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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 05:32:03 -0700 |
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If you are not located in the United States, you'll have +to check the laws of the country where you are located before using this ebook. + +Title: O Livro de Cesario Verde + +Author: Cesario Verde + +Posting Date: October 13, 2014 [EBook #8698] +Release Date: August, 2005 +First Posted: August 2, 2003 + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE *** + + + + +Produced by João Miguel Neves from images of the National +Digital Library project from the National Library of +Portugal. + + + + + + + + + + +O LIVRO DE CESARIO VERDE + + +Prefácio + + +A JORGE VERDE + +Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu +irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa +doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido +Jorge--deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;--morri +para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces! +O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos +restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada: +peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de +nós, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmão +soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento: +--Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a. + +Adeus, meu querido Jorge! + +S.P. + +20 de julho de 1886. + +Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi +em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás +Lettras, como se as Lettras lá estivessem--no Curso. Eu matriculara-me, +com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira +disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos--para a vida e para a +morte. + +Para a vida e para a morte. + +Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle +não teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu +fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da +noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do +seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas +palavras suas de ha poucos dias:--«E como se dê o caso de tu seres +o mais dedicado dos meus amigos...» Tenho aqui essas palavras: +ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas, +alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua +primeira noite redimida... + +Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle +anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de +Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas +do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de +Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo +a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso +de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares +de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do +seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um +dia, trocámos estas palavras:--«Como tu tens tempo, meu amigo, para +soffrer tanto!»--«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar +no soffrimento!». + +É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para +conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida, +imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia +espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor +da discussão--a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas +para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista +irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o +sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e +largo sorriso de convencido; e então--meu querido amigo! meu santo +poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que +elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido; +e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente. +A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade! + +Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem +em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades +amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de +primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos +seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas +do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica +do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam +fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e +potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes +e as rosas! A bondade summa está no poeta,--mais visivel, pelo menos, +do que em Deus. + +Artista--e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e +reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois +que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou +elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade, +não me dispensarei d'esta indicripção: + +Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins +perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe +naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á +minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo, +o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe +dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio. +Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus +escrupulos: sim?...» + +E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario +Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me +--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava +irremediavelmente perdido! + +Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior, +quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado, +meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o +teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu +pallido agonisante illudido! + +A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel +e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção +desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um +tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando. + + * * * * * + +E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de +que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu +espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr! + +Foi ás cinco da tarde--ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a +estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,--nós +os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas +horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o +ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia +terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase +indifferente--e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento +que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão--como +as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte +e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas! + +Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar +velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas. +Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos +que que me désse força, que me désse força nova,--pois que se +prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos, +ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força +nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo--do mesmo modo que +o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se +--sem saber porque... + +20 de Agosto + + * * * * * + +A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com +um respiradouro em cruz;--rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á +porta está um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu +querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao +terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da +minha raça--funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a +pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce +amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:--Está +bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a +gravidade do cypreste:--Bem; não houve novidade em toda a noite... + +É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é +todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar +d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos--o Cesario +e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois +da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira +consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos, +horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que +se lhe não consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle +cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado +desprezo da vida. O meu santo está alli,--está resignado: é tudo. +Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado--o nosso +querido morto impassivel! + +E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei +da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para +dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu +visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu +acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se +contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi +então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz +d'elle?--pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:--«Sê +natural, meu amigo; sê natural!» + +Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado +horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei +n'uma angustia:--«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se +reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, +um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte! + +Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos +da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não +havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e +torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora. +Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o +sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito +illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a +crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não +estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando +eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na +Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz +de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento +--do soffrimento amparado e protegido... + +Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a +pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas +lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás +minhas amarguras,--que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o +aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e +severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que +a minha angustia encontrou na sua. + +Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte! +Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a +voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois +do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua +grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua +mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não +quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro +da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre, +sempre bom--e todavia sempre justo! + +A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua +voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a +desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados +offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias: +conseguintemente, com a suppressão do trabalho,--do pão,--com a +calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera, +com todas as ciladas á minha fé... Ah, perdidos em paiz de Cafres! +Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os +dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação! + +Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova, +esperando... Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos +á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da +Justiça absoluta--da Justiça illuminada e serena;--espera que eu vá +dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da +Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a +Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado, +a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas +supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias +reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres +supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte, +o seu amor! + +Está alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, não saberei +dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu +abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa +amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visões +do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a +minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os +restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada +do seu tumulo pelo Nordéste--menos frio do que a minha alma succumbida! + + * * * * * + +Silva Pinto. + + + + + +Os versos + + + + +I + +CRISE ROMANESCA + + +DESLUMBRAMENTOS + +Milady, é perigoso contemplal-a, +Quando passa aromatica e normal, +Com seu typo tão nobre e tão de sala, +Com seus gestos de neve e de metal. + +Sem que n'isso a desgoste ou desenfade, +Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, +Eu vejo-a, com real solemnidade, +Ir impondo toilettes complicadas!... + +Em si tudo me attrae como um thesoiro: +O seu ar pensativo e senhoril, +A sua voz que tem um timbre de oiro +E o seu nevado e lucido perfil! + +Ah! Como m'estontêa e me fascina... +E é, na graça distincta do seu porte, +Como a Moda superflua e feminina, +E tão alta e serena como a Morte!... + +Eu hontem encontrei-a, quando vinha, +Britannica, e fazendo-me assombrar; +Grande dama fatal, sempre sósinha, +E com firmeza e musica no andar! + +O seu olhar possue, n'um fogo ardente, +Um archanjo e um demonio a illuminal-o; +Como um florete, fere agudamente, +E afaga como o pello d'um regalo! + +Pois bem. Conserve o gelo por esposo, +E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, +O modo diplomatico e orgulhoso +Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos. + +E emfim prosiga altiva como a Fama, +Sem sorrisos, dramatica, cortante; +Que eu procuro fundir na minha chamma +Seu ermo coração, como um brilhante. + +Mas cuidado, milady, não se afoite, +Que hão-de acabar os barabaros reaes; +E os povos humilhados, pela noite, +Para a vingança aguçam os punhaes. + +E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, +Sob o setim do Azul e as andorinhas, +Eu hei-de ver errar, allucinadas, +E arrastando farrapos--as rainhas! + + + +SEPTENTRIONAL + +Talvez já te esquecesses, ó bonina, +Que viveste no campo só commigo, +Que te osculei a bocca purpurina, +E que fui o teu sol e o teu abrigo. + +Que fugiste commigo da Babel, +Mulher como não ha nem na Circassia, +Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, +E regámos com prantos uma acacia. + +Talvez já te não lembres com desgosto +D'aquellas brancas noites de mysterio, +Em que a lua sorria no teu rosto +E nas lages que estão no cemiterio. + +Quando, á brisa outoniça, como um manto, +Os teus cabellos d'ambar desmanchados, +Se prendiam nas folhas d'um acantho, +Ou nos bicos agrestes dos silvados, + +E eu ia desprendel-os, como um pagem +Que a cauda solevasse aos teus vestidos; +E ouvia murmurar á doce aragem +Uns delirios d'amor, entristecidos; + +Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, +Pousarem borbeletas doudejantes +Nas tuas formosissimas madeixas, +D'aquellas côr das messes lourejantes, + +E no pomar, nós dois, hombro com hombro, +Caminhavamos sós e de mãos dadas, +Beijando os nossos rostos sem assombro, +E colorindo as faces desbotadas; + +Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos +N'um amor grande como um mar sem praias, +Ouviamos os meigos dithyrambos, +Que os rouxinoes teciam nas olaias, + +E, afastados da aldeia e dos casaes, +Eu comtigo, abraçado como as heras, +Escondidos nas ondas dos trigaes, +Devolvia-te os beijos que me déras; + +Quando, se havia lama no caminho, +Eu te levava ao collo sobre a greda, +E o teu corpo nevado como o arminho +Pesava menos que um papel de sêda... + +E foste sepultar-te, ó seraphim, +No claustro das Fieis emparedadas, +Escondeste o teu rosto de marfim +No véu negro das freiras resignadas. + +E eu passo, tão calado como a Morte, +N'esta velha cidade tão sombria, +Chorando afflictamente a minha sorte +E prelibando o calix da agonia. + +E, tristissima Helena, com verdade, +Se podéra na terra achar supplicios, +Eu tambem me faria gordo frade +E cobriria a carne de cilicios. + + + +MERIDIONAL + +Cabellos + +Ó vagas de cabello esparsas longamente, +Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, +E tendes o crystal d'um lago refulgente +E a rude escuridão d'um largo e negro mar; + +Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva, +Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús +No barathro febril da vossa grande treva, +Que tem scintillações e meigos ceos de luz. + +Deixae-me navegar, morosamente, a remos, +Quando elle estiver brando e livre de tufões, +E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos +E enchamos de harmonia as amplas solidões. + +Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos +Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom +Como um licor rhenano a fermentar nos copos, +Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon! + +E ó magica mulher, ó minha Inegualavel, +Que tens o immenso bem de ter cabellos taes, +E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel, +Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes; + +Consente que eu aspire esse perfume raro, +Que exhalas da cabeça erguida com fulgor, +Perfume que estontêa um millionario avaro +E faz morrer de febre um louco sonhador. + +Eu sei que tu possues balsamicos desejos, +E vaes na direcção constante do querer, +Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos, +Que fazem mansamente amar e elanguescer. + +E a tua cabelleira, errante pelas costas, +Supponho que te serve, em noites de verão, +De flaccido espaldar aonde te recostas +Se sentes o abandono e a morna prostração. + +E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos +Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor +Que antigamente deu, nos circos dos romanos, +Um oleo para ungir o corpo ao gladiador. + + * * * * * + +Ó mantos de veludo esplendido e sombrio, +Na vossa vastidão posso talvez morrer! +Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio +E quero asphyxiar-me em ondas de prazer. + + + +IRONIAS DO DESGOSTO + +«Onde é que te nasceu»--dizia-me ella ás vezes-- +«O horror calado e triste ás cousas sepulcraes? +«Porque é que não possues a verve dos Francezes +«E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes? + +«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente, +«As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções, +«E abrigas tanto fel no peito, que não sente +«O abalo feminil das minhas expansões? + +«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso; +«Mas quando tentas rir parece então, meu bem, +«Que estão edificando um negro cadafalso +«E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem! + +«Eu vim--não sabes tu?--para gosar em maio, +«No campo, a quietação banhada de prazer! +«Não vês, ó descórado, as vestes com que saio, +«E os jubilos, que abril acaba de trazer? + +«Não vês como a campina é toda embalsamada +«E como nos alegra em cada nova flor? +«E então porque é que tens na fronte consternada +«Um não sei quê tocante e enternecedor? + +E eu só lhe respondia:--«Escuta-me. Conforme +«Tu vibras os crystaes da bocca musical, +«Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme +«Que te ha de corromper o corpo de vestal. + +«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha, +«Que a tua cabecinha ornada á Rabagas, +«A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha +«E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará! + +«E eu que daria um rei por cada teu suspiro, +«Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans, +«Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro +«O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!» + + + +HUMILHAÇÕES +(De todo o coração--a Silva Pinto) + +Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job, +Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os; +E espero-a nos salões dos principaes theatros, + Todas as noites, ignorado e só. + +Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz; +As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, +E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos, + Eu analyso as peças no cartaz. + +Na representação d'um drama de Feuillet, +Eu aguradava, junto à porta, na penumbra, +Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra + Saltou soberba o estribo do coupé. + +Como ella marcha! Lembra um magnetisador. +Roçavam no veludo as guarnições das rendas; +E, muito embora tu, burguez, me não entendas, + Fiquei batendo os dentes de terror. + +Sim! Por não podia abandonal-a em paz! +Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa +De vel-a aproximar, sentado na platéa, + De tel a n'um binoculo mordaz! + +Eu occultava o fraque usado nos botões; +Cada contratador dizia em voz rouquenha: +--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha? + E ouviam-se cá fóra as ovações. + +Que desvanecimento! A perola do Tom! +As outras ao pé d'ella imitam as bonecas; +Tem menos melodia as harpas e as rabecas, + Nos grandes espetaculos do Som. + +Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger; +Vi-a subir, direita, a larga escadaria +E entrar no camarote. Antes estimaria + Que o chão se abrisse para me abater. + +Saí; mas ao sair senti-me atropellar. +Era um municipal sobre um cavallo. A guarda +Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, + Cresci com raiva contra o militar. + +De subito, fanhosa, infecta, rota, má, +Pôz-se na minha frente uma velhinha suja, +E disse-me, piscando os olhos de coruja: +--Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?... + + + +RESPONSO + +I + +N'um castello deserto e solitario, +Toda de preto, ás horas silenciosas, +Envolve-se nas pregas d'um sudario +E chora como as grandes criminosas. + +Podesse eu ser o lenço de Bruxellas +Em que ella esconde as lagrimas singellas. + +II + +E loura como as doces escocezas, +D'uma belleza ideal, quasi indecisa; +Circumda-se de luto e de tristezas +E excede a melancolica Artemisa. + +Fosse eu os seus vestidos afogados +E havia de escutar-lhe os seus peccados. + +III + +Alta noite, os planetas argentados +Deslisam um olhar macio e vago +Nos seus olhos de pranto marejados +E nas aguas mansissimas do lago + +Podesse eu ser a lua, a lua terna, +E faria que a noite fosse eterna. + +IV + +E os abutres e os corvos fazem giros +De roda das ameias e dos pégos, +E nas salas resoam uns suspiros +Dolentes como as supplicas dos cegos. + +Fosse eu aquellas aves de pilhagem +E cercara-lhe a fronte, em homenagem. + +V + +E ella vaga nas praias rumorosas, +Triste como as rainhas desthronadas, +A contemplar as gondolas airosas, +Que passam, a giorno illuminadas. + +Podesse eu ser o rude gondoleiro +E alli é que fizera o meu cruzeiro. + +VI + +De dia, entre os veludos e entre as sedas, +Murmurando palavras afflictivas, +Vagueia nas umbrosas alamedas +E acarinha, de leve, as sensitivas. + +Fosse eu aquellas arvores frondosas +E prendera-lhe as roupas vaporosas. + +VII + +Ou domina, a rezar, no pavimento +Da capella onde outr'ora se ouviu missa, +A musica dulcissima do vento +E o sussuro do mar, que s'espreguiça. + +Podesse eu ser o mar e os meus desejos +Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos. + +VIII + +E ás horas do crepusculo saudosas, +Nos parques com tapetes cultivados, +Quando ella passa curvam-se amorosas +As estatuas dos seus antepassados. + +Fosse eu tambem granito e a minha vida +Era vêl-a a chorar arrependida. + +IX + +No palacio isolado como um monge, +Erram as velhas almas dos precítos, +E nas noites de inverno ouvem-se ao longe +Os lamentos dos naufragos afflictos. + +Podesse eu ter tambem uma procella +E as lentas agonias ao pé d'ella! + +X + +E ás lages, no silencio dos mosteiros, +Ella conta o seu drama negregado, +E o vasto carmesim dos resposteiros +Ondula como um mar ensanguentado. + +Fossem aquellas mil tapeçarias +Nossas mortalhas quentes e sombrias. + +XI + +E assim passa, chorando, as noites bellas, +Sonhando nos tristes sonhos doloridos, +E a reflectir nas gothicas janellas +As estrellas dos ceus desconhecidos. + +Podesse eu ir sonhar tambem comtigo +E ter as mesmas pedras no jazigo! + +XII + +Mergulha-se em angustias lacrimosas +Nos ermos d'um castello abandonado, +E as proximas florestas tenebrosas +Repercutem um choro amargurado. + +Unissemos, nós dois, as nossas covas, +Ó doce castellã das minhas trovas! + + + + + +II + +NATURAES + + + + +CONTRARIEDADES + +Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente; +Nem posso tolerar os livros mais bizarros. +Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros + Consecutivamente. + +Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: +Tanta depravação nos usos, nos costumes! +Amo, insensatamente, os acidos, os gumes + E os angulos agudos. + +Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra +Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes; +Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes + E engomma para fóra. + +Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! +Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica. +Lidando sempre! E deve a conta á botica! + Mal ganha para sopas... + +O obstaculo estimula, torna-nos perversos; +Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, +Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias, + Um folhetim de versos. + +Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta +No fundo da gaveta. O que produz o estudo? +Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo, + Me tem fechado a porta. + +A critica segundo o methodo de Taine +Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa. +Muitissimos papeis ineditos. A imprensa + Vale um desdem solemne. + +Com raras excepções merece-me o epigramma. +Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, +Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho + Diverte-se na lama. + +Eu nunca dediquei poemas ás fortunas, +Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas, +Independente! Só por isso os jornalistas + Me negam as columnas. + +Receiam que o assignante ingenuo os abandone, +Se forem publicar taes cousas, taes auctores. +Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores + Deliram por Zaccone. + +Um prosador qualquer desfructa fama honrosa, +Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»; +E a mim, não ha questão que mais me contrarie + Do que escrever em prosa. + +A adulação repugna aos sentimentos finos; +Eu raramente falo aos nossos litteratos, +E apuro-me em lançar originaes e exactos, + Os meus alexandrinos... + +E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso! +Ignora que a asphyxia a combustão das brazas, +Não foge do estendal que lhe humedece as casas, + E fina-se ao desprezo! + +Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova. +Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente, +Oiço-a cantarolar uma canção plangente + D'uma opereta nova! + +Perfeitamente. Vou findar sem azedume. +Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas, +Conseguirei reler essas antigas rimas, + Impressas em volume? + +Nas lettras eu conheço um campo de manobras; +Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague, +E esta poesia pede um editor que pague + Todas as minhas obras... + +E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha? +A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia? +Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... + Que mundo! Coitadinha! + + + +A DEBIL + +Eu, que sou feio, solido, leal, +A ti, que és bella, fragil, assustada, +Quero estimar-te, sempre, recatada +N'uma existencia honesta, de crystal. + +Sentado á mesa d'um café devasso, +Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura, +N'esta Babel tão velha e corruptora, +Tive tenções de offerecer-te o braço. + +E, quando soccorreste um miseravel, +Eu, que bebia calices d'absintho, +Mandei ir a garrafa, porque sinto +Que me tornas prestante, bom, saudavel. + +«Ella ahi vem!» disse eu para os demais; +E puz-me a olhar, véxado e suspirando, +O teu corpo que pulsa, alegre e brando, +Na frescura dos linhos matinaes. + +Via-te pela porta envidraçada; +E invejava,--talvez que o não suspeites!-- +Esse vestido simples, sem enfeites, +N'essa cintura tenra, immaculada. + +Ia passando, a quatro, o patriarcha. +Triste eu sahi. Doía-me a cabeça; +Uma turba ruidosa, negra, espessa, +Voltava das exequias d'um monarcha. + +Adoravel! Tu muito natural +Seguias a pensar no teu bordado; +Avultava, n'um largo arborisado, +Uma estatua de rei n'um pedestal. + +Sorriam nos seus trens os titulares; +E ao claro sol, guardava-te, no entanto, +A tua boa mãe, que te ama tanto, +Que não te morrerá sem te casares! + +Soberbo dia! Impunha-me respeito +A limpidez do teu semblante grego; +E uma familia, um ninho de socego, +Desejava beijar sobre o teu peito. + +Com elegancia e sem ostentação, +Atravessavas branca, esvelta e fina, +Uma chusma de padres de batina, +E d'altos funccionarios da nação. + +«Mas se a atropella o povo turbolento! +Se fosse, por acaso, alli pisada!» +De repente, paraste embaraçada +Ao pé d'um numeroso ajuntamento. + +E eu, que urdia estes faceis esbocetos, +Julguei vêr, com a vista de poeta, +uma pombinha timida e quieta +N'um bando ameaçador de corvos pretos. + +E foi, então, que eu homem varonil, +Quiz dedicar-te a minha pobre vida, +A ti, que és tenue, docil, reconhecida, +Eu, que sou habil, pratico, viril. + + + +N'UM BAIRRO MODERNO + +A Manuel Ribeiro + +Dez horas da manhã; os transparentes +Matizam uma casa apalaçada; +Pelos jardins estancam-se os nascentes, +E fere a vista, com brancuras quentes, +A larga rua macadamisada. + +Rez-de-chaussée repousam socegados, +Abriram-se, n'alguns, as persianas, +E d'um ou d'outro, em quartos estucados, +Ou entre a rama dos papeis pintados, +Reluzem, n'um almoço, as porcelanas. + +Como é saudavel ter o seu conchego, +E a sua vida facil! Eu descia, +Sem muita pressa, para o meu emprego, +Aonde agora quasi sempre chego +Com as tonturas d'uma apoplexia. + +E rota, pequenina, aramafada, +Notei de costas uma rapariga, +Que no xadrez marmoreo d'uma escada, +Como um retalho de horta agglomerada, +Pousára, ajoelhando, a sua giga. + +E eu, apesar do sol, examinei-a: +Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos; +E abre-se-lhe o algodão azul da meia, +Se ella se curva, esguedelhada, feia, +E pendurando os seus bracinhos brancos. + +Do patamar responde-lhe um criado: +«Se te convém, despacha; não converses. +Eu não dou mais.» E muito descançado, +Atira um cobre livido, oxidado, +Que vem bater nas faces d' uns alperces. + +Subitamente,--que visão de artista!-- +Se eu transformasse os simples vegetaes, +Á luz do sol, o intenso colorista, +N'um ser humano que se mova e exista +Cheio de bellas proporções carnaes?! + +Boiam aromas, fumos de cozinha; +Com o cabaz ás costas, e vergando, +Sobem padeiros, claros de farinha; +E ás portas, uma ou outra campainha +Toca, frenetica, de vez em quando. + +E eu recompunha, por anatomia, +Um novo corpo organico, aos bocados. +Achava os tons e as fórmas. Descobria +Uma cabeça n'uma melancia, +E n'uns repolhos seios injectados. + +As azeitonas, que nos dão o azeite, +Negras e unidas, entre verdes folhos, +São tranças d'um cabello que se ageite; +E os nabos--ossos nus, da côr do leite, +E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos. + +Ha collos, hombros, boccas, um semblante +Nas posições de certos fructos. E entre +As hortaliças, tumido, fragrante, +Como d'alguem que tudo aquilo jante, +Surge um melão, que me lembrou um ventre. + +E, como um feto, emfim, que se dilate, +Vi nos legumes carnes tentadoras, +Sangue na ginja vivida, escarlate, +Bons corações pulsando no tomate +E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. + +O sol dourava o céo. E a regateira, +Como vendera a sua fresca alface +E déra o ramo de hortelã que cheira, +Voltando-se, gritou-me prazenteira: +«Não passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...» + +Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo; +E, pelas duas azas a quebrar, +Nós levantámos todo aquelle peso +Que ao chão de pedra resistia preso, +Com um enorme esforço muscular. + +«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!» +E recebi, náquella despedida, +As forças, a alegria, a plenitude, +Que brotam d'um excesso de virtude +Ou d'uma digestão desconhecida. + +E em quanto sigo para o lado opposto, +E ao longe rodam umas carruagens, +A pobre afasta-se, ao calor de agosto, +Descolorida nas maçãs do rosto, +E sem quadris na saia de ramagens. + +Um pequerrucho rega a trepadeira +D'uma janella azul; e, com o ralo +Do regador, parece que joeira +Ou que borrifa estrellas; e a poeira +Que eleva nuvens alvas e incensal-o. + +Chegam do gigo emanações sadias, +Oiço um canario--que infantil chilrada!-- +Lidam ménages entre as gelosias, +E o sol estende, pelas frontarias, +Seus raios de laranja distillada. + +E pittoresca e audaz, na sua chita, +O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, +D'uma desgraça alegre que me incita, +Ella apregôa, magra, enfezadita, +As suas couves repolhudas, largas. + +E como as grossas pernas d'um gigante, +Sem tronco, mas athleticas, inteiras, +Carregam sobre a pobre caminhante, +Sobre a verdura rustica, abundante, +Duas frugaes aboboras carneiras. + + + +CRYSTALISAÇÕES + +A Bettencourt Rodrigues + +Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros, + Vibra uma immensa claridade crua. + De cocaras, em linha os calceteiros, + Com lentidão, terrosos e grosseiros, + Calcam de lado a lado a longa rua. + +Como as elevações seccaram do relento, + E o descoberto sol abafa e cria! + A frialdade exige o movimento; + E as poças d'agua, como em chão vidrento, + Reflectem a molhada casaria. + +Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, + Disseminadas, gritam as peixeiras; + Luzem, aquecem na manhã bonita, + Uns barracões de gente pobresita. + E uns quintalorios velhos com parreiras. + +Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora! + Tomam por outra parte os viandantes; + E o ferro e a pedra--que união sonora!-- + Retinem alto pelo espaço fóra, + Com choques rijos, asperos, cantantes. + +Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços, + Cuja columna nunca se endireita, + Partem penedos; cruzam-se estilhaços. + Pesam enormemente os grossos maços, + Com que outros batem a calçada feita. + +A sua barba agreste! A lã dos seus barretes! + Que espessos forros! N'uma das regueiras + Acamam-se as japonas, os colletes: + E elles descalçam com os picaretes, + Que ferem lume sobre pederneiras. + +E n'esse rude mez, que não consente as flores, + Fundêam, como a esquadra em fria paz, + As arvores despidas. Sobrias côres! + Mastros, enxarcias, vergas! Valladores + Atiram terra com as largas pás. + +Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!