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-The Project Gutenberg eBook of A fallencia, by Júlia Lopes de
-Almeida
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: A fallencia
-
-Author: Júlia Lopes de Almeida
-
-Release Date: October 25, 2022 [eBook #69229]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- The Internet Archive.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FALLENCIA ***
-
-
- JULIA LOPES DE ALMEIDA
-
-
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-
- A FALLENCIA
-
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-
- 2ª EDIÇÃO
-
-
-
-
- RIO DE JANEIRO
-
- Officinas de Obras d'=A TRIBUNA=--rua do Ouvidor 132
-
- 1901
-
-
-
-
-INDICE
-CAPITULO I
-CAPITULO II
-CAPITULO III
-CAPITULO IV
-CAPITULO V
-CAPITULO VI
-CAPITULO VII
-CAPITULO VIII
-CAPITULO IX
-CAPITULO X
-CAPITULO XI
-CAPITULO XII
-CAPITULO XIII
-CAPITULO XIV
-CAPITULO XV
-CAPITULO XVI
-CAPITULO XVII
-CAPITULO XVIII
-CAPITULO XIX
-CAPITULO XX
-CAPITULO XXI
-CAPITULO XXII
-CAPITULO XXIII
-CAPITULO XXIV
-CAPITULO XXV
-
-
-
-
-A FALLENCIA
-
-
-
-
-I
-
-
-O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras,
-bafejando um ar de fornalha na atmosphera. Toda a rua de S. Bento,
-atravancada por vehiculos pesadões e estrepitosos, cheirava á café
-crú. Era hora de trabalho.
-
-Entre o fragor das ferragens sacudidas, o gyro ameaçador das rodas e os
-corcovos de animaes contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando,
-compacto e esbaforido.
-
-Á porta do armazem de Francisco Theodoro era nesse dia grande o
-movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as
-saccas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:
-
---Andem com isso, que ás onze horas tenho de estar nas Docas!
-
-E os carregadores vinham, succedendo-se com uma pressa phantastica,
-atirar as saccas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens
-de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal
-cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros,
-nús da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.
-
-Ao cheiro do café misturava-se o do suor d'aquelles corpos agitados,
-cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos
-braços.
-
-No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros,
-furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa
-do caminhão, todo derreado para a aniagem das saccas, respirando a
-poeirada que se levantava d'ellas. Os outros respondiam com eguaes
-improperios, que os cocheiros dos tilburys, em esperas forçadas, ouviam
-rindo, mastigando o cigarro.
-
-Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquillo, como formigas em
-correição, com a cabeça vergada ao peso da sacca, roçando o corpo
-latejante nas ancas lustrosas dos burros.
-
-Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de
-uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que
-invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os
-parallelepipedos da rua.
-
-Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em
-fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de
-piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento
-peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado
-a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam
-prospero. Enriqueciam-se com os sobejos.
-
-Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a
-moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o
-mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra
-barulhenta e desharmonica.
-
-A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se
-atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á
-cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao
-peso bruto.
-
-Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de
-aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de
-athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de
-guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a
-uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto.
-
-Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho,
-vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal,
-todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e
-as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.
-
-Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando
-um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o
-sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença
-para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da
-vida, num torvelinho de pó e gritaria.
-
-De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos,
-surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas,
-enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de
-protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua.
-
-Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa.
-
-No de Francisco Theodoro não havia paragem.
-
-O primeiro caixeiro, _seu_ Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas,
-de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de
-camisa, apressando os carregadores esbaforidos.
-
-Á porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de
-aço e latão todas as saccas que sahiam, para que se escapasse pela
-abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os
-passos nessa operação, e o café cahia cantando na soleira.
-
-Ao fundo, um rapazinho magro e amarello, o Ribas, apontava num caderno o
-numero de saccas que levavam, rente á escada de mão por onde os
-carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois
-pelo asphalto desgastado e denegrido do solo.
-
-Tudo era feito numa urgencia, obrigada a grande movimento.
-
-Um sopro ardente de vida, uma lufada de incendio bafejada por cem homens
-arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquelle
-extenso porão negro, sem janellas, ladeado de saccos sobrepostos e
-adornado nas vigas sujas do tecto por infinita quantidade de teias de
-aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo.
-
-De vez em quando, um ruido de cascata rolava pelo interior do armazem.
-Era o café, que ensaccavam na área do fundo, e que na quéda das pás
-desprendia um pó subtil e um cheiro violento.
-
-Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no
-som confuso, em que vozes humanas e rodas de vehiculos se amalgamavam
-com o estrupido das patas dos animaes.
-
-Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas
-corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito
-trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.
-
---Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!
-
-Era o seu estribilho.
-
-E havia sempre muito que fazer naquella casa, uma das mais graúdas no
-commercio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sózinho o
-caminho dos seus cofres, correndo para elles sem interrupção.
-
-Ao lado do armazem e communicando com elle por uma portinha estreita,
-havia á esquerda o corredor e a escada, que levava ao escriptorio,
-acima, no primeiro andar.
-
-Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra,
-guarda-livros, escrevia em pé, junto á escrivaninha collocada ao
-centro. Em outra carteira trabalhavam os dois ajudantes, um velho, o
-Motta, de sorriso amavel e modos submissos; e o outro, um moço bilioso
-de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.
-
-Nessa sala o trabalho era silencioso. As pennas não paravam, mal dando
-tempo ás mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas.
-Diziam-se phrases sem se levantar os olhos da escripta, e as perguntas
-eram apenas respondidas por monosyllabos.
-
-A um canto, sobre uma mesinha solida, entre uma das janellas e a parede,
-estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira
-pintada, a talha de philtro já ennegrecida pelo uso. Pelas paredes,
-pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e
-_cartas a responder_. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada,
-abria-se uma janella para o negrume do armazem, sob uma claraboia
-estreita, de pouca luz.
-
-Era em um gabinete, ao lado, com uma janella para a rua e egual avareza
-de mobilia, que o dono da casa escrevia a sua correspondencia, bem
-repousado em uma larga cadeira de braços.
-
-Elle alli estava, acabando de fechar uma carta.
-
-Toda a sua pessoa reçumava fartura e a altivez de quem sae victorioso
-de teimosa lucta. Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro,
-com os olhos garços tranquillos e os dentes brancos e pequeninos, tinha
-um bello ar de burguez satisfeito.
-
-Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos
-seus passos pesados.
-
-Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a
-que elle respondia com paciencia, indicando claramente as cousas, com
-minucias, para evitar confusões.
-
-Francisco Theodoro, á sua larga secretária de peroba, dava a face para
-o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas.
-
-Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta
-e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças.
-No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo
-seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio
-a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.
-
-Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento
-de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava
-primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem.
-
-Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um
-commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos
-Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga,
-recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli
-para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com
-palestras de seu interesse e do seu gosto.
-
-Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram.
-
-Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as
-calças.
-
---Homem! vocês tardaram...
-
---Culpa do Lemos...
-
-E depois:
-
---O senhor está com a casa repleta!
-
---Tenho exportado muito café!
-
---Felizardo! aproveite a epocha, que não póde ser melhor!
-
-Corria então o anno de 1891 em que o preço do café assumira
-proporções extraordinarias. O movimento crescia e casas pequenas
-galgavam aos saltos grandes posições.
-
---O que eu te invejo, disse o Ramos, unico que ousava tratar Theodoro
-por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engomma as camisas!
-
-Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa,
-que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito
-afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.
-
---Não é má essa, regougou o Lemos, o commendador Lemos, da
-Beneficencia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que
-nem de creança.
-
-Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do
-Innocencio, perguntando a Theodoro:
-
---Aqui o seu visinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o
-outro, hein?
-
---Homem, sempre é verdade aquillo?!
-
---Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no negocio...
-
-Fixaram todos a vista no Innocencio Braga. Era um homem pequenino,
-magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quasi
-imperceptivel.
-
---Custa-me a crêr nesses milagres ... ponderou Theodoro, pousando a
-chicara na bandeja que o Isidoro offerecia.
-
---Affirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazem e
-esperou a occasião. O sogro ajudou-o, está claro...
-
---Não meditou nas consequencias que poderiam sobrevir se se désse uma
-baixa.
-
---Quem falla em baixa?! Eu só lhe digo que o commercio do Rio de
-Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquelle.
-Senhores, a audacia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante
-não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus
-antepassados analphabetos. O negociante moderno age mais com o espirito
-do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas
-nobres do pensamento e do calculo. O Torres é de bom estofo; é
-d'estes. Conheço os homens.
-
-Olhavam todos para o Innocencio com um certo respeito, reconhecendo-lhe
-superioridade intellectual.
-
---O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.
-
-E logo o Innocencio accrescentou:
-
---Tambem aquelle está destinado a ser o nosso Rottschild!
-
-Theodoro contrahiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais
-habil, o mais forte fôra sempre o seu sonho...
-
-Voltando-se, inquiriu dos outros explicações meudas acerca d'aquelle
-negocio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e elle meditava
-no assumpto, alisando a barba grisalha, rente ás faces gordas e macias.
-
-O Negreiros, tendo dado volta á sala e enfiado pela porta do
-escriptorio o seu enorme nariz de cavallete, virou-se para os outros e
-disse a meia voz:
-
---Que diabo! não posso acostumar-me a vêr aquelle velho como ajudante
-de guarda-livros!
-
---Que quer você? murmurou Theodoro; o Mattos empenhou-se por elle e
-afinal a acquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá
-boa conta do recado não penso em substituil-o. É assiduo.
-
---Outro exquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o
-Joaquim ... ninguem dirá que é o mesmo, lá fóra...
-
---Muito carnavalesco e mettido com as damas, hein? Que se divirta, aqui
-trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descança-me.
-
---Ouvi dizer que elle vae casar com a Delphina do Recreio...
-
---Historias! o rapaz é serio.
-
---Tolo é que elle não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéo.
-
-O Innocencio despediu-se tambem; ia num pulo ao Torres. Os affazeres
-eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.
-
-Quando elle sahiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O
-commendador Lemos sentenciou:
-
---Este Innocencio é espertalhão! Está aqui, está director do banco.
-Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por elle... Tem uma
-labia!
-
---E sabe encostar-se a boas arvores. O Barros tem-lhe dado boas
-commissões e não é á toa que elle procura tanto agora o Torres...
-Mette-se sempre na melhor roda... Aquelle não veio de Portugal como
-nós, sem bagagem e cheirando a páo de pinheiro; trouxe luvas e meias
-de seda... O patife!
-
---São os que naufragam...
-
---Quando não vêm á caça e não têm o geitinho que este revela...
-Canta que nem um passaro, para attrahir a gente!
-
---É uma intelligencia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas
-as mãos o collete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se
-no sofázinho austriaco, teve uma ponta de censura para as cousas
-d'esta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado, a cidade
-infecta.
-
-Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadencia
-nem rhythmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua patria
-andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metaes mais polidos,
-os passos eguaezinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo
-mais aqui, o mesmo relaxamento.
-
-A maldita Republica acabaria de escangalhar o resto. Veriam.
-
-Só no fim perguntaram pelas familias.
-
---A proposito, perguntou o Ramos a Theodoro, aquella menina que vae
-tocar violino no concerto dos pobres é sua filha?
-
---Que concerto?
-
---De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal...
-
---Póde ser... são cousas lá da mãe ... a pequena tem um talentão; o
-proprio mestre espanta-se.
-
---E bonita! vi-a um d'estes dias, observou o Lemos.
-
---Não, isso não! por emquanto ainda não se póde comparar com a
-mãe ... protestou Francisco Theodoro, com sinceridade e um certo orgulho.
-
-Os outros sorriram.
-
---Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!
-
-Houve uma pausa.
-
---Realmente, insistiu Francisco Theodoro, o Gama Torres deu um cheque
-valente. Pois olhem, eu não dava nada por elle: um brasileirito
-magro...
-
---E começou outro dia!
-
---De mais a mais, parecia acanhado ... timido...
-
---Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre
-um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou
-razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso
-Rottschild...
-
---Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça
-nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é
-medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi!
-
---Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o
-commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu
-systema, observou Theodoro.
-
---Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario.
-Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.
-
---Porco?! bradaram os outros, indignados.
-
---Porco, confirmou o Ramos com solemnidade.
-
---Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o
-Lemos, o anafado.
-
-Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes
-da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao
-amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do
-Innocencio. Que talento!
-
---Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de
-pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete.
-
---Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida,
-maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido
-aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu?
-
---Com que diabo quereria elle que trabalhassemos?
-
---Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O nosso
-commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu por
-mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito e
-não aprendi nada.
-
-Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa
-visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia.
-
-Depois de um suspiro, Theodoro concluiu:
-
---Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos
-o tombo que isto leva!
-
-Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano
-desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva
-intenção.
-
-Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e
-assumptos lidos no _Jornal do Commercio_ do dia encheram um quarto de
-hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que
-aquella casa cheirava a dinheiro.
-
-Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo,
-Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de
-café, a dar informações.
-
---Estamos esperando o café do Simas.
-
-O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções
-do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem
-tem engulido.
-
---Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima?
-
-O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:--sim, senhor;
-depois gritou para o fundo:
-
---_Seu_ Ribas!
-
-O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a
-ver ensaccar o café.
-
-A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus
-serviços, deprimindo os alheios. _Seu_ Joaquim considerava-se o melhor
-empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros
-temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que
-elle não perdoava.
-
-O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe
-dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, _seu_ Joaquim lia
-uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha,
-que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda.
-
-Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar.
-Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho
-era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena
-triste, de africanos. Era mais bonito.
-
-As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido
-da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E
-ainda acham que as cousas se alteram de vagar!
-
-Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na
-atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou.
-O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas
-corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de
-trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a
-freguezia, accrescentando para o estimular:
-
---Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem
-mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas!
-
-O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco
-Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido.
-
-Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e
-pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça,
-dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de
-exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de
-financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de
-toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria
-justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do
-que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de
-esforço e de labor?
-
-Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a
-mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o
-mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.
-
---Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem...
-
---Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade...
-
-Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois
-para o seu gabinete.
-
-Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas
-fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça,
-guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de
-verão bafejava toda a rua febril.
-
-Os armazens, pelas boccas negras das suas portas escancaradas, vomitavam
-ainda saccas e saccas de café, que as locomotoras e as carroças
-levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da
-Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó que
-espalhavam no ar scintillações de ouro.
-
-
-
-
-II
-
-
-Em caminho de casa, Francisco Theodoro, recostado em um bond, persistia
-em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéas lhe fugiam para
-um curso perigoso.
-
-O exito do Torres quisilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o
-caminho, impedindo-o de chegar ao seu ultimo ponto de mira. Galgava-lhe
-de assalto a deanteira, para se quedar sempre na sua frente, como um
-obstaculo.
-
-Aquella conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia
-o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canceira do trabalho.
-A vida tem ironias: teria elle sido um tolo?
-
-Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples
-caixeiro, quasi analphabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os
-sapatões barulhentos.
-
-Tinha ainda fresco na memoria o dia do desembarque--estava um calor!--e
-de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal alimentado, com
-saudades da brôa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grillos
-pelas charnecas do seu logar.
-
-Pouco a pouco outros grillos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O
-som do dinheiro é musica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu
-destino, tolerando todas as oppressões, dobrando-se a todas as
-exigencias brutaes, numa resignação de cachorro.
-
-Assim correram annos, dormindo em esteiras infectas, molhando de
-lagrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi
-enchendo, enchendo avaramente.
-
-Aquella infancia de degredo era agora o seu triumpho. Vinha de longe a
-sua paixão pelo dinheiro; levado por ella, não conhecêra outra na
-mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao
-negocio. O negocio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o
-ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.
-
-Não podia explicar, como, só pelo attrito com pessoas mais cultivadas,
-elle fôra perdendo, aos poucos, a grossa ignorancia de que viera
-adornado. A letra desenvolveu-se-lhe, tornou-se firme, e a sua tendencia
-para contas fez prodigios, aguçada com o sentido na verificação de
-lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projectos, e
-observando attentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um
-negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a
-quem a sociedade recebia bem.
-
-Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo á deusa da
-fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para
-elle, o Brasil era o balcão, era o armazem atulhado, onde o esforço de
-cada individuo tem o seu premio.
-
-Fóra do commercio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um
-olhar...
-
-Tempos de amargura e de esperança, aquelles!
-
-Relembrando o passado, Francisco Theodoro procurava em si mesmo
-elementos com que pudesse bater influencias e oppôr-se ás
-especulações de afogadilho; devia encontral-os espalhados pelos dias
-asperos da incerteza e os macios da prosperidade.
-
-Esta rectrospecção agradou-lhe; fixou varios periodos.
-
-O tempo em que morara em um sobradinho do becco de Bragança, sombreado
-pelo beiral muito extendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada
-de rotula de um verde sujo.
-
-Embaixo e defronte, caixoteiros martellavam em taboas de pinho, cujo
-cheiro dava ao becco immundo uma baforada fresca de floresta. E as
-martelladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o
-trabalho; de noite o theatro ou a casa da Sidonia. Que seria feito da
-Sidonia? Devia estar p'r'ahi, em qualquer canto ... e velha.
-
-Aos domingos na chacara do Mattos, o solo, os jantares á portugueza, e
-a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe gyrava na memoria,
-suavemente, suavemente.
-
-Fôra no conforto d'aquella chacara, vendo-se cercado de
-considerações, ao lado do amigo repousado e feliz, que elle sentiu a
-sua importancia e se lembrou que deveria haver na terra outras delicias;
-mas o seu coração, cançado de um lucta formidavel, negava-lhe novas
-inclinações. A patria esquecida não lhe acenava com o minimo encanto:
-a mãe morrera, a sua unica irmã tinha-se recolhido a um convento.
-Fechara-se uma porta sobre a sua meninice.
-
-Sentia-se só; começava a cançar-se e a enjoar as mulheres faceis, com
-quem convivia em relações momentaneas. Mesmo a Sidonia enervava-o com
-os seus arrufos ... e as suas denguices.
-
-Atirou-se a proteger as instituições do seu paiz, a andar com
-medalhões e a fazer mordomias na Beneficencia. No fundo, não era só a
-distracção que elle buscava, nem a caridade que elle exercia; uma
-outra causa lhe filtrava n'alma aquella vocação para o beneficio...
-
-E a commenda chegou.
-
-Foi só depois de commendador que Theodoro se sentiu vexado d'aquella
-habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelaria, que
-mobilou a vinhatico, com exuberancia de chromos pelas paredes. Achou,
-ainda assim, que á sua casa alegre faltava qualquer cousa...
-
-Viera-lhe a dyspepsia. Que insomnias!
-
-Um medico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem á terra ou o
-casamento, para a regularisação de habitos. Elle achara cedo para a
-viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéa do casamento
-parecia-lhe mais salvadora.
-
-Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma
-esposa dedicada e meia duzia de filhos que lhe herdassem virtudes e
-haveres?
-
-No seu sonho começou a esboçar-se a idéa de um herdeiro. Teria um
-rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse,
-sobretudo, um continuador d'aquella casa da rua de S. Bento, que
-engrandeceria com o seu prestigio, a sua mocidade, bem assente no apoio
-e na experiencia paterna. O filho seria a sua estatua viva, nelle
-reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infancia, seria
-instruido.
-
-E tanto aquella idéa o perseguia, que num domingo de solo abriu-se ao
-Mattos, que acolheu com ar solemne e discreto as confidencias do amigo.
-
-Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera:
-
---Sei o que você quer. Tivemos aqui na visinhança uma familia que está
-mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é
-a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna.
-
-Francisco Theodoro murmurou:
-
---Pois uma mulher assim é que me servia.
-
---O diabo é que ellas vão de mudança para Sergipe...
-
---Então acabou-se.
-
---Não se acabou tal. Por emquanto estão hospedadas em casa de umas
-tias, no Castello. Ainda é tempo de lá irmos fazer uma visita... O
-resto fica por minha conta.
-
-Foi por uma noite escura que elle, já mais por condescendencia que por
-curiosidade, entrou com o Mattos na casa das senhoras Rodrigues, no
-morro do Castello.
-
-Fazia frio; na rua um cão uivava longa, doloridamente.
-
-Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, D. Itelvina,
-senhora alta e secca, muito nariguda, vestida de lãs pardas. Os outros
-ainda se cumprimentavam e já ella se sentava, erguendo o joelho agudo
-sob a costura. Não tinha tempo a perder.
-
-A outra senhora da casa andava por fóra; Theodoro conhecera-a depois.
-Essa era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido á novena do Carmo
-com as duas sobrinhas mais moças e o irmão, o velho Rodrigues.
-
-Em uma sala vasta, quasi núa, mal clareada por um lampeão de kerozene,
-viu Theodoro, pela primeira vez, D. Emilia, uma senhora bonita, de ar
-magestoso e olhos trefegos, e as suas duas filhas mais velhas--Camilla e
-Sophia.
-
-Camilla fazia _crochet_ perto do lampeão; Sophia refugiara-se para um
-canto do canapé, queixando-se da cabeça. E a mãe começou a fallar
-com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome de
-Camilla sahia-lhe da bocca com um elogio. Era a filha mais velha e a
-mais instruida: pilhara os tempos das vaccas gordas, quando o pae
-exercia um cargo lucrativo.
-
-Os dedos de Camilla apressavam-se no _crochet_; com certeza ella havia
-de ter errado os pontos e sentido os olhares de Theodoro queimarem-lhe
-a pelle, que a tinha linda, de uma alvura azul de camelia.
-
-D. Emilia asseverava que a sua _Milla_, como a chamavam em casa,
-esquecia-se das suas prendas, obrigada pela necessidade a fazer
-serviços domesticos.
-
-Francisco Theodoro commoveu-se com a idéa de que aquella mulher,
-talhada para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a
-callejar as mãos com o uso da vassoura ou do ferro.
-
-Trabalhar! trabalhar é bom para os homens, de pelle endurecida e alma
-feita de coragem. Olhou para a moça com veneração.
-
-Era bonita, alta, com grandes olhos avelludados, cabello ondeado preto e
-uns dentes perfeitos, muito brancos, mas que ella mostrava pouco,
-sorrindo apenas. Da irmã Sophia, na sombra, mal se adivinhavam as
-feições.
-
-A uma das phrases, em que a abundancia do amor materno lhe debuxava as
-perfeições, Camilla sahiu de ao pé da luz e foi para a janella olhar
-para o escuro.
-
-Como correu depressa aquella noite!
-
-Francisco Theodoro sahiu tonto. O amigo ria-se: não lhe tinha dito?
-Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim.
-
-E dias depois o Mattos pedia a mão de Camilla para o amigo.
-
-Começou então a serie de presentes e de visitas. Milla tinha sempre o
-mesmo embaraço e a mesma brandura de sorriso.
-
-O que ella ouvia da familia, não o podia adivinhar Francisco Theodoro,
-que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante.
-
-Adiou-se a partida para Sergipe; houve doenças em casa, prolongação
-do noivado, peregrinações de Theodoro por aquelle morro do Castello,
-com raminhos de violetas para a Milla; todas as doçuras de namorado...
-
-Casaram-se em um dia lindo.
-
-Elle dera grandes esmolas aos pobres da egreja; Milla parecia um anjo
-entre nuvens brancas...
-
-Depois, a familia partiu para Sergipe. O pae era chôcho, mas levava a
-carteira gorda. A mãe, com o seu modo de rainha desthronada, e as
-irmãs iam bem enroupadas e todas tranquillas sobre o futuro de Milla e
-do filho mais velho, o Joca, por quem Theodoro promettera olhar, e que
-andava por ahi, atôa.
-
-A sua maior commoção fôra ao entrarem casa, na rua da Candelaria.
-Suppuzera sempre que ella apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho,
-na alegria de ser a dona, a senhora de tantas cousas compradas para o
-agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camilla
-fôra para a sacada. Elle acompanhou-a.
-
-Em frente, os telhados mais baixos succediam-se irregulares, cortando-se
-em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, deseguaes,
-accumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janellinhas de sotãos
-espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras
-e curtas, baforando fumo.
-
-Camilla murmurára, como quem falla só:
-
---Se ao menos se visse o mar...
-
-Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou
-perto, formidavel, prolongando-se num som que era como um gemido da
-cidade inteira. Milla ergueu-se com um estremeção e voltou para o
-perfil da egreja o olhar extatico.
-
-Elle sorrira do susto, emquanto ella dizia:
-
---Como é alto!
-
-Depois d'esse, vieram dias tranquillos. A mulher bordava almofadas para
-o sofá e emmoldurava os chromos com musgo e flores seccas.
-
-Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sidonia
-reappareceu na vida de Theodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades.
-Nem a pobre Camilla desconfiara nunca... Tambem, nada lhe tinha faltado
-e já devia ser um regalo para ella cobrir de boas roupas o seu corpo de
-neve, ter mesa farta, e andar pela cidade attrahindo as vistas, no
-deleite da sua graça...
-
-Então iam grandes remessas para Sergipe.
-
-Um sorvedouro, aquella familia, sempre exhalando lamurias em todas as
-cartas, na sêde insaciavel de dinheiro.
-
-Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe
-mettia em casa, com os seus máos costumes de vadio. Elle fôra o
-causador de tantissimas querellas! E aggressivo na sua indolencia, mal
-humorado pelas dividas do jogo, e ingrato! Má raça. Além do mais,
-pespegara-lhe depois com a filha em casa, aquella pobre Nina, tão
-enfezada nos seus primeiros tempos, fina como um canniço, e com uma
-tosse de cão, que repercutia pelos corredores. Emfim, essa, ao menos,
-servira depois para ajudar Camilla a criar as filhas, que o Mario, esse
-já ella o encontrara forte como um heróe!
-
-O Mario...
-
-No percurso da Carioca á praia de Botafogo, Theodoro foi assim
-reconstruindo a sua vida, solidificando-a, pondo-a de pé. Era com essas
-memorias de familia e de trabalho, que elle se entrincheiraria contra os
-assaltos das novas ambições.
-
-O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava já acolá em
-grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as
-arvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em vôos tontos. Uns
-pequenos atiravam um cão da Terra Nova á agua, e as janellas dos
-palacetes mal se abriam aos esplendores de fóra.
-
-Perto do collegio, subiram para o bond duas irmãs de caridade, com
-ramalhetes de rosas. Theodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e
-distinguiam-no sempre, por sabel-o religioso. Iam levar á ermida da
-Copacabana aquellas flores, promettidas pela salvação de uma alumna,
-que estivera ás portas da morte.
-
-Uma conversa simples, em dois minutos, foi como balsamo para o espirito
-fatigado do negociante.
-
-Demais, elle achou bonito, commovedor aquillo: uma creança ás portas
-da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a visão de uma ermida
-sobre o mar...
-
-Quando Francisco Theodoro chegou a casa, as suas filhas gemeas, Rachel e
-Lia, brincavam na chacara. Ao vel-o abrir o portão, as creanças
-atiraram-se para elle, que mal lhes passou os dedos pelos cabellos;
-ellas tambem pouco se detiveram e Theodoro atravessou o jardim.
-
-O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um
-parque, elle erguia os seus balcões por entre palmas estrelladas de
-coqueiros e copas de arvores bem escolhidas. Aquillo não fôra obra
-sua; tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ruina o
-obrigara a hypothecal-a quando a construcção ia em meio e a vendel-a
-logo depois de concluida.
-
-Á esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida,
-conduzia ao terraço alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a
-familia palestrava, á espera de descer para o jantar. Nessa tarde só
-estava alli o filho mais velho, o Mario, todo derreado numa cadeira de
-balanço. O pae foi andando, e elle mal esboçou um movimento para
-levantar-se e dar-lhe as boas tardes.
-
-Era já homem, muito moço ainda, e todo elle revelava preoccupações
-de luxo e cuidado da sua pessoa.
-
-Na sala da frente fallava-se com alegria.
-
---Temos visitas--pensou Theodoro, vendo chapéos de homem no cabide da
-saleta.
-
-Quando elle entrou na sala, a mulher dizia á filha:
-
---Vae ensaiar, Ruth!
-
-A seu lado, sentado no mesmo divan, o Dr. Gervasio Gomes desenhava a
-lapis na carteira qualquer cousa que a fazia sorrir. Elle gabava-se de
-ter geito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e
-tres annos, trigueiro, e apurado na _toilette_. Era ligeiramente calvo,
-tinha um olhar de que as lentes de myope não attenuavam a agudeza, e um
-sorrisinho ironico, que lhe mostrava os dentes claros e meudos como os
-dos roedores.
-
-Camilla guardava um viço prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava
-como mulher formosa. Tinha herdado da mãe aquelle ar de magestade, que
-tanto impressionara Theodoro na primeira entrevista do Castello,
-adoçado por uma grande expressão de calma e de bondade.
-
-Francisco Theodoro foi direito a elles e cumprimentou-os, sem se atrever
-a roçar os labios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor das
-suas acções em familia. Sentava-se já, quando ella lhe disse com leve
-censura:
-
---Você não cumprimenta o capitão Rino nem o maestro?
-
-Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se
-dirigia com o violino na mão. Pedidas as desculpas, Theodoro voltou-se
-para o capitão Rino:
-
---Muito me alegro de o ver aqui, capitão; quando chegou da sua viagem?
-
---Hontem.
-
---Você não imagina, interrompeu Camilla; o capitão trouxe-me um
-presente lindissimo!
-
---Que foi? perguntou a meia voz o Dr. Gervasio.
-
-Francisco Theodoro enxugava com o lenço a calva rosada e luzidia.
-Milla, voltando-se para o medico, explicou:
-
---Uma collecção de orchideas do Amazonas; e prometteu mandar vir para
-o lago uma _Victoria Regia_.
-
-O doutor murmurou por entre dentes, em tom que só Camilla pudesse
-ouvir:
-
---Isso de prometter é que não é bonito...
-
-A moça relanceou-lhe um olhar, como a pedir misericordia para o outro,
-que palestrava agora com o dono da casa.--Não era bonito, por que?!
-
-O capitão Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu typo de loiro
-e pela robustez do seu corpo. Era alto, de hombros largos. Tinha as
-mãos grandes, os olhos claros, de um azul de faiança; o bigode sedoso,
-como que acabado de nascer, e a pelle queimada pelos ventos do mar. Só
-se lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pescoço,
-quando elle atirava a cabeça e os braços nos seus gestos largos e
-desageitados. Havia qualquer cousa de infantil naquelle homem grande,
-uma interrogação timida talvez no olhar, e um certo abandono, de
-pessoa pouco afeita á sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores
-vistosas, abusando do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos.
-
-Ruth poz-se em attitude; a mãe gritou-lhe:
-
---Imagina que estás deante do auditorio!
-
-Ella pareceu não a ouvir. Em pé, ao lado do piano, alta e espigada,
-com a cabeça unida ao seu hombro estreito de menina, os cabellos negros,
-cahindo-lhe em ondas sobre o pescoço moreno, os olhos de um verde
-limpido, de agua marinha, abertos para o vacuo, tinha um ar de
-sonnambula perdida em sonhos divinos. As mãos, longas e esguias,
-moviam-se com segurança; o vestido branco, salpicado de florinhas
-amarellas, mostrava-lhe um pouco das pernas finas, calçadas a preto.
-
-O Lelio Braga, recemchegado da Allemanha, o gordo maestro que só
-fallava de musica ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente. Fez-se o
-silencio em volta, mas por pouco tempo. Recomeçaram as conversas em tom
-mais baixo. Ruth não ouvia ninguem; um brilho quente, de sol, sahia-lhe
-dos olhos verdes, voltados para a luz.
-
-Só o capitão Rino parecia escutar a musica, olhando de esguelha para
-Camilla. Abominava a confiança que ella dava ao outro, ao magro Dr.
-Gervasio, alli tão agarrado ás suas saias, dizendo-lhe cousas que a
-faziam sorrir. Tudo naquelle homem o irritava: o seu luxo, o seu typo
-escanifrado e o seu ar de ironia, ás vezes perversa, outras insulsa.
-
-Francisco Theodoro, nunca interessado por cousas de arte, nem mesmo pela
-musica, quebrava a miude as reflexões do capitão Rino, interrogando-o
-sobre assumptos do Norte, de puro interesse commercial.
-
-Ainda vibrava no ar a ultima nota do violino, quando Nina, sobrinha dos
-donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava
-sympathica a toda a gente. Não era bonita: tinha o nariz grosso e
-alguns signaes aloirados na pelle pallida.
-
---Você viu as parasitas? perguntou-lhe Camilla.
-
---Que sim; e, voltando-se para o capitão:
-
-Devemos conserval-as ao ar livre ou na estufa?
-
-O capitão fez um gesto de ignorancia.
-
-Só á hora do jantar, Mario se reuniu á familia. A mesa, cheia de
-crystaes e de prataria, tinha um aspecto festivo.
-
-O dinheiro ganho á custa de trabalho gosta de impor-se á admiração
-alheia. O dono da casa, refrescado no paletot de brim, não se cançava
-de elogiar os seus vinhos e alludia a miude á excellencia do
-cozinheiro.
-
-Se alguem se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um calice de velho
-Madeira, elle acudia animadoramente:--Beba, que esse é legitimo; egual
-não se encontra com facilidade por ahi.
-
-Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos
-complicados intactos. A fartura passava ao desperdicio. A copa
-atulhava-se de peças grandes, em que as folhas de alface e os desenhos
-a rodas de limão, de ovo, azeitonas e gelatina não disfarçavam a
-opulencia das carnes.
-
-Á cabeceira da mesa, Francisco Theodoro gostava de, espalhando a vista
-por toda a longa superficie branca da toalha, vêl-a bem coberta de
-cousas caras e vistosas. Assim comia com appetite, gostosamente. Era o
-seu triumpho na vida, que todo esse luxo representava, na unica
-occasião em que lhe sobrava tempo para admiral-o.
-
-Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o
-Dr. Gervasio havia menos instancias: conheciam-lhe os habitos de homem
-delicado. O capitão Rino era muito mais moço e trazia da sua vida de
-mar valentias de estomago.
-
-As creanças comiam á mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra e
-exigencias.
-
-Mario reprehendia-as, achando intoleravel que o pae consentisse aquillo!
-
---O nome do seu vapor é...? perguntou ao capitão o Dr. Gervasio,
-ageitando a luneta no nariz.
-
---_Neptuno._
-
---Amado de Amphitrite e das nereidas. O patrono deve pôr-lhe em perigo
-o socego...
-
---Porque?
-
---Porque assim moço, bonito, e com tal suggestão, de forte envergadura
-precisa o senhor para resistir ás seducções das sereias...
-
---Que ninguem viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capitão
-ingenuamente.
-
---Convirá não affirmar que não as haja tambem em terras do Brasil,
-sublinhou o doutor com um sorrisinho, descendo o olhar para a pera que
-descascava.
-
-Riram-se do embaraço do capitão, que murmurou, desviando a vista de
-Camilla:
-
---Os cantos das sereias não me seduziriam...
-
---Pois é pena; sem imaginação a vida do mar não pode ter encantos.
-Se eu, em vez de medico, obrigado a deter-me com o que ha de mais
-prosaico na natureza, fosse ... o capitão do navio ... perdão, do
-vapor _Neptuno_, apegar-me-ia á mythologia, faria dos seus deuses a
-minha florida e alegre religião, e affirmo que seriam de goso para mim
-as noitadas no convéz, vendo ao clarão das estrellas Venus surgir das
-espumas e boiarem á tona da onda negra os dorsos brancos das cincoenta
-filhas de Nereu. Estou certo de que não sentiria a tal melancholia das
-aguas, de que ás vezes os senhores se queixam. Um homem de espirito
-nunca está só...
-
-O capitão sorriu e Francisco Theodoro fallou com o seu modo
-sentencioso:
-
---Elles gosam a seu modo.
-
---Não gosamos, não; a vida do mar é dura.
-
-O Dr. Gervasio não póde sentir com sinceridade o que disse...
-
---Assevero-lhe que sim, capitão; e que parti de um principio de que
-parto para todos os actos da vida, convicto de que está no proprio
-homem o remedio dos grandes males que o affligem.
-
---Se vae dizer isso ao pé dos seus doentes, ninguem mais o chamará,
-replicou Camilla.
-
---Chamarão; infelizmente chamam sempre. Ninguem tem absoluta confiança
-em si. O homem, por mais que digam, ignora a força de que vem revestido
-para a sua funcção. Para nós, a natureza representa apenas o papel
-secundario da paizagem; é o accessorio, a _mise-en-scène_ da Vida, em
-que nos atormentamos mutuamente num alarido de inferno. Não valia a
-pena crear coisas tão bonitas para serem tão mal aproveitadas. Palavra
-de honra! se fosse possivel conceber o riso, ou apenas o sorriso, na
-face tremenda do Omnipotente, eu diria que Elle ás vezes escarnece de
-nós. Á sua saúde, capitão!
-
---Obrigado...
-
---Um dia metto-me no seu _Neptuno_ e atiro-me para o Norte. Curiosidade,
-simplesmente; tenho mais vontade de vêr os crocodilos do Amazonas do
-que ... eu sei lá! as bailarinas da Grande Opera.
-
---Homem, dizem que a carne do crocodilo é boa, disse Francisco
-Theodoro.
-
---Ha tambem quem affirme que a das bailarinas ainda é melhor! observou
-o medico.
-
-Camilla riu-se; e depois:
-
---E eu que nunca vi um grande vapor por dentro!
-
---Quer ir commigo a Manáos?
-
---Não; mas quero que o capitão Rino nos convide para visitar o
-_Neptuno_.
-
-O moço maritimo balbuciou, corando:
-
---Oh! minha senhora...
-
-Interrompeu a phrase, porque ia dizer:--eu não desejo outra cousa! mas
-achou mais acertado e mais simples accrescentar sómente:--quando
-quizer.
-
---Será num domingo, para que meu marido vá tambem. E as creanças
-poderão ir?
-
---Por que não?
-
-Lia e Rachel bateram palmas.
-
-Ao café, no terraço, Camilla declarou preparar um grande baile para o
-S. João, quando a Ruth completasse os seus quinze annos.
-
-O Dr. Gervasio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto.
-
---Por que?
-
---Porque a noitada de S. João mette medo ás casacas e assusta os
-decotes. É um santo que só quer luz de fogueiras, com altas labaredas
-e crepitações, e ainda ha de ser no campo, entre gente rude que danse
-em torno ás chammas.
-
-É uma festa que me dá ideia de uma cerimonia ritual, de povo
-primitivo. Deixe o seu baile para outro dia.
-
---Mas depois eu não terei pretexto...
-
---Meu Deus! não é preciso descer uma pessoa a dar explicações aos
-amigos, quando se trata de os divertir...
-
-Francisco Theodoro ouvia o Dr. Gervasio com muito acatamento,
-reconhecendo-lhe superioridade intellectual.
-
-Devia-lhe a vida dos filhos, confessava, e d'essa divida não se
-cançava de se dizer devedor.
-
-Approvou a idéa do baile; fizessem o que quizessem, a bolsa estava
-aberta. E a proposito, deixando os outros a tagarellar no terraço, elle
-fechou os olhos e pensou na felicidade do Gama Torres... Quem sabe?...
-talvez que elle pudesse fazer o mesmo; a epocha era favoravel, o café
-rendia como nunca e ainda havia esperanças de alta... Se fugisse
-áquella occasião ... perderia o ensejo de triplicar de um dia para o
-outro a sua já grande fortuna... Fôra sempre um homem de acção, de
-recursos, como ficar na retaguarda, imbecilmente, deixando que a outro,
-novato, se conferisse o titulo de Rottschild brasileiro? O ciume do seu
-nome de negociante enchia-o até aos olhos. Encadeou e desencadeou
-pensamentos calculistas.
-
-Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, era toda a sua ambição.
-Repetia a qualquer a humildade da sua origem, espreitando o effeito
-d'essa confissão. Ser o mais poderoso, o mais rico, o mais forte, tendo
-partido do nada, não seria ter alcançado a suprema gloria na terra?
-
-E, alli mesmo, bem recostado na sua cadeira de balanço, com o papo
-cheio de optimas iguarias, as mãos descançadas nos braços da cadeira,
-elle insensivelmente passou do sonho ao somno.
-
-Na meia sombra do lusco-fusco, os olhos do capitão Rino fulguravam,
-espiando com raiva os rostos do medico e de Camilla, que se
-contemplavam. Mario atravessou o terraço de charuto na bocca, em
-direcção á rua.
-
---Onde vaes? perguntou-lhe a mãe.
-
---Ao theatro; respondeu elle sem se deter, descendo a escada.
-
---Este rapaz ... este rapaz ... resmungou por entre dentes o Dr.
-Gervasio, em modo de censura.
-
-Camilla desculpou-o; o filho tinha genio e era muito independente. Não
-queria contrarial-o; para que? A vida é curta, cedo viriam as
-amofinações. O juizo havia de vir com a edade...
-
-Em baixo, no jardim, entre os grupos rescendentes de heliotropo e de
-jasmins do Cabo, as creanças e Ruth faziam roda á Noca, mulata antiga
-na familia, que lhes contava historias de fadas e de principes
-encantados. Vendo Mario dirigir-se para o portão, a mulata chamou-o com
-familiaridade de amiga velha:
-
---Seu Mario, escuta aqui!
-
---Que é, Noca?
-
---Onde é que vae?
-
---Se eu não morrer pelo caminho, hei de chegar ao theatro.
-
---Não morre; eu ainda esta noite sonhei que V. estava amortalhado e que
-D. Nina chorava sangue... Sonhar com morte é signal de saude. Traga
-umas balas para mim.
-
---Vá esperando.
-
-O capitão Rino despediu-se e desceu tambem para a rua, ouvindo a voz da
-Noca recomeçar numa melopéa:
-
-«Minha varinha de condão, pelo poder que Deus vos deu, fazei...»
-
-Nina, encostada á grade, via Mario afastar-se; e lá em cima, no
-terraço, ao lado do marido adormecido, Camilla curvou-se para o Dr.
-Gervasio e beijou-o na bocca.
-
-
-
-
-III
-
-
-Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava
-ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da
-Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do
-morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D.
-Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais
-sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada
-para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem
-soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe
-ministrava.
-
-Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes,
-conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos:
-uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o
-prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para
-a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha.
-
-Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um
-canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras
-e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um
-tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo
-desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas
-vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na
-lenha.
-
-D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria
-fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse
-todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.
-
-A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe
-importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do
-seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella
-pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades
-capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de
-uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello
-grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos
-encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés
-largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha,
-ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um
-rosario de ambar benzido pelo bispo.
-
-D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em
-frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o
-parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios
-finos.
-
-A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz
-de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como
-se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.
-
-Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que
-confraternisa as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se
-mutuamente, guiadas pelo habito.
-
-Quando Noca bateu á porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que
-haviam de ser da Sancha, a negrinha orphã que D. Itelvina explorava nos
-arranjos da casa.
-
-Abriu-se uma janella com bulha impaciente e appareceu a cara de D.
-Itelvina, indagando de quem batia.
-
---Ah!... é você, Noca! espere um pouco, eu já vou.
-
-Dentro, a mulata explicou:
-
---Nhá Milla mandou fazer uma visita e saber das senhoras como estão ...
-ella não pôde vir, porque...
-
---Já sei. Isto é muito alto ... se fossem as escadas do Lyrico, muito
-que bem!... casa de pobres...
-
---Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até
-dizem todos o contrario...
-
---Dizem? mentiras! mentiras só... Como vae seu Theodoro?
-
---Muito bem.
-
---Excellente homem; aquillo é que foi sorte grande, hein Noca?
-
---Foi, sim, senhora; elle é bom ... tem as suas impertinencias ... mas
-a gente já sabe que é do genio...
-
---Qual o quê! Milla deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já
-não é facil uma moça pobre e sem protecção encontrar um casamento
-assim!
-
---Isso é verdade... Ella tambem é muito boa.
-
---Você se lembra de quando elles moravam na Lapa, que até você levava
-ás vezes comida da casa de pasto para dar ás meninas?
-
-A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não
-fôra só da Lapa que ella levava os restos dos jantares da casa de
-pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castello, com a
-trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Milla e das irmãs,
-então hospedadas em casa de D. Itelvina.
-
---De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das creanças.
-
---De uma viuva que já morreu, emendou Noca, impellindo as duas
-creanças para o quintal. Vão ver a vista ... vão ver os signaes dos
-vapores ... dizia ella.
-
-D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não
-exclamasse:
-
---Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de
-creanças! Milla teve sempre propensão para o desperdicio... Bonitos
-aquelles vestidos! Onde os compraram?
-
---Vieram de Paris...
-
---Uhm ... não haviam de ser baratos ... aquillo é seda, não é?
-
---É, sim, senhora. D. Joanna sahiu?
-
---Já se sabe! anda pelas egrejas... Se não fosse eu, não sei como
-havia de ser!...
-
-Noca reparou, olhando para a alcova do oratorio, aberta para a sala, que
-a lamparina estava apagada.
-
-D. Itelvina continuou:
-
---Joanninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça
-tudo... Ella não tem apparecido por lá?
-
---Não, senhora...
-
---Ruth porque não veio?
-
---Ficou dando licção. Ella tocou no concerto e foi muito festejada.
-
---Ha de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar
-um remendo ou fazer um vestido.
-
---Graças a Deus, ella não precisa d'isso!...
-
---O futuro o dirá...
-
---Credo!
-
---Pois sim. Cada vez bemdigo mais a educação que minha mãe nos deu.
-Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas...
-
---Tá hi! e D. Joanna não deu p'ra outras coisas?
-
---Ella sempre foi religiosa, mas depois de viuva refinou! E ainda se
-queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas!
-
---Coitada!
-
---Minha filha! ella vae d'aqui a pé a São Francisco, ao Carmo, á
-Penitencia, a S. Bento a qualquer egreja da cidade!... Ás cinco horas
-já está nos Capuchinhos; e á tarde aqui na egreja do hospital ella
-canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos
-acuda!
-
-Alguem batia á porta, e D. Itelvina, tendo espreitado pela janella,
-voltou-se apressada e foi reaccender a lamparina do oratorio.
-
-Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e,
-despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na
-sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.
-
-A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as
-paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de
-um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um
-trecho de mar muito azul.
-
-D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira
-cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro
-e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os
-olhos vermelhos e inundados.
-
---Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um grande
-sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e depois de
-uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades religiosas?
-
---Vae todos os domingos á missa.
-
---Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos.
-A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as
-pernas cada vez mais inchadas...
-
---Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior.
-Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes.
-Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a
-chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras;
-conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e
-applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos
-martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o
-melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar
-qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe
-contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os
-filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já
-morta.
-
-Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e
-confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não
-lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!
-
-Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de
-novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das
-moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas.
-
-Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham,
-parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto,
-para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de
-mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.
-
---A senhora vem morar pr'a qui?
-
---Não; vim fazer uma visita.
-
---A quem, inda que mal pergunte?
-
---Ás senhoras Rodrigues; conhece?
-
---As duas velhotas da travessa de S. Sebastião?
-
---Essas mesmo.
-
---Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou
-conter-se, abalou a fallar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram
-muito conhecidas no bairro. Diziam que D. Itelvina passava horas da
-noite excavando o quintal, á procura dos afamados thesouros guardados
-pelos jesuitas. Os visinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra
-do pateo, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança.
-
-A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus
-haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que
-ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe
-comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!
-
-Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para
-a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe
-puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.
-
---Uê! que é que você quer?
-
---Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio
-uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda.
-
---Que favor, gente?
-
---Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o
-dinheiro que offerecia á mulata.
-
---Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!...
-
---P'ra nada! faça esta esmola...
-
-E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro,
-rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para
-casa.
-
-As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito
-quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos
-Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração.
-
-Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a
-baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu _phaeton_,
-que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar
-os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas
-irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama.
-
-O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:
-
---Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da
-mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!
-
-O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito _chic_, e ella
-sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle
-rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera
-tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora
-não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério...
-Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus
-pensamentos:
-
---Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro
-foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o
-que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração
-do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si...
-
-Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que
-percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem
-calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de
-contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo
-restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia
-nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella
-fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a
-moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto,
-havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.
-
-Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e
-os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á
-mãe.
-
-Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata:
-
---Vamos, Noca!
-
---Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...
-
-A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para
-as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco
-Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher
-mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas
-visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque
-era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava
-sempre escancarado.
-
-Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de
-Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto
-da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de
-se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os
-gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que
-mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.
-
-A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava
-para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia
-acceitavam, com agrado, num sorriso...
-
-Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas
-gordas estrondearam no jardim.
-
---É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e
-correndo para fóra.
-
-Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta,
-quando elle passou pelo corredor.
-
-Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe
-a mão, luminosa de pedrarias.
-
-Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:
-
---Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este
-brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido...
-
-Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito
-de desviar a attenção.
-
---Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão.
-
---Brilha tanto!
-
---É do Cabo, muito amarello.
-
---Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.
-
---Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de
-um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena
-que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem.
-
---Só.
-
---Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.
-
---Versos?
-
---Não. Um romance.
-
---Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma
-monotonia...
-
-Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos
-resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia
-maravilhoso! depois, voltando-se:
-
---O livro?
-
---Está aqui.
-
---Já leu?
-
---Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.
-
---Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras
-perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas
-responsaveis por tudo--como se não pagassemos caro a felicidade que
-fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os
-castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não
-poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me
-torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do
-fim.
-
---Não tenha remorsos; o nosso não acabará!
-
---Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o primeiro
-anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a mulher,
-por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que não
-sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é commettido? Ha
-sempre um vestigio _da outra_, que se mostra em um gesto, em um perfume,
-em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se com as compensações
-que nos trazem...
-
---Isso tudo é vago e abstracto.
-
---Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das
-amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é
-isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me
-pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo
-amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te
-amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só
-para mim!
-
-Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de
-ciume. Passado um instante de silencio, murmurou:
-
---É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. Bem,
-levarei o livro. Adeus.
-
---Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido,
-illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa.
-Ensine-me a fallar, Gervasio.
-
---Então, diga lá:--amo-te!
-
-E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente.
-
-Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no
-jornal eram do capitão Rino.
-
---São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.
-
---Ih! então elle é muito rico?
-
---É. Vão brincar.
-
-As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico
-ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito
-branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha,
-faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.
-
-Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o
-amaria a elle, em toda a sua vida.
-
-Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a
-porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e
-Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae.
-
-Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma
-entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por
-aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a
-todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis
-quando menos se esperava.
-
-Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada.
-Gervasio ergueu-se.
-
---Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas
-na rua do Ouvidor...
-
---Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por
-sua causa! E ella vem perto!...
-
---Tontinha! e não sou eu mais velho?
-
---Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você...
-
---Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos
-com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não
-acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o
-Lelio.
-
-Camilla acompanhou-os ao terraço.
-
---Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro.
-
---Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me...
-
---Ella é estudiosa...
-
-Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim;
-depois disse, voltando-se indignado para Camilla:
-
---O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos
-canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem
-instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez
-acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença.
-
-Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz
-idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo
-ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais,
-folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem
-guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?
-
-Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o
-medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa...
-
-Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico,
-bem installado, mas muito mettido comsigo.
-
-Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco
-Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha
-que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança,
-mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas
-cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a
-menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que
-tratou tambem de fortalecer Mario.
-
-Camilla dizia então em extase, ao marido:
-
---Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra
-victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra
-no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia
-ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa
-mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a
-morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As
-gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da
-mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras
-insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu
-pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A
-evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por
-sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que
-essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus
-gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com
-redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que
-uma obra sua.
-
-Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle
-lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas,
-inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e
-harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de
-maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem
-escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço,
-obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua
-alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo
-delicado--apaixonou-se por ella.
-
-Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a
-solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o
-medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor
-d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura.
-
-Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias
-mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se
-vencer.
-
-Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma
-lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa
-salvaguardava-se nessa crença.
-
-Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da
-familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe,
-com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento
-de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma
-casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das
-habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de
-dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas.
-
-Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na
-enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade.
-
-Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente
-em casa o ouvia com attenção.
-
-Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar
-alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio.
-
-Dias depois ella dava os últimos retoques á sua _toilette_, em frente
-ao espelho, quando o marido entrou.
-
-Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar:
-
---Por que é que você veio tão cedo?
-
---Por duas razões...
-
-E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se,
-indagando com interesse:
-
---Você está doente? Diga!
-
---Não tenho nada filha, descança.
-
-Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho.
-
---Então que motivos são esses?
-
---O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou
-hoje uma perna.
-
---O velho?
-
---Sim.
-
---Coitado! como foi?
-
---Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas
-quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais
-serio.
-
-Sem afastar do rosto o _pompon_ do pó de arroz, Camilla interrogou com
-certa indifferença:
-
---Que é?
-
---Trata-se do senhor seu filho.
-
---Meu só?! tem graça...
-
---Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra,
-o tal senhor!
-
---Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?!
-
---Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das
-patifarias do rapaz és tu.
-
-Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera:
-
---Hein?!
-
---Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu
-filho!
-
---Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla,
-olhando para o marido de alto.
-
-Elle continuou:
-
---É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar
-assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e
-com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?!
-
---É a mocidade...
-
---Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.
-
---Trabalhar! Mario tem só dezenove annos!
-
---Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume!
-
---Mas por que não lhe falla você?
-
---Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um
-desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não
-lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o
-meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem
-sei, se não me tirasses toda a força moral.
-
---Eu?!
-
---Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o
-resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...
-
---Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma
-acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o
-aconselhe a deixar a tal mulher?...
-
---Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não
-posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os
-caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho,
-ou o mando para a Marinha.
-
---Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho!
-
---Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não
-seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros
-filhos!
-
---Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito...
-
---Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está
-bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As
-Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth.
-
---Que me importam a mim as Gomes!
-
-Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por
-entre os vidros, informou com voz amavel:
-
---Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a
-Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da
-procedencia.
-
---Que procedencia?
-
---Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio...
-Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso...
-
---Você lembrou-se.
-
---Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a
-Nina ... bom casamento!...
-
-Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de
-perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ...
-pois sim!
-
---Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do
-Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á
-gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe
-damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal
-sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam
-geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e
-que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a
-ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já.
-
-Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes
-da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um
-movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo:
-
---Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho...
-
-Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as
-ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças,
-eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou
-bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e
-escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como
-culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance
-da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e
-vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos.
-
-O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico,
-emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras.
-
-Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para
-a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas
-farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella!
-já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se
-via!
-
---Cara senhora, então, o amigo Gomes?
-
---Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina.
-
---Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se
-queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A
-mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada
-d'elle não vale nada!
-
-Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr.
-Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim:
-
---Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de
-guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O
-homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses
-apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora
-ao amigo que amanhã vá lá vêl-o.
-
---Perfeitamente. Onde mora?
-
---Na rua Funda, tenho aqui o numero...
-
-Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis.
-
---Rua Funda? Onde é isso?
-
---É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.
-
-Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a
-escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.
-
-As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não
-verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e
-macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes
-perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a
-passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre
-a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera.
-
-Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos
-cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos
-dedos estrellados de anneis.
-
-Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar
-pelo criado a bandeja de prata com o vermouth.
-
---Por que não subiram?
-
---Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella está
-crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...
-
---Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não
-toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não
-imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina!
-
-Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas
-arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz
-que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr
-de vestidos compridos. Que horror!
-
---Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze
-annos...
-
---Quatorze ... quasi quinze! mas não parece.
-
---Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação
-tem deveres...
-
-Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito
-perfumada.
-
---Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa
-colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido
-buscal-a, a senhora não a teria agora...
-
---Ahi está...
-
-D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e
-depois, voltando-se:
-
---Camilla, você já comeu geleia de manga?
-
---Não me lembra...
-
---Pois é gostosa e facil de fazer; olhe...
-
-Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para
-ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as
-palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de
-longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao _Neptuno_, da esquerda,
-ou um--_expreme-se_ e põe-se na peneira--da direita.
-
-Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se
-d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de
-sentimento.
-
-Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer
-comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava:
-
---A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal.
-A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho
-e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,--é
-mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa!
-
-O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou
-Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle
-conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica,
-de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita
-gente boa.
-
-Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se
-na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante.
-
-Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças
-da visinhança, as Bragas.
-
-Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os
-joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle
-estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos,
-interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E
-foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da
-rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama
-Torres, com elogio e assombro.
-
-Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça
-picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.
-
-O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao
-principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os
-olhares trocados entre Camilla e Gervasio.
-
-Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão
-evidente?
-
-Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo.
-Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem
-abaixar os olhos:
-
---Que parecerá a terra, vista de lá...?
-
---Uma gotta de luz...
-
---Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas hoje
-estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria
-embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave!
-
---É Vesper...
-
---Linda, linda, linda!
-
---Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está
-limpido hoje! Maravilhosa noite!
-
---Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro.
-Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro?
-
---Porque não tem astros.
-
---Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu.
-
---Por que?
-
---Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para
-que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.
-
-O capitão sorriu.
-
---Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...
-
---Como as corujas.
-
---Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é
-bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me
-levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar
-para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho
-que estou voando ... e é tão bom!
-
-O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que
-lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a
-lua e a côr das estrellas.
-
-Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava
-á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o
-cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de
-uma curiosidade insatisfeita.
-
-Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em
-quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de
-Camilla.
-
-Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e
-continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo
-illuminado.
-
-Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha
-requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para
-uma valsa.
-
---Quem toca?
-
-Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.
-
-Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo
-do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o
-amigo negava, affirmando o tino especial do outro.
-
-Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das
-moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros,
-atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas
-rodopiaram pela sala.
-
-Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão.
-D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote
-gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras,
-prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas,
-como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando
-o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada,
-recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e
-as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo
-fechar as janellas da sala.
-
-O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á
-espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da
-mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce,
-ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos.
-Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se
-não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.
-
-Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto
-d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo
-gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo
-brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e
-partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da
-arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido
-fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no
-terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma
-sonata harmoniosa e larga.
-
-Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella
-musica e naquella noite.
-
-Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o
-vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor
-feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para
-não ver...
-
-A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado...
-Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso.
-Camilla apontou-a com o dedo.
-
-A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente
-Theodoro gritou para cima:
-
---Não são horas de musica. Para a cama!
-
-Depois, em um murmurio satisfeito:
-
---O diabo da pequena tem sentimento, hein?
-
---Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem
-inspiração!
-
---Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond
-doutor!
-
-O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo
-a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar
-dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a
-cidade.
-
-Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca,
-que vigiava o somno de Rachel e de Lia.
-
---Mario já entrou, Noca?
-
---Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario
-ficava lá...
-
---Lá?... Em casa da tal Luiza?!
-
---É...
-
---Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que
-Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga
-que elle está dormindo.
-
---E se elle amanhã perguntar a Dionysio?
-
---Você previna primeiro o rapaz.
-
---Tambem não sei p'ra que _seu_ Mario faz assim; só p'ra metter a
-gente em embrulhos...
-
---Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei
-conselhos...
-
---Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico
-esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!
-
---Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca!
