summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/8698-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '8698-8.txt')
-rw-r--r--8698-8.txt3318
1 files changed, 3318 insertions, 0 deletions
diff --git a/8698-8.txt b/8698-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..18933a0
--- /dev/null
+++ b/8698-8.txt
@@ -0,0 +1,3318 @@
+The Project Gutenberg EBook of O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
+other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
+the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
+www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
+to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
+
+Title: O Livro de Cesario Verde
+
+Author: Cesario Verde
+
+Posting Date: October 13, 2014 [EBook #8698]
+Release Date: August, 2005
+First Posted: August 2, 2003
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE ***
+
+
+
+
+Produced by João Miguel Neves from images of the National
+Digital Library project from the National Library of
+Portugal.
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+O LIVRO DE CESARIO VERDE
+
+
+Prefácio
+
+
+A JORGE VERDE
+
+Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu
+irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa
+doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido
+Jorge--deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;--morri
+para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces!
+O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos
+restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada:
+peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
+nós, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmão
+soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento:
+--Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.
+
+Adeus, meu querido Jorge!
+
+S.P.
+
+20 de julho de 1886.
+
+Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
+em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás
+Lettras, como se as Lettras lá estivessem--no Curso. Eu matriculara-me,
+com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira
+disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos--para a vida e para a
+morte.
+
+Para a vida e para a morte.
+
+Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
+não teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu
+fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da
+noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do
+seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
+palavras suas de ha poucos dias:--«E como se dê o caso de tu seres
+o mais dedicado dos meus amigos...» Tenho aqui essas palavras:
+ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas,
+alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua
+primeira noite redimida...
+
+Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle
+anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
+Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas
+do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de
+Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo
+a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso
+de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares
+de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
+seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um
+dia, trocámos estas palavras:--«Como tu tens tempo, meu amigo, para
+soffrer tanto!»--«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
+no soffrimento!».
+
+É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
+conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
+imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
+espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
+da discussão--a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas
+para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista
+irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
+sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
+largo sorriso de convencido; e então--meu querido amigo! meu santo
+poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que
+elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido;
+e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente.
+A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!
+
+Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
+em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
+amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
+primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
+seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
+do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
+do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
+fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e
+potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
+e as rosas! A bondade summa está no poeta,--mais visivel, pelo menos,
+do que em Deus.
+
+Artista--e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e
+reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
+que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou
+elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade,
+não me dispensarei d'esta indicripção:
+
+Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins
+perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe
+naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á
+minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
+o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
+dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio.
+Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
+escrupulos: sim?...»
+
+E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
+Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
+--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava
+irremediavelmente perdido!
+
+Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
+quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
+meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
+teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
+pallido agonisante illudido!
+
+A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
+e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção
+desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um
+tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.
+
+ * * * * *
+
+E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de
+que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu
+espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!
+
+Foi ás cinco da tarde--ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a
+estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,--nós
+os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas
+horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o
+ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
+terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase
+indifferente--e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento
+que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão--como
+as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
+e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!
+
+Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar
+velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
+Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
+que que me désse força, que me désse força nova,--pois que se
+prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos,
+ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força
+nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo--do mesmo modo que
+o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se
+--sem saber porque...
+
+20 de Agosto
+
+ * * * * *
+
+A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com
+um respiradouro em cruz;--rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á
+porta está um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu
+querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao
+terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da
+minha raça--funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a
+pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce
+amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:--Está
+bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a
+gravidade do cypreste:--Bem; não houve novidade em toda a noite...
+
+É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é
+todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar
+d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos--o Cesario
+e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
+da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
+consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos,
+horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
+se lhe não consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle
+cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
+desprezo da vida. O meu santo está alli,--está resignado: é tudo.
+Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado--o nosso
+querido morto impassivel!
+
+E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
+da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para
+dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu
+visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu
+acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se
+contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi
+então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz
+d'elle?--pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:--«Sê
+natural, meu amigo; sê natural!»
+
+Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado
+horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
+n'uma angustia:--«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se
+reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
+um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte!
+
+Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
+da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não
+havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
+torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora.
+Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
+sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
+illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a
+crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não
+estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando
+eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na
+Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz
+de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento
+--do soffrimento amparado e protegido...
+
+Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a
+pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
+lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás
+minhas amarguras,--que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o
+aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
+severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
+a minha angustia encontrou na sua.
+
+Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
+Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a
+voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois
+do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua
+grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
+mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não
+quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
+da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre,
+sempre bom--e todavia sempre justo!
+
+A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua
+voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a
+desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
+offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
+conseguintemente, com a suppressão do trabalho,--do pão,--com a
+calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera,
+com todas as ciladas á minha fé... Ah, perdidos em paiz de Cafres!
+Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
+dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!
+
+Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova,
+esperando... Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos
+á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da
+Justiça absoluta--da Justiça illuminada e serena;--espera que eu vá
+dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da
+Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
+Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
+a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
+supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
+reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres
+supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte,
+o seu amor!
+
+Está alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, não saberei
+dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu
+abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa
+amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visões
+do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
+minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os
+restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada
+do seu tumulo pelo Nordéste--menos frio do que a minha alma succumbida!
+
+ * * * * *
+
+Silva Pinto.
+
+
+
+
+
+Os versos
+
+
+
+
+I
+
+CRISE ROMANESCA
+
+
+DESLUMBRAMENTOS
+
+Milady, é perigoso contemplal-a,
+Quando passa aromatica e normal,
+Com seu typo tão nobre e tão de sala,
+Com seus gestos de neve e de metal.
+
+Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
+Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
+Eu vejo-a, com real solemnidade,
+Ir impondo toilettes complicadas!...
+
+Em si tudo me attrae como um thesoiro:
+O seu ar pensativo e senhoril,
+A sua voz que tem um timbre de oiro
+E o seu nevado e lucido perfil!
+
+Ah! Como m'estontêa e me fascina...
+E é, na graça distincta do seu porte,
+Como a Moda superflua e feminina,
+E tão alta e serena como a Morte!...
+
+Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
+Britannica, e fazendo-me assombrar;
+Grande dama fatal, sempre sósinha,
+E com firmeza e musica no andar!
+
+O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
+Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
+Como um florete, fere agudamente,
+E afaga como o pello d'um regalo!
+
+Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
+E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
+O modo diplomatico e orgulhoso
+Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.
+
+E emfim prosiga altiva como a Fama,
+Sem sorrisos, dramatica, cortante;
+Que eu procuro fundir na minha chamma
+Seu ermo coração, como um brilhante.
+
+Mas cuidado, milady, não se afoite,
+Que hão-de acabar os barabaros reaes;
+E os povos humilhados, pela noite,
+Para a vingança aguçam os punhaes.
+
+E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
+Sob o setim do Azul e as andorinhas,
+Eu hei-de ver errar, allucinadas,
+E arrastando farrapos--as rainhas!
+
+
+
+SEPTENTRIONAL
+
+Talvez já te esquecesses, ó bonina,
+Que viveste no campo só commigo,
+Que te osculei a bocca purpurina,
+E que fui o teu sol e o teu abrigo.
+
+Que fugiste commigo da Babel,
+Mulher como não ha nem na Circassia,
+Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
+E regámos com prantos uma acacia.
+
+Talvez já te não lembres com desgosto
+D'aquellas brancas noites de mysterio,
+Em que a lua sorria no teu rosto
+E nas lages que estão no cemiterio.
+
+Quando, á brisa outoniça, como um manto,
+Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
+Se prendiam nas folhas d'um acantho,
+Ou nos bicos agrestes dos silvados,
+
+E eu ia desprendel-os, como um pagem
+Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
+E ouvia murmurar á doce aragem
+Uns delirios d'amor, entristecidos;
+
+Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
+Pousarem borbeletas doudejantes
+Nas tuas formosissimas madeixas,
+D'aquellas côr das messes lourejantes,
+
+E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
+Caminhavamos sós e de mãos dadas,
+Beijando os nossos rostos sem assombro,
+E colorindo as faces desbotadas;
+
+Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
+N'um amor grande como um mar sem praias,
+Ouviamos os meigos dithyrambos,
+Que os rouxinoes teciam nas olaias,
+
+E, afastados da aldeia e dos casaes,
+Eu comtigo, abraçado como as heras,
+Escondidos nas ondas dos trigaes,
+Devolvia-te os beijos que me déras;
+
+Quando, se havia lama no caminho,
+Eu te levava ao collo sobre a greda,
+E o teu corpo nevado como o arminho
+Pesava menos que um papel de sêda...
+
+E foste sepultar-te, ó seraphim,
+No claustro das Fieis emparedadas,
+Escondeste o teu rosto de marfim
+No véu negro das freiras resignadas.
+
+E eu passo, tão calado como a Morte,
+N'esta velha cidade tão sombria,
+Chorando afflictamente a minha sorte
+E prelibando o calix da agonia.
+
+E, tristissima Helena, com verdade,
+Se podéra na terra achar supplicios,
+Eu tambem me faria gordo frade
+E cobriria a carne de cilicios.
+
+
+
+MERIDIONAL
+
+Cabellos
+
+Ó vagas de cabello esparsas longamente,
+Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
+E tendes o crystal d'um lago refulgente
+E a rude escuridão d'um largo e negro mar;
+
+Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
+Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
+No barathro febril da vossa grande treva,
+Que tem scintillações e meigos ceos de luz.
+
+Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
+Quando elle estiver brando e livre de tufões,
+E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos
+E enchamos de harmonia as amplas solidões.
+
+Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
+Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom
+Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
+Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!
+
+E ó magica mulher, ó minha Inegualavel,
+Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
+E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
+Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;
+
+Consente que eu aspire esse perfume raro,
+Que exhalas da cabeça erguida com fulgor,
+Perfume que estontêa um millionario avaro
+E faz morrer de febre um louco sonhador.
+
+Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
+E vaes na direcção constante do querer,
+Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
+Que fazem mansamente amar e elanguescer.
