;o, como irm&atilde;o de dor,
+com quem repetia o grito desolado que &eacute; a suma da verdade
+humana--<i>Vanitas Vanitatum</i>! Tudo &eacute; Vaidade! Outras
+vezes, logo de manh&atilde; o encontrava estendido no sof&aacute;,
+num roup&atilde;o de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o
+pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e
+per&iacute;cia as unhas dos p&eacute;s. Ao lado pousava a
+ch&aacute;vena de Saxe, cheia desse caf&eacute; de Moca enviado por
+emires do Deserto, que n&atilde;o o contentava nunca, nem pela
+for&ccedil;a, nem pelo aroma. A espa&ccedil;os pousava o livro no
+peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a
+procurar que dor o torturaria--pois que a todo o viver corresponde
+um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em p&eacute;s
+alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um
+sorriso de confraternidade--com um &laquo;adeus, meu amigo&raquo;
+
+que era &laquo;um adeus, meu irm&atilde;o!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Esse foi o per&iacute;odo espl&ecirc;ndido e soberbamente divertido
+do seu t&eacute;dio. Jacinto encontrara enfim na vida uma
+ocupa&ccedil;&atilde;o grata--maldizer a Vida! E para que a pudesse
+maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais
+intelectuais, as mais puras, sobrecarregou <span class="pagenum">[153]</span>a sua vida pr&oacute;pria de novo luxo, de
+interesses novos de esp&iacute;rito, e at&eacute; de fervores
+humanit&aacute;rios, e at&eacute; de curiosidades
+supernaturais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnific&ecirc;ncia. Foi
+ent&atilde;o que ele iniciou em Paris, repetindo
+Heliog&aacute;balo, os Festins de Cor contados na Hist&oacute;ria
+Augusta: e ofereceu &agrave;s suas amigas esse sublime jantar
+cor-de-rosa, em que tudo era r&oacute;seo, as paredes, os
+m&oacute;veis, as luzes, as lou&ccedil;as, os cristais, os gelados,
+os Champanhes, e at&eacute; (por uma inven&ccedil;&atilde;o da
+Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os
+escudeiros serviam, empoados de p&oacute; rosado, com libr&eacute;s
+da cor da rosa, enquanto do tecto, de um vel&aacute;rio de seda
+rosada, ca&iacute;am p&eacute;talas frescas de rosas... A Cidade,
+deslumbrada, clamou--&laquo;Bravo, Jacinto!&raquo; E o meu
+Pr&iacute;ncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de
+mim as m&atilde;os nas ilhargas e gritou
+triunfalmente:--&laquo;Hein? Que ma&ccedil;ada!...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hosp&iacute;cio no campo,
+entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para
+crian&ccedil;as d&eacute;beis &agrave; beira do Mediterr&acirc;neo.
+Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de Mayolle
+penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experi&ecirc;ncias para
+verificar a misteriosa <span class="pagenum">[154]</span><i>exterioriza&ccedil;&atilde;o da
+motilidade</i>. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios
+telegr&aacute;ficos do <i>Times</i>, para que no seu gabinete, como
+num cora&ccedil;&atilde;o, palpitasse toda a vida Social da
+Europa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E a cada um destes esfor&ccedil;os da eleg&acirc;ncia, do
+humanitarismo, da sociabilidade, e da intelig&ecirc;ncia
+indagadora, voltava para mim, de bra&ccedil;os alegres, com um
+grito vitorioso:--&laquo;V&ecirc;s tu, Z&eacute; Fernandes? Uma
+ma&ccedil;ada!&raquo;--Arrebatava ent&atilde;o o seu
+<i>Eclesiastes</i>, o seu Schopenhauer, e, estendido no
+sof&aacute;, saboreava voluptuosamente a concord&acirc;ncia da
+Doutrina e da Experi&ecirc;ncia. Possu&iacute;a uma F&eacute;--o
+Pessimismo: era um ap&oacute;stolo rico e esfor&ccedil;ado: e tudo
+tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua F&eacute;!
+Muito gozou nesse ano o meu desgra&ccedil;ado Pr&iacute;ncipe!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No come&ccedil;o do Inverno, por&eacute;m, notei com
+inquieta&ccedil;&atilde;o que Jacinto j&aacute; n&atilde;o folheava
+o <i>Eclesiastes</i>, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
+Teosofismos, nem os seus Hosp&iacute;cios, nem os fios do
+<i>Times</i>, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como
+demonstra&ccedil;&otilde;es gloriosas da sua Cren&ccedil;a. E a sua
+abomin&aacute;vel fun&ccedil;&atilde;o de novo se limitou a
+bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a
+caveira. Incessantemente aludia &agrave; morte como a uma
+liberta&ccedil;&atilde;o. Uma <span class="pagenum">[155]</span>tarde mesmo, no melanc&oacute;lico
+crep&uacute;sculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes,
+consideravelmente me aterrou, falando num tom regelado de mortes
+r&aacute;pidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha
+el&eacute;ctrica ou pela viol&ecirc;ncia compassiva do acido
+cian&iacute;drico. Diabo! O Pessimismo, que aparecera na
+Intelig&ecirc;ncia do meu Pr&iacute;ncipe como um conceito
+elegante--atacara bruscamente a Vontade!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Todo o seu movimento ent&atilde;o foi o de um boi inconsciente que
+marcha sob a canga e o aguilh&atilde;o. J&aacute; n&atilde;o
+esperava da Vida contentamento--nem mesmo se lastimava que ela lhe
+trouxesse t&eacute;dio ou pena. &laquo;Tudo &eacute; indiferente,
+Z&eacute; Fernandes!&raquo; E t&atilde;o indiferentemente sairia
+&agrave; sua janela para receber uma Coroa Imperial oferecida por
+um Povo--como se estenderia numa poltrona rota para emudecer e
+jazer. Sendo tudo in&uacute;til, e n&atilde;o conduzindo
+sen&atilde;o a maior desilus&atilde;o, que podia importar a mais
+rutilante actividade ou a mais desgostada in&eacute;rcia? O seu
+gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Perante
+duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que
+importava?... E no m&iacute;nimo acto, raspar um f&oacute;sforo ou
+desdobrar um Jornal, punha uma morosidade t&atilde;o desconsolada
+que todo ele parecia ligado, desde os dedos at&eacute; &agrave;
+
+alma, <span class="pagenum">[156]</span>pelas voltas apertadas de
+uma corda que se n&atilde;o via e que o travava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de
+Janeiro. Cedo, de manh&atilde;, recebera, com uma carta de Madame
+de Tr&egrave;ves, um a&ccedil;afate de cam&eacute;lias,
+az&aacute;leas, orqu&iacute;deas e l&iacute;rios do vale. E foi
+este mimo que lhe recordou a data consider&aacute;vel. Soprou sobre
+as p&eacute;talas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento
+esc&aacute;rnio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, h&aacute; trinta e quatro anos que eu ando nesta
+ma&ccedil;ada?<br>
+
+
+<br>
+
+
+E como eu propunha que telefon&aacute;ssemos aos amigos para
+beberem no 202 o Champanhe do &laquo;Natal&iacute;cio&raquo;--ele
+recusou, com o nariz enojado. Oh! N&atilde;o! Que horr&iacute;vel
+seca!... E bradou mesmo para o Grilo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Eu hoje n&atilde;o estou em Paris para ningu&eacute;m. Abalei
+para o campo, abalei para Marselha... Morri!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E a sua ironia n&atilde;o cessou at&eacute; ao almo&ccedil;o
+perante os bilhetes, os telegramas, as cartas, que subiam, se
+arredondavam em colina sobre a mesa de &eacute;bano, como um preito
+da Cidade. Outras flores que vieram, em vistosos cestos, com
+vistosos la&ccedil;os, foram por ele comparadas &agrave;s que se
+dep&otilde;e sobre uma tumba. <span class="pagenum">[157]</span>E
+apenas se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma
+engenhosa mesa, que se abaixava at&eacute; ao tapete ou se alteava
+at&eacute; ao tecto--para qu&ecirc;, senhor Deus meu?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois do almo&ccedil;o, como chovia sombriamente, n&atilde;o
+arred&aacute;mos do 202, com os p&eacute;s estendidos ao lume, em
+pregui&ccedil;oso sil&ecirc;ncio. Eu terminara por adormecer
+beatificamente. Acordei aos passos a&ccedil;odados do Grilo...
+Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um
+papel! E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a
+mocidade a acumular todas as no&ccedil;&otilde;es formuladas desde
+Arist&oacute;teles e a juntar todos os inventos realizados desde
+Tharamenes, como nessa tarde de festa, em que ele, cercado de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es para gozar nas m&aacute;ximas
+propor&ccedil;&otilde;es a del&iacute;cia de viver, se encontrava
+reduzido, junto ao seu lar, a recortar pap&eacute;is com uma
+tesoura!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Grilo trazia um presente do Gr&atilde;o-Duque--uma caixa de
+prata, forrada de cedro, e cheia de um ch&aacute; precioso,
+colhido, flor a flor, nas veigas de Kiang-Sou por m&atilde;os puras
+de virgens, e conduzido atrav&eacute;s da &Aacute;sia, em
+caravanas, com a venera&ccedil;&atilde;o de uma rel&iacute;quia.
+Ent&atilde;o, para despertar o nosso torpor, lembrei que
+tom&aacute;ssemos o divino ch&aacute;--ocupa&ccedil;&atilde;o bem
+harm&oacute;nica com a tarde triste, a chuva <span class="pagenum">[158]</span>grossa alagando os vidros, e a clara chama
+bailando no fog&atilde;o. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou
+logo a mesa de Efraim para que n&oacute;s lhe estre&aacute;ssemos
+os servi&ccedil;os destros. Mas o meu Pr&iacute;ncipe, depois de a
+altear, para meu espanto, at&eacute; aos cristais do lustre,
+n&atilde;o conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com
+as molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o
+escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime,
+quim&eacute;rica, unicamente aproveit&aacute;vel para o gigante
+Adamastor. Depois veio a caixa do ch&aacute; entre chaleiras,
+l&acirc;mpadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de
+prata, que comunicavam a essa ocupa&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o
+simples e doce em casa de minha tia, <i>fazer ch&aacute;</i>, a
+majestade de um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade
+daquele ch&aacute; de Kiang-Sou, ergui a ch&aacute;vena aos
+l&aacute;bios com rever&ecirc;ncia. Era uma infus&atilde;o
+descorada que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu,
+blasfemou... N&atilde;o tom&aacute;mos ch&aacute;.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ao cabo doutro pensativo sil&ecirc;ncio, murmurei, com os olhos
+perdidos no lume:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E as obras de Tormes? A igreja... J&aacute; haver&aacute; igreja
+nova?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto retomara o papel e a tesoura:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei... N&atilde;o tornei a receber carta do
+
+<span class="pagenum">[159]</span>Silv&eacute;rio... Nem imagino
+onde param os ossos... Que l&uacute;gubre hist&oacute;ria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo
+Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz
+doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela,
+&agrave; moda am&aacute;vel da nossa meiga terra. E o meu
+Pr&iacute;ncipe &agrave; mesa, percorrendo a l&acirc;mina de marfim
+onde no 202 se inscreviam os pratos a l&aacute;pis vermelho, louvou
+com fervor a ideia patriarcal:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Arroz doce! Est&aacute; escrito com dois <i>ss</i>, mas
+n&atilde;o tem d&uacute;vida... Excelente lembran&ccedil;a!
+H&aacute; que tempos n&atilde;o como arroz doce!... Desde a morte
+da av&oacute;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando o arroz doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um
+prato monumental, de grande arte! O arroz, maci&ccedil;o, moldado
+em forma de pir&acirc;mide do Egipto, emergia de uma calda de
+cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam
+at&eacute; ao cimo, onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de
+chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data,
+t&atilde;o lindas e graves na canela ing&eacute;nua, vinham
+tra&ccedil;adas nas bordas da travessa com violetas pralinadas!
+Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo
+o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pag&atilde;o:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[160]</span>--<i>Ad Manes</i>, aos nossos
+mortos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recolhemos &agrave; Biblioteca, a tomar o caf&eacute; no conchego e
+alegria do lume. Fora, o vento bramava como num ermo serrano: e as
+vidra&ccedil;as tremiam, alagadas, sob as b&aacute;tegas da chuva
+irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram
+sem p&atilde;o e sem lar! Na minha aldeia, entre cerro e vale,
+talvez assim rugisse a tormenta. Mas a&iacute; cada pobre, sob o
+abrigo da sua telha v&atilde;, com a sua panela atestada de couves,
+se agacha no seu mant&eacute;u ao calor da lareira. E para os que
+n&atilde;o tenham lenha ou couve, l&aacute; est&aacute; o
+Jo&atilde;o das Quintas, ou a tia Vic&ecirc;ncia, ou o abade, que
+conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como
+sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no
+forno. Ah Portugal pequenino, que ainda &eacute;s doce aos
+pequeninos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Suspirei, Jacinto pregui&ccedil;ava. E termin&aacute;mos por
+remexer languidamente os jornais que o mordomo trouxera, num monte
+facundo, sobre uma salva de prata--jornais de Paris, jornais de
+Londres, Seman&aacute;rios, Magazines, Revistas,
+Ilustra&ccedil;&otilde;es... Jacinto desdobrava, arremessava: das
+Revistas espreitava o sum&aacute;rio, logo farto; &agrave;s
+Ilustra&ccedil;&otilde;es rasgava as folhas com o dedo indiferente,
+bocejando <span class="pagenum">[161]</span>por cima das gravuras.
+Depois, mais estirado para o lume:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; uma seca... N&atilde;o h&aacute; que ler.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o
+escravizava, saltou da poltrona com um arranque de quem
+despeda&ccedil;a algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um
+olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202,
+t&atilde;o abarrotado de Civiliza&ccedil;&atilde;o, a que por um
+momento sequer fornecesse &agrave; sua alma um interesse vivo,
+&agrave; sua vida um fugitivo gosto! Mas o 202 permaneceu
+insens&iacute;vel: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho
+mudo: s&oacute; as vidra&ccedil;as tremeram sob o embate mais rude
+de &aacute;gua e vento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o meu Pr&iacute;ncipe, sucumbido, arrastou os passos
+at&eacute; ao seu gabinete, come&ccedil;ou a percorrer todos os
+aparelhos completadores e facilitadores da Vida--o seu
+Tel&eacute;grafo, o seu Telefone, o seu Fon&oacute;grafo, o seu
+Radi&oacute;metro, o seu Graf&oacute;fono, o seu Microfone, a sua
+M&aacute;quina de Escrever, a sua M&aacute;quina de Contar, a sua
+Imprensa El&eacute;ctrica, a outra Magn&eacute;tica, todos os seus
+utens&iacute;lios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim
+um Suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua
+sumptuosa Mec&acirc;nica <span class="pagenum">[162]</span>se
+conservou r&iacute;gida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda
+girasse, nem uma l&acirc;mina vibrasse, para entreter o seu
+Senhor.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+S&oacute; o rel&oacute;gio monumental, que marcava a hora de todas
+as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo
+a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira
+levando o seu peso--diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que
+ele gemia, vergado. O Pr&iacute;ncipe da Gr&atilde;-Ventura,
+ent&atilde;o, decidiu recolher para a cama--com um livro... E
+durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os
+seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como
+Doutores num Conc&iacute;lio--depois as pilhas tumultu&aacute;rias
+dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o
+repouso e a consagra&ccedil;&atilde;o das estantes de &eacute;bano.
+Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a regi&atilde;o
+dos Historiadores: espreitou s&eacute;culos, farejou ra&ccedil;as:
+pareceu atra&iacute;do pelo esplendor do Imp&eacute;rio Bizantino:
+penetrou na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa donde se arredou
+desencantado: e palpou com m&atilde;o indeliberada toda a vasta
+Gr&eacute;cia desde a cria&ccedil;&atilde;o de Atenas at&eacute; a
+aniquila&ccedil;&atilde;o de Corinto. Mas bruscamente virou para a
+fila dos Poetas, <span class="pagenum">[163]</span>que reluziam em
+marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos
+t&iacute;tulos fortes ou l&acirc;nguidos, o interior das suas
+almas. N&atilde;o apeteceu nenhuma dessas seis mil almas--e recuou,
+desconsolado, at&eacute; aos Bi&oacute;logos... T&atilde;o
+maci&ccedil;a e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre
+Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacess&iacute;vel!
+Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at&eacute; &agrave;s alturas da
+Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema
+Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, come&ccedil;ou a
+procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas
+suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para
+desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por
+cima dos Problemas, pisava as Religi&otilde;es: e relanceando uma
+linha, esgravatando al&eacute;m num &iacute;ndice, todos
+interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos,
+nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na
+
+&acirc;nsia de encontrar um Livro! Parou ent&atilde;o no meio da
+imensa nave, de c&oacute;coras, sem coragem, contemplando aqueles
+muros todos forrados, aquele ch&atilde;o todo alastrado, os seus
+setenta mil volumes--e, sem lhes provar a subst&acirc;ncia,
+j&aacute; absolutamente saciado, abarrotado, nauseado <span class="pagenum">[164]</span>pela opress&atilde;o da sua abund&acirc;ncia.
+Findou por voltar ao mont&atilde;o de jornais amarrotados, ergueu
+melancolicamente um velho <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i>,
+e com ele debaixo do bra&ccedil;o subiu ao seu quarto, para dormir,
+para esquecer.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>VIII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manh&atilde; que eu
+pregui&ccedil;ava na cama, sentindo atrav&eacute;s da
+vidra&ccedil;a cheia de sol ainda p&aacute;lido um bafo de
+Primavera ainda t&iacute;mido--Jacinto assomou &agrave; porta do
+meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de
+a&ccedil;ucena. Parou lentamente &agrave; beira dos
+colch&otilde;es, e, com gravidade, como se anunciasse o seu
+casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta
+declara&ccedil;&atilde;o formid&aacute;vel:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes, vou partir para Tormes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho
+D. Gale&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Deleitado com a minha emo&ccedil;&atilde;o, o Pr&iacute;ncipe da
+Gr&atilde;-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas
+linhas, j&aacute; decerto relidas, fundamente estudadas:<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[166]</span>--&laquo;Il.<sup>mo</sup> e
+Exc.<sup>mo</sup> sr.--Tenho grande satisfa&ccedil;&atilde;o em
+comunicar a V. Exc.&ordf; que por toda esta semana devem ficar
+prontas as obras da capela...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; do Silv&eacute;rio? exclamei.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; do Silv&eacute;rio. &laquo;...as obras da capela nova.
+Os venerandos restos dos excelsos av&oacute;s de V. Exc.&ordf;,
+senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve
+trasladados da igreja de S. Jos&eacute;, onde t&ecirc;m estado
+depositados por bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.
+Exc.&ordf;... Submisso, aguardo as prestantes ordens de V.
+Exc.&ordf; a respeito desta majestosa e aflitiva
+cerim&oacute;nia...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atirei os bra&ccedil;os, compreendendo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ah! bem! Queres ir assistir &agrave;
+traslada&ccedil;&atilde;o...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sumiu a carta no bolso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes? N&atilde;o
+&eacute; por causa dos outros av&oacute;s, que s&atilde;o ossos
+vagos, e que eu n&atilde;o conheci. &Eacute; por causa do av&ocirc;
+
+Gale&atilde;o... Tamb&eacute;m n&atilde;o o conheci. Mas este 202
+est&aacute; cheio dele; tu est&aacute;s deitado na cama dele; eu
+ainda uso o rel&oacute;gio dele. N&atilde;o posso abandonar ao
+Silv&eacute;rio e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu
+jazigo novo. H&aacute; aqui um escr&uacute;pulo de dec&ecirc;ncia,
+de eleg&acirc;ncia moral... Enfim, decidi. Apertei os <span class="pagenum">[167]</span>punhos na cabe&ccedil;a, e gritei--<i>vou a
+Tormes</i>! E vou!... E tu vens!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu enfiara as chinelas, apertava os cord&otilde;es do
+roup&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes est&aacute;
+inabit&aacute;vel...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele cravou em mim os olhos aterrados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Medonha, hein?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Medonha, medonha, n&atilde;o... &Eacute; uma bela casa, de bela
+pedra. Mas os caseiros, que l&aacute; vivem h&aacute; trinta anos,
+dormem em catres, comem o caldo &agrave; lareira, e usam as salas
+para secar o milho. Creio que os &uacute;nicos m&oacute;veis de
+Tormes, se bem recordo, s&atilde;o um arm&aacute;rio, e uma
+espineta de char&atilde;o, coxa, j&aacute; sem teclas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu pobre Pr&iacute;ncipe suspirou, com um gesto rendido em que
+se abandonava ao Destino:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acabou!... <i>Alea jacta est!</i> E como s&oacute; partimos para
+Abril, h&aacute; tempo de pintar, de assoalhar, de
+envidra&ccedil;ar... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Um
+estofador de Lisboa vai depois forrar e disfar&ccedil;ar algum
+buraco... Levamos livros, uma M&aacute;quina para fabricar gelo...
+E &eacute; mesmo uma ocasi&atilde;o de p&ocirc;r enfim numa das
+minhas casas de Portugal alguma dec&ecirc;ncia e ordem. Pois
+n&atilde;o achas? <span class="pagenum">[168]</span>E ent&atilde;o
+essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Imp&eacute;rio
+Bizantino!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de
+sab&atilde;o. O meu Pr&iacute;ncipe acendeu muito pensativamente um
+cigarro; e n&atilde;o se arredou do toucador, considerando o meu
+preparo com uma aten&ccedil;&atilde;o triste que me incomodava. Por
+fim, como se remoesse uma senten&ccedil;a minha, para lhe reter bem
+a moral e o suco:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, definitivamente, Z&eacute; Fernandes, entendes que
+&eacute; um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido
+espanto o meu Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! foi em ti, s&oacute; em ti que nasceu a ideia desse
+dever! E honra te seja, menino... N&atilde;o cedas a ningu&eacute;m
+essa honra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele atirou o cigarro--e, com as m&atilde;os enterradas nas
+algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras,
+embicando contra os postes torneados do velho leito de D.
+Gale&atilde;o, num balan&ccedil;o vago, como barco j&aacute;
+desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto.
+Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, por
+grada&ccedil;&otilde;es de sentimentos, desde o
+daguerre&oacute;tipo <span class="pagenum">[169]</span>do
+pap&aacute; at&eacute; &agrave; fotografia do <i>Carocho</i>
+
+perdigueiro, a galeria da minha Fam&iacute;lia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E nunca o meu Pr&iacute;ncipe (que eu contemplava esticando os
+suspens&oacute;rios) me pareceu t&atilde;o corcovado, t&atilde;o
+minguado, como gasto por uma lima que desde muito o andasse
+fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, naquele super-requintado magricelas sem
+m&uacute;sculo e sem energia, a ra&ccedil;a fort&iacute;ssima dos
+Jacintos! Esses guedelhudos Jacint&otilde;es, que nas suas altas
+terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado ou o
+castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
+lavrar as suas ch&atilde;s e amarrar a vide ao olmo, edificando o
+Reino com a lan&ccedil;a e com a enxada, ambas t&atilde;o rudes e
+rijas! E agora, ali estava aquele &uacute;ltimo Jacinto, um
+Jacint&iacute;culo, com a macia pele embebida em aromas, a curta
+alma enrodilhada em Filosofias, travado e suspirando baixinho na
+mi&uacute;da indecis&atilde;o de viver.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, quem &eacute; esta lavradeirona
+t&atilde;o rechonchuda?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Estendi o pesco&ccedil;o para a Fotografia que ele erguera dentre a
+minha galeria, no seu honroso caixilho de pel&uacute;cia
+escarlate:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mais respeito, Sr. D. Jacinto... Um pouco mais de respeito,
+cavalheiro!... &Eacute; minha <span class="pagenum">[170]</span>prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor
+da Malva.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Flor da Malva, murmurou o meu Pr&iacute;ncipe. &Eacute; a casa do
+Condest&aacute;vel, de Nun'&Aacute;lvares.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Flor da Rosa, homem! A casa do Condest&aacute;vel era na Flor da
+Rosa, no Alentejo... Essa tua ignor&acirc;ncia trapalhona das
+coisas de Portugal!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe deixou escorregar molemente a fotografia da
+minha prima dentre os dedos moles--que levou &agrave; face, no seu
+gesto horrendo de palpar atrav&eacute;s da face a caveira. Depois,
+de repente, com um soberbo esfor&ccedil;o, em que se endireitou e
+cresceu:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem! <i>Alea jacta est!</i> Partamos pois para as serras!... E
+agora nem reflex&atilde;o, nem descanso!... &Agrave; obra! E a
+caminho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atirou a m&atilde;o ao fecho dourado da porta como se fosse o negro
+loquete que abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grilo, com
+uma larga e a&ccedil;odada voz que eu nunca lhe conhecera, e me
+lembrou a de um Chefe ordenando, na alvorada, que se levante o
+Acampamento, e que a Hoste marche, com pend&otilde;es e
+bagagens...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Logo nessa manh&atilde; (com uma actividade em que eu reconheci a
+pressa enjoada de quem bebe &oacute;leo de r&iacute;cino), escreveu
+ao Silv&eacute;rio mandando caiar, assoalhar, envidra&ccedil;ar o
+
+<span class="pagenum">[171]</span>casar&atilde;o. E depois do
+almo&ccedil;o apareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo
+telefone, para combinar a remessa de mob&iacute;lias e confortos, o
+director da <i>Companhia Universal de Transportes</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num
+jaquet&atilde;o de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre
+botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira
+uma roseta multicor resumindo as suas condecora&ccedil;&otilde;es
+ex&oacute;ticas de Madag&aacute;scar, de Nicar&aacute;gua, da
+P&eacute;rsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus
+servi&ccedil;os. Apenas Jacinto mencionou &laquo;Tormes, no
+Douro...&raquo;--ele logo, atrav&eacute;s de um sorriso superior,
+estendeu o bra&ccedil;o, detendo outros esclarecimentos, na sua
+intimidade minuciosa com essas regi&otilde;es.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--enquanto
+eu considerava, assombrado, a vastid&atilde;o do seu saber
+Corogr&aacute;fico, assim familiar com os recantos de uma serra de
+Portugal e com todos os seus velhos solares. J&aacute; ele atirara
+a carteira para o bolso... E &laquo;n&oacute;s, seus caros
+senhores, n&atilde;o t&iacute;nhamos sen&atilde;o a encaixotar as
+roupas, as mob&iacute;lias, as preciosidades! Ele mandaria as suas
+carro&ccedil;as buscar os caixotes, a que <span class="pagenum">[172]</span>poria, em grossa letra, com grossa tinta, o
+endere&ccedil;o...&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca...
+Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo,
+hist&oacute;rico! Perfeitamente, perfeitamente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desengon&ccedil;ou a cabe&ccedil;a numa v&eacute;nia
+profund&iacute;ssima--e saiu da Biblioteca, com passos que
+devoravam l&eacute;guas, anunciavam a presteza dos seus
+Transportes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V&ecirc; tu, murmurou Jacinto muito s&eacute;rio. Que
+prontid&atilde;o, que facilidade!... Em Portugal era uma
+trag&eacute;dia. N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o Paris!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Come&ccedil;ou ent&atilde;o no 202 o colossal encaixotamento de
+todos os confortos necess&aacute;rios ao meu Pr&iacute;ncipe para
+um m&ecirc;s de serra &aacute;spera--camas de pena, banheiras de
+n&iacute;quel, l&acirc;mpadas Carcel, div&atilde;s profundos,
+cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os
+soalhos broncos. Os s&oacute;t&atilde;os, onde se arrecadavam os
+pesados trastes do av&ocirc; Gale&atilde;o, foram
+esvaziados--porque o casar&atilde;o medieval de 1410 comportava os
+trem&oacute;s rom&acirc;nticos de 1830. De todos os armaz&eacute;ns
+de Paris chegavam cada manh&atilde; fardos, caixas, temerosos
+embrulhos que os emaladores desfaziam, atulhando os corredores de
+montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos
+a&ccedil;odados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
+
+<span class="pagenum">[173]</span>organizava a remessa de
+fornalhas, geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas
+garrafas de &aacute;guas minerais. Jacinto, lembrando as trovoadas
+da serra, comprou um imenso p&aacute;ra-raios. Desde o amanhecer,
+nos p&aacute;tios, no jardim, se martelava, se pregava, com vasto
+fragor, como na constru&ccedil;&atilde;o de uma cidade. E o
+desfilar das bagagens, atrav&eacute;s do port&atilde;o, lembrava
+uma p&aacute;gina de Her&oacute;doto contando a marcha dos
+Persas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Das janelas, Jacinto com o bra&ccedil;o estendido, saboreava aquela
+actividade e aquela disciplina:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V&ecirc; tu, Z&eacute; Fernandes, que facilidade!...
+Sa&iacute;mos do 202, chegamos &agrave; serra, encontramos o 202.
+N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o Paris!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Recome&ccedil;ara a amar a Cidade, o meu Pr&iacute;ncipe, enquanto
+preparava o seu &Ecirc;xodo. Depois de ter, toda a manh&atilde;,
+apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o
+abandonado solar, telefonado gordas listas de encomendas a cada
+loja de Paris--era com del&iacute;cia que se vestia, se perfumava,
+se floria, se enterrava na vit&oacute;ria ou saltava para a
+almofada do fa&eacute;ton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
+talm&uacute;dica do Efraim, e os band&oacute;s furiosamente negros
+da Verghane, e o Psic&oacute;logo de fiacre, e a <span class="pagenum">[174]</span>condessa de Tr&egrave;ves na sua nova caleche
+de oito molas fornecida pelas opera&ccedil;&otilde;es conjuntas da
+Bolsa e da alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de
+surpresa no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a
+impaci&ecirc;ncia de uma fome alegre, vigiando fervorosamente que
+os Bord&eacute;us estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem
+granitados. E no teatro das <i>Nouveaut&eacute;s</i>, no <i>Palais
+Royal</i>, nos <i>Buffos</i>, ria, batendo na coxa, com encanecidas
+fac&eacute;cias de encanecidas farsas, antiqu&iacute;ssimos
+trejeitos de antiqu&iacute;ssimos actores, com que j&aacute; rira
+na sua inf&acirc;ncia, antes da guerra, sob o segundo
+Napole&atilde;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+De novo, em duas semanas, se abarrotaram as p&aacute;ginas da sua
+Agenda. A magnific&ecirc;ncia do seu traje, como imperador
+Frederico II de Su&aacute;bia, deslumbrou, no baile mascarado da
+Princesa de Cravon-Rogan (onde tamb&eacute;m fui, de
+&laquo;mo&ccedil;o de forcado&raquo;.) E na
+<i>Associa&ccedil;&atilde;o para o Desenvolvimento das
+Religi&otilde;es Esot&eacute;ricas</i> discursou e batalhou
+bravamente pela constru&ccedil;&atilde;o de um Templo Budista em
+Montmartre!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com espanto meu recome&ccedil;ou tamb&eacute;m a conversar, como
+nos tempos de Escola, da &laquo;famosa Civiliza&ccedil;&atilde;o
+nas suas m&aacute;ximas propor&ccedil;&otilde;es.&raquo; Mandou
+encaixotar o seu velho telesc&oacute;pio para o usar em Tormes.
+Receei mesmo que no seu esp&iacute;rito germinasse a ideia de
+<span class="pagenum">[175]</span>criar, no cimo da serra, uma
+Cidade com todos os seus &oacute;rg&atilde;os. Pelo menos
+n&atilde;o consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre
+Tormes interrompessem a ilimitada acumula&ccedil;&atilde;o das
+no&ccedil;&otilde;es--porque uma manh&atilde; rompeu pelo meu
+quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e formas de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o esquec&ecirc;ramos os livros! Assim
+era--e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros
+escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
+Pr&iacute;ncipe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao
+estudo da Hist&oacute;ria Natural--e n&oacute;s mesmos,
+imediatamente, deit&aacute;mos para o fundo de um vasto caixote
+novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Pl&iacute;nio.
+Despej&aacute;mos depois para dentro, &agrave;s bra&ccedil;adas,
+Geologia, Mineralogia, Bot&acirc;nica... Espalh&aacute;mos por cima
+uma camada a&eacute;rea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote
+estas Ci&ecirc;ncias oscilantes, ental&aacute;mos em redor cunhas
+de Metaf&iacute;sica.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do
+port&atilde;o do 202 na derradeira carro&ccedil;a da <i>Companhia
+dos Transportes</i>, toda esta anima&ccedil;&atilde;o de Jacinto se
+abateu como a efervesc&ecirc;ncia num copo de Champanhe. Era em
+meados j&aacute; t&eacute;pidos de Mar&ccedil;o. E de novo os seus
+desagrad&aacute;veis bocejos atroaram <span class="pagenum">[176]</span>o 202, e todos os sof&aacute;s rangeram sob o
+peso do corpo que ele lhe atirava para cima, mortalmente vencido
+pela fartura e pelo t&eacute;dio, num desejo de repouso eterno, bem
+envolto de solid&atilde;o e sil&ecirc;ncio. Desesperei. O
+qu&ecirc;! Aturaria eu ainda aquele Pr&iacute;ncipe palpando
+amargamente a caveira, e, quando o crep&uacute;sculo entristecia a
+Biblioteca, aludindo, num tom rouco, &agrave; do&ccedil;ura das
+mortes r&aacute;pidas pela viol&ecirc;ncia misericordiosa do acido
+cian&iacute;drico? Ah n&atilde;o, caramba! E uma tarde em que o
+encontrei estirado sobre um div&atilde;, de bra&ccedil;os em cruz,
+como se fosse a sua est&aacute;tua de m&aacute;rmore sobre o seu
+jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casar&atilde;o deve estar
+pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus
+av&oacute;s pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar
+esses mortos, e a vivermos n&oacute;s, os vivos!... Irra!
+S&atilde;o cinco de Abril!... &Eacute; o bom tempo da serra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe ressurgiu lentamente da in&eacute;rcia de
+pedra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--O Silv&eacute;rio n&atilde;o me escreveu, nunca me escreveu...
+Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... J&aacute; l&aacute;
+
+temos certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... Eu s&oacute;
+levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o cal&ccedil;ado, e
+<span class="pagenum">[177]</span>tem jeito como pedicuro... Hoje
+&eacute; Domingo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Atirou os p&eacute;s para o tapete, com hero&iacute;smo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, partimos no S&aacute;bado!... Avisa tu o
+Silv&eacute;rio!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Come&ccedil;ou ent&atilde;o o laborioso e pensativo estudo dos
+Hor&aacute;rios--e o dedo magro de Jacinto, por sobre o mapa,
+avan&ccedil;ando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o
+&laquo;sal&atilde;o&raquo; que dev&iacute;amos habitar durante a
+temida jornada, duas vezes percorremos o dep&oacute;sito da
+Esta&ccedil;&atilde;o de Orl&eacute;ans, atolados em lama,
+atr&aacute;s do Chefe do Tr&aacute;fico que entontecia. O meu
+Pr&iacute;ncipe recusava este sal&atilde;o por causa da cor
+tristonha dos estofos; depois recusava aquele por causa da
+mesquinhez aflitiva do Water-Closet! Uma das suas
+inquieta&ccedil;&otilde;es era o banho, nas manh&atilde;s que
+passar&iacute;amos rolando. Sugeri uma banheira de borracha.
+Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o
+transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha
+Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e a de Salamanca,
+por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando
+que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu
+sal&atilde;o, j&aacute; outro sal&atilde;o ligado ao comboio de
+Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que
+lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso
+
+<span class="pagenum">[178]</span>e rubicundo conviva do 202!
+Jacinto corria os dedos ansiosos pela face:--&laquo;E os sacos, as
+peles, os livros, quem os transportaria do sal&atilde;o de Irun
+para o sal&atilde;o de Salamanca?&raquo; Eu berrava, desesperado,
+que os carregadores de Medina eram os mais r&aacute;pidos, os mais
+destros de toda a Europa! Ele murmurava:--&laquo;Pois sim, mas em
+Espanha, de noite!...&raquo; A noite, longe da Cidade, sem
+telefone, sem luz el&eacute;ctrica, sem postos de pol&iacute;cia,
+parecia ao meu Pr&iacute;ncipe povoada de surpresas e assaltos.
+S&oacute; acalmou depois de verificar no Observat&oacute;rio
+Astron&oacute;mico, sob a garantia do s&aacute;bio professor
+Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Enfim, na sexta-feira, findou a tremenda organiza&ccedil;&atilde;o
+daquela viagem hist&oacute;rica! O s&aacute;bado predestinado
+amanheceu com generoso sol, de afagadora do&ccedil;ura. E eu
+acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as
+fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses
+de Paris, me tinham chamado &laquo;<i>mon petit chou! mon rat
+cheri!</i>&raquo;--quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um
+soberbo ramo de orqu&iacute;deas na sobrecasaca, p&aacute;lido e
+todo nervoso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos ao Bosque, por despedida?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Fomos--&agrave; grande despedida! E que encanto! At&eacute; nas
+almofadas e molas da vit&oacute;ria <span class="pagenum">[179]</span>senti logo uma elasticidade mais embaladora.