-
-Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado
-e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a
-caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:
-
---Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom
-dar-lhe uma pastilha de antipyrina...
-
---Sim, senhor, eu vou vêr...
-
-Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a
-cabeça.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus
-pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.
-
-Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções
-fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que
-topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados
-pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e
-pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes,
-saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.
-
-Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e
-a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a
-atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle
-pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.
-
-Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para
-tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como
-se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino
-de todas aquellas coisas.
-
-Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do
-_veston_, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho
-faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas
-ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho
-diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos
-carregadores boçaes.
-
-Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de
-subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a
-grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas
-flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens,
-aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...
-
-O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua
-gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles
-homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O
-seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles
-biceps de athletas.
-
-Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não
-perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e
-mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.
-
---Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o
-caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade,
-olhe que é mais extrangeiro do que eu!
-
-O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes,
-e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado
-á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.
-
-E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem
-relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha,
-modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar
-atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um
-cigarrinho.
-
-O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.
-
-Deu-lhe cigarros.
-
-Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia
-calor. Ribas lembrou:
-
---Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.
-
---Não tenho sêde.
-
---É que lá para deante não ha nenhum que preste...
-
-«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade
-ao rapaz.»
-
-Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e
-papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma
-occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente,
-sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O
-dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio
-deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se
-dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.
-
-Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de
-modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á
-claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que
-escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos
-seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma
-cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá
-dentro como um leve zumbir de abelhas...
-
-O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo
-da sala e arrebatou a viola para dentro.
-
-«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis
-para a mesa.
-
-Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o
-medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu
-conjuncto de velharias e sobejidões.
-
-A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos,
-marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas
-onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de
-mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande
-musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle
-canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada
-bestialmente pelo pão.
-
-Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr.
-Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um
-vapor do Lloyd.
-
-Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra
-vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes
-levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.
-
-Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o
-Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um
-caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino
-loiro, que os outros denominavam o _Bota_--por trazer uma bota velha
-suspensa de um barbante a tiracollo--, e um italianinho sardento, sem
-pestanas.
-
---Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo
-hontem no jogo ... reclamavam.
-
-E o Ribas defendia-se, hypocritamente:
-
---Que jogo? Eu?!
-
---Sim, senhor, não se faça de engraçado!
-
-O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o
-caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.
-
-Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de
-provocações.
-
-Que se arranjasse.
-
-A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez,
-sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada
-fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de
-vidros quebrados um vaso de cravos brancos.
-
-As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.
-
-Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou
-embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas,
-mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.
-
-Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia
-tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca,
-o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de
-sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.
-
-Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade,
-abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da
-doidice--e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por
-toda a sua pessoa.
-
-E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já
-esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.
-
-No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro
-de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava
-ao sol.
-
-Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de
-hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e
-tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande
-portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem
-pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as
-saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.
-
-Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos
-arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas
-amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.
-
---O senhor já passou a rua Funda!
-
---Nesse caso voltaremos.
-
-E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso
-um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada
-de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas,
-suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava,
-erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não
-comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços
-pendurados.
-
-Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com
-orgulho:
-
---Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá
-licença?...
-
---Pode ir.
-
-Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem
-macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada
-em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia
-parco,--não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance
-dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não
-errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a
-meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta:
-linhas de rede de _crochet_ e de costura, anzóes e agulhas, cigarros,
-objectas de pescaria e cartas de A B C.
-
-O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham
-recebido bem...
-
-Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:
-
---Ahi está a rua Funda.
-
-Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de
-um quadro lhe suggeriam.
-
-Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da
-Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes
-espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se
-negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles
-velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha
-uma aquarella em casa.
-
---É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia
-galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de
-janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.
-
-O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna
-extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a
-filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do
-armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o
-Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e
-aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.
-
---Quem procura?
-
-Dr. Gervasio explicou-se.
-
---Faça o favor de entrar...
-
-A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as
-mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de
-costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de
-cadeira.
-
-O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.
-
-Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.
-
-A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em
-desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas
-pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista,
-depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em
-ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus
-trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos
-homens um interesse mediocre.
-
-Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta
-descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos.
-Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande
-movimento no armazem...
-
-A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns
-goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.
-
-O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o
-Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha
-vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...
-
-O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e
-despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro
-casaco enfeitado a _crochet_.
-
-Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o
-palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.
-
-Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir
-d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina
-pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo
-mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha
-e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.
-
-Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam
-sosinhas, ladeando precipicios.
-
-No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras
-engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e
-gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.
-
-Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade
-penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia
-que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais
-propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma
-mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica.
-Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de
-velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.
-
-Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações
-singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma
-consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a
-Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...
-
-Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas,
-corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o
-mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite,
-disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem
-se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e
-penetraria em um d'aquelles albergues.
-
-Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a
-lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.
-
-Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta
-trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em
-fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.
-
---Bonito!
-
-D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos
-se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de
-atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não
-haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma
-unica dobradiça perfeita.
-
-Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada,
-resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma
-pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos
-brutos, entre ratazanas e aguas servidas.
-
-O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito,
-D. Joanna sahir de uma casa.
-
-Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.
-
-Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e
-em nickeis.
-
-Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e
-foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar
-livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de
-um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.
-
-Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do
-mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que
-passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada.
-Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas
-ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de
-esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce
-tom de devoção.
-
-Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha.
-Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja.
-Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as
-coisas do céu!
-
-Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth,
-Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!
-
-As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o
-que a maguava.
-
-Precisava salvar as creanças.
-
-Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na
-Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!
-
---Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...
-
---Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito
-de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como
-ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo
-no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou
-da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...
-
---Faz bem.
-
---O senhor é dos taes, que não querem crer.
-
---Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.
-
---Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o
-senhor está empurrando Camilla para o inferno...
-
---Eu?!
-
---Quem mais!
-
---Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...
-
---Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que
-eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não
-merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que
-se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu
-pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados
-vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes,
-sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para
-que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ...
-emquanto que eu, pobre peccadora...
-
---Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal
-disfarçando a sua ira; não a entendo!
-
-Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda
-dar uma volta pela Pedra do Sal.
-
-O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle
-chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham
-varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do
-Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos
-claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela
-raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha
-sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a
-verdade.
-
-O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé,
-as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que
-ainda os franzidos da saia exaggeravam.
-
-Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para
-lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.
-
-O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre.
-Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus
-sentimentos eram de especie confusa e tristonha.
-
-Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores
-não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e
-cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia
-ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta
-não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos
-homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem
-segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle,
-sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar
-inveja aos menos afortunados...
-
-Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu
-o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos
-conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu
-centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro,
-se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento,
-aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e
-mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e
-barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de
-lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo
-promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus
-adorados segredos.
-
-Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.
-
-Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na
-esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e
-um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...
-
-
-
-
-V
-
-
-Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.
-
---Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.
-
---Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi
-outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!
-
---Vae pregar a outra freguezia.
-
---Verdade, verdade, seu pae tem razão...
-
---Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario
-com ironia, dando o ultimo retoque á _toilette_. Nisso abriram a porta,
-elle voltou-se; era a mãe.
-
-Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os
-travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a
-janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.
-
---Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.
-
---Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.
-
---Como quizer. Sente-se, mamãe.
-
-Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe
-nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:
-
---Então?
-
---Estás nos dando serios desgostos, Mario.
-
---Eu?
-
---Sim; bem sabes de que se trata.
-
---Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...
-
---As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!
-
---As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.
-
---Enganas-te.
-
-Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.
-
---Então não comprehendo.
-
---Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ...
-dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...
-
---Oh! mamãe...
-
---Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando
-a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.
-
-Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.
-
---Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens
-tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror
-expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que
-emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte
-sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...
-
-Mario mordia os beiços, brancos de raiva.
-
---Mamãe...
-
---Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a
-exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo,
-ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens
-commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas
-e mais dividas!
-
-Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos,
-nervosamente, as costas de uma cadeira.
-
---Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.
-
-Mario sorriu com desdem.
-
---Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.
-
---Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um
-animal.
-
---Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras
-aspirações. Meu pae não me comprehende.
-
---Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!
-
---Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse
-elle com redobrado escarneo.
-
---Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela
-ironia do filho.
-
---Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante
-d'ella, com raiva.
-
---Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua
-saude, que é fraca, e da tua reputação.
-
---Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!
-
-Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance
-das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue
-arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e
-então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario
-admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua
-vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra
-aquelle filho, até então poupado.
-
-Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella
-insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada
-do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou,
-destacando as palavras, que sahiam pesadas:
-
---A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não
-teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!
-
---Mario!
-
---Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os
-gostos que eu tenho?
-
---O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso
-agora que desespera teu pae...
-
---Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem
-cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á
-familia que...
-
---Basta!
-
---Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter
-evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava
-dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:--odeio o Dr. Gervasio, e
-dou-lhe a escolher entre mim e elle.
-
-Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois
-elle repetiu, martellando as palavras:
-
---Ou elle ou eu.
-
-A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção.
-Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando,
-grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar
-de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e
-ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se
-tentasse esmagar o coração offendido.
-
-Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a
-mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma
-subita misericordia se apoderou d'elle.
-
-Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de
-desapparecer.
-
---Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!
-
-Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi
-imperceptivelmente:
-
---Nada...
-
-Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa.
-Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos
-fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que
-pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel
-áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,--ah, antes ella fosse
-cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das
-filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças...
-Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só
-servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente
-na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do
-seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!
-
-Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros
-corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras
-pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um
-homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa
-fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a
-bocca do filho a dizer-lhe amarguras...
-
-Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do
-quarto.
-
-Mario aconselhou:
-
---Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...
-
---Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla
-levantando-se.
-
-Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão
-precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.
-
-Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:
-
---Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a
-para si, beijou-a na testa e, com carinho:
-
---Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...
-
-
-Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas,
-que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:
-
---Venha ver, mamãe!
-
---Que coisa linda, mamãe!
-
---O homem disse que foi papae que mandou!
-
---Adivinhe o que é!
-
---Diga; sabe o que é, mamãe?
-
-A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula
-ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe
-aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram
-como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons
-avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario
-sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo,
-em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da
-casa saberiam tambem?
-
---Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado
-do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um
-menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.
-
-Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a
-menina Maria.
-
---Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.
-
---Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!
-
---É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?
-
-Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para
-os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus
-bibes brancos, e os cabellos soltos.
-
---Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as
-para si.
-
---Eu gosto muito!
-
---Eu gosto mais!
-
---Mentira! quem gosta mais sou eu!
-
---Eu acho mamãe muito bonita!
-
---Eu tambem acho.
-
---E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse
-bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda
-assim vocês gostariam de mim?
-
---Muito, muito!
-
---Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do
-Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com
-medo ... que fariam vocês?
-
---Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a
-comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...
-
---E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...
-
---Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!
-
-Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu
-sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas
-defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.
-
-A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu
-violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o
-grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.
-
-Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de _ménagère_, bem
-penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um
-aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu
-corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma
-anecdota do copeiro.
-
-Camilla teve um sobresalto.
-
-Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro
-e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel
-e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na
-cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua
-innocencia.
-
---Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista
-depois de collocado no meio do lago?
-
---Acho...
-
---É de muito gosto!
-
-Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão
-núas para o sereno das noites? Muito _chic_!
-
-Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal
-concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo;
-queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a
-opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?
-
---Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...
-
---Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é
-boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh!
-Dionysio! chama ahi _seu_ Mario!
-
-Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu,
-e Ruth, instando pelo almoço:
-
---Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem
-intenção, colhendo uma _Marechal Neel_ para o peito.
-
-Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal
-disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?
-
-Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um
-trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella
-encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo,
-e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com
-que ella achasse um trevo de quatro folhas!
-
-Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com
-ancia a folhinha fatidica.
-
-Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se
-chamou-o.
-
---Uê! porque não foi almoçar?!
-
---Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...
-
---Não foi se despedir d'ella?
-
---Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.
-
---Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está
-ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe...
-
---Cantigas. Adeus.
-
---Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:--Sua
-felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro...
-
---Adeusinho!
-
---Adeus, meu filho...
-
-A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella
-ajudara a criar desde o primeiro dia.
-
-Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir
-a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a
-tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não
-deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade,
-verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto
-que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle
-poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?...
-o diabo do feiticeiro deu bruxaria a _nhá_ Milla... Se _seu_ Theodoro
-sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? Bocca,
-fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mario
-tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso lhe
-dá gosto, que aproveite!
-
-Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou
-para a copa, á procura de almoço.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Numa manhã limpida, côr de saphira, Camilla e Ruth entraram com
-Theodoro e o Dr. Gervasio na lancha--_Aurora_--em demanda do _Neptuno_.
-
-O sol cobria com uma rêde de ouro movediça a superficie das aguas;
-fazia calor.
-
-As senhoras ageitaram os folhos das suas saias de linon no banco da ré,
-e abriram as sombrinhas claras.
-
---Sempre gostaria que me provassem a serventia d'esses chapéos de sol.
-Não resguardam nada. São objectos inuteis. Eu se fosse mulher nunca me
-sujeitaria a modas, disse Theodoro.
-
---Faria mal. Quanto aos chapéos, acho-os bonitos; são muito
-decorativos. Veja como a côr de rosa da sombrinha de Ruth, e a crême
-de D. Milla se harmonisam neste fundo azul. Digam o que quizerem; para
-mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervasio.
-
---Póde ser. Eu só gosto do que é positivo e pratico. Emfim, nas
-senhoras ainda eu perdou o certas niquices...
-
-Sabia Theodoro que o espirito e a posição de um homem se espelham nas
-suas roupas; por isso as d'elle eram sempre graves.
-
-Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem
-abotoada sobre o estomago arredondado.
-
-A sua cartola luzidia, bem tratada, affirmava ás turbas que ia alli
-alguem de cortezia e respeito; era como se o seu titulo de commendador
-tremeluzisse no setim d'aquelle pello. Não sahia de casa sem carregar o
-guarda-sol de excellente seda portugueza e castão de ouro, traste que o
-protegeria em um amplo circulo, se acaso chuvas cahissem
-inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonisara á maneira do
-traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: _taes como_, _de
-maneiras que_, _porém_, _tal e coisas_...
-
-Já a lancha singrava as ondas mansas, quando elle contou ao Dr.
-Gervasio que ahi uns collegas seus amigos queriam arranjar-lhe um titulo
-de Portugal; elle fizera constar que não acceitaria a distincção,
-mas, se a coisa viesse, que havia de fazer?
-
-O medico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de um
-sorriso.
-
---Outros usarão d'esses titulos com menos direito, continuou o
-negociante, não digo que não; em todo o caso...
-
-Milla lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes
-sommas com que elle entrava nas subscripções.
-
-Elle riu-se.
-
---Estou vendo que você quer ser viscondessa, hein?
-
-Ella encolheu os hombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de
-viver bem, á larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe.
-
-Iam todos calados, quando Ruth suspirou:
-
---Tenho pena de não ter trazido o violino!
-
---Que tolice! havia de ter graça!
-
---Mamãe, quando eu me commovo, gósto de tocar. Entendo-me tão bem com
-a musica!
-
-Os paes riram-se da asneira e o Dr. Gervasio fixou o rosto pallido da
-mocinha. Esse não riu.
-
-A lancha _Aurora_, muito faceira, reluzente nos seus metaes, cortava as
-aguas com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras.
-
---Este passeio está-me abrindo o appetite para uma viagem... Se as
-coisas continuarem como até aqui, é facto assentado que levarei a
-minha gente ainda este anno á Europa, disse Francisco Theodoro.
-
-Camilla e o medico trocaram um olhar de susto.
-
-Vendo o lindo rosto, sempre tão fresco e tão moço, de Milla, os seus
-cabellos negros, o seu collo cheio, os seus olhos de velludo,
-provocantes e apaixonados, toda aquella figura de mulher amorosa, quente
-e grave, que elle não se cançava de estreitar nos braços, a idéa de
-uma separação afigurou-se-lhe impossivel e monstruosa.
-
-Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os
-passados; a doçura da sua convivencia enternecia-o, como se a
-entrevisse já através da saudade.
-
-Ella assegurou-lhe em um sorriso que não partiria. Não haveria forças
-capazes de a arrancarem do seu amor.
-
-Francisco Theodoro mostrava agora á filha o casco branco de um navio de
-guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o
-castello de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames,
-tinha, na altura, proporções de boneco.
-
-Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, pondo grinaldas de azas
-fugitivas no azul immaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas
-torres, esfumava-se em uma neblina rosea, esbatida em diaphana violeta.
-
---Como é bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha em
-cheio da barra. Está-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria
-marinheiro.
-
---Outra tolice.
-
---Mamãe, o azul é uma côr tão bonita!
-
---Se fosses rapaz ... se fosses rapaz ... realmente antes fosses tu o
-rapaz e Mario a rapariga ... resmungou Theodoro.
-
---Pobre do Mario ... já tardava ... disse Milla.
-
---Isto não é fallar mal; é a verdade.
-
---Não é fallar mal dizer que elle não tem aptidões, que é
-insignificante?
-
---Eu não disse tal.
-
---Mas deu a entender. Eu nem sei até como elle é tão bom, ouvindo
-tantas insinuações. Se fosse outro, sabe Deus o que teria acontecido!
-É porque tem mesmo muito bom coração. Os erros que commette são
-naturaes da edade...
-
---Senhora! não o defenda. Bem sabe porque é que eu digo as coisas.
-Não fallo atôa.
-
-Não, ella não sabia; o que via era uma grande injustiça, pesando
-continuamente sobre a cabeça do filho. Que mais queriam que o pobre
-fizesse? Elle não nascera para os trabalhos brutos, do commercio, era
-um delicado. Certamente que não tinha edade para se divertir a jogar a
-bisca em familia; os seus dezenove annos tinham outras exigencias.
-Reparassem todos que era naturalissimo...
-
---Qual naturalissimo, qual nada! Indecente, sim, é que aquillo era. Um
-bilontrinha, o tal _seu_ Mario. Ainda na vespera soubera de novas
-proezas. Elle deixara a franceza, sim, senhores; parecia cederão
-conselho da mãe; mas para que? Para andar em publico de braço dado com
-outras, talvez peiores, e entrar em casas de jogo, que a policia ataca!
-
-Camilla mostrou Ruth ao marido, com um olhar afflicto, para que
-moderasse os furores da sua linguagem.
-
-Contente por cortar o dialogo, o medico apontou um vapor, que já se via
-de perto.
-
---O _Neptuno_ ... é bonitinho, reparem.
-
---Não é feio, não ... resmungou Theodoro, já desviado dos seus
-pensamentos; mas ... esperem! lá no convéz parece estar uma mulher.
-Que diacho! o capitão Rino será casado?
-
---Se é possivel! se elle fosse casado nós estariamos fartos de o
-saber. Você diz cada tolice...
-
---Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein?
-
---A mim? nenhum certamente. Que me importa!... e Milla riu-se, querendo
-subjugar á força a raiva que lhe ficára da discussão com o marido.
-
-O medico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado?
-nenhum!... certamente. E se dissessem d'elle a mesma cousa a Milla, que
-responderia ella! a mesma cousa? com o mesmo levantar de hombros, com o
-mesmo desdem? Teve impetos de lh'o perguntar; mas como? Alli era
-impossivel... Ficava para depois.
-
-A lancha atracou ao _Neptuno_, e do portaló desceu o capitão Rino,
-vestido de flanella branca, com uma bella rosa vermelha na lapella.
-
-Extranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro.
-Tinha descido para ajudar as senhoras. Ruth sahiu da lancha num salto,
-mostrando as pernas finas, contente por aquella novidade, aquelle mar
-circumdado de montanhas azues, aquellas velas brancas e aquelles cascos
-alcatroados, fluctuantes, com que se cruzara no caminho. O capitão Rino
-mal olhou para ella; suspendeu-a, com pulso forte, até o primeiro
-degrau da escada e voltou-se logo para Camilla, com olhar ancioso,
-extendendo-lhe os braços. Ella cahiu-lhe em cheio sobre o peito largo e
-riu-se, pedindo desculpas. Era tão pesada! Elle corou, tonto, tremulo,
-sem achar uma palavra com que lhe respondesse.
-
-Francisco Theodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla
-sobrecasaca, não prescindiu da mão auxiliadora do capitão; o Dr.
-Gervasio veiu por fim, tirando num cumprimento o seu chapeu molle.
-
-Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indifferentes
-pelos visitantes. Junto ao portaló, estava uma senhora, a mesma,
-evidentemente, que elles tinham avistado da lancha.
-
-Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes
-aos do capitão Rino, de um azul de faiança, e uma physionomia vaga, de
-anjo decorativo. Contrastando com o typo, trazia uma _toilette_
-escarlate, que lhe dava valor á pelle cor de lirio pallido, e parecia
-uma offensa ao seu corpo virginal. O capitão apresentou-a logo a todos
-com duas palavras:
-
---Minha irmã.
-
-Foi depois, aos poucos, durante a visita do _Neptuno_, que viram desde o
-tombadilho até ao porão, que souberam que essa irmã, até alli
-ignorada, se chamava Catharina, e vivia em companhia da madrasta,
-senhora viuva, em uma frondosa chacara do Cosme Velho.
-
-Catharina ajudava o irmão a mostrar o _Neptuno_, e por vezes as suas
-explicações tinham maior clareza que as d'elle. Se elle parava, ella
-tomava-lhe a palavra cortada, completava-a e seguia para deante com todo
-o desembaraço.
-
-Depois de percorrerem o navio, o capitão Rino, convidou todos para um
-vermouth gelado, na sua camara.
-
-O espaço não era grande, Camilla, Ruth e Catharina apertaram-se no
-mesmo divan, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro;
-Francisco Theodoro recostou-se em uma poltrona ao pé da mesa, emquanto
-o medico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de
-livros, e o capitão, em pé, narrava ao negociante vários episodios
-das suas viagens ao norte.
-
---Que paiz! que maravilhoso paiz este nosso! completava elle.
-
---É pena não ter povo. Sentenciou Theodoro.
-
---Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia
-melhor a gloria do mundo, quando elle, exgotado pela exploração das
-outras, voltar para ellas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para
-uma outra raça de grandes ideaes, que ainda ha de vir. Tão formosas
-promessas não se fazem ao vento...
-
---Outra raça ... outra raça ... vinda de onde?! nascida de quem?!
-
---Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos paizes
-velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se nos novos. O futuro do mundo é
-nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o
-povo brasileiro é bom.
-
-Francisco Theodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a
-Republica. Aquella revolução fôra uma revelação. Sentia-se
-engasgado com o exilio do imperador. Torceu assim a conversa para novo
-assumpto.
-
-Dr. Gervasio conhecia as ideias politicas de Francisco Theodoro;
-ouvia-lhe sempre os mesmos commentarios. Estava inteirado; quanto ás do
-outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvil-as. Voltou-lhe
-as costas e poz-se a ler as lombadas dos livros da estante:
-
---_Virgilio_ ... _Homero_ ... _Dante_ ... _Camões_ ... _Gonçalves
-Dias_ ... _Shakspeare_ ... bravo!
-
-Que especie de homem seria então esse capitão Rino? Leria elle
-effectivamente aquelles poetas?! O medico abriu ao acaso o primeiro
-livro ao alcance da mão, e observou logo que elle estava annotado, a
-lapis, com signaes firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente
-consciente do seu claro juizo. Era o _Cid_. Á primeira pagina onde o
-olhar do Dr. Gervasio cahiu, havia este verso marcado com uma linha
-gorda:
-
-_L'amour n'est qu'un plaisir, l'honneur est un devoir._
-
-Fallava D. Diogo. O medico releu o verso com um sorriso de sarcasmo.
-
-_L'amour n'est qu'un plaisir_...
-
-Pois sim! bem esquecido estaria o velho pae de D. Rodrigo, ou não
-chegara na sua juventude a amar com amor!
-
-Depois d'aquillo o Dr. Gervasio folheou outros livros litterarios, por
-curiosidade, desprezando os technicos, e em todos achou vestigios de uma
-leitura intelligente. Bastava; começava a comprehender o homem.
-Illudira-se até então, julgando o Rino como um mediocre e um simples.
-Um simples seria, mas um mediocre, não. Não o temera nunca como rival,
-apezar de o ver apaixonado por Milla; julgara-o fraco, inferior, sem
-recursos, falto de elegancia, que é sempre o que seduz as mulheres,
-physica e intellectualmente; não passara nunca aos seus olhos de um
-marinheiro rude, ingenuo, sem a graça da palavra a tempo, nem a linha
-da distincção pessoal.
-
-Que conservaria o capitão Rino no cerebro de tanta leitura inquietadora
-e extraordinaria? Que nervos eram aquelles, tão perfeitos, que apóz
-tantas torturas e delicias pareciam intactos de commoções artisticas?
-
-D'ahi--quem sabe?--toda aquella livralhada que elle marcara com o seu
-nome, no dominio da posse, viria de algum leilão, de alguma herança,
-não representando naquelle gabinete mais que um mero adorno. Era o mais
-certo. Era mesmo a unica hypothese verosimil; não admittia que o
-capitão Rino fosse amigo de intellectualidades. Aquelle bruto! Fixou-o
-com attenção.
-
-Não! não eram aquelles olhos limpidos, nem aquellas passadas que
-faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ninguem
-investigações da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho
-raro. Ninguem acreditaria que aquelle homem grande, de carnes duras,
-faces rosadas como as de um menino são e modos bonachões, fosse capaz
-de entender Shakspeare!
-
-Ler livros taes, annotal-os, amal-os, deleitar-se na sua convivencia,
-era obra para outra especie de creaturas. Aquillo era um escarneo, não
-era outra coisa. Permittia-lhe a leitura de um ou outro classico
-portuguez de mais calmo estudo e pulsação regular; lembrava-se mesmo
-agora de lhe ter sorprehendido algumas palavras de sabor antigo e que
-lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de extranheza.
-A sensação avivava-se, a reminiscencia induzia-o a estudar o homem.
-Voltou de novo o olhar para elle e resumiu ainda em um traço o seu
-juizo:
-
---Um bello animal!
-
-A irmã do capitão servia vermouth, mostrando em um sorriso amavel os
-seus dentinhos bicudos e deseguaes. Ao dirigir-se ao medico, ella
-obrigou-o a desviar-se da sua observação; e elle, descuidado,
-reflectindo na phrase uma ideia que lhe atravessava o espirito,
-agradeceu-lhe em inglez.
-
---Acha-me com ar de _miss_, não é assim? Talvez tenha razão; não é
-a primeira pessoa que me dá a entender isso mesmo...
-
---Se lhe desagrada...
-
---Absolutamente nada; por que? Houve na nossa familia qualquer
-antepassado extrangeiro, uma bisavó dinamarqueza, creio eu ...
-entretanto, affirmo-lhe, somos bem brasileiros, mesmo um pouco
-nativistas... Já me disseram, a proposito d'isto, que são os
-descendentes de extrangeiros exactamente os patriotas mais exaltados.
-Mas não quer gelo?
-
---Obrigado...
-
-Ella passou adeante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth.
-
-«Uma avó dinamarqueza, creio eu...» Extraordinario, esse
-desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que
-aquella gente não era de indagações nem de perder tempo com objectos
-sem utilidade immediata.
-
-A boa pratica era essa: olhar para deante, que é onde se póde
-encontrar tropeços. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho!
-
-Da cadeira de braços, Francisco Theodoro atirava a sua ultima bomba
-contra a Republica, lamentando este grande paiz, tão digno de melhor
-sorte...
-
-Rino levantou-se; elle tinha outras opiniões e uma fé sincera nos
-destinos da patria. A alma nova da America só podia agasalhar
-sentimentos de liberdade. A monarchia era a poeira da tradição
-accumulada com o correr dos seculos, em velhas terras da Europa. Lá
-teria a sua razão de ser, talvez; mas não aqui! Concluiu elle.
-
-Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de pé, já cançadas
-da discussão, abominando a politica...
-
-Fóra, no tombadilho, o sol extendia a sua luz clara, feita de ouro.
-Seguiram então para debaixo do toldo.
-
-Que maravilha!
-
-Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de
-Nitheroy, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de
-espumarada. Toda a superficie do mar, paletada de luzes, tremia como a
-pelle moça a um afago voluptuoso. Ao longe, a Serra dos Orgãos
-desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardosia. Para os lados
-da barra havia montes de prata fosca em que o sol, scintillando nas
-pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta
-espelhavam-se n'agua, entre montanhas de um verdor intensissimo.
-
-Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silencio
-que o medico percebeu um olhar de Camilla para o capitão do _Neptuno_.
-
-Aquelle simples movimento bastou para atear no peito do medico o
-fogaréo da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e
-revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante,
-sempre tão sua, tão submissa ás arbitrariedades do seu genio desegual
-de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguem,
-e a justiça era que ella o enganasse e o trahisse, como por elle trahia
-e enganava o esposo...
-
-Percebia bem que o capitão Rino era mais bello, mais moço, e essas
-duas qualidades só por si bastavam, a seu vêr, para fazer preferido um
-homem aos olhos de uma mulher de quarenta annos...
-
---O senhor hoje está nos seus dias de _spleen_, doutor? perguntou-lhe
-de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente.
-
-Elle deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para
-ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios, se não achava o capitão
-Rino muito differente do que lhes parecera sempre, em Botafogo.
-
---Eu já disse isso mesmo a elle, e descobri o motivo; é porque anda
-sempre de escuro, e hoje está de branco!
-
---E com uma flor ao peito!
-
---É verdade.
-
---Ainda ha outra razão; é que elle está contente. Ruth, a influencia
-das côres é grande nas creaturas, mas a das impressões ainda é
-maior. A alegria força a ser-se bonito. O capitão tem hoje a alma
-vestida de branco e perfumada como a sua rosa vermelha da lapella... Uma
-bonita flôr!... Não creia que baste um alfaiate para dar a uma cara de
-páu a expressão que a d'elle hoje tem; a grande influencia do alfaiate
-pára no pescoço. A cabeça é...
-
---Do cabelleireiro?
-
---Da paixão. Não creio que as mais frivolas mulheres sejam tão
-frivolas que se contentem com o cheiro de uma pomada, ou o bom corte de
-um frak...
-
---Mas quem fallou em mulheres!?
-
---Tem razão, ninguem! Veja como aquelle barco de pesca vae bonito...
-Você gosta d'estas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte
-são os unicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros, pff!
-
-A mancha escarlate do vestido de Catharina appareceu deante d'elles; a
-irmã do capitão convidou-os para o almoço; repararam então que os
-outros já tinham entrado e logo o medico previu que Milla tivesse ido
-pelo braço de Rino...
-
-E fôra; e lá estavam ambos em pé a um angulo da mesa, em frente a
-Francisco Theodoro, que gesticulava, no calor de uma discussão ainda
-politica.
-
-Á mesa, sentaram-se ao acaso, á excepção de Camilla e do marido, a
-quem o capitão designou logares. O medico escolheu assento entre
-Catharina e Ruth.
-
-Havia apettite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catharina,
-julgando-se um pouco em sua casa, ajudava o irmão; foi ella quem
-temperou a salada de camarões e quem polvilhou os morangos de assucar e
-de gelo; as suas mãos muito brancas mostravam-se bem atiladas no habito
-de servir.
-
-O creado ia e vinha do buffete para a mesa, com a seriedade sobranceira
-de um ente necessário.
-
-Na sala, longa e estreita, elles occupavam uma das mesas compridas, a da
-esquerda, a mesma occupada sempre em viagem pelo capitão; a outra,
-vazia e sem toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto
-tristonho ao compartimento. Fallou-se, a proposito de viagens, de quando
-naquella mesma sala não havia um só logar vazio, e que ao rumor das
-vozes se juntava o tilintar das loiças e dos talheres... Só nos dias
-de tempestade, em que o vapor era sacudido pelo furor das ondas,
-diminuia a affluencia e appareciam, disseminados e tristonhos, só os
-passageiros fortes, de bom estomago...
-
-Francisco Theodoro relembrou os episodios banaes da sua unica viagem, de
-Portugal para aqui, e olhavam quasi todos para o capitão com certo
-interesse, como para um heróe. Em casa, nas confortaveis salas de
-Botafogo, tão ricas e tão burguezas, nunca a sua profissão lhes
-parecera sympathica; agora comprehendiam-lhe os perigos e observavam-no
-com respeito. O mar é tão perfido! Qual era o ponto da viagem que mais
-lhe agradava? perguntou Milla.
-
-A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, commovido, o aspecto
-formidavel do rio, a grossa corrente das suas aguas profundas, o seu
-ruido sonoro, de rythmos novos, que nenhuma lingua exprime e nenhum som
-musical imita; e os cambiantes deslumbrantissimos dos poentes,
-derramando na agua infinitas ramagens multicores, onde estrellejavam
-tons nunca d'antes vistos, que appareciam para se apagar, e apagavam-se
-para reapparecer em outros pontos, egualmente luminosos e fugitivos.
-
---Que esplendor de poentes!
-
-Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques
-emergindo da agua profunda e reflectindo-se nella. Sinto alli, repetia
-ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mysterios para uma raça
-de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são
-um deslumbramento!
-
-Havia outro ponto da viagem que lhe fazia ainda maior commoção; era
-quando, já de volta, entrava na bahia do Rio de Janeiro. A ampla poesia
-d'esse espectaculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar
-alto...
-
-Dr. Gervasio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo;
-os livros da estante pertenciam-lhe: havia alli um homem. O embarcadiço
-mercenario tirava o seu trage de piloto e apparecia cavalheiro e poeta.
-Porque se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco
-depois, quando Rino affirmava que apezar das suas queixas, elle só
-estava bem no _Neptuno_; tanto se afastara da sociedade que se sentia
-bisonho nella, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da
-sua alma, quando ia para a terra.
-
---Só em terra, disse elle, comprehendo o amor que tenho ao meu barco,
-aos meus livros, ao meu cachimbo e á minha rêde, a que a solidão e o
-habito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de
-terra, da familia, das distracções, de tudo que conjunctamente a torna
-deliciosa...
-
-Francisco Theodoro, a proposito do Norte, fallou na prosperidade do
-Pará, no commercio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus
-costumes. Alli, sim, havia gente reflectida, de bons exemplos. Aquillo
-é que é povo: patriotismo, criterio, boas intenções. Fallem-me
-d'isso.
-
-Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram á bocca os copos
-cheios.
-
-Veio o perú á brasileira provocar elogios ao cozinheiro do _Neptuno_.
-Magnifico!
-
-Francisco Theodoro affirmou logo que aquelle prato parecia feito, de
-saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um geitinho
-especial para temperar panellas, dizia elle; e verdade, verdade, assim
-como ella não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens,
-tambem os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser
-trancada ao sexo feio.
-
-Elle dizia isto como pilhéria, por alegria.
-
-Catharina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros,
-perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa:
-
---O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro.
-
---Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de
-familia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua
-casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juizo, e
-não me dei mal com elle; não quiz casar com mulher sabichona. É nas
-mediocres que se encontram as Esposas.
-
-O Dr. Gervasio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance.
-
---E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve
-consentir perto das suas filhas.
-
-Camilla fez um signal affirmativo. Ella era da mesma opinião.
-
---Não são sérias, concluiu.
-
---Lá por isso, replicou Catharina, de quantas mulheres se falla na
-sociedade e que mal sabem ler?
-
---De poucas...
-
---De muitas. Sr. Theodoro, faz favor de me dar o vinho?
-
---Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Theodoro, passando a
-garrafa ao medico, que encheu o copo de Catharina e disse rindo:
-
---Ellas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a
-ellas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana
-com uma arte capaz de endoidecer o proprio Mephistopheles...
-
---Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres!
-
---Faço ideia de que deve ser bem mais difficil de manter do que a
-nossa.
-
---Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o
-pensamento de que houvesse duas honestidades.
-
---Pois se tivesse tido tal pensamento, tel-o-ia com muito acerto. Ha
-duas.
-
---Temos outra! Se está de maré, explique-nos a differença.
-
---Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materialisemos as
-comparações, para as tornarmos bem claras. Supponhamos, por exemplo,
-que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um
-vestido branco. Tudo é roupa, teem ambos o mesmo destino, mas que
-aspectos e que responsabilidades differentes!
-
-Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro,
-disfarçando as nodoazinhas. O panno é grosso, com uma escovadella vôa
-para longe toda a poeira da immundicie; e ficamos decentes. A
-honestidade das senhoras é um vestido de setim branco, sem forro. Um
-pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede,
-á procura da sombra amavel, macula-o; uma picadella de alfinete, que
-só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquella
-vasta candidez proporções desagradaveis... Realmente, deve ser bem
-difficil saber defender um vestido de setim branco que nunca se tire do
-corpo. Eu não sei como ellas fazem, e, francamente, não me parece que
-a vida mereça tamanho luxo.
-
---Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão
-positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as
-outras ... pelo menos parecem...
-
---Porque não lhes esquadrinhamos as nodoas do setim... Passam
-despercebidas...
-
---Adeus!
-
---Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse ha pouco á sua filha, a
-quem alliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto:
-
-Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos
-desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideaes de
-arte não pervertem, antes purificam e ensinam o bem. As mulheres devem
-cultival-os com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de D.
-Catharina e bebo á sua saude, Minha Senhora!
-
-Emquanto elle bebia, Camilla observou-o com pasmo; sabia que elle não
-tinha aquellas ideias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se
-no seu logar de submissão.
-
---Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco
-Theodoro á irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa.
-
---Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com as
-minhas roseiras e os meus animaes. Nunca fallo por mim, sr. Theodoro. Eu
-nasci para mulher.
-
---Então, pelas outras?
-
---Pelas outras que tenham actividade e coragem.
-
---E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguem
-responde!
-
---É velho.
-
---Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar
-com obediencia e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz tambem a
-isto o nosso doutor?
-
---Que ella talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor
-disse, mas que as torceu depois de certa edade. Não seria sem causa que
-Francisco I disse:
-
-
- _Souvent femme varie._
-
-
-Francisco Theodoro não entendeu, mas sorriu.
-
-O medico dizia aquillo para Camilla, que lhe evitava o olhar agudo,
-percebendo-lhe a perfidia.
-
---Isto é que se chama fallar para não dizer nada... observou alguem.
-
-Catharina serviu o café; quando passava a ultima canequinha, disse:
-
---As mulheres são mal comprehendidas. Vejam aquella gravura. Está alli
-um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho,
-e a mulher mal o allumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada ás
-suas costas!
-
---O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Theodoro com modo
-triumphante.
-
---Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos
-atraz do homem que procura defender-nos. Se elle avança para o inimigo,
-sentimos não ter azas, e é sempre com impeto que nos lançamos na
-carreira querendo ajudal-o a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que
-é o nosso caracter; que me desminta quem puder!
-
-O dr. Gervasio observou Catharina com attenção.
-
-Ella estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas.
-
-Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma
-brasileira. A tal avó dinamarqueza dava todo o logar á outra avó
-indigena, descendente de alguma tribu selvagem.
-
-Duas horas depois, os visitantes deixavam o _Neptuno_; o capitão Rino e
-a irmã conduziram-os até o caes, onde se separaram. Foi então um
-grande allivio para o dr. Gervasio, a quem a presença do outro irritava
-terrivelmente.
-
-Francisco Theodoro não se cançava de elogiar a ordem e o asseio em que
-encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o
-eloquente, superior ... lembrava detalhes insignificantes, muito
-agradecido ás cortezias do moço. Catharina desagradara-lhe, com os
-seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com carne,--bons
-volumes, dizia elle, olhando de esguelha para o vulto redondo da esposa.
-
-Á rua 1º de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a occasião para
-visitar um collega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a
-familia.
-
-Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo
-erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas
-quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla
-adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as
-phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle
-lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta;
-mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle
-fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de
-escrava, a que o seu amor a lançara.
-
-Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que
-não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que
-a via bem entregue...
-
-Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos
-olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto
-tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava;
-vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente,
-espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as
-horas de bordo.
-
-Ella murmurou então, vexada, por entre dentes:
-
---Eu não gosto do Rino ... eu não gosto...
-
-E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia...
-
---Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois,
-vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de
-ser já.
-
---Como os homens são orgulhosos e injustos!
-
---Serão. E as mulheres? voluveis!
-
---Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como
-uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade...
-
-Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem
-disse primeiro:
-
---Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com
-isso...
-
-O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade:
-
---Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua...
-
-Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia
-nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente,
-vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e
-ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No
-momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda
-moça, toda de lucto.
-
-Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a
-raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle
-ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e
-ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada.
-
-Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra;
-aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida;
-viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da
-face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de
-surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma
-infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão.
-
---Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando
-imprudentemente pela manga do medico.
-
-O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que
-seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se
-atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo,
-mas com modo sacudido e nervoso, disse:
-
---Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.
-
-Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua
-marcha num batimento louco.
-
-Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia
-separando para um prato de papelão.
-
-O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe
-contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa
-passada, perfeitamente extincta.
-
-Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que
-tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir
-os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria
-calada...
-
-
-
-
-VII
-
-
-O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto
-posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne
-rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia
-das enchentes que ameaçam inundação.
-
-O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha
-attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S.
-Bento.
-
-No de Francisco Theodoro o movimento era enorme.
-
-_Seu_ Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando
-milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando,
-rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens.
-Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar
-uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus
-subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão
-da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em
-bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo
-dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao
-trabalho um acompanhamento de musica.
-
-_Seu_ Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para
-o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar _grèves_,
-paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que quizesse entrar.
-
-Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das
-formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante.
-
-Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o
-pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira?
-Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande
-personagem.
-
-Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para
-alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade
-de baixo, _Seu_ Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar
-as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas,
-fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de
-Francisco Theodoro.
-
-E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma
-chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos
-successos proprios e alheios.
-
-Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.
-
-_Seu_ Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino
-da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio
-era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio.
-
-Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de
-impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço.
-
-Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o
-armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava
-pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e
-o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia.
-
-Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava
-então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção.
-
-Vinha-lhe o cançaço.
-
-Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam
-inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella
-atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio.
-A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu
-espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente,
-que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo.
-
-Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella
-vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe
-mostraria o caminho já feito, facil de percorrer!
-
-Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas
-pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a
-outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna.
-
-A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle...
-
-Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha
-concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções
-pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma
-vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe
-mudasse o nome.
-
-Como era bemsoante aquelle--Casa Theodoro--um rythmo de ouro!
-
-Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres
-não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus
-só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos.
-
-O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade,
-que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi
-estava--magnifico; mas não poderia ter sido pessimo?
-
-Certamente, concluia elle comsigo,--não é a isso que se chama ser bom
-negociante; obra do acaso, nem mais nem menos...
-
-Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As
-carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.
-
---Então como vae isso, Seu Theodoro, han?
-
---Bem... Muito trabalho.
-
---É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo
-de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra
-o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O
-dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a
-conversar com um sujeito. É um finorio de marca.
-
---É experto, é.
-
-Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia
-do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se
-entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos:
-
---Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que
-recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da
-minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...
-
---Terras de trigo?
-
---Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por
-vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares.
-Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me
-esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho
-do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz,
-as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já
-se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se
-acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os
-empregados ... não faz mal, é o dono.
-
---Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o
-Lemos, assoando-se com estrondo.
-
-Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se.
-
---Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado?
-
---É...
-
---Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez!
-
---Porque?
-
---Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita
-gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si.
-
-Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com
-tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas
-sêdes...
-
-Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar
-de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as
-respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do
-Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de
-café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que
-lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis.
-
-Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios,
-com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se
-deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava...
-
-Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio.
-Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções
-agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um
-grande projecto...
-
-Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da
-esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de
-libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle?
-
-As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para
-afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto!
-
-A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á
-voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse,
-ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de
-moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos
-primeiros arrepios da tentação.
-
-Francisco Theodoro reflectia...
-
-Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella.
-
-Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando
-o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das
-saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço,
-chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar
-espesso, engrossado de pó.
-
-Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.
-
-D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e
-lagrimas que se fertilisam os melhores campos.
-
-Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o
-bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e
-se desmancha em flores.
-
-Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer
-bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado
-na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos:
-
---Olhem para a minha vida e façam como eu fiz.
-
-Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé
-antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias
-de loucura.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se
-passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas
-para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a
-depressa.
-
---Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.
-
---E outro para a minha, Noca?
-
---Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.
-
---Um só, Noca, sim?
-
---Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem
-roupa!
-
-Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se
-nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e
-ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço,
-levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a
-mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella
-creatura.
-
-A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores
-quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um
-rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.
-
-Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se
-acercou da taboa.
-
---Agora é que você está chegando, Dionysio?!
-
---É Fui levar um recado de _seu_ Mario... A senhora já sabe que elle
-deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe
-tirar o chapéo!
-
---Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças,
-que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:
-
---É loura ou é morena?
-
---Morena, altinha, muito _chic_.
-
---Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande.
-
-Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar
-sonso.
-
---Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. Nina.
-
---Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.
-
-Um retrato.
-
-Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda
-continuou:
-
---Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...
-
---É para Sergipe.
-
-A cabocla sorriu.
-
---O professor de musica está ahi...
-
---Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu
-botar de infusão.
-
-Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por _dona_.
-Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com
-acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias
-de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as
-impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um
-remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem
-escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança.
-
-Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua
-prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia
-economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de
-côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo
-volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade.
-
-Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma
-imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e
-concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma
-explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições
-curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma
-verdade indiscutivel.
-
-E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla
-consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe
-explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para
-tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos,
-rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos...
-
-Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de
-gostar de ser util e servir de muito a muita gente...
-
-Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla.
-Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande
-novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o
-pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido
-parecia não comprehender!
-
-A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver
-nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ...
-esse tambem ruminava qualquer coisa...
-
-Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o
-pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do
-engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo.
-
-A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade.
-Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não
-passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por
-causa de um homem? Não vê!
-
-Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente
-achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo
-muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da
-Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para
-dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito
-desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis;
-Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita;
-morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer
-soffrer.
-
-Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo,
-Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona,
-com as mãos inuteis, o olhar febril.
-
-A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do _Neptuno_, não a
-deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e
-aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente,
-e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em
-negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos?
-
-No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era
-em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas
-toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que,
-apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para
-elle.
-
-Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou,
-ao voltar da cidade.
-
---Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a _Aïda_. O
-Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia...
-
---Que entende o Negreiros de musica!
-
---Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em
-baixo...
-
-Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando
-o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em
-frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular
-enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio
-interrompido.
-
---«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo
-dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e
-instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa
-moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha;
-não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço,
-compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia.
-Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr
-educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre
-para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e
-revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que
-andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a
-uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em
-discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias;
-por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o
-individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A
-instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a
-vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume
-que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal
-geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o
-ambiente em que vivam depois.
-
-É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões,
-á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a
-verdade e não escapam aos ouvidos delicados.»
-
---Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras...
-
---O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin.
-Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor.
-
---Porque?
-
---Porque ainda não tem edade para comprehendel-o.
-
-Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um
-excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e
-mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com
-prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu?
-
---Está ahi, atraz do senhor.
-
---Ah...
-
-Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via
-muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia,
-dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com
-medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só...
-
-
-Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da
-mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo
-e danças até a madrugada.
-
-Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as
-violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa
-silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas
-leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do
-robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro.
-
-Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se
-lamentava por isso da ausencia.
-
-A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins
-illuminados a _balões_ e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos
-terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de
-vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes,
-essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no
-banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e
-sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por
-sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o
-unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho:
-tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro,
-almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças
-corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista
-pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu
-repertorio.
-
-A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco
-Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança,
-alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das
-attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de
-posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois,
-na balburdia da vida.
-
-Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao
-piano, ou cantasse algum romance italiano.
-
-Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para
-que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos
-regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as
-senhoras edosas ao _buffet_, recommendando á Noca que distribuisse pela
-criadagem vinhos e doces.
-
-Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo
-barulho que pela intenção.
-
-Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas
-mangas dos commendadores ou dos empregados do marido.
-
-Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia
-sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho
-honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro,
-a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho.
-
-O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos.
-Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam
-para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de--minha
-estudiosa--gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados
-para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam
-encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das
-estrellas...
-
-Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete
-Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na
-quietação cançada da familia.
-
-Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os
-talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de
-luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os
-marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e
-as lanternas disseminadas pelo jardim.
-
-Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer
-aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os
-ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam
-nervosamente.
-
-Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu:
-
---Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo!
-eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da
-colonia. Não quero fazer figura triste.
-
---Alguma manifestação? perguntou Gervasio.
-
---Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje
-d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que!
-Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O
-engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora,
-que se apresenta a occasião, faz cara feia!
-
-Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na
-execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao
-movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de
-pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.
-
-Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro
-pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e
-dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas
-se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda,
-entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos,
-encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo
-e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava
-uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.
-
-Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas,
-pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma
-doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava:
-já nem pensava nisso!
-
-Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á
-felicidade, ella foi esquecendo.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á
-mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.
-
-Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou
-importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto
-esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só
-para a sobremesa disse espantado:
-
---É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou?
-
-Nina murmurou, desculpando-o:
-
---Acho que está incommodado...
-
---Vou ver isso.
-
-Theodoro levantou-se.
-
-Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre
-si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu
-amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante.
-
-Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario!
-
-Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar
-firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que
-nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas
-azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que
-ella temia...
-
-E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se
-festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e
-commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico...
-
-Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo,
-que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em
-escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo.
-
-Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma
-expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava,
-fallava...
-
-Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho.
-
---Então, _seu_ Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para jantar é
-volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de visitas?!
-
---Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa.
-
---Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias
-ao menos respeitar o hospede.
-
---Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem,
-papae, não posso vêr aquelle homem!
-
---Tu estás doido! porque?!
-
-Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe
-insistia, furioso:
-
---Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa
-raiva?
-
---Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por instincto...
-Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... aquella
-voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as suas
-mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua
-assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os
-vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que
-é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe
-pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.
-
---Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o
-que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não
-se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não
-sou bom!
-
-Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que
-effectivamente o Mario estava indisposto...
-
-Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um--até logo!
-
-Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa
-aborrecia-o.
-
-A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada,
-vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro.
-Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando
-flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto.
-
-Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e
-leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.
-
---Cuidado, minha filha!
-
---Ahi vae um beijo, mamãe!
-
-O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o
-passeio continuava, arrastado e feliz.
-
---Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã
-cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!
-
---Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!
-
---Lá vens tu...
-
-Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á
-claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo
-ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava
-na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus
-ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua
-força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava,
-unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz
-cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.
-
-Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades
-estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens
-fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em
-baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos
-distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do
-somno.
-
-Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das
-estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo
-escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a
-penumbra.
-
-O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.
-
---Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.
-
---Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro,
-consultando o céu. E chuva de arrazar!
-
-Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do
-medico. Despediram-se.
-
-Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca:
-
---_Seu_ Mario?
-
---_Seu_ Mario sahiu...
-
---Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga...
-
-Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para
-a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla
-impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e
-perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela
-golla do vestido.
-
---Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada.
-
-Nina sacudiu as formigas com o lenço.
-
-Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata.
-
---_Seu_ Mario?
-
---Elle ainda não voltou...
-
---Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando
-elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?
-
---Percebi, sim, senhor.
-
---Agora chame o Dionysio.
-
-E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.
-
-Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos
-com a agulha, mal acertando com a costura.
-
-Theodoro voltou-se para ellas:
-
---Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se
-á mesma hora que os paes...
-
---Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla.
-
---Pois sim!
-
---E se chover? A noite está tão feia...
-
---Que volte para traz. Não vem a pé.
-
---Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e
-debaixo d'agua...
-
---Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou
-raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?!
-
---É a mocidade...
-
---Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois
-ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei
-com o suor do meu rosto!
-
---Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco.
-
---Mais uma razão.
-
---Qual razão!
-
---Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em
-casa a horas convenientes ou...
-
---Ou?...
-
---Ou que vá dormir para o diabo!
-
-Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz
-replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco
-Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da
-sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.
-
---É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o
-negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as
-chaves.
-
-Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes
-um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera,
-corporisava-a, tornando-a irrespiravel.
-
-Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos,
-amodorrados, bambos.
-
-Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe,
-soturnamente.
-
-Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para
-dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao
-beiral do telhado.
-
-A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta.
-
-O que passou depois, foi o vento.
-
-Ella deitou-se com um suspiro.
-
-Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu
-a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do
-arvoredo.
-
-Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos
-pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania,
-lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos,
-com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da
-noite.
-
-Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma
-cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á
-janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo.
-Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em
-falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova
-lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.
-
-A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.
-
-O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á
-distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.
-
-Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.
-
-Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o
-aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na
-inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam
-arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre
-as telhas, com estrondo.
-
-Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela
-fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo,
-não a amaria nunca.
-
-Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo
-pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos.
-Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para
-ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada
-mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e
-em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não
-comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na
-infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!
-
-Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa
-classe; mais nada; e não era pouco.
-
-Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos
-agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era
-nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços
-caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se
-atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no
-fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse
-casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada
-deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma
-creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na
-casa de Francisco Theodoro.
-
-Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de
-preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás
-palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava
-isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o
-traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra.
-
-Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então
-os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do
-seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a
-aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois
-bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor
-de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos
-beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que
-até então ella só parecia ter espreitado de longe.
-
-Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a
-edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua
-força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a
-ceder ás suas vontades absurdas.
-
-De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina
-em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a
-peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para
-essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são
-para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos,
-rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da
-vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era
-exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.
-
-Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da
-sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas
-graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.
-
-Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos
-flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e
-humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a
-varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe
-batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro
-resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma
-instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.
-
-O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe
-em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um
-filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.
-
-Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca,
-sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?
-
-Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado
-por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o
-coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa
-que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.
-
-Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber
-d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?
-
-Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia
-mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses
-recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida,
-escarnecida, miseravel.
-
-No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a
-alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento;
-então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o
-encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que
-redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.
-
-Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro
-cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda
-bailou macabramente com o arvoredo escuro.
-
-A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e
-offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias,
-mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.
-
-Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada,
-brutal, ensurdecedora.
-
-A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e
-voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir
-indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.
-
-Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:
-
---Mario! Mario!
-
-Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.
-
-O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o
-pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na
-sombra, ia-se embora.
-
-Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.
-
-Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço,
-com a precaução de quem vae para o crime.
-
-Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia,
-praguejando raivoso.
-
-Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:
-
---Espere um bocadinho, Mario!
-
---Que estupidez!
-
---Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse
-de fóra.
-
-Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.
-
---Que idéia foi esta de deixarem a chave...
-
-E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que
-seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?
-
---Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.
-
-Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a
-chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do
-chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario
-percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de
-carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara
-nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado,
-sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto
-impudico e voluptuoso.
-
-Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso
-naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a
-prima o amava?
-
-A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de
-hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.
-
-Nina comprehendeu.
-
-Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e
-subiu correndo.
-
-A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo
-de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no
-passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu
-desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se
-quedara estupefacto no mesmo ponto.
-
-Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina
-sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto
-até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.
-
-Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da
-chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se
-atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo,
-juncto aos seus calcanhares.
-
-Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada
-assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de
-que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a
-porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á
-fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago
-conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda.
-Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no
-chão.
-
-E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa,
-muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de
-repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a
-camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da
-sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no
-vidro...
-
-Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia
-um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e
-adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se
-arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de
-que fugira...
-
-Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu
-alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.
-
-Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava
-para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a
-porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,--e ainda Nina, na
-estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro,
-soffria, soffria, soffria...
-
-No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou
-na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da
-familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro
-para a sua mesa.
-
---Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle,
-fixando-lhe os olhos pisados.
-
---Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.
-
-Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:
-
---Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses
-sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção
-foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a
-ultima vez que sou desobedecido.
-
-Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas
-junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que
-ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou
-então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe
-partisse uma fatia do _roast-beef_ frio e que lhe fosse depois buscar o
-_Jornal_, esquecido em cima, no quarto de _toilette_.
-
-Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos
-seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos
-violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma
-d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a
-admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.
-
-Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.
-
-
-
-
-X
-
-
-Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não
-se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os
-desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia
-sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das
-suas devoções.
-
-Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a
-gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus
-passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.
-
---Que milagre! a senhora por aqui!
-
-A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que
-fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas
-o nó da mantilha preta.
-
---Mal imagina você por onde tenho andado!
-
-Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N.
-S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando
-esmolas.
-
---Tão cedo?
-
---Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas,
-hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?
-
---Não, senhora.
-
---É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as
-atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves,
-que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...
-
---Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:
-
---Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?
-
---Ainda estão dormindo?!
-
---Tio Francisco já sahiu.
-
---Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por
-todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande
-concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte
-Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar
-a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá
-não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos
-espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é
-para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...
-
---A senhora falle com tia Milla. _Seu_ João! chamou ella interrompendo
-outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é
-preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas,
-faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?
-
---A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos
-canteiros, que Deus nos acuda!
-
---Veja se remedeia isso hoje mesmo...
-
-O jardineiro passou; D. Joanna disse:
-
---É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario
-Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia,
-pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do
-filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...
-
---Quer café, tia Joanna?
-
---Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se
-arrepender...
-
---Não tenho tempo... Quer mais assucar?
-
---Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz
-de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...
-
-Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da
-tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de
-folhas arremessadas pela ventania.
-
-D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em
-pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de
-melancholia.
-
-Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu
-cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido
-branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao
-corpo um ar de anjo de cathedral.
-
---Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.
-
-Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.
-
---Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!
-
---Porque?...
-
---Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a
-lua e as estrellas.
-
---Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de
-egreja...
-
---Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da
-Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos
-cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão
-Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora.
-Leve-me lá, titia, sim?
-
---É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.
-
---Seria querer demais. Você já leu hoje a _Flor de Neve_, Nina?
-
-Nina meneou com a cabeça, que não.
-
---Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.
-
---É um romance do _Jornal_, muito bonito. Estou morta por saber se a
-Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no
-_Jornal_!
-
-D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço,
-bonita, de _peignoir_ côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás
-duas filhas pequenas.
-
-Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que
-naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de
-jantar.
-
---Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia
-Joanna?
-
---Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...
-
-Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e
-beijou-o no pennacho.
-
-Depois, para a velha:
-
---O que a trouxe tão cedo?
-
-D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e
-apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da
-capella do Monte Serrate.
-
---Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não;
-porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.
-
---Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?
-
---Posso mandar.
-
---Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um
-perfeito homem.
-
---Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?
-
---Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num
-folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua
-filha.
-
---O pae não se importa, que hei de fazer?
-
---Ainda não fez a primeira communhão?
-
---É cedo.
-
---Não é tal. Ella não quererá?
-
---Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas
-as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o
-casamento.
-
---Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?
-
---Está um moço bonito.
-
---E ... mais ajuizado?
-
-Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas
-brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:
-
---Como todos os rapazes de vinte annos...
-
-Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego
-verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca,
-que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna
-levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.