+
+E a tua cabelleira, errante pelas costas,
+Supponho que te serve, em noites de verão,
+De flaccido espaldar aonde te recostas
+Se sentes o abandono e a morna prostração.
+
+E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos
+Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
+Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
+Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.
+
+ * * * * *
+
+Ó mantos de veludo esplendido e sombrio,
+Na vossa vastidão posso talvez morrer!
+Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
+E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.
+
+
+
+IRONIAS DO DESGOSTO
+
+«Onde é que te nasceu»--dizia-me ella ás vezes--
+«O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?
+«Porque é que não possues a verve dos Francezes
+«E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?
+
+«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,
+«As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,
+«E abrigas tanto fel no peito, que não sente
+«O abalo feminil das minhas expansões?
+
+«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
+«Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
+«Que estão edificando um negro cadafalso
+«E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!
+
+«Eu vim--não sabes tu?--para gosar em maio,
+«No campo, a quietação banhada de prazer!
+«Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,
+«E os jubilos, que abril acaba de trazer?
+
+«Não vês como a campina é toda embalsamada
+«E como nos alegra em cada nova flor?
+«E então porque é que tens na fronte consternada
+«Um não sei quê tocante e enternecedor?
+
+E eu só lhe respondia:--«Escuta-me. Conforme
+«Tu vibras os crystaes da bocca musical,
+«Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme
+«Que te ha de corromper o corpo de vestal.
+
+«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,
+«Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,
+«A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
+«E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!
+
+«E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
+«Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
+«Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
+«O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»
+
+
+
+HUMILHAÇÕES
+(De todo o coração--a Silva Pinto)
+
+Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job,
+Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
+E espero-a nos salões dos principaes theatros,
+ Todas as noites, ignorado e só.
+
+Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
+As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
+E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos,
+ Eu analyso as peças no cartaz.
+
+Na representação d'um drama de Feuillet,
+Eu aguradava, junto à porta, na penumbra,
+Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
+ Saltou soberba o estribo do coupé.
+
+Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
+Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
+E, muito embora tu, burguez, me não entendas,
+ Fiquei batendo os dentes de terror.
+
+Sim! Por não podia abandonal-a em paz!
+Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa
+De vel-a aproximar, sentado na platéa,
+ De tel a n'um binoculo mordaz!
+
+Eu occultava o fraque usado nos botões;
+Cada contratador dizia em voz rouquenha:
+--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
+ E ouviam-se cá fóra as ovações.
+
+Que desvanecimento! A perola do Tom!
+As outras ao pé d'ella imitam as bonecas;
+Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
+ Nos grandes espetaculos do Som.
+
+Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
+Vi-a subir, direita, a larga escadaria
+E entrar no camarote. Antes estimaria
+ Que o chão se abrisse para me abater.
+
+Saí; mas ao sair senti-me atropellar.
+Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
+Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
+ Cresci com raiva contra o militar.
+
+De subito, fanhosa, infecta, rota, má,
+Pôz-se na minha frente uma velhinha suja,
+E disse-me, piscando os olhos de coruja:
+--Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...
+
+
+
+RESPONSO
+
+I
+
+N'um castello deserto e solitario,
+Toda de preto, ás horas silenciosas,
+Envolve-se nas pregas d'um sudario
+E chora como as grandes criminosas.
+
+Podesse eu ser o lenço de Bruxellas
+Em que ella esconde as lagrimas singellas.
+
+II
+
+E loura como as doces escocezas,
+D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
+Circumda-se de luto e de tristezas
+E excede a melancolica Artemisa.
+
+Fosse eu os seus vestidos afogados
+E havia de escutar-lhe os seus peccados.
+
+III
+
+Alta noite, os planetas argentados
+Deslisam um olhar macio e vago
+Nos seus olhos de pranto marejados
+E nas aguas mansissimas do lago
+
+Podesse eu ser a lua, a lua terna,
+E faria que a noite fosse eterna.
+
+IV
+
+E os abutres e os corvos fazem giros
+De roda das ameias e dos pégos,
+E nas salas resoam uns suspiros
+Dolentes como as supplicas dos cegos.
+
+Fosse eu aquellas aves de pilhagem
+E cercara-lhe a fronte, em homenagem.
+
+V
+
+E ella vaga nas praias rumorosas,
+Triste como as rainhas desthronadas,
+A contemplar as gondolas airosas,
+Que passam, a giorno illuminadas.
+
+Podesse eu ser o rude gondoleiro
+E alli é que fizera o meu cruzeiro.
+
+VI
+
+De dia, entre os veludos e entre as sedas,
+Murmurando palavras afflictivas,
+Vagueia nas umbrosas alamedas
+E acarinha, de leve, as sensitivas.
+
+Fosse eu aquellas arvores frondosas
+E prendera-lhe as roupas vaporosas.
+
+VII
+
+Ou domina, a rezar, no pavimento
+Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
+A musica dulcissima do vento
+E o sussuro do mar, que s'espreguiça.
+
+Podesse eu ser o mar e os meus desejos
+Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.
+
+VIII
+
+E ás horas do crepusculo saudosas,
+Nos parques com tapetes cultivados,
+Quando ella passa curvam-se amorosas
+As estatuas dos seus antepassados.
+
+Fosse eu tambem granito e a minha vida
+Era vêl-a a chorar arrependida.
+
+IX
+
+No palacio isolado como um monge,
+Erram as velhas almas dos precítos,
+E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
+Os lamentos dos naufragos afflictos.
+
+Podesse eu ter tambem uma procella
+E as lentas agonias ao pé d'ella!
+
+X
+
+E ás lages, no silencio dos mosteiros,
+Ella conta o seu drama negregado,
+E o vasto carmesim dos resposteiros
+Ondula como um mar ensanguentado.
+
+Fossem aquellas mil tapeçarias
+Nossas mortalhas quentes e sombrias.
+
+XI
+
+E assim passa, chorando, as noites bellas,
+Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
+E a reflectir nas gothicas janellas
+As estrellas dos ceus desconhecidos.
+
+Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
+E ter as mesmas pedras no jazigo!
+
+XII
+
+Mergulha-se em angustias lacrimosas
+Nos ermos d'um castello abandonado,
+E as proximas florestas tenebrosas
+Repercutem um choro amargurado.
+
+Unissemos, nós dois, as nossas covas,
+Ó doce castellã das minhas trovas!
+
+
+
+
+
+II
+
+NATURAES
+
+
+
+
+CONTRARIEDADES
+
+Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
+Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
+Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros
+ Consecutivamente.
+
+Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
+Tanta depravação nos usos, nos costumes!
+Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
+ E os angulos agudos.
+
+Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra
+Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes;
+Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
+ E engomma para fóra.
+
+Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
+Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
+Lidando sempre! E deve a conta á botica!
+ Mal ganha para sopas...
+
+O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
+Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
+Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
+ Um folhetim de versos.
+
+Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
+No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
+Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo,
+ Me tem fechado a porta.
+
+A critica segundo o methodo de Taine
+Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
+Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
+ Vale um desdem solemne.
+
+Com raras excepções merece-me o epigramma.
+Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
+Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
+ Diverte-se na lama.
+
+Eu nunca dediquei poemas ás fortunas,
+Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
+Independente! Só por isso os jornalistas
+ Me negam as columnas.
+
+Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
+Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
+Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores
+ Deliram por Zaccone.
+
+Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
+Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»;
+E a mim, não ha questão que mais me contrarie
+ Do que escrever em prosa.
+
+A adulação repugna aos sentimentos finos;
+Eu raramente falo aos nossos litteratos,
+E apuro-me em lançar originaes e exactos,
+ Os meus alexandrinos...
+
+E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
+Ignora que a asphyxia a combustão das brazas,
+Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
+ E fina-se ao desprezo!
+
+Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
+Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente,
+Oiço-a cantarolar uma canção plangente
+ D'uma opereta nova!
+
+Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
+Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
+Conseguirei reler essas antigas rimas,
+ Impressas em volume?
+
+Nas lettras eu conheço um campo de manobras;
+Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague,
+E esta poesia pede um editor que pague
+ Todas as minhas obras...
+
+E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
+A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
+Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
+ Que mundo! Coitadinha!
+
+
+
+A DEBIL
+
+Eu, que sou feio, solido, leal,
+A ti, que és bella, fragil, assustada,
+Quero estimar-te, sempre, recatada
+N'uma existencia honesta, de crystal.
+
+Sentado á mesa d'um café devasso,
+Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
+N'esta Babel tão velha e corruptora,
+Tive tenções de offerecer-te o braço.
+
+E, quando soccorreste um miseravel,
+Eu, que bebia calices d'absintho,
+Mandei ir a garrafa, porque sinto
+Que me tornas prestante, bom, saudavel.
+
+«Ella ahi vem!» disse eu para os demais;
+E puz-me a olhar, véxado e suspirando,
+O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
+Na frescura dos linhos matinaes.
+
+Via-te pela porta envidraçada;
+E invejava,--talvez que o não suspeites!--
+Esse vestido simples, sem enfeites,
+N'essa cintura tenra, immaculada.
+
+Ia passando, a quatro, o patriarcha.
+Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;
+Uma turba ruidosa, negra, espessa,
+Voltava das exequias d'um monarcha.
+
+Adoravel! Tu muito natural
+Seguias a pensar no teu bordado;
+Avultava, n'um largo arborisado,
+Uma estatua de rei n'um pedestal.
+
+Sorriam nos seus trens os titulares;
+E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
+A tua boa mãe, que te ama tanto,
+Que não te morrerá sem te casares!
+
+Soberbo dia! Impunha-me respeito
+A limpidez do teu semblante grego;
+E uma familia, um ninho de socego,
+Desejava beijar sobre o teu peito.
+
+Com elegancia e sem ostentação,
+Atravessavas branca, esvelta e fina,
+Uma chusma de padres de batina,
+E d'altos funccionarios da nação.
+
+«Mas se a atropella o povo turbolento!
+Se fosse, por acaso, alli pisada!»
+De repente, paraste embaraçada
+Ao pé d'um numeroso ajuntamento.
+
+E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
+Julguei vêr, com a vista de poeta,
+uma pombinha timida e quieta
+N'um bando ameaçador de corvos pretos.