-- + Carros de mão, que chiam carregados, + Conduzem saibro, vagarosamente; + Vê se a cidade, mercantil, contente: + Madeiras, aguas, multidões, telhados! + +Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria; + Em arco, sem as nuvens fluctuantes, + O ceu renova a tinta corredia; + E os charcos brilham tanto, que eu diria + Ter ante mim lagôas de brilhantes! + +E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos, + Eu tudo encontro alegremente exacto. + Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. + E tangem-me, excitados, sacudidos, + O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! + +Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem + De tão lavada e egual temperatura! + Os ares, o caminho, a luz reagem; + Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem; + Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura. + +Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo; + Dois assobiam, altas as marretas + Possantes, grossas, temperadas d'aço; + E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço + E manso, tira o nivel das valletas. + +Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! + Que vida tão custosa! Que diabo! + E os cavadores pousam as enxadas, + E cospem nas callosas mãos gretadas, + Para que não lhes escorregue o cabo. + +Povo! No panno cru rasgado das camizas + Uma bandeira penso que transluz! + Com ella soffres, bebes, agonisas: + Listrões de vinho lançam-lhe divisas, + E os suspensorios traçam-lhe uma cruz! + +D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, + Surge um perfil direito que se aguça; + E ar matinal de quem sahiu da toca, + Uma figura fina, desemboca, + Toda abafada n'um casaco á russa. + +D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento + E a quem, á noite na plateia, attraio + Os olhos lizos como polimento! + Com seu rostinho estreito, friorento, + Caminha agora para o seu ensaio. + +E aos outros eu admiro os dorsos, os costados + Como lajões. Os bons trabalhadores! + Os filhos das lezirias, dos montados; + Os das planicies, altos, aprumados; + Os das montanhas, baixos, trepadores! + +Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto, + Furtiva a tiritar em suas pelles, + Espanta-me a actrizita que hoje pinto, + N'este dezembro energico, succinto, + E n'estes sitios suburbanos, reles! + +Como animaes communs, que uma picada esquente, + Elles, bovinos, masculos, ossudos, + Encaram-n'a sanguinea, brutamente: + E ella vacilla, hesita impaciente + Sobre as botinhas de tacões agudos. + +Porém, desempenhando o seu papel na peça, + Sem que inda o publico a passagem abra, + O demonico arrisca-se, atravessa + Covas, entulhos, lamaçaes, depressa, + Com seus pésinhos rapidos, de cabra! + + + +NOITES GELIDAS + +MERINA + +Rosto comprido, airosa, angelical, macia, +Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada, +Mais alva que o luar de inverno que me esfria, +Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada; +Sob os abafos bons que o Norte escolheria, +Com seu passinho curto e em suas lãs forrada, +Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia +De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada. + + +SARDENTA + +Tu, n'esse corpo completo, +Ó lactea virgem doirada, +Tens o lymphatico aspecto +D'uma camelia melada. + + +FLORES VELHAS + +Fui hontem visitar o jardimzinho agreste, +Aonde tanta vez a luz nos beijou, +E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, +Soberba como um sol, serena como um vôo. + +Em tudo scintillava o limpido poema +Com osculos rimado ás luzes dos planetas; +A abelha inda zumbia em torno da alfazema; +E ondulava o matiz das leves borboletas. + +Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, +A imagem que inspirava os castos madrugaes; +E as virações, o rio, os astros, a pasizagem, +Traziam-me á memoria idyllios immortaes. + +Diziam-me que tu, no florido passado, +Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas, +Aquelle teu olhar moroso e delicado, +Que fala de languor e d'emoções mimosas; + +E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura, +Que não me desgostou nem uma vez sequer, +Eu não sabia haurir do calix da ventura +O nectar que nos vem dos mimos da mulher. + +Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores, +Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; +As falas quasi irmãs do vento com as flores +E a molle exhalação das varzeas rescendentes. + +Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas +No ninho de affeições creado para ti, +Por entre o riso claro, e as vozes das creanças, +E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri. + +Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas, +Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas, +E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas +Bebemos o elixir das tardes perfumadas. + +E nosso bom romance escripto n'um desterro, +Com beijos sem ruido em noites sem luar, +Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro, +Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar. + +Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas +Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, +E eu não beijarei, ás horas somnolentas, +Os dedos de marfim, polidos e delgados... + +Eu, por não ter sabido amar os movimentos +Da estrophe mais ideal das harmonias mudas, +Eu sinto as decepções e os grandes desalentos +E tenho um riso mau como o sorrir de Judas. + +E tudo emfim passou, passou como uma penna, +Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes, +E aquella doce vida, aquella vida amena, +Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais! + +Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante! +Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado, +A areia em que rangia a saia roçagante, +Que foi na minha vida o ceo aurirosado, + +Eu tinha tão impresso o cunho da saudade, +Que as ondas que formei das suas illusões +Fizeram-me enganar na minha soledade +E as azas ir abrindo ás minhas impressões. + +Soltei com devoção lembranças inda escravas, +No espaço construi phantasticos castellos, +No tanque debrucei-me em que te debruçavas, +E onde o luar parava os raios amarellos. + +Cuidei até sentir, mais doce que uma prece, +Suster a minha fé, n'um veo consolador, +O teu divino olhar que as pedras amollece, +E ha muito que me prendeu nos carceres do amor. + +Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves, +Julguei-os esconder por entre as minhas mãos, +E imaginei ouvir ao conversar das aves +As celicas canções dos anjos aos teus irmãos. + + + +NOITE FECHADA + +(L.) + +Lembras-te tu do sabbado passado, +Do passeio que démos, devagar, +Entre um saudoso gaz amarellado +E as caricias leitosas do luar? + +Bem me lembro das altas ruasinhas, +Que ambos nós percorremos de mãos dadas: +Ás janellas palravam as visinhas; +Tinham lividas luzes as fachadas. + +Não me esqueço das cousas que disseste, +Ante um pesado templo com recortes; +E os cemiterios ricos, e o cypreste +Que vive de gorduras e de mortes! + +Nós saíramos proximo ao sol-posto, +Mas seguiamos cheios de demoras; +Não me esqueceu ainda o meu desgosto +Nem o sino rachado que deu horas. + +Tenho ainda gravado no sentido, +Porque tu caminhavas com prazer, +Cara rapada, gordo e presumido, +O padre que parou para te ver. + +Como uma mitra a cúpula da egreja +Cobria parte do ventoso largo; +E essa bocca viçosa de cereja, +Torcia risos com sabor amargo. + +A lua dava tremulas brancuras, +Eu ia cada vez mais magoado; +Vi um jardim com arvores escuras, +Como uma jaula todo gradeado! + +E para te seguir entrei comtigo +N'um pateo velho que era d'um canteiro, +E onde, talvez, se faça inda o jazigo +Em que eu irei apodrecer primeiro! + +Eu sinto ainda a flôr da tua pelle, +Tua luva, teu veu, o que tu és! +Não sei que tentação é que te impelle +Os pequeninos e cançados pés. + +Sei que em tudo attentavas, tudo vias! +Eu por mim tinha pena dos marçanos, +Como ratos, nas gordas mercearias, +Encafunados por immensos annos! + +Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros, +Que apparecem ao fundo d'umas minas, +E á crua luz os pallidos barbeiros +Com oleos e maneiras femininas! + +Fins de semana! Que miseria em bando! +O povo folga, estupido e grisalho! +E os artistas d'officio iam passando, +Com as ferias, ralados do trabalho. + +O quadro anterior, d'um que á candêa, +Ensina a filha a ler, metteu-me dó! +Gosto mais do plebeu que cambalêa, +Do bebado feliz que falla só! + +De subito, na volta de uma esquina, +Sob um bico de gaz que abria em leque, +Vimos um militar, de barretina +E galões marciaes de pechisbeque, + +E em quanto elle fallava ao seu namoro, +Que morava n'um predio de azulêjo, +Nos nossos labios retinio sonoro +Um vigoroso e formidavel beijo! + +E assim ao meu capricho abandonada, +Errámos por travessas, por viellas, +E passámos por pé d'uma tapada +E um palacio real com sentinellas. + +E eu que busco a moderna e fina arte, +Sobre a umbrosa calçada sepulchral, +Tive a rude intenção de violentar-te +Imbecilmente como um animal! + +Mas ao rumor dos ramos e d'aragem, +Como longiquos bosques muito ermos, +Tu querias no meio da folhagem +Um ninho enorme para nós vivermos. + +E ao passo que eu te ouvia abstractamente, +Ó grande pomba tépida que arrulha, +Vinham batendo o macadam fremente, +As patadas sonoras da patrulha, + +E atravez a immortal cidadesinha, +Nós fomos ter ás portas, ás barreiras, +Em que uma negra multidão se apinha +De tecelões, de fumos, de caldeiras. + +Mas a noite dormente e esbranquiçada +Era uma esteira lucida d'amor; +Ó jovial senhora perfumada, +Ó terrivel creança! Que esplendor! + +E ali começaria o meu desterro!... +Lodoso o rio, e glacial, corria; +Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro +Na muralha dos caes de cantaria. + +Nunca mais amarei, já que não me amas, +E é preciso, decerto, que me deixes! +Toda a maré luzida como escamas, +Como alguidar de prateados peixes. + +E como é necessario que eu me afoite +A perder-me de ti por quem existo, +Eu fui passar ao campo aquella noite +E andei leguas a pé, pensando n'isto. + +E tu que não serás sómente minha, +Ás caricias leitosas do luar, +Recolheste-te, pallida e sósinha +Á gaiola do teu terceiro andar! + + + +MANHANS BRUMOSAS + +Aquella, cujo amor me causa alguma pena, +Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, +E com a forte voz cantada com que ordena, +Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, +Por entre o campo e o mar, bucolica, morena, +Uma pastora audaz da religiosa Irlanda. + +Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas, +--Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!-- +Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; +E o meu desejo nada em epoca de banhos, +E, ave de arribação, elle enche de surprezas +Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos. + +As irlandezas teem soberbos desmazelos! +Ella descobre assim, com lentidões ufanas, +Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos; +E como aquellas são maritimas, serranas, +Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos +E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas. + +Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas, +Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, +Botões a tiracollo e applicações vermelhas; +E á roda, n'um paiz de prados e barrancos, +Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas, +Correm os seus desdens, como vitellos brancos. + +E aquella, cujo amor me causa alguma pena, +Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, +E com a forte voz cantada com que ordena, +Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, +Por entre o campo e o mar, catholica, morena, +Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda. + + + +FRIGIDA + +I + +Balzac é meu rival, minha senhora ingleza! +Eu quero-a porque odeio as carnações redondas! +Mas elle eternisou-lhe a singular belleza +E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas. + +II + +Admiro-a. A sua longa e placida estatura +Expõe a magestade austera dos invernos. +Não cora no seu todo a timida candura; +Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos. + +III + +Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante, +N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!... +Ninguem me prende assim, funebre, extravagante, +Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia! + +IV + +Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, +Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca; +Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite, +É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca! + +V + +Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso, +Ó gelida mulher bizarramente estranha, +E tremulo depor os labios no seu pulso, +Entre a macia luva e o punho de bretanha!... + +VI + +Scintilla no seu rosto a lucidez das joias. +Ao encarar comsigo a phantasia pasma; +Pausadamente lembra o silvo das giboias +E a marcha demorada e muda d'um phantasma. + +VII + +Metallica visão que Charles Baudelaire +Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos, +Permitta que eu lhe adule a distincção que fere, +As curvas de magreza e o lustre dos adornos! + +VIII + +Deslise como um astro, uma astro que declina; +Tão descançada e firme é que me desvaria, +E tem a lentidão d'uma corveta fina +Que nobremente vá n'um mar de calmaria. + +IX + +Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge, +No bosque das ficções, ó grande flor do Norte! +E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe +O socegado espectro angelico da Morte! + +X + +O seu vagar occulta uma elasticidade +Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, +E a sua glacial impassibilidade +Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso. + +XI + +Porem, não arderei aos seus contactos frios, +E não me enroscará nos serpentinos braços: +Receio supportar febrões e calefrios; +Adoro no seu corpo os movimentos lassos. + +XII + +E se uma vez me abrisse o collo transparente, +E me osculasse, emfim, flexivel e submisso, +Eu julgaria ouvir alguem, agudamente, +Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça! + + + +DE VERÃO + +A Eduardo Coelho + +I + +No campo; eu acho n'elle a musa que me anima: + A claridade, a robustez, a acção. + Esta manhã, saí com minha prima, + Em que eu noto a mais sincera estima + E a mais completa e séria educação. + +II + +Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro + Da lyrica excursão, d'intimidade + Não pinto a velha ermida com seu adro; + Sei só desenho de compasso e esquadro, + Respiro industria, paz, salubridade. + +III + +Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras; + E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas? + Apaga o teu cachimbo junto ás eiras; + Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras! + Quando me alegra a calma das debulhas!» + +IV + +E perguntavas sobre os ultimos inventos + Agrícolas. Que aldeias tão lavadas! + Bons ares! Boa luz! Bons alimentos! + Olha: Os saloios vivos, corpulentos, + Como nos fazem grandes barretadas! + +V + +Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens + Dos olivaes escuros. Onde irás? + Regressam os rebanhos das pastagens; + Ondeiam milhos, nuvens e miragens, + E, silencioso, eu fico para traz. + +VI + +N'uma collina azul brilha um logar caiado. + Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha, + Com teu chapéo de palha, desabado, + Tu continúas na azinhaga; ao lado + Verdeja, vicejante, a nossa vinha. + +VII + +N'isto, parando, como alguem que se analysa, + Sem desprender do chão teus olhos castos, + Tu começaste, harmonica, indecisa, + A arregaçar a chita, alegre e lisa + Da tua cauda um poucochinho a rastos. + +VIII + +Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros; + O sol abrasa as terras já ceifadas, + E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, + Sobre os teus pés decentes, verdadeiros, + As saias curtas, frescas, engommadas. + +IX + +E, como quem saltasse, extravagantemente, + Um rego d'agua sem se enxovalhar, + Tu, a austera, a gentil, a intelligente, + Depois de bem composta, déste á frente + Uma pernada comica, vulgar! + +X + +Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo! + No atalho enxuto, e branco das espigas + Caidas das carradas no salmejo, + Esguio e a negrejar em um cortejo, + Destaca-se um carreiro de formigas. + +XI + +Ellas, em sociedade, espertas, diligentes, + Na natureza trémula de sede, + Arrastam bichos, uvas e sementes; + E atulha, por instincto, previdentes, + Seus antros quasi occultos na parede. + +XII + +E eu desatei a rir como qualquer macaco! + «Tu não as esmagares contra o solo!» + E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco, + Eu de jasmim na casa do casaco + E d'oculo deitado a tiracolo! + +XIII + +«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora + Um sublimado corrosivo, uns pós + De solimão, eu, sem maior demora, + Envenenal-as-hia! Tu, por ora, + Preferes o romantico ao feroz. + +XIV + +Que compaixão! Julgava até que matarias + Esses insectos importunos! Basta. + Merecem-te espantosas sympathias? + Eu felicito suas senhorias, + Que honraste com um pulo de gymnasta!» + +XV + +E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros + Luziam, com doçura, honestamente; + De longe o trigo em monte, e os calcadoiros, + Lembravam-me fusões d'immensos oiros, + E o mar um prado verde e florescente. + +XVI + +Vibravam, na campina, as chocas da manada; + Vinham uns carros a gemer no outeiro, + E finalmente, energica, zangada, + Tu inda assim bastante envergonhada, + Volveste-me, apontando o formigueiro: + +XVII + +«Não me incommode, não, com ditos detestaveis! + Não seja simplesmente um zombador! + Estas mineiras negras, incançaveis, + São mais economistas, mais notaveis, + E mais trabalhoras que o senhor.» + + + +O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL + +A Guerra Junqueiro + + +I + +AVE MARIAS + + Nas nossas ruas, ao anoitecer, +Ha tal soturnidade, ha tal melancholia, +Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia +Despertam-me um desejo absurdo de soffrer. + + O ceu parece baixo e de neblina, +O gaz extravasado enjôa-me, perturba; +E os edificios, com as chaminés, e a turba +Toldam-se d'uma côr monotona e londrina. + + Batem os carros de aluguer, ao fundo, +Levando á via ferrea os que se vão. Felizes! +Occorrem-me em revista exposições, paizes: +Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! + + Semelham-se a gaiolas, com viveiros, +As edificações sómente emmadeiradas: +Como morcegos, ao cair das badaladas, +Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. + + Voltam os calafates, aos magotes, +De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos; +Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos, +Ou érro pelos caes a que se atracam botes. + + E evoco, então, as chronicas navaes: +Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado! +Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado! +Singram soberbas naus que eu não verei jámais! + + E o fim da tarde inspira-me; e incommoda! +De um couraçado inglez vogam os escaleres; +E em terra n'um tinir de louças e talheres +Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda. + + N'um trem de praça arengam dois dentistas; +Um tropego arlequim braceja n'umas andas; +Os cherubins do lar fluctuam nas varandas; +Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas! + + Vasam-se os arsenaes e as officinas; +Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; +E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras, +Correndo com firmeza, assomam as varinas. + + Vem sacudindo as ancas opulentas! +Seus troncos varonis recordam-me pilastras; +E algumas, á cabeça, embalam nas canastras +Os filhos que depois naufragam nas tormentas, + + Descalças! Nas descargas de carvão, +Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas; +E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas, +E o peixe pôdre géra os focos de infecção! + + +II + +NOITE FECHADA + + Toca-se as grades, nas cadeias. Som +Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! +O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças, +Bem raramente encerra uma mulher de «dom»! + + E eu desconfio, até, de um aneurisma +Tão morbido me sinto, ao accender das luzes; +Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes, +Chora-me o coração que se enche e que se abysma. + + A espaços, illuminam-se os andares, +E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos +Alastram em lençol os seus reflexos brancos; +E a lua lembra o circo e os jogos malabares. + + Duas egrejas, n'um saudoso largo, +Lançam a nodoa negra e funebre do clero: +N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, +Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo. + + Na parte que abateu no terremoto, +Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas; +Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, +E os sinos d'um tanger monastico e devoto. + + Mas, n'um recinto publico e vulgar, +Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras, +Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras, +Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar! + + E eu sonho o Colera, imagina a Febre, +N'esta accumulação de corpos enfezados; +Sombrios e espectraes recolhem os soldados; +Inflamma-se um palacio em face de um casebre. + + Partem patrulhas de cavallaria +Dos arcos dos quarteis que foram já conventos; +Edade-média! A pé, outras, a passos lentos, +Derramam-se por toda a capital, que esfria. + + Triste cidade! Eu temo que me avives +Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes, +Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, +Curvadas a sorrir ás montras dos ourives. + + E mais: as costureiras, as floristas +Descem dos magasins, causam-me sobresaltos; +Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos +E muitas d'ellas são comparsas ou coristas. + + E eu, de luneta de uma lente só, +Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados: +Entro na brasserie; ás mesas de emigrados, +Ao riso e á crua luz joga-se o dominó. + + +III + +AO GAZ + + E saio. A noite peza, esmaga. Nos +Passeios de lagedo arrastam-se as impuras. +Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras +Um sopro que arripia os hombros quasi nús. + + Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso +Ver cirios lateraes, ver filas de capellas, +Com santos e fieis, andores, ramos, velas, +Em uma cathedral de um comprimento immenso. + + As burguezinhas do Catholocismo +Resvalam pelo chão minado pelos canos; +E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, +As freiras que os jejuns matavam de hysterismo. + + N'um cutileiro, de avental, ao torno, +Um forjador maneja um malho, rubramente; +E de uma padaria exhala-se, inda quente, +Um cheiro salutar e honesto a pão no forno. + + E eu que medito um livro que exarcebe, +Quizera que o real e a analyse m'o dessem; +Casas de confecções e modas resplandecem; +Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe. + + Longas descidas! Não poder pintar +Com versos magistraes, salubres e sinceros, +A esguia diffusão dos vossos reverberos, +E a vossa pallidez romantica e lunar! + + Que grande cobra, a lubrica pessoa, +Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! +Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, +Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa. + + E aquella velha, de bandós! Por vezes, +A sua traîne imita um leque antigo, aberto, +Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, +Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes. + + Desdobram-se tecidos estrangeiros; +Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; +Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, +E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros, + + Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes +Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; +Da solidão regouga um cauteleiro rouco; +Tornam-se mausoléos as armações fulgentes. + + «Dó da miseria!... Compaixão de mim!...» +E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, +Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, +Meu velho professor nas aulas de latim! + + +IV + +HORAS MORTAS + + O tecto fundo de oxygenio, d'ar, +Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; +Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, +Enleva-me a chimera azul de transmigrar. + + Por baixo, que portões! Que arruamentos! +Um parafuso cáe nas lages, ás escuras: +Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, +E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos. + + E eu sigo, como as linhas de uma pauta +A dupla correnteza augusta das fachadas; +Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, +As notas pastoris de uma longiqua flauta. + + Se eu não morresse, nunca! E eternamente +Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! +Esqueço-me a prever castissimas esposas, +Que aninhem em mansões de vidro transparente! + + Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis, +Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas! +Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, +N'umas habitações translucidas e frageis. + + Ah! Como a raça ruiva do porvir, +E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes, +Nós vamos explorar todos os continentes +E pelas vastidões aquaticas seguir! + + Mas se vivemos, os emparedados, +Sem arvores, no valle escuro das muralhas!... +Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas +E os gritos de soccorro ouvir estrangulados. + + E n'estes nebulosos corredores +Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas; +Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, +Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores. + + Eu não receio, todavia, os roubos; +Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes; +E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes, +Amarelladamente, os cães parecem lobos. + + E os guardas, que revistam as escadas, +Caminham de lanterna e servem de chaveiros; +Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros, +Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas. + + E, enorme, n'esta massa irregular +De predios sepulchraes, com dimensões de montes, +A Dôr humana busca os amplos horisontes, +E tem marés, de fel, como um sinistro mar! + + + +DE TARDE + +N'aquelle «pic-nic» de burguezas, +Houve uma cousa simplesmente bella, +E que, sem ter historia nem grandezas, +Em todo o caso dava uma aguarella. + +Foi quando tu, descendo do burrico, +Foste colher, sem imposturas tolas, +A um granzoal azul de grão de bico +Um ramalhete rubro de papoulas. + +Pouco depois, em cima d'uns penhascos, +Nós acampámos, inda o sol se via; +E houve talhadas de melão, damascos, +E pão de ló molhado em malvasia. + +Mas, todo purpuro a sahir da renda +Dos teus dois seios como duas rolas, +Era o supremo encanto da merenda +O ramalhete rubro das papoulas! + + + +EM PETIZ + + +I + +DE TARDE + +Mais morta do que viva, a minha companheira +Nem força teve em si para soltar um grito; +E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito, +Como um homemzarrão servi-lhe de barreira! + +Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas, +Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas; +E, têtas a abanar, as mães de largas ancas, +Desciam mais atraz, malhadas e turinas. + +Do seio do logar--casitas com postigos-- +Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro. +Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, +Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos! + +Nós davamos, os dois, um giro pelo valle: +Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos! +E os fartos animaes, ao recolher dos pastos, +Roçavam pelo teu «costume de percale». + +Já não receias tu essa vaquita preta, +Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro +Que estavas a tremer, cosida com o muro, +Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta! + + +II + +OS IRMÃOSINHOS + +Pois eu, que no deserto dos caminhos, +Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; +Eu, que apartava as mansas das velhacas, +Fugia com terror dos pobresinhos! + +Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço! +Os velhos, que nos rezam padre-nossos; +Os mandriões que rosnam, altos, grossos; +E os cegos que se apoiam sobre o moço. + +Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros, +Ou que a poeira no suor mascarra, +Chegam das feiras a tocar guitarra, +Rolam os olhos como dois escarros! + +E os pobres mettem medo! Os de marmita, +Para forrar, por anno, alguns patacos, +Entrapam-se nas mantas com buracos, +Choramingando, a voz rachada, afflicta. + +Outros pedincham pelas cinco chagas; +E no poial, tirando as ligaduras, +Mostram as pernas putridas, maduras, +Com que se arrastam pelas azinhagas! + +Querem viver! E picam-se nos cardos; +Correm as villas; sobem os outeiros; +E ás horas de calor, nos esterqueiros, +De roda d'elles zumbem os moscardos. + +Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, +Batiam ao portão com seus cajados; +E um aleijado com os pés quadrados, +Pedia-nos de cima de um jumento. + +O resmungão! Que barbas! Que saccolas! +Cheirava a migas, a bafio, a arrotos; +Dormia as noutes por telheiros rotos, +E sustentava o burro a pão d'esmolas. + + * * * * * + +Ó minha loura e doce como um bolo! +Affavel hospeda na nossa casa, +Logo que a torrida cidade abraza, +Como um enorme fôrno de tijolo! + +Tu visitavas, esmoler, garrida, +Umas creanças n'um casal queimado; +E eu, pela estrada, espicaçava o gado, +N'uma attitude esperta e decidida. + +Por lobishomens, por papões, por bruxas, +Nunca soffremos o menor receio. +Temieis vós, porém, o meu aceio, +Mendigasitas sordidas, gorduchas! + +Vicios, sezões, epidemias, furtos, +De certo, fermentavam entre lixos; +Que podridão cobria aquelles bichos! +E que luar nos teus fatinhos curtos! + + * * * * * + +Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, +Ruça, descalça, a trote nos atalhos, +E que lavava o corpo e os seus retalhos +No rio, ao pé dos choupos e dos freixos. + +E a douda a quem chamavam a «Ratada» +E que fallava só! Que antipathia! +E se com ella a malta contendia, +Quanta indecencia! Quanta palavrada! + +Uns operarios, n'estes descampados, +Tambem surdiam, de chapeu de côco, +Dizendo-se, de olhar rebelde e louco, +Artistas despedidos, desgraçados. + +Muitos! E um bebedo--o Camões--que fôra +Rico, e morreu a mendigar, zarolho, +Com uma pala verde sobre um olho! +Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura. + +E o resto? Bandos de selvagensinhos: +Um nú que se gabava de maroto; +Um, que cortada a mão, coçava o coto, +E os bons que nos tratavam por padrinhos. + +Pediam fatos, botas, cobertores! +Outro jogava bem o pau, e vinha +Chorar, humilde, junto da coxinha! +«Cinco réisinhos!... Nobres bemfeitores!... + +E quando alguns ficavam nos palheiros, +E de manhã catavam os piolhos: +Emquanto o sol batia nos restolhos +E os nossos cães ladravam, resingueiros! + +Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos, +Dos surdos, dos manhosos, dos manetas. +Sulcavam as calçadas, de muletas; +Cantavam, no pomar, os pintarroxos! + + +III + +HISTORIAS + +Scismatico, doente, azedo, apoquentado, +Eu agourava o crime, as facas, a enxovia, +Assim que um besuntão dos taes se apercebia +Da minha blusa azul e branca, de riscado. + +Minaveis, ao serão, a cabecita loira, +Com contos de provincia, ingenuas creaditas: +Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas, +E pondo a gente fina, em postas, de salmoira! + +Na noite velha, a mim, como tições ardendo, +Fitavam-me os olhões pesados das ciganas; +Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas; +Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo. + +E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos, +Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto; +Sonhava que os ladrões--homens de quem m'espanto +Roubavam para azeite a carne dos meninos! + +E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando, +Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas, +Gritos de maioraes, mugidos de boiadas, +Branca de susto, meiga e miope, estacando! + + + +NÓS + +A A. de S. V. + + +I + +Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre +E o Cholera tambem andaram na cidade, +Que esta população, com um terror de lebre, +Fugiu da capital como da tempestade. + +Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas, +(Até então nós só tiveramos sarampo), +Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas +Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo. + +Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga: +O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos; +Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos +Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga. + +Na parte mercantil, foco da epidemia, +Um panico! Nem um navio entrava a barra, +A alfandega parou, nenhuma loja abria, +E os turbolentos caes cessaram a algazarra. + +Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados, +Rodavam sem cessar as seges dos enterros. +Que triste a sucessão dos armazens fechados! +Como um domingo inglez na «city», que desterro! + +Sem canalisação, em muitos burgos ermos, +Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros. +E os medicos, ao pé dos padres e coveiros, +Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos! + +Uma illuminação a azeite de purgueira, +De noite amarellava os predios macillentos. +Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira +Que tinham tons d'inferno outros arruamentos. + +Porém, lá fora, á solta, exageradamente +Emquanto acontecia essa calamidade, +Toda a vegetação, plethorica, potente, +Ganhava immenso com a enorme mortandade! + +N'um impeto de seiva os arvoredos fartos, +N'uma opulenta furia as novidades todas, +Como uma universal celebração de bodas, +Amaram-se! E depois houve soberbos partos. + +Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa, +Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas, +E em permanencia olhando o horizonte em brasa, +Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas. + +Elle d'um lado, via os filhos achacados, +Um livido flagello e uma molestia horrenda! +E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados, +E um salutar refugio e um lucro na vivenda! + +E o campo, desde então, segundo o que me lembro, +É todo o meu amor de todos estes annos! +Nós vamos para lá; somos provincianos, +Desde o calor de maio aos frios de novembro! + +II + +Que de fructa! E que fresca e temporã, +Nas duas boas quintas bem muradas, +Em que o sol, nos talhões e nas latadas, +Bate de chapa, logo de manhã! + +O laranjal de folhas negrejantes, +(Porque os terrenos são resvaladiços) +Desce em socalcos todos os macissos, +Como uma escadaria de gigantes. + +Das courellas, que criam cereaes, +De que os donos--ainda!