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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A fallencia - -Author: Júlia Lopes de Almeida - -Release Date: October 25, 2022 [eBook #69229] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by - The Internet Archive.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FALLENCIA *** - - - JULIA LOPES DE ALMEIDA - - - - - A FALLENCIA - - - - - 2ª EDIÇÃO - - - - - RIO DE JANEIRO - - Officinas de Obras d'=A TRIBUNA=--rua do Ouvidor 132 - - 1901 - - - - -INDICE -CAPITULO I -CAPITULO II -CAPITULO III -CAPITULO IV -CAPITULO V -CAPITULO VI -CAPITULO VII -CAPITULO VIII -CAPITULO IX -CAPITULO X -CAPITULO XI -CAPITULO XII -CAPITULO XIII -CAPITULO XIV -CAPITULO XV -CAPITULO XVI -CAPITULO XVII -CAPITULO XVIII -CAPITULO XIX -CAPITULO XX -CAPITULO XXI -CAPITULO XXII -CAPITULO XXIII -CAPITULO XXIV -CAPITULO XXV - - - - -A FALLENCIA - - - - -I - - -O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, -bafejando um ar de fornalha na atmosphera. Toda a rua de S. Bento, -atravancada por vehiculos pesadões e estrepitosos, cheirava á café -crú. Era hora de trabalho. - -Entre o fragor das ferragens sacudidas, o gyro ameaçador das rodas e os -corcovos de animaes contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, -compacto e esbaforido. - -Á porta do armazem de Francisco Theodoro era nesse dia grande o -movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as -saccas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa: - ---Andem com isso, que ás onze horas tenho de estar nas Docas! - -E os carregadores vinham, succedendo-se com uma pressa phantastica, -atirar as saccas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens -de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal -cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros, -nús da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados. - -Ao cheiro do café misturava-se o do suor d'aquelles corpos agitados, -cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos -braços. - -No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, -furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa -do caminhão, todo derreado para a aniagem das saccas, respirando a -poeirada que se levantava d'ellas. Os outros respondiam com eguaes -improperios, que os cocheiros dos tilburys, em esperas forçadas, ouviam -rindo, mastigando o cigarro. - -Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquillo, como formigas em -correição, com a cabeça vergada ao peso da sacca, roçando o corpo -latejante nas ancas lustrosas dos burros. - -Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de -uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que -invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os -parallelepipedos da rua. - -Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em -fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de -piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento -peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado -a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam -prospero. Enriqueciam-se com os sobejos. - -Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a -moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o -mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra -barulhenta e desharmonica. - -A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se -atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á -cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao -peso bruto. - -Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de -aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de -athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de -guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a -uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto. - -Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho, -vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal, -todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e -as Docas, tornando-se logo a encher famintamente. - -Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando -um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o -sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença -para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da -vida, num torvelinho de pó e gritaria. - -De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, -surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas, -enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de -protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua. - -Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa. - -No de Francisco Theodoro não havia paragem. - -O primeiro caixeiro, _seu_ Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, -de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de -camisa, apressando os carregadores esbaforidos. - -Á porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de -aço e latão todas as saccas que sahiam, para que se escapasse pela -abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os -passos nessa operação, e o café cahia cantando na soleira. - -Ao fundo, um rapazinho magro e amarello, o Ribas, apontava num caderno o -numero de saccas que levavam, rente á escada de mão por onde os -carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois -pelo asphalto desgastado e denegrido do solo. - -Tudo era feito numa urgencia, obrigada a grande movimento. - -Um sopro ardente de vida, uma lufada de incendio bafejada por cem homens -arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquelle -extenso porão negro, sem janellas, ladeado de saccos sobrepostos e -adornado nas vigas sujas do tecto por infinita quantidade de teias de -aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo. - -De vez em quando, um ruido de cascata rolava pelo interior do armazem. -Era o café, que ensaccavam na área do fundo, e que na quéda das pás -desprendia um pó subtil e um cheiro violento. - -Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no -som confuso, em que vozes humanas e rodas de vehiculos se amalgamavam -com o estrupido das patas dos animaes. - -Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas -corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito -trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros. - ---Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer! - -Era o seu estribilho. - -E havia sempre muito que fazer naquella casa, uma das mais graúdas no -commercio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sózinho o -caminho dos seus cofres, correndo para elles sem interrupção. - -Ao lado do armazem e communicando com elle por uma portinha estreita, -havia á esquerda o corredor e a escada, que levava ao escriptorio, -acima, no primeiro andar. - -Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, -guarda-livros, escrevia em pé, junto á escrivaninha collocada ao -centro. Em outra carteira trabalhavam os dois ajudantes, um velho, o -Motta, de sorriso amavel e modos submissos; e o outro, um moço bilioso -de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado. - -Nessa sala o trabalho era silencioso. As pennas não paravam, mal dando -tempo ás mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. -Diziam-se phrases sem se levantar os olhos da escripta, e as perguntas -eram apenas respondidas por monosyllabos. - -A um canto, sobre uma mesinha solida, entre uma das janellas e a parede, -estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira -pintada, a talha de philtro já ennegrecida pelo uso. Pelas paredes, -pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e -_cartas a responder_. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, -abria-se uma janella para o negrume do armazem, sob uma claraboia -estreita, de pouca luz. - -Era em um gabinete, ao lado, com uma janella para a rua e egual avareza -de mobilia, que o dono da casa escrevia a sua correspondencia, bem -repousado em uma larga cadeira de braços. - -Elle alli estava, acabando de fechar uma carta. - -Toda a sua pessoa reçumava fartura e a altivez de quem sae victorioso -de teimosa lucta. Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, -com os olhos garços tranquillos e os dentes brancos e pequeninos, tinha -um bello ar de burguez satisfeito. - -Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos -seus passos pesados. - -Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a -que elle respondia com paciencia, indicando claramente as cousas, com -minucias, para evitar confusões. - -Francisco Theodoro, á sua larga secretária de peroba, dava a face para -o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas. - -Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta -e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças. -No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo -seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio -a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse. - -Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento -de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava -primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem. - -Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um -commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos -Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga, -recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli -para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com -palestras de seu interesse e do seu gosto. - -Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram. - -Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as -calças. - ---Homem! vocês tardaram... - ---Culpa do Lemos... - -E depois: - ---O senhor está com a casa repleta! - ---Tenho exportado muito café! - ---Felizardo! aproveite a epocha, que não póde ser melhor! - -Corria então o anno de 1891 em que o preço do café assumira -proporções extraordinarias. O movimento crescia e casas pequenas -galgavam aos saltos grandes posições. - ---O que eu te invejo, disse o Ramos, unico que ousava tratar Theodoro -por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engomma as camisas! - -Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, -que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito -afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos. - ---Não é má essa, regougou o Lemos, o commendador Lemos, da -Beneficencia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que -nem de creança. - -Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do -Innocencio, perguntando a Theodoro: - ---Aqui o seu visinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o -outro, hein? - ---Homem, sempre é verdade aquillo?! - ---Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no negocio... - -Fixaram todos a vista no Innocencio Braga. Era um homem pequenino, -magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quasi -imperceptivel. - ---Custa-me a crêr nesses milagres ... ponderou Theodoro, pousando a -chicara na bandeja que o Isidoro offerecia. - ---Affirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazem e -esperou a occasião. O sogro ajudou-o, está claro... - ---Não meditou nas consequencias que poderiam sobrevir se se désse uma -baixa. - ---Quem falla em baixa?! Eu só lhe digo que o commercio do Rio de -Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquelle. -Senhores, a audacia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante -não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus -antepassados analphabetos. O negociante moderno age mais com o espirito -do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas -nobres do pensamento e do calculo. O Torres é de bom estofo; é -d'estes. Conheço os homens. - -Olhavam todos para o Innocencio com um certo respeito, reconhecendo-lhe -superioridade intellectual. - ---O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos. - -E logo o Innocencio accrescentou: - ---Tambem aquelle está destinado a ser o nosso Rottschild! - -Theodoro contrahiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais -habil, o mais forte fôra sempre o seu sonho... - -Voltando-se, inquiriu dos outros explicações meudas acerca d'aquelle -negocio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e elle meditava -no assumpto, alisando a barba grisalha, rente ás faces gordas e macias. - -O Negreiros, tendo dado volta á sala e enfiado pela porta do -escriptorio o seu enorme nariz de cavallete, virou-se para os outros e -disse a meia voz: - ---Que diabo! não posso acostumar-me a vêr aquelle velho como ajudante -de guarda-livros! - ---Que quer você? murmurou Theodoro; o Mattos empenhou-se por elle e -afinal a acquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá -boa conta do recado não penso em substituil-o. É assiduo. - ---Outro exquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o -Joaquim ... ninguem dirá que é o mesmo, lá fóra... - ---Muito carnavalesco e mettido com as damas, hein? Que se divirta, aqui -trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descança-me. - ---Ouvi dizer que elle vae casar com a Delphina do Recreio... - ---Historias! o rapaz é serio. - ---Tolo é que elle não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéo. - -O Innocencio despediu-se tambem; ia num pulo ao Torres. Os affazeres -eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café. - -Quando elle sahiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O -commendador Lemos sentenciou: - ---Este Innocencio é espertalhão! Está aqui, está director do banco. -Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por elle... Tem uma -labia! - ---E sabe encostar-se a boas arvores. O Barros tem-lhe dado boas -commissões e não é á toa que elle procura tanto agora o Torres... -Mette-se sempre na melhor roda... Aquelle não veio de Portugal como -nós, sem bagagem e cheirando a páo de pinheiro; trouxe luvas e meias -de seda... O patife! - ---São os que naufragam... - ---Quando não vêm á caça e não têm o geitinho que este revela... -Canta que nem um passaro, para attrahir a gente! - ---É uma intelligencia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas -as mãos o collete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se -no sofázinho austriaco, teve uma ponta de censura para as cousas -d'esta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado, a cidade -infecta. - -Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadencia -nem rhythmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua patria -andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metaes mais polidos, -os passos eguaezinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo -mais aqui, o mesmo relaxamento. - -A maldita Republica acabaria de escangalhar o resto. Veriam. - -Só no fim perguntaram pelas familias. - ---A proposito, perguntou o Ramos a Theodoro, aquella menina que vae -tocar violino no concerto dos pobres é sua filha? - ---Que concerto? - ---De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal... - ---Póde ser... são cousas lá da mãe ... a pequena tem um talentão; o -proprio mestre espanta-se. - ---E bonita! vi-a um d'estes dias, observou o Lemos. - ---Não, isso não! por emquanto ainda não se póde comparar com a -mãe ... protestou Francisco Theodoro, com sinceridade e um certo orgulho. - -Os outros sorriram. - ---Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo! - -Houve uma pausa. - ---Realmente, insistiu Francisco Theodoro, o Gama Torres deu um cheque -valente. Pois olhem, eu não dava nada por elle: um brasileirito -magro... - ---E começou outro dia! - ---De mais a mais, parecia acanhado ... timido... - ---Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre -um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou -razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso -Rottschild... - ---Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça -nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é -medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi! - ---Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o -commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu -systema, observou Theodoro. - ---Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario. -Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco. - ---Porco?! bradaram os outros, indignados. - ---Porco, confirmou o Ramos com solemnidade. - ---Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o -Lemos, o anafado. - -Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes -da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao -amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do -Innocencio. Que talento! - ---Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de -pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete. - ---Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, -maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido -aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu? - ---Com que diabo quereria elle que trabalhassemos? - ---Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O nosso -commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu por -mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito e -não aprendi nada. - -Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa -visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia. - -Depois de um suspiro, Theodoro concluiu: - ---Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos -o tombo que isto leva! - -Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano -desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva -intenção. - -Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e -assumptos lidos no _Jornal do Commercio_ do dia encheram um quarto de -hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que -aquella casa cheirava a dinheiro. - -Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo, -Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de -café, a dar informações. - ---Estamos esperando o café do Simas. - -O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções -do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem -tem engulido. - ---Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima? - -O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:--sim, senhor; -depois gritou para o fundo: - ---_Seu_ Ribas! - -O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a -ver ensaccar o café. - -A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus -serviços, deprimindo os alheios. _Seu_ Joaquim considerava-se o melhor -empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros -temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que -elle não perdoava. - -O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe -dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, _seu_ Joaquim lia -uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, -que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda. - -Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar. -Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho -era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena -triste, de africanos. Era mais bonito. - -As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido -da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E -ainda acham que as cousas se alteram de vagar! - -Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na -atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou. -O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas -corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de -trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a -freguezia, accrescentando para o estimular: - ---Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem -mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas! - -O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco -Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido. - -Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e -pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça, -dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de -exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de -financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de -toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria -justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do -que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de -esforço e de labor? - -Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a -mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o -mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão. - ---Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem... - ---Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade... - -Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois -para o seu gabinete. - -Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas -fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, -guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de -verão bafejava toda a rua febril. - -Os armazens, pelas boccas negras das suas portas escancaradas, vomitavam -ainda saccas e saccas de café, que as locomotoras e as carroças -levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da -Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó que -espalhavam no ar scintillações de ouro. - - - - -II - - -Em caminho de casa, Francisco Theodoro, recostado em um bond, persistia -em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéas lhe fugiam para -um curso perigoso. - -O exito do Torres quisilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o -caminho, impedindo-o de chegar ao seu ultimo ponto de mira. Galgava-lhe -de assalto a deanteira, para se quedar sempre na sua frente, como um -obstaculo. - -Aquella conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia -o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canceira do trabalho. -A vida tem ironias: teria elle sido um tolo? - -Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples -caixeiro, quasi analphabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os -sapatões barulhentos. - -Tinha ainda fresco na memoria o dia do desembarque--estava um calor!--e -de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal alimentado, com -saudades da brôa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grillos -pelas charnecas do seu logar. - -Pouco a pouco outros grillos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O -som do dinheiro é musica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu -destino, tolerando todas as oppressões, dobrando-se a todas as -exigencias brutaes, numa resignação de cachorro. - -Assim correram annos, dormindo em esteiras infectas, molhando de -lagrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi -enchendo, enchendo avaramente. - -Aquella infancia de degredo era agora o seu triumpho. Vinha de longe a -sua paixão pelo dinheiro; levado por ella, não conhecêra outra na -mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao -negocio. O negocio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o -ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço. - -Não podia explicar, como, só pelo attrito com pessoas mais cultivadas, -elle fôra perdendo, aos poucos, a grossa ignorancia de que viera -adornado. A letra desenvolveu-se-lhe, tornou-se firme, e a sua tendencia -para contas fez prodigios, aguçada com o sentido na verificação de -lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projectos, e -observando attentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um -negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a -quem a sociedade recebia bem. - -Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo á deusa da -fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para -elle, o Brasil era o balcão, era o armazem atulhado, onde o esforço de -cada individuo tem o seu premio. - -Fóra do commercio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um -olhar... - -Tempos de amargura e de esperança, aquelles! - -Relembrando o passado, Francisco Theodoro procurava em si mesmo -elementos com que pudesse bater influencias e oppôr-se ás -especulações de afogadilho; devia encontral-os espalhados pelos dias -asperos da incerteza e os macios da prosperidade. - -Esta rectrospecção agradou-lhe; fixou varios periodos. - -O tempo em que morara em um sobradinho do becco de Bragança, sombreado -pelo beiral muito extendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada -de rotula de um verde sujo. - -Embaixo e defronte, caixoteiros martellavam em taboas de pinho, cujo -cheiro dava ao becco immundo uma baforada fresca de floresta. E as -martelladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o -trabalho; de noite o theatro ou a casa da Sidonia. Que seria feito da -Sidonia? Devia estar p'r'ahi, em qualquer canto ... e velha. - -Aos domingos na chacara do Mattos, o solo, os jantares á portugueza, e -a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe gyrava na memoria, -suavemente, suavemente. - -Fôra no conforto d'aquella chacara, vendo-se cercado de -considerações, ao lado do amigo repousado e feliz, que elle sentiu a -sua importancia e se lembrou que deveria haver na terra outras delicias; -mas o seu coração, cançado de um lucta formidavel, negava-lhe novas -inclinações. A patria esquecida não lhe acenava com o minimo encanto: -a mãe morrera, a sua unica irmã tinha-se recolhido a um convento. -Fechara-se uma porta sobre a sua meninice. - -Sentia-se só; começava a cançar-se e a enjoar as mulheres faceis, com -quem convivia em relações momentaneas. Mesmo a Sidonia enervava-o com -os seus arrufos ... e as suas denguices. - -Atirou-se a proteger as instituições do seu paiz, a andar com -medalhões e a fazer mordomias na Beneficencia. No fundo, não era só a -distracção que elle buscava, nem a caridade que elle exercia; uma -outra causa lhe filtrava n'alma aquella vocação para o beneficio... - -E a commenda chegou. - -Foi só depois de commendador que Theodoro se sentiu vexado d'aquella -habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelaria, que -mobilou a vinhatico, com exuberancia de chromos pelas paredes. Achou, -ainda assim, que á sua casa alegre faltava qualquer cousa... - -Viera-lhe a dyspepsia. Que insomnias! - -Um medico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem á terra ou o -casamento, para a regularisação de habitos. Elle achara cedo para a -viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéa do casamento -parecia-lhe mais salvadora. - -Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma -esposa dedicada e meia duzia de filhos que lhe herdassem virtudes e -haveres? - -No seu sonho começou a esboçar-se a idéa de um herdeiro. Teria um -rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse, -sobretudo, um continuador d'aquella casa da rua de S. Bento, que -engrandeceria com o seu prestigio, a sua mocidade, bem assente no apoio -e na experiencia paterna. O filho seria a sua estatua viva, nelle -reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infancia, seria -instruido. - -E tanto aquella idéa o perseguia, que num domingo de solo abriu-se ao -Mattos, que acolheu com ar solemne e discreto as confidencias do amigo. - -Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera: - ---Sei o que você quer. Tivemos aqui na visinhança uma familia que está -mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é -a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna. - -Francisco Theodoro murmurou: - ---Pois uma mulher assim é que me servia. - ---O diabo é que ellas vão de mudança para Sergipe... - ---Então acabou-se. - ---Não se acabou tal. Por emquanto estão hospedadas em casa de umas -tias, no Castello. Ainda é tempo de lá irmos fazer uma visita... O -resto fica por minha conta. - -Foi por uma noite escura que elle, já mais por condescendencia que por -curiosidade, entrou com o Mattos na casa das senhoras Rodrigues, no -morro do Castello. - -Fazia frio; na rua um cão uivava longa, doloridamente. - -Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, D. Itelvina, -senhora alta e secca, muito nariguda, vestida de lãs pardas. Os outros -ainda se cumprimentavam e já ella se sentava, erguendo o joelho agudo -sob a costura. Não tinha tempo a perder. - -A outra senhora da casa andava por fóra; Theodoro conhecera-a depois. -Essa era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido á novena do Carmo -com as duas sobrinhas mais moças e o irmão, o velho Rodrigues. - -Em uma sala vasta, quasi núa, mal clareada por um lampeão de kerozene, -viu Theodoro, pela primeira vez, D. Emilia, uma senhora bonita, de ar -magestoso e olhos trefegos, e as suas duas filhas mais velhas--Camilla e -Sophia. - -Camilla fazia _crochet_ perto do lampeão; Sophia refugiara-se para um -canto do canapé, queixando-se da cabeça. E a mãe começou a fallar -com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome de -Camilla sahia-lhe da bocca com um elogio. Era a filha mais velha e a -mais instruida: pilhara os tempos das vaccas gordas, quando o pae -exercia um cargo lucrativo. - -Os dedos de Camilla apressavam-se no _crochet_; com certeza ella havia -de ter errado os pontos e sentido os olhares de Theodoro queimarem-lhe -a pelle, que a tinha linda, de uma alvura azul de camelia. - -D. Emilia asseverava que a sua _Milla_, como a chamavam em casa, -esquecia-se das suas prendas, obrigada pela necessidade a fazer -serviços domesticos. - -Francisco Theodoro commoveu-se com a idéa de que aquella mulher, -talhada para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a -callejar as mãos com o uso da vassoura ou do ferro. - -Trabalhar! trabalhar é bom para os homens, de pelle endurecida e alma -feita de coragem. Olhou para a moça com veneração. - -Era bonita, alta, com grandes olhos avelludados, cabello ondeado preto e -uns dentes perfeitos, muito brancos, mas que ella mostrava pouco, -sorrindo apenas. Da irmã Sophia, na sombra, mal se adivinhavam as -feições. - -A uma das phrases, em que a abundancia do amor materno lhe debuxava as -perfeições, Camilla sahiu de ao pé da luz e foi para a janella olhar -para o escuro. - -Como correu depressa aquella noite! - -Francisco Theodoro sahiu tonto. O amigo ria-se: não lhe tinha dito? -Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim. - -E dias depois o Mattos pedia a mão de Camilla para o amigo. - -Começou então a serie de presentes e de visitas. Milla tinha sempre o -mesmo embaraço e a mesma brandura de sorriso. - -O que ella ouvia da familia, não o podia adivinhar Francisco Theodoro, -que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante. - -Adiou-se a partida para Sergipe; houve doenças em casa, prolongação -do noivado, peregrinações de Theodoro por aquelle morro do Castello, -com raminhos de violetas para a Milla; todas as doçuras de namorado... - -Casaram-se em um dia lindo. - -Elle dera grandes esmolas aos pobres da egreja; Milla parecia um anjo -entre nuvens brancas... - -Depois, a familia partiu para Sergipe. O pae era chôcho, mas levava a -carteira gorda. A mãe, com o seu modo de rainha desthronada, e as -irmãs iam bem enroupadas e todas tranquillas sobre o futuro de Milla e -do filho mais velho, o Joca, por quem Theodoro promettera olhar, e que -andava por ahi, atôa. - -A sua maior commoção fôra ao entrarem casa, na rua da Candelaria. -Suppuzera sempre que ella apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho, -na alegria de ser a dona, a senhora de tantas cousas compradas para o -agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camilla -fôra para a sacada. Elle acompanhou-a. - -Em frente, os telhados mais baixos succediam-se irregulares, cortando-se -em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, deseguaes, -accumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janellinhas de sotãos -espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras -e curtas, baforando fumo. - -Camilla murmurára, como quem falla só: - ---Se ao menos se visse o mar... - -Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou -perto, formidavel, prolongando-se num som que era como um gemido da -cidade inteira. Milla ergueu-se com um estremeção e voltou para o -perfil da egreja o olhar extatico. - -Elle sorrira do susto, emquanto ella dizia: - ---Como é alto! - -Depois d'esse, vieram dias tranquillos. A mulher bordava almofadas para -o sofá e emmoldurava os chromos com musgo e flores seccas. - -Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sidonia -reappareceu na vida de Theodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades. -Nem a pobre Camilla desconfiara nunca... Tambem, nada lhe tinha faltado -e já devia ser um regalo para ella cobrir de boas roupas o seu corpo de -neve, ter mesa farta, e andar pela cidade attrahindo as vistas, no -deleite da sua graça... - -Então iam grandes remessas para Sergipe. - -Um sorvedouro, aquella familia, sempre exhalando lamurias em todas as -cartas, na sêde insaciavel de dinheiro. - -Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe -mettia em casa, com os seus máos costumes de vadio. Elle fôra o -causador de tantissimas querellas! E aggressivo na sua indolencia, mal -humorado pelas dividas do jogo, e ingrato! Má raça. Além do mais, -pespegara-lhe depois com a filha em casa, aquella pobre Nina, tão -enfezada nos seus primeiros tempos, fina como um canniço, e com uma -tosse de cão, que repercutia pelos corredores. Emfim, essa, ao menos, -servira depois para ajudar Camilla a criar as filhas, que o Mario, esse -já ella o encontrara forte como um heróe! - -O Mario... - -No percurso da Carioca á praia de Botafogo, Theodoro foi assim -reconstruindo a sua vida, solidificando-a, pondo-a de pé. Era com essas -memorias de familia e de trabalho, que elle se entrincheiraria contra os -assaltos das novas ambições. - -O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava já acolá em -grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as -arvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em vôos tontos. Uns -pequenos atiravam um cão da Terra Nova á agua, e as janellas dos -palacetes mal se abriam aos esplendores de fóra. - -Perto do collegio, subiram para o bond duas irmãs de caridade, com -ramalhetes de rosas. Theodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e -distinguiam-no sempre, por sabel-o religioso. Iam levar á ermida da -Copacabana aquellas flores, promettidas pela salvação de uma alumna, -que estivera ás portas da morte. - -Uma conversa simples, em dois minutos, foi como balsamo para o espirito -fatigado do negociante. - -Demais, elle achou bonito, commovedor aquillo: uma creança ás portas -da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a visão de uma ermida -sobre o mar... - -Quando Francisco Theodoro chegou a casa, as suas filhas gemeas, Rachel e -Lia, brincavam na chacara. Ao vel-o abrir o portão, as creanças -atiraram-se para elle, que mal lhes passou os dedos pelos cabellos; -ellas tambem pouco se detiveram e Theodoro atravessou o jardim. - -O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um -parque, elle erguia os seus balcões por entre palmas estrelladas de -coqueiros e copas de arvores bem escolhidas. Aquillo não fôra obra -sua; tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ruina o -obrigara a hypothecal-a quando a construcção ia em meio e a vendel-a -logo depois de concluida. - -Á esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida, -conduzia ao terraço alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a -familia palestrava, á espera de descer para o jantar. Nessa tarde só -estava alli o filho mais velho, o Mario, todo derreado numa cadeira de -balanço. O pae foi andando, e elle mal esboçou um movimento para -levantar-se e dar-lhe as boas tardes. - -Era já homem, muito moço ainda, e todo elle revelava preoccupações -de luxo e cuidado da sua pessoa. - -Na sala da frente fallava-se com alegria. - ---Temos visitas--pensou Theodoro, vendo chapéos de homem no cabide da -saleta. - -Quando elle entrou na sala, a mulher dizia á filha: - ---Vae ensaiar, Ruth! - -A seu lado, sentado no mesmo divan, o Dr. Gervasio Gomes desenhava a -lapis na carteira qualquer cousa que a fazia sorrir. Elle gabava-se de -ter geito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e -tres annos, trigueiro, e apurado na _toilette_. Era ligeiramente calvo, -tinha um olhar de que as lentes de myope não attenuavam a agudeza, e um -sorrisinho ironico, que lhe mostrava os dentes claros e meudos como os -dos roedores. - -Camilla guardava um viço prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava -como mulher formosa. Tinha herdado da mãe aquelle ar de magestade, que -tanto impressionara Theodoro na primeira entrevista do Castello, -adoçado por uma grande expressão de calma e de bondade. - -Francisco Theodoro foi direito a elles e cumprimentou-os, sem se atrever -a roçar os labios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor das -suas acções em familia. Sentava-se já, quando ella lhe disse com leve -censura: - ---Você não cumprimenta o capitão Rino nem o maestro? - -Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se -dirigia com o violino na mão. Pedidas as desculpas, Theodoro voltou-se -para o capitão Rino: - ---Muito me alegro de o ver aqui, capitão; quando chegou da sua viagem? - ---Hontem. - ---Você não imagina, interrompeu Camilla; o capitão trouxe-me um -presente lindissimo! - ---Que foi? perguntou a meia voz o Dr. Gervasio. - -Francisco Theodoro enxugava com o lenço a calva rosada e luzidia. -Milla, voltando-se para o medico, explicou: - ---Uma collecção de orchideas do Amazonas; e prometteu mandar vir para -o lago uma _Victoria Regia_. - -O doutor murmurou por entre dentes, em tom que só Camilla pudesse -ouvir: - ---Isso de prometter é que não é bonito... - -A moça relanceou-lhe um olhar, como a pedir misericordia para o outro, -que palestrava agora com o dono da casa.--Não era bonito, por que?! - -O capitão Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu typo de loiro -e pela robustez do seu corpo. Era alto, de hombros largos. Tinha as -mãos grandes, os olhos claros, de um azul de faiança; o bigode sedoso, -como que acabado de nascer, e a pelle queimada pelos ventos do mar. Só -se lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pescoço, -quando elle atirava a cabeça e os braços nos seus gestos largos e -desageitados. Havia qualquer cousa de infantil naquelle homem grande, -uma interrogação timida talvez no olhar, e um certo abandono, de -pessoa pouco afeita á sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores -vistosas, abusando do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos. - -Ruth poz-se em attitude; a mãe gritou-lhe: - ---Imagina que estás deante do auditorio! - -Ella pareceu não a ouvir. Em pé, ao lado do piano, alta e espigada, -com a cabeça unida ao seu hombro estreito de menina, os cabellos negros, -cahindo-lhe em ondas sobre o pescoço moreno, os olhos de um verde -limpido, de agua marinha, abertos para o vacuo, tinha um ar de -sonnambula perdida em sonhos divinos. As mãos, longas e esguias, -moviam-se com segurança; o vestido branco, salpicado de florinhas -amarellas, mostrava-lhe um pouco das pernas finas, calçadas a preto. - -O Lelio Braga, recemchegado da Allemanha, o gordo maestro que só -fallava de musica ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente. Fez-se o -silencio em volta, mas por pouco tempo. Recomeçaram as conversas em tom -mais baixo. Ruth não ouvia ninguem; um brilho quente, de sol, sahia-lhe -dos olhos verdes, voltados para a luz. - -Só o capitão Rino parecia escutar a musica, olhando de esguelha para -Camilla. Abominava a confiança que ella dava ao outro, ao magro Dr. -Gervasio, alli tão agarrado ás suas saias, dizendo-lhe cousas que a -faziam sorrir. Tudo naquelle homem o irritava: o seu luxo, o seu typo -escanifrado e o seu ar de ironia, ás vezes perversa, outras insulsa. - -Francisco Theodoro, nunca interessado por cousas de arte, nem mesmo pela -musica, quebrava a miude as reflexões do capitão Rino, interrogando-o -sobre assumptos do Norte, de puro interesse commercial. - -Ainda vibrava no ar a ultima nota do violino, quando Nina, sobrinha dos -donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava -sympathica a toda a gente. Não era bonita: tinha o nariz grosso e -alguns signaes aloirados na pelle pallida. - ---Você viu as parasitas? perguntou-lhe Camilla. - ---Que sim; e, voltando-se para o capitão: - -Devemos conserval-as ao ar livre ou na estufa? - -O capitão fez um gesto de ignorancia. - -Só á hora do jantar, Mario se reuniu á familia. A mesa, cheia de -crystaes e de prataria, tinha um aspecto festivo. - -O dinheiro ganho á custa de trabalho gosta de impor-se á admiração -alheia. O dono da casa, refrescado no paletot de brim, não se cançava -de elogiar os seus vinhos e alludia a miude á excellencia do -cozinheiro. - -Se alguem se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um calice de velho -Madeira, elle acudia animadoramente:--Beba, que esse é legitimo; egual -não se encontra com facilidade por ahi. - -Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos -complicados intactos. A fartura passava ao desperdicio. A copa -atulhava-se de peças grandes, em que as folhas de alface e os desenhos -a rodas de limão, de ovo, azeitonas e gelatina não disfarçavam a -opulencia das carnes. - -Á cabeceira da mesa, Francisco Theodoro gostava de, espalhando a vista -por toda a longa superficie branca da toalha, vêl-a bem coberta de -cousas caras e vistosas. Assim comia com appetite, gostosamente. Era o -seu triumpho na vida, que todo esse luxo representava, na unica -occasião em que lhe sobrava tempo para admiral-o. - -Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o -Dr. Gervasio havia menos instancias: conheciam-lhe os habitos de homem -delicado. O capitão Rino era muito mais moço e trazia da sua vida de -mar valentias de estomago. - -As creanças comiam á mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra e -exigencias. - -Mario reprehendia-as, achando intoleravel que o pae consentisse aquillo! - ---O nome do seu vapor é...? perguntou ao capitão o Dr. Gervasio, -ageitando a luneta no nariz. - ---_Neptuno._ - ---Amado de Amphitrite e das nereidas. O patrono deve pôr-lhe em perigo -o socego... - ---Porque? - ---Porque assim moço, bonito, e com tal suggestão, de forte envergadura -precisa o senhor para resistir ás seducções das sereias... - ---Que ninguem viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capitão -ingenuamente. - ---Convirá não affirmar que não as haja tambem em terras do Brasil, -sublinhou o doutor com um sorrisinho, descendo o olhar para a pera que -descascava. - -Riram-se do embaraço do capitão, que murmurou, desviando a vista de -Camilla: - ---Os cantos das sereias não me seduziriam... - ---Pois é pena; sem imaginação a vida do mar não pode ter encantos. -Se eu, em vez de medico, obrigado a deter-me com o que ha de mais -prosaico na natureza, fosse ... o capitão do navio ... perdão, do -vapor _Neptuno_, apegar-me-ia á mythologia, faria dos seus deuses a -minha florida e alegre religião, e affirmo que seriam de goso para mim -as noitadas no convéz, vendo ao clarão das estrellas Venus surgir das -espumas e boiarem á tona da onda negra os dorsos brancos das cincoenta -filhas de Nereu. Estou certo de que não sentiria a tal melancholia das -aguas, de que ás vezes os senhores se queixam. Um homem de espirito -nunca está só... - -O capitão sorriu e Francisco Theodoro fallou com o seu modo -sentencioso: - ---Elles gosam a seu modo. - ---Não gosamos, não; a vida do mar é dura. - -O Dr. Gervasio não póde sentir com sinceridade o que disse... - ---Assevero-lhe que sim, capitão; e que parti de um principio de que -parto para todos os actos da vida, convicto de que está no proprio -homem o remedio dos grandes males que o affligem. - ---Se vae dizer isso ao pé dos seus doentes, ninguem mais o chamará, -replicou Camilla. - ---Chamarão; infelizmente chamam sempre. Ninguem tem absoluta confiança -em si. O homem, por mais que digam, ignora a força de que vem revestido -para a sua funcção. Para nós, a natureza representa apenas o papel -secundario da paizagem; é o accessorio, a _mise-en-scène_ da Vida, em -que nos atormentamos mutuamente num alarido de inferno. Não valia a -pena crear coisas tão bonitas para serem tão mal aproveitadas. Palavra -de honra! se fosse possivel conceber o riso, ou apenas o sorriso, na -face tremenda do Omnipotente, eu diria que Elle ás vezes escarnece de -nós. Á sua saúde, capitão! - ---Obrigado... - ---Um dia metto-me no seu _Neptuno_ e atiro-me para o Norte. Curiosidade, -simplesmente; tenho mais vontade de vêr os crocodilos do Amazonas do -que ... eu sei lá! as bailarinas da Grande Opera. - ---Homem, dizem que a carne do crocodilo é boa, disse Francisco -Theodoro. - ---Ha tambem quem affirme que a das bailarinas ainda é melhor! observou -o medico. - -Camilla riu-se; e depois: - ---E eu que nunca vi um grande vapor por dentro! - ---Quer ir commigo a Manáos? - ---Não; mas quero que o capitão Rino nos convide para visitar o -_Neptuno_. - -O moço maritimo balbuciou, corando: - ---Oh! minha senhora... - -Interrompeu a phrase, porque ia dizer:--eu não desejo outra cousa! mas -achou mais acertado e mais simples accrescentar sómente:--quando -quizer. - ---Será num domingo, para que meu marido vá tambem. E as creanças -poderão ir? - ---Por que não? - -Lia e Rachel bateram palmas. - -Ao café, no terraço, Camilla declarou preparar um grande baile para o -S. João, quando a Ruth completasse os seus quinze annos. - -O Dr. Gervasio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto. - ---Por que? - ---Porque a noitada de S. João mette medo ás casacas e assusta os -decotes. É um santo que só quer luz de fogueiras, com altas labaredas -e crepitações, e ainda ha de ser no campo, entre gente rude que danse -em torno ás chammas. - -É uma festa que me dá ideia de uma cerimonia ritual, de povo -primitivo. Deixe o seu baile para outro dia. - ---Mas depois eu não terei pretexto... - ---Meu Deus! não é preciso descer uma pessoa a dar explicações aos -amigos, quando se trata de os divertir... - -Francisco Theodoro ouvia o Dr. Gervasio com muito acatamento, -reconhecendo-lhe superioridade intellectual. - -Devia-lhe a vida dos filhos, confessava, e d'essa divida não se -cançava de se dizer devedor. - -Approvou a idéa do baile; fizessem o que quizessem, a bolsa estava -aberta. E a proposito, deixando os outros a tagarellar no terraço, elle -fechou os olhos e pensou na felicidade do Gama Torres... Quem sabe?... -talvez que elle pudesse fazer o mesmo; a epocha era favoravel, o café -rendia como nunca e ainda havia esperanças de alta... Se fugisse -áquella occasião ... perderia o ensejo de triplicar de um dia para o -outro a sua já grande fortuna... Fôra sempre um homem de acção, de -recursos, como ficar na retaguarda, imbecilmente, deixando que a outro, -novato, se conferisse o titulo de Rottschild brasileiro? O ciume do seu -nome de negociante enchia-o até aos olhos. Encadeou e desencadeou -pensamentos calculistas. - -Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, era toda a sua ambição. -Repetia a qualquer a humildade da sua origem, espreitando o effeito -d'essa confissão. Ser o mais poderoso, o mais rico, o mais forte, tendo -partido do nada, não seria ter alcançado a suprema gloria na terra? - -E, alli mesmo, bem recostado na sua cadeira de balanço, com o papo -cheio de optimas iguarias, as mãos descançadas nos braços da cadeira, -elle insensivelmente passou do sonho ao somno. - -Na meia sombra do lusco-fusco, os olhos do capitão Rino fulguravam, -espiando com raiva os rostos do medico e de Camilla, que se -contemplavam. Mario atravessou o terraço de charuto na bocca, em -direcção á rua. - ---Onde vaes? perguntou-lhe a mãe. - ---Ao theatro; respondeu elle sem se deter, descendo a escada. - ---Este rapaz ... este rapaz ... resmungou por entre dentes o Dr. -Gervasio, em modo de censura. - -Camilla desculpou-o; o filho tinha genio e era muito independente. Não -queria contrarial-o; para que? A vida é curta, cedo viriam as -amofinações. O juizo havia de vir com a edade... - -Em baixo, no jardim, entre os grupos rescendentes de heliotropo e de -jasmins do Cabo, as creanças e Ruth faziam roda á Noca, mulata antiga -na familia, que lhes contava historias de fadas e de principes -encantados. Vendo Mario dirigir-se para o portão, a mulata chamou-o com -familiaridade de amiga velha: - ---Seu Mario, escuta aqui! - ---Que é, Noca? - ---Onde é que vae? - ---Se eu não morrer pelo caminho, hei de chegar ao theatro. - ---Não morre; eu ainda esta noite sonhei que V. estava amortalhado e que -D. Nina chorava sangue... Sonhar com morte é signal de saude. Traga -umas balas para mim. - ---Vá esperando. - -O capitão Rino despediu-se e desceu tambem para a rua, ouvindo a voz da -Noca recomeçar numa melopéa: - -«Minha varinha de condão, pelo poder que Deus vos deu, fazei...» - -Nina, encostada á grade, via Mario afastar-se; e lá em cima, no -terraço, ao lado do marido adormecido, Camilla curvou-se para o Dr. -Gervasio e beijou-o na bocca. - - - - -III - - -Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava -ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da -Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do -morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D. -Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais -sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada -para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem -soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe -ministrava. - -Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes, -conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos: -uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o -prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para -a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha. - -Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um -canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras -e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um -tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo -desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas -vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na -lenha. - -D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria -fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse -todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo. - -A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe -importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do -seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella -pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades -capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de -uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello -grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos -encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés -largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha, -ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um -rosario de ambar benzido pelo bispo. - -D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em -frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o -parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios -finos. - -A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz -de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como -se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam. - -Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que -confraternisa as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se -mutuamente, guiadas pelo habito. - -Quando Noca bateu á porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que -haviam de ser da Sancha, a negrinha orphã que D. Itelvina explorava nos -arranjos da casa. - -Abriu-se uma janella com bulha impaciente e appareceu a cara de D. -Itelvina, indagando de quem batia. - ---Ah!... é você, Noca! espere um pouco, eu já vou. - -Dentro, a mulata explicou: - ---Nhá Milla mandou fazer uma visita e saber das senhoras como estão ... -ella não pôde vir, porque... - ---Já sei. Isto é muito alto ... se fossem as escadas do Lyrico, muito -que bem!... casa de pobres... - ---Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até -dizem todos o contrario... - ---Dizem? mentiras! mentiras só... Como vae seu Theodoro? - ---Muito bem. - ---Excellente homem; aquillo é que foi sorte grande, hein Noca? - ---Foi, sim, senhora; elle é bom ... tem as suas impertinencias ... mas -a gente já sabe que é do genio... - ---Qual o quê! Milla deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já -não é facil uma moça pobre e sem protecção encontrar um casamento -assim! - ---Isso é verdade... Ella tambem é muito boa. - ---Você se lembra de quando elles moravam na Lapa, que até você levava -ás vezes comida da casa de pasto para dar ás meninas? - -A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não -fôra só da Lapa que ella levava os restos dos jantares da casa de -pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castello, com a -trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Milla e das irmãs, -então hospedadas em casa de D. Itelvina. - ---De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das creanças. - ---De uma viuva que já morreu, emendou Noca, impellindo as duas -creanças para o quintal. Vão ver a vista ... vão ver os signaes dos -vapores ... dizia ella. - -D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não -exclamasse: - ---Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de -creanças! Milla teve sempre propensão para o desperdicio... Bonitos -aquelles vestidos! Onde os compraram? - ---Vieram de Paris... - ---Uhm ... não haviam de ser baratos ... aquillo é seda, não é? - ---É, sim, senhora. D. Joanna sahiu? - ---Já se sabe! anda pelas egrejas... Se não fosse eu, não sei como -havia de ser!... - -Noca reparou, olhando para a alcova do oratorio, aberta para a sala, que -a lamparina estava apagada. - -D. Itelvina continuou: - ---Joanninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça -tudo... Ella não tem apparecido por lá? - ---Não, senhora... - ---Ruth porque não veio? - ---Ficou dando licção. Ella tocou no concerto e foi muito festejada. - ---Ha de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar -um remendo ou fazer um vestido. - ---Graças a Deus, ella não precisa d'isso!... - ---O futuro o dirá... - ---Credo! - ---Pois sim. Cada vez bemdigo mais a educação que minha mãe nos deu. -Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas... - ---Tá hi! e D. Joanna não deu p'ra outras coisas? - ---Ella sempre foi religiosa, mas depois de viuva refinou! E ainda se -queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas! - ---Coitada! - ---Minha filha! ella vae d'aqui a pé a São Francisco, ao Carmo, á -Penitencia, a S. Bento a qualquer egreja da cidade!... Ás cinco horas -já está nos Capuchinhos; e á tarde aqui na egreja do hospital ella -canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos -acuda! - -Alguem batia á porta, e D. Itelvina, tendo espreitado pela janella, -voltou-se apressada e foi reaccender a lamparina do oratorio. - -Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e, -despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na -sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca. - -A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as -paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de -um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um -trecho de mar muito azul. - -D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira -cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro -e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os -olhos vermelhos e inundados. - ---Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um grande -sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e depois de -uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades religiosas? - ---Vae todos os domingos á missa. - ---Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos. -A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as -pernas cada vez mais inchadas... - ---Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior. -Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes. -Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a -chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; -conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e -applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos -martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o -melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar -qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe -contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os -filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já -morta. - -Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e -confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não -lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão! - -Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de -novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das -moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas. - -Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham, -parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto, -para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de -mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez. - ---A senhora vem morar pr'a qui? - ---Não; vim fazer uma visita. - ---A quem, inda que mal pergunte? - ---Ás senhoras Rodrigues; conhece? - ---As duas velhotas da travessa de S. Sebastião? - ---Essas mesmo. - ---Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou -conter-se, abalou a fallar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram -muito conhecidas no bairro. Diziam que D. Itelvina passava horas da -noite excavando o quintal, á procura dos afamados thesouros guardados -pelos jesuitas. Os visinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra -do pateo, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança. - -A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus -haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que -ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe -comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras! - -Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para -a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe -puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge. - ---Uê! que é que você quer? - ---Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio -uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda. - ---Que favor, gente? - ---Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o -dinheiro que offerecia á mulata. - ---Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!... - ---P'ra nada! faça esta esmola... - -E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro, -rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para -casa. - -As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito -quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos -Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração. - -Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a -baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu _phaeton_, -que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar -os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas -irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama. - -O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou: - ---Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da -mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só! - -O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito _chic_, e ella -sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle -rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera -tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora -não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... -Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus -pensamentos: - ---Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro -foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o -que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração -do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si... - -Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que -percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem -calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de -contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo -restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia -nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella -fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a -moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto, -havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala. - -Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e -os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á -mãe. - -Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata: - ---Vamos, Noca! - ---Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira... - -A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para -as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco -Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher -mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas -visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque -era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava -sempre escancarado. - -Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de -Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto -da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de -se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os -gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que -mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar. - -A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava -para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia -acceitavam, com agrado, num sorriso... - -Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas -gordas estrondearam no jardim. - ---É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e -correndo para fóra. - -Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta, -quando elle passou pelo corredor. - -Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe -a mão, luminosa de pedrarias. - -Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou: - ---Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este -brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido... - -Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito -de desviar a attenção. - ---Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão. - ---Brilha tanto! - ---É do Cabo, muito amarello. - ---Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido. - ---Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de -um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena -que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem. - ---Só. - ---Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro. - ---Versos? - ---Não. Um romance. - ---Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma -monotonia... - -Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos -resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia -maravilhoso! depois, voltando-se: - ---O livro? - ---Está aqui. - ---Já leu? - ---Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso. - ---Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras -perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas -responsaveis por tudo--como se não pagassemos caro a felicidade que -fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os -castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não -poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me -torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do -fim. - ---Não tenha remorsos; o nosso não acabará! - ---Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o primeiro -anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a mulher, -por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que não -sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é commettido? Ha -sempre um vestigio _da outra_, que se mostra em um gesto, em um perfume, -em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se com as compensações -que nos trazem... - ---Isso tudo é vago e abstracto. - ---Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das -amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é -isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me -pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo -amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te -amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só -para mim! - -Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de -ciume. Passado um instante de silencio, murmurou: - ---É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. Bem, -levarei o livro. Adeus. - ---Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido, -illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa. -Ensine-me a fallar, Gervasio. - ---Então, diga lá:--amo-te! - -E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente. - -Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no -jornal eram do capitão Rino. - ---São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar. - ---Ih! então elle é muito rico? - ---É. Vão brincar. - -As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico -ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito -branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha, -faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo. - -Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o -amaria a elle, em toda a sua vida. - -Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a -porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e -Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae. - -Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma -entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por -aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a -todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis -quando menos se esperava. - -Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada. -Gervasio ergueu-se. - ---Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas -na rua do Ouvidor... - ---Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por -sua causa! E ella vem perto!... - ---Tontinha! e não sou eu mais velho? - ---Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você... - ---Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos -com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não -acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o -Lelio. - -Camilla acompanhou-os ao terraço. - ---Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro. - ---Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me... - ---Ella é estudiosa... - -Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim; -depois disse, voltando-se indignado para Camilla: - ---O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos -canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem -instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez -acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença. - -Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz -idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo -ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais, -folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem -guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro? - -Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o -medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa... - -Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico, -bem installado, mas muito mettido comsigo. - -Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco -Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha -que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança, -mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas -cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a -menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que -tratou tambem de fortalecer Mario. - -Camilla dizia então em extase, ao marido: - ---Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra -victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra -no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia -ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa -mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a -morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As -gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da -mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras -insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu -pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A -evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por -sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que -essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus -gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com -redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que -uma obra sua. - -Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle -lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas, -inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e -harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de -maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem -escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço, -obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua -alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo -delicado--apaixonou-se por ella. - -Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a -solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o -medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor -d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura. - -Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias -mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se -vencer. - -Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma -lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa -salvaguardava-se nessa crença. - -Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da -familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe, -com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento -de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma -casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das -habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de -dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas. - -Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na -enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade. - -Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente -em casa o ouvia com attenção. - -Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar -alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio. - -Dias depois ella dava os últimos retoques á sua _toilette_, em frente -ao espelho, quando o marido entrou. - -Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar: - ---Por que é que você veio tão cedo? - ---Por duas razões... - -E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se, -indagando com interesse: - ---Você está doente? Diga! - ---Não tenho nada filha, descança. - -Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho. - ---Então que motivos são esses? - ---O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou -hoje uma perna. - ---O velho? - ---Sim. - ---Coitado! como foi? - ---Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas -quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais -serio. - -Sem afastar do rosto o _pompon_ do pó de arroz, Camilla interrogou com -certa indifferença: - ---Que é? - ---Trata-se do senhor seu filho. - ---Meu só?! tem graça... - ---Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, -o tal senhor! - ---Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?! - ---Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das -patifarias do rapaz és tu. - -Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera: - ---Hein?! - ---Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu -filho! - ---Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla, -olhando para o marido de alto. - -Elle continuou: - ---É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar -assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e -com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?! - ---É a mocidade... - ---Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe. - ---Trabalhar! Mario tem só dezenove annos! - ---Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume! - ---Mas por que não lhe falla você? - ---Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um -desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não -lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o -meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem -sei, se não me tirasses toda a força moral. - ---Eu?! - ---Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o -resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha... - ---Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma -acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o -aconselhe a deixar a tal mulher?... - ---Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não -posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os -caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho, -ou o mando para a Marinha. - ---Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho! - ---Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não -seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros -filhos! - ---Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito... - ---Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está -bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As -Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth. - ---Que me importam a mim as Gomes! - -Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por -entre os vidros, informou com voz amavel: - ---Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a -Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da -procedencia. - ---Que procedencia? - ---Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio... -Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso... - ---Você lembrou-se. - ---Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a -Nina ... bom casamento!... - -Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de -perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ... -pois sim! - ---Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do -Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á -gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe -damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal -sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam -geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e -que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a -ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já. - -Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes -da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um -movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo: - ---Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho... - -Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as -ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, -eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou -bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e -escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como -culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance -da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e -vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos. - -O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico, -emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras. - -Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para -a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas -farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella! -já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se -via! - ---Cara senhora, então, o amigo Gomes? - ---Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina. - ---Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se -queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A -mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada -d'elle não vale nada! - -Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr. -Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim: - ---Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de -guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O -homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses -apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora -ao amigo que amanhã vá lá vêl-o. - ---Perfeitamente. Onde mora? - ---Na rua Funda, tenho aqui o numero... - -Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis. - ---Rua Funda? Onde é isso? - ---É no outro mundo, lá para os lados da Saúde. - -Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a -escada exterior do palacete, olhando de relance para todos. - -As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não -verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e -macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes -perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a -passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre -a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera. - -Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos -cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos -dedos estrellados de anneis. - -Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar -pelo criado a bandeja de prata com o vermouth. - ---Por que não subiram? - ---Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella está -crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos... - ---Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não -toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não -imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina! - -Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas -arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz -que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr -de vestidos compridos. Que horror! - ---Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze -annos... - ---Quatorze ... quasi quinze! mas não parece. - ---Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação -tem deveres... - -Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito -perfumada. - ---Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa -colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido -buscal-a, a senhora não a teria agora... - ---Ahi está... - -D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e -depois, voltando-se: - ---Camilla, você já comeu geleia de manga? - ---Não me lembra... - ---Pois é gostosa e facil de fazer; olhe... - -Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para -ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as -palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de -longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao _Neptuno_, da esquerda, -ou um--_expreme-se_ e põe-se na peneira--da direita. - -Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se -d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de -sentimento. - -Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer -comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava: - ---A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. -A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho -e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,--é -mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa! - -O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou -Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle -conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica, -de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita -gente boa. - -Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se -na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante. - -Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças -da visinhança, as Bragas. - -Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os -joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle -estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, -interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E -foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da -rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama -Torres, com elogio e assombro. - -Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça -picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras. - -O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao -principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os -olhares trocados entre Camilla e Gervasio. - -Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão -evidente? - -Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo. -Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem -abaixar os olhos: - ---Que parecerá a terra, vista de lá...? - ---Uma gotta de luz... - ---Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas hoje -estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria -embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave! - ---É Vesper... - ---Linda, linda, linda! - ---Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está -limpido hoje! Maravilhosa noite! - ---Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro. -Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro? - ---Porque não tem astros. - ---Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu. - ---Por que? - ---Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para -que o diabo não tornasse a passar pelo buraco. - -O capitão sorriu. - ---Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite... - ---Como as corujas. - ---Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é -bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me -levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar -para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho -que estou voando ... e é tão bom! - -O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que -lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a -lua e a côr das estrellas. - -Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava -á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o -cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de -uma curiosidade insatisfeita. - -Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em -quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de -Camilla. - -Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e -continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo -illuminado. - -Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha -requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para -uma valsa. - ---Quem toca? - -Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal. - -Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo -do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o -amigo negava, affirmando o tino especial do outro. - -Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das -moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, -atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas -rodopiaram pela sala. - -Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. -D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote -gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras, -prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas, -como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando -o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada, -recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e -as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo -fechar as janellas da sala. - -O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á -espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da -mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce, -ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos. -Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se -não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido. - -Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto -d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo -gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo -brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e -partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da -arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido -fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no -terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma -sonata harmoniosa e larga. - -Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella -musica e naquella noite. - -Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o -vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor -feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para -não ver... - -A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... -Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. -Camilla apontou-a com o dedo. - -A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente -Theodoro gritou para cima: - ---Não são horas de musica. Para a cama! - -Depois, em um murmurio satisfeito: - ---O diabo da pequena tem sentimento, hein? - ---Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem -inspiração! - ---Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond -doutor! - -O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo -a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar -dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a -cidade. - -Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca, -que vigiava o somno de Rachel e de Lia. - ---Mario já entrou, Noca? - ---Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario -ficava lá... - ---Lá?... Em casa da tal Luiza?! - ---É... - ---Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que -Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga -que elle está dormindo. - ---E se elle amanhã perguntar a Dionysio? - ---Você previna primeiro o rapaz. - ---Tambem não sei p'ra que _seu_ Mario faz assim; só p'ra metter a -gente em embrulhos... - ---Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei -conselhos... - ---Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico -esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa! - ---Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca! - -Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado -e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a -caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe: - ---Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom -dar-lhe uma pastilha de antipyrina... - ---Sim, senhor, eu vou vêr... - -Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a -cabeça. - - - - -IV - - -Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus -pés bem calçados para a rua dos Benedictinos. - -Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções -fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que -topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados -pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e -pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes, -saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida. - -Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e -a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a -atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle -pouco afeita a penetrar naquelle ambiente. - -Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para -tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como -se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino -de todas aquellas coisas. - -Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do -_veston_, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho -faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas -ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho -diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos -carregadores boçaes. - -Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de -subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a -grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas -flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens, -aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço... - -O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua -gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles -homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O -seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles -biceps de athletas. - -Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não -perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e -mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo. - ---Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o -caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, -olhe que é mais extrangeiro do que eu! - -O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes, -e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado -á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho. - -E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem -relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, -modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar -atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um -cigarrinho. - -O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade. - -Deu-lhe cigarros. - -Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia -calor. Ribas lembrou: - ---Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom. - ---Não tenho sêde. - ---É que lá para deante não ha nenhum que preste... - -«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade -ao rapaz.» - -Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e -papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma -occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, -sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O -dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio -deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se -dependurava uma larga alça de cadarço vermelho. - -Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de -modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á -claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que -escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos -seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma -cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá -dentro como um leve zumbir de abelhas... - -O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo -da sala e arrebatou a viola para dentro. - -«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis -para a mesa. - -Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o -medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu -conjuncto de velharias e sobejidões. - -A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos, -marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas -onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de -mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande -musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle -canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada -bestialmente pelo pão. - -Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr. -Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um -vapor do Lloyd. - -Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra -vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes -levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche. - -Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o -Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um -caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino -loiro, que os outros denominavam o _Bota_--por trazer uma bota velha -suspensa de um barbante a tiracollo--, e um italianinho sardento, sem -pestanas. - ---Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo -hontem no jogo ... reclamavam. - -E o Ribas defendia-se, hypocritamente: - ---Que jogo? Eu?! - ---Sim, senhor, não se faça de engraçado! - -O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o -caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas. - -Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de -provocações. - -Que se arranjasse. - -A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez, -sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada -fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de -vidros quebrados um vaso de cravos brancos. - -As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres. - -Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou -embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas, -mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento. - -Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia -tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca, -o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de -sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante. - -Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade, -abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da -doidice--e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por -toda a sua pessoa. - -E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já -esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou. - -No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro -de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava -ao sol. - -Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de -hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e -tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande -portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem -pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as -saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente. - -Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos -arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas -amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja. - ---O senhor já passou a rua Funda! - ---Nesse caso voltaremos. - -E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso -um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada -de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas, -suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava, -erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não -comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços -pendurados. - -Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com -orgulho: - ---Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá -licença?... - ---Pode ir. - -Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem -macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada -em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia -parco,--não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance -dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não -errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a -meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta: -linhas de rede de _crochet_ e de costura, anzóes e agulhas, cigarros, -objectas de pescaria e cartas de A B C. - -O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham -recebido bem... - -Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou: - ---Ahi está a rua Funda. - -Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de -um quadro lhe suggeriam. - -Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da -Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes -espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se -negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles -velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha -uma aquarella em casa. - ---É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia -galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de -janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha. - -O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna -extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a -filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do -armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o -Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e -aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita. - ---Quem procura? - -Dr. Gervasio explicou-se. - ---Faça o favor de entrar... - -A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as -mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de -costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de -cadeira. - -O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer. - -Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão. - -A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em -desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas -pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista, -depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em -ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus -trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos -homens um interesse mediocre. - -Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta -descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos. -Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande -movimento no armazem... - -A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns -goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade. - -O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o -Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha -vivia! Com a morte d'ella tudo desandara... - -O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e -despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro -casaco enfeitado a _crochet_. - -Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o -palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas. - -Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir -d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina -pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo -mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha -e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu. - -Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam -sosinhas, ladeando precipicios. - -No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras -engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e -gatos magros se esgueiravam rente ás paredes. - -Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade -penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia -que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais -propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma -mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica. -Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de -velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza. - -Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações -singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma -consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a -Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo... - -Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, -corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o -mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite, -disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem -se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e -penetraria em um d'aquelles albergues. - -Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a -lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca. - -Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta -trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em -fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes. - ---Bonito! - -D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos -se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de -atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não -haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma -unica dobradiça perfeita. - -Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, -resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma -pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos -brutos, entre ratazanas e aguas servidas. - -O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito, -D. Joanna sahir de uma casa. - -Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado. - -Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e -em nickeis. - -Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e -foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar -livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de -um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho. - -Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do -mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que -passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada. -Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas -ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de -esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce -tom de devoção. - -Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. -Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja. -Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as -coisas do céu! - -Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth, -Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario! - -As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o -que a maguava. - -Precisava salvar as creanças. - -Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na -Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem! - ---Mas D. Milla vae á missa todos os domingos... - ---Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito -de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como -ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo -no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou -da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas... - ---Faz bem. - ---O senhor é dos taes, que não querem crer. - ---Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa. - ---Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o -senhor está empurrando Camilla para o inferno... - ---Eu?! - ---Quem mais! - ---Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario... - ---Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que -eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não -merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que -se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu -pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados -vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes, -sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para -que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ... -emquanto que eu, pobre peccadora... - ---Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal -disfarçando a sua ira; não a entendo! - -Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda -dar uma volta pela Pedra do Sal. - -O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle -chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham -varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do -Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos -claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela -raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha -sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a -verdade. - -O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, -as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que -ainda os franzidos da saia exaggeravam. - -Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para -lhe dizer ainda alguma coisa do peccado. - -O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre. -Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus -sentimentos eram de especie confusa e tristonha. - -Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores -não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e -cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia -ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta -não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos -homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem -segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle, -sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar -inveja aos menos afortunados... - -Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu -o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos -conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu -centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro, -se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento, -aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e -mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e -barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de -lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo -promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus -adorados segredos. - -Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor. - -Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na -esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e -um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco... - - - - -V - - -Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar. - ---Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço. - ---Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi -outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia! - ---Vae pregar a outra freguezia. - ---Verdade, verdade, seu pae tem razão... - ---Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario -com ironia, dando o ultimo retoque á _toilette_. Nisso abriram a porta, -elle voltou-se; era a mãe. - -Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os -travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a -janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto. - ---Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo. - ---Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos. - ---Como quizer. Sente-se, mamãe. - -Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe -nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito: - ---Então? - ---Estás nos dando serios desgostos, Mario. - ---Eu? - ---Sim; bem sabes de que se trata. - ---Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço... - ---As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas! - ---As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar. - ---Enganas-te. - -Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio. - ---Então não comprehendo. - ---Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ... -dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna... - ---Oh! mamãe... - ---Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando -a encontro na rua nem sei onde ponho os pés. - -Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu. - ---Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens -tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror -expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que -emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte -sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem... - -Mario mordia os beiços, brancos de raiva. - ---Mamãe... - ---Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a -exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, -ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens -commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas -e mais dividas! - -Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos, -nervosamente, as costas de uma cadeira. - ---Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo. - -Mario sorriu com desdem. - ---Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade. - ---Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um -animal. - ---Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras -aspirações. Meu pae não me comprehende. - ---Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?! - ---Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse -elle com redobrado escarneo. - ---Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela -ironia do filho. - ---Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante -d'ella, com raiva. - ---Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua -saude, que é fraca, e da tua reputação. - ---Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso! - -Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance -das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue -arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e -então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario -admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua -vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra -aquelle filho, até então poupado. - -Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella -insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada -do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou, -destacando as palavras, que sahiam pesadas: - ---A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não -teve coragem para tanto; mas em seu nome, não! - ---Mario! - ---Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os -gostos que eu tenho? - ---O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso -agora que desespera teu pae... - ---Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem -cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á -familia que... - ---Basta! - ---Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter -evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava -dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:--odeio o Dr. Gervasio, e -dou-lhe a escolher entre mim e elle. - -Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois -elle repetiu, martellando as palavras: - ---Ou elle ou eu. - -A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção. -Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando, -grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar -de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e -ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se -tentasse esmagar o coração offendido. - -Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a -mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma -subita misericordia se apoderou d'elle. - -Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de -desapparecer. - ---Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?! - -Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi -imperceptivelmente: - ---Nada... - -Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. -Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos -fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que -pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel -áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,--ah, antes ella fosse -cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das -filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... -Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só -servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente -na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do -seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido! - -Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros -corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras -pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um -homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa -fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a -bocca do filho a dizer-lhe amarguras... - -Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do -quarto. - -Mario aconselhou: - ---Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia... - ---Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla -levantando-se. - -Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão -precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea. - -Mario respondeu com impaciencia e sem abrir: - ---Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a -para si, beijou-a na testa e, com carinho: - ---Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella... - - -Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas, -que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo: - ---Venha ver, mamãe! - ---Que coisa linda, mamãe! - ---O homem disse que foi papae que mandou! - ---Adivinhe o que é! - ---Diga; sabe o que é, mamãe? - -A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula -ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe -aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram -como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons -avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario -sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo, -em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da -casa saberiam tambem? - ---Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado -do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um -menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul. - -Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a -menina Maria. - ---Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia. - ---Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria! - ---É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria? - -Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para -os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus -bibes brancos, e os cabellos soltos. - ---Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as -para si. - ---Eu gosto muito! - ---Eu gosto mais! - ---Mentira! quem gosta mais sou eu! - ---Eu acho mamãe muito bonita! - ---Eu tambem acho. - ---E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse -bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda -assim vocês gostariam de mim? - ---Muito, muito! - ---Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do -Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com -medo ... que fariam vocês? - ---Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a -comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias... - ---E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe... - ---Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe! - -Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu -sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas -defendel-a-iam dos maus tratos do mundo. - -A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu -violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o -grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro. - -Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de _ménagère_, bem -penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um -aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu -corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma -anecdota do copeiro. - -Camilla teve um sobresalto. - -Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro -e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel -e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na -cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua -innocencia. - ---Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista -depois de collocado no meio do lago? - ---Acho... - ---É de muito gosto! - -Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão -núas para o sereno das noites? Muito _chic_! - -Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal -concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo; -queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a -opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo? - ---Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem... - ---Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é -boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh! -Dionysio! chama ahi _seu_ Mario! - -Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu, -e Ruth, instando pelo almoço: - ---Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem -intenção, colhendo uma _Marechal Neel_ para o peito. - -Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal -disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo? - -Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um -trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella -encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo, -e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com -que ella achasse um trevo de quatro folhas! - -Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com -ancia a folhinha fatidica. - -Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se -chamou-o. - ---Uê! porque não foi almoçar?! - ---Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe... - ---Não foi se despedir d'ella? - ---Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo. - ---Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está -ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe... - ---Cantigas. Adeus. - ---Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:--Sua -felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro... - ---Adeusinho! - ---Adeus, meu filho... - -A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella -ajudara a criar desde o primeiro dia. - -Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir -a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a -tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não -deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade, -verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto -que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle -poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?... -o diabo do feiticeiro deu bruxaria a _nhá_ Milla... Se _seu_ Theodoro -sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? Bocca, -fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mario -tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso lhe -dá gosto, que aproveite! - -Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou -para a copa, á procura de almoço. - - - - -VI - - -Numa manhã limpida, côr de saphira, Camilla e Ruth entraram com -Theodoro e o Dr. Gervasio na lancha--_Aurora_--em demanda do _Neptuno_. - -O sol cobria com uma rêde de ouro movediça a superficie das aguas; -fazia calor. - -As senhoras ageitaram os folhos das suas saias de linon no banco da ré, -e abriram as sombrinhas claras. - ---Sempre gostaria que me provassem a serventia d'esses chapéos de sol. -Não resguardam nada. São objectos inuteis. Eu se fosse mulher nunca me -sujeitaria a modas, disse Theodoro. - ---Faria mal. Quanto aos chapéos, acho-os bonitos; são muito -decorativos. Veja como a côr de rosa da sombrinha de Ruth, e a crême -de D. Milla se harmonisam neste fundo azul. Digam o que quizerem; para -mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervasio. - ---Póde ser. Eu só gosto do que é positivo e pratico. Emfim, nas -senhoras ainda eu perdou o certas niquices... - -Sabia Theodoro que o espirito e a posição de um homem se espelham nas -suas roupas; por isso as d'elle eram sempre graves. - -Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem -abotoada sobre o estomago arredondado. - -A sua cartola luzidia, bem tratada, affirmava ás turbas que ia alli -alguem de cortezia e respeito; era como se o seu titulo de commendador -tremeluzisse no setim d'aquelle pello. Não sahia de casa sem carregar o -guarda-sol de excellente seda portugueza e castão de ouro, traste que o -protegeria em um amplo circulo, se acaso chuvas cahissem -inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonisara á maneira do -traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: _taes como_, _de -maneiras que_, _porém_, _tal e coisas_... - -Já a lancha singrava as ondas mansas, quando elle contou ao Dr. -Gervasio que ahi uns collegas seus amigos queriam arranjar-lhe um titulo -de Portugal; elle fizera constar que não acceitaria a distincção, -mas, se a coisa viesse, que havia de fazer? - -O medico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de um -sorriso. - ---Outros usarão d'esses titulos com menos direito, continuou o -negociante, não digo que não; em todo o caso... - -Milla lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes -sommas com que elle entrava nas subscripções. - -Elle riu-se. - ---Estou vendo que você quer ser viscondessa, hein? - -Ella encolheu os hombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de -viver bem, á larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe. - -Iam todos calados, quando Ruth suspirou: - ---Tenho pena de não ter trazido o violino! - ---Que tolice! havia de ter graça! - ---Mamãe, quando eu me commovo, gósto de tocar. Entendo-me tão bem com -a musica! - -Os paes riram-se da asneira e o Dr. Gervasio fixou o rosto pallido da -mocinha. Esse não riu. - -A lancha _Aurora_, muito faceira, reluzente nos seus metaes, cortava as -aguas com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras. - ---Este passeio está-me abrindo o appetite para uma viagem... Se as -coisas continuarem como até aqui, é facto assentado que levarei a -minha gente ainda este anno á Europa, disse Francisco Theodoro. - -Camilla e o medico trocaram um olhar de susto. - -Vendo o lindo rosto, sempre tão fresco e tão moço, de Milla, os seus -cabellos negros, o seu collo cheio, os seus olhos de velludo, -provocantes e apaixonados, toda aquella figura de mulher amorosa, quente -e grave, que elle não se cançava de estreitar nos braços, a idéa de -uma separação afigurou-se-lhe impossivel e monstruosa. - -Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os -passados; a doçura da sua convivencia enternecia-o, como se a -entrevisse já através da saudade. - -Ella assegurou-lhe em um sorriso que não partiria. Não haveria forças -capazes de a arrancarem do seu amor. - -Francisco Theodoro mostrava agora á filha o casco branco de um navio de -guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o -castello de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames, -tinha, na altura, proporções de boneco. - -Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, pondo grinaldas de azas -fugitivas no azul immaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas -torres, esfumava-se em uma neblina rosea, esbatida em diaphana violeta. - ---Como é bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha em -cheio da barra. Está-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria -marinheiro. - ---Outra tolice. - ---Mamãe, o azul é uma côr tão bonita! - ---Se fosses rapaz ... se fosses rapaz ... realmente antes fosses tu o -rapaz e Mario a rapariga ... resmungou Theodoro. - ---Pobre do Mario ... já tardava ... disse Milla. - ---Isto não é fallar mal; é a verdade. - ---Não é fallar mal dizer que elle não tem aptidões, que é -insignificante? - ---Eu não disse tal. - ---Mas deu a entender. Eu nem sei até como elle é tão bom, ouvindo -tantas insinuações. Se fosse outro, sabe Deus o que teria acontecido! -É porque tem mesmo muito bom coração. Os erros que commette são -naturaes da edade... - ---Senhora! não o defenda. Bem sabe porque é que eu digo as coisas. -Não fallo atôa. - -Não, ella não sabia; o que via era uma grande injustiça, pesando -continuamente sobre a cabeça do filho. Que mais queriam que o pobre -fizesse? Elle não nascera para os trabalhos brutos, do commercio, era -um delicado. Certamente que não tinha edade para se divertir a jogar a -bisca em familia; os seus dezenove annos tinham outras exigencias. -Reparassem todos que era naturalissimo... - ---Qual naturalissimo, qual nada! Indecente, sim, é que aquillo era. Um -bilontrinha, o tal _seu_ Mario. Ainda na vespera soubera de novas -proezas. Elle deixara a franceza, sim, senhores; parecia cederão -conselho da mãe; mas para que? Para andar em publico de braço dado com -outras, talvez peiores, e entrar em casas de jogo, que a policia ataca! - -Camilla mostrou Ruth ao marido, com um olhar afflicto, para que -moderasse os furores da sua linguagem. - -Contente por cortar o dialogo, o medico apontou um vapor, que já se via -de perto. - ---O _Neptuno_ ... é bonitinho, reparem. - ---Não é feio, não ... resmungou Theodoro, já desviado dos seus -pensamentos; mas ... esperem! lá no convéz parece estar uma mulher. -Que diacho! o capitão Rino será casado? - ---Se é possivel! se elle fosse casado nós estariamos fartos de o -saber. Você diz cada tolice... - ---Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein? - ---A mim? nenhum certamente. Que me importa!... e Milla riu-se, querendo -subjugar á força a raiva que lhe ficára da discussão com o marido. - -O medico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado? -nenhum!... certamente. E se dissessem d'elle a mesma cousa a Milla, que -responderia ella! a mesma cousa? com o mesmo levantar de hombros, com o -mesmo desdem? Teve impetos de lh'o perguntar; mas como? Alli era -impossivel... Ficava para depois. - -A lancha atracou ao _Neptuno_, e do portaló desceu o capitão Rino, -vestido de flanella branca, com uma bella rosa vermelha na lapella. - -Extranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro. -Tinha descido para ajudar as senhoras. Ruth sahiu da lancha num salto, -mostrando as pernas finas, contente por aquella novidade, aquelle mar -circumdado de montanhas azues, aquellas velas brancas e aquelles cascos -alcatroados, fluctuantes, com que se cruzara no caminho. O capitão Rino -mal olhou para ella; suspendeu-a, com pulso forte, até o primeiro -degrau da escada e voltou-se logo para Camilla, com olhar ancioso, -extendendo-lhe os braços. Ella cahiu-lhe em cheio sobre o peito largo e -riu-se, pedindo desculpas. Era tão pesada! Elle corou, tonto, tremulo, -sem achar uma palavra com que lhe respondesse. - -Francisco Theodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla -sobrecasaca, não prescindiu da mão auxiliadora do capitão; o Dr. -Gervasio veiu por fim, tirando num cumprimento o seu chapeu molle. - -Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indifferentes -pelos visitantes. Junto ao portaló, estava uma senhora, a mesma, -evidentemente, que elles tinham avistado da lancha. - -Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes -aos do capitão Rino, de um azul de faiança, e uma physionomia vaga, de -anjo decorativo. Contrastando com o typo, trazia uma _toilette_ -escarlate, que lhe dava valor á pelle cor de lirio pallido, e parecia -uma offensa ao seu corpo virginal. O capitão apresentou-a logo a todos -com duas palavras: - ---Minha irmã. - -Foi depois, aos poucos, durante a visita do _Neptuno_, que viram desde o -tombadilho até ao porão, que souberam que essa irmã, até alli -ignorada, se chamava Catharina, e vivia em companhia da madrasta, -senhora viuva, em uma frondosa chacara do Cosme Velho. - -Catharina ajudava o irmão a mostrar o _Neptuno_, e por vezes as suas -explicações tinham maior clareza que as d'elle. Se elle parava, ella -tomava-lhe a palavra cortada, completava-a e seguia para deante com todo -o desembaraço. - -Depois de percorrerem o navio, o capitão Rino, convidou todos para um -vermouth gelado, na sua camara. - -O espaço não era grande, Camilla, Ruth e Catharina apertaram-se no -mesmo divan, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro; -Francisco Theodoro recostou-se em uma poltrona ao pé da mesa, emquanto -o medico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de -livros, e o capitão, em pé, narrava ao negociante vários episodios -das suas viagens ao norte. - ---Que paiz! que maravilhoso paiz este nosso! completava elle. - ---É pena não ter povo. Sentenciou Theodoro. - ---Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia -melhor a gloria do mundo, quando elle, exgotado pela exploração das -outras, voltar para ellas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para -uma outra raça de grandes ideaes, que ainda ha de vir. Tão formosas -promessas não se fazem ao vento... - ---Outra raça ... outra raça ... vinda de onde?! nascida de quem?! - ---Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos paizes -velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se nos novos. O futuro do mundo é -nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o -povo brasileiro é bom. - -Francisco Theodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a -Republica. Aquella revolução fôra uma revelação. Sentia-se -engasgado com o exilio do imperador. Torceu assim a conversa para novo -assumpto. - -Dr. Gervasio conhecia as ideias politicas de Francisco Theodoro; -ouvia-lhe sempre os mesmos commentarios. Estava inteirado; quanto ás do -outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvil-as. Voltou-lhe -as costas e poz-se a ler as lombadas dos livros da estante: - ---_Virgilio_ ... _Homero_ ... _Dante_ ... _Camões_ ... _Gonçalves -Dias_ ... _Shakspeare_ ... bravo! - -Que especie de homem seria então esse capitão Rino? Leria elle -effectivamente aquelles poetas?! O medico abriu ao acaso o primeiro -livro ao alcance da mão, e observou logo que elle estava annotado, a -lapis, com signaes firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente -consciente do seu claro juizo. Era o _Cid_. Á primeira pagina onde o -olhar do Dr. Gervasio cahiu, havia este verso marcado com uma linha -gorda: - -_L'amour n'est qu'un plaisir, l'honneur est un devoir._ - -Fallava D. Diogo. O medico releu o verso com um sorriso de sarcasmo. - -_L'amour n'est qu'un plaisir_... - -Pois sim! bem esquecido estaria o velho pae de D. Rodrigo, ou não -chegara na sua juventude a amar com amor! - -Depois d'aquillo o Dr. Gervasio folheou outros livros litterarios, por -curiosidade, desprezando os technicos, e em todos achou vestigios de uma -leitura intelligente. Bastava; começava a comprehender o homem. -Illudira-se até então, julgando o Rino como um mediocre e um simples. -Um simples seria, mas um mediocre, não. Não o temera nunca como rival, -apezar de o ver apaixonado por Milla; julgara-o fraco, inferior, sem -recursos, falto de elegancia, que é sempre o que seduz as mulheres, -physica e intellectualmente; não passara nunca aos seus olhos de um -marinheiro rude, ingenuo, sem a graça da palavra a tempo, nem a linha -da distincção pessoal. - -Que conservaria o capitão Rino no cerebro de tanta leitura inquietadora -e extraordinaria? Que nervos eram aquelles, tão perfeitos, que apóz -tantas torturas e delicias pareciam intactos de commoções artisticas? - -D'ahi--quem sabe?--toda aquella livralhada que elle marcara com o seu -nome, no dominio da posse, viria de algum leilão, de alguma herança, -não representando naquelle gabinete mais que um mero adorno. Era o mais -certo. Era mesmo a unica hypothese verosimil; não admittia que o -capitão Rino fosse amigo de intellectualidades. Aquelle bruto! Fixou-o -com attenção. - -Não! não eram aquelles olhos limpidos, nem aquellas passadas que -faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ninguem -investigações da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho -raro. Ninguem acreditaria que aquelle homem grande, de carnes duras, -faces rosadas como as de um menino são e modos bonachões, fosse capaz -de entender Shakspeare! - -Ler livros taes, annotal-os, amal-os, deleitar-se na sua convivencia, -era obra para outra especie de creaturas. Aquillo era um escarneo, não -era outra coisa. Permittia-lhe a leitura de um ou outro classico -portuguez de mais calmo estudo e pulsação regular; lembrava-se mesmo -agora de lhe ter sorprehendido algumas palavras de sabor antigo e que -lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de extranheza. -A sensação avivava-se, a reminiscencia induzia-o a estudar o homem. -Voltou de novo o olhar para elle e resumiu ainda em um traço o seu -juizo: - ---Um bello animal! - -A irmã do capitão servia vermouth, mostrando em um sorriso amavel os -seus dentinhos bicudos e deseguaes. Ao dirigir-se ao medico, ella -obrigou-o a desviar-se da sua observação; e elle, descuidado, -reflectindo na phrase uma ideia que lhe atravessava o espirito, -agradeceu-lhe em inglez. - ---Acha-me com ar de _miss_, não é assim? Talvez tenha razão; não é -a primeira pessoa que me dá a entender isso mesmo... - ---Se lhe desagrada... - ---Absolutamente nada; por que? Houve na nossa familia qualquer -antepassado extrangeiro, uma bisavó dinamarqueza, creio eu ... -entretanto, affirmo-lhe, somos bem brasileiros, mesmo um pouco -nativistas... Já me disseram, a proposito d'isto, que são os -descendentes de extrangeiros exactamente os patriotas mais exaltados. -Mas não quer gelo? - ---Obrigado... - -Ella passou adeante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth. - -«Uma avó dinamarqueza, creio eu...» Extraordinario, esse -desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que -aquella gente não era de indagações nem de perder tempo com objectos -sem utilidade immediata. - -A boa pratica era essa: olhar para deante, que é onde se póde -encontrar tropeços. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho! - -Da cadeira de braços, Francisco Theodoro atirava a sua ultima bomba -contra a Republica, lamentando este grande paiz, tão digno de melhor -sorte... - -Rino levantou-se; elle tinha outras opiniões e uma fé sincera nos -destinos da patria. A alma nova da America só podia agasalhar -sentimentos de liberdade. A monarchia era a poeira da tradição -accumulada com o correr dos seculos, em velhas terras da Europa. Lá -teria a sua razão de ser, talvez; mas não aqui! Concluiu elle. - -Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de pé, já cançadas -da discussão, abominando a politica... - -Fóra, no tombadilho, o sol extendia a sua luz clara, feita de ouro. -Seguiram então para debaixo do toldo. - -Que maravilha! - -Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de -Nitheroy, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de -espumarada. Toda a superficie do mar, paletada de luzes, tremia como a -pelle moça a um afago voluptuoso. Ao longe, a Serra dos Orgãos -desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardosia. Para os lados -da barra havia montes de prata fosca em que o sol, scintillando nas -pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta -espelhavam-se n'agua, entre montanhas de um verdor intensissimo. - -Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silencio -que o medico percebeu um olhar de Camilla para o capitão do _Neptuno_. - -Aquelle simples movimento bastou para atear no peito do medico o -fogaréo da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e -revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante, -sempre tão sua, tão submissa ás arbitrariedades do seu genio desegual -de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguem, -e a justiça era que ella o enganasse e o trahisse, como por elle trahia -e enganava o esposo... - -Percebia bem que o capitão Rino era mais bello, mais moço, e essas -duas qualidades só por si bastavam, a seu vêr, para fazer preferido um -homem aos olhos de uma mulher de quarenta annos... - ---O senhor hoje está nos seus dias de _spleen_, doutor? perguntou-lhe -de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente. - -Elle deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para -ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios, se não achava o capitão -Rino muito differente do que lhes parecera sempre, em Botafogo. - ---Eu já disse isso mesmo a elle, e descobri o motivo; é porque anda -sempre de escuro, e hoje está de branco! - ---E com uma flor ao peito! - ---É verdade. - ---Ainda ha outra razão; é que elle está contente. Ruth, a influencia -das côres é grande nas creaturas, mas a das impressões ainda é -maior. A alegria força a ser-se bonito. O capitão tem hoje a alma -vestida de branco e perfumada como a sua rosa vermelha da lapella... Uma -bonita flôr!... Não creia que baste um alfaiate para dar a uma cara de -páu a expressão que a d'elle hoje tem; a grande influencia do alfaiate -pára no pescoço. A cabeça é... - ---Do cabelleireiro? - ---Da paixão. Não creio que as mais frivolas mulheres sejam tão -frivolas que se contentem com o cheiro de uma pomada, ou o bom corte de -um frak... - ---Mas quem fallou em mulheres!? - ---Tem razão, ninguem! Veja como aquelle barco de pesca vae bonito... -Você gosta d'estas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte -são os unicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros, pff! - -A mancha escarlate do vestido de Catharina appareceu deante d'elles; a -irmã do capitão convidou-os para o almoço; repararam então que os -outros já tinham entrado e logo o medico previu que Milla tivesse ido -pelo braço de Rino... - -E fôra; e lá estavam ambos em pé a um angulo da mesa, em frente a -Francisco Theodoro, que gesticulava, no calor de uma discussão ainda -politica. - -Á mesa, sentaram-se ao acaso, á excepção de Camilla e do marido, a -quem o capitão designou logares. O medico escolheu assento entre -Catharina e Ruth. - -Havia apettite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catharina, -julgando-se um pouco em sua casa, ajudava o irmão; foi ella quem -temperou a salada de camarões e quem polvilhou os morangos de assucar e -de gelo; as suas mãos muito brancas mostravam-se bem atiladas no habito -de servir. - -O creado ia e vinha do buffete para a mesa, com a seriedade sobranceira -de um ente necessário. - -Na sala, longa e estreita, elles occupavam uma das mesas compridas, a da -esquerda, a mesma occupada sempre em viagem pelo capitão; a outra, -vazia e sem toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto -tristonho ao compartimento. Fallou-se, a proposito de viagens, de quando -naquella mesma sala não havia um só logar vazio, e que ao rumor das -vozes se juntava o tilintar das loiças e dos talheres... Só nos dias -de tempestade, em que o vapor era sacudido pelo furor das ondas, -diminuia a affluencia e appareciam, disseminados e tristonhos, só os -passageiros fortes, de bom estomago... - -Francisco Theodoro relembrou os episodios banaes da sua unica viagem, de -Portugal para aqui, e olhavam quasi todos para o capitão com certo -interesse, como para um heróe. Em casa, nas confortaveis salas de -Botafogo, tão ricas e tão burguezas, nunca a sua profissão lhes -parecera sympathica; agora comprehendiam-lhe os perigos e observavam-no -com respeito. O mar é tão perfido! Qual era o ponto da viagem que mais -lhe agradava? perguntou Milla. - -A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, commovido, o aspecto -formidavel do rio, a grossa corrente das suas aguas profundas, o seu -ruido sonoro, de rythmos novos, que nenhuma lingua exprime e nenhum som -musical imita; e os cambiantes deslumbrantissimos dos poentes, -derramando na agua infinitas ramagens multicores, onde estrellejavam -tons nunca d'antes vistos, que appareciam para se apagar, e apagavam-se -para reapparecer em outros pontos, egualmente luminosos e fugitivos. - ---Que esplendor de poentes! - -Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques -emergindo da agua profunda e reflectindo-se nella. Sinto alli, repetia -ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mysterios para uma raça -de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são -um deslumbramento! - -Havia outro ponto da viagem que lhe fazia ainda maior commoção; era -quando, já de volta, entrava na bahia do Rio de Janeiro. A ampla poesia -d'esse espectaculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar -alto... - -Dr. Gervasio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo; -os livros da estante pertenciam-lhe: havia alli um homem. O embarcadiço -mercenario tirava o seu trage de piloto e apparecia cavalheiro e poeta. -Porque se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco -depois, quando Rino affirmava que apezar das suas queixas, elle só -estava bem no _Neptuno_; tanto se afastara da sociedade que se sentia -bisonho nella, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da -sua alma, quando ia para a terra. - ---Só em terra, disse elle, comprehendo o amor que tenho ao meu barco, -aos meus livros, ao meu cachimbo e á minha rêde, a que a solidão e o -habito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de -terra, da familia, das distracções, de tudo que conjunctamente a torna -deliciosa... - -Francisco Theodoro, a proposito do Norte, fallou na prosperidade do -Pará, no commercio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus -costumes. Alli, sim, havia gente reflectida, de bons exemplos. Aquillo -é que é povo: patriotismo, criterio, boas intenções. Fallem-me -d'isso. - -Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram á bocca os copos -cheios. - -Veio o perú á brasileira provocar elogios ao cozinheiro do _Neptuno_. -Magnifico! - -Francisco Theodoro affirmou logo que aquelle prato parecia feito, de -saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um geitinho -especial para temperar panellas, dizia elle; e verdade, verdade, assim -como ella não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens, -tambem os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser -trancada ao sexo feio. - -Elle dizia isto como pilhéria, por alegria. - -Catharina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros, -perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa: - ---O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro. - ---Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de -familia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua -casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juizo, e -não me dei mal com elle; não quiz casar com mulher sabichona. É nas -mediocres que se encontram as Esposas. - -O Dr. Gervasio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance. - ---E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve -consentir perto das suas filhas. - -Camilla fez um signal affirmativo. Ella era da mesma opinião. - ---Não são sérias, concluiu. - ---Lá por isso, replicou Catharina, de quantas mulheres se falla na -sociedade e que mal sabem ler? - ---De poucas... - ---De muitas. Sr. Theodoro, faz favor de me dar o vinho? - ---Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Theodoro, passando a -garrafa ao medico, que encheu o copo de Catharina e disse rindo: - ---Ellas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a -ellas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana -com uma arte capaz de endoidecer o proprio Mephistopheles... - ---Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres! - ---Faço ideia de que deve ser bem mais difficil de manter do que a -nossa. - ---Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o -pensamento de que houvesse duas honestidades. - ---Pois se tivesse tido tal pensamento, tel-o-ia com muito acerto. Ha -duas. - ---Temos outra! Se está de maré, explique-nos a differença. - ---Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materialisemos as -comparações, para as tornarmos bem claras. Supponhamos, por exemplo, -que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um -vestido branco. Tudo é roupa, teem ambos o mesmo destino, mas que -aspectos e que responsabilidades differentes! - -Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, -disfarçando as nodoazinhas. O panno é grosso, com uma escovadella vôa -para longe toda a poeira da immundicie; e ficamos decentes. A -honestidade das senhoras é um vestido de setim branco, sem forro. Um -pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, -á procura da sombra amavel, macula-o; uma picadella de alfinete, que -só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquella -vasta candidez proporções desagradaveis... Realmente, deve ser bem -difficil saber defender um vestido de setim branco que nunca se tire do -corpo. Eu não sei como ellas fazem, e, francamente, não me parece que -a vida mereça tamanho luxo. - ---Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão -positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as -outras ... pelo menos parecem... - ---Porque não lhes esquadrinhamos as nodoas do setim... Passam -despercebidas... - ---Adeus! - ---Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse ha pouco á sua filha, a -quem alliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto: - -Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos -desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideaes de -arte não pervertem, antes purificam e ensinam o bem. As mulheres devem -cultival-os com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de D. -Catharina e bebo á sua saude, Minha Senhora! - -Emquanto elle bebia, Camilla observou-o com pasmo; sabia que elle não -tinha aquellas ideias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se -no seu logar de submissão. - ---Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco -Theodoro á irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa. - ---Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com as -minhas roseiras e os meus animaes. Nunca fallo por mim, sr. Theodoro. Eu -nasci para mulher. - ---Então, pelas outras? - ---Pelas outras que tenham actividade e coragem. - ---E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguem -responde! - ---É velho. - ---Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar -com obediencia e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz tambem a -isto o nosso doutor? - ---Que ella talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor -disse, mas que as torceu depois de certa edade. Não seria sem causa que -Francisco I disse: - - - _Souvent femme varie._ - - -Francisco Theodoro não entendeu, mas sorriu. - -O medico dizia aquillo para Camilla, que lhe evitava o olhar agudo, -percebendo-lhe a perfidia. - ---Isto é que se chama fallar para não dizer nada... observou alguem. - -Catharina serviu o café; quando passava a ultima canequinha, disse: - ---As mulheres são mal comprehendidas. Vejam aquella gravura. Está alli -um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho, -e a mulher mal o allumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada ás -suas costas! - ---O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Theodoro com modo -triumphante. - ---Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos -atraz do homem que procura defender-nos. Se elle avança para o inimigo, -sentimos não ter azas, e é sempre com impeto que nos lançamos na -carreira querendo ajudal-o a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que -é o nosso caracter; que me desminta quem puder! - -O dr. Gervasio observou Catharina com attenção. - -Ella estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas. - -Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma -brasileira. A tal avó dinamarqueza dava todo o logar á outra avó -indigena, descendente de alguma tribu selvagem. - -Duas horas depois, os visitantes deixavam o _Neptuno_; o capitão Rino e -a irmã conduziram-os até o caes, onde se separaram. Foi então um -grande allivio para o dr. Gervasio, a quem a presença do outro irritava -terrivelmente. - -Francisco Theodoro não se cançava de elogiar a ordem e o asseio em que -encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o -eloquente, superior ... lembrava detalhes insignificantes, muito -agradecido ás cortezias do moço. Catharina desagradara-lhe, com os -seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com carne,--bons -volumes, dizia elle, olhando de esguelha para o vulto redondo da esposa. - -Á rua 1º de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a occasião para -visitar um collega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a -familia. - -Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo -erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas -quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla -adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as -phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle -lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta; -mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle -fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de -escrava, a que o seu amor a lançara. - -Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que -não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que -a via bem entregue... - -Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos -olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto -tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava; -vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente, -espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as -horas de bordo. - -Ella murmurou então, vexada, por entre dentes: - ---Eu não gosto do Rino ... eu não gosto... - -E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia... - ---Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois, -vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de -ser já. - ---Como os homens são orgulhosos e injustos! - ---Serão. E as mulheres? voluveis! - ---Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como -uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade... - -Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem -disse primeiro: - ---Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com -isso... - -O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade: - ---Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua... - -Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia -nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente, -vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e -ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No -momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda -moça, toda de lucto. - -Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a -raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle -ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e -ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada. - -Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra; -aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida; -viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da -face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de -surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma -infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão. - ---Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando -imprudentemente pela manga do medico. - -O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que -seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se -atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, -mas com modo sacudido e nervoso, disse: - ---Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu. - -Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua -marcha num batimento louco. - -Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia -separando para um prato de papelão. - -O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe -contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa -passada, perfeitamente extincta. - -Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que -tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir -os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria -calada... - - - - -VII - - -O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto -posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne -rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia -das enchentes que ameaçam inundação. - -O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha -attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S. -Bento. - -No de Francisco Theodoro o movimento era enorme. - -_Seu_ Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando -milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, -rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens. -Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar -uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus -subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão -da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em -bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo -dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao -trabalho um acompanhamento de musica. - -_Seu_ Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para -o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar _grèves_, -paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que quizesse entrar. - -Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das -formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante. - -Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o -pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira? -Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande -personagem. - -Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para -alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade -de baixo, _Seu_ Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar -as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas, -fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de -Francisco Theodoro. - -E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma -chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos -successos proprios e alheios. - -Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto. - -_Seu_ Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino -da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio -era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio. - -Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de -impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço. - -Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o -armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava -pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e -o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia. - -Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava -então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção. - -Vinha-lhe o cançaço. - -Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam -inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella -atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio. -A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu -espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, -que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo. - -Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella -vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe -mostraria o caminho já feito, facil de percorrer! - -Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas -pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a -outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna. - -A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle... - -Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha -concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções -pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma -vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe -mudasse o nome. - -Como era bemsoante aquelle--Casa Theodoro--um rythmo de ouro! - -Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres -não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus -só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos. - -O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade, -que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi -estava--magnifico; mas não poderia ter sido pessimo? - -Certamente, concluia elle comsigo,--não é a isso que se chama ser bom -negociante; obra do acaso, nem mais nem menos... - -Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As -carnes pesavam-lhe; sentou-se logo. - ---Então como vae isso, Seu Theodoro, han? - ---Bem... Muito trabalho. - ---É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo -de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra -o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O -dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a -conversar com um sujeito. É um finorio de marca. - ---É experto, é. - -Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia -do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se -entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos: - ---Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que -recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da -minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho... - ---Terras de trigo? - ---Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por -vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares. -Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me -esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho -do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz, -as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já -se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se -acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os -empregados ... não faz mal, é o dono. - ---Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o -Lemos, assoando-se com estrondo. - -Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se. - ---Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado? - ---É... - ---Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez! - ---Porque? - ---Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita -gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si. - -Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com -tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas -sêdes... - -Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar -de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as -respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do -Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de -café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que -lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis. - -Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios, -com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se -deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava... - -Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio. -Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções -agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um -grande projecto... - -Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da -esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de -libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle? - -As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para -afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto! - -A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á -voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse, -ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de -moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos -primeiros arrepios da tentação. - -Francisco Theodoro reflectia... - -Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella. - -Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando -o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das -saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço, -chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar -espesso, engrossado de pó. - -Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido. - -D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e -lagrimas que se fertilisam os melhores campos. - -Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o -bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e -se desmancha em flores. - -Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer -bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado -na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos: - ---Olhem para a minha vida e façam como eu fiz. - -Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé -antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias -de loucura. - - - - -VIII - - -Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se -passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas -para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a -depressa. - ---Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia. - ---E outro para a minha, Noca? - ---Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas. - ---Um só, Noca, sim? - ---Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem -roupa! - -Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se -nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e -ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço, -levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a -mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella -creatura. - -A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores -quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um -rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras. - -Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se -acercou da taboa. - ---Agora é que você está chegando, Dionysio?! - ---É Fui levar um recado de _seu_ Mario... A senhora já sabe que elle -deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe -tirar o chapéo! - ---Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças, -que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois: - ---É loura ou é morena? - ---Morena, altinha, muito _chic_. - ---Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande. - -Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar -sonso. - ---Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. Nina. - ---Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho. - -Um retrato. - -Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda -continuou: - ---Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto... - ---É para Sergipe. - -A cabocla sorriu. - ---O professor de musica está ahi... - ---Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu -botar de infusão. - -Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por _dona_. -Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com -acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias -de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as -impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um -remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem -escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança. - -Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua -prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia -economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de -côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo -volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade. - -Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma -imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e -concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma -explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições -curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma -verdade indiscutivel. - -E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla -consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe -explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para -tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos, -rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos... - -Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de -gostar de ser util e servir de muito a muita gente... - -Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla. -Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande -novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o -pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido -parecia não comprehender! - -A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver -nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ... -esse tambem ruminava qualquer coisa... - -Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o -pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do -engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo. - -A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade. -Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não -passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por -causa de um homem? Não vê! - -Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente -achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo -muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da -Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para -dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito -desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis; -Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita; -morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer -soffrer. - -Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo, -Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, -com as mãos inuteis, o olhar febril. - -A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do _Neptuno_, não a -deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e -aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente, -e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em -negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos? - -No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era -em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas -toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que, -apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para -elle. - -Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou, -ao voltar da cidade. - ---Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a _Aïda_. O -Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia... - ---Que entende o Negreiros de musica! - ---Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em -baixo... - -Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando -o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em -frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular -enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio -interrompido. - ---«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo -dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e -instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa -moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha; -não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço, -compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia. -Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr -educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre -para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e -revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que -andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a -uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em -discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias; -por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o -individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A -instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a -vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume -que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal -geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o -ambiente em que vivam depois. - -É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões, -á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a -verdade e não escapam aos ouvidos delicados.» - ---Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras... - ---O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin. -Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor. - ---Porque? - ---Porque ainda não tem edade para comprehendel-o. - -Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um -excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e -mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com -prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu? - ---Está ahi, atraz do