+
+E foi, então, que eu homem varonil,
+Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
+A ti, que és tenue, docil, reconhecida,
+Eu, que sou habil, pratico, viril.
+
+
+
+N'UM BAIRRO MODERNO
+
+A Manuel Ribeiro
+
+Dez horas da manhã; os transparentes
+Matizam uma casa apalaçada;
+Pelos jardins estancam-se os nascentes,
+E fere a vista, com brancuras quentes,
+A larga rua macadamisada.
+
+Rez-de-chaussée repousam socegados,
+Abriram-se, n'alguns, as persianas,
+E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
+Ou entre a rama dos papeis pintados,
+Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.
+
+Como é saudavel ter o seu conchego,
+E a sua vida facil! Eu descia,
+Sem muita pressa, para o meu emprego,
+Aonde agora quasi sempre chego
+Com as tonturas d'uma apoplexia.
+
+E rota, pequenina, aramafada,
+Notei de costas uma rapariga,
+Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
+Como um retalho de horta agglomerada,
+Pousára, ajoelhando, a sua giga.
+
+E eu, apesar do sol, examinei-a:
+Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;
+E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
+Se ella se curva, esguedelhada, feia,
+E pendurando os seus bracinhos brancos.
+
+Do patamar responde-lhe um criado:
+«Se te convém, despacha; não converses.
+Eu não dou mais.» E muito descançado,
+Atira um cobre livido, oxidado,
+Que vem bater nas faces d' uns alperces.
+
+Subitamente,--que visão de artista!--
+Se eu transformasse os simples vegetaes,
+Á luz do sol, o intenso colorista,
+N'um ser humano que se mova e exista
+Cheio de bellas proporções carnaes?!
+
+Boiam aromas, fumos de cozinha;
+Com o cabaz ás costas, e vergando,
+Sobem padeiros, claros de farinha;
+E ás portas, uma ou outra campainha
+Toca, frenetica, de vez em quando.
+
+E eu recompunha, por anatomia,
+Um novo corpo organico, aos bocados.
+Achava os tons e as fórmas. Descobria
+Uma cabeça n'uma melancia,
+E n'uns repolhos seios injectados.
+
+As azeitonas, que nos dão o azeite,
+Negras e unidas, entre verdes folhos,
+São tranças d'um cabello que se ageite;
+E os nabos--ossos nus, da côr do leite,
+E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.
+
+Ha collos, hombros, boccas, um semblante
+Nas posições de certos fructos. E entre
+As hortaliças, tumido, fragrante,
+Como d'alguem que tudo aquilo jante,
+Surge um melão, que me lembrou um ventre.
+
+E, como um feto, emfim, que se dilate,
+Vi nos legumes carnes tentadoras,
+Sangue na ginja vivida, escarlate,
+Bons corações pulsando no tomate
+E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.
+
+O sol dourava o céo. E a regateira,
+Como vendera a sua fresca alface
+E déra o ramo de hortelã que cheira,
+Voltando-se, gritou-me prazenteira:
+«Não passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...»
+
+Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
+E, pelas duas azas a quebrar,
+Nós levantámos todo aquelle peso
+Que ao chão de pedra resistia preso,
+Com um enorme esforço muscular.
+
+«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
+E recebi, náquella despedida,
+As forças, a alegria, a plenitude,
+Que brotam d'um excesso de virtude
+Ou d'uma digestão desconhecida.
+
+E em quanto sigo para o lado opposto,
+E ao longe rodam umas carruagens,
+A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
+Descolorida nas maçãs do rosto,
+E sem quadris na saia de ramagens.
+
+Um pequerrucho rega a trepadeira
+D'uma janella azul; e, com o ralo
+Do regador, parece que joeira
+Ou que borrifa estrellas; e a poeira
+Que eleva nuvens alvas e incensal-o.
+
+Chegam do gigo emanações sadias,
+Oiço um canario--que infantil chilrada!--
+Lidam ménages entre as gelosias,
+E o sol estende, pelas frontarias,
+Seus raios de laranja distillada.
+
+E pittoresca e audaz, na sua chita,
+O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
+D'uma desgraça alegre que me incita,
+Ella apregôa, magra, enfezadita,
+As suas couves repolhudas, largas.
+
+E como as grossas pernas d'um gigante,
+Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
+Carregam sobre a pobre caminhante,
+Sobre a verdura rustica, abundante,
+Duas frugaes aboboras carneiras.
+
+
+
+CRYSTALISAÇÕES
+
+A Bettencourt Rodrigues
+
+Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
+ Vibra uma immensa claridade crua.
+ De cocaras, em linha os calceteiros,
+ Com lentidão, terrosos e grosseiros,
+ Calcam de lado a lado a longa rua.
+
+Como as elevações seccaram do relento,
+ E o descoberto sol abafa e cria!
+ A frialdade exige o movimento;
+ E as poças d'agua, como em chão vidrento,
+ Reflectem a molhada casaria.
+
+Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
+ Disseminadas, gritam as peixeiras;
+ Luzem, aquecem na manhã bonita,
+ Uns barracões de gente pobresita.
+ E uns quintalorios velhos com parreiras.
+
+Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
+ Tomam por outra parte os viandantes;
+ E o ferro e a pedra--que união sonora!--
+ Retinem alto pelo espaço fóra,
+ Com choques rijos, asperos, cantantes.
+
+Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
+ Cuja columna nunca se endireita,
+ Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
+ Pesam enormemente os grossos maços,
+ Com que outros batem a calçada feita.
+
+A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
+ Que espessos forros! N'uma das regueiras
+ Acamam-se as japonas, os colletes:
+ E elles descalçam com os picaretes,
+ Que ferem lume sobre pederneiras.
+
+E n'esse rude mez, que não consente as flores,
+ Fundêam, como a esquadra em fria paz,
+ As arvores despidas. Sobrias côres!
+ Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
+ Atiram terra com as largas pás.
+
+Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!--
+ Carros de mão, que chiam carregados,
+ Conduzem saibro, vagarosamente;
+ Vê se a cidade, mercantil, contente:
+ Madeiras, aguas, multidões, telhados!
+
+Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
+ Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
+ O ceu renova a tinta corredia;
+ E os charcos brilham tanto, que eu diria
+ Ter ante mim lagôas de brilhantes!
+
+E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
+ Eu tudo encontro alegremente exacto.
+ Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
+ E tangem-me, excitados, sacudidos,
+ O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!
+
+Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
+ De tão lavada e egual temperatura!
+ Os ares, o caminho, a luz reagem;
+ Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
+ Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.
+
+Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;
+ Dois assobiam, altas as marretas
+ Possantes, grossas, temperadas d'aço;
+ E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço
+ E manso, tira o nivel das valletas.
+
+Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
+ Que vida tão custosa! Que diabo!
+ E os cavadores pousam as enxadas,
+ E cospem nas callosas mãos gretadas,
+ Para que não lhes escorregue o cabo.
+
+Povo! No panno cru rasgado das camizas
+ Uma bandeira penso que transluz!
+ Com ella soffres, bebes, agonisas:
+ Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
+ E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!
+
+D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
+ Surge um perfil direito que se aguça;
+ E ar matinal de quem sahiu da toca,
+ Uma figura fina, desemboca,
+ Toda abafada n'um casaco á russa.
+
+D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
+ E a quem, á noite na plateia, attraio
+ Os olhos lizos como polimento!
+ Com seu rostinho estreito, friorento,
+ Caminha agora para o seu ensaio.
+
+E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
+ Como lajões. Os bons trabalhadores!
+ Os filhos das lezirias, dos montados;
+ Os das planicies, altos, aprumados;
+ Os das montanhas, baixos, trepadores!
+
+Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto,
+ Furtiva a tiritar em suas pelles,
+ Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
+ N'este dezembro energico, succinto,
+ E n'estes sitios suburbanos, reles!
+
+Como animaes communs, que uma picada esquente,
+ Elles, bovinos, masculos, ossudos,
+ Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
+ E ella vacilla, hesita impaciente
+ Sobre as botinhas de tacões agudos.
+
+Porém, desempenhando o seu papel na peça,
+ Sem que inda o publico a passagem abra,
+ O demonico arrisca-se, atravessa
+ Covas, entulhos, lamaçaes, depressa,
+ Com seus pésinhos rapidos, de cabra!
+
+
+
+NOITES GELIDAS
+
+MERINA
+
+Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
+Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada,
+Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
+Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada;
+Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
+Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
+Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia
+De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.
+
+
+SARDENTA
+
+Tu, n'esse corpo completo,
+Ó lactea virgem doirada,
+Tens o lymphatico aspecto
+D'uma camelia melada.
+
+
+FLORES VELHAS
+
+Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
+Aonde tanta vez a luz nos beijou,
+E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
+Soberba como um sol, serena como um vôo.
+
+Em tudo scintillava o limpido poema
+Com osculos rimado ás luzes dos planetas;
+A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
+E ondulava o matiz das leves borboletas.
+
+Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
+A imagem que inspirava os castos madrugaes;
+E as virações, o rio, os astros, a pasizagem,
+Traziam-me á memoria idyllios immortaes.
+
+Diziam-me que tu, no florido passado,
+Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas,
+Aquelle teu olhar moroso e delicado,
+Que fala de languor e d'emoções mimosas;
+
+E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura,
+Que não me desgostou nem uma vez sequer,
+Eu não sabia haurir do calix da ventura
+O nectar que nos vem dos mimos da mulher.
+
+Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
+Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
+As falas quasi irmãs do vento com as flores
+E a molle exhalação das varzeas rescendentes.
+
+Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
+No ninho de affeições creado para ti,
+Por entre o riso claro, e as vozes das creanças,
+E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.
+
+Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas,
+Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
+E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
+Bebemos o elixir das tardes perfumadas.
+
+E nosso bom romance escripto n'um desterro,
+Com beijos sem ruido em noites sem luar,
+Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
+Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.
+
+Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
+Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
+E eu não beijarei, ás horas somnolentas,
+Os dedos de marfim, polidos e delgados...