--pagam foros. +Dividem-n'o fechados pitosporos, +Abrigos de raizes verticaes. + +Ao meio, a casaria branca assenta +Á beira da calçada, que divide +Os escuros pomares de pevide, +Da vinha, n'uma encosta soalhenta! + +Entretanto, nao ha maior prazer +Do que, na placidez das duas horas, +Ouvir e ver, entre o chiar das noras, +No largo tanque as bicas a correr! + +Muito ao fundo, entre olmeiros seculares, +Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem, +O seu leito é um atalho de passagem, +Pedregosissimo, entre dois logares. + +Como lhe luzem seixos e burgaus +Roliçõs! Marinham nas ladeiras +Os renques africanos das piteiras, +Que como áloes espigam altos paus! + +Montanhas inda mais longiquamente, +Com restevas, e combros como boças, +Lembram cabeças estupendas, grossas, +De cabello grisalho, muito rente. + +E, a contrastar, nos valles, em geral, +Como em vidraça d'uma enorme estufa, +Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa, +D'uma vitalidade equatorial! + +Que de frugalidades nós criamos! +Que torrão espontaneo que nós somos! +Pela outomnal maturação dos pomos, +Com a carga, no chão pousam os ramos. + +E assim postas, nos barros e areiaes, +As maceiras vergadas fortemente, +Parecem, d'uma fauna surprehendente, +Os polypos enormes, diluviaes. + +Comtudo, nós não temos na fazenda +Nem uma planta só de mero ornato! +Cada pé mostra-se util, é sensato, +Por mais finos aromas que rescenda! + +Finalmente, na fertil depressão, +Nada se vê que a nossa mão não regre: +A florescencias d'um matiz alegre +Mostra um sinal--a fructificação! + + * * * * * + +Ora, ha dez annos, n'este chão de lava +E argila e areia e alluviões dispersas, +Entre especies botanicas diversas, +Forte, a nossa familia radiava! + +Unicamente, a minha doce irmã, +Como uma tenue e immaculada rosa, +Dava a nota galante e melindrosa +Na trabalheira rustica, aldeã. + +E foi n'um anno prodigo, excellente, +Cuja amargura nada sei que adoce, +Que nós perdemos essa flor precoce, +Que cresceu e morreu rapidamente! + +Ai d'aquelles que nascem n'este cahos, +E, sendo fracos, sejam generosos! +As doenças assaltam os bondosos +E--custa a crer--deixam viver os maus! + + * * * * * + +Fecho os olhos cançados, e descrevo +Das telas da memoria retocadas, +Biscates, hortas, batataes, latadas, +No paiz montanhoso, com relevo! + +Ah! Que aspectos benignos e ruraes +N'esta localidade tudo tinha, +Ao ires, com o banco de palhinha, +Para a sombra que faz nos parreiraes! + +Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente +Que uma folha se mova ou se desmanche, +Tu, refeita e feliz com o teu «lunch», +Nos ajudavas, voluntariamente!... + +Era admiravel--n'este grau do Sul!-- +Entre a rama avistar o teu rosto alvo, +Ver-te escolhendo a uva diagalvo, +Que eu embarcava para Liverpool. + +A exportação de frutas era um jogo: +Dependiam da sorte do mercado +O boal, que é de perolas formado, +E o ferral, que é ardente e côr de fogo! + +Em agosto, ao calor canicular, +Os passaros e enxames tudo infestam; +Tu cortavas os bagos que não prestam +Com a tua thesoura de bordar. + +Douradas, pequeninas, as abelhas, +E negros, volumosos, os besoiros, +Circumdavam, com impetos de toiros, +As tuas candidissimas orelhas. + +Se uma vespa lançava o seu ferrão +Na tua cutis--petala de leite!-- +Nós collocavamos dez réis e azeite +Sobre a galante, a rosea inflammação! + +E se um de nós, já farto, arrenegado, +Com o chapeo caçava a bicharia, +Cada zangão voando, á luz do dia, +Lembrava o teu dedal arremessado. + + * * * * * + +Que d'encantos! Na força do calor +Desabrochavas no padrão da bata, +E, surgindo da gola e da gravata, +Teu pescoço era o caule d'uma flor! + +Mas que cegueira a minha! Do teu porte +A fina curva, a indefinida linha, +Com bondades d'herbivora mansinha, +Eram prenuncios de fraqueza e morte! + +Á procura da libra e do «schilling», +Eu andava abstracto e sem que visse +Que o teu alvor romantico de «miss» +Te obrigava a morrer antes de mim! + +E antes tu, ser lindissimo, nas faces +Tivesses «panno» como as camponezas; +E sem brancuras, sem delicadezas, +Vigorosa e plebeia, inda durasses! + +Uns modos de carnivora feroz +Podias ter em vez de inoffensivos; +Tinhas caninos, tinhas incisivos, +E podias ser rude como nós! + +Pois n'este sítio, que era de sequeiro, +Todo o genero ardente resistia, +E, á larguissima luz do Meio-dia, +Tomava um tom opalico e trigueiro! + + * * * * * + +Sim! Europa do Norte, o que suppões +Dos vergeis que abastecem teus banquetes, +Quando ás dockas, com fructas, os paquetes +Chegam antes das tuas estações?! + +Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra +E as tuas frutas acidas, tardias, +No azedo amoniacal das queijarias +Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra! + +Ó cidades fabris, industriaes, +De nevoeiros, poeiradas de hulha, +Que pensaes do paiz que vos atulha +Com a fructa que sae dos seus quintaes? + +Todos os annos, que frescor se exhala! +Abundancias felizes que eu recordo! +Carradas brutas que iam para bórdo! +Vapores por aqui fazendo escala! + +Uma alta parreira muscatel +Por doce não servia para embarque: +Palacios que rodeiam Hyde-Park, +Não conheceis esse divino mel! + +Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado, +Não as têm nas florestas em que ha corças, +Nem em vós que dobraes as vossas forças, +Pradarias d'um verde illimitado! + +Anglos-Saxonios, tendes que invejar! +Ricos suicidas, comparae comvosco! +Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco, +Facilimo, evidente, salutar! + +Opponde ás regiões que dão os vinhos +Vossos montes d'escorias inda quentes! +E as febris officinas estridentes +Ás nossas tecelagens e moinhos! + +E ó condados mineiros! Extensões +Carboniferas! Fundas galerias! +Fabricas a vapor! Cutelarias! +E mechanicas, tristes fiações! + +Bem sei que preparaes correctamente +O aço e a seda, as laminas e o estofo; +Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo, +Tudo o que ha de mais rijo e resistente! + +Mas isso tudo é falso, é machinal, +Sem vida, como um circulo ou um quadrado, +Com essa perfeição do fabricado, +Sem o rythmo do vivo e do real! + +E cá o santo sol, sobre isso tudo, +Faz conceber as verdes ribanceiras; +Lança as rosaceas bellas e fructeiras +Nas searas de trigo palhagudo! + +Uma aldeia d'aqui é mais feliz, +Londres sombria, em que scintilla a corte!... +Mesmo que tu, que vives a compor-te, +Grande seio arquejante de Paris!... + +Ah! Que de gloria, que de colorido, +quando, por meu mandado e meu conselho, +Cá se empapelam «as maçãs d'espelho» +Que Herbert Spencer talvez tenha comido! + +Para alguns são prosaicos, são banaes +Estes versos de fibra succolenta; +Como se a polpa que nos dessedenta +Nem ao menos valesse uns madrigaes! + +Pois o que a bocca trava com surprezas +Senão as frutas tónicas e puras! +Ah! N'um jantar de carnes e gorduras +A graça vegetal das sobremesas!... + +Jack, marujo inglez, tu tens razão +Quando, ancorando em portos como os nossos, +As laranjas com cascas e caróços +Comes com bestial soffreguidão!... + + * * * * * + +A impressão d'outros tempos, sempre viva, +Dá estremeções no meu passado morto, +E inda viajo, muita vez, absorto, +Pelas varzeas da minha retentiva. + +Então recordo a paz familiar, +Todo um painel pacifico d'enganos! +E a distancia fatal d'uns poucos annos +É uma lente convexa, d'augmentar. + +Todos os typos mortos resuscito! +Perpetuam-se assim alguns minutos! +E eu exagéro os casos diminutos +Dentro d'um véo de lagrimas bemdito. + +Pinto quadros por lettras, por signaes, +Tão luminosos como os do Levante, +Nas horas em que a calma é mais queimante, +Na quadra em que o verão aperta mais. + +Como destacam, vivas, certas cores, +Na vida externa cheia d'alegrias! +Horas, vozes, locaes, physionomias, +As ferramentas, os trabalhadores! + +Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar +E a rama do pinheiro! Eu adivinho +O resinoso, o tão agreste pinho +Serrado nos pinhaes da beira mar. + +Vinha cortada, aos feixes, a madeira, +Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas; +Depois armavam-se, n'um prompto as caixas +Sob uma calma espessa e calaceira! + +Feias e fortes! Punham-lhes papel, +A forral-as. E em grossa serradura +Acamava-se a uva prematura +Que não deve servir para tonel! + +Cingiam-n'as com arcos de castanho +Nas ribeiras cortados, nos riachos; +E eram d'assucar e calor os cachos, +Criados pelo esterco e pelo amanho! + +Ó pobre estrume, como tu compões +Estes pampanos doces como afagos! +«Dedos de dama»: transparentes bagos! +«Tetas de cabra»: lacteas carnações! + +E não eram caixitas bem dispostas +Como as passas de Malaga e Alicante; +Com sua fórma estavel, ignorante, +Estas pesavam, brutalmente, ás costas! + +Nos vinhatorios via fulgurar, +Com tanta cal que torna as vistas cegas, +Os parallelogramos das adegas, +Que têm lá dentro as dornas e o lagar! + +Que rudeza! Ao ar livre dos estios. +Que grande azafama! Apressadamente +Como soava um martellar frequente, +Véspera da saida dos navios! + +Ah! Ninguem entender que ao meu olhar +Tudo tem certo espirito secreto! +Com folhas de saudades um objecto +Deita raizes duras de arrancar! + +As navalhas de volta, por exemplo, +Cujo bico de passaro se arqueia, +Forjadas no casebre d'uma aldeia, +São antigas amigas que eu contemplo! + +Ellas, em seu labor, em seu lidar, +Com sua ponta como a da podoas, +Serviam próbas, uteis, dignas, boas, +Nunca tintas de sangue e de matar. + +E as enxós de martello, que d'um lado +Cortavam mais do que as enxadas cavam, +Por outro lado, rápidas, pregavam, +D'uma pancada, o prego fasquiado! + +O meu animo verga na abstracção, +Com a espinha dorsal dobrada ao meio; +Mas se de materiaes descubro um veio +Ganho a musculatura d'um Sansão! + +E assim--e mais no povo a vida é corna-- +Amo os officios como o de ferreiro, +Com seu folle arquejante, seu brazeiro, +Seu malho retumbante na bigorna! + +E sinto, se me ponho a recordar +Tanto utensilio, tantas perspectivas, +As tradições antigas, primitivas, +E a formidavel alma popular! + +Oh! Que brava alegria eu tenho quando +Sou tal qual como os mais! E, sem talento, +Faço um trabalho technico, violento, +Cantando, praguejando, batalhando! + + * * * * * + +Os fruteiros, tostados pelos soes, +Tinham passado, muita vez, a raia, +E, espertos, entre os mais da sua laia, +--Pobres camponios--eram uns heroes. + +E por isso, com phrases imprevistas, +E colorido e estylo e valentia, +As «haciendas» que ha na «Andalucia» +Pintavam como novos paysagistas. + +De como, ás calmas, n'essas excursões, +Tinham aguas salobras por refrescos; +E amarellos, enormes, gigantescos, +Lá batiam o queixo com sesões! + +Tinham corrido já na adusta Hespanha, +Todo um fertil plató sem arvoredos, +Onde armavam barracas nos vinhedos, +Como tendas alegres de campanha. + +Que pragas castelhanas, que alegrão, +Quanto contavam scenas de pousadas! +Adoravam as cintas encarnadas +E as côres, como os pretos do sertáo! + +E tinham, sem que a lei a tal obrigue, +A educação vistosa das viagens! +Uns por terra partiam e estalagens, +Outros, aos montes, no convez d'um brigue! + +Só um havia, triste e sem fallar +Que arrastava a maior misantropia, +E, roxo como um figado, bebia +O vinho tinto que eu mandava dar! + +Pobre da minha geração exangue +De ricos! Antes, como os abrutados, +Andar com uns sapatos encebados, +E ter riqueza chimica no sangue! + + * * * * * + +Mas hoje a rustica lavoura, quer +Seja o patrão, quer seja o jornaleiro, +Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro +E a filharada lidam, e a mulher!... + +Desde o princípio ao fim é uma maçada +De mil demonios! Torna-se preciso +Ter-se muito vigor, muito juizo +Para trazer a vida equilibrada! + +Hoje eu sei quanto custam a criar +As cepas, desde que eu as pódo e empo. +Ah! O campo não é um passatempo +Com bucolismos, rouxinoes, luar. + +A nós tudo nos rouba e nos dizima: +O rapazio, o imposto, as pardaladas, +As osgas peçonhentas, achatadas, +E as abelhas que engordam na vindima. + +E o pulgão, a lagarta, os caracoes, +E ha inda, alem do mais com que se ateima, +As intemperies, o granizo, a queima, +E a concorrencia com os hespanhoes. + +Na vendas, os vinhateiros d'Almeria +Competem contra os nossos fazendeiros. +Dão frutas aos leilões dos estrangeiros, +Por uma cotação que nos desvia! + +Pois tantos contras, rudes como são, +Forte e teimoso, o camponez destroe-os! +Venham de lá pesados os comboyos +E os «buques» estivados no porão! + +Não, não é justo que eu a culpa lance +Sobre estes nadas! Puras bagatellas! +Nós não vivemos só de coisas bellas, +Nem tudo corre como n'um romance! + +Para a Terra parir hade ter dor, +E é para obter as asperas verdades, +Que os agronomos cursam nas cidades, +E, á sua custa, aprende o lavrador. + +Ah! Não eram insectos nem as aves +Que nos dariam dias tão difficeis, +Se vós, sabios, na gente descobrisseis +Como se curam as doenças graves. + +Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais! +Difficultoso trato das cearas! +Lutas constantes sobre as jornas caras! +Compras de bois nas feiras annuaes! + +O que a alegria em nós destroe e mata, +Não é rede arrastante d'escalracho, +Nem é «suão» queimante como um facho, +Nem invasões bulhosas d'herva pata. + +Podia ter seccado o poço em que eu +Me debruçava e te pregava sustos, +E mais as hervas, arvores e arbustos +Que--tanta vez!--a tua mão colheu. + +«Molestia negra» nem «charbon» não era, +Como um archote incendiando as parras! +Tão pouco as bastas e invisiveis garras, +Da enorme legião do phylloxera! + +Podiam mesmo, com o que contêm, +Os muros ter caido às invernias! +Somos fortes! As nossas energias +Tudo vencem e domam muito bem! + +Que os rios, sim, que como touros mugem, +Transbordando atulhassem as regueiras! +Chorassem de resina as larangeiras! +Ennegrecessem outras com ferrugem! + +As turvas cheias de novembro, em vez +Do nateiro subtil que fertilisa, +Fossem a inundação que tudo pisa, +No rebanho afogassem muita rez! + +Ah! N'esse caso pouco se perdera, +Pois isso tudo era um pequeno damno, +Á vista do cruel destino humano +Que os dedos te fazia como cera! + +Era essa tysica em terceiro grau, +Que nos enchia a todos de cuidado, +Te curvava e te dava um ar alado +Como quem vae voar d'um mundo mau. + +Era a desolação que inda nos mina +(Porque o fastio é bem peior que a fome) +Que a meu pai deu a curva que a consome, +E a minha mãe cabellos de platina. + +Era a chlorose, esse tremendo mal, +Que desertou e que tornou funesta +A nossa branca habitação em festa +Reverberando a luz meridional. + +Não desejemos,--nós os sem defeitos,-- +Que os tysicos pereçam! Má theoria, +Se pelos meus o apuro principia, +Se a Morte nos procura em nossos leitos! + +A mim mesmo, que tenho a pretensão +De ter saude, a mim que adoro a pompa +Das forças, pode ser que se me rompa +Uma arteria, e me mine uma lesão. + +Nós outros, teus irmãos, teus companheiros, +Vamos abrindo um matagal de dores! +E somos rijos como os serradores! +E positivos como os engenheiros! + +Porém, hostis, sobresaltados, sós, +Os homens architectam mil projectos +De victoria! E eu duvido que os meus netos +Morram de velhos como os meus avós! + +Porque, parece, ou fortes ou velhacos +Serão apenas os sobreviventes; +E ha pessoas sinceras e clementes, +E troncos grossos com seus ramos fracos! + +E que fazer se a geração decae! +Se a seiva genealogica se gasta! +Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! +Morre o filho primeiro do que o pai! + +Mas seja como for, tudo se sente +Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta, +Ó flor cortada, susceptivel, alta, +Que assim seccaste prematuramente! + +Eu que de vezes tenho o desprazer +De reflectir no tumulo! E medito +No eterno Incognoscivel infinito, +Que as idéas não podem abranger! + +Como em paul em que nem cresça a junca +Sei d'almas estagnadas! Nós absortos, +Temos ainda o culto pelos Mortos, +Esses ausentes que não voltam nunca! + +Nós ignoramos, sem religião, +Ao rasgarmos caminho, a fé perdida, +Se te vemos ao fim d'esta avenida +Ou essa horrivel aniquilação!... + +E ó minha martyr, minha virgem, minha +Infeliz e celeste creatura, +Tu lembras-nos de longe a paz futura, +No teu jazigo, como uma santinha! + +E emquanto a mim, és tu que substitues +Todo o mysterio, toda a santidade, +Quando em busca do reino da verdade +Eu ergo o meu olhar aos ceos azues! + + +III + +Tinhamos nós voltado á capital maldicta, +Eu vinha de polir isto tranquillamente, +Quando nos seccedeu uma cruel desdita, +Pois um de nós caiu, de subito, doente. + +Uma tuberculose abria-lhe cavernas! +Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo! +E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas, +Com que se despediu de todos e do mundo! + +Pobre rapaz robusto e cheio de futuro! +Não sei d'um infortunio immenso como o seu! +Vio o seu fim chegar como um medonho muro, +E, sem querer, afflicto e attonito, morreu! + +De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo +Como tanta crueldade e tantas injustiças, +Se inda trabalho é como os presos no degredo, +Com planos de vingança e idéas insubmissas. + +E agora, de tal modo a minha vida é dura, +Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos, +Que sinto só desdem pela litteratura, +E até desprézo e esqueço os meus amados versos! + + + +PROVINCIANAS + + +I + +Olá! Bons dias! Em março +Que mocetona e que joven +A terra! Que amor esparso +Corre os trigos, que se movem +Ás vagas d'um verde garço! + +Como amanhece! Que meigas +As horas antes de almoço! +Fartam-se as vaccas nas veigas +E um pasto orvalhado e moço +Produz as novas manteigas. + +Toda a paizagem se doura; +Tibida ainda, que frecas! +Bella mulher, sim senhora, +N'esta manhã pittoresca, +Primaveral, creadora! + +Bom sol! As sebes d'encosto +Dão madresilvas cheirosas +Que entotecem como um mosto +Floridas, ás espinhosas +Subio-lhes o sangue ao rosto. + +Cresce o relevo dos montes, +Como seios offegantes; +Murmuram como umas fontes +Os rios que dias antes +Bramiam galgando pontes. + +E os campos, milhas e milhas, +Com póvos d'espaço a espaço, +Fazem-se ás mil maravilhas; +Dir-se-ia o mar de sargaço +Glauco, ondulante, com ilhas! + +Pois bem. O inverno deixou-nos. +É certo. E os grãos e as sementes +Que ficam d'outros outonos +Acordam hoje frementes +Depois d'uns poucos de somnos. + +Mas nem tudo são descantes +Por esses longos caminhos +Entre favaes palpitantes +Há solos bravos, maninhos, +Que expulsam seus habitantes! + +E n'esta quadra d'amores +Que emigram os jornaleiros +Ganhões e trabalhadores! +Passam clans de forasteiros +Nas terras de lavradores. + +Tal como existem mercados +Ou feiras, semanalmente +Para comprarmos os gados +Assim ha praças de gente +Pelos domingos calados! + +Emquanto a ovelha arredonda, +Vão tribus de sete filhos, +Por varzeas que fazem onda, +Para as derregas dos milhos +E molhadellas da monda. + +De roda pulam borregos; +Enchem então as cardosas +As moças d'esses labregos +Com altas botas bartrosas +De se atirarem aos regos! + +Eil-as que vem ás manadas +Com caras de soffrimento, +Nas grandes marchas forçadas! +Vem ao trabalho, ao sustento, +Com fouces, sachos, enchadas! + +Ai o palheiro das servas +Se o feitor lhe tira as chaves! +Ellas chegam ás catervas, +Quando acasalam as aves +E se fecundam as hervas!... + + +II + +Ao meio dia na cama, +Branca fidalga o que julga +Das pequenas da su'ama?! +Vivem minadas da pulga +Negras do tempo e da lama. + +Não é caso que a commova +Ver suas irmans de leite, +Quer faça frio, quer chova, +Sem uma mamã que as deite +Na tepidez d'um alcova?! + +Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta. + + +NOTAS + +Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa, +freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no +Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José +Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos +Santos Verde. + + * * * * * + +A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi +o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no +Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario +Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga. +Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o +poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem. +Realmente o eram--pela hesitação do neophyto. + + * * * * * + +Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje +respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as +poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de +menos folego. + + * * * * * + +No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra +de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da +tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna, +da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas. +Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da +promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade; +--ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia. + +Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com +os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos +insultos. + + * * * * * + +Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes, +pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem +como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição +será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas. + +1887. + +S. P. + + +INDICE + +Dedicatoria +Prefacio + +VERSOS + +CRISE ROMANESCA + +Deslumbramentos +Septentrional +Meridional +Ironias do Desgosto +Humilhações +Responso + +NATURAES + +Contrariedades +A debil +N'um bairro moderno +Crystalisações +Noites gelidas +Sardenta +Flores velhas +Noite fechada +Manhans brumosas +Frigida +De verão +O sentimento d'um occidental +De tarde +Em petiz +Nós +Provincianas + +Notas + + + + + + + + + +End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE *** + +***** This file should be named 8698-8.txt or 8698-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/8/6/9/8698/ + +Produced by João Miguel Neves from images of the National +Digital Library project from the National Library of +Portugal. + +Updated editions will replace the previous one--the old editions will +be renamed. + +Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright +law means that no one owns a United States copyright in these works, +so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United +States without permission and without paying copyright +royalties. 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A minha "obra" terminou no dia em que elle saiu da nossa +doce amizade para a nossa terrivel amargura: morri, meu querido +Jorge--deixe-me chamar assim ao irmao do meu querido Cesario;--morri +para as alegrias do trabalho, para as esperancas dos enganos doces! +O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espirito e no coracao! Dos +restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicacao extremada: +peca-me o sacrificio; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de +nos, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmao +soube impor-se a um coracao endurecido; e tenha este outro pensamento: +--Mas nao estava de todo endurecido o coracao que soube amal-a. + +Adeus, meu querido Jorge! + +S.P. + +20 de julho de 1886. + +Encontramo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi +em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem as +Lettras, como se as Lettras la estivessem--no Curso. Eu matriculara-me, +com a esperanca de habilitar-me um dia a conquista de uma cadeira +disponivel. Encontramo-nos e ficamos amigos--para a vida e para a +morte. + +Para a vida e para a morte. + +Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle +nao teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu +fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, as 10 horas da +noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do +seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas +palavras suas de ha poucos dias:--"E como se de o caso de tu seres +o mais dedicado dos meus amigos..." Tenho aqui essas palavras: +ellas constituem a justificacao dos meus solucos de ha poucas horas, +alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua +primeira noite redimida... + +Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraca, n'aquelle +anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de +Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forcas com as avancadas +do meu destino, a inquietacao invadiu o espirito e o coracao de +Cesario Verde, por modo que ja eu assoberbara com o meu desprezo +a desventura pertinaz e ainda elle nao vingara libertar-se do peso +de seus cuidados e afflicoes. Durante annos escreveu-me centenares +de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do +seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coracao fraternal. Um +dia, trocamos estas palavras:--"Como tu tens tempo, meu amigo, para +soffrer tanto!"--"Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar +no soffrimento!". + +E indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para +conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida, +imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia +espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor +da discussao--a toda a hora. Eu careco de preparar-me durante horas +para a simples comprehensao. As exigencias do meu caro polemista +irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o +sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e +largo sorriso de convencido; e entao--meu querido amigo! meu santo +poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creanca amoravel o que +elle chamava o meu triumpho! Nao hesitava em confessar-se vencido; +e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente. +A generosa alma chamava aquillo a minha superioridade! + +Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem +em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades +amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de +primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos +seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas +do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica +do poeta: e entao dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam +foros de poesia aos aromas das flores. O mesmo sopro bondoso e +potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes +e as rosas! A bondade summa esta no poeta,--mais visivel, pelo menos, +do que em Deus. + +Artista--e de alta plana! Eu pude vel-o cioso de seus direitos e +reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois +que um ligeiro esboco, precedendo mais detido trabalho, estou +elaborando sobre os tracos mais salientes d'aquella individualidade, +nao me dispensarei d'esta indicripcao: + +Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: "O Doutor Sousa Martins +perguntou-me qual era a minha occupacao habitual. Eu respondi-lhe +naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se a +minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo, +o que eu te peco e que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe +des a perceber que eu nao sou o sr. Verde, empregado no commercio. +Eu nao posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus +escrupulos: sim?..." + +E eu fui a beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario +Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me +--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava +irremediavelmente perdido! + +Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior, +quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado, +meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o +teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu +pallido agonisante illudido! + +A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel +e originalissimo poeta merecem a Critica independente uma attencao +desvelada. Eu nao hesito em vincular o meu nome a promessa de um +tributo que a obra de Cesario Verde esta reclamando. + + * * * * * + +E todavia, nao pode o meu espirito evadir-se a idea consoladora de +que e um sonho isto que o entenebrece! Nao podes evadir-te, o meu +espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dor! + +Foi as cinco da tarde--ainda agora. Caia o sol a prumo sobre a +estrada do Lumiar e nos vinhamos arrastando a nossa miseria,--nos +os vivos; o morto arrastava a sua indifferenca. Chegamos, com duas +horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanco. Veio o +ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia +terrivel: Entre algumas dezenas de homens nao houve uma phrase +indifferente--e em dado momento explosiram solucos n'um enternecimento +que ageitava a loira cabeca do cadaver la dentro do caixao--como +as maos da mae lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte +e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas! + +Eram sete horas da tarde, o minha alma triste! Eu fui-me a chorar +velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas. +Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos +que que me desse forca, que me desse forca nova,--pois que se +prolonga o captiveiro! E a sos, caminhando por entre os tumulos, +ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nos recebemos forca +nova em cada nova dor, para soffrermos de novo--do mesmo modo que +o alcatruz de uma nora se despeja para encher-se, para despejar-se +--sem saber porque... + +20 de Agosto + + * * * * * + +A morada nova do Cesario e de pedra e tem uma porta de ferro, com +um respiradouro em cruz;--rua n. 6 do cemiterio dos Prazeres. A +porta esta um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu +querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarcou ao +terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, ca da +minha raca--funebre e resistente. Esta verdejante e vigorosa a +pequenina arvore, e de longe e uma sentinella perdida da minha doce +amizade religiosa. De longe vou ja perguntando a nossa arvore:--Esta +bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a +gravidade do cypreste:--Bem; nao houve novidade em toda a noite... + +E que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou e +todo um meu cuidado, como e toda a minha alegria o bem-estar +d'aquella hora em que nao ha risos. Nao fomos risonhos--o Cesario +e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois +da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira +consolacoes, alentos, esperancas, onde elle imaginara renascimentos, +horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que +se lhe nao consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle +cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado +desprezo da vida. O meu santo esta alli,--esta resignado: e tudo. +Vos todos, que o amastes, sabei que elle esta resignado--o nosso +querido morto impassivel! + +E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei +da porta de ferro a minha pobre cabeca esbrazeada e olhei para +dentro do jazigo, involuntariamente; e entao, como quer que eu +visse la a dentro do jazigo alguns caixoes arrumados, e como eu +acertasse em descobrir o caixao do Cesario, os solucos despedacaram-se +contra a minha garganta, n'uma affliccao immensa e cruel. E foi +entao que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz +d'elle?--pronunciou distinctamente la a dentro do caixao:--"Se +natural, meu amigo; se natural!" + +Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, o meu sagrado +horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei +n'uma angustia:--"Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!" Nao se +reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, +um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte! + +Vao ja decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos +da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que nao +havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e +torturando os olhos avidos, desde o berco a sepultura redemptora. +Cheguei aqui, a cidade maldita da minha primeira hora e trazia o +sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito +illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperancas: a +crueldade bestial que se debrucara sobre o meu primeiro dia nao +estava arrependida, nem fatigada: a perseguicao renasceu. E quando +eu, no singular desespero dos esmagados em sua crenca, pensei na +Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz +de Cesario foi a voz evocadora para a continuacao do soffrimento +--do soffrimento amparado e protegido... + +Protegido! A proteccao foi a maior da grande alma serena para a +pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas +lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignacao, consagrado as +minhas amarguras,--que para o Cesario nao foram mysteriosas; foi o +aperto de mao robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e +severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que +a minha angustia encontrou na sua. + +Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte! +Vae-se na corrente, desfallecido, se nos nao troveja nos ouvidos a +voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois +do grito salvador, tinhas um applauso vibrante la do fundo da tua +grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua +mao, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu nao +quizera ver, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro +da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre, +sempre bom--e todavia sempre justo! + +A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua +voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebelliao, com a +desconfianca dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados +offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias: +conseguintemente, com a suppressao do trabalho,--do pao,--com a +calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas a minha colera, +com todas as ciladas a minha fe... Ah, perdidos em paiz de Cafres! +Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os +dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisacao! + +Hoje, o meu santo amigo esta alli em baixo, na sua morada nova, +esperando... Espera que eu va dizer-lhe dos horisontes novos abertos +a consciencia dos justos; espera que eu va dizer-lhe as victorias da +Justica absoluta--da Justica illuminada e serena;--espera que eu va +dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razao, da Sciencia, da +Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a +Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado, +a Vida possivel, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas +supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias +reconhecidas, a Bondade convertida em norma, os Direitos e os Deveres +supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fe, o seu horisonte, +o seu amor! + +Esta alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, nao saberei +dizer-lhe o ascender dos espiritos, e so poderei levar-lhe no meu +abatimento a demonstracao da minha pouca fe, aggravada pela espantosa +amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visoes +do poeta hao de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a +minha pobre mao tremente e desfallecida lhe depora no tumulo, e os +restos da minha fe hao-de misturar-se com o po accumulado a entrada +do seu tumulo pelo Nordeste--menos frio do que a minha alma succumbida! + + * * * * * + +Silva Pinto. + + + + + +Os versos + + + + +I + +CRISE ROMANESCA + + +DESLUMBRAMENTOS + +Milady, e perigoso contemplal-a, +Quando passa aromatica e normal, +Com seu typo tao nobre e tao de sala, +Com seus gestos de neve e de metal. + +Sem que n'isso a desgoste ou desenfade, +Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, +Eu vejo-a, com real solemnidade, +Ir impondo toilettes complicadas!... + +Em si tudo me attrae como um thesoiro: +O seu ar pensativo e senhoril, +A sua voz que tem um timbre de oiro +E o seu nevado e lucido perfil! + +Ah! Como m'estontea e me fascina... +E e, na graca distincta do seu porte, +Como a Moda superflua e feminina, +E tao alta e serena como a Morte!... + +Eu hontem encontrei-a, quando vinha, +Britannica, e fazendo-me assombrar; +Grande dama fatal, sempre sosinha, +E com firmeza e musica no andar! + +O seu olhar possue, n'um fogo ardente, +Um archanjo e um demonio a illuminal-o; +Como um florete, fere agudamente, +E afaga como o pello d'um regalo! + +Pois bem. Conserve o gelo por esposo, +E mostre, se eu beijar-lhe as brancas maos, +O modo diplomatico e orgulhoso +Que Anna d'Austria mostrava aos cortezaos. + +E emfim prosiga altiva como a Fama, +Sem sorrisos, dramatica, cortante; +Que eu procuro fundir na minha chamma +Seu ermo coracao, como um brilhante. + +Mas cuidado, milady, nao se afoite, +Que hao-de acabar os barabaros reaes; +E os povos humilhados, pela noite, +Para a vinganca agucam os punhaes. + +E um dia, o flor do Luxo, nas estradas, +Sob o setim do Azul e as andorinhas, +Eu hei-de ver errar, allucinadas, +E arrastando farrapos--as rainhas! + + + +SEPTENTRIONAL + +Talvez ja te esquecesses, o bonina, +Que viveste no campo so commigo, +Que te osculei a bocca purpurina, +E que fui o teu sol e o teu abrigo. + +Que fugiste commigo da Babel, +Mulher como nao ha nem na Circassia, +Que bebemos, nos dois, do mesmo fel, +E regamos com prantos uma acacia. + +Talvez ja te nao lembres com desgosto +D'aquellas brancas noites de mysterio, +Em que a lua sorria no teu rosto +E nas lages que estao no cemiterio. + +Quando, a brisa outonica, como um manto, +Os teus cabellos d'ambar desmanchados, +Se prendiam nas folhas d'um acantho, +Ou nos bicos agrestes dos silvados, + +E eu ia desprendel-os, como um pagem +Que a cauda solevasse aos teus vestidos; +E ouvia murmurar a doce aragem +Uns delirios d'amor, entristecidos; + +Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, +Pousarem borbeletas doudejantes +Nas tuas formosissimas madeixas, +D'aquellas cor das messes lourejantes, + +E no pomar, nos dois, hombro com hombro, +Caminhavamos sos e de maos dadas, +Beijando os nossos rostos sem assombro, +E colorindo as faces desbotadas; + +Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos +N'um amor grande como um mar sem praias, +Ouviamos os meigos dithyrambos, +Que os rouxinoes teciam nas olaias, + +E, afastados da aldeia e dos casaes, +Eu comtigo, abracado como as heras, +Escondidos nas ondas dos trigaes, +Devolvia-te os beijos que me deras; + +Quando, se havia lama no caminho, +Eu te levava ao collo sobre a greda, +E o teu corpo nevado como o arminho +Pesava menos que um papel de seda... + +E foste sepultar-te, o seraphim, +No claustro das Fieis emparedadas, +Escondeste o teu rosto de marfim +No veu negro das freiras resignadas. + +E eu passo, tao calado como a Morte, +N'esta velha cidade tao sombria, +Chorando afflictamente a minha sorte +E prelibando o calix da agonia. + +E, tristissima Helena, com verdade, +Se podera na terra achar supplicios, +Eu tambem me faria gordo frade +E cobriria a carne de cilicios. + + + +MERIDIONAL + +Cabellos + +O vagas de cabello esparsas longamente, +Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, +E tendes o crystal d'um lago refulgente +E a rude escuridao d'um largo e negro mar; + +Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva, +Deixae-me mergulhar as maos e os bracos nus +No barathro febril da vossa grande treva, +Que tem scintillacoes e meigos ceos de luz. + +Deixae-me navegar, morosamente, a remos, +Quando elle estiver brando e livre de tufoes, +E, ao placido luar, o vagas, marulhemos +E enchamos de harmonia as amplas solidoes. + +Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos +Occultos n'esse abysmo ebanico e tao bom +Como um licor rhenano a fermentar nos copos, +Abysmo que s'espraia em rendas de Alencon! + +E o magica mulher, o minha Inegualavel, +Que tens o immenso bem de ter cabellos taes, +E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel, +Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes; + +Consente que eu aspire esse perfume raro, +Que exhalas da cabeca erguida com fulgor, +Perfume que estontea um millionario avaro +E faz morrer de febre um louco sonhador. + +Eu sei que tu possues balsamicos desejos, +E vaes na direccao constante do querer, +Mas ouco, ao ver-te andar, melodicos harpejos, +Que fazem mansamente amar e elanguescer. + +E a tua cabelleira, errante pelas costas, +Supponho que te serve, em noites de verao, +De flaccido espaldar aonde te recostas +Se sentes o abandono e a morna prostracao. + +E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhoes insanos +Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor +Que antigamente deu, nos circos dos romanos, +Um oleo para ungir o corpo ao gladiador. + + * * * * * + +O mantos de veludo esplendido e sombrio, +Na vossa vastidao posso talvez morrer! +Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio +E quero asphyxiar-me em ondas de prazer. + + + +IRONIAS DO DESGOSTO + +"Onde e que te nasceu"--dizia-me ella as vezes-- +"O horror calado e triste as cousas sepulcraes? +"Porque e que nao possues a verve dos Francezes +"E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes? + +"Porque e que tens no olhar, moroso e persistente, +"As sombras d'um jazigo e as fundas abstraccoes, +"E abrigas tanto fel no peito, que nao sente +"O abalo feminil das minhas expansoes? + +"Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso e falso; +"Mas quando tentas rir parece entao, meu bem, +"Que estao edificando um negro cadafalso +"E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem! + +"Eu vim--nao sabes tu?