+Depois, pela Avenida do Bosque, quase me pesava n&atilde;o ficar
+sempiternamente rolando, ao trote rimado das &eacute;guas
+perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes, sobre aquele
+macadame mais alisado que m&aacute;rmore, entre t&atilde;o bem
+regadas flores e relvas de t&atilde;o tentadora frescura, cruzando
+uma Humanidade fina, de eleg&acirc;ncia bem acabada, que
+almo&ccedil;ara o seu chocolate em porcelanas de S&egrave;vres ou
+de Minton, sa&iacute;ra de entre sedas e tapetes de tr&ecirc;s mil
+francos, e respirava a beleza de Abril com vagar, requinte e
+pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde,
+azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas
+
+&aacute;leas que a Arte tra&ccedil;ou e enroscou na
+espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as
+ondula&ccedil;&otilde;es macias da folhagem que o Estado escova e
+lava. O piar das aves apenas se elevava para espalhar uma
+gra&ccedil;a leve de vida alada;--e mais natural parecia, entre o
+arvoredo soci&aacute;vel, o ranger das selas novas, onde pousavam,
+com balan&ccedil;o esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande
+Redfern. Em frente ao Pavilh&atilde;o de Armenonville
+cruz&aacute;mos Madame de Tr&egrave;ves, que nos envolveu ambos na
+car&iacute;cia do seu sorriso, mais avivado &agrave;quela hora pelo
+vermelh&atilde;o ainda h&uacute;mido. Logo atr&aacute;s
+<span class="pagenum">[180]</span>a barba talm&uacute;dica de
+Efraim negrejou, fresca tamb&eacute;m da brilhantina da
+manh&atilde;, no alto de um fa&eacute;ton tilintante. Outros amigos
+de Jacinto circulavam nas Ac&aacute;cias--e as m&atilde;os que lhe
+acenavam, lentas e af&aacute;veis, cal&ccedil;avam luvas frescas
+cor de palha, cor de p&eacute;rola, cor de lil&aacute;s. Todelle
+relampejou rente de n&oacute;s sobre uma grande bicicleta. Dornan,
+alastrado numa cadeira de ferro, sob um espinheiro em flor, mamava
+o seu imenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuais e
+n&eacute;dias. Adiante foi o Psic&oacute;logo, que nos n&atilde;o
+avistou, conversando com um requebro melanc&oacute;lico para dentro
+de um coup&eacute; que rescendia a alcova, e a que um cocheiro
+obeso imprimia dignidade e dec&ecirc;ncia. E rol&aacute;vamos
+ainda, quando o Duque de Marizac, a cavalo, ergueu a bengala,
+estacou a nossa vit&oacute;ria para perguntar a Jacinto se aparecia
+
+&agrave; noite nos &laquo;quadros vivos&raquo; dos Verghanes. O meu
+Pr&iacute;ncipe rosnou um--&laquo;n&atilde;o, parto para o
+sul...&raquo;--que mal lhe passou de entre os bigodes murchos... E
+Marizac lamentou--porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da
+Hist&oacute;ria Sagrada e da Hist&oacute;ria Romana!... Madame
+Verghane, de Madalena, de bra&ccedil;os nus, peitos nus, pernas
+nuas, limpando com os cabelos os p&eacute;s do Cristo!--O Cristo,
+um latag&atilde;o soberbo, parente dos Tr&egrave;ves, empregado no
+<span class="pagenum">[181]</span>Minist&eacute;rio da Guerra,
+gemendo, derreado, sob uma cruz de papel&atilde;o! Havia
+tamb&eacute;m Lucr&eacute;cia na cama, e Tarqu&iacute;nio ao lado,
+de punhal, a puxar os len&ccedil;&oacute;is! E depois ceia, em
+mesas soltas, todos nos seus trajes hist&oacute;ricos. Ele
+j&aacute; estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agripina!
+Quadro portentoso esse--Agripina morta, quando Nero a vem
+contemplar e lhe estuda as formas, admirando umas, desdenhando
+outras como imperfeitas. Mas, por polidez, ficara combinado que
+Nero admiraria sem reserva todas as formas de Madame de Malbe...
+Enfim colossal, e estupendamente instrutivo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Acen&aacute;mos um longo adeus &agrave;quele alegre Marizac. E
+recolhemos sem que Jacinto emergisse do sil&ecirc;ncio enrugado em
+que se abismara, com os bra&ccedil;os rigidamente cruzados, como
+remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco
+de Triunfo, moveu a cabe&ccedil;a, murmurou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; muito grave, deixar a Europa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Enfim, partimos! Sob a do&ccedil;ura do crep&uacute;sculo que se
+enublara deix&aacute;mos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num
+fiacre atulhado de livros, de estojos, de palet&oacute;s, de
+imperme&aacute;veis, de travesseiras, de &aacute;guas minerais,
+<span class="pagenum">[182]</span>de sacos de couro, de rolos de
+mantas: e mais atr&aacute;s um &oacute;nibus rangia sob a carga de
+vinte e tr&ecirc;s malas. Na Esta&ccedil;&atilde;o, Jacinto ainda
+comprou todos os Jornais, todas as Ilustra&ccedil;&otilde;es,
+Hor&aacute;rios, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada
+e hostil. Guiados pelo Chefe do Tr&aacute;fico, pelo
+Secret&aacute;rio da Companhia, ocup&aacute;mos copiosamente o
+nosso sal&atilde;o. Eu pus o meu bon&eacute; de seda, calcei as
+minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu num
+derradeiro clar&atilde;o de janelas... Para o sorver, Jacinto ainda
+se arremessou &agrave; portinhola. Mas rol&aacute;vamos j&aacute;
+
+na treva da Prov&iacute;ncia. O meu Pr&iacute;ncipe ent&atilde;o
+recaiu nas almofadas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que aventura, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+At&eacute; Chartres, em sil&ecirc;ncio, folhe&aacute;mos as
+Ilustra&ccedil;&otilde;es. Em Orl&eacute;ans, o guarda veio
+arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles
+catorze meses de Civiliza&ccedil;&atilde;o adormeci--e s&oacute;
+
+acordei em Bord&eacute;us quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso
+chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso
+c&eacute;u de algod&atilde;o sujo. Jacinto n&atilde;o se deitara,
+desconfiado da aspereza e da humidade dos len&ccedil;&oacute;is. E,
+metido num roup&atilde;o de flanela branco, com a face arrepiada e
+estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava
+sombriamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[184]</span>--Este horror!... E agora com
+chuva!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em Biarritz, ambos observ&aacute;mos com uma certeza indolente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--&Eacute; Biarritz.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o
+lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador
+Danjon. Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado de
+uma dama roli&ccedil;a que levava pela trela uma cadelinha felpuda.
+Jacinto baixou a vidra&ccedil;a violentamente, berrou pelo
+Historiador, na &acirc;nsia de comunicar ainda, atrav&eacute;s
+dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhara na chuva
+e n&eacute;voa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida f&aacute;cil,
+os abrolhos da Inciviliza&ccedil;&atilde;o, Jacinto suspirou com
+desalento:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Agora adeus, come&ccedil;a a Espanha!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Indignado, eu, que j&aacute; saboreava o generoso ar da terra
+bendita, saltei para diante do meu Pr&iacute;ncipe, e num
+saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma
+&laquo;petenera&raquo; condigna:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">A la puerta de mi casa<br>
+
+
+Ay Soledad, Soleda... &aacute;... &aacute;... &aacute;.</div>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele estendeu os bra&ccedil;os, suplicante:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[184]</span>--Z&eacute; Fernandes, tem
+piedade do enfermo e do triste! --<i>Irun! Irun!</i>...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Nessa Irun almo&ccedil;&aacute;mos com sucul&ecirc;ncia--porque
+sobre n&oacute;s velava, como Deusa omnipresente, a Companhia do
+Norte. Depois &laquo;el jefe d'Aduana, el jefe d'Estacion&raquo;,
+preciosamente nos instalaram noutro sal&atilde;o, novo, com cetins
+cor de azeitona, mas t&atilde;o pequeno que uma rica
+por&ccedil;&atilde;o dos nossos confortos em mantas, livros, sacos
+e imperme&aacute;veis, passou para o compartimento do
+
+<i>Sleeping</i> onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de
+bon&eacute;s escoceses, e fumando gordos charutos.--<i>Buen viaje_!
+Gracias! Servidores!</i>--E entr&aacute;mos silvando nos
+Piren&eacute;us.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sob a influ&ecirc;ncia da chuva embaciadora, daquelas serras sempre
+iguais, que se desenrolavam, arrepiadas, dilu&iacute;das na
+n&eacute;voa, resvalei a uma sonol&ecirc;ncia doce;--e, quando
+descerrava as p&aacute;lpebras, encontrava Jacinto a um canto,
+esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara os magros
+dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra
+nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o
+livro, enterrando mais o chap&eacute;u mole, se ergueu com tanta
+decis&atilde;o, que receei detivesse o comboio para saltar &agrave;
+
+estrada, <span class="pagenum">[185]</span> correr atrav&eacute;s
+das Vascongadas e da Navarra, para tr&aacute;s, para o 202! Sacudi
+o meu torpor, exclamei:--&laquo;oh menino!...&raquo; N&atilde;o! O
+pobre amigo ia apenas continuar o seu t&eacute;dio para outro
+canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. E
+&agrave; maneira que a escurid&atilde;o da tarde crescia, e com ela
+a borrasca de vento e &aacute;gua, uma inquieta&ccedil;&atilde;o
+mais aterrada se apoderava do meu Pr&iacute;ncipe, assim desgarrado
+da Civiliza&ccedil;&atilde;o, arrastado para a Natureza que
+j&aacute; o cercava de brutalidade agreste. N&atilde;o cessou
+ent&atilde;o de me interrogar sobre Tormes:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--As noites s&atilde;o horr&iacute;veis, hein, Z&eacute; Fernandes?
+Tudo negro, enorme solid&atilde;o... E m&eacute;dico?... H&aacute;
+m&eacute;dico?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva
+fustigou as vidra&ccedil;as. Era um descampado, todo em treva, onde
+rolava e lufava um grande vento solto. A M&aacute;quina apitava,
+com ang&uacute;stia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacinto batia
+o p&eacute;:--&laquo;&Eacute; medonho! &eacute; medonho!&raquo;...
+Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidra&ccedil;as
+surdiam cabe&ccedil;as esticadas, assustadas.--&laquo;<i>Que hay?
+Que hay?</i>&raquo;--A uma rajada, que me alagou, recuei:--e
+esper&aacute;mos durante lentos, calados minutos, esfregando
+desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
+escurid&atilde;o. <span class="pagenum">[186]</span>De repente o
+comboio recome&ccedil;ou a rolar, muito sereno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Em breve apareceram as luzinhas mortas de uma esta&ccedil;&atilde;o
+abarracada. Um condutor, com o casac&atilde;o de oleado todo a
+escorrer, trepou ao sal&atilde;o:--e por ele soubemos, enquanto
+carimbava apressadamente os bilhetes, que o trem, muito atrasado,
+talvez n&atilde;o alcan&ccedil;asse em Medina o comboio de
+Salamanca!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas ent&atilde;o?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite,
+deixando um cheiro de humidade e azeite. E n&oacute;s
+encet&aacute;mos um novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse
+abalado? O sal&atilde;o, tomado at&eacute; Medina, desengatava em
+Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas
+almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte e
+tr&ecirc;s malas, numa rude confus&atilde;o espanhola, sob a
+tormenta de ventania e de &aacute;gua!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh, Z&eacute; Fernandes, uma noite em Medina!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao meu Pr&iacute;ncipe aparecia como desventura suprema essa noite
+em Medina, numa <i>fonda</i> s&oacute;rdida, fedendo a alho, com
+gordas filas de percevejos atrav&eacute;s dos len&ccedil;&oacute;is
+de estopa encardida!... N&atilde;o cessei ent&atilde;o de fitar,
+num desassossego, os ponteiros do rel&oacute;gio:--enquanto
+Jacinto, pela vidra&ccedil;a escancarada, todo fustigado
+
+<span class="pagenum">[187]</span>da chuva clamorosa, furava a
+negrura, na esperan&ccedil;a de avistar as luzes de Medina e um
+comboio paciente fumegando... Depois reca&iacute;a no div&atilde;,
+limpava os bigodes e os olhos, maldizia a Espanha. O trem
+arquejava, rompendo o vasto vento da planura desolada. E a cada
+apito era um alvoro&ccedil;o. Medina?... N&atilde;o! Algum sumido
+apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
+enquanto dormentes figuras encarapu&ccedil;adas, embrulhadas em
+mantas, rondavam sob o telheiro do barrac&atilde;o, que as
+lanternas ba&ccedil;as tornavam mais soturno. Jacinto esmurrava o
+joelho:--&laquo;Mas por que p&aacute;ra este infame comboio?
+N&atilde;o h&aacute; tr&aacute;fico, n&atilde;o h&aacute; gente! Oh
+esta Espanha!...&raquo; A sineta badalava, moribunda. De novo
+fend&iacute;amos a noite e a borrasca.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Resignadamente comecei a percorrer um <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>, antigo, trazido de Paris. Jacinto esmagava o
+espesso tapete do sal&atilde;o com passadas rancorosas, rosnando
+como uma fera. E ainda assim se escoou, &agrave;s gotas, uma hora
+cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes,
+longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
+solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo
+de barrac&atilde;o alvejou--e bruscamente, &agrave; portinhola
+aberta com viol&ecirc;ncia, aparece um cavalheiro barbudo,
+<span class="pagenum">[188]</span>de capa &agrave; espanhola,
+gritando pelo Sr. D. Jacinto!... Depressa! depressa! que parte o
+comboio de Salamanca!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&laquo;Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un
+momento!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Agarro estonteadamente o meu palet&oacute;, o <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>. Salt&aacute;mos com &acirc;nsia:--e, pela
+plataforma, por sobre os trilhos, atrav&eacute;s de charcos,
+trope&ccedil;ando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da
+capa &agrave; espanhola, enfi&aacute;mos outra portinhola, que se
+fechou com um estalo tremendo... Ambos arquej&aacute;vamos. Era um
+sal&atilde;o forrado de um pano verde que comia a luz escassa. E eu
+estendia o bra&ccedil;o, para receber dos carregadores
+a&ccedil;odados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
+mantas--quando, em sil&ecirc;ncio, sem um apito, o trem despegou e
+rolou. Ambos nos atir&aacute;mos &agrave;s vidra&ccedil;as, em
+brados furiosos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh
+Grilo! Oh Grilo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
+tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos, num
+furor que o engasgava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! Que servi&ccedil;o! Oh que canalhas!... S&oacute; em
+Espanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma
+escova!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Calmei o meu desgra&ccedil;ado amigo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[189]</span>--Escuta! eu entrevi dois
+carregadores arrebanhando as nossas coisas... Decerto o Grilo
+fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o seu
+compartimento... Foi um erro n&atilde;o trazer o Grilo connosco, no
+sal&atilde;o... At&eacute; pod&iacute;amos jogar a manilha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+De resto a solicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava
+sobre o nosso conforto--pois que &agrave; porta do lavat&oacute;rio
+branquejava o cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de
+D. Esteban com estas doces palavras a l&aacute;pis--<i>&agrave; D.
+Jacinto y su egregio amigo, que les d&egrave; gusto!</i> Farejei um
+aroma de perdiz. E alguma tranquilidade nos penetrou no
+cora&ccedil;&atilde;o sentindo tamb&eacute;m as nossas malas sob a
+tutela da Deusa omnipresente.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tens fome Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho sono.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com efeito! depois de t&atilde;o desencontradas
+emo&ccedil;&otilde;es s&oacute; apetec&iacute;amos as camas que
+esperavam, macias e abertas. Quando ca&iacute; sobre a travesseira,
+sem gravata, em ceroulas, j&aacute; o meu Pr&iacute;ncipe, que
+n&atilde;o se despira, apenas embrulhara os p&eacute;s no
+
+<i>meu</i> palet&oacute;, nosso &uacute;nico agasalho, ressonava
+com majestade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
+claridadezinha da manh&atilde;, coada pelas cortinas verdes, uma
+<span class="pagenum">[190]</span>fardeta, um bon&eacute;, que
+murmuravam baixinho com imensa do&ccedil;ura:<br>
+
+
+--V. Exc.<sup>as</sup> n&atilde;o t&ecirc;m nada a declarar?...
+N&atilde;o h&aacute; malinhas de m&atilde;o?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o temos aqui nada... Pergunte V. Exc.&ordf; pelo
+Grilo... A&iacute; atr&aacute;s, num compartimento... Ele tem as
+chaves, tem tudo... &Eacute; o Grilo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra ben&eacute;fica. E eu
+readormeci com o pensamento em Gui&atilde;es, onde a tia
+Vic&ecirc;ncia, atarefada, de len&ccedil;o branco cruzado no peito,
+de certo j&aacute; preparava o leit&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Acordei envolto num largo e doce sil&ecirc;ncio. Era uma
+Esta&ccedil;&atilde;o muito sossegada, muito varrida, com rosinhas
+brancas trepando pelas paredes--e outras rosas em moitas, num
+jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas
+mimosas em flor que rescendiam. Um mo&ccedil;o p&aacute;lido, de
+palet&oacute; cor de mel, vergando a bengalinha contra o
+ch&atilde;o, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente
+&agrave; grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos,
+contava moedas de cobre no rega&ccedil;o. Sobre o telhado secavam
+ab&oacute;boras. Por cima rebrilhava o profundo, <span class="pagenum">[191]</span>rico e macio azul de que meus olhos andavam
+aguados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Sacudi violentamente Jacinto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acorda, homem, que est&aacute;s na tua terra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele desembrulhou os p&eacute;s do meu palet&oacute;, cofiou o
+bigode, e veio sem pressa, &agrave; vidra&ccedil;a que eu abrira,
+conhecer a sua terra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o &eacute; Portugal, hein?... Cheira bem.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; claro que cheira bem, animal!<br>
+
+
+<br>
+
+
+A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com
+descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de
+a&ccedil;o, assobiando e gozando a beleza da terra e do
+c&eacute;u.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe alargava os bra&ccedil;os, desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de
+
+&aacute;gua-de-col&oacute;nia!... Entro em Portugal, imundo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Na R&eacute;gua h&aacute; uma demora, temos tempo de chamar o
+Grilo, reaver os nossos confortos... Olha para o rio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Rol&aacute;vamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que
+desabavam at&eacute; largos socalcos cultivados de vinhedo. Em
+baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento
+repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro.
+Pelo rio, onde a &aacute;gua turva e tarda nem se quebrava contra
+<span class="pagenum">[192]</span>as rochas, descia, com a vela
+cheia, um barco lento carregado de pipas. Para al&eacute;m, outros
+socalcos, de um verde p&aacute;lido de reseda, com oliveiras
+apoucadas pela amplid&atilde;o dos montes, subiam at&eacute; outras
+penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
+abund&acirc;ncia do azul. Jacinto acariciava os p&ecirc;los
+corredios do bigode:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--O Douro, hein?... &Eacute; interessante, tem grandeza. Mas agora
+&eacute; que eu estou com uma fome, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tamb&eacute;m eu! Destapamos o cesto de D. Esteban donde surdiu um
+bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias
+que o ouro de duas nobres garrafas de Amontillado, al&eacute;m de
+duas garrafas de Rioja, aqueciam com um calor de sol Andaluz.
+Durante o presunto, Jacinto lamentou contritamente o seu erro. Ter
+deixado Tormes, um solar hist&oacute;rico, assim abandonado e
+vazio! Que del&iacute;cia, por aquela manh&atilde; t&atilde;o
+lustrosa e t&eacute;pida, subir &agrave; serra, encontrar a sua
+casa bem apetrechada, bem civilizada... Para o animar, lembrei que
+com as obras do Silv&eacute;rio, tantos caixotes de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o remetidos de Paris, Tormes estaria
+confort&aacute;vel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacinto entendia um
+pal&aacute;cio perfeito, um 202 no deserto!... E, assim
+discorrendo, atac&aacute;mos as perdizes. Eu desarrolhava
+
+<span class="pagenum">[193]</span>uma garrafa de
+Amontillado--quando o comboio, muito sorrateiramente, penetrou numa
+Esta&ccedil;&atilde;o. Era a R&eacute;gua. E o meu Pr&iacute;ncipe
+pousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que
+traziam o asseio dos nossos corpos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Espera, Jacinto! Temos muito tempo, O comboio p&aacute;ra aqui
+uma hora... Come com tranquilidade. N&atilde;o escangalhemos este
+almocinho com arruma&ccedil;&otilde;es de maletas... O Grilo
+n&atilde;o tarda a aparecer.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com
+uma ponta de cigarro colada ao bei&ccedil;o, parara a espreitar
+indiscretamente o nosso festim. Mas quando acab&aacute;mos as
+perdizes, e Jacinto confiadamente desembrulhava um queijo manchego,
+sem que Grilo ou Anatole comparecessem, eu, inquieto, corri
+
+&agrave; portinhola para apressar esses servos tardios... E nesse
+instante o comboio, largando, deslizou com o mesmo sil&ecirc;ncio
+sorrateiro. Para o meu Pr&iacute;ncipe foi um desgosto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A&iacute; ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu
+que queria mudar de camisa! Por culpa tua, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e
+abala! Paci&ecirc;ncia, Jacinto. Em duas horas estamos na
+Esta&ccedil;&atilde;o de Tormes... Tamb&eacute;m n&atilde;o valia a
+pena mudar <span class="pagenum">[194]</span>de camisa para subir
+
+&agrave; serra! Em casa tomamos um banho, antes de jantar...
+J&aacute; deve estar instalada a banheira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ambos nos consol&aacute;mos com copinhos de uma divina aguardente
+Chinchon. Depois, estendidos nos sof&aacute;s, saboreando os dois
+charutos que nos restavam, com as vidra&ccedil;as abertas ao ar
+ador&aacute;vel, convers&aacute;mos de Tormes. Na
+esta&ccedil;&atilde;o certamente estaria o Silv&eacute;rio, com os
+cavalos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que tempo leva a subir?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio
+pelas terras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor
+de Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E &agrave;
+noite o primeiro br&oacute;dio da serra, com os pit&eacute;us
+vern&aacute;culos do velho Portugal!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sorria, seduzido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silv&eacute;rio. Eu
+recomendei que fosse um soberbo cozinheiro portugu&ecirc;s,
+cl&aacute;ssico. Mas que soubesse trufar um peru, afogar um bife em
+molho de moela, estas coisas simples da cozinha de
+Fran&ccedil;a!... O pior &eacute; n&atilde;o te demorares, seguires
+logo para Gui&atilde;es...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ah, menino, anos da tia Vic&ecirc;ncia no s&aacute;bado... Dia
+sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos
+uma <span class="pagenum">[195]</span>larga Buc&oacute;lica. E,
+est&aacute; claro, para assistir &agrave;
+traslada&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto estendera o bra&ccedil;o:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que casar&atilde;o &eacute; aquele, al&eacute;m no outeiro, com a
+torre?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu n&atilde;o sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes
+era nesse feitio atarracado e maci&ccedil;o. Casa de s&eacute;culos
+e para s&eacute;culos--mas sem torre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E logo se v&ecirc;, da esta&ccedil;&atilde;o, Tormes?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! Muito no alto, numa prega da serra, entre
+arvoredo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No meu Pr&iacute;ncipe j&aacute; evidentemente nascera uma
+curiosidade pela sua rude casa ancestral. Mirava o rel&oacute;gio,
+impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz,
+murmurava, no primeiro encanto de iniciado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que do&ccedil;ura, que paz...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tr&ecirc;s horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Guardei o meu velho <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i> dentro do
+bolso do palet&oacute;, que deitei sobre o bra&ccedil;o;--e ambos
+em p&eacute;, &agrave;s janelas, esper&aacute;mos com
+alvoro&ccedil;o a pequenina Esta&ccedil;&atilde;o de Tormes, termo
+ditoso das nossas prova&ccedil;&otilde;es. Ela apareceu enfim,
+clara e simples, &agrave; beira do rio, entre rochas, com os seus
+vistosos girass&oacute;is enchendo um jardinzinho breve, as duas
+altas figueiras assombreando o p&aacute;tio, <span class="pagenum">[196]</span>e por tr&aacute;s a serra coberta de velho e
+denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa
+barriga, as bochechas menineiras do chefe da Esta&ccedil;&atilde;o,
+o louro Pimenta, meu condisc&iacute;pulo em Ret&oacute;rica, no
+Liceu de Braga. Os cavalos decerto esperavam, &agrave; sombra, sob
+as figueiras.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mal o trem parou ambos salt&aacute;mos alegremente. A bojuda massa
+do Pimenta rebolou para mim com amizade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Viva o amigo Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh belo Piment&atilde;o!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Ouve l&aacute;, Pimentinha... N&atilde;o est&aacute; a&iacute; o
+Silv&eacute;rio?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o... O Silv&eacute;rio h&aacute; quase dois meses que
+partiu para Castelo de Vide, ver a m&atilde;e que apanhou uma
+cornada de um boi!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Atirei a Jacinto um olhar inquieto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois n&atilde;o
+est&atilde;o a&iacute; os cavalos para subirmos &agrave;
+quinta?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior...
+H&aacute; que tempos eu n&atilde;o vejo o Melchior!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O carregador badalou lentamente a sineta <span class="pagenum">[197]</span>para o comboio rolar. Ent&atilde;o,
+n&atilde;o avistando em torno, na lisa e despovoada
+Esta&ccedil;&atilde;o, nem criados nem malas, o meu Pr&iacute;ncipe
+e eu lan&ccedil;&aacute;mos o mesmo grito de ang&uacute;stia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o Grilo? as bagagens?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:<br>
+
+
+
+--Grilo!... Oh Grilo!... Anatole!... Oh Grilo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na esperan&ccedil;a que ele e o Anatole viessem mortalmente
+adormecidos, trep&aacute;vamos aos estribos, atirando a
+cabe&ccedil;a para dentro dos compartimentos, espavorindo a gente
+quieta com o mesmo berro que retumbava:--&laquo;Grilo, est&aacute;s
+a&iacute;, Grilo?&raquo;--J&aacute; de uma terceira classe, onde
+uma viola repenicava, um jocoso gania,
+tro&ccedil;ando:--&laquo;N&atilde;o h&aacute; por a&iacute; um
+grilo? Andam por a&iacute; uns senhores a pedir um grilo!&raquo;--E
+nem Anatole, nem Grilo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A sineta tilintou.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Pimentinha, espera, homem, n&atilde;o deixes largar o
+comboio!... As nossas bagagens, homem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furg&atilde;o de carga, a
+pesquisar, descortinar as nossas vinte e tr&ecirc;s malas! Apenas
+encontr&aacute;mos barris, cestos de vime, latas de azeite, um
+ba&uacute; amarrado com cordas... Jacinto <span class="pagenum">[198]</span>mordia os bei&ccedil;os, l&iacute;vido. E o
+Pimentinha, esgazeado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh filhos, eu n&atilde;o posso atrasar o comboio!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu
+por detr&aacute;s das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais
+calado e deserto. Ali fic&aacute;vamos pois baldeados, perdidos na
+serra, sem Grilo, sem procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem
+malas! Eu conservava o palet&oacute; alvadio, donde surdia o
+<i>Jornal do Com&eacute;rcio</i>. Jacinto, uma bengala. Eram todos
+os nossos bens!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Piment&atilde;o arregalava para n&oacute;s os olhinhos papudos e
+compadecidos. Contei ent&atilde;o &agrave;quele amigo o atarantado
+trasfego em Medina sob a borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado
+com as vinte e tr&ecirc;s malas, ou rolando talvez para Madrid sem
+nos deixar um len&ccedil;o...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu n&atilde;o tenho um len&ccedil;o!... Tenho este <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>. &Eacute; toda a minha roupa branca.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E
+agora?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Agora, exclamei, &eacute; trepar, para a quinta, &agrave; pata...
+A n&atilde;o ser que se arranjassem a&iacute; uns burros.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta,
+ainda pertencente a Tormes, <span class="pagenum">[199]</span>o
+caseiro, seu compadre, tinha uma boa &eacute;gua e um jumento... E
+o prestante homem enfiou numa carreira para a Giesta--enquanto o
+meu Pr&iacute;ncipe e eu ca&iacute;amos para cima de um banco,
+arquejantes e sucumbidos, como n&aacute;ufragos. O vasto
+Pimentinha, com as m&atilde;os nas algibeiras, n&atilde;o cessava
+de nos contemplar, de murmurar:--&laquo;&Eacute; de
+arrelia&raquo;.--O rio defronte descia, pregui&ccedil;oso e como
+adormentado sob a calma j&aacute; pesada de Maio, abra&ccedil;ando,
+sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra que rebrilhava. Para
+al&eacute;m a serra crescia em corcovas doces, com uma funda prega
+onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma vilazinha
+clara. O espa&ccedil;o imenso repousava num imenso sil&ecirc;ncio.
+Naquelas solid&otilde;es de monte e penedia os pardais, revoando no
+telhado, pareciam aves consider&aacute;veis. E a massa rotunda e
+rubicunda do Pimentinha dominava, atulhava a regi&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; tudo arranjado, meu senhor! V&ecirc;m a&iacute; os
+bichos!... S&oacute; o que n&atilde;o calhou foi um selinzinho para
+a jumenta!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na
+m&atilde;o duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E n&atilde;o
+tardaram a aparecer no c&oacute;rrego, para nos levarem a Tormes,
+uma &eacute;gua ru&ccedil;a, um jumento com albarda, um rapaz e um
+podengo. Apert&aacute;mos <span class="pagenum">[200]</span>a
+m&atilde;o suada e amiga do Pimentinha. Eu cedi a &eacute;gua ao
+senhor de Tormes. E come&ccedil;&aacute;mos a trepar o caminho, que
+n&atilde;o se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o
+trilhavam, com rudes sapat&otilde;es ferrados, cortando de rio a
+monte, os Jacintos do s&eacute;culo XIV! Logo depois de
+atravessarmos uma tr&eacute;mula ponte de pau, sobre um riacho
+quebrado por pedregulhos, o meu Pr&iacute;ncipe, com o olho de dono
+subitamente agu&ccedil;ado, notou a robustez e a fartura das
+oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a
+incompar&aacute;vel beleza daquela serra bendita!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com que brilho e inspira&ccedil;&atilde;o copiosa a compusera o
+divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e
+t&atilde;o ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A
+grandeza igualava a gra&ccedil;a. Para os vales, poderosamente
+cavados, desciam bandos de arvoredos, t&atilde;o copados e
+redondos, de um verde t&atilde;o mo&ccedil;o que eram como um musgo
+macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao
+carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo
+am&aacute;vel, a que o esvoa&ccedil;ar leve dos p&aacute;ssaros
+sacudia a fragr&acirc;ncia. Atrav&eacute;s dos muros seculares, que
+sust&ecirc;m as terras liados pelas heras, rompiam grossas
+ra&iacute;zes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o
+torr&atilde;o, de cada fenda, brotavam <span class="pagenum">[201]</span>flores silvestres. Brancas rochas, pelas
+encostas, alastravam a s&oacute;lida nudez do seu ventre polido
+pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de l&iacute;quen e de
+silvados floridos, avan&ccedil;avam como proas de galeras
+enfeitadas: e, dentre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre
+que para l&aacute; galgara, todo amachucado e torto, espreitava
+pelos postigos negros, sob as desgrenhadas farripas de verdura, que
+o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a &aacute;gua
+sussurrante, a &aacute;gua fecundante... Espertos regatinhos
+fugiam, rindo com os seixos, dentre as patas da &eacute;gua e do
+burro; grossos ribeiros a&ccedil;odados saltavam com fragor de
+pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata
+vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte,
+posta &agrave; beira de veredas, jorrava por uma bica,
+beneficamente, &agrave; espera dos homens e dos gados... Todo um
+cabe&ccedil;o por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho
+ancestral, solit&aacute;rio, dominava como seu senhor e seu guarda.
+Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes
+soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas
+retou&ccedil;ando:--ou mais estreitos, entalados em muros,
+penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e
+frescura. Trep&aacute;vamos ent&atilde;o alguma ruazinha de aldeia,
+dez ou doze <span class="pagenum">[202]</span>casebres, sumidos
+entre figueiras, onde se esga&ccedil;ava, fugindo do lar pela telha
+v&atilde;, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
+por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas.
+O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e
+for&ccedil;a. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria
+pelas quebradas...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto adiante, na sua &eacute;gua ru&ccedil;a, murmurava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eu atr&aacute;s, no burro de Sancho, murmurava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Frescos ramos ro&ccedil;avam os nossos ombros com familiaridade e
+carinho. Por tr&aacute;s das sebes, carregadas de amoras, as
+macieiras estendidas ofereciam as suas ma&ccedil;&atilde;s verdes,
+porque as n&atilde;o tinham maduras. Todos os vidros de uma casa
+velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando
+n&oacute;s pass&aacute;mos. Muito tempo um melro nos seguia, de
+azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado,
+irm&atilde;o melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui
+vimos! E sempre contigo fiquemos, serra t&atilde;o acolhedora,
+serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assim, vagarosamente e maravilhados, cheg&aacute;mos <span class="pagenum">[203]</span>&agrave;quela avenida de faias, que sempre me
+encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada ao
+burro e &agrave; &eacute;gua, o nosso rapaz, com o seu podengo
+sobre os calcanhares, gritou:--&laquo;Aqui &eacute; que estemos,
+meus amos!&raquo; E ao fundo das faias, com efeito, aparecia o
+port&atilde;o da quinta de Tormes, com o seu bras&atilde;o de
+armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia.
+Dentro j&aacute; os c&atilde;es ladravam com furor. E quando
+Jacinto, na sua suada &eacute;gua, e eu atr&aacute;s, no burro de
+Sancho, transpusemos o limiar solarengo, desceu para n&oacute;s, do
+alto do alpendre, pela escadaria de pedra gasta, um homem
+n&eacute;dio, rapado como um padre, sem colete, sem jaleca,
+acalmando os c&atilde;es que se encarni&ccedil;avam contra o meu
+Pr&iacute;ncipe. Era o Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu,
+toda a boca se lhe escancarou num riso hospitaleiro, a que faltavam
+dentes. Mas apenas eu lhe revelei, daquele cavalheiro de bigodes
+louros que descia da &eacute;gua esfregando os quadris, o senhor de
+Tormes--o bom Melchior recuou, colhido de espanto e terror como
+diante de uma avantesma.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa!... Sant&iacute;ssimo nome de Deus! Pois
+ent&atilde;o...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, entre o rosnar dos c&atilde;es, num bracejar desolado, balbuciou
+uma hist&oacute;ria que por <span class="pagenum">[204]</span>seu
+turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do casar&atilde;o
+pendesse para desabar. O Melchior n&atilde;o esperava S. Ex.&ordf;!
+Ningu&eacute;m esperava S. Ex.&ordf;!... (Ele dizia <i>sua
+incel&ecirc;ncia</i>)... O Sr. Silv&eacute;rio estava para Castelo
+de Vide desde Mar&ccedil;o, com a m&atilde;e, que apanhara uma
+cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas...
+Porque o Sr. Silv&eacute;rio s&oacute; contava com S. Exc.&ordf; em
+Setembro, para a vindima! Na casa as obras seguiam devagarinho,
+devagarinho... O telhado, no sul, ainda continuava sem telhas;
+muitas vidra&ccedil;as esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar,
+Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto cruzou os bra&ccedil;os numa c&oacute;lera tumultuosa que o
+sufocava. Por fim, com um berro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro,
+h&aacute; quatro meses?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O desgra&ccedil;ado Melchior arregalava os olhos mi&uacute;dos, que
+se embaciavam de l&aacute;grimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada
+aparecera!... E na sua perturba&ccedil;&atilde;o mirava pelas
+arcadas do p&aacute;tio, palpava na algibeira das pantalonas. Os
+caixotes?... N&atilde;o, n&atilde;o tinha os caixotes!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E agora, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Encolhi os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Agora, meu filho, s&oacute; vires comigo para Gui&atilde;es...
+Mas s&atilde;o duas horas fartas a cavalo. <span class="pagenum">[205]</span>E n&atilde;o temos cavalos! O melhor &eacute;
+
+ver o casar&atilde;o, comer a boa galinha que o nosso amigo
+Melchior nos assa no espeto, dormir numa enxerga, e amanh&atilde;
+cedo, antes do calor, trotar para cima, para a tia
+Vic&ecirc;ncia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto replicou, com uma decis&atilde;o furiosa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Amanh&atilde; troto, mas para baixo, para a
+esta&ccedil;&atilde;o!... E depois, para Lisboa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em
+cima uma larga varanda acompanhava a fachada do casar&atilde;o, sob
+um alpendre de negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de
+granito, com caixas de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo
+amarelo---e penetrei atr&aacute;s de Jacinto nas salas nobres, que
+ele contemplava com um murm&uacute;rio de horror. Eram enormes, de
+uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros enegrecidos
+pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente nuas,
+conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
+enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado,
+luziam atrav&eacute;s dos rasg&otilde;es manchas de c&eacute;u. As
+janelas, sem vidra&ccedil;as, conservavam essas maci&ccedil;as
+portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram,
+espalham a treva. <span class="pagenum">[206]</span>Sob os nossos
+passos, aqui e al&eacute;m, uma t&aacute;bua podre rangia e
+cedia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Inabit&aacute;vel! rugia Jacinto surdamente. Um horror! Uma
+inf&acirc;mia!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de
+t&aacute;buas novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os
+velh&iacute;ssimos tectos de rico carvalho sombrio. As paredes
+repeliam pela alvura crua da cal fresca. E o sol mal atravessava as
+vidra&ccedil;as--embaciadas e gordurentas da massa e das
+m&atilde;os dos vidraceiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Penetr&aacute;mos enfim na &uacute;ltima, a mais vasta, rasgada por
+seis janelas, mobilada com um arm&aacute;rio e com uma enxerga
+parda e curta estirada a um canto: e junto dela par&aacute;mos, e
+sobre ela depusemos tristemente o que nos restava de vinte e
+tr&ecirc;s malas--o meu palet&oacute; alvadio, a bengala de
+Jacinto, e o <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i> que nos era comum.