-
-Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da
-poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou
-gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o
-tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em
-movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma
-musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um
-vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella,
-conversava baixo com a Camilla.
-
-D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria
-aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na
-sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.
-
-Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.
-
-«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um
-burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.
-
-Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no
-quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr.
-Gervasio não estava.
-
-Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com
-desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu
-tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe
-pouca attenção.
-
-Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de
-pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito
-calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito
-suspiros curtos, que afogava em _bordeaux_...
-
-Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não
-estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição;
-depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para
-as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de
-criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras,
-risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois
-gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde
-da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do
-encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as
-pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e
-paredes sujas de predios velhos.
-
-Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um
-impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos
-castos e pudibundos da velha.
-
-Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D.
-Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:
-
---Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se
-persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus
-pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia,
-Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus
-sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para
-ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas
-meninas a respeitarem a nossa religião?
-
-Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:
-
---Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao
-domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma
-ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem
-adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se
-esquecia dos seus deveres.
-
-Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia;
-para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração
-d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para
-elle:
-
---Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?
-
---Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?
-
---Como se chamam os seus deuses?
-
---Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum
-poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por
-que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que
-aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da
-mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D.
-Joanna, e que inferno bellissimo!
-
---Vá trazendo para cá essas ideias...
-
---Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A
-senhora já ouviu fallar em Byron?
-
---Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?
-
---Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda
-voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua
-glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras
-apotheoses da arte.
-
---Só por isso?
-
---É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.
-
---Julga-me muito bronca.
-
---Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer,
-discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?
-
---Algum damnado.
-
---É o termo.
-
---Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que
-peccado!
-
---Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.
-
---O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?
-
---Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para
-enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras.
-A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira?
-Tenho uma _Yellow Persian_ quasi perdida!
-
---A sua medicina nem para as plantas serve?
-
---Nem para as plantas, a miseravel!
-
---Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.
-
---Que é?
-
---Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...
-
---Meu Deus! e eu de _peignoir_!
-
-Dr. Gervasio voltou-se e disse:
-
---Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas,
-sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido
-tão bonito.
-
---Então vou assim mesmo...
-
-D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era
-seguida!
-
---Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O
-dinheiro dos bilhetes?
-
---É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras.
-Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.
-
---Adeus.
-
-A moça sahiu.
-
---Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla
-esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!
-
-O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe
-no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha
-percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle
-lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra
-de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.
-
-Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim
-preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente
-emmoldurado.
-
-A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira
-anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do
-seu cordão de ouro.
-
-A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...
-
---Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este _peignoir_
-é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é?
-
-A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.
-
---Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de
-um bello sorriso.
-
---É facil. Vem participar-me o seu casamento!
-
---Casar-me, eu? qual!
-
---Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.
-
---Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de
-dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus
-pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade,
-Paquita?
-
-Paquita meneou a cabeça, que sim.
-
---Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?
-
---Em um _bond_.
-
---Já me tardava. O _bond_ é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem
-vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao
-pobre _bond_ todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de
-carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua
-Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado
-Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de
-religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar
-festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na
-nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha
-miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de
-fé christã.
-
-Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.
-
-Houve uma pausa.
-
---Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está
-muito bonito moço.
-
-Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já
-tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.
-
---Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...
-
---Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria
-o mesmo.
-
---Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.
-
-Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:
-
---Já recebeu convite para o nosso baile?
-
---Já...
-
---Esperamos que seja Mario quem nos marque o _cotillon_. Papae gosta
-muito do Mario.
-
-O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo
-cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda
-a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle
-gabava-se dos seus principios rudes e pesados.
-
---Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta,
-disse Camilla.
-
---Já se falla nisso.
-
-A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos.
-Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de
-repente com uma phrase secca:
-
---Vamo-nos embora.
-
---Sim, vamo-nos embora.
-
-Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no
-concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a
-_matinée_.
-
-A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto,
-caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados,
-o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados
-de morena.
-
-Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á
-observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso,
-um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a
-manga.
-
-Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que
-sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.
-
-Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a
-silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de
-cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria,
-achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de
-religião.
-
-Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a
-ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.
-
-Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do
-_Neptuno_. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de
-bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma
-mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco
-Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só
-Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos
-frios.
-
-E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu
-pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por
-Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou
-que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella
-mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?
-
-As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.
-
---Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo,
-muito fraco pelas denguices das gemeas.
-
-Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua
-roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma
-tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando
-dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.
-
-Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.»
-
-Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem
-percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos
-por um sorriso amargo.
-
-Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas
-grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas...
-
---Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe
-Ruth.
-
-Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:
-
---Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá
-pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas.
-Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta
-foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso
-mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?
-
-Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com
-ar solemne:--Só Deus!
-
-
-
-
-XI
-
-
-Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio
-estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa
-o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto
-pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar
-esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.
-
-Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.
-
-A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de
-faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo,
-berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por
-todos os lados em vivas represalias.
-
-O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal
-ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em
-grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com
-todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de
-cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o
-unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás
-instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o
-seu bem-estar escolheram.
-
-João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o
-minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias
-do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de
-Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista
-pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de
-ingratos.»
-
-Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um
-republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus
-compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor
-de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de
-Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado,
-tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera
-censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle
-já estava maduro para dar o seu braço a torcer!
-
-Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de
-Negreiros entrar na discussão.
-
-Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino
-appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão
-interrogativa no rosto.
-
-A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez
-logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.
-
-Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de
-reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na
-mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as
-pontas do bigode delgado.
-
---Que novidade é esta, o senhor por aqui?!
-
---Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.
-
---Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o
-apresentar aos meus amigos.
-
-Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande
-bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro
-perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.
-
---Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os
-meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.
-
---Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido
-lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não
-fazemos cerimonias.
-
---Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a
-preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os
-meus respeitos a todos.
-
-O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo,
-lhe bailava sob a pelle de loiro.
-
---Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe
-razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente.
-Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos
-ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga
-ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.
-
-_Seu_ Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na
-secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.
-
-Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a
-lida. Levantaram-se todos.
-
-Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante
-pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta
-importancia.
-
-No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio
-tinha lampejos de ouro. _Seu_ Joaquim observava em silencio.
-
-O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no
-corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros
-descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia
-á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens,
-para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol,
-acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha
-Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a
-cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os
-carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos
-repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos
-os ventos a sua força poderosissima.
-
-O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e
-movediços.
-
-Aquella multidão aturdia-o.
-
-O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias
-commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na
-natureza o que ella tem de maior e de mais simples.
-
-A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do
-oceano que elle cortava com a prôa firme do seu _Neptuno_.
-
-Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era
-aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o
-amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra
-produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é
-instantaneo e é eterno.
-
-O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da
-adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua
-grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?
-
-A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra
-negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a
-terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte
-do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda
-em orvalho fecundo?
-
-O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados,
-vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população
-de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a
-preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em
-repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a
-respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos
-batendo dominadoramente as pedras duras do chão.
-
-Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.
-
-Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto
-desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e
-meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a
-porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro
-lampejante de mar.
-
-Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e
-de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava
-de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças.
-Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella
-confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a
-impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.
-
-Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro,
-agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada
-sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se
-aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado
-para descer ao outro em escadarias toscas.
-
-De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para
-extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas
-de moças cantavam modinhas ternas.
-
-Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés,
-d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas
-ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam
-trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.
-
-O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a
-face quente e robusta da terra.
-
-Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.
-
-Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres,
-trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era
-resignado e sabia esperar.
-
-A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.
-
-Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle
-viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces
-para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.
-
-Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas
-velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam
-em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a
-atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.
-
-Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o
-capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.
-
-Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda
-inconstante...
-
-Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só
-voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e
-ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.
-
-Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na
-telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou
-esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento
-continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os
-predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia,
-coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo
-o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto
-docil e amorosa para com o outro...
-
-Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho
-de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações
-felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria
-mais ninguem assim, tão desafortunado.
-
-Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o
-coração tranquillo, com fé no amor!
-
-Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação
-da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse,
-mas não amasse o outro!
-
-E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque
-havia de ser o outro, e não elle?
-
-O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres
-moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de
-exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo
-teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes,
-tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se
-guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as
-miserias embelleza.
-
-E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus
-dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia
-neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo
-que combate ou pelo que amplia?
-
-Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado,
-amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla
-de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre
-doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem
-encerrada no circulo de seus deveres.
-
-Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como
-adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente
-e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe,
-salvar-se do perigo que o solicitava.
-
-Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria
-o seu orgulho de homem.
-
-A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.
-
-A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com
-ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria
-para bordo aprestar o _Neptuno_.
-
-Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para
-que? não tornaria a vel-a...
-
-Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella,
-sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem
-nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o
-poder da sua vontade.
-
-Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do
-norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria,
-inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...
-
-O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e
-só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento
-forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado
-apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe,
-extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello;
-elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle
-aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos.
-Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu
-tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo
-deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.
-
-D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras,
-desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o
-calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou
-para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa
-occasião.
-
-Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e
-das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e
-risonhas nas suas _toilettes_ claras.
-
-D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as
-mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha
-esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.
-
-Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia
-Theodoro, como estava a boa Camilla?
-
-Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.
-
-A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe,
-dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais
-atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e
-offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos
-objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á
-cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.
-
---E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse
-do que para dizer alguma coisa.
-
---Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido
-sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo
-é de ingratos...
-
---Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.
-
-Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as
-lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das
-cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel,
-numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão
-insupportavel a longura da viagem.
-
-Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que
-ninguem o via, senão no palacete Theodoro?
-
-Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e
-contemplou-o com curiosidade.
-
-Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos,
-apontando o portão da sua residencia.
-
-O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta,
-admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices
-da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida
-e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de
-formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão
-enluvada?
-
-A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se
-a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que
-ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O _bond_ parara
-no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da
-madrasta; o portão estava aberto, entrou.
-
-Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus
-pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por
-uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao
-fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e
-simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.
-
-Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos,
-e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em
-semicirculo.
-
-Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.
-
---Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e
-ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.
-
---Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do
-costume.
-
---Chamaste medico?
-
---Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.
-
---Que Hermengarda?
-
---Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...
-
---Já sei.
-
---D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?
-
---Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.
-
---Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os
-dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D.
-Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as
-arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o
-adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo
-cheiro.
-
---Que tens feito?
-
---Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se
-eu quizer sahir?
-
---Effectivamente estás muito só.
-
---Preciso casar-me.
-
---Casa-te.
-
---Tenho medo.
-
---Os homens assustam-te?
-
---Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto!
-Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.
-
---Sê honesta.
-
---Quem pode saber hoje o que será amanhã?
-
---Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma
-indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de
-calma e de reflexão!
-
---Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. Chama-me com
-malicia--_doutora_. Todos os meus gostos são assumpto de mofa para
-ella, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E ahi tens a calma
-d'esta casa. Fresca tranquillidade!
-
---Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!
-
---Com quem?
-
---Commigo não pode ser.
-
---Nem tu quererias.
-
---Porque?
-
---Porque amas a Camilla Theodoro.
-
-Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O
-jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e
-cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto,
-pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras.
-
---Nega, se és capaz; disse ella.
-
---Não nego.
-
-Quedaram-se mudos, contemplando-se de face.
-
-Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe
-assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio.
-Catharina murmurou:
-
---Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella
-e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo.
-
---Nem eu; mas a sociedade absolveu-o...
-
---Os homens. Ella era tão boa!
-
---Enganou-o.
-
---Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento
-de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de
-uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a
-beijar-lhe a mão.
-
---Nem mesmo na hora da morte?!
-
---Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao
-encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle
-percebeu tudo. Que morte!
-
---Foste cruel.
-
---Fui humana. Tu o amavas?
-
---Antes? muito!
-
---Depois?
-
---Não. Mas era nosso pae...
-
---E ella era nossa mãe!
-
---Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura
-entre as mulheres.
-
-Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua.
-
---Foi no _Neptuno_ que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando
-de tom.
-
---Onde havia de ser?
-
---E só aquella vez bastou?
-
---Só.
-
---Manda calar aquelle sabiá, Catharina!
-
---Deixa lá o passaro; chora.
-
---... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... Entrego
-em Belém o commando do _Neptuno_ a outro. Tenho substituto; está tudo
-combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso
-que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir...
-
---Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor
-não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella
-ama o Dr. Gervasio...
-
---Por quem soubeste isso?
-
---Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, benza-a
-Deus!
-
---Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?!
-
---Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento
-traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada
-desembainhada para todas as faltas, aquella mulher!
-
---De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso
-assim fosse, quem poderia adivinhar?
-
---João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre.
-
---Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não
-ama ninguem; não ama ninguem!
-
-Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar,
-um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que
-as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e
-calma, toda azul, com leves tons opalinos.
-
---Catharina?
-
---João?
-
---Precisava ter-te sempre a meu lado...
-
---Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus
-filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas!
-
---Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella.
-
---Soffres muito?...
-
---Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. Custa
-muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo!
-
---Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo.
-
-Sorriram ambos, com tristeza.
-
-Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina
-tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se
-com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa.
-
-Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da
-madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um
-lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda
-tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa
-muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.
-
-O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e
-a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito
-frio.
-
-Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras,
-recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em
-bicos de pés.
-
-Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se
-alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais
-intimo.
-
-Elle perguntou:
-
---Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?
-
---Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria
-depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim,
-quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas
-o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu
-sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.
-
-Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto
-era na visinhança.
-
-Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu,
-ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de
-separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que
-em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com
-sinceridade--o d'ella.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria:
-era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de
-que o negociante fizera o seu escriptorio.
-
-Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada
-para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de
-plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés
-morria.
-
-Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha
-estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua
-attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do
-aposento, vasto e sobrio.
-
-Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das
-coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma.
-
-A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros
-industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano.
-Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um
-cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento.
-
-Do lampeão de bronze com _abat-jour_, cahia uma luz bem dirigida,
-espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo.
-
-Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o
-Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua.
-
-A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos
-não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus
-olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus
-movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da
-sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa,
-a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida
-alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio.
-
-Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de
-prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco
-Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o
-desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto
-experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella
-entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer
-empreza.
-
-Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa
-condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital,
-avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando
-zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o
-pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem.
-
-E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No
-mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou
-uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer
-pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida.
-
-O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em
-borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.
-
-Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e
-as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade.
-Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a
-vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do
-desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante,
-não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que
-elle não conseguia dirigir a seu modo.
-
-Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de
-goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é
-que lhe parecia uma ignominia.
-
-Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do
-homem obrigava-o a transigir um pouco...
-
-Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal
-chegava o echo das correrias das pequenas.
-
-Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não
-pede, mas offerece favores.
-
-Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da
-cabeça, começou:
-
---Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. O
-Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua
-prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi
-elle que me disse que o consultasse tambem.
-
-Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do
-Braga scintillavam na sombra.
-
-Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom
-criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o,
-revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração
-perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia,
-fortificando-o com argumentos persuasivos.
-
-Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum
-artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte.
-
-Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio
-prestava-se.
-
-Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos
-difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O
-tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se.
-
-Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais
-rude.
-
-O assalto assustava-o.
-
-Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos,
-Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger
-resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a
-seductoramente.
-
-Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle
-não fallasse com a autoridade de bom conhecedor.
-
-Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias
-o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em
-certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da
-promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era
-documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno,
-annotado nas margens, com lettra miuda.
-
-Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem
-argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta
-incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde...
-
-Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por
-instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro,
-e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia.
-
-O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa.
-Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a
-propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro
-approvou.
-
-Reconhecia nos inglezes grande capacidade.
-
---Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor
-porque?
-
---Superioridade de raça... Sim, é o que dizem.
-
---Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de
-educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais
-forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo
-de figado que tenha ingerido em pequeno.
-
-A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas
-especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de
-negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as
-mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o
-que o inglez nasce e se desenvolve.
-
-Por isso o commercio d'elles é tão forte.
-
-Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo
-estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos!
-
-Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto.
-
-Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas,
-estatisticas...
-
-Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem
-tirar os olhos dos papeis:
-
---Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:--o Gama Torres.
-
---É rapaz novo...
-
---E atiladissimo.
-
---Os negocios precisam ser feitos com vagar...
-
---Á moda antiga.
-
---De todos os tempos.
-
---Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do
-thermometro.
-
-As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos
-alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra
-épocha. Esta é a melhor.--É a unica.
-
-Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores
-e mais convincentes do que palavras:--cifras.
-
-Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e
-seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro
-apontavam e percorriam rapidamente.
-
-Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação,
-assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de
-desabar em blocos de ouro.
-
-Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma
-objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem
-já vinha prevenido para tudo.
-
-Á meia-noite ergueu-se, dizendo:
-
---Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra
-vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das
-duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite.
-
-Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em
-cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na
-soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães.
-
---Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem!
-
---Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas.
-
---É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro.
-
---Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites!
-
-Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento
-gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do
-Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras
-lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e
-morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção...
-
-Quando no dia seguinte abriu o _Jornal_, na frescura da varanda,
-percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se
-presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros
-caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro
-desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga.
-
-E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado.
-
---Sabe uma coisa, papaezinho?
-
---Não ... não sei nada. Que temos?
-
---Uma desgraça.
-
-Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado.
-
---Que dizes?!
-
---Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para lhe
-dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado...
-
---Então a desgraça é essa?
-
---Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os
-outros, que podem mais, se esqueçam d'ella...
-
---Ora, não lhe falta nada.
-
---A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz annos,
-o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se
-fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a
-minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente...
-Entretanto...
-
-Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção.
-
---Acaba.
-
---Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com
-mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios
-de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer
-que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor
-ou a mamãe.
-
-Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu...
-
---Quem te lembrou isso hoje?
-
---Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha...
-
---Bom; promette-lhe o chapéu.
-
---Só?
-
---Parece-te que temos sido ingratos para com ella?
-
---Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa...
-
---Que coisa?
-
---Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata
-que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:--mas porque é que você não
-compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e
-ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não
-podia tomar gelo, mas perguntei:--porque é que você não toma um
-sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor
-vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem
-uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que
-desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma
-carteirinha no bolso...
-
---Queres então dar-lhe uma carteira?
-
---Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por
-mamãe.
-
---Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço.
-
-Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio
-faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer.
-
-Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se
-para a sobrinha, declarou:
-
---Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para
-você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os
-mezes um vestido a seu gosto.
-
-A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou
-com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a
-saude. Ella começou a chorar.
-
---Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De
-maneiras que você...
-
-Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla
-applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos.
-
-Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao
-tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou:
-
---A casa não é grande, mas é nova e bonitinha.
-
---É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever,
-insistindo para que você não falte ao baile do pae.
-
-Parece que a Paquita está apaixonada!
-
-Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que
-recomeçara a partir o _beef_ das primas.
-
---Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado.
-
---Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do
-Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só
-attribuo a querel-o o Meirelles para genro.
-
---Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O
-Meirelles não é nenhum parvo.
-
-Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse:
-
---Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de
-mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não
-quero.
-
-Nina tremia.
-
-Francisco Theodoro riu alto.
-
---Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou
-a outra, com um homem de peso...
-
---Pois sim!...
-
---Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são?
-
---Cinco, parece-me que cinco.
-
---Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem
-nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do _Chora vintens_...
-D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio...
-Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado...
-
---Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho
-de nojo.
-
---Que queres? Nem todos nascem para doutores.
-
-Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega;
-todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do
-filho.
-
-Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar:
-
---Que foi que eu lhe disse hoje?
-
-A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou:
-
---Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa
-nova?
-
---Borboleta azul?...
-
---Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul?
-Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito
-dote... E ainda ha quem não acredite!
-
---Sim, é verdade, você me disse...
-
-E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de
-doçura.
-
-Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga
-apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S.
-Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em
-casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que
-transparecia a mais viva curiosidade.
-
-O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os
-pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de
-dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro
-prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia,
-na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto.
-
-Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão
-uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna
-não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade,
-tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.
-
-Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e,
-cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao
-Innocencio...
-
-
-
-
-XIII
-
-
-O palacete Theodoro preparava-se para o baile.
-
-Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e
-corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de
-escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando
-_parquets_ e de moveis deslocados.
-
-Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o
-despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas
-escancaradas, com inteiro desassombro.
-
-Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa
-perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel
-e discreto.
-
-Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a
-interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma
-salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um
-romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e
-não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das
-suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro
-abandonados.
-
-Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.
-
-Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da
-modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas
-sobre _tules_, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.
-
-O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas
-salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho
-das dansas.
-
-Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando
-para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não
-provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal,
-quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!
-
-E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que
-tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio
-não a deixava tomar corpo.
-
-Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem
-determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de
-musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco;
-foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e
-harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos
-parecia a Camilla perfeito.
-
-Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As
-gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se
-por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da
-desordem que provocavam.
-
-Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.
-
-Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta
-do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.
-
-Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais
-risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a
-familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava
-construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um
-avestruz.
-
-Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta
-por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes,
-estacou surprehendida.
-
-De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús,
-soprando em longos flautins de ouro.
-
-A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce,
-porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças,
-que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da
-atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida
-da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus
-olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.
-
-Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A
-machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.
-
-Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se
-podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e
-bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas
-de filó batiam tremulas.
-
-Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um
-paiz de sonho.
-
-Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a
-vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas
-tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em
-flechas de sol.
-
-Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio
-entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da
-parede:
-
---Estou gostando de vêr...
-
-«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao
-mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não
-lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.
-
-Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle
-respondeu:
-
---Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e
-injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia
-esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma
-perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não
-digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o
-effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...
-
---Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a
-mamãe que me mande ensinar pintura...
-
---Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é
-raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não
-pense em mais nada...
-
-Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a
-não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos
-trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no
-caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de
-musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou
-coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.
-
-Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo
-lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da
-illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os
-canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.
-
-Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a
-Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia
-Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao
-Observatorio para vêr a lua e as estrellas.
-
-Era a occasião.
-
-Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no
-oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa
-rezada.
-
-D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a
-essa hora o--_ora pro nobis_ em côro com o povo e os frades.
-
-Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas
-encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes
-desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia
-todos os sacrificios. Ficaria.
-
-Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa
-em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu,
-perguntando pela sua encommenda.
-
---Que encommenda, gente?
-
---A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que
-eu pedi...
-
---Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu
-dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?
-
---Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...
-
---P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?
-
-A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.
-
---Não diga nada...
-
---Você é tola!...
-
-A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser
-ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas
-dilatadas farejando mysterios.
-
-D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo
-questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando
-desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel
-de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha.
-Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e
-torpes:
-
---O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?
-
---Vae, sim, senhora.
-
---Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?
-
---Não sei...
-
---Camilla sae sozinha?
-
---Ás vezes sae.
-
---Porque é que você não vae sempre com ella, hein?
-
---Eu tenho que estudar.
-
---Não fica bem uma senhora sahir só...
-
-Ruth contemplou-a, estupefacta.
-
---As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?
-
---Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.
-
---Em quantos contos está?
-
---Não sei, não, senhora...
-
---O Dr. Gervasio vae tambem?
-
---Acho que não.
-
---Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de
-olho?
-
---P'ra Nina? não, senhora.
-
---Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que
-estão reformando tudo! é verdade?
-
-Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do
-medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço,
-as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o
-vestibulo...
-
-D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava
-a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um
-sorriso torto:
-
---Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.
-
-Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor.
-Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a
-lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã
-voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a
-viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que
-por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha
-julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra
-o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que
-embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...
-
-Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca
-rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!
-
-D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.
-
---Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.
-
---Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se
-precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra
-tia.
-
---Quem foi que trouxe você?
-
---Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não
-queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi,
-tanto pedi...
-
---Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta
-annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito
-triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...
-
-Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a
-duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu:
-primeiro de dor, depois de allivio.
-
---Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã
-poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...
-
---E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim.
-Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma
-curiosidade!
-
---Mas...
-
---Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha,
-sim?
-
-Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de
-kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou
-a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.
-
-Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á
-janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe
-historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de
-rogada.
-
-As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam
-a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num
-ambiente tão diverso do que lhe era habitual.
-
-Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a
-nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças
-flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando
-judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições
-injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os
-extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã,
-assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a
-vastidão sombria do aposento mudo.
-
-Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas
-indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das
-lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho
-erguido a uivar...
-
---Tia Joanna, tia Joanna!
-
---Que é isso, minha filha?!
-
---Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...
-
---Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que
-ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda
-hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.
-
---Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...
-
---Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito
-antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem
-simples.
-
---Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?
-
---Nem sangue, nem fogueiras:--Foi um dia...
-
-
-
-
-XIV
-
-
-«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a
-Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de
-rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.
-
-Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria
-negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.
-
-Uma tristeza.
-
-No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da
-portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão
-doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror
-Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda
-e murmurava:
-
---Ave!
-
-E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.
-
-Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu
-habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu
-ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella,
-tirando a cruz e o véu.
-
-Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome.
-Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera
-tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não
-sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...
-
-Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?
-
-Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella,
-com dois olhos que nem duas estrellas.
-
---Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as
-mãos tremulas.
-
---Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.
-
-E logo de mil modos começou a tental-a.
-
-Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida.
-Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe
-que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no
-abysmo...
-
-A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer
-despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que
-fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos,
-muito tremula, muito alvoroçada.
-
-Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus
-que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O
-beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado,
-embriagador.
-
-Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha
-deliquios, abstracções.
-
-O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que
-fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares
-cheirosos e aguas crystallinas.
-
-Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os
-labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a
-perpetua bemaventurança, mais que tudo!
-
-E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á
-portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.
-
-Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A
-freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas
-ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu
-cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e
-tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava
-com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando
-contrictamente:--Ave!--e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do
-convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só
-havia grossas paredes impenetraveis.
-
-Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.
-
-Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão
-levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a
-communidade entoava:
-
---Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos
-trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!
-
-Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em
-redor, por aquellas penedias.
-
-E entoavam hymnos.
-
-Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão
-aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto
-voltado para a outra banda.
-
-Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa
-vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e
-trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que
-a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...
-
-Depois...
-
-Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a
-misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão--mas o diabo
-em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de
-cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se
-com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por
-mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés
-ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os
-penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.
-
-Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito
-velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar
-em uma religiosa fugida do convento um anno antes?
-
---Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são
-todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!
-
---_Amen_! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia
-rosas...
-
---A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se
-soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.
-
-Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer,
-com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.
-
---Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.
-
---Uma peccadora arrependida, para a penitencia--sussurrou soror Pallida,
-lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...
-
-A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos
-enferrujados estavam de velludo,--e a rodeira mostrou se com um sorriso
-á freira apoquentada.
-
-Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os
-joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa
-compuncção e infinita doçura:
-
---Ave!
-
-A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a
-fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam:
-badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos
-altares e arrumando os gavetões da sacristia.
-
---Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella...
-Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...
-
-Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria;
-depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:
-
---E Vós, Mãe Santissima?!
-
---Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho
-azul...»
-
-
-Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o
-lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior
-economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror
-Pallida.
-
-Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se
-das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito
-branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o
-quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso,
-e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do
-silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos
-lancinantes.
-
-Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.
-
---Que é isto, tia Joanna?!
-
---Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...
-
---Meu Deus!
-
---Não é nada, dorme, minha filha!
-
---Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na
-coitada!
-
---Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de
-intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.
-
---Vou eu.
-
-Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um
-movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz;
-guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a
-cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de
-marmelleiro.
-
-A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a
-cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia
-descahindo sobre a carapinha da outra.
-
---Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com
-impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.
-
---Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito
-gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth,
-vá dormir.
-
---Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem
-coração?!
-
---Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!
-
-A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava
-as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.
-
-D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço,
-puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua
-carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.
-
---Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio
-nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.
-
-D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:
-
---Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de
-ajustar contas...
-
-Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e
-Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.
-
-A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:
-
---É sempre assim?
-
---Não ... uma vez ou outra.
-
---Mas como podem viver neste inferno?!
-
---Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que
-ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim.
-E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é
-raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das
-missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu
-não teria paciencia para a aturar.
-
---A Sancha vae amanhã commigo para casa.
-
---Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?
-
---Aluguem uma mulher.
-
---Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz
-tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei.
-Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto
-de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a
-apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais
-nella. Durma...
-
-Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se
-levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir
-tambem.
-
-Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a
-Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se
-chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo
-que a tia Joanna a ouvisse:
-
---Sancha, porque é que você não foge?
-
-A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.
-
---Nhá?!
-
---Fuja!
-
-A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada.
-Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.
-
---E depois? perguntou ella, assustada.
-
---Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.
-
---De que serve! me mandarão outra vez para cá...
-
---Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...
-
-A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café
-da vespera, requentado.
-
-Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos
-telhados, e nada se via da cidade, em baixo.
-
-Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello
-espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros
-vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a
-madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a
-pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella
-luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.
-
-Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma
-oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o
-altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma
-supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um
-ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores,
-foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De
-mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de
-piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias
-do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona,
-fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam
-soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr
-nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos
-seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa
-delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou
-uma saudade absurda, a _saudade do céo_, como dizia o Dr. Gervasio, e
-que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que
-germinava no seu peito fraco.
-
-E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se
-á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a
-ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé,
-apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões
-rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!
-
-Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida,
-se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
-
-Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça
-para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos
-rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes
-perseguidos.
-
-E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a
-fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e
-soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao
-grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão
-bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle
-corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda
-e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.
-
---Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava
-Ruth, confusa, com os olhos no altar.
-
-Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas
-corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.
-
-Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de
-agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de
-boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os
-ultimos farrapos de neblina.
-
-A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a
-egreja do Carmo.
-
-Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em
-egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.
-
---Você conhece a egreja do Carmo?
-
---Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto
-das egrejas grandes.
-
---Porque?!
-
---Não sei...
-
---Ora essa!
-
---Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á
-senhora não acontece o mesmo?
-
---A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou
-não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.
-
---A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria,
-que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?
-
---Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas.
-Elle está em toda a parte.
-
---Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?
-
-D. Joanna estacou.
-
---Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem.
-
---E a Sancha?
-
---Hein?
-
---A Sancha.
-
---Lá vem você com a negrinha!
-
---Negra ou branca, é creatura.
-
---Não digo que não. Mas que falta á Sancha?
-
---Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra...
-
---Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz.
-Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada,
-d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho
-nos braços.
-
---Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia
-Joanna. Tomara eu.
-
---Menina, que é que você está dizendo!
-
---Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte
-filhos, vinte!
-
-A velha corou.
-
---Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a
-repetil-as, ouviu?
-
-Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D.
-Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma
-harpa, outra com uma rabeca:
-
---Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á
-chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima.
-
---Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar
-livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em
-qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao
-menos estes teem a musica.
-
-D. Joanna riu-se.
-
---É verdade; quando você toca esquece tudo.
-
-Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar
-sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para
-que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na
-primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as
-saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel
-aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!
-
-Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da
-egreja.
-
-Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia
-ouvil-a. No adro lembrou ainda:
-
---Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do
-padre Euclydes, que está doente.
-
-Ruth objectou:
-
---Mas titia, eu estou com fome...
-
---Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará
-informações e seguiremos logo para casa.
-
-Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria
-as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á
-missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes.
-D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da
-egreja, dizendo:
-
---Rezemos por alma d'este morto, filha.
-
---Mas nós nem o conhecemos, titia!
-
---Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.
-
-Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar.
-Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth
-deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle
-desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...
-
-Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!
-
-Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a
-chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no
-domingo a sua missa.
-
---Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse
-Ruth.
-
---Peça, filhinha.
-
---Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A
-estas horas elle está farto de estar no armazem.
-
-D. Joanna hesitou:
-
---Olhe que não é tão perto assim...
-
---Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...
-
---Vamos lá... Que pieguice!
-
-Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco
-Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas,
-empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um
-paletot preto fazia resaltar a alvura.
-
-Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle
-extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:
-
---Senhora fujona, que faz por aqui?!
-
---Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora
-procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos
-almoçar...
-
-Se papae nos levasse a um hotel?...
-
---Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o
-Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.
-
-E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis,
-aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E
-despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth
-mandava á mãe.
-
-D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais
-valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um
-restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas
-economias sordidas da irmã.
-
---Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei
-contente; respondeu-lhe a menina.
-
-Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e
-entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr.
-Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de
-rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam
-o escrupulo dos moradores.
-
-O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho,
-arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo
-cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o
-rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina
-da velhice.
-
-D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth
-tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.
-
-Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do
-almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no
-fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa
-recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e
-Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo
-com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.
-
-Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas
-camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e
-para elles fazia convergir todos os seus cuidados.
-
-A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se
-acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim,
-mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para
-medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados,
-escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de
-grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.
-
-Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas
-de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á
-sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.
-
-Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela
-innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no
-seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á
-morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E
-toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.
-
-D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com
-difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os
-ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do
-medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de
-primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as
-nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir
-tão alto, tão alto!
-
---O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e
-todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa;
-percebem?
-
-D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth
-murmurou:
-
---Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!
-
-Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que
-se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo
-corredor.
-
-D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O
-marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe
-valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal
-e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já
-trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim,
-por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.
-
-Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu
-a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota
-da negrinha não ouvira o seu conselho?
-
-Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido
-ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder
-abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna
-benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua
-consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era
-bom, estava tudo sempre muito bem.
-
-Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para
-vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e
-tantas as suas exclamações, que a tia observou:
-
---Você é muito exaggerada, Ruth!
-
-Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado,
-aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta
-estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um
-_bouquet_ de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e
-outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas,
-que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas
-como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata,
-aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando,
-cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica...
-Depois a lua...
-
---Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como
-é bonito!
-
---Bom, bom; divirta-se...
-
-Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia
-d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem
-sobre ella aromas que a embriagassem.
-
---Filhinha, vamo-nos embora...
-
---Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!
-
-Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que
-tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada
-as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de
-flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia
-lhe ouviu em um murmurio entrecortado:
-
---Como é bonito!
-
-No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha
-para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros
-pela casa.
-
-Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:
-
---Que é?
-
-A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:
-
---A Sancha fugiu!
-
-Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.
-
-Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde
-teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa
-se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora!
-sempre seria mais feliz lá fora...
-
-Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços
-ao pescoço. Era a sua libertação.
-
-D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se
-levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada,
-provocando a negrinha para o assanhamento da rua.
-
-Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha,
-deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo
-vagavam conjunctamente.
-
-
-
-
-XV
-
-
-Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas,
-quando viu entrar a Therezinha Braga.
-
---Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre.
-
---Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo
-figurino.
-
---Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora...
-
---Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno!
-
-Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira
-tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio:
-
---Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança.
-
---Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim.
-
---Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em
-seu nome?
-
---Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe!
-
---Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança.
-Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae
-tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão!
-
---Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez
-se possa arranjar alguma coisa...
-
---Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.
-
-Servindo o café, Nina explicou á Therezinha:
-
---A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande
-logo os seus figurinos.
-
---É para o meu vestido de baile.
-
---Você mesma é que o vae fazer?
-
---Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes?
-
---Não...
-
---Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o
-vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a
-Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia:
-parece outra coisa...
-
---Está muito bonita, agora, depois que engordou.
-
---Mas cada vez mais maliciosa...
-
-Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e
-Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos,
-muito pirracentas.
-
---Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os
-sonhos a Ruth.
-
-Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se
-balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram
-para a mesa, á espera do café.
-
---Ora graças!
-
-Engulido o café, Therezinha declarou:
-
---Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!
-
-As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim;
-Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre
-os restos assucarados dos pratos.
-
-De repente, Nina:
-
---Em que é que você está pensando, Ruth?
-
---Na Sancha.
-
---Que ideia!
-
---É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive
-tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu
-vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não
-sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que
-fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa,
-que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond...
-Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel!
-
-Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera
-envenenar-se; era menos burra do que parecia.
-
---Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia
-Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá?
-
---Para que?
-
---Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas
-visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com
-Mario?
-
---Não...
-
---Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!
-
---Mario não gosta d'ella.
-
---Quem disse?
-
---Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?
-
---Ouvi...
-
---Então?
-
---Então? Quem sabe o que estará para acontecer!
-
-Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da
-Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o
-baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos.
-
-O negociante olhou boquiaberto para a mulher.
-
-Ella disse:
-
---Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a
-Europa.
-
---Mas é incrivel!
-
---Porque?
-
---Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer
-entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage
-está doida.
-
---Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a.
-
---Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada.
-Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia?
-
---Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais...
-
---Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente.
-Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se
-casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida.
-A experiencia da vida é um grande dote.
-
---Você falla com Mario?
-
---Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante
-asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos.
-Falla-lhe tu ... se quizeres.
-
-Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos,
-fazendo tilintar as chaves.
-
---A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o
-Innocencio...
-
---Como soube ella d'isso?!
-
---Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi...
-
---Tenho medo...
-
---Hein?
-
---Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles
-querem mesmo o casamento?
-
---Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O
-Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom
-gosto.
-
---Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos.
-
---Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por
-emquanto é bom não dizer nada a ninguem.
-
---A quem o dizes...
-
-Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado,
-vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.
-
-Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?
-
-Abriu a janella e encostou-se.
-
-De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a
-musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.
-
-No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam
-as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva
-sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás
-mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como
-ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme
-posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas,
-rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de
-palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma
-cesta de fructas e frescos pés de alface.
-
-A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força,
-nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com
-clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir
-sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.
-
-No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza
-enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.
-
-Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos
-alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e
-as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do
-seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição
-da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.
-
-Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter
-sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.
-
-Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua,
-desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo
-sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a
-abundancia e a alegria.
-
-As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida.
-
-Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da
-janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem
-desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito
-florido por um fresco _bouquet_ de myosotis, as mãos nos bolsos,
-parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito.
-
-Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os
-perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa
-estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido
-escuro, dava uns retoques á fructeira.
-
---O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.
-
---Como sempre.
-
---Virá jantar?
-
---Creio que não...
-
---É o diacho ... eu precisava fallar-lhe!
-
---O seu empregado está peior?
-
---Parece-me que sim ... coitado...
-
-Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no
-velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:
-
---Quer que eu mande tocar a sineta?
-
---É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De
-maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?
-
-Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage
-deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario
-se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?
-
-Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um
-jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher
-a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella
-creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal
-casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o
-consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por
-caduquice; miolo molle.--O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao
-Mario!--resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se
-fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.
-
-Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario,
-de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada,
-muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde
-relampejavam fulgores frios.
-
-Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira
-depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes
-nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a
-verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só,
-offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade
-outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada
-a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de
-sentimentos dava-lhe desejos máos.
-
-A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo
-pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo?
-Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus
-olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com
-as delicias do amor?
-
-Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga,
-apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de
-arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a
-historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia,
-não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem
-tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...
-
-Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se.
-
-Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava
-dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario?
-
-Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força,
-reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim
-rosadas, com os cabellos ao vento.
-
-Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente,
-pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de
-verdade, puxado a _poneys_, com o cocheiro vestido de azul.
-
-Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a
-conferencia da tia.
-
-E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas
-physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como
-se de outra coisa não tivessem tractado.
-
-Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido:
-
---O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo
-gosto para o commercio...
-
-
-
-
-XVI
-
-
-Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado,
-_seu_ Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas,
-olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede
-encardida.
-
-Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas
-passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.
-
-Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da
-molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se
-quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo,
-que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se
-enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o
-avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola
-e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que
-esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia,
-tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e
-escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com
-os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou
-torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.
-
-A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais
-côr de cidra.
-
-Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia.
-O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.
-
-O pae chamou-a:
-
---Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me
-incommodando. O paletot está sem botões.
-
-Ella não respondeu, foi dentro e voltou:
-
---Estão aqui outras meias.
-
---Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...
-
-Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:
-
---As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom
-alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu
-terno de casimira está escovado?
-
-Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a,
-com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com
-exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que
-as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas
-morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.
-
-Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar
-rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os
-olhos para reter as lagrimas.
-
-Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua
-defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.
-
-Quem diria que de tal mãe...
-
-Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da
-cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.
-
-De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:
-
---Que jantarzinho cangueiro...
-
-Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que
-elle engulia com esforço.
-
-Nesse dia a tarde estava quente.
-
-O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras
-de baixo, reunidas no quintal.
-
-Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira
-voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas
-frias tornou-se insuportavel.
-
-Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a
-bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.
-
-O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos
-livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e
-de sentir a morrinha da casa suja.
-
-Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de
-alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda
-recambiada, fatias de _Mané-taiado_, ou cocadas com abobora, sujeitas
-ao azedume. E então era só:
-
---Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos
-dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E
-adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!
-
-Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.
-
-Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o
-Ribas.
-
-_Seu_ Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao
-rapaz, mas abria os ouvidos.
-
-Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia
-duzia de palavras:
-
---Hontem houve um baile em casa de _seu_ Theodoro. Diz que a rua estava
-cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...
-
---Quem acredita nisso...
-
---O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos.
-Foi ao baile coberta de joias. _Seu_ Guimarães, _seu_ Castro, todos
-estes turunas do café foram lá.
-
---Como sabe você de tanta coisa?
-
---Foi o Isidoro quem me contou.
-
-O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles,
-fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.
-
-O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz,
-sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:
-
---Você não tem que fazer?
-
---Eu ainda não achei emprego...
-
---Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha
-casa.
-
---Meu cunhado não me governa.
-
-_Seu_ Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada
-sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo
-de vida, um zum-zum de fóra.
-
-O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem
-um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades
-só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda
-aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só
-fallar com o _Pirueta_ da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a
-capoeiragem...
-
-Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que
-esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o
-seu ventre enorme.
-
-Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando
-ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não
-entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.
-
---Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...
-
---Queria que você me emprestasse quinhentos réis...
-
---Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!
-
---Na gaveta do balcão.
-
---Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu
-o que aconteceu; vá-se embora!
-
---Não seja má, Deolinda.
-
---E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha
-creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada.
-Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!
-
---Não seja sovina; depois eu pago.
-
---Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.
-
---Ora...
-
-E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta
-encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia,
-tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas
-ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu
-as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.
-
-Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de _seu_ Joaquim, postando-se
-como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua
-faina entrarem e sahirem sem interrupção.
-
-Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada
-de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão
-do filho para o trabalho.
-
-O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,--e
-accrescentava:
-
---Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem.
-Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a
-Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na
-volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será
-então tempo de você ceder-lhe o campo...
-
---E eu estou morto por isso...
-
---Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do
-_Equateur_.
-
-Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim,
-seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria
-um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria
-ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre
-na moldura dos seus cabellos louros.
-
-Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e
-dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.
-
-Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa
-commercial, que já não acabaria com elle.
-
-Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho
-perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a
-sentir que lhe não perdera o amor.
-
-Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com
-elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro,
-feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu
-quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.
-
-Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem
-d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só
-voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita
-cruzar os mares nos braços do seu amor...
-
-Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera
-para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao
-chão, quando alguem bateu á porta. Abriu.
-
-Era a Noca, que vinha toda alterada.
-
---Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão!
-
---Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.
-
---Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho
-quebrado: morte ou ruina.
-
---Morte! se fosse a minha...
-
---Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só
-na vida?
-
---Muita gente ... eu.
-
---Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver
-o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta.
-Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje!
-
---Vá andando, eu já vou.
-
-Nina mudou de vestido á pressa e desceu.
-
-Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo
-desgraças, suggestionados pela influencia da Noca.
-
---Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente,
-pensando na Paquita.
-
---O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo.
-
---Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um
-sorriso pallido.
-
---Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez
-aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa.
-Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla.
-
---É melhor...
-
-No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla,
-encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu _peignoir_ marfim
-pontilhado de ouro.
-
---Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou
-beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa.
-
-E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres
-d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia
-aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante,
-levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se,
-elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe?
-
-Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a
-casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em
-baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela
-escada acima.
-
-Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á
-essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá
-Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma
-d'elle que ella trouxesse comsigo.
-
---Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para
-fóra com a mão fulgurante de anneis.
-
-Era um pôr-de-sol maravilhoso.
-
---Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores.
-Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se
-matam!
-
-Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido.
-
---O senhor está doente? perguntou-lhe Nina.
-
---Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim.
-
-Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros:
-
---Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês
-procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite
-para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle
-não me fique doente...
-
-E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla.
-
-Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle
-repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o
-fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem
-parecia ouvil-as...
-
-Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um
-facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está
-começando... Eu não dizia?»
-
-Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do
-Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a
-propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia
-de bem merecer um grande amor.
-
-Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e
-redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e
-pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia
-de graça.
-
-Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle
-dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas
-aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu.
-
-Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que
-se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo
-despedir-se do filho.
-
-Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o
-estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle
-sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E
-foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas,
-d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu,
-sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.
-
-Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco
-Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio
-Braga.
-
-Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do
-Havre para o _Jornal_, que affirmava ter descido o preço do café nos
-principaes mercados.
-
-Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou
-logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas
-risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.
-
---Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto
-tudo é jogo?
-
---Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em
-que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga
-esperança.
-
---Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes
-espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus
-lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é
-coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma.
-
-Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!...
-
---É impossivel!
-
---Acredite.
-
---Não póde ser. O _Jornal_, tão serio...
-
---Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque
-sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que
-eu estivesse calmo?
-
---Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital!
-
---Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado;
-sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou
-ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está
-satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um
-homem do tempo, ha de ir longe...
-
---Pois, eu, confesso-me arrependido.
-
---Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já
-que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao
-Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas
-machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente...
-Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a
-veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas.
-
-Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as
-horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder
-trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego.
-
-Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia
-maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom
-senso naufragava.
-
-Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um
-telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser
-verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são
-como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta.
-
-Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem
-era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria
-esperar pelas taes provas irrefutaveis...
-
-Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao
-_Equateur_.
-
-Foi um alvoroço em casa.
-
-Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr
-por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á
-mão de Deus Padre!
-
-Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os
-vestidos novos e os chapéos côr de rosa.
-
---Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na
-cidade ... levem os brancos.
-
---Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:
-
---Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa.
-
---Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar!
-
-As meninas berraram, e Milla interveio:
-
---Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de
-aborrecer as creanças.
-
-Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao
-_Neptuno_, e voltando-se para a mãe, perguntou:
-
---É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino.
-
-Camilla levantou os hombros.
-
---Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio
-pela bahia.
-
---Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para bulir
-com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha:
-
---Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e
-trovões. Ainda ha de ser mais bonito.
-
---Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com este
-sol todo estou com medo, quanto mais...
-
---É pena que Nina não tivesse vindo...
-
---Para quê? para vêr a outra?
-
-Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos
-os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não
-sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões.
-
-Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o
-Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as
-palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias
-afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás
-ordens que ella lhe dava em phrases curtas:
-
---Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse
-buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e
-que mandasse a vermelha para o beliche.
-
-Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que
-o afastava:--Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das
-fructas ao _maître d'hotel_, recommendando-lhe que as mettesse na
-geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das
-cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de
-borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla
-pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco,
-tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo
-aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua
-de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa.
-
-Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás
-perguntas da sogra.
-
-Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa
-á ré.
-
-O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do _Jornal_ inserido
-na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em
-secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital
-fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as
-palavras do Braga e as suas affirmações.
-
---Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um
-especulador sem escrupulos ... quer mais claro?--é um ladrão!
-
-Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já
-passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!
-
-Vi a prova. O patife!
-
-Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro
-marreco que tal! Homem--não se deixe levar pelas cantigas novas, nós
-antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo
-terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não
-tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para
-descerem sem precipitação...
-
-Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada,
-recommendou-lhe:
-
---Juizo, meu rapaz!
-
-Camilla, branca como marmore, apertou o filho com força ao coração;
-depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e
-fixou nelle em uma queixa muda os seus grandes olhos maguados. Foi só
-na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ella desatou em
-soluços que ninguem tentou reprimir.
-
-Havia em todos egual resentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de
-lambisgoia, percebendo que ella roubava o Mario a toda a familia,
-absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras
-do amor. Cuidára ella nunca por ventura que um abraço de despedida
-custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos
-rostos preoccupados, e só Francisco Theodoro acenou para o filho com um
-lenço, pondo naquelle adeus toda a sua ternura.
-
-Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a unica pessoa
-da familia que elle via salva era o Mario!
-
-Chegando á terra, Camilla e as filhas foram de carro para casa, e
-Francisco Theodoro, depois de almoçar á pressa num restaurante, seguiu
-impaciente para o armazem.
-
-Á porta d'elle a pretinha Terencia guinchava contra um italianinho que
-se lhe associara sem licença ao negocio, atirando-se á pilhagem do
-café da calçada.
-
---Ha alguma novidade? perguntou Theodoro ao gerente.
-
---Não, senhor. Ah! é verdade, o Motta parece que está moribundo.
-
---Pobre homem...
-
---A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando.
-
---Ha de ser preciso mandar recursos a essa gente...
-
---Arreda d'alli aquelle sacco, João!
-
---Coitado do Motta...
-
-O gerente já não o ouvia: determinava serviços.
-
-Chegado ao escriptorio, Francisco Theodoro tractou de remetter dinheiro
-ao Motta e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O
-velho tivéra uma syncope mas estava melhor.
-
---Coitado do Motta, murmurou Theodoro, consultando o relogio, morto
-pelas duas horas. E ás duas horas correu ao escriptorio do Innocencio.
-
-Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Innocencio partira nessa
-manhã para Petropolis, a negocio urgente. Deixara dito que na volta
-iria procural-o.
-
-Francisco Theodoro não conteve um movimento de raiva, e sahiu tonto,
-sem cumprimentar ninguem.
-
-O ruido, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-n'o sentir mais o
-seu cançaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros;
-deteve-lhe os passos e, quasi sem explicação, perguntou-lhe:
-
---Diga-me cá: que opinião faz você do Innocencio Braga?
-
-O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou:
-
---Aquillo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar.
-
---E que me diz você d'aquelle telegramma do _Jornal_ de hontem, sobre a
-baixa do café?
-
---Que hei de dizer? que annuncia catastrophe para muita gente boa. Sabe
-o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior
-do que nós. Não lhe parece?
-
-Que importavam a Francisco Theodoro as fallencias dos americanos! elle
-só tremia pela d'elle, era na sua fortuna que estavam condensados todos
-os bens do universo.
-
-Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lh'a, e voltou-se de
-repente, fixando-o nos olhos:
-
---Homem, querem vêr que você...
-
-O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adeante.
-
-Nessa tarde elle encontrou a casa cheia. D. Ignacia espalhava receitas
-de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A
-Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as
-Bragas, que riam muito, alludindo aos namorados da Judith e da irmã,
-piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que ellas
-apresentavam nesse dia á familia Theodoro, como um excellente recitador
-de monologos.
-
-Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguem lh'os pediu.
-
-O Dr. Gervasio jogava com o Gomes e o Lelio, Camilla gyrava pela casa,
-esquecendo-se, no meio do ruido, da impressão de abandono d'essa manhã
-no _Equateur_.
-
-Lá dentro, Nina mandava accrescentar mais uma taboa á mesa e descia á
-adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir.
-
-Assim, aquelle dia de semana parecia de festa.
-
-Francisco Theodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se
-olhasse para phantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda
-aquella gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que
-pensar?
-
-Não esteve muito tempo socegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os
-joelhos, e elle, cançado, deixou-as trepar, e fez de cavallinho durante
-alguns minutos...
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava
-da cama com sentido nos telegrammas do _Jornal_. D'esta vez, como das
-outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o
-café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente.
-
-Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos
-da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam
-pelos tamarineiros.
-
-Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de
-calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os
-enxugadores no braço e a saboneteira na mão.
-
---Então, creanças; que cacetes!
-
-As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o
-passo.
-
---Bons dias, papae!
-
---Bons dias, papae!
-
-O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:
-
---Vão tomar o seu banho.
-
---Eu quero passear com o senhor.
-
---Eu tambem quero...
-
---Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo...
-
-As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em
-correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da
-chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos
-empregados que passavam por elle.
-
-Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito
-pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da
-mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma.
-
-E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para
-isso...
-
-A Nina foi ter com elle.
-
---O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto.
-
-Elle puxou pelo relogio.
-
---Sim, posso ir, são quasi nove horas...
-
-Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na
-bocca bocadinhos de pão com ovo.
-
---O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina.
-
---Não tenho fome.
-
---Depois fica doente ... porque não falla com o medico?
-
---Eu?! para quê?
-
---Aqui está o café.
-
-Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado.
-
-Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro
-parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e
-foi ainda a mulata quem murmurou:
-
---Quem sabe se alguem disse de _nhá_ Milla, hein?
-
-Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de
-Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.
-
-A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas,
-através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos
-excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas
-jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias,
-egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude...
-Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho?
-
-Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla.
-
---Seu marido está melhor?
-
---Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle
-não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está.
-Não sei o que é aquillo.
-
-Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra.
-
---Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou Ruth
-ao medico.
-
---Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso
-de alabastro d'alli, ou eu não volto cá.
-
---Acha feio?
-
---Horrivel.
-
-Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no
-trabalho.
-
-Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações,
-percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente.
-
-Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam
-regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre.
-
-E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido
-esgarçado, fugitivo.
-
-Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros,
-teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir;
-todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do
-outro com o protesto de ser a ultima vez.
-
-Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um
-telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia,
-arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro.
-
-O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou
-por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de
-olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas.
-
-Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella
-scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal
-escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar
-de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande
-desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto
-transtornado do patrão.
-
-Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força.
-
-Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,--a grande casa
-Theodoro teve de declarar fallencia.
-
-Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos
-uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa
-segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se.
-
-A familia Gomes chegou cedo.
-
-D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de
-pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.
-
---Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se
-na melhor cadeira da sala de jantar.
-
---Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito
-abatido, respondeu Nina.
-
---Isso é que é máo. E sua tia?
-
---Está lá em cima, já vem.
-
---Gostaram dos biscoitos que eu mandei?
-
---Muito, são muito bons.
-
---Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de
-experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho.
-Perceberam?
-
---Percebemos.
-
---Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim...
-
---Não...
-
-Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da _etagère_,
-cantarolando:
-
-
- «No Brasil é doce d'ovos,
- Chiquita!
- Um beijo dado em você.»
- «Um beijo...»
-
-
-e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella.
-
-Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala,
-sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe,
-puxando-a para o terraço:
-
---Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como
-eu estou contente!
-
---Foi o Samuel?
-
---Então, quem havia de ser?
-
---Seu pae não queria...
-
---Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui...
-Você vem commigo para o jardim?
-
-Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr.
-Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para
-o joguinno com o Lelio e o Gomes.
-
-Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança
-tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!
-
---Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro?
-
---Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos.
-
---São de polvilho... Eu trouxe...
-
-Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia
-remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra:
-
---Como ella vem! É um céo!
-
-De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a
-vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros
-criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha
-Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas.
-
---Credo, um mocinho tão aquelle...
-
-Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram
-as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com
-o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As
-Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas
-de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de
-pecegos inchados, bons para doce.
-
-Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de
-Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que
-não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga.
-
---Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente.
-
-Os outros concordaram.
-
-Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco
-Theodoro entrou no quarto das creanças.
-
-Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de
-porcellana.
-
-Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e
-separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam
-profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos
-espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o
-ar e labios entreabertos.
-
-Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz,
-parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama;
-a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no
-peitinho gordo.
-
-Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das
-palpebras mimosas...
-
-Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora
-para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle
-quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios
-sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e
-aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de
-uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle
-conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para
-onde? que os esperaria a todos?
-
-Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos;
-voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A
-mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:
-
---Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.
-
---Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo
-quietas...
-
---Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons...
-
---Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê...
-
---Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas!
-
-Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam
-educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma
-lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla
-adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para
-o seu escriptorio, no rez do chão.
-
-Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze
-descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e
-de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto
-naquella claridade muda.
-
-Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr
-de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva...
-
-Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha
-reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros
-saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.
-
-Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra.
-Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as
-mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos
-de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e
-encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve
-largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se
-lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um
-revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo
-ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre
-os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma
-gaveta, que fechou á chave.
-
-Estava alli dentro o descanço, a eterna paz.
-
-Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...
-
-No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro
-desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e
-prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via
-pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para
-o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres
-irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em
-flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu
-desgosto, quando a afilhada o interrompeu:
-
---Bons dias, titio!
-
---Adeus, Nina.
-
---Estava gostando de vêr os manacás?
-
---Sim ... estão bonitos...
-
---Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto!
-
---Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado.
-
---Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está
-dizendo que é signal de desastre em uma casa...
-
---Ah! ella disse isso?
-
---Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é
-impressionavel!
-
---Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá?
-
---O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?
-
---Não... Dê-me uma chicara de chá...
-
---Mas o bife e os ovos ahi vêm...
-
---Não quero nada. Só chá.
-
---Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas.
-
-Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto
-o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever
-uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:
-
---Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla
-recommendou...
-
-Depois leu alto:
-
---Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande
-trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza.
-
-Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de
-sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e...
-
---Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso.
-
---Então tia Milla irá á cidade... É melhor.
-
---Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei
-cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de
-setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina?
-
---Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu
-não sei nada!
-
---Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o
-significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa...
-
-Nina ficou pensando:
-
---Tio Francisco estará doido?
-
-
-Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as
-cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de
-creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio.
-
-Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso
-derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond
-já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho
-recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos
-sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado,
-entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa.
-Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança
-rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta
-da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o
-espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este
-céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de
-esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das
-aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão,
-d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de
-trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da
-mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do
-moleiro...
-
-E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta
-para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e
-a agua do bom Deus!
-
-«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a
-riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida!
-Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús
-pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ...
-verás: pesarão ouro e valerão pó...»
-
-Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. _Seu_ Joaquim
-andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo
-rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum
-caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é
-para as aranhas do tecto.
-
-Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de
-entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os
-calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio.
-
-Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho
-Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.
-
---O Leite Mendes mandou cá?
-
---Não senhor...
-
---Está tudo direito, não?
-
---Tudo.
-
---Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem...
-
-O guarda-livros fez um gesto de recusa.
-
---Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será
-bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro.
-
---Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.
-
---Para que?
-
---Adiaremos ao menos a ... a catastrophe.
-
---Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui
-justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora.
-
-Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com
-mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura
-uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o
-negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para
-o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida:
-
---Que dia é mesmo hoje?
-
---29...
-
---Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo.
-
-Os outros calavam-se.
-
-O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as
-folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em
-diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a
-raspar com a unha.
-
-Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e
-vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de
-pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente.
-
-Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com
-voz segura:
-
---Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.
-
-O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo,
-que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo:
-
---_Seu_ Augusto!
-
-Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força,
-o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro
-gritou:
-
---_Seu_ Augusto ainda não voltou da rua!
-
-Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles
-e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações.
-
-Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage,
-mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de
-negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo
-emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se
-ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a
-familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o
-golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as
-filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a
-escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente
-desencantal-as em cofres avaros!
-
-As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a
-reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa.
-Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a
-familia, mas faltava-lhe a coragem.
-
-Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou
-outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta
-da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o
-corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para
-trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o
-abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser
-engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo,
-esboçou um sorriso e foi andando.
-
-Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os
-passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força
-ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar
-sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter
-engolido todo o pó das ruas.