--para gosar em maio, +"No campo, a quietacao banhada de prazer! +"Nao ves, o descorado, as vestes com que saio, +"E os jubilos, que abril acaba de trazer? + +"Nao ves como a campina e toda embalsamada +"E como nos alegra em cada nova flor? +"E entao porque e que tens na fronte consternada +"Um nao sei que tocante e enternecedor? + +E eu so lhe respondia:--"Escuta-me. Conforme +"Tu vibras os crystaes da bocca musical, +"Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme +"Que te ha de corromper o corpo de vestal. + +"E eu calmamente sei, na dor que me amortalha, +"Que a tua cabecinha ornada a Rabagas, +"A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha +"E em breve ao quente sol e ao gaz alvejara! + +"E eu que daria um rei por cada teu suspiro, +"Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans, +"Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro +"O teu cabelo escuro as veneraveis cans!" + + + +HUMILHACOES +(De todo o coracao--a Silva Pinto) + +Esta aborrece quem e pobre. Eu, quasi Job, +Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os; +E espero-a nos saloes dos principaes theatros, + Todas as noites, ignorado e so. + +La canca-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz; +As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, +E emquanto vao passando as cortezans e os brilhos, + Eu analyso as pecas no cartaz. + +Na representacao d'um drama de Feuillet, +Eu aguradava, junto a porta, na penumbra, +Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra + Saltou soberba o estribo do coupe. + +Como ella marcha! Lembra um magnetisador. +Rocavam no veludo as guarnicoes das rendas; +E, muito embora tu, burguez, me nao entendas, + Fiquei batendo os dentes de terror. + +Sim! Por nao podia abandonal-a em paz! +O minha pobre bolsa, amortalhou-se a idea +De vel-a aproximar, sentado na platea, + De tel a n'um binoculo mordaz! + +Eu occultava o fraque usado nos botoes; +Cada contratador dizia em voz rouquenha: +--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha? + E ouviam-se ca fora as ovacoes. + +Que desvanecimento! A perola do Tom! +As outras ao pe d'ella imitam as bonecas; +Tem menos melodia as harpas e as rabecas, + Nos grandes espetaculos do Som. + +Ao mesmo tempo, eu nao deixava de a abranger; +Vi-a subir, direita, a larga escadaria +E entrar no camarote. Antes estimaria + Que o chao se abrisse para me abater. + +Sai; mas ao sair senti-me atropellar. +Era um municipal sobre um cavallo. A guarda +Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, + Cresci com raiva contra o militar. + +De subito, fanhosa, infecta, rota, ma, +Poz-se na minha frente uma velhinha suja, +E disse-me, piscando os olhos de coruja: +--Meu bom senhor! Da-me um cigarro? Da?... + + + +RESPONSO + +I + +N'um castello deserto e solitario, +Toda de preto, as horas silenciosas, +Envolve-se nas pregas d'um sudario +E chora como as grandes criminosas. + +Podesse eu ser o lenco de Bruxellas +Em que ella esconde as lagrimas singellas. + +II + +E loura como as doces escocezas, +D'uma belleza ideal, quasi indecisa; +Circumda-se de luto e de tristezas +E excede a melancolica Artemisa. + +Fosse eu os seus vestidos afogados +E havia de escutar-lhe os seus peccados. + +III + +Alta noite, os planetas argentados +Deslisam um olhar macio e vago +Nos seus olhos de pranto marejados +E nas aguas mansissimas do lago + +Podesse eu ser a lua, a lua terna, +E faria que a noite fosse eterna. + +IV + +E os abutres e os corvos fazem giros +De roda das ameias e dos pegos, +E nas salas resoam uns suspiros +Dolentes como as supplicas dos cegos. + +Fosse eu aquellas aves de pilhagem +E cercara-lhe a fronte, em homenagem. + +V + +E ella vaga nas praias rumorosas, +Triste como as rainhas desthronadas, +A contemplar as gondolas airosas, +Que passam, a giorno illuminadas. + +Podesse eu ser o rude gondoleiro +E alli e que fizera o meu cruzeiro. + +VI + +De dia, entre os veludos e entre as sedas, +Murmurando palavras afflictivas, +Vagueia nas umbrosas alamedas +E acarinha, de leve, as sensitivas. + +Fosse eu aquellas arvores frondosas +E prendera-lhe as roupas vaporosas. + +VII + +Ou domina, a rezar, no pavimento +Da capella onde outr'ora se ouviu missa, +A musica dulcissima do vento +E o sussuro do mar, que s'espreguica. + +Podesse eu ser o mar e os meus desejos +Eram ir borrifar-lhe os pes, com beijos. + +VIII + +E as horas do crepusculo saudosas, +Nos parques com tapetes cultivados, +Quando ella passa curvam-se amorosas +As estatuas dos seus antepassados. + +Fosse eu tambem granito e a minha vida +Era vel-a a chorar arrependida. + +IX + +No palacio isolado como um monge, +Erram as velhas almas dos precitos, +E nas noites de inverno ouvem-se ao longe +Os lamentos dos naufragos afflictos. + +Podesse eu ter tambem uma procella +E as lentas agonias ao pe d'ella! + +X + +E as lages, no silencio dos mosteiros, +Ella conta o seu drama negregado, +E o vasto carmesim dos resposteiros +Ondula como um mar ensanguentado. + +Fossem aquellas mil tapecarias +Nossas mortalhas quentes e sombrias. + +XI + +E assim passa, chorando, as noites bellas, +Sonhando nos tristes sonhos doloridos, +E a reflectir nas gothicas janellas +As estrellas dos ceus desconhecidos. + +Podesse eu ir sonhar tambem comtigo +E ter as mesmas pedras no jazigo! + +XII + +Mergulha-se em angustias lacrimosas +Nos ermos d'um castello abandonado, +E as proximas florestas tenebrosas +Repercutem um choro amargurado. + +Unissemos, nos dois, as nossas covas, +O doce castella das minhas trovas! + + + + + +II + +NATURAES + + + + +CONTRARIEDADES + +Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente; +Nem posso tolerar os livros mais bizarros. +Incrivel! Ja fumei tres massos de cigarros + Consecutivamente. + +Doe-me a cabeca. Abafo uns desesperos mudos: +Tanta depravacao nos usos, nos costumes! +Amo, insensatamente, os acidos, os gumes + E os angulos agudos. + +Sentei-me a secretaria. Alli defronte mora +Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmoes doentes; +Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes + E engomma para fora. + +Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! +Tao livida! O doutor deixou-a. Mortifica. +Lidando sempre! E deve a conta a botica! + Mal ganha para sopas... + +O obstaculo estimula, torna-nos perversos; +Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, +Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias, + Um folhetim de versos. + +Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta +No fundo da gaveta. O que produz o estudo? +Mais d'uma redaccao, das que elogiam tudo, + Me tem fechado a porta. + +A critica segundo o methodo de Taine +Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa. +Muitissimos papeis ineditos. A imprensa + Vale um desdem solemne. + +Com raras excepcoes merece-me o epigramma. +Deu meia-noite; e em paz pela calcada abaixo, +Um sol-e-do. Chovisca. O populacho + Diverte-se na lama. + +Eu nunca dediquei poemas as fortunas, +Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas, +Independente! So por isso os jornalistas + Me negam as columnas. + +Receiam que o assignante ingenuo os abandone, +Se forem publicar taes cousas, taes auctores. +Arte? Nao lhes convem, visto que os seus leitores + Deliram por Zaccone. + +Um prosador qualquer desfructa fama honrosa, +Obtem dinheiro, arranja a sua "coterie"; +E a mim, nao ha questao que mais me contrarie + Do que escrever em prosa. + +A adulacao repugna aos sentimentos finos; +Eu raramente falo aos nossos litteratos, +E apuro-me em lancar originaes e exactos, + Os meus alexandrinos... + +E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso! +Ignora que a asphyxia a combustao das brazas, +Nao foge do estendal que lhe humedece as casas, + E fina-se ao desprezo! + +Mantem-se a cha e pao! Antes de entrar na cova. +Esvae-se; e todavia, a tarde, fracamente, +Oico-a cantarolar uma cancao plangente + D'uma opereta nova! + +Perfeitamente. Vou findar sem azedume. +Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas, +Conseguirei reler essas antigas rimas, + Impressas em volume? + +Nas lettras eu conheco um campo de manobras; +Emprega-se a reclame, a intriga, o annuncio, a blague, +E esta poesia pede um editor que pague + Todas as minhas obras... + +E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha? +A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia? +Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. E feia... + Que mundo! Coitadinha! + + + +A DEBIL + +Eu, que sou feio, solido, leal, +A ti, que es bella, fragil, assustada, +Quero estimar-te, sempre, recatada +N'uma existencia honesta, de crystal. + +Sentado a mesa d'um cafe devasso, +Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura, +N'esta Babel tao velha e corruptora, +Tive tencoes de offerecer-te o braco. + +E, quando soccorreste um miseravel, +Eu, que bebia calices d'absintho, +Mandei ir a garrafa, porque sinto +Que me tornas prestante, bom, saudavel. + +"Ella ahi vem!" disse eu para os demais; +E puz-me a olhar, vexado e suspirando, +O teu corpo que pulsa, alegre e brando, +Na frescura dos linhos matinaes. + +Via-te pela porta envidracada; +E invejava,--talvez que o nao suspeites!-- +Esse vestido simples, sem enfeites, +N'essa cintura tenra, immaculada. + +Ia passando, a quatro, o patriarcha. +Triste eu sahi. Doia-me a cabeca; +Uma turba ruidosa, negra, espessa, +Voltava das exequias d'um monarcha. + +Adoravel! Tu muito natural +Seguias a pensar no teu bordado; +Avultava, n'um largo arborisado, +Uma estatua de rei n'um pedestal. + +Sorriam nos seus trens os titulares; +E ao claro sol, guardava-te, no entanto, +A tua boa mae, que te ama tanto, +Que nao te morrera sem te casares! + +Soberbo dia! Impunha-me respeito +A limpidez do teu semblante grego; +E uma familia, um ninho de socego, +Desejava beijar sobre o teu peito. + +Com elegancia e sem ostentacao, +Atravessavas branca, esvelta e fina, +Uma chusma de padres de batina, +E d'altos funccionarios da nacao. + +"Mas se a atropella o povo turbolento! +Se fosse, por acaso, alli pisada!" +De repente, paraste embaracada +Ao pe d'um numeroso ajuntamento. + +E eu, que urdia estes faceis esbocetos, +Julguei ver, com a vista de poeta, +uma pombinha timida e quieta +N'um bando ameacador de corvos pretos. + +E foi, entao, que eu homem varonil, +Quiz dedicar-te a minha pobre vida, +A ti, que es tenue, docil, reconhecida, +Eu, que sou habil, pratico, viril. + + + +N'UM BAIRRO MODERNO + +A Manuel Ribeiro + +Dez horas da manha; os transparentes +Matizam uma casa apalacada; +Pelos jardins estancam-se os nascentes, +E fere a vista, com brancuras quentes, +A larga rua macadamisada. + +Rez-de-chaussee repousam socegados, +Abriram-se, n'alguns, as persianas, +E d'um ou d'outro, em quartos estucados, +Ou entre a rama dos papeis pintados, +Reluzem, n'um almoco, as porcelanas. + +Como e saudavel ter o seu conchego, +E a sua vida facil! Eu descia, +Sem muita pressa, para o meu emprego, +Aonde agora quasi sempre chego +Com as tonturas d'uma apoplexia. + +E rota, pequenina, aramafada, +Notei de costas uma rapariga, +Que no xadrez marmoreo d'uma escada, +Como um retalho de horta agglomerada, +Pousara, ajoelhando, a sua giga. + +E eu, apesar do sol, examinei-a: +Poz-se de pe: resoam-lhe os tamancos; +E abre-se-lhe o algodao azul da meia, +Se ella se curva, esguedelhada, feia, +E pendurando os seus bracinhos brancos. + +Do patamar responde-lhe um criado: +"Se te convem, despacha; nao converses. +Eu nao dou mais." E muito descancado, +Atira um cobre livido, oxidado, +Que vem bater nas faces d' uns alperces. + +Subitamente,--que visao de artista!-- +Se eu transformasse os simples vegetaes, +A luz do sol, o intenso colorista, +N'um ser humano que se mova e exista +Cheio de bellas proporcoes carnaes?! + +Boiam aromas, fumos de cozinha; +Com o cabaz as costas, e vergando, +Sobem padeiros, claros de farinha; +E as portas, uma ou outra campainha +Toca, frenetica, de vez em quando. + +E eu recompunha, por anatomia, +Um novo corpo organico, aos bocados. +Achava os tons e as formas. Descobria +Uma cabeca n'uma melancia, +E n'uns repolhos seios injectados. + +As azeitonas, que nos dao o azeite, +Negras e unidas, entre verdes folhos, +Sao trancas d'um cabello que se ageite; +E os nabos--ossos nus, da cor do leite, +E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos. + +Ha collos, hombros, boccas, um semblante +Nas posicoes de certos fructos. E entre +As hortalicas, tumido, fragrante, +Como d'alguem que tudo aquilo jante, +Surge um melao, que me lembrou um ventre. + +E, como um feto, emfim, que se dilate, +Vi nos legumes carnes tentadoras, +Sangue na ginja vivida, escarlate, +Bons coracoes pulsando no tomate +E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. + +O sol dourava o ceo. E a regateira, +Como vendera a sua fresca alface +E dera o ramo de hortela que cheira, +Voltando-se, gritou-me prazenteira: +"Nao passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!..." + +Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo; +E, pelas duas azas a quebrar, +Nos levantamos todo aquelle peso +Que ao chao de pedra resistia preso, +Com um enorme esforco muscular. + +"Muito obrigada! Deus lhe de saude!" +E recebi, naquella despedida, +As forcas, a alegria, a plenitude, +Que brotam d'um excesso de virtude +Ou d'uma digestao desconhecida. + +E em quanto sigo para o lado opposto, +E ao longe rodam umas carruagens, +A pobre afasta-se, ao calor de agosto, +Descolorida nas macas do rosto, +E sem quadris na saia de ramagens. + +Um pequerrucho rega a trepadeira +D'uma janella azul; e, com o ralo +Do regador, parece que joeira +Ou que borrifa estrellas; e a poeira +Que eleva nuvens alvas e incensal-o. + +Chegam do gigo emanacoes sadias, +Oico um canario--que infantil chilrada!-- +Lidam menages entre as gelosias, +E o sol estende, pelas frontarias, +Seus raios de laranja distillada. + +E pittoresca e audaz, na sua chita, +O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, +D'uma desgraca alegre que me incita, +Ella apregoa, magra, enfezadita, +As suas couves repolhudas, largas. + +E como as grossas pernas d'um gigante, +Sem tronco, mas athleticas, inteiras, +Carregam sobre a pobre caminhante, +Sobre a verdura rustica, abundante, +Duas frugaes aboboras carneiras. + + + +CRYSTALISACOES + +A Bettencourt Rodrigues + +Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros, + Vibra uma immensa claridade crua. + De cocaras, em linha os calceteiros, + Com lentidao, terrosos e grosseiros, + Calcam de lado a lado a longa rua. + +Como as elevacoes seccaram do relento, + E o descoberto sol abafa e cria! + A frialdade exige o movimento; + E as pocas d'agua, como em chao vidrento, + Reflectem a molhada casaria. + +Em pe e perna, dando aos rins que a marcha agita, + Disseminadas, gritam as peixeiras; + Luzem, aquecem na manha bonita, + Uns barracoes de gente pobresita. + E uns quintalorios velhos com parreiras. + +Nao se ouvem aves; nem o choro d'uma nora! + Tomam por outra parte os viandantes; + E o ferro e a pedra--que uniao sonora!-- + Retinem alto pelo espaco fora, + Com choques rijos, asperos, cantantes. + +Bom tempo. E os rapagoes, morosos, duros, bacos, + Cuja columna nunca se endireita, + Partem penedos; cruzam-se estilhacos. + Pesam enormemente os grossos macos, + Com que outros batem a calcada feita. + +A sua barba agreste! A la dos seus barretes! + Que espessos forros! N'uma das regueiras + Acamam-se as japonas, os colletes: + E elles descalcam com os picaretes, + Que ferem lume sobre pederneiras. + +E n'esse rude mez, que nao consente as flores, + Fundeam, como a esquadra em fria paz, + As arvores despidas. Sobrias cores! + Mastros, enxarcias, vergas! Valladores + Atiram terra com as largas pas. + +Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!-- + Carros de mao, que chiam carregados, + Conduzem saibro, vagarosamente; + Ve se a cidade, mercantil, contente: + Madeiras, aguas, multidoes, telhados! + +Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria; + Em arco, sem as nuvens fluctuantes, + O ceu renova a tinta corredia; + E os charcos brilham tanto, que eu diria + Ter ante mim lagoas de brilhantes! + +E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos, + Eu tudo encontro alegremente exacto. + Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. + E tangem-me, excitados, sacudidos, + O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! + +Pede-me o corpo inteiro esforcos na friagem + De tao lavada e egual temperatura! + Os ares, o caminho, a luz reagem; + Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem; + Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura. + +Mal encarado e negro, um para emquanto eu passo; + Dois assobiam, altas as marretas + Possantes, grossas, temperadas d'aco; + E um gordo, o mestre, com um ar de ralaco + E manso, tira o nivel das valletas. + +Homens de carga! Assim as bestas vao curvadas! + Que vida tao custosa! Que diabo! + E os cavadores pousam as enxadas, + E cospem nas callosas maos gretadas, + Para que nao lhes escorregue o cabo. + +Povo! No panno cru rasgado das camizas + Uma bandeira penso que transluz! + Com ella soffres, bebes, agonisas: + Listroes de vinho lancam-lhe divisas, + E os suspensorios tracam-lhe uma cruz! + +D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, + Surge um perfil direito que se aguca; + E ar matinal de quem sahiu da toca, + Uma figura fina, desemboca, + Toda abafada n'um casaco a russa. + +D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento + E a quem, a noite na plateia, attraio + Os olhos lizos como polimento! + Com seu rostinho estreito, friorento, + Caminha agora para o seu ensaio. + +E aos outros eu admiro os dorsos, os costados + Como lajoes. Os bons trabalhadores! + Os filhos das lezirias, dos montados; + Os das planicies, altos, aprumados; + Os das montanhas, baixos, trepadores! + +Mas fina de feicoes, o queixo hostil, distincto, + Furtiva a tiritar em suas pelles, + Espanta-me a actrizita que hoje pinto, + N'este dezembro energico, succinto, + E n'estes sitios suburbanos, reles! + +Como animaes communs, que uma picada esquente, + Elles, bovinos, masculos, ossudos, + Encaram-n'a sanguinea, brutamente: + E ella vacilla, hesita impaciente + Sobre as botinhas de tacoes agudos. + +Porem, desempenhando o seu papel na peca, + Sem que inda o publico a passagem abra, + O demonico arrisca-se, atravessa + Covas, entulhos, lamacaes, depressa, + Com seus pesinhos rapidos, de cabra! + + + +NOITES GELIDAS + +MERINA + +Rosto comprido, airosa, angelical, macia, +Por vezes, a allema que eu sigo e que me agrada, +Mais alva que o luar de inverno que me esfria, +Nas ruas a que o gaz da noites de ballada; +Sob os abafos bons que o Norte escolheria, +Com seu passinho curto e em suas las forrada, +Recorda-me a elegancia, a graca, a galhardia +De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada. + + +SARDENTA + +Tu, n'esse corpo completo, +O lactea virgem doirada, +Tens o lymphatico aspecto +D'uma camelia melada. + + +FLORES VELHAS + +Fui hontem visitar o jardimzinho agreste, +Aonde tanta vez a luz nos beijou, +E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, +Soberba como um sol, serena como um voo. + +Em tudo scintillava o limpido poema +Com osculos rimado as luzes dos planetas; +A abelha inda zumbia em torno da alfazema; +E ondulava o matiz das leves borboletas. + +Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, +A imagem que inspirava os castos madrugaes; +E as viracoes, o rio, os astros, a pasizagem, +Traziam-me a memoria idyllios immortaes. + +Diziam-me que tu, no florido passado, +Detinhas sobre mim, ao pe d'aquellas rosas, +Aquelle teu olhar moroso e delicado, +Que fala de languor e d'emocoes mimosas; + +E, o pallida Clarisse, o alma ardente e pura, +Que nao me desgostou nem uma vez sequer, +Eu nao sabia haurir do calix da ventura +O nectar que nos vem dos mimos da mulher. + +Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores, +Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; +As falas quasi irmas do vento com as flores +E a molle exhalacao das varzeas rescendentes. + +Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas +No ninho de affeicoes creado para ti, +Por entre o riso claro, e as vozes das creancas, +E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri. + +Lembrei-me muito, muito, o symbolo das santas, +Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas, +E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas +Bebemos o elixir das tardes perfumadas. + +E nosso bom romance escripto n'um desterro, +Com beijos sem ruido em noites sem luar, +Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro, +Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar. + +Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas +Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, +E eu nao beijarei, as horas somnolentas, +Os dedos de marfim, polidos e delgados... + +Eu, por nao ter sabido amar os movimentos +Da estrophe mais ideal das harmonias mudas, +Eu sinto as decepcoes e os grandes desalentos +E tenho um riso mau como o sorrir de Judas. + +E tudo emfim passou, passou como uma penna, +Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes, +E aquella doce vida, aquella vida amena, +Ah! nunca mais vira, meu lyrio, nunca mais! + +O minha boa amiga, o minha meiga amante! +Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado, +A areia em que rangia a saia rocagante, +Que foi na minha vida o ceo aurirosado, + +Eu tinha tao impresso o cunho da saudade, +Que as ondas que formei das suas illusoes +Fizeram-me enganar na minha soledade +E as azas ir abrindo as minhas impressoes. + +Soltei com devocao lembrancas inda escravas, +No espaco construi phantasticos castellos, +No tanque debrucei-me em que te debrucavas, +E onde o luar parava os raios amarellos. + +Cuidei ate sentir, mais doce que uma prece, +Suster a minha fe, n'um veo consolador, +O teu divino olhar que as pedras amollece, +E ha muito que me prendeu nos carceres do amor. + +Os teus pequenos pes, aquelles pes suaves, +Julguei-os esconder por entre as minhas maos, +E imaginei ouvir ao conversar das aves +As celicas cancoes dos anjos aos teus irmaos. + + + +NOITE FECHADA + +(L.) + +Lembras-te tu do sabbado passado, +Do passeio que demos, devagar, +Entre um saudoso gaz amarellado +E as caricias leitosas do luar? + +Bem me lembro das altas ruasinhas, +Que ambos nos percorremos de maos dadas: +As janellas palravam as visinhas; +Tinham lividas luzes as fachadas. + +Nao me esqueco das cousas que disseste, +Ante um pesado templo com recortes; +E os cemiterios ricos, e o cypreste +Que vive de gorduras e de mortes! + +Nos sairamos proximo ao sol-posto, +Mas seguiamos cheios de demoras; +Nao me esqueceu ainda o meu desgosto +Nem o sino rachado que deu horas. + +Tenho ainda gravado no sentido, +Porque tu caminhavas com prazer, +Cara rapada, gordo e presumido, +O padre que parou para te ver. + +Como uma mitra a cupula da egreja +Cobria parte do ventoso largo; +E essa bocca vicosa de cereja, +Torcia risos com sabor amargo. + +A lua dava tremulas brancuras, +Eu ia cada vez mais magoado; +Vi um jardim com arvores escuras, +Como uma jaula todo gradeado! + +E para te seguir entrei comtigo +N'um pateo velho que era d'um canteiro, +E onde, talvez, se faca inda o jazigo +Em que eu irei apodrecer primeiro! + +Eu sinto ainda a flor da tua pelle, +Tua luva, teu veu, o que tu es! +Nao sei que tentacao e que te impelle +Os pequeninos e cancados pes. + +Sei que em tudo attentavas, tudo vias! +Eu por mim tinha pena dos marcanos, +Como ratos, nas gordas mercearias, +Encafunados por immensos annos! + +Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros, +Que apparecem ao fundo d'umas minas, +E a crua luz os pallidos barbeiros +Com oleos e maneiras femininas! + +Fins de semana! Que miseria em bando! +O povo folga, estupido e grisalho! +E os artistas d'officio iam passando, +Com as ferias, ralados do trabalho. + +O quadro anterior, d'um que a candea, +Ensina a filha a ler, metteu-me do! +Gosto mais do plebeu que cambalea, +Do bebado feliz que falla so! + +De subito, na volta de uma esquina, +Sob um bico de gaz que abria em leque, +Vimos um militar, de barretina +E galoes marciaes de pechisbeque, + +E em quanto elle fallava ao seu namoro, +Que morava n'um predio de azulejo, +Nos nossos labios retinio sonoro +Um vigoroso e formidavel beijo! + +E assim ao meu capricho abandonada, +Erramos por travessas, por viellas, +E passamos por pe d'uma tapada +E um palacio real com sentinellas. + +E eu que busco a moderna e fina arte, +Sobre a umbrosa calcada sepulchral, +Tive a rude intencao de violentar-te +Imbecilmente como um animal! + +Mas ao rumor dos ramos e d'aragem, +Como longiquos bosques muito ermos, +Tu querias no meio da folhagem +Um ninho enorme para nos vivermos. + +E ao passo que eu te ouvia abstractamente, +O grande pomba tepida que arrulha, +Vinham batendo o macadam fremente, +As patadas sonoras da patrulha, + +E atravez a immortal cidadesinha, +Nos fomos ter as portas, as barreiras, +Em que uma negra multidao se apinha +De teceloes, de fumos, de caldeiras. + +Mas a noite dormente e esbranquicada +Era uma esteira lucida d'amor; +O jovial senhora perfumada, +O terrivel creanca! Que esplendor! + +E ali comecaria o meu desterro!... +Lodoso o rio, e glacial, corria; +Sentamo-nos, os dois, n'um novo aterro +Na muralha dos caes de cantaria. + +Nunca mais amarei, ja que nao me amas, +E e preciso, decerto, que me deixes! +Toda a mare luzida como escamas, +Como alguidar de prateados peixes. + +E como e necessario que eu me afoite +A perder-me de ti por quem existo, +Eu fui passar ao campo aquella noite +E andei leguas a pe, pensando n'isto. + +E tu que nao seras somente minha, +As caricias leitosas do luar, +Recolheste-te, pallida e sosinha +A gaiola do teu terceiro andar! + + + +MANHANS BRUMOSAS + +Aquella, cujo amor me causa alguma pena, +Poe o chapeo ao lado, abre o cabello a banda, +E com a forte voz cantada com que ordena, +Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, +Por entre o campo e o mar, bucolica, morena, +Uma pastora audaz da religiosa Irlanda. + +Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexoes inglezas, +--Na Nevoa azul, a caca, as pescas, os rebanhos!