+Atrav&eacute;s das janelas escancaradas, sem vidra&ccedil;as, o
+grande ar da serra entrava e circulava como num eirado, com um
+cheiro fresco de horta regada. Mas o que avist&aacute;vamos, da
+beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabe&ccedil;o e
+descendo pelo pendor suave, &agrave; maneira de uma hoste em
+marcha, com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados
+de negro; mais longe as serras <span class="pagenum">[207]</span>de
+al&eacute;m rio, de uma fina e macia cor de violeta; depois a
+brancura do c&eacute;u, todo liso, sem uma nuvem, de uma majestade
+divina. E l&aacute; debaixo, dos vales, subia, desgarrada e
+melanc&oacute;lica, uma voz de pegureiro cantando.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto caminhou lentamente para o poial de uma janela, onde caiu
+esbarrondado pelo desastre, sem resist&ecirc;ncia ante aquele
+brusco desaparecimento de toda a Civiliza&ccedil;&atilde;o! Eu
+palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de Inverno. E
+pensando nos luxuosos colch&otilde;es de penas e molas, t&atilde;o
+prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tamb&eacute;m a minha
+indigna&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
+caixotes enormes?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sacudiu amargamente os ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Encalhados, por a&iacute;, algures, num barrac&atilde;o!... Em
+Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferen&ccedil;a das
+Companhias, in&eacute;rcia do Silv&eacute;rio... Enfim a
+Pen&iacute;nsula, a barb&aacute;rie!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por
+c&eacute;u e monte:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; uma beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe, depois de um sil&ecirc;ncio grave, murmurou,
+com a face encostada &agrave; m&atilde;o:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[208]</span>--&Eacute; uma lindeza... E que
+paz!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
+talh&otilde;es de alface, gordas folhas de ab&oacute;bora
+rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, donde
+j&aacute; subia tenuemente a n&eacute;voa de algum fundo ribeiro.
+Toda a esquina do casar&atilde;o desse lado se encravava em
+laranjal. E de uma fontinha r&uacute;stica, meio afogada em rosas
+tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de &aacute;gua.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Estou com apetite desesperado daquela &aacute;gua! declarou
+Jacinto, muito s&eacute;rio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m eu... Des&ccedil;amos ao quintal, hein? E passamos
+pela cozinha, a saber do frango.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Volt&aacute;mos &agrave; varanda. O meu Pr&iacute;ncipe, mais
+conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarelo. E por
+outra porta baixa, de rij&iacute;ssimas ombreiras,
+mergulh&aacute;mos numa sala, alastrada de cali&ccedil;a, sem
+tecto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada
+de pardais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Olha para este horror! murmurava Jacinto arrepiado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E descemos por uma l&ocirc;brega escada de castelo, tenteando
+depois um corredor tenebroso de lajes &aacute;speras, atravancado
+por profundas arcas, capazes de guardar todo o gr&atilde;o de uma
+prov&iacute;ncia. Ao fundo a cozinha, imensa, <span class="pagenum">[209]</span>era uma massa de formas negras, madeira
+negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E neste
+negrume refulgia a um canto, sobre o ch&atilde;o de terra negra, a
+fogueira vermelha, lambendo tachos e panelas de ferro, despedindo
+uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois por entre
+a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e
+assavam as suas grossas pe&ccedil;as de porco e boi os Jacintos
+medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
+negrejava um poeirento mont&atilde;o de cestas e ferramentas; e a
+claridade toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre
+um quintalejo r&uacute;stico em que se misturavam couves lombardas
+e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoro&ccedil;ado
+de mulheres depenava frangos, remexia as ca&ccedil;arolas, picava a
+cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emudeceram quando
+aparecemos--e dentre elas o pobre Melchior, estonteado, com o
+sangue a espirrar na n&eacute;dia face de abade, correu para
+n&oacute;s, jurando &laquo;que o jantarinho de suas
+Incel&ecirc;ncias n&atilde;o demorava um credo&raquo;...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O digno homem ciciou uma desculpa encolhida &laquo;sobre
+enxergazinhas no ch&atilde;o...&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[210]</span>--&Eacute; o que basta! acudi eu,
+para o consolar. Por uma noite, com len&ccedil;&oacute;is
+frescos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah, l&aacute; pelos len&ccedil;oizinhos respondo eu!... Mas um
+desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um
+colch&atilde;ozinho de l&atilde;, sem um lombozinho de vaca... Que
+eu j&aacute; pensei, at&eacute; lembrei &agrave; minha comadre, V.
+Inc.<sup>as</sup> podiam ir dormir aos <i>Ninhos</i>, a casa do
+Silv&eacute;rio. Tinham l&aacute; camas de ferro,
+lavat&oacute;rios... Ele sempre &eacute; uma leguazita e mau
+caminho...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, bondoso, acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!...
+At&eacute; gosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da
+serra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sa&iacute;mos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas
+rochas encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra
+onde lourejava o centeio. O meu Pr&iacute;ncipe bebeu da
+&aacute;gua nevada e luzidia da fonte, regaladamente, com os
+bei&ccedil;os na bica; apeteceu a alface rechonchuda e crespa; e
+atirou pulos aos ramos altos de uma copada cerejeira, toda
+carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um
+bando de pombas branqueava o telhado, desliz&aacute;mos at&eacute;
+
+ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando,
+pensativamente, o meu Pr&iacute;ncipe pasmava para os milheirais,
+para os vetustos carvalhos plantados por vetustos Jacintos, para os
+casebres <span class="pagenum">[211]</span>espalhados sobre os
+cabe&ccedil;os &agrave; orla negra dos pinheirais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+De novo penetr&aacute;mos na avenida de faias e transpusemos o
+port&atilde;o senhorial entre o latir dos c&atilde;es, mais mansos,
+farejando um dono. Jacinto reconheceu &laquo;certa nobreza&raquo;
+na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa
+alameda, assim direita e larga, como tra&ccedil;ada para nela se
+desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens. Depois,
+de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o
+Silv&eacute;rio, &laquo;esse rala&ccedil;o&raquo;, por cuidar ao
+menos da morada do Bom-Deus.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E esta varanda tamb&eacute;m &eacute; agrad&aacute;vel, murmurou
+ele mergulhando a face no aroma dos cravos. Precisa grandes
+poltronas, grandes div&atilde;s de verga...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Dentro, na &laquo;nossa sala&raquo;, ambos nos sent&aacute;mos nos
+poiais da janela, contemplando o doce sossego crepuscular que
+lentamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto tremeluzia
+uma estrelinha, a V&eacute;nus diamantina, l&acirc;nguida
+anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacinto nunca
+considerara demoradamente aquela estrela, de amorosa
+refulg&ecirc;ncia, que perpetua no nosso C&eacute;u cat&oacute;lico
+a mem&oacute;ria da Deusa incompar&aacute;vel:--nem assistira
+jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. E
+este <span class="pagenum">[212]</span>enegrecimento dos montes que
+se embu&ccedil;am em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de
+sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado; o cobertor de
+n&eacute;voa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um
+toque sonolento de sino que rola pelas quebradas; o segredado
+cochichar das &aacute;guas e das relvas escuras--eram para ele como
+inicia&ccedil;&otilde;es. Daquela janela, aberta sobre as serras,
+entrevia uma outra vida, que n&atilde;o anda somente cheia do Homem
+e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem
+enfim descansa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do
+&laquo;jantarinho de suas Incel&ecirc;ncias&raquo;. Era noutra
+sala, mais nua, mais abandonada:--e a&iacute; logo &agrave; porta o
+meu supercivilizado Pr&iacute;ncipe estacou, estarrecido pelo
+desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao
+muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de
+estopa, duas velas de sebo em casti&ccedil;ais de lata alumiavam
+grossos pratos de lou&ccedil;a amarela, ladeados por colheres de
+estanho e por garfos de ferro. Os copos, de um vidro espesso,
+conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos
+de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas,
+contentaria Di&oacute;genes. Espetado <span class="pagenum">[213]</span>na c&ocirc;dea de um imenso p&atilde;o
+reluzia um imenso facalh&atilde;o. E na cadeira senhorial reservada
+ao meu Pr&iacute;ncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de
+hirto espaldar de couro, com a madeira ro&iacute;da de caruncho, a
+clina fugia em melenas pelos rasg&otilde;es do assento
+pu&iacute;do.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Uma formid&aacute;vel mo&ccedil;a, de enormes peitos que lhe
+tremiam dentro das ramagens do len&ccedil;o cruzado, ainda suada e
+esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma
+terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do
+vinho, esperava que suas Incel&ecirc;ncias lhe perdoassem porque
+faltara tempo para o caldinho apurar... Jacinto ocupou a sede
+ancestral--e, durante momentos (de esgazeada ansiedade para o
+caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o
+garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou
+o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou--e levantou para
+mim, seu camarada de mis&eacute;rias, uns olhos que brilharam,
+surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais
+considerada. E sorriu, com espanto:--&laquo;Est&aacute;
+bom!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Estava precioso: tinha f&iacute;gado e tinha moela: o seu perfume
+enternecia: tr&ecirc;s vezes, fervorosamente, ataquei aquele
+caldo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[214]</span>--Tamb&eacute;m l&aacute; volto!
+exclamava Jacinto com uma convic&ccedil;&atilde;o imensa. &Eacute;
+que estou com uma fome... Santo Deus! H&aacute; anos que n&atilde;o
+sinto esta fome.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E j&aacute; espreitava a
+porta, esperando a portadora dos pit&eacute;us, a rija mo&ccedil;a
+de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o
+sobrado--e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz
+com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara
+favas!... Tentou todavia uma garfada t&iacute;mida--e de novo
+aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando
+os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentid&atilde;o
+de frade que se regala. Depois um brado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Oacute;ptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que
+del&iacute;cia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
+palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia
+ao br&oacute;dio...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O homem &oacute;ptimo sorria, inteiramente desanuviado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Pois &eacute; c&aacute; a comidinha dos mo&ccedil;os da quinta! E
+cada pratada, que at&eacute; suas Incel&ecirc;ncias <span class="pagenum">[215]</span>se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto,
+tamb&eacute;m vai engordar e enrijar!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos
+Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia
+fome e mingava... E o meu Pr&iacute;ncipe, na verdade, parecia
+saciar uma velh&iacute;ssima fome e uma longa saudade da
+abund&acirc;ncia, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais
+copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que
+ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra
+digno dos l&aacute;bios de Plat&atilde;o, terminou por
+bradar:--&laquo;&Eacute; divino!&raquo; Mas nada o entusiasmava
+como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde--um
+vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na
+alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, &agrave; vela de
+sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma r&oacute;sea, o
+meu Pr&iacute;ncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou
+Virg&iacute;lio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Quo te carmina dicam, Rethica?</i> Quem dignamente te
+cantar&aacute;, vinho am&aacute;vel destas serras?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu, que n&atilde;o gosto que me avantajem em saber cl&aacute;ssico,
+espanejei logo tamb&eacute;m o meu Virg&iacute;lio, louvando as
+do&ccedil;uras da vida rural:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--<i>Hanc olim veteres vitam coluere Sabini</i>... <span class="pagenum">[216]</span>Assim viveram os velhos Sabinos. Assim
+R&oacute;mulo e Remo... Assim cresceu a valente Etr&uacute;ria.
+Assim Roma se tornou a maravilha do mundo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E im&oacute;vel, com a m&atilde;o agarrada &agrave; infusa, o
+Melchior arregalava para n&oacute;s os olhos em infinito assombro e
+religiosa rever&ecirc;ncia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ah! Jant&aacute;mos deliciosissimamente, sob os ausp&iacute;cios do
+Melchior--que ainda depois, pr&oacute;vido e tutelar, nos forneceu
+o tabaco. E, como ante n&oacute;s se alongava uma noite de monte,
+volt&aacute;mos para as janelas desvidra&ccedil;adas, na sala
+imensa, a contemplar o sumptuoso c&eacute;u de Ver&atilde;o.
+Filosof&aacute;mos ent&atilde;o com pachorra e fac&uacute;ndia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os
+astros--por causa dos candeeiros de g&aacute;s ou dos globos de
+electricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se
+entra nessa comunh&atilde;o com o Universo que &eacute; a
+&uacute;nica gl&oacute;ria e &uacute;nica consola&ccedil;&atilde;o
+da Vida. Mas na serra, sem pr&eacute;dios disformes de seis
+andares, sem a fumara&ccedil;a que tapa Deus, sem os cuidados que
+como peda&ccedil;os de chumbo puxam a alma para o p&oacute;
+rasteiro--um Jacinto, um Z&eacute; Fernandes, livres, bem jantados,
+fumando nos poiais <span class="pagenum">[217]</span>de uma janela,
+olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente,
+com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferen&ccedil;a.
+Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma
+luz que chama, como se tentassem, de t&atilde;o longe, revelar os
+seus segredos, ou de t&atilde;o longe compreender os nossos...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, que estrela &eacute; esta, aqui, t&atilde;o viva,
+sobre o beiral do telhado?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei... E aquela, Z&eacute; Fernandes, al&eacute;m, por
+cima do pinheiral?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o sab&iacute;amos. Eu, por causa da espessa crosta de
+ignor&acirc;ncia com que sa&iacute; do ventre de Coimbra, minha
+M&atilde;e espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possu&iacute;a
+trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim
+acumulado, forma um monte que nunca se transp&otilde;e nem se
+desbasta. Mas que nos importava que aquele astro al&eacute;m se
+chamasse S&iacute;rio e aquele outro Aldebar&atilde;? Que lhes
+importava a eles que um de n&oacute;s fosse Jacinto, outro
+Z&eacute;? Eles t&atilde;o imensos, n&oacute;s t&atilde;o
+pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou
+Lorenas de Noronha e Sande, constitu&iacute;mos modos diversos de
+um Ser &uacute;nico, e as nossas diversidades esparsas somam na
+mesma compacta Unidade. Mol&eacute;culas <span class="pagenum">[218]</span>do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei,
+rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem &agrave;
+
+flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro--tudo &eacute; o
+mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum
+fr&eacute;mito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime
+Corpo, que se n&atilde;o repercuta em todas, at&eacute; &agrave;s
+mais humildes, at&eacute; &agrave;s que parecem inertes e invitais.
+Quando um Sol que n&atilde;o avisto, nunca avistarei, morre de
+inani&ccedil;&atilde;o nas profundidades, esse esguio galho de
+limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
+quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, al&eacute;m o
+monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o
+inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a m&atilde;o no rebordo
+da janela. Eu gritei:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acredita!... O sol tremeu.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E depois (como eu notei) dev&iacute;amos considerar que, sobre cada
+um desses gr&atilde;os de p&oacute; luminoso, existia uma
+cria&ccedil;&atilde;o, que incessantemente nasce, perece, renasce.
+Neste instante, outros Jacintos, outros Z&eacute;s Fernandes,
+sentados &agrave;s janelas doutras Tormes, contemplam o c&eacute;u
+nocturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que &eacute; a nossa
+possante Terra por n&oacute;s tanto sublimada. N&atilde;o
+ter&atilde;o todos esta nossa forma, bem fr&aacute;gil, bem
+<span class="pagenum">[219]</span>desconfort&aacute;vel, e (a
+n&atilde;o ser no Apolo do Vaticano, na V&eacute;nus de Milo e
+talvez na Princesa, de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas,
+horrendos ou de inef&aacute;vel beleza; colossais e de uma carne
+mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz,
+todos eles s&atilde;o seres pensantes e t&ecirc;m consci&ecirc;ncia
+da Vida--porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou
+j&aacute; o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu
+M&eacute;todo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
+formulando a &uacute;nica certeza talvez certa, o grande <i>Penso
+logo existo</i>. Portanto todos n&oacute;s, Habitantes dos Mundos,
+
+&agrave;s janelas dos nossos casar&otilde;es, al&eacute;m nos
+Saturnos, ou aqui na nossa Terr&iacute;cula, constantemente
+perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde--que
+&eacute; sentirmos no Pensamento o n&uacute;cleo comum das nossas
+modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da
+Consci&ecirc;ncia, a Unidade do Universo!--Hein, Jacinto?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu amigo rosnou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez... Estou a cair com sono.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m eu. &laquo;Remont&aacute;mos muito,
+Ex.<sup>mo</sup> Sr.!&raquo; como dizia o Pestaninha em Coimbra.
+Mas nada mais belo, e mais v&atilde;o, que uma cavaqueira, no alto
+das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais
+amanh&atilde;?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[220]</span>--Concerteza, Z&eacute;
+Fernandes! Com a certeza de Descartes. &laquo;Penso <i>logo
+fujo</i>!&raquo; Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem
+uma poltrona, sem um livro?... Nem s&oacute; de arroz com fava vive
+o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu
+Administrador. E tamb&eacute;m &agrave; espera que estas obras
+acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com
+roupa lavada, para a traslada&ccedil;&atilde;o...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; verdade, os ossos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas resta ainda o Grilo... Que animal! Por onde andar&aacute;
+esse perdido?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de
+sebo j&aacute; derretida no casti&ccedil;al de lata era como um
+lume de cigarro num descampado, medit&aacute;mos na sorte do Grilo.
+O estimado negro ou fora despejado nas lamas de Medina, com as
+vinte e sete malas, aos gritos--ou, regaladamente adormecido,
+rolara com o Anatole no comboio para Madrid. Mas ambos os casos
+apareciam ao meu Pr&iacute;ncipe como irremediavelmente
+destruidores do seu conforto...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, escuta, Jacinto... Se o Grilo encalhou em Medina,
+dormiu na Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para
+Tormes. Quando amanh&atilde; desceres &agrave;
+Esta&ccedil;&atilde;o, &agrave;s quatro horas, encontras o teu
+precioso homem, <span class="pagenum">[221]</span>com as tuas
+preciosas malas, metido nesse comboio que te leva ao Porto e
+&agrave; Capital...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sacudiu os bra&ccedil;os como quem se debate nas malhas de
+uma rede:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E se seguiu para Madrid?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, por esta semana, c&aacute; aparece em Tormes, onde
+encontra ordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu
+s&eacute;quito... Resta o interessante caso das minhas bagagens. Se
+amanh&atilde; encontrares na Esta&ccedil;&atilde;o o Grilo, separa
+a minha mala negra, e o saco de lona, e a chapeleira. O Grilo
+conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
+Gui&atilde;es. Se o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid,
+com toda essa malaria, deixa as minhas coisas aqui, ao Melchior...
+Eu amanh&atilde; falo ao Melchior.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas como posso eu partir para Lisboa, amanh&atilde;, com esta
+camisa de dois dias, que j&aacute; me faz uma comich&atilde;o
+horrenda? E sem um len&ccedil;o... Nem ao menos uma escova de
+dentes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+F&eacute;rtil em ideias, estendi as m&atilde;os, num belo gesto
+tutelar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui
+cedo, pelas seis <span class="pagenum">[222]</span>horas, chego a
+Gui&atilde;es &agrave;s dez, ainda sem calor. E, mesmo antes do
+almo&ccedil;o e da cavaqueira com a tia Vic&ecirc;ncia,
+imediatamente te mando por um mo&ccedil;o um saco de roupa branca.
+As minhas camisas e as minhas ceroulas talvez te estejam largas.
+Mas um mendigo como tu n&atilde;o tem direito a eleg&acirc;ncias e
+a roupas bem cortadas. O mo&ccedil;o, num bom trote, entra aqui
+
+&agrave;s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
+Esta&ccedil;&atilde;o... Posso meter na mala uma escova de
+dentes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes! Ent&atilde;o mete tamb&eacute;m uma
+esponja... E um frasco de &aacute;gua-de-col&oacute;nia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Aacute;gua de alfazema, excelente, feita pela tia
+Vic&ecirc;ncia...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe suspirou, impressionado com a sua
+mis&eacute;ria esqu&aacute;lida, e esta d&aacute;diva de
+roupas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, ent&atilde;o vamos dormir, que estou esfalfado de
+emo&ccedil;&otilde;es e de astros...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a
+avisar que &laquo;estavam preparadinhas as camas de suas
+Incel&ecirc;ncias.&raquo; E seguindo o bom caseiro, que erguia uma
+candeia, que avistamos n&oacute;s, o meu Pr&iacute;ncipe e eu,
+ainda h&aacute; pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que
+uma abertura em arco, l&ocirc;brego arco de pedra, separava--duas
+enxergas sobre o soalho. Junto &agrave; cabeceira <span class="pagenum">[223]</span>da mais larga, que pertencia ao senhor de
+Tormes, um casti&ccedil;al de lat&atilde;o sobre um alqueire; aos
+p&eacute;s, como lavat&oacute;rio, um alguidar vidrado em cima de
+uma tripe&ccedil;a. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar
+nem alqueire.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Lentamente, com o p&eacute;, o meu supercivilizado amigo palpou a
+enxerga. E decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque
+ficou pendido sobre ela, a correr desoladamente os dedos pela face
+desmaiada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o pior n&atilde;o &eacute; ainda a enxerga, murmurou enfim com
+um suspiro. &Eacute; que n&atilde;o tenho camisa de dormir, nem
+chinelas!... E n&atilde;o me posso deitar de camisa engomada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Por inspira&ccedil;&atilde;o minha recorremos ao Melchior. De novo,
+esse benem&eacute;rito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele
+desafogar os p&eacute;s, uns tamancos--e para embrulhar o corpo uma
+camisa da comadre, enorme, de estopa, &aacute;spera como uma
+estamenha de penitente, com folhos mais crespos e duros do que
+lavores de madeira. Para consolar o meu Pr&iacute;ncipe lembrei que
+Plat&atilde;o quando compunha o <i>Banquete</i>, Vasco da Gama
+quando dobrava o Cabo, n&atilde;o dormiam em melhores catres! As
+enxergas rijas fazem as almas fortes, oh Jacinto!... E &eacute;
+
+s&oacute; vestido de estamenha que se penetra no
+Para&iacute;so.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[224]</span>--Tens tu, volveu o meu amigo
+secamente, alguma coisa que eu leia? N&atilde;o posso adormecer sem
+um livro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu? Um livro? Possu&iacute;a apenas o velho numero do <i>Jornal do
+Com&eacute;rcio</i>, que escapara &agrave; dispers&atilde;o dos
+nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com
+Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos
+an&uacute;ncios... E quem n&atilde;o viu ent&atilde;o Jacinto,
+senhor de Tormes, aca&ccedil;apado &agrave; borda da enxerga, rente
+da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os p&eacute;s
+encafuados nos socos, perdido dentro das &aacute;speras pregas e
+dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num peda&ccedil;o
+velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
+Paquetes--n&atilde;o pode saber o que &eacute; uma intensa e
+ver&iacute;dica imagem do Desalento.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Recolhido &agrave; minha alcova espartana, desabotoava o colete,
+num delicioso cansa&ccedil;o, quando o meu Pr&iacute;ncipe ainda me
+reclamou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Diz.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Manda tamb&eacute;m no saco um abotoador de botas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro
+ao penetrar no Sono, que &eacute; um primo da Morte, <span class="pagenum">[225]</span>&laquo;Deus seja louvado!&raquo; Depois tomei
+a metade do <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i> que me pertencia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que &eacute;?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tamb&eacute;m podias meter no saco p&oacute;s dos dentes... E uma
+lima das unhas... E um romance!<br>
+
+
+<br>
+
+
+J&aacute; a meia Gazeta me escapava das m&atilde;os dormentes. Mas
+da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um
+bocejo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Hein?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragan&ccedil;a... Os
+len&ccedil;&oacute;is ao menos s&atilde;o frescos, cheiram bem, a
+sadio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>IX</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Cedo, de madrugada, sem rumor, para n&atilde;o despertar o meu
+Jacinto, que, com as m&atilde;os cruzadas sobre o peito, dormia
+beatificamente na sua enxerga de granito--parti para
+Gui&atilde;es.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ao cabo de uma semana, recolhendo uma manh&atilde; para o
+almo&ccedil;o, encontrei no corredor as minhas malas t&atilde;o
+desejadas, que um mo&ccedil;o do casal da Giesta trouxera num carro
+com &laquo;recados do Sr. Pimentinha&raquo;. O meu pensamento pulou
+para o meu Pr&iacute;ncipe. E lancei pelo tel&eacute;grafo, para
+Lisboa, para o Hotel Bragan&ccedil;a, este brado
+alegre:--&laquo;Est&aacute;s l&aacute;? Sei recuperaste Grilo e
+Civiliza&ccedil;&atilde;o! Hurrah! Abra&ccedil;o!&raquo;--S&oacute;
+
+depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de espargos com
+que outrora civilizara a horta da tia Vic&ecirc;ncia, notei o
+sil&ecirc;ncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o
+grito amigo:--&laquo;Est&aacute;s l&aacute;? S&atilde;o os prazeres
+da Baixa que assim te <span class="pagenum">[228]</span>tornam
+desatento e mudo? Eu, todo espargos! Responde, quando chegas? Tempo
+delicioso! 23&ordm; &agrave; sombra. E os ossos?...&raquo;--Veio
+depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua
+nova andei num corte de mato, na minha terra das Corcas. A tia
+Vic&ecirc;ncia vomitou, com uma indigest&atilde;o de morcelas. E o
+sil&ecirc;ncio do meu Pr&iacute;ncipe era ingrato e ferrenho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Enfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
+Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manuel Rico, para beber de
+certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Defronte, &agrave; porta do ferrador, o Severo, sobrinho do
+Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco,
+escarranchado num banco. Mandei encher outro quartilho: ele
+acariciou o pesco&ccedil;o da minha &eacute;gua que j&aacute;
+salvara de um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso Melchior,
+o Severo contou que na v&eacute;spera jantara com ele em Tormes, e
+se abeirara tamb&eacute;m do fidalgo...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa! Ent&atilde;o o Sr. D. Jacinto est&aacute; em
+Tormes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu espanto divertiu o Severo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o V. Exc.&ordf;... Pois em Tormes &eacute; que ele
+est&aacute;, h&aacute; mais de cinco semanas, sem arredar!
+<span class="pagenum">[229]</span>E parece que fica para a vindima,
+e vai l&aacute; uma grandeza!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sant&iacute;ssimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da
+missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei
+alvoro&ccedil;adamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando
+transpus o portal solarengo, a comadre do Melchior acudiu dos lados
+do curral, com um alguidar de lavagem encostado &agrave;
+cintura.--Ent&atilde;o o Sr. D. Jacinto?... O Sr. D. Jacinto andava
+l&aacute; para baixo, com o Silv&eacute;rio e com o Melchior, nos
+campos de Freixomil...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o Sr. Grilo, o preto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--H&aacute; bocadinho tamb&eacute;m o enxerguei no pomar, com o
+franc&ecirc;s, a apanhar lim&otilde;es doces..<br>
+
+
+
+.<br>
+
+
+Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidra&ccedil;as novas,
+bem polidas. A um canto do p&aacute;tio notei baldes de cal e
+tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansara durante o Dia
+Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capela, dois
+gatos dormiam sobre mont&otilde;es de palha desempacotada de
+caixotes consider&aacute;veis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, pensei eu. Eis a Civiliza&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Recolhi a &eacute;gua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma
+pilha de ripas, reluzia num raio de sol uma banheira de zinco.
+Dentro <span class="pagenum">[230]</span>encontrei todos os soalhos
+remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas e
+nuas, refrigeravam como as de um convento. Um quarto, a que me
+levaram tr&ecirc;s portas escancaradas com franqueza serrana, era
+certamente o de Jacinto: a roupa pendia de cabides de pau: o leito
+de ferro, com coberta de fust&atilde;o, encolhia timidamente a sua
+rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde um
+casti&ccedil;al de lat&atilde;o resplandecia sobre um volume do
+
+<i>D. Quixote</i> no lavat&oacute;rio pintado de amarelo, imitando
+bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de
+sab&atilde;o; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da
+escova, da tesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do
+frasquinho de &aacute;gua de alfazema que eu mandara de
+Gui&atilde;es. As tr&ecirc;s janelas, sem cortinas, contemplavam a
+beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se
+perfumava nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta.
+Em frente, no corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade.
+Certamente a previd&ecirc;ncia do meu Pr&iacute;ncipe o destinara
+ao seu Z&eacute; Fernandes. Pendurei logo dentro, no cabide, o meu
+guarda-p&oacute; de lustrina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas na sala imensa, onde tanto filosof&aacute;ramos considerando as
+estrelas, Jacinto arranjara um centro de repouso e de
+estudo--e<span class="pagenum">[231]</span> desenrolara essa
+
+&laquo;grandeza&raquo; que impressionava o Severo. As cadeiras de
+verga da Madeira, amplas e de bra&ccedil;os, ofereciam o conforto
+de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco,
+carpinteirada em Tormes, admirei um candeeiro de metal de
+tr&ecirc;s bicos, um tinteiro de frade armado de penas de pato, um
+vaso de capela transbordando de cravos. Entre duas janelas uma
+c&oacute;moda antiga, embutida, com ferragens lavradas, recebera
+sobre o seu m&aacute;rmore rosado o devoto peso de um
+Pres&eacute;pio, onde Reis Magos, pastores de surr&otilde;es
+vistosos, cordeiros de esguedelhada l&atilde;, se apressavam
+atrav&eacute;s de alcantis para o Menino, que na sua lapinha lhes
+abria os bra&ccedil;os, coroado por uma enorme Coroa Real. Uma
+estante de madeira enchia outro peda&ccedil;o de parede, entre dois
+retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas
+prateleiras repousavam duas espingardas; nas outras esperavam,
+espalhados, como os primeiros Doutores nas bancadas de um
+conc&iacute;lio, alguns nobres livros, um Plutarco, um
+Virg&iacute;lio, a Odisseia, o Manual de Epicteto, as
+Cr&oacute;nicas de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de
+palhinha, muito novas, muito envernizadas. E a um canto um molho de
+varapaus.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Tudo resplandecia de asseio e ordem. As <span class="pagenum">[232]</span>portadas das janelas, cerradas, abrigavam do
+sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os peitoris de
+pedra. Do soalho, borrifado de &aacute;gua, subia, na suavizada
+penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem
+da casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da
+manh&atilde; santa. E, penetrado por aquela consoladora
+quieta&ccedil;&atilde;o de convento rural, terminei por me estender
+numa cadeira de verga, junto da mesa, abrir languidamente um tomo
+de Virg&iacute;lio, e murmurar, apropriando o doce verso que
+encontrara:<br>
+
+
+<div class="quote">Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<br>
+
+
+Et fontes sacros, frigus captabis opacum...</div>
+
+
+<br>
+
+
+Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que s&atilde;o
+teus e &aacute;guas que te s&atilde;o sagradas, colhes enfim a
+sombra e a paz!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de &eacute;gua
+e calor desde Gui&atilde;es, irreverentemente adormecia sobre o
+divino Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu
+Pr&iacute;ncipe. E muito decididamente, depois de me soltar do seu
+rijo abra&ccedil;o, o comparei a uma planta estiolada, emurchecida
+na escurid&atilde;o, entre tapetes e sedas, que, levada para vento
+e sol, profusamente <span class="pagenum">[233]</span>regada,
+reverdece, desabrocha e honra a Natureza! Jacinto j&aacute;
+n&atilde;o corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de
+supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara
+um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava
+soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre t&atilde;o
+crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de
+meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das
+coisas. At&eacute; o bigode se lhe encrespara. E j&aacute;
+n&atilde;o deslizava a m&atilde;o desencantada sobre a face,--mas
+batia com ela triunfalmente na coxa. Que sei? Era um Jacinto
+nov&iacute;ssimo. E quase me assustava, por eu ter de aprender e
+penetrar, neste novo Pr&iacute;ncipe, os modos e as ideias
+novas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Caramba, Jacinto, mas ent&atilde;o...?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E s&oacute; me
+soube contar, trilhando soberanamente com os sapatos brancos e
+cobertos de p&oacute; o soalho remendado, que, ao acordar em
+Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de enfiar a minha roupa
+branca, se sentira de repente como
+<i>desanuviado</i>,desenvencilhado! Almo&ccedil;ara uma pratada de
+ovos com chouri&ccedil;o, sublime. Passeara por toda aquela
+magnific&ecirc;ncia da serra com pensamentos ligeiros de liberdade
+e de paz. Mandara <span class="pagenum">[234]</span>ao Porto
+comprar uma cama, uns cabides... E ali estava...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Para todo o Ver&atilde;o?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! Mas um m&ecirc;s... Dois meses! Enquanto houver
+chouri&ccedil;os, e a &aacute;gua da fonte, bebida pela telha ou
+numa folha de couve, me souber t&atilde;o divinamente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ca&iacute; sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado,
+quase esgazeado, o meu Pr&iacute;ncipe! Ele enrolava numa mortalha
+tabaco picado, tabaco grosso, guardado numa malga vidrada. E
+exclamava:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ando a&iacute; pelas terras desde o romper de alva! Pesquei
+j&aacute; hoje quatro trutas, magn&iacute;ficas... L&aacute; em
+baixo, no Naves, um riachote que se atira pelo vale da Seranda...
+Temos logo ao jantar essas trutas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu, &aacute;vido pela hist&oacute;ria daquela
+ressurrei&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Ent&atilde;o, n&atilde;o estiveste em Lisboa?... Eu
+telegrafei...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Qual tel&eacute;grafo! Qual Lisboa! Estive l&aacute; em cima, ao
+p&eacute; da fonte da Lira, &agrave; sombra de uma grande
+&aacute;rvore, <i>sub tegmine</i> n&atilde;o sei qu&ecirc;, a ler
+esse ador&aacute;vel Virg&iacute;lio... E tamb&eacute;m a arranjar
+o meu pal&aacute;cio! Que te parece, Z&eacute; Fernandes? Em
+tr&ecirc;s semanas, tudo soalhado, envidra&ccedil;ado, caiado,
+encadeirado!... Trabalhou <span class="pagenum">[235]</span>a
+freguesia inteira! At&eacute; eu pintei, com uma imensa brocha.
+Viste o comedouro?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o vem admirar a beleza na simplicidade,
+b&aacute;rbaro!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era a mesma onde n&oacute;s tanto exalt&aacute;ramos o arroz com
+favas--mas muito esfregada, muito caiada, com um rodap&eacute;
+besuntado de azul estridente onde logo adivinhei a obra do meu
+Pr&iacute;ncipe. Uma toalha de linho de Guimar&atilde;es cobria a
+mesa, com as franjas ro&ccedil;ando o soalho. No fundo dos pratos
+de lou&ccedil;a forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a
+mesma lou&ccedil;a em que na nossa casa, em Gui&atilde;es, se
+servem os feij&otilde;es dos cavadores...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas no p&aacute;tio os c&atilde;es latiram. E Jacinto correu
+&agrave; varanda, com uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah,
+bem definitivamente se esfrangalhara aquela rede de malha que se
+n&atilde;o percebia e que outrora o travava!--Nesse momento
+apareceu o Grilo, de quinzena de linho, segurando em cada
+m&atilde;o uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou &laquo;em
+ver na quinta o si&ocirc; Fernandes&raquo;. Mas a sua veneranda
+face j&aacute; n&atilde;o resplandecia, como em Paris, com um
+t&atilde;o sereno e ditoso brilho de &eacute;bano. At&eacute; me
+pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquela
+mudan&ccedil;a, estendeu duvidosamente o bei&ccedil;o grosso:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[236]</span>--O menino gosta, eu ent&atilde;o
+tamb&eacute;m gosto... Que o ar aqui &eacute; muito bom, si&ocirc;
+Fernandes, o ar &eacute; muito bom!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, mais baixo, envolvendo num gesto desolado a lou&ccedil;a de
+Barcelos, as facas de cabo de osso, as prateleiras de pinho como
+num refeit&oacute;rio de Franciscanos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas muita magreza, si&ocirc; Fernandes, muita magreza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto voltava com um ma&ccedil;o de jornais cintados:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Era o carteiro. J&aacute; v&ecirc;s que n&atilde;o amuei
+inteiramente com a Civiliza&ccedil;&atilde;o. Eis a Imprensa!...
+Mas nada de <i>Figaro</i>_, ou da horrenda <i>Dois-Mundos</i>!
+Jornais de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
+messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
+necessita a abelha provida... <i>Quid faciat laetas segetes</i>...
+De resto para esta nobre educa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; me
+bastavam as <i>Ge&oacute;rgicas</i>, que tu ignoras!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu ri:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Alto l&aacute;! <i>Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium
+sabemus!</i><br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas o meu nov&iacute;ssimo amigo, debru&ccedil;ado da janela, batia
+as palmas--como Cat&atilde;o para chamar os servos, na Roma
+simples. E gritava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[237]</span>--Ana Vaqueira! Um copo de
+
+&aacute;gua, bem lavado, da fonte velha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Pulei, imensamente divertido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto! E as &aacute;guas carbonatadas? e as fosfatadas? e as
+esterilizadas? e as s&oacute;dicas?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe atirou os ombros com um desd&eacute;m
+soberbo. E aclamou a apari&ccedil;&atilde;o de um grande copo, todo
+embaciado pela frescura nevada da &aacute;gua refulgente, que uma
+bela mo&ccedil;a trazia num prato. Eu admirei sobretudo a
+mo&ccedil;a... Que olhos, de um negro t&atilde;o l&iacute;quido e
+s&eacute;rio! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que
+gra&ccedil;a de Ninfa latina!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E apenas pela porta desaparecera a espl&ecirc;ndida
+apari&ccedil;&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Jacinto, eu daqui a um instante tamb&eacute;m quero
+&aacute;gua! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de
+cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo...
+Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe sorria, com sinceridade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! n&atilde;o nos iludamos, Z&eacute; Fernandes, nem
+fa&ccedil;amos Arc&aacute;dia. &Eacute; uma bela mo&ccedil;a, mas
+uma bruta... N&atilde;o h&aacute; ali mais poesia, nem mais
+sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca
+taurina. Merece o <span class="pagenum">[238]</span>seu nome de Ana
+Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a
+Natureza, assim s&atilde; e rija; e ela cumpre. O marido todavia
+n&atilde;o parece contente, porque a desanca. Tamb&eacute;m
+
+&eacute; um belo bruto... N&atilde;o, meu filho, a serra &eacute;
+maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a f&ecirc;mea
+em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu ego&iacute;smo...