-
-Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia
-pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda
-a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado
-alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.
-
---Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de
-quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle.
-
---Todos bons ... estou á espera do _bond_.
-
---Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia!
-
---Han ... é aborrecido.
-
-Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um _coupé_
-particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e
-os cumprimentou com um adeuzinho de mão.
-
-Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio:
-
---Cão!
-
---Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete da
-Nova Zelandia, amanhã.
-
---Com o meu dinheiro...
-
-Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando
-um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou:
-
---Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões...
-
-Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos
-olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima.
-Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de
-Negreiros e partiu.
-
-No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa,
-Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas
-sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a
-mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho.
-
---Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito.
-Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se
-não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o
-dinheiro fóra...
-
---Ah...
-
---Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... Irei
-abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes?
-
---Não...
-
---É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu _bond_.
-
---E a senhora?
-
---Eu vou de carro. Saudades a todos.
-
-Ella afastou-se ligeira, no _frou-frou_ das saias de seda, e o
-negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage,
-acerca de Mario: «_Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo
-o dinheiro fóra._»
-
-Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta.
-
-Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas
-gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e
-saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que
-lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa;
-e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da
-_toilette_ da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de
-anneis, unidos nas ondas negras do penteado...
-
-Que lhes diria elle? que lhes diria?!
-
-Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse
-de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse
-com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim!
-
-Essa ideia animou-o.
-
-Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia
-tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas
-bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em
-uma sonatina fresca.
-
-Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de
-milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das
-gardenias.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Com um avental atado sobre as rendas do _peignoir_, Camilla executava,
-com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.
-
-Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel
-nos jantares de anniversario das Gomes.
-
-A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda
-e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da
-Judith confundia os _a a_ com os _o o_, quando a Nina appareceu dizendo:
-
---Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a
-senhora.
-
---A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?...
-perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o
-avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho,
-despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o
-tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo
-ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!
-
---Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...
-
---Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava
-os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.
-
---Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar
-bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga.
-Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de
-manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu
-logar, Nina.
-
-Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao
-chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que
-as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.
-
-Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão
-grave e desusado que ella logo o extranhou.
-
---Está doente?!
-
---Eu, não ... porque?
-
---Você está differente. Que modo!
-
---É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.
-
---A mim?!
-
---Sim.
-
---Que é?
-
-Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio,
-segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir
-o golpe em cheio. Milla impacientou-se.
-
---Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera
-algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle
-pensamento, balbuciou apenas:--Mario?
-
---Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro
-falliu.
-
-Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo
-zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não
-ouvia nada.
-
-O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão
-desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope,
-amparou-a, dizendo:
-
---Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida,
-é preciso coragem... Camilla!
-
-Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe
-o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte!
-Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras--fallir não é
-morrer. Teu marido não morreu,--falliu.
-
---É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.
-
---Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês
-mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela
-superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos.
-Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de
-outro... A série ha de ser longa.
-
---Que me importam os outros!
-
---Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te,
-estás muito fria ... queres uma capa?
-
---Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe
-bruscamente dos braços.
-
---Descança...
-
---Não posso.
-
-Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas
-irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida,
-ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o
-corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases:
-
---Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... Que
-insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que
-vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde
-ser.
-
-Subitamente parou, com um relampago de esperança.
-
---Se fosse mentira?!
-
---Eu seria um miseravel.
-
---Podiam ter-te enganado. Quem te disse?
-
---Elle.
-
---Burro!
-
-Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e
-recomeçou logo no seu gyro tonto.
-
-O medico tentou acalmal-a:
-
---Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa
-felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu
-marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais
-desgraçado.
-
-Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:
-
---A culpa é d'elle...
-
---A culpa é de todos.
-
---Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada!
-Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos
-só para o seu prazer! Só, só, só!
-
---Theodoro está muito acabrunhado...
-
---Quando foi que elle te disse?
-
---Hontem á noite, em minha casa. Chorou.
-
---Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!
-
---A dôr é forte.
-
---Já perdeu uma filha...
-
---Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante,
-que elle préza acima de tudo.
-
---A sua honra! mas Theodoro não roubou nada!
-
---Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem
-severidades. É preciso estar preparada para tudo.
-
---Quer dizer que elle póde ser preso?
-
---Quem sabe, não é provavel, mas...
-
-Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella
-disse, com os beiços tremulos:
-
---Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o.
-
---Tu o amas, Camilla!
-
-Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico,
-olhando-o de face.
-
-Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que
-se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos.
-
-Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto
-escondido nas mãos.
-
-A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos
-indiscretos pelo corredor.
-
-Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em
-S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se
-oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo
-chamalotado de nuvenzinhas brancas.
-
-Um bello dia perdido!
-
-Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia.
-Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca
-a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela
-perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção
-tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria
-extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos
-primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida
-a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se
-mais abundante.
-
-Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr.
-Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado:
-
---Mas sempre o amaste assim?!
-
---Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é
-uma amisade muito grande!
-
-O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um
-largo silencio:
-
---Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia.
-
-Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o
-Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi
-fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se
-tractava.
-
-Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem
-rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As
-palavras para ellas só tinham som, mas não sentido.
-
-Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:
-
---Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae.
-
-O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para
-Nina:
-
---E você, que diz?
-
---Nada; espero.
-
---E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem.
-
-
-Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz
-tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.
-
-Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma
-ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida.
-O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se
-de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de
-transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.
-
-Em baixo, o armazem parecia outro. _Seu_ Joaquim permanecia sentado ao
-pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas
-das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga
-para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão
-de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua
-havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens
-que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.
-
-Do seu ponto, _seu_ Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres,
-agora a mais afortunada da rua.
-
-Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco
-Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas
-as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração
-absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha
-secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como
-um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.
-
-Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o
-chapéo, entrou outra vez no escriptorio.
-
-O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O
-guarda-livros levantou-se e disse:
-
---Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte.
-Vou tentar outra vida...
-
---Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz!
-abraçaram-se.
-
-Motta approximou-se.
-
---E o senhor? perguntou-lhe Theodoro.
-
-O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou.
-
---Fico p'ra ahi, atôa...
-
---Recommendal-o-ei ao Negreiros.
-
---Será favor...
-
-Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu
-áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos
-com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo
-periodo de trinta annos...
-
-No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e
-deteve-se a fallar com o Joaquim.
-
---O senhor que tenciona fazer agora?
-
---Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres...
-Devo entrar para lá amanhã...
-
---Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E,
-relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus
-saudosissimo, sahiu para a rua.
-
-Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço
-branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os
-ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego.
-Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol
-encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.
-
-
-
-
-XX
-
-
-Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no
-céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no
-jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada
-ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem.
-
---D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico--Noca está ao pé
-d'ella.
-
-Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de
-extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa
-pausa:
-
---Está desesperada, muito contra mim?
-
---Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes,
-acredite.
-
---Coitadas...
-
---Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo
-então só ha logar para os ricos?
-
---Bom, só...
-
---Qual! havemos de ser muito felizes, descance.
-
---Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o
-medico.
-
---Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas
-venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para
-obrigal-a a dormir e repousar os nervos...
-
---Fez bem; obrigado.
-
---Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao
-menos...
-
---Estou cançado...
-
---Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar.
-
-Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina
-esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola
-vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte.
-Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois,
-deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso,
-acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia
-Camilla o marido?
-
-Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse
-acordada e andasse nervosamente pela casa...
-
-Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando
-tudo pasmadamente.
-
-Imperturbavel, Nina servia a todos.
-
---Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente,
-apontando para as gemeas.
-
---Seis annos, respondeu Ruth.
-
---É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando
-alto um pensamento qualquer.
-
-Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu.
-
---D. Camilla?
-
---Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois
-acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não
-tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça...
-
---Comprehendeu, mas resignou-se.
-
---Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a
-pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será
-possivel?
-
---Virei.
-
---Obrigado.
-
-O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas
-horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina,
-não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao
-escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária.
-
---Dá licença, tio Francisco?
-
-O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e
-respondeu:
-
---Póde entrar.
-
-E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio.
-
---Que quer você?
-
---Quero pedir-lhe um favor...
-
---Eu ainda os poderei prestar?!
-
---Oh! tio Francisco!
-
---Diga lá.
-
---Tenho vergonha ... eu...
-
---Diga, diga.
-
-Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se:
-
---Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é
-pequena, mas caberemos todos lá, se...
-
-Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as
-lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:
-
---Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem vejo
-que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu
-agasalho; olhe por minhas filhas.
-
-As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me
-pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com
-sua tia, é quem vae soffrer mais...
-
---O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação.
-
---Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir.
-
---Mas...
-
---Vá dormir.
-
-Nina murmurou, muito embaraçada:
-
---Boa noite.
-
---Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz.
-
-Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido
-das palavras do tio.
-
-Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da
-familia não subsistisse á catastrophe.
-
-Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu
-merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom
-porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de
-conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara
-a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha
-dinheiro.
-
-Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão
-tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir
-tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil!
-
-Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva,
-chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua
-falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a
-sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os
-amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então
-todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora,
-depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem
-consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.
-
-Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe
-valia de nada.
-
-A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á
-lucta tremenda de recomeçar.
-
-Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa
-melhor do que o dinheiro--a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito
-amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava
-boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua
-lembrança.
-
-«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E
-agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas?
-Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle
-tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla!
-Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas.
-Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus
-filhos. Eu sou um ladrão!»
-
-Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo
-escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo
-agonisava com elle.
-
-A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam
-roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores
-seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua
-era uma das precursoras.
-
-No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as
-vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo
-consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.
-
-A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção
-phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela
-maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em
-voragens abertas pela politica amaldiçoada.
-
-Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da
-sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a
-Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do
-desespero.
-
-Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas
-cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio
-caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto,
-percebesse o volume e os perigos.
-
-Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra
-maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado
-enfeitiçar por palavras!
-
-Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma
-coisa...
-
-Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto,
-num suspiro:
-
---Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!
-
-Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi
-á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de
-viagem: idas á Europa, regalados descanços.
-
-Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas
-mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o
-trabalho.
-
-E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo
-miseravel! corpo miseravel.
-
-Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a
-frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella.
-
-Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa
-amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que
-lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes
-antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que
-tranquillidade!
-
-Francisco Theodoro olhou para a noite:
-
-O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos
-manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.
-
-O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de
-outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas
-terras, trabalhadas por homens pagos por elle.
-
-A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava
-tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher
-e aos filhos...
-
---Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as
-faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo
-physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia.
-
-Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é
-signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o
-avô! Riu alto; elle era um doido!
-
-Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em
-surdina.
-
-Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado
-para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam,
-Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira
-com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal
-mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma
-de extase e de sonho?
-
-Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos
-invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas
-suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção,
-Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio
-era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto
-tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou
-a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia,
-teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos.
-
-Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de
-enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.
-
-Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar
-dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar,
-inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da
-sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo.
-
-Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe
-os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim
-longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando...
-
-Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado
-silencio do somno.
-
-Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e
-rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do
-cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a
-sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve
-de saias que deslisavam pela escada abaixo.
-
-Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante
-e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de
-terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação
-da vida e apressou o tiro.
-
-E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar,
-clamava por soccorro.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-A morte de Francisco Theodoro fez sensação.
-
-Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia.
-
-Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a
-baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de
-madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro
-seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.
-
-Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma
-fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como
-se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente.
-
-Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de
-duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por
-encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida,
-sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua
-felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só
-viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse
-adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não
-tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?
-
-O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa.
-Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma
-hora antes! Um minuto antes!
-
-E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos
-annos? Que fariam todos alli, sem elle?
-
-Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.
-
-No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal
-acreditavam na sua sinceridade.
-
-As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e
-dever de apparencia cumprimentavam a viuva.
-
-As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e
-tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo,
-ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia.
-
-D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho.
-Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha
-tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não!
-
-Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da
-visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella
-casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo,
-cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de
-passos e de vozes abafadas...
-
-D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a
-encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos
-inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno
-na fé ardente e pura da sua prece.
-
-Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo!
-
-E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida.
-
-Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda
-russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade
-humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar.
-
-O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte;
-afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado,
-acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento.
-
-Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma
-cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a
-tudo.
-
-Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem
-conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em
-suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria.
-
-Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes
-inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla.
-
-Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos
-mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão...
-
-D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com
-asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo
-lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do
-forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos.
-
---Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si.
-
-Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo...
-
-Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus
-lhes deu cinco dedos em cada mão.
-
-No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á
-lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella
-dar entrada a alguem!
-
-Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo:
-
---Coitadinha...
-
-E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos
-soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela
-violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas,
-faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar
-ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e
-emfim chegou.
-
-Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o
-Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso
-fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina
-acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da
-face do morto, beijou-o tres vezes.
-
-De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz
-da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a
-um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas
-adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror
-das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar.
-
-Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto
-das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.
-
-Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a
-friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a,
-com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso.
-
-Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o
-obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do
-outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando
-para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios
-aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver...
-
-A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das
-creanças bem accommodadas.
-
-Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito
-inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua
-negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho,
-de queixo cahido para o peito.
-
-Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça.
-Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.
-
---Como está Ruth? perguntou Milla.
-
---Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para
-o medico:
-
---Vá vel-a ... sim?
-
-Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.
-
-
-
-
-XXII
-
-
-Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se.
-
-Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas,
-leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo,
-traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam,
-indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria.
-
---Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o
-medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu
-tenho conhecido.
-
---De que serve?!...
-
---Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade teem
-realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios!
-
---Bem vê que fazia mal...
-
---Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou:
-
---Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo, sem
-saber como.
-
-Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande
-sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais
-foi sempre...
-
---Preguiçosa.
-
---Sim... As outras são tão pequenas!
-
---Eu estarei a seu lado.
-
-Nina corou, e não respondeu.
-
-Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já
-na outra casa.
-
-Milla apertou as palpebras.
-
---A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro?
-
-Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as
-mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom!
-
-O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava
-a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo
-redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da
-fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem
-grandes ventanias.
-
-Noca insistiu:
-
---Abro a janella?
-
-Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do
-seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia
-desprender por si, seria preciso que a arrancassem.
-
-A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob
-um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das
-minimas coisas na harmonia do conjuncto.
-
-Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do
-chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a
-até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja.
-
-Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do
-passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã
-Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse
-aposento, em que havia roupas pelas paredes...
-
-Noca andava pelo quarto; Camilla olhou:
-
-Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava
-quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e
-fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de
-jornaes da tarde.
-
-E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor,
-ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e
-se agarrava tanto á mocidade. A mocidade!
-
-Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca
-avisou, já impaciente:
-
---Olhe, _nhá_ Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a pouco
-está ahi.
-
---Ajuda-me a vestir...
-
---E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar
-banho...
-
---Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei
-sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca!
-
---Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem!
-
-Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as
-gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e
-percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal;
-Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as
-janellas e as portas.
-
-No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em
-uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina
-ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou,
-olhando atterrorisada para o chão:
-
---Pisei?!
-
---Quasi...
-
---Meu Deus!
-
-Contemplaram-se as duas por entre lagrimas.
-
---Foi uma grande desgraça, Noca!
-
---Se foi! Ainda me parece mentira...
-
---A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou
-vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco!
-
-Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes
-extendia os braços numa supplica.
-
-Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já
-vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto,
-havia scintillações frias.
-
-Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura
-atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um
-aceno arrogante de adeus.
-
-Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta.
-
-Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um
-sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que
-Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia
-reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava
-gritando-lhe:
-
---Cala a bocca! cala a bocca!
-
-Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste
-sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a
-fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como
-reliquia.
-
-Para que nascera ella, senão para ser batida?
-
-Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas
-gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz
-d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu
-violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo.
-
-Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do
-jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava
-alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a
-caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um
-suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.
-
-Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae...
-Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.--Emfim, iam para a casa nova!
-
-Durante a viagem ninguem mais fallou.
-
-Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam
-lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova.
-
-Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina.
-
-Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava
-com força no cascalho branco do chão.
-
-A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza,
-disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos
-oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que
-aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente,
-esmagando-os a todos.
-
-O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina
-dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.
-
-A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel,
-abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a
-desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro
-e uns vasos de flores na janella.
-
-Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a
-mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas.
-
-Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era
-ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil,
-de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura,
-cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma
-taboa de engommar.
-
---Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa
-censura leve, sentando-se, muito abatida.
-
-A sobrinha explicou:
-
---A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças
-brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa.
-
---Depois...
-
-Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o
-resto.
-
-Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas
-_bicyclettes_? A cosinha então era aquelle cochicholo?
-
-A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados.
-
-Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis
-mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao
-menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas
-que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova.
-
-Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos
-indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido
-por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal
-lapidado que atiravam sobre a toalha _bouquets_ iriados e tremeluzentes.
-Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz e se
-espalhassem sobre o adamascado do linho.
-
-O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu
-repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua
-ração, encheu os pratos das primas.
-
-O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no
-verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos
-do papel.
-
-A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou
-brutalmente em um canto da mesa.
-
-Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha
-extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete.
-
-Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:
-
---Só veio esta canequinha?
-
---E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um
-copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar?
-
---Não quero differenças para mim.
-
-Depois:--Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!...
-
---Eu não acho...
-
---Ah, você!
-
-Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou
-trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro,
-que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria.
-
---Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada.
-
---Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e mais
-o leiloeiro.
-
---Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro.
-
---Seu doutor já avisou.
-
---Bem; póde ir...
-
-A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de
-atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava
-ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o
-interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por
-ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.
-
-Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso
-de pobreza e de inercia.
-
-Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os
-joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada
-na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados
-do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos
-olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe,
-impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não
-encontrava ninguem!
-
-Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de
-saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as
-palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao
-Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre
-reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora,
-aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu
-saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que
-ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no
-collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce...
-
-Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o
-bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava
-a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.
-
-Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o
-dever das restricções.
-
-Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma
-doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é
-que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam
-resentimentos, fugindo de aggravar tristezas.
-
-Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para
-engommados.
-
-Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa
-atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas
-alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida
-pesava-lhe.
-
-Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma
-discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da
-visinhança.
-
-Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando
-dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo...
-
---Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que
-devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e
-accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para
-mais de dois mezes...
-
-Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da
-sua desgraça...
-
-Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições
-seriam um meio de a distrahir; já não aguentava aquelles dias sem fim.
-
-Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava
-dividir-se em todos os misteres domesticos; as cosinheiras não paravam,
-umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho... Era um
-vae-vem cançativo, e ella sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua
-paciencia nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de
-mulher, adoçando soffrimentos, serenando tempestades e conservando-se
-na meia sombra de um papel secundario.
-
-Corriam assim os mezes. Os amigos escasseavam, mais pelo retrahimento da
-familia que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens
-peiores do que elles são, e nunca vêem em si a causa justificada de
-certos abandonos. Camilla queixava-se ás vezes das relações antigas,
-sem cogitar que quem mais fugia era ella, envergonhada da sua nova
-situação.
-
-Levado talvez mais pelo habito que por outra causa, o Dr. Gervasio
-continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas,
-feitas de passagem; evitava, com escrupulosa discreção, os almoços
-naquelle lar pobre e simples. Demais a mais, não podia fallar nunca a
-sós com Milla, naquella casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da
-familia, fechada no seu rigoroso vestido de viuva, muito arredia.
-Aquellas esquivanças não o atormentavam, elle sentia que a ia amando
-com menos amor e mais amizade; era como uma irmã, necessitada do seu
-amparo e do seu conselho, que elle não podia deixar de vêr todos os
-dias; o calôr da sua mão e o som da sua voz já não lhe alvoroçavam
-os sentidos adormecidos; e bem percebia que no coração d'ella a
-paixão estava tambem apaziguada, e que para Camilla elle ia já sendo
-apenas o amigo.
-
-E assim se passaram poucos mezes, até que chegou um dia em que o olhar
-de Camilla, irradiando, se trocou com o d'elle num fulgor de desejo. O
-fogo abafado pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma
-labareda de fragoa. Elle espantou-se, ella conteve-se envergonhada, e
-separaram-se ambos inquietos e torturados.
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Adeus, mamãe! nós vamos levar estas sobras do jantar ás creanças da
-Jacintha, ouviu? Nina disse que não vale a pena guardar para amanhã;
-é pouco e póde azedar.
-
---Mas que creanças são essas? perguntou Camilla ás duas gemeas, que
-lhe fallavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo.
-
---São as netas da Jacintha...
-
-Ruth appareceu atraz das irmãs.
-
---Mamãe não conhece... Jacintha é uma velha paralytica que mora na
-visinhança da minha discipula. Sempre que passamos por lá nos pede
-esmola... É tão velhinha que faz pena. Combinámos com a Nina que
-sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fossemos levar a ella. Quando
-me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a
-gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a
-necessidade dos outros não consolam ninguem...
-
---Falla baixo! Bem, meus amores, vão, antes que seja noite.
-
---Anda depressa, Noca.
-
---Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um
-passeiozinho?
-
---Sim...
-
-As creanças sahiram com a mulata. Camilla sorriu. A Providencia não a
-desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar...
-
-A tarde cahia com lentidão; a viuva, derreada na cadeira de balanço da
-sala de jantar, olhava pela janella aberta para a grande amendoeira do
-quintal, cujas folhas côr de ferrugem cahiam espaçadamente, com um
-rumor timido.
-
-Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na
-transformação de uma essencia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe
-dentro do peito na ancia do calor do abraço e do sabor do beijo. Não
-podia mais, as roupas negras suffocavam-na, lembravam-lhe a todos os
-instantes aquelle minuto inolvidavel, que se lhe fixara na vida, que se
-repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ella não se
-libertaria nunca!
-
-Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo lethargo com
-fremitos de mocidade, capaz de todos os prodigios. Se a paixão que ella
-via arrefecer nos olhos de Gervasio se reaccendesse! Se elle voltasse a
-amal-a com aquelle amor antigo, todo de extremos... Se elle voltasse!
-
-Na pallidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava-se,
-tranquillamente. Camilla olhava para ella, invejando-lhe a serenidade,
-quando sentiu passos.
-
-Voltou-se.
-
-Gervasio sorria-lhe da porta.
-
---Vem! murmurou ella então, num triumpho, extendendo-lhe os braços.
-Elle precipitou-se.
-
---Emfim, voltas a ser minha! a ser minha!
-
---Espera ... socega ... a Nina está em casa...
-
---Que importa a Nina?
-
---Cala-te! Oh, eu já não posso mais!
-
-Muito junctos, com as boccas quasi unidas, elles repetiam as mesmas
-palavras de outr'ora, que soavam agora aos ouvidos de Milla como novas.
-
-O céo ia mudando de côr; as folhas da amendoeira desprendiam-se
-celeres e com frequencia; dir-se-ia uma tarde de outomno, e era apenas
-começo de verão.
-
-Camilla, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia illuminada. O
-medico puxou-a para si, ia beijal-a, quando a Nina appareceu na sala,
-com modo disfarçado.
-
---Querem luz? Como as meninas estão tardando!
-
-Gervasio não respondeu; achou-a importuna. Camilla disse com meiguice:
-
---É cedo, minha filha...
-
-Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como
-se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em
-que houvesse outra atmosphera que lhe alterasse a natureza, isolando-a
-de tudo o mais. As roupas do lucto não lhe pesavam, semelhavam rendas
-levissimas; pela primeira vez a imagem do marido no ultimo momento se
-lhe apagou na memoria... Era já noite quando ella acompanhou Gervasio
-ao jardinzinho da entrada. Elle sentia-a tremula, numa commoção de
-virgem, como se aquelle velho amor peccaminoso fosse um amor nascente.
-
-A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões timidas, e a brancura da sua
-carne, tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de
-uma immaterialidade purissima.
-
---Agora és só minha, só minha! dizia Gervasio, apertando-lhe as mãos
-com força, quando um homem se approximou do portão e o empurrou.
-Olharam, com espanto, mas logo Camilla deu um grito: reconhecera o filho
-e correu para elle.
-
-Mario olhou para o medico com aborrecimento não disfarçado e recuou,
-dando logar a que elle passasse para a rua, como a despedil-o.
-
-Trocaram um cumprimento rapido e cruzaram-se.
-
-Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mario
-se voltou para a mãe com uma expressão que significava--ainda?!
-
-Camilla rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e
-foi-a levando para dentro. Nina accendeu o gaz, batendo os dentes, num
-accesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silencio. Foi ainda
-soluçante, que Milla perguntou afinal:
-
---A Paquita?
-
---Está muito pesada, por isso não veio.
-
-Camilla sentiu o sangue sumir-se-lhe. Que! um neto! o seu Mario ia ter
-um filho!
-
---Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os medicos acharam
-imprudente que a Paquita se mettesse em viagens...
-
---Fizeram bem. Por aqui soffreu-se tanto!... Quando chegaram?
-
---Esta madrugada. Desembarcámos ás nove horas...
-
-Outra decepção: todo o dia no Rio, e só á noite o filho a procurava!
-
-Elle explicou: tivera muito trabalho, idas á alfandega, uma trapalhada!
-E as irmãs? onde estavam as irmãs?
-
---Já vêm, andam ahi pela calçada. Vae avisai-as, Nina.
-
-A moça sahiu. Mario continuou:
-
---Porque não as entregou á minha cunhada? Ella escreveu-nos fallando
-nisso...
-
---Tive pena ... não me quero separar d'ellas.
-
---Sim, concordo que é penoso; mas é para o bem d'ellas, e esta
-situação não póde continuar. Paquita é uma mulher sensata, mesmo a
-bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachel vão para a casa
-de minha cunhada; Ruth irá morar comnosco, isto até lhe facilitará um
-casamento, coisa sempre difficil para uma moça pobre, e Nina tem o
-recurso de ir para a casa do pae...
-
---E ... eu?!
-
---A senhora, visto que agora é livre ... porque não se ha de casar?
-
-Camilla tornou-se rubra e escondeu o rosto nas mãos.
-
-Mario não soubera reprimir-se, e já agora proseguia:
-
---Acho preferivel o casamento á continuação d'esta vida. Perdôe-me
-que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos...
-
-As mãos de Milla, geladas, apertaram com mais força o rosto em fogo.
-
-Mario fallou ainda.
-
-Elle premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita; mas a
-lingua recusava-se a repetil-o inteirinho, no seu rigor de fórma
-decisiva.
-
-Vinha como uma espada, cortando todos os nós. Prevalecia-se da sua
-autoridade de homem.
-
-A mãe teve nojo, e num só grito explodiram-lhe todas as queixas. As
-faces, de vermelhas tornaram-se lividas, as mãos e os beiços
-tremiam-lhe; avançou:
-
---Vá dizer á Paquita, á sua pratica e sensata Paquita, que eu não
-preciso do dinheiro d'ella, ouviu? Não se demore, que ella é capaz de
-bater em você!
-
---Mamãe!
-
---Perversos! vir de tão longe, o meu filho, para me dizer isto. O meu
-filho! e eu que tinha tantas saudades!
-
---Mamãe, a senhora é injusta...
-
---Injusta é ella, que me quer separar de todos os filhos e te ensina a
-faltar-me ao respeito. Acham que tenho soffrido pouco?!
-
---Acalme-se e reconhecerá que temos razão. Paquita é um anjo.
-
---Um diabo do inferno!
-
---A senhora está-me offendendo.
-
---E ninguem me offendeu? Diga! ninguem me offendeu?!
-
---Socegue: tudo se ha de arranjar; bem sabe que eu não tenho nada; a
-fortuna é de minha mulher, mas nós lhe daremos uma mezada, visto
-que...
-
---Recuso; não quero nada d'essas mãos. O meu filho morreu no dia em
-que se casou. Se o envergonho, é melhor fingir que não me conhece.
-Vá-se embora.
-
---Mamãe...
-
---Vá-se embora! Eu não preciso de nada. Suas irmãs sahiram para dar
-uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus!
-
---Não tive a intenção de a offender. Se eu não tivesse encontrado
-aqui aquelle maldicto homem, as coisas teriam caminhado de outra
-maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora
-é viuva, o Dr. Gervasio é solteiro, amam-se, casem-se. É logico.
-
---Pelo amor de Deus! Mario!
-
---A senhora não é creança, deve perceber que d'esse modo compromette
-o futuro das meninas. O tempo lhe dirá se tenho razão...
-
---Que insistencia! uma vez por todas: basta, basta, basta!
-
---Bem, mamãe, calo-me.
-
---Emfim!
-
-Era opportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim,
-gritando:
-
---Mario, Mario!
-
-Elle chegou á porta, agitadissimo e extendeu os braços a Ruth, que lhe
-pareceu muito magrinha, já de vestido comprido, como uma senhora. O
-abraço evocou em ambos a lembrança do pae. Mario semeou beijos e
-lagrimas nos cabellos da irmã, na sua primeira effusão de ternura.
-
-Foi só depois de tudo acabado, que a Noca, contemplando o moço de
-frente, murmurou:
-
---Gentes! reparem como o bigode de Mario cresceu, e como elle está
-bonito!
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-Domingo de verão: as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant da
-rua. Grande socego em tudo.
-
-Fechada no seu quarto, Camilla tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da
-leitura para as caminhas vazias das gemeas, entregues desde a vespera á
-baroneza da Lage. Cumpriam-se as ordens de Mario.
-
-A familia espalhava-se ao bruto ponta-pé da pobreza: uns para aqui,
-outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida!
-
-Numa persistencia cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no cerebro.
-Exangue e dolorida, ella não luctava; a fatalidade faria d'ella o que
-quizesse... O que a atormentava sobretudo era a saudade das gemeas, que
-tinham levado comsigo toda a sua alegria e que, ausentes d'ella, iriam
-dispensando á outra os afagos que deveriam ser só seus! Pobres
-innocentes, lá viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse
-no seu caminho, como um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue
-e a carne.
-
-Via já a outra como uma inimiga. Fôra ella quem lhe tirara o filho
-para a irmã; era ella quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto
-humilhava-a, achava-se indigna por não ter tido forças de defender as
-creanças, arrancadas de casa pela pressão da necessidade. Olhou para
-as mãos: eram bonitas, mas não sabiam fazer nada. Camilla escondeu-as
-depressa, arrepiada, nas dobras do casaco.
-
-E o conselho do filho não a deixava, numa fixidex allucinadora. Sim,
-só Gervasio poderia salval-a, se quizesse dizer primeiro a palavra que
-ella não tinha coragem de pronunciar.
-
-Camilla fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente,
-entre o seu orgulho de mulher e os seus extremos de mãe, badalavam as
-palavras do filho:
-
---Case-se, case-se, case-se!
-
-E elle tinha razão; só assim ella tornaria a ter um lar onde aninhasse
-as filhas; cessariam os sacrificios de Nina e de Ruth, a Noca
-trabalharia só para si, e o Mario...
-
-O resentimento que lhe ficára d'aquelle filho, que viera de longe para
-lhe dizer amarguras, avolumou-lhe as lagrimas que chorava. Tinha-se
-humilhado, havia de humilhar-se até ao fim. Fallaria a Gervasio.
-
-Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as
-creanças antes do desapêgo completo.
-
-Francisco Theodoro assim quizera, furtando-se á responsabilidade da
-familia, fugindo da vida desde que a vida, em vez de presenteal-o, lhe
-pedia favores. Era o abandono; pois bem, ella reconstituiria o lar que
-elle desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobresaltos,
-por tantas agonias, resurgiria, como um dia de luz apóz outros de
-negrume, para a felicidade de todos!
-
-O coração faz pagar caro ás mulheres a sua gloria, bem o sabia. Dera
-tudo, certa de que não era a honra do marido que sacrificava mas a sua
-propria. Elle não era auctor nem cumplice, não podia ser arguido pela
-sociedade hypocrita.
-
-Por fortuna, tinha-se empenhado com um homem de bem: Gervasio
-salval-a-ia. Mario dissera um dia:
-
---Escolha entre mim e o Dr. Gervasio--Ahi estava ella agora radiante,
-escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era mãe do outro.
-
-As horas passavam devagar. Num piano visinho rompeu uma polka faceira;
-resoavam gargalhadas na rua.
-
-Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camilla foi á janella;
-vacillava ainda. Nem uma nuvem no céu; voltou para dentro e esbarrou
-com as caminhas vazias. Numa imposição de vontade, despiu-se á pressa
-e enfiou o vestido de sahir; os dedos mal atinavam com os colchetes; nem
-olhou para o espelho, na anciedade de partir, de correr para o futuro...
-
-
-Eram quatro horas quando entrou no bond que a levaria á casa do Dr.
-Gervasio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu véo de
-viuva, ciosa de que lhe não lessem os pensamentos na alteração do
-rosto. Dobrava-se, emfim, á vontade da nora, aquella creatura
-implacavel, que nunca a procurava, conservando-se a distancia, com medo
-do contacto. Camilla sorria d'aquelles grandes escrupulos, tão
-tardiamente acordados...
-
-Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petropolis; e o
-Mario, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a familia,
-carregado de encommendas para a mulher e o filho, um rapagão nascido
-longe da avó.
-
-Camilla esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens
-exteriores. Era como se tivesse sahido de um carcere: tudo lhe parecia
-differente e mais bonito. Começavam já a apparecer as chacaras de
-Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de agua e de
-sombras macias.
-
-Em quantas d'aquellas casas, ella fizera brilhar as suas joias, rugir as
-suas sedas, vagar o perfume do seu lenço de rendas e dos seus vestidos!
-Bons tempos ... ah! mas elles voltariam, quando a fortuna e a lealdade
-de Gervasio a repuzessem no logar de que a ambição do marido a tinha
-arrancado.
-
-Ia leve. Como é bonito e curto o caminho da felicidade!
-
-O bond dobrou a rua dos Voluntarios; e uma subita angustia cahiu no
-coração de Camilla. Ia passar pelo palacete Theodoro como uma
-extranha. Por um grande trecho da rua, ella esperava esse momento com
-curiosidade e terror; e quando o momento chegou, quiz abranger tudo com
-a vista, adivinhar até o que se passava dentro d'aquellas grossas
-paredes. Na fugacidade do instante só pôde perceber que a janella do
-seu quarto estava aberta e que tinham substituido por areia preta a
-antiga areia branca do jardim. Teve impetos de mandar parar o bond, de
-entrar pela casa, ir até á sua saleta, continuar o bordado ou a
-leitura interrompida e beijar as duas filhinhas, coradas, offegantes
-pelas ultimas corridas da bicycleta, que lá deviam estar dentro, ao pé
-da Noca, na sala de engommar, sobraçando as suas grandes bonecas de
-olhos azues...
-
-O bond passou, e Milla, toda voltada no banco, olhava para a _sua_ casa,
-depois para o _seu_ jardim, e ainda, emquanto a viu, para a alta copa
-ramalhuda da _sua_ mangueira...
-
-Sentiu então como que um desdobramento de personalidade. Ella que
-passava, sózinha, vestida da lã negra, com um véo de crepe pela cara,
-mal arranjada, abotoada á pressa, não era a Camilla dos vestidos
-claros e das mãos luminosas; essa estaria lá dentro do palacete no seu
-eterno sonho de mocidade, de amor e de belleza...
-
-Quando entrou em casa de Gervasio, teve um impeto de voltar para traz.
-Todos os seus escrupulos se levantaram em revoada. Feriu-a então a
-ideia de que já era avó, e que esse titulo devia ser um ridiculo
-algemando-a ao silencio. O filho de seu filho seria tambem um inimigo?
-Tão pequenino, apenas nascido, e já teria força para se interpor
-entre ella e a felicidade?
-
-Um criado abriu o guarda-vento; ella entrou indecisa para o vestibulo.
-Nunca se encontrara alli sozinha: Gervasio não quizera expol-a aos
-commentarios dos seus criados; preferira ter um canto obscuro, todo
-destinado a ella e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua
-presença ou a sua indagação curiosa.
-
-O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas,
-até uma sala do mesmo pavimento terreo, abrindo sobre um jardinzinho
-interior, onde as dracenas se empennachavam de flores.
-
-Pediu-lhe que esperasse alli. O senhor doutor conferenciava com um
-individuo no escriptorio, mas ia avisal-o.
-
-Ella respondeu-lhe que não, não tinha pressa; ficaria até que o outro
-sahisse...
-
-Quando se viu só, Milla levantou o véo com um suspiro de allivio.
-Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa
-sobriedade nos arranjos e nos moveis. Reconheceu numa cadeira uma
-almofada bordada por ella, e, a um canto, um jarrão chinez com que
-Francisco Theodoro presenteara o medico, após uma doença grave do
-Mario.
-
-O marido! o Mario! como elles lhe fugiam para o horisonte da vida...
-Aquelle jarrão evocava uma epocha feliz. O filho era então já um
-rapazinho atrevido, mas tão meigo, tão lindo! o marido era forte,
-fallador, arrebatado, ameaçando fazer cahir a casa ao furor das suas
-rebentinas. E ella? Ella bem differente: caseira, mal vestida, egoista e
-muito severa para as faltas alheias... Prodigalisava-se pouco, o proprio
-marido não obtinha d'ella mais do que o carinho frio, de
-condescendencia; não por mal, não por proposito, nem sabia porque...
-
-Fôra Gervasio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas
-coleras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embellezar a sua casa, a
-sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com intelligencia e com
-consciencia. Antes não o houvera conhecido; ella talvez não tivesse
-sido boa para ninguem, mas teria sido honesta e não conheceria o
-soffrimento.
-
-Com os olhos parados nas figuras polychromas do jarrão, Camilla
-relembrava todo o martyrio do seu amor, nascido pouco a pouco da
-intimidade...
-
-O tal individuo demorava-se no escriptorio. Ella levantou-se, foi á
-janella olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior da
-casa, havia tambem alli uma tranquillidade distincta. Sentia-se que os
-gostos e os instinctos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte.
-
-Camilla olhava abstractamente para as flores, quando ouviu passos no
-corredor. Voltou-se; Gervasio appareceu no limiar da porta.
-
---Que é isso, Milla?!
-
---Nada ... eu...
-
---Por que vieste?!
-
-Camilla avançou timidamente. Elle continuou:
-
-Por que não me mandaste chamar logo que entraste? Estás tão
-pallida!... tão fria... Foi uma imprudencia vir aqui, a esta hora!...
-Mas por que?!
-
---Lá eu não poderia fallar...
-
---Tens razão, aquella casa é tão pequena! está-se tão perto de
-todos! Senta-te, meu amor.
-
---Contrario-te?
-
---Nunca! estamos junctos! Falla.
-
---Eu...
-
-Mal pronunciou a primeira palavra, Camilla arrependeu-se da sua
-resolução. Era quasi velha, já era avó! Áquelle pensamento toda se
-enrubeceu; calou-se de novo, com os olhos razos de agua.
-
---Não te comprehendo ... assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que
-me zango! Vamos, que aconteceu?
-
---Amas-me sempre?
-
---Sempre!
-
---Como ... no principio?
-
---Mais.
-
-Então baixinho, num sussurro, com o rosto unido ao rosto d'elle,
-Camilla disse tudo. Levada pelo seu sonho, ella não percebia quanto as
-mãos d'elle tremiam nas suas mãos e que sombras lhe passavam pelo
-rosto transtornado.
-
-Quando ella acabou, elle não respondeu; ficou por largo tempo immovel,
-como se ainda esperasse a ultima palavra.
-
-A viração da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas; Camilla
-sorveu-o com deleite, como se fôra um afago do céu. Emfim, fallara,
-tinha-se dissipado a nuvem e já sorridente, instou pela resposta:
-
---Queres?...
-
-O medico ergueu-se de chofre, e com voz metalica e dura disse
-rapidamente:
-
---Não pode ser.
-
-Camilla moveu os labios, numa agonia de morte. O que ella temia alli
-estava. Elle tinha razão, era bem feito, casar, para que? Fôra a nora
-que a obrigara a tamanha humilhação! Atraz d'aquella mascara de
-seriedade, Gervasio havia de se estar rindo d'ella, da pretenção
-d'aquelle miseravel corpo de avó a um noivado de amor! Teve a
-impressão dolorosissima de estar coberta de rugas e de cabellos
-brancos; olhou para as mãos com medo; não comprehendeu bem o motivo
-porque continuava alli e levantou-se com esforço, para se ir embora. O
-seu destino estava escripto: via todo o futuro tapado pelo corpo
-pequenino do neto.
-
-Gervasio, pondo-lhe as mãos nos hombros, fêl-a sentar-se outra vez,
-com brandura.
-
---Para que? perguntou-lhe ella, quasi chorando.
-
---Para te dizer tudo: eu sou casado.
-
-Camilla abafou um grito, tapando a bocca com a mão.
-
-Elle dissera aquillo num desabafo, na ancia do golpe inevitavel, com uma
-voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Rôto o
-segredo, apiedou-se logo e fallou com humildade, muito chegado a ella.
-Tambem pensara nisso, elle, tambem a quereria fazer sua aos olhos de
-toda a gente, mas estava preso a outra mulher, até que a morte...
-
---A morte! suspirou Camilla.
-
-E elle continuou, muito commovido:
-
---Viste-a uma vez, lembras-te? era aquella mulher de lucto que
-encontrámos na volta do _Neptuno_. Achaste-a bonita ... percebeste a
-nossa impressão e tiveste ciumes... Eu não queria que soubesses ...
-mas agora a explicação deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade.
-Meu pobre amor, perdôa-me...
-
-Gervasio segurou nas mãos de Camilla; ella retirou-as devagar e fixou-o
-com um olhar de tão clara interrogação, que elle continuou mais
-baixo, mastigando as palavras:
-
---Sim, amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que
-ella me enganava, deixei-a... Moravamos no Rio Grande, ella ficou lá
-com a mãe, eu voltei para aqui. Quiz divorciar-me ... ella oppôz-se;
-oppõe-se ainda; quer ter-me acorrentado como um cão: consegue-o. É
-tudo.
-
-Era tudo. Camilla percebeu o melindre do segredo, mantido para
-evitar-lhe uma offensa. A razão illuminava-se-lhe; ella não podia ser
-aos olhos d'aquelle homem nem melhor nem mais digna do que a outra que
-elle desprezara; a mesma culpa as nivelava, e se elle não encontrara
-perdão para a esposa, como encontraria respeito para ella?
-
-Sempre calada, puxou o seu véo de viuva para o rosto e levantou-se.
-
-O aroma das dracenas invadia tudo, numa exhalação suffocante.
-
-Gervasio beijava-lhe as mãos, supplicando-lhe que lhe perdoasse; fôra
-por amor de ambos. Porque não continuariam a viver como até então?
-
-Camilla não respondia, e como elle instasse, ella pediu:
-
---Deixa-me ir embora!
-
---Tens razão; precisas descançar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao
-menos mandar buscar-te um carro!
-
-Camilla desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a
-pé, ao ar livre. Elle consentiu, adivinhando que a perdia para sempre.
-Talvez fosse melhor assim...
-
-Ella colheu a cauda da saia e sahiu tiritando de frio, por aquella
-luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltava
-para traz, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido,
-badalando furiosamente. Elle era casado! Elle mentira-lhe! Tantos annos
-de mentira, tantos annos de mentira!
-
-
-Era já noite quando Camilla entrou no seu jardinzinho da rua de D.
-Luiza. A casa estava ainda ás escuras, mas Ruth tocava lá dentro um
-adagio de Mendelssohn. Extenuada, Camilla sentou-se nos degráus de
-pedra, como uma mendiga á espera da esmola. As luzes dispersas dos
-lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a ultima
-cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres
-invisiveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetravel e sagrado
-mysterio...
-
-Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que
-estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma
-carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As
-lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que
-aquelle era o dia da sua segunda viuvez.
-
-Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um
-amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a
-illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da
-terra!
-
-Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella,
-por ventura, uma criminosa?
-
-Maldizia-se, fôra uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os
-seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquelle a quem
-tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fóra da sua vida, como a
-uma extranha.
-
-Elle mentira-lhe, elle mentira-lhe!
-
-Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ella
-tambem aos olhos d'elle?
-
-Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se
-pudesse voltar atraz, desfazer todos aquelles dias de sonho e de
-ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de
-esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita,
-em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta
-humilhação, peior que todas as mortes, porque vinha d'elle, que ella
-amava tanto! Amava ainda. Ainda!
-
-Olhou com desprezo para o seu bello corpo de mulher ardente. Era um
-despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquellas
-creanças nascidas d'ella, predestinadas para o Soffrimento. Caminhariam
-alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miseria.
-
-Numa angustia, Camilla interrogou com olhar ancioso a treva muda:
-Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?!
-
-Alguma coisa fallou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia ás
-estrellas: a musica de Ruth. A essencia da lagrima purificava-se no som,
-com um poder de infinita pacificação.
-
-Então a viuva teve inveja da filha, d'aquelle ideal purissimo, que não
-lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem,
-pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir...
-
-Maldicta a natureza, que a fizera, a ella, só para o amor!
-
-
-Ás onze horas da manhã seguinte, Camilla sentou-se a um canto da sala
-de trabalho. O sol entrava pela janella, extendendo no chão uma toalha
-de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta,
-preparando lições para duas discipulas novas. Toda a sua indolencia
-antiga se transformara em actividade; Nina cosia á machina e, no meio
-da casa, Noca burrifava a roupa para o engommado. Ella olhou para todos.
-Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem illuminava-lhe a
-fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até
-mais bonitas naquelle afan. Estavam na sua atmosphera.
-
-Com voz pausada e clara, Camilla pediu que lhe dessem trabalho.
-Olharam-na com espanto.
-
---Mamãe quer mesmo fazer alguma coisa?!
-
---Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova!
-
---Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth.
-
-Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou:
-
---Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os
-filhos. Deixe Mario fallar, afinal aqui ninguem ha de morrer de fome...
-Vou buscar as creanças?! Vou, ou não vou?
-
---Vae, respondeu Camilla muito excitada: mas olha, não offendas a
-baroneza. Basta dizer ... que eu não tenho nada no mundo senão as
-minhas filhas!
-
---Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive
-quasi...
-
---Basta de palavriado, Noca! interrompeu Nina; e accrescentou:
-
---Vá descançada, eu acabarei de burrifar a roupa. E depois, para a
-tia:
-
---Faz bem, tia Milla. O trabalho distrae.
-
-
-
-
-XXV
-
-
-Depois de dois annos de viagens pelos Estados Unidos, o capitão Rino
-desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remoçado, lepido, despido
-do seu ar de ingenua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha de
-ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens.
-
-Catharina notou-lhe logo a differença, ao conduzil-o alegremente por
-entre os gyrasóes do seu jardim. Comprehendeu a serenidade do irmão.
-Vinha salvo.
-
-Na manhã seguinte elle lia alto um jornal, quando esbarrou com um
-annuncio para um concerto de Ruth.
-
-Parou; elle soubera de tudo pelas cartas de Catharina, e, voltando-se,
-fixou nella os seus olhos claros. Houve uma troca de confidencias entre
-os dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irmão, a
-moça perguntou em voz baixa:
-
---Vaes visital-a agora?
-
-Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com
-outra pergunta:
-
---Para que?...
-
-
-
-
-FIM
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FALLENCIA ***
-
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- The Project Gutenberg eBook of A fallencia,
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A fallencia</span>, by Júlia Lopes de Almeida</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
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-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A fallencia</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Júlia Lopes de Almeida</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: October 25, 2022 [eBook #69229]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by The Internet Archive.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FALLENCIA</span> ***</div>
-
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/fallencia_cover.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/fallencia_frontispiece.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h1>JULIA LOPES DE ALMEIDA</h1>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h2>A FALLENCIA</h2>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h3>2ª EDIÇÃO</h3>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h4>RIO DE JANEIRO</h4>
-
-<h5>Officinas de Obras d'<b>A TRIBUNA</b>&mdash;rua do Ouvidor 132</h5>
-
-<h4>1901</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p class="nind">
-CAPITULO <a href="#I">I</a><br />
-CAPITULO <a href="#II">II</a><br />
-CAPITULO <a href="#III">III</a><br />
-CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br />
-CAPITULO <a href="#V">V</a><br />
-CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br />
-CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br />
-CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br />
-CAPITULO <a href="#X">X</a><br />
-CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br />
-CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXI">XXI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXII">XXII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXIII">XXIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXIV">XXIV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXV">XXV</a></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>A FALLENCIA</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="I">I</a></h4>
-
-<p>
-O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras,
-bafejando um ar de fornalha na atmosphera. Toda a rua de S. Bento,
-atravancada por vehiculos pesadões e estrepitosos, cheirava á café
-crú. Era hora de trabalho.
-</p>
-<p>
-Entre o fragor das ferragens sacudidas, o gyro ameaçador das rodas e os
-corcovos de animaes contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando,
-compacto e esbaforido.
-</p>
-<p>
-Á porta do armazem de Francisco Theodoro era nesse dia grande o
-movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as
-saccas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:
-</p>
-<p>
-&mdash;Andem com isso, que ás onze horas tenho de estar nas Docas!
-</p>
-<p>
-E os carregadores vinham, succedendo-se com uma pressa phantastica,
-atirar as saccas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens
-de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal
-cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros,
-nús da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.
-</p>
-<p>
-Ao cheiro do café misturava-se o do suor d'aquelles corpos agitados,
-cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos
-braços.
-</p>
-<p>
-No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros,
-furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa
-do caminhão, todo derreado para a aniagem das saccas, respirando a
-poeirada que se levantava d'ellas. Os outros respondiam com eguaes
-improperios, que os cocheiros dos tilburys, em esperas forçadas, ouviam
-rindo, mastigando o cigarro.
-</p>
-<p>
-Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquillo, como formigas em
-correição, com a cabeça vergada ao peso da sacca, roçando o corpo
-latejante nas ancas lustrosas dos burros.
-</p>
-<p>
-Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de
-uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que
-invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os
-parallelepipedos da rua.
-</p>
-<p>
-Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em
-fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de
-piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento
-peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado
-a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam
-prospero. Enriqueciam-se com os sobejos.
-</p>
-<p>
-Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a
-moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o
-mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra
-barulhenta e desharmonica.
-</p>
-<p>
-A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se
-atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á
-cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao
-peso bruto.
-</p>
-<p>
-Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de
-aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de
-athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de
-guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a
-uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto.
-</p>
-<p>
-Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho,
-vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal,
-todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e
-as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.
-</p>
-<p>
-Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando
-um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o
-sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença
-para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da
-vida, num torvelinho de pó e gritaria.
-</p>
-<p>
-De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos,
-surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas,
-enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de
-protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua.
-</p>
-<p>
-Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa.
-</p>
-<p>
-No de Francisco Theodoro não havia paragem.
-</p>
-<p>
-O primeiro caixeiro, <i>seu</i> Joaquim, um homem moreno, picado das
-bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em
-mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.
-</p>
-<p>
-Á porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de
-aço e latão todas as saccas que sahiam, para que se escapasse pela
-abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os
-passos nessa operação, e o café cahia cantando na soleira.
-</p>
-<p>
-Ao fundo, um rapazinho magro e amarello, o Ribas, apontava num caderno o
-numero de saccas que levavam, rente á escada de mão por onde os
-carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois
-pelo asphalto desgastado e denegrido do solo.
-</p>
-<p>
-Tudo era feito numa urgencia, obrigada a grande movimento.
-</p>
-<p>
-Um sopro ardente de vida, uma lufada de incendio bafejada por cem homens
-arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquelle
-extenso porão negro, sem janellas, ladeado de saccos sobrepostos e
-adornado nas vigas sujas do tecto por infinita quantidade de teias de
-aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo.
-</p>
-<p>
-De vez em quando, um ruido de cascata rolava pelo interior do armazem.
-Era o café, que ensaccavam na área do fundo, e que na quéda das pás
-desprendia um pó subtil e um cheiro violento.
-</p>
-<p>
-Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no
-som confuso, em que vozes humanas e rodas de vehiculos se amalgamavam
-com o estrupido das patas dos animaes.
-</p>
-<p>
-Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas
-corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito
-trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!
-</p>
-<p>
-Era o seu estribilho.
-</p>
-<p>
-E havia sempre muito que fazer naquella casa, uma das mais graúdas no
-commercio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sózinho o
-caminho dos seus cofres, correndo para elles sem interrupção.
-</p>
-<p>
-Ao lado do armazem e communicando com elle por uma portinha estreita,
-havia á esquerda o corredor e a escada, que levava ao escriptorio,
-acima, no primeiro andar.
-</p>
-<p>
-Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra,
-guarda-livros, escrevia em pé, junto á escrivaninha collocada ao
-centro. Em outra carteira trabalhavam os dois ajudantes, um velho, o
-Motta, de sorriso amavel e modos submissos; e o outro, um moço bilioso
-de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.
-</p>
-<p>
-Nessa sala o trabalho era silencioso. As pennas não paravam, mal dando
-tempo ás mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas.
-Diziam-se phrases sem se levantar os olhos da escripta, e as perguntas
-eram apenas respondidas por monosyllabos.
-</p>
-<p>
-A um canto, sobre uma mesinha solida, entre uma das janellas e a parede,
-estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira
-pintada, a talha de philtro já ennegrecida pelo uso. Pelas paredes,
-pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e
-<i>cartas a responder</i>. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada,
-abria-se uma janella para o negrume do armazem, sob uma claraboia
-estreita, de pouca luz.
-</p>
-<p>
-Era em um gabinete, ao lado, com uma janella para a rua e egual avareza
-de mobilia, que o dono da casa escrevia a sua correspondencia, bem
-repousado em uma larga cadeira de braços.
-</p>
-<p>
-Elle alli estava, acabando de fechar uma carta.
-</p>
-<p>
-Toda a sua pessoa reçumava fartura e a altivez de quem sae victorioso
-de teimosa lucta. Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro,
-com os olhos garços tranquillos e os dentes brancos e pequeninos, tinha
-um bello ar de burguez satisfeito.
-</p>
-<p>
-Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos
-seus passos pesados.
-</p>
-<p>
-Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a
-que elle respondia com paciencia, indicando claramente as cousas, com
-minucias, para evitar confusões.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, á sua larga secretária de peroba, dava a face para
-o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas.
-</p>
-<p>
-Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta
-e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças.
-No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo
-seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio
-a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.
-</p>
-<p>
-Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento
-de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava
-primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem.
-</p>
-<p>
-Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um
-commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos
-Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga,
-recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli
-para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com
-palestras de seu interesse e do seu gosto.
-</p>
-<p>
-Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as
-calças.
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem! vocês tardaram...
-</p>
-<p>
-&mdash;Culpa do Lemos...
-</p>
-<p>
-E depois:
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor está com a casa repleta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho exportado muito café!
-</p>
-<p>
-&mdash;Felizardo! aproveite a epocha, que não póde ser melhor!
-</p>
-<p>
-Corria então o anno de 1891 em que o preço do café assumira
-proporções extraordinarias. O movimento crescia e casas pequenas
-galgavam aos saltos grandes posições.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que eu te invejo, disse o Ramos, unico que ousava tratar Theodoro
-por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engomma as camisas!
-</p>
-<p>
-Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa,
-que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito
-afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é má essa, regougou o Lemos, o commendador Lemos, da
-Beneficencia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que
-nem de creança.
-</p>
-<p>
-Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do
-Innocencio, perguntando a Theodoro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui o seu visinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o
-outro, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem, sempre é verdade aquillo?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no
-negocio...
-</p>
-<p>
-Fixaram todos a vista no Innocencio Braga. Era um homem pequenino,
-magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quasi
-imperceptivel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Custa-me a crêr nesses milagres ... ponderou Theodoro, pousando a
-chicara na bandeja que o Isidoro offerecia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Affirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazem e
-esperou a occasião. O sogro ajudou-o, está claro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não meditou nas consequencias que poderiam sobrevir se se désse uma
-baixa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem falla em baixa?! Eu só lhe digo que o commercio do Rio de
-Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquelle.
-Senhores, a audacia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante
-não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus
-antepassados analphabetos. O negociante moderno age mais com o espirito
-do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas
-nobres do pensamento e do calculo. O Torres é de bom estofo; é
-d'estes. Conheço os homens.
-</p>
-<p>
-Olhavam todos para o Innocencio com um certo respeito, reconhecendo-lhe
-superioridade intellectual.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.
-</p>
-<p>
-E logo o Innocencio accrescentou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tambem aquelle está destinado a ser o nosso Rottschild!
-</p>
-<p>
-Theodoro contrahiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais
-habil, o mais forte fôra sempre o seu sonho...
-</p>
-<p>
-Voltando-se, inquiriu dos outros explicações meudas acerca d'aquelle
-negocio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e elle meditava
-no assumpto, alisando a barba grisalha, rente ás faces gordas e macias.
-</p>
-<p>
-O Negreiros, tendo dado volta á sala e enfiado pela porta do
-escriptorio o seu enorme nariz de cavallete, virou-se para os outros e
-disse a meia voz:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que diabo! não posso acostumar-me a vêr aquelle velho como ajudante
-de guarda-livros!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que quer você? murmurou Theodoro; o Mattos empenhou-se por elle e
-afinal a acquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá
-boa conta do recado não penso em substituil-o. É assiduo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Outro exquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o
-Joaquim ... ninguem dirá que é o mesmo, lá fóra...
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito carnavalesco e mettido com as damas, hein? Que se divirta,
-aqui trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descança-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ouvi dizer que elle vae casar com a Delphina do Recreio...
-</p>
-<p>
-&mdash;Historias! o rapaz é serio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tolo é que elle não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéo.
-</p>
-<p>
-O Innocencio despediu-se tambem; ia num pulo ao Torres. Os affazeres
-eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.
-</p>
-<p>
-Quando elle sahiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O
-commendador Lemos sentenciou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Este Innocencio é espertalhão! Está aqui, está director do banco.
-Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por elle... Tem uma
-labia!
-</p>
-<p>
-&mdash;E sabe encostar-se a boas arvores. O Barros tem-lhe dado boas
-commissões e não é á toa que elle procura tanto agora o Torres...
-Mette-se sempre na melhor roda... Aquelle não veio de Portugal como
-nós, sem bagagem e cheirando a páo de pinheiro; trouxe luvas e meias
-de seda... O patife!
-</p>
-<p>
-&mdash;São os que naufragam...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando não vêm á caça e não têm o geitinho que este revela...
-Canta que nem um passaro, para attrahir a gente!
-</p>
-<p>
-&mdash;É uma intelligencia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas
-as mãos o collete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se
-no sofázinho austriaco, teve uma ponta de censura para as cousas
-d'esta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado, a cidade
-infecta.
-</p>
-<p>
-Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadencia
-nem rhythmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua patria
-andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metaes mais polidos,
-os passos eguaezinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo
-mais aqui, o mesmo relaxamento.
-</p>
-<p>
-A maldita Republica acabaria de escangalhar o resto. Veriam.
-</p>
-<p>
-Só no fim perguntaram pelas familias.
-</p>
-<p>
-&mdash;A proposito, perguntou o Ramos a Theodoro, aquella menina que vae
-tocar violino no concerto dos pobres é sua filha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que concerto?