senhor. - ---Ah... - -Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via -muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia, -dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com -medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só... - - -Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da -mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo -e danças até a madrugada. - -Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as -violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa -silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas -leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do -robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro. - -Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se -lamentava por isso da ausencia. - -A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins -illuminados a _balões_ e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos -terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de -vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes, -essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no -banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e -sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por -sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o -unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho: -tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro, -almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças -corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista -pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu -repertorio. - -A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco -Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança, -alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das -attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de -posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois, -na balburdia da vida. - -Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao -piano, ou cantasse algum romance italiano. - -Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para -que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos -regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as -senhoras edosas ao _buffet_, recommendando á Noca que distribuisse pela -criadagem vinhos e doces. - -Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo -barulho que pela intenção. - -Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas -mangas dos commendadores ou dos empregados do marido. - -Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia -sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho -honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro, -a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho. - -O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos. -Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam -para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de--minha -estudiosa--gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados -para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam -encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das -estrellas... - -Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete -Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na -quietação cançada da familia. - -Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os -talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de -luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os -marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e -as lanternas disseminadas pelo jardim. - -Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer -aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os -ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam -nervosamente. - -Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu: - ---Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo! -eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da -colonia. Não quero fazer figura triste. - ---Alguma manifestação? perguntou Gervasio. - ---Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje -d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que! -Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O -engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora, -que se apresenta a occasião, faz cara feia! - -Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na -execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao -movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de -pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava. - -Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro -pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e -dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas -se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda, -entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos, -encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo -e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava -uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas. - -Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, -pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma -doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava: -já nem pensava nisso! - -Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á -felicidade, ella foi esquecendo. - - - - -IX - - -Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á -mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra. - -Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou -importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto -esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só -para a sobremesa disse espantado: - ---É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou? - -Nina murmurou, desculpando-o: - ---Acho que está incommodado... - ---Vou ver isso. - -Theodoro levantou-se. - -Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre -si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu -amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante. - -Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario! - -Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar -firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que -nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas -azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que -ella temia... - -E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se -festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e -commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico... - -Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo, -que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em -escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo. - -Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma -expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava, -fallava... - -Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho. - ---Então, _seu_ Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para jantar é -volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de visitas?! - ---Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa. - ---Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias -ao menos respeitar o hospede. - ---Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem, -papae, não posso vêr aquelle homem! - ---Tu estás doido! porque?! - -Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe -insistia, furioso: - ---Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa -raiva? - ---Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por instincto... -Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... aquella -voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as suas -mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua -assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os -vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que -é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe -pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente. - ---Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o -que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não -se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não -sou bom! - -Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que -effectivamente o Mario estava indisposto... - -Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um--até logo! - -Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa -aborrecia-o. - -A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada, -vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro. -Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando -flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto. - -Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e -leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem. - ---Cuidado, minha filha! - ---Ahi vae um beijo, mamãe! - -O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o -passeio continuava, arrastado e feliz. - ---Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã -cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir! - ---Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente! - ---Lá vens tu... - -Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á -claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo -ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava -na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus -ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua -força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, -unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz -cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel. - -Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades -estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens -fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em -baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos -distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do -somno. - -Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das -estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo -escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a -penumbra. - -O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe. - ---Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico. - ---Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro, -consultando o céu. E chuva de arrazar! - -Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do -medico. Despediram-se. - -Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca: - ---_Seu_ Mario? - ---_Seu_ Mario sahiu... - ---Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga... - -Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para -a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla -impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e -perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela -golla do vestido. - ---Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada. - -Nina sacudiu as formigas com o lenço. - -Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata. - ---_Seu_ Mario? - ---Elle ainda não voltou... - ---Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando -elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu? - ---Percebi, sim, senhor. - ---Agora chame o Dionysio. - -E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem. - -Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos -com a agulha, mal acertando com a costura. - -Theodoro voltou-se para ellas: - ---Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se -á mesma hora que os paes... - ---Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla. - ---Pois sim! - ---E se chover? A noite está tão feia... - ---Que volte para traz. Não vem a pé. - ---Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e -debaixo d'agua... - ---Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou -raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?! - ---É a mocidade... - ---Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois -ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei -com o suor do meu rosto! - ---Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco. - ---Mais uma razão. - ---Qual razão! - ---Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em -casa a horas convenientes ou... - ---Ou?... - ---Ou que vá dormir para o diabo! - -Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz -replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco -Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da -sala para não responder, batendo com a porta, num desespero. - ---É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o -negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as -chaves. - -Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes -um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera, -corporisava-a, tornando-a irrespiravel. - -Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos, -amodorrados, bambos. - -Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, -soturnamente. - -Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para -dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao -beiral do telhado. - -A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta. - -O que passou depois, foi o vento. - -Ella deitou-se com um suspiro. - -Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu -a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do -arvoredo. - -Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos -pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, -lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos, -com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da -noite. - -Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma -cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á -janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo. -Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em -falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova -lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo. - -A unica janella illuminada da visinhança fechou-se. - -O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á -distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando. - -Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel. - -Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o -aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na -inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam -arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre -as telhas, com estrondo. - -Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela -fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo, -não a amaria nunca. - -Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo -pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos. -Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para -ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada -mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e -em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não -comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na -infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho! - -Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa -classe; mais nada; e não era pouco. - -Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos -agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era -nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços -caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se -atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no -fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse -casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada -deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma -creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na -casa de Francisco Theodoro. - -Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de -preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás -palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava -isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o -traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra. - -Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então -os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do -seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a -aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois -bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor -de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos -beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que -até então ella só parecia ter espreitado de longe. - -Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a -edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua -força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a -ceder ás suas vontades absurdas. - -De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina -em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a -peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para -essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são -para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos, -rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da -vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era -exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos. - -Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da -sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas -graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo. - -Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos -flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e -humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a -varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe -batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro -resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma -instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou. - -O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe -em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um -filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta. - -Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca, -sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que? - -Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado -por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o -coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa -que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer. - -Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber -d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada? - -Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia -mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses -recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, -escarnecida, miseravel. - -No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a -alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento; -então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o -encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que -redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria. - -Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro -cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda -bailou macabramente com o arvoredo escuro. - -A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e -offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias, -mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava. - -Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada, -brutal, ensurdecedora. - -A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e -voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir -indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury. - -Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou: - ---Mario! Mario! - -Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio. - -O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o -pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na -sombra, ia-se embora. - -Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor. - -Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, -com a precaução de quem vae para o crime. - -Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia, -praguejando raivoso. - -Ella tacteou os ferrolhos e recommendou: - ---Espere um bocadinho, Mario! - ---Que estupidez! - ---Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse -de fóra. - -Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral. - ---Que idéia foi esta de deixarem a chave... - -E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que -seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta? - ---Foi ordem do tio Francisco. Boa noite. - -Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a -chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do -chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario -percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de -carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara -nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado, -sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto -impudico e voluptuoso. - -Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso -naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a -prima o amava? - -A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de -hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços. - -Nina comprehendeu. - -Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e -subiu correndo. - -A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo -de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no -passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu -desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se -quedara estupefacto no mesmo ponto. - -Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina -sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto -até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta. - -Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da -chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se -atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo, -juncto aos seus calcanhares. - -Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada -assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de -que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a -porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á -fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago -conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda. -Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no -chão. - -E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa, -muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de -repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a -camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da -sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no -vidro... - -Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia -um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e -adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se -arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de -que fugira... - -Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu -alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados. - -Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava -para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a -porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,--e ainda Nina, na -estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro, -soffria, soffria, soffria... - -No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou -na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da -familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro -para a sua mesa. - ---Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle, -fixando-lhe os olhos pisados. - ---Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando. - -Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse: - ---Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses -sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção -foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a -ultima vez que sou desobedecido. - -Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas -junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que -ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou -então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe -partisse uma fatia do _roast-beef_ frio e que lhe fosse depois buscar o -_Jornal_, esquecido em cima, no quarto de _toilette_. - -Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos -seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos -violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma -d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a -admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora. - -Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio. - - - - -X - - -Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não -se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os -desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia -sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das -suas devoções. - -Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a -gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus -passos vagarosos, de mulher gorda e cançada. - ---Que milagre! a senhora por aqui! - -A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que -fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas -o nó da mantilha preta. - ---Mal imagina você por onde tenho andado! - -Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N. -S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando -esmolas. - ---Tão cedo? - ---Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas, -hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as? - ---Não, senhora. - ---É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as -atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves, -que faz annos hoje. Não imagina como ellas são... - ---Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro: - ---Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu? - ---Ainda estão dormindo?! - ---Tio Francisco já sahiu. - ---Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por -todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande -concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte -Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar -a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá -não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos -espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é -para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê... - ---A senhora falle com tia Milla. _Seu_ João! chamou ella interrompendo -outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é -preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas, -faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada? - ---A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos -canteiros, que Deus nos acuda! - ---Veja se remedeia isso hoje mesmo... - -O jardineiro passou; D. Joanna disse: - ---É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario -Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia, -pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do -filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas... - ---Quer café, tia Joanna? - ---Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se -arrepender... - ---Não tenho tempo... Quer mais assucar? - ---Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz -de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha... - -Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da -tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de -folhas arremessadas pela ventania. - -D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em -pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de -melancholia. - -Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu -cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido -branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao -corpo um ar de anjo de cathedral. - ---Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a. - -Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre. - ---Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora! - ---Porque?... - ---Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a -lua e as estrellas. - ---Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de -egreja... - ---Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da -Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos -cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão -Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora. -Leve-me lá, titia, sim? - ---É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro. - ---Seria querer demais. Você já leu hoje a _Flor de Neve_, Nina? - -Nina meneou com a cabeça, que não. - ---Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna. - ---É um romance do _Jornal_, muito bonito. Estou morta por saber se a -Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no -_Jornal_! - -D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço, -bonita, de _peignoir_ côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás -duas filhas pequenas. - -Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que -naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de -jantar. - ---Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia -Joanna? - ---Este banco está enxuto. A Nina estava aqui... - -Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e -beijou-o no pennacho. - -Depois, para a velha: - ---O que a trouxe tão cedo? - -D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e -apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da -capella do Monte Serrate. - ---Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não; -porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa. - ---Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete? - ---Posso mandar. - ---Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um -perfeito homem. - ---Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia? - ---Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num -folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua -filha. - ---O pae não se importa, que hei de fazer? - ---Ainda não fez a primeira communhão? - ---É cedo. - ---Não é tal. Ella não quererá? - ---Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas -as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o -casamento. - ---Heresias... E o Mario ... como vae o Mario? - ---Está um moço bonito. - ---E ... mais ajuizado? - -Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas -brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso: - ---Como todos os rapazes de vinte annos... - -Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego -verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca, -que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna -levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar. - -Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da -poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou -gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o -tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em -movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma -musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um -vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella, -conversava baixo com a Camilla. - -D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria -aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na -sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas. - -Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi. - -«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um -burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente. - -Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no -quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr. -Gervasio não estava. - -Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com -desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu -tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe -pouca attenção. - -Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de -pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito -calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito -suspiros curtos, que afogava em _bordeaux_... - -Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não -estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição; -depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para -as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de -criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras, -risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois -gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde -da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do -encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as -pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e -paredes sujas de predios velhos. - -Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um -impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos -castos e pudibundos da velha. - -Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D. -Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha: - ---Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se -persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus -pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia, -Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus -sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para -ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas -meninas a respeitarem a nossa religião? - -Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou: - ---Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao -domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma -ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem -adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se -esquecia dos seus deveres. - -Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia; -para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração -d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para -elle: - ---Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites? - ---Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não? - ---Como se chamam os seus deuses? - ---Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum -poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por -que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que -aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da -mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D. -Joanna, e que inferno bellissimo! - ---Vá trazendo para cá essas ideias... - ---Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A -senhora já ouviu fallar em Byron? - ---Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor? - ---Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda -voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua -glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras -apotheoses da arte. - ---Só por isso? - ---É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe. - ---Julga-me muito bronca. - ---Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer, -discutamos religião e philosophia. Conhece Comte? - ---Algum damnado. - ---É o termo. - ---Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que -peccado! - ---Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados. - ---O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões? - ---Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para -enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras. -A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira? -Tenho uma _Yellow Persian_ quasi perdida! - ---A sua medicina nem para as plantas serve? - ---Nem para as plantas, a miseravel! - ---Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor. - ---Que é? - ---Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã... - ---Meu Deus! e eu de _peignoir_! - -Dr. Gervasio voltou-se e disse: - ---Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, -sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido -tão bonito. - ---Então vou assim mesmo... - -D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era -seguida! - ---Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O -dinheiro dos bilhetes? - ---É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras. -Até outra vez, tia Joanna. Lembranças. - ---Adeus. - -A moça sahiu. - ---Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla -esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves! - -O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe -no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha -percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle -lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra -de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario. - -Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim -preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente -emmoldurado. - -A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira -anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do -seu cordão de ouro. - -A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo... - ---Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este _peignoir_ -é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é? - -A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim. - ---Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de -um bello sorriso. - ---É facil. Vem participar-me o seu casamento! - ---Casar-me, eu? qual! - ---Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro. - ---Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de -dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus -pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, -Paquita? - -Paquita meneou a cabeça, que sim. - ---Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva? - ---Em um _bond_. - ---Já me tardava. O _bond_ é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem -vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao -pobre _bond_ todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de -carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua -Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado -Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de -religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar -festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na -nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha -miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de -fé christã. - -Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença. - -Houve uma pausa. - ---Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está -muito bonito moço. - -Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já -tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida. - ---Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar... - ---Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria -o mesmo. - ---Sim, mas o pae é que não se resigna a isso. - -Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou: - ---Já recebeu convite para o nosso baile? - ---Já... - ---Esperamos que seja Mario quem nos marque o _cotillon_. Papae gosta -muito do Mario. - -O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo -cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda -a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle -gabava-se dos seus principios rudes e pesados. - ---Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, -disse Camilla. - ---Já se falla nisso. - -A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos. -Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de -repente com uma phrase secca: - ---Vamo-nos embora. - ---Sim, vamo-nos embora. - -Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no -concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a -_matinée_. - -A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto, -caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados, -o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados -de morena. - -Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á -observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, -um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a -manga. - -Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que -sahia tambem, cançado de esperar por Camilla. - -Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a -silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de -cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria, -achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de -religião. - -Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a -ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos. - -Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do -_Neptuno_. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de -bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma -mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco -Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só -Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos -frios. - -E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu -pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por -Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou -que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella -mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza? - -As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo. - ---Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo, -muito fraco pelas denguices das gemeas. - -Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua -roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma -tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando -dôr de cabeça e subiu para o seu quarto. - -Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.» - -Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem -percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos -por um sorriso amargo. - -Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas -grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas... - ---Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe -Ruth. - -Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu: - ---Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá -pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. -Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta -foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso -mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá? - -Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com -ar solemne:--Só Deus! - - - - -XI - - -Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio -estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa -o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto -pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar -esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento. - -Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham. - -A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de -faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, -berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por -todos os lados em vivas represalias. - -O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal -ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em -grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com -todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de -cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o -unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás -instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o -seu bem-estar escolheram. - -João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o -minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias -do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de -Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista -pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de -ingratos.» - -Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um -republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus -compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor -de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de -Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado, -tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera -censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle -já estava maduro para dar o seu braço a torcer! - -Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de -Negreiros entrar na discussão. - -Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino -appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão -interrogativa no rosto. - -A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez -logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa. - -Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de -reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na -mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as -pontas do bigode delgado. - ---Que novidade é esta, o senhor por aqui?! - ---Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes. - ---Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o -apresentar aos meus amigos. - -Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande -bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro -perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente. - ---Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os -meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará. - ---Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido -lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não -fazemos cerimonias. - ---Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a -preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os -meus respeitos a todos. - -O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo, -lhe bailava sob a pelle de loiro. - ---Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe -razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente. -Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos -ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga -ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado. - -_Seu_ Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na -secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente. - -Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a -lida. Levantaram-se todos. - -Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante -pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta -importancia. - -No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio -tinha lampejos de ouro. _Seu_ Joaquim observava em silencio. - -O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no -corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros -descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia -á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, -para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol, -acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha -Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a -cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os -carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos -repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos -os ventos a sua força poderosissima. - -O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e -movediços. - -Aquella multidão aturdia-o. - -O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias -commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na -natureza o que ella tem de maior e de mais simples. - -A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do -oceano que elle cortava com a prôa firme do seu _Neptuno_. - -Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era -aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o -amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra -produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é -instantaneo e é eterno. - -O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da -adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua -grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita? - -A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra -negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a -terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte -do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda -em orvalho fecundo? - -O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados, -vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população -de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a -preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em -repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a -respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos -batendo dominadoramente as pedras duras do chão. - -Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova. - -Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto -desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e -meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a -porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro -lampejante de mar. - -Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e -de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava -de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. -Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella -confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a -impressão de que a terra se debatia num delirio de febre. - -Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, -agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada -sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se -aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado -para descer ao outro em escadarias toscas. - -De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para -extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas -de moças cantavam modinhas ternas. - -Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés, -d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas -ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam -trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas. - -O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a -face quente e robusta da terra. - -Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros. - -Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres, -trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era -resignado e sabia esperar. - -A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes. - -Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle -viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces -para as outras, mal abertas, de ar desconfiado. - -Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas -velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam -em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a -atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza. - -Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o -capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola. - -Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda -inconstante... - -Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só -voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e -ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo. - -Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na -telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou -esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento -continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os -predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia, -coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo -o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto -docil e amorosa para com o outro... - -Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho -de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações -felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria -mais ninguem assim, tão desafortunado. - -Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o -coração tranquillo, com fé no amor! - -Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação -da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse, -mas não amasse o outro! - -E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque -havia de ser o outro, e não elle? - -O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres -moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de -exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo -teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes, -tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se -guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as -miserias embelleza. - -E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus -dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia -neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo -que combate ou pelo que amplia? - -Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado, -amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla -de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre -doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem -encerrada no circulo de seus deveres. - -Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como -adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente -e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe, -salvar-se do perigo que o solicitava. - -Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria -o seu orgulho de homem. - -A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a. - -A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com -ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria -para bordo aprestar o _Neptuno_. - -Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para -que? não tornaria a vel-a... - -Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella, -sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem -nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o -poder da sua vontade. - -Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do -norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria, -inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer... - -O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e -só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento -forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado -apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe, -extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello; -elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle -aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos. -Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu -tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo -deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel. - -D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras, -desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o -calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou -para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa -occasião. - -Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e -das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e -risonhas nas suas _toilettes_ claras. - -D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as -mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha -esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava. - -Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia -Theodoro, como estava a boa Camilla? - -Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando. - -A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe, -dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais -atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e -offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos -objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á -cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira. - ---E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse -do que para dizer alguma coisa. - ---Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido -sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo -é de ingratos... - ---Sim, é de ingratos; confirmou o capitão. - -Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as -lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das -cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel, -numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão -insupportavel a longura da viagem. - -Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que -ninguem o via, senão no palacete Theodoro? - -Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e -contemplou-o com curiosidade. - -Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos, -apontando o portão da sua residencia. - -O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta, -admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices -da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida -e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de -formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão -enluvada? - -A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se -a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que -ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O _bond_ parara -no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da -madrasta; o portão estava aberto, entrou. - -Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus -pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por -uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao -fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e -simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina. - -Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, -e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em -semicirculo. - -Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha. - ---Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e -ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros. - ---Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do -costume. - ---Chamaste medico? - ---Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama. - ---Que Hermengarda? - ---Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do... - ---Já sei. - ---D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora? - ---Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos. - ---Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os -dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D. -Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as -arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o -adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo -cheiro. - ---Que tens feito? - ---Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se -eu quizer sahir? - ---Effectivamente estás muito só. - ---Preciso casar-me. - ---Casa-te. - ---Tenho medo. - ---Os homens assustam-te? - ---Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto! -Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento. - ---Sê honesta. - ---Quem pode saber hoje o que será amanhã? - ---Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma -indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de -calma e de reflexão! - ---Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. Chama-me com -malicia--_doutora_. Todos os meus gostos são assumpto de mofa para -ella, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E ahi tens a calma -d'esta casa. Fresca tranquillidade! - ---Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te! - ---Com quem? - ---Commigo não pode ser. - ---Nem tu quererias. - ---Porque? - ---Porque amas a Camilla Theodoro. - -Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O -jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e -cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto, -pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras. - ---Nega, se és capaz; disse ella. - ---Não nego. - -Quedaram-se mudos, contemplando-se de face. - -Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe -assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio. -Catharina murmurou: - ---Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella -e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo. - ---Nem eu; mas a sociedade absolveu-o... - ---Os homens. Ella era tão boa! - ---Enganou-o. - ---Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento -de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de -uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a -beijar-lhe a mão. - ---Nem mesmo na hora da morte?! - ---Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao -encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle -percebeu tudo. Que morte! - ---Foste cruel. - ---Fui humana. Tu o amavas? - ---Antes? muito! - ---Depois? - ---Não. Mas era nosso pae... - ---E ella era nossa mãe! - ---Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura -entre as mulheres. - -Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua. - ---Foi no _Neptuno_ que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando -de tom. - ---Onde havia de ser? - ---E só aquella vez bastou? - ---Só. - ---Manda calar aquelle sabiá, Catharina! - ---Deixa lá o passaro; chora. - ---... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... Entrego -em Belém o commando do _Neptuno_ a outro. Tenho substituto; está tudo -combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso -que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir... - ---Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor -não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella -ama o Dr. Gervasio... - ---Por quem soubeste isso? - ---Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, benza-a -Deus! - ---Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?! - ---Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento -traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada -desembainhada para todas as faltas, aquella mulher! - ---De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso -assim fosse, quem poderia adivinhar? - ---João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre. - ---Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não -ama ninguem; não ama ninguem! - -Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar, -um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que -as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e -calma, toda azul, com leves tons opalinos. - ---Catharina? - ---João? - ---Precisava ter-te sempre a meu lado... - ---Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus -filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas! - ---Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella. - ---Soffres muito?... - ---Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. Custa -muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo! - ---Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo. - -Sorriram ambos, com tristeza. - -Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina -tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se -com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa. - -Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da -madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um -lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda -tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa -muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo. - -O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e -a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito -frio. - -Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras, -recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em -bicos de pés. - -Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se -alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais -intimo. - -Elle perguntou: - ---Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta? - ---Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria -depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim, -quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas -o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu -sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso. - -Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto -era na visinhança. - -Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu, -ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de -separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que -em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com -sinceridade--o d'ella. - - - - -XII - - -Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria: -era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de -que o negociante fizera o seu escriptorio. - -Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada -para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de -plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés -morria. - -Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha -estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua -attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do -aposento, vasto e sobrio. - -Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das -coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma. - -A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros -industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano. -Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um -cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento. - -Do lampeão de bronze com _abat-jour_, cahia uma luz bem dirigida, -espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo. - -Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o -Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua. - -A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos -não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus -olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus -movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da -sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa, -a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida -alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio. - -Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de -prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco -Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o -desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto -experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella -entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer -empreza. - -Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa -condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital, -avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando -zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o -pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem. - -E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No -mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou -uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer -pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida. - -O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em -borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente. - -Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e -as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade. -Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a -vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do -desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante, -não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que -elle não conseguia dirigir a seu modo. - -Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de -goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é -que lhe parecia uma ignominia. - -Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do -homem obrigava-o a transigir um pouco... - -Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal -chegava o echo das correrias das pequenas. - -Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não -pede, mas offerece favores. - -Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da -cabeça, começou: - ---Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. O -Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua -prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi -elle que me disse que o consultasse tambem. - -Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do -Braga scintillavam na sombra. - -Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom -criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o, -revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração -perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia, -fortificando-o com argumentos persuasivos. - -Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum -artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte. - -Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio -prestava-se. - -Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos -difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O -tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se. - -Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais -rude. - -O assalto assustava-o. - -Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos, -Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger -resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a -seductoramente. - -Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle -não fallasse com a autoridade de bom conhecedor. - -Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias -o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em -certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da -promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era -documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno, -annotado nas margens, com lettra miuda. - -Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem -argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta -incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde... - -Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por -instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro, -e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia. - -O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa. -Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a -propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro -approvou. - -Reconhecia nos inglezes grande capacidade. - ---Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor -porque? - ---Superioridade de raça... Sim, é o que dizem. - ---Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de -educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais -forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo -de figado que tenha ingerido em pequeno. - -A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas -especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de -negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as -mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o -que o inglez nasce e se desenvolve. - -Por isso o commercio d'elles é tão forte. - -Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo -estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos! - -Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto. - -Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas, -estatisticas... - -Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem -tirar os olhos dos papeis: - ---Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:--o Gama Torres. - ---É rapaz novo... - ---E atiladissimo. - ---Os negocios precisam ser feitos com vagar... - ---Á moda antiga. - ---De todos os tempos. - ---Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do -thermometro. - -As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos -alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra -épocha. Esta é a melhor.--É a unica. - -Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores -e mais convincentes do que palavras:--cifras. - -Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e -seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro -apontavam e percorriam rapidamente. - -Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação, -assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de -desabar em blocos de ouro. - -Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma -objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem -já vinha prevenido para tudo. - -Á meia-noite ergueu-se, dizendo: - ---Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra -vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das -duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite. - -Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em -cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na -soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães. - ---Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem! - ---Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas. - ---É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro. - ---Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites! - -Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento -gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do -Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras -lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e -morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção... - -Quando no dia seguinte abriu o _Jornal_, na frescura da varanda, -percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se -presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros -caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro -desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga. - -E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado. - ---Sabe uma coisa, papaezinho? - ---Não ... não sei nada. Que temos? - ---Uma desgraça. - -Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado. - ---Que dizes?! - ---Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para lhe -dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado... - ---Então a desgraça é essa? - ---Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os -outros, que podem mais, se esqueçam d'ella... - ---Ora, não lhe falta nada. - ---A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz annos, -o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se -fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a -minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente... -Entretanto... - -Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção. - ---Acaba. - ---Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com -mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios -de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer -que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor -ou a mamãe. - -Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu... - ---Quem te lembrou isso hoje? - ---Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha... - ---Bom; promette-lhe o chapéu. - ---Só? - ---Parece-te que temos sido ingratos para com ella? - ---Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa... - ---Que coisa? - ---Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata -que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:--mas porque é que você não -compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e -ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não -podia tomar gelo, mas perguntei:--porque é que você não toma um -sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor -vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem -uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que -desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma -carteirinha no bolso... - ---Queres então dar-lhe uma carteira? - ---Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por -mamãe. - ---Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço. - -Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio -faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer. - -Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se -para a sobrinha, declarou: - ---Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para -você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os -mezes um vestido a seu gosto. - -A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou -com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a -saude. Ella começou a chorar. - ---Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De -maneiras que você... - -Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla -applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos. - -Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao -tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou: - ---A casa não é grande, mas é nova e bonitinha. - ---É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever, -insistindo para que você não falte ao baile do pae. - -Parece que a Paquita está apaixonada! - -Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que -recomeçara a partir o _beef_ das primas. - ---Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado. - ---Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do -Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só -attribuo a querel-o o Meirelles para genro. - ---Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O -Meirelles não é nenhum parvo. - -Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse: - ---Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de -mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não -quero. - -Nina tremia. - -Francisco Theodoro riu alto. - ---Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou -a outra, com um homem de peso... - ---Pois sim!... - ---Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são? - ---Cinco, parece-me que cinco. - ---Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem -nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do _Chora vintens_... -D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio... -Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado... - ---Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho -de nojo. - ---Que queres? Nem todos nascem para doutores. - -Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega; -todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do -filho. - -Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar: - ---Que foi que eu lhe disse hoje? - -A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou: - ---Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa -nova? - ---Borboleta azul?... - ---Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul? -Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito -dote... E ainda ha quem não acredite! - ---Sim, é verdade, você me disse... - -E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de -doçura. - -Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga -apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S. -Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em -casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que -transparecia a mais viva curiosidade. - -O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os -pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de -dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro -prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia, -na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto. - -Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão -uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna -não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade, -tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado. - -Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e, -cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao -Innocencio... - - - - -XIII - - -O palacete Theodoro preparava-se para o baile. - -Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e -corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de -escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando -_parquets_ e de moveis deslocados. - -Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o -despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas -escancaradas, com inteiro desassombro. - -Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa -perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel -e discreto. - -Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a -interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma -salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um -romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e -não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das -suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro -abandonados. - -Os outros da familia preoccupavam-se com a festa. - -Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da -modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas -sobre _tules_, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro. - -O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas -salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho -das dansas. - -Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando -para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não -provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal, -quem sabe? a gente illude-se tantas vezes! - -E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que -tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio -não a deixava tomar corpo. - -Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem -determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de -musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco; -foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e -harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos -parecia a Camilla perfeito. - -Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As -gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se -por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da -desordem que provocavam. - -Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito. - -Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta -do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz. - -Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais -risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a -familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava -construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um -avestruz. - -Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta -por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, -estacou surprehendida. - -De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, -soprando em longos flautins de ouro. - -A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, -porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, -que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da -atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida -da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus -olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento. - -Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A -machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos. - -Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se -podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e -bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas -de filó batiam tremulas. - -Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um -paiz de sonho. - -Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a -vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas -tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em -flechas de sol. - -Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio -entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da -parede: - ---Estou gostando de vêr... - -«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao -mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não -lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente. - -Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle -respondeu: - ---Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e -injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia -esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma -perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não -digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o -effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa... - ---Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a -mamãe que me mande ensinar pintura... - ---Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é -raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não -pense em mais nada... - -Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a -não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos -trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no -caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de -musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou -coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas. - -Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo -lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da -illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os -canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados. - -Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a -Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia -Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao -Observatorio para vêr a lua e as estrellas. - -Era a occasião. - -Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no -oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa -rezada. - -D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a -essa hora o--_ora pro nobis_ em côro com o povo e os frades. - -Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas -encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes -desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia -todos os sacrificios. Ficaria. - -Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa -em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, -perguntando pela sua encommenda. - ---Que encommenda, gente? - ---A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que -eu pedi... - ---Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu -dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu? - ---Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa... - ---P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein? - -A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice. - ---Não diga nada... - ---Você é tola!... - -A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser -ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas -dilatadas farejando mysterios. - -D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo -questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando -desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel -de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha. -Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e -torpes: - ---O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias? - ---Vae, sim, senhora. - ---Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas? - ---Não sei... - ---Camilla sae sozinha? - ---Ás vezes sae. - ---Porque é que você não vae sempre com ella, hein? - ---Eu tenho que estudar. - ---Não fica bem uma senhora sahir só... - -Ruth contemplou-a, estupefacta. - ---As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto? - ---Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno. - ---Em quantos contos está? - ---Não sei, não, senhora... - ---O Dr. Gervasio vae tambem? - ---Acho que não. - ---Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de -olho? - ---P'ra Nina? não, senhora. - ---Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que -estão reformando tudo! é verdade? - -Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do -medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, -as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o -vestibulo... - -D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava -a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um -sorriso torto: - ---Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar. - -Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. -Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a -lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã -voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a -viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que -por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha -julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra -o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que -embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender... - -Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca -rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella! - -D. Joanna entrou, gemendo de cançaço. - ---Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã. - ---Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se -precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra -tia. - ---Quem foi que trouxe você? - ---Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não -queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi, -tanto pedi... - ---Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta -annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito -triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas... - -Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a -duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu: -primeiro de dor, depois de allivio. - ---Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã -poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e... - ---E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim. -Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma -curiosidade! - ---Mas... - ---Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha, -sim? - -Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de -kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou -a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor. - -Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á -janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe -historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de -rogada. - -As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam -a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num -ambiente tão diverso do que lhe era habitual. - -Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a -nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças -flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando -judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições -injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os -extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, -assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a -vastidão sombria do aposento mudo. - -Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas -indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das -lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho -erguido a uivar... - ---Tia Joanna, tia Joanna! - ---Que é isso, minha filha?! - ---Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave... - ---Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que -ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda -hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras. - ---Mas, o céo assim é feio, tia Joanna... - ---Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito -antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem -simples. - ---Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim? - ---Nem sangue, nem fogueiras:--Foi um dia... - - - - -XIV - - -«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a -Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de -rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo. - -Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria -negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista. - -Uma tristeza. - -No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da -portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão -doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror -Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda -e murmurava: - ---Ave! - -E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul. - -Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu -habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu -ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, -tirando a cruz e o véu. - -Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. -Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera -tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não -sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando... - -Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr? - -Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, -com dois olhos que nem duas estrellas. - ---Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as -mãos tremulas. - ---Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle. - -E logo de mil modos começou a tental-a. - -Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. -Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe -que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no -abysmo... - -A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer -despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que -fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, -muito tremula, muito alvoroçada. - -Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus -que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O -beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, -embriagador. - -Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha -deliquios, abstracções. - -O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que -fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares -cheirosos e aguas crystallinas. - -Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os -labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a -perpetua bemaventurança, mais que tudo! - -E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á -portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento. - -Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A -freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas -ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu -cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e -tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava -com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando -contrictamente:--Ave!