+S&atilde;o por&eacute;m verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E
+esta verdade, Z&eacute; Fernandes, &eacute; para mim um
+repouso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Lentamente, gozando a frescura, o sil&ecirc;ncio, a liberdade do
+vasto casar&atilde;o, retrocedemos &agrave; sala que Jacinto
+j&aacute; denominara a <i>Livraria</i>. E, de repente, ao avistar
+num canto uma caixa com a tampa meio despregada, quase me
+engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E os caixotes? Oh Jacinto?... Toda aquela imensa caixotaria que
+n&oacute;s mand&aacute;mos, abarrotada de
+Civiliza&ccedil;&atilde;o? Soubeste? Apareceram?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe parou, bateu alegremente na coxa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a
+tiracolo, que n&oacute;s admir&aacute;mos tanto pela sua
+sagacidade, o seu saber geogr&aacute;fico?... Lembras? Apenas falei
+em Tormes, gritou que conhecia, rabiscou <span class="pagenum">[239]</span>uma nota... Nem era necess&aacute;rio mais!
+
+&laquo;Oh! Tormes, perfeitamente, muito antigo, muito
+curioso!&raquo; Pois mandou tudo para Alba-de-Tormes, em Espanha!
+Est&aacute; tudo em Espanha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Cocei o queixo, desconsolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora, ora... Um homem t&atilde;o esperto, t&atilde;o expedito, que
+fazia tanta honra ao Progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste
+vir?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! Talvez mais tarde... Agora, Z&eacute; Fernandes,
+estou saboreando esta del&iacute;cia de me erguer pela
+manh&atilde;, e de ter s&oacute; uma escova para alisar o
+cabelo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Considerei, cheio de recorda&ccedil;&otilde;es, o meu amigo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tinhas umas nove...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma
+atrapalha&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o me bastavam!... Nunca em
+Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes:
+eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas
+ocupa&ccedil;&otilde;es: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui
+&uacute;til!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">
+
+<hr></div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes
+daquela quinta rica, que, atrav&eacute;s de duas l&eacute;guas,
+ondula por vale e monte. N&atilde;o me encontrara mais com Jacinto
+em meio da Natureza, desde o <span class="pagenum">[240]</span>remoto dia de entremez em que ele tanto
+sofrera no soci&aacute;vel e policiado bosque de Montmorency. Ah,
+mas agora, com que seguran&ccedil;a e id&iacute;lico amor ele se
+movia atrav&eacute;s dessa Natureza, donde andara tantos anos
+desviado por teoria e por h&aacute;bito! J&aacute; n&atilde;o
+arreceava a humidade mortal das relvas; nem repelia como
+impertinente o ro&ccedil;ar das ramagens; nem o sil&ecirc;ncio dos
+altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era com
+del&iacute;cias, com um consolado sentimento de estabilidade
+recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como
+no seu elemento natural e paterno: sem raz&atilde;o, deixava os
+trilhos f&aacute;ceis, para se embrenhar atrav&eacute;s de arbustos
+emaranhados, e receber na face a car&iacute;cia das folhas tenras;
+sobre os outeiros, parava, im&oacute;vel, retendo os meus gestos e
+quase o meu h&aacute;lito, para se embeber de sil&ecirc;ncio e de
+paz: e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo &agrave; beira de
+um regatinho palreiro, como se lhe escutasse a
+confid&ecirc;ncia...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo de um
+convertido, &aacute;vido de converter:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como a intelig&ecirc;ncia aqui se liberta, hein? E como tudo
+&eacute; animado de uma vida <span class="pagenum">[241]</span>forte e profunda!... Dizes tu agora,
+Z&eacute; Fernandes, que n&atilde;o h&aacute; aqui
+pensamento...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu?! Eu n&atilde;o digo nada, Jacinto...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois &eacute; uma maneira de reflectir muito estreita e muito
+grosseira...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora essa! Mas eu...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, n&atilde;o percebes. A vida n&atilde;o se limita a
+pensar, meu caro doutor...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Que n&atilde;o sou!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A vida &eacute; essencialmente Vontade e Movimento: e naquele
+peda&ccedil;o de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de
+impulsos, de for&ccedil;as que se revelam, e que atingem a sua
+express&atilde;o suprema, que &eacute; a Forma. N&atilde;o, essa
+tua filosofia est&aacute; ainda extremamente grosseira...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Irra! mas eu n&atilde;o...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E depois, menino, que inesgot&aacute;vel, que miraculosa
+diversidade de formas... E todas belas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Agarrava o meu pobre bra&ccedil;o, exigia que eu reparasse com
+rever&ecirc;ncia. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio
+ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte,
+se assemelhassem! Na Cidade, pelo contr&aacute;rio, cada casa
+repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma
+indiferen&ccedil;a ou a mesma inquieta&ccedil;&atilde;o; as ideias
+t&ecirc;m todas o mesmo valor, <span class="pagenum">[242]</span>o
+mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e at&eacute; o que
+h&aacute; mais pessoal e &iacute;ntimo, a Ilus&atilde;o, &eacute;
+
+em todos id&ecirc;ntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela
+como no mesmo nevoeiro... A <i>mesmice</i>_--eis o horror das
+Cidades!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. H&aacute; tr&ecirc;s
+semanas que cada manh&atilde; o vejo, e sempre me parece outro... A
+sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe
+comp&otilde;em uma express&atilde;o diversa e nova, sempre
+interessante. Nunca a sua frequenta&ccedil;&atilde;o me poderia
+fartar...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Eu murmurei:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; pena que n&atilde;o converse!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe recuou, com olhares chamejantes, de
+Ap&oacute;stolo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como que n&atilde;o converse? Mas &eacute; justamente um
+conversador sublime! Est&aacute; claro, n&atilde;o tem ditos, nem
+parola teorias, <i>ore rotundo</i>. Mas nunca eu passo junto dele
+que n&atilde;o me sugira um pensamento ou me n&atilde;o desvende
+uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
+Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal
+
+&eacute; isenta de trabalho, da ansiedade, do esfor&ccedil;o que a
+vida humana imp&otilde;e; n&atilde;o tem de se preocupar com o
+sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido
+<span class="pagenum">[243]</span>de Deus, Deus o nutre, sem que
+ele se mova ou se inquiete... E &eacute; esta seguran&ccedil;a que
+lhe d&aacute; tanta gra&ccedil;a e tanta majestade. Pois n&atilde;o
+achas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e
+especioso. Mas que importavam as requintadas met&aacute;foras, e
+essa Metaf&iacute;sica mal madura, colhida &agrave; pressa nos
+ramos de um castanheiro? Sob toda aquela ideologia transparecia uma
+excelente realidade--a reconcilia&ccedil;&atilde;o do meu
+Pr&iacute;ncipe com a Vida. Segura estava a sua
+Ressurrei&ccedil;&atilde;o depois de tantos anos de cova, da cova
+mole em que jazera, enfaixado como uma m&uacute;mia nas faixas do
+Pessimismo!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E o que esse Pr&iacute;ncipe, nesta tarde me esfalfou! Farejava,
+com uma curiosidade insaci&aacute;vel, todos os recantos da serra!
+Galgava os cabe&ccedil;os correndo, como na esperan&ccedil;a de
+descobrir l&aacute; do alto os esplendores nunca contemplados de um
+Mundo in&eacute;dito. E o seu tormento era n&atilde;o conhecer os
+nomes das &aacute;rvores, da mais rasteira planta brotando das
+fendas de um socalco... Constantemente me folheava como a um
+Dicion&aacute;rio Bot&acirc;nico.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais
+ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e n&atilde;o sei se
+aquele senhor al&eacute;m &eacute; um amieiro ou um sobreiro...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[244]</span>--&Eacute; um azinheiro,
+Jacinto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+J&aacute; a tarde ca&iacute;a quando recolhemos muito lentamente. E
+toda essa ador&aacute;vel paz do c&eacute;u, realmente celestial, e
+dos campos, onde cada folhinha conservava uma
+quieta&ccedil;&atilde;o contemplativa, na luz docemente desmaiada,
+pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava
+t&atilde;o profundamente Jacinto, que eu o senti, no sil&ecirc;ncio
+em que ca&iacute;ramos, suspirar de puro al&iacute;vio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois, muito gravemente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu dizes que na natureza n&atilde;o h&aacute; pensamento...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Outra vez! Olha que ma&ccedil;ada! Eu...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas &eacute; por estar nela suprimido o pensamento que lhe
+est&aacute; poupado o sofrimento! N&oacute;s, desgra&ccedil;ados,
+n&atilde;o podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos
+disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na
+fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam,
+aspirando a certezas que nunca se atingem!... E &eacute; o que
+aconselham estas colinas e estas &aacute;rvores &agrave; nossa
+alma, que vela e se agita:--que viva na paz de um sonho vago e nada
+apete&ccedil;a, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o Mundo
+rolar, n&atilde;o esperando dele sen&atilde;o um rumor de harmonia,
+que a embale e lhe favore&ccedil;a o <span class="pagenum">[245]</span>dormir dentro da m&atilde;o de Deus. Hein,
+n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez. Mas &eacute; necess&aacute;rio ent&atilde;o viver num
+mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta
+contos de renda e o desplante de certos Jacintos... E tamb&eacute;m
+me parece que and&aacute;mos l&eacute;guas. Estou derreado. E que
+fome!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
+espera...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bravo! Quem te cozinha?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! H&aacute;s-de ver a
+canja! H&aacute;s-de ver a cabidela! Ela &eacute; horrenda, quase
+an&atilde;, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que
+paladar! Que g&eacute;nio!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com efeito! Hor&aacute;cio dedicaria uma ode &agrave;quele cabrito
+assado num espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho
+Melchior, e a cabidela, em que a sublime an&atilde; de olhos tortos
+pusera inspira&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o da
+terra, e aquela do&ccedil;ura da noite de Junho, que pelas janelas
+abertas nos envolveu no seu veludo negro, t&atilde;o mole e
+t&atilde;o consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o
+caf&eacute;, ca&iacute; numa cadeira de verga, na mais larga, e de
+melhores almofadas, e atirei um berro de pura del&iacute;cia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[246]</span>Depois, com uma
+recorda&ccedil;&atilde;o, limpando o caf&eacute; do p&ecirc;lo dos
+bigodes:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Oacute; Jacinto, e quando n&oacute;s and&aacute;vamos por Paris
+com o Pessimismo &agrave;s costas, a gemer que tudo era
+ilus&atilde;o e dor?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre,
+trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que
+o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava
+ele, remexendo a ch&aacute;vena--o Pessimismo &eacute; uma teoria
+bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o
+sofrimento, alarga-o at&eacute; o tornar uma lei universal, a lei
+pr&oacute;pria da Vida; portanto lhe tira o car&aacute;cter
+pungente de uma injusti&ccedil;a especial, cometida contra o
+sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
+sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do
+nosso vizinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
+infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem
+se queixaria de ser coxo--se toda a humanidade coxeasse? E quais
+n&atilde;o seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na
+neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado
+<span class="pagenum">[247]</span>nos c&eacute;us para o envolver a
+ele unicamente--enquanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
+luminosa benignidade de uma Primavera?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa raz&atilde;o
+para urrar..<br>
+
+
+.<br>
+
+
+--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo &eacute;
+excelente para os Inertes, por que lhes atenua o desgracioso delito
+da In&eacute;rcia. Se toda a meta &eacute; um monte de Dor, onde a
+alma vai esbarrar, para qu&ecirc; marchar para a meta,
+atrav&eacute;s dos embara&ccedil;os do mundo? E de resto todos os
+L&iacute;ricos e Te&oacute;ricos do Pessimismo, desde
+Salom&atilde;o at&eacute; o maligno Schopenhauer, lan&ccedil;am o
+seu c&acirc;ntico ou a sua doutrina para disfar&ccedil;ar a
+humilha&ccedil;&atilde;o das suas mis&eacute;rias, subordinando-as
+todas a uma vasta lei de Vida, uma lei C&oacute;smica, e ornando
+assim com a aur&eacute;ola de uma origem quase divina as suas
+mi&uacute;das desgra&ccedil;azinhas de temperamento ou de Sorte. O
+bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo, quando
+
+&eacute; um fil&oacute;sofo sem editor, e um professor sem
+disc&iacute;pulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e
+esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas
+em grego nos perp&eacute;tuos lamentos da desconfian&ccedil;a; e
+vive nas adegas com o medo de inc&ecirc;ndios; e viaja com um copo
+de lata na algibeira para <span class="pagenum">[248]</span>n&atilde;o beber em vidro que bei&ccedil;os
+de leproso tivessem contaminado!... Ent&atilde;o Schopenhauer
+&eacute; sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na
+celebridade, e os seus miser&aacute;veis nervos se acalmam, e o
+cerca uma paz am&aacute;vel, n&atilde;o h&aacute; ent&atilde;o, em
+todo Francfort, burgu&ecirc;s mais optimista, de face mais jucunda,
+e gozando mais regradamente os bens da intelig&ecirc;ncia e da
+Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de
+Jerusal&eacute;m! quando descobre esse sublime Ret&oacute;rico que
+o mundo &eacute; Ilus&atilde;o e Vaidade? Aos setenta e cinco anos,
+quando o Poder lhe escapa das m&atilde;os tr&eacute;mulas, e o seu
+serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente
+sup&eacute;rfluo. Ent&atilde;o rompem os pomposos queixumes! Tudo
+
+&eacute; vaidade e afli&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito! nada
+existe est&aacute;vel sob o sol! Com efeito, meu bom
+Salom&atilde;o, tudo passa--principalmente o poder de usar
+trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho
+sult&atilde;o asi&aacute;tico, besuntado de Literatura, a sua
+virilidade,--e onde se sumir&aacute; o lamento do Eclesiastes?
+Ent&atilde;o voltar&aacute;, em segunda e triunfal
+edi&ccedil;&atilde;o, o &ecirc;xtase do <i>Livro dos
+Cantares</i>!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Assim discursava o meu amigo no nocturno sil&ecirc;ncio de Tormes.
+Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas
+joviais, profundas ou elegantes;--mas eu <span class="pagenum">[249]</span>adormecera, beatificamente envolto em
+Optimismo e do&ccedil;ura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em breve por&eacute;m, me fez pular, escancarar as p&aacute;lpebras
+moles, uma rija, larga, sadia e genu&iacute;na risada. Era Jacinto,
+estirado numa cadeira, que lia o D. Quixote... Oh bem aventurado
+Pr&iacute;ncipe! Conservara ele o agudo poder de arrancar teorias a
+uma espiga de milho ainda verde, e por uma clem&ecirc;ncia de Deus,
+que fizera reflorir o tronco seco, recuperara o dom divino de rir,
+com as fac&eacute;cias de Sancho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de buc&oacute;lica
+ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou
+ent&atilde;o a cerim&oacute;nia t&atilde;o falada, t&atilde;o
+meditada, a traslada&ccedil;&atilde;o dos ossos dos velhos
+Jacintos--dos &laquo;respeit&aacute;veis ossos&raquo; como
+murmurava, cumprimentando, o bom Silv&eacute;rio, o procurador,
+nessa manh&atilde; de sexta-feira, em que almo&ccedil;ava connosco,
+metido num espantoso jaquet&atilde;o de veludilho amarelo debruado
+de seda azul! A cerim&oacute;nia, de resto, reclamava muita
+singeleza por serem t&atilde;o incertos, quase impessoais, aqueles
+restos, que n&oacute;s estabelecer&iacute;amos na Capelinha do vale
+da Carri&ccedil;a, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria,
+ainda sem alma e sem calor de Deus.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Por que enfim V. Ex.&ordf; compreende,--explicava <span class="pagenum">[250]</span>o Silv&eacute;rio passando o guardanapo por
+sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas negras, como
+as de um turco--, naquela mix&oacute;rdia... Oh! pe&ccedil;o
+desculpa a V. Ex.&ordf;! Naquela confus&atilde;o, quando tudo
+desabou, n&atilde;o pudemos mais conhecer a quem pertenciam os
+ossos. Nem sequer, falando verdade, n&oacute;s sab&iacute;amos bem
+que dignos av&oacute;s de V. Ex.&ordf; jaziam na capela velha,
+assim t&atilde;o antigos, com os letreiros apagados, senhores de
+todo o nosso respeito, certamente, mas, se V. Ex.&ordf; me permite,
+senhores j&aacute; muito desfeitos... Depois veio o desastre, a
+mix&oacute;rdia. E aqui est&aacute; o que decidi, depois de pensar.
+Mandei arranjar tantos caix&otilde;es de chumbo, quantas as
+caveiras que se apanharam l&aacute; em baixo na Carri&ccedil;a,
+entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero
+dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada
+caveira em seu caix&atilde;o. Depois... Que quer V. Ex.&ordf;?
+N&atilde;o havia outro meio! E aqui o Sr. Fernandes dir&aacute; se
+n&atilde;o acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
+juntamos uma certa por&ccedil;&atilde;o de ossos, uma
+por&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel... N&atilde;o havia outro
+meio... Nem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo,
+faltavam! E &eacute; bem poss&iacute;vel que as costelas de um
+daqueles senhores ficasse com a cabe&ccedil;a de outro... Mas quem
+podia saber? S&oacute; Deus. Enfim <span class="pagenum">[251]</span>fizemos o que a prud&ecirc;ncia mandava...
+Depois, no dia de Ju&iacute;zo, cada um destes fidalgos
+apresentar&aacute; os ossos que lhe pertencerem.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Lan&ccedil;ava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de
+respeito, quase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu
+Pr&iacute;ncipe, os olhinhos agudos e reluzentes como
+vidrilhos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu aprovei o pitoresco homem:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silv&eacute;rio.
+S&atilde;o t&atilde;o vagos, t&atilde;o an&oacute;nimos, todos
+esses av&oacute;s! S&oacute; faz pena, grande pena, que se
+tresmalhassem os restos do av&ocirc; Gale&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o estava c&aacute;! acudiu Jacinto. Vim a Tormes
+expressamente por causa do av&ocirc; Gale&atilde;o, e por fim o seu
+jazigo nunca foi aqui, na Capelinha da Carri&ccedil;a...
+Felizmente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Silv&eacute;rio sacudia gravemente a calva trigueira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nunca tivemos o Ex.^<sup>mo</sup> Sr. Gale&atilde;o. H&aacute;
+
+cem anos, Sr. Fernandes, h&aacute; cem anos que se n&atilde;o
+depositava na capela velha corpo de cavalheiro c&aacute; da
+casa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Onde estar&aacute; ent&atilde;o?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe encolheu os ombros. Por esse Reino... Na
+igrejinha, no cemit&eacute;rio de alguma das freguesias numerosas,
+onde ele possu&iacute;a terras. Casa t&atilde;o espalhada!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[252]</span>--Bem! conclu&iacute;.
+Ent&atilde;o, como se trata de ossadas vagas, sem nome, sem data,
+conv&eacute;m uma ceremoniazinha muito simples, muito
+s&oacute;bria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Quietinha, quietinha! murmurou o Silv&eacute;rio, dando um forte
+sorvo assobiado ao caf&eacute;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E foi quietinha, de uma r&uacute;stica e doce singeleza, a
+cerim&oacute;nia daqueles altos senhores. Cedo, por uma
+manh&atilde;, levemente enevoada, os oito caix&otilde;es
+pequeninos, cobertos de um veludo vermelho mais de festa que de
+funeral, com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu
+montezinho de ossos incertos, sa&iacute;ram aos ombros dos coveiros
+de Tormes e dos mo&ccedil;os da quinta, da Igreja de S.
+Jos&eacute;, cujo sino leve tangia, na enevoada do&ccedil;ura da
+manh&atilde;,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
+triste. Adiante, um airoso mo&ccedil;o de sobrepeliz, erguia com
+zelo a velha cruz prateada; abrigando o pesco&ccedil;o sob um
+imenso len&ccedil;o de rap&eacute;, de quadrados azuis, o velho e
+corcovado sacrist&atilde;o segurava pensativamente a caldeirinha de
+
+&aacute;gua benta; e o bom abade de S. Jos&eacute;, com os dedos
+entre o brevi&aacute;rio fechado, movia os l&aacute;bios, numa
+lenta, murmurosa reza, que ia, pelo doce ar, espalhando mais
+do&ccedil;ura. Logo atr&aacute;s do &uacute;ltimo cofre, o mais
+pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto caminhava; e eu,
+<span class="pagenum">[253]</span>a estalar dentro de um fato preto
+de Jacinto, tirado &agrave; pressa de uma das malas de Paris
+quando, de manh&atilde;, j&aacute; tarde para mandar a
+Gui&atilde;es, me lembrei que toda a minha roupa era de cores
+festivais e pastoris.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Depois marchava o Silv&eacute;rio, solen&iacute;ssimo, com um
+imenso peitilho, onde as barbas imensas se alastravam,
+negr&iacute;ssimas. De casaca, com o grosso bei&ccedil;o
+desca&iacute;do, desca&iacute;do todo ele por aquela melancolia de
+enterro que se juntava &agrave; melancolia da serra, o Grilo
+enfiava no bra&ccedil;o a sua coroa, enorme, de rosas e de heras.
+Por fim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que,
+sumidas na sombra dos len&ccedil;os pretos, desfiando longos
+ros&aacute;rios, rosnavam surdas ave-marias, atrav&eacute;s de
+espa&ccedil;ados suspiros, t&atilde;o doridos como se
+inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim,
+pelas v&aacute;rzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos
+dos matos, escorregando mais r&aacute;pida, pelos c&oacute;rregos
+pedregosos, seguia a prociss&atilde;o, sempre com a cruz adiante,
+alta e prateada, rebrilhando por vezes num breve raiozinho de sol
+que, vagarosamente, surdia da n&eacute;voa desfeita. Ramos baixos
+de lod&atilde;o ou de salgueiro passavam uma derradeira
+car&iacute;cia sobre o veludo dos caix&otilde;es.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Um regato por vezes nos acompanhava, <span class="pagenum">[254]</span>com discreto fulgir entre as relvas,
+sussurrando e como rezando tamb&eacute;m, alegremente: e nos
+quintalinhos umbrosos, &agrave; nossa passagem, os galos, de cima
+das pilhas de mato, faziam soar o seu clarim festivo. Depois,
+adiante da fonte da Lira, como o caminho se alongava, e
+desej&aacute;ssemos poupar o nosso velho abade, cort&aacute;mos
+atrav&eacute;s de uma seara, j&aacute; alta, quase madura, toda
+entremeada de papoilas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levara
+a n&eacute;voa, toda a messe ondulou numa lenta vaga dourada, em
+que se balou&ccedil;avam os esquifes; e, como enorme papoila, a
+mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto pelo
+sacrist&atilde;o para abrigar o abade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Jacinto tocou no meu cotovelo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que lindos vamos! Ora v&ecirc; tu a Natureza... Num simples
+enterrar de ossos, quanta gra&ccedil;a e quanta beleza!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carri&ccedil;a,
+solit&aacute;ria e muito nua, no meio de um adro, ainda mal
+alisado, sem uma verdura de relva, uma frescura de arbusto, dois
+mo&ccedil;os seguravam &agrave; porta molhos de tochas, que o
+Silv&eacute;rio distribuiu, a passos graves, com cortesias,
+solen&iacute;ssimo. Dentro as curtas chamas, mal luziam, mal
+derramavam a sua amarelid&atilde;o triste, esbatidas na reluzente
+brancura <span class="pagenum">[255]</span>dos muros estacados, na
+jovial claridade que ca&iacute;a das altas vidra&ccedil;as bem
+polidas. Em torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados
+veludilhos recobriam, o abade murmurava um suave latim, enquanto ao
+fundo as mulheres, sumidas na sombra dos seus negros len&ccedil;os,
+gemiam <i>amens</i> agudos, abafavam um respeitoso solu&ccedil;o.
+Depois, tomando levemente o hissope, ainda o bom abade aspergiu,
+para uma derradeira purifica&ccedil;&atilde;o, os incertos ossos
+dos incertos Jacintos. E todos desfil&aacute;mos por diante do meu
+Pr&iacute;ncipe, timidamente encostado &agrave; ombreira, com o
+Silv&eacute;rio ao lado esmagando contra o peitilho as barbas
+imensas, a face desca&iacute;da, cerradas as p&aacute;lpebras como
+contendo l&aacute;grimas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No adro, o meu Pr&iacute;ncipe acendeu regaladamente um cigarro
+pedido ao Melchior:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E ent&atilde;o, Z&eacute; Fernandes, que te pareceu a
+cerimoniazinha?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma
+del&iacute;cia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, j&aacute;
+
+com o seu grande casaco de lustrina, e seu velho chap&eacute;u
+desabado, trazidos pelo mo&ccedil;o da Resid&ecirc;ncia, num saco
+de chita. Jacinto, imediatamente lhe agradeceu tantos cuidados, a
+af&aacute;vel hospitalidade <span class="pagenum">[256]</span>que
+oferecera aos ossos, durante a constru&ccedil;&atilde;o da
+Capelinha nova. E o suave velho, todo branquinho, de faces ainda
+menineiras e coradas, com um claro sorriso de dentes sadios,
+louvava Jacinto, que assim viera de t&atilde;o longe, em t&atilde;o
+longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S&atilde;o av&oacute;s muito remotos, e agora t&atilde;o
+confusos! murmurava Jacinto sorrindo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois mais m&eacute;rito ainda o de V. Ex.&ordf;. Respeitar um
+av&ocirc; morto, bem &eacute; corrente... Mas respeitar os ossos de
+um quinto av&ocirc;, de um s&eacute;timo av&ocirc;!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sobretudo, Sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente
+nada fizeram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E por fim,
+quem muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer
+que no mundo n&atilde;o h&aacute; coisa ou ser in&uacute;til. Ainda
+ontem eu lia num jornal do Porto, que por fim, segundo se
+descobriu, s&atilde;o as minhocas que estrumam e lavram a terra,
+antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At&eacute; as
+minhocas s&atilde;o &uacute;teis. N&atilde;o h&aacute; nada
+in&uacute;til... Eu tinha l&aacute; na resid&ecirc;ncia uma
+por&ccedil;&atilde;o de cardos a um canto da horta, que me
+afligiam. Pois reflecti e terminei por me regalar com eles em
+xarope. Os av&oacute;s de <span class="pagenum">[257]</span>V.
+Ex.&ordf; por c&aacute; andaram, por c&aacute; trabalharam, por
+c&aacute; padeceram. Quer dizer: por c&aacute; serviram. E, em todo
+o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma n&atilde;o lhes
+pode fazer sen&atilde;o bem, a eles e a n&oacute;s.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E assim, docemente filosofando, par&aacute;mos num souto de
+carvalheiras, onde esperava a velh&iacute;ssima &eacute;gua do
+Abade, por que o santo homem agora, depois do reumatismo do
+&uacute;ltimo Inverno, j&aacute; n&atilde;o afrontava rijamente
+como antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente
+Jacinto segurou o estribo. E enquanto a &eacute;gua se empurrava
+pelo c&oacute;rrego acima, quase tapada sob o imenso guarda-sol
+vermelho em que se abrigava o velho, n&oacute;s recolhemos a casa
+metendo pela serra da Lombinha, atrav&eacute;s dos milhos, e
+depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta do
+meu Pr&iacute;ncipe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&atilde;o pois acomodados estes senhores, Z&eacute; Fernandes!
+S&oacute; resta rezar por eles o Padre-Nosso, que recomenda o
+abade... Somente, eu n&atilde;o sei, j&aacute; n&atilde;o me lembro
+do Padre-Nosso.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o te aflijas, Jacinto: pe&ccedil;o &agrave; tia
+Vic&ecirc;ncia que reze por mim e por ti. &Eacute; sempre a tia
+Vic&ecirc;ncia que reza os meus Padres-Nossos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[258]</span>Durante essas semanas que
+preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma
+consider&aacute;vel evolu&ccedil;&atilde;o de Jacinto nas suas
+rela&ccedil;&otilde;es com a Natureza. Daquele per&iacute;odo
+sentimental de contempla&ccedil;&atilde;o, em que colhia teorias
+nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava Sistemas sobre o
+espumar das levadas, o meu Pr&iacute;ncipe lentamente passava para
+o desejo da Ac&ccedil;&atilde;o... E de uma ac&ccedil;&atilde;o
+directa e material, em que a sua m&atilde;o, enfim
+restitu&iacute;da a uma fun&ccedil;&atilde;o superior, revolvesse o
+torr&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Depois de tanto _comentar_, o meu Pr&iacute;ncipe, evidentemente,
+aspirava a <i>criar</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do
+tanque, enquanto o Manuel hortel&atilde;o apanhava laranjas no alto
+de uma escada arrimada a uma alta laranjeira, Jacinto observou,
+mais para si do que para mim:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; curioso... Nunca plantei uma &aacute;rvore!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Pois &eacute; um dos tr&ecirc;s grandes actos, sem os quais
+segundo diz n&atilde;o sei que Fil&oacute;sofo, nunca se foi um
+verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar uma &aacute;rvore,
+escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. &Eacute;
+poss&iacute;vel que talvez nunca prestasses um servi&ccedil;o a uma
+&aacute;rvore, como se presta a um semelhante!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[259]</span>--Sim... Em Paris, quando era
+pequeno, regava os lilases. E no Ver&atilde;o &eacute; um belo
+servi&ccedil;o! Mas nunca semeei.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como o Manuel descia da escada, o meu Pr&iacute;ncipe, que nunca
+acreditara inteiramente--pobre homem!--no meu saber
+agr&iacute;cola, imediatamente reclamou o parecer daquela
+autoridade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Manuel, ou&ccedil;a l&aacute;, o que &eacute; que se poderia
+agora semear?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com o cesto das laranjas enfiado no bra&ccedil;o, o Manuel
+exclamou, atrav&eacute;s de um lento riso, entre respeitoso e
+divertido:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Semear, patr&atilde;o? Agora &eacute; antes colher... Olhe que
+j&aacute; se anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu
+patr&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ent&atilde;o ali no
+pomar, rente do muro velho, n&atilde;o se podia plantar uma fila de
+pessegueiros?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O riso do Manuel crescia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Isso sim, meu senhor! Isso &eacute; l&aacute; para os Santos ou
+para o Natal. Agora s&oacute; a couvinha na horta, a beldroega, os
+espinafres, algum feij&atilde;ozinho em terra muito fresca...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe sacudiu com brando gesto estes legumes
+rasteiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas s&atilde;o da tal
+laranjeira que diz o Melchior, muito <span class="pagenum">[260]</span>doces, muito finas? Ent&atilde;o leve para os
+seus pequenos. Leve muitas para os pequenos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o! o empenho era criar a &aacute;rvore. Pela &aacute;rvore
+contemplada na serra em sua verdadeira majestade, na
+benefic&ecirc;ncia da sua sombra, na frescura embaladora do seu
+rumorejar, na gra&ccedil;a e santidade dos ninhos que a povoam,
+come&ccedil;ara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E
+agora sonhava uma Tormes toda coberta de &aacute;rvores, cujos
+frutos e verduras, e sombras, e rumorejos suaves, e abrigados
+ninhos, fossem a obra e o cuidado das suas m&atilde;os
+paternais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No sil&ecirc;ncio grave do crep&uacute;sculo, que descia, murmurou
+ainda:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes; quais s&atilde;o as &aacute;rvores que
+crescem mais depressa?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eh, meu Jacinto... A &aacute;rvore que cresce mais depressa
+&eacute; o eucalipto, o fei&iacute;ssimo e rid&iacute;culo
+eucalipto. Em seis anos tens a&iacute; Tormes coberta de
+eucaliptos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Tudo t&atilde;o lento, Z&eacute; Fernandes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar
+caro&ccedil;os que subissem em fortes troncos, se alargassem em
+verdes ramarias, antes de ele voltar ao 202, no come&ccedil;o do
+Inverno...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um carvalho!... Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo!
+&Eacute; bom para Deus, <span class="pagenum">[261]</span>que pode
+esperar... <i>Patiens quia aeternus.</i> Trinta anos! Daqui a
+trinta anos, &aacute;rvores s&oacute; para me cobrirem a
+sepultura!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; &eacute; um ganho. E depois para teus filhos,
+Jacinto...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Filhos! onde os tenho eu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. N&atilde;o
+faltam por a&iacute; terras agrad&aacute;veis... Em nove meses tens
+uma planta feita. E quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais
+essas plantas encantam.<br>
+
+
+
+Ele murmurou, cruzando as m&atilde;os sobre o joelho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo leva tanto tempo!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E &agrave; borda do tanque nos qued&aacute;mos, calados, na fresca
+do&ccedil;ura do anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas
+do muro, olhando o crescente da lua, que surdia dos telhados de
+Tormes. E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza
+n&atilde;o mais um sonhador, mas um criador, arremessou vivamente o
+seu interesse para os gados! Repetidamente, nos nossos passeios
+atrav&eacute;s da quinta, ele lhe notava a solid&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Faltam aqui animais, Z&eacute; Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Imaginava eu, que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de
+veados e pav&otilde;es. Mas um domingo, costeando o largo campo da
+<span class="pagenum">[262]</span>Ribeirinha, sempre escasso de
+&aacute;guas, agora mais ressequido por Ver&atilde;o de tanta
+secura, o meu Pr&iacute;ncipe parou a considerar os tr&ecirc;s
+carneiros do caseiro, que retou&ccedil;avam com pen&uacute;ria uma
+relvagem pobre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E, de repente, como magoado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Justamente! Aqui est&aacute; o espa&ccedil;o para um belo prado,
+um imenso prado, muito verde, muito farto, com rebanhos de
+carneiros brancos, gord&iacute;ssimos como bolas de algod&atilde;o
+pousadas na relva!... Era lindo, hein? &Eacute; f&aacute;cil,
+n&atilde;o &eacute; verdade, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Sim... Trazes a &aacute;gua para o prado. &Aacute;guas n&atilde;o
+faltam, na serra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o meu Pr&iacute;ncipe encadeando logo nesta inspirada ideia
+outra, mais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes
+encher esses prados, esses verdes ferragiais, de manadas de vacas,
+formosas vacas inglesas, bem n&eacute;dias e bem luzidias. Hein?
+Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais
+perfeitos, de uma arquitectura leve e &uacute;til, toda em ferro e
+vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela
+&aacute;gua... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vacas,
+e o leite jorrando, nada mais f&aacute;cil e mais divertido, e
+at&eacute; mais moral, que a instala&ccedil;&atilde;o de uma
+queijeira, &agrave; fresca moda Holandesa, toda branca e reluzente,
+de azulejos <span class="pagenum">[263]</span>e de m&aacute;rmore,
+para fabricar os Camemberts, os Bries... os Coulommiers... Para a
+casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois n&atilde;o te parece, Z&eacute; Fernandes?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Concerteza. Tu tens, em abund&acirc;ncia, os quatro Elementos: o
+ar, a &aacute;gua, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro
+elementos, facilmente se faz uma grande lavoura. Quanto mais uma
+queijeira!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois n&atilde;o &eacute; verdade? E at&eacute; como
+neg&oacute;cio! Est&aacute; claro, para mim o lucro &eacute; o
+deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
+queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
+paladar, incita a instala&ccedil;&otilde;es iguais, implanta talvez
+no pa&iacute;s uma ind&uacute;stria nova e rica! Ora com essa
+instala&ccedil;&atilde;o, perfeita, quanto me poder&aacute; custar
+cada queijo?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Fechei um olho, calculando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu te digo.... Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o
+Camembert ou o Raba&ccedil;al, pode vir a custar-te, a ti Jacinto
+queijeiro, entre duzentos e cinquenta e trezentos mil
+r&eacute;is.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe recuou, com dois olhos alegres espantados
+para mim.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como trezentos mil r&eacute;is?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<span class="pagenum">[264]</span>--Ponhamos duzentos... Tem a
+certeza! Com todos esses prados, e os encanamentos de &aacute;gua e
+a configura&ccedil;&atilde;o da serra alterada, e as vacas
+inglesas, e os edif&iacute;cios de porcelana e vidro, e as
+m&aacute;quinas, a extravag&acirc;ncia, e a patuscada
+buc&oacute;lica, cada queijo te custa, a ti produtor, duzentos mil
+r&eacute;is. Mas com certeza o vendes no Porto por um
+tost&atilde;o. P&otilde;e cinquenta r&eacute;is para a caixa,
+r&oacute;tulos, transporte, comiss&atilde;o, etc. Tens apenas, em
+cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e
+cinquenta r&eacute;is!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe n&atilde;o desanimou.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Perfeitamente! Fa&ccedil;o um desses espantosos queijos por
+semana, ao s&aacute;bado, para o comermos n&oacute;s ambos ao
+domingo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E tanta energia lhe comunicava o seu novo Optimismo, t&atilde;o
+ansiosamente aspirava a criar, que logo, arrastando o
+Silv&eacute;rio e o Melchior por cabe&ccedil;os e barrancos, largou
+a percorrer a quinta toda, para determinar onde cresceriam, ao seu
+mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes no
+sol de Tormes, os currais elegantes. Com a espl&ecirc;ndida
+seguran&ccedil;a dos seus cento e nove contos de renda, n&atilde;o
+surgia dificuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou
+exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silv&eacute;rio, <span class="pagenum">[265]</span>que ele n&atilde;o afastasse brandamente, com
+jeito leve, como um galho de roseira brava atravessado numa
+vereda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Aquelas rochas, al&eacute;m, empecendo? Que se arrancassem! Um vale
+importuno dividia dois campos? Que se atulhasse! O Silv&eacute;rio
+suspirava, enxugando sobre a escura calva um suor quase de
+ang&uacute;stia. Pobre Silv&eacute;rio! Rijamente sacudido na doce
+pachorra da sua administra&ccedil;&atilde;o, calculando despesas
+que se afiguravam sobre-humanas &agrave; sua parcim&oacute;nia
+serrana, for&ccedil;ado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de
+Junho, o desgra&ccedil;ado retomara na Serra o jeito que Jacinto
+deixara em Paris,--e era ele que corria pelas longas barbas
+tenebrosas os dedos desalentados... Enfim uma tarde desabafou
+comigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria,
+escrevia a um seu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da
+Corte, pedindo desenhos, e planos, e or&ccedil;amentos de uma
+queijeira perfeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, Sr. Fernandes, se toda esta grandeza vai por diante, sempre
+lhe digo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de
+contos... Dezenas de contos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como eu aludia &agrave; fortuna do meu Pr&iacute;ncipe, a quem
+todas essas obras t&atilde;o vastas, que alterariam o
+antiqu&iacute;ssimo rosto da serra, <span class="pagenum">[266]</span>n&atilde;o custavam mais que a outros o
+concerto de um socalco,--o bom Silv&eacute;rio atirou os longos
+bra&ccedil;os para as coxas gordas, ainda mais desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois por isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto
+n&atilde;o tivesse a dinheirama, recuava. Assim, &eacute;
+
+z&aacute;s z&aacute;s, para diante; e eu n&atilde;o o censuro pela
+ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.&ordf;, que me atirava
+tamb&eacute;m a uma lavoura de capricho. Mas n&atilde;o aqui, Sr.
+Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que
+possui aquela linda propriedade de Montemor, nos campos do Mondego,
+onde at&eacute; podia plantar jardins de desbancar os do
+Pal&aacute;cio de Cristal do Porto! E a Veleira? O Sr. Fernandes
+n&atilde;o conhece a Veleira, l&aacute; para os lados de Penafiel?
+Isso &eacute; um condado! E uma terra ch&atilde;, boa terra, toda
+junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr.
+Fernandes. Mas sobretudo Montemor! L&aacute; &eacute; que eram
+prados e manadas de vacas inglesas, e queijeira e horta rica, de
+fartar, e a&iacute; trinta perus na capoeira...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o que quer, Silv&eacute;rio? O Jacinto gosta da serra.
+E depois este &eacute; o solar da fam&iacute;lia, e aqui
+come&ccedil;aram no s&eacute;culo XIV os Jacintos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pobre Silv&eacute;rio, no seu desespero, esquecia <span class="pagenum">[267]</span>o respeito devido &agrave; secular nobreza da
+casa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ora! at&eacute; ficam mal ao Sr. Fernandes essas ideias, neste
+s&eacute;culo da liberdade... Pois estamos l&aacute; em tempos de
+se falar em fidalguias, agora que por toda a parte anda tudo em
+Rep&uacute;blica? Leia o <i>S&eacute;culo</i>, Sr. Fernandes! leia
+o <i>S&eacute;culo</i>, e ver&aacute;! E depois eu sempre quero ver
+o Sr. D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio
+logo pela manh&atilde;, e a friagem a trespassar os ossos, e
+ventanias que atiram carvalheiras de ra&iacute;zes ao ar, e chuvas
+e chuvas que se desfaz a serra!... Olhe, at&eacute; mesmo por amor
+da sa&uacute;de o Sr. D. Jacinto, que &eacute; fraquinho e
+acostumado &agrave; cidade, necessita sair da serra. Em Montemor,
+em Montemor &eacute; que S. Ex.&ordf; estava bem. E o Sr.
+Fernandes, t&atilde;o amigo dele e assim com tanta
+influ&ecirc;ncia, devia teimar, e berrar, at&eacute; que o levasse
+para Montemor.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas, infelizmente para a quieta&ccedil;&atilde;o do
+Silv&eacute;rio, Jacinto lan&ccedil;ara ra&iacute;zes, e rijas, e
+amorosas ra&iacute;zes na sua rude serra. Era realmente como se o
+tivessem plantado de estaca naquele antiqu&iacute;ssimo
+ch&atilde;o, donde brotara a sua ra&ccedil;a, e o
+antiqu&iacute;ssimo h&uacute;mus reflu&iacute;sse e o penetrasse
+todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase vegetal,
+t&atilde;o do <span class="pagenum">[261]</span>ch&atilde;o, e
+preso ao ch&atilde;o, como as &aacute;rvores que ele tanto
+amava.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E depois o que o prendia &agrave; serra era o ter nela encontrado o
+que na Cidade, apesar da sua sociabilidade, n&atilde;o encontrara
+nunca,--dias t&atilde;o cheios, t&atilde;o deliciosamente ocupados,
+de um t&atilde;o saboroso interesse, que sempre penetrava neles,
+como numa festa ou numa gl&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Logo de manh&atilde;, &agrave;s seis horas, eu, no meu quarto,
+mexendo ainda regaladamente o meu corpo nos colch&otilde;es de
+fresco folhelho, sentia os seus rijos sapat&otilde;es pelo
+corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas ditoso como o de um
+melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a minha porta,
+j&aacute; de chap&eacute;u desabado, j&aacute; de bengal&atilde;o
+de cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos
+conhecidos da serra. E era sempre a mesma nova, quase
+orgulhosa:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Dormi hoje deliciosamente, Z&eacute; Fernandes. T&atilde;o bem,
+com uma tal serenidade, que come&ccedil;o a acreditar que sou um
+justo! Um dia lindo! Quando abri a janela, &agrave;s cinco horas,
+quase gritei de puro gosto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e
+quando eu repetia a risca mal come&ccedil;ada do cabelo, aquele
+antigo homem das trinta e nove escovas, protestava <span class="pagenum">[269]</span>contra esse desbarato efeminado de um tempo
+devido aos fortes gozos da terra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no p&aacute;tio,
+desemboc&aacute;vamos da alameda de pl&aacute;tanos, e diante de
+n&oacute;s se dividiam matutinamente, mais brancos entre o verde
+matutino, os caminhos coleantes da quinta, toda a sua pressa
+findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentid&atilde;o
+de quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser
+
+&laquo;contr&aacute;rio &agrave; Est&eacute;tica, &agrave;
+Filosofia e &agrave; Religi&atilde;o, andar depressa atrav&eacute;s
+dos campos.&raquo; De resto, com aquela subtil sensibilidade
+buc&oacute;lica que nele se desenvolvera, e incessantemente se
+afinava, qualquer breve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para
+um longo encanto. Ditosamente poderia ele entreter toda uma
+manh&atilde;, caminhar por entre um pinheiral, de tronco a tronco,
+calado, embebido no sil&ecirc;ncio, na frescura, no resinoso aroma,
+empurrando com o p&eacute; as agulhas e as pinhas secas. Qualquer
+
+&aacute;gua corrente o retinha, enternecido naquela servi&ccedil;al
+actividade, que se apressa, cantando, para o torr&atilde;o que tem
+sede, e nele se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve
+meio domingo, depois da Missa, no cabe&ccedil;o, junto a um velho
+curral desmantelado, sob uma grande &aacute;rvore,--s&oacute; por
+que em torno havia quieta&ccedil;&atilde;o, <span class="pagenum">[270]</span>doce aragem, um fino piar de ave na ramaria,
+um murm&uacute;rio de regato entre canas verdes, e por sobre a
+sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco, de flores
+escondidas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, quando eu, velho familiar das serras, me n&atilde;o
+abandonava aos mesmos &ecirc;xtases que a ele lhe enchiam a alma
+ainda novi&ccedil;a--o meu Pr&iacute;ncipe rugia, com a
+indigna&ccedil;&atilde;o de um poeta que descobre um merceeiro
+bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Meu filho, olha que eu n&atilde;o passo de um pequeno
+propriet&aacute;rio. Para mim n&atilde;o se trata de saber se a
+terra &eacute; <i>linda</i>, mas se a terra &eacute; <i>boa</i>.
+Olha o que diz a B&iacute;blia! &laquo;Trabalhar&aacute;s a quinta
+com o suor do teu rosto!&raquo; E n&atilde;o diz
+
+&laquo;contemplar&aacute;s a quinta com o enlevo da tua
+imagina&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pudera! exclamava o meu Pr&iacute;ncipe. Um livro escrito por
+Judeus, por &aacute;speros semitas, sempre com o turvo olho posto
+no lucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue
+n&atilde;o pensar, por um momento, nos trinta mil r&eacute;is que
+ele rende! Ver&aacute;s que pela sua beleza e gra&ccedil;a ele te
+d&aacute; mais contentamento &agrave; alma que os trinta mil
+r&eacute;is ao corpo. E na vida s&oacute; a alma importa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Recolhendo ao casar&atilde;o, j&aacute; o encontr&aacute;vamos com
+as janelas meio cerradas, os soalhos <span class="pagenum">[271]</span>borrifados para aquelas quentes
+r&eacute;stias de sol de Junho, que depois do almo&ccedil;o
+docemente nos retinham na livraria, pregui&ccedil;ando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas realmente a alegre actividade do meu Pr&iacute;ncipe n&atilde;o
+cessava, nem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto
+pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o sol mesmo
+parecia repousar, im&oacute;vel na rutil&acirc;ncia da sua luz,
+Jacinto com o esp&iacute;rito acordado,--&aacute;vido de sempre
+gozar, agora que reconquistara essa faculdade,--tomava com
+del&iacute;cia o <i>seu livro</i>. Por que o dono de trinta mil
+volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o
+homem que s&oacute; tem um livro. Essa mesma Natureza, que o
+desligara das ligaduras amortalhadoras do t&eacute;dio, e lhe
+gritara o seu belo <i>Ambula</i>, caminha!--tamb&eacute;m
+certamente lhe gritara <i>et lege</i>, e l&ecirc;. E libertado
+enfim do inv&oacute;lucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu
+ditoso amigo compreendia enfim a incompar&aacute;vel del&iacute;cia
+de <i>ler um livro</i>. Quando eu correra a Tormes, (depois das
+revela&ccedil;&otilde;es do Severo na venda do Torto,) ele findava
+o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as
+coisas deliciosas, e de certo profundas, que o gordo Sancho lhe
+murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu
+Pr&iacute;ncipe mergulhara na <i>Odisseia</i>,--e todo <span class="pagenum">[272]</span>ele vivia no espanto e no deslumbramento de
+assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o velho
+errante, o velho Homero!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh Z&eacute; Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade
+sem ter lido Homero?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Outras leituras, mais urgentes... O <i>Figaro</i>, George
+Ohnet...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu leste a <i>Il&iacute;ada</i>?<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a
+<i>Il&iacute;ada</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Os olhos do meu Pr&iacute;ncipe fuzilavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu sabes o que fez Alcib&iacute;ades, uma tarde, no
+P&oacute;rtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que
+se gabava de n&atilde;o ter lido a <i>Il&iacute;ada</i>?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ergueu a m&atilde;o e atirou-lhe uma bofetada tremenda.<br>
+
+
+--Para l&aacute;, Alcib&iacute;ades! Olha que eu li a
+<i>Odisseia</i>!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E
+insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, atrav&eacute;s do Livro
+sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almo&ccedil;o, terminava por
+consentir, e me estirava no canap&eacute; de verga. Ele, diante da
+mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente,
+pontificalmente, como um missal, e come&ccedil;ava <span class="pagenum">[273]</span>numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da
+
+<i>Odisseia</i>,-- resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul,
+sob o voo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando
+sobre a areia fina ou contra as rochas de m&aacute;rmore das Ilhas
+divinas,--exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora
+naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as
+estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos
+sobre-humanos, tantas lam&uacute;rias sublimes, e um anseio
+t&atilde;o espalhado da P&aacute;tria perdida, e toda aquela
+intriga, em que embrulhava os Her&oacute;is, lograva as Deusas,
+iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes,
+onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se
+desenrolava com a seguran&ccedil;a imut&aacute;vel com que cada
+manh&atilde; sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos,
+regados por &aacute;guas iguais, seguramente medravam, espigavam,
+amadureciam... Embalado pela recita&ccedil;&atilde;o grave e
+mon&oacute;tona do meu Pr&iacute;ncipe, eu cerrava as
+p&aacute;lpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e
+c&eacute;u, me alvoro&ccedil;ava... E eram os rugidos de Polifemo,
+ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo.
+Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava:
+
+<span class="pagenum">[274]</span><i>Sublime!</i> E sempre, nesse
+momento o engenhoso Ulisses, de carapu&ccedil;o vermelho e o longo
+remo ao ombro, surpreendia com a sua fac&uacute;ndia a
+clem&ecirc;ncia dos Pr&iacute;ncipes, ou reclamava presentes
+devidos ao H&oacute;spede, ou surripiava astutamente algum favor
+aos Deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu
+cerrava as p&aacute;lpebras consoladas, sob a car&iacute;cia
+inef&aacute;vel do largo dizer hom&eacute;rico... E meio
+adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
+H&eacute;lade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca
+vela, hesitante, procurando &Iacute;taca...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Depois da sesta o meu Pr&iacute;ncipe de novo se soltava para os
+campos. E a essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos
+&laquo;seus planos&raquo;, a essas culturas de luxo e elegantes
+oficinas que cobririam a serra de magnific&ecirc;ncias rurais.
+Agora andava todo no espl&ecirc;ndido apetite de uma horta que ele
+concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes,
+cl&aacute;ssicos ou ex&oacute;ticos, cresceriam, soberbamente, em
+vistosos talh&otilde;es, fechados por sebes de rosas, de cravos, de
+alfazema, de d&aacute;lias. A &aacute;gua das regas desceria por
+lindos c&oacute;rregos de lou&ccedil;a esmaltada. Nas ruas, a
+sombra cairia de densas latadas <span class="pagenum">[275]</span>de moscatel, pousando em esteios revestidos
+de azulejo. E o meu Pr&iacute;ncipe desenhara o plano desta
+espantosa horta, a l&aacute;pis vermelho, num papel imenso, que o
+Melchior e o Silv&eacute;rio, consultados, longamente
+contemplaram,--um co&ccedil;ando risonhamente a nuca, o outro com
+os bra&ccedil;os duramente cruzados, e o sobrolho
+tr&aacute;gico.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso,
+de um pombal t&atilde;o povoado que todo o c&eacute;u de Tormes
+&agrave;s tardes se tornaria branco e todo fremente de
+asas--n&atilde;o sa&iacute;am das nossas gostosas palestras, ou dos
+pap&eacute;is em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre
+a mesa, plat&oacute;nicos, im&oacute;veis, entre o tinteiro de
+lat&atilde;o e o vaso com flores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra
+serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a
+resist&ecirc;ncia rebolada e escorregadia do Melchior, contra a
+respeitosa in&eacute;rcia do Silv&eacute;rio se quedavam,
+encalhados, os planos do meu Pr&iacute;ncipe, como galeras vistosas
+em rochas ou em lodo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o convinha bulir em nada, (clamava o Silv&eacute;rio)
+antes das colheitas e da vindima! E depois, (acrescentava o
+Melchior com um sorriso <span class="pagenum">[276]</span>de grande
+promessa) &laquo;para boas obras m&ecirc;s de Janeiro&raquo; porque
+l&aacute; ensina o ditado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="quote">Em Janeiro--mete obreiro<br>
+
+
+M&ecirc;s meante--que n&atilde;o ante.</div>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar,
+estendendo a bengala por cima de vale e monte, os s&iacute;tios
+privilegiados que elas aformoseariam, bastava por ora ao meu
+Pr&iacute;ncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto
+meditava estas transforma&ccedil;&otilde;es da terra, muito
+progressivamente e com um am&aacute;vel esfor&ccedil;o, se ia
+familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua
+chegada a Tormes, o meu Pr&iacute;ncipe sofria de uma estranha
+timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e at&eacute; de
+qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto.
+Nunca ele ent&atilde;o se demoraria a conversar com os
+mo&ccedil;os, quando &agrave; borda de um caminho ou num campo em
+monda eles se endireitavam de chap&eacute;u na m&atilde;o, num
+respeito de velha vassalagem. De certo o empecia a pregui&ccedil;a,
+e talvez ainda o p&uacute;dico recato de transpor toda a imensa
+dist&acirc;ncia que se alargava desde a sua complicada
+super-civiliza&ccedil;&atilde;o at&eacute; &agrave; rude
+simplicidade daquelas <span class="pagenum">[277]</span>almas
+naturais:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua
+ignor&acirc;ncia da lavoura e da terra, ou de parecer talvez
+desdenhoso de ocupa&ccedil;&otilde;es e de interesses, que para os
+outros eram supremos e quase religiosos. Remia ent&atilde;o esta
+reserva com uma profus&atilde;o de sorrisos, de doces acenos,
+tirando tamb&eacute;m o chap&eacute;u em cortesias profundas, com
+uma tal &ecirc;nfase de polidez que eu por vezes receava que ele
+murmurasse aos jornaleiros: &laquo;Tenha V. Ex.&ordf; muito boas
+tardes;... Criado de V. Ex.&ordf;!&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de j&aacute; saber
+(com um saber ainda fr&aacute;gil,) a &eacute;poca das sementeiras
+e das ceifas, e que as &aacute;rvores de fruta se semeiam no
+Inverno, j&aacute; se aprazia em parar junto dos trabalhadores,
+contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas af&aacute;veis
+e vagas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, isso vai andando?... Ora ainda bem!... Este bocado
+de torr&atilde;o aqui &eacute; rico... O talude ali adiante
+est&aacute; precisando conserto...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E cada um destes t&atilde;o simples dizeres lhe era doce, como se
+por meio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
+consolidasse a sua encarna&ccedil;&atilde;o em &laquo;homem do
+campo,&raquo; deixando de ser uma mera sombra circulando entre
+realidades. J&aacute; por isso <span class="pagenum">[278]</span>n&atilde;o cruzava no caminho o mocinho
+atr&aacute;s das vacas, que n&atilde;o o detivesse, o n&atilde;o
+interrogasse: &laquo;Para onde vais tu? De quem &eacute; o gado?
+Como te chamas?&raquo; E, contente consigo, sempre gabava
+gratamente o desembara&ccedil;o do rapaz, ou a esperteza dos seus
+olhos. Outra satisfa&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe era
+conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes de &aacute;gua,
+e as delimita&ccedil;&otilde;es da sua quinta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--V&ecirc;s acol&aacute;, para al&eacute;m do ribeiro, o pinheiral.
+J&aacute; n&atilde;o &eacute; meu, &eacute; dos Albuquerques.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E com a perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto
+casar&atilde;o, eram f&aacute;ceis e curtas. O meu Pr&iacute;ncipe
+era ent&atilde;o uma alma que se simplificava:--e qualquer
+pequenino gozo lhe bastava, desde que nele entrasse paz ou
+do&ccedil;ura. Com verdadeira del&iacute;cia ficava, depois do
+caf&eacute;, estendido numa cadeira, sentindo atrav&eacute;s das
+janelas abertas, a nocturna tranquilidade da serra, sob a mudez
+estrelada do c&eacute;u.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+As hist&oacute;rias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe
+contava, de Gui&atilde;es, do abade, da tia Vic&ecirc;ncia, dos
+nossos parentes da Flor da Malva, t&atilde;o sinceramente o
+interessavam que eu encetara, para seu regalo, a cr&oacute;nica
+completa de Gui&atilde;es, com todos os namoricos, e as
+fa&ccedil;anhas de for&ccedil;as, e as desaven&ccedil;as por causa
+de servid&otilde;es ou de &aacute;guas. Tamb&eacute;m <span class="pagenum">[279]</span>por vezes nos enfronh&aacute;vamos, com
+aferro numa partida de gam&atilde;o, sobre um belo tabuleiro de pau
+preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o
+Silv&eacute;rio. Mas nada de certo o encantava tanto como
+atravessar as casas, p&eacute; ante p&eacute;, at&eacute; uma
+saleta que dava para o pomar, e a&iacute; ficar encostado &agrave;
+
+janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente,
+languidamente, os rouxin&oacute;is que cantavam no laranjal.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>X</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Numa dessas manh&atilde;s--justamente na v&eacute;spera do meu
+regresso a Gui&atilde;es--, o tempo, que andara pela serra
+t&atilde;o alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo
+vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando
+toda a natureza, desde os p&aacute;ssaros at&eacute; os regatos,
+subitamente, com uma daquelas mudan&ccedil;as que tornam o seu
+temperamento t&atilde;o semelhante ao do homem, apareceu triste,
+carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza
+t&atilde;o pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E
+n&atilde;o houve mais p&aacute;ssaro que cantasse, e os arroios
+fugiram para debaixo das ervas com um lento murm&uacute;rio de
+choro.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Quando Jacinto entrou no meu quarto, n&atilde;o resisti &agrave;
+mal&iacute;cia de o aterrar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
+&aacute;gua, Sr. D. Jacinto! <span class="pagenum">[282]</span>Talvez duas semanas de &aacute;gua! E agora
+&eacute; se vai saber quem &eacute; aqui o fino amador da Natureza,
+com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a
+escorrer!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe caminhou para a janela com as m&atilde;os nas
+algibeiras:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito! Est&aacute; carregado. J&aacute; mandei abrir uma das
+malas de Paris e tirar um casac&atilde;o imperme&aacute;vel...
+N&atilde;o importa! Fica o arvoredo mais verde. E &eacute; bom que
+eu conhe&ccedil;a Tormes nos seus h&aacute;bitos de Inverno.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas como o Melchior lhe afian&ccedil;ara que a &laquo;chuvinha
+s&oacute; viria para a tarde&raquo;, Jacinto decidiu ir antes de
+almo&ccedil;o &agrave; Corujeira, onde o Silv&eacute;rio o esperava
+para decidirem da sorte de uns castanheiros, muito velhos, muito
+pitorescos, inteiramente interessantes, mas j&aacute;
+ro&iacute;dos, e amea&ccedil;ando desabar. E, confiando nas
+previs&otilde;es do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse
+&agrave; prova de &aacute;gua. N&atilde;o and&aacute;ramos
+por&eacute;m meio caminho, quando, depois de um arrepio nas
+
+&aacute;rvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre
+n&oacute;s uma grossa chuva obl&iacute;qua, vergastada pelo vento,
+que nos deixou estonteados, agarrando os chap&eacute;us,
+enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se
+esgani&ccedil;ava no vento, avist&aacute;mos num campo mais alto,
+&agrave; beira de um alpendre, o Silv&eacute;rio, debaixo de um
+<span class="pagenum">[283]</span>guarda-chuva vermelho, que
+acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquele abrigo. E
+para l&aacute; rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando
+na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que num
+instante alagara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra
+dos socalcos, lan&ccedil;ara num desespero todo o arvoredo, tornara
+a serra negra, bravamente agreste, hostil, inabit&aacute;vel.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o
+Silv&eacute;rio nos esperava &agrave; beira do campo, corremos para
+o alpendre, nos refugi&aacute;mos naquele abrigo inesperado, a
+escorrer, a arquejar, o meu Pr&iacute;ncipe, enxugando a face,
+enxugando o pesco&ccedil;o, murmurou, desfalecido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Apre! que ferocidade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Parecia espantado daquela brusca, violenta c&oacute;lera de uma
+serra t&atilde;o am&aacute;vel e acolhedora, que em dois meses,
+inalteradamente, s&oacute; lhe oferecera do&ccedil;ura e sombra, e
+suaves c&eacute;us, e quietas ramagens, e murm&uacute;rios
+discretos de ribeirinhos mansos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Imediatamente o Silv&eacute;rio aterrou o meu Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Isto agora s&atilde;o brincadeiras de Ver&atilde;o, <span class="pagenum">[284]</span>meu senhor! Mas h&aacute;-de V. Ex.&ordf; ver
+no Inverno, se V. Ex.&ordf; se aguentar por c&aacute;! Ent&atilde;o
+
+&eacute; cada temporal, que at&eacute; parece que os montes
+estremecem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E contou como fora tamb&eacute;m apanhado, quando ia para a
+Corujeira. Felizmente, logo pela manh&atilde;, quando sentiu o ar
+carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelara com o
+chap&eacute;u de chuva e cal&ccedil;ara as suas grandes botas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que &eacute; um
+caseiro de c&aacute;. Aquela casa, ali abaixo, onde est&aacute; a
+figueira... Mas a mulher tem estado doente, j&aacute; h&aacute;
+
+dias... E como pode ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o
+valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Meti para o
+alpendre... E n&atilde;o passara um credo quando lobriguei a V.
+Ex.&ordf;... Coisa assim!... E o Sr. D. Jacinto &eacute; voltar
+para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de
+&aacute;gua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas, justamente, a chuva come&ccedil;ara a cair perpendicular, de
+um c&eacute;u ainda negro, onde o vento se calara; e para
+al&eacute;m do rio e dos montes havia uma claridade, como entre
+cortinas de pano cinzento que se descerram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto repousava. Eu n&atilde;o cessara de me sacudir, de bater os
+p&eacute;s encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silv&eacute;rio,
+passando <span class="pagenum">[285]</span>a m&atilde;o pensativa
+sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
+progn&oacute;sticos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, n&atilde;o senhor... Ainda estia! Nunca pensei. &Eacute;
+que tornejou o vento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em
+&acirc;ngulo, de pedra solta, restos de algum casebre desmantelado,
+e sobre um esteio fazendo cunhal. Nesse momento s&oacute; abrigava
+madeira, um cuculo de cestos vazios, e um carro de bois, onde o meu
+Pr&iacute;ncipe se sentara, enrolando um cigarro confortador. A
+chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos
+tr&ecirc;s nos cal&aacute;vamos, naquela contempla&ccedil;&atilde;o
+inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre
+imobiliza e ret&eacute;m olhos e almas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Oacute; Sr. Silv&eacute;rio, murmurou lentamente o meu
+Pr&iacute;ncipe, que &eacute; que o senhor esteve a&iacute; a dizer
+de bexigas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O procurador voltou a face surpreendido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu, Ex.<sup>mo</sup> Sr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira!
+
+&Eacute; que pode ser, pode ser... N&atilde;o imagine V. Ex.&ordf;
+que faltam por c&aacute; doen&ccedil;as. O ar &eacute; bom.
+N&atilde;o digo que n&atilde;o! Arzinho s&atilde;o, aguazinha leve.
+Mas &agrave;s vezes, se V. Ex.&ordf; me d&aacute; licen&ccedil;a,
+vai por a&iacute; muita maleita.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas n&atilde;o h&aacute; m&eacute;dico, n&atilde;o h&aacute;
+botica?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[286]</span>O Silv&eacute;rio teve o riso
+superior de quem habita regi&otilde;es civilizadas e bem
+providas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Ent&atilde;o n&atilde;o havia de haver? Pois h&aacute; um
+botic&aacute;rio, em Gui&atilde;es, l&aacute; quase ao p&eacute; da
+casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, Sr.
+Fernandes? Homem capaz. M&eacute;dico &eacute; o Dr. Avelino, daqui
+a l&eacute;gua e meia, nas Bolsas. Mas j&aacute; V. Ex.&ordf;
+
+v&ecirc;, esta gentinha &eacute; pobre!... Tomaram eles para
+p&atilde;o, quanto mais para rem&eacute;dios!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E de novo se estabeleceu um sil&ecirc;ncio, sob o alpendre, onde
+penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para al&eacute;m
+do rio, a prometedora claridade n&atilde;o se alargara entre as
+duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive diante de
+n&oacute;s, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminara
+por me sentar na ponta de um madeiro, enervado, j&aacute; com a
+fome agu&ccedil;ada pela manh&atilde; agreste. E Jacinto, na borda
+do carro, com os p&eacute;s no ar, cofiava os bigodes
+h&uacute;midos, palpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera
+a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E, ent&atilde;o, surdiu por tr&aacute;s da parede do alpendre um
+rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita
+mi&uacute;da, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes
+olhos pretos se arregalavam para n&oacute;s, com <span class="pagenum">[287]</span>vago pasmo e vago medo. Silv&eacute;rio
+imediatamente o conheceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Como vai a tua m&atilde;e? Escusas de te chegar para c&aacute;,
+deixa-te estar a&iacute;. Eu ou&ccedil;o bem. Como vai a tua
+m&atilde;e?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram.
+Mas Jacinto, interessado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem &eacute; a tua
+m&atilde;e?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Foi o Silv&eacute;rio que informou respeitosamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; a tal mulher que est&aacute; doente, a mulher do
+Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo
+deste... Filharada n&atilde;o lhe falta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas este pequeno tamb&eacute;m parece doente!--exclamou Jacinto.
+Coitadito, t&atilde;o amarelo!... Tu tamb&eacute;m est&aacute;s
+doente?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos
+pasmados. E o Silv&eacute;rio sorria, com bondade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nada! este &eacute; s&atilde;ozinho... Coitado, &eacute; assim
+amarelado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.&ordf;? Mal
+comido! muita mis&eacute;ria... Quando h&aacute; o bocadito de
+p&atilde;o &eacute; para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[288]</span>--Fome? Ent&atilde;o ele tem
+fome? H&aacute; aqui gente com fome?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora
+a mim, ora ao Silv&eacute;rio, a confirma&ccedil;&atilde;o desta
+mis&eacute;ria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Homem! est&aacute; claro que h&aacute; fome! Tu imaginavas talvez
+que o Para&iacute;so se tinha perpetuado aqui nas serras, sem
+trabalho e sem mis&eacute;ria... Em toda a parte h&aacute; pobres,
+at&eacute; na Austr&aacute;lia, nas minas de ouro. Onde h&aacute;
+trabalho h&aacute; proletariado, seja em Paris, seja no
+Douro...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe, teve um gesto de aflita
+impaci&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu n&atilde;o quero saber o que h&aacute; no Douro. O que eu
+pergunto &eacute; se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro
+destes campos que s&atilde;o meus, h&aacute; gente que trabalhe
+para mim, e que tenha fome... Se h&aacute; criancinhas, como esta,
+esfomeadas? &Eacute; o que eu quero saber.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Silv&eacute;rio sorria, respeitosamente, ante aquela
+c&acirc;ndida ignor&acirc;ncia das realidades da Serra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois est&aacute; bem de ver, meu senhor, que h&aacute; para
+a&iacute; caseiros que s&atilde;o muito pobres. Quase todos...
+&Eacute; uma mis&eacute;ria, que se n&atilde;o fosse algum socorro
+que se lhes d&aacute;, nem eu <span class="pagenum">[289]</span>sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos
+que tem, &eacute; uma desgra&ccedil;a... Havia V. Ex.&ordf; de ver
+as casitas em que eles vivem... S&atilde;o chiqueiros. A do
+Esgueira, acol&aacute;...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos v&ecirc;-la! atalhou Jacinto com uma decis&atilde;o
+exaltada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E saiu logo do alpendre, sem atender &agrave; chuva, que ainda
+ca&iacute;a, mais leve e mais rala. Mas ent&atilde;o
+Silv&eacute;rio alargou os bra&ccedil;os diante dele, com
+ansiedade, como para o salvar de um precip&iacute;cio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o! V. Ex.&ordf; l&aacute; na casa do Esgueira &eacute;
+
+que n&atilde;o entra! N&atilde;o se sabe o que a mulher tem, e
+cautela e caldo de galinha...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto n&atilde;o se alterou na sua polidez paciente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Obrigado pelo seu cuidado, Silv&eacute;rio... Abra o seu
+chap&eacute;u de chuva, e avante!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o Procurador vergou os ombros, e, como S. Ex.&ordf;
+
+mandava, abriu com estrondo o imenso p&aacute;ra-&aacute;guas,
+abrigou respeitosamente Jacinto, atrav&eacute;s do campo
+encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus
+mandava &agrave;quele pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
+Atr&aacute;s vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
+solta, sem reboco, <span class="pagenum">[290]</span>com um vago
+telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude
+porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a
+gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, atrav&eacute;s
+de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos
+de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos ro&iacute;dos de
+musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros
+cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos
+espelhados, que tornavam deliciosa, para uma &Eacute;cloga, aquela
+morada da Fome, da Doen&ccedil;a e da Tristeza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silv&eacute;rio
+empurrou a porta, chamando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eh! tia Maria... Ol&aacute; rapariga!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E na fenda entreaberta apareceu uma mo&ccedil;a, muito alta, escura
+e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para
+n&oacute;s, serenamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o como vai a tua m&atilde;e?--Abre l&aacute; a porta,
+que est&atilde;o aqui estes senhores...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada
+mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora, coitada! como h&aacute;-de ir? Malzinha... malzinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E dentro, num gemido que subia como <span class="pagenum">[291]</span>do ch&atilde;o, dentre abafos, amodorrado e
+lento, a m&atilde;e repetiu a desconsolada queixa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Silv&eacute;rio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em
+riste, meio aberto, como um escudo contra a infec&ccedil;&atilde;o,
+lan&ccedil;ou uma consola&ccedil;&atilde;o vaga:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o h&aacute;-de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem!
+N&atilde;o foi sen&atilde;o friagem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; V. Ex.&ordf; v&ecirc;... Muita mis&eacute;ria!
+At&eacute; lhe chove l&aacute; dentro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E, no peda&ccedil;o de ch&atilde;o que viam, ch&atilde;o de terra
+batida, uma mancha h&uacute;mida reluzia, da chuva pingada de uma
+telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas
+fumara&ccedil;as da lareira, era t&atilde;o negra como o
+ch&atilde;o. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem
+escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s&oacute;
+
+mostravam forma compreens&iacute;vel uma arca de pau negro, e por
+cima, pendurado de um prego, entre uma serra e uma candeia, um
+grosso saiote escarlate.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o Jacinto, muito embara&ccedil;ado, murmurou
+abstraidamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; bem, est&aacute; bem...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse,
+enquanto o Silv&eacute;rio decerto <span class="pagenum">[292]</span>revelava &agrave; rapariga, a presen&ccedil;a
+augusta do &laquo;fidalgo&raquo;, porque a sentimos, da porta,
+levantar a voz dolorida:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ai! Nosso Senhor lhe d&ecirc; muito boa sorte! Nosso Senhor o
+acompanhe!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando o Silv&eacute;rio, com as grandes passadas das suas grandes
+botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para
+mim, com os dedos tr&eacute;mulos a torturar o bigode, e
+murmurava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; horr&iacute;vel, Z&eacute; Fernandes, &eacute;
+
+horr&iacute;vel.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao lado, o vozeir&atilde;o do Silv&eacute;rio trovejou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua m&atilde;e,
+criatura!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a n&oacute;s,
+num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa
+esperan&ccedil;a, talvez, que delas, como de Deuses encontrados num
+caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele
+mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela
+mis&eacute;ria, e a sua muda humildade, embara&ccedil;avam,
+acanhavam horrivelmente, s&oacute; soube sorrir, murmurar o seu
+vago: &laquo;Est&aacute; bem, est&aacute; bem...&raquo; Fui eu que
+dei ao pequenito um tost&atilde;o, para o fartar, o despegar dos
+nossos passos. Mas como ele, com o seu tost&atilde;o bem agarrado,
+nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnific&ecirc;ncia, o
+Silv&eacute;rio teve de o espantar, <span class="pagenum">[293]</span>como a um p&aacute;ssaro, batendo as
+m&atilde;os, e de lhe gritar:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--J&aacute; para casa! E leve esse dinheiro &agrave; m&atilde;e.
+Roda, roda!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E n&oacute;s vamos almo&ccedil;ar, lembrei eu olhando o
+rel&oacute;gio. O dia ainda vai estar lindo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Sobre o rio, com efeito, reluzia um peda&ccedil;o de azul lavado e
+lustroso; e a grossa camada de nuvens j&aacute; se ia enrolando sob
+a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas, para
+um canto escuso do c&eacute;u.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o recolhemos lentamente para casa, por uma vereda
+&iacute;ngreme, que ensinara o Silv&eacute;rio, e onde um leve
+enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado,
+rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente,
+reluzia consolada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre
+um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente
+a cigarreira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, Silv&eacute;rio, eu n&atilde;o quero mais estas
+horr&iacute;veis mis&eacute;rias na quinta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago <i>eh!
+eh!</i><br>
+
+
+--Antes de tudo, continuava Jacinto, mande j&aacute; hoje chamar
+esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os rem&eacute;dios
+que os v&atilde;o buscar logo a Gui&atilde;es. E
+recomenda&ccedil;&atilde;o ao m&eacute;dico <span class="pagenum">[294]</span>para voltar amanh&atilde;, e em cada dia;
+at&eacute; que ela melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe
+leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil
+r&eacute;is... Bastar&aacute;?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O Procurador n&atilde;o conteve um riso respeitoso. Quinze mil
+r&eacute;is! Uns tost&otilde;es bastavam... Nem era bom acostumar
+assim, a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos
+pedinchavam...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas &eacute; que todos h&atilde;o-de ter, disse Jacinto
+simplesmente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V. Ex.&ordf; manda, murmurou o Silv&eacute;rio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas
+extravag&acirc;ncias. Eu tive de o apressar, impaciente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Vamos conversando e andando! &Eacute; meio-dia! Estou com uma
+fome de lobo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Caminh&aacute;mos, com o Silv&eacute;rio no meio, pensativo, a
+fronte enrugada sob a vasta aba do chap&eacute;u, a barba imensa
+espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva
+vermelho enrolada debaixo do bra&ccedil;o. E Jacinto, puxando
+nervosamente o bigode, arriscava outras ideias benfazejas,
+cautelosamente, no seu indomin&aacute;vel medo do
+Silv&eacute;rio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E as casas tamb&eacute;m... Aquela casa &eacute; um covil!...
+Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as
+dos outros <span class="pagenum">[295]</span>caseiros s&atilde;o
+pocilgas iguais... Era necess&aacute;rio uma reforma! Construir
+casas novas a todos os rendeiros da quinta...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A todos?...--O Silv&eacute;rio gaguejava,--emudeceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E Jacinto balbuciava aterrado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A todos... Enfim, quero dizer... Quantos ser&atilde;o eles?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Silv&eacute;rio atirou um gesto enorme:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S&atilde;o vinte e coisas... Vinte e tr&ecirc;s! se bem lembro.