-</p>
-<p>
-&mdash;De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal...
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde ser... são cousas lá da mãe ... a pequena tem um talentão; o
-proprio mestre espanta-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;E bonita! vi-a um d'estes dias, observou o Lemos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, isso não! por emquanto ainda não se póde comparar com a
-mãe ... protestou Francisco Theodoro, com sinceridade e um certo orgulho.
-</p>
-<p>
-Os outros sorriram.
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!
-</p>
-<p>
-Houve uma pausa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Realmente, insistiu Francisco Theodoro, o Gama Torres deu um cheque
-valente. Pois olhem, eu não dava nada por elle: um brasileirito
-magro...
-</p>
-<p>
-&mdash;E começou outro dia!
-</p>
-<p>
-&mdash;De mais a mais, parecia acanhado ... timido...
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre
-um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou
-razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso
-Rottschild...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça
-nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é
-medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o
-commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu
-systema, observou Theodoro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario.
-Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porco?! bradaram os outros, indignados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porco, confirmou o Ramos com solemnidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o
-Lemos, o anafado.
-</p>
-<p>
-Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes
-da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao
-amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do
-Innocencio. Que talento!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de
-pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete.
-</p>
-<p>
-&mdash;Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida,
-maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido
-aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Com que diabo quereria elle que trabalhassemos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O
-nosso commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu
-por mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito
-e não aprendi nada.
-</p>
-<p>
-Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa
-visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia.
-</p>
-<p>
-Depois de um suspiro, Theodoro concluiu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos
-o tombo que isto leva!
-</p>
-<p>
-Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano
-desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva
-intenção.
-</p>
-<p>
-Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e
-assumptos lidos no <i>Jornal do Commercio</i> do dia encheram um quarto de
-hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que
-aquella casa cheirava a dinheiro.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo,
-Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de
-café, a dar informações.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estamos esperando o café do Simas.
-</p>
-<p>
-O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções
-do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem
-tem engulido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima?
-</p>
-<p>
-O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:&mdash;sim,
-senhor; depois gritou para o fundo:
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Ribas!
-</p>
-<p>
-O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a
-ver ensaccar o café.
-</p>
-<p>
-A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus
-serviços, deprimindo os alheios. <i>Seu</i> Joaquim considerava-se o melhor
-empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros
-temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que
-elle não perdoava.
-</p>
-<p>
-O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe
-dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, <i>seu</i> Joaquim
-lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha,
-que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar.
-Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho
-era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena
-triste, de africanos. Era mais bonito.
-</p>
-<p>
-As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido
-da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E
-ainda acham que as cousas se alteram de vagar!
-</p>
-<p>
-Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na
-atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou.
-O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas
-corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de
-trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a
-freguezia, accrescentando para o estimular:
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem
-mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas!
-</p>
-<p>
-O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco
-Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido.
-</p>
-<p>
-Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e
-pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça,
-dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de
-exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de
-financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de
-toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria
-justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do
-que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de
-esforço e de labor?
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a
-mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o
-mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois
-para o seu gabinete.
-</p>
-<p>
-Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas
-fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça,
-guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de
-verão bafejava toda a rua febril.
-</p>
-<p>
-Os armazens, pelas boccas negras das suas portas escancaradas, vomitavam
-ainda saccas e saccas de café, que as locomotoras e as carroças
-levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da
-Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó que
-espalhavam no ar scintillações de ouro.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="II">II</a></h4>
-
-<p>
-Em caminho de casa, Francisco Theodoro, recostado em um bond, persistia
-em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéas lhe fugiam para
-um curso perigoso.
-</p>
-<p>
-O exito do Torres quisilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o
-caminho, impedindo-o de chegar ao seu ultimo ponto de mira. Galgava-lhe
-de assalto a deanteira, para se quedar sempre na sua frente, como um
-obstaculo.
-</p>
-<p>
-Aquella conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia
-o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canceira do trabalho.
-A vida tem ironias: teria elle sido um tolo?
-</p>
-<p>
-Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples
-caixeiro, quasi analphabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os
-sapatões barulhentos.
-</p>
-<p>
-Tinha ainda fresco na memoria o dia do desembarque&mdash;estava um
-calor!&mdash;e de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal
-alimentado, com saudades da brôa negra, das sovas da mãe e das
-caçadas aos grillos pelas charnecas do seu logar.
-</p>
-<p>
-Pouco a pouco outros grillos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O
-som do dinheiro é musica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu
-destino, tolerando todas as oppressões, dobrando-se a todas as
-exigencias brutaes, numa resignação de cachorro.
-</p>
-<p>
-Assim correram annos, dormindo em esteiras infectas, molhando de
-lagrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi
-enchendo, enchendo avaramente.
-</p>
-<p>
-Aquella infancia de degredo era agora o seu triumpho. Vinha de longe a
-sua paixão pelo dinheiro; levado por ella, não conhecêra outra na
-mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao
-negocio. O negocio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o
-ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.
-</p>
-<p>
-Não podia explicar, como, só pelo attrito com pessoas mais cultivadas,
-elle fôra perdendo, aos poucos, a grossa ignorancia de que viera
-adornado. A letra desenvolveu-se-lhe, tornou-se firme, e a sua tendencia
-para contas fez prodigios, aguçada com o sentido na verificação de
-lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projectos, e
-observando attentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um
-negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a
-quem a sociedade recebia bem.
-</p>
-<p>
-Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo á deusa da
-fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para
-elle, o Brasil era o balcão, era o armazem atulhado, onde o esforço de
-cada individuo tem o seu premio.
-</p>
-<p>
-Fóra do commercio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um
-olhar...
-</p>
-<p>
-Tempos de amargura e de esperança, aquelles!
-</p>
-<p>
-Relembrando o passado, Francisco Theodoro procurava em si mesmo
-elementos com que pudesse bater influencias e oppôr-se ás
-especulações de afogadilho; devia encontral-os espalhados pelos dias
-asperos da incerteza e os macios da prosperidade.
-</p>
-<p>
-Esta rectrospecção agradou-lhe; fixou varios periodos.
-</p>
-<p>
-O tempo em que morara em um sobradinho do becco de Bragança, sombreado
-pelo beiral muito extendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada
-de rotula de um verde sujo.
-</p>
-<p>
-Embaixo e defronte, caixoteiros martellavam em taboas de pinho, cujo
-cheiro dava ao becco immundo uma baforada fresca de floresta. E as
-martelladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o
-trabalho; de noite o theatro ou a casa da Sidonia. Que seria feito da
-Sidonia? Devia estar p'r'ahi, em qualquer canto ... e velha.
-</p>
-<p>
-Aos domingos na chacara do Mattos, o solo, os jantares á portugueza, e
-a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe gyrava na memoria,
-suavemente, suavemente.
-</p>
-<p>
-Fôra no conforto d'aquella chacara, vendo-se cercado de
-considerações, ao lado do amigo repousado e feliz, que elle sentiu a
-sua importancia e se lembrou que deveria haver na terra outras delicias;
-mas o seu coração, cançado de um lucta formidavel, negava-lhe novas
-inclinações. A patria esquecida não lhe acenava com o minimo encanto:
-a mãe morrera, a sua unica irmã tinha-se recolhido a um convento.
-Fechara-se uma porta sobre a sua meninice.
-</p>
-<p>
-Sentia-se só; começava a cançar-se e a enjoar as mulheres faceis, com
-quem convivia em relações momentaneas. Mesmo a Sidonia enervava-o com
-os seus arrufos ... e as suas denguices.
-</p>
-<p>
-Atirou-se a proteger as instituições do seu paiz, a andar com
-medalhões e a fazer mordomias na Beneficencia. No fundo, não era só a
-distracção que elle buscava, nem a caridade que elle exercia; uma
-outra causa lhe filtrava n'alma aquella vocação para o beneficio...
-</p>
-<p>
-E a commenda chegou.
-</p>
-<p>
-Foi só depois de commendador que Theodoro se sentiu vexado d'aquella
-habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelaria, que
-mobilou a vinhatico, com exuberancia de chromos pelas paredes. Achou,
-ainda assim, que á sua casa alegre faltava qualquer cousa...
-</p>
-<p>
-Viera-lhe a dyspepsia. Que insomnias!
-</p>
-<p>
-Um medico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem á terra ou o
-casamento, para a regularisação de habitos. Elle achara cedo para a
-viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéa do casamento
-parecia-lhe mais salvadora.
-</p>
-<p>
-Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma
-esposa dedicada e meia duzia de filhos que lhe herdassem virtudes e
-haveres?
-</p>
-<p>
-No seu sonho começou a esboçar-se a idéa de um herdeiro. Teria um
-rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse,
-sobretudo, um continuador d'aquella casa da rua de S. Bento, que
-engrandeceria com o seu prestigio, a sua mocidade, bem assente no apoio
-e na experiencia paterna. O filho seria a sua estatua viva, nelle
-reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infancia, seria
-instruido.
-</p>
-<p>
-E tanto aquella idéa o perseguia, que num domingo de solo abriu-se ao
-Mattos, que acolheu com ar solemne e discreto as confidencias do amigo.
-</p>
-<p>
-Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sei o que você quer. Tivemos aqui na visinhança uma familia que está
-mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é
-a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois uma mulher assim é que me servia.
-</p>
-<p>
-&mdash;O diabo é que ellas vão de mudança para Sergipe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então acabou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se acabou tal. Por emquanto estão hospedadas em casa de umas
-tias, no Castello. Ainda é tempo de lá irmos fazer uma visita... O
-resto fica por minha conta.
-</p>
-<p>
-Foi por uma noite escura que elle, já mais por condescendencia que por
-curiosidade, entrou com o Mattos na casa das senhoras Rodrigues, no
-morro do Castello.
-</p>
-<p>
-Fazia frio; na rua um cão uivava longa, doloridamente.
-</p>
-<p>
-Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, D. Itelvina,
-senhora alta e secca, muito nariguda, vestida de lãs pardas. Os outros
-ainda se cumprimentavam e já ella se sentava, erguendo o joelho agudo
-sob a costura. Não tinha tempo a perder.
-</p>
-<p>
-A outra senhora da casa andava por fóra; Theodoro conhecera-a depois.
-Essa era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido á novena do Carmo
-com as duas sobrinhas mais moças e o irmão, o velho Rodrigues.
-</p>
-<p>
-Em uma sala vasta, quasi núa, mal clareada por um lampeão de kerozene,
-viu Theodoro, pela primeira vez, D. Emilia, uma senhora bonita, de ar
-magestoso e olhos trefegos, e as suas duas filhas mais velhas&mdash;Camilla
-e Sophia.
-</p>
-<p>
-Camilla fazia <i>crochet</i> perto do lampeão; Sophia refugiara-se para um
-canto do canapé, queixando-se da cabeça. E a mãe começou a fallar
-com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome de
-Camilla sahia-lhe da bocca com um elogio. Era a filha mais velha e a
-mais instruida: pilhara os tempos das vaccas gordas, quando o pae
-exercia um cargo lucrativo.
-</p>
-<p>
-Os dedos de Camilla apressavam-se no <i>crochet</i>; com certeza ella havia
-de ter errado os pontos e sentido os olhares de Theodoro queimarem-lhe
-a pelle, que a tinha linda, de uma alvura azul de camelia.
-</p>
-<p>
-D. Emilia asseverava que a sua <i>Milla</i>, como a chamavam em casa,
-esquecia-se das suas prendas, obrigada pela necessidade a fazer
-serviços domesticos.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro commoveu-se com a idéa de que aquella mulher,
-talhada para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a
-callejar as mãos com o uso da vassoura ou do ferro.
-</p>
-<p>
-Trabalhar! trabalhar é bom para os homens, de pelle endurecida e alma
-feita de coragem. Olhou para a moça com veneração.
-</p>
-<p>
-Era bonita, alta, com grandes olhos avelludados, cabello ondeado preto e
-uns dentes perfeitos, muito brancos, mas que ella mostrava pouco,
-sorrindo apenas. Da irmã Sophia, na sombra, mal se adivinhavam as
-feições.
-</p>
-<p>
-A uma das phrases, em que a abundancia do amor materno lhe debuxava as
-perfeições, Camilla sahiu de ao pé da luz e foi para a janella olhar
-para o escuro.
-</p>
-<p>
-Como correu depressa aquella noite!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sahiu tonto. O amigo ria-se: não lhe tinha dito?
-Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim.
-</p>
-<p>
-E dias depois o Mattos pedia a mão de Camilla para o amigo.
-</p>
-<p>
-Começou então a serie de presentes e de visitas. Milla tinha sempre o
-mesmo embaraço e a mesma brandura de sorriso.
-</p>
-<p>
-O que ella ouvia da familia, não o podia adivinhar Francisco Theodoro,
-que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante.
-</p>
-<p>
-Adiou-se a partida para Sergipe; houve doenças em casa, prolongação
-do noivado, peregrinações de Theodoro por aquelle morro do Castello,
-com raminhos de violetas para a Milla; todas as doçuras de namorado...
-</p>
-<p>
-Casaram-se em um dia lindo.
-</p>
-<p>
-Elle dera grandes esmolas aos pobres da egreja; Milla parecia um anjo
-entre nuvens brancas...
-</p>
-<p>
-Depois, a familia partiu para Sergipe. O pae era chôcho, mas levava a
-carteira gorda. A mãe, com o seu modo de rainha desthronada, e as
-irmãs iam bem enroupadas e todas tranquillas sobre o futuro de Milla e
-do filho mais velho, o Joca, por quem Theodoro promettera olhar, e que
-andava por ahi, atôa.
-</p>
-<p>
-A sua maior commoção fôra ao entrarem casa, na rua da Candelaria.
-Suppuzera sempre que ella apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho,
-na alegria de ser a dona, a senhora de tantas cousas compradas para o
-agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camilla
-fôra para a sacada. Elle acompanhou-a.
-</p>
-<p>
-Em frente, os telhados mais baixos succediam-se irregulares, cortando-se
-em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, deseguaes,
-accumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janellinhas de sotãos
-espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras
-e curtas, baforando fumo.
-</p>
-<p>
-Camilla murmurára, como quem falla só:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se ao menos se visse o mar...
-</p>
-<p>
-Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou
-perto, formidavel, prolongando-se num som que era como um gemido da
-cidade inteira. Milla ergueu-se com um estremeção e voltou para o
-perfil da egreja o olhar extatico.
-</p>
-<p>
-Elle sorrira do susto, emquanto ella dizia:
-</p>
-<p>
-&mdash;Como é alto!
-</p>
-<p>
-Depois d'esse, vieram dias tranquillos. A mulher bordava almofadas para
-o sofá e emmoldurava os chromos com musgo e flores seccas.
-</p>
-<p>
-Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sidonia
-reappareceu na vida de Theodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades.
-Nem a pobre Camilla desconfiara nunca... Tambem, nada lhe tinha faltado
-e já devia ser um regalo para ella cobrir de boas roupas o seu corpo de
-neve, ter mesa farta, e andar pela cidade attrahindo as vistas, no
-deleite da sua graça...
-</p>
-<p>
-Então iam grandes remessas para Sergipe.
-</p>
-<p>
-Um sorvedouro, aquella familia, sempre exhalando lamurias em todas as
-cartas, na sêde insaciavel de dinheiro.
-</p>
-<p>
-Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe
-mettia em casa, com os seus máos costumes de vadio. Elle fôra o
-causador de tantissimas querellas! E aggressivo na sua indolencia, mal
-humorado pelas dividas do jogo, e ingrato! Má raça. Além do mais,
-pespegara-lhe depois com a filha em casa, aquella pobre Nina, tão
-enfezada nos seus primeiros tempos, fina como um canniço, e com uma
-tosse de cão, que repercutia pelos corredores. Emfim, essa, ao menos,
-servira depois para ajudar Camilla a criar as filhas, que o Mario, esse
-já ella o encontrara forte como um heróe!
-</p>
-<p>
-O Mario...
-</p>
-<p>
-No percurso da Carioca á praia de Botafogo, Theodoro foi assim
-reconstruindo a sua vida, solidificando-a, pondo-a de pé. Era com essas
-memorias de familia e de trabalho, que elle se entrincheiraria contra os
-assaltos das novas ambições.
-</p>
-<p>
-O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava já acolá em
-grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as
-arvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em vôos tontos. Uns
-pequenos atiravam um cão da Terra Nova á agua, e as janellas dos
-palacetes mal se abriam aos esplendores de fóra.
-</p>
-<p>
-Perto do collegio, subiram para o bond duas irmãs de caridade, com
-ramalhetes de rosas. Theodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e
-distinguiam-no sempre, por sabel-o religioso. Iam levar á ermida da
-Copacabana aquellas flores, promettidas pela salvação de uma alumna,
-que estivera ás portas da morte.
-</p>
-<p>
-Uma conversa simples, em dois minutos, foi como balsamo para o espirito
-fatigado do negociante.
-</p>
-<p>
-Demais, elle achou bonito, commovedor aquillo: uma creança ás portas
-da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a visão de uma ermida
-sobre o mar...
-</p>
-<p>
-Quando Francisco Theodoro chegou a casa, as suas filhas gemeas, Rachel e
-Lia, brincavam na chacara. Ao vel-o abrir o portão, as creanças
-atiraram-se para elle, que mal lhes passou os dedos pelos cabellos;
-ellas tambem pouco se detiveram e Theodoro atravessou o jardim.
-</p>
-<p>
-O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um
-parque, elle erguia os seus balcões por entre palmas estrelladas de
-coqueiros e copas de arvores bem escolhidas. Aquillo não fôra obra
-sua; tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ruina o
-obrigara a hypothecal-a quando a construcção ia em meio e a vendel-a
-logo depois de concluida.
-</p>
-<p>
-Á esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida,
-conduzia ao terraço alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a
-familia palestrava, á espera de descer para o jantar. Nessa tarde só
-estava alli o filho mais velho, o Mario, todo derreado numa cadeira de
-balanço. O pae foi andando, e elle mal esboçou um movimento para
-levantar-se e dar-lhe as boas tardes.
-</p>
-<p>
-Era já homem, muito moço ainda, e todo elle revelava preoccupações
-de luxo e cuidado da sua pessoa.
-</p>
-<p>
-Na sala da frente fallava-se com alegria.
-</p>
-<p>
-&mdash;Temos visitas&mdash;pensou Theodoro, vendo chapéos de homem no
-cabide da saleta.
-</p>
-<p>
-Quando elle entrou na sala, a mulher dizia á filha:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae ensaiar, Ruth!
-</p>
-<p>
-A seu lado, sentado no mesmo divan, o Dr. Gervasio Gomes desenhava a
-lapis na carteira qualquer cousa que a fazia sorrir. Elle gabava-se de
-ter geito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e
-tres annos, trigueiro, e apurado na <i>toilette</i>. Era ligeiramente
-calvo, tinha um olhar de que as lentes de myope não attenuavam a
-agudeza, e um sorrisinho ironico, que lhe mostrava os dentes claros e
-meudos como os dos roedores.
-</p>
-<p>
-Camilla guardava um viço prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava
-como mulher formosa. Tinha herdado da mãe aquelle ar de magestade, que
-tanto impressionara Theodoro na primeira entrevista do Castello,
-adoçado por uma grande expressão de calma e de bondade.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro foi direito a elles e cumprimentou-os, sem se atrever
-a roçar os labios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor das
-suas acções em familia. Sentava-se já, quando ella lhe disse com leve
-censura:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não cumprimenta o capitão Rino nem o maestro?
-</p>
-<p>
-Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se
-dirigia com o violino na mão. Pedidas as desculpas, Theodoro voltou-se
-para o capitão Rino:
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito me alegro de o ver aqui, capitão; quando chegou da sua viagem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Hontem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não imagina, interrompeu Camilla; o capitão trouxe-me um
-presente lindissimo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que foi? perguntou a meia voz o Dr. Gervasio.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro enxugava com o lenço a calva rosada e luzidia.
-Milla, voltando-se para o medico, explicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma collecção de orchideas do Amazonas; e prometteu mandar vir para
-o lago uma <i>Victoria Regia</i>.
-</p>
-<p>
-O doutor murmurou por entre dentes, em tom que só Camilla pudesse
-ouvir:
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso de prometter é que não é bonito...
-</p>
-<p>
-A moça relanceou-lhe um olhar, como a pedir misericordia para o outro,
-que palestrava agora com o dono da casa.&mdash;Não era bonito, por que?!
-</p>
-<p>
-O capitão Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu typo de loiro
-e pela robustez do seu corpo. Era alto, de hombros largos. Tinha as
-mãos grandes, os olhos claros, de um azul de faiança; o bigode sedoso,
-como que acabado de nascer, e a pelle queimada pelos ventos do mar. Só
-se lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pescoço,
-quando elle atirava a cabeça e os braços nos seus gestos largos e
-desageitados. Havia qualquer cousa de infantil naquelle homem grande,
-uma interrogação timida talvez no olhar, e um certo abandono, de
-pessoa pouco afeita á sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores
-vistosas, abusando do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos.
-</p>
-<p>
-Ruth poz-se em attitude; a mãe gritou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Imagina que estás deante do auditorio!
-</p>
-<p>
-Ella pareceu não a ouvir. Em pé, ao lado do piano, alta e espigada,
-com a cabeça unida ao seu hombro estreito de menina, os cabellos negros,
-cahindo-lhe em ondas sobre o pescoço moreno, os olhos de um verde
-limpido, de agua marinha, abertos para o vacuo, tinha um ar de
-sonnambula perdida em sonhos divinos. As mãos, longas e esguias,
-moviam-se com segurança; o vestido branco, salpicado de florinhas
-amarellas, mostrava-lhe um pouco das pernas finas, calçadas a preto.
-</p>
-<p>
-O Lelio Braga, recemchegado da Allemanha, o gordo maestro que só
-fallava de musica ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente. Fez-se o
-silencio em volta, mas por pouco tempo. Recomeçaram as conversas em tom
-mais baixo. Ruth não ouvia ninguem; um brilho quente, de sol, sahia-lhe
-dos olhos verdes, voltados para a luz.
-</p>
-<p>
-Só o capitão Rino parecia escutar a musica, olhando de esguelha para
-Camilla. Abominava a confiança que ella dava ao outro, ao magro Dr.
-Gervasio, alli tão agarrado ás suas saias, dizendo-lhe cousas que a
-faziam sorrir. Tudo naquelle homem o irritava: o seu luxo, o seu typo
-escanifrado e o seu ar de ironia, ás vezes perversa, outras insulsa.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, nunca interessado por cousas de arte, nem mesmo pela
-musica, quebrava a miude as reflexões do capitão Rino, interrogando-o
-sobre assumptos do Norte, de puro interesse commercial.
-</p>
-<p>
-Ainda vibrava no ar a ultima nota do violino, quando Nina, sobrinha dos
-donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava
-sympathica a toda a gente. Não era bonita: tinha o nariz grosso e
-alguns signaes aloirados na pelle pallida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você viu as parasitas? perguntou-lhe Camilla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que sim; e, voltando-se para o capitão:
-</p>
-<p>
-Devemos conserval-as ao ar livre ou na estufa?
-</p>
-<p>
-O capitão fez um gesto de ignorancia.
-</p>
-<p>
-Só á hora do jantar, Mario se reuniu á familia. A mesa, cheia de
-crystaes e de prataria, tinha um aspecto festivo.
-</p>
-<p>
-O dinheiro ganho á custa de trabalho gosta de impor-se á admiração
-alheia. O dono da casa, refrescado no paletot de brim, não se cançava
-de elogiar os seus vinhos e alludia a miude á excellencia do
-cozinheiro.
-</p>
-<p>
-Se alguem se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um calice de velho
-Madeira, elle acudia animadoramente:&mdash;Beba, que esse é legitimo; egual
-não se encontra com facilidade por ahi.
-</p>
-<p>
-Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos
-complicados intactos. A fartura passava ao desperdicio. A copa
-atulhava-se de peças grandes, em que as folhas de alface e os desenhos
-a rodas de limão, de ovo, azeitonas e gelatina não disfarçavam a
-opulencia das carnes.
-</p>
-<p>
-Á cabeceira da mesa, Francisco Theodoro gostava de, espalhando a vista
-por toda a longa superficie branca da toalha, vêl-a bem coberta de
-cousas caras e vistosas. Assim comia com appetite, gostosamente. Era o
-seu triumpho na vida, que todo esse luxo representava, na unica
-occasião em que lhe sobrava tempo para admiral-o.
-</p>
-<p>
-Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o
-Dr. Gervasio havia menos instancias: conheciam-lhe os habitos de homem
-delicado. O capitão Rino era muito mais moço e trazia da sua vida de
-mar valentias de estomago.
-</p>
-<p>
-As creanças comiam á mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra e
-exigencias.
-</p>
-<p>
-Mario reprehendia-as, achando intoleravel que o pae consentisse aquillo!
-</p>
-<p>
-&mdash;O nome do seu vapor é...? perguntou ao capitão o Dr. Gervasio,
-ageitando a luneta no nariz.
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Neptuno.</i>
-</p>
-<p>
-&mdash;Amado de Amphitrite e das nereidas. O patrono deve pôr-lhe em perigo
-o socego...
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque assim moço, bonito, e com tal suggestão, de forte envergadura
-precisa o senhor para resistir ás seducções das sereias...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que ninguem viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capitão
-ingenuamente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Convirá não affirmar que não as haja tambem em terras do Brasil,
-sublinhou o doutor com um sorrisinho, descendo o olhar para a pera que
-descascava.
-</p>
-<p>
-Riram-se do embaraço do capitão, que murmurou, desviando a vista de
-Camilla:
-</p>
-<p>
-&mdash;Os cantos das sereias não me seduziriam...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois é pena; sem imaginação a vida do mar não pode ter encantos.
-Se eu, em vez de medico, obrigado a deter-me com o que ha de mais
-prosaico na natureza, fosse ... o capitão do navio ... perdão, do
-vapor <i>Neptuno</i>, apegar-me-ia á mythologia, faria dos seus deuses a
-minha florida e alegre religião, e affirmo que seriam de goso para mim
-as noitadas no convéz, vendo ao clarão das estrellas Venus surgir das
-espumas e boiarem á tona da onda negra os dorsos brancos das cincoenta
-filhas de Nereu. Estou certo de que não sentiria a tal melancholia das
-aguas, de que ás vezes os senhores se queixam. Um homem de espirito
-nunca está só...
-</p>
-<p>
-O capitão sorriu e Francisco Theodoro fallou com o seu modo
-sentencioso:
-</p>
-<p>
-&mdash;Elles gosam a seu modo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não gosamos, não; a vida do mar é dura.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio não póde sentir com sinceridade o que disse...
-</p>
-<p>
-&mdash;Assevero-lhe que sim, capitão; e que parti de um principio de que
-parto para todos os actos da vida, convicto de que está no proprio
-homem o remedio dos grandes males que o affligem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se vae dizer isso ao pé dos seus doentes, ninguem mais o chamará,
-replicou Camilla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Chamarão; infelizmente chamam sempre. Ninguem tem absoluta confiança
-em si. O homem, por mais que digam, ignora a força de que vem revestido
-para a sua funcção. Para nós, a natureza representa apenas o papel
-secundario da paizagem; é o accessorio, a <i>mise-en-scène</i> da Vida, em
-que nos atormentamos mutuamente num alarido de inferno. Não valia a
-pena crear coisas tão bonitas para serem tão mal aproveitadas. Palavra
-de honra! se fosse possivel conceber o riso, ou apenas o sorriso, na
-face tremenda do Omnipotente, eu diria que Elle ás vezes escarnece de
-nós. Á sua saúde, capitão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Um dia metto-me no seu <i>Neptuno</i> e atiro-me para o Norte.
-Curiosidade, simplesmente; tenho mais vontade de vêr os crocodilos do
-Amazonas do que ... eu sei lá! as bailarinas da Grande Opera.
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem, dizem que a carne do crocodilo é boa, disse Francisco
-Theodoro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha tambem quem affirme que a das bailarinas ainda é melhor! observou
-o medico.
-</p>
-<p>
-Camilla riu-se; e depois:
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu que nunca vi um grande vapor por dentro!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer ir commigo a Manáos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; mas quero que o capitão Rino nos convide para visitar o
-<i>Neptuno</i>.
-</p>
-<p>
-O moço maritimo balbuciou, corando:
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! minha senhora...
-</p>
-<p>
-Interrompeu a phrase, porque ia dizer:&mdash;eu não desejo outra cousa! mas
-achou mais acertado e mais simples accrescentar sómente:&mdash;quando
-quizer.
-</p>
-<p>
-&mdash;Será num domingo, para que meu marido vá tambem. E as creanças
-poderão ir?
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que não?
-</p>
-<p>
-Lia e Rachel bateram palmas.
-</p>
-<p>
-Ao café, no terraço, Camilla declarou preparar um grande baile para o
-S. João, quando a Ruth completasse os seus quinze annos.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque a noitada de S. João mette medo ás casacas e assusta os
-decotes. É um santo que só quer luz de fogueiras, com altas labaredas
-e crepitações, e ainda ha de ser no campo, entre gente rude que danse
-em torno ás chammas.
-</p>
-<p>
-É uma festa que me dá ideia de uma cerimonia ritual, de povo
-primitivo. Deixe o seu baile para outro dia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas depois eu não terei pretexto...
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu Deus! não é preciso descer uma pessoa a dar explicações aos
-amigos, quando se trata de os divertir...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro ouvia o Dr. Gervasio com muito acatamento,
-reconhecendo-lhe superioridade intellectual.
-</p>
-<p>
-Devia-lhe a vida dos filhos, confessava, e d'essa divida não se
-cançava de se dizer devedor.
-</p>
-<p>
-Approvou a idéa do baile; fizessem o que quizessem, a bolsa estava
-aberta. E a proposito, deixando os outros a tagarellar no terraço, elle
-fechou os olhos e pensou na felicidade do Gama Torres... Quem sabe?...
-talvez que elle pudesse fazer o mesmo; a epocha era favoravel, o café
-rendia como nunca e ainda havia esperanças de alta... Se fugisse
-áquella occasião ... perderia o ensejo de triplicar de um dia para o
-outro a sua já grande fortuna... Fôra sempre um homem de acção, de
-recursos, como ficar na retaguarda, imbecilmente, deixando que a outro,
-novato, se conferisse o titulo de Rottschild brasileiro? O ciume do seu
-nome de negociante enchia-o até aos olhos. Encadeou e desencadeou
-pensamentos calculistas.
-</p>
-<p>
-Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, era toda a sua ambição.
-Repetia a qualquer a humildade da sua origem, espreitando o effeito
-d'essa confissão. Ser o mais poderoso, o mais rico, o mais forte, tendo
-partido do nada, não seria ter alcançado a suprema gloria na terra?
-</p>
-<p>
-E, alli mesmo, bem recostado na sua cadeira de balanço, com o papo
-cheio de optimas iguarias, as mãos descançadas nos braços da cadeira,
-elle insensivelmente passou do sonho ao somno.
-</p>
-<p>
-Na meia sombra do lusco-fusco, os olhos do capitão Rino fulguravam,
-espiando com raiva os rostos do medico e de Camilla, que se
-contemplavam. Mario atravessou o terraço de charuto na bocca, em
-direcção á rua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde vaes? perguntou-lhe a mãe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ao theatro; respondeu elle sem se deter, descendo a escada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Este rapaz ... este rapaz ... resmungou por entre dentes o Dr.
-Gervasio, em modo de censura.
-</p>
-<p>
-Camilla desculpou-o; o filho tinha genio e era muito independente. Não
-queria contrarial-o; para que? A vida é curta, cedo viriam as
-amofinações. O juizo havia de vir com a edade...
-</p>
-<p>
-Em baixo, no jardim, entre os grupos rescendentes de heliotropo e de
-jasmins do Cabo, as creanças e Ruth faziam roda á Noca, mulata antiga
-na familia, que lhes contava historias de fadas e de principes
-encantados. Vendo Mario dirigir-se para o portão, a mulata chamou-o com
-familiaridade de amiga velha:
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu Mario, escuta aqui!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é, Noca?
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde é que vae?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se eu não morrer pelo caminho, hei de chegar ao theatro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não morre; eu ainda esta noite sonhei que V. estava amortalhado e
-que D. Nina chorava sangue... Sonhar com morte é signal de saude. Traga
-umas balas para mim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá esperando.
-</p>
-<p>
-O capitão Rino despediu-se e desceu tambem para a rua, ouvindo a voz da
-Noca recomeçar numa melopéa:
-</p>
-<p>
-«Minha varinha de condão, pelo poder que Deus vos deu, fazei...»
-</p>
-<p>
-Nina, encostada á grade, via Mario afastar-se; e lá em cima, no
-terraço, ao lado do marido adormecido, Camilla curvou-se para o Dr.
-Gervasio e beijou-o na bocca.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="III">III</a></h4>
-
-<p>
-Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava
-ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da
-Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do
-morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D.
-Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais
-sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada
-para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem
-soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe
-ministrava.
-</p>
-<p>
-Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes,
-conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos:
-uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o
-prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para
-a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha.
-</p>
-<p>
-Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um
-canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras
-e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um
-tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo
-desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas
-vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na
-lenha.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria
-fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse
-todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.
-</p>
-<p>
-A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe
-importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do
-seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella
-pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades
-capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de
-uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello
-grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos
-encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés
-largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha,
-ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um
-rosario de ambar benzido pelo bispo.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em
-frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o
-parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios
-finos.
-</p>
-<p>
-A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz
-de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como
-se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.
-</p>
-<p>
-Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que
-confraternisa as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se
-mutuamente, guiadas pelo habito.
-</p>
-<p>
-Quando Noca bateu á porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que
-haviam de ser da Sancha, a negrinha orphã que D. Itelvina explorava nos
-arranjos da casa.
-</p>
-<p>
-Abriu-se uma janella com bulha impaciente e appareceu a cara de D.
-Itelvina, indagando de quem batia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!... é você, Noca! espere um pouco, eu já vou.
-</p>
-<p>
-Dentro, a mulata explicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Nhá Milla mandou fazer uma visita e saber das senhoras como
-estão ... ella não pôde vir, porque...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sei. Isto é muito alto ... se fossem as escadas do Lyrico, muito
-que bem!... casa de pobres...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até
-dizem todos o contrario...
-</p>
-<p>
-&mdash;Dizem? mentiras! mentiras só... Como vae seu Theodoro?
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Excellente homem; aquillo é que foi sorte grande, hein Noca?
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi, sim, senhora; elle é bom ... tem as suas impertinencias ... mas
-a gente já sabe que é do genio...
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual o quê! Milla deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já
-não é facil uma moça pobre e sem protecção encontrar um casamento
-assim!
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é verdade... Ella tambem é muito boa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você se lembra de quando elles moravam na Lapa, que até você levava
-ás vezes comida da casa de pasto para dar ás meninas?
-</p>
-<p>
-A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não
-fôra só da Lapa que ella levava os restos dos jantares da casa de
-pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castello, com a
-trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Milla e das irmãs,
-então hospedadas em casa de D. Itelvina.
-</p>
-<p>
-&mdash;De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das creanças.
-</p>
-<p>
-&mdash;De uma viuva que já morreu, emendou Noca, impellindo as duas
-creanças para o quintal. Vão ver a vista ... vão ver os signaes dos
-vapores ... dizia ella.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não
-exclamasse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de
-creanças! Milla teve sempre propensão para o desperdicio... Bonitos
-aquelles vestidos! Onde os compraram?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vieram de Paris...
-</p>
-<p>
-&mdash;Uhm ... não haviam de ser baratos ... aquillo é seda, não é?
-</p>
-<p>
-&mdash;É, sim, senhora. D. Joanna sahiu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Já se sabe! anda pelas egrejas... Se não fosse eu, não sei como
-havia de ser!...
-</p>
-<p>
-Noca reparou, olhando para a alcova do oratorio, aberta para a sala, que
-a lamparina estava apagada.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Joanninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça
-tudo... Ella não tem apparecido por lá?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ruth porque não veio?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ficou dando licção. Ella tocou no concerto e foi muito festejada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar
-um remendo ou fazer um vestido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Graças a Deus, ella não precisa d'isso!...
-</p>
-<p>
-&mdash;O futuro o dirá...
-</p>
-<p>
-&mdash;Credo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois sim. Cada vez bemdigo mais a educação que minha mãe nos deu.
-Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tá hi! e D. Joanna não deu p'ra outras coisas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella sempre foi religiosa, mas depois de viuva refinou! E ainda se
-queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha filha! ella vae d'aqui a pé a São Francisco, ao Carmo, á
-Penitencia, a S. Bento a qualquer egreja da cidade!... Ás cinco horas
-já está nos Capuchinhos; e á tarde aqui na egreja do hospital ella
-canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos
-acuda!
-</p>
-<p>
-Alguem batia á porta, e D. Itelvina, tendo espreitado pela janella,
-voltou-se apressada e foi reaccender a lamparina do oratorio.
-</p>
-<p>
-Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e,
-despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na
-sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.
-</p>
-<p>
-A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as
-paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de
-um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um
-trecho de mar muito azul.
-</p>
-<p>
-D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira
-cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro
-e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os
-olhos vermelhos e inundados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um
-grande sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e
-depois de uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades
-religiosas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae todos os domingos á missa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos.
-A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as
-pernas cada vez mais inchadas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior.
-Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes.
-Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a
-chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras;
-conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e
-applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos
-martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o
-melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar
-qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe
-contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os
-filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já
-morta.
-</p>
-<p>
-Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e
-confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não
-lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!
-</p>
-<p>
-Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de
-novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das
-moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas.
-</p>
-<p>
-Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham,
-parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto,
-para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de
-mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora vem morar pr'a qui?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; vim fazer uma visita.
-</p>
-<p>
-&mdash;A quem, inda que mal pergunte?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ás senhoras Rodrigues; conhece?
-</p>
-<p>
-&mdash;As duas velhotas da travessa de S. Sebastião?
-</p>
-<p>
-&mdash;Essas mesmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou
-conter-se, abalou a fallar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram
-muito conhecidas no bairro. Diziam que D. Itelvina passava horas da
-noite excavando o quintal, á procura dos afamados thesouros guardados
-pelos jesuitas. Os visinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra
-do pateo, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança.
-</p>
-<p>
-A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus
-haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que
-ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe
-comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!
-</p>
-<p>
-Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para
-a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe
-puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uê! que é que você quer?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do
-seio uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que favor, gente?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o
-dinheiro que offerecia á mulata.
-</p>
-<p>
-&mdash;Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!...
-</p>
-<p>
-&mdash;P'ra nada! faça esta esmola...
-</p>
-<p>
-E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro,
-rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para
-casa.
-</p>
-<p>
-As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito
-quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos
-Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração.
-</p>
-<p>
-Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a
-baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu <i>phaeton</i>,
-que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar
-os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas
-irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama.
-</p>
-<p>
-O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da
-mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!
-</p>
-<p>
-O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito <i>chic</i>, e ella
-sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle
-rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera
-tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora
-não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério...
-Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus
-pensamentos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro
-foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o
-que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração
-do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si...
-</p>
-<p>
-Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que
-percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem
-calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de
-contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo
-restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia
-nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella
-fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a
-moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto,
-havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.
-</p>
-<p>
-Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e
-os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á
-mãe.
-</p>
-<p>
-Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos, Noca!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...
-</p>
-<p>
-A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para
-as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco
-Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher
-mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas
-visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque
-era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava
-sempre escancarado.
-</p>
-<p>
-Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de
-Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto
-da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de
-se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os
-gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que
-mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.
-</p>
-<p>
-A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava
-para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia
-acceitavam, com agrado, num sorriso...
-</p>
-<p>
-Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas
-gordas estrondearam no jardim.
-</p>
-<p>
-&mdash;É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e
-correndo para fóra.
-</p>
-<p>
-Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta,
-quando elle passou pelo corredor.
-</p>
-<p>
-Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe
-a mão, luminosa de pedrarias.
-</p>
-<p>
-Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este
-brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido...
-</p>
-<p>
-Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito
-de desviar a attenção.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Brilha tanto!
-</p>
-<p>
-&mdash;É do Cabo, muito amarello.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de
-um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena
-que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Versos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Um romance.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma
-monotonia...
-</p>
-<p>
-Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos
-resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia
-maravilhoso! depois, voltando-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;O livro?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está aqui.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já leu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras
-perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas
-responsaveis por tudo&mdash;como se não pagassemos caro a felicidade que
-fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os
-castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não
-poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me
-torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do
-fim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenha remorsos; o nosso não acabará!
-</p>
-<p>
-&mdash;Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o
-primeiro anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a
-mulher, por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que
-não sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é
-commettido? Ha sempre um vestigio <i>da outra</i>, que se mostra em um
-gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se
-com as compensações que nos trazem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso tudo é vago e abstracto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das
-amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é
-isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me
-pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo
-amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te
-amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só
-para mim!
-</p>
-<p>
-Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de
-ciume. Passado um instante de silencio, murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor.
-Bem, levarei o livro. Adeus.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido,
-illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa.
-Ensine-me a fallar, Gervasio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, diga lá:&mdash;amo-te!
-</p>
-<p>
-E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente.
-</p>
-<p>
-Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no
-jornal eram do capitão Rino.
-</p>
-<p>
-&mdash;São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ih! então elle é muito rico?
-</p>
-<p>
-&mdash;É. Vão brincar.
-</p>
-<p>
-As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico
-ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito
-branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha,
-faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.
-</p>
-<p>
-Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o
-amaria a elle, em toda a sua vida.
-</p>
-<p>
-Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a
-porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e
-Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae.
-</p>
-<p>
-Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma
-entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por
-aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a
-todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis
-quando menos se esperava.
-</p>
-<p>
-Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada.
-Gervasio ergueu-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas
-na rua do Ouvidor...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por
-sua causa! E ella vem perto!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tontinha! e não sou eu mais velho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos
-com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não
-acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o
-Lelio.
-</p>
-<p>
-Camilla acompanhou-os ao terraço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella é estudiosa...
-</p>
-<p>
-Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim;
-depois disse, voltando-se indignado para Camilla:
-</p>
-<p>
-&mdash;O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos
-canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem
-instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez
-acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença.
-</p>
-<p>
-Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz
-idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo
-ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais,
-folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem
-guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?
-</p>
-<p>
-Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o
-medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa...
-</p>
-<p>
-Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico,
-bem installado, mas muito mettido comsigo.
-</p>
-<p>
-Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco
-Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha
-que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança,
-mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas
-cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a
-menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que
-tratou tambem de fortalecer Mario.
-</p>
-<p>
-Camilla dizia então em extase, ao marido:
-</p>
-<p>
-&mdash;Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra
-victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra
-no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia
-ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa
-mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a
-morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As
-gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da
-mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras
-insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu
-pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A
-evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por
-sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que
-essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus
-gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com
-redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que
-uma obra sua.
-</p>
-<p>
-Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle
-lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas,
-inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e
-harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de
-maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem
-escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço,
-obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua
-alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo
-delicado&mdash;apaixonou-se por ella.
-</p>
-<p>
-Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a
-solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o
-medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor
-d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura.
-</p>
-<p>
-Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias
-mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se
-vencer.
-</p>
-<p>
-Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma
-lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa
-salvaguardava-se nessa crença.
-</p>
-<p>
-Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da
-familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe,
-com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento
-de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma
-casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das
-habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de
-dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas.
-</p>
-<p>
-Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na
-enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade.
-</p>
-<p>
-Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente
-em casa o ouvia com attenção.
-</p>
-<p>
-Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar
-alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio.
-</p>
-<p>
-Dias depois ella dava os últimos retoques á sua <i>toilette</i>, em frente
-ao espelho, quando o marido entrou.
-</p>
-<p>
-Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar:
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que é que você veio tão cedo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Por duas razões...
-</p>
-<p>
-E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se,
-indagando com interesse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você está doente? Diga!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenho nada filha, descança.
-</p>
-<p>
-Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então que motivos são esses?
-</p>
-<p>
-&mdash;O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou
-hoje uma perna.
-</p>
-<p>
-&mdash;O velho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitado! como foi?
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas
-quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais
-serio.
-</p>
-<p>
-Sem afastar do rosto o <i>pompon</i> do pó de arroz, Camilla interrogou com
-certa indifferença:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é?
-</p>
-<p>
-&mdash;Trata-se do senhor seu filho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu só?! tem graça...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra,
-o tal senhor!
-</p>
-<p>
-&mdash;Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das
-patifarias do rapaz és tu.
-</p>
-<p>
-Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera:
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu
-filho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla,
-olhando para o marido de alto.
-</p>
-<p>
-Elle continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar
-assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e
-com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?!
-</p>
-<p>
-&mdash;É a mocidade...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Trabalhar! Mario tem só dezenove annos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas por que não lhe falla você?
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um
-desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não
-lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o
-meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem
-sei, se não me tirasses toda a força moral.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o
-resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma
-acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o
-aconselhe a deixar a tal mulher?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não
-posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os
-caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho,
-ou o mando para a Marinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não
-seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros
-filhos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito...
-</p>
-<p>
-&mdash;Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está
-bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As
-Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que me importam a mim as Gomes!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por
-entre os vidros, informou com voz amavel:
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a
-Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da
-procedencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que procedencia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio...
-Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você lembrou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a
-Nina ... bom casamento!...
-</p>
-<p>
-Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de
-perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ...
-pois sim!
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do
-Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á
-gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe
-damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal
-sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam
-geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e
-que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a
-ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já.
-</p>
-<p>
-Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes
-da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um
-movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho...
-</p>
-<p>
-Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as
-ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças,
-eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou
-bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e
-escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como
-culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance
-da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e
-vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos.
-</p>
-<p>
-O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico,
-emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para
-a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas
-farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella!
-já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se
-via!
-</p>
-<p>
-&mdash;Cara senhora, então, o amigo Gomes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se
-queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A
-mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada
-d'elle não vale nada!
-</p>
-<p>
-Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr.
-Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de
-guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O
-homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses
-apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora
-ao amigo que amanhã vá lá vêl-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Perfeitamente. Onde mora?
-</p>
-<p>
-&mdash;Na rua Funda, tenho aqui o numero...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis.
-</p>
-<p>
-&mdash;Rua Funda? Onde é isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.
-</p>
-<p>
-Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a
-escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.
-</p>
-<p>
-As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não
-verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e
-macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes
-perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a
-passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre
-a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera.
-</p>
-<p>
-Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos
-cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos
-dedos estrellados de anneis.
-</p>
-<p>
-Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar
-pelo criado a bandeja de prata com o vermouth.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que não subiram?
-</p>
-<p>
-&mdash;Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella
-está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não
-toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não
-imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina!
-</p>
-<p>
-Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas
-arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz
-que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr
-de vestidos compridos. Que horror!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze
-annos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quatorze ... quasi quinze! mas não parece.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação
-tem deveres...
-</p>
-<p>
-Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito
-perfumada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa
-colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido
-buscal-a, a senhora não a teria agora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi está...
-</p>
-<p>
-D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e
-depois, voltando-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;Camilla, você já comeu geleia de manga?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não me lembra...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois é gostosa e facil de fazer; olhe...
-</p>
-<p>
-Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para
-ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as
-palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de
-longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao <i>Neptuno</i>, da
-esquerda, ou um&mdash;<i>expreme-se</i> e põe-se na peneira&mdash;da
-direita.
-</p>
-<p>
-Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se
-d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de
-sentimento.
-</p>
-<p>
-Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer
-comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava:
-</p>
-<p>
-&mdash;A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal.
-A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho
-e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,&mdash;é
-mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa!
-</p>
-<p>
-O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou
-Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle
-conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica,
-de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita
-gente boa.
-</p>
-<p>
-Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se
-na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante.
-</p>
-<p>
-Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças
-da visinhança, as Bragas.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os
-joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle
-estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos,
-interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E
-foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da
-rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama
-Torres, com elogio e assombro.
-</p>
-<p>
-Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça
-picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.
-</p>
-<p>
-O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao
-principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os
-olhares trocados entre Camilla e Gervasio.
-</p>
-<p>
-Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão
-evidente?
-</p>
-<p>
-Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo.
-Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem
-abaixar os olhos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que parecerá a terra, vista de lá...?
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma gotta de luz...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas
-hoje estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria
-embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave!
-</p>
-<p>
-&mdash;É Vesper...
-</p>
-<p>
-&mdash;Linda, linda, linda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está
-limpido hoje! Maravilhosa noite!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro.
-Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não tem astros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para
-que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.
-</p>
-<p>
-O capitão sorriu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como as corujas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é
-bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me
-levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar
-para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho
-que estou voando ... e é tão bom!
-</p>
-<p>
-O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que
-lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a
-lua e a côr das estrellas.
-</p>
-<p>
-Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava
-á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o
-cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de
-uma curiosidade insatisfeita.
-</p>
-<p>
-Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em
-quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de
-Camilla.
-</p>
-<p>
-Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e
-continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo
-illuminado.
-</p>
-<p>
-Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha
-requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para
-uma valsa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem toca?
-</p>
-<p>
-Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.
-</p>
-<p>
-Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo
-do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o
-amigo negava, affirmando o tino especial do outro.
-</p>
-<p>
-Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das
-moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros,
-atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas
-rodopiaram pela sala.
-</p>
-<p>
-Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão.
-D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote
-gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras,
-prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas,
-como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando
-o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada,
-recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e
-as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo
-fechar as janellas da sala.
-</p>
-<p>
-O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á
-espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da
-mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce,
-ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos.
-Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se
-não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.
-</p>
-<p>
-Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto
-d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo
-gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo
-brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e
-partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da
-arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido
-fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no
-terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma
-sonata harmoniosa e larga.
-</p>
-<p>
-Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella
-musica e naquella noite.
-</p>
-<p>
-Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o
-vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor
-feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para
-não ver...
-</p>
-<p>
-A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado...
-Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso.
-Camilla apontou-a com o dedo.
-</p>
-<p>
-A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente
-Theodoro gritou para cima:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não são horas de musica. Para a cama!
-</p>
-<p>
-Depois, em um murmurio satisfeito:
-</p>
-<p>
-&mdash;O diabo da pequena tem sentimento, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem
-inspiração!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond
-doutor!
-</p>
-<p>
-O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo
-a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar
-dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a
-cidade.
-</p>
-<p>
-Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca,
-que vigiava o somno de Rachel e de Lia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mario já entrou, Noca?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario
-ficava lá...
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá?... Em casa da tal Luiza?!
-</p>
-<p>
-&mdash;É...
-</p>
-<p>
-&mdash;Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que
-Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga
-que elle está dormindo.
-</p>
-<p>
-&mdash;E se elle amanhã perguntar a Dionysio?
-</p>
-<p>
-&mdash;Você previna primeiro o rapaz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tambem não sei p'ra que <i>seu</i> Mario faz assim; só p'ra metter a
-gente em embrulhos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei
-conselhos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico
-esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado
-e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a
-caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom
-dar-lhe uma pastilha de antipyrina...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, senhor, eu vou vêr...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a
-cabeça.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IV">IV</a></h4>
-
-<p>
-Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus
-pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.
-</p>
-<p>
-Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções
-fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que
-topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados
-pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e
-pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes,
-saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.
-</p>
-<p>
-Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e
-a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a
-atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle
-pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.
-</p>
-<p>
-Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para
-tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como
-se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino
-de todas aquellas coisas.
-</p>
-<p>
-Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do
-<i>veston</i>, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho
-faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas
-ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho
-diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos
-carregadores boçaes.
-</p>
-<p>
-Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de
-subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a
-grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas
-flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens,
-aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua
-gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles
-homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O
-seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles
-biceps de athletas.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não
-perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e
-mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o
-caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade,
-olhe que é mais extrangeiro do que eu!
-</p>
-<p>
-O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes,
-e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado
-á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.
-</p>
-<p>
-E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem
-relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha,
-modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar
-atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um
-cigarrinho.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.
-</p>
-<p>
-Deu-lhe cigarros.
-</p>
-<p>
-Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia
-calor. Ribas lembrou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenho sêde.
-</p>
-<p>
-&mdash;É que lá para deante não ha nenhum que preste...
-</p>
-<p>
-«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade
-ao rapaz.»
-</p>
-<p>
-Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e
-papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma
-occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente,
-sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O
-dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio
-deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se
-dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.
-</p>
-<p>
-Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de
-modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á
-claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que
-escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos
-seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma
-cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá
-dentro como um leve zumbir de abelhas...
-</p>
-<p>
-O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo
-da sala e arrebatou a viola para dentro.
-</p>
-<p>
-«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis
-para a mesa.
-</p>
-<p>
-Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o
-medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu
-conjuncto de velharias e sobejidões.
-</p>
-<p>
-A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos,
-marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas
-onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de
-mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande
-musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle
-canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada
-bestialmente pelo pão.
-</p>
-<p>
-Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr.
-Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um
-vapor do Lloyd.
-</p>
-<p>
-Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra
-vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes
-levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.
-</p>
-<p>
-Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o
-Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um
-caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino
-loiro, que os outros denominavam o <i>Bota</i>&mdash;por trazer uma bota
-velha suspensa de um barbante a tiracollo&mdash;, e um italianinho
-sardento, sem pestanas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo
-hontem no jogo ... reclamavam.
-</p>
-<p>
-E o Ribas defendia-se, hypocritamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que jogo? Eu?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, senhor, não se faça de engraçado!
-</p>
-<p>
-O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o
-caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de
-provocações.
-</p>
-<p>
-Que se arranjasse.
-</p>
-<p>
-A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez,
-sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada
-fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de
-vidros quebrados um vaso de cravos brancos.
-</p>
-<p>
-As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.
-</p>
-<p>
-Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou
-embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas,
-mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.
-</p>
-<p>
-Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia
-tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca,
-o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de
-sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.
-</p>
-<p>
-Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade,
-abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da
-doidice&mdash;e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie
-por toda a sua pessoa.
-</p>
-<p>
-E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já
-esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.
-</p>
-<p>
-No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro
-de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava
-ao sol.
-</p>
-<p>
-Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de
-hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e
-tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande
-portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem
-pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as
-saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos
-arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas
-amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor já passou a rua Funda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nesse caso voltaremos.
-</p>
-<p>
-E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso
-um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada
-de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas,
-suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava,
-erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não
-comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços
-pendurados.
-</p>
-<p>
-Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com
-orgulho:
-</p>
-<p>
-&mdash;Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá
-licença?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pode ir.
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem
-macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada
-em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia
-parco,&mdash;não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance
-dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não
-errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a
-meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta:
-linhas de rede de <i>crochet</i> e de costura, anzóes e agulhas, cigarros,
-objectas de pescaria e cartas de A B C.
-</p>
-<p>
-O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham
-recebido bem...
-</p>
-<p>
-Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi está a rua Funda.
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de
-um quadro lhe suggeriam.
-</p>
-<p>
-Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da
-Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes
-espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se
-negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles
-velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha
-uma aquarella em casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia
-galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de
-janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.
-</p>
-<p>
-O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna
-extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a
-filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do
-armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o
-Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e
-aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem procura?
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio explicou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Faça o favor de entrar...
-</p>
-<p>
-A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as
-mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de
-costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de
-cadeira.
-</p>
-<p>
-O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.
-</p>
-<p>
-Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.
-</p>
-<p>
-A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em
-desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas
-pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista,
-depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em
-ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus
-trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos
-homens um interesse mediocre.
-</p>
-<p>
-Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta
-descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos.
-Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande
-movimento no armazem...
-</p>
-<p>
-A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns
-goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.
-</p>
-<p>
-O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o
-Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha
-vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...
-</p>
-<p>
-O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e
-despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro
-casaco enfeitado a <i>crochet</i>.
-</p>
-<p>
-Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o
-palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.
-</p>
-<p>
-Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir
-d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina
-pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo
-mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha
-e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.
-</p>
-<p>
-Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam
-sosinhas, ladeando precipicios.
-</p>
-<p>
-No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras
-engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e
-gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.
-</p>
-<p>
-Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade
-penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia
-que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais
-propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma
-mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica.
-Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de
-velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.
-</p>
-<p>
-Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações
-singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma
-consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a
-Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...
-</p>
-<p>
-Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas,
-corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o
-mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite,
-disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem
-se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e
-penetraria em um d'aquelles albergues.
-</p>
-<p>
-Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a
-lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.
-</p>
-<p>
-Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta
-trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em
-fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bonito!
-</p>
-<p>
-D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos
-se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de
-atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não
-haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma
-unica dobradiça perfeita.
-</p>
-<p>
-Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada,
-resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma
-pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos
-brutos, entre ratazanas e aguas servidas.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito,
-D. Joanna sahir de uma casa.
-</p>
-<p>
-Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.
-</p>
-<p>
-Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e
-em nickeis.
-</p>
-<p>
-Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e
-foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar
-livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de
-um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.
-</p>
-<p>
-Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do
-mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que
-passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada.
-Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas
-ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de
-esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce
-tom de devoção.
-</p>
-<p>
-Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha.
-Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja.
-Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as
-coisas do céu!
-</p>
-<p>
-Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth,
-Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!
-</p>
-<p>
-As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o
-que a maguava.
-</p>
-<p>
-Precisava salvar as creanças.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na
-Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um
-preceito de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta
-ver como ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve
-algum tempo no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda
-não cuidou da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Faz bem.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor é dos taes, que não querem crer.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o
-senhor está empurrando Camilla para o inferno...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem mais!
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que
-eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não
-merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que
-se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu
-pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados
-vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes,
-sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para
-que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ...
-emquanto que eu, pobre peccadora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal
-disfarçando a sua ira; não a entendo!
-</p>
-<p>
-Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda
-dar uma volta pela Pedra do Sal.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle
-chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham
-varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do
-Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos
-claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela
-raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha
-sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a
-verdade.
-</p>
-<p>
-O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé,
-as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que
-ainda os franzidos da saia exaggeravam.
-</p>
-<p>
-Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para
-lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.
-</p>
-<p>
-O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre.
-Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus
-sentimentos eram de especie confusa e tristonha.
-</p>
-<p>
-Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores
-não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e
-cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia
-ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta
-não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos
-homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem
-segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle,
-sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar
-inveja aos menos afortunados...
-</p>
-<p>
-Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu
-o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos
-conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu
-centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro,
-se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento,
-aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e
-mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e
-barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de
-lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo
-promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus
-adorados segredos.
-</p>
-<p>
-Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.
-</p>
-<p>
-Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na
-esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e
-um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="V">V</a></h4>
-
-<p>
-Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda
-foi outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae pregar a outra freguezia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Verdade, verdade, seu pae tem razão...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse
-Mario com ironia, dando o ultimo retoque á <i>toilette</i>. Nisso
-abriram a porta, elle voltou-se; era a mãe.