+
+Eu, por não ter sabido amar os movimentos
+Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
+Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
+E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.
+
+E tudo emfim passou, passou como uma penna,
+Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
+E aquella doce vida, aquella vida amena,
+Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!
+
+Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
+Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
+A areia em que rangia a saia roçagante,
+Que foi na minha vida o ceo aurirosado,
+
+Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
+Que as ondas que formei das suas illusões
+Fizeram-me enganar na minha soledade
+E as azas ir abrindo ás minhas impressões.
+
+Soltei com devoção lembranças inda escravas,
+No espaço construi phantasticos castellos,
+No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
+E onde o luar parava os raios amarellos.
+
+Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
+Suster a minha fé, n'um veo consolador,
+O teu divino olhar que as pedras amollece,
+E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.
+
+Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,
+Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
+E imaginei ouvir ao conversar das aves
+As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.
+
+
+
+NOITE FECHADA
+
+(L.)
+
+Lembras-te tu do sabbado passado,
+Do passeio que démos, devagar,
+Entre um saudoso gaz amarellado
+E as caricias leitosas do luar?
+
+Bem me lembro das altas ruasinhas,
+Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
+Ás janellas palravam as visinhas;
+Tinham lividas luzes as fachadas.
+
+Não me esqueço das cousas que disseste,
+Ante um pesado templo com recortes;
+E os cemiterios ricos, e o cypreste
+Que vive de gorduras e de mortes!
+
+Nós saíramos proximo ao sol-posto,
+Mas seguiamos cheios de demoras;
+Não me esqueceu ainda o meu desgosto
+Nem o sino rachado que deu horas.
+
+Tenho ainda gravado no sentido,
+Porque tu caminhavas com prazer,
+Cara rapada, gordo e presumido,
+O padre que parou para te ver.
+
+Como uma mitra a cúpula da egreja
+Cobria parte do ventoso largo;
+E essa bocca viçosa de cereja,
+Torcia risos com sabor amargo.
+
+A lua dava tremulas brancuras,
+Eu ia cada vez mais magoado;
+Vi um jardim com arvores escuras,
+Como uma jaula todo gradeado!
+
+E para te seguir entrei comtigo
+N'um pateo velho que era d'um canteiro,
+E onde, talvez, se faça inda o jazigo
+Em que eu irei apodrecer primeiro!
+
+Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,
+Tua luva, teu veu, o que tu és!
+Não sei que tentação é que te impelle
+Os pequeninos e cançados pés.
+
+Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
+Eu por mim tinha pena dos marçanos,
+Como ratos, nas gordas mercearias,
+Encafunados por immensos annos!
+
+Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
+Que apparecem ao fundo d'umas minas,
+E á crua luz os pallidos barbeiros
+Com oleos e maneiras femininas!
+
+Fins de semana! Que miseria em bando!
+O povo folga, estupido e grisalho!
+E os artistas d'officio iam passando,
+Com as ferias, ralados do trabalho.
+
+O quadro anterior, d'um que á candêa,
+Ensina a filha a ler, metteu-me dó!
+Gosto mais do plebeu que cambalêa,
+Do bebado feliz que falla só!
+
+De subito, na volta de uma esquina,
+Sob um bico de gaz que abria em leque,
+Vimos um militar, de barretina
+E galões marciaes de pechisbeque,
+
+E em quanto elle fallava ao seu namoro,
+Que morava n'um predio de azulêjo,
+Nos nossos labios retinio sonoro
+Um vigoroso e formidavel beijo!
+
+E assim ao meu capricho abandonada,
+Errámos por travessas, por viellas,
+E passámos por pé d'uma tapada
+E um palacio real com sentinellas.
+
+E eu que busco a moderna e fina arte,
+Sobre a umbrosa calçada sepulchral,
+Tive a rude intenção de violentar-te
+Imbecilmente como um animal!
+
+Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
+Como longiquos bosques muito ermos,
+Tu querias no meio da folhagem
+Um ninho enorme para nós vivermos.
+
+E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
+Ó grande pomba tépida que arrulha,
+Vinham batendo o macadam fremente,
+As patadas sonoras da patrulha,
+
+E atravez a immortal cidadesinha,
+Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,
+Em que uma negra multidão se apinha
+De tecelões, de fumos, de caldeiras.
+
+Mas a noite dormente e esbranquiçada
+Era uma esteira lucida d'amor;
+Ó jovial senhora perfumada,
+Ó terrivel creança! Que esplendor!
+
+E ali começaria o meu desterro!...
+Lodoso o rio, e glacial, corria;
+Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro
+Na muralha dos caes de cantaria.
+
+Nunca mais amarei, já que não me amas,
+E é preciso, decerto, que me deixes!
+Toda a maré luzida como escamas,
+Como alguidar de prateados peixes.
+
+E como é necessario que eu me afoite
+A perder-me de ti por quem existo,
+Eu fui passar ao campo aquella noite
+E andei leguas a pé, pensando n'isto.
+
+E tu que não serás sómente minha,
+Ás caricias leitosas do luar,
+Recolheste-te, pallida e sósinha
+Á gaiola do teu terceiro andar!
+
+
+
+MANHANS BRUMOSAS
+
+Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
+Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
+E com a forte voz cantada com que ordena,
+Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
+Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
+Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
+
+Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,
+--Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!--
+Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
+E o meu desejo nada em epoca de banhos,
+E, ave de arribação, elle enche de surprezas
+Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
+
+As irlandezas teem soberbos desmazelos!
+Ella descobre assim, com lentidões ufanas,
+Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
+E como aquellas são maritimas, serranas,
+Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
+E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
+
+Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,
+Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
+Botões a tiracollo e applicações vermelhas;
+E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,
+Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,
+Correm os seus desdens, como vitellos brancos.
+
+E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
+Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
+E com a forte voz cantada com que ordena,
+Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
+Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
+Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.
+
+
+
+FRIGIDA
+
+I
+
+Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!
+Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
+Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
+E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.
+
+II
+
+Admiro-a. A sua longa e placida estatura
+Expõe a magestade austera dos invernos.
+Não cora no seu todo a timida candura;
+Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.
+
+III
+
+Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
+N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!...
+Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
+Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!
+
+IV
+
+Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
+Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
+Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
+É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!
+
+V
+
+Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
+Ó gelida mulher bizarramente estranha,
+E tremulo depor os labios no seu pulso,
+Entre a macia luva e o punho de bretanha!...
+
+VI
+
+Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
+Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
+Pausadamente lembra o silvo das giboias
+E a marcha demorada e muda d'um phantasma.
+
+VII
+
+Metallica visão que Charles Baudelaire
+Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
+Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,
+As curvas de magreza e o lustre dos adornos!
+
+VIII
+
+Deslise como um astro, uma astro que declina;
+Tão descançada e firme é que me desvaria,
+E tem a lentidão d'uma corveta fina
+Que nobremente vá n'um mar de calmaria.
+
+IX
+
+Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
+No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
+E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
+O socegado espectro angelico da Morte!
+
+X
+
+O seu vagar occulta uma elasticidade
+Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
+E a sua glacial impassibilidade
+Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.
+
+XI
+
+Porem, não arderei aos seus contactos frios,
+E não me enroscará nos serpentinos braços:
+Receio supportar febrões e calefrios;
+Adoro no seu corpo os movimentos lassos.
+
+XII
+
+E se uma vez me abrisse o collo transparente,
+E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
+Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
+Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!
+
+
+
+DE VERÃO
+
+A Eduardo Coelho
+
+I
+
+No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
+ A claridade, a robustez, a acção.
+ Esta manhã, saí com minha prima,
+ Em que eu noto a mais sincera estima
+ E a mais completa e séria educação.
+
+II
+
+Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro
+ Da lyrica excursão, d'intimidade
+ Não pinto a velha ermida com seu adro;
+ Sei só desenho de compasso e esquadro,
+ Respiro industria, paz, salubridade.
+
+III
+
+Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
+ E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
+ Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;
+ Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
+ Quando me alegra a calma das debulhas!»
+
+IV
+
+E perguntavas sobre os ultimos inventos
+ Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
+ Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
+ Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
+ Como nos fazem grandes barretadas!
+
+V
+
+Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
+ Dos olivaes escuros. Onde irás?
+ Regressam os rebanhos das pastagens;
+ Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
+ E, silencioso, eu fico para traz.
+
+VI
+
+N'uma collina azul brilha um logar caiado.
+ Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
+ Com teu chapéo de palha, desabado,
+ Tu continúas na azinhaga; ao lado
+ Verdeja, vicejante, a nossa vinha.
+
+VII
+
+N'isto, parando, como alguem que se analysa,
+ Sem desprender do chão teus olhos castos,
+ Tu começaste, harmonica, indecisa,
+ A arregaçar a chita, alegre e lisa
+ Da tua cauda um poucochinho a rastos.
+
+VIII
+
+Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
+ O sol abrasa as terras já ceifadas,
+ E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
+ Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
+ As saias curtas, frescas, engommadas.
+
+IX
+
+E, como quem saltasse, extravagantemente,
+ Um rego d'agua sem se enxovalhar,
+ Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
+ Depois de bem composta, déste á frente
+ Uma pernada comica, vulgar!
+
+X
+
+Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
+ No atalho enxuto, e branco das espigas
+ Caidas das carradas no salmejo,
+ Esguio e a negrejar em um cortejo,
+ Destaca-se um carreiro de formigas.
+
+XI
+
+Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
+ Na natureza trémula de sede,
+ Arrastam bichos, uvas e sementes;
+ E atulha, por instincto, previdentes,
+ Seus antros quasi occultos na parede.
+
+XII
+
+E eu desatei a rir como qualquer macaco!
+ «Tu não as esmagares contra o solo!»
+ E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
+ Eu de jasmim na casa do casaco
+ E d'oculo deitado a tiracolo!
+
+XIII
+
+«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
+ Um sublimado corrosivo, uns pós
+ De solimão, eu, sem maior demora,
+ Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
+ Preferes o romantico ao feroz.
+
+XIV
+
+Que compaixão! Julgava até que matarias
+ Esses insectos importunos! Basta.
+ Merecem-te espantosas sympathias?
+ Eu felicito suas senhorias,
+ Que honraste com um pulo de gymnasta!»