-- +Sigo-lhe os altos pes por estas asperezas; +E o meu desejo nada em epoca de banhos, +E, ave de arribacao, elle enche de surprezas +Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos. + +As irlandezas teem soberbos desmazelos! +Ella descobre assim, com lentidoes ufanas, +Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos; +E como aquellas sao maritimas, serranas, +Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos +E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas. + +Parece um "rural boy"! Sem brincos nas orelhas, +Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, +Botoes a tiracollo e applicacoes vermelhas; +E a roda, n'um paiz de prados e barrancos, +Se as minhas maguas vao, mansissimas ovelhas, +Correm os seus desdens, como vitellos brancos. + +E aquella, cujo amor me causa alguma pena, +Poe o chapeo ao lado, abre o cabello a banda, +E com a forte voz cantada com que ordena, +Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, +Por entre o campo e o mar, catholica, morena, +Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda. + + + +FRIGIDA + +I + +Balzac e meu rival, minha senhora ingleza! +Eu quero-a porque odeio as carnacoes redondas! +Mas elle eternisou-lhe a singular belleza +E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas. + +II + +Admiro-a. A sua longa e placida estatura +Expoe a magestade austera dos invernos. +Nao cora no seu todo a timida candura; +Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos. + +III + +Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante, +N'uma das maos franzindo um lenco de cambraia!... +Ninguem me prende assim, funebre, extravagante, +Quando arregaca e ondula a preguicosa saia! + +IV + +Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, +Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca; +Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite, +E, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca! + +V + +Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso, +O gelida mulher bizarramente estranha, +E tremulo depor os labios no seu pulso, +Entre a macia luva e o punho de bretanha!... + +VI + +Scintilla no seu rosto a lucidez das joias. +Ao encarar comsigo a phantasia pasma; +Pausadamente lembra o silvo das giboias +E a marcha demorada e muda d'um phantasma. + +VII + +Metallica visao que Charles Baudelaire +Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos, +Permitta que eu lhe adule a distinccao que fere, +As curvas de magreza e o lustre dos adornos! + +VIII + +Deslise como um astro, uma astro que declina; +Tao descancada e firme e que me desvaria, +E tem a lentidao d'uma corveta fina +Que nobremente va n'um mar de calmaria. + +IX + +Nao me imagine um doido. Eu vivo como um monge, +No bosque das ficcoes, o grande flor do Norte! +E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe +O socegado espectro angelico da Morte! + +X + +O seu vagar occulta uma elasticidade +Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, +E a sua glacial impassibilidade +Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso. + +XI + +Porem, nao arderei aos seus contactos frios, +E nao me enroscara nos serpentinos bracos: +Receio supportar febroes e calefrios; +Adoro no seu corpo os movimentos lassos. + +XII + +E se uma vez me abrisse o collo transparente, +E me osculasse, emfim, flexivel e submisso, +Eu julgaria ouvir alguem, agudamente, +Nas trevas, a cortar pedacos de cortica! + + + +DE VERAO + +A Eduardo Coelho + +I + +No campo; eu acho n'elle a musa que me anima: + A claridade, a robustez, a accao. + Esta manha, sai com minha prima, + Em que eu noto a mais sincera estima + E a mais completa e seria educacao. + +II + +Creanca encantadora! Eu mal esboco o quadro + Da lyrica excursao, d'intimidade + Nao pinto a velha ermida com seu adro; + Sei so desenho de compasso e esquadro, + Respiro industria, paz, salubridade. + +III + +Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras; + E tu dizias: "Fumas? E as fagulhas? + Apaga o teu cachimbo junto as eiras; + Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras! + Quando me alegra a calma das debulhas!" + +IV + +E perguntavas sobre os ultimos inventos + Agricolas. Que aldeias tao lavadas! + Bons ares! Boa luz! Bons alimentos! + Olha: Os saloios vivos, corpulentos, + Como nos fazem grandes barretadas! + +V + +Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens + Dos olivaes escuros. Onde iras? + Regressam os rebanhos das pastagens; + Ondeiam milhos, nuvens e miragens, + E, silencioso, eu fico para traz. + +VI + +N'uma collina azul brilha um logar caiado. + Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha, + Com teu chapeo de palha, desabado, + Tu continuas na azinhaga; ao lado + Verdeja, vicejante, a nossa vinha. + +VII + +N'isto, parando, como alguem que se analysa, + Sem desprender do chao teus olhos castos, + Tu comecaste, harmonica, indecisa, + A arregacar a chita, alegre e lisa + Da tua cauda um poucochinho a rastos. + +VIII + +Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros; + O sol abrasa as terras ja ceifadas, + E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, + Sobre os teus pes decentes, verdadeiros, + As saias curtas, frescas, engommadas. + +IX + +E, como quem saltasse, extravagantemente, + Um rego d'agua sem se enxovalhar, + Tu, a austera, a gentil, a intelligente, + Depois de bem composta, deste a frente + Uma pernada comica, vulgar! + +X + +Exotica! E cheguei-me ao pe de ti. Que vejo! + No atalho enxuto, e branco das espigas + Caidas das carradas no salmejo, + Esguio e a negrejar em um cortejo, + Destaca-se um carreiro de formigas. + +XI + +Ellas, em sociedade, espertas, diligentes, + Na natureza tremula de sede, + Arrastam bichos, uvas e sementes; + E atulha, por instincto, previdentes, + Seus antros quasi occultos na parede. + +XII + +E eu desatei a rir como qualquer macaco! + "Tu nao as esmagares contra o solo!" + E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco, + Eu de jasmim na casa do casaco + E d'oculo deitado a tiracolo! + +XIII + +"As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora + Um sublimado corrosivo, uns pos + De solimao, eu, sem maior demora, + Envenenal-as-hia! Tu, por ora, + Preferes o romantico ao feroz. + +XIV + +Que compaixao! Julgava ate que matarias + Esses insectos importunos! Basta. + Merecem-te espantosas sympathias? + Eu felicito suas senhorias, + Que honraste com um pulo de gymnasta!" + +XV + +E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros + Luziam, com docura, honestamente; + De longe o trigo em monte, e os calcadoiros, + Lembravam-me fusoes d'immensos oiros, + E o mar um prado verde e florescente. + +XVI + +Vibravam, na campina, as chocas da manada; + Vinham uns carros a gemer no outeiro, + E finalmente, energica, zangada, + Tu inda assim bastante envergonhada, + Volveste-me, apontando o formigueiro: + +XVII + +"Nao me incommode, nao, com ditos detestaveis! + Nao seja simplesmente um zombador! + Estas mineiras negras, incancaveis, + Sao mais economistas, mais notaveis, + E mais trabalhoras que o senhor." + + + +O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL + +A Guerra Junqueiro + + +I + +AVE MARIAS + + Nas nossas ruas, ao anoitecer, +Ha tal soturnidade, ha tal melancholia, +Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia +Despertam-me um desejo absurdo de soffrer. + + O ceu parece baixo e de neblina, +O gaz extravasado enjoa-me, perturba; +E os edificios, com as chamines, e a turba +Toldam-se d'uma cor monotona e londrina. + + Batem os carros de aluguer, ao fundo, +Levando a via ferrea os que se vao. Felizes! +Occorrem-me em revista exposicoes, paizes: +Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! + + Semelham-se a gaiolas, com viveiros, +As edificacoes somente emmadeiradas: +Como morcegos, ao cair das badaladas, +Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. + + Voltam os calafates, aos magotes, +De jaquetao ao hombro, enfarruscados, seccos; +Embrenho-me, a scismar, por boqueiroes, por beccos, +Ou erro pelos caes a que se atracam botes. + + E evoco, entao, as chronicas navaes: +Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado! +Lucta Camoes no Sul, salvando um livro a nado! +Singram soberbas naus que eu nao verei jamais! + + E o fim da tarde inspira-me; e incommoda! +De um couracado inglez vogam os escaleres; +E em terra n'um tinir de loucas e talheres +Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda. + + N'um trem de praca arengam dois dentistas; +Um tropego arlequim braceja n'umas andas; +Os cherubins do lar fluctuam nas varandas; +As portas, em cabello, enfadam-se os logistas! + + Vasam-se os arsenaes e as officinas; +Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; +E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras, +Correndo com firmeza, assomam as varinas. + + Vem sacudindo as ancas opulentas! +Seus troncos varonis recordam-me pilastras; +E algumas, a cabeca, embalam nas canastras +Os filhos que depois naufragam nas tormentas, + + Descalcas! Nas descargas de carvao, +Desde manha a noite, a bordo das fragatas; +E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas, +E o peixe podre gera os focos de infeccao! + + +II + +NOITE FECHADA + + Toca-se as grades, nas cadeias. Som +Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! +O aljube, em que hoje estao velhinhas e creancas, +Bem raramente encerra uma mulher de "dom"! + + E eu desconfio, ate, de um aneurisma +Tao morbido me sinto, ao accender das luzes; +A vista das prisoes, da velha se, das cruzes, +Chora-me o coracao que se enche e que se abysma. + + A espacos, illuminam-se os andares, +E as tascas, os cafes, as tendas, os estancos +Alastram em lencol os seus reflexos brancos; +E a lua lembra o circo e os jogos malabares. + + Duas egrejas, n'um saudoso largo, +Lancam a nodoa negra e funebre do clero: +N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, +Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo. + + Na parte que abateu no terremoto, +Muram-se as construccoes rectas, eguaes, crescidas; +Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, +E os sinos d'um tanger monastico e devoto. + + Mas, n'um recinto publico e vulgar, +Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras, +Bronzeo, monumental, de proporcoes guerreiras, +Um epico d'outr'ora ascende, n'um pilar! + + E eu sonho o Colera, imagina a Febre, +N'esta accumulacao de corpos enfezados; +Sombrios e espectraes recolhem os soldados; +Inflamma-se um palacio em face de um casebre. + + Partem patrulhas de cavallaria +Dos arcos dos quarteis que foram ja conventos; +Edade-media! A pe, outras, a passos lentos, +Derramam-se por toda a capital, que esfria. + + Triste cidade! Eu temo que me avives +Uma paixao defunta! Aos lampeoes distantes, +Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, +Curvadas a sorrir as montras dos ourives. + + E mais: as costureiras, as floristas +Descem dos magasins, causam-me sobresaltos; +Custa-lhes a elevar os seus pescocos altos +E muitas d'ellas sao comparsas ou coristas. + + E eu, de luneta de uma lente so, +Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados: +Entro na brasserie; as mesas de emigrados, +Ao riso e a crua luz joga-se o domino. + + +III + +AO GAZ + + E saio. A noite peza, esmaga. Nos +Passeios de lagedo arrastam-se as impuras. +O molles hospitaes! Sae das embocaduras +Um sopro que arripia os hombros quasi nus. + + Cercam-me as lojas, tepidas. Eu penso +Ver cirios lateraes, ver filas de capellas, +Com santos e fieis, andores, ramos, velas, +Em uma cathedral de um comprimento immenso. + + As burguezinhas do Catholocismo +Resvalam pelo chao minado pelos canos; +E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, +As freiras que os jejuns matavam de hysterismo. + + N'um cutileiro, de avental, ao torno, +Um forjador maneja um malho, rubramente; +E de uma padaria exhala-se, inda quente, +Um cheiro salutar e honesto a pao no forno. + + E eu que medito um livro que exarcebe, +Quizera que o real e a analyse m'o dessem; +Casas de confeccoes e modas resplandecem; +Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe. + + Longas descidas! Nao poder pintar +Com versos magistraes, salubres e sinceros, +A esguia diffusao dos vossos reverberos, +E a vossa pallidez romantica e lunar! + + Que grande cobra, a lubrica pessoa, +Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! +Sua excellencia attrae, magnetica, entre luxo, +Que ao longo dos balcoes de mogno se amontoa. + + E aquella velha, de bandos! Por vezes, +A sua traine imita um leque antigo, aberto, +Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, +Escarvam, a victoria, os seus mecklemburguezes. + + Desdobram-se tecidos estrangeiros; +Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; +Flocos de pos de arroz pairam suffocadores, +E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros, + + Mas tudo canca! Apagam-se nas frentes +Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; +Da solidao regouga um cauteleiro rouco; +Tornam-se mausoleos as armacoes fulgentes. + + "Do da miseria!... Compaixao de mim!..." +E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, +Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, +Meu velho professor nas aulas de latim! + + +IV + +HORAS MORTAS + + O tecto fundo de oxygenio, d'ar, +Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; +Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, +Enleva-me a chimera azul de transmigrar. + + Por baixo, que portoes! Que arruamentos! +Um parafuso cae nas lages, as escuras: +Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, +E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos. + + E eu sigo, como as linhas de uma pauta +A dupla correnteza augusta das fachadas; +Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, +As notas pastoris de uma longiqua flauta. + + Se eu nao morresse, nunca! E eternamente +Buscasse e conseguisse a perfeicao das cousas! +Esqueco-me a prever castissimas esposas, +Que aninhem em mansoes de vidro transparente! + + O nossos filhos! Que de sonhos ageis, +Pousando, vos trarao a nitidez as vidas! +Eu quero as vossas maes e irmas estremecidas, +N'umas habitacoes translucidas e frageis. + + Ah! Como a raca ruiva do porvir, +E as frotas dos avos, e os nomadas ardentes, +Nos vamos explorar todos os continentes +E pelas vastidoes aquaticas seguir! + + Mas se vivemos, os emparedados, +Sem arvores, no valle escuro das muralhas!... +Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas +E os gritos de soccorro ouvir estrangulados. + + E n'estes nebulosos corredores +Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas; +Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, +Cantam, de braco dado, uns tristes bebedores. + + Eu nao receio, todavia, os roubos; +Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes; +E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes, +Amarelladamente, os caes parecem lobos. + + E os guardas, que revistam as escadas, +Caminham de lanterna e servem de chaveiros; +Por cima, as immoraes, nos seus roupoes ligeiros, +Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas. + + E, enorme, n'esta massa irregular +De predios sepulchraes, com dimensoes de montes, +A Dor humana busca os amplos horisontes, +E tem mares, de fel, como um sinistro mar! + + + +DE TARDE + +N'aquelle "pic-nic" de burguezas, +Houve uma cousa simplesmente bella, +E que, sem ter historia nem grandezas, +Em todo o caso dava uma aguarella. + +Foi quando tu, descendo do burrico, +Foste colher, sem imposturas tolas, +A um granzoal azul de grao de bico +Um ramalhete rubro de papoulas. + +Pouco depois, em cima d'uns penhascos, +Nos acampamos, inda o sol se via; +E houve talhadas de melao, damascos, +E pao de lo molhado em malvasia. + +Mas, todo purpuro a sahir da renda +Dos teus dois seios como duas rolas, +Era o supremo encanto da merenda +O ramalhete rubro das papoulas! + + + +EM PETIZ + + +I + +DE TARDE + +Mais morta do que viva, a minha companheira +Nem forca teve em si para soltar um grito; +E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito, +Como um homemzarrao servi-lhe de barreira! + +Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas, +Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas; +E, tetas a abanar, as maes de largas ancas, +Desciam mais atraz, malhadas e turinas. + +Do seio do logar--casitas com postigos-- +Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro. +Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, +Cujo pregao vos tira ao vosso somno, amigos! + +Nos davamos, os dois, um giro pelo valle: +Varzeas, povoacoes, pegos, silencios vastos! +E os fartos animaes, ao recolher dos pastos, +Rocavam pelo teu "costume de percale". + +Ja nao receias tu essa vaquita preta, +Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro +Que estavas a tremer, cosida com o muro, +Hombros em pe, medrosa, e fina, de luneta! + + +II + +OS IRMAOSINHOS + +Pois eu, que no deserto dos caminhos, +Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; +Eu, que apartava as mansas das velhacas, +Fugia com terror dos pobresinhos! + +Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouco! +Os velhos, que nos rezam padre-nossos; +Os mandrioes que rosnam, altos, grossos; +E os cegos que se apoiam sobre o moco. + +Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros, +Ou que a poeira no suor mascarra, +Chegam das feiras a tocar guitarra, +Rolam os olhos como dois escarros! + +E os pobres mettem medo! Os de marmita, +Para forrar, por anno, alguns patacos, +Entrapam-se nas mantas com buracos, +Choramingando, a voz rachada, afflicta. + +Outros pedincham pelas cinco chagas; +E no poial, tirando as ligaduras, +Mostram as pernas putridas, maduras, +Com que se arrastam pelas azinhagas! + +Querem viver! E picam-se nos cardos; +Correm as villas; sobem os outeiros; +E as horas de calor, nos esterqueiros, +De roda d'elles zumbem os moscardos. + +Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, +Batiam ao portao com seus cajados; +E um aleijado com os pes quadrados, +Pedia-nos de cima de um jumento. + +O resmungao! Que barbas! Que saccolas! +Cheirava a migas, a bafio, a arrotos; +Dormia as noutes por telheiros rotos, +E sustentava o burro a pao d'esmolas. + + * * * * * + +O minha loura e doce como um bolo! +Affavel hospeda na nossa casa, +Logo que a torrida cidade abraza, +Como um enorme forno de tijolo! + +Tu visitavas, esmoler, garrida, +Umas creancas n'um casal queimado; +E eu, pela estrada, espicacava o gado, +N'uma attitude esperta e decidida. + +Por lobishomens, por papoes, por bruxas, +Nunca soffremos o menor receio. +Temieis vos, porem, o meu aceio, +Mendigasitas sordidas, gorduchas! + +Vicios, sezoes, epidemias, furtos, +De certo, fermentavam entre lixos; +Que podridao cobria aquelles bichos! +E que luar nos teus fatinhos curtos! + + * * * * * + +Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, +Ruca, descalca, a trote nos atalhos, +E que lavava o corpo e os seus retalhos +No rio, ao pe dos choupos e dos freixos. + +E a douda a quem chamavam a "Ratada" +E que fallava so! Que antipathia! +E se com ella a malta contendia, +Quanta indecencia! Quanta palavrada! + +Uns operarios, n'estes descampados, +Tambem surdiam, de chapeu de coco, +Dizendo-se, de olhar rebelde e louco, +Artistas despedidos, desgracados. + +Muitos! E um bebedo--o Camoes--que fora +Rico, e morreu a mendigar, zarolho, +Com uma pala verde sobre um olho! +Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura. + +E o resto? Bandos de selvagensinhos: +Um nu que se gabava de maroto; +Um, que cortada a mao, cocava o coto, +E os bons que nos tratavam por padrinhos. + +Pediam fatos, botas, cobertores! +Outro jogava bem o pau, e vinha +Chorar, humilde, junto da coxinha! +"Cinco reisinhos!... Nobres bemfeitores!... + +E quando alguns ficavam nos palheiros, +E de manha catavam os piolhos: +Emquanto o sol batia nos restolhos +E os nossos caes ladravam, resingueiros! + +Hoje entristeco. Lembro-me dos coxos, +Dos surdos, dos manhosos, dos manetas. +Sulcavam as calcadas, de muletas; +Cantavam, no pomar, os pintarroxos! + + +III + +HISTORIAS + +Scismatico, doente, azedo, apoquentado, +Eu agourava o crime, as facas, a enxovia, +Assim que um besuntao dos taes se apercebia +Da minha blusa azul e branca, de riscado. + +Minaveis, ao serao, a cabecita loira, +Com contos de provincia, ingenuas creaditas: +Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas, +E pondo a gente fina, em postas, de salmoira! + +Na noite velha, a mim, como ticoes ardendo, +Fitavam-me os olhoes pesados das ciganas; +Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas; +Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo. + +E eu que era um cavallao, eu que fazia pinos, +Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto; +Sonhava que os ladroes--homens de quem m'espanto +Roubavam para azeite a carne dos meninos! + +E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando, +Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas, +Gritos de maioraes, mugidos de boiadas, +Branca de susto, meiga e miope, estacando! + + + +NOS + +A A. de S. V. + + +I + +Foi quando em dois veroes, seguidamente, a Febre +E o Cholera tambem andaram na cidade, +Que esta populacao, com um terror de lebre, +Fugiu da capital como da tempestade. + +Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas, +(Ate entao nos so tiveramos sarampo), +Tanto nos viu crescer entre uns montoes de malvas +Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo. + +Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga: +O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos; +Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos +Morreram todos. Nos salvamo-nos na fuga. + +Na parte mercantil, foco da epidemia, +Um panico! Nem um navio entrava a barra, +A alfandega parou, nenhuma loja abria, +E os turbolentos caes cessaram a algazarra. + +Pela manha, em vez dos trens dos baptisados, +Rodavam sem cessar as seges dos enterros. +Que triste a sucessao dos armazens fechados! +Como um domingo inglez na "city", que desterro! + +Sem canalisacao, em muitos burgos ermos, +Seccavam dejeccoes cobertas de mosqueiros. +E os medicos, ao pe dos padres e coveiros, +Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos! + +Uma illuminacao a azeite de purgueira, +De noite amarellava os predios macillentos. +Barricas d'alcatrao ardiam; de maneira +Que tinham tons d'inferno outros arruamentos. + +Porem, la fora, a solta, exageradamente +Emquanto acontecia essa calamidade, +Toda a vegetacao, plethorica, potente, +Ganhava immenso com a enorme mortandade! + +N'um impeto de seiva os arvoredos fartos, +N'uma opulenta furia as novidades todas, +Como uma universal celebracao de bodas, +Amaram-se! E depois houve soberbos partos. + +Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa, +Triste d'ouvir fallar em orphaos e em viuvas, +E em permanencia olhando o horizonte em brasa, +Nao quiz voltar senao depois das grandes chuvas. + +Elle d'um lado, via os filhos achacados, +Um livido flagello e uma molestia horrenda! +E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados, +E um salutar refugio e um lucro na vivenda! + +E o campo, desde entao, segundo o que me lembro, +E todo o meu amor de todos estes annos! +Nos vamos para la; somos provincianos, +Desde o calor de maio aos frios de novembro! + +II + +Que de fructa! E que fresca e tempora, +Nas duas boas quintas bem muradas, +Em que o sol, nos talhoes e nas latadas, +Bate de chapa, logo de manha! + +O laranjal de folhas negrejantes, +(Porque os terrenos sao resvaladicos) +Desce em socalcos todos os macissos, +Como uma escadaria de gigantes. + +Das courellas, que criam cereaes, +De que os donos--ainda!--pagam foros. +Dividem-n'o fechados pitosporos, +Abrigos de raizes verticaes. + +Ao meio, a casaria branca assenta +A beira da calcada, que divide +Os escuros pomares de pevide, +Da vinha, n'uma encosta soalhenta! + +Entretanto, nao ha maior prazer +Do que, na placidez das duas horas, +Ouvir e ver, entre o chiar das noras, +No largo tanque as bicas a correr! + +Muito ao fundo, entre olmeiros seculares, +Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem, +O seu leito e um atalho de passagem, +Pedregosissimo, entre dois logares. + +Como lhe luzem seixos e burgaus +Rolicos! Marinham nas ladeiras +Os renques africanos das piteiras, +Que como aloes espigam altos paus! + +Montanhas inda mais longiquamente, +Com restevas, e combros como bocas, +Lembram cabecas estupendas, grossas, +De cabello grisalho, muito rente. + +E, a contrastar, nos valles, em geral, +Como em vidraca d'uma enorme estufa, +Tudo se attrae, se impoe, alarga e entufa, +D'uma vitalidade equatorial! + +Que de frugalidades nos criamos! +Que torrao espontaneo que nos somos! +Pela outomnal maturacao dos pomos, +Com a carga, no chao pousam os ramos. + +E assim postas, nos barros e areiaes, +As maceiras vergadas fortemente, +Parecem, d'uma fauna surprehendente, +Os polypos enormes, diluviaes. + +Comtudo, nos nao temos na fazenda +Nem uma planta so de mero ornato! +Cada pe mostra-se util, e sensato, +Por mais finos aromas que rescenda! + +Finalmente, na fertil depressao, +Nada se ve que a nossa mao nao regre: +A florescencias d'um matiz alegre +Mostra um sinal--a fructificacao! + + * * * * * + +Ora, ha dez annos, n'este chao de lava +E argila e areia e alluvioes dispersas, +Entre especies botanicas diversas, +Forte, a nossa familia radiava! + +Unicamente, a minha doce irma, +Como uma tenue e immaculada rosa, +Dava a nota galante e melindrosa +Na trabalheira rustica, aldea. + +E foi n'um anno prodigo, excellente, +Cuja amargura nada sei que adoce, +Que nos perdemos essa flor precoce, +Que cresceu e morreu rapidamente! + +Ai d'aquelles que nascem n'este cahos, +E, sendo fracos, sejam generosos! +As doencas assaltam os bondosos +E--custa a crer--deixam viver os maus! + + * * * * * + +Fecho os olhos cancados, e descrevo +Das telas da memoria retocadas, +Biscates, hortas, batataes, latadas, +No paiz montanhoso, com relevo! + +Ah! Que aspectos benignos e ruraes +N'esta localidade tudo tinha, +Ao ires, com o banco de palhinha, +Para a sombra que faz nos parreiraes! + +Ah! Quando a calma, a sesta, nem consente +Que uma folha se mova ou se desmanche, +Tu, refeita e feliz com o teu "lunch", +Nos ajudavas, voluntariamente!... + +Era admiravel--n'este grau do Sul!-- +Entre a rama avistar o teu rosto alvo, +Ver-te escolhendo a uva diagalvo, +Que eu embarcava para Liverpool. + +A exportacao de frutas era um jogo: +Dependiam da sorte do mercado +O boal, que e de perolas formado, +E o ferral, que e ardente e cor de fogo! + +Em agosto, ao calor canicular, +Os passaros e enxames tudo infestam; +Tu cortavas os bagos que nao prestam +Com a tua thesoura de bordar. + +Douradas, pequeninas, as abelhas, +E negros, volumosos, os besoiros, +Circumdavam, com impetos de toiros, +As tuas candidissimas orelhas. + +Se uma vespa lancava o seu ferrao +Na tua cutis--petala de leite!-- +Nos collocavamos dez reis e azeite +Sobre a galante, a rosea inflammacao! + +E se um de nos, ja farto, arrenegado, +Com o chapeo cacava a bicharia, +Cada zangao voando, a luz do dia, +Lembrava o teu dedal arremessado. + + * * * * * + +Que d'encantos! Na forca do calor +Desabrochavas no padrao da bata, +E, surgindo da gola e da gravata, +Teu pescoco era o caule d'uma flor! + +Mas que cegueira a minha! Do teu porte +A fina curva, a indefinida linha, +Com bondades d'herbivora mansinha, +Eram prenuncios de fraqueza e morte! + +A procura da libra e do "schilling", +Eu andava abstracto e sem que visse +Que o teu alvor romantico de "miss" +Te obrigava a morrer antes de mim! + +E antes tu, ser lindissimo, nas faces +Tivesses "panno" como as camponezas; +E sem brancuras, sem delicadezas, +Vigorosa e plebeia, inda durasses! + +Uns modos de carnivora feroz +Podias ter em vez de inoffensivos; +Tinhas caninos, tinhas incisivos, +E podias ser rude como nos! + +Pois n'este sitio, que era de sequeiro, +Todo o genero ardente resistia, +E, a larguissima luz do Meio-dia, +Tomava um tom opalico e trigueiro! + + * * * * * + +Sim! Europa do Norte, o que suppoes +Dos vergeis que abastecem teus banquetes, +Quando as dockas, com fructas, os paquetes +Chegam antes das tuas estacoes?! + +Oh! As ricas "primeurs" da nossa terra +E as tuas frutas acidas, tardias, +No azedo amoniacal das queijarias +Dos fleugmaticos "farmers" d'Inglaterra! + +O cidades fabris, industriaes, +De nevoeiros, poeiradas de hulha, +Que pensaes do paiz que vos atulha +Com a fructa que sae dos seus quintaes? + +Todos os annos, que frescor se exhala! +Abundancias felizes que eu recordo! +Carradas brutas que iam para bordo! +Vapores por aqui fazendo escala! + +Uma alta parreira muscatel +Por doce nao servia para embarque: +Palacios que rodeiam Hyde-Park, +Nao conheceis esse divino mel! + +Pois a Coroa, o Banco, o Almirantado, +Nao as tem nas florestas em que ha corcas, +Nem em vos que dobraes as vossas forcas, +Pradarias d'um verde illimitado! + +Anglos-Saxonios, tendes que invejar! +Ricos suicidas, comparae comvosco! +Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco, +Facilimo, evidente, salutar! + +Opponde as regioes que dao os vinhos +Vossos montes d'escorias inda quentes! +E as febris officinas estridentes +As nossas tecelagens e moinhos! + +E o condados mineiros! Extensoes +Carboniferas! Fundas galerias! +Fabricas a vapor! Cutelarias! +E mechanicas, tristes fiacoes! + +Bem sei que preparaes correctamente +O aco e a seda, as laminas e o estofo; +Tudo o que ha de mais ductil, de mais fofo, +Tudo o que ha de mais rijo e resistente! + +Mas isso tudo e falso, e machinal, +Sem vida, como um circulo ou um quadrado, +Com essa perfeicao do fabricado, +Sem o rythmo do vivo e do real! + +E ca o santo sol, sobre isso tudo, +Faz conceber as verdes ribanceiras; +Lanca as rosaceas bellas e fructeiras +Nas searas de trigo palhagudo! + +Uma aldeia d'aqui e mais feliz, +Londres sombria, em que scintilla a corte!... +Mesmo que tu, que vives a compor-te, +Grande seio arquejante de Paris!... + +Ah! Que de gloria, que de colorido, +quando, por meu mandado e meu conselho, +Ca se empapelam "as macas d'espelho" +Que Herbert Spencer talvez tenha comido! + +Para alguns sao prosaicos, sao banaes +Estes versos de fibra succolenta; +Como se a polpa que nos dessedenta +Nem ao menos valesse uns madrigaes! + +Pois o que a bocca trava com surprezas +Senao as frutas tonicas e puras! +Ah! N'um jantar de carnes e gorduras +A graca vegetal das sobremesas!... + +Jack, marujo inglez, tu tens razao +Quando, ancorando em portos como os nossos, +As laranjas com cascas e carocos +Comes com bestial soffreguidao!... + + * * * * * + +A impressao d'outros tempos, sempre viva, +Da estremecoes no meu passado morto, +E inda viajo, muita vez, absorto, +Pelas varzeas da minha retentiva. + +Entao recordo a paz familiar, +Todo um painel pacifico d'enganos! +E a distancia fatal d'uns poucos annos +E uma lente convexa, d'augmentar. + +Todos os typos mortos resuscito! +Perpetuam-se assim alguns minutos! +E eu exagero os casos diminutos +Dentro d'um veo de lagrimas bemdito. + +Pinto quadros por lettras, por signaes, +Tao luminosos como os do Levante, +Nas horas em que a calma e mais queimante, +Na quadra em que o verao aperta mais. + +Como destacam, vivas, certas cores, +Na vida externa cheia d'alegrias! +Horas, vozes, locaes, physionomias, +As ferramentas, os trabalhadores! + +Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar +E a rama do pinheiro! Eu adivinho +O resinoso, o tao agreste pinho +Serrado nos pinhaes da beira mar. + +Vinha cortada, aos feixes, a madeira, +Cheia de nos, d'imperfeicoes, de rachas; +Depois armavam-se, n'um prompto as caixas +Sob uma calma espessa e calaceira! + +Feias e fortes! Punham-lhes papel, +A forral-as. E em grossa serradura +Acamava-se a uva prematura +Que nao deve servir para tonel! + +Cingiam-n'as com arcos de castanho +Nas ribeiras cortados, nos riachos; +E eram d'assucar e calor os cachos, +Criados pelo esterco e pelo amanho! + +O pobre estrume, como tu compoes +Estes pampanos doces como afagos! +"Dedos de dama": transparentes bagos! +"Tetas de cabra": lacteas carnacoes! + +E nao eram caixitas bem dispostas +Como as passas de Malaga e Alicante; +Com sua forma estavel, ignorante, +Estas pesavam, brutalmente, as costas! + +Nos vinhatorios via fulgurar, +Com tanta cal que torna as vistas cegas, +Os parallelogramos das adegas, +Que tem la dentro as dornas e o lagar! + +Que rudeza! Ao ar livre dos estios. +Que grande azafama! Apressadamente +Como soava um martellar frequente, +Vespera da saida dos navios! + +Ah! Ninguem entender que ao meu olhar +Tudo tem certo espirito secreto! +Com folhas de saudades um objecto +Deita raizes duras de arrancar! + +As navalhas de volta, por exemplo, +Cujo bico de passaro se arqueia, +Forjadas no casebre d'uma aldeia, +Sao antigas amigas que eu contemplo! + +Ellas, em seu labor, em seu lidar, +Com sua ponta como a da podoas, +Serviam probas, uteis, dignas, boas, +Nunca tintas de sangue e de matar. + +E as enxos de martello, que d'um lado +Cortavam mais do que as enxadas cavam, +Por outro lado, rapidas, pregavam, +D'uma pancada, o prego fasquiado! + +O meu animo verga na abstraccao, +Com a espinha dorsal dobrada ao meio; +Mas se de materiaes descubro um veio +Ganho a musculatura d'um Sansao! + +E assim--e mais no povo a vida e corna-- +Amo os officios como o de ferreiro, +Com seu folle arquejante, seu brazeiro, +Seu malho retumbante na bigorna! + +E sinto, se me ponho a recordar +Tanto utensilio, tantas perspectivas, +As tradicoes antigas, primitivas, +E a formidavel alma popular! + +Oh! Que brava alegria eu tenho quando +Sou tal qual como os mais! E, sem talento, +Faco um trabalho technico, violento, +Cantando, praguejando, batalhando! + + * * * * * + +Os fruteiros, tostados pelos soes, +Tinham passado, muita vez, a raia, +E, espertos, entre os mais da sua laia, +--Pobres camponios--eram uns heroes. + +E por isso, com phrases imprevistas, +E colorido e estylo e valentia, +As "haciendas" que ha na "Andalucia" +Pintavam como novos paysagistas. + +De como, as calmas, n'essas excursoes, +Tinham aguas salobras por refrescos; +E amarellos, enormes, gigantescos, +La batiam o queixo com sesoes! + +Tinham corrido ja na adusta Hespanha, +Todo um fertil plato sem arvoredos, +Onde armavam barracas nos vinhedos, +Como tendas alegres de campanha. + +Que pragas castelhanas, que alegrao, +Quanto contavam scenas de pousadas! +Adoravam as cintas encarnadas +E as cores, como os pretos do sertao! + +E tinham, sem que a lei a tal obrigue, +A educacao vistosa das viagens! +Uns por terra partiam e estalagens, +Outros, aos montes, no convez d'um brigue! + +So um havia, triste e sem fallar +Que arrastava a maior misantropia, +E, roxo como um figado, bebia +O vinho tinto que eu mandava dar! + +Pobre da minha geracao exangue +De ricos! Antes, como os abrutados, +Andar com uns sapatos encebados, +E ter riqueza chimica no sangue! + + * * * * * + +Mas hoje a rustica lavoura, quer +Seja o patrao, quer seja o jornaleiro, +Que inferno! Em vao o lavrador rasteiro +E a filharada lidam, e a mulher!... + +Desde o principio ao fim e uma macada +De mil demonios! Torna-se preciso +Ter-se muito vigor, muito juizo +Para trazer a vida equilibrada! + +Hoje eu sei quanto custam a criar +As cepas, desde que eu as podo e empo. +Ah! O campo nao e um passatempo +Com bucolismos, rouxinoes, luar. + +A nos tudo nos rouba e nos dizima: +O rapazio, o imposto, as pardaladas, +As osgas peconhentas, achatadas, +E as abelhas que engordam na vindima. + +E o pulgao, a lagarta, os caracoes, +E ha inda, alem do mais com que se ateima, +As intemperies, o granizo, a queima, +E a concorrencia com os hespanhoes. + +Na vendas, os vinhateiros d'Almeria +Competem contra os nossos fazendeiros. +Dao frutas aos leiloes dos estrangeiros, +Por uma cotacao que nos desvia! + +Pois tantos contras, rudes como sao, +Forte e teimoso, o camponez destroe-os! +Venham de la pesados os comboyos +E os "buques" estivados no porao! + +Nao, nao e justo que eu a culpa lance +Sobre estes nadas! Puras bagatellas! +Nos nao vivemos so de coisas bellas, +Nem tudo corre como n'um romance! + +Para a Terra parir hade ter dor, +E e para obter as asperas verdades, +Que os agronomos cursam nas cidades, +E, a sua custa, aprende o lavrador. + +Ah! Nao eram insectos nem as aves +Que nos dariam dias tao difficeis, +Se vos, sabios, na gente descobrisseis +Como se curam as doencas graves. + +Nao valem nada a cava, a enxofra, e o mais! +Difficultoso trato das cearas! +Lutas constantes sobre as jornas caras! +Compras de bois nas feiras annuaes! + +O que a alegria em nos destroe e mata, +Nao e rede arrastante d'escalracho, +Nem e "suao" queimante como um facho, +Nem invasoes bulhosas d'herva pata. + +Podia ter seccado o poco em que eu +Me debrucava e te pregava sustos, +E mais as hervas, arvores e arbustos +Que--tanta vez!