+Upa! Upa! Vinte e sete...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o Jacinto emudeceu tamb&eacute;m, como reconhecendo a
+vastid&atilde;o do n&uacute;mero. Mas desejou saber, por quanto
+ficaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa,
+confort&aacute;vel, como a que tinha a irm&atilde; do Melchior, ao
+p&eacute; do lagar. Silv&eacute;rio estacou de novo. Uma casa como
+a da Ermelinda? Queria Sua Ex.&ordf; saber? E alijou a cifra, muito
+de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Duzentos mil r&eacute;is, Ex^mo Senhor! E &eacute; para mais que
+n&atilde;o para menos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu ria da tr&aacute;gica amea&ccedil;a do excelente homem. E
+Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silv&eacute;rio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de r&eacute;is! Digamos
+dez, por que eu queria dar a todos alguma mob&iacute;lia e alguma
+roupa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o o Silv&eacute;rio teve um brado de terror:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[296]</span>--Mas ent&atilde;o,
+Ex.<sup>mo</sup> Senhor, &eacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E como n&oacute;s, irresistivelmente, r&iacute;amos dos seus olhos
+esgazeados de horror, dos seus imensos bra&ccedil;os abertos para
+tr&aacute;s, como se visse o mundo desabar,--o bom Silv&eacute;rio
+encavacou:<br>
+
+
+--Ah! V. Ex.<sup>as</sup> riem? Casas para todos, mob&iacute;lias,
+pratas, bragal, dez contos de r&eacute;is! Ent&atilde;o
+tamb&eacute;m eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela
+chala&ccedil;a!... Est&aacute; boa a risota!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a
+responsabilidade naquele disparate magn&iacute;fico:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Enfim, V. Ex.&ordf; &eacute; quem manda!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; mandado, Silv&eacute;rio. E tamb&eacute;m quero saber
+as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os
+melhorar. H&aacute; muito que melhorar. Venha voc&ecirc;
+
+almo&ccedil;ar connosco. E conversamos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+T&atilde;o saturado de espanto estava o Silv&eacute;rio, que nem
+recebeu mais espanto com essa &laquo;melhoria de rendas&raquo;.
+Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licen&ccedil;a a Sua
+Ex.&ordf; para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
+carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um
+instante, e estava em seguida &agrave;s ordens de S. Ex.&ordf;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. <span class="pagenum">[297]</span>E n&oacute;s seguimos, com passos que eram
+ligeiros, pela hora do almo&ccedil;o que se retardara, pelo azul
+alegre que reaparecia, e por toda aquela justi&ccedil;a feita
+
+&agrave; pobreza da serra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o perdeste hoje o teu dia, Jacinto, disse eu, batendo,
+com uma ternura que n&atilde;o disfarcei, no ombro do meu
+amigo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que mis&eacute;ria, Z&eacute; Fernandes! Eu nem sonhava... Haver
+por a&iacute;, &agrave; vista da minha casa, outras casas, onde
+crian&ccedil;as t&ecirc;m fome! &Eacute; horr&iacute;vel...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Est&aacute;vamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo dentre
+duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do
+casar&atilde;o, ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos
+soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas
+folhas lavadas e luzidias um fr&eacute;mito alegre e doce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu
+aquela lenda de Santo Ambr&oacute;sio... N&atilde;o, n&atilde;o era
+Santo Ambr&oacute;sio... N&atilde;o me lembra o santo... Nem era
+ainda santo... apenas um cavaleiro <span class="pagenum">[298]</span>pecador, que se enamorara de uma mulher,
+pusera toda a sua alma nessa mulher, s&oacute; por a avistar a
+dist&acirc;ncia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
+ela entrou num portal de igreja, e a&iacute;, de repente, ergueu o
+v&eacute;u, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o
+seio ro&iacute;do por uma chaga! Tu, tamb&eacute;m andavas namorado
+da serra, sem a conhecer, s&oacute; pela sua beleza de
+Ver&atilde;o. E a serra, hoje, z&aacute;s! de repente, descobre a
+sua grande &uacute;lcera... &Eacute; talvez a tua
+prepara&ccedil;&atilde;o para S. Jacinto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:<br>
+
+
+<br>
+
+
+---&Eacute; verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja
+Deus, &eacute; das que eu posso curar!<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o desiludi o meu Pr&iacute;ncipe. E ambos subimos
+alegremente a escadaria do casar&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XI</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Gui&atilde;es.
+E, desde ent&atilde;o, tantas vezes trotei por aquelas tr&ecirc;s
+l&eacute;guas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a
+minha &eacute;gua, quando a desviava dessa estrada familiar,
+conduzindo a uma cavalari&ccedil;a familiar, (onde ela privava com
+o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At&eacute; a tia
+Vic&ecirc;ncia se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para
+onde eu sempre corria, daquele Pr&iacute;ncipe de quem
+incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os
+pit&eacute;us, e as quimeras agr&iacute;colas. J&aacute; um dia com
+um gr&atilde;o de sal e ironia,--o &uacute;nico que cabia num
+cora&ccedil;&atilde;o todo cheio de inoc&ecirc;ncia,--ela me
+dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Olha que te podes gabar! <span class="pagenum">[300]</span>At&eacute; me tens feito curiosidade de
+conhecer esse Jacinto... Traz c&aacute; essa maravilha, menino!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu rira:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sossegue, tia Vic&ecirc;ncia, que o trarei agora, para o dia dos
+meus anos, a jantar... Damos uma festa, haver&aacute; um bailarico
+no p&aacute;tio, e vem a&iacute; toda essa senhorama dos arredores.
+Talvez at&eacute; se arranje uma noiva para o Jacinto.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu, com efeito, j&aacute; convidara o meu Pr&iacute;ncipe para este
+&laquo;natal&iacute;cio&raquo;. E de resto convinha que o senhor de
+Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra...
+Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse
+algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares
+serranos, porque Tormes tinha uma solid&atilde;o muito
+mon&aacute;stica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino,
+facilmente se enrudece e ganha uma casca &aacute;spera como a das
+&aacute;rvores, na solid&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconcilia&ccedil;&atilde;o com
+a Natureza, e o renunciamento &agrave;s mentiras da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma linda hist&oacute;ria...
+Mas, caramba, faltam mulheres!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de
+vime:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito, h&aacute; aqui falta de mulher, com M. grande. Mas
+essas senhoras a&iacute; das <span class="pagenum">[301]</span>casas dos arredores... N&atilde;o sei, estou
+pensando que se devem parecer com legumes. S&atilde;s, nutritivas,
+excelentes para a panela--mas, enfim, legumes. As mulheres que os
+poetas comparam &agrave;s Flores s&atilde;o sempre as mulheres das
+Cortes, das Capitais, &agrave;s quais, invariavelmente, desde
+Hes&iacute;odo e de Hor&aacute;cio, se rendem os poetas... E
+evidentemente n&atilde;o h&aacute; perfume, nem gra&ccedil;a, nem
+eleg&acirc;ncia, nem requinte, numa cenoura ou numa couve...
+N&atilde;o devem ser interessantes as senhoras da minha serra.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do D.
+Teot&oacute;nio, com efeito, salvo o respeito que se deve &agrave;
+casa ilustre dos Barbedos, &eacute; um mostrengo! A irm&atilde; dos
+Albergarias, da quinta da Loja, tamb&eacute;m n&atilde;o tentaria
+nem mesmo o precisado Santo Ant&atilde;o. Sobretudo se se despisse,
+por que &eacute; um espinafre infernal! Essa realmente &eacute;
+legume, e n&atilde;o dos nutritivos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Tu o disseste: espinafre!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Temos tamb&eacute;m a D. Beatriz Veloso... Essa &eacute;
+bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as
+hero&iacute;nas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... E depois, um
+tom de voz que te n&atilde;o sei descrever, o tom com que se fala
+em D. Maria, em pe&ccedil;as de sentimento. Tu tamb&eacute;m nunca
+viste o Teatro <span class="pagenum">[302]</span>de D. Maria...
+Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. &laquo;V. Ex.&ordf; Sr.
+Doutor, n&atilde;o se delicia com Lamartine?&raquo; J&aacute; me
+disse esta, a indecente!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu! Arregalei os olhos... &laquo;Oh Lamartine!&raquo;. Mas,
+coitada, &eacute; uma excelente rapariga! Agora, por outro lado,
+temos as Roj&otilde;es, as filhas de Jo&atilde;o Roj&atilde;o, duas
+flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a
+sadio, e muito simples... A tia Vic&ecirc;ncia morre por elas.
+Depois h&aacute; a mulher do Dr. Al&iacute;pio, que &eacute; uma
+beleza. Oh! uma criatura espl&ecirc;ndida! Mas, enfim, &eacute; a
+mulher do Dr. Al&iacute;pio, e tu renunciaste aos deveres da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o... Al&eacute;m disso, mulher muito
+s&eacute;ria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem
+dois anjinhos de Murillo... E quem mais? J&aacute; agora, quero
+completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de
+Sandofim, muito engra&ccedil;ada, com cabelo lindo... Borda na
+perfei&ccedil;&atilde;o, faz doces como uma freira do antigo
+Regime... Havia tamb&eacute;m uma J&uacute;lia Lobo, muito linda,
+mas morreu... Agora n&atilde;o me lembro mais. Mas falta a flor da
+Serra, que &eacute; a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa
+
+&eacute; uma perfei&ccedil;&atilde;o de rapariga.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E tu, primo Z&eacute;, como tens tu resistido?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Somos como irm&atilde;os, criados de pequeninos, <span class="pagenum">[303]</span>mais acostumados e familiares que tu e eu...
+A familiaridade esbate os sexos. A m&atilde;e dela era a
+&uacute;nica irm&atilde; da tia Vic&ecirc;ncia, e morreu muito
+nova. A Joaninha, quase desde o ber&ccedil;o que se criou em nossa
+casa, em Gui&atilde;es. O pai &eacute; bom homem, o tio
+Adri&atilde;o. Erudito, antiqu&aacute;rio, coleccionador...
+Colecciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas,
+sinetes, fivelas... Tem uma colec&ccedil;&atilde;o curiosa. Ele
+h&aacute; muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas,
+coitado, sofre da bexiga, n&atilde;o pode montar a cavalo. E a
+estrada da Flor da Malva aqui &eacute; imposs&iacute;vel para
+carruagens...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe espregui&ccedil;ara longamente os
+bra&ccedil;os:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, est&aacute; claro! eu &eacute; que hei-de visitar teu
+tio, e a tia Vic&ecirc;ncia... Desejo conhecer os meus vizinhos.
+Mas mais tarde, quando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu
+povo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador de um Reino, e
+grande edificador. Por todo o seu dom&iacute;nio de Tormes andavam
+obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se
+concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se
+reconstru&iacute;rem com uma largueza c&oacute;moda. Pelos caminhos
+constantemente chiavam carros, <span class="pagenum">[304]</span>carregados de pedra, ou de madeiras cortadas
+nos pinheirais.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Na taberna do Pedro, &agrave; entrada da freguesia, ia um desusado
+movimento, de pedreiros e carpinteiros contratados para as
+obras;--e o Pedro, com as mangas arrega&ccedil;adas, por
+tr&aacute;s do balc&atilde;o, n&atilde;o cessava de encher os
+decilitros com uma vasta infusa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manh&atilde;s cedo
+percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez,
+latejar e irromper no meu Pr&iacute;ncipe o seu velho,
+man&iacute;aco furor de acumular Civiliza&ccedil;&atilde;o! O plano
+primitivo das obras era incessantemente alargado,
+aperfei&ccedil;oado. Nas janelas, que deviam ter apenas portadas,
+segundo o secular costume da serra, decidira p&ocirc;r
+vidra&ccedil;as, apesar do mestre de obras lhe dizer honradamente,
+que depois de habitadas um m&ecirc;s, n&atilde;o haveria casa com
+um s&oacute; vidro. Para substituir as traves cl&aacute;ssicas
+queria estucar os tectos;--e eu via bem claramente que ele se
+continha, se retesava dentro do Bom-Senso, para n&atilde;o dotar
+cada casa com campainhas el&eacute;ctricas. Nem sequer me espantei,
+quando ele uma manh&atilde; me declarou que a porcaria da gente do
+campo provinha de eles n&atilde;o terem onde comodamente se lavar,
+pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira.
+
+<span class="pagenum">[305]</span>Desc&iacute;amos nesse momento,
+com os cavalos &agrave; r&eacute;dea, por uma azinhaga precipitada
+e escabrosa; um vento leve ramalhava nas &aacute;rvores, um regato
+saltava ruidosamente entre as pedras. Eu n&atilde;o me
+espantei--mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as
+ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Pr&iacute;ncipe. E
+al&eacute;m destes confortos, a que o Jo&atilde;o, mestre de obras,
+com os olhos loucamente arregalados chamava &laquo;as
+grandezas&raquo;, Jacinto meditava o bem das almas. J&aacute;
+encomendara ao seu arquitecto, em Paris, o plano perfeito de uma
+escola, que ele queria erguer, naquele campo da Carri&ccedil;a,
+junto &agrave; capelinha que abrigava &laquo;os ossos&raquo;. Pouco
+a pouco, a&iacute; criaria tamb&eacute;m uma biblioteca, com livros
+de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem
+j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel ensinar a ler. Eu vergava
+os ombros, pensando:--&laquo;A&iacute; vem a terr&iacute;vel
+acumula&ccedil;&atilde;o das No&ccedil;&otilde;es! Eis o livro
+invadindo a Serra!&raquo; Mas outras ideias de Jacinto eram
+tocantes,--e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia
+Vic&ecirc;ncia com o seu plano de uma Creche, onde ele esperava ter
+manh&atilde;s muito divertidas vendo as criancinhas a gatinhar, a
+correr tropegamente atr&aacute;s de uma bola. De resto, o nosso
+botic&aacute;rio de Gui&atilde;es estava j&aacute; apalavrado para
+estabelecer uma pequena farm&aacute;cia em Tormes, <span class="pagenum">[306]</span>sob a direc&ccedil;&atilde;o do seu
+praticante, um afilhado da tia Vic&ecirc;ncia, que tinha publicado
+um artigo sobre as festas populares do Douro no <i>Almanaque de
+Lembran&ccedil;as</i>. E j&aacute; fora oferecido o partido
+m&eacute;dico de Tormes, com ordenado de 600$000 r&eacute;is.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o te falta sen&atilde;o um Teatro! dizia eu, rindo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Um teatro n&atilde;o. Mas tenho a ideia de uma sala, com
+projec&ccedil;&otilde;es de lanterna m&aacute;gica, para ensinar a
+esta pobre gente as cidades desse mundo, e as coisas de
+&Aacute;frica, e um bocado de Hist&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+E tamb&eacute;m me ensoberbeci com esta inova&ccedil;&atilde;o!--E
+quando a contei ao tio Adri&atilde;o, o digno antiqu&aacute;rio
+bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa.
+
+&laquo;Sim, senhor! Bela ideia! Assim se podia ensinar
+&agrave;quela gente iletrada, vivamente, por imagens, a
+Hist&oacute;ria Santa, a Hist&oacute;ria Romana, at&eacute; a
+Hist&oacute;ria de Portugal!...&raquo; E voltado para a prima
+Joaninha, o tio Adri&atilde;o declarou Jacinto um &laquo;homem de
+cora&ccedil;&atilde;o!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu
+Pr&iacute;ncipe. Naquele, &laquo;guarde-o Deus, meu senhor!&raquo;
+
+com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o ver
+ainda, havia uma seriedade de ora&ccedil;&atilde;o, o bem sincero
+desejo de que Deus o guardasse <span class="pagenum">[307]</span>sempre. As crian&ccedil;as a quem ele
+distribu&iacute;a tost&otilde;es, farejavam de longe a sua
+passagem,--e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas
+trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda
+tinham pasmo, j&aacute; n&atilde;o tinham medo. Como o cavalo de
+Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da alameda, numas
+grossas pedras que a&iacute; deformavam a estrada, logo ao outro
+dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio por
+dedica&ccedil;&atilde;o ensaibrar e alisar aquele peda&ccedil;o
+perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom
+senhor. J&aacute; pela serra se espalhava esse nome de &laquo;bom
+senhor&raquo;. Os mais idosos da freguesia n&atilde;o o encontravam
+sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
+desdentados:--<i>Este &eacute; o nosso benfeitor!</i> Por vezes,
+alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha &agrave; porta do
+casebre, ao avist&aacute;-lo no caminho, para gritar, com grandes
+gestos dos bra&ccedil;os magros: &laquo;Ai que Deus o cubra de
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os! Que Deus o cubra de
+b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os!&raquo;<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Aos domingos, o padre Jos&eacute; Maria, (bom amigo meu e grande
+ca&ccedil;ador) vinha de Sandofim, na sua &eacute;gua ru&ccedil;a,
+a Tormes, para celebrar a missa na Capelinha. Jacinto assistia ao
+of&iacute;cio na sua tribuna, como os Jacintos doutras eras, para
+que aqueles simples o n&atilde;o <span class="pagenum">[308]</span>supusessem estranho a Deus. Quase sempre
+ent&atilde;o ele recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou
+os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe &agrave; varanda, e
+eram vasos de manjeric&atilde;o, ou um grosso ramalhete de cravos,
+e por vezes um gordo pato. Havia ent&atilde;o uma
+distribui&ccedil;&atilde;o de cavacas e merengues de Gui&atilde;es,
+
+&agrave;s raparigas e &agrave;s crian&ccedil;as,--e, no
+p&aacute;tio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco.
+O Silv&eacute;rio j&aacute; sustentava com espanto, e redobrado
+respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas
+elei&ccedil;&otilde;es que o Dr. Al&iacute;pio. E eu pr&oacute;prio
+me impressionei, quando o Melchior me contou que o Jo&atilde;o
+Torrado, um velho singular daqueles s&iacute;tios, de grandes
+barbas brancas, ervan&aacute;rio, vagamente alveitar, um pouco
+adivinho, morador misterioso de uma cova no alto da serra, a todos
+afirmava que aquele bom senhor era El-Rei D. Sebasti&atilde;o, que
+voltara!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Assim chegou Setembro, e com ele o meu natal&iacute;cio, que era a
+3 e num Domingo. Toda essa semana a passara eu em Gui&atilde;es,
+nos preparos da vindima,--e de manh&atilde; cedo, nesse Domingo
+ilustre, me fui debru&ccedil;ar da varanda do quarto do saudoso tio
+Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu
+Pr&iacute;ncipe, que enfim visitava a casa do seu Z&eacute;
+Fernandes. A tia Vic&ecirc;ncia, desde a madrugada, andava
+atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao
+meu Pr&iacute;ncipe &laquo;o pessoal&raquo; da serra, convidara
+para jantar algumas fam&iacute;lias amigas, dos arredores, as que
+tinham carruagens ou carro&ccedil;&otilde;es, e podiam, pelas
+estradas mal seguras, recolher tarde, depois de um bailarico
+campestre, no <span class="pagenum">[310]</span>p&aacute;tio,
+j&aacute; enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas
+logo &agrave;s dez horas me desesperei, ao receber, por um
+mo&ccedil;o da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que
+dizia &laquo;a pena de n&atilde;o poder vir porque o Pap&aacute;
+
+estava desde a v&eacute;spera com um leicen&ccedil;o, e ela
+n&atilde;o o queria abandonar.&raquo; Corri indignado &agrave;
+cozinha, onde a tia Vic&ecirc;ncia presidia a um violento bater de
+gemas de ovos dentro de uma imensa terrina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A Joaninha n&atilde;o vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um
+leicen&ccedil;o... Aquele tio Adri&atilde;o escolhe sempre os
+grandes dias para ter leicen&ccedil;os, ou para ter a
+pontada...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A boa face redondinha e corada da tia Vic&ecirc;ncia
+enterneceu-se.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Coitado! ser&aacute; em s&iacute;tio que n&atilde;o se pudesse
+sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que
+ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. &Eacute; com que teu
+tio se dava bem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu gritei simplesmente para o mo&ccedil;o, que dava de beber ao
+burro no p&aacute;tio:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Diz &agrave; Sr.<sup>a</sup> D. Joaninha que sentimos muito...
+Que talvez eu l&aacute; apare&ccedil;a amanh&atilde;.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E voltei &agrave; janela, impaciente, por que o rel&oacute;gio do
+corredor, muito atrasado, j&aacute; cantara a meia hora depois das
+dez e o Pr&iacute;ncipe tardava <span class="pagenum">[311]</span>para o almo&ccedil;o. Mas, mal eu me chegara
+
+&agrave; varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto,
+de grande chap&eacute;u de palha, no seu cavalo, seguido do Grilo
+que, tamb&eacute;m de chap&eacute;u de palha, e abrigado sob um
+imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albard&atilde;o da
+velha &eacute;gua do Melchior. Atr&aacute;s, um mo&ccedil;o com uma
+maleta &agrave; cabe&ccedil;a. E eu, na alegria de avistar enfim o
+meu Pr&iacute;ncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia
+dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natal&iacute;cio, no
+dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o, n&oacute;s bebemos tristemente <i>ad
+manes</i>, aos nossos mortos!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Salv&eacute;!</i> gritei da varanda. <i>Salv&egrave;, domine
+Jacinthi!</i><br>
+
+
+<br>
+
+
+E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o Hino da
+Carta!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Isto por aqui tamb&eacute;m &eacute; lindo!--gritou ele de baixo.
+E o teu pal&aacute;cio tem um soberbo ar... Por onde &eacute; a
+porta?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas eu j&aacute; me precipitava para o p&aacute;tio--onde Jacinto,
+apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca
+montara a cavalo, e n&atilde;o cessara de berrar ante os perigos
+daquela aventura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e l&iacute;vido sob o
+esplendor da sua negrura, exclamava, <span class="pagenum">[312]</span>apontando com a m&atilde;o tr&eacute;mula
+para a pobre &eacute;gua, que solta, de cabe&ccedil;a pensativa,
+parecia de pedra, sobre as patas mais im&oacute;veis que
+marcos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois se o si&ocirc; Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio
+quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, p&eacute;
+aqui, p&eacute; al&eacute;m! S&oacute; para me sacudir! S&oacute;
+para me sacudir!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E n&atilde;o resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma
+pontoada vingativa contra a &eacute;gua, sobre o
+albard&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a
+sua janela ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava
+grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das
+grossas portas feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os
+cuidados maternais da tia Vic&ecirc;ncia, que enchera de flores os
+dois vasos da China sobre a c&oacute;moda, e adornara a cama com
+uma das nossas colchas da &Iacute;ndia mais ricas, cor de
+can&aacute;rio, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido.
+Ent&atilde;o estreit&aacute;mos os ossos num grande abra&ccedil;o,
+pelo natal&iacute;cio... &laquo;Trinta e oito, hein, Z&eacute;
+Fernandes?&raquo;--&laquo;Trinta e quatro, animal!&raquo; E o meu
+Pr&iacute;ncipe abrindo a mala, s&oacute;bria maleta de
+fil&oacute;sofo, ofereceu os &laquo;nobres presentes, que
+s&atilde;o devidos&raquo;, como diz sempre o astuto Ulisses na
+Odisseia. Era um alfinete de gravata, <span class="pagenum">[313]</span>com uma safira, uma cigarreira de aro fosco,
+adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma
+faca para livros de velho lavor Chin&ecirc;s. Eu protestava contra
+a prodigalidade.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir ontem
+&agrave; noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembran&ccedil;a
+&agrave; tua tia Vic&ecirc;ncia. N&atilde;o vale nada... &Eacute;
+s&oacute; por ter pertencido &agrave; princesa de Lamballe.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era uma caldeirinha de &aacute;gua benta, em prata lavrada, de um
+gosto florido e quase galante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A tia Vic&ecirc;ncia n&atilde;o sabe quem &eacute; a princesa de
+Lamballe, mas ficar&aacute; encantada! E &eacute; uma garantia, por
+que ela suspeita da tua religi&atilde;o, como homem de Paris, da
+terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
+almo&ccedil;o!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+A tia Vic&ecirc;ncia pareceu toda surpreendida, e logo encantada
+com o meu camarada, que ela supusera realmente um Pr&iacute;ncipe,
+arrogante, escarpado e dif&iacute;cil. Quando ele lhe ofereceu a
+caldeirinha, com um delicado pedido &laquo;para se lembrar dele nas
+suas ora&ccedil;&otilde;es&raquo;, duas largas rosas, mais
+r&oacute;seas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram
+as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera t&atilde;o
+piedoso presente, com t&atilde;o linda palavra. Mas o que sobretudo
+a cativou <span class="pagenum">[314]</span>foi o tremendo apetite
+de Jacinto, a entusiasmada convic&ccedil;&atilde;o com que ele,
+acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de
+arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa
+cozinha, jurava nunca ter provado nada t&atilde;o sublime. Ela
+resplandecia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--At&eacute; faz gosto, at&eacute; faz gosto!... Ora mais uma
+destas batatinhas recheadas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Concerteza, minha senhora! at&eacute; duas! As minhas
+ra&ccedil;&otilde;es, em mesas destas, t&atilde;o perfeitas,
+s&atilde;o sempre as de Garg&acirc;ntua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o cites Rabelais, que a tia Vic&ecirc;ncia n&atilde;o
+conhece os autores profanos! exclamava eu, tamb&eacute;m radiante.
+E prova esse vinho branco c&aacute; da nossa lavra, e louva Deus
+que amadurece tal uva.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E o almo&ccedil;o foi muito alegre, muito &iacute;ntimo, muito
+conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche,
+que enlevava a tia Vic&ecirc;ncia, e as esperan&ccedil;as da
+vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o pap&aacute; doente,
+e o p&eacute;ssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior
+foi quando, ao servir o caf&eacute;, o criado p&ocirc;s ao lado de
+Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado
+pau de canela. N&atilde;o o esquecera a tia Vic&ecirc;ncia! Ali
+tinha o seu pauzinho de canela!--Queria que ele, em <span class="pagenum">[315]</span>Gui&atilde;es, continuasse os seus
+h&aacute;bitos como em Tormes... E aquele pau de canela foi o
+s&iacute;mbolo de adop&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe como
+novo sobrinho da tia Vic&ecirc;ncia.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ela em breve recolheu &agrave; cozinha, aos preparativos do
+banquete. N&oacute;s fum&aacute;mos um pregui&ccedil;oso charuto no
+jardim, ao p&eacute; do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro.
+Depois, inexoravelmente, como propriet&aacute;rio, mostrei ao meu
+Pr&iacute;ncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade,
+sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma &aacute;rvore, um
+p&eacute; de vinha. S&oacute; quando a sua face come&ccedil;ou a
+opar e a empalidecer, de cansa&ccedil;o, e que do entendimento
+totalmente atordoado s&oacute; lhe escorria um vago--&laquo;muito
+bonito! bela terra!&raquo;--&eacute; que voltei os passos para
+casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar,
+uma planta&ccedil;&atilde;o de espargos, e o s&iacute;tio onde
+existira a ru&iacute;na de um velho castro romano. Ao penetrarmos
+de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma
+r&ecirc;s, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar
+as preciosidades, uma magn&iacute;fica cr&oacute;nica de D.
+Jo&atilde;o I por Fern&atilde;o Lopes, a primeira
+edi&ccedil;&atilde;o do <i>Imperador Clarimundo</i>, uma
+
+<i>Henriada</i>, com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D.
+Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro
+pergaminho, <span class="pagenum">[316]</span>quando eu o arrastei
+&agrave; adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
+relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
+quatro horas. O meu Pr&iacute;ncipe tinha o ar esgazeado e
+l&iacute;vido. Cravando nele os olhos inexor&aacute;veis, olhos em
+que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei &laquo;que
+ir&iacute;amos agora ver a tulha.&raquo; Mas ent&atilde;o, com as
+m&atilde;os nos rins, ele murmurou, humildemente, num
+murm&uacute;rio de crian&ccedil;a:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o se me dava de me sentar um poucochinho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tive ent&atilde;o piedade, abri as garras, deixei que ele se
+arrastasse, atr&aacute;s de mim, para o seu quarto, onde
+freneticamente descal&ccedil;ou as botas, se atirou para um fresco
+canap&eacute; forrado de ganga, murmurando num abatimento
+profundo:--&laquo;Bela propriedade!&raquo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Consenti generosamente que ele adormecesse,--e eu mesmo desci a
+verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de
+renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam
+as m&atilde;os, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma
+caleche rodava no p&aacute;tio, a velha caleche do D.
+Teot&oacute;nio, com a parelha ru&ccedil;a. Espreitando da janela
+descobri, com prazer, que chegava s&oacute;, de gravata branca, sob
+o guarda-p&oacute;, sem a horrend&iacute;ssima filha. Corri
+
+<span class="pagenum">[317]</span>alegremente ao quarto da tia
+Vic&ecirc;ncia, que, ajudada pela Catarina, abrochava &agrave;
+pressa as suas pulseiras ricas de top&aacute;zios.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tia Vic&ecirc;ncia! chegou o D. Teot&oacute;nio! Felizmente vem
+sem a filha... N&atilde;o se demore, os outros n&atilde;o tardam. O
+Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver
+como corre a festa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+<h2>XIII</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ai de mim! a festa no meu anivers&aacute;rio n&atilde;o se passou
+com brilho, nem com alegria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Quando o meu Pr&iacute;ncipe entrou na sala, com uma
+eleg&acirc;ncia, (onde eu senti as malas de Paris, abertas na
+v&eacute;spera)--uma rosa branca no jaquet&atilde;o preto, colete
+branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca,
+tufando, e presa por uma p&eacute;rola negra,--j&aacute; todos os
+convidados estavam na sala,--o D. Teot&oacute;nio, o Ricardo
+Veloso, o Dr. Al&iacute;pio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os
+dois manos Albergarias, da quinta da Loja--; todos de p&eacute;,
+num pelot&atilde;o cerrado. Em torno do sof&aacute; onde a tia
+Vic&ecirc;ncia se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as
+senhoras,--a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre <span class="pagenum">[320]</span>seda, que a tornava mais a&eacute;rea e
+magra, com a sua trunfa imensa de cabelo ri&ccedil;ado; as duas
+Roj&otilde;es, (com a tia Adelaide Roj&atilde;o) vermelhinhas como
+camoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Al&iacute;pio, de
+preto, espl&ecirc;ndida como uma V&eacute;nus R&uacute;stica... E
+foi na sala, como se realmente entrasse um Pr&iacute;ncipe, desses
+pa&iacute;ses do Norte onde os Pr&iacute;ncipes s&atilde;o
+magn&iacute;ficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes.
+Um sil&ecirc;ncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos
+esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu
+desgra&ccedil;ado Jacinto, como numa ca&ccedil;ada hindu, quando
+
+&agrave; orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas
+confusas, apressadas apresenta&ccedil;&otilde;es, com que eu o
+levava atrav&eacute;s da sala,--os seus apertos de m&atilde;o, os
+sorrisos, o vago murm&uacute;rio, &laquo;da sua honra, do seu
+prazer&raquo; foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos
+os cavalheiros permaneciam reservados, observando o
+Pr&iacute;ncipe, que subira &agrave; serra: e as senhoras mais se
+aconchegavam &agrave; sombra da tia Vic&ecirc;ncia, como ovelhas
+&agrave; volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu,
+j&aacute; inquieto, lancei o D. Teot&oacute;nio, o mais ornamental
+daqueles cavalheiros.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--O Sr. D. Teot&oacute;nio foi muito am&aacute;vel em vir, Jacinto.
+Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[321]</span>O digno D. Teot&oacute;nio
+sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho
+brigadeiro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--V. Ex.&ordf; chegou directamente de Viena?<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo
+Z&eacute; Fernandes. D. Teot&oacute;nio insistiu:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas certamente visita muitas vezes Viena...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto sorria surpreendido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Viena, porqu&ecirc;?... N&atilde;o. H&aacute; mais de quinze anos
+que n&atilde;o vou a Viena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O fidalgo murmurou um lento <i>ah!</i> e ficou calado, de
+p&aacute;lpebras baixas, como revolvendo an&aacute;lises profundas,
+com as m&atilde;os cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca
+azul.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu ent&atilde;o, vigilante, lancei o Dr. Al&iacute;pio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--O nosso Doutor, meu caro Jacinto, &eacute; o mais poderoso
+influente de todo o distrito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Doutor curvou a cabe&ccedil;a bem feita, com um belo cabelo
+preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vic&ecirc;ncia,
+que se erguera do sof&aacute;, chamava o meu Pr&iacute;ncipe,
+porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas,
+&agrave; porta da sala, a sua corpulenta
+pessoa,--inteiri&ccedil;ado e vermelho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+&Agrave; mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os
+antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de
+cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus <span class="pagenum">[322]</span>tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a
+tia Vic&ecirc;ncia e uma das Roj&otilde;es, a Luizinha, sua
+afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Gui&atilde;es,
+sempre se colocava &agrave; sombra da sua boa madrinha. E a sopa,
+que era de galinha com macarr&atilde;o, foi comida num t&atilde;o
+largo e pesado sil&ecirc;ncio que eu, na &acirc;nsia de o quebrar,
+exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Gui&atilde;es
+depois de tanto tempo e em minha pr&oacute;pria casa:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Deliciosa, esta sopa!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto ecoou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Divina!!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado,
+e a excessiva admira&ccedil;&atilde;o de Jacinto, o sil&ecirc;ncio,
+carregado de cerim&oacute;nia, mais se carregou de embara&ccedil;o.
+Felizmente a tia Vic&ecirc;ncia, com aquele seu bom sorriso,
+observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... E eu,
+sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu
+Pr&iacute;ncipe confirmasse o seu amor da cozinha vern&aacute;cula,
+e gritei:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Como gostar! Mas &eacute; que delira!... Pudera! Tanto tempo em
+Paris, privado dos pit&eacute;us lusitanos...<br>
+
+
+<br>
+
+
+E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz doce preparado na
+ocasi&atilde;o do natal&iacute;cio de Jacinto, pelo cozinheiro do
+202, <span class="pagenum">[323]</span>contei a hist&oacute;ria,
+profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz doce continha
+<i>foie gras</i>, e que sobre a sua ornamentada pir&acirc;mide
+flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de
+Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado t&atilde;o
+longe da Serra, n&atilde;o interessara ningu&eacute;m. Puxou apenas
+alguns sorrisos de polida condescend&ecirc;ncia, quando eu,
+alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
+insistindo, exclamando:--Extraordin&aacute;rio, hein?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+D. Teot&oacute;nio observou, misteriosamente, que o
+&laquo;cozinheiro sabia para quem cozinhava.&raquo; E a bela mulher
+do Dr. Al&iacute;pio ousou murmurar, corando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Havia de ser bonito prato, e talvez n&atilde;o fosse mau!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu, sempre na &acirc;nsia de espiritualizar o banquete, de produzir
+conversa&ccedil;&atilde;o, ataquei com desabrida alegria a
+Sr.<sup>a</sup> D. Lu&iacute;sa, por ela assim defender a
+profana&ccedil;&atilde;o do nosso grande acepipe nacional! Mas,
+pobre de mim! t&atilde;o excessiva e ruidosamente interpelei a
+formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e
+mais formosa assim. E outro sil&ecirc;ncio se abatia sobre a mesa,
+como uma n&eacute;voa, quando a tia Vic&ecirc;ncia, providencial,
+se desculpou para com Jacinto de n&atilde;o ter peixe! Mas
+qu&ecirc;! ali na Serra era imposs&iacute;vel, <span class="pagenum">[324]</span>ainda a peso de ouro, ter peixe, a n&atilde;o
+ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Roj&atilde;o, com
+aquele seu modo, t&atilde;o suave que cada s&iacute;laba para
+correr mais docemente parecia lubrificada com &oacute;leos santos,
+lembrou que o Sr. D. Jacinto possu&iacute;a uma larga faixa do rio
+Douro com privil&eacute;gio para a pesca do s&aacute;vel. Jacinto
+n&atilde;o sabia, nem imaginava que houvesse s&aacute;veis... O Dr.
+Al&iacute;pio n&atilde;o se admirava por que essas pescas tinham
+sido vendidas ao Cunha brasileiro, h&aacute; vinte anos, na
+mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo o D. Teot&oacute;nio,
+n&atilde;o valiam dois mil r&eacute;is. Se j&aacute; n&atilde;o
+h&aacute; s&aacute;veis!... E a prop&oacute;sito das antigas pescas
+do Douro se ia formando, em torno da mesa, entre os homens mais
+vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as senhoras
+aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele sil&ecirc;ncio
+cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa
+at&eacute; os frangos guisados. Receoso de que essa orla de
+murm&uacute;rios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse
+de novo, me abalancei (para animar), a interpelar Jacinto,
+recordando a famosa aventura do peixe da Dalm&aacute;cia encalhado
+no ascensor.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Isso foi uma das melhores hist&oacute;rias que nos sucederam em
+Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara
+<span class="pagenum">[325]</span>o Gr&atilde;o-Duque Casimiro,
+dava uma magn&iacute;fica ceia, a que o Gr&atilde;o-Duque... o
+Gr&atilde;o-Duque Casimiro, o irm&atilde;o do Imperador...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de
+ervilhas:--e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado
+ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do
+Gr&atilde;o-Duque. E eu contei, com profus&atilde;o, o peixe
+encalhado, o Gr&atilde;o-Duque pescando, o anzol feito com um
+gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no
+po&ccedil;o do elevador... Mas n&atilde;o se produziu um
+
+&uacute;nico riso, e a aten&ccedil;&atilde;o mesma era dada com
+esfor&ccedil;o, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes
+magn&iacute;ficos de Pr&iacute;ncipes e princesas, misturados a
+coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados compreendia o
+maquinismo do elevador, um prato encalhado num po&ccedil;o negro...