+
+XV
+
+E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
+ Luziam, com doçura, honestamente;
+ De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
+ Lembravam-me fusões d'immensos oiros,
+ E o mar um prado verde e florescente.
+
+XVI
+
+Vibravam, na campina, as chocas da manada;
+ Vinham uns carros a gemer no outeiro,
+ E finalmente, energica, zangada,
+ Tu inda assim bastante envergonhada,
+ Volveste-me, apontando o formigueiro:
+
+XVII
+
+«Não me incommode, não, com ditos detestaveis!
+ Não seja simplesmente um zombador!
+ Estas mineiras negras, incançaveis,
+ São mais economistas, mais notaveis,
+ E mais trabalhoras que o senhor.»
+
+
+
+O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL
+
+A Guerra Junqueiro
+
+
+I
+
+AVE MARIAS
+
+ Nas nossas ruas, ao anoitecer,
+Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
+Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
+Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.
+
+ O ceu parece baixo e de neblina,
+O gaz extravasado enjôa-me, perturba;
+E os edificios, com as chaminés, e a turba
+Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.
+
+ Batem os carros de aluguer, ao fundo,
+Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!
+Occorrem-me em revista exposições, paizes:
+Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
+
+ Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
+As edificações sómente emmadeiradas:
+Como morcegos, ao cair das badaladas,
+Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
+
+ Voltam os calafates, aos magotes,
+De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
+Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,
+Ou érro pelos caes a que se atracam botes.
+
+ E evoco, então, as chronicas navaes:
+Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
+Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
+Singram soberbas naus que eu não verei jámais!
+
+ E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
+De um couraçado inglez vogam os escaleres;
+E em terra n'um tinir de louças e talheres
+Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.
+
+ N'um trem de praça arengam dois dentistas;
+Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
+Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
+Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!
+
+ Vasam-se os arsenaes e as officinas;
+Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
+E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
+Correndo com firmeza, assomam as varinas.
+
+ Vem sacudindo as ancas opulentas!
+Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
+E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
+Os filhos que depois naufragam nas tormentas,
+
+ Descalças! Nas descargas de carvão,
+Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;
+E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
+E o peixe pôdre géra os focos de infecção!
+
+
+II
+
+NOITE FECHADA
+
+ Toca-se as grades, nas cadeias. Som
+Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
+O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
+Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!
+
+ E eu desconfio, até, de um aneurisma
+Tão morbido me sinto, ao accender das luzes;
+Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
+Chora-me o coração que se enche e que se abysma.
+
+ A espaços, illuminam-se os andares,
+E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
+Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
+E a lua lembra o circo e os jogos malabares.
+
+ Duas egrejas, n'um saudoso largo,
+Lançam a nodoa negra e funebre do clero:
+N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
+Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.
+
+ Na parte que abateu no terremoto,
+Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
+Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
+E os sinos d'um tanger monastico e devoto.
+
+ Mas, n'um recinto publico e vulgar,
+Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
+Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
+Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!
+
+ E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
+N'esta accumulação de corpos enfezados;
+Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
+Inflamma-se um palacio em face de um casebre.
+
+ Partem patrulhas de cavallaria
+Dos arcos dos quarteis que foram já conventos;
+Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
+Derramam-se por toda a capital, que esfria.
+
+ Triste cidade! Eu temo que me avives
+Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
+Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
+Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.
+
+ E mais: as costureiras, as floristas
+Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
+Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
+E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.
+
+ E eu, de luneta de uma lente só,
+Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
+Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
+Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.
+
+
+III
+
+AO GAZ
+
+ E saio. A noite peza, esmaga. Nos
+Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
+Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras
+Um sopro que arripia os hombros quasi nús.
+
+ Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
+Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
+Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
+Em uma cathedral de um comprimento immenso.
+
+ As burguezinhas do Catholocismo
+Resvalam pelo chão minado pelos canos;
+E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
+As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.
+
+ N'um cutileiro, de avental, ao torno,
+Um forjador maneja um malho, rubramente;
+E de uma padaria exhala-se, inda quente,
+Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
+
+ E eu que medito um livro que exarcebe,
+Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
+Casas de confecções e modas resplandecem;
+Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.
+
+ Longas descidas! Não poder pintar
+Com versos magistraes, salubres e sinceros,
+A esguia diffusão dos vossos reverberos,
+E a vossa pallidez romantica e lunar!
+
+ Que grande cobra, a lubrica pessoa,
+Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
+Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo,
+Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
+
+ E aquella velha, de bandós! Por vezes,
+A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
+Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
+Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.
+
+ Desdobram-se tecidos estrangeiros;
+Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
+Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
+E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,
+
+ Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes
+Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
+Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
+Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.
+
+ «Dó da miseria!... Compaixão de mim!...»
+E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
+Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
+Meu velho professor nas aulas de latim!
+
+
+IV
+
+HORAS MORTAS
+
+ O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
+Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
+Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
+Enleva-me a chimera azul de transmigrar.
+
+ Por baixo, que portões! Que arruamentos!
+Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
+Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
+E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.
+
+ E eu sigo, como as linhas de uma pauta
+A dupla correnteza augusta das fachadas;
+Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
+As notas pastoris de uma longiqua flauta.
+
+ Se eu não morresse, nunca! E eternamente
+Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
+Esqueço-me a prever castissimas esposas,
+Que aninhem em mansões de vidro transparente!
+
+ Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
+Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
+Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
+N'umas habitações translucidas e frageis.
+
+ Ah! Como a raça ruiva do porvir,
+E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes,
+Nós vamos explorar todos os continentes
+E pelas vastidões aquaticas seguir!
+
+ Mas se vivemos, os emparedados,
+Sem arvores, no valle escuro das muralhas!...
+Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
+E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.
+
+ E n'estes nebulosos corredores
+Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
+Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
+Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
+
+ Eu não receio, todavia, os roubos;
+Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
+E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
+Amarelladamente, os cães parecem lobos.
+
+ E os guardas, que revistam as escadas,
+Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
+Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros,
+Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
+
+ E, enorme, n'esta massa irregular
+De predios sepulchraes, com dimensões de montes,
+A Dôr humana busca os amplos horisontes,
+E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
+
+
+
+DE TARDE
+
+N'aquelle «pic-nic» de burguezas,
+Houve uma cousa simplesmente bella,
+E que, sem ter historia nem grandezas,
+Em todo o caso dava uma aguarella.
+
+Foi quando tu, descendo do burrico,
+Foste colher, sem imposturas tolas,
+A um granzoal azul de grão de bico
+Um ramalhete rubro de papoulas.
+
+Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
+Nós acampámos, inda o sol se via;
+E houve talhadas de melão, damascos,
+E pão de ló molhado em malvasia.
+
+Mas, todo purpuro a sahir da renda
+Dos teus dois seios como duas rolas,
+Era o supremo encanto da merenda
+O ramalhete rubro das papoulas!
+
+
+
+EM PETIZ
+
+
+I
+
+DE TARDE
+
+Mais morta do que viva, a minha companheira
+Nem força teve em si para soltar um grito;
+E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
+Como um homemzarrão servi-lhe de barreira!
+
+Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
+Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
+E, têtas a abanar, as mães de largas ancas,
+Desciam mais atraz, malhadas e turinas.
+
+Do seio do logar--casitas com postigos--
+Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
+Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
+Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!
+
+Nós davamos, os dois, um giro pelo valle:
+Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos!
+E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
+Roçavam pelo teu «costume de percale».
+
+Já não receias tu essa vaquita preta,
+Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
+Que estavas a tremer, cosida com o muro,
+Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
+
+
+II
+
+OS IRMÃOSINHOS
+
+Pois eu, que no deserto dos caminhos,
+Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
+Eu, que apartava as mansas das velhacas,
+Fugia com terror dos pobresinhos!
+
+Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
+Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
+Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
+E os cegos que se apoiam sobre o moço.
+
+Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
+Ou que a poeira no suor mascarra,
+Chegam das feiras a tocar guitarra,
+Rolam os olhos como dois escarros!
+
+E os pobres mettem medo! Os de marmita,
+Para forrar, por anno, alguns patacos,
+Entrapam-se nas mantas com buracos,
+Choramingando, a voz rachada, afflicta.
+
+Outros pedincham pelas cinco chagas;
+E no poial, tirando as ligaduras,
+Mostram as pernas putridas, maduras,
+Com que se arrastam pelas azinhagas!
+
+Querem viver! E picam-se nos cardos;
+Correm as villas; sobem os outeiros;
+E ás horas de calor, nos esterqueiros,
+De roda d'elles zumbem os moscardos.
+
+Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
+Batiam ao portão com seus cajados;
+E um aleijado com os pés quadrados,
+Pedia-nos de cima de um jumento.
+
+O resmungão! Que barbas! Que saccolas!
+Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
+Dormia as noutes por telheiros rotos,
+E sustentava o burro a pão d'esmolas.
+
+ * * * * *
+
+Ó minha loura e doce como um bolo!
+Affavel hospeda na nossa casa,
+Logo que a torrida cidade abraza,
+Como um enorme fôrno de tijolo!
+
+Tu visitavas, esmoler, garrida,
+Umas creanças n'um casal queimado;
+E eu, pela estrada, espicaçava o gado,
+N'uma attitude esperta e decidida.
+
+Por lobishomens, por papões, por bruxas,
+Nunca soffremos o menor receio.
+Temieis vós, porém, o meu aceio,
+Mendigasitas sordidas, gorduchas!
+
+Vicios, sezões, epidemias, furtos,
+De certo, fermentavam entre lixos;
+Que podridão cobria aquelles bichos!
+E que luar nos teus fatinhos curtos!
+
+ * * * * *
+
+Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
+Ruça, descalça, a trote nos atalhos,
+E que lavava o corpo e os seus retalhos
+No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.
+
+E a douda a quem chamavam a «Ratada»
+E que fallava só! Que antipathia!
+E se com ella a malta contendia,
+Quanta indecencia! Quanta palavrada!
+
+Uns operarios, n'estes descampados,
+Tambem surdiam, de chapeu de côco,
+Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
+Artistas despedidos, desgraçados.
+
+Muitos! E um bebedo--o Camões--que fôra
+Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
+Com uma pala verde sobre um olho!
+Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.
+
+E o resto? Bandos de selvagensinhos:
+Um nú que se gabava de maroto;
+Um, que cortada a mão, coçava o coto,
+E os bons que nos tratavam por padrinhos.
+
+Pediam fatos, botas, cobertores!
+Outro jogava bem o pau, e vinha
+Chorar, humilde, junto da coxinha!
+«Cinco réisinhos!... Nobres bemfeitores!...
+
+E quando alguns ficavam nos palheiros,
+E de manhã catavam os piolhos:
+Emquanto o sol batia nos restolhos
+E os nossos cães ladravam, resingueiros!
+
+Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
+Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
+Sulcavam as calçadas, de muletas;
+Cantavam, no pomar, os pintarroxos!
+
+
+III
+
+HISTORIAS
+
+Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
+Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
+Assim que um besuntão dos taes se apercebia
+Da minha blusa azul e branca, de riscado.
+
+Minaveis, ao serão, a cabecita loira,
+Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
+Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
+E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!
+
+Na noite velha, a mim, como tições ardendo,
+Fitavam-me os olhões pesados das ciganas;
+Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
+Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.
+
+E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos,
+Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
+Sonhava que os ladrões--homens de quem m'espanto
+Roubavam para azeite a carne dos meninos!
+
+E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
+Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
+Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
+Branca de susto, meiga e miope, estacando!
+
+
+
+NÓS
+
+A A. de S. V.
+
+
+I
+
+Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
+E o Cholera tambem andaram na cidade,
+Que esta população, com um terror de lebre,
+Fugiu da capital como da tempestade.
+
+Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
+(Até então nós só tiveramos sarampo),
+Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
+Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.
+
+Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
+O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
+Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
+Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
+
+Na parte mercantil, foco da epidemia,
+Um panico! Nem um navio entrava a barra,
+A alfandega parou, nenhuma loja abria,
+E os turbolentos caes cessaram a algazarra.
+
+Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados,
+Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
+Que triste a sucessão dos armazens fechados!
+Como um domingo inglez na «city», que desterro!
+
+Sem canalisação, em muitos burgos ermos,
+Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros.
+E os medicos, ao pé dos padres e coveiros,
+Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!
+
+Uma illuminação a azeite de purgueira,
+De noite amarellava os predios macillentos.
+Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira
+Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.
+
+Porém, lá fora, á solta, exageradamente
+Emquanto acontecia essa calamidade,
+Toda a vegetação, plethorica, potente,
+Ganhava immenso com a enorme mortandade!
+
+N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
+N'uma opulenta furia as novidades todas,
+Como uma universal celebração de bodas,
+Amaram-se! E depois houve soberbos partos.
+
+Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
+Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas,
+E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
+Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas.
+
+Elle d'um lado, via os filhos achacados,
+Um livido flagello e uma molestia horrenda!
+E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
+E um salutar refugio e um lucro na vivenda!
+
+E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
+É todo o meu amor de todos estes annos!
+Nós vamos para lá; somos provincianos,
+Desde o calor de maio aos frios de novembro!
+
+II
+
+Que de fructa! E que fresca e temporã,
+Nas duas boas quintas bem muradas,
+Em que o sol, nos talhões e nas latadas,
+Bate de chapa, logo de manhã!
+
+O laranjal de folhas negrejantes,
+(Porque os terrenos são resvaladiços)
+Desce em socalcos todos os macissos,
+Como uma escadaria de gigantes.
+
+Das courellas, que criam cereaes,
+De que os donos--ainda!--pagam foros.
+Dividem-n'o fechados pitosporos,
+Abrigos de raizes verticaes.
+
+Ao meio, a casaria branca assenta
+Á beira da calçada, que divide
+Os escuros pomares de pevide,
+Da vinha, n'uma encosta soalhenta!
+
+Entretanto, nao ha maior prazer
+Do que, na placidez das duas horas,
+Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
+No largo tanque as bicas a correr!
+
+Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
+Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
+O seu leito é um atalho de passagem,
+Pedregosissimo, entre dois logares.
+
+Como lhe luzem seixos e burgaus
+Roliçõs! Marinham nas ladeiras
+Os renques africanos das piteiras,
+Que como áloes espigam altos paus!
+
+Montanhas inda mais longiquamente,
+Com restevas, e combros como boças,
+Lembram cabeças estupendas, grossas,
+De cabello grisalho, muito rente.
+
+E, a contrastar, nos valles, em geral,
+Como em vidraça d'uma enorme estufa,
+Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa,
+D'uma vitalidade equatorial!
+
+Que de frugalidades nós criamos!
+Que torrão espontaneo que nós somos!
+Pela outomnal maturação dos pomos,
+Com a carga, no chão pousam os ramos.
+
+E assim postas, nos barros e areiaes,
+As maceiras vergadas fortemente,
+Parecem, d'uma fauna surprehendente,
+Os polypos enormes, diluviaes.
+
+Comtudo, nós não temos na fazenda
+Nem uma planta só de mero ornato!
+Cada pé mostra-se util, é sensato,
+Por mais finos aromas que rescenda!
+
+Finalmente, na fertil depressão,
+Nada se vê que a nossa mão não regre:
+A florescencias d'um matiz alegre
+Mostra um sinal--a fructificação!
+
+ * * * * *
+
+Ora, ha dez annos, n'este chão de lava
+E argila e areia e alluviões dispersas,
+Entre especies botanicas diversas,
+Forte, a nossa familia radiava!
+
+Unicamente, a minha doce irmã,
+Como uma tenue e immaculada rosa,
+Dava a nota galante e melindrosa
+Na trabalheira rustica, aldeã.
+
+E foi n'um anno prodigo, excellente,
+Cuja amargura nada sei que adoce,
+Que nós perdemos essa flor precoce,
+Que cresceu e morreu rapidamente!
+
+Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
+E, sendo fracos, sejam generosos!
+As doenças assaltam os bondosos
+E--custa a crer--deixam viver os maus!
+
+ * * * * *
+
+Fecho os olhos cançados, e descrevo
+Das telas da memoria retocadas,
+Biscates, hortas, batataes, latadas,
+No paiz montanhoso, com relevo!
+
+Ah! Que aspectos benignos e ruraes
+N'esta localidade tudo tinha,
+Ao ires, com o banco de palhinha,
+Para a sombra que faz nos parreiraes!
+
+Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente
+Que uma folha se mova ou se desmanche,
+Tu, refeita e feliz com o teu «lunch»,
+Nos ajudavas, voluntariamente!...
+
+Era admiravel--n'este grau do Sul!--
+Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
+Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
+Que eu embarcava para Liverpool.
+
+A exportação de frutas era um jogo:
+Dependiam da sorte do mercado
+O boal, que é de perolas formado,
+E o ferral, que é ardente e côr de fogo!
+
+Em agosto, ao calor canicular,
+Os passaros e enxames tudo infestam;
+Tu cortavas os bagos que não prestam
+Com a tua thesoura de bordar.
+
+Douradas, pequeninas, as abelhas,
+E negros, volumosos, os besoiros,
+Circumdavam, com impetos de toiros,
+As tuas candidissimas orelhas.
+
+Se uma vespa lançava o seu ferrão
+Na tua cutis--petala de leite!--
+Nós collocavamos dez réis e azeite
+Sobre a galante, a rosea inflammação!
+
+E se um de nós, já farto, arrenegado,
+Com o chapeo caçava a bicharia,
+Cada zangão voando, á luz do dia,
+Lembrava o teu dedal arremessado.
+
+ * * * * *
+
+Que d'encantos! Na força do calor
+Desabrochavas no padrão da bata,
+E, surgindo da gola e da gravata,
+Teu pescoço era o caule d'uma flor!
+
+Mas que cegueira a minha! Do teu porte
+A fina curva, a indefinida linha,
+Com bondades d'herbivora mansinha,
+Eram prenuncios de fraqueza e morte!
+
+Á procura da libra e do «schilling»,
+Eu andava abstracto e sem que visse
+Que o teu alvor romantico de «miss»
+Te obrigava a morrer antes de mim!
+
+E antes tu, ser lindissimo, nas faces
+Tivesses «panno» como as camponezas;
+E sem brancuras, sem delicadezas,
+Vigorosa e plebeia, inda durasses!
+
+Uns modos de carnivora feroz
+Podias ter em vez de inoffensivos;
+Tinhas caninos, tinhas incisivos,
+E podias ser rude como nós!
+
+Pois n'este sítio, que era de sequeiro,
+Todo o genero ardente resistia,
+E, á larguissima luz do Meio-dia,
+Tomava um tom opalico e trigueiro!
+
+ * * * * *
+
+Sim! Europa do Norte, o que suppões
+Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
+Quando ás dockas, com fructas, os paquetes
+Chegam antes das tuas estações?!
+
+Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra
+E as tuas frutas acidas, tardias,
+No azedo amoniacal das queijarias
+Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!
+
+Ó cidades fabris, industriaes,
+De nevoeiros, poeiradas de hulha,
+Que pensaes do paiz que vos atulha
+Com a fructa que sae dos seus quintaes?
+
+Todos os annos, que frescor se exhala!
+Abundancias felizes que eu recordo!
+Carradas brutas que iam para bórdo!
+Vapores por aqui fazendo escala!
+
+Uma alta parreira muscatel
+Por doce não servia para embarque:
+Palacios que rodeiam Hyde-Park,
+Não conheceis esse divino mel!
+
+Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado,
+Não as têm nas florestas em que ha corças,
+Nem em vós que dobraes as vossas forças,
+Pradarias d'um verde illimitado!
+
+Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
+Ricos suicidas, comparae comvosco!
+Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
+Facilimo, evidente, salutar!
+
+Opponde ás regiões que dão os vinhos
+Vossos montes d'escorias inda quentes!
+E as febris officinas estridentes
+Ás nossas tecelagens e moinhos!
+
+E ó condados mineiros! Extensões
+Carboniferas! Fundas galerias!
+Fabricas a vapor! Cutelarias!
+E mechanicas, tristes fiações!