-</p>
-<p>
-Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os
-travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a
-janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como quizer. Sente-se, mamãe.
-</p>
-<p>
-Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe
-nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:
-</p>
-<p>
-&mdash;Então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás nos dando serios desgostos, Mario.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim; bem sabes de que se trata.
-</p>
-<p>
-&mdash;Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...
-</p>
-<p>
-&mdash;As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!
-</p>
-<p>
-&mdash;As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Enganas-te.
-</p>
-<p>
-Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então não comprehendo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ...
-dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! mamãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando
-a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.
-</p>
-<p>
-Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens
-tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror
-expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que
-emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte
-sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...
-</p>
-<p>
-Mario mordia os beiços, brancos de raiva.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a
-exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo,
-ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens
-commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas
-e mais dividas!
-</p>
-<p>
-Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos,
-nervosamente, as costas de uma cadeira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.
-</p>
-<p>
-Mario sorriu com desdem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um
-animal.
-</p>
-<p>
-&mdash;Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e
-outras aspirações. Meu pae não me comprehende.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro!
-disse elle com redobrado escarneo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela
-ironia do filho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante
-d'ella, com raiva.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua
-saude, que é fraca, e da tua reputação.
-</p>
-<p>
-&mdash;Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!
-</p>
-<p>
-Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance
-das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue
-arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e
-então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario
-admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua
-vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra
-aquelle filho, até então poupado.
-</p>
-<p>
-Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella
-insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada
-do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou,
-destacando as palavras, que sahiam pesadas:
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não
-teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mario!
-</p>
-<p>
-&mdash;Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os
-gostos que eu tenho?
-</p>
-<p>
-&mdash;O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso
-agora que desespera teu pae...
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem
-cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á
-familia que...
-</p>
-<p>
-&mdash;Basta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter
-evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava
-dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:&mdash;odeio o Dr. Gervasio, e
-dou-lhe a escolher entre mim e elle.
-</p>
-<p>
-Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois
-elle repetiu, martellando as palavras:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou elle ou eu.
-</p>
-<p>
-A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção.
-Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando,
-grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar
-de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e
-ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se
-tentasse esmagar o coração offendido.
-</p>
-<p>
-Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a
-mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma
-subita misericordia se apoderou d'elle.
-</p>
-<p>
-Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de
-desapparecer.
-</p>
-<p>
-&mdash;Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!
-</p>
-<p>
-Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi
-imperceptivelmente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada...
-</p>
-<p>
-Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa.
-Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos
-fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que
-pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel
-áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,&mdash;ah, antes ella fosse
-cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das
-filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças...
-Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só
-servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente
-na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do
-seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!
-</p>
-<p>
-Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros
-corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras
-pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um
-homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa
-fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a
-bocca do filho a dizer-lhe amarguras...
-</p>
-<p>
-Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do
-quarto.
-</p>
-<p>
-Mario aconselhou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...
-</p>
-<p>
-&mdash;Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla
-levantando-se.
-</p>
-<p>
-Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão
-precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.
-</p>
-<p>
-Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a
-para si, beijou-a na testa e, com carinho:
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas,
-que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha ver, mamãe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que coisa linda, mamãe!
-</p>
-<p>
-&mdash;O homem disse que foi papae que mandou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Adivinhe o que é!
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga; sabe o que é, mamãe?
-</p>
-<p>
-A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula
-ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe
-aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram
-como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons
-avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario
-sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo,
-em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da
-casa saberiam tambem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande
-relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a
-côres, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol
-azul.
-</p>
-<p>
-Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a
-menina Maria.
-</p>
-<p>
-&mdash;Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?
-</p>
-<p>
-Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para
-os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus
-bibes brancos, e os cabellos soltos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente,
-puxando-as para si.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu gosto muito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu gosto mais!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mentira! quem gosta mais sou eu!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu acho mamãe muito bonita!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tambem acho.
-</p>
-<p>
-&mdash;E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse
-bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda
-assim vocês gostariam de mim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito, muito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do
-Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com
-medo ... que fariam vocês?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a
-comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!
-</p>
-<p>
-Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu
-sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas
-defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.
-</p>
-<p>
-A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu
-violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o
-grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.
-</p>
-<p>
-Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de <i>ménagère</i>, bem
-penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um
-aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu
-corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma
-anecdota do copeiro.
-</p>
-<p>
-Camilla teve um sobresalto.
-</p>
-<p>
-Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro
-e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel
-e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na
-cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua
-innocencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista
-depois de collocado no meio do lago?
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho...
-</p>
-<p>
-&mdash;É de muito gosto!
-</p>
-<p>
-Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão
-núas para o sereno das noites? Muito <i>chic</i>!
-</p>
-<p>
-Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal
-concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo;
-queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a
-opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é
-boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh!
-Dionysio! chama ahi <i>seu</i> Mario!
-</p>
-<p>
-Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu,
-e Ruth, instando pelo almoço:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem
-intenção, colhendo uma <i>Marechal Neel</i> para o peito.
-</p>
-<p>
-Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal
-disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?
-</p>
-<p>
-Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um
-trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella
-encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo,
-e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com
-que ella achasse um trevo de quatro folhas!
-</p>
-<p>
-Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com
-ancia a folhinha fatidica.
-</p>
-<p>
-Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se
-chamou-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uê! porque não foi almoçar?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não foi se despedir d'ella?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está
-ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cantigas. Adeus.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:&mdash;Sua
-felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeusinho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus, meu filho...
-</p>
-<p>
-A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella
-ajudara a criar desde o primeiro dia.
-</p>
-<p>
-Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir
-a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a
-tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não
-deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade,
-verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto
-que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle
-poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?...
-o diabo do feiticeiro deu bruxaria a <i>nhá</i> Milla... Se <i>seu</i>
-Theodoro sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer?
-Bocca, fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem!
-Mario tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso
-lhe dá gosto, que aproveite!
-</p>
-<p>
-Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou
-para a copa, á procura de almoço.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VI">VI</a></h4>
-
-<p>
-Numa manhã limpida, côr de saphira, Camilla e Ruth entraram com
-Theodoro e o Dr. Gervasio na lancha&mdash;<i>Aurora</i>&mdash;em demanda
-do <i>Neptuno</i>.
-</p>
-<p>
-O sol cobria com uma rêde de ouro movediça a superficie das aguas;
-fazia calor.
-</p>
-<p>
-As senhoras ageitaram os folhos das suas saias de linon no banco da ré,
-e abriram as sombrinhas claras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sempre gostaria que me provassem a serventia d'esses chapéos de sol.
-Não resguardam nada. São objectos inuteis. Eu se fosse mulher nunca me
-sujeitaria a modas, disse Theodoro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Faria mal. Quanto aos chapéos, acho-os bonitos; são muito
-decorativos. Veja como a côr de rosa da sombrinha de Ruth, e a crême
-de D. Milla se harmonisam neste fundo azul. Digam o que quizerem; para
-mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervasio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde ser. Eu só gosto do que é positivo e pratico. Emfim, nas
-senhoras ainda eu perdou o certas niquices...
-</p>
-<p>
-Sabia Theodoro que o espirito e a posição de um homem se espelham nas
-suas roupas; por isso as d'elle eram sempre graves.
-</p>
-<p>
-Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem
-abotoada sobre o estomago arredondado.
-</p>
-<p>
-A sua cartola luzidia, bem tratada, affirmava ás turbas que ia alli
-alguem de cortezia e respeito; era como se o seu titulo de commendador
-tremeluzisse no setim d'aquelle pello. Não sahia de casa sem carregar o
-guarda-sol de excellente seda portugueza e castão de ouro, traste que o
-protegeria em um amplo circulo, se acaso chuvas cahissem
-inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonisara á maneira do
-traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: <i>taes como</i>,
-<i>de maneiras que</i>, <i>porém</i>, <i>tal e coisas</i>...
-</p>
-<p>
-Já a lancha singrava as ondas mansas, quando elle contou ao Dr.
-Gervasio que ahi uns collegas seus amigos queriam arranjar-lhe um titulo
-de Portugal; elle fizera constar que não acceitaria a distincção,
-mas, se a coisa viesse, que havia de fazer?
-</p>
-<p>
-O medico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de um
-sorriso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Outros usarão d'esses titulos com menos direito, continuou o
-negociante, não digo que não; em todo o caso...
-</p>
-<p>
-Milla lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes
-sommas com que elle entrava nas subscripções.
-</p>
-<p>
-Elle riu-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou vendo que você quer ser viscondessa, hein?
-</p>
-<p>
-Ella encolheu os hombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de
-viver bem, á larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe.
-</p>
-<p>
-Iam todos calados, quando Ruth suspirou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho pena de não ter trazido o violino!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tolice! havia de ter graça!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe, quando eu me commovo, gósto de tocar. Entendo-me tão bem com
-a musica!
-</p>
-<p>
-Os paes riram-se da asneira e o Dr. Gervasio fixou o rosto pallido da
-mocinha. Esse não riu.
-</p>
-<p>
-A lancha <i>Aurora</i>, muito faceira, reluzente nos seus metaes, cortava
-as aguas com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Este passeio está-me abrindo o appetite para uma viagem... Se as
-coisas continuarem como até aqui, é facto assentado que levarei a
-minha gente ainda este anno á Europa, disse Francisco Theodoro.
-</p>
-<p>
-Camilla e o medico trocaram um olhar de susto.
-</p>
-<p>
-Vendo o lindo rosto, sempre tão fresco e tão moço, de Milla, os seus
-cabellos negros, o seu collo cheio, os seus olhos de velludo,
-provocantes e apaixonados, toda aquella figura de mulher amorosa, quente
-e grave, que elle não se cançava de estreitar nos braços, a idéa de
-uma separação afigurou-se-lhe impossivel e monstruosa.
-</p>
-<p>
-Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os
-passados; a doçura da sua convivencia enternecia-o, como se a
-entrevisse já através da saudade.
-</p>
-<p>
-Ella assegurou-lhe em um sorriso que não partiria. Não haveria forças
-capazes de a arrancarem do seu amor.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro mostrava agora á filha o casco branco de um navio de
-guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o
-castello de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames,
-tinha, na altura, proporções de boneco.
-</p>
-<p>
-Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, pondo grinaldas de azas
-fugitivas no azul immaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas
-torres, esfumava-se em uma neblina rosea, esbatida em diaphana violeta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como é bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha em
-cheio da barra. Está-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria
-marinheiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Outra tolice.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe, o azul é uma côr tão bonita!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se fosses rapaz ... se fosses rapaz ... realmente antes fosses tu o
-rapaz e Mario a rapariga ... resmungou Theodoro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pobre do Mario ... já tardava ... disse Milla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto não é fallar mal; é a verdade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é fallar mal dizer que elle não tem aptidões, que é
-insignificante?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não disse tal.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas deu a entender. Eu nem sei até como elle é tão bom, ouvindo
-tantas insinuações. Se fosse outro, sabe Deus o que teria acontecido!
-É porque tem mesmo muito bom coração. Os erros que commette são
-naturaes da edade...
-</p>
-<p>
-&mdash;Senhora! não o defenda. Bem sabe porque é que eu digo as coisas.
-Não fallo atôa.
-</p>
-<p>
-Não, ella não sabia; o que via era uma grande injustiça, pesando
-continuamente sobre a cabeça do filho. Que mais queriam que o pobre
-fizesse? Elle não nascera para os trabalhos brutos, do commercio, era
-um delicado. Certamente que não tinha edade para se divertir a jogar a
-bisca em familia; os seus dezenove annos tinham outras exigencias.
-Reparassem todos que era naturalissimo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual naturalissimo, qual nada! Indecente, sim, é que aquillo era. Um
-bilontrinha, o tal <i>seu</i> Mario. Ainda na vespera soubera de novas
-proezas. Elle deixara a franceza, sim, senhores; parecia cederão
-conselho da mãe; mas para que? Para andar em publico de braço dado com
-outras, talvez peiores, e entrar em casas de jogo, que a policia ataca!
-</p>
-<p>
-Camilla mostrou Ruth ao marido, com um olhar afflicto, para que
-moderasse os furores da sua linguagem.
-</p>
-<p>
-Contente por cortar o dialogo, o medico apontou um vapor, que já se via
-de perto.
-</p>
-<p>
-&mdash;O <i>Neptuno</i> ... é bonitinho, reparem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é feio, não ... resmungou Theodoro, já desviado dos seus
-pensamentos; mas ... esperem! lá no convéz parece estar uma mulher.
-Que diacho! o capitão Rino será casado?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se é possivel! se elle fosse casado nós estariamos fartos de o
-saber. Você diz cada tolice...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;A mim? nenhum certamente. Que me importa!... e Milla riu-se,
-querendo subjugar á força a raiva que lhe ficára da discussão com o marido.
-</p>
-<p>
-O medico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado?
-nenhum!... certamente. E se dissessem d'elle a mesma cousa a Milla, que
-responderia ella! a mesma cousa? com o mesmo levantar de hombros, com o
-mesmo desdem? Teve impetos de lh'o perguntar; mas como? Alli era
-impossivel... Ficava para depois.
-</p>
-<p>
-A lancha atracou ao <i>Neptuno</i>, e do portaló desceu o capitão Rino,
-vestido de flanella branca, com uma bella rosa vermelha na lapella.
-</p>
-<p>
-Extranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro.
-Tinha descido para ajudar as senhoras. Ruth sahiu da lancha num salto,
-mostrando as pernas finas, contente por aquella novidade, aquelle mar
-circumdado de montanhas azues, aquellas velas brancas e aquelles cascos
-alcatroados, fluctuantes, com que se cruzara no caminho. O capitão Rino
-mal olhou para ella; suspendeu-a, com pulso forte, até o primeiro
-degrau da escada e voltou-se logo para Camilla, com olhar ancioso,
-extendendo-lhe os braços. Ella cahiu-lhe em cheio sobre o peito largo e
-riu-se, pedindo desculpas. Era tão pesada! Elle corou, tonto, tremulo,
-sem achar uma palavra com que lhe respondesse.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla
-sobrecasaca, não prescindiu da mão auxiliadora do capitão; o Dr.
-Gervasio veiu por fim, tirando num cumprimento o seu chapeu molle.
-</p>
-<p>
-Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indifferentes
-pelos visitantes. Junto ao portaló, estava uma senhora, a mesma,
-evidentemente, que elles tinham avistado da lancha.
-</p>
-<p>
-Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes
-aos do capitão Rino, de um azul de faiança, e uma physionomia vaga, de
-anjo decorativo. Contrastando com o typo, trazia uma <i>toilette</i>
-escarlate, que lhe dava valor á pelle cor de lirio pallido, e parecia
-uma offensa ao seu corpo virginal. O capitão apresentou-a logo a todos
-com duas palavras:
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha irmã.
-</p>
-<p>
-Foi depois, aos poucos, durante a visita do <i>Neptuno</i>, que viram desde
-o tombadilho até ao porão, que souberam que essa irmã, até alli
-ignorada, se chamava Catharina, e vivia em companhia da madrasta,
-senhora viuva, em uma frondosa chacara do Cosme Velho.
-</p>
-<p>
-Catharina ajudava o irmão a mostrar o <i>Neptuno</i>, e por vezes as suas
-explicações tinham maior clareza que as d'elle. Se elle parava, ella
-tomava-lhe a palavra cortada, completava-a e seguia para deante com todo
-o desembaraço.
-</p>
-<p>
-Depois de percorrerem o navio, o capitão Rino, convidou todos para um
-vermouth gelado, na sua camara.
-</p>
-<p>
-O espaço não era grande, Camilla, Ruth e Catharina apertaram-se no
-mesmo divan, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro;
-Francisco Theodoro recostou-se em uma poltrona ao pé da mesa, emquanto
-o medico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de
-livros, e o capitão, em pé, narrava ao negociante vários episodios
-das suas viagens ao norte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que paiz! que maravilhoso paiz este nosso! completava elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;É pena não ter povo. Sentenciou Theodoro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia
-melhor a gloria do mundo, quando elle, exgotado pela exploração das
-outras, voltar para ellas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para
-uma outra raça de grandes ideaes, que ainda ha de vir. Tão formosas
-promessas não se fazem ao vento...
-</p>
-<p>
-&mdash;Outra raça ... outra raça ... vinda de onde?! nascida de quem?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos paizes
-velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se nos novos. O futuro do mundo é
-nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o
-povo brasileiro é bom.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a
-Republica. Aquella revolução fôra uma revelação. Sentia-se
-engasgado com o exilio do imperador. Torceu assim a conversa para novo
-assumpto.
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio conhecia as ideias politicas de Francisco Theodoro;
-ouvia-lhe sempre os mesmos commentarios. Estava inteirado; quanto ás do
-outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvil-as. Voltou-lhe
-as costas e poz-se a ler as lombadas dos livros da estante:
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Virgilio</i> ... <i>Homero</i> ... <i>Dante</i> ...
-<i>Camões</i> ... <i>Gonçalves Dias</i> ... <i>Shakspeare</i> ... bravo!
-</p>
-<p>
-Que especie de homem seria então esse capitão Rino? Leria elle
-effectivamente aquelles poetas?! O medico abriu ao acaso o primeiro
-livro ao alcance da mão, e observou logo que elle estava annotado, a
-lapis, com signaes firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente
-consciente do seu claro juizo. Era o <i>Cid</i>. Á primeira pagina onde o
-olhar do Dr. Gervasio cahiu, havia este verso marcado com uma linha
-gorda:
-</p>
-<p>
-<i>L'amour n'est qu'un plaisir, l'honneur est un devoir.</i>
-</p>
-<p>
-Fallava D. Diogo. O medico releu o verso com um sorriso de sarcasmo.
-</p>
-<p>
-<i>L'amour n'est qu'un plaisir</i>...
-</p>
-<p>
-Pois sim! bem esquecido estaria o velho pae de D. Rodrigo, ou não
-chegara na sua juventude a amar com amor!
-</p>
-<p>
-Depois d'aquillo o Dr. Gervasio folheou outros livros litterarios, por
-curiosidade, desprezando os technicos, e em todos achou vestigios de uma
-leitura intelligente. Bastava; começava a comprehender o homem.
-Illudira-se até então, julgando o Rino como um mediocre e um simples.
-Um simples seria, mas um mediocre, não. Não o temera nunca como rival,
-apezar de o ver apaixonado por Milla; julgara-o fraco, inferior, sem
-recursos, falto de elegancia, que é sempre o que seduz as mulheres,
-physica e intellectualmente; não passara nunca aos seus olhos de um
-marinheiro rude, ingenuo, sem a graça da palavra a tempo, nem a linha
-da distincção pessoal.
-</p>
-<p>
-Que conservaria o capitão Rino no cerebro de tanta leitura inquietadora
-e extraordinaria? Que nervos eram aquelles, tão perfeitos, que apóz
-tantas torturas e delicias pareciam intactos de commoções artisticas?
-</p>
-<p>
-D'ahi&mdash;quem sabe?&mdash;toda aquella livralhada que elle marcara com o
-seu nome, no dominio da posse, viria de algum leilão, de alguma herança,
-não representando naquelle gabinete mais que um mero adorno. Era o mais
-certo. Era mesmo a unica hypothese verosimil; não admittia que o
-capitão Rino fosse amigo de intellectualidades. Aquelle bruto! Fixou-o
-com attenção.
-</p>
-<p>
-Não! não eram aquelles olhos limpidos, nem aquellas passadas que
-faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ninguem
-investigações da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho
-raro. Ninguem acreditaria que aquelle homem grande, de carnes duras,
-faces rosadas como as de um menino são e modos bonachões, fosse capaz
-de entender Shakspeare!
-</p>
-<p>
-Ler livros taes, annotal-os, amal-os, deleitar-se na sua convivencia,
-era obra para outra especie de creaturas. Aquillo era um escarneo, não
-era outra coisa. Permittia-lhe a leitura de um ou outro classico
-portuguez de mais calmo estudo e pulsação regular; lembrava-se mesmo
-agora de lhe ter sorprehendido algumas palavras de sabor antigo e que
-lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de extranheza.
-A sensação avivava-se, a reminiscencia induzia-o a estudar o homem.
-Voltou de novo o olhar para elle e resumiu ainda em um traço o seu
-juizo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Um bello animal!
-</p>
-<p>
-A irmã do capitão servia vermouth, mostrando em um sorriso amavel os
-seus dentinhos bicudos e deseguaes. Ao dirigir-se ao medico, ella
-obrigou-o a desviar-se da sua observação; e elle, descuidado,
-reflectindo na phrase uma ideia que lhe atravessava o espirito,
-agradeceu-lhe em inglez.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acha-me com ar de <i>miss</i>, não é assim? Talvez tenha razão; não
-é a primeira pessoa que me dá a entender isso mesmo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Se lhe desagrada...
-</p>
-<p>
-&mdash;Absolutamente nada; por que? Houve na nossa familia qualquer
-antepassado extrangeiro, uma bisavó dinamarqueza, creio eu ...
-entretanto, affirmo-lhe, somos bem brasileiros, mesmo um pouco
-nativistas... Já me disseram, a proposito d'isto, que são os
-descendentes de extrangeiros exactamente os patriotas mais exaltados.
-Mas não quer gelo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado...
-</p>
-<p>
-Ella passou adeante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth.
-</p>
-<p>
-«Uma avó dinamarqueza, creio eu...» Extraordinario, esse
-desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que
-aquella gente não era de indagações nem de perder tempo com objectos
-sem utilidade immediata.
-</p>
-<p>
-A boa pratica era essa: olhar para deante, que é onde se póde
-encontrar tropeços. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho!
-</p>
-<p>
-Da cadeira de braços, Francisco Theodoro atirava a sua ultima bomba
-contra a Republica, lamentando este grande paiz, tão digno de melhor
-sorte...
-</p>
-<p>
-Rino levantou-se; elle tinha outras opiniões e uma fé sincera nos
-destinos da patria. A alma nova da America só podia agasalhar
-sentimentos de liberdade. A monarchia era a poeira da tradição
-accumulada com o correr dos seculos, em velhas terras da Europa. Lá
-teria a sua razão de ser, talvez; mas não aqui! Concluiu elle.
-</p>
-<p>
-Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de pé, já cançadas
-da discussão, abominando a politica...
-</p>
-<p>
-Fóra, no tombadilho, o sol extendia a sua luz clara, feita de ouro.
-Seguiram então para debaixo do toldo.
-</p>
-<p>
-Que maravilha!
-</p>
-<p>
-Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de
-Nitheroy, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de
-espumarada. Toda a superficie do mar, paletada de luzes, tremia como a
-pelle moça a um afago voluptuoso. Ao longe, a Serra dos Orgãos
-desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardosia. Para os lados
-da barra havia montes de prata fosca em que o sol, scintillando nas
-pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta
-espelhavam-se n'agua, entre montanhas de um verdor intensissimo.
-</p>
-<p>
-Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silencio
-que o medico percebeu um olhar de Camilla para o capitão do <i>Neptuno</i>.
-</p>
-<p>
-Aquelle simples movimento bastou para atear no peito do medico o
-fogaréo da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e
-revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante,
-sempre tão sua, tão submissa ás arbitrariedades do seu genio desegual
-de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguem,
-e a justiça era que ella o enganasse e o trahisse, como por elle trahia
-e enganava o esposo...
-</p>
-<p>
-Percebia bem que o capitão Rino era mais bello, mais moço, e essas
-duas qualidades só por si bastavam, a seu vêr, para fazer preferido um
-homem aos olhos de uma mulher de quarenta annos...
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor hoje está nos seus dias de <i>spleen</i>, doutor?
-perguntou-lhe de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente.
-</p>
-<p>
-Elle deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para
-ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios, se não achava o capitão
-Rino muito differente do que lhes parecera sempre, em Botafogo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu já disse isso mesmo a elle, e descobri o motivo; é porque anda
-sempre de escuro, e hoje está de branco!
-</p>
-<p>
-&mdash;E com uma flor ao peito!
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda ha outra razão; é que elle está contente. Ruth, a influencia
-das côres é grande nas creaturas, mas a das impressões ainda é
-maior. A alegria força a ser-se bonito. O capitão tem hoje a alma
-vestida de branco e perfumada como a sua rosa vermelha da lapella... Uma
-bonita flôr!... Não creia que baste um alfaiate para dar a uma cara de
-páu a expressão que a d'elle hoje tem; a grande influencia do alfaiate
-pára no pescoço. A cabeça é...
-</p>
-<p>
-&mdash;Do cabelleireiro?
-</p>
-<p>
-&mdash;Da paixão. Não creio que as mais frivolas mulheres sejam tão
-frivolas que se contentem com o cheiro de uma pomada, ou o bom corte de
-um frak...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas quem fallou em mulheres!?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem razão, ninguem! Veja como aquelle barco de pesca vae bonito...
-Você gosta d'estas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte
-são os unicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros, pff!
-</p>
-<p>
-A mancha escarlate do vestido de Catharina appareceu deante d'elles; a
-irmã do capitão convidou-os para o almoço; repararam então que os
-outros já tinham entrado e logo o medico previu que Milla tivesse ido
-pelo braço de Rino...
-</p>
-<p>
-E fôra; e lá estavam ambos em pé a um angulo da mesa, em frente a
-Francisco Theodoro, que gesticulava, no calor de uma discussão ainda
-politica.
-</p>
-<p>
-Á mesa, sentaram-se ao acaso, á excepção de Camilla e do marido, a
-quem o capitão designou logares. O medico escolheu assento entre
-Catharina e Ruth.
-</p>
-<p>
-Havia apettite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catharina,
-julgando-se um pouco em sua casa, ajudava o irmão; foi ella quem
-temperou a salada de camarões e quem polvilhou os morangos de assucar e
-de gelo; as suas mãos muito brancas mostravam-se bem atiladas no habito
-de servir.
-</p>
-<p>
-O creado ia e vinha do buffete para a mesa, com a seriedade sobranceira
-de um ente necessário.
-</p>
-<p>
-Na sala, longa e estreita, elles occupavam uma das mesas compridas, a da
-esquerda, a mesma occupada sempre em viagem pelo capitão; a outra,
-vazia e sem toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto
-tristonho ao compartimento. Fallou-se, a proposito de viagens, de quando
-naquella mesma sala não havia um só logar vazio, e que ao rumor das
-vozes se juntava o tilintar das loiças e dos talheres... Só nos dias
-de tempestade, em que o vapor era sacudido pelo furor das ondas,
-diminuia a affluencia e appareciam, disseminados e tristonhos, só os
-passageiros fortes, de bom estomago...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro relembrou os episodios banaes da sua unica viagem, de
-Portugal para aqui, e olhavam quasi todos para o capitão com certo
-interesse, como para um heróe. Em casa, nas confortaveis salas de
-Botafogo, tão ricas e tão burguezas, nunca a sua profissão lhes
-parecera sympathica; agora comprehendiam-lhe os perigos e observavam-no
-com respeito. O mar é tão perfido! Qual era o ponto da viagem que mais
-lhe agradava? perguntou Milla.
-</p>
-<p>
-A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, commovido, o aspecto
-formidavel do rio, a grossa corrente das suas aguas profundas, o seu
-ruido sonoro, de rythmos novos, que nenhuma lingua exprime e nenhum som
-musical imita; e os cambiantes deslumbrantissimos dos poentes,
-derramando na agua infinitas ramagens multicores, onde estrellejavam
-tons nunca d'antes vistos, que appareciam para se apagar, e apagavam-se
-para reapparecer em outros pontos, egualmente luminosos e fugitivos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que esplendor de poentes!
-</p>
-<p>
-Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques
-emergindo da agua profunda e reflectindo-se nella. Sinto alli, repetia
-ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mysterios para uma raça
-de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são
-um deslumbramento!
-</p>
-<p>
-Havia outro ponto da viagem que lhe fazia ainda maior commoção; era
-quando, já de volta, entrava na bahia do Rio de Janeiro. A ampla poesia
-d'esse espectaculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar
-alto...
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo;
-os livros da estante pertenciam-lhe: havia alli um homem. O embarcadiço
-mercenario tirava o seu trage de piloto e apparecia cavalheiro e poeta.
-Porque se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco
-depois, quando Rino affirmava que apezar das suas queixas, elle só
-estava bem no <i>Neptuno</i>; tanto se afastara da sociedade que se sentia
-bisonho nella, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da
-sua alma, quando ia para a terra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só em terra, disse elle, comprehendo o amor que tenho ao meu barco,
-aos meus livros, ao meu cachimbo e á minha rêde, a que a solidão e o
-habito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de
-terra, da familia, das distracções, de tudo que conjunctamente a torna
-deliciosa...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, a proposito do Norte, fallou na prosperidade do
-Pará, no commercio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus
-costumes. Alli, sim, havia gente reflectida, de bons exemplos. Aquillo
-é que é povo: patriotismo, criterio, boas intenções. Fallem-me
-d'isso.
-</p>
-<p>
-Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram á bocca os copos
-cheios.
-</p>
-<p>
-Veio o perú á brasileira provocar elogios ao cozinheiro do <i>Neptuno</i>.
-Magnifico!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro affirmou logo que aquelle prato parecia feito, de
-saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um geitinho
-especial para temperar panellas, dizia elle; e verdade, verdade, assim
-como ella não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens,
-tambem os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser
-trancada ao sexo feio.
-</p>
-<p>
-Elle dizia isto como pilhéria, por alegria.
-</p>
-<p>
-Catharina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros,
-perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa:
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de
-familia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua
-casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juizo, e
-não me dei mal com elle; não quiz casar com mulher sabichona. É nas
-mediocres que se encontram as Esposas.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance.
-</p>
-<p>
-&mdash;E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve
-consentir perto das suas filhas.
-</p>
-<p>
-Camilla fez um signal affirmativo. Ella era da mesma opinião.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não são sérias, concluiu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá por isso, replicou Catharina, de quantas mulheres se falla na
-sociedade e que mal sabem ler?
-</p>
-<p>
-&mdash;De poucas...
-</p>
-<p>
-&mdash;De muitas. Sr. Theodoro, faz favor de me dar o vinho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Theodoro, passando a
-garrafa ao medico, que encheu o copo de Catharina e disse rindo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ellas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a
-ellas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana
-com uma arte capaz de endoidecer o proprio Mephistopheles...
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres!
-</p>
-<p>
-&mdash;Faço ideia de que deve ser bem mais difficil de manter do que a
-nossa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o
-pensamento de que houvesse duas honestidades.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois se tivesse tido tal pensamento, tel-o-ia com muito acerto. Ha
-duas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Temos outra! Se está de maré, explique-nos a differença.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materialisemos as
-comparações, para as tornarmos bem claras. Supponhamos, por exemplo,
-que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um
-vestido branco. Tudo é roupa, teem ambos o mesmo destino, mas que
-aspectos e que responsabilidades differentes!
-</p>
-<p>
-Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro,
-disfarçando as nodoazinhas. O panno é grosso, com uma escovadella vôa
-para longe toda a poeira da immundicie; e ficamos decentes. A
-honestidade das senhoras é um vestido de setim branco, sem forro. Um
-pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede,
-á procura da sombra amavel, macula-o; uma picadella de alfinete, que
-só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquella
-vasta candidez proporções desagradaveis... Realmente, deve ser bem
-difficil saber defender um vestido de setim branco que nunca se tire do
-corpo. Eu não sei como ellas fazem, e, francamente, não me parece que
-a vida mereça tamanho luxo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão
-positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as
-outras ... pelo menos parecem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não lhes esquadrinhamos as nodoas do setim... Passam
-despercebidas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus!
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse ha pouco á sua filha, a
-quem alliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto:
-</p>
-<p>
-Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos
-desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideaes de
-arte não pervertem, antes purificam e ensinam o bem. As mulheres devem
-cultival-os com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de D.
-Catharina e bebo á sua saude, Minha Senhora!
-</p>
-<p>
-Emquanto elle bebia, Camilla observou-o com pasmo; sabia que elle não
-tinha aquellas ideias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se
-no seu logar de submissão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco
-Theodoro á irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com
-as minhas roseiras e os meus animaes. Nunca fallo por mim, sr. Theodoro. Eu
-nasci para mulher.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, pelas outras?
-</p>
-<p>
-&mdash;Pelas outras que tenham actividade e coragem.
-</p>
-<p>
-&mdash;E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguem
-responde!
-</p>
-<p>
-&mdash;É velho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar
-com obediencia e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz tambem a
-isto o nosso doutor?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que ella talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor
-disse, mas que as torceu depois de certa edade. Não seria sem causa que
-Francisco I disse:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Souvent femme varie.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Francisco Theodoro não entendeu, mas sorriu.
-</p>
-<p>
-O medico dizia aquillo para Camilla, que lhe evitava o olhar agudo,
-percebendo-lhe a perfidia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto é que se chama fallar para não dizer nada... observou alguem.
-</p>
-<p>
-Catharina serviu o café; quando passava a ultima canequinha, disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;As mulheres são mal comprehendidas. Vejam aquella gravura. Está alli
-um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho,
-e a mulher mal o allumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada ás
-suas costas!
-</p>
-<p>
-&mdash;O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Theodoro com modo
-triumphante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos
-atraz do homem que procura defender-nos. Se elle avança para o inimigo,
-sentimos não ter azas, e é sempre com impeto que nos lançamos na
-carreira querendo ajudal-o a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que
-é o nosso caracter; que me desminta quem puder!
-</p>
-<p>
-O dr. Gervasio observou Catharina com attenção.
-</p>
-<p>
-Ella estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas.
-</p>
-<p>
-Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma
-brasileira. A tal avó dinamarqueza dava todo o logar á outra avó
-indigena, descendente de alguma tribu selvagem.
-</p>
-<p>
-Duas horas depois, os visitantes deixavam o <i>Neptuno</i>; o capitão Rino
-e a irmã conduziram-os até o caes, onde se separaram. Foi então um
-grande allivio para o dr. Gervasio, a quem a presença do outro irritava
-terrivelmente.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro não se cançava de elogiar a ordem e o asseio em que
-encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o
-eloquente, superior ... lembrava detalhes insignificantes, muito
-agradecido ás cortezias do moço. Catharina desagradara-lhe, com os
-seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com
-carne,&mdash;bons volumes, dizia elle, olhando de esguelha para o vulto
-redondo da esposa.
-</p>
-<p>
-Á rua 1º de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a occasião para
-visitar um collega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a
-familia.
-</p>
-<p>
-Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo
-erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas
-quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla
-adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as
-phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle
-lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta;
-mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle
-fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de
-escrava, a que o seu amor a lançara.
-</p>
-<p>
-Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que
-não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que
-a via bem entregue...
-</p>
-<p>
-Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos
-olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto
-tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava;
-vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente,
-espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as
-horas de bordo.
-</p>
-<p>
-Ella murmurou então, vexada, por entre dentes:
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não gosto do Rino ... eu não gosto...
-</p>
-<p>
-E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois,
-vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de
-ser já.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como os homens são orgulhosos e injustos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Serão. E as mulheres? voluveis!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como
-uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade...
-</p>
-<p>
-Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem
-disse primeiro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com
-isso...
-</p>
-<p>
-O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade:
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua...
-</p>
-<p>
-Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia
-nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente,
-vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e
-ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No
-momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda
-moça, toda de lucto.
-</p>
-<p>
-Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a
-raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle
-ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e
-ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada.
-</p>
-<p>
-Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra;
-aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida;
-viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da
-face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de
-surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma
-infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando
-imprudentemente pela manga do medico.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que
-seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se
-atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo,
-mas com modo sacudido e nervoso, disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.
-</p>
-<p>
-Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua
-marcha num batimento louco.
-</p>
-<p>
-Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia
-separando para um prato de papelão.
-</p>
-<p>
-O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe
-contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa
-passada, perfeitamente extincta.
-</p>
-<p>
-Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que
-tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir
-os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria
-calada...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VII">VII</a></h4>
-
-<p>
-O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto
-posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne
-rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia
-das enchentes que ameaçam inundação.
-</p>
-<p>
-O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha
-attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S.
-Bento.
-</p>
-<p>
-No de Francisco Theodoro o movimento era enorme.
-</p>
-<p>
-<i>Seu</i> Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando
-milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando,
-rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens.
-Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar
-uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus
-subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão
-da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em
-bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo
-dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao
-trabalho um acompanhamento de musica.
-</p>
-<p>
-<i>Seu</i> Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento
-para o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar
-<i>grèves</i>, paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que
-quizesse entrar.
-</p>
-<p>
-Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das
-formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o
-pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira?
-Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande
-personagem.
-</p>
-<p>
-Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para
-alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade
-de baixo, <i>Seu</i> Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar
-as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas,
-fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de
-Francisco Theodoro.
-</p>
-<p>
-E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma
-chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos
-successos proprios e alheios.
-</p>
-<p>
-Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.
-</p>
-<p>
-<i>Seu</i> Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino
-da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio
-era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio.
-</p>
-<p>
-Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de
-impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço.
-</p>
-<p>
-Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o
-armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava
-pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e
-o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia.
-</p>
-<p>
-Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava
-então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção.
-</p>
-<p>
-Vinha-lhe o cançaço.
-</p>
-<p>
-Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam
-inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella
-atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio.
-A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu
-espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente,
-que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo.
-</p>
-<p>
-Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella
-vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe
-mostraria o caminho já feito, facil de percorrer!
-</p>
-<p>
-Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas
-pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a
-outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna.
-</p>
-<p>
-A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle...
-</p>
-<p>
-Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha
-concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções
-pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma
-vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe
-mudasse o nome.
-</p>
-<p>
-Como era bemsoante aquelle&mdash;Casa Theodoro&mdash;um rythmo de ouro!
-</p>
-<p>
-Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres
-não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus
-só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos.
-</p>
-<p>
-O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade,
-que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi
-estava&mdash;magnifico; mas não poderia ter sido pessimo?
-</p>
-<p>
-Certamente, concluia elle comsigo,&mdash;não é a isso que se chama ser bom
-negociante; obra do acaso, nem mais nem menos...
-</p>
-<p>
-Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As
-carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então como vae isso, Seu Theodoro, han?
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem... Muito trabalho.
-</p>
-<p>
-&mdash;É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo
-de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra
-o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O
-dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a
-conversar com um sujeito. É um finorio de marca.
-</p>
-<p>
-&mdash;É experto, é.
-</p>
-<p>
-Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia
-do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se
-entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que
-recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da
-minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...
-</p>
-<p>
-&mdash;Terras de trigo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por
-vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares.
-Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me
-esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho
-do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz,
-as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já
-se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se
-acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os
-empregados ... não faz mal, é o dono.
-</p>
-<p>
-&mdash;Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o
-Lemos, assoando-se com estrondo.
-</p>
-<p>
-Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado?
-</p>
-<p>
-&mdash;É...
-</p>
-<p>
-&mdash;Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita
-gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si.
-</p>
-<p>
-Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com
-tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas
-sêdes...
-</p>
-<p>
-Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar
-de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as
-respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do
-Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de
-café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que
-lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis.
-</p>
-<p>
-Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios,
-com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se
-deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava...
-</p>
-<p>
-Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio.
-Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções
-agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um
-grande projecto...
-</p>
-<p>
-Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da
-esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de
-libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle?
-</p>
-<p>
-As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para
-afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto!
-</p>
-<p>
-A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á
-voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse,
-ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de
-moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos
-primeiros arrepios da tentação.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro reflectia...
-</p>
-<p>
-Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella.
-</p>
-<p>
-Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando
-o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das
-saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço,
-chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar
-espesso, engrossado de pó.
-</p>
-<p>
-Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.
-</p>
-<p>
-D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e
-lagrimas que se fertilisam os melhores campos.
-</p>
-<p>
-Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o
-bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e
-se desmancha em flores.
-</p>
-<p>
-Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer
-bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado
-na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhem para a minha vida e façam como eu fiz.
-</p>
-<p>
-Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé
-antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias
-de loucura.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VIII">VIII</a></h4>
-
-<p>
-Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se
-passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas
-para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a
-depressa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.
-</p>
-<p>
-&mdash;E outro para a minha, Noca?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Um só, Noca, sim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem
-roupa!
-</p>
-<p>
-Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se
-nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e
-ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço,
-levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a
-mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella
-creatura.
-</p>
-<p>
-A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores
-quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um
-rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.
-</p>
-<p>
-Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se
-acercou da taboa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora é que você está chegando, Dionysio?!
-</p>
-<p>
-&mdash;É Fui levar um recado de <i>seu</i> Mario... A senhora já sabe que
-elle deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe
-tirar o chapéo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças,
-que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:
-</p>
-<p>
-&mdash;É loura ou é morena?
-</p>
-<p>
-&mdash;Morena, altinha, muito <i>chic</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande.
-</p>
-<p>
-Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar
-sonso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D.
-Nina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.
-</p>
-<p>
-Um retrato.
-</p>
-<p>
-Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda
-continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...
-</p>
-<p>
-&mdash;É para Sergipe.
-</p>
-<p>
-A cabocla sorriu.
-</p>
-<p>
-&mdash;O professor de musica está ahi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu
-botar de infusão.
-</p>
-<p>
-Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por <i>dona</i>.
-Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com
-acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias
-de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as
-impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um
-remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem
-escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança.
-</p>
-<p>
-Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua
-prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia
-economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de
-côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo
-volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade.
-</p>
-<p>
-Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma
-imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e
-concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma
-explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições
-curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma
-verdade indiscutivel.
-</p>
-<p>
-E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla
-consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe
-explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para
-tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos,
-rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos...
-</p>
-<p>
-Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de
-gostar de ser util e servir de muito a muita gente...
-</p>
-<p>
-Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla.
-Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande
-novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o
-pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido
-parecia não comprehender!
-</p>
-<p>
-A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver
-nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ...
-esse tambem ruminava qualquer coisa...
-</p>
-<p>
-Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o
-pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do
-engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo.
-</p>
-<p>
-A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade.
-Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não
-passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por
-causa de um homem? Não vê!
-</p>
-<p>
-Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente
-achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo
-muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da
-Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para
-dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito
-desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis;
-Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita;
-morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer
-soffrer.
-</p>
-<p>
-Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo,
-Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona,
-com as mãos inuteis, o olhar febril.
-</p>
-<p>
-A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do <i>Neptuno</i>, não a
-deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e
-aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente,
-e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em
-negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos?
-</p>
-<p>
-No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era
-em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas
-toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que,
-apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para
-elle.
-</p>
-<p>
-Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou,
-ao voltar da cidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a <i>Aïda</i>. O
-Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que entende o Negreiros de musica!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em
-baixo...
-</p>
-<p>
-Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando
-o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em
-frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular
-enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio
-interrompido.
-</p>
-<p>
-&mdash;«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo
-dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e
-instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa
-moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha;
-não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço,
-compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia.
-Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr
-educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre
-para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e
-revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que
-andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a
-uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em
-discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias;
-por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o
-individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A
-instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a
-vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume
-que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal
-geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o
-ambiente em que vivam depois.
-</p>
-<p>
-É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões,
-á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a
-verdade e não escapam aos ouvidos delicados.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras...
-</p>
-<p>
-&mdash;O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin.
-Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque ainda não tem edade para comprehendel-o.
-</p>
-<p>
-Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um
-excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e
-mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com
-prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está ahi, atraz do senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah...
-</p>
-<p>
-Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via
-muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia,
-dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com
-medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só...
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da
-mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo
-e danças até a madrugada.
-</p>
-<p>
-Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as
-violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa
-silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas
-leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do
-robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro.
-</p>
-<p>
-Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se
-lamentava por isso da ausencia.
-</p>
-<p>
-A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins
-illuminados a <i>balões</i> e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos
-terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de
-vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes,
-essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no
-banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e
-sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por
-sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o
-unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho:
-tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro,
-almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças
-corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista
-pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu
-repertorio.
-</p>
-<p>
-A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco
-Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança,
-alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das
-attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de
-posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois,
-na balburdia da vida.
-</p>
-<p>
-Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao
-piano, ou cantasse algum romance italiano.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para
-que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos
-regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as
-senhoras edosas ao <i>buffet</i>, recommendando á Noca que distribuisse
-pela criadagem vinhos e doces.
-</p>
-<p>
-Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo
-barulho que pela intenção.
-</p>
-<p>
-Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas
-mangas dos commendadores ou dos empregados do marido.
-</p>
-<p>
-Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia
-sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho
-honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro,
-a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho.
-</p>
-<p>
-O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos.
-Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam
-para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de&mdash;minha
-estudiosa&mdash;gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados
-para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam
-encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das
-estrellas...
-</p>
-<p>
-Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete
-Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na
-quietação cançada da familia.
-</p>
-<p>
-Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os
-talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de
-luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os
-marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e
-as lanternas disseminadas pelo jardim.
-</p>
-<p>
-Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer
-aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os
-ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam
-nervosamente.
-</p>
-<p>
-Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo!
-eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da
-colonia. Não quero fazer figura triste.
-</p>
-<p>
-&mdash;Alguma manifestação? perguntou Gervasio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me
-hoje d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que!
-Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O
-engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora,
-que se apresenta a occasião, faz cara feia!
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na
-execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao
-movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de
-pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.
-</p>
-<p>
-Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro
-pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e
-dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas
-se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda,
-entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos,
-encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo
-e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava
-uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.
-</p>
-<p>
-Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas,
-pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma
-doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava:
-já nem pensava nisso!
-</p>
-<p>
-Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á
-felicidade, ella foi esquecendo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IX">IX</a></h4>
-
-<p>
-Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á
-mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.
-</p>
-<p>
-Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou
-importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto
-esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só
-para a sobremesa disse espantado:
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou?
-</p>
-<p>
-Nina murmurou, desculpando-o:
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho que está incommodado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou ver isso.
-</p>
-<p>
-Theodoro levantou-se.
-</p>
-<p>
-Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre
-si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu
-amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante.
-</p>
-<p>
-Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario!
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar
-firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que
-nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas
-azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que
-ella temia...
-</p>
-<p>
-E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se
-festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e
-commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico...
-</p>
-<p>
-Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo,
-que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em
-escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo.
-</p>
-<p>
-Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma
-expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava,
-fallava...
-</p>
-<p>
-Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, <i>seu</i> Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para
-jantar é volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de
-visitas?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias
-ao menos respeitar o hospede.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem,
-papae, não posso vêr aquelle homem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tu estás doido! porque?!
-</p>
-<p>
-Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe
-insistia, furioso:
-</p>
-<p>
-&mdash;Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa
-raiva?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por
-instincto... Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ...
-aquella voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as
-suas mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua
-assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os
-vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que
-é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe
-pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.
-
-
-</p>
-<p>
-&mdash;Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o
-que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não
-se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não
-sou bom!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que
-effectivamente o Mario estava indisposto...
-</p>
-<p>
-Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um&mdash;até logo!
-</p>
-<p>
-Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa
-aborrecia-o.
-</p>
-<p>
-A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada,
-vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro.
-Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando
-flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto.
-</p>
-<p>
-Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e
-leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cuidado, minha filha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vae um beijo, mamãe!
-</p>
-<p>
-O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o
-passeio continuava, arrastado e feliz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã
-cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá vens tu...
-</p>
-<p>
-Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á
-claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo
-ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava
-na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus
-ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua
-força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava,
-unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz
-cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.
-</p>
-<p>
-Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades
-estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens
-fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em
-baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos
-distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do
-somno.
-</p>
-<p>
-Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das
-estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo
-escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a
-penumbra.
-</p>
-<p>
-O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro,
-consultando o céu. E chuva de arrazar!
-</p>
-<p>
-Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do
-medico. Despediram-se.
-</p>
-<p>
-Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca:
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Mario?
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Mario sahiu...
-</p>
-<p>
-&mdash;Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga...
-</p>
-<p>
-Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para
-a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla
-impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e
-perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela
-golla do vestido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada.
-</p>
-<p>
-Nina sacudiu as formigas com o lenço.
-</p>
-<p>
-Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata.
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Mario?
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle ainda não voltou...
-</p>
-<p>
-&mdash;Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando
-elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Percebi, sim, senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora chame o Dionysio.
-</p>
-<p>
-E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.
-</p>
-<p>
-Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos
-com a agulha, mal acertando com a costura.
-</p>
-<p>
-Theodoro voltou-se para ellas:
-</p>
-<p>
-&mdash;Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se
-á mesma hora que os paes...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois sim!
-</p>
-<p>
-&mdash;E se chover? A noite está tão feia...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que volte para traz. Não vem a pé.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e
-debaixo d'agua...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou
-raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?!
-</p>
-<p>
-&mdash;É a mocidade...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em
-dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei
-com o suor do meu rosto!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mais uma razão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual razão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em
-casa a horas convenientes ou...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou que vá dormir para o diabo!
-</p>
-<p>
-Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz
-replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco
-Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da
-sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.
-</p>
-<p>
-&mdash;É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o
-negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as
-chaves.
-</p>
-<p>
-Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes
-um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera,
-corporisava-a, tornando-a irrespiravel.
-</p>
-<p>
-Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos,
-amodorrados, bambos.
-</p>
-<p>
-Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe,
-soturnamente.
-</p>
-<p>
-Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para
-dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao
-beiral do telhado.
-</p>
-<p>
-A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta.
-</p>
-<p>
-O que passou depois, foi o vento.
-</p>
-<p>
-Ella deitou-se com um suspiro.
-</p>
-<p>
-Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu
-a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do
-arvoredo.
-</p>
-<p>
-Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos
-pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania,
-lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos,
-com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da
-noite.
-</p>
-<p>
-Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma
-cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á
-janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo.
-Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em
-falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova
-lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.
-</p>
-<p>
-A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.
-</p>
-<p>
-O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á
-distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.
-</p>
-<p>
-Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.
-</p>
-<p>
-Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o
-aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na
-inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam
-arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre
-as telhas, com estrondo.
-</p>
-<p>
-Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela
-fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo,
-não a amaria nunca.
-</p>
-<p>
-Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo
-pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos.
-Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para
-ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada
-mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e
-em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não
-comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na
-infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!
-</p>
-<p>
-Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa
-classe; mais nada; e não era pouco.
-</p>
-<p>
-Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos
-agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era
-nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços
-caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se
-atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no
-fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse
-casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada
-deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma
-creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na
-casa de Francisco Theodoro.
-</p>
-<p>
-Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de
-preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás
-palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava
-isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o
-traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra.
-</p>
-<p>
-Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então
-os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do
-seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a
-aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois
-bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor
-de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos
-beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que
-até então ella só parecia ter espreitado de longe.
-</p>
-<p>
-Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a
-edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua
-força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a
-ceder ás suas vontades absurdas.
-</p>
-<p>
-De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina
-em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a
-peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para
-essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são
-para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos,
-rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da
-vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era
-exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.
-</p>
-<p>
-Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da
-sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas
-graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.
-</p>
-<p>
-Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos
-flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e
-humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a
-varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe
-batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro
-resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma
-instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.
-</p>
-<p>
-O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe
-em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um
-filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.
-</p>
-<p>
-Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca,
-sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?
-</p>
-<p>
-Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado
-por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o
-coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa
-que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.
-</p>
-<p>
-Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber
-d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?
-</p>
-<p>
-Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia
-mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses
-recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida,
-escarnecida, miseravel.
-</p>
-<p>
-No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a
-alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento;
-então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o
-encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que
-redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.
-</p>
-<p>
-Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro
-cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda
-bailou macabramente com o arvoredo escuro.
-</p>
-<p>
-A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e
-offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias,
-mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.
-</p>
-<p>
-Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada,
-brutal, ensurdecedora.
-</p>
-<p>
-A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e
-voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir
-indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.
-</p>
-<p>
-Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mario! Mario!
-</p>
-<p>
-Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.
-</p>
-<p>
-O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o
-pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na
-sombra, ia-se embora.
-</p>
-<p>
-Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.
-</p>
-<p>
-Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço,
-com a precaução de quem vae para o crime.
-</p>
-<p>
-Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia,
-praguejando raivoso.
-</p>
-<p>
-Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Espere um bocadinho, Mario!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que estupidez!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse
-de fóra.
-</p>
-<p>
-Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que idéia foi esta de deixarem a chave...
-</p>
-<p>
-E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que
-seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.
-</p>
-<p>
-Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a
-chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do
-chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario
-percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de
-carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara
-nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado,
-sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto
-impudico e voluptuoso.
-</p>
-<p>
-Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso
-naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a
-prima o amava?
-</p>
-<p>
-A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de
-hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.
-</p>
-<p>
-Nina comprehendeu.
-</p>
-<p>
-Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e
-subiu correndo.
-</p>
-<p>
-A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo
-de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no
-passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu
-desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se
-quedara estupefacto no mesmo ponto.
-</p>
-<p>
-Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina
-sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto
-até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.
-</p>
-<p>
-Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da
-chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se
-atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo,
-juncto aos seus calcanhares.
-</p>
-<p>
-Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada
-assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de
-que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a
-porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á
-fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago
-conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda.
-Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no
-chão.
-</p>
-<p>
-E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa,
-muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de
-repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a
-camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da
-sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no
-vidro...
-</p>
-<p>
-Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia
-um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e
-adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se
-arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de
-que fugira...
-</p>
-<p>
-Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu
-alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.
-</p>
-<p>
-Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava
-para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a
-porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,&mdash;e ainda Nina, na
-estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro,
-soffria, soffria, soffria...
-</p>
-<p>
-No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou
-na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da
-familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro
-para a sua mesa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle,
-fixando-lhe os olhos pisados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.
-</p>
-<p>
-Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses
-sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção
-foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a
-ultima vez que sou desobedecido.
-</p>
-<p>
-Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas
-junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que
-ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou
-então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe
-partisse uma fatia do <i>roast-beef</i> frio e que lhe fosse depois buscar
-o <i>Jornal</i>, esquecido em cima, no quarto de <i>toilette</i>.
-</p>
-<p>
-Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos
-seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos
-violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma
-d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a
-admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.
-</p>
-<p>
-Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="X">X</a></h4>
-
-<p>
-Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não
-se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os
-desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia
-sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das
-suas devoções.
-</p>
-<p>
-Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a
-gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus
-passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que milagre! a senhora por aqui!
-</p>
-<p>
-A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que
-fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas
-o nó da mantilha preta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mal imagina você por onde tenho andado!
-</p>
-<p>
-Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N.
-S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando
-esmolas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tão cedo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em
-esmolas, hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as
-atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves,
-que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...
-</p>
-<p>
-&mdash;Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda estão dormindo?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tio Francisco já sahiu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por
-todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande
-concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte
-Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar
-a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá
-não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos
-espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é
-para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora falle com tia Milla. <i>Seu</i> João! chamou ella
-interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que
-passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como
-não ha rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da
-entrada?
-</p>
-<p>
-&mdash;A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos
-canteiros, que Deus nos acuda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja se remedeia isso hoje mesmo...
-</p>
-<p>
-O jardineiro passou; D. Joanna disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario
-Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia,
-pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do
-filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer café, tia Joanna?
-</p>
-<p>
-&mdash;Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se
-arrepender...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenho tempo... Quer mais assucar?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz
-de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...
-</p>
-<p>
-Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da
-tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de
-folhas arremessadas pela ventania.
-</p>
-<p>
-D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em
-pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de
-melancholia.
-</p>
-<p>
-Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu
-cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido
-branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao
-corpo um ar de anjo de cathedral.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.
-</p>
-<p>
-Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver
-a lua e as estrellas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de
-egreja...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da
-Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos
-cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão
-Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora.
-Leve-me lá, titia, sim?
-</p>
-<p>
-&mdash;É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seria querer demais. Você já leu hoje a <i>Flor de Neve</i>, Nina?
-</p>
-<p>
-Nina meneou com a cabeça, que não.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.
-</p>
-<p>
-&mdash;É um romance do <i>Jornal</i>, muito bonito. Estou morta por saber
-se a Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no
-<i>Jornal</i>!
-</p>
-<p>
-D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço,
-bonita, de <i>peignoir</i> côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás
-duas filhas pequenas.
-</p>
-<p>
-Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que
-naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de
-jantar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia
-Joanna?
-</p>
-<p>
-&mdash;Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...
-</p>
-<p>
-Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e
-beijou-o no pennacho.
-</p>
-<p>
-Depois, para a velha:
-</p>
-<p>
-&mdash;O que a trouxe tão cedo?
-</p>
-<p>
-D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e
-apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da
-capella do Monte Serrate.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não;
-porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?
-</p>
-<p>
-&mdash;Posso mandar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um
-perfeito homem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num
-folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua
-filha.
-</p>
-<p>
-&mdash;O pae não se importa, que hei de fazer?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não fez a primeira communhão?
-</p>
-<p>
-&mdash;É cedo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é tal. Ella não quererá?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas
-as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o
-casamento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está um moço bonito.
-</p>
-<p>
-&mdash;E ... mais ajuizado?
-</p>
-<p>
-Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas
-brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:
-</p>
-<p>
-&mdash;Como todos os rapazes de vinte annos...
-</p>
-<p>
-Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego
-verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca,
-que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna
-levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.
-</p>
-<p>
-Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da
-poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou
-gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o
-tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em
-movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma
-musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um
-vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella,
-conversava baixo com a Camilla.
-</p>
-<p>
-D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria
-aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na
-sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.
-</p>
-<p>
-Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.
-</p>
-<p>
-«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um
-burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.
-</p>
-<p>
-Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no
-quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr.
-Gervasio não estava.
-</p>
-<p>
-Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com
-desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu
-tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe
-pouca attenção.
-</p>
-<p>
-Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de
-pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito
-calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito
-suspiros curtos, que afogava em <i>bordeaux</i>...
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não
-estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição;
-depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para
-as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de
-criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras,
-risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois
-gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde
-da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do
-encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as
-pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e
-paredes sujas de predios velhos.
-</p>
-<p>
-Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um
-impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos
-castos e pudibundos da velha.
-</p>
-<p>
-Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D.
-Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se
-persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus
-pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia,
-Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus
-sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para
-ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas
-meninas a respeitarem a nossa religião?
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa
-ao domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma
-ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem
-adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se
-esquecia dos seus deveres.
-</p>
-<p>
-Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia;
-para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração
-d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para
-elle:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?
-</p>
-<p>
-&mdash;Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?
-</p>
-<p>
-&mdash;Como se chamam os seus deuses?
-</p>
-<p>
-&mdash;Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum
-poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por
-que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que
-aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da
-mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D.