--a tua mao colheu. + +"Molestia negra" nem "charbon" nao era, +Como um archote incendiando as parras! +Tao pouco as bastas e invisiveis garras, +Da enorme legiao do phylloxera! + +Podiam mesmo, com o que contem, +Os muros ter caido as invernias! +Somos fortes! As nossas energias +Tudo vencem e domam muito bem! + +Que os rios, sim, que como touros mugem, +Transbordando atulhassem as regueiras! +Chorassem de resina as larangeiras! +Ennegrecessem outras com ferrugem! + +As turvas cheias de novembro, em vez +Do nateiro subtil que fertilisa, +Fossem a inundacao que tudo pisa, +No rebanho afogassem muita rez! + +Ah! N'esse caso pouco se perdera, +Pois isso tudo era um pequeno damno, +A vista do cruel destino humano +Que os dedos te fazia como cera! + +Era essa tysica em terceiro grau, +Que nos enchia a todos de cuidado, +Te curvava e te dava um ar alado +Como quem vae voar d'um mundo mau. + +Era a desolacao que inda nos mina +(Porque o fastio e bem peior que a fome) +Que a meu pai deu a curva que a consome, +E a minha mae cabellos de platina. + +Era a chlorose, esse tremendo mal, +Que desertou e que tornou funesta +A nossa branca habitacao em festa +Reverberando a luz meridional. + +Nao desejemos,--nos os sem defeitos,-- +Que os tysicos perecam! Ma theoria, +Se pelos meus o apuro principia, +Se a Morte nos procura em nossos leitos! + +A mim mesmo, que tenho a pretensao +De ter saude, a mim que adoro a pompa +Das forcas, pode ser que se me rompa +Uma arteria, e me mine uma lesao. + +Nos outros, teus irmaos, teus companheiros, +Vamos abrindo um matagal de dores! +E somos rijos como os serradores! +E positivos como os engenheiros! + +Porem, hostis, sobresaltados, sos, +Os homens architectam mil projectos +De victoria! E eu duvido que os meus netos +Morram de velhos como os meus avos! + +Porque, parece, ou fortes ou velhacos +Serao apenas os sobreviventes; +E ha pessoas sinceras e clementes, +E troncos grossos com seus ramos fracos! + +E que fazer se a geracao decae! +Se a seiva genealogica se gasta! +Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! +Morre o filho primeiro do que o pai! + +Mas seja como for, tudo se sente +Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta, +O flor cortada, susceptivel, alta, +Que assim seccaste prematuramente! + +Eu que de vezes tenho o desprazer +De reflectir no tumulo! E medito +No eterno Incognoscivel infinito, +Que as ideas nao podem abranger! + +Como em paul em que nem cresca a junca +Sei d'almas estagnadas! Nos absortos, +Temos ainda o culto pelos Mortos, +Esses ausentes que nao voltam nunca! + +Nos ignoramos, sem religiao, +Ao rasgarmos caminho, a fe perdida, +Se te vemos ao fim d'esta avenida +Ou essa horrivel aniquilacao!... + +E o minha martyr, minha virgem, minha +Infeliz e celeste creatura, +Tu lembras-nos de longe a paz futura, +No teu jazigo, como uma santinha! + +E emquanto a mim, es tu que substitues +Todo o mysterio, toda a santidade, +Quando em busca do reino da verdade +Eu ergo o meu olhar aos ceos azues! + + +III + +Tinhamos nos voltado a capital maldicta, +Eu vinha de polir isto tranquillamente, +Quando nos seccedeu uma cruel desdita, +Pois um de nos caiu, de subito, doente. + +Uma tuberculose abria-lhe cavernas! +Da-me rebate ainda o seu tossir profundo! +E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas, +Com que se despediu de todos e do mundo! + +Pobre rapaz robusto e cheio de futuro! +Nao sei d'um infortunio immenso como o seu! +Vio o seu fim chegar como um medonho muro, +E, sem querer, afflicto e attonito, morreu! + +De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo +Como tanta crueldade e tantas injusticas, +Se inda trabalho e como os presos no degredo, +Com planos de vinganca e ideas insubmissas. + +E agora, de tal modo a minha vida e dura, +Tenho momentos maus, tao tristes, tao perversos, +Que sinto so desdem pela litteratura, +E ate desprezo e esqueco os meus amados versos! + + + +PROVINCIANAS + + +I + +Ola! Bons dias! Em marco +Que mocetona e que joven +A terra! Que amor esparso +Corre os trigos, que se movem +As vagas d'um verde garco! + +Como amanhece! Que meigas +As horas antes de almoco! +Fartam-se as vaccas nas veigas +E um pasto orvalhado e moco +Produz as novas manteigas. + +Toda a paizagem se doura; +Tibida ainda, que frecas! +Bella mulher, sim senhora, +N'esta manha pittoresca, +Primaveral, creadora! + +Bom sol! As sebes d'encosto +Dao madresilvas cheirosas +Que entotecem como um mosto +Floridas, as espinhosas +Subio-lhes o sangue ao rosto. + +Cresce o relevo dos montes, +Como seios offegantes; +Murmuram como umas fontes +Os rios que dias antes +Bramiam galgando pontes. + +E os campos, milhas e milhas, +Com povos d'espaco a espaco, +Fazem-se as mil maravilhas; +Dir-se-ia o mar de sargaco +Glauco, ondulante, com ilhas! + +Pois bem. O inverno deixou-nos. +E certo. E os graos e as sementes +Que ficam d'outros outonos +Acordam hoje frementes +Depois d'uns poucos de somnos. + +Mas nem tudo sao descantes +Por esses longos caminhos +Entre favaes palpitantes +Ha solos bravos, maninhos, +Que expulsam seus habitantes! + +E n'esta quadra d'amores +Que emigram os jornaleiros +Ganhoes e trabalhadores! +Passam clans de forasteiros +Nas terras de lavradores. + +Tal como existem mercados +Ou feiras, semanalmente +Para comprarmos os gados +Assim ha pracas de gente +Pelos domingos calados! + +Emquanto a ovelha arredonda, +Vao tribus de sete filhos, +Por varzeas que fazem onda, +Para as derregas dos milhos +E molhadellas da monda. + +De roda pulam borregos; +Enchem entao as cardosas +As mocas d'esses labregos +Com altas botas bartrosas +De se atirarem aos regos! + +Eil-as que vem as manadas +Com caras de soffrimento, +Nas grandes marchas forcadas! +Vem ao trabalho, ao sustento, +Com fouces, sachos, enchadas! + +Ai o palheiro das servas +Se o feitor lhe tira as chaves! +Ellas chegam as catervas, +Quando acasalam as aves +E se fecundam as hervas!... + + +II + +Ao meio dia na cama, +Branca fidalga o que julga +Das pequenas da su'ama?! +Vivem minadas da pulga +Negras do tempo e da lama. + +Nao e caso que a commova +Ver suas irmans de leite, +Quer faca frio, quer chova, +Sem uma mama que as deite +Na tepidez d'um alcova?! + +Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta. + + +NOTAS + +Cesario Verde (Jose Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa, +freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no +Paco do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. Jose +Anastacio Verde, negociante, e da sr. D. Maria da Piedade dos +Santos Verde. + + * * * * * + +A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi +o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no +Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario +Verde, precedendo-os de uma carta de apresentacao a Manoel d'Arriaga. +Esses versos nao se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o +poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem. +Realmente o eram--pela hesitacao do neophyto. + + * * * * * + +Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnacao foi hoje +respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as +poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composicoes de +menos folego. + + * * * * * + +No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra +de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da +tarde, do Porto, da Renascenca, da Revista de Coimbra, da Tribuna, +da Illustracao, etc., nao sera discutida pelo auctor d'estas linhas. +Nao e hoje discutida, nem o sera jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da +promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade; +--ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia. + +Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com +os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos +insultos. + + * * * * * + +Os 200 exemplares d'este livro serao distribuidos pelos parentes, +pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem +como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuicao +sera publicada. As reclamacoes justificadas serao attendidas. + +1887. + +S. P. + + +INDICE + +Dedicatoria +Prefacio + +VERSOS + +CRISE ROMANESCA + +Deslumbramentos +Septentrional +Meridional +Ironias do Desgosto +Humilhacoes +Responso + +NATURAES + +Contrariedades +A debil +N'um bairro moderno +Crystalisacoes +Noites gelidas +Sardenta +Flores velhas +Noite fechada +Manhans brumosas +Frigida +De verao +O sentimento d'um occidental +De tarde +Em petiz +Nos +Provincianas + +Notas + + + + + +End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE *** + +This file should be named 7olcv10.txt or 7olcv10.zip +Corrected EDITIONS of our eBooks get a new NUMBER, 7olcv11.txt +VERSIONS based on separate sources get new LETTER, 7olcv10a.txt + +Produced Joao Miguel Neves from images of the National Digital +Library project from the National Library of Portugal. + +Project Gutenberg eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the US +unless a copyright notice is included. Thus, we usually do not +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +We are now trying to release all our eBooks one year in advance +of the official release dates, leaving time for better editing. +Please be encouraged to tell us about any error or corrections, +even years after the official publication date. + +Please note neither this listing nor its contents are final til +midnight of the last day of the month of any such announcement. +The official release date of all Project Gutenberg eBooks is at +Midnight, Central Time, of the last day of the stated month. A +preliminary version may often be posted for suggestion, comment +and editing by those who wish to do so. + +Most people start at our Web sites at: +http://gutenberg.net or +http://promo.net/pg + +These Web sites include award-winning information about Project +Gutenberg, including how to donate, how to help produce our new +eBooks, and how to subscribe to our email newsletter (free!). + + +Those of you who want to download any eBook before announcement +can get to them as follows, and just download by date. This is +also a good way to get them instantly upon announcement, as the +indexes our cataloguers produce obviously take a while after an +announcement goes out in the Project Gutenberg Newsletter. + +http://www.ibiblio.org/gutenberg/etext03 or +ftp://ftp.ibiblio.org/pub/docs/books/gutenberg/etext03 + +Or /etext02, 01, 00, 99, 98, 97, 96, 95, 94, 93, 92, 92, 91 or 90 + +Just search by the first five letters of the filename you want, +as it appears in our Newsletters. + + +Information about Project Gutenberg (one page) + +We produce about two million dollars for each hour we work. The +time it takes us, a rather conservative estimate, is fifty hours +to get any eBook selected, entered, proofread, edited, copyright +searched and analyzed, the copyright letters written, etc. Our +projected audience is one hundred million readers. If the value +per text is nominally estimated at one dollar then we produce $2 +million dollars per hour in 2002 as we release over 100 new text +files per month: 1240 more eBooks in 2001 for a total of 4000+ +We are already on our way to trying for 2000 more eBooks in 2002 +If they reach just 1-2% of the world's population then the total +will reach over half a trillion eBooks given away by year's end. + +The Goal of Project Gutenberg is to Give Away 1 Trillion eBooks! +This is ten thousand titles each to one hundred million readers, +which is only about 4% of the present number of computer users. + +Here is the briefest record of our progress (* means estimated): + +eBooks Year Month + + 1 1971 July + 10 1991 January + 100 1994 January + 1000 1997 August + 1500 1998 October + 2000 1999 December + 2500 2000 December + 3000 2001 November + 4000 2001 October/November + 6000 2002 December* + 9000 2003 November* +10000 2004 January* + + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation has been created +to secure a future for Project Gutenberg into the next millennium. + +We need your donations more than ever! + +As of February, 2002, contributions are being solicited from people +and organizations in: Alabama, Alaska, Arkansas, Connecticut, +Delaware, District of Columbia, Florida, Georgia, Hawaii, Illinois, +Indiana, Iowa, Kansas, Kentucky, Louisiana, Maine, Massachusetts, +Michigan, Mississippi, Missouri, Montana, Nebraska, Nevada, New +Hampshire, New Jersey, New Mexico, New York, North Carolina, Ohio, +Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, South Carolina, South +Dakota, Tennessee, Texas, Utah, Vermont, Virginia, Washington, West +Virginia, Wisconsin, and Wyoming. + +We have filed in all 50 states now, but these are the only ones +that have responded. + +As the requirements for other states are met, additions to this list +will be made and fund raising will begin in the additional states. +Please feel free to ask to check the status of your state. + +In answer to various questions we have received on this: + +We are constantly working on finishing the paperwork to legally +request donations in all 50 states. 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A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa +doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido +Jorge--deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;--morri +para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces! +O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos +restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada: +peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de +nós, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmão +soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento: +--Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a. + +Adeus, meu querido Jorge! + +S.P. + +20 de julho de 1886. + +Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi +em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás +Lettras, como se as Lettras lá estivessem--no Curso. Eu matriculara-me, +com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira +disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos--para a vida e para a +morte. + +Para a vida e para a morte. + +Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle +não teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu +fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da +noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do +seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas +palavras suas de ha poucos dias:--«E como se dê o caso de tu seres +o mais dedicado dos meus amigos...» Tenho aqui essas palavras: +ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas, +alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua +primeira noite redimida... + +Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle +anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de +Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas +do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de +Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo +a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso +de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares +de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do +seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um +dia, trocámos estas palavras:--«Como tu tens tempo, meu amigo, para +soffrer tanto!»--«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar +no soffrimento!». + +É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para +conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida, +imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia +espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor +da discussão--a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas +para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista +irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o +sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e +largo sorriso de convencido; e então--meu querido amigo! meu santo +poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que +elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido; +e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente. +A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade! + +Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem +em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades +amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de +primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos +seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas +do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica +do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam +fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e +potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes +e as rosas! A bondade summa está no poeta,--mais visivel, pelo menos, +do que em Deus. + +Artista--e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e +reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois +que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou +elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade, +não me dispensarei d'esta indicripção: + +Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins +perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe +naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á +minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo, +o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe +dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio. +Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus +escrupulos: sim?...» + +E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario +Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me +--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava +irremediavelmente perdido! + +Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior, +quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado, +meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o +teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu +pallido agonisante illudido! + +A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel +e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção +desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um +tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando. + + * * * * * + +E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de +que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu +espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr! + +Foi ás cinco da tarde--ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a +estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,--nós +os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas +horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o +ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia +terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase +indifferente--e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento +que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão--como +as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte +e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas! + +Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar +velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas. +Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos +que que me désse força, que me désse força nova,--pois que se +prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos, +ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força +nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo--do mesmo modo que +o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se +--sem saber porque... + +20 de Agosto + + * * * * * + +A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com +um respiradouro em cruz;--rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á +porta está um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu +querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao +terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da +minha raça--funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a +pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce +amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:--Está +bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a +gravidade do cypreste:--Bem; não houve novidade em toda a noite... + +É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é +todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar +d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos--o Cesario +e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois +da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira +consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos, +horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que +se lhe não consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle +cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado +desprezo da vida. O meu santo está alli,--está resignado: é tudo. +Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado--o nosso +querido morto impassivel! + +E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei +da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para +dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu +visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu +acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se +contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi +então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz +d'elle?--pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:--«Sê +natural, meu amigo; sê natural!» + +Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado +horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei +n'uma angustia:--«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se +reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, +um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte! + +Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos +da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não +havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e +torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora. +Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o +sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito +illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a +crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não +estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando +eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na +Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz +de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento +--do soffrimento amparado e protegido... + +Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a +pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas +lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás +minhas amarguras,--que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o +aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e +severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que +a minha angustia encontrou na sua. + +Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte! +Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a +voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois +do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua +grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua +mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não +quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro +da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre, +sempre bom--e todavia sempre justo! + +A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua +voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a +desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados +offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias: +conseguintemente, com a suppressão do trabalho,--do pão,--com a +calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera, +com todas as ciladas á minha fé... Ah, perdidos em paiz de Cafres! +Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os +dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação! + +Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova, +esperando... Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos +á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da +Justiça absoluta--da Justiça illuminada e serena;--espera que eu vá +dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da +Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a +Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado, +a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas +supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias +reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres +supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte, +o seu amor! + +Está alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, não saberei +dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu +abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa +amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visões +do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a +minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os +restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada +do seu tumulo pelo Nordéste--menos frio do que a minha alma succumbida! + + * * * * * + +Silva Pinto. + + + + + +Os versos + + + + +I + +CRISE ROMANESCA + + +DESLUMBRAMENTOS + +Milady, é perigoso contemplal-a, +Quando passa aromatica e normal, +Com seu typo tão nobre e tão de sala, +Com seus gestos de neve e de metal. + +Sem que n'isso a desgoste ou desenfade, +Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, +Eu vejo-a, com real solemnidade, +Ir impondo toilettes complicadas!... + +Em si tudo me attrae como um thesoiro: +O seu ar pensativo e senhoril, +A sua voz que tem um timbre de oiro +E o seu nevado e lucido perfil! + +Ah! Como m'estontêa e me fascina... +E é, na graça distincta do seu porte, +Como a Moda superflua e feminina, +E tão alta e serena como a Morte!... + +Eu hontem encontrei-a, quando vinha, +Britannica, e fazendo-me assombrar; +Grande dama fatal, sempre sósinha, +E com firmeza e musica no andar! + +O seu olhar possue, n'um fogo ardente, +Um archanjo e um demonio a illuminal-o; +Como um florete, fere agudamente, +E afaga como o pello d'um regalo! + +Pois bem. Conserve o gelo por esposo, +E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, +O modo diplomatico e orgulhoso +Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos. + +E emfim prosiga altiva como a Fama, +Sem sorrisos, dramatica, cortante; +Que eu procuro fundir na minha chamma +Seu ermo coração, como um brilhante. + +Mas cuidado, milady, não se afoite, +Que hão-de acabar os barabaros reaes; +E os povos humilhados, pela noite, +Para a vingança aguçam os punhaes. + +E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, +Sob o setim do Azul e as andorinhas, +Eu hei-de ver errar, allucinadas, +E arrastando farrapos--as rainhas! + + + +SEPTENTRIONAL + +Talvez já te esquecesses, ó bonina, +Que viveste no campo só commigo, +Que te osculei a bocca purpurina, +E que fui o teu sol e o teu abrigo. + +Que fugiste commigo da Babel, +Mulher como não ha nem na Circassia, +Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, +E regámos com prantos uma acacia. + +Talvez já te não lembres com desgosto +D'aquellas brancas noites de mysterio, +Em que a lua sorria no teu rosto +E nas lages que estão no cemiterio. + +Quando, á brisa outoniça, como um manto, +Os teus cabellos d'ambar desmanchados, +Se prendiam nas folhas d'um acantho, +Ou nos bicos agrestes dos silvados, + +E eu ia desprendel-os, como um pagem +Que a cauda solevasse aos teus vestidos; +E ouvia murmurar á doce aragem +Uns delirios d'amor, entristecidos; + +Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, +Pousarem borbeletas doudejantes +Nas tuas formosissimas madeixas, +D'aquellas côr das messes lourejantes, + +E no pomar, nós dois, hombro com hombro, +Caminhavamos sós e de mãos dadas, +Beijando os nossos rostos sem assombro, +E colorindo as faces desbotadas; + +Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos +N'um amor grande como um mar sem praias, +Ouviamos os meigos dithyrambos, +Que os rouxinoes teciam nas olaias, + +E, afastados da aldeia e dos casaes, +Eu comtigo, abraçado como as heras, +Escondidos nas ondas dos trigaes, +Devolvia-te os beijos que me déras; + +Quando, se havia lama no caminho, +Eu te levava ao collo sobre a greda, +E o teu corpo nevado como o arminho +Pesava menos que um papel de sêda... + +E foste sepultar-te, ó seraphim, +No claustro das Fieis emparedadas, +Escondeste o teu rosto de marfim +No véu negro das freiras resignadas. + +E eu passo, tão calado como a Morte, +N'esta velha cidade tão sombria, +Chorando afflictamente a minha sorte +E prelibando o calix da agonia. + +E, tristissima Helena, com verdade, +Se podéra na terra achar supplicios, +Eu tambem me faria gordo frade +E cobriria a carne de cilicios. + + + +MERIDIONAL + +Cabellos + +Ó vagas de cabello esparsas longamente, +Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, +E tendes o crystal d'um lago refulgente +E a rude escuridão d'um largo e negro mar; + +Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva, +Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús +No barathro febril da vossa grande treva, +Que tem scintillações e meigos ceos de luz. + +Deixae-me navegar, morosamente, a remos, +Quando elle estiver brando e livre de tufões, +E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos +E enchamos de harmonia as amplas solidões. + +Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos +Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom +Como um licor rhenano a fermentar nos copos, +Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon! + +E ó magica mulher, ó minha Inegualavel, +Que tens o immenso bem de ter cabellos taes, +E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel, +Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes; + +Consente que eu aspire esse perfume raro, +Que exhalas da cabeça erguida com fulgor, +Perfume que estontêa um millionario avaro +E faz morrer de febre um louco sonhador. + +Eu sei que tu possues balsamicos desejos, +E vaes na direcção constante do querer, +Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos, +Que fazem mansamente amar e elanguescer. + +E a tua cabelleira, errante pelas costas, +Supponho que te serve, em noites de verão, +De flaccido espaldar aonde te recostas +Se sentes o abandono e a morna prostração. + +E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos +Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor +Que antigamente deu, nos circos dos romanos, +Um oleo para ungir o corpo ao gladiador. + + * * * * * + +Ó mantos de veludo esplendido e sombrio, +Na vossa vastidão posso talvez morrer! +Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio +E quero asphyxiar-me em ondas de prazer. + + + +IRONIAS DO DESGOSTO + +«Onde é que te nasceu»--dizia-me ella ás vezes-- +«O horror calado e triste ás cousas sepulcraes? +«Porque é que não possues a verve dos Francezes +«E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes? + +«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente, +«As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções, +«E abrigas tanto fel no peito, que não sente +«O abalo feminil das minhas expansões? + +«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso; +«Mas quando tentas rir parece então, meu bem, +«Que estão edificando um negro cadafalso +«E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem! + +«Eu vim--não sabes tu?--para gosar em maio, +«No campo, a quietação banhada de prazer! +«Não vês, ó descórado, as vestes com que saio, +«E os jubilos, que abril acaba de trazer? + +«Não vês como a campina é toda embalsamada +«E como nos alegra em cada nova flor? +«E então porque é que tens na fronte consternada +«Um não sei quê tocante e enternecedor? + +E eu só lhe respondia:--«Escuta-me. Conforme +«Tu vibras os crystaes da bocca musical, +«Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme +«Que te ha de corromper o corpo de vestal. + +«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha, +«Que a tua cabecinha ornada á Rabagas, +«A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha +«E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará! + +«E eu que daria um rei por cada teu suspiro, +«Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans, +«Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro +«O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!» + + + +HUMILHAÇÕES +(De todo o coração--a Silva Pinto) + +Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job, +Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os; +E espero-a nos salões dos principaes theatros, + Todas as noites, ignorado e só. + +Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz; +As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, +E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos, + Eu analyso as peças no cartaz. + +Na representação d'um drama de Feuillet, +Eu aguradava, junto à porta, na penumbra, +Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra + Saltou soberba o estribo do coupé. + +Como ella marcha! Lembra um magnetisador. +Roçavam no veludo as guarnições das rendas; +E, muito embora tu, burguez, me não entendas, + Fiquei batendo os dentes de terror. + +Sim! Por não podia abandonal-a em paz! +Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa +De vel-a aproximar, sentado na platéa, + De tel a n'um binoculo mordaz! + +Eu occultava o fraque usado nos botões; +Cada contratador dizia em voz rouquenha: +--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha? + E ouviam-se cá fóra as ovações. + +Que desvanecimento! A perola do Tom! +As outras ao pé d'ella imitam as bonecas; +Tem menos melodia as harpas e as rabecas, + Nos grandes espetaculos do Som. + +Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger; +Vi-a subir, direita, a larga escadaria +E entrar no camarote. Antes estimaria + Que o chão se abrisse para me abater. + +Saí; mas ao sair senti-me atropellar. +Era um municipal sobre um cavallo. A guarda +Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, + Cresci com raiva contra o militar. + +De subito, fanhosa, infecta, rota, má, +Pôz-se na minha frente uma velhinha suja, +E disse-me, piscando os olhos de coruja: +--Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?... + + + +RESPONSO + +I + +N'um castello deserto e solitario, +Toda de preto, ás horas silenciosas, +Envolve-se nas pregas d'um sudario +E chora como as grandes criminosas. + +Podesse eu ser o lenço de Bruxellas +Em que ella esconde as lagrimas singellas. + +II + +E loura como as doces escocezas, +D'uma belleza ideal, quasi indecisa; +Circumda-se de luto e de tristezas +E excede a melancolica Artemisa. + +Fosse eu os seus vestidos afogados +E havia de escutar-lhe os seus peccados. + +III + +Alta noite, os planetas argentados +Deslisam um olhar macio e vago +Nos seus olhos de pranto marejados +E nas aguas mansissimas do lago + +Podesse eu ser a lua, a lua terna, +E faria que a noite fosse eterna. + +IV + +E os abutres e os corvos fazem giros +De roda das ameias e dos pégos, +E nas salas resoam uns suspiros +Dolentes como as supplicas dos cegos. + +Fosse eu aquellas aves de pilhagem +E cercara-lhe a fronte, em homenagem. + +V + +E ella vaga nas praias rumorosas, +Triste como as rainhas desthronadas, +A contemplar as gondolas airosas, +Que passam, a giorno illuminadas. + +Podesse eu ser o rude gondoleiro +E alli é que fizera o meu cruzeiro. + +VI + +De dia, entre os veludos e entre as sedas, +Murmurando palavras afflictivas, +Vagueia nas umbrosas alamedas +E acarinha, de leve, as sensitivas. + +Fosse eu aquellas arvores frondosas +E prendera-lhe as roupas vaporosas. + +VII + +Ou domina, a rezar, no pavimento +Da capella onde outr'ora se ouviu missa, +A musica dulcissima do vento +E o sussuro do mar, que s'espreguiça. + +Podesse eu ser o mar e os meus desejos +Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos. + +VIII + +E ás horas do crepusculo saudosas, +Nos parques com tapetes cultivados, +Quando ella passa curvam-se amorosas +As estatuas dos seus antepassados. + +Fosse eu tambem granito e a minha vida +Era vêl-a a chorar arrependida. + +IX + +No palacio isolado como um monge, +Erram as velhas almas dos precítos, +E nas noites de inverno ouvem-se ao longe +Os lamentos dos naufragos afflictos. + +Podesse eu ter tambem uma procella +E as lentas agonias ao pé d'ella! + +X + +E ás lages, no silencio dos mosteiros, +Ella conta o seu drama negregado, +E o vasto carmesim dos resposteiros +Ondula como um mar ensanguentado. + +Fossem aquellas mil tapeçarias +Nossas mortalhas quentes e sombrias. + +XI + +E assim passa, chorando, as noites bellas, +Sonhando nos tristes sonhos doloridos, +E a reflectir nas gothicas janellas +As estrellas dos ceus desconhecidos. + +Podesse eu ir sonhar tambem comtigo +E ter as mesmas pedras no jazigo! + +XII + +Mergulha-se em angustias lacrimosas +Nos ermos d'um castello abandonado, +E as proximas florestas tenebrosas +Repercutem um choro amargurado. + +Unissemos, nós dois, as nossas covas, +Ó doce castellã das minhas trovas! + + + + + +II + +NATURAES + + + + +CONTRARIEDADES + +Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente; +Nem posso tolerar os livros mais bizarros. +Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros + Consecutivamente. + +Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: +Tanta depravação nos usos, nos costumes! +Amo, insensatamente, os acidos, os gumes + E os angulos agudos. + +Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra +Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes; +Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes + E engomma para fóra. + +Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! +Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica. +Lidando sempre! E deve a conta á botica! + Mal ganha para sopas... + +O obstaculo estimula, torna-nos perversos; +Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, +Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias, + Um folhetim de versos. + +Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta +No fundo da gaveta. O que produz o estudo? +Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo, + Me tem fechado a porta. + +A critica segundo o methodo de Taine +Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa. +Muitissimos papeis ineditos. A imprensa + Vale um desdem solemne. + +Com raras excepções merece-me o epigramma. +Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, +Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho + Diverte-se na lama. + +Eu nunca dediquei poemas ás fortunas, +Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas, +Independente! Só por isso os jornalistas + Me negam as columnas. + +Receiam que o assignante ingenuo os abandone, +Se forem publicar taes cousas, taes auctores. +Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores + Deliram por Zaccone. + +Um prosador qualquer desfructa fama honrosa, +Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»; +E a mim, não ha questão que mais me contrarie + Do que escrever em prosa. + +A adulação repugna aos sentimentos finos; +Eu raramente falo aos nossos litteratos, +E apuro-me em lançar originaes e exactos, + Os meus alexandrinos... + +E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso! +Ignora que a asphyxia a combustão das brazas, +Não foge do estendal que lhe humedece as casas, + E fina-se ao desprezo! + +Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova. +Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente, +Oiço-a cantarolar uma canção plangente + D'uma opereta nova! + +Perfeitamente. Vou findar sem azedume. +Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas, +Conseguirei reler essas antigas rimas, + Impressas em volume? + +Nas lettras eu conheço um campo de manobras; +Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague, +E esta poesia pede um editor que pague + Todas as minhas obras... + +E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha? +A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia? +Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... + Que mundo! Coitadinha! + + + +A DEBIL + +Eu, que sou feio, solido, leal, +A ti, que és bella, fragil, assustada, +Quero estimar-te, sempre, recatada +N'uma existencia honesta, de crystal. + +Sentado á mesa d'um café devasso, +Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura, +N'esta Babel tão velha e corruptora, +Tive tenções de offerecer-te o braço. + +E, quando soccorreste um miseravel, +Eu, que bebia calices d'absintho, +Mandei ir a garrafa, porque sinto +Que me tornas prestante, bom, saudavel. + +«Ella ahi vem!» disse eu para os demais; +E puz-me a olhar, véxado e suspirando, +O teu corpo que pulsa, alegre e brando, +Na frescura dos linhos matinaes. + +Via-te pela porta envidraçada; +E invejava,--talvez que o não suspeites!