+
+Bem sei que preparaes correctamente
+O aço e a seda, as laminas e o estofo;
+Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
+Tudo o que ha de mais rijo e resistente!
+
+Mas isso tudo é falso, é machinal,
+Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
+Com essa perfeição do fabricado,
+Sem o rythmo do vivo e do real!
+
+E cá o santo sol, sobre isso tudo,
+Faz conceber as verdes ribanceiras;
+Lança as rosaceas bellas e fructeiras
+Nas searas de trigo palhagudo!
+
+Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
+Londres sombria, em que scintilla a corte!...
+Mesmo que tu, que vives a compor-te,
+Grande seio arquejante de Paris!...
+
+Ah! Que de gloria, que de colorido,
+quando, por meu mandado e meu conselho,
+Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»
+Que Herbert Spencer talvez tenha comido!
+
+Para alguns são prosaicos, são banaes
+Estes versos de fibra succolenta;
+Como se a polpa que nos dessedenta
+Nem ao menos valesse uns madrigaes!
+
+Pois o que a bocca trava com surprezas
+Senão as frutas tónicas e puras!
+Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
+A graça vegetal das sobremesas!...
+
+Jack, marujo inglez, tu tens razão
+Quando, ancorando em portos como os nossos,
+As laranjas com cascas e caróços
+Comes com bestial soffreguidão!...
+
+ * * * * *
+
+A impressão d'outros tempos, sempre viva,
+Dá estremeções no meu passado morto,
+E inda viajo, muita vez, absorto,
+Pelas varzeas da minha retentiva.
+
+Então recordo a paz familiar,
+Todo um painel pacifico d'enganos!
+E a distancia fatal d'uns poucos annos
+É uma lente convexa, d'augmentar.
+
+Todos os typos mortos resuscito!
+Perpetuam-se assim alguns minutos!
+E eu exagéro os casos diminutos
+Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.
+
+Pinto quadros por lettras, por signaes,
+Tão luminosos como os do Levante,
+Nas horas em que a calma é mais queimante,
+Na quadra em que o verão aperta mais.
+
+Como destacam, vivas, certas cores,
+Na vida externa cheia d'alegrias!
+Horas, vozes, locaes, physionomias,
+As ferramentas, os trabalhadores!
+
+Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
+E a rama do pinheiro! Eu adivinho
+O resinoso, o tão agreste pinho
+Serrado nos pinhaes da beira mar.
+
+Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
+Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;
+Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
+Sob uma calma espessa e calaceira!
+
+Feias e fortes! Punham-lhes papel,
+A forral-as. E em grossa serradura
+Acamava-se a uva prematura
+Que não deve servir para tonel!
+
+Cingiam-n'as com arcos de castanho
+Nas ribeiras cortados, nos riachos;
+E eram d'assucar e calor os cachos,
+Criados pelo esterco e pelo amanho!
+
+Ó pobre estrume, como tu compões
+Estes pampanos doces como afagos!
+«Dedos de dama»: transparentes bagos!
+«Tetas de cabra»: lacteas carnações!
+
+E não eram caixitas bem dispostas
+Como as passas de Malaga e Alicante;
+Com sua fórma estavel, ignorante,
+Estas pesavam, brutalmente, ás costas!
+
+Nos vinhatorios via fulgurar,
+Com tanta cal que torna as vistas cegas,
+Os parallelogramos das adegas,
+Que têm lá dentro as dornas e o lagar!
+
+Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
+Que grande azafama! Apressadamente
+Como soava um martellar frequente,
+Véspera da saida dos navios!
+
+Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
+Tudo tem certo espirito secreto!
+Com folhas de saudades um objecto
+Deita raizes duras de arrancar!
+
+As navalhas de volta, por exemplo,
+Cujo bico de passaro se arqueia,
+Forjadas no casebre d'uma aldeia,
+São antigas amigas que eu contemplo!
+
+Ellas, em seu labor, em seu lidar,
+Com sua ponta como a da podoas,
+Serviam próbas, uteis, dignas, boas,
+Nunca tintas de sangue e de matar.
+
+E as enxós de martello, que d'um lado
+Cortavam mais do que as enxadas cavam,
+Por outro lado, rápidas, pregavam,
+D'uma pancada, o prego fasquiado!
+
+O meu animo verga na abstracção,
+Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
+Mas se de materiaes descubro um veio
+Ganho a musculatura d'um Sansão!
+
+E assim--e mais no povo a vida é corna--
+Amo os officios como o de ferreiro,
+Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
+Seu malho retumbante na bigorna!
+
+E sinto, se me ponho a recordar
+Tanto utensilio, tantas perspectivas,
+As tradições antigas, primitivas,
+E a formidavel alma popular!
+
+Oh! Que brava alegria eu tenho quando
+Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
+Faço um trabalho technico, violento,
+Cantando, praguejando, batalhando!
+
+ * * * * *
+
+Os fruteiros, tostados pelos soes,
+Tinham passado, muita vez, a raia,
+E, espertos, entre os mais da sua laia,
+--Pobres camponios--eram uns heroes.
+
+E por isso, com phrases imprevistas,
+E colorido e estylo e valentia,
+As «haciendas» que ha na «Andalucia»
+Pintavam como novos paysagistas.
+
+De como, ás calmas, n'essas excursões,
+Tinham aguas salobras por refrescos;
+E amarellos, enormes, gigantescos,
+Lá batiam o queixo com sesões!
+
+Tinham corrido já na adusta Hespanha,
+Todo um fertil plató sem arvoredos,
+Onde armavam barracas nos vinhedos,
+Como tendas alegres de campanha.
+
+Que pragas castelhanas, que alegrão,
+Quanto contavam scenas de pousadas!
+Adoravam as cintas encarnadas
+E as côres, como os pretos do sertáo!
+
+E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
+A educação vistosa das viagens!
+Uns por terra partiam e estalagens,
+Outros, aos montes, no convez d'um brigue!
+
+Só um havia, triste e sem fallar
+Que arrastava a maior misantropia,
+E, roxo como um figado, bebia
+O vinho tinto que eu mandava dar!
+
+Pobre da minha geração exangue
+De ricos! Antes, como os abrutados,
+Andar com uns sapatos encebados,
+E ter riqueza chimica no sangue!
+
+ * * * * *
+
+Mas hoje a rustica lavoura, quer
+Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,
+Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro
+E a filharada lidam, e a mulher!...
+
+Desde o princípio ao fim é uma maçada
+De mil demonios! Torna-se preciso
+Ter-se muito vigor, muito juizo
+Para trazer a vida equilibrada!
+
+Hoje eu sei quanto custam a criar
+As cepas, desde que eu as pódo e empo.
+Ah! O campo não é um passatempo
+Com bucolismos, rouxinoes, luar.
+
+A nós tudo nos rouba e nos dizima:
+O rapazio, o imposto, as pardaladas,
+As osgas peçonhentas, achatadas,
+E as abelhas que engordam na vindima.
+
+E o pulgão, a lagarta, os caracoes,
+E ha inda, alem do mais com que se ateima,
+As intemperies, o granizo, a queima,
+E a concorrencia com os hespanhoes.
+
+Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
+Competem contra os nossos fazendeiros.
+Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,
+Por uma cotação que nos desvia!
+
+Pois tantos contras, rudes como são,
+Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
+Venham de lá pesados os comboyos
+E os «buques» estivados no porão!
+
+Não, não é justo que eu a culpa lance
+Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
+Nós não vivemos só de coisas bellas,
+Nem tudo corre como n'um romance!
+
+Para a Terra parir hade ter dor,
+E é para obter as asperas verdades,
+Que os agronomos cursam nas cidades,
+E, á sua custa, aprende o lavrador.
+
+Ah! Não eram insectos nem as aves
+Que nos dariam dias tão difficeis,
+Se vós, sabios, na gente descobrisseis
+Como se curam as doenças graves.
+
+Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
+Difficultoso trato das cearas!
+Lutas constantes sobre as jornas caras!
+Compras de bois nas feiras annuaes!
+
+O que a alegria em nós destroe e mata,
+Não é rede arrastante d'escalracho,
+Nem é «suão» queimante como um facho,
+Nem invasões bulhosas d'herva pata.
+
+Podia ter seccado o poço em que eu
+Me debruçava e te pregava sustos,
+E mais as hervas, arvores e arbustos
+Que--tanta vez!--a tua mão colheu.
+
+«Molestia negra» nem «charbon» não era,
+Como um archote incendiando as parras!
+Tão pouco as bastas e invisiveis garras,
+Da enorme legião do phylloxera!
+
+Podiam mesmo, com o que contêm,
+Os muros ter caido às invernias!
+Somos fortes! As nossas energias
+Tudo vencem e domam muito bem!
+
+Que os rios, sim, que como touros mugem,
+Transbordando atulhassem as regueiras!
+Chorassem de resina as larangeiras!
+Ennegrecessem outras com ferrugem!
+
+As turvas cheias de novembro, em vez
+Do nateiro subtil que fertilisa,
+Fossem a inundação que tudo pisa,
+No rebanho afogassem muita rez!
+
+Ah! N'esse caso pouco se perdera,
+Pois isso tudo era um pequeno damno,
+Á vista do cruel destino humano
+Que os dedos te fazia como cera!
+
+Era essa tysica em terceiro grau,
+Que nos enchia a todos de cuidado,
+Te curvava e te dava um ar alado
+Como quem vae voar d'um mundo mau.
+
+Era a desolação que inda nos mina
+(Porque o fastio é bem peior que a fome)
+Que a meu pai deu a curva que a consome,
+E a minha mãe cabellos de platina.
+
+Era a chlorose, esse tremendo mal,
+Que desertou e que tornou funesta
+A nossa branca habitação em festa
+Reverberando a luz meridional.
+
+Não desejemos,--nós os sem defeitos,--
+Que os tysicos pereçam! Má theoria,
+Se pelos meus o apuro principia,
+Se a Morte nos procura em nossos leitos!
+
+A mim mesmo, que tenho a pretensão
+De ter saude, a mim que adoro a pompa
+Das forças, pode ser que se me rompa
+Uma arteria, e me mine uma lesão.