-Joanna, e que inferno bellissimo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá trazendo para cá essas ideias...
-</p>
-<p>
-&mdash;Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A
-senhora já ouviu fallar em Byron?
-</p>
-<p>
-&mdash;Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda
-voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua
-glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras
-apotheoses da arte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só por isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Julga-me muito bronca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se
-quer, discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?
-</p>
-<p>
-&mdash;Algum damnado.
-</p>
-<p>
-&mdash;É o termo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que
-peccado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para
-enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras.
-A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira?
-Tenho uma <i>Yellow Persian</i> quasi perdida!
-</p>
-<p>
-&mdash;A sua medicina nem para as plantas serve?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem para as plantas, a miseravel!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é?
-</p>
-<p>
-&mdash;Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu Deus! e eu de <i>peignoir</i>!
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio voltou-se e disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas,
-sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido
-tão bonito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então vou assim mesmo...
-</p>
-<p>
-D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era
-seguida!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O
-dinheiro dos bilhetes?
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras.
-Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus.
-</p>
-<p>
-A moça sahiu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla
-esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!
-</p>
-<p>
-O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe
-no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha
-percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle
-lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra
-de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.
-</p>
-<p>
-Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim
-preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente
-emmoldurado.
-</p>
-<p>
-A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira
-anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do
-seu cordão de ouro.
-</p>
-<p>
-A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este
-<i>peignoir</i> é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier,
-não é?
-</p>
-<p>
-A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de
-um bello sorriso.
-</p>
-<p>
-&mdash;É facil. Vem participar-me o seu casamento!
-</p>
-<p>
-&mdash;Casar-me, eu? qual!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de
-dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus
-pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade,
-Paquita?
-</p>
-<p>
-Paquita meneou a cabeça, que sim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?
-</p>
-<p>
-&mdash;Em um <i>bond</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já me tardava. O <i>bond</i> é o eterno mexeriqueiro d'esta
-terra. Tambem vocês quando não querem comprometter os seus
-informantes, attribuem ao pobre <i>bond</i> todas as indiscreções...
-Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar
-coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que
-nós, protectoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze.
-Se não fosse coisa de religião, eu não me metteria nisto. Já me têm
-pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitaes para
-pobres, como se na nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga,
-no Brasil não ha miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo
-com exemplos de fé christã.
-</p>
-<p>
-Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.
-</p>
-<p>
-Houve uma pausa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está
-muito bonito moço.
-</p>
-<p>
-Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já
-tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria
-o mesmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.
-</p>
-<p>
-Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Já recebeu convite para o nosso baile?
-</p>
-<p>
-&mdash;Já...
-</p>
-<p>
-&mdash;Esperamos que seja Mario quem nos marque o <i>cotillon</i>. Papae
-gosta muito do Mario.
-</p>
-<p>
-O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo
-cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda
-a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle
-gabava-se dos seus principios rudes e pesados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta,
-disse Camilla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já se falla nisso.
-</p>
-<p>
-A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos.
-Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de
-repente com uma phrase secca:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamo-nos embora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, vamo-nos embora.
-</p>
-<p>
-Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no
-concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a
-<i>matinée</i>.
-</p>
-<p>
-A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto,
-caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados,
-o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados
-de morena.
-</p>
-<p>
-Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á
-observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso,
-um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a
-manga.
-</p>
-<p>
-Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que
-sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.
-</p>
-<p>
-Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a
-silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de
-cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria,
-achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de
-religião.
-</p>
-<p>
-Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a
-ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.
-</p>
-<p>
-Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do
-<i>Neptuno</i>. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de
-bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma
-mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco
-Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só
-Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos
-frios.
-</p>
-<p>
-E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu
-pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por
-Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou
-que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella
-mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?
-</p>
-<p>
-As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo,
-muito fraco pelas denguices das gemeas.
-</p>
-<p>
-Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua
-roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma
-tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando
-dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.
-</p>
-<p>
-Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.»
-</p>
-<p>
-Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem
-percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos
-por um sorriso amargo.
-</p>
-<p>
-Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas
-grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe
-Ruth.
-</p>
-<p>
-Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá
-pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas.
-Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta
-foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso
-mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?
-</p>
-<p>
-Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com
-ar solemne:&mdash;Só Deus!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XI">XI</a></h4>
-
-<p>
-Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio
-estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa
-o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto
-pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar
-esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.
-</p>
-<p>
-Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.
-</p>
-<p>
-A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de
-faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo,
-berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por
-todos os lados em vivas represalias.
-</p>
-<p>
-O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal
-ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em
-grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com
-todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de
-cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o
-unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás
-instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o
-seu bem-estar escolheram.
-</p>
-<p>
-João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o
-minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias
-do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de
-Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista
-pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de
-ingratos.»
-</p>
-<p>
-Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um
-republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus
-compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor
-de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de
-Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado,
-tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera
-censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle
-já estava maduro para dar o seu braço a torcer!
-</p>
-<p>
-Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de
-Negreiros entrar na discussão.
-</p>
-<p>
-Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino
-appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão
-interrogativa no rosto.
-</p>
-<p>
-A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez
-logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.
-</p>
-<p>
-Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de
-reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na
-mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as
-pontas do bigode delgado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que novidade é esta, o senhor por aqui?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o
-apresentar aos meus amigos.
-</p>
-<p>
-Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande
-bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro
-perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os
-meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido
-lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não
-fazemos cerimonias.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a
-preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os
-meus respeitos a todos.
-</p>
-<p>
-O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo,
-lhe bailava sob a pelle de loiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe
-razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente.
-Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos
-ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga
-ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.
-</p>
-<p>
-<i>Seu</i> Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na
-secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.
-</p>
-<p>
-Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a
-lida. Levantaram-se todos.
-</p>
-<p>
-Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante
-pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta
-importancia.
-</p>
-<p>
-No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio
-tinha lampejos de ouro. <i>Seu</i> Joaquim observava em silencio.
-</p>
-<p>
-O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no
-corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros
-descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia
-á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens,
-para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol,
-acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha
-Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a
-cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os
-carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos
-repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos
-os ventos a sua força poderosissima.
-</p>
-<p>
-O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e
-movediços.
-</p>
-<p>
-Aquella multidão aturdia-o.
-</p>
-<p>
-O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias
-commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na
-natureza o que ella tem de maior e de mais simples.
-</p>
-<p>
-A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do
-oceano que elle cortava com a prôa firme do seu <i>Neptuno</i>.
-</p>
-<p>
-Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era
-aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o
-amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra
-produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é
-instantaneo e é eterno.
-</p>
-<p>
-O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da
-adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua
-grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?
-</p>
-<p>
-A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra
-negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a
-terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte
-do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda
-em orvalho fecundo?
-</p>
-<p>
-O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados,
-vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população
-de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a
-preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em
-repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a
-respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos
-batendo dominadoramente as pedras duras do chão.
-</p>
-<p>
-Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.
-</p>
-<p>
-Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto
-desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e
-meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a
-porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro
-lampejante de mar.
-</p>
-<p>
-Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e
-de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava
-de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças.
-Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella
-confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a
-impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.
-</p>
-<p>
-Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro,
-agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada
-sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se
-aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado
-para descer ao outro em escadarias toscas.
-</p>
-<p>
-De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para
-extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas
-de moças cantavam modinhas ternas.
-</p>
-<p>
-Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés,
-d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas
-ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam
-trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.
-</p>
-<p>
-O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a
-face quente e robusta da terra.
-</p>
-<p>
-Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.
-</p>
-<p>
-Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres,
-trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era
-resignado e sabia esperar.
-</p>
-<p>
-A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.
-</p>
-<p>
-Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle
-viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces
-para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.
-</p>
-<p>
-Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas
-velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam
-em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a
-atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.
-</p>
-<p>
-Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o
-capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.
-</p>
-<p>
-Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda
-inconstante...
-</p>
-<p>
-Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só
-voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e
-ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.
-</p>
-<p>
-Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na
-telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou
-esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento
-continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os
-predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia,
-coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo
-o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto
-docil e amorosa para com o outro...
-</p>
-<p>
-Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho
-de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações
-felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria
-mais ninguem assim, tão desafortunado.
-</p>
-<p>
-Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o
-coração tranquillo, com fé no amor!
-</p>
-<p>
-Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação
-da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse,
-mas não amasse o outro!
-</p>
-<p>
-E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque
-havia de ser o outro, e não elle?
-</p>
-<p>
-O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres
-moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de
-exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo
-teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes,
-tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se
-guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as
-miserias embelleza.
-</p>
-<p>
-E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus
-dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia
-neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo
-que combate ou pelo que amplia?
-</p>
-<p>
-Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado,
-amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla
-de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre
-doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem
-encerrada no circulo de seus deveres.
-</p>
-<p>
-Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como
-adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente
-e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe,
-salvar-se do perigo que o solicitava.
-</p>
-<p>
-Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria
-o seu orgulho de homem.
-</p>
-<p>
-A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.
-</p>
-<p>
-A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com
-ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria
-para bordo aprestar o <i>Neptuno</i>.
-</p>
-<p>
-Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para
-que? não tornaria a vel-a...
-</p>
-<p>
-Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella,
-sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem
-nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o
-poder da sua vontade.
-</p>
-<p>
-Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do
-norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria,
-inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...
-</p>
-<p>
-O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e
-só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento
-forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado
-apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe,
-extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello;
-elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle
-aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos.
-Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu
-tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo
-deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.
-</p>
-<p>
-D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras,
-desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o
-calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou
-para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa
-occasião.
-</p>
-<p>
-Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e
-das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e
-risonhas nas suas <i>toilettes</i> claras.
-</p>
-<p>
-D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as
-mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha
-esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.
-</p>
-<p>
-Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia
-Theodoro, como estava a boa Camilla?
-</p>
-<p>
-Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.
-</p>
-<p>
-A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe,
-dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais
-atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e
-offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos
-objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á
-cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse
-do que para dizer alguma coisa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido
-sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo
-é de ingratos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.
-</p>
-<p>
-Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as
-lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das
-cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel,
-numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão
-insupportavel a longura da viagem.
-</p>
-<p>
-Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que
-ninguem o via, senão no palacete Theodoro?
-</p>
-<p>
-Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e
-contemplou-o com curiosidade.
-</p>
-<p>
-Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos,
-apontando o portão da sua residencia.
-</p>
-<p>
-O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta,
-admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices
-da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida
-e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de
-formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão
-enluvada?
-</p>
-<p>
-A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se
-a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que
-ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O <i>bond</i>
-parara no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da
-madrasta; o portão estava aberto, entrou.
-</p>
-<p>
-Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus
-pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por
-uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao
-fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e
-simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.
-</p>
-<p>
-Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos,
-e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em
-semicirculo.
-</p>
-<p>
-Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e
-ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do
-costume.
-</p>
-<p>
-&mdash;Chamaste medico?
-</p>
-<p>
-&mdash;Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que Hermengarda?
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sei.
-</p>
-<p>
-&mdash;D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os
-dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D.
-Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as
-arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o
-adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo
-cheiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tens feito?
-</p>
-<p>
-&mdash;Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha
-se eu quizer sahir?
-</p>
-<p>
-&mdash;Effectivamente estás muito só.
-</p>
-<p>
-&mdash;Preciso casar-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;Casa-te.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho medo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Os homens assustam-te?
-</p>
-<p>
-&mdash;Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto!
-Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sê honesta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem pode saber hoje o que será amanhã?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma
-indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de
-calma e de reflexão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo.
-Chama-me com malicia&mdash;<i>doutora</i>. Todos os meus gostos são
-assumpto de mofa para ella, e todos os seus são para mim de
-aborrecimento. E ahi tens a calma d'esta casa. Fresca tranquillidade!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!
-</p>
-<p>
-&mdash;Com quem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Commigo não pode ser.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem tu quererias.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque amas a Camilla Theodoro.
-</p>
-<p>
-Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O
-jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e
-cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto,
-pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nega, se és capaz; disse ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não nego.
-</p>
-<p>
-Quedaram-se mudos, contemplando-se de face.
-</p>
-<p>
-Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe
-assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio.
-Catharina murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella
-e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem eu; mas a sociedade absolveu-o...
-</p>
-<p>
-&mdash;Os homens. Ella era tão boa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Enganou-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento
-de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de
-uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a
-beijar-lhe a mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem mesmo na hora da morte?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao
-encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle
-percebeu tudo. Que morte!
-</p>
-<p>
-&mdash;Foste cruel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fui humana. Tu o amavas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Antes? muito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Mas era nosso pae...
-</p>
-<p>
-&mdash;E ella era nossa mãe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura
-entre as mulheres.
-</p>
-<p>
-Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi no <i>Neptuno</i> que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino
-mudando de tom.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde havia de ser?
-</p>
-<p>
-&mdash;E só aquella vez bastou?
-</p>
-<p>
-&mdash;Só.
-</p>
-<p>
-&mdash;Manda calar aquelle sabiá, Catharina!
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa lá o passaro; chora.
-</p>
-<p>
-&mdash;... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa...
-Entrego em Belém o commando do <i>Neptuno</i> a outro. Tenho
-substituto; está tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo
-fugir-lhe. Não era preciso que evocasses a lembrança do passado para
-me dissuadir...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor
-não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella
-ama o Dr. Gervasio...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por quem soubeste isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo,
-benza-a Deus!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento
-traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada
-desembainhada para todas as faltas, aquella mulher!
-</p>
-<p>
-&mdash;De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso
-assim fosse, quem poderia adivinhar?
-</p>
-<p>
-&mdash;João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não
-ama ninguem; não ama ninguem!
-</p>
-<p>
-Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar,
-um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que
-as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e
-calma, toda azul, com leves tons opalinos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Catharina?
-</p>
-<p>
-&mdash;João?
-</p>
-<p>
-&mdash;Precisava ter-te sempre a meu lado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus
-filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Soffres muito?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem.
-Custa muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo.
-</p>
-<p>
-Sorriram ambos, com tristeza.
-</p>
-<p>
-Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina
-tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se
-com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa.
-</p>
-<p>
-Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da
-madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um
-lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda
-tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa
-muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.
-</p>
-<p>
-O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e
-a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito
-frio.
-</p>
-<p>
-Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras,
-recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em
-bicos de pés.
-</p>
-<p>
-Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se
-alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais
-intimo.
-</p>
-<p>
-Elle perguntou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?
-</p>
-<p>
-&mdash;Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria
-depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim,
-quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas
-o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu
-sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.
-</p>
-<p>
-Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto
-era na visinhança.
-</p>
-<p>
-Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu,
-ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de
-separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que
-em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com
-sinceridade&mdash;o d'ella.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XII">XII</a></h4>
-
-<p>
-Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria:
-era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de
-que o negociante fizera o seu escriptorio.
-</p>
-<p>
-Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada
-para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de
-plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés
-morria.
-</p>
-<p>
-Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha
-estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua
-attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do
-aposento, vasto e sobrio.
-</p>
-<p>
-Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das
-coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma.
-</p>
-<p>
-A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros
-industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano.
-Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um
-cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento.
-</p>
-<p>
-Do lampeão de bronze com <i>abat-jour</i>, cahia uma luz bem dirigida,
-espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo.
-</p>
-<p>
-Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o
-Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua.
-</p>
-<p>
-A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos
-não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus
-olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus
-movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da
-sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa,
-a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida
-alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio.
-</p>
-<p>
-Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de
-prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco
-Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o
-desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto
-experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella
-entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer
-empreza.
-</p>
-<p>
-Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa
-condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital,
-avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando
-zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o
-pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem.
-</p>
-<p>
-E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No
-mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou
-uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer
-pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida.
-</p>
-<p>
-O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em
-borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.
-</p>
-<p>
-Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e
-as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade.
-Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a
-vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do
-desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante,
-não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que
-elle não conseguia dirigir a seu modo.
-</p>
-<p>
-Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de
-goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é
-que lhe parecia uma ignominia.
-</p>
-<p>
-Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do
-homem obrigava-o a transigir um pouco...
-</p>
-<p>
-Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal
-chegava o echo das correrias das pequenas.
-</p>
-<p>
-Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não
-pede, mas offerece favores.
-</p>
-<p>
-Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da
-cabeça, começou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café.
-O Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua
-prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi
-elle que me disse que o consultasse tambem.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do
-Braga scintillavam na sombra.
-</p>
-<p>
-Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom
-criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o,
-revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração
-perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia,
-fortificando-o com argumentos persuasivos.
-</p>
-<p>
-Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum
-artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio
-prestava-se.
-</p>
-<p>
-Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos
-difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O
-tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se.
-</p>
-<p>
-Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais
-rude.
-</p>
-<p>
-O assalto assustava-o.
-</p>
-<p>
-Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos,
-Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger
-resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a
-seductoramente.
-</p>
-<p>
-Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle
-não fallasse com a autoridade de bom conhecedor.
-</p>
-<p>
-Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias
-o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em
-certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da
-promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era
-documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno,
-annotado nas margens, com lettra miuda.
-</p>
-<p>
-Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem
-argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta
-incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por
-instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro,
-e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia.
-</p>
-<p>
-O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa.
-Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a
-propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro
-approvou.
-</p>
-<p>
-Reconhecia nos inglezes grande capacidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor
-porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Superioridade de raça... Sim, é o que dizem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de
-educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais
-forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo
-de figado que tenha ingerido em pequeno.
-</p>
-<p>
-A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas
-especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de
-negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as
-mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o
-que o inglez nasce e se desenvolve.
-</p>
-<p>
-Por isso o commercio d'elles é tão forte.
-</p>
-<p>
-Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo
-estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos!
-</p>
-<p>
-Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto.
-</p>
-<p>
-Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas,
-estatisticas...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem
-tirar os olhos dos papeis:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:&mdash;o Gama
-Torres.
-</p>
-<p>
-&mdash;É rapaz novo...
-</p>
-<p>
-&mdash;E atiladissimo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Os negocios precisam ser feitos com vagar...
-</p>
-<p>
-&mdash;Á moda antiga.
-</p>
-<p>
-&mdash;De todos os tempos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do
-thermometro.
-</p>
-<p>
-As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos
-alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra
-épocha. Esta é a melhor.&mdash;É a unica.
-</p>
-<p>
-Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores
-e mais convincentes do que palavras:&mdash;cifras.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e
-seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro
-apontavam e percorriam rapidamente.
-</p>
-<p>
-Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação,
-assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de
-desabar em blocos de ouro.
-</p>
-<p>
-Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma
-objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem
-já vinha prevenido para tudo.
-</p>
-<p>
-Á meia-noite ergueu-se, dizendo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra
-vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das
-duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em
-cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na
-soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas.
-</p>
-<p>
-&mdash;É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites!
-</p>
-<p>
-Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento
-gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do
-Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras
-lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e
-morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção...
-</p>
-<p>
-Quando no dia seguinte abriu o <i>Jornal</i>, na frescura da varanda,
-percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se
-presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros
-caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro
-desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga.
-</p>
-<p>
-E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabe uma coisa, papaezinho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ... não sei nada. Que temos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma desgraça.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que dizes?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para
-lhe dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então a desgraça é essa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os
-outros, que podem mais, se esqueçam d'ella...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, não lhe falta nada.
-</p>
-<p>
-&mdash;A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz
-annos, o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se
-fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a
-minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente...
-Entretanto...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acaba.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com
-mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios
-de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer
-que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor
-ou a mamãe.
-</p>
-<p>
-Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem te lembrou isso hoje?
-</p>
-<p>
-&mdash;Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom; promette-lhe o chapéu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só?
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece-te que temos sido ingratos para com ella?
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que coisa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata
-que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:&mdash;mas porque é que você não
-compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e
-ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não
-podia tomar gelo, mas perguntei:&mdash;porque é que você não toma um
-sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor
-vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem
-uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que
-desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma
-carteirinha no bolso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Queres então dar-lhe uma carteira?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por
-mamãe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço.
-</p>
-<p>
-Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio
-faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer.
-</p>
-<p>
-Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se
-para a sobrinha, declarou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para
-você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os
-mezes um vestido a seu gosto.
-</p>
-<p>
-A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou
-com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a
-saude. Ella começou a chorar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De
-maneiras que você...
-</p>
-<p>
-Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla
-applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos.
-</p>
-<p>
-Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao
-tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou:
-</p>
-<p>
-&mdash;A casa não é grande, mas é nova e bonitinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever,
-insistindo para que você não falte ao baile do pae.
-</p>
-<p>
-Parece que a Paquita está apaixonada!
-</p>
-<p>
-Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que
-recomeçara a partir o <i>beef</i> das primas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do
-Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só
-attribuo a querel-o o Meirelles para genro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O
-Meirelles não é nenhum parvo.
-</p>
-<p>
-Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de
-mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não
-quero.
-</p>
-<p>
-Nina tremia.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro riu alto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou
-a outra, com um homem de peso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois sim!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são?
-</p>
-<p>
-&mdash;Cinco, parece-me que cinco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem
-nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do <i>Chora vintens</i>...
-D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio...
-Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho
-de nojo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que queres? Nem todos nascem para doutores.
-</p>
-<p>
-Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega;
-todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do
-filho.
-</p>
-<p>
-Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que foi que eu lhe disse hoje?
-</p>
-<p>
-A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa
-nova?
-</p>
-<p>
-&mdash;Borboleta azul?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul?
-Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito
-dote... E ainda ha quem não acredite!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, é verdade, você me disse...
-</p>
-<p>
-E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de
-doçura.
-</p>
-<p>
-Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga
-apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S.
-Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em
-casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que
-transparecia a mais viva curiosidade.
-</p>
-<p>
-O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os
-pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de
-dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro
-prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia,
-na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto.
-</p>
-<p>
-Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão
-uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna
-não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade,
-tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e,
-cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao
-Innocencio...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIII">XIII</a></h4>
-
-<p>
-O palacete Theodoro preparava-se para o baile.
-</p>
-<p>
-Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e
-corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de
-escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando
-<i>parquets</i> e de moveis deslocados.
-</p>
-<p>
-Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o
-despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas
-escancaradas, com inteiro desassombro.
-</p>
-<p>
-Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa
-perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel
-e discreto.
-</p>
-<p>
-Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a
-interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma
-salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um
-romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e
-não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das
-suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro
-abandonados.
-</p>
-<p>
-Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.
-</p>
-<p>
-Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da
-modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas
-sobre <i>tules</i>, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.
-</p>
-<p>
-O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas
-salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho
-das dansas.
-</p>
-<p>
-Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando
-para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não
-provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal,
-quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!
-</p>
-<p>
-E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que
-tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio
-não a deixava tomar corpo.
-</p>
-<p>
-Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem
-determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de
-musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco;
-foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e
-harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos
-parecia a Camilla perfeito.
-</p>
-<p>
-Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As
-gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se
-por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da
-desordem que provocavam.
-</p>
-<p>
-Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.
-</p>
-<p>
-Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta
-do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.
-</p>
-<p>
-Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais
-risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a
-familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava
-construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um
-avestruz.
-</p>
-<p>
-Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta
-por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes,
-estacou surprehendida.
-</p>
-<p>
-De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús,
-soprando em longos flautins de ouro.
-</p>
-<p>
-A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce,
-porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças,
-que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da
-atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida
-da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus
-olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.
-</p>
-<p>
-Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A
-machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.
-</p>
-<p>
-Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se
-podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e
-bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas
-de filó batiam tremulas.
-</p>
-<p>
-Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um
-paiz de sonho.
-</p>
-<p>
-Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a
-vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas
-tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em
-flechas de sol.
-</p>
-<p>
-Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio
-entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da
-parede:
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou gostando de vêr...
-</p>
-<p>
-«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao
-mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não
-lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.
-</p>
-<p>
-Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle
-respondeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e
-injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia
-esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma
-perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não
-digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o
-effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a
-mamãe que me mande ensinar pintura...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é
-raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não
-pense em mais nada...
-</p>
-<p>
-Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a
-não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos
-trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no
-caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de
-musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou
-coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.
-</p>
-<p>
-Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo
-lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da
-illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os
-canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.
-</p>
-<p>
-Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a
-Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia
-Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao
-Observatorio para vêr a lua e as estrellas.
-</p>
-<p>
-Era a occasião.
-</p>
-<p>
-Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no
-oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa
-rezada.
-</p>
-<p>
-D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a
-essa hora o&mdash;<i>ora pro nobis</i> em côro com o povo e os frades.
-</p>
-<p>
-Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas
-encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes
-desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia
-todos os sacrificios. Ficaria.
-</p>
-<p>
-Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa
-em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu,
-perguntando pela sua encommenda.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que encommenda, gente?
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que
-eu pedi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu
-dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?
-</p>
-<p>
-A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não diga nada...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é tola!...
-</p>
-<p>
-A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser
-ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas
-dilatadas farejando mysterios.
-</p>
-<p>
-D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo
-questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando
-desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel
-de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha.
-Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e
-torpes:
-</p>
-<p>
-&mdash;O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae, sim, senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei...
-</p>
-<p>
-&mdash;Camilla sae sozinha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ás vezes sae.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque é que você não vae sempre com ella, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tenho que estudar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não fica bem uma senhora sahir só...
-</p>
-<p>
-Ruth contemplou-a, estupefacta.
-</p>
-<p>
-&mdash;As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.
-</p>
-<p>
-&mdash;Em quantos contos está?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei, não, senhora...
-</p>
-<p>
-&mdash;O Dr. Gervasio vae tambem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho que não.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de
-olho?
-</p>
-<p>
-&mdash;P'ra Nina? não, senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz
-que estão reformando tudo! é verdade?
-</p>
-<p>
-Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do
-medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço,
-as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o
-vestibulo...
-</p>
-<p>
-D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava
-a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um
-sorriso torto:
-</p>
-<p>
-&mdash;Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.
-</p>
-<p>
-Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor.
-Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a
-lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã
-voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a
-viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que
-por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha
-julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra
-o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que
-embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...
-</p>
-<p>
-Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca
-rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!
-</p>
-<p>
-D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se
-precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra
-tia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem foi que trouxe você?
-</p>
-<p>
-&mdash;Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não
-queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi,
-tanto pedi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de
-trinta annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É
-muito triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...
-</p>
-<p>
-Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a
-duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu:
-primeiro de dor, depois de allivio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã
-poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...
-</p>
-<p>
-&mdash;E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim.
-Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma
-curiosidade!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha,
-sim?
-</p>
-<p>
-Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de
-kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou
-a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.
-</p>
-<p>
-Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á
-janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe
-historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de
-rogada.
-</p>
-<p>
-As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam
-a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num
-ambiente tão diverso do que lhe era habitual.
-</p>
-<p>
-Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a
-nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças
-flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando
-judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições
-injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os
-extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã,
-assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a
-vastidão sombria do aposento mudo.
-</p>
-<p>
-Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas
-indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das
-lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho
-erguido a uivar...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tia Joanna, tia Joanna!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isso, minha filha?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que
-ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda
-hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda
-muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem
-simples.
-</p>
-<p>
-&mdash;Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem sangue, nem fogueiras:&mdash;Foi um dia...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIV">XIV</a></h4>
-
-<p>
-«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a
-Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de
-rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.
-</p>
-<p>
-Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria
-negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.
-</p>
-<p>
-Uma tristeza.
-</p>
-<p>
-No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da
-portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão
-doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror
-Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda
-e murmurava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ave!
-</p>
-<p>
-E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.
-</p>
-<p>
-Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu
-habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu
-ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella,
-tirando a cruz e o véu.
-</p>
-<p>
-Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome.
-Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera
-tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não
-sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...
-</p>
-<p>
-Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?
-</p>
-<p>
-Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella,
-com dois olhos que nem duas estrellas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo
-as mãos tremulas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.
-</p>
-<p>
-E logo de mil modos começou a tental-a.
-</p>
-<p>
-Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida.
-Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe
-que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no
-abysmo...
-</p>
-<p>
-A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer
-despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que
-fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos,
-muito tremula, muito alvoroçada.
-</p>
-<p>
-Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus
-que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O
-beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado,
-embriagador.
-</p>
-<p>
-Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha
-deliquios, abstracções.
-</p>
-<p>
-O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que
-fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares
-cheirosos e aguas crystallinas.
-</p>
-<p>
-Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os
-labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a
-perpetua bemaventurança, mais que tudo!
-</p>
-<p>
-E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á
-portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.
-</p>
-<p>
-Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A
-freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas
-ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu
-cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e
-tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava
-com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando
-contrictamente:&mdash;Ave!&mdash;e passava; mas, oh! surpreza! a grande
-porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só
-havia grossas paredes impenetraveis.
-</p>
-<p>
-Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.
-</p>
-<p>
-Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão
-levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a
-communidade entoava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos
-trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!
-</p>
-<p>
-Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em
-redor, por aquellas penedias.
-</p>
-<p>
-E entoavam hymnos.
-</p>
-<p>
-Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão
-aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto
-voltado para a outra banda.
-</p>
-<p>
-Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa
-vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e
-trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que
-a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...
-</p>
-<p>
-Depois...
-</p>
-<p>
-Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a
-misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão&mdash;mas o diabo
-em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de
-cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se
-com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por
-mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés
-ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os
-penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.
-</p>
-<p>
-Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito
-velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar
-em uma religiosa fugida do convento um anno antes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são
-todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Amen</i>! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que
-recebia rosas...
-</p>
-<p>
-&mdash;A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se
-soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.
-</p>
-<p>
-Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer,
-com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma peccadora arrependida, para a penitencia&mdash;sussurrou soror
-Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...
-</p>
-<p>
-A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos
-enferrujados estavam de velludo,&mdash;e a rodeira mostrou se com um
-sorriso á freira apoquentada.
-</p>
-<p>
-Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os
-joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa
-compuncção e infinita doçura:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ave!
-</p>
-<p>
-A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a
-fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam:
-badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos
-altares e arrumando os gavetões da sacristia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua
-cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...
-</p>
-<p>
-Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria;
-depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:
-</p>
-<p>
-&mdash;E Vós, Mãe Santissima?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho
-azul...»
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o
-lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior
-economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror
-Pallida.
-</p>
-<p>
-Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se
-das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito
-branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o
-quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso,
-e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do
-silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos
-lancinantes.
-</p>
-<p>
-Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isto, tia Joanna?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu Deus!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é nada, dorme, minha filha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na
-coitada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de
-intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou eu.
-</p>
-<p>
-Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um
-movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz;
-guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a
-cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de
-marmelleiro.
-</p>
-<p>
-A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a
-cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia
-descahindo sobre a carapinha da outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com
-impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito
-gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth,
-vá dormir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem
-coração?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!
-</p>
-<p>
-A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava
-as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço,
-puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua
-carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio
-nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de
-ajustar contas...
-</p>
-<p>
-Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e
-Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.
-</p>
-<p>
-A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:
-</p>
-<p>
-&mdash;É sempre assim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ... uma vez ou outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas como podem viver neste inferno?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que
-ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim.
-E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é
-raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das
-missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu
-não teria paciencia para a aturar.
-</p>
-<p>
-&mdash;A Sancha vae amanhã commigo para casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?
-</p>
-<p>
-&mdash;Aluguem uma mulher.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz
-tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei.
-Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto
-de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a
-apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais
-nella. Durma...
-</p>
-<p>
-Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se
-levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir
-tambem.
-</p>
-<p>
-Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a
-Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se
-chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo
-que a tia Joanna a ouvisse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sancha, porque é que você não foge?
-</p>
-<p>
-A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nhá?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fuja!
-</p>
-<p>
-A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada.
-Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.
-</p>
-<p>
-&mdash;E depois? perguntou ella, assustada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.
-</p>
-<p>
-&mdash;De que serve! me mandarão outra vez para cá...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...
-</p>
-<p>
-A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café
-da vespera, requentado.
-</p>
-<p>
-Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos
-telhados, e nada se via da cidade, em baixo.
-</p>
-<p>
-Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello
-espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros
-vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a
-madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a
-pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella
-luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.
-</p>
-<p>
-Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma
-oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o
-altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma
-supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um
-ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores,
-foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De
-mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de
-piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias
-do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona,
-fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam
-soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr
-nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos
-seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa
-delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou
-uma saudade absurda, a <i>saudade do céo</i>, como dizia o Dr. Gervasio, e
-que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que
-germinava no seu peito fraco.
-</p>
-<p>
-E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se
-á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a
-ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé,
-apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões
-rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!
-</p>
-<p>
-Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida,
-se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
-</p>
-<p>
-Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça
-para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos
-rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes
-perseguidos.
-</p>
-<p>
-E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a
-fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e
-soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao
-grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão
-bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle
-corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda
-e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava
-Ruth, confusa, com os olhos no altar.
-</p>
-<p>
-Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas
-corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.
-</p>
-<p>
-Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de
-agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de
-boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os
-ultimos farrapos de neblina.
-</p>
-<p>
-A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a
-egreja do Carmo.
-</p>
-<p>
-Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em
-egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você conhece a egreja do Carmo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto
-das egrejas grandes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora essa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á
-senhora não acontece o mesmo?
-</p>
-<p>
-&mdash;A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou
-não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e
-fria, que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?
-</p>
-<p>
-&mdash;Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas.
-Elle está em toda a parte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?
-</p>
-<p>
-D. Joanna estacou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem.
-</p>
-<p>
-&mdash;E a Sancha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;A Sancha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá vem você com a negrinha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Negra ou branca, é creatura.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não digo que não. Mas que falta á Sancha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz.
-Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada,
-d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho
-nos braços.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia
-Joanna. Tomara eu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Menina, que é que você está dizendo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte
-filhos, vinte!
-</p>
-<p>
-A velha corou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a
-repetil-as, ouviu?
-</p>
-<p>
-Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D.
-Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma
-harpa, outra com uma rabeca:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á
-chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar
-livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em
-qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao
-menos estes teem a musica.
-</p>
-<p>
-D. Joanna riu-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade; quando você toca esquece tudo.
-</p>
-<p>
-Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar
-sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para
-que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na
-primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as
-saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel
-aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!
-</p>
-<p>
-Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da
-egreja.
-</p>
-<p>
-Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia
-ouvil-a. No adro lembrou ainda:
-</p>
-<p>
-&mdash;Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do
-padre Euclydes, que está doente.
-</p>
-<p>
-Ruth objectou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas titia, eu estou com fome...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará
-informações e seguiremos logo para casa.
-</p>
-<p>
-Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria
-as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á
-missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes.
-D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da
-egreja, dizendo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Rezemos por alma d'este morto, filha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas nós nem o conhecemos, titia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.
-</p>
-<p>
-Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar.
-Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth
-deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle
-desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...
-</p>
-<p>
-Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!
-</p>
-<p>
-Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a
-chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no
-domingo a sua missa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse
-Ruth.
-</p>
-<p>
-&mdash;Peça, filhinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A
-estas horas elle está farto de estar no armazem.
-</p>
-<p>
-D. Joanna hesitou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe que não é tão perto assim...
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos lá... Que pieguice!
-</p>
-<p>
-Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco
-Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas,
-empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um
-paletot preto fazia resaltar a alvura.
-</p>
-<p>
-Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle
-extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:
-</p>
-<p>
-&mdash;Senhora fujona, que faz por aqui?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora
-procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos
-almoçar...
-</p>
-<p>
-Se papae nos levasse a um hotel?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o
-Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.
-</p>
-<p>
-E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis,
-aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E
-despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth
-mandava á mãe.
-</p>
-<p>
-D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais
-valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um
-restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas
-economias sordidas da irmã.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei
-contente; respondeu-lhe a menina.
-</p>
-<p>
-Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e
-entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr.
-Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de
-rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam
-o escrupulo dos moradores.
-</p>
-<p>
-O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho,
-arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo
-cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o
-rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina
-da velhice.
-</p>
-<p>
-D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth
-tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.
-</p>
-<p>
-Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do
-almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no
-fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa
-recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e
-Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo
-com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.
-</p>
-<p>
-Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas
-camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e
-para elles fazia convergir todos os seus cuidados.
-</p>
-<p>
-A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se
-acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim,
-mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para
-medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados,
-escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de
-grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.
-</p>
-<p>
-Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas
-de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á
-sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.
-</p>
-<p>
-Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela
-innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no
-seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á
-morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E
-toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.
-</p>
-<p>
-D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com
-difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os
-ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do
-medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de
-primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as
-nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir
-tão alto, tão alto!
-</p>
-<p>
-&mdash;O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e
-todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa;
-percebem?
-</p>
-<p>
-D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth
-murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!
-</p>
-<p>
-Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que
-se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo
-corredor.
-</p>
-<p>
-D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O
-marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe
-valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal
-e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já
-trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim,
-por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.
-</p>
-<p>
-Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu
-a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota
-da negrinha não ouvira o seu conselho?
-</p>
-<p>
-Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido
-ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder
-abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna
-benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua
-consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era
-bom, estava tudo sempre muito bem.
-</p>
-<p>
-Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para
-vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e
-tantas as suas exclamações, que a tia observou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é muito exaggerada, Ruth!
-</p>
-<p>
-Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado,
-aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta
-estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um
-<i>bouquet</i> de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e
-outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas,
-que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas
-como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata,
-aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando,
-cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica...
-Depois a lua...
-</p>
-<p>
-&mdash;Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna,
-como é bonito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom, bom; divirta-se...
-</p>
-<p>
-Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia
-d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem
-sobre ella aromas que a embriagassem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Filhinha, vamo-nos embora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!
-</p>
-<p>
-Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que
-tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada
-as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de
-flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia
-lhe ouviu em um murmurio entrecortado:
-</p>
-<p>
-&mdash;Como é bonito!
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha
-para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros
-pela casa.
-</p>
-<p>
-Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é?
-</p>
-<p>
-A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:
-</p>
-<p>
-&mdash;A Sancha fugiu!
-</p>
-<p>
-Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.
-</p>
-<p>
-Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde
-teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa
-se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora!
-sempre seria mais feliz lá fora...
-</p>
-<p>
-Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços
-ao pescoço. Era a sua libertação.
-</p>
-<p>
-D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se
-levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada,
-provocando a negrinha para o assanhamento da rua.
-</p>
-<p>
-Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha,
-deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo
-vagavam conjunctamente.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XV">XV</a></h4>
-
-<p>
-Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas,
-quando viu entrar a Therezinha Braga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo
-figurino.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno!
-</p>
-<p>
-Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira
-tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança.
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em
-seu nome?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança.
-Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae
-tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez
-se possa arranjar alguma coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.
-</p>
-<p>
-Servindo o café, Nina explicou á Therezinha:
-</p>
-<p>
-&mdash;A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande
-logo os seus figurinos.
-</p>
-<p>
-&mdash;É para o meu vestido de baile.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você mesma é que o vae fazer?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não...
-</p>
-<p>
-&mdash;Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o
-vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a
-Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia:
-parece outra coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Está muito bonita, agora, depois que engordou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas cada vez mais maliciosa...
-</p>
-<p>
-Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e
-Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos,
-muito pirracentas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os
-sonhos a Ruth.
-</p>
-<p>
-Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se
-balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram
-para a mesa, á espera do café.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora graças!
-</p>
-<p>
-Engulido o café, Therezinha declarou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!
-</p>
-<p>
-As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim;
-Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre
-os restos assucarados dos pratos.
-</p>
-<p>
-De repente, Nina:
-</p>
-<p>
-&mdash;Em que é que você está pensando, Ruth?
-</p>
-<p>
-&mdash;Na Sancha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que ideia!
-</p>
-<p>
-&mdash;É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive
-tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu
-vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não
-sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que
-fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa,
-que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond...
-Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel!
-</p>
-<p>
-Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera
-envenenar-se; era menos burra do que parecia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia
-Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá?
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas
-visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com
-Mario?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mario não gosta d'ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem disse?
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ouvi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? Quem sabe o que estará para acontecer!
-</p>
-<p>
-Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da
-Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o
-baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos.
-</p>
-<p>
-O negociante olhou boquiaberto para a mulher.
-</p>
-<p>
-Ella disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a
-Europa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas é incrivel!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer
-entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage
-está doida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada.
-Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente.
-Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se
-casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida.
-A experiencia da vida é um grande dote.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você falla com Mario?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante
-asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos.
-Falla-lhe tu ... se quizeres.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos,
-fazendo tilintar as chaves.
-</p>
-<p>
-&mdash;A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o
-Innocencio...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como soube ella d'isso?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho medo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles
-querem mesmo o casamento?
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O
-Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom
-gosto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por
-emquanto é bom não dizer nada a ninguem.
-</p>
-<p>
-&mdash;A quem o dizes...
-</p>
-<p>
-Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado,
-vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.
-</p>
-<p>
-Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?
-</p>
-<p>
-Abriu a janella e encostou-se.
-</p>
-<p>
-De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a
-musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.
-</p>
-<p>
-No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam
-as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva
-sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás
-mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como
-ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme
-posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas,
-rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de
-palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma
-cesta de fructas e frescos pés de alface.
-</p>
-<p>
-A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força,
-nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com
-clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir
-sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.
-</p>
-<p>
-No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza
-enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.
-</p>
-<p>
-Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos
-alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e
-as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do
-seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição
-da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.
-</p>
-<p>
-Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter
-sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.
-</p>
-<p>
-Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua,
-desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo
-sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a
-abundancia e a alegria.
-</p>
-<p>
-As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida.
-</p>
-<p>
-Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da
-janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem
-desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito
-florido por um fresco <i>bouquet</i> de myosotis, as mãos nos bolsos,
-parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito.
-</p>
-<p>
-Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os
-perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa
-estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido
-escuro, dava uns retoques á fructeira.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como sempre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Virá jantar?
-</p>
-<p>
-&mdash;Creio que não...
-</p>
-<p>
-&mdash;É o diacho ... eu precisava fallar-lhe!
-</p>
-<p>
-&mdash;O seu empregado está peior?
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece-me que sim ... coitado...
-</p>
-<p>
-Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no
-velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer que eu mande tocar a sineta?
-</p>
-<p>
-&mdash;É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De
-maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?
-</p>
-<p>
-Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage
-deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario
-se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um
-jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher
-a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella
-creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal
-casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o
-consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por
-caduquice; miolo molle.&mdash;O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao
-Mario!&mdash;resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se
-fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.
-</p>
-<p>
-Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario,
-de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada,
-muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde
-relampejavam fulgores frios.
-</p>
-<p>
-Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira
-depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes
-nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a
-verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só,
-offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade
-outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada
-a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de
-sentimentos dava-lhe desejos máos.
-</p>
-<p>
-A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo
-pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo?
-Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus
-olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com
-as delicias do amor?
-</p>
-<p>
-Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga,
-apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de
-arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a
-historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia,
-não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem
-tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...
-</p>
-<p>
-Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se.
-</p>
-<p>
-Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava
-dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario?
-</p>
-<p>
-Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força,
-reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim
-rosadas, com os cabellos ao vento.
-</p>
-<p>
-Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente,
-pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de
-verdade, puxado a <i>poneys</i>, com o cocheiro vestido de azul.
-</p>
-<p>
-Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a
-conferencia da tia.
-</p>
-<p>
-E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas
-physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como
-se de outra coisa não tivessem tractado.
-</p>
-<p>
-Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido:
-</p>
-<p>
-&mdash;O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo
-gosto para o commercio...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVI">XVI</a></h4>
-
-<p>
-Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado,
-<i>seu</i> Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas,
-olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede
-encardida.
-</p>
-<p>
-Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas
-passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.
-</p>
-<p>
-Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da
-molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se
-quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo,
-que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se
-enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o
-avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola
-e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que
-esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia,
-tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e
-escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com
-os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou
-torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.
-</p>
-<p>
-A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais
-côr de cidra.
-</p>
-<p>
-Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia.
-O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.
-</p>
-<p>
-O pae chamou-a:
-</p>
-<p>
-&mdash;Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me
-incommodando. O paletot está sem botões.
-</p>
-<p>
-Ella não respondeu, foi dentro e voltou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Estão aqui outras meias.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...
-</p>
-<p>
-Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom
-alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu
-terno de casimira está escovado?
-</p>
-<p>
-Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a,
-com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com
-exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que
-as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas
-morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.
-</p>
-<p>
-Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar
-rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os
-olhos para reter as lagrimas.
-</p>
-<p>
-Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua
-defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.
-</p>
-<p>
-Quem diria que de tal mãe...
-</p>
-<p>
-Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da
-cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.
-</p>
-<p>
-De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que jantarzinho cangueiro...
-</p>
-<p>
-Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que
-elle engulia com esforço.
-</p>
-<p>
-Nesse dia a tarde estava quente.
-</p>
-<p>
-O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras
-de baixo, reunidas no quintal.
-</p>
-<p>
-Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira
-voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas
-frias tornou-se insuportavel.
-</p>
-<p>
-Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a
-bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.
-</p>
-<p>
-O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos
-livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e
-de sentir a morrinha da casa suja.
-</p>
-<p>
-Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de
-alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda
-recambiada, fatias de <i>Mané-taiado</i>, ou cocadas com abobora, sujeitas
-ao azedume. E então era só:
-</p>
-<p>
-&mdash;Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos
-dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E
-adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!
-</p>
-<p>
-Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.
-</p>
-<p>
-Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o
-Ribas.
-</p>
-<p>
-<i>Seu</i> Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao
-rapaz, mas abria os ouvidos.
-</p>
-<p>
-Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia
-duzia de palavras:
-</p>
-<p>
-&mdash;Hontem houve um baile em casa de <i>seu</i> Theodoro. Diz que a rua
-estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem acredita nisso...
-</p>
-<p>
-&mdash;O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos.
-Foi ao baile coberta de joias. <i>Seu</i> Guimarães, <i>seu</i> Castro,
-todos estes turunas do café foram lá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como sabe você de tanta coisa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi o Isidoro quem me contou.
-</p>
-<p>
-O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles,
-fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.
-</p>
-<p>
-O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz,
-sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não tem que fazer?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu ainda não achei emprego...
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha
-casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu cunhado não me governa.
-</p>
-<p>
-<i>Seu</i> Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada
-sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo
-de vida, um zum-zum de fóra.
-</p>
-<p>
-O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem
-um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades
-só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda
-aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só
-fallar com o <i>Pirueta</i> da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a
-capoeiragem...
-</p>
-<p>
-Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que
-esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o
-seu ventre enorme.
-</p>
-<p>
-Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando
-ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não
-entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Queria que você me emprestasse quinhentos réis...
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!
-</p>
-<p>
-&mdash;Na gaveta do balcão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu
-o que aconteceu; vá-se embora!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não seja má, Deolinda.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha
-creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada.
-Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não seja sovina; depois eu pago.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora...
-</p>
-<p>
-E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta
-encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia,
-tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas
-ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu
-as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.
-</p>
-<p>
-Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de <i>seu</i> Joaquim, postando-se
-como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua
-faina entrarem e sahirem sem interrupção.
-</p>
-<p>
-Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada
-de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão
-do filho para o trabalho.
-</p>
-<p>
-O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,&mdash;e
-accrescentava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem.
-Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a
-Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na
-volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será
-então tempo de você ceder-lhe o campo...
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu estou morto por isso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do
-<i>Equateur</i>.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim,
-seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria
-um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria
-ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre
-na moldura dos seus cabellos louros.
-</p>
-<p>
-Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e
-dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.
-</p>
-<p>
-Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa
-commercial, que já não acabaria com elle.
-</p>
-<p>
-Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho
-perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a
-sentir que lhe não perdera o amor.
-</p>
-<p>
-Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com
-elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro,
-feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVII">XVII</a></h4>
-
-<p>
-Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu
-quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.
-</p>
-<p>
-Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem
-d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só
-voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita
-cruzar os mares nos braços do seu amor...
-</p>
-<p>
-Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera
-para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao
-chão, quando alguem bateu á porta. Abriu.
-</p>
-<p>
-Era a Noca, que vinha toda alterada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho
-quebrado: morte ou ruina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Morte! se fosse a minha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só
-na vida?
-</p>
-<p>
-&mdash;Muita gente ... eu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver
-o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta.
-Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá andando, eu já vou.
-</p>
-<p>
-Nina mudou de vestido á pressa e desceu.
-</p>
-<p>
-Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo
-desgraças, suggestionados pela influencia da Noca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente,
-pensando na Paquita.
-</p>
-<p>
-&mdash;O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um
-sorriso pallido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez
-aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa.
-Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla.
-</p>
-<p>
-&mdash;É melhor...
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla,
-encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu <i>peignoir</i> marfim
-pontilhado de ouro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou
-beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa.
-</p>
-<p>
-E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres
-d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia
-aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante,
-levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se,
-elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe?
-</p>
-<p>
-Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a
-casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em
-baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela
-escada acima.
-</p>
-<p>
-Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á
-essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá
-Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma
-d'elle que ella trouxesse comsigo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para
-fóra com a mão fulgurante de anneis.
-</p>
-<p>
-Era um pôr-de-sol maravilhoso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores.
-Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se
-matam!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor está doente? perguntou-lhe Nina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim.
-</p>
-<p>
-Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros:
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês
-procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite
-para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle
-não me fique doente...
-</p>
-<p>
-E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla.
-</p>
-<p>
-Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle
-repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o
-fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem
-parecia ouvil-as...
-</p>
-<p>
-Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um
-facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está
-começando... Eu não dizia?»
-</p>
-<p>
-Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do
-Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a
-propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia
-de bem merecer um grande amor.
-</p>
-<p>
-Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e
-redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e
-pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia
-de graça.
-</p>
-<p>
-Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle
-dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas
-aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu.
-</p>
-<p>
-Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que
-se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo
-despedir-se do filho.
-</p>
-<p>
-Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o
-estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle
-sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E
-foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas,
-d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu,
-sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.
-</p>
-<p>
-Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco
-Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio
-Braga.
-</p>
-<p>
-Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do
-Havre para o <i>Jornal</i>, que affirmava ter descido o preço do café nos
-principaes mercados.
-</p>
-<p>
-Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou
-logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas
-risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto
-tudo é jogo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em
-que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga
-esperança.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes
-espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus
-lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é
-coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma.
-</p>
-<p>
-Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!...
-</p>
-<p>
-&mdash;É impossivel!
-</p>
-<p>
-&mdash;Acredite.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não póde ser. O <i>Jornal</i>, tão serio...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque
-sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que
-eu estivesse calmo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado;
-sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou
-ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está
-satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um
-homem do tempo, ha de ir longe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois, eu, confesso-me arrependido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já
-que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao
-Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas
-machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente...
-Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a
-veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as
-horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder
-trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego.
-</p>
-<p>
-Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia
-maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom
-senso naufragava.
-</p>
-<p>
-Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um
-telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser
-verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são
-como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta.
-</p>
-<p>
-Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem
-era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria
-esperar pelas taes provas irrefutaveis...
-</p>
-<p>
-Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao
-<i>Equateur</i>.
-</p>
-<p>
-Foi um alvoroço em casa.
-</p>
-<p>
-Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr
-por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á
-mão de Deus Padre!
-</p>
-<p>
-Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os
-vestidos novos e os chapéos côr de rosa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na
-cidade ... levem os brancos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar!
-</p>
-<p>
-As meninas berraram, e Milla interveio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de
-aborrecer as creanças.
-</p>
-<p>
-Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao
-<i>Neptuno</i>, e voltando-se para a mãe, perguntou:
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino.
-</p>
-<p>
-Camilla levantou os hombros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio
-pela bahia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para
-bulir com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e
-trovões. Ainda ha de ser mais bonito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com
-este sol todo estou com medo, quanto mais...
-</p>
-<p>
-&mdash;É pena que Nina não tivesse vindo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Para quê? para vêr a outra?
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos
-os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não
-sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões.
-</p>
-<p>
-Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o
-Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as
-palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias
-afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás
-ordens que ella lhe dava em phrases curtas:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse
-buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e
-que mandasse a vermelha para o beliche.
-</p>
-<p>
-Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que
-o afastava:&mdash;Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das
-fructas ao <i>maître d'hotel</i>, recommendando-lhe que as mettesse na
-geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das
-cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de
-borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla
-pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco,
-tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo
-aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua
-de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa.
-</p>
-<p>
-Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás
-perguntas da sogra.
-</p>
-<p>
-Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa
-á ré.
-</p>
-<p>
-O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do <i>Jornal</i> inserido
-na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em
-secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital
-fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as
-palavras do Braga e as suas affirmações.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um
-especulador sem escrupulos ... quer mais claro?&mdash;é um ladrão!
-</p>
-<p>
-Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já
-passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!
-</p>
-<p>
-Vi a prova. O patife!
-</p>
-<p>
-Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro
-marreco que tal! Homem&mdash;não se deixe levar pelas cantigas novas, nós
-antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo
-terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não
-tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para
-descerem sem precipitação...
-</p>
-<p>
-Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada,
-recommendou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Juizo, meu rapaz!
-</p>
-<p>
-Camilla, branca como marmore, apertou o filho com força ao coração;
-depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e
-fixou nelle em uma queixa muda os seus grandes olhos maguados. Foi só
-na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ella desatou em
-soluços que ninguem tentou reprimir.
-</p>
-<p>
-Havia em todos egual resentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de
-lambisgoia, percebendo que ella roubava o Mario a toda a familia,
-absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras
-do amor. Cuidára ella nunca por ventura que um abraço de despedida
-custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos
-rostos preoccupados, e só Francisco Theodoro acenou para o filho com um
-lenço, pondo naquelle adeus toda a sua ternura.
-</p>
-<p>
-Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a unica pessoa
-da familia que elle via salva era o Mario!
-</p>
-<p>
-Chegando á terra, Camilla e as filhas foram de carro para casa, e
-Francisco Theodoro, depois de almoçar á pressa num restaurante, seguiu
-impaciente para o armazem.
-</p>
-<p>
-Á porta d'elle a pretinha Terencia guinchava contra um italianinho que
-se lhe associara sem licença ao negocio, atirando-se á pilhagem do
-café da calçada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha alguma novidade? perguntou Theodoro ao gerente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhor. Ah! é verdade, o Motta parece que está moribundo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pobre homem...
-</p>
-<p>
-&mdash;A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha de ser preciso mandar recursos a essa gente...
-</p>
-<p>
-&mdash;Arreda d'alli aquelle sacco, João!
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitado do Motta...
-</p>
-<p>
-O gerente já não o ouvia: determinava serviços.
-</p>
-<p>
-Chegado ao escriptorio, Francisco Theodoro tractou de remetter dinheiro
-ao Motta e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O
-velho tivéra uma syncope mas estava melhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitado do Motta, murmurou Theodoro, consultando o relogio, morto
-pelas duas horas. E ás duas horas correu ao escriptorio do Innocencio.
-</p>
-<p>
-Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Innocencio partira nessa
-manhã para Petropolis, a negocio urgente. Deixara dito que na volta
-iria procural-o.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro não conteve um movimento de raiva, e sahiu tonto,
-sem cumprimentar ninguem.
-</p>
-<p>
-O ruido, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-n'o sentir mais o
-seu cançaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros;
-deteve-lhe os passos e, quasi sem explicação, perguntou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-me cá: que opinião faz você do Innocencio Braga?
-</p>
-<p>
-O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquillo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar.
-</p>
-<p>
-&mdash;E que me diz você d'aquelle telegramma do <i>Jornal</i> de hontem,
-sobre a baixa do café?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que hei de dizer? que annuncia catastrophe para muita gente boa.
-Sabe o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior
-do que nós. Não lhe parece?
-</p>
-<p>
-Que importavam a Francisco Theodoro as fallencias dos americanos! elle
-só tremia pela d'elle, era na sua fortuna que estavam condensados todos
-os bens do universo.
-</p>
-<p>
-Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lh'a, e voltou-se de
-repente, fixando-o nos olhos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem, querem vêr que você...
-</p>
-<p>
-O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adeante.
-</p>
-<p>
-Nessa tarde elle encontrou a casa cheia. D. Ignacia espalhava receitas
-de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A
-Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as
-Bragas, que riam muito, alludindo aos namorados da Judith e da irmã,
-piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que ellas
-apresentavam nesse dia á familia Theodoro, como um excellente recitador
-de monologos.
-</p>
-<p>
-Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguem lh'os pediu.
-</p>
-<p>
-O Dr. Gervasio jogava com o Gomes e o Lelio, Camilla gyrava pela casa,
-esquecendo-se, no meio do ruido, da impressão de abandono d'essa manhã
-no <i>Equateur</i>.
-</p>
-<p>
-Lá dentro, Nina mandava accrescentar mais uma taboa á mesa e descia á
-adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir.
-</p>
-<p>
-Assim, aquelle dia de semana parecia de festa.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se
-olhasse para phantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda
-aquella gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que
-pensar?
-</p>
-<p>
-Não esteve muito tempo socegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os
-joelhos, e elle, cançado, deixou-as trepar, e fez de cavallinho durante
-alguns minutos...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4>
-
-<p>
-Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava
-da cama com sentido nos telegrammas do <i>Jornal</i>. D'esta vez, como das
-outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o
-café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente.
-</p>
-<p>
-Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos
-da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam
-pelos tamarineiros.
-</p>
-<p>
-Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de
-calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os
-enxugadores no braço e a saboneteira na mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, creanças; que cacetes!
-</p>
-<p>
-As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o
-passo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias, papae!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias, papae!
-</p>
-<p>
-O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vão tomar o seu banho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu quero passear com o senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tambem quero...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo...
-</p>
-<p>
-As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em
-correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da
-chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos
-empregados que passavam por elle.
-</p>
-<p>
-Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito
-pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da
-mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma.
-</p>
-<p>
-E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para
-isso...
-</p>
-<p>
-A Nina foi ter com elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto.
-</p>
-<p>
-Elle puxou pelo relogio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, posso ir, são quasi nove horas...
-</p>
-<p>
-Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na
-bocca bocadinhos de pão com ovo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenho fome.
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois fica doente ... porque não falla com o medico?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?! para quê?
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui está o café.
-</p>
-<p>
-Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado.
-</p>
-<p>
-Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro
-parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e
-foi ainda a mulata quem murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem sabe se alguem disse de <i>nhá</i> Milla, hein?
-</p>
-<p>
-Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de
-Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.
-</p>
-<p>
-A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas,
-através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos
-excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas
-jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias,
-egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude...
-Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho?
-</p>
-<p>
-Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu marido está melhor?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle
-não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está.
-Não sei o que é aquillo.
-</p>
-<p>
-Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou
-Ruth ao medico.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso
-de alabastro d'alli, ou eu não volto cá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acha feio?