-- +Esse vestido simples, sem enfeites, +N'essa cintura tenra, immaculada. + +Ia passando, a quatro, o patriarcha. +Triste eu sahi. Doía-me a cabeça; +Uma turba ruidosa, negra, espessa, +Voltava das exequias d'um monarcha. + +Adoravel! Tu muito natural +Seguias a pensar no teu bordado; +Avultava, n'um largo arborisado, +Uma estatua de rei n'um pedestal. + +Sorriam nos seus trens os titulares; +E ao claro sol, guardava-te, no entanto, +A tua boa mãe, que te ama tanto, +Que não te morrerá sem te casares! + +Soberbo dia! Impunha-me respeito +A limpidez do teu semblante grego; +E uma familia, um ninho de socego, +Desejava beijar sobre o teu peito. + +Com elegancia e sem ostentação, +Atravessavas branca, esvelta e fina, +Uma chusma de padres de batina, +E d'altos funccionarios da nação. + +«Mas se a atropella o povo turbolento! +Se fosse, por acaso, alli pisada!» +De repente, paraste embaraçada +Ao pé d'um numeroso ajuntamento. + +E eu, que urdia estes faceis esbocetos, +Julguei vêr, com a vista de poeta, +uma pombinha timida e quieta +N'um bando ameaçador de corvos pretos. + +E foi, então, que eu homem varonil, +Quiz dedicar-te a minha pobre vida, +A ti, que és tenue, docil, reconhecida, +Eu, que sou habil, pratico, viril. + + + +N'UM BAIRRO MODERNO + +A Manuel Ribeiro + +Dez horas da manhã; os transparentes +Matizam uma casa apalaçada; +Pelos jardins estancam-se os nascentes, +E fere a vista, com brancuras quentes, +A larga rua macadamisada. + +Rez-de-chaussée repousam socegados, +Abriram-se, n'alguns, as persianas, +E d'um ou d'outro, em quartos estucados, +Ou entre a rama dos papeis pintados, +Reluzem, n'um almoço, as porcelanas. + +Como é saudavel ter o seu conchego, +E a sua vida facil! Eu descia, +Sem muita pressa, para o meu emprego, +Aonde agora quasi sempre chego +Com as tonturas d'uma apoplexia. + +E rota, pequenina, aramafada, +Notei de costas uma rapariga, +Que no xadrez marmoreo d'uma escada, +Como um retalho de horta agglomerada, +Pousára, ajoelhando, a sua giga. + +E eu, apesar do sol, examinei-a: +Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos; +E abre-se-lhe o algodão azul da meia, +Se ella se curva, esguedelhada, feia, +E pendurando os seus bracinhos brancos. + +Do patamar responde-lhe um criado: +«Se te convém, despacha; não converses. +Eu não dou mais.» E muito descançado, +Atira um cobre livido, oxidado, +Que vem bater nas faces d' uns alperces. + +Subitamente,--que visão de artista!-- +Se eu transformasse os simples vegetaes, +Á luz do sol, o intenso colorista, +N'um ser humano que se mova e exista +Cheio de bellas proporções carnaes?! + +Boiam aromas, fumos de cozinha; +Com o cabaz ás costas, e vergando, +Sobem padeiros, claros de farinha; +E ás portas, uma ou outra campainha +Toca, frenetica, de vez em quando. + +E eu recompunha, por anatomia, +Um novo corpo organico, aos bocados. +Achava os tons e as fórmas. Descobria +Uma cabeça n'uma melancia, +E n'uns repolhos seios injectados. + +As azeitonas, que nos dão o azeite, +Negras e unidas, entre verdes folhos, +São tranças d'um cabello que se ageite; +E os nabos--ossos nus, da côr do leite, +E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos. + +Ha collos, hombros, boccas, um semblante +Nas posições de certos fructos. E entre +As hortaliças, tumido, fragrante, +Como d'alguem que tudo aquilo jante, +Surge um melão, que me lembrou um ventre. + +E, como um feto, emfim, que se dilate, +Vi nos legumes carnes tentadoras, +Sangue na ginja vivida, escarlate, +Bons corações pulsando no tomate +E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. + +O sol dourava o céo. E a regateira, +Como vendera a sua fresca alface +E déra o ramo de hortelã que cheira, +Voltando-se, gritou-me prazenteira: +«Não passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...» + +Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo; +E, pelas duas azas a quebrar, +Nós levantámos todo aquelle peso +Que ao chão de pedra resistia preso, +Com um enorme esforço muscular. + +«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!» +E recebi, náquella despedida, +As forças, a alegria, a plenitude, +Que brotam d'um excesso de virtude +Ou d'uma digestão desconhecida. + +E em quanto sigo para o lado opposto, +E ao longe rodam umas carruagens, +A pobre afasta-se, ao calor de agosto, +Descolorida nas maçãs do rosto, +E sem quadris na saia de ramagens. + +Um pequerrucho rega a trepadeira +D'uma janella azul; e, com o ralo +Do regador, parece que joeira +Ou que borrifa estrellas; e a poeira +Que eleva nuvens alvas e incensal-o. + +Chegam do gigo emanações sadias, +Oiço um canario--que infantil chilrada!-- +Lidam ménages entre as gelosias, +E o sol estende, pelas frontarias, +Seus raios de laranja distillada. + +E pittoresca e audaz, na sua chita, +O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, +D'uma desgraça alegre que me incita, +Ella apregôa, magra, enfezadita, +As suas couves repolhudas, largas. + +E como as grossas pernas d'um gigante, +Sem tronco, mas athleticas, inteiras, +Carregam sobre a pobre caminhante, +Sobre a verdura rustica, abundante, +Duas frugaes aboboras carneiras. + + + +CRYSTALISAÇÕES + +A Bettencourt Rodrigues + +Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros, + Vibra uma immensa claridade crua. + De cocaras, em linha os calceteiros, + Com lentidão, terrosos e grosseiros, + Calcam de lado a lado a longa rua. + +Como as elevações seccaram do relento, + E o descoberto sol abafa e cria! + A frialdade exige o movimento; + E as poças d'agua, como em chão vidrento, + Reflectem a molhada casaria. + +Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, + Disseminadas, gritam as peixeiras; + Luzem, aquecem na manhã bonita, + Uns barracões de gente pobresita. + E uns quintalorios velhos com parreiras. + +Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora! + Tomam por outra parte os viandantes; + E o ferro e a pedra--que união sonora!-- + Retinem alto pelo espaço fóra, + Com choques rijos, asperos, cantantes. + +Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços, + Cuja columna nunca se endireita, + Partem penedos; cruzam-se estilhaços. + Pesam enormemente os grossos maços, + Com que outros batem a calçada feita. + +A sua barba agreste! A lã dos seus barretes! + Que espessos forros! N'uma das regueiras + Acamam-se as japonas, os colletes: + E elles descalçam com os picaretes, + Que ferem lume sobre pederneiras. + +E n'esse rude mez, que não consente as flores, + Fundêam, como a esquadra em fria paz, + As arvores despidas. Sobrias côres! + Mastros, enxarcias, vergas! Valladores + Atiram terra com as largas pás. + +Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!-- + Carros de mão, que chiam carregados, + Conduzem saibro, vagarosamente; + Vê se a cidade, mercantil, contente: + Madeiras, aguas, multidões, telhados! + +Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria; + Em arco, sem as nuvens fluctuantes, + O ceu renova a tinta corredia; + E os charcos brilham tanto, que eu diria + Ter ante mim lagôas de brilhantes! + +E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos, + Eu tudo encontro alegremente exacto. + Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. + E tangem-me, excitados, sacudidos, + O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! + +Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem + De tão lavada e egual temperatura! + Os ares, o caminho, a luz reagem; + Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem; + Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura. + +Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo; + Dois assobiam, altas as marretas + Possantes, grossas, temperadas d'aço; + E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço + E manso, tira o nivel das valletas. + +Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! + Que vida tão custosa! Que diabo! + E os cavadores pousam as enxadas, + E cospem nas callosas mãos gretadas, + Para que não lhes escorregue o cabo. + +Povo! No panno cru rasgado das camizas + Uma bandeira penso que transluz! + Com ella soffres, bebes, agonisas: + Listrões de vinho lançam-lhe divisas, + E os suspensorios traçam-lhe uma cruz! + +D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, + Surge um perfil direito que se aguça; + E ar matinal de quem sahiu da toca, + Uma figura fina, desemboca, + Toda abafada n'um casaco á russa. + +D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento + E a quem, á noite na plateia, attraio + Os olhos lizos como polimento! + Com seu rostinho estreito, friorento, + Caminha agora para o seu ensaio. + +E aos outros eu admiro os dorsos, os costados + Como lajões. Os bons trabalhadores! + Os filhos das lezirias, dos montados; + Os das planicies, altos, aprumados; + Os das montanhas, baixos, trepadores! + +Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto, + Furtiva a tiritar em suas pelles, + Espanta-me a actrizita que hoje pinto, + N'este dezembro energico, succinto, + E n'estes sitios suburbanos, reles! + +Como animaes communs, que uma picada esquente, + Elles, bovinos, masculos, ossudos, + Encaram-n'a sanguinea, brutamente: + E ella vacilla, hesita impaciente + Sobre as botinhas de tacões agudos. + +Porém, desempenhando o seu papel na peça, + Sem que inda o publico a passagem abra, + O demonico arrisca-se, atravessa + Covas, entulhos, lamaçaes, depressa, + Com seus pésinhos rapidos, de cabra! + + + +NOITES GELIDAS + +MERINA + +Rosto comprido, airosa, angelical, macia, +Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada, +Mais alva que o luar de inverno que me esfria, +Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada; +Sob os abafos bons que o Norte escolheria, +Com seu passinho curto e em suas lãs forrada, +Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia +De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada. + + +SARDENTA + +Tu, n'esse corpo completo, +Ó lactea virgem doirada, +Tens o lymphatico aspecto +D'uma camelia melada. + + +FLORES VELHAS + +Fui hontem visitar o jardimzinho agreste, +Aonde tanta vez a luz nos beijou, +E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, +Soberba como um sol, serena como um vôo. + +Em tudo scintillava o limpido poema +Com osculos rimado ás luzes dos planetas; +A abelha inda zumbia em torno da alfazema; +E ondulava o matiz das leves borboletas. + +Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, +A imagem que inspirava os castos madrugaes; +E as virações, o rio, os astros, a pasizagem, +Traziam-me á memoria idyllios immortaes. + +Diziam-me que tu, no florido passado, +Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas, +Aquelle teu olhar moroso e delicado, +Que fala de languor e d'emoções mimosas; + +E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura, +Que não me desgostou nem uma vez sequer, +Eu não sabia haurir do calix da ventura +O nectar que nos vem dos mimos da mulher. + +Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores, +Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; +As falas quasi irmãs do vento com as flores +E a molle exhalação das varzeas rescendentes. + +Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas +No ninho de affeições creado para ti, +Por entre o riso claro, e as vozes das creanças, +E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri. + +Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas, +Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas, +E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas +Bebemos o elixir das tardes perfumadas. + +E nosso bom romance escripto n'um desterro, +Com beijos sem ruido em noites sem luar, +Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro, +Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar. + +Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas +Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, +E eu não beijarei, ás horas somnolentas, +Os dedos de marfim, polidos e delgados... + +Eu, por não ter sabido amar os movimentos +Da estrophe mais ideal das harmonias mudas, +Eu sinto as decepções e os grandes desalentos +E tenho um riso mau como o sorrir de Judas. + +E tudo emfim passou, passou como uma penna, +Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes, +E aquella doce vida, aquella vida amena, +Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais! + +Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante! +Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado, +A areia em que rangia a saia roçagante, +Que foi na minha vida o ceo aurirosado, + +Eu tinha tão impresso o cunho da saudade, +Que as ondas que formei das suas illusões +Fizeram-me enganar na minha soledade +E as azas ir abrindo ás minhas impressões. + +Soltei com devoção lembranças inda escravas, +No espaço construi phantasticos castellos, +No tanque debrucei-me em que te debruçavas, +E onde o luar parava os raios amarellos. + +Cuidei até sentir, mais doce que uma prece, +Suster a minha fé, n'um veo consolador, +O teu divino olhar que as pedras amollece, +E ha muito que me prendeu nos carceres do amor. + +Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves, +Julguei-os esconder por entre as minhas mãos, +E imaginei ouvir ao conversar das aves +As celicas canções dos anjos aos teus irmãos. + + + +NOITE FECHADA + +(L.) + +Lembras-te tu do sabbado passado, +Do passeio que démos, devagar, +Entre um saudoso gaz amarellado +E as caricias leitosas do luar? + +Bem me lembro das altas ruasinhas, +Que ambos nós percorremos de mãos dadas: +Ás janellas palravam as visinhas; +Tinham lividas luzes as fachadas. + +Não me esqueço das cousas que disseste, +Ante um pesado templo com recortes; +E os cemiterios ricos, e o cypreste +Que vive de gorduras e de mortes! + +Nós saíramos proximo ao sol-posto, +Mas seguiamos cheios de demoras; +Não me esqueceu ainda o meu desgosto +Nem o sino rachado que deu horas. + +Tenho ainda gravado no sentido, +Porque tu caminhavas com prazer, +Cara rapada, gordo e presumido, +O padre que parou para te ver. + +Como uma mitra a cúpula da egreja +Cobria parte do ventoso largo; +E essa bocca viçosa de cereja, +Torcia risos com sabor amargo. + +A lua dava tremulas brancuras, +Eu ia cada vez mais magoado; +Vi um jardim com arvores escuras, +Como uma jaula todo gradeado! + +E para te seguir entrei comtigo +N'um pateo velho que era d'um canteiro, +E onde, talvez, se faça inda o jazigo +Em que eu irei apodrecer primeiro! + +Eu sinto ainda a flôr da tua pelle, +Tua luva, teu veu, o que tu és! +Não sei que tentação é que te impelle +Os pequeninos e cançados pés. + +Sei que em tudo attentavas, tudo vias! +Eu por mim tinha pena dos marçanos, +Como ratos, nas gordas mercearias, +Encafunados por immensos annos! + +Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros, +Que apparecem ao fundo d'umas minas, +E á crua luz os pallidos barbeiros +Com oleos e maneiras femininas! + +Fins de semana! Que miseria em bando! +O povo folga, estupido e grisalho! +E os artistas d'officio iam passando, +Com as ferias, ralados do trabalho. + +O quadro anterior, d'um que á candêa, +Ensina a filha a ler, metteu-me dó! +Gosto mais do plebeu que cambalêa, +Do bebado feliz que falla só! + +De subito, na volta de uma esquina, +Sob um bico de gaz que abria em leque, +Vimos um militar, de barretina +E galões marciaes de pechisbeque, + +E em quanto elle fallava ao seu namoro, +Que morava n'um predio de azulêjo, +Nos nossos labios retinio sonoro +Um vigoroso e formidavel beijo! + +E assim ao meu capricho abandonada, +Errámos por travessas, por viellas, +E passámos por pé d'uma tapada +E um palacio real com sentinellas. + +E eu que busco a moderna e fina arte, +Sobre a umbrosa calçada sepulchral, +Tive a rude intenção de violentar-te +Imbecilmente como um animal! + +Mas ao rumor dos ramos e d'aragem, +Como longiquos bosques muito ermos, +Tu querias no meio da folhagem +Um ninho enorme para nós vivermos. + +E ao passo que eu te ouvia abstractamente, +Ó grande pomba tépida que arrulha, +Vinham batendo o macadam fremente, +As patadas sonoras da patrulha, + +E atravez a immortal cidadesinha, +Nós fomos ter ás portas, ás barreiras, +Em que uma negra multidão se apinha +De tecelões, de fumos, de caldeiras. + +Mas a noite dormente e esbranquiçada +Era uma esteira lucida d'amor; +Ó jovial senhora perfumada, +Ó terrivel creança! Que esplendor! + +E ali começaria o meu desterro!... +Lodoso o rio, e glacial, corria; +Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro +Na muralha dos caes de cantaria. + +Nunca mais amarei, já que não me amas, +E é preciso, decerto, que me deixes! +Toda a maré luzida como escamas, +Como alguidar de prateados peixes. + +E como é necessario que eu me afoite +A perder-me de ti por quem existo, +Eu fui passar ao campo aquella noite +E andei leguas a pé, pensando n'isto. + +E tu que não serás sómente minha, +Ás caricias leitosas do luar, +Recolheste-te, pallida e sósinha +Á gaiola do teu terceiro andar! + + + +MANHANS BRUMOSAS + +Aquella, cujo amor me causa alguma pena, +Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, +E com a forte voz cantada com que ordena, +Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, +Por entre o campo e o mar, bucolica, morena, +Uma pastora audaz da religiosa Irlanda. + +Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas, +--Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!-- +Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; +E o meu desejo nada em epoca de banhos, +E, ave de arribação, elle enche de surprezas +Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos. + +As irlandezas teem soberbos desmazelos! +Ella descobre assim, com lentidões ufanas, +Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos; +E como aquellas são maritimas, serranas, +Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos +E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas. + +Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas, +Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, +Botões a tiracollo e applicações vermelhas; +E á roda, n'um paiz de prados e barrancos, +Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas, +Correm os seus desdens, como vitellos brancos. + +E aquella, cujo amor me causa alguma pena, +Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, +E com a forte voz cantada com que ordena, +Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, +Por entre o campo e o mar, catholica, morena, +Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda. + + + +FRIGIDA + +I + +Balzac é meu rival, minha senhora ingleza! +Eu quero-a porque odeio as carnações redondas! +Mas elle eternisou-lhe a singular belleza +E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas. + +II + +Admiro-a. A sua longa e placida estatura +Expõe a magestade austera dos invernos. +Não cora no seu todo a timida candura; +Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos. + +III + +Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante, +N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!... +Ninguem me prende assim, funebre, extravagante, +Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia! + +IV + +Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, +Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca; +Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite, +É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca! + +V + +Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso, +Ó gelida mulher bizarramente estranha, +E tremulo depor os labios no seu pulso, +Entre a macia luva e o punho de bretanha!... + +VI + +Scintilla no seu rosto a lucidez das joias. +Ao encarar comsigo a phantasia pasma; +Pausadamente lembra o silvo das giboias +E a marcha demorada e muda d'um phantasma. + +VII + +Metallica visão que Charles Baudelaire +Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos, +Permitta que eu lhe adule a distincção que fere, +As curvas de magreza e o lustre dos adornos! + +VIII + +Deslise como um astro, uma astro que declina; +Tão descançada e firme é que me desvaria, +E tem a lentidão d'uma corveta fina +Que nobremente vá n'um mar de calmaria. + +IX + +Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge, +No bosque das ficções, ó grande flor do Norte! +E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe +O socegado espectro angelico da Morte! + +X + +O seu vagar occulta uma elasticidade +Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, +E a sua glacial impassibilidade +Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso. + +XI + +Porem, não arderei aos seus contactos frios, +E não me enroscará nos serpentinos braços: +Receio supportar febrões e calefrios; +Adoro no seu corpo os movimentos lassos. + +XII + +E se uma vez me abrisse o collo transparente, +E me osculasse, emfim, flexivel e submisso, +Eu julgaria ouvir alguem, agudamente, +Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça! + + + +DE VERÃO + +A Eduardo Coelho + +I + +No campo; eu acho n'elle a musa que me anima: + A claridade, a robustez, a acção. + Esta manhã, saí com minha prima, + Em que eu noto a mais sincera estima + E a mais completa e séria educação. + +II + +Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro + Da lyrica excursão, d'intimidade + Não pinto a velha ermida com seu adro; + Sei só desenho de compasso e esquadro, + Respiro industria, paz, salubridade. + +III + +Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras; + E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas? + Apaga o teu cachimbo junto ás eiras; + Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras! + Quando me alegra a calma das debulhas!» + +IV + +E perguntavas sobre os ultimos inventos + Agrícolas. Que aldeias tão lavadas! + Bons ares! Boa luz! Bons alimentos! + Olha: Os saloios vivos, corpulentos, + Como nos fazem grandes barretadas! + +V + +Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens + Dos olivaes escuros. Onde irás? + Regressam os rebanhos das pastagens; + Ondeiam milhos, nuvens e miragens, + E, silencioso, eu fico para traz. + +VI + +N'uma collina azul brilha um logar caiado. + Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha, + Com teu chapéo de palha, desabado, + Tu continúas na azinhaga; ao lado + Verdeja, vicejante, a nossa vinha. + +VII + +N'isto, parando, como alguem que se analysa, + Sem desprender do chão teus olhos castos, + Tu começaste, harmonica, indecisa, + A arregaçar a chita, alegre e lisa + Da tua cauda um poucochinho a rastos. + +VIII + +Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros; + O sol abrasa as terras já ceifadas, + E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, + Sobre os teus pés decentes, verdadeiros, + As saias curtas, frescas, engommadas. + +IX + +E, como quem saltasse, extravagantemente, + Um rego d'agua sem se enxovalhar, + Tu, a austera, a gentil, a intelligente, + Depois de bem composta, déste á frente + Uma pernada comica, vulgar! + +X + +Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo! + No atalho enxuto, e branco das espigas + Caidas das carradas no salmejo, + Esguio e a negrejar em um cortejo, + Destaca-se um carreiro de formigas. + +XI + +Ellas, em sociedade, espertas, diligentes, + Na natureza trémula de sede, + Arrastam bichos, uvas e sementes; + E atulha, por instincto, previdentes, + Seus antros quasi occultos na parede. + +XII + +E eu desatei a rir como qualquer macaco! + «Tu não as esmagares contra o solo!» + E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco, + Eu de jasmim na casa do casaco + E d'oculo deitado a tiracolo! + +XIII + +«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora + Um sublimado corrosivo, uns pós + De solimão, eu, sem maior demora, + Envenenal-as-hia! Tu, por ora, + Preferes o romantico ao feroz. + +XIV + +Que compaixão! Julgava até que matarias + Esses insectos importunos! Basta. + Merecem-te espantosas sympathias? + Eu felicito suas senhorias, + Que honraste com um pulo de gymnasta!» + +XV + +E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros + Luziam, com doçura, honestamente; + De longe o trigo em monte, e os calcadoiros, + Lembravam-me fusões d'immensos oiros, + E o mar um prado verde e florescente. + +XVI + +Vibravam, na campina, as chocas da manada; + Vinham uns carros a gemer no outeiro, + E finalmente, energica, zangada, + Tu inda assim bastante envergonhada, + Volveste-me, apontando o formigueiro: + +XVII + +«Não me incommode, não, com ditos detestaveis! + Não seja simplesmente um zombador! + Estas mineiras negras, incançaveis, + São mais economistas, mais notaveis, + E mais trabalhoras que o senhor.» + + + +O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL + +A Guerra Junqueiro + + +I + +AVE MARIAS + + Nas nossas ruas, ao anoitecer, +Ha tal soturnidade, ha tal melancholia, +Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia +Despertam-me um desejo absurdo de soffrer. + + O ceu parece baixo e de neblina, +O gaz extravasado enjôa-me, perturba; +E os edificios, com as chaminés, e a turba +Toldam-se d'uma côr monotona e londrina. + + Batem os carros de aluguer, ao fundo, +Levando á via ferrea os que se vão. Felizes! +Occorrem-me em revista exposições, paizes: +Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! + + Semelham-se a gaiolas, com viveiros, +As edificações sómente emmadeiradas: +Como morcegos, ao cair das badaladas, +Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. + + Voltam os calafates, aos magotes, +De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos; +Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos, +Ou érro pelos caes a que se atracam botes. + + E evoco, então, as chronicas navaes: +Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado! +Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado! +Singram soberbas naus que eu não verei jámais! + + E o fim da tarde inspira-me; e incommoda! +De um couraçado inglez vogam os escaleres; +E em terra n'um tinir de louças e talheres +Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda. + + N'um trem de praça arengam dois dentistas; +Um tropego arlequim braceja n'umas andas; +Os cherubins do lar fluctuam nas varandas; +Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas! + + Vasam-se os arsenaes e as officinas; +Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; +E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras, +Correndo com firmeza, assomam as varinas. + + Vem sacudindo as ancas opulentas! +Seus troncos varonis recordam-me pilastras; +E algumas, á cabeça, embalam nas canastras +Os filhos que depois naufragam nas tormentas, + + Descalças! Nas descargas de carvão, +Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas; +E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas, +E o peixe pôdre géra os focos de infecção! + + +II + +NOITE FECHADA + + Toca-se as grades, nas cadeias. Som +Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! +O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças, +Bem raramente encerra uma mulher de «dom»! + + E eu desconfio, até, de um aneurisma +Tão morbido me sinto, ao accender das luzes; +Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes, +Chora-me o coração que se enche e que se abysma. + + A espaços, illuminam-se os andares, +E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos +Alastram em lençol os seus reflexos brancos; +E a lua lembra o circo e os jogos malabares. + + Duas egrejas, n'um saudoso largo, +Lançam a nodoa negra e funebre do clero: +N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, +Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo. + + Na parte que abateu no terremoto, +Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas; +Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, +E os sinos d'um tanger monastico e devoto. + + Mas, n'um recinto publico e vulgar, +Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras, +Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras, +Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar! + + E eu sonho o Colera, imagina a Febre, +N'esta accumulação de corpos enfezados; +Sombrios e espectraes recolhem os soldados; +Inflamma-se um palacio em face de um casebre. + + Partem patrulhas de cavallaria +Dos arcos dos quarteis que foram já conventos; +Edade-média! A pé, outras, a passos lentos, +Derramam-se por toda a capital, que esfria. + + Triste cidade! Eu temo que me avives +Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes, +Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, +Curvadas a sorrir ás montras dos ourives. + + E mais: as costureiras, as floristas +Descem dos magasins, causam-me sobresaltos; +Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos +E muitas d'ellas são comparsas ou coristas. + + E eu, de luneta de uma lente só, +Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados: +Entro na brasserie; ás mesas de emigrados, +Ao riso e á crua luz joga-se o dominó. + + +III + +AO GAZ + + E saio. A noite peza, esmaga. Nos +Passeios de lagedo arrastam-se as impuras. +Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras +Um sopro que arripia os hombros quasi nús. + + Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso +Ver cirios lateraes, ver filas de capellas, +Com santos e fieis, andores, ramos, velas, +Em uma cathedral de um comprimento immenso. + + As burguezinhas do Catholocismo +Resvalam pelo chão minado pelos canos; +E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, +As freiras que os jejuns matavam de hysterismo. + + N'um cutileiro, de avental, ao torno, +Um forjador maneja um malho, rubramente; +E de uma padaria exhala-se, inda quente, +Um cheiro salutar e honesto a pão no forno. + + E eu que medito um livro que exarcebe, +Quizera que o real e a analyse m'o dessem; +Casas de confecções e modas resplandecem; +Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe. + + Longas descidas! Não poder pintar +Com versos magistraes, salubres e sinceros, +A esguia diffusão dos vossos reverberos, +E a vossa pallidez romantica e lunar! + + Que grande cobra, a lubrica pessoa, +Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! +Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, +Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa. + + E aquella velha, de bandós! Por vezes, +A sua traîne imita um leque antigo, aberto, +Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, +Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes. + + Desdobram-se tecidos estrangeiros; +Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; +Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, +E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros, + + Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes +Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; +Da solidão regouga um cauteleiro rouco; +Tornam-se mausoléos as armações fulgentes. + + «Dó da miseria!... Compaixão de mim!...» +E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, +Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, +Meu velho professor nas aulas de latim! + + +IV + +HORAS MORTAS + + O tecto fundo de oxygenio, d'ar, +Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; +Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, +Enleva-me a chimera azul de transmigrar. + + Por baixo, que portões! Que arruamentos! +Um parafuso cáe nas lages, ás escuras: +Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, +E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos. + + E eu sigo, como as linhas de uma pauta +A dupla correnteza augusta das fachadas; +Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, +As notas pastoris de uma longiqua flauta. + + Se eu não morresse, nunca! E eternamente +Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! +Esqueço-me a prever castissimas esposas, +Que aninhem em mansões de vidro transparente! + + Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis, +Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas! +Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, +N'umas habitações translucidas e frageis. + + Ah! Como a raça ruiva do porvir, +E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes, +Nós vamos explorar todos os continentes +E pelas vastidões aquaticas seguir! + + Mas se vivemos, os emparedados, +Sem arvores, no valle escuro das muralhas!... +Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas +E os gritos de soccorro ouvir estrangulados. + + E n'estes nebulosos corredores +Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas; +Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, +Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores. + + Eu não receio, todavia, os roubos; +Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes; +E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes, +Amarelladamente, os cães parecem lobos. + + E os guardas, que revistam as escadas, +Caminham de lanterna e servem de chaveiros; +Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros, +Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas. + + E, enorme, n'esta massa irregular +De predios sepulchraes, com dimensões de montes, +A Dôr humana busca os amplos horisontes, +E tem marés, de fel, como um sinistro mar! + + + +DE TARDE + +N'aquelle «pic-nic» de burguezas, +Houve uma cousa simplesmente bella, +E que, sem ter historia nem grandezas, +Em todo o caso dava uma aguarella. + +Foi quando tu, descendo do burrico, +Foste colher, sem imposturas tolas, +A um granzoal azul de grão de bico +Um ramalhete rubro de papoulas. + +Pouco