+
+Nós outros, teus irmãos, teus companheiros,
+Vamos abrindo um matagal de dores!
+E somos rijos como os serradores!
+E positivos como os engenheiros!
+
+Porém, hostis, sobresaltados, sós,
+Os homens architectam mil projectos
+De victoria! E eu duvido que os meus netos
+Morram de velhos como os meus avós!
+
+Porque, parece, ou fortes ou velhacos
+Serão apenas os sobreviventes;
+E ha pessoas sinceras e clementes,
+E troncos grossos com seus ramos fracos!
+
+E que fazer se a geração decae!
+Se a seiva genealogica se gasta!
+Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
+Morre o filho primeiro do que o pai!
+
+Mas seja como for, tudo se sente
+Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
+Ó flor cortada, susceptivel, alta,
+Que assim seccaste prematuramente!
+
+Eu que de vezes tenho o desprazer
+De reflectir no tumulo! E medito
+No eterno Incognoscivel infinito,
+Que as idéas não podem abranger!
+
+Como em paul em que nem cresça a junca
+Sei d'almas estagnadas! Nós absortos,
+Temos ainda o culto pelos Mortos,
+Esses ausentes que não voltam nunca!
+
+Nós ignoramos, sem religião,
+Ao rasgarmos caminho, a fé perdida,
+Se te vemos ao fim d'esta avenida
+Ou essa horrivel aniquilação!...
+
+E ó minha martyr, minha virgem, minha
+Infeliz e celeste creatura,
+Tu lembras-nos de longe a paz futura,
+No teu jazigo, como uma santinha!
+
+E emquanto a mim, és tu que substitues
+Todo o mysterio, toda a santidade,
+Quando em busca do reino da verdade
+Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!
+
+
+III
+
+Tinhamos nós voltado á capital maldicta,
+Eu vinha de polir isto tranquillamente,
+Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
+Pois um de nós caiu, de subito, doente.
+
+Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
+Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
+E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
+Com que se despediu de todos e do mundo!
+
+Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
+Não sei d'um infortunio immenso como o seu!
+Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
+E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!
+
+De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
+Como tanta crueldade e tantas injustiças,
+Se inda trabalho é como os presos no degredo,
+Com planos de vingança e idéas insubmissas.
+
+E agora, de tal modo a minha vida é dura,
+Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
+Que sinto só desdem pela litteratura,
+E até desprézo e esqueço os meus amados versos!
+
+
+
+PROVINCIANAS
+
+
+I
+
+Olá! Bons dias! Em março
+Que mocetona e que joven
+A terra! Que amor esparso
+Corre os trigos, que se movem
+Ás vagas d'um verde garço!
+
+Como amanhece! Que meigas
+As horas antes de almoço!
+Fartam-se as vaccas nas veigas
+E um pasto orvalhado e moço
+Produz as novas manteigas.
+
+Toda a paizagem se doura;
+Tibida ainda, que frecas!
+Bella mulher, sim senhora,
+N'esta manhã pittoresca,
+Primaveral, creadora!
+
+Bom sol! As sebes d'encosto
+Dão madresilvas cheirosas
+Que entotecem como um mosto
+Floridas, ás espinhosas
+Subio-lhes o sangue ao rosto.
+
+Cresce o relevo dos montes,
+Como seios offegantes;
+Murmuram como umas fontes
+Os rios que dias antes
+Bramiam galgando pontes.
+
+E os campos, milhas e milhas,
+Com póvos d'espaço a espaço,
+Fazem-se ás mil maravilhas;
+Dir-se-ia o mar de sargaço
+Glauco, ondulante, com ilhas!
+
+Pois bem. O inverno deixou-nos.
+É certo. E os grãos e as sementes
+Que ficam d'outros outonos
+Acordam hoje frementes
+Depois d'uns poucos de somnos.
+
+Mas nem tudo são descantes
+Por esses longos caminhos
+Entre favaes palpitantes
+Há solos bravos, maninhos,
+Que expulsam seus habitantes!
+
+E n'esta quadra d'amores
+Que emigram os jornaleiros
+Ganhões e trabalhadores!
+Passam clans de forasteiros
+Nas terras de lavradores.
+
+Tal como existem mercados
+Ou feiras, semanalmente
+Para comprarmos os gados
+Assim ha praças de gente
+Pelos domingos calados!
+
+Emquanto a ovelha arredonda,
+Vão tribus de sete filhos,
+Por varzeas que fazem onda,
+Para as derregas dos milhos
+E molhadellas da monda.
+
+De roda pulam borregos;
+Enchem então as cardosas
+As moças d'esses labregos
+Com altas botas bartrosas
+De se atirarem aos regos!
+
+Eil-as que vem ás manadas
+Com caras de soffrimento,
+Nas grandes marchas forçadas!
+Vem ao trabalho, ao sustento,
+Com fouces, sachos, enchadas!
+
+Ai o palheiro das servas
+Se o feitor lhe tira as chaves!
+Ellas chegam ás catervas,
+Quando acasalam as aves
+E se fecundam as hervas!...
+
+
+II
+
+Ao meio dia na cama,
+Branca fidalga o que julga
+Das pequenas da su'ama?!
+Vivem minadas da pulga
+Negras do tempo e da lama.
+
+Não é caso que a commova
+Ver suas irmans de leite,
+Quer faça frio, quer chova,
+Sem uma mamã que as deite
+Na tepidez d'um alcova?!
+
+Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.
+
+
+NOTAS
+
+Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
+freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
+Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José
+Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos
+Santos Verde.
+
+ * * * * *
+
+A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
+o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
+Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
+Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga.
+Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
+poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
+Realmente o eram--pela hesitação do neophyto.
+
+ * * * * *
+
+Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje
+respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
+poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de
+menos folego.
+
+ * * * * *
+
+No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
+de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
+tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
+da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas.
+Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
+promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
+--ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.
+
+Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
+os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos
+insultos.
+
+ * * * * *
+
+Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes,
+pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
+como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição
+será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas.
+
+1887.
+
+S. P.
+
+
+INDICE
+
+Dedicatoria
+Prefacio
+
+VERSOS
+
+CRISE ROMANESCA
+
+Deslumbramentos
+Septentrional
+Meridional
+Ironias do Desgosto
+Humilhações
+Responso
+
+NATURAES
+
+Contrariedades
+A debil
+N'um bairro moderno
+Crystalisações
+Noites gelidas
+Sardenta
+Flores velhas
+Noite fechada
+Manhans brumosas
+Frigida
+De verão
+O sentimento d'um occidental
+De tarde
+Em petiz
+Nós
+Provincianas
+
+Notas
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE ***
+
+***** This file should be named 8698-8.txt or 8698-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/8/6/9/8698/
+
+Produced by João Miguel Neves from images of the National
+Digital Library project from the National Library of
+Portugal.
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions will
+be renamed.
+
+Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
+law means that no one owns a United States copyright in these works,
+so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
+States without permission and without paying copyright
+royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
+of this license, apply to copying and distributing Project
+Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
+concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
+and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
+specific permission. If you do not charge anything for copies of this
+eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
+for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
+performances and research. They may be modified and printed and given
+away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
+not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
+trademark license, especially commercial redistribution.
+
+START: FULL LICENSE
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
+Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
+www.gutenberg.org/license.
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
+Gutenberg-tm electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or
+destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
+possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
+Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
+by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
+person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
+1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
+agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
+electronic works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
+Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
+of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
+works in the collection are in the public domain in the United
+States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
+United States and you are located in the United States, we do not
+claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
+displaying or creating derivative works based on the work as long as
+all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
+that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
+free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
+works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
+Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
+comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
+same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
+you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
+in a constant state of change. If you are outside the United States,
+check the laws of your country in addition to the terms of this
+agreement before downloading, copying, displaying, performing,
+distributing or creating derivative works based on this work or any
+other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
+representations concerning the copyright status of any work in any
+country outside the United States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
+immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
+prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
+on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
+phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
+performed, viewed, copied or distributed:
+
+ This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+ most other parts of the world at no cost and with almost no
+ restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
+ under the terms of the Project Gutenberg License included with this
+ eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
+ United States, you'll have to check the laws of the country where you
+ are located before using this ebook.
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
+derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
+contain a notice indicating that it is posted with permission of the
+copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
+the United States without paying any fees or charges. If you are
+redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
+Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
+either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
+obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
+trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
+additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
+will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
+posted with the permission of the copyright holder found at the
+beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
+any word processing or hypertext form. However, if you provide access
+to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
+other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
+version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
+(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
+to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
+of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
+Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
+full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
+provided that
+
+* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
+ to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
+ agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
+ Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
+ within 60 days following each date on which you prepare (or are
+ legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
+ payments should be clearly marked as such and sent to the Project
+ Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
+ Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
+ Literary Archive Foundation."
+
+* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or destroy all
+ copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
+ all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
+ works.
+
+* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
+ any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
+ receipt of the work.
+
+* You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
+Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
+are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
+from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
+Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
+trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
+Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
+electronic works, and the medium on which they may be stored, may
+contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
+or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
+intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
+other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
+cannot be read by your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium
+with your written explanation. The person or entity that provided you
+with the defective work may elect to provide a replacement copy in
+lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
+or entity providing it to you may choose to give you a second
+opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
+the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
+without further opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
+OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
+LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of
+damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
+violates the law of the state applicable to this agreement, the
+agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
+limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
+unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
+remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
+accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
+production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
+electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
+including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
+the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
+or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
+additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
+Defect you cause.
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of
+computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
+exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
+from people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
+generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
+Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
+www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
+U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
+mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
+volunteers and employees are scattered throughout numerous
+locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
+Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
+date contact information can be found at the Foundation's web site and
+official page at www.gutenberg.org/contact
+
+For additional contact information:
+
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
+DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
+state visit www.gutenberg.org/donate
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations. To
+donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
+Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
+freely shared with anyone. For forty years, he produced and
+distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
+volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
+the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
+necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
+edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search
+facility: www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+