+Perante o gancho da princesa as Albergarias baixaram os olhos. E a
+minha deliciosa hist&oacute;ria morreu numa retic&ecirc;ncia, ainda
+mais regelada pela exclama&ccedil;&atilde;o inocente da tia
+Vic&ecirc;ncia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! filho, que coisas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com
+a Luisinha Roj&atilde;o, que ria, toda luminosa e
+palradora,--todos, como libertados do peso cerimonioso <span class="pagenum">[326]</span>da sua presen&ccedil;a augusta, se
+lan&ccedil;aram nas conversinhas discretas, a que o champanhe,
+agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos
+murm&uacute;rios, em torno da mesa, que definitivamente se
+perpetuavam. Foi ent&atilde;o que desisti de animar o jantar.
+Mergulhei com a bela mulher do Doutor Al&iacute;pio na grande
+quest&atilde;o social desse tempo em Gui&atilde;es, o casamento da
+D. Am&eacute;lia Noronha com o feitor! E eu defendia a D.
+Am&eacute;lia, os direitos do amor, quando se alargou um
+sil&ecirc;ncio,--e era Jacinto, que se debru&ccedil;ava, de copo na
+m&atilde;o.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Velho amigo Z&eacute; Fernandes, &agrave; tua! Muitos e bons, e
+sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem pe&ccedil;o
+para saudar.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe,
+se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhan&ccedil;a. Eu
+acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo,
+tamb&eacute;m de p&eacute;, atirando para tr&aacute;s a
+sobrecasaca:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Meus senhores, pe&ccedil;o uma grande sa&uacute;de para o meu
+velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa
+fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua
+presen&ccedil;a a sua querida p&aacute;tria! E que por c&aacute;
+
+fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. &Agrave; tua, meu
+velho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[327]</span>Outro rumor correu pela mesa, mas
+cerimonioso e sereno. A nossa orat&oacute;ria, positivamente,
+n&atilde;o incendiara as imagina&ccedil;&otilde;es! A tia
+Vic&ecirc;ncia fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de
+Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Roj&atilde;o,
+toda resplandecente, e mais vermelha que uma pe&oacute;nia. Depois
+foi um encadeamento de sa&uacute;des, com os copos quase vazios,
+entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adri&atilde;o, e o
+Abade, ambos ausentes, ambos com fur&uacute;nculos. E a tia
+Vic&ecirc;ncia espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o
+arrastar de cadeiras,--quando D. Teot&oacute;nio, erguendo o seu
+copo de vinho do Porto, com a outra m&atilde;o apoiada &agrave;
+
+mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase
+cava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esta &eacute; toda particular, e entre n&oacute;s... Brindo o
+ausente!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Esvaziou o copo, como em religi&atilde;o, pontificando. Jacinto
+bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam,--eu dei
+o bra&ccedil;o &agrave; tia Albergaria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E s&oacute; compreendi, na sala, quando o Dr. Al&iacute;pio, com a
+sua ch&aacute;vena de caf&eacute; e o charuto fumegante, me disse,
+num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de <i>Dr.
+Agudo</i>:--&laquo;Espero que ao menos, c&aacute; por
+Gui&atilde;es, n&atilde;o se erga de novo a forca!...&raquo;
+
+<span class="pagenum">[328]</span>E o mesmo fino olhar me indicava
+o D. Teot&oacute;nio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas
+de uma janela, e discorria, com um ar de f&eacute; e de
+mist&eacute;rio. Era o miguelismo, por Deus! O bom D.
+Teot&oacute;nio considerava Jacinto como um heredit&aacute;rio,
+ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu solar de
+Tormes, entrevia uma miss&atilde;o pol&iacute;tica, o come&ccedil;o
+de uma propaganda en&eacute;rgica, e o primeiro passo para uma
+tentativa de Restaura&ccedil;&atilde;o. E na reserva daqueles
+cavalheiros, ante o meu Pr&iacute;ncipe, eu senti ent&atilde;o a
+suspeita liberal, o receio de uma influ&ecirc;ncia rica, nova, nas
+Elei&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas, e a nascente
+irrita&ccedil;&atilde;o contra as velhas ideias, representadas
+naquele mo&ccedil;o, t&atilde;o rico, de civiliza&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o superior. Quase entornei o caf&eacute;, na alegre
+surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a
+ch&aacute;vena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
+
+<i>Dr. Agudo</i>.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio
+para Tormes trabalhar no miguelismo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Muito s&eacute;rio, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode &agrave;
+minha orelha:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--At&eacute; corre, como certo, que o Pr&iacute;ncipe D. Miguel
+est&aacute; com ele em Tormes!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Al&iacute;pio--t&atilde;o
+agudo!--confirmou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[329]</span>--&Eacute; o que corre...
+Disfar&ccedil;ado em criado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Em criado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo
+Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu
+charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho.--Pois
+n&atilde;o corria, que o filho de D. Miguel estava em Tormes,
+escondido?...<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Disfar&ccedil;ado em lacaio, confirmou logo o digno Rebelo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
+meditativas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Se assim &eacute;, l&aacute; me parece desplante... Que eu
+n&atilde;o desgostava de o ver. Dizem que &eacute; bonito
+mo&ccedil;o, bem apessoado. Mas enfim, meu tio Jo&atilde;o Vaz
+Rebelo foi partido &agrave;s postas, a machado, nas pris&otilde;es
+de Almeida... E se recome&ccedil;am essas quest&otilde;es, mau,
+mau! Ora o seu amigo...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teot&oacute;nio, e
+ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha
+para mim, desabafar:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Extraordin&aacute;rio! Vejo que, aqui, na serra, ainda se
+conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; conforme o que V. Ex.&ordf; chama <i>boas
+ideias</i>.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[330]</span>E eu agora, furioso com aquela
+disparatada inven&ccedil;&atilde;o, que cercava de hostilidade o
+meu pobre Jacinto, estragava aquela am&aacute;vel noite de anos,
+intervim, vivamente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tu jogas o voltarete, Jacinto? N&atilde;o jogas... Ent&atilde;o
+vamos arranjar duas mesas... O D. Teot&oacute;nio h&aacute;-de
+querer cartas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam
+&agrave; sombra da tia Vic&ecirc;ncia, estabelecida no seu canto do
+sof&aacute;. Todas se calavam, parecia encolherem-se ante a
+apari&ccedil;&atilde;o do meu Pr&iacute;ncipe, como pombas
+avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando &agrave;
+
+mulher do Dr. Al&iacute;pio (um pouco desgarrada do bando das aves
+t&iacute;midas) que lhe dera grande prazer aquela ocasi&atilde;o de
+conhecer as suas vizinhas de Tormes... Ela abrira nervosamente o
+leque, sorria, e nunca de certo Jacinto admirara na Cidade uma boca
+mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a
+mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel
+Albergaria, que era disp&eacute;ptico, se declarara
+&laquo;afrontado&raquo;, e desejava respirar um momento na varanda.
+Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei
+abrir as janelas que davam sobre as mimosas do p&aacute;tio. O
+Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[331]</span>--Est&aacute; abafado... Ainda
+temos trovoada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E o Dr. Al&iacute;pio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada
+at&eacute; casa, e uma das &eacute;guas da caleche era escabriada,
+correu &agrave; janela, espreitar o c&eacute;u, que enegrecera,
+morno e pesado.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Com efeito, vai cair &aacute;gua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas: e o ar que agitava as
+cortinas era intermitente, estonteado. De certo na sala, entre as
+senhoras, surgira a mesma inquieta&ccedil;&atilde;o, porque a tia
+Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era prudente pensar em partir, a noite amea&ccedil;ava... E o Dr.
+Al&iacute;pio, puxando o rel&oacute;gio, prop&ocirc;s que,
+levantada aquela remissa, se preparasse a marcha. Justamente o
+Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um
+c&aacute;lice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando
+tamb&eacute;m que vinha a&iacute; uma trovoada valente.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Voltando &agrave; sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as
+senhoras, que se familiarizaram, escutando cheias de riso e gosto,
+a hist&oacute;ria da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados,
+t&atilde;o desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a
+minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria
+rondava de janela em janela, assustada <span class="pagenum">[332]</span>com a volta &agrave; Roqueirinha, espreitando
+a treva abafada. Cal&ccedil;ando lentamente as luvas, a bela mulher
+do Dr. Al&iacute;pio perguntava se ainda havia a remissa. E a tia
+Vic&ecirc;ncia apressara o ch&aacute;, que o Manuel seguido pela
+Gertrudes, com a bandeja de bolos, j&aacute; come&ccedil;ava a
+servir &agrave;s senhoras. Jacinto, de p&eacute;, oferecendo
+ch&aacute;venas, gracejava:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o tanta pressa, tanto medo, por causa de uma
+trovoadinha?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu
+Pr&iacute;ncipe:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sempre o quer&iacute;amos ver... se fosse agora para Tormes, com
+esta noite cerrada!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das
+janelas, gritavam ordens para o p&aacute;tio negro, onde as
+carruagens esperavam atreladas:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Desce a cabe&ccedil;a da vit&oacute;ria, &oacute; Diogo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Acende o lampi&atilde;o, Pedro! Sempre ajuda a luz das
+lanternas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A criada Quit&eacute;ria chegava &agrave; porta com os
+bra&ccedil;os carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma
+das Albergarias ia no assento de diante na vit&oacute;ria, eu corri
+a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar se a chuva
+viesse. E s&oacute; o D. Teot&oacute;nio, que <span class="pagenum">[333]</span>tinha at&eacute; casa apenas meia
+l&eacute;gua de estrada boa, se n&atilde;o apressava, filado outra
+vez no meu Pr&iacute;ncipe, que levava para os cantos mais
+solit&aacute;rios, em conversas profundas, que o seu dedo solene,
+espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que
+j&aacute; chovia;--e ent&atilde;o foi uma pressa das senhoras, que
+beijocavam vivamente a tia Vic&ecirc;ncia, enquanto os homens, na
+antec&acirc;mara, enfiavam a&ccedil;odadamente os
+palet&oacute;s.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto e eu descemos ao p&aacute;tio para acompanhar aquela
+debandada,--e uma a uma, a traquitana do Dr. Al&iacute;pio, a
+vit&oacute;ria das Albergarias, a velha e imensa caleche dos
+Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa
+jornada. Por fim D. Teot&oacute;nio cal&ccedil;ou as luvas pretas e
+entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do
+mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Subindo a escada, o meu Pr&iacute;ncipe desabafou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Este Teot&oacute;nio &eacute; extraordin&aacute;rio! Sabes o que
+descobri por fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que
+eu vim para Tormes preparar a restaura&ccedil;&atilde;o de D.
+Miguel?!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E tu?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[334]</span>--Eu fiquei t&atilde;o espantado,
+que nem o desiludi!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo,
+est&atilde;o desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas
+em Gui&atilde;es! E corre que tu tens o Pr&iacute;ncipe D. Miguel
+escondido em Tormes, disfar&ccedil;ado em criado. E sabes quem ele
+&eacute;? o Baptista!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Isso &eacute; sublime! murmurou Jacinto, com uns grandes olhos
+abertos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na sala, a tia Vic&ecirc;ncia nos esperava desconsolada, entre
+todas as luzes, que ardiam ainda no sil&ecirc;ncio e paz do
+ser&atilde;o debandado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
+geleia, um c&aacute;lice de vinho do Porto!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esteve tudo muito desanimado, tia Vic&ecirc;ncia! exclamei
+desafogando o meu t&eacute;dio. Todo esse mulherio emudeceu; os
+amigos com um ar desconfiado...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:<br>
+
+
+<br>
+
+
+N&atilde;o! pelo contr&aacute;rio. Gostei imenso. Excelente gente!
+E t&atilde;o simples... Todas estas raparigas me pareceram
+&oacute;ptimas. E t&atilde;o frescas, t&atilde;o alegres! Vou ter
+aqui bons amigos, quando verificarem que n&atilde;o sou
+miguelista.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o cont&aacute;mos &agrave; tia Vic&ecirc;ncia a
+prodigiosa <span class="pagenum">[335]</span>hist&oacute;ria de D.
+Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisa! E mau
+seria...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas o Sr. Jacinto, n&atilde;o &eacute;?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu, minha senhora, sou socialista...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Acudi, explicando &agrave; tia Vic&ecirc;ncia, que socialista era
+ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor,
+o verdadeiro:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--O meu Afonso, que Deus haja, era liberal... Meu pai,
+tamb&eacute;m e at&eacute; amigo do Duque da Terceira...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas um rude trov&atilde;o rolou, atroou a noite negra:--e uma
+b&aacute;tega de &aacute;gua cantou nos vidros, e nas pedras da
+varanda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Santa B&aacute;rbara! gritou a tia Vic&ecirc;ncia! Ai aquela
+pobre gente!... At&eacute; estou com cuidado... As Roj&otilde;es,
+que v&atilde;o na vit&oacute;ria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas
+costumadas no orat&oacute;rio, ainda antes de ir guardar as pratas,
+e rezar o ter&ccedil;o, com a Gertrudes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XIV</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ao outro dia, depois de almo&ccedil;o, eu e Jacinto mont&aacute;mos
+a cavalo para um grande passeio at&eacute; &agrave; Flor da Malva,
+a saber de meu tio Adri&atilde;o, e do seu fur&uacute;nculo. E
+sentia uma curiosidade interessada, e at&eacute; inquieta, de
+testemunhar a impress&atilde;o que daria ao meu Pr&iacute;ncipe
+aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa.
+J&aacute; nessa manh&atilde;, andando todos no jardim a escolher
+uma bela rosa-ch&aacute; para a botoeira do meu Pr&iacute;ncipe, a
+tia Vic&ecirc;ncia celebrara com tanto fervor a beleza, a
+gra&ccedil;a, a caridade, e a do&ccedil;ura da sua sobrinha
+toda-amada, que eu protestei:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! tia Vic&ecirc;ncia, olhe que esses elogios todos competem
+apenas &agrave; Virgem Maria! A tia Vic&ecirc;ncia est&aacute; a
+cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma
+criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E agora, trotando pela f&aacute;cil estrada de Sandofim,
+<span class="pagenum">[338]</span>lembrava-me aquela manh&atilde;,
+no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto, e
+lhe chamara uma <i>lavradeirona</i>. Com efeito, era grande e forte
+a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de vi&ccedil;o
+r&uacute;stico, quando ela era apenas uma bela forte e s&atilde;
+
+planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e j&aacute;
+pensava, e sentia,--e a alma que nela se formara, afinara,
+amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A manh&atilde;, com o c&eacute;u todo purificado pela trovoada da
+v&eacute;spera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos
+ligeiros, oferecia uma do&ccedil;ura luminosa, fina, fresca, que
+tornava doce, como diz o velho Eur&iacute;pedes ou o velho
+S&oacute;focles, mover o corpo, e deixar a alma pregui&ccedil;ar,
+sem pressa nem cuidados. A estrada n&atilde;o tinha sombra, mas o
+sol batia muito de leve, e ro&ccedil;ava-nos com uma car&iacute;cia
+quase alada. O vale parecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma
+pintura da Escola Francesa do s&eacute;culo XVIII, t&atilde;o
+graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
+frescura corria o risonho Serp&atilde;o, e t&atilde;o
+af&aacute;veis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam
+os casais nas verduras tenras! Os nossos cavalos caminhavam num
+passo pensativo, gozando tamb&eacute;m a paz da manh&atilde;
+
+ador&aacute;vel. E n&atilde;o sei, nunca soube, que plantazinhas
+<span class="pagenum">[339]</span>silvestres e escondidas
+espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele
+caminho, ao come&ccedil;ar o Outono.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que delicioso dia! murmurou Jacinto. Este caminho para a Flor da
+Malva &eacute; o caminho do c&eacute;u... Oh Z&eacute; Fernandes,
+de que &eacute; este cheirinho t&atilde;o doce, t&atilde;o bom?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Eu sorri, com certo pensamento:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o sei... &Eacute; talvez j&aacute; o cheiro do
+c&eacute;u!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Olha, acol&aacute;, onde est&aacute; aquela fila de olmos, e
+h&aacute; o riacho, j&aacute; s&atilde;o terras do tio
+Adri&atilde;o. Tem ali um pomar, que d&aacute; os p&ecirc;ssegos
+mais deliciosos de Portugal... Hei-de pedir &agrave; prima Joaninha
+que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses
+p&ecirc;ssegos, menino, &eacute; alguma coisa de celeste.
+Tamb&eacute;m lhe hei-de pedir que te mande o doce.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Ele ria:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ser&aacute; explorar de mais a prima Joaninha. E eu
+(porqu&ecirc;?) recordei e atirei ao meu Pr&iacute;ncipe estes dois
+versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu
+pobre amigo Proc&oacute;pio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="break">--Manda-lhe um servo querido, Bem hajas dona
+formosa! E que lhe entregue um anel E com um anel uma rosa.</div>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[340]</span>Jacinto riu alegremente:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Z&eacute; Fernandes, seria excessivo, s&oacute; por causa de meia
+d&uacute;zia de p&ecirc;ssegos, e de um boi&atilde;o de doce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Assim r&iacute;amos, quando apareceu, &agrave; volta da estrada, o
+longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S.
+Jos&eacute; de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para
+a taverna do Torto, por causa daquele vinhinho branco, que sempre,
+quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Pr&iacute;ncipe
+reprovou, indignado:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh! Z&eacute; Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de
+almo&ccedil;o, vais beber vinho branco?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; um costumezinho antigo... Aqui &agrave; taverninha do
+Torto... um decilitrozinho... A almazinha assim mo pede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E par&aacute;mos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a
+sua grossa pan&ccedil;a, sobre as pernas tortas, com a infusa
+verde, e um copo.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro tamb&eacute;m
+aprecia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Depois de um p&aacute;lido protesto, o meu Pr&iacute;ncipe
+tamb&eacute;m quis, mirou o l&iacute;mpido e dourado vinho ao sol,
+provou, e esvaziou o copo, com del&iacute;cia, e um estalinho de
+alto apre&ccedil;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Delicioso vinho!... Hei-de querer deste vinho em Tormes...
+&Eacute; perfeito.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Hein? Fresquinho, leve, arom&aacute;tico, alegrador, <span class="pagenum">[341]</span>todo alma!... Encha l&aacute; outra vez os
+copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui &eacute; o Sr. D. Jacinto,
+o fidalgo de Tormes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, de tr&aacute;s da ombreira da taverna, uma grande voz
+bradou, cavamente, solenemente:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bendito seja o pai dos Pobres!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que
+lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no v&atilde;o da porta,
+apoiado a um bord&atilde;o, com uma caixa de lata a tiracolo, e
+cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam.
+Era o tio Jo&atilde;o Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe
+estendi a m&atilde;o, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os
+olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo,
+apresentei Jacinto, que corara, embara&ccedil;ado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por a&iacute; todo
+esse bem &agrave; pobreza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O velho atirou para ele bruscamente o bra&ccedil;o, que sa&iacute;a
+cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--A m&atilde;o!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva,
+Jo&atilde;o Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e
+pensativo, murmurando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--M&atilde;o real, m&atilde;o de dar, m&atilde;o que vem de cima,
+m&atilde;o j&aacute; rara!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[342]</span>Depois tomou o copo, que lhe
+oferecia o Torto, bebeu com imensa lentid&atilde;o, limpou as
+barbas, deu um jeito &agrave; correia que lhe prendia a caixa de
+lata, e batendo com a ponta do cajado no ch&atilde;o:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me
+trouxe, que n&atilde;o o meu dia, e vi um homem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu ent&atilde;o debrucei-me para ele, mais em
+confid&ecirc;ncia:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, &oacute; tio Jo&atilde;o, ou&ccedil;a c&aacute;! Sempre
+&eacute; certo voc&ecirc; dizer por a&iacute;, pelos s&iacute;tios,
+que El-Rei D. Sebasti&atilde;o voltara?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O pitoresco velho apoiou as duas m&atilde;os sobre o cajado, o
+queixo de espalhada barba sobre as m&atilde;os, e murmurava, sem
+nos olhar, como seguindo a percuss&atilde;o dos seus
+pensamentos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez voltasse, talvez n&atilde;o voltasse... N&atilde;o se sabe
+quem vai, nem quem vem. A gente v&ecirc; os corpos, mas n&atilde;o
+v&ecirc; as almas que est&atilde;o dentro. H&aacute; corpos de
+agora com almas de outrora. Corpo &eacute; vestido, alma &eacute;
+pessoa... Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis
+antigos se topa, quando se anda aos encontr&otilde;es entre os
+vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+E como ele findara num murm&uacute;rio, eu, atirando um olhar a
+Jacinto, e para gozarmos <span class="pagenum">[343]</span>aqueles
+estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mas, &oacute; tio Jo&atilde;o, voc&ecirc; realmente, em sua
+consci&ecirc;ncia, pensa que El-Rei D. Sebasti&atilde;o n&atilde;o
+morreu na batalha?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa
+desconfian&ccedil;a:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Essas coisas s&atilde;o muito antigas. E n&atilde;o calham bem
+aqui &agrave; porta do Torto. O vinho era bom, e V. S.&ordf; tem
+pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva l&aacute; tem o
+paizinho doente... Mas o mal j&aacute; vai pela serra abaixo com a
+incha&ccedil;&atilde;o &agrave;s costas. D&aacute; gosto ver quem
+d&aacute; gosto aos tristes. Por cima de Tormes h&aacute; uma
+estrela clara. E &eacute; trotar, trotar, que o dia est&aacute;
+
+lindo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com a magra m&atilde;o lan&ccedil;ou um gesto para que
+segu&iacute;ssemos. E j&aacute; pass&aacute;vamos o cruzeiro quando
+o seu brado ardente, de novo reboou, com solenidade cava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bendito seja o Pai dos Pobres.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
+aclama&ccedil;&otilde;es de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda
+houvesse no reino um Sebastianista.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade
+cada um espera o seu D. Sebasti&atilde;o. At&eacute; a lotaria da
+Miseric&oacute;rdia &eacute; uma forma do Sebastianismo.
+<span class="pagenum">[344]</span>Eu todas as manh&atilde;s, mesmo
+sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a
+minha, por que eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z&eacute; Fernandes...
+Sou o &uacute;ltimo Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa
+
+&eacute; aquela com os dois torre&otilde;es?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--A Flor da Malva.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto tirou o rel&oacute;gio:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--S&atilde;o tr&ecirc;s horas. Gast&aacute;mos hora e meia... Mas
+foi um belo passeio, e instrutivo. &Eacute; lindo este
+s&iacute;tio.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
+cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para Oriente e para o
+Sol a sua longa fachada com os dois torre&otilde;es quadrados, onde
+as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande
+port&atilde;o de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao
+fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura
+e sombra. Sentado sobre as fortes ra&iacute;zes descarnadas da
+grande &aacute;rvore, um pequeno esperava segurando um burro pela
+arreata.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Est&aacute; por a&iacute; o Manuel da Porta?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ainda agora subiu pela alameda.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bem: empurra l&aacute; o port&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E subimos, por uma curta avenida de velhas <span class="pagenum">[345]</span>&aacute;rvores, at&eacute; outro terreiro,
+com um alpendre, uma casa de mo&ccedil;os, toda coberta de heras, e
+uma casota de c&atilde;o, de onde saltou, com um rumor de corrente
+arrastada, um molosso, o Trit&atilde;o, que eu logo sosseguei
+fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z&eacute; Fernandes. E o
+Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para
+nos segurar os cavalos.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Como est&aacute; o tio Adri&atilde;o?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E ent&atilde;o vossa excel&ecirc;ncia, bem? A Sr.<sup>a</sup> D.
+Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da
+Josefa.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo
+alto, enquanto eu contava ao meu Pr&iacute;ncipe que aquele
+pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o
+seu encanto e o seu cuidado todo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem a&iacute; pela
+freguesia uma verdadeira filharada. E n&atilde;o &eacute; s&oacute;
+dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as m&atilde;es. Mas
+at&eacute; os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
+encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na
+paix&atilde;o deste Josezinho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando cheg&aacute;mos ao laranjal, &agrave; beira <span class="pagenum">[346]</span>da larga rua da quinta que levava ao tanque,
+debalde procurei, e me embrenhei, e at&eacute; gritei:--Eh, prima
+Joaninha!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Talvez esteja l&aacute; para baixo, para o tanque...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Descemos a rua, entre &aacute;rvores, que a cobriam com as densas
+ramas encruzadas. Uma fresca, l&iacute;mpida &aacute;gua de rega
+corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras
+bravas ainda tinham uma frescura de Ver&atilde;o. E o pequeno
+campo, que se avistava para al&eacute;m, rebrilhava com
+do&ccedil;ura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e
+bot&otilde;es de ouro.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o
+repuxo o ia enchendo de uma &aacute;gua muito clara, ainda baixa,
+onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o
+seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o
+tanque pousava um cesto cheio de d&aacute;lias cortadas. E um
+mo&ccedil;o, que sobre uma escada podava as cam&eacute;lias, vira a
+Sr.<sup>a</sup> D. Joana seguir para o lado da parreira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+March&aacute;mos para a parreira, ainda toda carregada de uva
+preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de
+grandes nogueiras. Gritei:--Eh l&aacute;? Voc&ecirc;s viram por
+a&iacute; a Sr.<sup>a</sup> D. Joana? Uma das mo&ccedil;as
+
+<span class="pagenum">[347]</span>esgani&ccedil;ou a voz, que se
+perdeu no vasto ar luminoso e doce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Bem: vamos a casa! N&atilde;o podemos farejar assim, toda a
+tarde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; uma bela quinta, murmurava o meu Pr&iacute;ncipe
+encantado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Magn&iacute;fica! E bem tratada... O tio Adri&atilde;o tem um
+feitor excelente... N&atilde;o &eacute; o teu Melchior. Observa,
+aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Pass&aacute;mos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o
+meu Pr&iacute;ncipe, com os seus talh&otilde;es debruados de
+alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam
+ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta &agrave;
+capela, onde crescia aos dois lados da porta uma
+roseira-ch&aacute;, com uma rosa &uacute;nica, muito aberta, e uma
+moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar.
+Depois entr&aacute;mos no terra&ccedil;o em frente da casa, com a
+sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos.
+A porta envidra&ccedil;ada estava aberta: e subimos pela escadaria
+de pedra, no imenso sil&ecirc;ncio em que toda a Flor da Malva
+repousava, at&eacute; &agrave; antec&acirc;mara, de altos tectos
+apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha
+pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta
+
+<span class="pagenum">[340]</span>de uma outra sala, que tinha as
+janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um
+can&aacute;rio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; curioso!--exclamou Jacinto. Parece o meu
+Pres&eacute;pio... E as minhas cadeiras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E com efeito. Sobre uma c&oacute;moda antiga, com bronzes antigos,
+pousava um pres&eacute;pio semelhante ao da livraria de Jacinto. E
+as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no
+s&oacute;t&atilde;o, umas armas sob um chap&eacute;u de
+Cardeal.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Oh senhores! exclamei. N&atilde;o haver&aacute; um criado?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Bati as m&atilde;os, fortemente. E o mesmo doce sil&ecirc;ncio
+permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da
+quinta, apenas cortado pelo saltitar dos can&aacute;rios nos
+poleiros das gaiolas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; o Pal&aacute;cio da Bela Adormecida no bosque! murmurou
+Jacinto, quase indignado. D&aacute; um berro!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o, caramba! Vou l&aacute; dentro!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas, &agrave; porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima
+Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um
+pouco aberto no pesco&ccedil;o, que fundia mais docemente, numa
+larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado
+dos seus belos cabelos,--lindamente risonha, na <span class="pagenum">[349]</span>surpresa que alargava os seus largos,
+luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e
+cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes
+la&ccedil;os azuis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva,
+viu aquela com quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando
+o grande p&eacute; de roseira se cobrira todo de rosas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XV</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam,
+j&aacute; cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu
+Pr&iacute;ncipe j&aacute; n&atilde;o &eacute; o &uacute;ltimo
+Jacinto, Jacinto ponto final--porque naquele solar que
+deca&iacute;ra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e
+vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito
+da minha amizade. E, pai de fam&iacute;lia, principiara a fazer-se
+mon&oacute;tono, pela perfei&ccedil;&atilde;o da beleza moral,
+aquele homem t&atilde;o pitoresco pela inquieta&ccedil;&atilde;o
+filos&oacute;fica, e pelos variados tormentos da fantasia
+insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura,
+percorria comigo a quinta, em s&oacute;lidas palestras
+agr&iacute;colas, prudentes e sem quimeras--eu quase lamentava esse
+outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de &aacute;rvore,
+e riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e
+
+<span class="pagenum">[352]</span>porcelana, para fabricar
+queijinhos que custariam duzentos mil r&eacute;is cada um!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Tamb&eacute;m a paternidade lhe despertara a responsabilidade.
+Jacinto possu&iacute;a agora um caderno de contas, ainda pequeno,
+rabiscado a l&aacute;pis, com falhas, e papeluchos soltos
+entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se
+alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara j&aacute; as
+suas propriedades de Montemor, da Beira; e concertava, mobilava as
+velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais
+tarde, crescidos, encontrassem &laquo;ninhos feitos&raquo;. Mas
+onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso
+equil&iacute;brio se estabelecera na alma do meu Pr&iacute;ncipe,
+foi quando ele, j&aacute; sabido daquele primeiro e ardente
+fanatismo da Simplicidade--entreabriu a porta de Tormes &agrave;
+
+Civiliza&ccedil;&atilde;o. Dois meses antes de nascer a Teresinha,
+uma tarde, entrou pela avenida de pl&aacute;tanos uma chiante e
+longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e
+acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto tempo
+encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
+Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacinto teve uma
+reca&iacute;da! Mas os confortos mais complicados, que continha
+aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados
+<span class="pagenum">[353]</span>para os s&oacute;t&atilde;os
+imensos, para o p&oacute; da inutilidade: e o velho solar apenas se
+regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas
+janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sof&aacute;s, para
+que os repousos, por que ele suspirara, fossem mais lentos e
+suaves. Atribu&iacute; esta modera&ccedil;&atilde;o a minha prima
+Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o
+ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera,
+vindo de Lisboa, um contramestre, com oper&aacute;rios, e mais
+caixotes, para instalar um telefone!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Um telefone, em Tormes, Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O meu Pr&iacute;ncipe explicou, com humildade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Para casa de meu sogro!... Bem v&ecirc;s.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Era razo&aacute;vel e carinhoso. O telefone por&eacute;m,
+subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E
+Jacinto, alargando os bra&ccedil;os, quase suplicante:<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+--Para casa do m&eacute;dico. Compreendes...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Era prudente. Mas, certa manh&atilde;, em Gui&atilde;es, acordei
+aos berros da tia Vic&ecirc;ncia! Um homem chegara, misterioso, com
+outros homens, trazendo arame, para instalar na nossa casa o novo
+invento. Sosseguei a tia Vic&ecirc;ncia, jurando que essa
+m&aacute;quina nem fazia barulho, nem trazia doen&ccedil;as, nem
+atra&iacute;a as trovoadas. Mas <span class="pagenum">[354]</span>corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os
+ombros:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que queres? Em Gui&atilde;es est&aacute; o botic&aacute;rio,
+est&aacute; o carniceiro... E, depois, est&aacute;s tu!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro de um
+m&ecirc;s temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma
+m&aacute;quina! Pois n&atilde;o! o Progresso, que, &agrave;
+intima&ccedil;&atilde;o de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer
+aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara mais um reino
+para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e n&atilde;o
+avist&aacute;mos mais sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro
+e de fuligem. Ent&atilde;o compreendi que, verdadeiramente, na alma
+de Jacinto se estabelecera o equil&iacute;brio da vida, e com ele a
+Gr&atilde;-Ventura, de que tanto tempo ele fora o Pr&iacute;ncipe
+sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho
+Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera
+meninos para trazer &agrave;s cavaleiras, observei ao digno preto,
+que lia o seu <i>Figaro</i>, armado de imensos &oacute;culos
+redondos:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D.
+Jacinto est&aacute; firme.<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Grilo arredou os &oacute;culos para a testa, e levantando para o
+ar os cinco dedos em curva como p&eacute;talas de uma tulipa:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[355]</span>--S. Ex.&ordf; brotou!<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de
+Cidade, plantado na serra, pegara, chupara o h&uacute;mus do
+torr&atilde;o herdado, criara seiva, afundara ra&iacute;zes,
+engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte,
+sereno, ditoso, ben&eacute;fico, nobre, dando frutos, derramando
+sombra. E abrigados pela grande &aacute;rvore, e por ela nutridos,
+cem casais em redor a bendiziam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>XVI</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num
+regresso de dois, tr&ecirc;s meses, ao 202, para mostrar Paris
+&agrave; prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para
+arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio
+em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder
+jornadear sem desconforto, e apontando j&aacute; com o seu dedo
+para as coisas da Civiliza&ccedil;&atilde;o. Mas, quando ele, em
+Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma
+pregui&ccedil;a imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da
+Cidade, do 202, e dos seus esplendores. &laquo;Estamos aqui
+t&atilde;o bem! est&aacute; um tempo t&atilde;o lindo!&raquo;
+
+murmurava, deitando os bra&ccedil;os, sempre deslumbrada, ao rijo
+pesco&ccedil;o do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris,
+encantado. &laquo;Vamos para Abril, quando os castanheiros dos
+Campos El&iacute;sios <span class="pagenum">[358]</span>estiverem
+em flor!&raquo; Mas em Abril vieram aqueles cansa&ccedil;os que
+imobilizavam a prima Joaninha no div&atilde;, ditosa, risonha, com
+umas pintas na pele, e o roup&atilde;o mais solto. Por todo um
+longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava ent&atilde;o
+sofrendo de desocupa&ccedil;&atilde;o. As chuvas de Mar&ccedil;o
+prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem
+feita, vi&uacute;va, que surtia as necessidades do meu
+cora&ccedil;&atilde;o, partira com o irm&atilde;o para o Brasil,
+onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia tamb&eacute;m
+no corpo como um come&ccedil;o de ferrugem, que o emperrava, e,
+certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
+Depois a minha &eacute;gua morreu... Parti eu para Paris.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de Fran&ccedil;a, o meu
+pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por
+eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores
+bac&acirc;nticas nas tran&ccedil;as, se estorcia, segurando numa
+das m&atilde;os uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o
+anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa!
+eis que, logo adiante, na esta&ccedil;&atilde;o quieta e clara de
+Saint Jean-de-Luz, um mo&ccedil;o esbelto, de perfeita
+eleg&acirc;ncia, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de
+me encarar, grita:<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[359]</span>--Eh, Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Marizac! O duque de Marizac! Era j&aacute; o 202... Com que
+reconhecimento lhe sacudi a m&atilde;o fina, por ele me ter
+reconhecido! E, atirando para o canto do vag&atilde;o um
+palet&oacute;, um ma&ccedil;o de jornais, que o escudeiro lhe
+passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E Jacinto?<br>
+
+
+<br>
+
+
+Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu
+outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia
+escarranchados no pesco&ccedil;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim!
+&Eacute; capaz de ser feliz!<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Espantosamente, loucamente... Qual! n&atilde;o h&aacute;
+adv&eacute;rbios...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Indecentemente--murmurou Marizac muito s&eacute;rio. Que
+canalha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Eu ent&atilde;o desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele
+encolheu os ombros, acendendo a cigarette:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Todo esse mundo circula...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Madame d'Oriol?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Continua.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Os Tr&egrave;ves? o Efraim?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Continuam, todos tr&ecirc;s.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Lan&ccedil;ou um gesto l&acirc;nguido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[360]</span>--Durante cinco anos, em Paris,
+tudo continua... As mulheres com um pouco mais de p&oacute;s de
+arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um
+tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A
+princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno...
+E--e voil&agrave;!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Dornan? --Continua... N&atilde;o o encontrei mais desde o 202.