depois, em cima d'uns penhascos, +Nós acampámos, inda o sol se via; +E houve talhadas de melão, damascos, +E pão de ló molhado em malvasia. + +Mas, todo purpuro a sahir da renda +Dos teus dois seios como duas rolas, +Era o supremo encanto da merenda +O ramalhete rubro das papoulas! + + + +EM PETIZ + + +I + +DE TARDE + +Mais morta do que viva, a minha companheira +Nem força teve em si para soltar um grito; +E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito, +Como um homemzarrão servi-lhe de barreira! + +Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas, +Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas; +E, têtas a abanar, as mães de largas ancas, +Desciam mais atraz, malhadas e turinas. + +Do seio do logar--casitas com postigos-- +Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro. +Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, +Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos! + +Nós davamos, os dois, um giro pelo valle: +Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos! +E os fartos animaes, ao recolher dos pastos, +Roçavam pelo teu «costume de percale». + +Já não receias tu essa vaquita preta, +Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro +Que estavas a tremer, cosida com o muro, +Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta! + + +II + +OS IRMÃOSINHOS + +Pois eu, que no deserto dos caminhos, +Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; +Eu, que apartava as mansas das velhacas, +Fugia com terror dos pobresinhos! + +Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço! +Os velhos, que nos rezam padre-nossos; +Os mandriões que rosnam, altos, grossos; +E os cegos que se apoiam sobre o moço. + +Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros, +Ou que a poeira no suor mascarra, +Chegam das feiras a tocar guitarra, +Rolam os olhos como dois escarros! + +E os pobres mettem medo! Os de marmita, +Para forrar, por anno, alguns patacos, +Entrapam-se nas mantas com buracos, +Choramingando, a voz rachada, afflicta. + +Outros pedincham pelas cinco chagas; +E no poial, tirando as ligaduras, +Mostram as pernas putridas, maduras, +Com que se arrastam pelas azinhagas! + +Querem viver! E picam-se nos cardos; +Correm as villas; sobem os outeiros; +E ás horas de calor, nos esterqueiros, +De roda d'elles zumbem os moscardos. + +Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, +Batiam ao portão com seus cajados; +E um aleijado com os pés quadrados, +Pedia-nos de cima de um jumento. + +O resmungão! Que barbas! Que saccolas! +Cheirava a migas, a bafio, a arrotos; +Dormia as noutes por telheiros rotos, +E sustentava o burro a pão d'esmolas. + + * * * * * + +Ó minha loura e doce como um bolo! +Affavel hospeda na nossa casa, +Logo que a torrida cidade abraza, +Como um enorme fôrno de tijolo! + +Tu visitavas, esmoler, garrida, +Umas creanças n'um casal queimado; +E eu, pela estrada, espicaçava o gado, +N'uma attitude esperta e decidida. + +Por lobishomens, por papões, por bruxas, +Nunca soffremos o menor receio. +Temieis vós, porém, o meu aceio, +Mendigasitas sordidas, gorduchas! + +Vicios, sezões, epidemias, furtos, +De certo, fermentavam entre lixos; +Que podridão cobria aquelles bichos! +E que luar nos teus fatinhos curtos! + + * * * * * + +Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, +Ruça, descalça, a trote nos atalhos, +E que lavava o corpo e os seus retalhos +No rio, ao pé dos choupos e dos freixos. + +E a douda a quem chamavam a «Ratada» +E que fallava só! Que antipathia! +E se com ella a malta contendia, +Quanta indecencia! Quanta palavrada! + +Uns operarios, n'estes descampados, +Tambem surdiam, de chapeu de côco, +Dizendo-se, de olhar rebelde e louco, +Artistas despedidos, desgraçados. + +Muitos! E um bebedo--o Camões--que fôra +Rico, e morreu a mendigar, zarolho, +Com uma pala verde sobre um olho! +Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura. + +E o resto? Bandos de selvagensinhos: +Um nú que se gabava de maroto; +Um, que cortada a mão, coçava o coto, +E os bons que nos tratavam por padrinhos. + +Pediam fatos, botas, cobertores! +Outro jogava bem o pau, e vinha +Chorar, humilde, junto da coxinha! +«Cinco réisinhos!... Nobres bemfeitores!... + +E quando alguns ficavam nos palheiros, +E de manhã catavam os piolhos: +Emquanto o sol batia nos restolhos +E os nossos cães ladravam, resingueiros! + +Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos, +Dos surdos, dos manhosos, dos manetas. +Sulcavam as calçadas, de muletas; +Cantavam, no pomar, os pintarroxos! + + +III + +HISTORIAS + +Scismatico, doente, azedo, apoquentado, +Eu agourava o crime, as facas, a enxovia, +Assim que um besuntão dos taes se apercebia +Da minha blusa azul e branca, de riscado. + +Minaveis, ao serão, a cabecita loira, +Com contos de provincia, ingenuas creaditas: +Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas, +E pondo a gente fina, em postas, de salmoira! + +Na noite velha, a mim, como tições ardendo, +Fitavam-me os olhões pesados das ciganas; +Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas; +Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo. + +E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos, +Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto; +Sonhava que os ladrões--homens de quem m'espanto +Roubavam para azeite a carne dos meninos! + +E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando, +Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas, +Gritos de maioraes, mugidos de boiadas, +Branca de susto, meiga e miope, estacando! + + + +NÓS + +A A. de S. V. + + +I + +Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre +E o Cholera tambem andaram na cidade, +Que esta população, com um terror de lebre, +Fugiu da capital como da tempestade. + +Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas, +(Até então nós só tiveramos sarampo), +Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas +Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo. + +Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga: +O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos; +Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos +Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga. + +Na parte mercantil, foco da epidemia, +Um panico! Nem um navio entrava a barra, +A alfandega parou, nenhuma loja abria, +E os turbolentos caes cessaram a algazarra. + +Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados, +Rodavam sem cessar as seges dos enterros. +Que triste a sucessão dos armazens fechados! +Como um domingo inglez na «city», que desterro! + +Sem canalisação, em muitos burgos ermos, +Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros. +E os medicos, ao pé dos padres e coveiros, +Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos! + +Uma illuminação a azeite de purgueira, +De noite amarellava os predios macillentos. +Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira +Que tinham tons d'inferno outros arruamentos. + +Porém, lá fora, á solta, exageradamente +Emquanto acontecia essa calamidade, +Toda a vegetação, plethorica, potente, +Ganhava immenso com a enorme mortandade! + +N'um impeto de seiva os arvoredos fartos, +N'uma opulenta furia as novidades todas, +Como uma universal celebração de bodas, +Amaram-se! E depois houve soberbos partos. + +Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa, +Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas, +E em permanencia olhando o horizonte em brasa, +Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas. + +Elle d'um lado, via os filhos achacados, +Um livido flagello e uma molestia horrenda! +E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados, +E um salutar refugio e um lucro na vivenda! + +E o campo, desde então, segundo o que me lembro, +É todo o meu amor de todos estes annos! +Nós vamos para lá; somos provincianos, +Desde o calor de maio aos frios de novembro! + +II + +Que de fructa! E que fresca e temporã, +Nas duas boas quintas bem muradas, +Em que o sol, nos talhões e nas latadas, +Bate de chapa, logo de manhã! + +O laranjal de folhas negrejantes, +(Porque os terrenos são resvaladiços) +Desce em socalcos todos os macissos, +Como uma escadaria de gigantes. + +Das courellas, que criam cereaes, +De que os donos--ainda!--pagam foros. +Dividem-n'o fechados pitosporos, +Abrigos de raizes verticaes. + +Ao meio, a casaria branca assenta +Á beira da calçada, que divide +Os escuros pomares de pevide, +Da vinha, n'uma encosta soalhenta! + +Entretanto, nao ha maior prazer +Do que, na placidez das duas horas, +Ouvir e ver, entre o chiar das noras, +No largo tanque as bicas a correr! + +Muito ao fundo, entre olmeiros seculares, +Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem, +O seu leito é um atalho de passagem, +Pedregosissimo, entre dois logares. + +Como lhe luzem seixos e burgaus +Roliçõs! Marinham nas ladeiras +Os renques africanos das piteiras, +Que como áloes espigam altos paus! + +Montanhas inda mais longiquamente, +Com restevas, e combros como boças, +Lembram cabeças estupendas, grossas, +De cabello grisalho, muito rente. + +E, a contrastar, nos valles, em geral, +Como em vidraça d'uma enorme estufa, +Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa, +D'uma vitalidade equatorial! + +Que de frugalidades nós criamos! +Que torrão espontaneo que nós somos! +Pela outomnal maturação dos pomos, +Com a carga, no chão pousam os ramos. + +E assim postas, nos barros e areiaes, +As maceiras vergadas fortemente, +Parecem, d'uma fauna surprehendente, +Os polypos enormes, diluviaes. + +Comtudo, nós não temos na fazenda +Nem uma planta só de mero ornato! +Cada pé mostra-se util, é sensato, +Por mais finos aromas que rescenda! + +Finalmente, na fertil depressão, +Nada se vê que a nossa mão não regre: +A florescencias d'um matiz alegre +Mostra um sinal--a fructificação! + + * * * * * + +Ora, ha dez annos, n'este chão de lava +E argila e areia e alluviões dispersas, +Entre especies botanicas diversas, +Forte, a nossa familia radiava! + +Unicamente, a minha doce irmã, +Como uma tenue e immaculada rosa, +Dava a nota galante e melindrosa +Na trabalheira rustica, aldeã. + +E foi n'um anno prodigo, excellente, +Cuja amargura nada sei que adoce, +Que nós perdemos essa flor precoce, +Que cresceu e morreu rapidamente! + +Ai d'aquelles que nascem n'este cahos, +E, sendo fracos, sejam generosos! +As doenças assaltam os bondosos +E--custa a crer--deixam viver os maus! + + * * * * * + +Fecho os olhos cançados, e descrevo +Das telas da memoria retocadas, +Biscates, hortas, batataes, latadas, +No paiz montanhoso, com relevo! + +Ah! Que aspectos benignos e ruraes +N'esta localidade tudo tinha, +Ao ires, com o banco de palhinha, +Para a sombra que faz nos parreiraes! + +Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente +Que uma folha se mova ou se desmanche, +Tu, refeita e feliz com o teu «lunch», +Nos ajudavas, voluntariamente!... + +Era admiravel--n'este grau do Sul!-- +Entre a rama avistar o teu rosto alvo, +Ver-te escolhendo a uva diagalvo, +Que eu embarcava para Liverpool. + +A exportação de frutas era um jogo: +Dependiam da sorte do mercado +O boal, que é de perolas formado, +E o ferral, que é ardente e côr de fogo! + +Em agosto, ao calor canicular, +Os passaros e enxames tudo infestam; +Tu cortavas os bagos que não prestam +Com a tua thesoura de bordar. + +Douradas, pequeninas, as abelhas, +E negros, volumosos, os besoiros, +Circumdavam, com impetos de toiros, +As tuas candidissimas orelhas. + +Se uma vespa lançava o seu ferrão +Na tua cutis--petala de leite!-- +Nós collocavamos dez réis e azeite +Sobre a galante, a rosea inflammação! + +E se um de nós, já farto, arrenegado, +Com o chapeo caçava a bicharia, +Cada zangão voando, á luz do dia, +Lembrava o teu dedal arremessado. + + * * * * * + +Que d'encantos! Na força do calor +Desabrochavas no padrão da bata, +E, surgindo da gola e da gravata, +Teu pescoço era o caule d'uma flor! + +Mas que cegueira a minha! Do teu porte +A fina curva, a indefinida linha, +Com bondades d'herbivora mansinha, +Eram prenuncios de fraqueza e morte! + +Á procura da libra e do «schilling», +Eu andava abstracto e sem que visse +Que o teu alvor romantico de «miss» +Te obrigava a morrer antes de mim! + +E antes tu, ser lindissimo, nas faces +Tivesses «panno» como as camponezas; +E sem brancuras, sem delicadezas, +Vigorosa e plebeia, inda durasses! + +Uns modos de carnivora feroz +Podias ter em vez de inoffensivos; +Tinhas caninos, tinhas incisivos, +E podias ser rude como nós! + +Pois n'este sítio, que era de sequeiro, +Todo o genero ardente resistia, +E, á larguissima luz do Meio-dia, +Tomava um tom opalico e trigueiro! + + * * * * * + +Sim! Europa do Norte, o que suppões +Dos vergeis que abastecem teus banquetes, +Quando ás dockas, com fructas, os paquetes +Chegam antes das tuas estações?! + +Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra +E as tuas frutas acidas, tardias, +No azedo amoniacal das queijarias +Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra! + +Ó cidades fabris, industriaes, +De nevoeiros, poeiradas de hulha, +Que pensaes do paiz que vos atulha +Com a fructa que sae dos seus quintaes? + +Todos os annos, que frescor se exhala! +Abundancias felizes que eu recordo! +Carradas brutas que iam para bórdo! +Vapores por aqui fazendo escala! + +Uma alta parreira muscatel +Por doce não servia para embarque: +Palacios que rodeiam Hyde-Park, +Não conheceis esse divino mel! + +Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado, +Não as têm nas florestas em que ha corças, +Nem em vós que dobraes as vossas forças, +Pradarias d'um verde illimitado! + +Anglos-Saxonios, tendes que invejar! +Ricos suicidas, comparae comvosco! +Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco, +Facilimo, evidente, salutar! + +Opponde ás regiões que dão os vinhos +Vossos montes d'escorias inda quentes! +E as febris officinas estridentes +Ás nossas tecelagens e moinhos! + +E ó condados mineiros! Extensões +Carboniferas! Fundas galerias! +Fabricas a vapor! Cutelarias! +E mechanicas, tristes fiações! + +Bem sei que preparaes correctamente +O aço e a seda, as laminas e o estofo; +Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo, +Tudo o que ha de mais rijo e resistente! + +Mas isso tudo é falso, é machinal, +Sem vida, como um circulo ou um quadrado, +Com essa perfeição do fabricado, +Sem o rythmo do vivo e do real! + +E cá o santo sol, sobre isso tudo, +Faz conceber as verdes ribanceiras; +Lança as rosaceas bellas e fructeiras +Nas searas de trigo palhagudo! + +Uma aldeia d'aqui é mais feliz, +Londres sombria, em que scintilla a corte!... +Mesmo que tu, que vives a compor-te, +Grande seio arquejante de Paris!... + +Ah! Que de gloria, que de colorido, +quando, por meu mandado e meu conselho, +Cá se empapelam «as maçãs d'espelho» +Que Herbert Spencer talvez tenha comido! + +Para alguns são prosaicos, são banaes +Estes versos de fibra succolenta; +Como se a polpa que nos dessedenta +Nem ao menos valesse uns madrigaes! + +Pois o que a bocca trava com surprezas +Senão as frutas tónicas e puras! +Ah! N'um jantar de carnes e gorduras +A graça vegetal das sobremesas!... + +Jack, marujo inglez, tu tens razão +Quando, ancorando em portos como os nossos, +As laranjas com cascas e caróços +Comes com bestial soffreguidão!... + + * * * * * + +A impressão d'outros tempos, sempre viva, +Dá estremeções no meu passado morto, +E inda viajo, muita vez, absorto, +Pelas varzeas da minha retentiva. + +Então recordo a paz familiar, +Todo um painel pacifico d'enganos! +E a distancia fatal d'uns poucos annos +É uma lente convexa, d'augmentar. + +Todos os typos mortos resuscito! +Perpetuam-se assim alguns minutos! +E eu exagéro os casos diminutos +Dentro d'um véo de lagrimas bemdito. + +Pinto quadros por lettras, por signaes, +Tão luminosos como os do Levante, +Nas horas em que a calma é mais queimante, +Na quadra em que o verão aperta mais. + +Como destacam, vivas, certas cores, +Na vida externa cheia d'alegrias! +Horas, vozes, locaes, physionomias, +As ferramentas, os trabalhadores! + +Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar +E a rama do pinheiro! Eu adivinho +O resinoso, o tão agreste pinho +Serrado nos pinhaes da beira mar. + +Vinha cortada, aos feixes, a madeira, +Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas; +Depois armavam-se, n'um prompto as caixas +Sob uma calma espessa e calaceira! + +Feias e fortes! Punham-lhes papel, +A forral-as. E em grossa serradura +Acamava-se a uva prematura +Que não deve servir para tonel! + +Cingiam-n'as com arcos de castanho +Nas ribeiras cortados, nos riachos; +E eram d'assucar e calor os cachos, +Criados pelo esterco e pelo amanho! + +Ó pobre estrume, como tu compões +Estes pampanos doces como afagos! +«Dedos de dama»: transparentes bagos! +«Tetas de cabra»: lacteas carnações! + +E não eram caixitas bem dispostas +Como as passas de Malaga e Alicante; +Com sua fórma estavel, ignorante, +Estas pesavam, brutalmente, ás costas! + +Nos vinhatorios via fulgurar, +Com tanta cal que torna as vistas cegas, +Os parallelogramos das adegas, +Que têm lá dentro as dornas e o lagar! + +Que rudeza! Ao ar livre dos estios. +Que grande azafama! Apressadamente +Como soava um martellar frequente, +Véspera da saida dos navios! + +Ah! Ninguem entender que ao meu olhar +Tudo tem certo espirito secreto! +Com folhas de saudades um objecto +Deita raizes duras de arrancar! + +As navalhas de volta, por exemplo, +Cujo bico de passaro se arqueia, +Forjadas no casebre d'uma aldeia, +São antigas amigas que eu contemplo! + +Ellas, em seu labor, em seu lidar, +Com sua ponta como a da podoas, +Serviam próbas, uteis, dignas, boas, +Nunca tintas de sangue e de matar. + +E as enxós de martello, que d'um lado +Cortavam mais do que as enxadas cavam, +Por outro lado, rápidas, pregavam, +D'uma pancada, o prego fasquiado! + +O meu animo verga na abstracção, +Com a espinha dorsal dobrada ao meio; +Mas se de materiaes descubro um veio +Ganho a musculatura d'um Sansão! + +E assim--e mais no povo a vida é corna-- +Amo os officios como o de ferreiro, +Com seu folle arquejante, seu brazeiro, +Seu malho retumbante na bigorna! + +E sinto, se me ponho a recordar +Tanto utensilio, tantas perspectivas, +As tradições antigas, primitivas, +E a formidavel alma popular! + +Oh! Que brava alegria eu tenho quando +Sou tal qual como os mais! E, sem talento, +Faço um trabalho technico, violento, +Cantando, praguejando, batalhando! + + * * * * * + +Os fruteiros, tostados pelos soes, +Tinham passado, muita vez, a raia, +E, espertos, entre os mais da sua laia, +--Pobres camponios--eram uns heroes. + +E por isso, com phrases imprevistas, +E colorido e estylo e valentia, +As «haciendas» que ha na «Andalucia» +Pintavam como novos paysagistas. + +De como, ás calmas, n'essas excursões, +Tinham aguas salobras por refrescos; +E amarellos, enormes, gigantescos, +Lá batiam o queixo com sesões! + +Tinham corrido já na adusta Hespanha, +Todo um fertil plató sem arvoredos, +Onde armavam barracas nos vinhedos, +Como tendas alegres de campanha. + +Que pragas castelhanas, que alegrão, +Quanto contavam scenas de pousadas! +Adoravam as cintas encarnadas +E as côres, como os pretos do sertáo! + +E tinham, sem que a lei a tal obrigue, +A educação vistosa das viagens! +Uns por terra partiam e estalagens, +Outros, aos montes, no convez d'um brigue! + +Só um havia, triste e sem fallar +Que arrastava a maior misantropia, +E, roxo como um figado, bebia +O vinho tinto que eu mandava dar! + +Pobre da minha geração exangue +De ricos! Antes, como os abrutados, +Andar com uns sapatos encebados, +E ter riqueza chimica no sangue! + + * * * * * + +Mas hoje a rustica lavoura, quer +Seja o patrão, quer seja o jornaleiro, +Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro +E a filharada lidam, e a mulher!... + +Desde o princípio ao fim é uma maçada +De mil demonios! Torna-se preciso +Ter-se muito vigor, muito juizo +Para trazer a vida equilibrada! + +Hoje eu sei quanto custam a criar +As cepas, desde que eu as pódo e empo. +Ah! O campo não é um passatempo +Com bucolismos, rouxinoes, luar. + +A nós tudo nos rouba e nos dizima: +O rapazio, o imposto, as pardaladas, +As osgas peçonhentas, achatadas, +E as abelhas que engordam na vindima. + +E o pulgão, a lagarta, os caracoes, +E ha inda, alem do mais com que se ateima, +As intemperies, o granizo, a queima, +E a concorrencia com os hespanhoes. + +Na vendas, os vinhateiros d'Almeria +Competem contra os nossos fazendeiros. +Dão frutas aos leilões dos estrangeiros, +Por uma cotação que nos desvia! + +Pois tantos contras, rudes como são, +Forte e teimoso, o camponez destroe-os! +Venham de lá pesados os comboyos +E os «buques» estivados no porão! + +Não, não é justo que eu a culpa lance +Sobre estes nadas! Puras bagatellas! +Nós não vivemos só de coisas bellas, +Nem tudo corre como n'um romance! + +Para a Terra parir hade ter dor, +E é para obter as asperas verdades, +Que os agronomos cursam nas cidades, +E, á sua custa, aprende o lavrador. + +Ah! Não eram insectos nem as aves +Que nos dariam dias tão difficeis, +Se vós, sabios, na gente descobrisseis +Como se curam as doenças graves. + +Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais! +Difficultoso trato das cearas! +Lutas constantes sobre as jornas caras! +Compras de bois nas feiras annuaes! + +O que a alegria em nós destroe e mata, +Não é rede arrastante d'escalracho, +Nem é «suão» queimante como um facho, +Nem invasões bulhosas d'herva pata. + +Podia ter seccado o poço em que eu +Me debruçava e te pregava sustos, +E mais as hervas, arvores e arbustos +Que--tanta vez!--a tua mão colheu. + +«Molestia negra» nem «charbon» não era, +Como um archote incendiando as parras! +Tão pouco as bastas e invisiveis garras, +Da enorme legião do phylloxera! + +Podiam mesmo, com o que contêm, +Os muros ter caido às invernias! +Somos fortes! As nossas energias +Tudo vencem e domam muito bem! + +Que os rios, sim, que como touros mugem, +Transbordando atulhassem as regueiras! +Chorassem de resina as larangeiras! +Ennegrecessem outras com ferrugem! + +As turvas cheias de novembro, em vez +Do nateiro subtil que fertilisa, +Fossem a inundação que tudo pisa, +No rebanho afogassem muita rez! + +Ah! N'esse caso pouco se perdera, +Pois isso tudo era um pequeno damno, +Á vista do cruel destino humano +Que os dedos te fazia como cera! + +Era essa tysica em terceiro grau, +Que nos enchia a todos de cuidado, +Te curvava e te dava um ar alado +Como quem vae voar d'um mundo mau. + +Era a desolação que inda nos mina +(Porque o fastio é bem peior que a fome) +Que a meu pai deu a curva que a consome, +E a minha mãe cabellos de platina. + +Era a chlorose, esse tremendo mal, +Que desertou e que tornou funesta +A nossa branca habitação em festa +Reverberando a luz meridional. + +Não desejemos,--nós os sem defeitos,-- +Que os tysicos pereçam! Má theoria, +Se pelos meus o apuro principia, +Se a Morte nos procura em nossos leitos! + +A mim mesmo, que tenho a pretensão +De ter saude, a mim que adoro a pompa +Das forças, pode ser que se me rompa +Uma arteria, e me mine uma lesão. + +Nós outros, teus irmãos, teus companheiros, +Vamos abrindo um matagal de dores! +E somos rijos como os serradores! +E positivos como os engenheiros! + +Porém, hostis, sobresaltados, sós, +Os homens architectam mil projectos +De victoria! E eu duvido que os meus netos +Morram de velhos como os meus avós! + +Porque, parece, ou fortes ou velhacos +Serão apenas os sobreviventes; +E ha pessoas sinceras e clementes, +E troncos grossos com seus ramos fracos! + +E que fazer se a geração decae! +Se a seiva genealogica se gasta! +Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! +Morre o filho primeiro do que o pai! + +Mas seja como for, tudo se sente +Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta, +Ó flor cortada, susceptivel, alta, +Que assim seccaste prematuramente! + +Eu que de vezes tenho o desprazer +De reflectir no tumulo! E medito +No eterno Incognoscivel infinito, +Que as idéas não podem abranger! + +Como em paul em que nem cresça a junca +Sei d'almas estagnadas! Nós absortos, +Temos ainda o culto pelos Mortos, +Esses ausentes que não voltam nunca! + +Nós ignoramos, sem religião, +Ao rasgarmos caminho, a fé perdida, +Se te vemos ao fim d'esta avenida +Ou essa horrivel aniquilação!... + +E ó minha martyr, minha virgem, minha +Infeliz e celeste creatura, +Tu lembras-nos de longe a paz futura, +No teu jazigo, como uma santinha! + +E emquanto a mim, és tu que substitues +Todo o mysterio, toda a santidade, +Quando em busca do reino da verdade +Eu ergo o meu olhar aos ceos azues! + + +III + +Tinhamos nós voltado á capital maldicta, +Eu vinha de polir isto tranquillamente, +Quando nos seccedeu uma cruel desdita, +Pois um de nós caiu, de subito, doente. + +Uma tuberculose abria-lhe cavernas! +Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo! +E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas, +Com que se despediu de todos e do mundo! + +Pobre rapaz robusto e cheio de futuro! +Não sei d'um infortunio immenso como o seu! +Vio o seu fim chegar como um medonho muro, +E, sem querer, afflicto e attonito, morreu! + +De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo +Como tanta crueldade e tantas injustiças, +Se inda trabalho é como os presos no degredo, +Com planos de vingança e idéas insubmissas. + +E agora, de tal modo a minha vida é dura, +Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos, +Que sinto só desdem pela litteratura, +E até desprézo e esqueço os meus amados versos! + + + +PROVINCIANAS + + +I + +Olá! Bons dias! Em março +Que mocetona e que joven +A terra! Que amor esparso +Corre os trigos, que se movem +Ás vagas d'um verde garço! + +Como amanhece! Que meigas +As horas antes de almoço! +Fartam-se as vaccas nas veigas +E um pasto orvalhado e moço +Produz as novas manteigas. + +Toda a paizagem se doura; +Tibida ainda, que frecas! +Bella mulher, sim senhora, +N'esta manhã pittoresca, +Primaveral, creadora! + +Bom sol! As sebes d'encosto +Dão madresilvas cheirosas +Que entotecem como um mosto +Floridas, ás espinhosas +Subio-lhes o sangue ao rosto. + +Cresce o relevo dos montes, +Como seios offegantes; +Murmuram como umas fontes +Os rios que dias antes +Bramiam galgando pontes. + +E os campos, milhas e milhas, +Com póvos d'espaço a espaço, +Fazem-se ás mil maravilhas; +Dir-se-ia o mar de sargaço +Glauco, ondulante, com ilhas! + +Pois bem. O inverno deixou-nos. +É certo. E os grãos e as sementes +Que ficam d'outros outonos +Acordam hoje frementes +Depois d'uns poucos de somnos. + +Mas nem tudo são descantes +Por esses longos caminhos +Entre favaes palpitantes +Há solos bravos, maninhos, +Que expulsam seus habitantes! + +E n'esta quadra d'amores +Que emigram os jornaleiros +Ganhões e trabalhadores! +Passam clans de forasteiros +Nas terras de lavradores. + +Tal como existem mercados +Ou feiras, semanalmente +Para comprarmos os gados +Assim ha praças de gente +Pelos domingos calados! + +Emquanto a ovelha arredonda, +Vão tribus de sete filhos, +Por varzeas que fazem onda, +Para as derregas dos milhos +E molhadellas da monda. + +De roda pulam borregos; +Enchem então as cardosas +As moças d'esses labregos +Com altas botas bartrosas +De se atirarem aos regos! + +Eil-as que vem ás manadas +Com caras de soffrimento, +Nas grandes marchas forçadas! +Vem ao trabalho, ao sustento, +Com fouces, sachos, enchadas! + +Ai o palheiro das servas +Se o feitor lhe tira as chaves! +Ellas chegam ás catervas, +Quando acasalam as aves +E se fecundam as hervas!... + + +II + +Ao meio dia na cama, +Branca fidalga o que julga +Das pequenas da su'ama?! +Vivem minadas da pulga +Negras do tempo e da lama. + +Não é caso que a commova +Ver suas irmans de leite, +Quer faça frio, quer chova, +Sem uma mamã que as deite +Na tepidez d'um alcova?! + +Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta. + + +NOTAS + +Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa, +freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no +Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José +Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos +Santos Verde. + + * * * * * + +A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi +o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no +Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario +Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga. +Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o +poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem. +Realmente o eram--pela hesitação do neophyto. + + * * * * * + +Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje +respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as +poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de +menos folego. + + * * * * * + +No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra +de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da +tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna, +da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas. +Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da +promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade; +--ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia. + +Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com +os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos +insultos. + + * * * * * + +Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes, +pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem +como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição +será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas. + +1887. + +S. P. + + +INDICE + +Dedicatoria +Prefacio + +VERSOS + +CRISE ROMANESCA + +Deslumbramentos +Septentrional +Meridional +Ironias do Desgosto +Humilhações +Responso + +NATURAES + +Contrariedades +A debil +N'um bairro moderno +Crystalisações +Noites gelidas +Sardenta +Flores velhas +Noite fechada +Manhans brumosas +Frigida +De verão +O sentimento d'um occidental +De tarde +Em petiz +Nós +Provincianas + +Notas + + + + + +End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE *** + +This file should be named 8olcv10.txt or 8olcv10.zip +Corrected EDITIONS of our eBooks get a new NUMBER, 8olcv11.txt +VERSIONS based on separate sources get new LETTER, 8olcv10a.txt + +Produced João Miguel Neves from images of the National Digital +Library project from the National Library of Portugal. + +Project Gutenberg eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the US +unless a copyright notice is included. Thus, we usually do not +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +We are now trying to release all our eBooks one year in advance +of the official release dates, leaving time for better editing. +Please be encouraged to tell us about any error or corrections, +even years after the official publication date. + +Please note neither this listing nor its contents are final til +midnight of the last day of the month of any such announcement. +The official release date of all Project Gutenberg eBooks is at +Midnight, Central Time, of the last day of the stated month. A +preliminary version may often be posted for suggestion, comment +and editing by those who wish to do so. + +Most people start at our Web sites at: +http://gutenberg.net or +http://promo.net/pg + +These Web sites include award-winning information about Project +Gutenberg, including how to donate, how to help produce our new +eBooks, and how to subscribe to our email newsletter (free!). + + +Those of you who want to download any eBook before announcement +can get to them as follows, and just download by date. This is +also a good way to get them instantly upon announcement, as the +indexes our cataloguers produce obviously take a while after an +announcement goes out in the Project Gutenberg Newsletter. + +http://www.ibiblio.org/gutenberg/etext03 or +ftp://ftp.ibiblio.org/pub/docs/books/gutenberg/etext03 + +Or /etext02, 01, 00, 99, 98, 97, 96, 95, 94, 93, 92, 92, 91 or 90 + +Just search by the first five letters of the filename you want, +as it appears in our Newsletters. + + +Information about Project Gutenberg (one page) + +We produce about two million dollars for each hour we work. The +time it takes us, a rather conservative estimate, is fifty hours +to get any eBook selected, entered, proofread, edited, copyright +searched and analyzed, the copyright letters written, etc. Our +projected audience is one hundred million readers. If the value +per text is nominally estimated at one dollar then we produce $2 +million dollars per hour in 2002 as we release over 100 new text +files per month: 1240 more eBooks in 2001 for a total of 4000+ +We are already on our way to trying for 2000 more eBooks in 2002 +If they reach just 1-2% of the world's population then the total +will reach over half a trillion eBooks given away by year's end. + +The Goal of Project Gutenberg is to Give Away 1 Trillion eBooks! +This is ten thousand titles each to one hundred million readers, +which is only about 4% of the present number of computer users. + +Here is the briefest record of our progress (* means estimated): + +eBooks Year Month + + 1 1971 July + 10 1991 January + 100 1994 January + 1000 1997 August + 1500 1998 October + 2000 1999 December + 2500 2000 December + 3000 2001 November + 4000 2001 October/November + 6000 2002 December* + 9000 2003 November* +10000 2004 January* + + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation has been created +to secure a future for Project Gutenberg into the next millennium. + +We need your donations more than ever! + +As of February, 2002, contributions are being solicited from people +and organizations in: Alabama, Alaska, Arkansas, Connecticut, +Delaware, District of Columbia, Florida, Georgia, Hawaii, Illinois, +Indiana, Iowa, Kansas, Kentucky, Louisiana, Maine, Massachusetts, +Michigan, Mississippi, Missouri, Montana, Nebraska, Nevada, New +Hampshire, New Jersey, New Mexico, New York, North Carolina, Ohio, +Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, South Carolina, South +Dakota, Tennessee, Texas, Utah, Vermont, Virginia, Washington, West +Virginia, Wisconsin, and Wyoming. + +We have filed in all 50 states now, but these are the only ones +that have responded. + +As the requirements for other states are met, additions to this list +will be made and fund raising will begin in the additional states. +Please feel free to ask to check the status of your state. + +In answer to various questions we have received on this: + +We are constantly working on finishing the paperwork to legally +request donations in all 50 states. If your state is not listed and +you would like to know if we have added it since the list you have, +just ask. + +While we cannot solicit donations from people in states where we are +not yet registered, we know of no prohibition against accepting +donations from donors in these states who approach us with an offer to +donate. + +International donations are accepted, but we don't know ANYTHING about +how to make them tax-deductible, or even if they CAN be made +deductible, and don't have the staff to handle it even if there are +ways. + +Donations by check or money order may be sent to: + +Project Gutenberg Literary Archive Foundation +PMB 113 +1739 University Ave. +Oxford, MS 38655-4109 + +Contact us if you want to arrange for a wire transfer or payment +method other than by check or money order. + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation has been approved by +the US Internal Revenue Service as a 501(c)(3) organization with EIN +[Employee Identification Number] 64-622154. 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