-</p>
-<p>
-&mdash;Horrivel.
-</p>
-<p>
-Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no
-trabalho.
-</p>
-<p>
-Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações,
-percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente.
-</p>
-<p>
-Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam
-regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre.
-</p>
-<p>
-E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido
-esgarçado, fugitivo.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros,
-teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir;
-todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do
-outro com o protesto de ser a ultima vez.
-</p>
-<p>
-Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um
-telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia,
-arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro.
-</p>
-<p>
-O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou
-por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de
-olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas.
-</p>
-<p>
-Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella
-scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal
-escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar
-de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande
-desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto
-transtornado do patrão.
-</p>
-<p>
-Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força.
-</p>
-<p>
-Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,&mdash;a grande casa
-Theodoro teve de declarar fallencia.
-</p>
-<p>
-Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos
-uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa
-segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se.
-</p>
-<p>
-A familia Gomes chegou cedo.
-</p>
-<p>
-D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de
-pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se
-na melhor cadeira da sala de jantar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito
-abatido, respondeu Nina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é que é máo. E sua tia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está lá em cima, já vem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Gostaram dos biscoitos que eu mandei?
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito, são muito bons.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de
-experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho.
-Perceberam?
-</p>
-<p>
-&mdash;Percebemos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não...
-</p>
-<p>
-Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da <i>etagère</i>,
-cantarolando:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">«No Brasil é doce d'ovos,</span><br />
-<span class="i10">Chiquita!</span><br />
-<span class="i2">Um beijo dado em você.»</span><br />
-<span class="i10">«Um beijo...»</span>
-</div></div>
-
-<p>
-e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella.
-</p>
-<p>
-Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala,
-sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe,
-puxando-a para o terraço:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como
-eu estou contente!
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi o Samuel?
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, quem havia de ser?
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu pae não queria...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui...
-Você vem commigo para o jardim?
-</p>
-<p>
-Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr.
-Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para
-o joguinno com o Lelio e o Gomes.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança
-tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!
-</p>
-<p>
-&mdash;Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro?
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos.
-</p>
-<p>
-&mdash;São de polvilho... Eu trouxe...
-</p>
-<p>
-Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia
-remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra:
-</p>
-<p>
-&mdash;Como ella vem! É um céo!
-</p>
-<p>
-De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a
-vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros
-criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha
-Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Credo, um mocinho tão aquelle...
-</p>
-<p>
-Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram
-as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com
-o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As
-Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas
-de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de
-pecegos inchados, bons para doce.
-</p>
-<p>
-Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de
-Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que
-não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente.
-</p>
-<p>
-Os outros concordaram.
-</p>
-<p>
-Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco
-Theodoro entrou no quarto das creanças.
-</p>
-<p>
-Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de
-porcellana.
-</p>
-<p>
-Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e
-separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam
-profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos
-espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o
-ar e labios entreabertos.
-</p>
-<p>
-Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz,
-parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama;
-a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no
-peitinho gordo.
-</p>
-<p>
-Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das
-palpebras mimosas...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora
-para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle
-quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios
-sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e
-aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de
-uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle
-conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para
-onde? que os esperaria a todos?
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos;
-voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A
-mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo
-quietas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam
-educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma
-lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla
-adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para
-o seu escriptorio, no rez do chão.
-</p>
-<p>
-Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze
-descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e
-de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto
-naquella claridade muda.
-</p>
-<p>
-Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr
-de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva...
-</p>
-<p>
-Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha
-reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros
-saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra.
-Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as
-mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos
-de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e
-encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve
-largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se
-lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um
-revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo
-ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre
-os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma
-gaveta, que fechou á chave.
-</p>
-<p>
-Estava alli dentro o descanço, a eterna paz.
-</p>
-<p>
-Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro
-desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e
-prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via
-pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para
-o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres
-irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em
-flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu
-desgosto, quando a afilhada o interrompeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias, titio!
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus, Nina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estava gostando de vêr os manacás?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim ... estão bonitos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto!
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está
-dizendo que é signal de desastre em uma casa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! ella disse isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é
-impressionavel!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá?
-</p>
-<p>
-&mdash;O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não... Dê-me uma chicara de chá...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas o bife e os ovos ahi vêm...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não quero nada. Só chá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas.
-</p>
-<p>
-Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto
-o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever
-uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla
-recommendou...
-</p>
-<p>
-Depois leu alto:
-</p>
-<p>
-&mdash;Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande
-trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza.
-</p>
-<p>
-Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de
-sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então tia Milla irá á cidade... É melhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei
-cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de
-setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu
-não sei nada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o
-significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa...
-</p>
-<p>
-Nina ficou pensando:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tio Francisco estará doido?
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as
-cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de
-creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso
-derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond
-já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho
-recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos
-sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado,
-entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa.
-Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança
-rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta
-da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o
-espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este
-céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de
-esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das
-aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão,
-d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de
-trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da
-mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do
-moleiro...
-</p>
-<p>
-E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta
-para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e
-a agua do bom Deus!
-</p>
-<p>
-«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a
-riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida!
-Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús
-pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ...
-verás: pesarão ouro e valerão pó...»
-</p>
-<p>
-Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. <i>Seu</i> Joaquim
-andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo
-rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum
-caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é
-para as aranhas do tecto.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de
-entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os
-calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio.
-</p>
-<p>
-Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho
-Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Leite Mendes mandou cá?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não senhor...
-</p>
-<p>
-&mdash;Está tudo direito, não?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tudo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem...
-</p>
-<p>
-O guarda-livros fez um gesto de recusa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será
-bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Adiaremos ao menos a ... a catastrophe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui
-justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com
-mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura
-uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o
-negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para
-o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que dia é mesmo hoje?
-</p>
-<p>
-&mdash;29...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo.
-</p>
-<p>
-Os outros calavam-se.
-</p>
-<p>
-O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as
-folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em
-diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a
-raspar com a unha.
-</p>
-<p>
-Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e
-vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de
-pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente.
-</p>
-<p>
-Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com
-voz segura:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.
-</p>
-<p>
-O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo,
-que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo:
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Augusto!
-</p>
-<p>
-Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força,
-o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro
-gritou:
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Seu</i> Augusto ainda não voltou da rua!
-</p>
-<p>
-Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles
-e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações.
-</p>
-<p>
-Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage,
-mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de
-negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo
-emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se
-ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a
-familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o
-golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as
-filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a
-escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente
-desencantal-as em cofres avaros!
-</p>
-<p>
-As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a
-reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa.
-Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a
-familia, mas faltava-lhe a coragem.
-</p>
-<p>
-Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou
-outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta
-da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o
-corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para
-trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o
-abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser
-engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo,
-esboçou um sorriso e foi andando.
-</p>
-<p>
-Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os
-passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força
-ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar
-sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter
-engolido todo o pó das ruas.
-</p>
-<p>
-Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia
-pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda
-a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado
-alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de
-quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Todos bons ... estou á espera do <i>bond</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Han ... é aborrecido.
-</p>
-<p>
-Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um <i>coupé</i>
-particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e
-os cumprimentou com um adeuzinho de mão.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Cão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete
-da Nova Zelandia, amanhã.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com o meu dinheiro...
-</p>
-<p>
-Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando
-um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões...
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos
-olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima.
-Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de
-Negreiros e partiu.
-</p>
-<p>
-No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa,
-Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas
-sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a
-mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito.
-Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se
-não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o
-dinheiro fóra...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris...
-Irei abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não...
-</p>
-<p>
-&mdash;É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu <i>bond</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;E a senhora?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu vou de carro. Saudades a todos.
-</p>
-<p>
-Ella afastou-se ligeira, no <i>frou-frou</i> das saias de seda, e o
-negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage,
-acerca de Mario: «<i>Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo
-o dinheiro fóra.</i>»
-</p>
-<p>
-Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas
-gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e
-saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que
-lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa;
-e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da
-<i>toilette</i> da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de
-anneis, unidos nas ondas negras do penteado...
-</p>
-<p>
-Que lhes diria elle? que lhes diria?!
-</p>
-<p>
-Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse
-de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse
-com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim!
-</p>
-<p>
-Essa ideia animou-o.
-</p>
-<p>
-Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia
-tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas
-bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em
-uma sonatina fresca.
-</p>
-<p>
-Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de
-milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das
-gardenias.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIX">XIX</a></h4>
-
-<p>
-Com um avental atado sobre as rendas do <i>peignoir</i>, Camilla executava,
-com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.
-</p>
-<p>
-Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel
-nos jantares de anniversario das Gomes.
-</p>
-<p>
-A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda
-e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da
-Judith confundia os <i>a a</i> com os <i>o o</i>, quando a Nina appareceu
-dizendo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a
-senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?...
-perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o
-avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho,
-despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o
-tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo
-ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!
-</p>
-<p>
-&mdash;Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo,
-lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar
-bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga.
-Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de
-manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu
-logar, Nina.
-</p>
-<p>
-Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao
-chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que
-as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.
-</p>
-<p>
-Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão
-grave e desusado que ella logo o extranhou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está doente?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu, não ... porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Você está differente. Que modo!
-</p>
-<p>
-&mdash;É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.
-</p>
-<p>
-&mdash;A mim?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é?
-</p>
-<p>
-Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio,
-segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir
-o golpe em cheio. Milla impacientou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera
-algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle
-pensamento, balbuciou apenas:&mdash;Mario?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro
-falliu.
-</p>
-<p>
-Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo
-zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não
-ouvia nada.
-</p>
-<p>
-O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão
-desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope,
-amparou-a, dizendo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida,
-é preciso coragem... Camilla!
-</p>
-<p>
-Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe
-o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte!
-Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras&mdash;fallir não é
-morrer. Teu marido não morreu,&mdash;falliu.
-</p>
-<p>
-&mdash;É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.
-</p>
-<p>
-&mdash;Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês
-mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela
-superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos.
-Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de
-outro... A série ha de ser longa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que me importam os outros!
-</p>
-<p>
-&mdash;Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te,
-estás muito fria ... queres uma capa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella
-desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços.
-</p>
-<p>
-&mdash;Descança...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não posso.
-</p>
-<p>
-Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas
-irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida,
-ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o
-corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente...
-Que insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que
-vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde
-ser.
-</p>
-<p>
-Subitamente parou, com um relampago de esperança.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se fosse mentira?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu seria um miseravel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Podiam ter-te enganado. Quem te disse?
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Burro!
-</p>
-<p>
-Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e
-recomeçou logo no seu gyro tonto.
-</p>
-<p>
-O medico tentou acalmal-a:
-</p>
-<p>
-&mdash;Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa
-felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu
-marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais
-desgraçado.
-</p>
-<p>
-Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:
-</p>
-<p>
-&mdash;A culpa é d'elle...
-</p>
-<p>
-&mdash;A culpa é de todos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada!
-Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos
-só para o seu prazer! Só, só, só!
-</p>
-<p>
-&mdash;Theodoro está muito acabrunhado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando foi que elle te disse?
-</p>
-<p>
-&mdash;Hontem á noite, em minha casa. Chorou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!
-</p>
-<p>
-&mdash;A dôr é forte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já perdeu uma filha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante,
-que elle préza acima de tudo.
-</p>
-<p>
-&mdash;A sua honra! mas Theodoro não roubou nada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem
-severidades. É preciso estar preparada para tudo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer dizer que elle póde ser preso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem sabe, não é provavel, mas...
-</p>
-<p>
-Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella
-disse, com os beiços tremulos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tu o amas, Camilla!
-</p>
-<p>
-Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico,
-olhando-o de face.
-</p>
-<p>
-Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que
-se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos.
-</p>
-<p>
-Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto
-escondido nas mãos.
-</p>
-<p>
-A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos
-indiscretos pelo corredor.
-</p>
-<p>
-Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em
-S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se
-oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo
-chamalotado de nuvenzinhas brancas.
-</p>
-<p>
-Um bello dia perdido!
-</p>
-<p>
-Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia.
-Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca
-a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela
-perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção
-tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria
-extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos
-primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida
-a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se
-mais abundante.
-</p>
-<p>
-Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr.
-Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas sempre o amaste assim?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é
-uma amisade muito grande!
-</p>
-<p>
-O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um
-largo silencio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia.
-</p>
-<p>
-Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o
-Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi
-fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se
-tractava.
-</p>
-<p>
-Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem
-rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As
-palavras para ellas só tinham som, mas não sentido.
-</p>
-<p>
-Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae.
-</p>
-<p>
-O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para
-Nina:
-</p>
-<p>
-&mdash;E você, que diz?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada; espero.
-</p>
-<p>
-&mdash;E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz
-tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.
-</p>
-<p>
-Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma
-ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida.
-O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se
-de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de
-transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.
-</p>
-<p>
-Em baixo, o armazem parecia outro. <i>Seu</i> Joaquim permanecia sentado ao
-pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas
-das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga
-para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão
-de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua
-havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens
-que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.
-</p>
-<p>
-Do seu ponto, <i>seu</i> Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres,
-agora a mais afortunada da rua.
-</p>
-<p>
-Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco
-Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas
-as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração
-absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha
-secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como
-um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.
-</p>
-<p>
-Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o
-chapéo, entrou outra vez no escriptorio.
-</p>
-<p>
-O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O
-guarda-livros levantou-se e disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o
-Norte. Vou tentar outra vida...
-</p>
-<p>
-&mdash;Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz!
-abraçaram-se.
-</p>
-<p>
-Motta approximou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o senhor? perguntou-lhe Theodoro.
-</p>
-<p>
-O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fico p'ra ahi, atôa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Recommendal-o-ei ao Negreiros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Será favor...
-</p>
-<p>
-Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu
-áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos
-com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo
-periodo de trinta annos...
-</p>
-<p>
-No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e
-deteve-se a fallar com o Joaquim.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor que tenciona fazer agora?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres...
-Devo entrar para lá amanhã...
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E,
-relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus
-saudosissimo, sahiu para a rua.
-</p>
-<p>
-Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço
-branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os
-ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego.
-Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol
-encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XX">XX</a></h4>
-
-<p>
-Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no
-céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no
-jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada
-ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem.
-</p>
-<p>
-&mdash;D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico&mdash;Noca está ao pé
-d'ella.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de
-extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa
-pausa:
-</p>
-<p>
-&mdash;Está desesperada, muito contra mim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes,
-acredite.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitadas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo
-então só ha logar para os ricos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom, só...
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! havemos de ser muito felizes, descance.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o
-medico.
-</p>
-<p>
-&mdash;Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas
-venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para
-obrigal-a a dormir e repousar os nervos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Fez bem; obrigado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao
-menos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou cançado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar.
-</p>
-<p>
-Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina
-esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola
-vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte.
-Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois,
-deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso,
-acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia
-Camilla o marido?
-</p>
-<p>
-Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse
-acordada e andasse nervosamente pela casa...
-</p>
-<p>
-Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando
-tudo pasmadamente.
-</p>
-<p>
-Imperturbavel, Nina servia a todos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente,
-apontando para as gemeas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seis annos, respondeu Ruth.
-</p>
-<p>
-&mdash;É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando
-alto um pensamento qualquer.
-</p>
-<p>
-Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu.
-</p>
-<p>
-&mdash;D. Camilla?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois
-acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não
-tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça...
-</p>
-<p>
-&mdash;Comprehendeu, mas resignou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a
-pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será
-possivel?
-</p>
-<p>
-&mdash;Virei.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado.
-</p>
-<p>
-O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas
-horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina,
-não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao
-escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária.
-</p>
-<p>
-&mdash;Dá licença, tio Francisco?
-</p>
-<p>
-O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e
-respondeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde entrar.
-</p>
-<p>
-E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que quer você?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero pedir-lhe um favor...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu ainda os poderei prestar?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! tio Francisco!
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga lá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho vergonha ... eu...
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga, diga.
-</p>
-<p>
-Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é
-pequena, mas caberemos todos lá, se...
-</p>
-<p>
-Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as
-lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem
-vejo que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu
-agasalho; olhe por minhas filhas.
-</p>
-<p>
-As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me
-pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com
-sua tia, é quem vae soffrer mais...
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá dormir.
-</p>
-<p>
-Nina murmurou, muito embaraçada:
-</p>
-<p>
-&mdash;Boa noite.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz.
-</p>
-<p>
-Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido
-das palavras do tio.
-</p>
-<p>
-Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da
-familia não subsistisse á catastrophe.
-</p>
-<p>
-Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu
-merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom
-porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de
-conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara
-a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha
-dinheiro.
-</p>
-<p>
-Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão
-tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir
-tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil!
-</p>
-<p>
-Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva,
-chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua
-falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a
-sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os
-amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então
-todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora,
-depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem
-consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.
-</p>
-<p>
-Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe
-valia de nada.
-</p>
-<p>
-A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á
-lucta tremenda de recomeçar.
-</p>
-<p>
-Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa
-melhor do que o dinheiro&mdash;a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito
-amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava
-boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua
-lembrança.
-</p>
-<p>
-«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E
-agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas?
-Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle
-tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla!
-Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas.
-Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus
-filhos. Eu sou um ladrão!»
-</p>
-<p>
-Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo
-escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo
-agonisava com elle.
-</p>
-<p>
-A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam
-roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores
-seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua
-era uma das precursoras.
-</p>
-<p>
-No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as
-vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo
-consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.
-</p>
-<p>
-A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção
-phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela
-maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em
-voragens abertas pela politica amaldiçoada.
-</p>
-<p>
-Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da
-sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a
-Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do
-desespero.
-</p>
-<p>
-Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas
-cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio
-caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto,
-percebesse o volume e os perigos.
-</p>
-<p>
-Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra
-maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado
-enfeitiçar por palavras!
-</p>
-<p>
-Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma
-coisa...
-</p>
-<p>
-Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto,
-num suspiro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!
-</p>
-<p>
-Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi
-á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de
-viagem: idas á Europa, regalados descanços.
-</p>
-<p>
-Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas
-mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o
-trabalho.
-</p>
-<p>
-E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo
-miseravel! corpo miseravel.
-</p>
-<p>
-Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a
-frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella.
-</p>
-<p>
-Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa
-amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que
-lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes
-antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que
-tranquillidade!
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro olhou para a noite:
-</p>
-<p>
-O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos
-manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.
-</p>
-<p>
-O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de
-outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas
-terras, trabalhadas por homens pagos por elle.
-</p>
-<p>
-A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava
-tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher
-e aos filhos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as
-faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo
-physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia.
-</p>
-<p>
-Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é
-signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o
-avô! Riu alto; elle era um doido!
-</p>
-<p>
-Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em
-surdina.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado
-para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam,
-Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira
-com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal
-mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma
-de extase e de sonho?
-</p>
-<p>
-Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos
-invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas
-suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção,
-Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio
-era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto
-tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou
-a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia,
-teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos.
-</p>
-<p>
-Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de
-enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.
-</p>
-<p>
-Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar
-dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar,
-inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da
-sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo.
-</p>
-<p>
-Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe
-os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim
-longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando...
-</p>
-<p>
-Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado
-silencio do somno.
-</p>
-<p>
-Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e
-rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do
-cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a
-sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve
-de saias que deslisavam pela escada abaixo.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante
-e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de
-terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação
-da vida e apressou o tiro.
-</p>
-<p>
-E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar,
-clamava por soccorro.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXI">XXI</a></h4>
-
-<p>
-A morte de Francisco Theodoro fez sensação.
-</p>
-<p>
-Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia.
-</p>
-<p>
-Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a
-baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de
-madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro
-seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.
-</p>
-<p>
-Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma
-fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como
-se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente.
-</p>
-<p>
-Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de
-duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por
-encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida,
-sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua
-felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só
-viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse
-adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não
-tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?
-</p>
-<p>
-O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa.
-Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma
-hora antes! Um minuto antes!
-</p>
-<p>
-E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos
-annos? Que fariam todos alli, sem elle?
-</p>
-<p>
-Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.
-</p>
-<p>
-No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal
-acreditavam na sua sinceridade.
-</p>
-<p>
-As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e
-dever de apparencia cumprimentavam a viuva.
-</p>
-<p>
-As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e
-tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo,
-ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia.
-</p>
-<p>
-D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho.
-Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha
-tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não!
-</p>
-<p>
-Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da
-visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella
-casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo,
-cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de
-passos e de vozes abafadas...
-</p>
-<p>
-D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a
-encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos
-inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno
-na fé ardente e pura da sua prece.
-</p>
-<p>
-Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo!
-</p>
-<p>
-E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida.
-</p>
-<p>
-Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda
-russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade
-humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar.
-</p>
-<p>
-O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte;
-afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado,
-acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento.
-</p>
-<p>
-Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma
-cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a
-tudo.
-</p>
-<p>
-Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem
-conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em
-suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria.
-</p>
-<p>
-Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes
-inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla.
-</p>
-<p>
-Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos
-mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão...
-</p>
-<p>
-D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com
-asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo
-lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do
-forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si.
-</p>
-<p>
-Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo...
-</p>
-<p>
-Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus
-lhes deu cinco dedos em cada mão.
-</p>
-<p>
-No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á
-lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella
-dar entrada a alguem!
-</p>
-<p>
-Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitadinha...
-</p>
-<p>
-E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos
-soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela
-violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas,
-faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar
-ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e
-emfim chegou.
-</p>
-<p>
-Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o
-Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso
-fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina
-acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da
-face do morto, beijou-o tres vezes.
-</p>
-<p>
-De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz
-da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a
-um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas
-adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror
-das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar.
-</p>
-<p>
-Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto
-das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.
-</p>
-<p>
-Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a
-friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a,
-com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso.
-</p>
-<p>
-Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o
-obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do
-outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando
-para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios
-aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver...
-</p>
-<p>
-A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das
-creanças bem accommodadas.
-</p>
-<p>
-Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito
-inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua
-negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho,
-de queixo cahido para o peito.
-</p>
-<p>
-Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça.
-Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como está Ruth? perguntou Milla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para
-o medico:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá vel-a ... sim?
-</p>
-<p>
-Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXII">XXII</a></h4>
-
-<p>
-Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se.
-</p>
-<p>
-Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas,
-leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo,
-traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam,
-indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o
-medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu
-tenho conhecido.
-</p>
-<p>
-&mdash;De que serve?!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade
-teem realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem vê que fazia mal...
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo,
-sem saber como.
-</p>
-<p>
-Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande
-sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais
-foi sempre...
-</p>
-<p>
-&mdash;Preguiçosa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim... As outras são tão pequenas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu estarei a seu lado.
-</p>
-<p>
-Nina corou, e não respondeu.
-</p>
-<p>
-Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já
-na outra casa.
-</p>
-<p>
-Milla apertou as palpebras.
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro?
-</p>
-<p>
-Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as
-mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom!
-</p>
-<p>
-O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava
-a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo
-redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da
-fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem
-grandes ventanias.
-</p>
-<p>
-Noca insistiu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Abro a janella?
-</p>
-<p>
-Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do
-seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia
-desprender por si, seria preciso que a arrancassem.
-</p>
-<p>
-A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob
-um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das
-minimas coisas na harmonia do conjuncto.
-</p>
-<p>
-Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do
-chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a
-até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja.
-</p>
-<p>
-Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do
-passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã
-Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse
-aposento, em que havia roupas pelas paredes...
-</p>
-<p>
-Noca andava pelo quarto; Camilla olhou:
-</p>
-<p>
-Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava
-quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e
-fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de
-jornaes da tarde.
-</p>
-<p>
-E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor,
-ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e
-se agarrava tanto á mocidade. A mocidade!
-</p>
-<p>
-Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca
-avisou, já impaciente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe, <i>nhá</i> Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a
-pouco está ahi.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ajuda-me a vestir...
-</p>
-<p>
-&mdash;E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar
-banho...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei
-sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem!
-</p>
-<p>
-Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as
-gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e
-percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal;
-Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as
-janellas e as portas.
-</p>
-<p>
-No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em
-uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina
-ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou,
-olhando atterrorisada para o chão:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pisei?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quasi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu Deus!
-</p>
-<p>
-Contemplaram-se as duas por entre lagrimas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi uma grande desgraça, Noca!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se foi! Ainda me parece mentira...
-</p>
-<p>
-&mdash;A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou
-vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco!
-</p>
-<p>
-Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes
-extendia os braços numa supplica.
-</p>
-<p>
-Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já
-vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto,
-havia scintillações frias.
-</p>
-<p>
-Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura
-atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um
-aceno arrogante de adeus.
-</p>
-<p>
-Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta.
-</p>
-<p>
-Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um
-sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que
-Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia
-reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava
-gritando-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala a bocca! cala a bocca!
-</p>
-<p>
-Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste
-sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a
-fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como
-reliquia.
-</p>
-<p>
-Para que nascera ella, senão para ser batida?
-</p>
-<p>
-Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas
-gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz
-d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu
-violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo.
-</p>
-<p>
-Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do
-jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava
-alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a
-caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um
-suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.
-</p>
-<p>
-Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae...
-Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.&mdash;Emfim, iam para a casa nova!
-</p>
-<p>
-Durante a viagem ninguem mais fallou.
-</p>
-<p>
-Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam
-lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova.
-</p>
-<p>
-Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina.
-</p>
-<p>
-Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava
-com força no cascalho branco do chão.
-</p>
-<p>
-A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza,
-disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos
-oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que
-aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente,
-esmagando-os a todos.
-</p>
-<p>
-O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina
-dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.
-</p>
-<p>
-A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel,
-abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a
-desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro
-e uns vasos de flores na janella.
-</p>
-<p>
-Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a
-mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas.
-</p>
-<p>
-Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era
-ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil,
-de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura,
-cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma
-taboa de engommar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa
-censura leve, sentando-se, muito abatida.
-</p>
-<p>
-A sobrinha explicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças
-brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois...
-</p>
-<p>
-Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o
-resto.
-</p>
-<p>
-Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas
-<i>bicyclettes</i>? A cosinha então era aquelle cochicholo?
-</p>
-<p>
-A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados.
-</p>
-<p>
-Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis
-mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao
-menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas
-que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova.
-</p>
-<p>
-Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos
-indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido
-por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal
-lapidado que atiravam sobre a toalha <i>bouquets</i> iriados e
-tremeluzentes. Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz
-e se espalhassem sobre o adamascado do linho.
-</p>
-<p>
-O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu
-repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua
-ração, encheu os pratos das primas.
-</p>
-<p>
-O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no
-verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos
-do papel.
-</p>
-<p>
-A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou
-brutalmente em um canto da mesa.
-</p>
-<p>
-Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha
-extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete.
-</p>
-<p>
-Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Só veio esta canequinha?
-</p>
-<p>
-&mdash;E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um
-copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não quero differenças para mim.
-</p>
-<p>
-Depois:&mdash;Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não acho...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, você!
-</p>
-<p>
-Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou
-trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro,
-que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e
-mais o leiloeiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu doutor já avisou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem; póde ir...
-</p>
-<p>
-A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de
-atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava
-ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o
-interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por
-ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.
-</p>
-<p>
-Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso
-de pobreza e de inercia.
-</p>
-<p>
-Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os
-joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada
-na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados
-do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos
-olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe,
-impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não
-encontrava ninguem!
-</p>
-<p>
-Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de
-saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as
-palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao
-Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre
-reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora,
-aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu
-saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que
-ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no
-collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce...
-</p>
-<p>
-Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o
-bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava
-a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.
-</p>
-<p>
-Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o
-dever das restricções.
-</p>
-<p>
-Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma
-doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é
-que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam
-resentimentos, fugindo de aggravar tristezas.
-</p>
-<p>
-Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para
-engommados.
-</p>
-<p>
-Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa
-atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas
-alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida
-pesava-lhe.
-</p>
-<p>
-Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma
-discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da
-visinhança.
-</p>
-<p>
-Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando
-dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que
-devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e
-accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para
-mais de dois mezes...
-</p>
-<p>
-Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da
-sua desgraça...
-</p>
-<p>
-Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições
-seriam um meio de a distrahir; já não aguentava aquelles dias sem fim.
-</p>
-<p>
-Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava
-dividir-se em todos os misteres domesticos; as cosinheiras não paravam,
-umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho... Era um
-vae-vem cançativo, e ella sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua
-paciencia nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de
-mulher, adoçando soffrimentos, serenando tempestades e conservando-se
-na meia sombra de um papel secundario.
-</p>
-<p>
-Corriam assim os mezes. Os amigos escasseavam, mais pelo retrahimento da
-familia que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens
-peiores do que elles são, e nunca vêem em si a causa justificada de
-certos abandonos. Camilla queixava-se ás vezes das relações antigas,
-sem cogitar que quem mais fugia era ella, envergonhada da sua nova
-situação.
-</p>
-<p>
-Levado talvez mais pelo habito que por outra causa, o Dr. Gervasio
-continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas,
-feitas de passagem; evitava, com escrupulosa discreção, os almoços
-naquelle lar pobre e simples. Demais a mais, não podia fallar nunca a
-sós com Milla, naquella casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da
-familia, fechada no seu rigoroso vestido de viuva, muito arredia.
-Aquellas esquivanças não o atormentavam, elle sentia que a ia amando
-com menos amor e mais amizade; era como uma irmã, necessitada do seu
-amparo e do seu conselho, que elle não podia deixar de vêr todos os
-dias; o calôr da sua mão e o som da sua voz já não lhe alvoroçavam
-os sentidos adormecidos; e bem percebia que no coração d'ella a
-paixão estava tambem apaziguada, e que para Camilla elle ia já sendo
-apenas o amigo.
-</p>
-<p>
-E assim se passaram poucos mezes, até que chegou um dia em que o olhar
-de Camilla, irradiando, se trocou com o d'elle num fulgor de desejo. O
-fogo abafado pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma
-labareda de fragoa. Elle espantou-se, ella conteve-se envergonhada, e
-separaram-se ambos inquietos e torturados.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXIII">XXIII</a></h4>
-
-<p>
-Adeus, mamãe! nós vamos levar estas sobras do jantar ás creanças da
-Jacintha, ouviu? Nina disse que não vale a pena guardar para amanhã;
-é pouco e póde azedar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas que creanças são essas? perguntou Camilla ás duas gemeas, que
-lhe fallavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo.
-</p>
-<p>
-&mdash;São as netas da Jacintha...
-</p>
-<p>
-Ruth appareceu atraz das irmãs.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe não conhece... Jacintha é uma velha paralytica que mora na
-visinhança da minha discipula. Sempre que passamos por lá nos pede
-esmola... É tão velhinha que faz pena. Combinámos com a Nina que
-sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fossemos levar a ella. Quando
-me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a
-gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a
-necessidade dos outros não consolam ninguem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Falla baixo! Bem, meus amores, vão, antes que seja noite.
-</p>
-<p>
-&mdash;Anda depressa, Noca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um
-passeiozinho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim...
-</p>
-<p>
-As creanças sahiram com a mulata. Camilla sorriu. A Providencia não a
-desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar...
-</p>
-<p>
-A tarde cahia com lentidão; a viuva, derreada na cadeira de balanço da
-sala de jantar, olhava pela janella aberta para a grande amendoeira do
-quintal, cujas folhas côr de ferrugem cahiam espaçadamente, com um
-rumor timido.
-</p>
-<p>
-Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na
-transformação de uma essencia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe
-dentro do peito na ancia do calor do abraço e do sabor do beijo. Não
-podia mais, as roupas negras suffocavam-na, lembravam-lhe a todos os
-instantes aquelle minuto inolvidavel, que se lhe fixara na vida, que se
-repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ella não se
-libertaria nunca!
-</p>
-<p>
-Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo lethargo com
-fremitos de mocidade, capaz de todos os prodigios. Se a paixão que ella
-via arrefecer nos olhos de Gervasio se reaccendesse! Se elle voltasse a
-amal-a com aquelle amor antigo, todo de extremos... Se elle voltasse!
-</p>
-<p>
-Na pallidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava-se,
-tranquillamente. Camilla olhava para ella, invejando-lhe a serenidade,
-quando sentiu passos.
-</p>
-<p>
-Voltou-se.
-</p>
-<p>
-Gervasio sorria-lhe da porta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem! murmurou ella então, num triumpho, extendendo-lhe os braços.
-Elle precipitou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Emfim, voltas a ser minha! a ser minha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera ... socega ... a Nina está em casa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que importa a Nina?
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala-te! Oh, eu já não posso mais!
-</p>
-<p>
-Muito junctos, com as boccas quasi unidas, elles repetiam as mesmas
-palavras de outr'ora, que soavam agora aos ouvidos de Milla como novas.
-</p>
-<p>
-O céo ia mudando de côr; as folhas da amendoeira desprendiam-se
-celeres e com frequencia; dir-se-ia uma tarde de outomno, e era apenas
-começo de verão.
-</p>
-<p>
-Camilla, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia illuminada. O
-medico puxou-a para si, ia beijal-a, quando a Nina appareceu na sala,
-com modo disfarçado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Querem luz? Como as meninas estão tardando!
-</p>
-<p>
-Gervasio não respondeu; achou-a importuna. Camilla disse com meiguice:
-</p>
-<p>
-&mdash;É cedo, minha filha...
-</p>
-<p>
-Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como
-se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em
-que houvesse outra atmosphera que lhe alterasse a natureza, isolando-a
-de tudo o mais. As roupas do lucto não lhe pesavam, semelhavam rendas
-levissimas; pela primeira vez a imagem do marido no ultimo momento se
-lhe apagou na memoria... Era já noite quando ella acompanhou Gervasio
-ao jardinzinho da entrada. Elle sentia-a tremula, numa commoção de
-virgem, como se aquelle velho amor peccaminoso fosse um amor nascente.
-</p>
-<p>
-A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões timidas, e a brancura da sua
-carne, tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de
-uma immaterialidade purissima.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora és só minha, só minha! dizia Gervasio, apertando-lhe as mãos
-com força, quando um homem se approximou do portão e o empurrou.
-Olharam, com espanto, mas logo Camilla deu um grito: reconhecera o filho
-e correu para elle.
-</p>
-<p>
-Mario olhou para o medico com aborrecimento não disfarçado e recuou,
-dando logar a que elle passasse para a rua, como a despedil-o.
-</p>
-<p>
-Trocaram um cumprimento rapido e cruzaram-se.
-</p>
-<p>
-Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mario
-se voltou para a mãe com uma expressão que significava&mdash;ainda?!
-</p>
-<p>
-Camilla rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e
-foi-a levando para dentro. Nina accendeu o gaz, batendo os dentes, num
-accesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silencio. Foi ainda
-soluçante, que Milla perguntou afinal:
-</p>
-<p>
-&mdash;A Paquita?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está muito pesada, por isso não veio.
-</p>
-<p>
-Camilla sentiu o sangue sumir-se-lhe. Que! um neto! o seu Mario ia ter
-um filho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os medicos acharam
-imprudente que a Paquita se mettesse em viagens...
-</p>
-<p>
-&mdash;Fizeram bem. Por aqui soffreu-se tanto!... Quando chegaram?
-</p>
-<p>
-&mdash;Esta madrugada. Desembarcámos ás nove horas...
-</p>
-<p>
-Outra decepção: todo o dia no Rio, e só á noite o filho a procurava!
-</p>
-<p>
-Elle explicou: tivera muito trabalho, idas á alfandega, uma trapalhada!
-E as irmãs? onde estavam as irmãs?
-</p>
-<p>
-&mdash;Já vêm, andam ahi pela calçada. Vae avisai-as, Nina.
-</p>
-<p>
-A moça sahiu. Mario continuou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não as entregou á minha cunhada? Ella escreveu-nos fallando
-nisso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tive pena ... não me quero separar d'ellas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, concordo que é penoso; mas é para o bem d'ellas, e esta
-situação não póde continuar. Paquita é uma mulher sensata, mesmo a
-bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachel vão para a casa
-de minha cunhada; Ruth irá morar comnosco, isto até lhe facilitará um
-casamento, coisa sempre difficil para uma moça pobre, e Nina tem o
-recurso de ir para a casa do pae...
-</p>
-<p>
-&mdash;E ... eu?!
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora, visto que agora é livre ... porque não se ha de casar?
-</p>
-<p>
-Camilla tornou-se rubra e escondeu o rosto nas mãos.
-</p>
-<p>
-Mario não soubera reprimir-se, e já agora proseguia:
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho preferivel o casamento á continuação d'esta vida. Perdôe-me
-que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos...
-</p>
-<p>
-As mãos de Milla, geladas, apertaram com mais força o rosto em fogo.
-</p>
-<p>
-Mario fallou ainda.
-</p>
-<p>
-Elle premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita; mas a
-lingua recusava-se a repetil-o inteirinho, no seu rigor de fórma
-decisiva.
-</p>
-<p>
-Vinha como uma espada, cortando todos os nós. Prevalecia-se da sua
-autoridade de homem.
-</p>
-<p>
-A mãe teve nojo, e num só grito explodiram-lhe todas as queixas. As
-faces, de vermelhas tornaram-se lividas, as mãos e os beiços
-tremiam-lhe; avançou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá dizer á Paquita, á sua pratica e sensata Paquita, que eu não
-preciso do dinheiro d'ella, ouviu? Não se demore, que ella é capaz de
-bater em você!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Perversos! vir de tão longe, o meu filho, para me dizer isto. O meu
-filho! e eu que tinha tantas saudades!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe, a senhora é injusta...
-</p>
-<p>
-&mdash;Injusta é ella, que me quer separar de todos os filhos e te ensina a
-faltar-me ao respeito. Acham que tenho soffrido pouco?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Acalme-se e reconhecerá que temos razão. Paquita é um anjo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Um diabo do inferno!
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora está-me offendendo.
-</p>
-<p>
-&mdash;E ninguem me offendeu? Diga! ninguem me offendeu?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Socegue: tudo se ha de arranjar; bem sabe que eu não tenho nada; a
-fortuna é de minha mulher, mas nós lhe daremos uma mezada, visto
-que...
-</p>
-<p>
-&mdash;Recuso; não quero nada d'essas mãos. O meu filho morreu no dia em
-que se casou. Se o envergonho, é melhor fingir que não me conhece.
-Vá-se embora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá-se embora! Eu não preciso de nada. Suas irmãs sahiram para dar
-uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tive a intenção de a offender. Se eu não tivesse encontrado
-aqui aquelle maldicto homem, as coisas teriam caminhado de outra
-maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora
-é viuva, o Dr. Gervasio é solteiro, amam-se, casem-se. É logico.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pelo amor de Deus! Mario!
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora não é creança, deve perceber que d'esse modo compromette
-o futuro das meninas. O tempo lhe dirá se tenho razão...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que insistencia! uma vez por todas: basta, basta, basta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, mamãe, calo-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;Emfim!
-</p>
-<p>
-Era opportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim,
-gritando:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mario, Mario!
-</p>
-<p>
-Elle chegou á porta, agitadissimo e extendeu os braços a Ruth, que lhe
-pareceu muito magrinha, já de vestido comprido, como uma senhora. O
-abraço evocou em ambos a lembrança do pae. Mario semeou beijos e
-lagrimas nos cabellos da irmã, na sua primeira effusão de ternura.
-</p>
-<p>
-Foi só depois de tudo acabado, que a Noca, contemplando o moço de
-frente, murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Gentes! reparem como o bigode de Mario cresceu, e como elle está
-bonito!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXIV">XXIV</a></h4>
-
-<p>
-Domingo de verão: as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant da
-rua. Grande socego em tudo.
-</p>
-<p>
-Fechada no seu quarto, Camilla tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da
-leitura para as caminhas vazias das gemeas, entregues desde a vespera á
-baroneza da Lage. Cumpriam-se as ordens de Mario.
-</p>
-<p>
-A familia espalhava-se ao bruto ponta-pé da pobreza: uns para aqui,
-outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida!
-</p>
-<p>
-Numa persistencia cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no cerebro.
-Exangue e dolorida, ella não luctava; a fatalidade faria d'ella o que
-quizesse... O que a atormentava sobretudo era a saudade das gemeas, que
-tinham levado comsigo toda a sua alegria e que, ausentes d'ella, iriam
-dispensando á outra os afagos que deveriam ser só seus! Pobres
-innocentes, lá viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse
-no seu caminho, como um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue
-e a carne.
-</p>
-<p>
-Via já a outra como uma inimiga. Fôra ella quem lhe tirara o filho
-para a irmã; era ella quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto
-humilhava-a, achava-se indigna por não ter tido forças de defender as
-creanças, arrancadas de casa pela pressão da necessidade. Olhou para
-as mãos: eram bonitas, mas não sabiam fazer nada. Camilla escondeu-as
-depressa, arrepiada, nas dobras do casaco.
-</p>
-<p>
-E o conselho do filho não a deixava, numa fixidex allucinadora. Sim,
-só Gervasio poderia salval-a, se quizesse dizer primeiro a palavra que
-ella não tinha coragem de pronunciar.
-</p>
-<p>
-Camilla fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente,
-entre o seu orgulho de mulher e os seus extremos de mãe, badalavam as
-palavras do filho:
-</p>
-<p>
-&mdash;Case-se, case-se, case-se!
-</p>
-<p>
-E elle tinha razão; só assim ella tornaria a ter um lar onde aninhasse
-as filhas; cessariam os sacrificios de Nina e de Ruth, a Noca
-trabalharia só para si, e o Mario...
-</p>
-<p>
-O resentimento que lhe ficára d'aquelle filho, que viera de longe para
-lhe dizer amarguras, avolumou-lhe as lagrimas que chorava. Tinha-se
-humilhado, havia de humilhar-se até ao fim. Fallaria a Gervasio.
-</p>
-<p>
-Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as
-creanças antes do desapêgo completo.
-</p>
-<p>
-Francisco Theodoro assim quizera, furtando-se á responsabilidade da
-familia, fugindo da vida desde que a vida, em vez de presenteal-o, lhe
-pedia favores. Era o abandono; pois bem, ella reconstituiria o lar que
-elle desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobresaltos,
-por tantas agonias, resurgiria, como um dia de luz apóz outros de
-negrume, para a felicidade de todos!
-</p>
-<p>
-O coração faz pagar caro ás mulheres a sua gloria, bem o sabia. Dera
-tudo, certa de que não era a honra do marido que sacrificava mas a sua
-propria. Elle não era auctor nem cumplice, não podia ser arguido pela
-sociedade hypocrita.
-</p>
-<p>
-Por fortuna, tinha-se empenhado com um homem de bem: Gervasio
-salval-a-ia. Mario dissera um dia:
-</p>
-<p>
-&mdash;Escolha entre mim e o Dr. Gervasio&mdash;Ahi estava ella agora
-radiante, escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era mãe do outro.
-</p>
-<p>
-As horas passavam devagar. Num piano visinho rompeu uma polka faceira;
-resoavam gargalhadas na rua.
-</p>
-<p>
-Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camilla foi á janella;
-vacillava ainda. Nem uma nuvem no céu; voltou para dentro e esbarrou
-com as caminhas vazias. Numa imposição de vontade, despiu-se á pressa
-e enfiou o vestido de sahir; os dedos mal atinavam com os colchetes; nem
-olhou para o espelho, na anciedade de partir, de correr para o futuro...
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Eram quatro horas quando entrou no bond que a levaria á casa do Dr.
-Gervasio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu véo de
-viuva, ciosa de que lhe não lessem os pensamentos na alteração do
-rosto. Dobrava-se, emfim, á vontade da nora, aquella creatura
-implacavel, que nunca a procurava, conservando-se a distancia, com medo
-do contacto. Camilla sorria d'aquelles grandes escrupulos, tão
-tardiamente acordados...
-</p>
-<p>
-Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petropolis; e o
-Mario, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a familia,
-carregado de encommendas para a mulher e o filho, um rapagão nascido
-longe da avó.
-</p>
-<p>
-Camilla esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens
-exteriores. Era como se tivesse sahido de um carcere: tudo lhe parecia
-differente e mais bonito. Começavam já a apparecer as chacaras de
-Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de agua e de
-sombras macias.
-</p>
-<p>
-Em quantas d'aquellas casas, ella fizera brilhar as suas joias, rugir as
-suas sedas, vagar o perfume do seu lenço de rendas e dos seus vestidos!
-Bons tempos ... ah! mas elles voltariam, quando a fortuna e a lealdade
-de Gervasio a repuzessem no logar de que a ambição do marido a tinha
-arrancado.
-</p>
-<p>
-Ia leve. Como é bonito e curto o caminho da felicidade!
-</p>
-<p>
-O bond dobrou a rua dos Voluntarios; e uma subita angustia cahiu no
-coração de Camilla. Ia passar pelo palacete Theodoro como uma
-extranha. Por um grande trecho da rua, ella esperava esse momento com
-curiosidade e terror; e quando o momento chegou, quiz abranger tudo com
-a vista, adivinhar até o que se passava dentro d'aquellas grossas
-paredes. Na fugacidade do instante só pôde perceber que a janella do
-seu quarto estava aberta e que tinham substituido por areia preta a
-antiga areia branca do jardim. Teve impetos de mandar parar o bond, de
-entrar pela casa, ir até á sua saleta, continuar o bordado ou a
-leitura interrompida e beijar as duas filhinhas, coradas, offegantes
-pelas ultimas corridas da bicycleta, que lá deviam estar dentro, ao pé
-da Noca, na sala de engommar, sobraçando as suas grandes bonecas de
-olhos azues...
-</p>
-<p>
-O bond passou, e Milla, toda voltada no banco, olhava para a <i>sua</i>
-casa, depois para o <i>seu</i> jardim, e ainda, emquanto a viu, para a
-alta copa ramalhuda da <i>sua</i> mangueira...
-</p>
-<p>
-Sentiu então como que um desdobramento de personalidade. Ella que
-passava, sózinha, vestida da lã negra, com um véo de crepe pela cara,
-mal arranjada, abotoada á pressa, não era a Camilla dos vestidos
-claros e das mãos luminosas; essa estaria lá dentro do palacete no seu
-eterno sonho de mocidade, de amor e de belleza...
-</p>
-<p>
-Quando entrou em casa de Gervasio, teve um impeto de voltar para traz.
-Todos os seus escrupulos se levantaram em revoada. Feriu-a então a
-ideia de que já era avó, e que esse titulo devia ser um ridiculo
-algemando-a ao silencio. O filho de seu filho seria tambem um inimigo?
-Tão pequenino, apenas nascido, e já teria força para se interpor
-entre ella e a felicidade?
-</p>
-<p>
-Um criado abriu o guarda-vento; ella entrou indecisa para o vestibulo.
-Nunca se encontrara alli sozinha: Gervasio não quizera expol-a aos
-commentarios dos seus criados; preferira ter um canto obscuro, todo
-destinado a ella e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua
-presença ou a sua indagação curiosa.
-</p>
-<p>
-O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas,
-até uma sala do mesmo pavimento terreo, abrindo sobre um jardinzinho
-interior, onde as dracenas se empennachavam de flores.
-</p>
-<p>
-Pediu-lhe que esperasse alli. O senhor doutor conferenciava com um
-individuo no escriptorio, mas ia avisal-o.
-</p>
-<p>
-Ella respondeu-lhe que não, não tinha pressa; ficaria até que o outro
-sahisse...
-</p>
-<p>
-Quando se viu só, Milla levantou o véo com um suspiro de allivio.
-Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa
-sobriedade nos arranjos e nos moveis. Reconheceu numa cadeira uma
-almofada bordada por ella, e, a um canto, um jarrão chinez com que
-Francisco Theodoro presenteara o medico, após uma doença grave do
-Mario.
-</p>
-<p>
-O marido! o Mario! como elles lhe fugiam para o horisonte da vida...
-Aquelle jarrão evocava uma epocha feliz. O filho era então já um
-rapazinho atrevido, mas tão meigo, tão lindo! o marido era forte,
-fallador, arrebatado, ameaçando fazer cahir a casa ao furor das suas
-rebentinas. E ella? Ella bem differente: caseira, mal vestida, egoista e
-muito severa para as faltas alheias... Prodigalisava-se pouco, o proprio
-marido não obtinha d'ella mais do que o carinho frio, de
-condescendencia; não por mal, não por proposito, nem sabia porque...
-</p>
-<p>
-Fôra Gervasio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas
-coleras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embellezar a sua casa, a
-sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com intelligencia e com
-consciencia. Antes não o houvera conhecido; ella talvez não tivesse
-sido boa para ninguem, mas teria sido honesta e não conheceria o
-soffrimento.
-</p>
-<p>
-Com os olhos parados nas figuras polychromas do jarrão, Camilla
-relembrava todo o martyrio do seu amor, nascido pouco a pouco da
-intimidade...
-</p>
-<p>
-O tal individuo demorava-se no escriptorio. Ella levantou-se, foi á
-janella olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior da
-casa, havia tambem alli uma tranquillidade distincta. Sentia-se que os
-gostos e os instinctos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte.
-</p>
-<p>
-Camilla olhava abstractamente para as flores, quando ouviu passos no
-corredor. Voltou-se; Gervasio appareceu no limiar da porta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isso, Milla?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada ... eu...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que vieste?!
-</p>
-<p>
-Camilla avançou timidamente. Elle continuou:
-</p>
-<p>
-Por que não me mandaste chamar logo que entraste? Estás tão
-pallida!... tão fria... Foi uma imprudencia vir aqui, a esta hora!...
-Mas por que?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá eu não poderia fallar...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens razão, aquella casa é tão pequena! está-se tão perto de
-todos! Senta-te, meu amor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Contrario-te?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nunca! estamos junctos! Falla.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu...
-</p>
-<p>
-Mal pronunciou a primeira palavra, Camilla arrependeu-se da sua
-resolução. Era quasi velha, já era avó! Áquelle pensamento toda se
-enrubeceu; calou-se de novo, com os olhos razos de agua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não te comprehendo ... assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que
-me zango! Vamos, que aconteceu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Amas-me sempre?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sempre!
-</p>
-<p>
-&mdash;Como ... no principio?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mais.
-</p>
-<p>
-Então baixinho, num sussurro, com o rosto unido ao rosto d'elle,
-Camilla disse tudo. Levada pelo seu sonho, ella não percebia quanto as
-mãos d'elle tremiam nas suas mãos e que sombras lhe passavam pelo
-rosto transtornado.
-</p>
-<p>
-Quando ella acabou, elle não respondeu; ficou por largo tempo immovel,
-como se ainda esperasse a ultima palavra.
-</p>
-<p>
-A viração da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas; Camilla
-sorveu-o com deleite, como se fôra um afago do céu. Emfim, fallara,
-tinha-se dissipado a nuvem e já sorridente, instou pela resposta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Queres?...
-</p>
-<p>
-O medico ergueu-se de chofre, e com voz metalica e dura disse
-rapidamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não pode ser.
-</p>
-<p>
-Camilla moveu os labios, numa agonia de morte. O que ella temia alli
-estava. Elle tinha razão, era bem feito, casar, para que? Fôra a nora
-que a obrigara a tamanha humilhação! Atraz d'aquella mascara de
-seriedade, Gervasio havia de se estar rindo d'ella, da pretenção
-d'aquelle miseravel corpo de avó a um noivado de amor! Teve a
-impressão dolorosissima de estar coberta de rugas e de cabellos
-brancos; olhou para as mãos com medo; não comprehendeu bem o motivo
-porque continuava alli e levantou-se com esforço, para se ir embora. O
-seu destino estava escripto: via todo o futuro tapado pelo corpo
-pequenino do neto.
-</p>
-<p>
-Gervasio, pondo-lhe as mãos nos hombros, fêl-a sentar-se outra vez,
-com brandura.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que? perguntou-lhe ella, quasi chorando.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para te dizer tudo: eu sou casado.
-</p>
-<p>
-Camilla abafou um grito, tapando a bocca com a mão.
-</p>
-<p>
-Elle dissera aquillo num desabafo, na ancia do golpe inevitavel, com uma
-voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Rôto o
-segredo, apiedou-se logo e fallou com humildade, muito chegado a ella.
-Tambem pensara nisso, elle, tambem a quereria fazer sua aos olhos de
-toda a gente, mas estava preso a outra mulher, até que a morte...
-</p>
-<p>
-&mdash;A morte! suspirou Camilla.
-</p>
-<p>
-E elle continuou, muito commovido:
-</p>
-<p>
-&mdash;Viste-a uma vez, lembras-te? era aquella mulher de lucto que
-encontrámos na volta do <i>Neptuno</i>. Achaste-a bonita ... percebeste a
-nossa impressão e tiveste ciumes... Eu não queria que soubesses ...
-mas agora a explicação deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade.
-Meu pobre amor, perdôa-me...
-</p>
-<p>
-Gervasio segurou nas mãos de Camilla; ella retirou-as devagar e fixou-o
-com um olhar de tão clara interrogação, que elle continuou mais
-baixo, mastigando as palavras:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que
-ella me enganava, deixei-a... Moravamos no Rio Grande, ella ficou lá
-com a mãe, eu voltei para aqui. Quiz divorciar-me ... ella oppôz-se;
-oppõe-se ainda; quer ter-me acorrentado como um cão: consegue-o. É
-tudo.
-</p>
-<p>
-Era tudo. Camilla percebeu o melindre do segredo, mantido para
-evitar-lhe uma offensa. A razão illuminava-se-lhe; ella não podia ser
-aos olhos d'aquelle homem nem melhor nem mais digna do que a outra que
-elle desprezara; a mesma culpa as nivelava, e se elle não encontrara
-perdão para a esposa, como encontraria respeito para ella?
-</p>
-<p>
-Sempre calada, puxou o seu véo de viuva para o rosto e levantou-se.
-</p>
-<p>
-O aroma das dracenas invadia tudo, numa exhalação suffocante.
-</p>
-<p>
-Gervasio beijava-lhe as mãos, supplicando-lhe que lhe perdoasse; fôra
-por amor de ambos. Porque não continuariam a viver como até então?
-</p>
-<p>
-Camilla não respondia, e como elle instasse, ella pediu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa-me ir embora!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens razão; precisas descançar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao
-menos mandar buscar-te um carro!
-</p>
-<p>
-Camilla desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a
-pé, ao ar livre. Elle consentiu, adivinhando que a perdia para sempre.
-Talvez fosse melhor assim...
-</p>
-<p>
-Ella colheu a cauda da saia e sahiu tiritando de frio, por aquella
-luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltava
-para traz, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido,
-badalando furiosamente. Elle era casado! Elle mentira-lhe! Tantos annos
-de mentira, tantos annos de mentira!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Era já noite quando Camilla entrou no seu jardinzinho da rua de D.
-Luiza. A casa estava ainda ás escuras, mas Ruth tocava lá dentro um
-adagio de Mendelssohn. Extenuada, Camilla sentou-se nos degráus de
-pedra, como uma mendiga á espera da esmola. As luzes dispersas dos
-lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a ultima
-cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres
-invisiveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetravel e sagrado
-mysterio...
-</p>
-<p>
-Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que
-estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma
-carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As
-lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que
-aquelle era o dia da sua segunda viuvez.
-</p>
-<p>
-Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um
-amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a
-illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da
-terra!
-</p>
-<p>
-Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella,
-por ventura, uma criminosa?
-</p>
-<p>
-Maldizia-se, fôra uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os
-seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquelle a quem
-tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fóra da sua vida, como a
-uma extranha.
-</p>
-<p>
-Elle mentira-lhe, elle mentira-lhe!
-</p>
-<p>
-Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ella
-tambem aos olhos d'elle?
-</p>
-<p>
-Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se
-pudesse voltar atraz, desfazer todos aquelles dias de sonho e de
-ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de
-esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita,
-em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta
-humilhação, peior que todas as mortes, porque vinha d'elle, que ella
-amava tanto! Amava ainda. Ainda!
-</p>
-<p>
-Olhou com desprezo para o seu bello corpo de mulher ardente. Era um
-despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquellas
-creanças nascidas d'ella, predestinadas para o Soffrimento. Caminhariam
-alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miseria.
-</p>
-<p>
-Numa angustia, Camilla interrogou com olhar ancioso a treva muda:
-Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?!
-</p>
-<p>
-Alguma coisa fallou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia ás
-estrellas: a musica de Ruth. A essencia da lagrima purificava-se no som,
-com um poder de infinita pacificação.
-</p>
-<p>
-Então a viuva teve inveja da filha, d'aquelle ideal purissimo, que não
-lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem,
-pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir...
-</p>
-<p>
-Maldicta a natureza, que a fizera, a ella, só para o amor!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Ás onze horas da manhã seguinte, Camilla sentou-se a um canto da sala
-de trabalho. O sol entrava pela janella, extendendo no chão uma toalha
-de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta,
-preparando lições para duas discipulas novas. Toda a sua indolencia
-antiga se transformara em actividade; Nina cosia á machina e, no meio
-da casa, Noca burrifava a roupa para o engommado. Ella olhou para todos.
-Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem illuminava-lhe a
-fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até
-mais bonitas naquelle afan. Estavam na sua atmosphera.
-</p>
-<p>
-Com voz pausada e clara, Camilla pediu que lhe dessem trabalho.
-Olharam-na com espanto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãe quer mesmo fazer alguma coisa?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth.
-</p>
-<p>
-Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os
-filhos. Deixe Mario fallar, afinal aqui ninguem ha de morrer de fome...
-Vou buscar as creanças?! Vou, ou não vou?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vae, respondeu Camilla muito excitada: mas olha, não offendas a
-baroneza. Basta dizer ... que eu não tenho nada no mundo senão as
-minhas filhas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive
-quasi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Basta de palavriado, Noca! interrompeu Nina; e accrescentou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá descançada, eu acabarei de burrifar a roupa. E depois, para a
-tia:
-</p>
-<p>
-&mdash;Faz bem, tia Milla. O trabalho distrae.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXV">XXV</a></h4>
-
-<p>
-Depois de dois annos de viagens pelos Estados Unidos, o capitão Rino
-desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remoçado, lepido, despido
-do seu ar de ingenua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha de
-ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens.
-</p>
-<p>
-Catharina notou-lhe logo a differença, ao conduzil-o alegremente por
-entre os gyrasóes do seu jardim. Comprehendeu a serenidade do irmão.
-Vinha salvo.
-</p>
-<p>
-Na manhã seguinte elle lia alto um jornal, quando esbarrou com um
-annuncio para um concerto de Ruth.
-</p>
-<p>
-Parou; elle soubera de tudo pelas cartas de Catharina, e, voltando-se,
-fixou nella os seus olhos claros. Houve uma troca de confidencias entre
-os dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irmão, a
-moça perguntou em voz baixa:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vaes visital-a agora?
-</p>
-<p>
-Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com
-outra pergunta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que?...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>FIM</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FALLENCIA</span> ***</div>
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
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-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
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-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
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-</div>
-
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-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
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-</div>
-
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-</div>
-
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-</div>
-
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-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
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-</div>
-
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-
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