+Mas vejo &agrave;s vezes o nome dele, no <i>Boulevard</i>, com
+versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E o Psic&oacute;logo?... Ora, como se chamava ele?...<br>
+
+
+--Continua tamb&eacute;m. Sempre com as feminices a tr&ecirc;s
+francos e cinquenta... Duquesas em camisa, almas nuas... Coisas que
+se vendem bem!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do
+Gr&atilde;o-Duque, o comboio entrou na esta&ccedil;&atilde;o de
+Biarritz:--e rapidamente, apanhando o palet&oacute; e os jornais,
+depois de me apertar a m&atilde;o, o delicioso Marizac saltou pela
+portinhola, que o seu criado abrira, gritando:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--At&eacute; Paris!... Sempre rue Cambori.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ent&atilde;o, no compartimento solit&aacute;rio, bocejei, com uma
+estranha sensa&ccedil;&atilde;o de monotonia, de saciedade, como
+cercado j&aacute; de gentes <span class="pagenum">[361]</span>muito
+vistas, murmurando hist&oacute;rias muito sabidas, e coisas muito
+ditas, atrav&eacute;s de sorrisos estafados. Dos dois lados do
+comboio era a longa plan&iacute;cie mon&oacute;tona, sem variedade,
+muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, de um verde
+de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom
+alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade
+discreta e ordeira. P&aacute;lidos choupos, em renques pautados e
+finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais,
+todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se
+destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua
+mediocridade e cautela. E o c&eacute;u, por cima, liso, sem uma
+nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado
+a grande &aacute;gua, at&eacute; que de todo se lhe safasse o
+esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Com que linda manh&atilde; de Maio entrei em Paris! T&atilde;o
+fresca e fina, e j&aacute; macia, que, apesar de cansado, mergulhei
+com repugn&acirc;ncia no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel,
+todo fechado de espessos veludos, grossos cord&otilde;es, pesadas
+borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas
+sonhei que em Tormes se constru&iacute;ra uma Torre Eiffel e que em
+volta dela as senhoras da Serra, <span class="pagenum">[362]</span>as mais respeit&aacute;veis, a pr&oacute;pria
+tia Albergaria, dan&ccedil;avam, nuas, agitando no ar saca-rolhas
+imensos. Com as como&ccedil;&otilde;es deste pesadelo, e depois o
+banho, e o desemalar da mala, j&aacute; se acercavam as duas horas
+quando enfim emergi do grande port&atilde;o, pisei, ao cabo de
+cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses
+cinco anos eu ali permanecera &agrave; porta do Grand-Hotel,
+t&atilde;o estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar
+da cidade, e as magras &aacute;rvores, e as grossas tabuletas, e os
+imensos chap&eacute;us emplumados sobre tran&ccedil;as pintadas de
+amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da
+legi&atilde;o de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
+oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de f&oacute;sforos
+obscenas... Santo Deus! pensei, h&aacute; que anos eu estou em
+Paris! Comprei ent&atilde;o, num quiosque, um jornal, a Voz de
+Paris, para que ele me contasse, durante o almo&ccedil;o, as novas
+da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais
+ilustrados:--e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou
+meia despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta,
+ora voltando para o Leitor duas tremendas n&aacute;degas... Eu
+outra vez murmurei:--Santo Deus! No Caf&eacute; da Paz, o criado
+l&iacute;vido, e com um resto de p&oacute; de arroz <span class="pagenum">[363]</span>sobre a sua lividez, aconselhou ao meu
+apetite, por ser t&atilde;o tarde, um linguado frito e uma
+costeleta.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--E que vinho, Sr. Conde?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Chablis, Sr. Duque!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Ele sorriu &agrave; minha deliciosa pilh&eacute;ria,--e eu abri,
+contente, a Voz de Paris. Na primeira coluna, atrav&eacute;s de uma
+prosa muito retorcida, toda em brilhos de j&oacute;ia barata,
+entrevi uma Princesa nua, e um Capit&atilde;o de Drag&otilde;es,
+que solu&ccedil;ava. Saltei a outras colunas, onde se contavam
+feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra p&aacute;gina
+escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e
+t&oacute;nicos. Depois eram os crimes do costume.--N&atilde;o
+h&aacute; nada de novo! Pus de parte a Voz de Paris,--e
+ent&atilde;o foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O
+miser&aacute;vel, que se frigira rancorosamente contra mim,
+n&atilde;o consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra
+escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetr&aacute;vel e
+tostada, onde a faca vergava, impotente e tr&eacute;mula. Gritei
+pelo mo&ccedil;o l&iacute;vido, o qual, com faca mais rija,
+fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim
+
+&agrave;quele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos,
+que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a
+costeleta. E paguei quinze francos com um bom lu&iacute;s de ouro.
+No troco, que o <span class="pagenum">[364]</span>mo&ccedil;o me
+deu, com a polidez requintada de uma civiliza&ccedil;&atilde;o
+muito difundida, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde
+de Maio sa&iacute; para tomar no terra&ccedil;o um caf&eacute; cor
+de chap&eacute;u coco, que sabia a fava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, &agrave;quela hora em
+toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa
+torrente dos &oacute;nibus, calhambeques, carro&ccedil;as, parelhas
+de luxo, rolava vivamente, como toda uma escura humanidade
+formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele
+movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este
+esp&iacute;rito, por cinco anos afeito &agrave;
+
+quieta&ccedil;&atilde;o das serras imut&aacute;veis. Tentava
+ent&atilde;o, puerilmente, repousar nalguma forma im&oacute;vel,
+&oacute;nibus parado, fiacre que estacara, num brusco escorregar da
+pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola
+da tip&oacute;ia, ou um cacho de figuras escuras trepava
+sofregamente para o &oacute;nibus:--e, r&aacute;pido,
+recome&ccedil;ava o rolar retumbante. Im&oacute;veis, de certo,
+estavam os altos pr&eacute;dios hirtos, ribas de pedra e cal, que
+continham, disciplinavam, aquela torrente ofegante. Mas da rua aos
+telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas
+encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam:--e mais me
+cansava o perceber <span class="pagenum">[365]</span>a tenaz
+incess&acirc;ncia do trabalho latente, a devorante canseira do
+lucro, arquejante por tr&aacute;s das frontarias decorosas e mudas.
+Ent&atilde;o, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se
+apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara
+no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, &agrave; porta
+do caf&eacute;, entre a indiferen&ccedil;a e a pressa da Cidade,
+tamb&eacute;m eu senti, como ele no campo, a vaga tristeza da minha
+fragilidade e da minha solid&atilde;o. Bem certamente estava ali
+como perdido num mundo, que me n&atilde;o era fraternal. Quem me
+conhecia? Quem se interessaria por Z&eacute; Fernandes? Se eu
+sentisse fome, e o confessasse, ningu&eacute;m me daria metade do
+seu p&atilde;o. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma
+ang&uacute;stia, ningu&eacute;m na sua pressa pararia para me
+consolar. De que me serviriam tamb&eacute;m as excel&ecirc;ncias de
+alma, que s&oacute; na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela
+turba n&atilde;o se importaria com a minha santidade; e se eu
+abrisse os bra&ccedil;os e gritasse, ali no
+Boulevard--&laquo;&oacute; homens, meus irm&atilde;os!&raquo; os
+homens, mais ferozes que o lobo ante o Pobrezinho de Assis, ririam
+e passariam indiferentes. Dois impulsos &uacute;nicos,
+correspondendo a duas fun&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas, parecia
+estarem vivos naquela multid&atilde;o,--o lucro e o gozo. Isolada
+entre eles, e ao cont&aacute;gio <span class="pagenum">[366]</span>ambiente da sua influ&ecirc;ncia, em breve a
+minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de
+Ego&iacute;smo. Do ser que eu trouxera da Serra s&oacute; restaria
+em pouco tempo esse calhau, e nele, vivos, os dois apetites da
+Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E pouco a pouco as mesmas
+exagera&ccedil;&otilde;es de Jacinto perante a Natureza me invadiam
+perante a Cidade. Aquele Boulevard ressumava para mim um bafo
+mortal, extra&iacute;do dos seus milh&otilde;es de
+micr&oacute;bios. De cada porta me parecia sair um ardil para me
+roubar. Em cada face, avistada &agrave; portinhola de um fiacre,
+suspeitava um bandido em manobra. Todas as mulheres me pareciam
+caiadas como sepulcros, tendo s&oacute; podrid&atilde;o por dentro.
+E considerava de uma melancolia funambulesca as formas de toda
+aquela Multid&atilde;o, a sua pressa &aacute;spera e v&atilde;, a
+afecta&ccedil;&atilde;o das atitudes, as imensas plumas das
+chapeletas, as express&otilde;es posti&ccedil;as e falsas, a pompa
+dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
+obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase
+c&oacute;mico da minha parte, mas &eacute; o que eu sentia no
+Boulevard, pensando na necessidade de remergulhar na Serra, para
+que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da Cidade, e eu
+ressurgisse humano, e Z&eacute;-Fern&acirc;ndico!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[367]</span>Ent&atilde;o, para dissipar
+aquele pesadume de solid&atilde;o, paguei o caf&eacute; e parti,
+lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da
+esta&ccedil;&atilde;o dos &oacute;nibus, pensei:--Que ser&aacute;
+feito de Madame Colombe? E, oh mis&eacute;ria! pelo meu
+miser&aacute;vel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo
+bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me
+envenenara, e que me envolvia nas emana&ccedil;&otilde;es subtis do
+seu veneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a Pra&ccedil;a da
+Conc&oacute;rdia, topei com um robusto e possante homem, que
+estacou, ergueu o bra&ccedil;o, ergueu o vozeir&atilde;o, num modo
+de comando:<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Eh, Fernandes!<br>
+
+
+<br>
+
+
+O Gr&atilde;o-Duque! O belo Gr&atilde;o-Duque, de jaquet&atilde;o
+alvadio e chap&eacute;u tirol&ecirc;s cor de mel! Apertei com
+gratid&atilde;o reverente a m&atilde;o do Pr&iacute;ncipe, que me
+reconhecera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E Jacinto? Em Paris?...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
+Natureza, a minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia
+&agrave;s cavaleiras. O Gr&atilde;o-Duque encolheu os ombros,
+desolado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Oh l&aacute;, l&aacute;, l&aacute;!... Peuh! Casado, na aldeia,
+com filharada... Homem perdido! Ora n&atilde;o h&aacute;!... E um
+rapaz &uacute;til! que nos divertia, e tinha gosto! Aquele jantar
+cor-de-rosa foi uma festa <span class="pagenum">[368]</span>linda... N&atilde;o se fez, n&atilde;o se
+tornou a fazer nada t&atilde;o brilhante em Paris... E Madame
+d'Oriol... Ainda h&aacute; dias a vi no Pal&aacute;cio de Gelo...
+Pot&aacute;vel, mulher ainda muito pot&aacute;vel... N&atilde;o
+
+&eacute; todavia o meu g&eacute;nero... Adocicada, leitosa,
+pomadada, neve &agrave; la vanille!... Ora esse Jacinto!...<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E Vossa Alteza, em Paris com demora?<br>
+
+
+<br>
+
+
+O formid&aacute;vel homem baixou a face, franzida e
+confidencial:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Nenhuma. Paris n&atilde;o se aguenta... Est&aacute; estragado,
+positivamente estragado... Nem se come! Agora &eacute; o Ernest, da
+Pra&ccedil;a Gaillon, o Ernest, que era maitre-d'hotel do Maire...
+J&aacute; l&aacute; comeu? Um horror. Tudo &eacute; o Ernest,
+agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh&atilde;
+
+l&aacute; almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada,
+indecentemente palhada! N&atilde;o tem, n&atilde;o tem a
+no&ccedil;&atilde;o da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada.
+Mulheres, hui! Lambidas todas. N&atilde;o h&aacute; nada! Ainda
+assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, est&aacute;
+uma revista, que se v&ecirc;: <i>Para c&aacute; as
+mulheres!</i>--engra&ccedil;ada, bem despida... A Celestine tem uma
+cantiga, meia sentimental, meia porca, o <i>Amor no
+Water-Closet</i>, que diverte, tem topete... Onde est&aacute;,
+Fernandes?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--No Grand-Hotel, meu senhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[369]</span>Curvei a cabe&ccedil;a:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sua Majestade, bem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto &eacute; que
+me desola! V&aacute; v&ecirc;r a Revista... Boas pernas, a
+Celestine... E tem gra&ccedil;a o tal <i>Amor no
+Water-Closet</i>.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Um rij&iacute;ssimo aperto de m&atilde;o,--e S. Alteza subiu
+pesadamente para a vit&oacute;ria, ainda com um aceno
+am&aacute;vel, que me penhorou... Excelente homem, este
+Gr&atilde;o-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
+Campos El&iacute;sios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda
+verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo,
+veloc&iacute;pedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes
+inumer&aacute;veis espinha&ccedil;os arqueados, e g&acirc;mbias
+magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos
+gordos, de cacha&ccedil;o escarlate, pedalavam, gordamente.
+Galfarros esguios, de t&iacute;bias descarnadas, fugiam numa linha
+esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto,
+cal&ccedil;&otilde;es bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no
+prazer equ&iacute;voco da carreira, escarranchadas em hastes de
+ferro. E a cada instante outras medonhas m&aacute;quinas passavam,
+vit&oacute;rias e fa&eacute;tons a vapor, com uma
+complica&ccedil;&atilde;o de tubos e caldeiras, torneiras e
+chamin&eacute;s, rolando numa trepida&ccedil;&atilde;o estridente e
+pesada, espalhando <span class="pagenum">[370]</span>um grosso
+fedor de petr&oacute;leo. Segui para o 202, pensando no que diria
+um grego do tempo de F&iacute;dias, se visse esta nova beleza e
+gra&ccedil;a do caminhar humano!...<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
+alegria enternecedora. N&atilde;o se fartou de saber do casamento
+de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma
+felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara
+limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa
+senti mais vivamente a minha solid&atilde;o. N&atilde;o restava em
+toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a
+velha camaradagem com o meu Pr&iacute;ncipe. Logo na
+antec&acirc;mara grandes lonas cobriam as tape&ccedil;arias
+her&oacute;icas, e igual lona parda escondia os estofos das
+cadeiras e dos muros, e as largas estantes de &eacute;bano da
+Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados
+como Doutores num Conc&iacute;lio, pareciam separados do mundo por
+aquele pano que sobre eles descera depois de finda a com&eacute;dia
+da sua for&ccedil;a e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de
+sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confus&atilde;o de
+instrumentozinhos, de que eu perdera j&aacute; a mem&oacute;ria: e
+s&oacute; a Mec&acirc;nica sumptuosa, por sobre peanhas e
+pedestais, <span class="pagenum">[371]</span>recentemente
+espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas,
+rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inactividade definitiva
+das coisas desusadas, como j&aacute; dispostas num Museu, para
+exemplificar a instrumenta&ccedil;&atilde;o caduca de um mundo
+passado. Tentei mover o telefone, que se n&atilde;o moveu; a mola
+da electricidade n&atilde;o acendeu nenhum lume: todas as
+for&ccedil;as universais tinham abandonado o servi&ccedil;o do 202,
+como servos despedidos. E ent&atilde;o, passeando atrav&eacute;s
+das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de
+antiguidades; e que mais tarde outros homens, com uma
+compreens&atilde;o mais pura e exacta da Vida e da Felicidade,
+percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos
+da Super-Civiliza&ccedil;&atilde;o, e, como eu, encolheriam
+desdenhosamente os ombros ante a grande Ilus&atilde;o que findara,
+agora para sempre in&uacute;til, arrumada como um lixo
+hist&oacute;rico, guardada debaixo de lona.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Quando sa&iacute; do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de
+Bolonha. E apenas rolara momentos pela avenida das Ac&aacute;cias,
+no sil&ecirc;ncio decoroso, unicamente cortado pelo tilintar dos
+freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a
+reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, o mesmo
+p&oacute; de arroz; as mesmas p&aacute;lpebras amortecidas,
+<span class="pagenum">[372]</span>os mesmos olhos farejantes, a
+mesma imobilidade de cera! O romancista da <i>Coura&ccedil;a</i>
+passou numa vit&oacute;ria, fixou em mim o mon&oacute;culo
+defumado, mas permaneceu indiferente. Os band&oacute;s negros de
+Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais
+furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco que a vestia,
+chap&eacute;u, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito
+imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as
+Ac&aacute;cias, espapado em duas cadeiras, o director do
+
+<i>Boulevard</i> mamava o resto do seu charuto. E num grande
+landeau, Madame de Tr&egrave;ves continuava o seu sorriso de
+h&aacute; cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos
+dos l&aacute;bios secos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outrora Jacinto. E
+findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com
+uma com&eacute;dia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do
+mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava
+&agrave; volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam
+mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com
+papas de linha&ccedil;a nas n&aacute;degas, cozinheiras de meias de
+seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar
+de cio e de pilh&eacute;ria. Tomei um ch&aacute; melanc&oacute;lico
+no Julien, no meio de <span class="pagenum">[373]</span>um
+
+&aacute;spero e l&uacute;gubre namoro de prostitutas, fariscando a
+presa. Em duas delas, de pele oleosa e cobreada, olhos
+obl&iacute;quos, cabelos duros e negros como clinas, senti o
+Oriente, a sua provoca&ccedil;&atilde;o felina... Interroguei o
+criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e l&iacute;vida, de
+eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Mulheres de Madag&aacute;scar... Foram importadas quando a
+Fran&ccedil;a ocupou a ilha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Arrastei ent&atilde;o por Paris dias de imenso t&eacute;dio. Ao
+longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que j&aacute; me
+enfartara havia cinco anos, sem uma gra&ccedil;a nova, uma curta
+frescura de inven&ccedil;&atilde;o. Nas livrarias, sem descobrir um
+livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada
+p&aacute;gina que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de
+alcova e de p&oacute;s- de-arroz, entre linhas trabalhadas com
+efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer
+restaurante, encontrava, ornando e disfar&ccedil;ando as carnes ou
+as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que j&aacute;
+
+de manh&atilde;, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me
+enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos pre&ccedil;os
+garrafas do nosso adstringente e r&uacute;stico vinho de Torres,
+enobrecido com o t&iacute;tulo de Ch&acirc;teau isto, Ch&acirc;teau
+aquilo, e p&oacute; posti&ccedil;o no <span class="pagenum">[374]</span>gargalo. &Agrave; noite, nos teatros,
+encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e &uacute;nico fim
+da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os
+moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de
+erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Plan&iacute;cie
+me levou a procurar melhor aragem de esp&iacute;rito nas alturas da
+Colina, em Montmartre; e a&iacute;, no meio de uma multid&atilde;o
+elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, de todo o alto
+pessoal da Cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de
+obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de
+gordos banqueiros, e arfar com del&iacute;cia os corpetes de Worms
+e de Doucet, sobre os peitos posti&ccedil;os das nobres damas. E
+recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente
+disp&eacute;ptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo
+descontente comigo, por me n&atilde;o divertir, n&atilde;o
+compreender a Cidade, e errar atrav&eacute;s dela e da sua
+Civiliza&ccedil;&atilde;o Superior, com a reserva rid&iacute;cula
+de um Censor, de um Cat&atilde;o austero. Oh
+senhores!--pensava,--pois eu n&atilde;o me divertirei nesta
+deliciosa Cidade? Entrar&aacute; comigo o bolor da velhice?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
+mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos
+<span class="pagenum">[375]</span>caf&eacute;s, a mem&oacute;ria da
+minha Nini; e, como outrora, pregui&ccedil;osamente, subi as
+escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso
+sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como
+talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando
+das institui&ccedil;&otilde;es da Cidade Antiga. Mas, mal eu
+entrara, o seu dizer elegante e l&iacute;mpido foi sufocado por
+gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de tro&ccedil;a
+bestial, que sa&iacute;a da mocidade apinhada nos bancos, a
+mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor
+murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e
+remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em
+sussurro desconfiado, ele recome&ccedil;ou com alta serenidade.
+Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa
+l&iacute;ngua pura e forte; mas, imediatamente, rompe uma furiosa
+rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre
+magras m&atilde;os, que se estendiam levantadas para estrangular as
+ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um
+macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia,
+pingando endefluxado. Perguntei ao velho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Que querem eles? &Eacute; embirra&ccedil;&atilde;o com o
+professor... &eacute; pol&iacute;tica?<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[376]</span>O velho abanou a cabe&ccedil;a,
+espirrando:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--N&atilde;o... &Eacute; sempre assim, agora, em todos os cursos...
+N&atilde;o querem ideias... Creio que queriam can&ccedil;onetas.
+&Eacute; o amor da porcaria e da tro&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+Ent&atilde;o, indignado, berrei:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Sil&ecirc;ncio, brutos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas
+melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e
+me berra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--<i>Sale Maure!</i><br>
+
+
+Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgra&ccedil;ado, numa
+confus&atilde;o de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como
+um mont&atilde;o de trapos moles, ganindo desesperadamente,
+enquanto o furac&atilde;o de uivos e cacarejos, guinchos e silvos,
+envolvia o Professor, que cruzara os bra&ccedil;os, esperando, com
+uma serenidade simples.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o
+&uacute;nico dia alegre e divertido que nela passei foi o
+derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos
+consider&aacute;veis, tremendamente complicados pela
+Civiliza&ccedil;&atilde;o,--vapores de a&ccedil;o e cobre, providos
+de caldeiras para viajar em tanques; le&otilde;es de pele
+ver&iacute;dica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas
+<span class="pagenum">[377]</span>pela Laferri&egrave;re, com
+fon&oacute;grafo no ventre...<br>
+
+
+<br>
+
+
+Finalmente abalei uma tarde, depois de lan&ccedil;ar da minha
+janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas &agrave;
+
+Cidade:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Pois adeusinho, at&eacute; nunca mais! Na lama do teu
+v&iacute;cio e na poeira da tua vaidade, outra vez, n&atilde;o me
+pilhas! O que tens de bom, que &eacute; o teu g&eacute;nio,
+elegante e claro, l&aacute; o receberei na Serra pelo correio.
+Adeusinho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Na tarde do seguinte Domingo, debru&ccedil;ado da janela do
+comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num
+sil&ecirc;ncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da
+quieta esta&ccedil;&atilde;o da minha aldeia, os Senhores de
+Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os
+seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma
+bandeira branca. O alvoro&ccedil;o ditoso com que abracei e beijei
+aquela tribo bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo
+de uma guerra distante, na Tart&aacute;ria. Na alegria de recuperar
+a Serra, at&eacute; beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de
+obesidade se a&ccedil;odava gritando ao carregador todo o cuidado
+com as minhas malas.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Jacinto, magn&iacute;fico, de grande chap&eacute;u serrano e
+jaqueta, de novo me abra&ccedil;ou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--E esse Paris?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<span class="pagenum">[378]</span>--Medonho!<br>
+
+
+<br>
+
+
+Abri depois os bra&ccedil;os para o bravo Jacintinho.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Ent&atilde;o para que &eacute; essa bandeira, meu cavaleiro?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--&Eacute; a bandeira do Castelo! declarou ele, com uma bela
+seriedade nos seus grandes olhos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+A m&atilde;e ria. Desde essa manh&atilde;, logo que soubera da
+chegada do Ti-Z&eacute;, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e
+n&atilde;o a largara mais; com ela almo&ccedil;ara, com ela descera
+de Tormes!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+--Bravo! E, prima Joaninha, olhe que est&aacute; magn&iacute;fica!
+Eu, tamb&eacute;m, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas
+acho-a triunfal! E o tio Adri&atilde;o, e a tia Vic&ecirc;ncia?<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Tudo &oacute;ptimo! gritou Jacinto. A serra, Deus louvado,
+prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar
+da Civiliza&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+No largo por tr&aacute;s da esta&ccedil;&atilde;o, debaixo dos
+eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os tr&ecirc;s cavalos, e
+dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro
+com um cesto de verga, para meter dentro o her&oacute;ico
+Jacintinho, um e outro servidos &agrave; estribeira por um criado.
+Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador
+
+<span class="pagenum">[379]</span>apareceu com um ma&ccedil;o de
+jornais e pap&eacute;is, que eu esquecera na carruagem. Era uma
+papelada, de que me sortira na Esta&ccedil;&atilde;o de Orleans,
+toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de
+parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou
+rindo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+--Deita isso fora!<br>
+
+
+<br>
+
+
+E eu atirei, para um mont&atilde;o de lixo, ao canto do
+P&aacute;tio, aquele p&uacute;trido rebotalho da
+Civiliza&ccedil;&atilde;o. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
+empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta,
+de quem me esquecera. O digno chefe, debru&ccedil;ado sobre o
+monturo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas
+estampas, que chegavam de Paris, contavam as del&iacute;cias de
+Paris, derramavam atrav&eacute;s do mundo a sedu&ccedil;&atilde;o
+de Paris.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+Em fila come&ccedil;&aacute;mos a subir para a Serra. A tarde
+ado&ccedil;ava o seu esplendor de estio. Uma aragem trazia, como
+ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com
+um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes.
+Toda a passarinhada cantava, num alvoro&ccedil;o de alegria e de
+louvor. As &aacute;guas correntes, saltantes, luzidias, despediam
+um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidra&ccedil;as
+distantes de casas <span class="pagenum">[380]</span>am&aacute;veis, flamejavam com um fulgor de
+ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira.
+E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no
+ar a bandeira branca, que o Jacintinho n&atilde;o largava, de
+dentro do seu cesto, com a haste bem segura na m&atilde;o. Era <i>a
+bandeira do Castelo</i>, afirmara ele.<br>
+
+
+<br>
+
+
+E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, atrav&eacute;s
+da natureza campestre e mansa,--o meu Pr&iacute;ncipe, atrigueirado
+nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha,
+t&atilde;o doce e risonha m&atilde;e, os dois primeiros
+representantes da sua aben&ccedil;oada tribo, e eu--, t&atilde;o
+longe de amarguradas ilus&otilde;es e de falsas del&iacute;cias,
+trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente,
+e Deus contente de n&oacute;s, serenamente e seguramente
+sub&iacute;amos--para o Castelo da Gr&atilde;-Ventura!<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<div class="c2">Fim</div>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h2>ADVERT&Ecirc;NCIA</h2>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+Desde a p&aacute;gina 241, at&eacute; o final, as provas deste
+livro n&atilde;o foram revistas pelo autor, arrebatado pela morte
+antes de haver dado a esta parte da sua escrita aquela
+
+&uacute;ltima dem&atilde;o, em que habitualmente ele punha a
+dilig&ecirc;ncia mais perseverante e mais admiravelmente
+l&uacute;cida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+Aquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado
+o trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscrito p&oacute;stumo
+de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, ao concluir o desempenho de tal
+miss&atilde;o, beija com o mais enternecido e saudoso respeito a
+m&atilde;o, para todo sempre imobilizada, que tra&ccedil;ou estas
+p&aacute;ginas encantadoras; e faz votos por que a revis&atilde;o
+de que se incumbiu n&atilde;o deslustre muito grosseiramente a
+imortal aur&eacute;ola com que ficar&aacute; resplandecendo na
+literatura portuguesa este livro, em que o esp&iacute;rito do
+grande escritor parece exalar-se da vida num terno suspiro de
+do&ccedil;ura, de paz, e de puro amor &agrave; terra da sua
+p&aacute;tria.<br>
+
+
+
+<br>
+
+
+24 de Abril de 1901.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<table class="c7" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="center">
+
+
+ <td class="c9" colspan="4" rowspan="1"><b>LIVRARIA CHARDRON de
+Lello &amp; Irm&atilde;o<br>
+
+ </b> 96--CL&Eacute;RIGOS--98
+
+ <hr></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Bas&iacute;lio Teles<br>
+
+ </b> O problema
+agr&iacute;cola</td>
+
+
+ <td class="c11">$600</td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Lermina</b><br>
+
+
+Filho do Monte Cristo, 2 volumes</td>
+
+
+ <td class="c13">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+
+ <td class="c10">Estudos hist&oacute;ricos e econ&oacute;micos</td>
+
+
+ <td class="c14">$600</td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c15"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">
+
+ <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div>
+
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Eug&eacute;nio Sue</b><br>
+
+
+
+Mist&eacute;rios de Paris, 3 volumes cart.&nbsp;</td>
+
+
+ <td class="c13">2$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Introdu&ccedil;&atilde;o ao problema do trabalho
+nacional.</td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c15"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+
+ <td class="c12"><b>Zola</b><br>
+
+
+Nan&aacute;</td>
+
+
+ <td class="c17">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Abel Botelho<br>
+
+ </b> O bar&atilde;o de
+Lavos</td>
+
+
+ <td class="c11">$800</td>
+
+
+ <td class="c18">Hist&oacute;ria da lavadeira Gerv&aacute;sia, 2
+vols</td>
+
+
+
+ <td class="c17">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">O livro de Alda</td>
+
+
+ <td class="c14">$800</td>
+
+
+ <td class="c12">O Capit&atilde;o Burle</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Sem rem&eacute;dio...</td>
+
+
+
+ <td class="c14">$500</td>
+
+
+ <td class="c12">Ventre de Paris, 2 vols</td>
+
+
+ <td class="c19">1$000</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">
+
+ <div class="c16"><i>No prelo</i>:</div>
+
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c19"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Amanh&atilde;.</td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Arnaldo Gama</b><br>
+
+
+Caldeira de Pero Botelho</td>
+
+
+ <td class="c20">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">Honra ou loucura</td>
+
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Jos&eacute; Caldas<br>
+
+ </b> Humildes</td>
+
+
+ <td class="c11">$400</td>
+
+
+ <td class="c21">Filho do Baldaia</td>
+
+
+ <td class="c22">$600</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Os Jesu&iacute;tas; a sua influ&ecirc;ncia na
+actual sociedade portuguesa; meio de a conjurar&nbsp;</td>
+
+
+ <td class="c23"><i>no prelo</i></td>
+
+
+ <td class="c12"></td>
+
+
+ <td class="c19"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Bruno</b><br>
+
+
+O Brasil mental</td>
+
+
+
+ <td class="c20">$800</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>S&iacute;lvio Romero<br>
+
+ </b> Martins Pena</td>
+
+
+ <td class="c11">$400</td>
+
+
+ <td class="c21">Notas do ex&iacute;lio<br>
+
+
+Hist&oacute;ria da Prostitui&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+
+ <td class="c24">$500<br>
+
+
+1$800</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">
+
+ <hr></td>
+
+
+ <td class="c22"><br>
+
+ </td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Rebelo da Silva<br>
+
+ </b> Mocidade de D.
+Jo&atilde;o V.</td>
+
+
+
+ <td class="c11">1$500</td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Camilo Castelo Branco</b><br>
+
+
+Maria da Fonte</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">Livro de consola&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Andrade Corvo<br>
+
+ </b> Um anno na corte</td>
+
+
+ <td class="c11">1$500</td>
+
+
+ <td class="c12">D. Lu&iacute;s de Portugal<br>
+
+
+Brasileira de Prazins</td>
+
+
+ <td class="c19">$300<br>
+
+
+$500</td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><br>
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c14"></td>
+
+
+ <td class="c12">Eus&eacute;bio Mac&aacute;rio</td>
+
+
+ <td class="c19">$500</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Ant&oacute;nio C. Lousada<br>
+
+ </b> Rua
+escura</td>
+
+
+
+ <td class="c14">$500</td>
+
+
+ <td class="c12">Vulc&otilde;es da lama<br>
+
+
+Carta de guia de casados</td>
+
+
+ <td class="c19">$500<br>
+
+
+$300</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Na consci&ecirc;ncia</td>
+
+
+ <td class="c14">$500</td>
+
+
+
+ <td class="c12"><br>
+
+ </td>
+
+
+ <td class="c19"></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"></td>
+
+
+ <td class="c9"></td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Grainha</b><br>
+
+
+Jesu&iacute;tas</td>
+
+
+ <td class="c17">$600</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10"><b>Dumas<br>
+
+ </b> Jorge ou o capit&atilde;o dos
+piratas</td>
+
+
+
+ <td class="c11">$500</td>
+
+
+ <td class="c12"><b><br>
+
+ </b></td>
+
+
+ <td class="c19"><br>
+
+ </td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td class="c10">Tr&ecirc;s mosqueteiros, 2 volumes</td>
+
+
+ <td class="c14">1$000</td>
+
+
+ <td class="c12"><b>Tolstoi</b><br>
+
+
+A Sonata de Kreutzer</td>
+
+
+ <td class="c17">$400<br>
+
+ </td>
+
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+</div>
+
+
+<pre>
+
+ End of Project Gutenberg's A Cidade e as Serras, by Jos&eacute; Maria E&ccedil;a de Queir&oacute;s
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***
+
+Produced by Manuela Alves and Ricardo F. Diogo
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern<br>what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in<br>a constant state of change. If you are outside the United States, check<br>the laws of your country in addition to the terms of this agreement<br>before downloading, copying, displaying, performing, distributing or<br>creating derivative works based on this work or any other Project<br>Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning<br>the copyright status of any work in any country outside the United<br>States.<br><br>1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:<br><br>1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate<br>access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently<br>whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the<br>phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project<br>Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,<br>copied or distributed:<br><br>This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with<br>almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or<br>re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included<br>with this eBook or online at www.gutenberg.org<br><br>1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived<br>from the public domain (does not contain a notice indicating that it is<br>posted with permission of the copyright holder), the work can be copied<br>and distributed to anyone in the United States without paying any fees<br>or charges. If you are redistributing or providing access to a work<br>with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the<br>work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1<br>through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the<br>Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or<br>1.E.9.<br><br>1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted<br>with the permission of the copyright holder, your use and distribution<br>must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional<br>terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked<br>to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the<br>permission of the copyright holder found at the beginning of this work.<br><br>1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm<br>License terms from this work, or any files containing a part of this<br>work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.<br><br>1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this<br>electronic work, or any part of this electronic work, without<br>prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with<br>active links or immediate access to the full terms of the Project<br>Gutenberg-tm License.<br><br>1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,<br>compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any<br>word processing or hypertext form. However, if you provide access to or<br>distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than<br>"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version<br>posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),<br>you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a<br>copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon<br>request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other<br>form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm<br>License as specified in paragraph 1.E.1.<br><br>1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,<br>performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works<br>unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.<br><br>1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing<br>access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided<br>that<br><br>- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from<br> the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method<br> you already use to calculate your applicable taxes. The fee is<br> owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he<br> has agreed to donate royalties under this paragraph to the<br> Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments<br> must be paid within 60 days following each date on which you<br> prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax<br> returns. Royalty payments should be clearly marked as such and<br> sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the<br> address specified in Section 4, "Information about donations to<br> the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."<br><br>- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies<br> you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he<br> does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm<br> License. You must require such a user to return or<br> destroy all copies of the works possessed in a physical medium<br> and discontinue all use of and all access to other copies of<br> Project Gutenberg-tm works.<br><br>- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any<br> money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the<br> electronic work is discovered and reported to you within 90 days<br> of receipt of the work.<br><br>- You comply with all other terms of this agreement for free<br> distribution of Project Gutenberg-tm works.<br><br>1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm<br>electronic work or group of works on different terms than are set<br>forth in this agreement, you must obtain permission in writing from<br>both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael<br>Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the<br>Foundation as set forth in Section 3 below.<br><br>1.F.<br><br>1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable<br>effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread<br>public domain works in creating the Project Gutenberg-tm<br>collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic<br>works, and the medium on which they may be stored, may contain<br>"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or<br>corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual<br>property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a<br>computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by<br>your equipment.<br><br>1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right<br>of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project<br>Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project<br>Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project<br>Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all<br>liability to you for damages, costs and expenses, including legal<br>fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT<br>LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE<br>PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE<br>TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE<br>LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR<br>INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH<br>DAMAGE.<br><br>1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a<br>defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can<br>receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a<br>written explanation to the person you received the work from. If you<br>received the work on a physical medium, you must return the medium with<br>your written explanation. The person or entity that provided you with<br>the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a<br>refund. If you received the work electronically, the person or entity<br>providing it to you may choose to give you a second opportunity to<br>receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy<br>is also defective, you may demand a refund in writing without further<br>opportunities to fix the problem.<br><br>1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth<br>in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER<br>WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO<br>WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.<br><br>1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied<br>warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.<br>If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the<br>law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be<br>interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by<br>the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any<br>provision of this agreement shall not void the remaining provisions.<br><br>1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the<br>trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone<br>providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance<br>with this agreement, and any volunteers associated with the production,<br>promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,<br>harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,<br>that arise directly or indirectly from any of the following which you do<br>or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm<br>work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any<br>Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.<br><br><br>Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm<br><br>Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of<br>electronic works in formats readable by the widest variety of computers<br>including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists<br>because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from<br>people in all walks of life.<br><br>Volunteers and financial support to provide volunteers with the<br>assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's<br>goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will<br>remain freely available for generations to come. In 2001, the Project<br>Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure<br>and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.<br>To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation<br>and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4<br>and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.<br><br><br>Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive<br>Foundation<br><br>The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit<br>501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the<br>state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal<br>Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification<br>number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at<br>http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent<br>permitted by U.S. federal laws and your state's laws.<br><br>The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.<br>Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered<br>throughout numerous locations. Its business office is located at<br>809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email<br>business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact<br>information can be found at the Foundation's web site and official<br>page at http://pglaf.org<br><br>For additional contact information:<br> Dr. Gregory B. Newby<br> Chief Executive and Director<br> gbnewby@pglaf.org<br><br><br>Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg<br>Literary Archive Foundation<br><br>Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide<br>spread public support and donations to carry out its mission of<br>increasing the number of public domain and licensed works that can be<br>freely distributed in machine readable form accessible by the widest<br>array of equipment including outdated equipment. Many small donations<br>($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt<br>status with the IRS.<br><br>The Foundation is committed to complying with the laws regulating<br>charities and charitable donations in all 50 states of the United<br>States. Compliance requirements are not uniform and it takes a<br>considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up<br>with these requirements. We do not solicit donations in locations<br>where we have not received written confirmation of compliance. To<br>SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any<br>particular state visit http://pglaf.org<br><br>While we cannot and do not solicit contributions from states where we<br>have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition<br>against accepting unsolicited donations from donors in such states who<br>approach us with offers to donate.<br><br>International donations are gratefully accepted, but we cannot make<br>any statements concerning tax treatment of donations received from<br>outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.<br><br>Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation<br>methods and addresses. Donations are accepted in a number of other<br>ways including checks, online payments and credit card donations.<br>To donate, please visit: http://pglaf.org/donate<br><br><br>Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic<br>works.<br><br>Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm<br>concept of a library of electronic works that could be freely shared<br>with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project<br>Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.<br><br><br>Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed<br>editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.<br>unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily<br>keep eBooks in compliance with any particular paper edition.<br><br><br>Most people start at our Web site which has the main PG search facility:<br><br> http://www.gutenberg.org<br><br>This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,<br>including how to make donations to the Project Gutenberg Literary<br>Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to<br>subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.<br><br></pre>
+
+
+</body>
+</html>
diff --git a/old/modern/images/p1.jpg b/old/modern/images/p1.jpg
new file mode 100644
index 0000000..b753d40
--- /dev/null
+++ b/old/modern/images/p1.jpg
Binary files differ
diff --git a/old/modern/images/p2.jpg b/old/modern/images/p2.jpg
new file mode 100644
index 0000000..bb0d12b
--- /dev/null
+++ b/old/modern/images/p2.jpg
Binary files differ