--e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do -convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só -havia grossas paredes impenetraveis. - -Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul. - -Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão -levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a -communidade entoava: - ---Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos -trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa! - -Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em -redor, por aquellas penedias. - -E entoavam hymnos. - -Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão -aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto -voltado para a outra banda. - -Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa -vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e -trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que -a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco... - -Depois... - -Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a -misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão--mas o diabo -em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de -cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se -com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por -mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés -ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os -penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se. - -Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito -velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar -em uma religiosa fugida do convento um anno antes? - ---Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são -todas umas santinhas, louvado seja o Senhor! - ---_Amen_! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia -rosas... - ---A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se -soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos. - -Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, -com o coração aos pulos, bateu á porta do convento. - ---Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima. - ---Uma peccadora arrependida, para a penitencia--sussurrou soror Pallida, -lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos... - -A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos -enferrujados estavam de velludo,--e a rodeira mostrou se com um sorriso -á freira apoquentada. - -Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os -joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa -compuncção e infinita doçura: - ---Ave! - -A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a -fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: -badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos -altares e arrumando os gavetões da sacristia. - ---Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella... -Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!... - -Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; -depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando: - ---E Vós, Mãe Santissima?! - ---Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho -azul...» - - -Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o -lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior -economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror -Pallida. - -Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se -das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito -branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o -quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, -e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do -silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos -lancinantes. - -Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados. - ---Que é isto, tia Joanna?! - ---Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha... - ---Meu Deus! - ---Não é nada, dorme, minha filha! - ---Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na -coitada! - ---Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de -intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa. - ---Vou eu. - -Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um -movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz; -guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a -cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de -marmelleiro. - -A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a -cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia -descahindo sobre a carapinha da outra. - ---Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com -impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta. - ---Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito -gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth, -vá dormir. - ---Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem -coração?! - ---Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui! - -A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava -as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth. - -D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, -puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua -carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha. - ---Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio -nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos. - -D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra: - ---Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de -ajustar contas... - -Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e -Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna. - -A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a: - ---É sempre assim? - ---Não ... uma vez ou outra. - ---Mas como podem viver neste inferno?! - ---Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que -ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim. -E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é -raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das -missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu -não teria paciencia para a aturar. - ---A Sancha vae amanhã commigo para casa. - ---Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço? - ---Aluguem uma mulher. - ---Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz -tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei. -Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto -de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a -apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais -nella. Durma... - -Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se -levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir -tambem. - -Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a -Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se -chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo -que a tia Joanna a ouvisse: - ---Sancha, porque é que você não foge? - -A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo. - ---Nhá?! - ---Fuja! - -A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada. -Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta. - ---E depois? perguntou ella, assustada. - ---Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe. - ---De que serve! me mandarão outra vez para cá... - ---Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella... - -A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café -da vespera, requentado. - -Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos -telhados, e nada se via da cidade, em baixo. - -Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello -espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros -vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a -madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a -pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella -luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo. - -Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma -oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o -altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma -supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um -ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, -foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De -mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de -piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias -do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, -fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam -soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr -nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos -seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa -delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou -uma saudade absurda, a _saudade do céo_, como dizia o Dr. Gervasio, e -que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que -germinava no seu peito fraco. - -E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se -á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a -ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, -apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões -rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga! - -Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, -se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade? - -Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça -para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos -rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes -perseguidos. - -E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a -fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e -soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao -grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão -bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle -corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda -e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra. - ---Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava -Ruth, confusa, com os olhos no altar. - -Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas -corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados. - -Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de -agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de -boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os -ultimos farrapos de neblina. - -A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a -egreja do Carmo. - -Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em -egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina. - ---Você conhece a egreja do Carmo? - ---Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto -das egrejas grandes. - ---Porque?! - ---Não sei... - ---Ora essa! - ---Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á -senhora não acontece o mesmo? - ---A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou -não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz. - ---A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria, -que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores? - ---Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas. -Elle está em toda a parte. - ---Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas? - -D. Joanna estacou. - ---Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem. - ---E a Sancha? - ---Hein? - ---A Sancha. - ---Lá vem você com a negrinha! - ---Negra ou branca, é creatura. - ---Não digo que não. Mas que falta á Sancha? - ---Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra... - ---Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz. -Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada, -d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho -nos braços. - ---Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia -Joanna. Tomara eu. - ---Menina, que é que você está dizendo! - ---Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte -filhos, vinte! - -A velha corou. - ---Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a -repetil-as, ouviu? - -Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D. -Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma -harpa, outra com uma rabeca: - ---Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á -chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima. - ---Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar -livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em -qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao -menos estes teem a musica. - -D. Joanna riu-se. - ---É verdade; quando você toca esquece tudo. - -Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar -sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para -que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na -primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as -saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel -aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase! - -Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da -egreja. - -Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia -ouvil-a. No adro lembrou ainda: - ---Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do -padre Euclydes, que está doente. - -Ruth objectou: - ---Mas titia, eu estou com fome... - ---Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará -informações e seguiremos logo para casa. - -Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria -as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á -missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes. -D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da -egreja, dizendo: - ---Rezemos por alma d'este morto, filha. - ---Mas nós nem o conhecemos, titia! - ---Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o. - -Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar. -Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth -deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle -desconhecido, por quem tantas mulheres choravam... - -Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos! - -Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a -chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no -domingo a sua missa. - ---Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse -Ruth. - ---Peça, filhinha. - ---Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A -estas horas elle está farto de estar no armazem. - -D. Joanna hesitou: - ---Olhe que não é tão perto assim... - ---Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa... - ---Vamos lá... Que pieguice! - -Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco -Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas, -empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um -paletot preto fazia resaltar a alvura. - -Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle -extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria: - ---Senhora fujona, que faz por aqui?! - ---Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora -procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos -almoçar... - -Se papae nos levasse a um hotel?... - ---Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o -Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus. - -E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis, -aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E -despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth -mandava á mãe. - -D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais -valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um -restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas -economias sordidas da irmã. - ---Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei -contente; respondeu-lhe a menina. - -Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e -entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr. -Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de -rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam -o escrupulo dos moradores. - -O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho, -arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo -cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o -rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina -da velhice. - -D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth -tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar. - -Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do -almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no -fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa -recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e -Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo -com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel. - -Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas -camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e -para elles fazia convergir todos os seus cuidados. - -A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se -acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim, -mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para -medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados, -escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de -grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão. - -Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas -de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á -sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida. - -Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela -innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no -seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á -morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E -toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico. - -D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com -difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os -ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do -medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de -primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as -nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir -tão alto, tão alto! - ---O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e -todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; -percebem? - -D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth -murmurou: - ---Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito! - -Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que -se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo -corredor. - -D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O -marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe -valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal -e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já -trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, -por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro. - -Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu -a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota -da negrinha não ouvira o seu conselho? - -Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido -ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder -abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna -benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua -consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era -bom, estava tudo sempre muito bem. - -Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para -vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e -tantas as suas exclamações, que a tia observou: - ---Você é muito exaggerada, Ruth! - -Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado, -aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta -estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um -_bouquet_ de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e -outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas, -que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas -como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata, -aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando, -cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica... -Depois a lua... - ---Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como -é bonito! - ---Bom, bom; divirta-se... - -Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia -d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem -sobre ella aromas que a embriagassem. - ---Filhinha, vamo-nos embora... - ---Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna! - -Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que -tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada -as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de -flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia -lhe ouviu em um murmurio entrecortado: - ---Como é bonito! - -No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha -para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros -pela casa. - -Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta: - ---Que é? - -A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina: - ---A Sancha fugiu! - -Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth. - -Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde -teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa -se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora! -sempre seria mais feliz lá fora... - -Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços -ao pescoço. Era a sua libertação. - -D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se -levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, -provocando a negrinha para o assanhamento da rua. - -Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha, -deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo -vagavam conjunctamente. - - - - -XV - - -Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas, -quando viu entrar a Therezinha Braga. - ---Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre. - ---Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo -figurino. - ---Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora... - ---Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno! - -Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira -tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio: - ---Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança. - ---Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim. - ---Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em -seu nome? - ---Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe! - ---Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança. -Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae -tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão! - ---Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez -se possa arranjar alguma coisa... - ---Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata. - -Servindo o café, Nina explicou á Therezinha: - ---A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande -logo os seus figurinos. - ---É para o meu vestido de baile. - ---Você mesma é que o vae fazer? - ---Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes? - ---Não... - ---Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o -vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a -Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia: -parece outra coisa... - ---Está muito bonita, agora, depois que engordou. - ---Mas cada vez mais maliciosa... - -Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e -Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, -muito pirracentas. - ---Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os -sonhos a Ruth. - -Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se -balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram -para a mesa, á espera do café. - ---Ora graças! - -Engulido o café, Therezinha declarou: - ---Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora! - -As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; -Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre -os restos assucarados dos pratos. - -De repente, Nina: - ---Em que é que você está pensando, Ruth? - ---Na Sancha. - ---Que ideia! - ---É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive -tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu -vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não -sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que -fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa, -que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond... -Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel! - -Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera -envenenar-se; era menos burra do que parecia. - ---Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia -Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá? - ---Para que? - ---Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas -visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com -Mario? - ---Não... - ---Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado! - ---Mario não gosta d'ella. - ---Quem disse? - ---Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu? - ---Ouvi... - ---Então? - ---Então? Quem sabe o que estará para acontecer! - -Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da -Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o -baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos. - -O negociante olhou boquiaberto para a mulher. - -Ella disse: - ---Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a -Europa. - ---Mas é incrivel! - ---Porque? - ---Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer -entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage -está doida. - ---Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a. - ---Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. -Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia? - ---Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais... - ---Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente. -Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se -casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida. -A experiencia da vida é um grande dote. - ---Você falla com Mario? - ---Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante -asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos. -Falla-lhe tu ... se quizeres. - -Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, -fazendo tilintar as chaves. - ---A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o -Innocencio... - ---Como soube ella d'isso?! - ---Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi... - ---Tenho medo... - ---Hein? - ---Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles -querem mesmo o casamento? - ---Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O -Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom -gosto. - ---Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos. - ---Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por -emquanto é bom não dizer nada a ninguem. - ---A quem o dizes... - -Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, -vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava. - -Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga? - -Abriu a janella e encostou-se. - -De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a -musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro. - -No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam -as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva -sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás -mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como -ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme -posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, -rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de -palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma -cesta de fructas e frescos pés de alface. - -A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, -nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com -clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir -sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante. - -No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza -enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo. - -Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos -alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e -as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do -seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição -da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos. - -Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter -sabido crear para os seus uma felicidade perfeita. - -Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua, -desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo -sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a -abundancia e a alegria. - -As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida. - -Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da -janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem -desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito -florido por um fresco _bouquet_ de myosotis, as mãos nos bolsos, -parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito. - -Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os -perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa -estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido -escuro, dava uns retoques á fructeira. - ---O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio. - ---Como sempre. - ---Virá jantar? - ---Creio que não... - ---É o diacho ... eu precisava fallar-lhe! - ---O seu empregado está peior? - ---Parece-me que sim ... coitado... - -Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no -velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa: - ---Quer que eu mande tocar a sineta? - ---É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De -maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui? - -Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage -deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario -se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que? - -Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um -jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher -a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella -creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal -casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o -consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por -caduquice; miolo molle.--O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao -Mario!--resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se -fizesse um commentario ao artigo acabado de ler. - -Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, -de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, -muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde -relampejavam fulgores frios. - -Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira -depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes -nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a -verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, -offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade -outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada -a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de -sentimentos dava-lhe desejos máos. - -A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo -pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? -Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus -olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com -as delicias do amor? - -Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, -apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de -arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a -historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, -não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem -tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada... - -Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se. - -Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava -dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario? - -Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força, -reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim -rosadas, com os cabellos ao vento. - -Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente, -pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de -verdade, puxado a _poneys_, com o cocheiro vestido de azul. - -Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a -conferencia da tia. - -E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas -physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como -se de outra coisa não tivessem tractado. - -Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido: - ---O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo -gosto para o commercio... - - - - -XVI - - -Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado, -_seu_ Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, -olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede -encardida. - -Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas -passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço. - -Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da -molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se -quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, -que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se -enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o -avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola -e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que -esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, -tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e -escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com -os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou -torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar. - -A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais -côr de cidra. - -Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. -O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal. - -O pae chamou-a: - ---Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me -incommodando. O paletot está sem botões. - -Ella não respondeu, foi dentro e voltou: - ---Estão aqui outras meias. - ---Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna... - -Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou: - ---As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom -alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu -terno de casimira está escovado? - -Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a, -com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com -exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que -as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas -morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol. - -Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar -rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os -olhos para reter as lagrimas. - -Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua -defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira. - -Quem diria que de tal mãe... - -Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da -cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados. - -De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava: - ---Que jantarzinho cangueiro... - -Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que -elle engulia com esforço. - -Nesse dia a tarde estava quente. - -O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras -de baixo, reunidas no quintal. - -Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira -voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas -frias tornou-se insuportavel. - -Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a -bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos. - -O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos -livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e -de sentir a morrinha da casa suja. - -Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de -alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda -recambiada, fatias de _Mané-taiado_, ou cocadas com abobora, sujeitas -ao azedume. E então era só: - ---Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos -dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E -adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô! - -Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir. - -Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o -Ribas. - -_Seu_ Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao -rapaz, mas abria os ouvidos. - -Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia -duzia de palavras: - ---Hontem houve um baile em casa de _seu_ Theodoro. Diz que a rua estava -cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos... - ---Quem acredita nisso... - ---O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. -Foi ao baile coberta de joias. _Seu_ Guimarães, _seu_ Castro, todos -estes turunas do café foram lá. - ---Como sabe você de tanta coisa? - ---Foi o Isidoro quem me contou. - -O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles, -fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva. - -O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, -sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou: - ---Você não tem que fazer? - ---Eu ainda não achei emprego... - ---Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha -casa. - ---Meu cunhado não me governa. - -_Seu_ Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada -sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo -de vida, um zum-zum de fóra. - -O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem -um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades -só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda -aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só -fallar com o _Pirueta_ da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a -capoeiragem... - -Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que -esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o -seu ventre enorme. - -Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando -ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não -entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo. - ---Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi... - ---Queria que você me emprestasse quinhentos réis... - ---Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente! - ---Na gaveta do balcão. - ---Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu -o que aconteceu; vá-se embora! - ---Não seja má, Deolinda. - ---E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha -creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada. -Mal dá p'ra comer, sabe Deus como! - ---Não seja sovina; depois eu pago. - ---Ubaldino ahi vem ... vá-se embora. - ---Ora... - -E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta -encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia, -tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas -ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu -as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento. - -Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de _seu_ Joaquim, postando-se -como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua -faina entrarem e sahirem sem interrupção. - -Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada -de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão -do filho para o trabalho. - -O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,--e -accrescentava: - ---Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem. -Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a -Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na -volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será -então tempo de você ceder-lhe o campo... - ---E eu estou morto por isso... - ---Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do -_Equateur_. - -Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim, -seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria -um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria -ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre -na moldura dos seus cabellos louros. - -Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e -dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa. - -Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa -commercial, que já não acabaria com elle. - -Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho -perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a -sentir que lhe não perdera o amor. - -Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com -elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro, -feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia... - - - - -XVII - - -Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu -quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho. - -Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem -d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só -voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita -cruzar os mares nos braços do seu amor... - -Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera -para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao -chão, quando alguem bateu á porta. Abriu. - -Era a Noca, que vinha toda alterada. - ---Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão! - ---Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa. - ---Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho -quebrado: morte ou ruina. - ---Morte! se fosse a minha... - ---Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só -na vida? - ---Muita gente ... eu. - ---Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver -o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta. -Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje! - ---Vá andando, eu já vou. - -Nina mudou de vestido á pressa e desceu. - -Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo -desgraças, suggestionados pela influencia da Noca. - ---Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente, -pensando na Paquita. - ---O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo. - ---Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um -sorriso pallido. - ---Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez -aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa. -Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla. - ---É melhor... - -No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla, -encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu _peignoir_ marfim -pontilhado de ouro. - ---Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou -beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa. - -E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres -d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia -aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante, -levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, -elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe? - -Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a -casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em -baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela -escada acima. - -Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á -essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá -Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma -d'elle que ella trouxesse comsigo. - ---Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para -fóra com a mão fulgurante de anneis. - -Era um pôr-de-sol maravilhoso. - ---Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. -Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se -matam! - -Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido. - ---O senhor está doente? perguntou-lhe Nina. - ---Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim. - -Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros: - ---Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês -procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite -para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle -não me fique doente... - -E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla. - -Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle -repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o -fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem -parecia ouvil-as... - -Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um -facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está -começando... Eu não dizia?» - -Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do -Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a -propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia -de bem merecer um grande amor. - -Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e -redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e -pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia -de graça. - -Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle -dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas -aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu. - -Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que -se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo -despedir-se do filho. - -Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o -estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle -sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E -foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas, -d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu, -sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos. - -Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco -Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio -Braga. - -Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do -Havre para o _Jornal_, que affirmava ter descido o preço do café nos -principaes mercados. - -Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou -logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas -risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro. - ---Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto -tudo é jogo? - ---Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em -que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga -esperança. - ---Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes -espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus -lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é -coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma. - -Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!... - ---É impossivel! - ---Acredite. - ---Não póde ser. O _Jornal_, tão serio... - ---Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque -sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que -eu estivesse calmo? - ---Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital! - ---Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado; -sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou -ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está -satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um -homem do tempo, ha de ir longe... - ---Pois, eu, confesso-me arrependido. - ---Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já -que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao -Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas -machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente... -Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a -veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas. - -Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as -horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder -trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego. - -Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia -maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom -senso naufragava. - -Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um -telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser -verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são -como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta. - -Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem -era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria -esperar pelas taes provas irrefutaveis... - -Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao -_Equateur_. - -Foi um alvoroço em casa. - -Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr -por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á -mão de Deus Padre! - -Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os -vestidos novos e os chapéos côr de rosa. - ---Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na -cidade ... levem os brancos. - ---Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel: - ---Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa. - ---Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar! - -As meninas berraram, e Milla interveio: - ---Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de -aborrecer as creanças. - -Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao -_Neptuno_, e voltando-se para a mãe, perguntou: - ---É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino. - -Camilla levantou os hombros. - ---Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio -pela bahia. - ---Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para bulir -com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha: - ---Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e -trovões. Ainda ha de ser mais bonito. - ---Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com este -sol todo estou com medo, quanto mais... - ---É pena que Nina não tivesse vindo... - ---Para quê? para vêr a outra? - -Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos -os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não -sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões. - -Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o -Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as -palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias -afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás -ordens que ella lhe dava em phrases curtas: - ---Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse -buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e -que mandasse a vermelha para o beliche. - -Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que -o afastava:--Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das -fructas ao _maître d'hotel_, recommendando-lhe que as mettesse na -geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das -cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de -borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla -pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco, -tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo -aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua -de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa. - -Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás -perguntas da sogra. - -Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa -á ré. - -O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do _Jornal_ inserido -na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em -secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital -fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as -palavras do Braga e as suas affirmações. - ---Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um -especulador sem escrupulos ... quer mais claro?--é um ladrão! - -Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já -passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos! - -Vi a prova. O patife! - -Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro -marreco que tal! Homem--não se deixe levar pelas cantigas novas, nós -antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo -terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não -tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para -descerem sem precipitação... - -Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada, -recommendou-lhe: - ---Juizo, meu rapaz! - -Camilla, branca como marmore, apertou o filho com força ao coração; -depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e -fixou nelle em uma queixa muda os seus grandes olhos maguados. Foi só -na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ella desatou em -soluços que ninguem tentou reprimir. - -Havia em todos egual resentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de -lambisgoia, percebendo que ella roubava o Mario a toda a familia, -absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras -do amor. Cuidára ella nunca por ventura que um abraço de despedida -custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos -rostos preoccupados, e só Francisco Theodoro acenou para o filho com um -lenço, pondo naquelle adeus toda a sua ternura. - -Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a unica pessoa -da familia que elle via salva era o Mario! - -Chegando á terra, Camilla e as filhas foram de carro para casa, e -Francisco Theodoro, depois de almoçar á pressa num restaurante, seguiu -impaciente para o armazem. - -Á porta d'elle a pretinha Terencia guinchava contra um italianinho que -se lhe associara sem licença ao negocio, atirando-se á pilhagem do -café da calçada. - ---Ha alguma novidade? perguntou Theodoro ao gerente. - ---Não, senhor. Ah! é verdade, o Motta parece que está moribundo. - ---Pobre homem... - ---A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando. - ---Ha de ser preciso mandar recursos a essa gente... - ---Arreda d'alli aquelle sacco, João! - ---Coitado do Motta... - -O gerente já não o ouvia: determinava serviços. - -Chegado ao escriptorio, Francisco Theodoro tractou de remetter dinheiro -ao Motta e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O -velho tivéra uma syncope mas estava melhor. - ---Coitado do Motta, murmurou Theodoro, consultando o relogio, morto -pelas duas horas. E ás duas horas correu ao escriptorio do Innocencio. - -Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Innocencio partira nessa -manhã para Petropolis, a negocio urgente. Deixara dito que na volta -iria procural-o. - -Francisco Theodoro não conteve um movimento de raiva, e sahiu tonto, -sem cumprimentar ninguem. - -O ruido, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-n'o sentir mais o -seu cançaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros; -deteve-lhe os passos e, quasi sem explicação, perguntou-lhe: - ---Diga-me cá: que opinião faz você do Innocencio Braga? - -O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou: - ---Aquillo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar. - ---E que me diz você d'aquelle telegramma do _Jornal_ de hontem, sobre a -baixa do café? - ---Que hei de dizer? que annuncia catastrophe para muita gente boa. Sabe -o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior -do que nós. Não lhe parece? - -Que importavam a Francisco Theodoro as fallencias dos americanos! elle -só tremia pela d'elle, era na sua fortuna que estavam condensados todos -os bens do universo. - -Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lh'a, e voltou-se de -repente, fixando-o nos olhos: - ---Homem, querem vêr que você... - -O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adeante. - -Nessa tarde elle encontrou a casa cheia. D. Ignacia espalhava receitas -de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A -Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as -Bragas, que riam muito, alludindo aos namorados da Judith e da irmã, -piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que ellas -apresentavam nesse dia á familia Theodoro, como um excellente recitador -de monologos. - -Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguem lh'os pediu. - -O Dr. Gervasio jogava com o Gomes e o Lelio, Camilla gyrava pela casa, -esquecendo-se, no meio do ruido, da impressão de abandono d'essa manhã -no _Equateur_. - -Lá dentro, Nina mandava accrescentar mais uma taboa á mesa e descia á -adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir. - -Assim, aquelle dia de semana parecia de festa. - -Francisco Theodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se -olhasse para phantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda -aquella gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que -pensar? - -Não esteve muito tempo socegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os -joelhos, e elle, cançado, deixou-as trepar, e fez de cavallinho durante -alguns minutos... - - - - -XVIII - - -Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava -da cama com sentido nos telegrammas do _Jornal_. D'esta vez, como das -outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o -café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente. - -Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos -da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam -pelos tamarineiros. - -Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de -calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os -enxugadores no braço e a saboneteira na mão. - ---Então, creanças; que cacetes! - -As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o -passo. - ---Bons dias, papae! - ---Bons dias, papae! - -O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse: - ---Vão tomar o seu banho. - ---Eu quero passear com o senhor. - ---Eu tambem quero... - ---Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo... - -As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em -correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da -chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos -empregados que passavam por elle. - -Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito -pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da -mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma. - -E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para -isso... - -A Nina foi ter com elle. - ---O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto. - -Elle puxou pelo relogio. - ---Sim, posso ir, são quasi nove horas... - -Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na -bocca bocadinhos de pão com ovo. - ---O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina. - ---Não tenho fome. - ---Depois fica doente ... porque não falla com o medico? - ---Eu?! para quê? - ---Aqui está o café. - -Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado. - -Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro -parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e -foi ainda a mulata quem murmurou: - ---Quem sabe se alguem disse de _nhá_ Milla, hein? - -Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de -Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro. - -A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas, -através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos -excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas -jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias, -egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude... -Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho? - -Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla. - ---Seu marido está melhor? - ---Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle -não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está. -Não sei o que é aquillo. - -Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra. - ---Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou Ruth -ao medico. - ---Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso -de alabastro d'alli, ou eu não volto cá. - ---Acha feio? - ---Horrivel. - -Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no -trabalho. - -Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações, -percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente. - -Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam -regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre. - -E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido -esgarçado, fugitivo. - -Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros, -teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir; -todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do -outro com o protesto de ser a ultima vez. - -Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um -telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia, -arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro. - -O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou -por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de -olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas. - -Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella -scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal -escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar -de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande -desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto -transtornado do patrão. - -Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força. - -Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,--a grande casa -Theodoro teve de declarar fallencia. - -Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos -uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa -segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se. - -A familia Gomes chegou cedo. - -D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de -pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno. - ---Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se -na melhor cadeira da sala de jantar. - ---Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito -abatido, respondeu Nina. - ---Isso é que é máo. E sua tia? - ---Está lá em cima, já vem. - ---Gostaram dos biscoitos que eu mandei? - ---Muito, são muito bons. - ---Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de -experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho. -Perceberam? - ---Percebemos. - ---Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim... - ---Não... - -Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da _etagère_, -cantarolando: - - - «No Brasil é doce d'ovos, - Chiquita! - Um beijo dado em você.» - «Um beijo...» - - -e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella. - -Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala, -sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe, -puxando-a para o terraço: - ---Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como -eu estou contente! - ---Foi o Samuel? - ---Então, quem havia de ser? - ---Seu pae não queria... - ---Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui... -Você vem commigo para o jardim? - -Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr. -Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para -o joguinno com o Lelio e o Gomes. - -Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança -tagarelava pelos corredores. Fazia um sol! - ---Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro? - ---Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos. - ---São de polvilho... Eu trouxe... - -Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia -remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra: - ---Como ella vem! É um céo! - -De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a -vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros -criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha -Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas. - ---Credo, um mocinho tão aquelle... - -Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram -as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com -o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As -Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas -de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de -pecegos inchados, bons para doce. - -Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de -Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que -não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga. - ---Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente. - -Os outros concordaram. - -Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco -Theodoro entrou no quarto das creanças. - -Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de -porcellana. - -Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e -separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam -profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos -espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o -ar e labios entreabertos. - -Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz, -parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama; -a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no -peitinho gordo. - -Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das -palpebras mimosas... - -Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora -para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle -quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios -sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e -aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de -uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle -conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para -onde? que os esperaria a todos? - -Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos; -voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A -mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou: - ---Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era. - ---Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo -quietas... - ---Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons... - ---Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê... - ---Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas! - -Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam -educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma -lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla -adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para -o seu escriptorio, no rez do chão. - -Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze -descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e -de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto -naquella claridade muda. - -Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr -de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva... - -Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha -reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros -saltavam lampejos luminosos que animavam a sala. - -Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra. -Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as -mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos -de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e -encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve -largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se -lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um -revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo -ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre -os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma -gaveta, que fechou á chave. - -Estava alli dentro o descanço, a eterna paz. - -Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo... - -No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro -desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e -prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via -pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para -o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres -irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em -flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu -desgosto, quando a afilhada o interrompeu: - ---Bons dias, titio! - ---Adeus, Nina. - ---Estava gostando de vêr os manacás? - ---Sim ... estão bonitos... - ---Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto! - ---Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado. - ---Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está -dizendo que é signal de desastre em uma casa... - ---Ah! ella disse isso? - ---Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é -impressionavel! - ---Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá? - ---O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre? - ---Não... Dê-me uma chicara de chá... - ---Mas o bife e os ovos ahi vêm... - ---Não quero nada. Só chá. - ---Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas. - -Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto -o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever -uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo: - ---Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla -recommendou... - -Depois leu alto: - ---Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande -trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza. - -Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de -sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e... - ---Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso. - ---Então tia Milla irá á cidade... É melhor. - ---Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei -cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de -setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina? - ---Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu -não sei nada! - ---Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o -significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa... - -Nina ficou pensando: - ---Tio Francisco estará doido? - - -Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as -cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de -creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio. - -Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso -derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond -já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho -recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos -sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado, -entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa. -Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança -rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta -da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o -espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este -céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de -esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das -aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão, -d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de -trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da -mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do -moleiro... - -E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta -para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e -a agua do bom Deus! - -«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a -riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida! -Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús -pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ... -verás: pesarão ouro e valerão pó...» - -Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. _Seu_ Joaquim -andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo -rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum -caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é -para as aranhas do tecto. - -Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de -entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os -calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio. - -Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho -Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias. - ---O Leite Mendes mandou cá? - ---Não senhor... - ---Está tudo direito, não? - ---Tudo. - ---Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem... - -O guarda-livros fez um gesto de recusa. - ---Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será -bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro. - ---Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos. - ---Para que? - ---Adiaremos ao menos a ... a catastrophe. - ---Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui -justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora. - -Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com -mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura -uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o -negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para -o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida: - ---Que dia é mesmo hoje? - ---29... - ---Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo. - -Os outros calavam-se. - -O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as -folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em -diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a -raspar com a unha. - -Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e -vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de -pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente. - -Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com -voz segura: - ---Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete. - -O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo, -que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo: - ---_Seu_ Augusto! - -Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força, -o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro -gritou: - ---_Seu_ Augusto ainda não voltou da rua! - -Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles -e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações. - -Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage, -mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de -negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo -emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se -ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a -familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o -golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as -filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a -escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente -desencantal-as em cofres avaros! - -As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a -reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa. -Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a -familia, mas faltava-lhe a coragem. - -Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou -outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta -da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o -corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para -trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o -abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser -engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo, -esboçou um sorriso e foi andando. - -Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os -passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força -ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar -sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter -engolido todo o pó das ruas. - -Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia -pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda -a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado -alguns metros quando esbarrou com o Negreiros. - ---Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de -quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle. - ---Todos bons ... estou á espera do _bond_. - ---Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia! - ---Han ... é aborrecido. - -Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um _coupé_ -particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e -os cumprimentou com um adeuzinho de mão. - -Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio: - ---Cão! - ---Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete da -Nova Zelandia, amanhã. - ---Com o meu dinheiro... - -Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando -um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou: - ---Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões... - -Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos -olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima. -Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de -Negreiros e partiu. - -No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa, -Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas -sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a -mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho. - ---Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito. -Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se -não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o -dinheiro fóra... - ---Ah... - ---Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... Irei -abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes? - ---Não... - ---É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu _bond_. - ---E a senhora? - ---Eu vou de carro. Saudades a todos. - -Ella afastou-se ligeira, no _frou-frou_ das saias de seda, e o -negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage, -acerca de Mario: «_Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo -o dinheiro fóra._» - -Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta. - -Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas -gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e -saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que -lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa; -e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da -_toilette_ da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de -anneis, unidos nas ondas negras do penteado... - -Que lhes diria elle? que lhes diria?! - -Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse -de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse -com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim! - -Essa ideia animou-o. - -Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia -tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas -bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em -uma sonatina fresca. - -Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de -milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das -gardenias. - - - - -XIX - - -Com um avental atado sobre as rendas do _peignoir_, Camilla executava, -com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia. - -Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel -nos jantares de anniversario das Gomes. - -A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda -e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da -Judith confundia os _a a_ com os _o o_, quando a Nina appareceu dizendo: - ---Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a -senhora. - ---A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?... -perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o -avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, -despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o -tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo -ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez! - ---Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia... - ---Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava -os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha. - ---Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar -bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga. -Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de -manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu -logar, Nina. - -Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao -chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que -as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho. - -Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão -grave e desusado que ella logo o extranhou. - ---Está doente?! - ---Eu, não ... porque? - ---Você está differente. Que modo! - ---É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer. - ---A mim?! - ---Sim. - ---Que é? - -Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio, -segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir -o golpe em cheio. Milla impacientou-se. - ---Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera -algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle -pensamento, balbuciou apenas:--Mario? - ---Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro -falliu. - -Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo -zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não -ouvia nada. - -O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão -desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope, -amparou-a, dizendo: - ---Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida, -é preciso coragem... Camilla! - -Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe -o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte! -Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras--fallir não é -morrer. Teu marido não morreu,--falliu. - ---É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula. - ---Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês -mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela -superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos. -Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de -outro... A série ha de ser longa. - ---Que me importam os outros! - ---Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te, -estás muito fria ... queres uma capa? - ---Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe -bruscamente dos braços. - ---Descança... - ---Não posso. - -Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas -irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida, -ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o -corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases: - ---Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... Que -insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que -vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde -ser. - -Subitamente parou, com um relampago de esperança. - ---Se fosse mentira?! - ---Eu seria um miseravel. - ---Podiam ter-te enganado. Quem te disse? - ---Elle. - ---Burro! - -Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e -recomeçou logo no seu gyro tonto. - -O medico tentou acalmal-a: - ---Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa -felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu -marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais -desgraçado. - -Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda: - ---A culpa é d'elle... - ---A culpa é de todos. - ---Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada! -Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos -só para o seu prazer! Só, só, só! - ---Theodoro está muito acabrunhado... - ---Quando foi que elle te disse? - ---Hontem á noite, em minha casa. Chorou. - ---Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar! - ---A dôr é forte. - ---Já perdeu uma filha... - ---Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante, -que elle préza acima de tudo. - ---A sua honra! mas Theodoro não roubou nada! - ---Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem -severidades. É preciso estar preparada para tudo. - ---Quer dizer que elle póde ser preso? - ---Quem sabe, não é provavel, mas... - -Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella -disse, com os beiços tremulos: - ---Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o. - ---Tu o amas, Camilla! - -Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico, -olhando-o de face. - -Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que -se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos. - -Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto -escondido nas mãos. - -A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos -indiscretos pelo corredor. - -Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em -S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se -oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo -chamalotado de nuvenzinhas brancas. - -Um bello dia perdido! - -Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia. -Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca -a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela -perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção -tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria -extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos -primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida -a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se -mais abundante. - -Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr. -Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado: - ---Mas sempre o amaste assim?! - ---Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é -uma amisade muito grande! - -O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um -largo silencio: - ---Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia. - -Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o -Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi -fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se -tractava. - -Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem -rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As -palavras para ellas só tinham som, mas não sentido. - -Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse: - ---Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae. - -O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para -Nina: - ---E você, que diz? - ---Nada; espero. - ---E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem. - - -Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz -tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio. - -Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma -ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida. -O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se -de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de -transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada. - -Em baixo, o armazem parecia outro. _Seu_ Joaquim permanecia sentado ao -pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas -das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga -para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão -de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua -havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens -que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos. - -Do seu ponto, _seu_ Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, -agora a mais afortunada da rua. - -Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco -Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas -as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração -absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha -secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como -um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno. - -Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o -chapéo, entrou outra vez no escriptorio. - -O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O -guarda-livros levantou-se e disse: - ---Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte. -Vou tentar outra vida... - ---Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz! -abraçaram-se. - -Motta approximou-se. - ---E o senhor? perguntou-lhe Theodoro. - -O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou. - ---Fico p'ra ahi, atôa... - ---Recommendal-o-ei ao Negreiros. - ---Será favor... - -Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu -áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos -com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo -periodo de trinta annos... - -No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e -deteve-se a fallar com o Joaquim. - ---O senhor que tenciona fazer agora? - ---Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres... -Devo entrar para lá amanhã... - ---Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, -relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus -saudosissimo, sahiu para a rua. - -Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço -branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os -ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. -Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol -encarapuçava de ouro as platibandas dos predios. - - - - -XX - - -Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no -céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no -jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada -ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem. - ---D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico--Noca está ao pé -d'ella. - -Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de -extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa -pausa: - ---Está desesperada, muito contra mim? - ---Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes, -acredite. - ---Coitadas... - ---Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo -então só ha logar para os ricos? - ---Bom, só... - ---Qual! havemos de ser muito felizes, descance. - ---Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o -medico. - ---Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas -venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para -obrigal-a a dormir e repousar os nervos... - ---Fez bem; obrigado. - ---Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao -menos... - ---Estou cançado... - ---Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar. - -Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina -esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola -vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. -Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois, -deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso, -acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia -Camilla o marido? - -Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse -acordada e andasse nervosamente pela casa... - -Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando -tudo pasmadamente. - -Imperturbavel, Nina servia a todos. - ---Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente, -apontando para as gemeas. - ---Seis annos, respondeu Ruth. - ---É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando -alto um pensamento qualquer. - -Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu. - ---D. Camilla? - ---Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois -acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não -tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça... - ---Comprehendeu, mas resignou-se. - ---Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a -pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será -possivel? - ---Virei. - ---Obrigado. - -O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas -horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina, -não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao -escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária. - ---Dá licença, tio Francisco? - -O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e -respondeu: - ---Póde entrar. - -E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio. - ---Que quer você? - ---Quero pedir-lhe um favor... - ---Eu ainda os poderei prestar?! - ---Oh! tio Francisco! - ---Diga lá. - ---Tenho vergonha ... eu... - ---Diga, diga. - -Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se: - ---Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é -pequena, mas caberemos todos lá, se... - -Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as -lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse: - ---Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem vejo -que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu -agasalho; olhe por minhas filhas. - -As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me -pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com -sua tia, é quem vae soffrer mais... - ---O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação. - ---Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir. - ---Mas... - ---Vá dormir. - -Nina murmurou, muito embaraçada: - ---Boa noite. - ---Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz. - -Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido -das palavras do tio. - -Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da -familia não subsistisse á catastrophe. - -Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu -merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom -porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de -conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara -a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha -dinheiro. - -Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão -tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir -tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil! - -Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva, -chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua -falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a -sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os -amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então -todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, -depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem -consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido. - -Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe -valia de nada. - -A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á -lucta tremenda de recomeçar. - -Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa -melhor do que o dinheiro--a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito -amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava -boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua -lembrança. - -«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E -agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? -Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle -tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! -Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. -Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus -filhos. Eu sou um ladrão!» - -Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo -escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo -agonisava com elle. - -A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam -roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores -seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua -era uma das precursoras. - -No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as -vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo -consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear. - -A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção -phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela -maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em -voragens abertas pela politica amaldiçoada. - -Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da -sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a -Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do -desespero. - -Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas -cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio -caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, -percebesse o volume e os perigos. - -Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra -maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado -enfeitiçar por palavras! - -Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma -coisa... - -Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto, -num suspiro: - ---Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job! - -Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi -á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de -viagem: idas á Europa, regalados descanços. - -Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas -mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o -trabalho. - -E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo -miseravel! corpo miseravel. - -Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a -frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella. - -Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa -amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que -lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes -antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que -tranquillidade! - -Francisco Theodoro olhou para a noite: - -O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos -manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce. - -O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de -outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas -terras, trabalhadas por homens pagos por elle. - -A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava -tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher -e aos filhos... - ---Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as -faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo -physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia. - -Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é -signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o -avô! Riu alto; elle era um doido! - -Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em -surdina. - -Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado -para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam, -Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira -com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal -mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma -de extase e de sonho? - -Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos -invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas -suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção, -Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio -era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto -tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou -a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, -teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos. - -Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de -enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução. - -Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar -dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, -inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da -sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo. - -Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe -os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim -longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando... - -Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado -silencio do somno. - -Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e -rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do -cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a -sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve -de saias que deslisavam pela escada abaixo. - -Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante -e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de -terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação -da vida e apressou o tiro. - -E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar, -clamava por soccorro. - - - - -XXI - - -A morte de Francisco Theodoro fez sensação. - -Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia. - -Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a -baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de -madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro -seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade. - -Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma -fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como -se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente. - -Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de -duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por -encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida, -sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua -felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só -viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse -adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não -tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita? - -O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa. -Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma -hora antes! Um minuto antes! - -E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos -annos? Que fariam todos alli, sem elle? - -Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar. - -No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal -acreditavam na sua sinceridade. - -As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e -dever de apparencia cumprimentavam a viuva. - -As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e -tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo, -ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia. - -D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho. -Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha -tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não! - -Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da -visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella -casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo, -cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de -passos e de vozes abafadas... - -D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a -encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos -inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno -na fé ardente e pura da sua prece. - -Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo! - -E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida. - -Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda -russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade -humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar. - -O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte; -afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado, -acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento. - -Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma -cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a -tudo. - -Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem -conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em -suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria. - -Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes -inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla. - -Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos -mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão... - -D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com -asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo -lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do -forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos. - ---Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si. - -Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo... - -Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus -lhes deu cinco dedos em cada mão. - -No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á -lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella -dar entrada a alguem! - -Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo: - ---Coitadinha... - -E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos -soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela -violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas, -faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar -ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e -emfim chegou. - -Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o -Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso -fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina -acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da -face do morto, beijou-o tres vezes. - -De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz -da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a -um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas -adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror -das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar. - -Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto -das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa. - -Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a -friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a, -com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso. - -Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o -obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do -outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando -para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios -aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver... - -A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das -creanças bem accommodadas. - -Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito -inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua -negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho, -de queixo cahido para o peito. - -Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça. -Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços. - ---Como está Ruth? perguntou Milla. - ---Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para -o medico: - ---Vá vel-a ... sim? - -Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata. - - - - -XXII - - -Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se. - -Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas, -leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo, -traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam, -indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria. - ---Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o -medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu -tenho conhecido. - ---De que serve?!... - ---Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade teem -realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios! - ---Bem vê que fazia mal... - ---Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou: - ---Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo, sem -saber como. - -Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande -sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais -foi sempre... - ---Preguiçosa. - ---Sim... As outras são tão pequenas! - ---Eu estarei a seu lado. - -Nina corou, e não respondeu. - -Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já -na outra casa. - -Milla apertou as palpebras. - ---A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro? - -Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as -mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom! - -O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava -a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo -redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da -fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem -grandes ventanias. - -Noca insistiu: - ---Abro a janella? - -Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do -seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia -desprender por si, seria preciso que a arrancassem. - -A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob -um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das -minimas coisas na harmonia do conjuncto. - -Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do -chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a -até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja. - -Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do -passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã -Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse -aposento, em que havia roupas pelas paredes... - -Noca andava pelo quarto; Camilla olhou: - -Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava -quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e -fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de -jornaes da tarde. - -E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor, -ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e -se agarrava tanto á mocidade. A mocidade! - -Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca -avisou, já impaciente: - ---Olhe, _nhá_ Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a pouco -está ahi. - ---Ajuda-me a vestir... - ---E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar -banho... - ---Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei -sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca! - ---Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem! - -Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as -gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e -percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal; -Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as -janellas e as portas. - -No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em -uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina -ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou, -olhando atterrorisada para o chão: - ---Pisei?! - ---Quasi... - ---Meu Deus! - -Contemplaram-se as duas por entre lagrimas. - ---Foi uma grande desgraça, Noca! - ---Se foi! Ainda me parece mentira... - ---A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou -vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco! - -Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes -extendia os braços numa supplica. - -Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já -vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto, -havia scintillações frias. - -Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura -atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um -aceno arrogante de adeus. - -Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta. - -Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um -sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que -Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia -reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava -gritando-lhe: - ---Cala a bocca! cala a bocca! - -Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste -sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a -fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como -reliquia. - -Para que nascera ella, senão para ser batida? - -Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas -gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz -d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu -violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo. - -Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do -jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava -alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a -caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um -suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa. - -Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae... -Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.--Emfim, iam para a casa nova! - -Durante a viagem ninguem mais fallou. - -Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam -lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova. - -Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina. - -Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava -com força no cascalho branco do chão. - -A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza, -disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos -oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que -aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente, -esmagando-os a todos. - -O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina -dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo. - -A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel, -abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a -desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro -e uns vasos de flores na janella. - -Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a -mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas. - -Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era -ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil, -de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura, -cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma -taboa de engommar. - ---Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa -censura leve, sentando-se, muito abatida. - -A sobrinha explicou: - ---A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças -brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa. - ---Depois... - -Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o -resto. - -Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas -_bicyclettes_? A cosinha então era aquelle cochicholo? - -A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados. - -Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis -mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao -menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas -que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova. - -Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos -indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido -por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal -lapidado que atiravam sobre a toalha _bouquets_ iriados e tremeluzentes. -Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz e se -espalhassem sobre o adamascado do linho. - -O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu -repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua -ração, encheu os pratos das primas. - -O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no -verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos -do papel. - -A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou -brutalmente em um canto da mesa. - -Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha -extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete. - -Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe: - ---Só veio esta canequinha? - ---E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um -copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar? - ---Não quero differenças para mim. - -Depois:--Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!... - ---Eu não acho... - ---Ah, você! - -Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou -trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro, -que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria. - ---Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada. - ---Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e mais -o leiloeiro. - ---Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro. - ---Seu doutor já avisou. - ---Bem; póde ir... - -A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de -atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava -ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o -interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por -ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo. - -Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso -de pobreza e de inercia. - -Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os -joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada -na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados -do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos -olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe, -impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não -encontrava ninguem! - -Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de -saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as -palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao -Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre -reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora, -aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu -saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que -ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no -collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce... - -Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o -bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava -a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida. - -Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o -dever das restricções. - -Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma -doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é -que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam -resentimentos, fugindo de aggravar tristezas. - -Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para -engommados. - -Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa -atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas -alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida -pesava-lhe. - -Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma -discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da -visinhança. - -Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando -dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo... - ---Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que -devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e -accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para -mais de dois mezes... - -Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da -sua desgraça... - -Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições -seriam um meio de a distrahir; já não aguentava aquelles dias sem fim. - -Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava -dividir-se em todos os misteres domesticos; as cosinheiras não paravam, -umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho... Era um -vae-vem cançativo, e ella sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua -paciencia nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de -mulher, adoçando soffrimentos, serenando tempestades e conservando-se -na meia sombra de um papel secundario. - -Corriam assim os mezes. Os amigos escasseavam, mais pelo retrahimento da -familia que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens -peiores do que elles são, e nunca vêem em si a causa justificada de -certos abandonos. Camilla queixava-se ás vezes das relações antigas, -sem cogitar que quem mais fugia era ella, envergonhada da sua nova -situação. - -Levado talvez mais pelo habito que por outra causa, o Dr. Gervasio -continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas, -feitas de passagem; evitava, com escrupulosa discreção, os almoços -naquelle lar pobre e simples. Demais a mais, não podia fallar nunca a -sós com Milla, naquella casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da -familia, fechada no seu rigoroso vestido de viuva, muito arredia. -Aquellas esquivanças não o atormentavam, elle sentia que a ia amando -com menos amor e mais amizade; era como uma irmã, necessitada do seu -amparo e do seu conselho, que elle não podia deixar de vêr todos os -dias; o calôr da sua mão e o som da sua voz já não lhe alvoroçavam -os sentidos adormecidos; e bem percebia que no coração d'ella a -paixão estava tambem apaziguada, e que para Camilla elle ia já sendo -apenas o amigo. - -E assim se passaram poucos mezes, até que chegou um dia em que o olhar -de Camilla, irradiando, se trocou com o d'elle num fulgor de desejo. O -fogo abafado pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma -labareda de fragoa. Elle espantou-se, ella conteve-se envergonhada, e -separaram-se ambos inquietos e torturados. - - - - -XXIII - - -Adeus, mamãe! nós vamos levar estas sobras do jantar ás creanças da -Jacintha, ouviu? Nina disse que não vale a pena guardar para amanhã; -é pouco e póde azedar. - ---Mas que creanças são essas? perguntou Camilla ás duas gemeas, que -lhe fallavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo. - ---São as netas da Jacintha... - -Ruth appareceu atraz das irmãs. - ---Mamãe não conhece... Jacintha é uma velha paralytica que mora na -visinhança da minha discipula. Sempre que passamos por lá nos pede -esmola... É tão velhinha que faz pena. Combinámos com a Nina que -sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fossemos levar a ella. Quando -me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a -gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a -necessidade dos outros não consolam ninguem... - ---Falla baixo! Bem, meus amores, vão, antes que seja noite. - ---Anda depressa, Noca. - ---Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um -passeiozinho? - ---Sim... - -As creanças sahiram com a mulata. Camilla sorriu. A Providencia não a -desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar... - -A tarde cahia com lentidão; a viuva, derreada na cadeira de balanço da -sala de jantar, olhava pela janella aberta para a grande amendoeira do -quintal, cujas folhas côr de ferrugem cahiam espaçadamente, com um -rumor timido. - -Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na -transformação de uma essencia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe -dentro do peito na ancia do calor do abraço e do sabor do beijo. Não -podia mais, as roupas negras suffocavam-na, lembravam-lhe a todos os -instantes aquelle minuto inolvidavel, que se lhe fixara na vida, que se -repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ella não se -libertaria nunca! - -Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo lethargo com -fremitos de mocidade, capaz de todos os prodigios. Se a paixão que ella -via arrefecer nos olhos de Gervasio se reaccendesse! Se elle voltasse a -amal-a com aquelle amor antigo, todo de extremos... Se elle voltasse! - -Na pallidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava-se, -tranquillamente. Camilla olhava para ella, invejando-lhe a serenidade, -quando sentiu passos. - -Voltou-se. - -Gervasio sorria-lhe da porta. - ---Vem! murmurou ella então, num triumpho, extendendo-lhe os braços. -Elle precipitou-se. - ---Emfim, voltas a ser minha! a ser minha! - ---Espera ... socega ... a Nina está em casa... - ---Que importa a Nina? - ---Cala-te! Oh, eu já não posso mais! - -Muito junctos, com as boccas quasi unidas, elles repetiam as mesmas -palavras de outr'ora, que soavam agora aos ouvidos de Milla como novas. - -O céo ia mudando de côr; as folhas da amendoeira desprendiam-se -celeres e com frequencia; dir-se-ia uma tarde de outomno, e era apenas -começo de verão. - -Camilla, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia illuminada. O -medico puxou-a para si, ia beijal-a, quando a Nina appareceu na sala, -com modo disfarçado. - ---Querem luz? Como as meninas estão tardando! - -Gervasio não respondeu; achou-a importuna. Camilla disse com meiguice: - ---É cedo, minha filha... - -Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como -se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em -que houvesse outra atmosphera que lhe alterasse a natureza, isolando-a -de tudo o mais. As roupas do lucto não lhe pesavam, semelhavam rendas -levissimas; pela primeira vez a imagem do marido no ultimo momento se -lhe apagou na memoria... Era já noite quando ella acompanhou Gervasio -ao jardinzinho da entrada. Elle sentia-a tremula, numa commoção de -virgem, como se aquelle velho amor peccaminoso fosse um amor nascente. - -A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões timidas, e a brancura da sua -carne, tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de -uma immaterialidade purissima. - ---Agora és só minha, só minha! dizia Gervasio, apertando-lhe as mãos -com força, quando um homem se approximou do portão e o empurrou. -Olharam, com espanto, mas logo Camilla deu um grito: reconhecera o filho -e correu para elle. - -Mario olhou para o medico com aborrecimento não disfarçado e recuou, -dando logar a que elle passasse para a rua, como a despedil-o. - -Trocaram um cumprimento rapido e cruzaram-se. - -Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mario -se voltou para a mãe com uma expressão que significava--ainda?! - -Camilla rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e -foi-a levando para dentro. Nina accendeu o gaz, batendo os dentes, num -accesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silencio. Foi ainda -soluçante, que Milla perguntou afinal: - ---A Paquita? - ---Está muito pesada, por isso não veio. - -Camilla sentiu o sangue sumir-se-lhe. Que! um neto! o seu Mario ia ter -um filho! - ---Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os medicos acharam -imprudente que a Paquita se mettesse em viagens... - ---Fizeram bem. Por aqui soffreu-se tanto!... Quando chegaram? - ---Esta madrugada. Desembarcámos ás nove horas... - -Outra decepção: todo o dia no Rio, e só á noite o filho a procurava! - -Elle explicou: tivera muito trabalho, idas á alfandega, uma trapalhada! -E as irmãs? onde estavam as irmãs? - ---Já vêm, andam ahi pela calçada. Vae avisai-as, Nina. - -A moça sahiu. Mario continuou: - ---Porque não as entregou á minha cunhada? Ella escreveu-nos fallando -nisso... - ---Tive pena ... não me quero separar d'ellas. - ---Sim, concordo que é penoso; mas é para o bem d'ellas, e esta -situação não póde continuar. Paquita é uma mulher sensata, mesmo a -bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachel vão para a casa -de minha cunhada; Ruth irá morar comnosco, isto até lhe facilitará um -casamento, coisa sempre difficil para uma moça pobre, e Nina tem o -recurso de ir para a casa do pae... - ---E ... eu?! - ---A senhora, visto que agora é livre ... porque não se ha de casar? - -Camilla tornou-se rubra e escondeu o rosto nas mãos. - -Mario não soubera reprimir-se, e já agora proseguia: - ---Acho preferivel o casamento á continuação d'esta vida. Perdôe-me -que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos... - -As mãos de Milla, geladas, apertaram com mais força o rosto em fogo. - -Mario fallou ainda. - -Elle premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita; mas a -lingua recusava-se a repetil-o inteirinho, no seu rigor de fórma -decisiva. - -Vinha como uma espada, cortando todos os nós. Prevalecia-se da sua -autoridade de homem. - -A mãe teve nojo, e num só grito explodiram-lhe todas as queixas. As -faces, de vermelhas tornaram-se lividas, as mãos e os beiços -tremiam-lhe; avançou: - ---Vá dizer á Paquita, á sua pratica e sensata Paquita, que eu não -preciso do dinheiro d'ella, ouviu? Não se demore, que ella é capaz de -bater em você! - ---Mamãe! - ---Perversos! vir de tão longe, o meu filho, para me dizer isto. O meu -filho! e eu que tinha tantas saudades! - ---Mamãe, a senhora é injusta... - ---Injusta é ella, que me quer separar de todos os filhos e te ensina a -faltar-me ao respeito. Acham que tenho soffrido pouco?! - ---Acalme-se e reconhecerá que temos razão. Paquita é um anjo. - ---Um diabo do inferno! - ---A senhora está-me offendendo. - ---E ninguem me offendeu? Diga! ninguem me offendeu?! - ---Socegue: tudo se ha de arranjar; bem sabe que eu não tenho nada; a -fortuna é de minha mulher, mas nós lhe daremos uma mezada, visto -que... - ---Recuso; não quero nada d'essas mãos. O meu filho morreu no dia em -que se casou. Se o envergonho, é melhor fingir que não me conhece. -Vá-se embora. - ---Mamãe... - ---Vá-se embora! Eu não preciso de nada. Suas irmãs sahiram para dar -uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus! - ---Não tive a intenção de a offender. Se eu não tivesse encontrado -aqui aquelle maldicto homem, as coisas teriam caminhado de outra -maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora -é viuva, o Dr. Gervasio é solteiro, amam-se, casem-se. É logico. - ---Pelo amor de Deus! Mario! - ---A senhora não é creança, deve perceber que d'esse modo compromette -o futuro das meninas. O tempo lhe dirá se tenho razão... - ---Que insistencia! uma vez por todas: basta, basta, basta! - ---Bem, mamãe, calo-me. - ---Emfim! - -Era opportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim, -gritando: - ---Mario, Mario! - -Elle chegou á porta, agitadissimo e extendeu os braços a Ruth, que lhe -pareceu muito magrinha, já de vestido comprido, como uma senhora. O -abraço evocou em ambos a lembrança do pae. Mario semeou beijos e -lagrimas nos cabellos da irmã, na sua primeira effusão de ternura. - -Foi só depois de tudo acabado, que a Noca, contemplando o moço de -frente, murmurou: - ---Gentes! reparem como o bigode de Mario cresceu, e como elle está -bonito! - - - - -XXIV - - -Domingo de verão: as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant da -rua. Grande socego em tudo. - -Fechada no seu quarto, Camilla tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da -leitura para as caminhas vazias das gemeas, entregues desde a vespera á -baroneza da Lage. Cumpriam-se as ordens de Mario. - -A familia espalhava-se ao bruto ponta-pé da pobreza: uns para aqui, -outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida! - -Numa persistencia cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no cerebro. -Exangue e dolorida, ella não luctava; a fatalidade faria d'ella o que -quizesse... O que a atormentava sobretudo era a saudade das gemeas, que -tinham levado comsigo toda a sua alegria e que, ausentes d'ella, iriam -dispensando á outra os afagos que deveriam ser só seus! Pobres -innocentes, lá viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse -no seu caminho, como um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue -e a carne. - -Via já a outra como uma inimiga. Fôra ella quem lhe tirara o filho -para a irmã; era ella quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto -humilhava-a, achava-se indigna por não ter tido forças de defender as -creanças, arrancadas de casa pela pressão da necessidade. Olhou para -as mãos: eram bonitas, mas não sabiam fazer nada. Camilla escondeu-as -depressa, arrepiada, nas dobras do casaco. - -E o conselho do filho não a deixava, numa fixidex allucinadora. Sim, -só Gervasio poderia salval-a, se quizesse dizer primeiro a palavra que -ella não tinha coragem de pronunciar. - -Camilla fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente, -entre o seu orgulho de mulher e os seus extremos de mãe, badalavam as -palavras do filho: - ---Case-se, case-se, case-se! - -E elle tinha razão; só assim ella tornaria a ter um lar onde aninhasse -as filhas; cessariam os sacrificios de Nina e de Ruth, a Noca -trabalharia só para si, e o Mario... - -O resentimento que lhe ficára d'aquelle filho, que viera de longe para -lhe dizer amarguras, avolumou-lhe as lagrimas que chorava. Tinha-se -humilhado, havia de humilhar-se até ao fim. Fallaria a Gervasio. - -Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as -creanças antes do desapêgo completo. - -Francisco Theodoro assim quizera, furtando-se á responsabilidade da -familia, fugindo da vida desde que a vida, em vez de presenteal-o, lhe -pedia favores. Era o abandono; pois bem, ella reconstituiria o lar que -elle desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobresaltos, -por tantas agonias, resurgiria, como um dia de luz apóz outros de -negrume, para a felicidade de todos! - -O coração faz pagar caro ás mulheres a sua gloria, bem o sabia. Dera -tudo, certa de que não era a honra do marido que sacrificava mas a sua -propria. Elle não era auctor nem cumplice, não podia ser arguido pela -sociedade hypocrita. - -Por fortuna, tinha-se empenhado com um homem de bem: Gervasio -salval-a-ia. Mario dissera um dia: - ---Escolha entre mim e o Dr. Gervasio--Ahi estava ella agora radiante, -escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era mãe do outro. - -As horas passavam devagar. Num piano visinho rompeu uma polka faceira; -resoavam gargalhadas na rua. - -Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camilla foi á janella; -vacillava ainda. Nem uma nuvem no céu; voltou para dentro e esbarrou -com as caminhas vazias. Numa imposição de vontade, despiu-se á pressa -e enfiou o vestido de sahir; os dedos mal atinavam com os colchetes; nem -olhou para o espelho, na anciedade de partir, de correr para o futuro... - - -Eram quatro horas quando entrou no bond que a levaria á casa do Dr. -Gervasio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu véo de -viuva, ciosa de que lhe não lessem os pensamentos na alteração do -rosto. Dobrava-se, emfim, á vontade da nora, aquella creatura -implacavel, que nunca a procurava, conservando-se a distancia, com medo -do contacto. Camilla sorria d'aquelles grandes escrupulos, tão -tardiamente acordados... - -Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petropolis; e o -Mario, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a familia, -carregado de encommendas para a mulher e o filho, um rapagão nascido -longe da avó. - -Camilla esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens -exteriores. Era como se tivesse sahido de um carcere: tudo lhe parecia -differente e mais bonito. Começavam já a apparecer as chacaras de -Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de agua e de -sombras macias. - -Em quantas d'aquellas casas, ella fizera brilhar as suas joias, rugir as -suas sedas, vagar o perfume do seu lenço de rendas e dos seus vestidos! -Bons tempos ... ah! mas elles voltariam, quando a fortuna e a lealdade -de Gervasio a repuzessem no logar de que a ambição do marido a tinha -arrancado. - -Ia leve. Como é bonito e curto o caminho da felicidade! - -O bond dobrou a rua dos Voluntarios; e uma subita angustia cahiu no -coração de Camilla. Ia passar pelo palacete Theodoro como uma -extranha. Por um grande trecho da rua, ella esperava esse momento com -curiosidade e terror; e quando o momento chegou, quiz abranger tudo com -a vista, adivinhar até o que se passava dentro d'aquellas grossas -paredes. Na fugacidade do instante só pôde perceber que a janella do -seu quarto estava aberta e que tinham substituido por areia preta a -antiga areia branca do jardim. Teve impetos de mandar parar o bond, de -entrar pela casa, ir até á sua saleta, continuar o bordado ou a -leitura interrompida e beijar as duas filhinhas, coradas, offegantes -pelas ultimas corridas da bicycleta, que lá deviam estar dentro, ao pé -da Noca, na sala de engommar, sobraçando as suas grandes bonecas de -olhos azues... - -O bond passou, e Milla, toda voltada no banco, olhava para a _sua_ casa, -depois para o _seu_ jardim, e ainda, emquanto a viu, para a alta copa -ramalhuda da _sua_ mangueira... - -Sentiu então como que um desdobramento de personalidade. Ella que -passava, sózinha, vestida da lã negra, com um véo de crepe pela cara, -mal arranjada, abotoada á pressa, não era a Camilla dos vestidos -claros e das mãos luminosas; essa estaria lá dentro do palacete no seu -eterno sonho de mocidade, de amor e de belleza... - -Quando entrou em casa de Gervasio, teve um impeto de voltar para traz. -Todos os seus escrupulos se levantaram em revoada. Feriu-a então a -ideia de que já era avó, e que esse titulo devia ser um ridiculo -algemando-a ao silencio. O filho de seu filho seria tambem um inimigo? -Tão pequenino, apenas nascido, e já teria força para se interpor -entre ella e a felicidade? - -Um criado abriu o guarda-vento; ella entrou indecisa para o vestibulo. -Nunca se encontrara alli sozinha: Gervasio não quizera expol-a aos -commentarios dos seus criados; preferira ter um canto obscuro, todo -destinado a ella e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua -presença ou a sua indagação curiosa. - -O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas, -até uma sala do mesmo pavimento terreo, abrindo sobre um jardinzinho -interior, onde as dracenas se empennachavam de flores. - -Pediu-lhe que esperasse alli. O senhor doutor conferenciava com um -individuo no escriptorio, mas ia avisal-o. - -Ella respondeu-lhe que não, não tinha pressa; ficaria até que o outro -sahisse... - -Quando se viu só, Milla levantou o véo com um suspiro de allivio. -Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa -sobriedade nos arranjos e nos moveis. Reconheceu numa cadeira uma -almofada bordada por ella, e, a um canto, um jarrão chinez com que -Francisco Theodoro presenteara o medico, após uma doença grave do -Mario. - -O marido! o Mario! como elles lhe fugiam para o horisonte da vida... -Aquelle jarrão evocava uma epocha feliz. O filho era então já um -rapazinho atrevido, mas tão meigo, tão lindo! o marido era forte, -fallador, arrebatado, ameaçando fazer cahir a casa ao furor das suas -rebentinas. E ella? Ella bem differente: caseira, mal vestida, egoista e -muito severa para as faltas alheias... Prodigalisava-se pouco, o proprio -marido não obtinha d'ella mais do que o carinho frio, de -condescendencia; não por mal, não por proposito, nem sabia porque... - -Fôra Gervasio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas -coleras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embellezar a sua casa, a -sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com intelligencia e com -consciencia. Antes não o houvera conhecido; ella talvez não tivesse -sido boa para ninguem, mas teria sido honesta e não conheceria o -soffrimento. - -Com os olhos parados nas figuras polychromas do jarrão, Camilla -relembrava todo o martyrio do seu amor, nascido pouco a pouco da -intimidade... - -O tal individuo demorava-se no escriptorio. Ella levantou-se, foi á -janella olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior da -casa, havia tambem alli uma tranquillidade distincta. Sentia-se que os -gostos e os instinctos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte. - -Camilla olhava abstractamente para as flores, quando ouviu passos no -corredor. Voltou-se; Gervasio appareceu no limiar da porta. - ---Que é isso, Milla?! - ---Nada ... eu... - ---Por que vieste?! - -Camilla avançou timidamente. Elle continuou: - -Por que não me mandaste chamar logo que entraste? Estás tão -pallida!... tão fria... Foi uma imprudencia vir aqui, a esta hora!... -Mas por que?! - ---Lá eu não poderia fallar... - ---Tens razão, aquella casa é tão pequena! está-se tão perto de -todos! Senta-te, meu amor. - ---Contrario-te? - ---Nunca! estamos junctos! Falla. - ---Eu... - -Mal pronunciou a primeira palavra, Camilla arrependeu-se da sua -resolução. Era quasi velha, já era avó! Áquelle pensamento toda se -enrubeceu; calou-se de novo, com os olhos razos de agua. - ---Não te comprehendo ... assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que -me zango! Vamos, que aconteceu? - ---Amas-me sempre? - ---Sempre! - ---Como ... no principio? - ---Mais. - -Então baixinho, num sussurro, com o rosto unido ao rosto d'elle, -Camilla disse tudo. Levada pelo seu sonho, ella não percebia quanto as -mãos d'elle tremiam nas suas mãos e que sombras lhe passavam pelo -rosto transtornado. - -Quando ella acabou, elle não respondeu; ficou por largo tempo immovel, -como se ainda esperasse a ultima palavra. - -A viração da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas; Camilla -sorveu-o com deleite, como se fôra um afago do céu. Emfim, fallara, -tinha-se dissipado a nuvem e já sorridente, instou pela resposta: - ---Queres?... - -O medico ergueu-se de chofre, e com voz metalica e dura disse -rapidamente: - ---Não pode ser. - -Camilla moveu os labios, numa agonia de morte. O que ella temia alli -estava. Elle tinha razão, era bem feito, casar, para que? Fôra a nora -que a obrigara a tamanha humilhação! Atraz d'aquella mascara de -seriedade, Gervasio havia de se estar rindo d'ella, da pretenção -d'aquelle miseravel corpo de avó a um noivado de amor! Teve a -impressão dolorosissima de estar coberta de rugas e de cabellos -brancos; olhou para as mãos com medo; não comprehendeu bem o motivo -porque continuava alli e levantou-se com esforço, para se ir embora. O -seu destino estava escripto: via todo o futuro tapado pelo corpo -pequenino do neto. - -Gervasio, pondo-lhe as mãos nos hombros, fêl-a sentar-se outra vez, -com brandura. - ---Para que? perguntou-lhe ella, quasi chorando. - ---Para te dizer tudo: eu sou casado. - -Camilla abafou um grito, tapando a bocca com a mão. - -Elle dissera aquillo num desabafo, na ancia do golpe inevitavel, com uma -voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Rôto o -segredo, apiedou-se logo e fallou com humildade, muito chegado a ella. -Tambem pensara nisso, elle, tambem a quereria fazer sua aos olhos de -toda a gente, mas estava preso a outra mulher, até que a morte... - ---A morte! suspirou Camilla. - -E elle continuou, muito commovido: - ---Viste-a uma vez, lembras-te? era aquella mulher de lucto que -encontrámos na volta do _Neptuno_. Achaste-a bonita ... percebeste a -nossa impressão e tiveste ciumes... Eu não queria que soubesses ... -mas agora a explicação deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade. -Meu pobre amor, perdôa-me... - -Gervasio segurou nas mãos de Camilla; ella retirou-as devagar e fixou-o -com um olhar de tão clara interrogação, que elle continuou mais -baixo, mastigando as palavras: - ---Sim, amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que -ella me enganava, deixei-a... Moravamos no Rio Grande, ella ficou lá -com a mãe, eu voltei para aqui. Quiz divorciar-me ... ella oppôz-se; -oppõe-se ainda; quer ter-me acorrentado como um cão: consegue-o. É -tudo. - -Era tudo. Camilla percebeu o melindre do segredo, mantido para -evitar-lhe uma offensa. A razão illuminava-se-lhe; ella não podia ser -aos olhos d'aquelle homem nem melhor nem mais digna do que a outra que -elle desprezara; a mesma culpa as nivelava, e se elle não encontrara -perdão para a esposa, como encontraria respeito para ella? - -Sempre calada, puxou o seu véo de viuva para o rosto e levantou-se. - -O aroma das dracenas invadia tudo, numa exhalação suffocante. - -Gervasio beijava-lhe as mãos, supplicando-lhe que lhe perdoasse; fôra -por amor de ambos. Porque não continuariam a viver como até então? - -Camilla não respondia, e como elle instasse, ella pediu: - ---Deixa-me ir embora! - ---Tens razão; precisas descançar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao -menos mandar buscar-te um carro! - -Camilla desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a -pé, ao ar livre. Elle consentiu, adivinhando que a perdia para sempre. -Talvez fosse melhor assim... - -Ella colheu a cauda da saia e sahiu tiritando de frio, por aquella -luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltava -para traz, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido, -badalando furiosamente. Elle era casado! Elle mentira-lhe! Tantos annos -de mentira, tantos annos de mentira! - - -Era já noite quando Camilla entrou no seu jardinzinho da rua de D. -Luiza. A casa estava ainda ás escuras, mas Ruth tocava lá dentro um -adagio de Mendelssohn. Extenuada, Camilla sentou-se nos degráus de -pedra, como uma mendiga á espera da esmola. As luzes dispersas dos -lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a ultima -cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres -invisiveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetravel e sagrado -mysterio... - -Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que -estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma -carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As -lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que -aquelle era o dia da sua segunda viuvez. - -Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um -amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a -illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da -terra! - -Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella, -por ventura, uma criminosa? - -Maldizia-se, fôra uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os -seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquelle a quem -tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fóra da sua vida, como a -uma extranha. - -Elle mentira-lhe, elle mentira-lhe! - -Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ella -tambem aos olhos d'elle? - -Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se -pudesse voltar atraz, desfazer todos aquelles dias de sonho e de -ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de -esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita, -em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta -humilhação, peior que todas as mortes, porque vinha d'elle, que ella -amava tanto! Amava ainda. Ainda! - -Olhou com desprezo para o seu bello corpo de mulher ardente. Era um -despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquellas -creanças nascidas d'ella, predestinadas para o Soffrimento. Caminhariam -alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miseria. - -Numa angustia, Camilla interrogou com olhar ancioso a treva muda: -Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?! - -Alguma coisa fallou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia ás -estrellas: a musica de Ruth. A essencia da lagrima purificava-se no som, -com um poder de infinita pacificação. - -Então a viuva teve inveja da filha, d'aquelle ideal purissimo, que não -lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem, -pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir... - -Maldicta a natureza, que a fizera, a ella, só para o amor! - - -Ás onze horas da manhã seguinte, Camilla sentou-se a um canto da sala -de trabalho. O sol entrava pela janella, extendendo no chão uma toalha -de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta, -preparando lições para duas discipulas novas. Toda a sua indolencia -antiga se transformara em actividade; Nina cosia á machina e, no meio -da casa, Noca burrifava a roupa para o engommado. Ella olhou para todos. -Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem illuminava-lhe a -fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até -mais bonitas naquelle afan. Estavam na sua atmosphera. - -Com voz pausada e clara, Camilla pediu que lhe dessem trabalho. -Olharam-na com espanto. - ---Mamãe quer mesmo fazer alguma coisa?! - ---Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova! - ---Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth. - -Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou: - ---Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os -filhos. Deixe Mario fallar, afinal aqui ninguem ha de morrer de fome... -Vou buscar as creanças?! Vou, ou não vou? - ---Vae, respondeu Camilla muito excitada: mas olha, não offendas a -baroneza. Basta dizer ... que eu não tenho nada no mundo senão as -minhas filhas! - ---Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive -quasi... - ---Basta de palavriado, Noca! interrompeu Nina; e accrescentou: - ---Vá descançada, eu acabarei de burrifar a roupa. E depois, para a -tia: - ---Faz bem, tia Milla. O trabalho distrae. - - - - -XXV - - -Depois de dois annos de viagens pelos Estados Unidos, o capitão Rino -desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remoçado, lepido, despido -do seu ar de ingenua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha de -ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens. - -Catharina notou-lhe logo a differença, ao conduzil-o alegremente por -entre os gyrasóes do seu jardim. Comprehendeu a serenidade do irmão. -Vinha salvo. - -Na manhã seguinte elle lia alto um jornal, quando esbarrou com um -annuncio para um concerto de Ruth. - -Parou; elle soubera de tudo pelas cartas de Catharina, e, voltando-se, -fixou nella os seus olhos claros. Houve uma troca de confidencias entre -os dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irmão, a -moça perguntou em voz baixa: - ---Vaes visital-a agora? - -Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com -outra pergunta: - ---Para que?... - - - - -FIM - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FALLENCIA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/69229-0.zip b/old/69229-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index ced545e..0000000 --- a/old/69229-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69229-h.zip b/old/69229-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 6916866..0000000 --- a/old/69229-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69229-h/69229-h.htm b/old/69229-h/69229-h.htm deleted file mode 100644 index 1b4bc23..0000000 --- a/old/69229-h/69229-h.htm +++ /dev/null @@ -1,14661 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - The Project Gutenberg eBook of A fallencia, - by Júlia Lopes de Almeida. - </title> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent:4%; -} - -.nind {text-indent:0%;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: auto; - margin-right: auto; - clear: both; -} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} - -/* Images */ -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -/* Poetry */ -.poem { - margin-left:10%; - margin-right:10%; - text-align: left; -} - -.poem br {display: none;} -.poem { display: inline-block; text-align: left; } -.poem .stanza {margin-top: 1em;margin-bottom:1em;} -.poem span.i2 {display: block; margin-left: 1em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} -.poem span.i10 {display: block; margin-left: 5em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} - - </style> - </head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A fallencia</span>, by Júlia Lopes de Almeida</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A fallencia</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Júlia Lopes de Almeida</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: October 25, 2022 [eBook #69229]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by The Internet Archive.)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FALLENCIA</span> ***</div> - - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/fallencia_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - -<p><br /></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/fallencia_frontispiece.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - -<p><br /><br /></p> - -<h1>JULIA LOPES DE ALMEIDA</h1> - -<p><br /><br /></p> - -<h2>A FALLENCIA</h2> - -<p><br /><br /></p> - -<h3>2ª EDIÇÃO</h3> - -<p><br /><br /></p> - -<h4>RIO DE JANEIRO</h4> - -<h5>Officinas de Obras d'<b>A TRIBUNA</b>—rua do Ouvidor 132</h5> - -<h4>1901</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>INDICE</h4> -<p class="nind"> -CAPITULO <a href="#I">I</a><br /> -CAPITULO <a href="#II">II</a><br /> -CAPITULO <a href="#III">III</a><br /> -CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br /> -CAPITULO <a href="#V">V</a><br /> -CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br /> -CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br /> -CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br /> -CAPITULO <a href="#X">X</a><br /> -CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXI">XXI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXII">XXII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXIII">XXIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXIV">XXIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXV">XXV</a></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>A FALLENCIA</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="I">I</a></h4> - -<p> -O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, -bafejando um ar de fornalha na atmosphera. Toda a rua de S. Bento, -atravancada por vehiculos pesadões e estrepitosos, cheirava á café -crú. Era hora de trabalho. -</p> -<p> -Entre o fragor das ferragens sacudidas, o gyro ameaçador das rodas e os -corcovos de animaes contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, -compacto e esbaforido. -</p> -<p> -Á porta do armazem de Francisco Theodoro era nesse dia grande o -movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as -saccas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa: -</p> -<p> -—Andem com isso, que ás onze horas tenho de estar nas Docas! -</p> -<p> -E os carregadores vinham, succedendo-se com uma pressa phantastica, -atirar as saccas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens -de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal -cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros, -nús da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados. -</p> -<p> -Ao cheiro do café misturava-se o do suor d'aquelles corpos agitados, -cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos -braços. -</p> -<p> -No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, -furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa -do caminhão, todo derreado para a aniagem das saccas, respirando a -poeirada que se levantava d'ellas. Os outros respondiam com eguaes -improperios, que os cocheiros dos tilburys, em esperas forçadas, ouviam -rindo, mastigando o cigarro. -</p> -<p> -Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquillo, como formigas em -correição, com a cabeça vergada ao peso da sacca, roçando o corpo -latejante nas ancas lustrosas dos burros. -</p> -<p> -Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de -uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que -invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os -parallelepipedos da rua. -</p> -<p> -Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em -fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de -piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento -peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado -a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam -prospero. Enriqueciam-se com os sobejos. -</p> -<p> -Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a -moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o -mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra -barulhenta e desharmonica. -</p> -<p> -A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se -atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á -cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao -peso bruto. -</p> -<p> -Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de -aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de -athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de -guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a -uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto. -</p> -<p> -Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho, -vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal, -todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e -as Docas, tornando-se logo a encher famintamente. -</p> -<p> -Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando -um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o -sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença -para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da -vida, num torvelinho de pó e gritaria. -</p> -<p> -De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, -surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas, -enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de -protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua. -</p> -<p> -Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa. -</p> -<p> -No de Francisco Theodoro não havia paragem. -</p> -<p> -O primeiro caixeiro, <i>seu</i> Joaquim, um homem moreno, picado das -bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em -mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos. -</p> -<p> -Á porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de -aço e latão todas as saccas que sahiam, para que se escapasse pela -abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os -passos nessa operação, e o café cahia cantando na soleira. -</p> -<p> -Ao fundo, um rapazinho magro e amarello, o Ribas, apontava num caderno o -numero de saccas que levavam, rente á escada de mão por onde os -carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois -pelo asphalto desgastado e denegrido do solo. -</p> -<p> -Tudo era feito numa urgencia, obrigada a grande movimento. -</p> -<p> -Um sopro ardente de vida, uma lufada de incendio bafejada por cem homens -arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquelle -extenso porão negro, sem janellas, ladeado de saccos sobrepostos e -adornado nas vigas sujas do tecto por infinita quantidade de teias de -aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo. -</p> -<p> -De vez em quando, um ruido de cascata rolava pelo interior do armazem. -Era o café, que ensaccavam na área do fundo, e que na quéda das pás -desprendia um pó subtil e um cheiro violento. -</p> -<p> -Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no -som confuso, em que vozes humanas e rodas de vehiculos se amalgamavam -com o estrupido das patas dos animaes. -</p> -<p> -Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas -corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito -trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros. -</p> -<p> -—Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer! -</p> -<p> -Era o seu estribilho. -</p> -<p> -E havia sempre muito que fazer naquella casa, uma das mais graúdas no -commercio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sózinho o -caminho dos seus cofres, correndo para elles sem interrupção. -</p> -<p> -Ao lado do armazem e communicando com elle por uma portinha estreita, -havia á esquerda o corredor e a escada, que levava ao escriptorio, -acima, no primeiro andar. -</p> -<p> -Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, -guarda-livros, escrevia em pé, junto á escrivaninha collocada ao -centro. Em outra carteira trabalhavam os dois ajudantes, um velho, o -Motta, de sorriso amavel e modos submissos; e o outro, um moço bilioso -de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado. -</p> -<p> -Nessa sala o trabalho era silencioso. As pennas não paravam, mal dando -tempo ás mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. -Diziam-se phrases sem se levantar os olhos da escripta, e as perguntas -eram apenas respondidas por monosyllabos. -</p> -<p> -A um canto, sobre uma mesinha solida, entre uma das janellas e a parede, -estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira -pintada, a talha de philtro já ennegrecida pelo uso. Pelas paredes, -pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e -<i>cartas a responder</i>. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, -abria-se uma janella para o negrume do armazem, sob uma claraboia -estreita, de pouca luz. -</p> -<p> -Era em um gabinete, ao lado, com uma janella para a rua e egual avareza -de mobilia, que o dono da casa escrevia a sua correspondencia, bem -repousado em uma larga cadeira de braços. -</p> -<p> -Elle alli estava, acabando de fechar uma carta. -</p> -<p> -Toda a sua pessoa reçumava fartura e a altivez de quem sae victorioso -de teimosa lucta. Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, -com os olhos garços tranquillos e os dentes brancos e pequeninos, tinha -um bello ar de burguez satisfeito. -</p> -<p> -Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos -seus passos pesados. -</p> -<p> -Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a -que elle respondia com paciencia, indicando claramente as cousas, com -minucias, para evitar confusões. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, á sua larga secretária de peroba, dava a face para -o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas. -</p> -<p> -Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta -e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças. -No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo -seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio -a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse. -</p> -<p> -Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento -de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava -primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem. -</p> -<p> -Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um -commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos -Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga, -recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli -para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com -palestras de seu interesse e do seu gosto. -</p> -<p> -Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram. -</p> -<p> -Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as -calças. -</p> -<p> -—Homem! vocês tardaram... -</p> -<p> -—Culpa do Lemos... -</p> -<p> -E depois: -</p> -<p> -—O senhor está com a casa repleta! -</p> -<p> -—Tenho exportado muito café! -</p> -<p> -—Felizardo! aproveite a epocha, que não póde ser melhor! -</p> -<p> -Corria então o anno de 1891 em que o preço do café assumira -proporções extraordinarias. O movimento crescia e casas pequenas -galgavam aos saltos grandes posições. -</p> -<p> -—O que eu te invejo, disse o Ramos, unico que ousava tratar Theodoro -por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engomma as camisas! -</p> -<p> -Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, -que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito -afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos. -</p> -<p> -—Não é má essa, regougou o Lemos, o commendador Lemos, da -Beneficencia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que -nem de creança. -</p> -<p> -Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do -Innocencio, perguntando a Theodoro: -</p> -<p> -—Aqui o seu visinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o -outro, hein? -</p> -<p> -—Homem, sempre é verdade aquillo?! -</p> -<p> -—Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no -negocio... -</p> -<p> -Fixaram todos a vista no Innocencio Braga. Era um homem pequenino, -magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quasi -imperceptivel. -</p> -<p> -—Custa-me a crêr nesses milagres ... ponderou Theodoro, pousando a -chicara na bandeja que o Isidoro offerecia. -</p> -<p> -—Affirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazem e -esperou a occasião. O sogro ajudou-o, está claro... -</p> -<p> -—Não meditou nas consequencias que poderiam sobrevir se se désse uma -baixa. -</p> -<p> -—Quem falla em baixa?! Eu só lhe digo que o commercio do Rio de -Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquelle. -Senhores, a audacia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante -não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus -antepassados analphabetos. O negociante moderno age mais com o espirito -do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas -nobres do pensamento e do calculo. O Torres é de bom estofo; é -d'estes. Conheço os homens. -</p> -<p> -Olhavam todos para o Innocencio com um certo respeito, reconhecendo-lhe -superioridade intellectual. -</p> -<p> -—O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos. -</p> -<p> -E logo o Innocencio accrescentou: -</p> -<p> -—Tambem aquelle está destinado a ser o nosso Rottschild! -</p> -<p> -Theodoro contrahiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais -habil, o mais forte fôra sempre o seu sonho... -</p> -<p> -Voltando-se, inquiriu dos outros explicações meudas acerca d'aquelle -negocio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e elle meditava -no assumpto, alisando a barba grisalha, rente ás faces gordas e macias. -</p> -<p> -O Negreiros, tendo dado volta á sala e enfiado pela porta do -escriptorio o seu enorme nariz de cavallete, virou-se para os outros e -disse a meia voz: -</p> -<p> -—Que diabo! não posso acostumar-me a vêr aquelle velho como ajudante -de guarda-livros! -</p> -<p> -—Que quer você? murmurou Theodoro; o Mattos empenhou-se por elle e -afinal a acquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá -boa conta do recado não penso em substituil-o. É assiduo. -</p> -<p> -—Outro exquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o -Joaquim ... ninguem dirá que é o mesmo, lá fóra... -</p> -<p> -—Muito carnavalesco e mettido com as damas, hein? Que se divirta, -aqui trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descança-me. -</p> -<p> -—Ouvi dizer que elle vae casar com a Delphina do Recreio... -</p> -<p> -—Historias! o rapaz é serio. -</p> -<p> -—Tolo é que elle não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéo. -</p> -<p> -O Innocencio despediu-se tambem; ia num pulo ao Torres. Os affazeres -eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café. -</p> -<p> -Quando elle sahiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O -commendador Lemos sentenciou: -</p> -<p> -—Este Innocencio é espertalhão! Está aqui, está director do banco. -Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por elle... Tem uma -labia! -</p> -<p> -—E sabe encostar-se a boas arvores. O Barros tem-lhe dado boas -commissões e não é á toa que elle procura tanto agora o Torres... -Mette-se sempre na melhor roda... Aquelle não veio de Portugal como -nós, sem bagagem e cheirando a páo de pinheiro; trouxe luvas e meias -de seda... O patife! -</p> -<p> -—São os que naufragam... -</p> -<p> -—Quando não vêm á caça e não têm o geitinho que este revela... -Canta que nem um passaro, para attrahir a gente! -</p> -<p> -—É uma intelligencia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas -as mãos o collete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se -no sofázinho austriaco, teve uma ponta de censura para as cousas -d'esta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado, a cidade -infecta. -</p> -<p> -Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadencia -nem rhythmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua patria -andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metaes mais polidos, -os passos eguaezinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo -mais aqui, o mesmo relaxamento. -</p> -<p> -A maldita Republica acabaria de escangalhar o resto. Veriam. -</p> -<p> -Só no fim perguntaram pelas familias. -</p> -<p> -—A proposito, perguntou o Ramos a Theodoro, aquella menina que vae -tocar violino no concerto dos pobres é sua filha? -</p> -<p> -—Que concerto? -</p> -<p> -—De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal... -</p> -<p> -—Póde ser... são cousas lá da mãe ... a pequena tem um talentão; o -proprio mestre espanta-se. -</p> -<p> -—E bonita! vi-a um d'estes dias, observou o Lemos. -</p> -<p> -—Não, isso não! por emquanto ainda não se póde comparar com a -mãe ... protestou Francisco Theodoro, com sinceridade e um certo orgulho. -</p> -<p> -Os outros sorriram. -</p> -<p> -—Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo! -</p> -<p> -Houve uma pausa. -</p> -<p> -—Realmente, insistiu Francisco Theodoro, o Gama Torres deu um cheque -valente. Pois olhem, eu não dava nada por elle: um brasileirito -magro... -</p> -<p> -—E começou outro dia! -</p> -<p> -—De mais a mais, parecia acanhado ... timido... -</p> -<p> -—Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre -um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou -razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso -Rottschild... -</p> -<p> -—Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça -nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é -medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi! -</p> -<p> -—Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o -commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu -systema, observou Theodoro. -</p> -<p> -—Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario. -Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco. -</p> -<p> -—Porco?! bradaram os outros, indignados. -</p> -<p> -—Porco, confirmou o Ramos com solemnidade. -</p> -<p> -—Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o -Lemos, o anafado. -</p> -<p> -Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes -da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao -amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do -Innocencio. Que talento! -</p> -<p> -—Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de -pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete. -</p> -<p> -—Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, -maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido -aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu? -</p> -<p> -—Com que diabo quereria elle que trabalhassemos? -</p> -<p> -—Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O -nosso commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu -por mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito -e não aprendi nada. -</p> -<p> -Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa -visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia. -</p> -<p> -Depois de um suspiro, Theodoro concluiu: -</p> -<p> -—Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos -o tombo que isto leva! -</p> -<p> -Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano -desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva -intenção. -</p> -<p> -Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e -assumptos lidos no <i>Jornal do Commercio</i> do dia encheram um quarto de -hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que -aquella casa cheirava a dinheiro. -</p> -<p> -Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo, -Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de -café, a dar informações. -</p> -<p> -—Estamos esperando o café do Simas. -</p> -<p> -O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções -do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem -tem engulido. -</p> -<p> -—Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima? -</p> -<p> -O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:—sim, -senhor; depois gritou para o fundo: -</p> -<p> -—<i>Seu</i> Ribas! -</p> -<p> -O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a -ver ensaccar o café. -</p> -<p> -A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus -serviços, deprimindo os alheios. <i>Seu</i> Joaquim considerava-se o melhor -empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros -temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que -elle não perdoava. -</p> -<p> -O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe -dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, <i>seu</i> Joaquim -lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, -que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda. -</p> -<p> -Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar. -Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho -era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena -triste, de africanos. Era mais bonito. -</p> -<p> -As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido -da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E -ainda acham que as cousas se alteram de vagar! -</p> -<p> -Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na -atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou. -O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas -corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de -trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a -freguezia, accrescentando para o estimular: -</p> -<p> -—Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem -mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas! -</p> -<p> -O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco -Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido. -</p> -<p> -Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e -pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça, -dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de -exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de -financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de -toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria -justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do -que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de -esforço e de labor? -</p> -<p> -Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a -mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o -mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão. -</p> -<p> -—Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem... -</p> -<p> -—Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade... -</p> -<p> -Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois -para o seu gabinete. -</p> -<p> -Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas -fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, -guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de -verão bafejava toda a rua febril. -</p> -<p> -Os armazens, pelas boccas negras das suas portas escancaradas, vomitavam -ainda saccas e saccas de café, que as locomotoras e as carroças -levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da -Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó que -espalhavam no ar scintillações de ouro. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="II">II</a></h4> - -<p> -Em caminho de casa, Francisco Theodoro, recostado em um bond, persistia -em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéas lhe fugiam para -um curso perigoso. -</p> -<p> -O exito do Torres quisilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o -caminho, impedindo-o de chegar ao seu ultimo ponto de mira. Galgava-lhe -de assalto a deanteira, para se quedar sempre na sua frente, como um -obstaculo. -</p> -<p> -Aquella conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia -o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canceira do trabalho. -A vida tem ironias: teria elle sido um tolo? -</p> -<p> -Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples -caixeiro, quasi analphabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os -sapatões barulhentos. -</p> -<p> -Tinha ainda fresco na memoria o dia do desembarque—estava um -calor!—e de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal -alimentado, com saudades da brôa negra, das sovas da mãe e das -caçadas aos grillos pelas charnecas do seu logar. -</p> -<p> -Pouco a pouco outros grillos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O -som do dinheiro é musica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu -destino, tolerando todas as oppressões, dobrando-se a todas as -exigencias brutaes, numa resignação de cachorro. -</p> -<p> -Assim correram annos, dormindo em esteiras infectas, molhando de -lagrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi -enchendo, enchendo avaramente. -</p> -<p> -Aquella infancia de degredo era agora o seu triumpho. Vinha de longe a -sua paixão pelo dinheiro; levado por ella, não conhecêra outra na -mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao -negocio. O negocio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o -ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço. -</p> -<p> -Não podia explicar, como, só pelo attrito com pessoas mais cultivadas, -elle fôra perdendo, aos poucos, a grossa ignorancia de que viera -adornado. A letra desenvolveu-se-lhe, tornou-se firme, e a sua tendencia -para contas fez prodigios, aguçada com o sentido na verificação de -lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projectos, e -observando attentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um -negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a -quem a sociedade recebia bem. -</p> -<p> -Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo á deusa da -fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para -elle, o Brasil era o balcão, era o armazem atulhado, onde o esforço de -cada individuo tem o seu premio. -</p> -<p> -Fóra do commercio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um -olhar... -</p> -<p> -Tempos de amargura e de esperança, aquelles! -</p> -<p> -Relembrando o passado, Francisco Theodoro procurava em si mesmo -elementos com que pudesse bater influencias e oppôr-se ás -especulações de afogadilho; devia encontral-os espalhados pelos dias -asperos da incerteza e os macios da prosperidade. -</p> -<p> -Esta rectrospecção agradou-lhe; fixou varios periodos. -</p> -<p> -O tempo em que morara em um sobradinho do becco de Bragança, sombreado -pelo beiral muito extendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada -de rotula de um verde sujo. -</p> -<p> -Embaixo e defronte, caixoteiros martellavam em taboas de pinho, cujo -cheiro dava ao becco immundo uma baforada fresca de floresta. E as -martelladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o -trabalho; de noite o theatro ou a casa da Sidonia. Que seria feito da -Sidonia? Devia estar p'r'ahi, em qualquer canto ... e velha. -</p> -<p> -Aos domingos na chacara do Mattos, o solo, os jantares á portugueza, e -a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe gyrava na memoria, -suavemente, suavemente. -</p> -<p> -Fôra no conforto d'aquella chacara, vendo-se cercado de -considerações, ao lado do amigo repousado e feliz, que elle sentiu a -sua importancia e se lembrou que deveria haver na terra outras delicias; -mas o seu coração, cançado de um lucta formidavel, negava-lhe novas -inclinações. A patria esquecida não lhe acenava com o minimo encanto: -a mãe morrera, a sua unica irmã tinha-se recolhido a um convento. -Fechara-se uma porta sobre a sua meninice. -</p> -<p> -Sentia-se só; começava a cançar-se e a enjoar as mulheres faceis, com -quem convivia em relações momentaneas. Mesmo a Sidonia enervava-o com -os seus arrufos ... e as suas denguices. -</p> -<p> -Atirou-se a proteger as instituições do seu paiz, a andar com -medalhões e a fazer mordomias na Beneficencia. No fundo, não era só a -distracção que elle buscava, nem a caridade que elle exercia; uma -outra causa lhe filtrava n'alma aquella vocação para o beneficio... -</p> -<p> -E a commenda chegou. -</p> -<p> -Foi só depois de commendador que Theodoro se sentiu vexado d'aquella -habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelaria, que -mobilou a vinhatico, com exuberancia de chromos pelas paredes. Achou, -ainda assim, que á sua casa alegre faltava qualquer cousa... -</p> -<p> -Viera-lhe a dyspepsia. Que insomnias! -</p> -<p> -Um medico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem á terra ou o -casamento, para a regularisação de habitos. Elle achara cedo para a -viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéa do casamento -parecia-lhe mais salvadora. -</p> -<p> -Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma -esposa dedicada e meia duzia de filhos que lhe herdassem virtudes e -haveres? -</p> -<p> -No seu sonho começou a esboçar-se a idéa de um herdeiro. Teria um -rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse, -sobretudo, um continuador d'aquella casa da rua de S. Bento, que -engrandeceria com o seu prestigio, a sua mocidade, bem assente no apoio -e na experiencia paterna. O filho seria a sua estatua viva, nelle -reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infancia, seria -instruido. -</p> -<p> -E tanto aquella idéa o perseguia, que num domingo de solo abriu-se ao -Mattos, que acolheu com ar solemne e discreto as confidencias do amigo. -</p> -<p> -Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera: -</p> -<p> -—Sei o que você quer. Tivemos aqui na visinhança uma familia que está -mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é -a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna. -</p> -<p> -Francisco Theodoro murmurou: -</p> -<p> -—Pois uma mulher assim é que me servia. -</p> -<p> -—O diabo é que ellas vão de mudança para Sergipe... -</p> -<p> -—Então acabou-se. -</p> -<p> -—Não se acabou tal. Por emquanto estão hospedadas em casa de umas -tias, no Castello. Ainda é tempo de lá irmos fazer uma visita... O -resto fica por minha conta. -</p> -<p> -Foi por uma noite escura que elle, já mais por condescendencia que por -curiosidade, entrou com o Mattos na casa das senhoras Rodrigues, no -morro do Castello. -</p> -<p> -Fazia frio; na rua um cão uivava longa, doloridamente. -</p> -<p> -Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, D. Itelvina, -senhora alta e secca, muito nariguda, vestida de lãs pardas. Os outros -ainda se cumprimentavam e já ella se sentava, erguendo o joelho agudo -sob a costura. Não tinha tempo a perder. -</p> -<p> -A outra senhora da casa andava por fóra; Theodoro conhecera-a depois. -Essa era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido á novena do Carmo -com as duas sobrinhas mais moças e o irmão, o velho Rodrigues. -</p> -<p> -Em uma sala vasta, quasi núa, mal clareada por um lampeão de kerozene, -viu Theodoro, pela primeira vez, D. Emilia, uma senhora bonita, de ar -magestoso e olhos trefegos, e as suas duas filhas mais velhas—Camilla -e Sophia. -</p> -<p> -Camilla fazia <i>crochet</i> perto do lampeão; Sophia refugiara-se para um -canto do canapé, queixando-se da cabeça. E a mãe começou a fallar -com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome de -Camilla sahia-lhe da bocca com um elogio. Era a filha mais velha e a -mais instruida: pilhara os tempos das vaccas gordas, quando o pae -exercia um cargo lucrativo. -</p> -<p> -Os dedos de Camilla apressavam-se no <i>crochet</i>; com certeza ella havia -de ter errado os pontos e sentido os olhares de Theodoro queimarem-lhe -a pelle, que a tinha linda, de uma alvura azul de camelia. -</p> -<p> -D. Emilia asseverava que a sua <i>Milla</i>, como a chamavam em casa, -esquecia-se das suas prendas, obrigada pela necessidade a fazer -serviços domesticos. -</p> -<p> -Francisco Theodoro commoveu-se com a idéa de que aquella mulher, -talhada para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a -callejar as mãos com o uso da vassoura ou do ferro. -</p> -<p> -Trabalhar! trabalhar é bom para os homens, de pelle endurecida e alma -feita de coragem. Olhou para a moça com veneração. -</p> -<p> -Era bonita, alta, com grandes olhos avelludados, cabello ondeado preto e -uns dentes perfeitos, muito brancos, mas que ella mostrava pouco, -sorrindo apenas. Da irmã Sophia, na sombra, mal se adivinhavam as -feições. -</p> -<p> -A uma das phrases, em que a abundancia do amor materno lhe debuxava as -perfeições, Camilla sahiu de ao pé da luz e foi para a janella olhar -para o escuro. -</p> -<p> -Como correu depressa aquella noite! -</p> -<p> -Francisco Theodoro sahiu tonto. O amigo ria-se: não lhe tinha dito? -Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim. -</p> -<p> -E dias depois o Mattos pedia a mão de Camilla para o amigo. -</p> -<p> -Começou então a serie de presentes e de visitas. Milla tinha sempre o -mesmo embaraço e a mesma brandura de sorriso. -</p> -<p> -O que ella ouvia da familia, não o podia adivinhar Francisco Theodoro, -que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante. -</p> -<p> -Adiou-se a partida para Sergipe; houve doenças em casa, prolongação -do noivado, peregrinações de Theodoro por aquelle morro do Castello, -com raminhos de violetas para a Milla; todas as doçuras de namorado... -</p> -<p> -Casaram-se em um dia lindo. -</p> -<p> -Elle dera grandes esmolas aos pobres da egreja; Milla parecia um anjo -entre nuvens brancas... -</p> -<p> -Depois, a familia partiu para Sergipe. O pae era chôcho, mas levava a -carteira gorda. A mãe, com o seu modo de rainha desthronada, e as -irmãs iam bem enroupadas e todas tranquillas sobre o futuro de Milla e -do filho mais velho, o Joca, por quem Theodoro promettera olhar, e que -andava por ahi, atôa. -</p> -<p> -A sua maior commoção fôra ao entrarem casa, na rua da Candelaria. -Suppuzera sempre que ella apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho, -na alegria de ser a dona, a senhora de tantas cousas compradas para o -agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camilla -fôra para a sacada. Elle acompanhou-a. -</p> -<p> -Em frente, os telhados mais baixos succediam-se irregulares, cortando-se -em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, deseguaes, -accumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janellinhas de sotãos -espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras -e curtas, baforando fumo. -</p> -<p> -Camilla murmurára, como quem falla só: -</p> -<p> -—Se ao menos se visse o mar... -</p> -<p> -Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou -perto, formidavel, prolongando-se num som que era como um gemido da -cidade inteira. Milla ergueu-se com um estremeção e voltou para o -perfil da egreja o olhar extatico. -</p> -<p> -Elle sorrira do susto, emquanto ella dizia: -</p> -<p> -—Como é alto! -</p> -<p> -Depois d'esse, vieram dias tranquillos. A mulher bordava almofadas para -o sofá e emmoldurava os chromos com musgo e flores seccas. -</p> -<p> -Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sidonia -reappareceu na vida de Theodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades. -Nem a pobre Camilla desconfiara nunca... Tambem, nada lhe tinha faltado -e já devia ser um regalo para ella cobrir de boas roupas o seu corpo de -neve, ter mesa farta, e andar pela cidade attrahindo as vistas, no -deleite da sua graça... -</p> -<p> -Então iam grandes remessas para Sergipe. -</p> -<p> -Um sorvedouro, aquella familia, sempre exhalando lamurias em todas as -cartas, na sêde insaciavel de dinheiro. -</p> -<p> -Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe -mettia em casa, com os seus máos costumes de vadio. Elle fôra o -causador de tantissimas querellas! E aggressivo na sua indolencia, mal -humorado pelas dividas do jogo, e ingrato! Má raça. Além do mais, -pespegara-lhe depois com a filha em casa, aquella pobre Nina, tão -enfezada nos seus primeiros tempos, fina como um canniço, e com uma -tosse de cão, que repercutia pelos corredores. Emfim, essa, ao menos, -servira depois para ajudar Camilla a criar as filhas, que o Mario, esse -já ella o encontrara forte como um heróe! -</p> -<p> -O Mario... -</p> -<p> -No percurso da Carioca á praia de Botafogo, Theodoro foi assim -reconstruindo a sua vida, solidificando-a, pondo-a de pé. Era com essas -memorias de familia e de trabalho, que elle se entrincheiraria contra os -assaltos das novas ambições. -</p> -<p> -O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava já acolá em -grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as -arvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em vôos tontos. Uns -pequenos atiravam um cão da Terra Nova á agua, e as janellas dos -palacetes mal se abriam aos esplendores de fóra. -</p> -<p> -Perto do collegio, subiram para o bond duas irmãs de caridade, com -ramalhetes de rosas. Theodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e -distinguiam-no sempre, por sabel-o religioso. Iam levar á ermida da -Copacabana aquellas flores, promettidas pela salvação de uma alumna, -que estivera ás portas da morte. -</p> -<p> -Uma conversa simples, em dois minutos, foi como balsamo para o espirito -fatigado do negociante. -</p> -<p> -Demais, elle achou bonito, commovedor aquillo: uma creança ás portas -da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a visão de uma ermida -sobre o mar... -</p> -<p> -Quando Francisco Theodoro chegou a casa, as suas filhas gemeas, Rachel e -Lia, brincavam na chacara. Ao vel-o abrir o portão, as creanças -atiraram-se para elle, que mal lhes passou os dedos pelos cabellos; -ellas tambem pouco se detiveram e Theodoro atravessou o jardim. -</p> -<p> -O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um -parque, elle erguia os seus balcões por entre palmas estrelladas de -coqueiros e copas de arvores bem escolhidas. Aquillo não fôra obra -sua; tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ruina o -obrigara a hypothecal-a quando a construcção ia em meio e a vendel-a -logo depois de concluida. -</p> -<p> -Á esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida, -conduzia ao terraço alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a -familia palestrava, á espera de descer para o jantar. Nessa tarde só -estava alli o filho mais velho, o Mario, todo derreado numa cadeira de -balanço. O pae foi andando, e elle mal esboçou um movimento para -levantar-se e dar-lhe as boas tardes. -</p> -<p> -Era já homem, muito moço ainda, e todo elle revelava preoccupações -de luxo e cuidado da sua pessoa. -</p> -<p> -Na sala da frente fallava-se com alegria. -</p> -<p> -—Temos visitas—pensou Theodoro, vendo chapéos de homem no -cabide da saleta. -</p> -<p> -Quando elle entrou na sala, a mulher dizia á filha: -</p> -<p> -—Vae ensaiar, Ruth! -</p> -<p> -A seu lado, sentado no mesmo divan, o Dr. Gervasio Gomes desenhava a -lapis na carteira qualquer cousa que a fazia sorrir. Elle gabava-se de -ter geito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e -tres annos, trigueiro, e apurado na <i>toilette</i>. Era ligeiramente -calvo, tinha um olhar de que as lentes de myope não attenuavam a -agudeza, e um sorrisinho ironico, que lhe mostrava os dentes claros e -meudos como os dos roedores. -</p> -<p> -Camilla guardava um viço prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava -como mulher formosa. Tinha herdado da mãe aquelle ar de magestade, que -tanto impressionara Theodoro na primeira entrevista do Castello, -adoçado por uma grande expressão de calma e de bondade. -</p> -<p> -Francisco Theodoro foi direito a elles e cumprimentou-os, sem se atrever -a roçar os labios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor das -suas acções em familia. Sentava-se já, quando ella lhe disse com leve -censura: -</p> -<p> -—Você não cumprimenta o capitão Rino nem o maestro? -</p> -<p> -Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se -dirigia com o violino na mão. Pedidas as desculpas, Theodoro voltou-se -para o capitão Rino: -</p> -<p> -—Muito me alegro de o ver aqui, capitão; quando chegou da sua viagem? -</p> -<p> -—Hontem. -</p> -<p> -—Você não imagina, interrompeu Camilla; o capitão trouxe-me um -presente lindissimo! -</p> -<p> -—Que foi? perguntou a meia voz o Dr. Gervasio. -</p> -<p> -Francisco Theodoro enxugava com o lenço a calva rosada e luzidia. -Milla, voltando-se para o medico, explicou: -</p> -<p> -—Uma collecção de orchideas do Amazonas; e prometteu mandar vir para -o lago uma <i>Victoria Regia</i>. -</p> -<p> -O doutor murmurou por entre dentes, em tom que só Camilla pudesse -ouvir: -</p> -<p> -—Isso de prometter é que não é bonito... -</p> -<p> -A moça relanceou-lhe um olhar, como a pedir misericordia para o outro, -que palestrava agora com o dono da casa.—Não era bonito, por que?! -</p> -<p> -O capitão Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu typo de loiro -e pela robustez do seu corpo. Era alto, de hombros largos. Tinha as -mãos grandes, os olhos claros, de um azul de faiança; o bigode sedoso, -como que acabado de nascer, e a pelle queimada pelos ventos do mar. Só -se lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pescoço, -quando elle atirava a cabeça e os braços nos seus gestos largos e -desageitados. Havia qualquer cousa de infantil naquelle homem grande, -uma interrogação timida talvez no olhar, e um certo abandono, de -pessoa pouco afeita á sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores -vistosas, abusando do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos. -</p> -<p> -Ruth poz-se em attitude; a mãe gritou-lhe: -</p> -<p> -—Imagina que estás deante do auditorio! -</p> -<p> -Ella pareceu não a ouvir. Em pé, ao lado do piano, alta e espigada, -com a cabeça unida ao seu hombro estreito de menina, os cabellos negros, -cahindo-lhe em ondas sobre o pescoço moreno, os olhos de um verde -limpido, de agua marinha, abertos para o vacuo, tinha um ar de -sonnambula perdida em sonhos divinos. As mãos, longas e esguias, -moviam-se com segurança; o vestido branco, salpicado de florinhas -amarellas, mostrava-lhe um pouco das pernas finas, calçadas a preto. -</p> -<p> -O Lelio Braga, recemchegado da Allemanha, o gordo maestro que só -fallava de musica ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente. Fez-se o -silencio em volta, mas por pouco tempo. Recomeçaram as conversas em tom -mais baixo. Ruth não ouvia ninguem; um brilho quente, de sol, sahia-lhe -dos olhos verdes, voltados para a luz. -</p> -<p> -Só o capitão Rino parecia escutar a musica, olhando de esguelha para -Camilla. Abominava a confiança que ella dava ao outro, ao magro Dr. -Gervasio, alli tão agarrado ás suas saias, dizendo-lhe cousas que a -faziam sorrir. Tudo naquelle homem o irritava: o seu luxo, o seu typo -escanifrado e o seu ar de ironia, ás vezes perversa, outras insulsa. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, nunca interessado por cousas de arte, nem mesmo pela -musica, quebrava a miude as reflexões do capitão Rino, interrogando-o -sobre assumptos do Norte, de puro interesse commercial. -</p> -<p> -Ainda vibrava no ar a ultima nota do violino, quando Nina, sobrinha dos -donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava -sympathica a toda a gente. Não era bonita: tinha o nariz grosso e -alguns signaes aloirados na pelle pallida. -</p> -<p> -—Você viu as parasitas? perguntou-lhe Camilla. -</p> -<p> -—Que sim; e, voltando-se para o capitão: -</p> -<p> -Devemos conserval-as ao ar livre ou na estufa? -</p> -<p> -O capitão fez um gesto de ignorancia. -</p> -<p> -Só á hora do jantar, Mario se reuniu á familia. A mesa, cheia de -crystaes e de prataria, tinha um aspecto festivo. -</p> -<p> -O dinheiro ganho á custa de trabalho gosta de impor-se á admiração -alheia. O dono da casa, refrescado no paletot de brim, não se cançava -de elogiar os seus vinhos e alludia a miude á excellencia do -cozinheiro. -</p> -<p> -Se alguem se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um calice de velho -Madeira, elle acudia animadoramente:—Beba, que esse é legitimo; egual -não se encontra com facilidade por ahi. -</p> -<p> -Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos -complicados intactos. A fartura passava ao desperdicio. A copa -atulhava-se de peças grandes, em que as folhas de alface e os desenhos -a rodas de limão, de ovo, azeitonas e gelatina não disfarçavam a -opulencia das carnes. -</p> -<p> -Á cabeceira da mesa, Francisco Theodoro gostava de, espalhando a vista -por toda a longa superficie branca da toalha, vêl-a bem coberta de -cousas caras e vistosas. Assim comia com appetite, gostosamente. Era o -seu triumpho na vida, que todo esse luxo representava, na unica -occasião em que lhe sobrava tempo para admiral-o. -</p> -<p> -Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o -Dr. Gervasio havia menos instancias: conheciam-lhe os habitos de homem -delicado. O capitão Rino era muito mais moço e trazia da sua vida de -mar valentias de estomago. -</p> -<p> -As creanças comiam á mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra e -exigencias. -</p> -<p> -Mario reprehendia-as, achando intoleravel que o pae consentisse aquillo! -</p> -<p> -—O nome do seu vapor é...? perguntou ao capitão o Dr. Gervasio, -ageitando a luneta no nariz. -</p> -<p> -—<i>Neptuno.</i> -</p> -<p> -—Amado de Amphitrite e das nereidas. O patrono deve pôr-lhe em perigo -o socego... -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Porque assim moço, bonito, e com tal suggestão, de forte envergadura -precisa o senhor para resistir ás seducções das sereias... -</p> -<p> -—Que ninguem viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capitão -ingenuamente. -</p> -<p> -—Convirá não affirmar que não as haja tambem em terras do Brasil, -sublinhou o doutor com um sorrisinho, descendo o olhar para a pera que -descascava. -</p> -<p> -Riram-se do embaraço do capitão, que murmurou, desviando a vista de -Camilla: -</p> -<p> -—Os cantos das sereias não me seduziriam... -</p> -<p> -—Pois é pena; sem imaginação a vida do mar não pode ter encantos. -Se eu, em vez de medico, obrigado a deter-me com o que ha de mais -prosaico na natureza, fosse ... o capitão do navio ... perdão, do -vapor <i>Neptuno</i>, apegar-me-ia á mythologia, faria dos seus deuses a -minha florida e alegre religião, e affirmo que seriam de goso para mim -as noitadas no convéz, vendo ao clarão das estrellas Venus surgir das -espumas e boiarem á tona da onda negra os dorsos brancos das cincoenta -filhas de Nereu. Estou certo de que não sentiria a tal melancholia das -aguas, de que ás vezes os senhores se queixam. Um homem de espirito -nunca está só... -</p> -<p> -O capitão sorriu e Francisco Theodoro fallou com o seu modo -sentencioso: -</p> -<p> -—Elles gosam a seu modo. -</p> -<p> -—Não gosamos, não; a vida do mar é dura. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio não póde sentir com sinceridade o que disse... -</p> -<p> -—Assevero-lhe que sim, capitão; e que parti de um principio de que -parto para todos os actos da vida, convicto de que está no proprio -homem o remedio dos grandes males que o affligem. -</p> -<p> -—Se vae dizer isso ao pé dos seus doentes, ninguem mais o chamará, -replicou Camilla. -</p> -<p> -—Chamarão; infelizmente chamam sempre. Ninguem tem absoluta confiança -em si. O homem, por mais que digam, ignora a força de que vem revestido -para a sua funcção. Para nós, a natureza representa apenas o papel -secundario da paizagem; é o accessorio, a <i>mise-en-scène</i> da Vida, em -que nos atormentamos mutuamente num alarido de inferno. Não valia a -pena crear coisas tão bonitas para serem tão mal aproveitadas. Palavra -de honra! se fosse possivel conceber o riso, ou apenas o sorriso, na -face tremenda do Omnipotente, eu diria que Elle ás vezes escarnece de -nós. Á sua saúde, capitão! -</p> -<p> -—Obrigado... -</p> -<p> -—Um dia metto-me no seu <i>Neptuno</i> e atiro-me para o Norte. -Curiosidade, simplesmente; tenho mais vontade de vêr os crocodilos do -Amazonas do que ... eu sei lá! as bailarinas da Grande Opera. -</p> -<p> -—Homem, dizem que a carne do crocodilo é boa, disse Francisco -Theodoro. -</p> -<p> -—Ha tambem quem affirme que a das bailarinas ainda é melhor! observou -o medico. -</p> -<p> -Camilla riu-se; e depois: -</p> -<p> -—E eu que nunca vi um grande vapor por dentro! -</p> -<p> -—Quer ir commigo a Manáos? -</p> -<p> -—Não; mas quero que o capitão Rino nos convide para visitar o -<i>Neptuno</i>. -</p> -<p> -O moço maritimo balbuciou, corando: -</p> -<p> -—Oh! minha senhora... -</p> -<p> -Interrompeu a phrase, porque ia dizer:—eu não desejo outra cousa! mas -achou mais acertado e mais simples accrescentar sómente:—quando -quizer. -</p> -<p> -—Será num domingo, para que meu marido vá tambem. E as creanças -poderão ir? -</p> -<p> -—Por que não? -</p> -<p> -Lia e Rachel bateram palmas. -</p> -<p> -Ao café, no terraço, Camilla declarou preparar um grande baile para o -S. João, quando a Ruth completasse os seus quinze annos. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto. -</p> -<p> -—Por que? -</p> -<p> -—Porque a noitada de S. João mette medo ás casacas e assusta os -decotes. É um santo que só quer luz de fogueiras, com altas labaredas -e crepitações, e ainda ha de ser no campo, entre gente rude que danse -em torno ás chammas. -</p> -<p> -É uma festa que me dá ideia de uma cerimonia ritual, de povo -primitivo. Deixe o seu baile para outro dia. -</p> -<p> -—Mas depois eu não terei pretexto... -</p> -<p> -—Meu Deus! não é preciso descer uma pessoa a dar explicações aos -amigos, quando se trata de os divertir... -</p> -<p> -Francisco Theodoro ouvia o Dr. Gervasio com muito acatamento, -reconhecendo-lhe superioridade intellectual. -</p> -<p> -Devia-lhe a vida dos filhos, confessava, e d'essa divida não se -cançava de se dizer devedor. -</p> -<p> -Approvou a idéa do baile; fizessem o que quizessem, a bolsa estava -aberta. E a proposito, deixando os outros a tagarellar no terraço, elle -fechou os olhos e pensou na felicidade do Gama Torres... Quem sabe?... -talvez que elle pudesse fazer o mesmo; a epocha era favoravel, o café -rendia como nunca e ainda havia esperanças de alta... Se fugisse -áquella occasião ... perderia o ensejo de triplicar de um dia para o -outro a sua já grande fortuna... Fôra sempre um homem de acção, de -recursos, como ficar na retaguarda, imbecilmente, deixando que a outro, -novato, se conferisse o titulo de Rottschild brasileiro? O ciume do seu -nome de negociante enchia-o até aos olhos. Encadeou e desencadeou -pensamentos calculistas. -</p> -<p> -Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, era toda a sua ambição. -Repetia a qualquer a humildade da sua origem, espreitando o effeito -d'essa confissão. Ser o mais poderoso, o mais rico, o mais forte, tendo -partido do nada, não seria ter alcançado a suprema gloria na terra? -</p> -<p> -E, alli mesmo, bem recostado na sua cadeira de balanço, com o papo -cheio de optimas iguarias, as mãos descançadas nos braços da cadeira, -elle insensivelmente passou do sonho ao somno. -</p> -<p> -Na meia sombra do lusco-fusco, os olhos do capitão Rino fulguravam, -espiando com raiva os rostos do medico e de Camilla, que se -contemplavam. Mario atravessou o terraço de charuto na bocca, em -direcção á rua. -</p> -<p> -—Onde vaes? perguntou-lhe a mãe. -</p> -<p> -—Ao theatro; respondeu elle sem se deter, descendo a escada. -</p> -<p> -—Este rapaz ... este rapaz ... resmungou por entre dentes o Dr. -Gervasio, em modo de censura. -</p> -<p> -Camilla desculpou-o; o filho tinha genio e era muito independente. Não -queria contrarial-o; para que? A vida é curta, cedo viriam as -amofinações. O juizo havia de vir com a edade... -</p> -<p> -Em baixo, no jardim, entre os grupos rescendentes de heliotropo e de -jasmins do Cabo, as creanças e Ruth faziam roda á Noca, mulata antiga -na familia, que lhes contava historias de fadas e de principes -encantados. Vendo Mario dirigir-se para o portão, a mulata chamou-o com -familiaridade de amiga velha: -</p> -<p> -—Seu Mario, escuta aqui! -</p> -<p> -—Que é, Noca? -</p> -<p> -—Onde é que vae? -</p> -<p> -—Se eu não morrer pelo caminho, hei de chegar ao theatro. -</p> -<p> -—Não morre; eu ainda esta noite sonhei que V. estava amortalhado e -que D. Nina chorava sangue... Sonhar com morte é signal de saude. Traga -umas balas para mim. -</p> -<p> -—Vá esperando. -</p> -<p> -O capitão Rino despediu-se e desceu tambem para a rua, ouvindo a voz da -Noca recomeçar numa melopéa: -</p> -<p> -«Minha varinha de condão, pelo poder que Deus vos deu, fazei...» -</p> -<p> -Nina, encostada á grade, via Mario afastar-se; e lá em cima, no -terraço, ao lado do marido adormecido, Camilla curvou-se para o Dr. -Gervasio e beijou-o na bocca. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="III">III</a></h4> - -<p> -Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava -ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da -Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do -morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D. -Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais -sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada -para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem -soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe -ministrava. -</p> -<p> -Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes, -conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos: -uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o -prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para -a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha. -</p> -<p> -Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um -canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras -e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um -tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo -desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas -vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na -lenha. -</p> -<p> -D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria -fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse -todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo. -</p> -<p> -A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe -importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do -seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella -pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades -capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de -uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello -grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos -encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés -largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha, -ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um -rosario de ambar benzido pelo bispo. -</p> -<p> -D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em -frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o -parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios -finos. -</p> -<p> -A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz -de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como -se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam. -</p> -<p> -Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que -confraternisa as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se -mutuamente, guiadas pelo habito. -</p> -<p> -Quando Noca bateu á porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que -haviam de ser da Sancha, a negrinha orphã que D. Itelvina explorava nos -arranjos da casa. -</p> -<p> -Abriu-se uma janella com bulha impaciente e appareceu a cara de D. -Itelvina, indagando de quem batia. -</p> -<p> -—Ah!... é você, Noca! espere um pouco, eu já vou. -</p> -<p> -Dentro, a mulata explicou: -</p> -<p> -—Nhá Milla mandou fazer uma visita e saber das senhoras como -estão ... ella não pôde vir, porque... -</p> -<p> -—Já sei. Isto é muito alto ... se fossem as escadas do Lyrico, muito -que bem!... casa de pobres... -</p> -<p> -—Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até -dizem todos o contrario... -</p> -<p> -—Dizem? mentiras! mentiras só... Como vae seu Theodoro? -</p> -<p> -—Muito bem. -</p> -<p> -—Excellente homem; aquillo é que foi sorte grande, hein Noca? -</p> -<p> -—Foi, sim, senhora; elle é bom ... tem as suas impertinencias ... mas -a gente já sabe que é do genio... -</p> -<p> -—Qual o quê! Milla deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já -não é facil uma moça pobre e sem protecção encontrar um casamento -assim! -</p> -<p> -—Isso é verdade... Ella tambem é muito boa. -</p> -<p> -—Você se lembra de quando elles moravam na Lapa, que até você levava -ás vezes comida da casa de pasto para dar ás meninas? -</p> -<p> -A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não -fôra só da Lapa que ella levava os restos dos jantares da casa de -pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castello, com a -trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Milla e das irmãs, -então hospedadas em casa de D. Itelvina. -</p> -<p> -—De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das creanças. -</p> -<p> -—De uma viuva que já morreu, emendou Noca, impellindo as duas -creanças para o quintal. Vão ver a vista ... vão ver os signaes dos -vapores ... dizia ella. -</p> -<p> -D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não -exclamasse: -</p> -<p> -—Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de -creanças! Milla teve sempre propensão para o desperdicio... Bonitos -aquelles vestidos! Onde os compraram? -</p> -<p> -—Vieram de Paris... -</p> -<p> -—Uhm ... não haviam de ser baratos ... aquillo é seda, não é? -</p> -<p> -—É, sim, senhora. D. Joanna sahiu? -</p> -<p> -—Já se sabe! anda pelas egrejas... Se não fosse eu, não sei como -havia de ser!... -</p> -<p> -Noca reparou, olhando para a alcova do oratorio, aberta para a sala, que -a lamparina estava apagada. -</p> -<p> -D. Itelvina continuou: -</p> -<p> -—Joanninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça -tudo... Ella não tem apparecido por lá? -</p> -<p> -—Não, senhora... -</p> -<p> -—Ruth porque não veio? -</p> -<p> -—Ficou dando licção. Ella tocou no concerto e foi muito festejada. -</p> -<p> -—Ha de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar -um remendo ou fazer um vestido. -</p> -<p> -—Graças a Deus, ella não precisa d'isso!... -</p> -<p> -—O futuro o dirá... -</p> -<p> -—Credo! -</p> -<p> -—Pois sim. Cada vez bemdigo mais a educação que minha mãe nos deu. -Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas... -</p> -<p> -—Tá hi! e D. Joanna não deu p'ra outras coisas? -</p> -<p> -—Ella sempre foi religiosa, mas depois de viuva refinou! E ainda se -queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas! -</p> -<p> -—Coitada! -</p> -<p> -—Minha filha! ella vae d'aqui a pé a São Francisco, ao Carmo, á -Penitencia, a S. Bento a qualquer egreja da cidade!... Ás cinco horas -já está nos Capuchinhos; e á tarde aqui na egreja do hospital ella -canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos -acuda! -</p> -<p> -Alguem batia á porta, e D. Itelvina, tendo espreitado pela janella, -voltou-se apressada e foi reaccender a lamparina do oratorio. -</p> -<p> -Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e, -despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na -sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca. -</p> -<p> -A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as -paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de -um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um -trecho de mar muito azul. -</p> -<p> -D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira -cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro -e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os -olhos vermelhos e inundados. -</p> -<p> -—Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um -grande sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e -depois de uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades -religiosas? -</p> -<p> -—Vae todos os domingos á missa. -</p> -<p> -—Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos. -A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as -pernas cada vez mais inchadas... -</p> -<p> -—Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior. -Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes. -Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a -chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; -conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e -applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos -martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o -melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar -qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe -contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os -filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já -morta. -</p> -<p> -Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e -confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não -lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão! -</p> -<p> -Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de -novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das -moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas. -</p> -<p> -Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham, -parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto, -para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de -mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez. -</p> -<p> -—A senhora vem morar pr'a qui? -</p> -<p> -—Não; vim fazer uma visita. -</p> -<p> -—A quem, inda que mal pergunte? -</p> -<p> -—Ás senhoras Rodrigues; conhece? -</p> -<p> -—As duas velhotas da travessa de S. Sebastião? -</p> -<p> -—Essas mesmo. -</p> -<p> -—Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou -conter-se, abalou a fallar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram -muito conhecidas no bairro. Diziam que D. Itelvina passava horas da -noite excavando o quintal, á procura dos afamados thesouros guardados -pelos jesuitas. Os visinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra -do pateo, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança. -</p> -<p> -A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus -haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que -ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe -comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras! -</p> -<p> -Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para -a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe -puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge. -</p> -<p> -—Uê! que é que você quer? -</p> -<p> -—Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do -seio uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda. -</p> -<p> -—Que favor, gente? -</p> -<p> -—Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o -dinheiro que offerecia á mulata. -</p> -<p> -—Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!... -</p> -<p> -—P'ra nada! faça esta esmola... -</p> -<p> -E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro, -rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para -casa. -</p> -<p> -As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito -quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos -Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração. -</p> -<p> -Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a -baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu <i>phaeton</i>, -que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar -os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas -irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama. -</p> -<p> -O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou: -</p> -<p> -—Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da -mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só! -</p> -<p> -O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito <i>chic</i>, e ella -sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle -rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera -tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora -não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... -Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus -pensamentos: -</p> -<p> -—Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro -foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o -que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração -do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si... -</p> -<p> -Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que -percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem -calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de -contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo -restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia -nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella -fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a -moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto, -havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala. -</p> -<p> -Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e -os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á -mãe. -</p> -<p> -Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata: -</p> -<p> -—Vamos, Noca! -</p> -<p> -—Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira... -</p> -<p> -A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para -as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco -Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher -mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas -visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque -era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava -sempre escancarado. -</p> -<p> -Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de -Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto -da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de -se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os -gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que -mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar. -</p> -<p> -A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava -para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia -acceitavam, com agrado, num sorriso... -</p> -<p> -Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas -gordas estrondearam no jardim. -</p> -<p> -—É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e -correndo para fóra. -</p> -<p> -Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta, -quando elle passou pelo corredor. -</p> -<p> -Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe -a mão, luminosa de pedrarias. -</p> -<p> -Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou: -</p> -<p> -—Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este -brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido... -</p> -<p> -Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito -de desviar a attenção. -</p> -<p> -—Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão. -</p> -<p> -—Brilha tanto! -</p> -<p> -—É do Cabo, muito amarello. -</p> -<p> -—Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido. -</p> -<p> -—Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de -um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena -que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem. -</p> -<p> -—Só. -</p> -<p> -—Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro. -</p> -<p> -—Versos? -</p> -<p> -—Não. Um romance. -</p> -<p> -—Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma -monotonia... -</p> -<p> -Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos -resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia -maravilhoso! depois, voltando-se: -</p> -<p> -—O livro? -</p> -<p> -—Está aqui. -</p> -<p> -—Já leu? -</p> -<p> -—Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso. -</p> -<p> -—Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras -perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas -responsaveis por tudo—como se não pagassemos caro a felicidade que -fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os -castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não -poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me -torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do -fim. -</p> -<p> -—Não tenha remorsos; o nosso não acabará! -</p> -<p> -—Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o -primeiro anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a -mulher, por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que -não sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é -commettido? Ha sempre um vestigio <i>da outra</i>, que se mostra em um -gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se -com as compensações que nos trazem... -</p> -<p> -—Isso tudo é vago e abstracto. -</p> -<p> -—Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das -amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é -isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me -pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo -amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te -amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só -para mim! -</p> -<p> -Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de -ciume. Passado um instante de silencio, murmurou: -</p> -<p> -—É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. -Bem, levarei o livro. Adeus. -</p> -<p> -—Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido, -illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa. -Ensine-me a fallar, Gervasio. -</p> -<p> -—Então, diga lá:—amo-te! -</p> -<p> -E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente. -</p> -<p> -Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no -jornal eram do capitão Rino. -</p> -<p> -—São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar. -</p> -<p> -—Ih! então elle é muito rico? -</p> -<p> -—É. Vão brincar. -</p> -<p> -As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico -ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito -branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha, -faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo. -</p> -<p> -Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o -amaria a elle, em toda a sua vida. -</p> -<p> -Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a -porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e -Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae. -</p> -<p> -Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma -entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por -aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a -todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis -quando menos se esperava. -</p> -<p> -Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada. -Gervasio ergueu-se. -</p> -<p> -—Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas -na rua do Ouvidor... -</p> -<p> -—Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por -sua causa! E ella vem perto!... -</p> -<p> -—Tontinha! e não sou eu mais velho? -</p> -<p> -—Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você... -</p> -<p> -—Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos -com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não -acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o -Lelio. -</p> -<p> -Camilla acompanhou-os ao terraço. -</p> -<p> -—Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro. -</p> -<p> -—Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me... -</p> -<p> -—Ella é estudiosa... -</p> -<p> -Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim; -depois disse, voltando-se indignado para Camilla: -</p> -<p> -—O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos -canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem -instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez -acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença. -</p> -<p> -Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz -idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo -ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais, -folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem -guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro? -</p> -<p> -Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o -medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa... -</p> -<p> -Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico, -bem installado, mas muito mettido comsigo. -</p> -<p> -Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco -Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha -que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança, -mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas -cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a -menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que -tratou tambem de fortalecer Mario. -</p> -<p> -Camilla dizia então em extase, ao marido: -</p> -<p> -—Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra -victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra -no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia -ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa -mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a -morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As -gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da -mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras -insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu -pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A -evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por -sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que -essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus -gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com -redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que -uma obra sua. -</p> -<p> -Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle -lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas, -inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e -harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de -maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem -escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço, -obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua -alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo -delicado—apaixonou-se por ella. -</p> -<p> -Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a -solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o -medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor -d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura. -</p> -<p> -Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias -mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se -vencer. -</p> -<p> -Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma -lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa -salvaguardava-se nessa crença. -</p> -<p> -Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da -familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe, -com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento -de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma -casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das -habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de -dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas. -</p> -<p> -Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na -enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade. -</p> -<p> -Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente -em casa o ouvia com attenção. -</p> -<p> -Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar -alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio. -</p> -<p> -Dias depois ella dava os últimos retoques á sua <i>toilette</i>, em frente -ao espelho, quando o marido entrou. -</p> -<p> -Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar: -</p> -<p> -—Por que é que você veio tão cedo? -</p> -<p> -—Por duas razões... -</p> -<p> -E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se, -indagando com interesse: -</p> -<p> -—Você está doente? Diga! -</p> -<p> -—Não tenho nada filha, descança. -</p> -<p> -Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho. -</p> -<p> -—Então que motivos são esses? -</p> -<p> -—O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou -hoje uma perna. -</p> -<p> -—O velho? -</p> -<p> -—Sim. -</p> -<p> -—Coitado! como foi? -</p> -<p> -—Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas -quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais -serio. -</p> -<p> -Sem afastar do rosto o <i>pompon</i> do pó de arroz, Camilla interrogou com -certa indifferença: -</p> -<p> -—Que é? -</p> -<p> -—Trata-se do senhor seu filho. -</p> -<p> -—Meu só?! tem graça... -</p> -<p> -—Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, -o tal senhor! -</p> -<p> -—Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?! -</p> -<p> -—Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das -patifarias do rapaz és tu. -</p> -<p> -Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera: -</p> -<p> -—Hein?! -</p> -<p> -—Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu -filho! -</p> -<p> -—Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla, -olhando para o marido de alto. -</p> -<p> -Elle continuou: -</p> -<p> -—É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar -assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e -com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?! -</p> -<p> -—É a mocidade... -</p> -<p> -—Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe. -</p> -<p> -—Trabalhar! Mario tem só dezenove annos! -</p> -<p> -—Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume! -</p> -<p> -—Mas por que não lhe falla você? -</p> -<p> -—Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um -desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não -lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o -meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem -sei, se não me tirasses toda a força moral. -</p> -<p> -—Eu?! -</p> -<p> -—Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o -resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha... -</p> -<p> -—Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma -acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o -aconselhe a deixar a tal mulher?... -</p> -<p> -—Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não -posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os -caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho, -ou o mando para a Marinha. -</p> -<p> -—Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho! -</p> -<p> -—Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não -seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros -filhos! -</p> -<p> -—Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito... -</p> -<p> -—Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está -bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As -Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth. -</p> -<p> -—Que me importam a mim as Gomes! -</p> -<p> -Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por -entre os vidros, informou com voz amavel: -</p> -<p> -—Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a -Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da -procedencia. -</p> -<p> -—Que procedencia? -</p> -<p> -—Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio... -Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso... -</p> -<p> -—Você lembrou-se. -</p> -<p> -—Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a -Nina ... bom casamento!... -</p> -<p> -Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de -perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ... -pois sim! -</p> -<p> -—Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do -Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á -gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe -damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal -sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam -geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e -que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a -ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já. -</p> -<p> -Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes -da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um -movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo: -</p> -<p> -—Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho... -</p> -<p> -Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as -ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, -eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou -bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e -escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como -culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance -da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e -vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos. -</p> -<p> -O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico, -emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras. -</p> -<p> -Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para -a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas -farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella! -já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se -via! -</p> -<p> -—Cara senhora, então, o amigo Gomes? -</p> -<p> -—Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina. -</p> -<p> -—Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se -queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A -mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada -d'elle não vale nada! -</p> -<p> -Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr. -Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim: -</p> -<p> -—Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de -guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O -homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses -apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora -ao amigo que amanhã vá lá vêl-o. -</p> -<p> -—Perfeitamente. Onde mora? -</p> -<p> -—Na rua Funda, tenho aqui o numero... -</p> -<p> -Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis. -</p> -<p> -—Rua Funda? Onde é isso? -</p> -<p> -—É no outro mundo, lá para os lados da Saúde. -</p> -<p> -Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a -escada exterior do palacete, olhando de relance para todos. -</p> -<p> -As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não -verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e -macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes -perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a -passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre -a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera. -</p> -<p> -Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos -cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos -dedos estrellados de anneis. -</p> -<p> -Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar -pelo criado a bandeja de prata com o vermouth. -</p> -<p> -—Por que não subiram? -</p> -<p> -—Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella -está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos... -</p> -<p> -—Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não -toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não -imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina! -</p> -<p> -Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas -arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz -que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr -de vestidos compridos. Que horror! -</p> -<p> -—Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze -annos... -</p> -<p> -—Quatorze ... quasi quinze! mas não parece. -</p> -<p> -—Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação -tem deveres... -</p> -<p> -Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito -perfumada. -</p> -<p> -—Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa -colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido -buscal-a, a senhora não a teria agora... -</p> -<p> -—Ahi está... -</p> -<p> -D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e -depois, voltando-se: -</p> -<p> -—Camilla, você já comeu geleia de manga? -</p> -<p> -—Não me lembra... -</p> -<p> -—Pois é gostosa e facil de fazer; olhe... -</p> -<p> -Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para -ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as -palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de -longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao <i>Neptuno</i>, da -esquerda, ou um—<i>expreme-se</i> e põe-se na peneira—da -direita. -</p> -<p> -Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se -d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de -sentimento. -</p> -<p> -Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer -comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava: -</p> -<p> -—A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. -A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho -e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,—é -mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa! -</p> -<p> -O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou -Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle -conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica, -de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita -gente boa. -</p> -<p> -Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se -na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante. -</p> -<p> -Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças -da visinhança, as Bragas. -</p> -<p> -Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os -joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle -estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, -interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E -foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da -rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama -Torres, com elogio e assombro. -</p> -<p> -Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça -picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras. -</p> -<p> -O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao -principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os -olhares trocados entre Camilla e Gervasio. -</p> -<p> -Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão -evidente? -</p> -<p> -Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo. -Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem -abaixar os olhos: -</p> -<p> -—Que parecerá a terra, vista de lá...? -</p> -<p> -—Uma gotta de luz... -</p> -<p> -—Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas -hoje estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria -embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave! -</p> -<p> -—É Vesper... -</p> -<p> -—Linda, linda, linda! -</p> -<p> -—Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está -limpido hoje! Maravilhosa noite! -</p> -<p> -—Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro. -Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro? -</p> -<p> -—Porque não tem astros. -</p> -<p> -—Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu. -</p> -<p> -—Por que? -</p> -<p> -—Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para -que o diabo não tornasse a passar pelo buraco. -</p> -<p> -O capitão sorriu. -</p> -<p> -—Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite... -</p> -<p> -—Como as corujas. -</p> -<p> -—Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é -bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me -levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar -para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho -que estou voando ... e é tão bom! -</p> -<p> -O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que -lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a -lua e a côr das estrellas. -</p> -<p> -Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava -á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o -cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de -uma curiosidade insatisfeita. -</p> -<p> -Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em -quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de -Camilla. -</p> -<p> -Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e -continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo -illuminado. -</p> -<p> -Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha -requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para -uma valsa. -</p> -<p> -—Quem toca? -</p> -<p> -Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal. -</p> -<p> -Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo -do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o -amigo negava, affirmando o tino especial do outro. -</p> -<p> -Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das -moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, -atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas -rodopiaram pela sala. -</p> -<p> -Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. -D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote -gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras, -prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas, -como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando -o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada, -recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e -as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo -fechar as janellas da sala. -</p> -<p> -O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á -espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da -mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce, -ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos. -Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se -não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido. -</p> -<p> -Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto -d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo -gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo -brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e -partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da -arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido -fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no -terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma -sonata harmoniosa e larga. -</p> -<p> -Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella -musica e naquella noite. -</p> -<p> -Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o -vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor -feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para -não ver... -</p> -<p> -A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... -Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. -Camilla apontou-a com o dedo. -</p> -<p> -A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente -Theodoro gritou para cima: -</p> -<p> -—Não são horas de musica. Para a cama! -</p> -<p> -Depois, em um murmurio satisfeito: -</p> -<p> -—O diabo da pequena tem sentimento, hein? -</p> -<p> -—Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem -inspiração! -</p> -<p> -—Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond -doutor! -</p> -<p> -O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo -a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar -dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a -cidade. -</p> -<p> -Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca, -que vigiava o somno de Rachel e de Lia. -</p> -<p> -—Mario já entrou, Noca? -</p> -<p> -—Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario -ficava lá... -</p> -<p> -—Lá?... Em casa da tal Luiza?! -</p> -<p> -—É... -</p> -<p> -—Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que -Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga -que elle está dormindo. -</p> -<p> -—E se elle amanhã perguntar a Dionysio? -</p> -<p> -—Você previna primeiro o rapaz. -</p> -<p> -—Tambem não sei p'ra que <i>seu</i> Mario faz assim; só p'ra metter a -gente em embrulhos... -</p> -<p> -—Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei -conselhos... -</p> -<p> -—Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico -esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa! -</p> -<p> -—Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca! -</p> -<p> -Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado -e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a -caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe: -</p> -<p> -—Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom -dar-lhe uma pastilha de antipyrina... -</p> -<p> -—Sim, senhor, eu vou vêr... -</p> -<p> -Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a -cabeça. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IV">IV</a></h4> - -<p> -Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus -pés bem calçados para a rua dos Benedictinos. -</p> -<p> -Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções -fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que -topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados -pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e -pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes, -saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida. -</p> -<p> -Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e -a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a -atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle -pouco afeita a penetrar naquelle ambiente. -</p> -<p> -Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para -tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como -se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino -de todas aquellas coisas. -</p> -<p> -Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do -<i>veston</i>, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho -faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas -ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho -diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos -carregadores boçaes. -</p> -<p> -Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de -subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a -grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas -flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens, -aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço... -</p> -<p> -O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua -gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles -homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O -seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles -biceps de athletas. -</p> -<p> -Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não -perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e -mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo. -</p> -<p> -—Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o -caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, -olhe que é mais extrangeiro do que eu! -</p> -<p> -O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes, -e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado -á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho. -</p> -<p> -E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem -relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, -modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar -atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um -cigarrinho. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade. -</p> -<p> -Deu-lhe cigarros. -</p> -<p> -Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia -calor. Ribas lembrou: -</p> -<p> -—Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom. -</p> -<p> -—Não tenho sêde. -</p> -<p> -—É que lá para deante não ha nenhum que preste... -</p> -<p> -«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade -ao rapaz.» -</p> -<p> -Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e -papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma -occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, -sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O -dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio -deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se -dependurava uma larga alça de cadarço vermelho. -</p> -<p> -Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de -modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á -claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que -escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos -seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma -cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá -dentro como um leve zumbir de abelhas... -</p> -<p> -O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo -da sala e arrebatou a viola para dentro. -</p> -<p> -«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis -para a mesa. -</p> -<p> -Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o -medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu -conjuncto de velharias e sobejidões. -</p> -<p> -A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos, -marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas -onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de -mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande -musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle -canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada -bestialmente pelo pão. -</p> -<p> -Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr. -Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um -vapor do Lloyd. -</p> -<p> -Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra -vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes -levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche. -</p> -<p> -Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o -Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um -caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino -loiro, que os outros denominavam o <i>Bota</i>—por trazer uma bota -velha suspensa de um barbante a tiracollo—, e um italianinho -sardento, sem pestanas. -</p> -<p> -—Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo -hontem no jogo ... reclamavam. -</p> -<p> -E o Ribas defendia-se, hypocritamente: -</p> -<p> -—Que jogo? Eu?! -</p> -<p> -—Sim, senhor, não se faça de engraçado! -</p> -<p> -O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o -caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas. -</p> -<p> -Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de -provocações. -</p> -<p> -Que se arranjasse. -</p> -<p> -A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez, -sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada -fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de -vidros quebrados um vaso de cravos brancos. -</p> -<p> -As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres. -</p> -<p> -Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou -embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas, -mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento. -</p> -<p> -Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia -tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca, -o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de -sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante. -</p> -<p> -Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade, -abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da -doidice—e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie -por toda a sua pessoa. -</p> -<p> -E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já -esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou. -</p> -<p> -No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro -de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava -ao sol. -</p> -<p> -Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de -hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e -tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande -portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem -pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as -saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente. -</p> -<p> -Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos -arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas -amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja. -</p> -<p> -—O senhor já passou a rua Funda! -</p> -<p> -—Nesse caso voltaremos. -</p> -<p> -E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso -um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada -de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas, -suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava, -erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não -comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços -pendurados. -</p> -<p> -Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com -orgulho: -</p> -<p> -—Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá -licença?... -</p> -<p> -—Pode ir. -</p> -<p> -Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem -macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada -em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia -parco,—não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance -dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não -errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a -meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta: -linhas de rede de <i>crochet</i> e de costura, anzóes e agulhas, cigarros, -objectas de pescaria e cartas de A B C. -</p> -<p> -O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham -recebido bem... -</p> -<p> -Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou: -</p> -<p> -—Ahi está a rua Funda. -</p> -<p> -Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de -um quadro lhe suggeriam. -</p> -<p> -Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da -Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes -espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se -negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles -velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha -uma aquarella em casa. -</p> -<p> -—É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia -galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de -janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha. -</p> -<p> -O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna -extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a -filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do -armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o -Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e -aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita. -</p> -<p> -—Quem procura? -</p> -<p> -Dr. Gervasio explicou-se. -</p> -<p> -—Faça o favor de entrar... -</p> -<p> -A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as -mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de -costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de -cadeira. -</p> -<p> -O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer. -</p> -<p> -Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão. -</p> -<p> -A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em -desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas -pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista, -depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em -ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus -trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos -homens um interesse mediocre. -</p> -<p> -Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta -descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos. -Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande -movimento no armazem... -</p> -<p> -A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns -goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade. -</p> -<p> -O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o -Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha -vivia! Com a morte d'ella tudo desandara... -</p> -<p> -O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e -despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro -casaco enfeitado a <i>crochet</i>. -</p> -<p> -Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o -palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas. -</p> -<p> -Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir -d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina -pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo -mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha -e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu. -</p> -<p> -Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam -sosinhas, ladeando precipicios. -</p> -<p> -No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras -engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e -gatos magros se esgueiravam rente ás paredes. -</p> -<p> -Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade -penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia -que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais -propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma -mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica. -Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de -velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza. -</p> -<p> -Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações -singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma -consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a -Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo... -</p> -<p> -Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, -corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o -mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite, -disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem -se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e -penetraria em um d'aquelles albergues. -</p> -<p> -Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a -lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca. -</p> -<p> -Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta -trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em -fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes. -</p> -<p> -—Bonito! -</p> -<p> -D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos -se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de -atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não -haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma -unica dobradiça perfeita. -</p> -<p> -Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, -resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma -pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos -brutos, entre ratazanas e aguas servidas. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito, -D. Joanna sahir de uma casa. -</p> -<p> -Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado. -</p> -<p> -Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e -em nickeis. -</p> -<p> -Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e -foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar -livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de -um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho. -</p> -<p> -Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do -mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que -passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada. -Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas -ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de -esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce -tom de devoção. -</p> -<p> -Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. -Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja. -Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as -coisas do céu! -</p> -<p> -Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth, -Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario! -</p> -<p> -As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o -que a maguava. -</p> -<p> -Precisava salvar as creanças. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na -Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem! -</p> -<p> -—Mas D. Milla vae á missa todos os domingos... -</p> -<p> -—Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um -preceito de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta -ver como ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve -algum tempo no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda -não cuidou da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas... -</p> -<p> -—Faz bem. -</p> -<p> -—O senhor é dos taes, que não querem crer. -</p> -<p> -—Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa. -</p> -<p> -—Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o -senhor está empurrando Camilla para o inferno... -</p> -<p> -—Eu?! -</p> -<p> -—Quem mais! -</p> -<p> -—Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario... -</p> -<p> -—Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que -eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não -merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que -se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu -pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados -vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes, -sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para -que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ... -emquanto que eu, pobre peccadora... -</p> -<p> -—Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal -disfarçando a sua ira; não a entendo! -</p> -<p> -Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda -dar uma volta pela Pedra do Sal. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle -chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham -varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do -Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos -claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela -raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha -sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a -verdade. -</p> -<p> -O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, -as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que -ainda os franzidos da saia exaggeravam. -</p> -<p> -Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para -lhe dizer ainda alguma coisa do peccado. -</p> -<p> -O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre. -Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus -sentimentos eram de especie confusa e tristonha. -</p> -<p> -Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores -não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e -cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia -ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta -não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos -homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem -segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle, -sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar -inveja aos menos afortunados... -</p> -<p> -Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu -o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos -conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu -centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro, -se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento, -aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e -mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e -barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de -lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo -promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus -adorados segredos. -</p> -<p> -Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor. -</p> -<p> -Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na -esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e -um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="V">V</a></h4> - -<p> -Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar. -</p> -<p> -—Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço. -</p> -<p> -—Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda -foi outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia! -</p> -<p> -—Vae pregar a outra freguezia. -</p> -<p> -—Verdade, verdade, seu pae tem razão... -</p> -<p> -—Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse -Mario com ironia, dando o ultimo retoque á <i>toilette</i>. Nisso -abriram a porta, elle voltou-se; era a mãe. -</p> -<p> -Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os -travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a -janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto. -</p> -<p> -—Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo. -</p> -<p> -—Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos. -</p> -<p> -—Como quizer. Sente-se, mamãe. -</p> -<p> -Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe -nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito: -</p> -<p> -—Então? -</p> -<p> -—Estás nos dando serios desgostos, Mario. -</p> -<p> -—Eu? -</p> -<p> -—Sim; bem sabes de que se trata. -</p> -<p> -—Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço... -</p> -<p> -—As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas! -</p> -<p> -—As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar. -</p> -<p> -—Enganas-te. -</p> -<p> -Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio. -</p> -<p> -—Então não comprehendo. -</p> -<p> -—Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ... -dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna... -</p> -<p> -—Oh! mamãe... -</p> -<p> -—Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando -a encontro na rua nem sei onde ponho os pés. -</p> -<p> -Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu. -</p> -<p> -—Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens -tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror -expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que -emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte -sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem... -</p> -<p> -Mario mordia os beiços, brancos de raiva. -</p> -<p> -—Mamãe... -</p> -<p> -—Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a -exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, -ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens -commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas -e mais dividas! -</p> -<p> -Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos, -nervosamente, as costas de uma cadeira. -</p> -<p> -—Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo. -</p> -<p> -Mario sorriu com desdem. -</p> -<p> -—Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade. -</p> -<p> -—Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um -animal. -</p> -<p> -—Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e -outras aspirações. Meu pae não me comprehende. -</p> -<p> -—Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?! -</p> -<p> -—Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! -disse elle com redobrado escarneo. -</p> -<p> -—Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela -ironia do filho. -</p> -<p> -—Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante -d'ella, com raiva. -</p> -<p> -—Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua -saude, que é fraca, e da tua reputação. -</p> -<p> -—Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso! -</p> -<p> -Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance -das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue -arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e -então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario -admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua -vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra -aquelle filho, até então poupado. -</p> -<p> -Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella -insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada -do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou, -destacando as palavras, que sahiam pesadas: -</p> -<p> -—A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não -teve coragem para tanto; mas em seu nome, não! -</p> -<p> -—Mario! -</p> -<p> -—Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os -gostos que eu tenho? -</p> -<p> -—O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso -agora que desespera teu pae... -</p> -<p> -—Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem -cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á -familia que... -</p> -<p> -—Basta! -</p> -<p> -—Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter -evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava -dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:—odeio o Dr. Gervasio, e -dou-lhe a escolher entre mim e elle. -</p> -<p> -Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois -elle repetiu, martellando as palavras: -</p> -<p> -—Ou elle ou eu. -</p> -<p> -A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção. -Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando, -grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar -de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e -ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se -tentasse esmagar o coração offendido. -</p> -<p> -Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a -mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma -subita misericordia se apoderou d'elle. -</p> -<p> -Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de -desapparecer. -</p> -<p> -—Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?! -</p> -<p> -Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi -imperceptivelmente: -</p> -<p> -—Nada... -</p> -<p> -Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. -Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos -fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que -pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel -áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,—ah, antes ella fosse -cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das -filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... -Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só -servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente -na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do -seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido! -</p> -<p> -Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros -corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras -pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um -homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa -fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a -bocca do filho a dizer-lhe amarguras... -</p> -<p> -Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do -quarto. -</p> -<p> -Mario aconselhou: -</p> -<p> -—Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia... -</p> -<p> -—Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla -levantando-se. -</p> -<p> -Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão -precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea. -</p> -<p> -Mario respondeu com impaciencia e sem abrir: -</p> -<p> -—Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a -para si, beijou-a na testa e, com carinho: -</p> -<p> -—Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella... -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas, -que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo: -</p> -<p> -—Venha ver, mamãe! -</p> -<p> -—Que coisa linda, mamãe! -</p> -<p> -—O homem disse que foi papae que mandou! -</p> -<p> -—Adivinhe o que é! -</p> -<p> -—Diga; sabe o que é, mamãe? -</p> -<p> -A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula -ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe -aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram -como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons -avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario -sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo, -em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da -casa saberiam tambem? -</p> -<p> -—Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande -relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a -côres, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol -azul. -</p> -<p> -Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a -menina Maria. -</p> -<p> -—Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia. -</p> -<p> -—Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria! -</p> -<p> -—É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria? -</p> -<p> -Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para -os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus -bibes brancos, e os cabellos soltos. -</p> -<p> -—Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, -puxando-as para si. -</p> -<p> -—Eu gosto muito! -</p> -<p> -—Eu gosto mais! -</p> -<p> -—Mentira! quem gosta mais sou eu! -</p> -<p> -—Eu acho mamãe muito bonita! -</p> -<p> -—Eu tambem acho. -</p> -<p> -—E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse -bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda -assim vocês gostariam de mim? -</p> -<p> -—Muito, muito! -</p> -<p> -—Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do -Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com -medo ... que fariam vocês? -</p> -<p> -—Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a -comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias... -</p> -<p> -—E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe... -</p> -<p> -—Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe! -</p> -<p> -Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu -sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas -defendel-a-iam dos maus tratos do mundo. -</p> -<p> -A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu -violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o -grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro. -</p> -<p> -Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de <i>ménagère</i>, bem -penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um -aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu -corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma -anecdota do copeiro. -</p> -<p> -Camilla teve um sobresalto. -</p> -<p> -Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro -e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel -e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na -cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua -innocencia. -</p> -<p> -—Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista -depois de collocado no meio do lago? -</p> -<p> -—Acho... -</p> -<p> -—É de muito gosto! -</p> -<p> -Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão -núas para o sereno das noites? Muito <i>chic</i>! -</p> -<p> -Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal -concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo; -queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a -opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo? -</p> -<p> -—Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem... -</p> -<p> -—Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é -boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh! -Dionysio! chama ahi <i>seu</i> Mario! -</p> -<p> -Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu, -e Ruth, instando pelo almoço: -</p> -<p> -—Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem -intenção, colhendo uma <i>Marechal Neel</i> para o peito. -</p> -<p> -Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal -disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo? -</p> -<p> -Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um -trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella -encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo, -e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com -que ella achasse um trevo de quatro folhas! -</p> -<p> -Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com -ancia a folhinha fatidica. -</p> -<p> -Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se -chamou-o. -</p> -<p> -—Uê! porque não foi almoçar?! -</p> -<p> -—Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe... -</p> -<p> -—Não foi se despedir d'ella? -</p> -<p> -—Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo. -</p> -<p> -—Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está -ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe... -</p> -<p> -—Cantigas. Adeus. -</p> -<p> -—Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:—Sua -felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro... -</p> -<p> -—Adeusinho! -</p> -<p> -—Adeus, meu filho... -</p> -<p> -A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella -ajudara a criar desde o primeiro dia. -</p> -<p> -Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir -a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a -tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não -deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade, -verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto -que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle -poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?... -o diabo do feiticeiro deu bruxaria a <i>nhá</i> Milla... Se <i>seu</i> -Theodoro sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? -Bocca, fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! -Mario tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso -lhe dá gosto, que aproveite! -</p> -<p> -Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou -para a copa, á procura de almoço. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VI">VI</a></h4> - -<p> -Numa manhã limpida, côr de saphira, Camilla e Ruth entraram com -Theodoro e o Dr. Gervasio na lancha—<i>Aurora</i>—em demanda -do <i>Neptuno</i>. -</p> -<p> -O sol cobria com uma rêde de ouro movediça a superficie das aguas; -fazia calor. -</p> -<p> -As senhoras ageitaram os folhos das suas saias de linon no banco da ré, -e abriram as sombrinhas claras. -</p> -<p> -—Sempre gostaria que me provassem a serventia d'esses chapéos de sol. -Não resguardam nada. São objectos inuteis. Eu se fosse mulher nunca me -sujeitaria a modas, disse Theodoro. -</p> -<p> -—Faria mal. Quanto aos chapéos, acho-os bonitos; são muito -decorativos. Veja como a côr de rosa da sombrinha de Ruth, e a crême -de D. Milla se harmonisam neste fundo azul. Digam o que quizerem; para -mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervasio. -</p> -<p> -—Póde ser. Eu só gosto do que é positivo e pratico. Emfim, nas -senhoras ainda eu perdou o certas niquices... -</p> -<p> -Sabia Theodoro que o espirito e a posição de um homem se espelham nas -suas roupas; por isso as d'elle eram sempre graves. -</p> -<p> -Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem -abotoada sobre o estomago arredondado. -</p> -<p> -A sua cartola luzidia, bem tratada, affirmava ás turbas que ia alli -alguem de cortezia e respeito; era como se o seu titulo de commendador -tremeluzisse no setim d'aquelle pello. Não sahia de casa sem carregar o -guarda-sol de excellente seda portugueza e castão de ouro, traste que o -protegeria em um amplo circulo, se acaso chuvas cahissem -inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonisara á maneira do -traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: <i>taes como</i>, -<i>de maneiras que</i>, <i>porém</i>, <i>tal e coisas</i>... -</p> -<p> -Já a lancha singrava as ondas mansas, quando elle contou ao Dr. -Gervasio que ahi uns collegas seus amigos queriam arranjar-lhe um titulo -de Portugal; elle fizera constar que não acceitaria a distincção, -mas, se a coisa viesse, que havia de fazer? -</p> -<p> -O medico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de um -sorriso. -</p> -<p> -—Outros usarão d'esses titulos com menos direito, continuou o -negociante, não digo que não; em todo o caso... -</p> -<p> -Milla lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes -sommas com que elle entrava nas subscripções. -</p> -<p> -Elle riu-se. -</p> -<p> -—Estou vendo que você quer ser viscondessa, hein? -</p> -<p> -Ella encolheu os hombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de -viver bem, á larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe. -</p> -<p> -Iam todos calados, quando Ruth suspirou: -</p> -<p> -—Tenho pena de não ter trazido o violino! -</p> -<p> -—Que tolice! havia de ter graça! -</p> -<p> -—Mamãe, quando eu me commovo, gósto de tocar. Entendo-me tão bem com -a musica! -</p> -<p> -Os paes riram-se da asneira e o Dr. Gervasio fixou o rosto pallido da -mocinha. Esse não riu. -</p> -<p> -A lancha <i>Aurora</i>, muito faceira, reluzente nos seus metaes, cortava -as aguas com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras. -</p> -<p> -—Este passeio está-me abrindo o appetite para uma viagem... Se as -coisas continuarem como até aqui, é facto assentado que levarei a -minha gente ainda este anno á Europa, disse Francisco Theodoro. -</p> -<p> -Camilla e o medico trocaram um olhar de susto. -</p> -<p> -Vendo o lindo rosto, sempre tão fresco e tão moço, de Milla, os seus -cabellos negros, o seu collo cheio, os seus olhos de velludo, -provocantes e apaixonados, toda aquella figura de mulher amorosa, quente -e grave, que elle não se cançava de estreitar nos braços, a idéa de -uma separação afigurou-se-lhe impossivel e monstruosa. -</p> -<p> -Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os -passados; a doçura da sua convivencia enternecia-o, como se a -entrevisse já através da saudade. -</p> -<p> -Ella assegurou-lhe em um sorriso que não partiria. Não haveria forças -capazes de a arrancarem do seu amor. -</p> -<p> -Francisco Theodoro mostrava agora á filha o casco branco de um navio de -guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o -castello de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames, -tinha, na altura, proporções de boneco. -</p> -<p> -Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, pondo grinaldas de azas -fugitivas no azul immaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas -torres, esfumava-se em uma neblina rosea, esbatida em diaphana violeta. -</p> -<p> -—Como é bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha em -cheio da barra. Está-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria -marinheiro. -</p> -<p> -—Outra tolice. -</p> -<p> -—Mamãe, o azul é uma côr tão bonita! -</p> -<p> -—Se fosses rapaz ... se fosses rapaz ... realmente antes fosses tu o -rapaz e Mario a rapariga ... resmungou Theodoro. -</p> -<p> -—Pobre do Mario ... já tardava ... disse Milla. -</p> -<p> -—Isto não é fallar mal; é a verdade. -</p> -<p> -—Não é fallar mal dizer que elle não tem aptidões, que é -insignificante? -</p> -<p> -—Eu não disse tal. -</p> -<p> -—Mas deu a entender. Eu nem sei até como elle é tão bom, ouvindo -tantas insinuações. Se fosse outro, sabe Deus o que teria acontecido! -É porque tem mesmo muito bom coração. Os erros que commette são -naturaes da edade... -</p> -<p> -—Senhora! não o defenda. Bem sabe porque é que eu digo as coisas. -Não fallo atôa. -</p> -<p> -Não, ella não sabia; o que via era uma grande injustiça, pesando -continuamente sobre a cabeça do filho. Que mais queriam que o pobre -fizesse? Elle não nascera para os trabalhos brutos, do commercio, era -um delicado. Certamente que não tinha edade para se divertir a jogar a -bisca em familia; os seus dezenove annos tinham outras exigencias. -Reparassem todos que era naturalissimo... -</p> -<p> -—Qual naturalissimo, qual nada! Indecente, sim, é que aquillo era. Um -bilontrinha, o tal <i>seu</i> Mario. Ainda na vespera soubera de novas -proezas. Elle deixara a franceza, sim, senhores; parecia cederão -conselho da mãe; mas para que? Para andar em publico de braço dado com -outras, talvez peiores, e entrar em casas de jogo, que a policia ataca! -</p> -<p> -Camilla mostrou Ruth ao marido, com um olhar afflicto, para que -moderasse os furores da sua linguagem. -</p> -<p> -Contente por cortar o dialogo, o medico apontou um vapor, que já se via -de perto. -</p> -<p> -—O <i>Neptuno</i> ... é bonitinho, reparem. -</p> -<p> -—Não é feio, não ... resmungou Theodoro, já desviado dos seus -pensamentos; mas ... esperem! lá no convéz parece estar uma mulher. -Que diacho! o capitão Rino será casado? -</p> -<p> -—Se é possivel! se elle fosse casado nós estariamos fartos de o -saber. Você diz cada tolice... -</p> -<p> -—Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein? -</p> -<p> -—A mim? nenhum certamente. Que me importa!... e Milla riu-se, -querendo subjugar á força a raiva que lhe ficára da discussão com o marido. -</p> -<p> -O medico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado? -nenhum!... certamente. E se dissessem d'elle a mesma cousa a Milla, que -responderia ella! a mesma cousa? com o mesmo levantar de hombros, com o -mesmo desdem? Teve impetos de lh'o perguntar; mas como? Alli era -impossivel... Ficava para depois. -</p> -<p> -A lancha atracou ao <i>Neptuno</i>, e do portaló desceu o capitão Rino, -vestido de flanella branca, com uma bella rosa vermelha na lapella. -</p> -<p> -Extranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro. -Tinha descido para ajudar as senhoras. Ruth sahiu da lancha num salto, -mostrando as pernas finas, contente por aquella novidade, aquelle mar -circumdado de montanhas azues, aquellas velas brancas e aquelles cascos -alcatroados, fluctuantes, com que se cruzara no caminho. O capitão Rino -mal olhou para ella; suspendeu-a, com pulso forte, até o primeiro -degrau da escada e voltou-se logo para Camilla, com olhar ancioso, -extendendo-lhe os braços. Ella cahiu-lhe em cheio sobre o peito largo e -riu-se, pedindo desculpas. Era tão pesada! Elle corou, tonto, tremulo, -sem achar uma palavra com que lhe respondesse. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla -sobrecasaca, não prescindiu da mão auxiliadora do capitão; o Dr. -Gervasio veiu por fim, tirando num cumprimento o seu chapeu molle. -</p> -<p> -Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indifferentes -pelos visitantes. Junto ao portaló, estava uma senhora, a mesma, -evidentemente, que elles tinham avistado da lancha. -</p> -<p> -Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes -aos do capitão Rino, de um azul de faiança, e uma physionomia vaga, de -anjo decorativo. Contrastando com o typo, trazia uma <i>toilette</i> -escarlate, que lhe dava valor á pelle cor de lirio pallido, e parecia -uma offensa ao seu corpo virginal. O capitão apresentou-a logo a todos -com duas palavras: -</p> -<p> -—Minha irmã. -</p> -<p> -Foi depois, aos poucos, durante a visita do <i>Neptuno</i>, que viram desde -o tombadilho até ao porão, que souberam que essa irmã, até alli -ignorada, se chamava Catharina, e vivia em companhia da madrasta, -senhora viuva, em uma frondosa chacara do Cosme Velho. -</p> -<p> -Catharina ajudava o irmão a mostrar o <i>Neptuno</i>, e por vezes as suas -explicações tinham maior clareza que as d'elle. Se elle parava, ella -tomava-lhe a palavra cortada, completava-a e seguia para deante com todo -o desembaraço. -</p> -<p> -Depois de percorrerem o navio, o capitão Rino, convidou todos para um -vermouth gelado, na sua camara. -</p> -<p> -O espaço não era grande, Camilla, Ruth e Catharina apertaram-se no -mesmo divan, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro; -Francisco Theodoro recostou-se em uma poltrona ao pé da mesa, emquanto -o medico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de -livros, e o capitão, em pé, narrava ao negociante vários episodios -das suas viagens ao norte. -</p> -<p> -—Que paiz! que maravilhoso paiz este nosso! completava elle. -</p> -<p> -—É pena não ter povo. Sentenciou Theodoro. -</p> -<p> -—Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia -melhor a gloria do mundo, quando elle, exgotado pela exploração das -outras, voltar para ellas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para -uma outra raça de grandes ideaes, que ainda ha de vir. Tão formosas -promessas não se fazem ao vento... -</p> -<p> -—Outra raça ... outra raça ... vinda de onde?! nascida de quem?! -</p> -<p> -—Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos paizes -velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se nos novos. O futuro do mundo é -nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o -povo brasileiro é bom. -</p> -<p> -Francisco Theodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a -Republica. Aquella revolução fôra uma revelação. Sentia-se -engasgado com o exilio do imperador. Torceu assim a conversa para novo -assumpto. -</p> -<p> -Dr. Gervasio conhecia as ideias politicas de Francisco Theodoro; -ouvia-lhe sempre os mesmos commentarios. Estava inteirado; quanto ás do -outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvil-as. Voltou-lhe -as costas e poz-se a ler as lombadas dos livros da estante: -</p> -<p> -—<i>Virgilio</i> ... <i>Homero</i> ... <i>Dante</i> ... -<i>Camões</i> ... <i>Gonçalves Dias</i> ... <i>Shakspeare</i> ... bravo! -</p> -<p> -Que especie de homem seria então esse capitão Rino? Leria elle -effectivamente aquelles poetas?! O medico abriu ao acaso o primeiro -livro ao alcance da mão, e observou logo que elle estava annotado, a -lapis, com signaes firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente -consciente do seu claro juizo. Era o <i>Cid</i>. Á primeira pagina onde o -olhar do Dr. Gervasio cahiu, havia este verso marcado com uma linha -gorda: -</p> -<p> -<i>L'amour n'est qu'un plaisir, l'honneur est un devoir.</i> -</p> -<p> -Fallava D. Diogo. O medico releu o verso com um sorriso de sarcasmo. -</p> -<p> -<i>L'amour n'est qu'un plaisir</i>... -</p> -<p> -Pois sim! bem esquecido estaria o velho pae de D. Rodrigo, ou não -chegara na sua juventude a amar com amor! -</p> -<p> -Depois d'aquillo o Dr. Gervasio folheou outros livros litterarios, por -curiosidade, desprezando os technicos, e em todos achou vestigios de uma -leitura intelligente. Bastava; começava a comprehender o homem. -Illudira-se até então, julgando o Rino como um mediocre e um simples. -Um simples seria, mas um mediocre, não. Não o temera nunca como rival, -apezar de o ver apaixonado por Milla; julgara-o fraco, inferior, sem -recursos, falto de elegancia, que é sempre o que seduz as mulheres, -physica e intellectualmente; não passara nunca aos seus olhos de um -marinheiro rude, ingenuo, sem a graça da palavra a tempo, nem a linha -da distincção pessoal. -</p> -<p> -Que conservaria o capitão Rino no cerebro de tanta leitura inquietadora -e extraordinaria? Que nervos eram aquelles, tão perfeitos, que apóz -tantas torturas e delicias pareciam intactos de commoções artisticas? -</p> -<p> -D'ahi—quem sabe?—toda aquella livralhada que elle marcara com o -seu nome, no dominio da posse, viria de algum leilão, de alguma herança, -não representando naquelle gabinete mais que um mero adorno. Era o mais -certo. Era mesmo a unica hypothese verosimil; não admittia que o -capitão Rino fosse amigo de intellectualidades. Aquelle bruto! Fixou-o -com attenção. -</p> -<p> -Não! não eram aquelles olhos limpidos, nem aquellas passadas que -faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ninguem -investigações da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho -raro. Ninguem acreditaria que aquelle homem grande, de carnes duras, -faces rosadas como as de um menino são e modos bonachões, fosse capaz -de entender Shakspeare! -</p> -<p> -Ler livros taes, annotal-os, amal-os, deleitar-se na sua convivencia, -era obra para outra especie de creaturas. Aquillo era um escarneo, não -era outra coisa. Permittia-lhe a leitura de um ou outro classico -portuguez de mais calmo estudo e pulsação regular; lembrava-se mesmo -agora de lhe ter sorprehendido algumas palavras de sabor antigo e que -lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de extranheza. -A sensação avivava-se, a reminiscencia induzia-o a estudar o homem. -Voltou de novo o olhar para elle e resumiu ainda em um traço o seu -juizo: -</p> -<p> -—Um bello animal! -</p> -<p> -A irmã do capitão servia vermouth, mostrando em um sorriso amavel os -seus dentinhos bicudos e deseguaes. Ao dirigir-se ao medico, ella -obrigou-o a desviar-se da sua observação; e elle, descuidado, -reflectindo na phrase uma ideia que lhe atravessava o espirito, -agradeceu-lhe em inglez. -</p> -<p> -—Acha-me com ar de <i>miss</i>, não é assim? Talvez tenha razão; não -é a primeira pessoa que me dá a entender isso mesmo... -</p> -<p> -—Se lhe desagrada... -</p> -<p> -—Absolutamente nada; por que? Houve na nossa familia qualquer -antepassado extrangeiro, uma bisavó dinamarqueza, creio eu ... -entretanto, affirmo-lhe, somos bem brasileiros, mesmo um pouco -nativistas... Já me disseram, a proposito d'isto, que são os -descendentes de extrangeiros exactamente os patriotas mais exaltados. -Mas não quer gelo? -</p> -<p> -—Obrigado... -</p> -<p> -Ella passou adeante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth. -</p> -<p> -«Uma avó dinamarqueza, creio eu...» Extraordinario, esse -desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que -aquella gente não era de indagações nem de perder tempo com objectos -sem utilidade immediata. -</p> -<p> -A boa pratica era essa: olhar para deante, que é onde se póde -encontrar tropeços. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho! -</p> -<p> -Da cadeira de braços, Francisco Theodoro atirava a sua ultima bomba -contra a Republica, lamentando este grande paiz, tão digno de melhor -sorte... -</p> -<p> -Rino levantou-se; elle tinha outras opiniões e uma fé sincera nos -destinos da patria. A alma nova da America só podia agasalhar -sentimentos de liberdade. A monarchia era a poeira da tradição -accumulada com o correr dos seculos, em velhas terras da Europa. Lá -teria a sua razão de ser, talvez; mas não aqui! Concluiu elle. -</p> -<p> -Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de pé, já cançadas -da discussão, abominando a politica... -</p> -<p> -Fóra, no tombadilho, o sol extendia a sua luz clara, feita de ouro. -Seguiram então para debaixo do toldo. -</p> -<p> -Que maravilha! -</p> -<p> -Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de -Nitheroy, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de -espumarada. Toda a superficie do mar, paletada de luzes, tremia como a -pelle moça a um afago voluptuoso. Ao longe, a Serra dos Orgãos -desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardosia. Para os lados -da barra havia montes de prata fosca em que o sol, scintillando nas -pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta -espelhavam-se n'agua, entre montanhas de um verdor intensissimo. -</p> -<p> -Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silencio -que o medico percebeu um olhar de Camilla para o capitão do <i>Neptuno</i>. -</p> -<p> -Aquelle simples movimento bastou para atear no peito do medico o -fogaréo da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e -revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante, -sempre tão sua, tão submissa ás arbitrariedades do seu genio desegual -de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguem, -e a justiça era que ella o enganasse e o trahisse, como por elle trahia -e enganava o esposo... -</p> -<p> -Percebia bem que o capitão Rino era mais bello, mais moço, e essas -duas qualidades só por si bastavam, a seu vêr, para fazer preferido um -homem aos olhos de uma mulher de quarenta annos... -</p> -<p> -—O senhor hoje está nos seus dias de <i>spleen</i>, doutor? -perguntou-lhe de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente. -</p> -<p> -Elle deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para -ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios, se não achava o capitão -Rino muito differente do que lhes parecera sempre, em Botafogo. -</p> -<p> -—Eu já disse isso mesmo a elle, e descobri o motivo; é porque anda -sempre de escuro, e hoje está de branco! -</p> -<p> -—E com uma flor ao peito! -</p> -<p> -—É verdade. -</p> -<p> -—Ainda ha outra razão; é que elle está contente. Ruth, a influencia -das côres é grande nas creaturas, mas a das impressões ainda é -maior. A alegria força a ser-se bonito. O capitão tem hoje a alma -vestida de branco e perfumada como a sua rosa vermelha da lapella... Uma -bonita flôr!... Não creia que baste um alfaiate para dar a uma cara de -páu a expressão que a d'elle hoje tem; a grande influencia do alfaiate -pára no pescoço. A cabeça é... -</p> -<p> -—Do cabelleireiro? -</p> -<p> -—Da paixão. Não creio que as mais frivolas mulheres sejam tão -frivolas que se contentem com o cheiro de uma pomada, ou o bom corte de -um frak... -</p> -<p> -—Mas quem fallou em mulheres!? -</p> -<p> -—Tem razão, ninguem! Veja como aquelle barco de pesca vae bonito... -Você gosta d'estas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte -são os unicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros, pff! -</p> -<p> -A mancha escarlate do vestido de Catharina appareceu deante d'elles; a -irmã do capitão convidou-os para o almoço; repararam então que os -outros já tinham entrado e logo o medico previu que Milla tivesse ido -pelo braço de Rino... -</p> -<p> -E fôra; e lá estavam ambos em pé a um angulo da mesa, em frente a -Francisco Theodoro, que gesticulava, no calor de uma discussão ainda -politica. -</p> -<p> -Á mesa, sentaram-se ao acaso, á excepção de Camilla e do marido, a -quem o capitão designou logares. O medico escolheu assento entre -Catharina e Ruth. -</p> -<p> -Havia apettite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catharina, -julgando-se um pouco em sua casa, ajudava o irmão; foi ella quem -temperou a salada de camarões e quem polvilhou os morangos de assucar e -de gelo; as suas mãos muito brancas mostravam-se bem atiladas no habito -de servir. -</p> -<p> -O creado ia e vinha do buffete para a mesa, com a seriedade sobranceira -de um ente necessário. -</p> -<p> -Na sala, longa e estreita, elles occupavam uma das mesas compridas, a da -esquerda, a mesma occupada sempre em viagem pelo capitão; a outra, -vazia e sem toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto -tristonho ao compartimento. Fallou-se, a proposito de viagens, de quando -naquella mesma sala não havia um só logar vazio, e que ao rumor das -vozes se juntava o tilintar das loiças e dos talheres... Só nos dias -de tempestade, em que o vapor era sacudido pelo furor das ondas, -diminuia a affluencia e appareciam, disseminados e tristonhos, só os -passageiros fortes, de bom estomago... -</p> -<p> -Francisco Theodoro relembrou os episodios banaes da sua unica viagem, de -Portugal para aqui, e olhavam quasi todos para o capitão com certo -interesse, como para um heróe. Em casa, nas confortaveis salas de -Botafogo, tão ricas e tão burguezas, nunca a sua profissão lhes -parecera sympathica; agora comprehendiam-lhe os perigos e observavam-no -com respeito. O mar é tão perfido! Qual era o ponto da viagem que mais -lhe agradava? perguntou Milla. -</p> -<p> -A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, commovido, o aspecto -formidavel do rio, a grossa corrente das suas aguas profundas, o seu -ruido sonoro, de rythmos novos, que nenhuma lingua exprime e nenhum som -musical imita; e os cambiantes deslumbrantissimos dos poentes, -derramando na agua infinitas ramagens multicores, onde estrellejavam -tons nunca d'antes vistos, que appareciam para se apagar, e apagavam-se -para reapparecer em outros pontos, egualmente luminosos e fugitivos. -</p> -<p> -—Que esplendor de poentes! -</p> -<p> -Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques -emergindo da agua profunda e reflectindo-se nella. Sinto alli, repetia -ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mysterios para uma raça -de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são -um deslumbramento! -</p> -<p> -Havia outro ponto da viagem que lhe fazia ainda maior commoção; era -quando, já de volta, entrava na bahia do Rio de Janeiro. A ampla poesia -d'esse espectaculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar -alto... -</p> -<p> -Dr. Gervasio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo; -os livros da estante pertenciam-lhe: havia alli um homem. O embarcadiço -mercenario tirava o seu trage de piloto e apparecia cavalheiro e poeta. -Porque se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco -depois, quando Rino affirmava que apezar das suas queixas, elle só -estava bem no <i>Neptuno</i>; tanto se afastara da sociedade que se sentia -bisonho nella, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da -sua alma, quando ia para a terra. -</p> -<p> -—Só em terra, disse elle, comprehendo o amor que tenho ao meu barco, -aos meus livros, ao meu cachimbo e á minha rêde, a que a solidão e o -habito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de -terra, da familia, das distracções, de tudo que conjunctamente a torna -deliciosa... -</p> -<p> -Francisco Theodoro, a proposito do Norte, fallou na prosperidade do -Pará, no commercio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus -costumes. Alli, sim, havia gente reflectida, de bons exemplos. Aquillo -é que é povo: patriotismo, criterio, boas intenções. Fallem-me -d'isso. -</p> -<p> -Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram á bocca os copos -cheios. -</p> -<p> -Veio o perú á brasileira provocar elogios ao cozinheiro do <i>Neptuno</i>. -Magnifico! -</p> -<p> -Francisco Theodoro affirmou logo que aquelle prato parecia feito, de -saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um geitinho -especial para temperar panellas, dizia elle; e verdade, verdade, assim -como ella não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens, -tambem os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser -trancada ao sexo feio. -</p> -<p> -Elle dizia isto como pilhéria, por alegria. -</p> -<p> -Catharina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros, -perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa: -</p> -<p> -—O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro. -</p> -<p> -—Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de -familia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua -casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juizo, e -não me dei mal com elle; não quiz casar com mulher sabichona. É nas -mediocres que se encontram as Esposas. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance. -</p> -<p> -—E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve -consentir perto das suas filhas. -</p> -<p> -Camilla fez um signal affirmativo. Ella era da mesma opinião. -</p> -<p> -—Não são sérias, concluiu. -</p> -<p> -—Lá por isso, replicou Catharina, de quantas mulheres se falla na -sociedade e que mal sabem ler? -</p> -<p> -—De poucas... -</p> -<p> -—De muitas. Sr. Theodoro, faz favor de me dar o vinho? -</p> -<p> -—Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Theodoro, passando a -garrafa ao medico, que encheu o copo de Catharina e disse rindo: -</p> -<p> -—Ellas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a -ellas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana -com uma arte capaz de endoidecer o proprio Mephistopheles... -</p> -<p> -—Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres! -</p> -<p> -—Faço ideia de que deve ser bem mais difficil de manter do que a -nossa. -</p> -<p> -—Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o -pensamento de que houvesse duas honestidades. -</p> -<p> -—Pois se tivesse tido tal pensamento, tel-o-ia com muito acerto. Ha -duas. -</p> -<p> -—Temos outra! Se está de maré, explique-nos a differença. -</p> -<p> -—Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materialisemos as -comparações, para as tornarmos bem claras. Supponhamos, por exemplo, -que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um -vestido branco. Tudo é roupa, teem ambos o mesmo destino, mas que -aspectos e que responsabilidades differentes! -</p> -<p> -Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, -disfarçando as nodoazinhas. O panno é grosso, com uma escovadella vôa -para longe toda a poeira da immundicie; e ficamos decentes. A -honestidade das senhoras é um vestido de setim branco, sem forro. Um -pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, -á procura da sombra amavel, macula-o; uma picadella de alfinete, que -só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquella -vasta candidez proporções desagradaveis... Realmente, deve ser bem -difficil saber defender um vestido de setim branco que nunca se tire do -corpo. Eu não sei como ellas fazem, e, francamente, não me parece que -a vida mereça tamanho luxo. -</p> -<p> -—Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão -positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as -outras ... pelo menos parecem... -</p> -<p> -—Porque não lhes esquadrinhamos as nodoas do setim... Passam -despercebidas... -</p> -<p> -—Adeus! -</p> -<p> -—Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse ha pouco á sua filha, a -quem alliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto: -</p> -<p> -Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos -desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideaes de -arte não pervertem, antes purificam e ensinam o bem. As mulheres devem -cultival-os com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de D. -Catharina e bebo á sua saude, Minha Senhora! -</p> -<p> -Emquanto elle bebia, Camilla observou-o com pasmo; sabia que elle não -tinha aquellas ideias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se -no seu logar de submissão. -</p> -<p> -—Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco -Theodoro á irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa. -</p> -<p> -—Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com -as minhas roseiras e os meus animaes. Nunca fallo por mim, sr. Theodoro. Eu -nasci para mulher. -</p> -<p> -—Então, pelas outras? -</p> -<p> -—Pelas outras que tenham actividade e coragem. -</p> -<p> -—E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguem -responde! -</p> -<p> -—É velho. -</p> -<p> -—Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar -com obediencia e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz tambem a -isto o nosso doutor? -</p> -<p> -—Que ella talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor -disse, mas que as torceu depois de certa edade. Não seria sem causa que -Francisco I disse: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Souvent femme varie.</i></span> -</div></div> - -<p> -Francisco Theodoro não entendeu, mas sorriu. -</p> -<p> -O medico dizia aquillo para Camilla, que lhe evitava o olhar agudo, -percebendo-lhe a perfidia. -</p> -<p> -—Isto é que se chama fallar para não dizer nada... observou alguem. -</p> -<p> -Catharina serviu o café; quando passava a ultima canequinha, disse: -</p> -<p> -—As mulheres são mal comprehendidas. Vejam aquella gravura. Está alli -um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho, -e a mulher mal o allumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada ás -suas costas! -</p> -<p> -—O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Theodoro com modo -triumphante. -</p> -<p> -—Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos -atraz do homem que procura defender-nos. Se elle avança para o inimigo, -sentimos não ter azas, e é sempre com impeto que nos lançamos na -carreira querendo ajudal-o a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que -é o nosso caracter; que me desminta quem puder! -</p> -<p> -O dr. Gervasio observou Catharina com attenção. -</p> -<p> -Ella estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas. -</p> -<p> -Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma -brasileira. A tal avó dinamarqueza dava todo o logar á outra avó -indigena, descendente de alguma tribu selvagem. -</p> -<p> -Duas horas depois, os visitantes deixavam o <i>Neptuno</i>; o capitão Rino -e a irmã conduziram-os até o caes, onde se separaram. Foi então um -grande allivio para o dr. Gervasio, a quem a presença do outro irritava -terrivelmente. -</p> -<p> -Francisco Theodoro não se cançava de elogiar a ordem e o asseio em que -encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o -eloquente, superior ... lembrava detalhes insignificantes, muito -agradecido ás cortezias do moço. Catharina desagradara-lhe, com os -seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com -carne,—bons volumes, dizia elle, olhando de esguelha para o vulto -redondo da esposa. -</p> -<p> -Á rua 1º de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a occasião para -visitar um collega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a -familia. -</p> -<p> -Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo -erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas -quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla -adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as -phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle -lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta; -mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle -fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de -escrava, a que o seu amor a lançara. -</p> -<p> -Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que -não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que -a via bem entregue... -</p> -<p> -Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos -olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto -tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava; -vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente, -espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as -horas de bordo. -</p> -<p> -Ella murmurou então, vexada, por entre dentes: -</p> -<p> -—Eu não gosto do Rino ... eu não gosto... -</p> -<p> -E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia... -</p> -<p> -—Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois, -vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de -ser já. -</p> -<p> -—Como os homens são orgulhosos e injustos! -</p> -<p> -—Serão. E as mulheres? voluveis! -</p> -<p> -—Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como -uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade... -</p> -<p> -Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem -disse primeiro: -</p> -<p> -—Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com -isso... -</p> -<p> -O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade: -</p> -<p> -—Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua... -</p> -<p> -Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia -nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente, -vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e -ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No -momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda -moça, toda de lucto. -</p> -<p> -Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a -raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle -ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e -ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada. -</p> -<p> -Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra; -aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida; -viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da -face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de -surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma -infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão. -</p> -<p> -—Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando -imprudentemente pela manga do medico. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que -seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se -atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, -mas com modo sacudido e nervoso, disse: -</p> -<p> -—Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu. -</p> -<p> -Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua -marcha num batimento louco. -</p> -<p> -Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia -separando para um prato de papelão. -</p> -<p> -O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe -contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa -passada, perfeitamente extincta. -</p> -<p> -Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que -tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir -os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria -calada... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VII">VII</a></h4> - -<p> -O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto -posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne -rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia -das enchentes que ameaçam inundação. -</p> -<p> -O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha -attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S. -Bento. -</p> -<p> -No de Francisco Theodoro o movimento era enorme. -</p> -<p> -<i>Seu</i> Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando -milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, -rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens. -Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar -uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus -subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão -da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em -bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo -dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao -trabalho um acompanhamento de musica. -</p> -<p> -<i>Seu</i> Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento -para o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar -<i>grèves</i>, paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que -quizesse entrar. -</p> -<p> -Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das -formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante. -</p> -<p> -Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o -pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira? -Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande -personagem. -</p> -<p> -Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para -alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade -de baixo, <i>Seu</i> Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar -as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas, -fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de -Francisco Theodoro. -</p> -<p> -E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma -chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos -successos proprios e alheios. -</p> -<p> -Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto. -</p> -<p> -<i>Seu</i> Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino -da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio -era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio. -</p> -<p> -Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de -impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço. -</p> -<p> -Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o -armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava -pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e -o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia. -</p> -<p> -Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava -então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção. -</p> -<p> -Vinha-lhe o cançaço. -</p> -<p> -Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam -inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella -atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio. -A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu -espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, -que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo. -</p> -<p> -Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella -vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe -mostraria o caminho já feito, facil de percorrer! -</p> -<p> -Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas -pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a -outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna. -</p> -<p> -A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle... -</p> -<p> -Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha -concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções -pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma -vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe -mudasse o nome. -</p> -<p> -Como era bemsoante aquelle—Casa Theodoro—um rythmo de ouro! -</p> -<p> -Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres -não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus -só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos. -</p> -<p> -O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade, -que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi -estava—magnifico; mas não poderia ter sido pessimo? -</p> -<p> -Certamente, concluia elle comsigo,—não é a isso que se chama ser bom -negociante; obra do acaso, nem mais nem menos... -</p> -<p> -Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As -carnes pesavam-lhe; sentou-se logo. -</p> -<p> -—Então como vae isso, Seu Theodoro, han? -</p> -<p> -—Bem... Muito trabalho. -</p> -<p> -—É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo -de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra -o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O -dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a -conversar com um sujeito. É um finorio de marca. -</p> -<p> -—É experto, é. -</p> -<p> -Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia -do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se -entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos: -</p> -<p> -—Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que -recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da -minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho... -</p> -<p> -—Terras de trigo? -</p> -<p> -—Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por -vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares. -Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me -esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho -do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz, -as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já -se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se -acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os -empregados ... não faz mal, é o dono. -</p> -<p> -—Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o -Lemos, assoando-se com estrondo. -</p> -<p> -Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se. -</p> -<p> -—Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado? -</p> -<p> -—É... -</p> -<p> -—Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez! -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita -gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si. -</p> -<p> -Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com -tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas -sêdes... -</p> -<p> -Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar -de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as -respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do -Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de -café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que -lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis. -</p> -<p> -Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios, -com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se -deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava... -</p> -<p> -Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio. -Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções -agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um -grande projecto... -</p> -<p> -Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da -esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de -libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle? -</p> -<p> -As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para -afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto! -</p> -<p> -A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á -voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse, -ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de -moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos -primeiros arrepios da tentação. -</p> -<p> -Francisco Theodoro reflectia... -</p> -<p> -Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella. -</p> -<p> -Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando -o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das -saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço, -chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar -espesso, engrossado de pó. -</p> -<p> -Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido. -</p> -<p> -D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e -lagrimas que se fertilisam os melhores campos. -</p> -<p> -Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o -bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e -se desmancha em flores. -</p> -<p> -Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer -bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado -na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos: -</p> -<p> -—Olhem para a minha vida e façam como eu fiz. -</p> -<p> -Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé -antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias -de loucura. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VIII">VIII</a></h4> - -<p> -Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se -passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas -para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a -depressa. -</p> -<p> -—Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia. -</p> -<p> -—E outro para a minha, Noca? -</p> -<p> -—Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas. -</p> -<p> -—Um só, Noca, sim? -</p> -<p> -—Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem -roupa! -</p> -<p> -Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se -nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e -ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço, -levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a -mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella -creatura. -</p> -<p> -A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores -quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um -rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras. -</p> -<p> -Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se -acercou da taboa. -</p> -<p> -—Agora é que você está chegando, Dionysio?! -</p> -<p> -—É Fui levar um recado de <i>seu</i> Mario... A senhora já sabe que -elle deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe -tirar o chapéo! -</p> -<p> -—Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças, -que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois: -</p> -<p> -—É loura ou é morena? -</p> -<p> -—Morena, altinha, muito <i>chic</i>. -</p> -<p> -—Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande. -</p> -<p> -Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar -sonso. -</p> -<p> -—Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. -Nina. -</p> -<p> -—Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho. -</p> -<p> -Um retrato. -</p> -<p> -Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda -continuou: -</p> -<p> -—Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto... -</p> -<p> -—É para Sergipe. -</p> -<p> -A cabocla sorriu. -</p> -<p> -—O professor de musica está ahi... -</p> -<p> -—Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu -botar de infusão. -</p> -<p> -Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por <i>dona</i>. -Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com -acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias -de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as -impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um -remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem -escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança. -</p> -<p> -Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua -prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia -economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de -côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo -volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade. -</p> -<p> -Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma -imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e -concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma -explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições -curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma -verdade indiscutivel. -</p> -<p> -E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla -consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe -explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para -tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos, -rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos... -</p> -<p> -Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de -gostar de ser util e servir de muito a muita gente... -</p> -<p> -Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla. -Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande -novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o -pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido -parecia não comprehender! -</p> -<p> -A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver -nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ... -esse tambem ruminava qualquer coisa... -</p> -<p> -Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o -pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do -engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo. -</p> -<p> -A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade. -Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não -passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por -causa de um homem? Não vê! -</p> -<p> -Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente -achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo -muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da -Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para -dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito -desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis; -Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita; -morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer -soffrer. -</p> -<p> -Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo, -Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, -com as mãos inuteis, o olhar febril. -</p> -<p> -A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do <i>Neptuno</i>, não a -deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e -aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente, -e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em -negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos? -</p> -<p> -No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era -em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas -toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que, -apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para -elle. -</p> -<p> -Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou, -ao voltar da cidade. -</p> -<p> -—Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a <i>Aïda</i>. O -Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia... -</p> -<p> -—Que entende o Negreiros de musica! -</p> -<p> -—Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em -baixo... -</p> -<p> -Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando -o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em -frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular -enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio -interrompido. -</p> -<p> -—«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo -dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e -instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa -moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha; -não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço, -compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia. -Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr -educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre -para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e -revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que -andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a -uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em -discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias; -por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o -individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A -instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a -vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume -que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal -geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o -ambiente em que vivam depois. -</p> -<p> -É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões, -á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a -verdade e não escapam aos ouvidos delicados.» -</p> -<p> -—Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras... -</p> -<p> -—O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin. -Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor. -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Porque ainda não tem edade para comprehendel-o. -</p> -<p> -Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um -excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e -mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com -prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu? -</p> -<p> -—Está ahi, atraz do senhor. -</p> -<p> -—Ah... -</p> -<p> -Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via -muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia, -dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com -medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só... -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da -mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo -e danças até a madrugada. -</p> -<p> -Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as -violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa -silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas -leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do -robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro. -</p> -<p> -Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se -lamentava por isso da ausencia. -</p> -<p> -A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins -illuminados a <i>balões</i> e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos -terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de -vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes, -essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no -banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e -sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por -sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o -unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho: -tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro, -almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças -corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista -pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu -repertorio. -</p> -<p> -A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco -Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança, -alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das -attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de -posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois, -na balburdia da vida. -</p> -<p> -Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao -piano, ou cantasse algum romance italiano. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para -que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos -regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as -senhoras edosas ao <i>buffet</i>, recommendando á Noca que distribuisse -pela criadagem vinhos e doces. -</p> -<p> -Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo -barulho que pela intenção. -</p> -<p> -Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas -mangas dos commendadores ou dos empregados do marido. -</p> -<p> -Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia -sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho -honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro, -a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho. -</p> -<p> -O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos. -Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam -para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de—minha -estudiosa—gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados -para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam -encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das -estrellas... -</p> -<p> -Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete -Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na -quietação cançada da familia. -</p> -<p> -Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os -talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de -luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os -marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e -as lanternas disseminadas pelo jardim. -</p> -<p> -Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer -aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os -ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam -nervosamente. -</p> -<p> -Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu: -</p> -<p> -—Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo! -eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da -colonia. Não quero fazer figura triste. -</p> -<p> -—Alguma manifestação? perguntou Gervasio. -</p> -<p> -—Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me -hoje d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que! -Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O -engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora, -que se apresenta a occasião, faz cara feia! -</p> -<p> -Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na -execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao -movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de -pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava. -</p> -<p> -Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro -pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e -dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas -se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda, -entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos, -encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo -e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava -uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas. -</p> -<p> -Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, -pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma -doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava: -já nem pensava nisso! -</p> -<p> -Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á -felicidade, ella foi esquecendo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IX">IX</a></h4> - -<p> -Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á -mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra. -</p> -<p> -Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou -importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto -esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só -para a sobremesa disse espantado: -</p> -<p> -—É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou? -</p> -<p> -Nina murmurou, desculpando-o: -</p> -<p> -—Acho que está incommodado... -</p> -<p> -—Vou ver isso. -</p> -<p> -Theodoro levantou-se. -</p> -<p> -Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre -si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu -amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante. -</p> -<p> -Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario! -</p> -<p> -Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar -firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que -nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas -azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que -ella temia... -</p> -<p> -E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se -festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e -commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico... -</p> -<p> -Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo, -que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em -escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo. -</p> -<p> -Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma -expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava, -fallava... -</p> -<p> -Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho. -</p> -<p> -—Então, <i>seu</i> Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para -jantar é volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de -visitas?! -</p> -<p> -—Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa. -</p> -<p> -—Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias -ao menos respeitar o hospede. -</p> -<p> -—Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem, -papae, não posso vêr aquelle homem! -</p> -<p> -—Tu estás doido! porque?! -</p> -<p> -Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe -insistia, furioso: -</p> -<p> -—Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa -raiva? -</p> -<p> -—Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por -instincto... Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... -aquella voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as -suas mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua -assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os -vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que -é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe -pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente. - - -</p> -<p> -—Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o -que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não -se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não -sou bom! -</p> -<p> -Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que -effectivamente o Mario estava indisposto... -</p> -<p> -Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um—até logo! -</p> -<p> -Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa -aborrecia-o. -</p> -<p> -A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada, -vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro. -Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando -flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto. -</p> -<p> -Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e -leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem. -</p> -<p> -—Cuidado, minha filha! -</p> -<p> -—Ahi vae um beijo, mamãe! -</p> -<p> -O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o -passeio continuava, arrastado e feliz. -</p> -<p> -—Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã -cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir! -</p> -<p> -—Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente! -</p> -<p> -—Lá vens tu... -</p> -<p> -Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á -claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo -ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava -na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus -ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua -força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, -unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz -cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel. -</p> -<p> -Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades -estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens -fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em -baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos -distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do -somno. -</p> -<p> -Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das -estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo -escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a -penumbra. -</p> -<p> -O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe. -</p> -<p> -—Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico. -</p> -<p> -—Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro, -consultando o céu. E chuva de arrazar! -</p> -<p> -Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do -medico. Despediram-se. -</p> -<p> -Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca: -</p> -<p> -—<i>Seu</i> Mario? -</p> -<p> -—<i>Seu</i> Mario sahiu... -</p> -<p> -—Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga... -</p> -<p> -Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para -a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla -impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e -perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela -golla do vestido. -</p> -<p> -—Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada. -</p> -<p> -Nina sacudiu as formigas com o lenço. -</p> -<p> -Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata. -</p> -<p> -—<i>Seu</i> Mario? -</p> -<p> -—Elle ainda não voltou... -</p> -<p> -—Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando -elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu? -</p> -<p> -—Percebi, sim, senhor. -</p> -<p> -—Agora chame o Dionysio. -</p> -<p> -E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem. -</p> -<p> -Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos -com a agulha, mal acertando com a costura. -</p> -<p> -Theodoro voltou-se para ellas: -</p> -<p> -—Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se -á mesma hora que os paes... -</p> -<p> -—Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla. -</p> -<p> -—Pois sim! -</p> -<p> -—E se chover? A noite está tão feia... -</p> -<p> -—Que volte para traz. Não vem a pé. -</p> -<p> -—Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e -debaixo d'agua... -</p> -<p> -—Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou -raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?! -</p> -<p> -—É a mocidade... -</p> -<p> -—Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em -dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei -com o suor do meu rosto! -</p> -<p> -—Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco. -</p> -<p> -—Mais uma razão. -</p> -<p> -—Qual razão! -</p> -<p> -—Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em -casa a horas convenientes ou... -</p> -<p> -—Ou?... -</p> -<p> -—Ou que vá dormir para o diabo! -</p> -<p> -Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz -replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco -Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da -sala para não responder, batendo com a porta, num desespero. -</p> -<p> -—É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o -negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as -chaves. -</p> -<p> -Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes -um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera, -corporisava-a, tornando-a irrespiravel. -</p> -<p> -Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos, -amodorrados, bambos. -</p> -<p> -Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, -soturnamente. -</p> -<p> -Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para -dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao -beiral do telhado. -</p> -<p> -A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta. -</p> -<p> -O que passou depois, foi o vento. -</p> -<p> -Ella deitou-se com um suspiro. -</p> -<p> -Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu -a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do -arvoredo. -</p> -<p> -Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos -pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, -lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos, -com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da -noite. -</p> -<p> -Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma -cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á -janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo. -Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em -falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova -lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo. -</p> -<p> -A unica janella illuminada da visinhança fechou-se. -</p> -<p> -O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á -distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando. -</p> -<p> -Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel. -</p> -<p> -Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o -aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na -inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam -arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre -as telhas, com estrondo. -</p> -<p> -Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela -fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo, -não a amaria nunca. -</p> -<p> -Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo -pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos. -Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para -ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada -mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e -em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não -comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na -infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho! -</p> -<p> -Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa -classe; mais nada; e não era pouco. -</p> -<p> -Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos -agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era -nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços -caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se -atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no -fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse -casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada -deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma -creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na -casa de Francisco Theodoro. -</p> -<p> -Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de -preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás -palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava -isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o -traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra. -</p> -<p> -Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então -os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do -seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a -aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois -bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor -de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos -beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que -até então ella só parecia ter espreitado de longe. -</p> -<p> -Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a -edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua -força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a -ceder ás suas vontades absurdas. -</p> -<p> -De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina -em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a -peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para -essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são -para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos, -rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da -vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era -exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos. -</p> -<p> -Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da -sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas -graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo. -</p> -<p> -Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos -flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e -humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a -varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe -batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro -resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma -instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou. -</p> -<p> -O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe -em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um -filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta. -</p> -<p> -Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca, -sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que? -</p> -<p> -Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado -por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o -coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa -que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer. -</p> -<p> -Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber -d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada? -</p> -<p> -Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia -mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses -recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, -escarnecida, miseravel. -</p> -<p> -No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a -alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento; -então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o -encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que -redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria. -</p> -<p> -Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro -cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda -bailou macabramente com o arvoredo escuro. -</p> -<p> -A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e -offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias, -mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava. -</p> -<p> -Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada, -brutal, ensurdecedora. -</p> -<p> -A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e -voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir -indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury. -</p> -<p> -Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou: -</p> -<p> -—Mario! Mario! -</p> -<p> -Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio. -</p> -<p> -O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o -pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na -sombra, ia-se embora. -</p> -<p> -Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor. -</p> -<p> -Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, -com a precaução de quem vae para o crime. -</p> -<p> -Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia, -praguejando raivoso. -</p> -<p> -Ella tacteou os ferrolhos e recommendou: -</p> -<p> -—Espere um bocadinho, Mario! -</p> -<p> -—Que estupidez! -</p> -<p> -—Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse -de fóra. -</p> -<p> -Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral. -</p> -<p> -—Que idéia foi esta de deixarem a chave... -</p> -<p> -E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que -seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta? -</p> -<p> -—Foi ordem do tio Francisco. Boa noite. -</p> -<p> -Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a -chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do -chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario -percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de -carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara -nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado, -sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto -impudico e voluptuoso. -</p> -<p> -Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso -naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a -prima o amava? -</p> -<p> -A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de -hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços. -</p> -<p> -Nina comprehendeu. -</p> -<p> -Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e -subiu correndo. -</p> -<p> -A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo -de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no -passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu -desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se -quedara estupefacto no mesmo ponto. -</p> -<p> -Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina -sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto -até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta. -</p> -<p> -Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da -chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se -atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo, -juncto aos seus calcanhares. -</p> -<p> -Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada -assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de -que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a -porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á -fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago -conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda. -Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no -chão. -</p> -<p> -E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa, -muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de -repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a -camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da -sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no -vidro... -</p> -<p> -Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia -um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e -adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se -arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de -que fugira... -</p> -<p> -Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu -alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados. -</p> -<p> -Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava -para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a -porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,—e ainda Nina, na -estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro, -soffria, soffria, soffria... -</p> -<p> -No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou -na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da -familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro -para a sua mesa. -</p> -<p> -—Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle, -fixando-lhe os olhos pisados. -</p> -<p> -—Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando. -</p> -<p> -Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse: -</p> -<p> -—Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses -sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção -foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a -ultima vez que sou desobedecido. -</p> -<p> -Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas -junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que -ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou -então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe -partisse uma fatia do <i>roast-beef</i> frio e que lhe fosse depois buscar -o <i>Jornal</i>, esquecido em cima, no quarto de <i>toilette</i>. -</p> -<p> -Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos -seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos -violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma -d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a -admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora. -</p> -<p> -Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="X">X</a></h4> - -<p> -Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não -se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os -desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia -sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das -suas devoções. -</p> -<p> -Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a -gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus -passos vagarosos, de mulher gorda e cançada. -</p> -<p> -—Que milagre! a senhora por aqui! -</p> -<p> -A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que -fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas -o nó da mantilha preta. -</p> -<p> -—Mal imagina você por onde tenho andado! -</p> -<p> -Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N. -S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando -esmolas. -</p> -<p> -—Tão cedo? -</p> -<p> -—Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em -esmolas, hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as? -</p> -<p> -—Não, senhora. -</p> -<p> -—É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as -atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves, -que faz annos hoje. Não imagina como ellas são... -</p> -<p> -—Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro: -</p> -<p> -—Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu? -</p> -<p> -—Ainda estão dormindo?! -</p> -<p> -—Tio Francisco já sahiu. -</p> -<p> -—Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por -todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande -concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte -Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar -a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá -não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos -espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é -para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê... -</p> -<p> -—A senhora falle com tia Milla. <i>Seu</i> João! chamou ella -interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que -passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como -não ha rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da -entrada? -</p> -<p> -—A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos -canteiros, que Deus nos acuda! -</p> -<p> -—Veja se remedeia isso hoje mesmo... -</p> -<p> -O jardineiro passou; D. Joanna disse: -</p> -<p> -—É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario -Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia, -pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do -filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas... -</p> -<p> -—Quer café, tia Joanna? -</p> -<p> -—Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se -arrepender... -</p> -<p> -—Não tenho tempo... Quer mais assucar? -</p> -<p> -—Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz -de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha... -</p> -<p> -Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da -tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de -folhas arremessadas pela ventania. -</p> -<p> -D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em -pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de -melancholia. -</p> -<p> -Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu -cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido -branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao -corpo um ar de anjo de cathedral. -</p> -<p> -—Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a. -</p> -<p> -Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre. -</p> -<p> -—Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora! -</p> -<p> -—Porque?... -</p> -<p> -—Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver -a lua e as estrellas. -</p> -<p> -—Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de -egreja... -</p> -<p> -—Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da -Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos -cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão -Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora. -Leve-me lá, titia, sim? -</p> -<p> -—É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro. -</p> -<p> -—Seria querer demais. Você já leu hoje a <i>Flor de Neve</i>, Nina? -</p> -<p> -Nina meneou com a cabeça, que não. -</p> -<p> -—Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna. -</p> -<p> -—É um romance do <i>Jornal</i>, muito bonito. Estou morta por saber -se a Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no -<i>Jornal</i>! -</p> -<p> -D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço, -bonita, de <i>peignoir</i> côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás -duas filhas pequenas. -</p> -<p> -Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que -naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de -jantar. -</p> -<p> -—Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia -Joanna? -</p> -<p> -—Este banco está enxuto. A Nina estava aqui... -</p> -<p> -Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e -beijou-o no pennacho. -</p> -<p> -Depois, para a velha: -</p> -<p> -—O que a trouxe tão cedo? -</p> -<p> -D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e -apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da -capella do Monte Serrate. -</p> -<p> -—Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não; -porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa. -</p> -<p> -—Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete? -</p> -<p> -—Posso mandar. -</p> -<p> -—Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um -perfeito homem. -</p> -<p> -—Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia? -</p> -<p> -—Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num -folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua -filha. -</p> -<p> -—O pae não se importa, que hei de fazer? -</p> -<p> -—Ainda não fez a primeira communhão? -</p> -<p> -—É cedo. -</p> -<p> -—Não é tal. Ella não quererá? -</p> -<p> -—Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas -as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o -casamento. -</p> -<p> -—Heresias... E o Mario ... como vae o Mario? -</p> -<p> -—Está um moço bonito. -</p> -<p> -—E ... mais ajuizado? -</p> -<p> -Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas -brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso: -</p> -<p> -—Como todos os rapazes de vinte annos... -</p> -<p> -Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego -verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca, -que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna -levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar. -</p> -<p> -Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da -poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou -gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o -tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em -movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma -musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um -vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella, -conversava baixo com a Camilla. -</p> -<p> -D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria -aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na -sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas. -</p> -<p> -Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi. -</p> -<p> -«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um -burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente. -</p> -<p> -Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no -quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr. -Gervasio não estava. -</p> -<p> -Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com -desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu -tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe -pouca attenção. -</p> -<p> -Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de -pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito -calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito -suspiros curtos, que afogava em <i>bordeaux</i>... -</p> -<p> -Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não -estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição; -depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para -as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de -criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras, -risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois -gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde -da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do -encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as -pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e -paredes sujas de predios velhos. -</p> -<p> -Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um -impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos -castos e pudibundos da velha. -</p> -<p> -Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D. -Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha: -</p> -<p> -—Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se -persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus -pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia, -Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus -sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para -ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas -meninas a respeitarem a nossa religião? -</p> -<p> -Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou: -</p> -<p> -—Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa -ao domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma -ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem -adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se -esquecia dos seus deveres. -</p> -<p> -Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia; -para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração -d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para -elle: -</p> -<p> -—Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites? -</p> -<p> -—Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não? -</p> -<p> -—Como se chamam os seus deuses? -</p> -<p> -—Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum -poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por -que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que -aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da -mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D. -Joanna, e que inferno bellissimo! -</p> -<p> -—Vá trazendo para cá essas ideias... -</p> -<p> -—Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A -senhora já ouviu fallar em Byron? -</p> -<p> -—Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor? -</p> -<p> -—Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda -voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua -glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras -apotheoses da arte. -</p> -<p> -—Só por isso? -</p> -<p> -—É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe. -</p> -<p> -—Julga-me muito bronca. -</p> -<p> -—Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se -quer, discutamos religião e philosophia. Conhece Comte? -</p> -<p> -—Algum damnado. -</p> -<p> -—É o termo. -</p> -<p> -—Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que -peccado! -</p> -<p> -—Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados. -</p> -<p> -—O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões? -</p> -<p> -—Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para -enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras. -A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira? -Tenho uma <i>Yellow Persian</i> quasi perdida! -</p> -<p> -—A sua medicina nem para as plantas serve? -</p> -<p> -—Nem para as plantas, a miseravel! -</p> -<p> -—Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor. -</p> -<p> -—Que é? -</p> -<p> -—Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã... -</p> -<p> -—Meu Deus! e eu de <i>peignoir</i>! -</p> -<p> -Dr. Gervasio voltou-se e disse: -</p> -<p> -—Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, -sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido -tão bonito. -</p> -<p> -—Então vou assim mesmo... -</p> -<p> -D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era -seguida! -</p> -<p> -—Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O -dinheiro dos bilhetes? -</p> -<p> -—É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras. -Até outra vez, tia Joanna. Lembranças. -</p> -<p> -—Adeus. -</p> -<p> -A moça sahiu. -</p> -<p> -—Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla -esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves! -</p> -<p> -O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe -no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha -percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle -lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra -de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario. -</p> -<p> -Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim -preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente -emmoldurado. -</p> -<p> -A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira -anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do -seu cordão de ouro. -</p> -<p> -A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo... -</p> -<p> -—Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este -<i>peignoir</i> é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, -não é? -</p> -<p> -A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim. -</p> -<p> -—Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de -um bello sorriso. -</p> -<p> -—É facil. Vem participar-me o seu casamento! -</p> -<p> -—Casar-me, eu? qual! -</p> -<p> -—Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro. -</p> -<p> -—Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de -dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus -pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, -Paquita? -</p> -<p> -Paquita meneou a cabeça, que sim. -</p> -<p> -—Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva? -</p> -<p> -—Em um <i>bond</i>. -</p> -<p> -—Já me tardava. O <i>bond</i> é o eterno mexeriqueiro d'esta -terra. Tambem vocês quando não querem comprometter os seus -informantes, attribuem ao pobre <i>bond</i> todas as indiscreções... -Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar -coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que -nós, protectoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. -Se não fosse coisa de religião, eu não me metteria nisto. Já me têm -pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitaes para -pobres, como se na nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, -no Brasil não ha miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo -com exemplos de fé christã. -</p> -<p> -Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença. -</p> -<p> -Houve uma pausa. -</p> -<p> -—Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está -muito bonito moço. -</p> -<p> -Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já -tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida. -</p> -<p> -—Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar... -</p> -<p> -—Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria -o mesmo. -</p> -<p> -—Sim, mas o pae é que não se resigna a isso. -</p> -<p> -Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou: -</p> -<p> -—Já recebeu convite para o nosso baile? -</p> -<p> -—Já... -</p> -<p> -—Esperamos que seja Mario quem nos marque o <i>cotillon</i>. Papae -gosta muito do Mario. -</p> -<p> -O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo -cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda -a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle -gabava-se dos seus principios rudes e pesados. -</p> -<p> -—Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, -disse Camilla. -</p> -<p> -—Já se falla nisso. -</p> -<p> -A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos. -Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de -repente com uma phrase secca: -</p> -<p> -—Vamo-nos embora. -</p> -<p> -—Sim, vamo-nos embora. -</p> -<p> -Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no -concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a -<i>matinée</i>. -</p> -<p> -A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto, -caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados, -o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados -de morena. -</p> -<p> -Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á -observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, -um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a -manga. -</p> -<p> -Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que -sahia tambem, cançado de esperar por Camilla. -</p> -<p> -Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a -silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de -cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria, -achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de -religião. -</p> -<p> -Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a -ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos. -</p> -<p> -Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do -<i>Neptuno</i>. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de -bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma -mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco -Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só -Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos -frios. -</p> -<p> -E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu -pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por -Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou -que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella -mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza? -</p> -<p> -As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo. -</p> -<p> -—Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo, -muito fraco pelas denguices das gemeas. -</p> -<p> -Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua -roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma -tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando -dôr de cabeça e subiu para o seu quarto. -</p> -<p> -Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.» -</p> -<p> -Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem -percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos -por um sorriso amargo. -</p> -<p> -Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas -grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas... -</p> -<p> -—Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe -Ruth. -</p> -<p> -Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu: -</p> -<p> -—Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá -pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. -Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta -foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso -mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá? -</p> -<p> -Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com -ar solemne:—Só Deus! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XI">XI</a></h4> - -<p> -Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio -estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa -o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto -pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar -esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento. -</p> -<p> -Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham. -</p> -<p> -A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de -faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, -berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por -todos os lados em vivas represalias. -</p> -<p> -O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal -ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em -grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com -todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de -cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o -unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás -instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o -seu bem-estar escolheram. -</p> -<p> -João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o -minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias -do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de -Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista -pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de -ingratos.» -</p> -<p> -Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um -republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus -compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor -de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de -Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado, -tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera -censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle -já estava maduro para dar o seu braço a torcer! -</p> -<p> -Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de -Negreiros entrar na discussão. -</p> -<p> -Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino -appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão -interrogativa no rosto. -</p> -<p> -A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez -logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa. -</p> -<p> -Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de -reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na -mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as -pontas do bigode delgado. -</p> -<p> -—Que novidade é esta, o senhor por aqui?! -</p> -<p> -—Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes. -</p> -<p> -—Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o -apresentar aos meus amigos. -</p> -<p> -Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande -bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro -perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente. -</p> -<p> -—Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os -meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará. -</p> -<p> -—Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido -lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não -fazemos cerimonias. -</p> -<p> -—Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a -preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os -meus respeitos a todos. -</p> -<p> -O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo, -lhe bailava sob a pelle de loiro. -</p> -<p> -—Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe -razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente. -Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos -ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga -ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado. -</p> -<p> -<i>Seu</i> Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na -secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente. -</p> -<p> -Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a -lida. Levantaram-se todos. -</p> -<p> -Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante -pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta -importancia. -</p> -<p> -No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio -tinha lampejos de ouro. <i>Seu</i> Joaquim observava em silencio. -</p> -<p> -O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no -corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros -descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia -á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, -para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol, -acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha -Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a -cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os -carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos -repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos -os ventos a sua força poderosissima. -</p> -<p> -O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e -movediços. -</p> -<p> -Aquella multidão aturdia-o. -</p> -<p> -O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias -commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na -natureza o que ella tem de maior e de mais simples. -</p> -<p> -A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do -oceano que elle cortava com a prôa firme do seu <i>Neptuno</i>. -</p> -<p> -Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era -aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o -amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra -produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é -instantaneo e é eterno. -</p> -<p> -O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da -adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua -grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita? -</p> -<p> -A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra -negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a -terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte -do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda -em orvalho fecundo? -</p> -<p> -O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados, -vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população -de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a -preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em -repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a -respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos -batendo dominadoramente as pedras duras do chão. -</p> -<p> -Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova. -</p> -<p> -Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto -desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e -meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a -porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro -lampejante de mar. -</p> -<p> -Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e -de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava -de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. -Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella -confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a -impressão de que a terra se debatia num delirio de febre. -</p> -<p> -Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, -agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada -sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se -aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado -para descer ao outro em escadarias toscas. -</p> -<p> -De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para -extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas -de moças cantavam modinhas ternas. -</p> -<p> -Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés, -d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas -ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam -trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas. -</p> -<p> -O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a -face quente e robusta da terra. -</p> -<p> -Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros. -</p> -<p> -Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres, -trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era -resignado e sabia esperar. -</p> -<p> -A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes. -</p> -<p> -Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle -viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces -para as outras, mal abertas, de ar desconfiado. -</p> -<p> -Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas -velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam -em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a -atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza. -</p> -<p> -Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o -capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola. -</p> -<p> -Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda -inconstante... -</p> -<p> -Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só -voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e -ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo. -</p> -<p> -Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na -telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou -esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento -continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os -predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia, -coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo -o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto -docil e amorosa para com o outro... -</p> -<p> -Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho -de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações -felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria -mais ninguem assim, tão desafortunado. -</p> -<p> -Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o -coração tranquillo, com fé no amor! -</p> -<p> -Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação -da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse, -mas não amasse o outro! -</p> -<p> -E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque -havia de ser o outro, e não elle? -</p> -<p> -O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres -moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de -exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo -teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes, -tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se -guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as -miserias embelleza. -</p> -<p> -E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus -dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia -neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo -que combate ou pelo que amplia? -</p> -<p> -Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado, -amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla -de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre -doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem -encerrada no circulo de seus deveres. -</p> -<p> -Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como -adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente -e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe, -salvar-se do perigo que o solicitava. -</p> -<p> -Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria -o seu orgulho de homem. -</p> -<p> -A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a. -</p> -<p> -A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com -ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria -para bordo aprestar o <i>Neptuno</i>. -</p> -<p> -Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para -que? não tornaria a vel-a... -</p> -<p> -Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella, -sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem -nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o -poder da sua vontade. -</p> -<p> -Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do -norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria, -inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer... -</p> -<p> -O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e -só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento -forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado -apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe, -extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello; -elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle -aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos. -Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu -tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo -deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel. -</p> -<p> -D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras, -desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o -calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou -para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa -occasião. -</p> -<p> -Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e -das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e -risonhas nas suas <i>toilettes</i> claras. -</p> -<p> -D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as -mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha -esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava. -</p> -<p> -Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia -Theodoro, como estava a boa Camilla? -</p> -<p> -Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando. -</p> -<p> -A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe, -dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais -atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e -offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos -objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á -cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira. -</p> -<p> -—E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse -do que para dizer alguma coisa. -</p> -<p> -—Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido -sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo -é de ingratos... -</p> -<p> -—Sim, é de ingratos; confirmou o capitão. -</p> -<p> -Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as -lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das -cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel, -numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão -insupportavel a longura da viagem. -</p> -<p> -Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que -ninguem o via, senão no palacete Theodoro? -</p> -<p> -Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e -contemplou-o com curiosidade. -</p> -<p> -Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos, -apontando o portão da sua residencia. -</p> -<p> -O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta, -admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices -da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida -e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de -formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão -enluvada? -</p> -<p> -A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se -a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que -ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O <i>bond</i> -parara no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da -madrasta; o portão estava aberto, entrou. -</p> -<p> -Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus -pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por -uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao -fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e -simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina. -</p> -<p> -Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, -e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em -semicirculo. -</p> -<p> -Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha. -</p> -<p> -—Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e -ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros. -</p> -<p> -—Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do -costume. -</p> -<p> -—Chamaste medico? -</p> -<p> -—Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama. -</p> -<p> -—Que Hermengarda? -</p> -<p> -—Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do... -</p> -<p> -—Já sei. -</p> -<p> -—D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora? -</p> -<p> -—Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos. -</p> -<p> -—Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os -dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D. -Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as -arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o -adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo -cheiro. -</p> -<p> -—Que tens feito? -</p> -<p> -—Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha -se eu quizer sahir? -</p> -<p> -—Effectivamente estás muito só. -</p> -<p> -—Preciso casar-me. -</p> -<p> -—Casa-te. -</p> -<p> -—Tenho medo. -</p> -<p> -—Os homens assustam-te? -</p> -<p> -—Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto! -Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento. -</p> -<p> -—Sê honesta. -</p> -<p> -—Quem pode saber hoje o que será amanhã? -</p> -<p> -—Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma -indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de -calma e de reflexão! -</p> -<p> -—Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. -Chama-me com malicia—<i>doutora</i>. Todos os meus gostos são -assumpto de mofa para ella, e todos os seus são para mim de -aborrecimento. E ahi tens a calma d'esta casa. Fresca tranquillidade! -</p> -<p> -—Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te! -</p> -<p> -—Com quem? -</p> -<p> -—Commigo não pode ser. -</p> -<p> -—Nem tu quererias. -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Porque amas a Camilla Theodoro. -</p> -<p> -Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O -jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e -cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto, -pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras. -</p> -<p> -—Nega, se és capaz; disse ella. -</p> -<p> -—Não nego. -</p> -<p> -Quedaram-se mudos, contemplando-se de face. -</p> -<p> -Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe -assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio. -Catharina murmurou: -</p> -<p> -—Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella -e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo. -</p> -<p> -—Nem eu; mas a sociedade absolveu-o... -</p> -<p> -—Os homens. Ella era tão boa! -</p> -<p> -—Enganou-o. -</p> -<p> -—Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento -de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de -uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a -beijar-lhe a mão. -</p> -<p> -—Nem mesmo na hora da morte?! -</p> -<p> -—Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao -encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle -percebeu tudo. Que morte! -</p> -<p> -—Foste cruel. -</p> -<p> -—Fui humana. Tu o amavas? -</p> -<p> -—Antes? muito! -</p> -<p> -—Depois? -</p> -<p> -—Não. Mas era nosso pae... -</p> -<p> -—E ella era nossa mãe! -</p> -<p> -—Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura -entre as mulheres. -</p> -<p> -Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua. -</p> -<p> -—Foi no <i>Neptuno</i> que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino -mudando de tom. -</p> -<p> -—Onde havia de ser? -</p> -<p> -—E só aquella vez bastou? -</p> -<p> -—Só. -</p> -<p> -—Manda calar aquelle sabiá, Catharina! -</p> -<p> -—Deixa lá o passaro; chora. -</p> -<p> -—... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... -Entrego em Belém o commando do <i>Neptuno</i> a outro. Tenho -substituto; está tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo -fugir-lhe. Não era preciso que evocasses a lembrança do passado para -me dissuadir... -</p> -<p> -—Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor -não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella -ama o Dr. Gervasio... -</p> -<p> -—Por quem soubeste isso? -</p> -<p> -—Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, -benza-a Deus! -</p> -<p> -—Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?! -</p> -<p> -—Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento -traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada -desembainhada para todas as faltas, aquella mulher! -</p> -<p> -—De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso -assim fosse, quem poderia adivinhar? -</p> -<p> -—João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre. -</p> -<p> -—Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não -ama ninguem; não ama ninguem! -</p> -<p> -Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar, -um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que -as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e -calma, toda azul, com leves tons opalinos. -</p> -<p> -—Catharina? -</p> -<p> -—João? -</p> -<p> -—Precisava ter-te sempre a meu lado... -</p> -<p> -—Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus -filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas! -</p> -<p> -—Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella. -</p> -<p> -—Soffres muito?... -</p> -<p> -—Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. -Custa muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo! -</p> -<p> -—Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo. -</p> -<p> -Sorriram ambos, com tristeza. -</p> -<p> -Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina -tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se -com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa. -</p> -<p> -Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da -madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um -lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda -tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa -muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo. -</p> -<p> -O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e -a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito -frio. -</p> -<p> -Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras, -recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em -bicos de pés. -</p> -<p> -Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se -alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais -intimo. -</p> -<p> -Elle perguntou: -</p> -<p> -—Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta? -</p> -<p> -—Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria -depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim, -quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas -o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu -sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso. -</p> -<p> -Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto -era na visinhança. -</p> -<p> -Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu, -ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de -separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que -em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com -sinceridade—o d'ella. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XII">XII</a></h4> - -<p> -Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria: -era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de -que o negociante fizera o seu escriptorio. -</p> -<p> -Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada -para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de -plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés -morria. -</p> -<p> -Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha -estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua -attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do -aposento, vasto e sobrio. -</p> -<p> -Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das -coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma. -</p> -<p> -A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros -industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano. -Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um -cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento. -</p> -<p> -Do lampeão de bronze com <i>abat-jour</i>, cahia uma luz bem dirigida, -espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo. -</p> -<p> -Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o -Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua. -</p> -<p> -A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos -não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus -olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus -movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da -sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa, -a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida -alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio. -</p> -<p> -Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de -prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco -Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o -desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto -experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella -entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer -empreza. -</p> -<p> -Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa -condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital, -avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando -zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o -pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem. -</p> -<p> -E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No -mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou -uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer -pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida. -</p> -<p> -O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em -borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente. -</p> -<p> -Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e -as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade. -Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a -vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do -desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante, -não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que -elle não conseguia dirigir a seu modo. -</p> -<p> -Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de -goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é -que lhe parecia uma ignominia. -</p> -<p> -Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do -homem obrigava-o a transigir um pouco... -</p> -<p> -Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal -chegava o echo das correrias das pequenas. -</p> -<p> -Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não -pede, mas offerece favores. -</p> -<p> -Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da -cabeça, começou: -</p> -<p> -—Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. -O Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua -prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi -elle que me disse que o consultasse tambem. -</p> -<p> -Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do -Braga scintillavam na sombra. -</p> -<p> -Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom -criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o, -revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração -perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia, -fortificando-o com argumentos persuasivos. -</p> -<p> -Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum -artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio -prestava-se. -</p> -<p> -Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos -difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O -tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se. -</p> -<p> -Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais -rude. -</p> -<p> -O assalto assustava-o. -</p> -<p> -Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos, -Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger -resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a -seductoramente. -</p> -<p> -Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle -não fallasse com a autoridade de bom conhecedor. -</p> -<p> -Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias -o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em -certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da -promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era -documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno, -annotado nas margens, com lettra miuda. -</p> -<p> -Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem -argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta -incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde... -</p> -<p> -Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por -instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro, -e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia. -</p> -<p> -O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa. -Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a -propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro -approvou. -</p> -<p> -Reconhecia nos inglezes grande capacidade. -</p> -<p> -—Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor -porque? -</p> -<p> -—Superioridade de raça... Sim, é o que dizem. -</p> -<p> -—Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de -educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais -forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo -de figado que tenha ingerido em pequeno. -</p> -<p> -A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas -especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de -negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as -mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o -que o inglez nasce e se desenvolve. -</p> -<p> -Por isso o commercio d'elles é tão forte. -</p> -<p> -Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo -estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos! -</p> -<p> -Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto. -</p> -<p> -Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas, -estatisticas... -</p> -<p> -Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem -tirar os olhos dos papeis: -</p> -<p> -—Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:—o Gama -Torres. -</p> -<p> -—É rapaz novo... -</p> -<p> -—E atiladissimo. -</p> -<p> -—Os negocios precisam ser feitos com vagar... -</p> -<p> -—Á moda antiga. -</p> -<p> -—De todos os tempos. -</p> -<p> -—Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do -thermometro. -</p> -<p> -As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos -alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra -épocha. Esta é a melhor.—É a unica. -</p> -<p> -Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores -e mais convincentes do que palavras:—cifras. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e -seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro -apontavam e percorriam rapidamente. -</p> -<p> -Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação, -assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de -desabar em blocos de ouro. -</p> -<p> -Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma -objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem -já vinha prevenido para tudo. -</p> -<p> -Á meia-noite ergueu-se, dizendo: -</p> -<p> -—Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra -vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das -duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite. -</p> -<p> -Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em -cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na -soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães. -</p> -<p> -—Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem! -</p> -<p> -—Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas. -</p> -<p> -—É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro. -</p> -<p> -—Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites! -</p> -<p> -Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento -gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do -Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras -lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e -morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção... -</p> -<p> -Quando no dia seguinte abriu o <i>Jornal</i>, na frescura da varanda, -percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se -presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros -caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro -desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga. -</p> -<p> -E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado. -</p> -<p> -—Sabe uma coisa, papaezinho? -</p> -<p> -—Não ... não sei nada. Que temos? -</p> -<p> -—Uma desgraça. -</p> -<p> -Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado. -</p> -<p> -—Que dizes?! -</p> -<p> -—Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para -lhe dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado... -</p> -<p> -—Então a desgraça é essa? -</p> -<p> -—Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os -outros, que podem mais, se esqueçam d'ella... -</p> -<p> -—Ora, não lhe falta nada. -</p> -<p> -—A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz -annos, o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se -fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a -minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente... -Entretanto... -</p> -<p> -Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção. -</p> -<p> -—Acaba. -</p> -<p> -—Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com -mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios -de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer -que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor -ou a mamãe. -</p> -<p> -Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu... -</p> -<p> -—Quem te lembrou isso hoje? -</p> -<p> -—Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha... -</p> -<p> -—Bom; promette-lhe o chapéu. -</p> -<p> -—Só? -</p> -<p> -—Parece-te que temos sido ingratos para com ella? -</p> -<p> -—Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa... -</p> -<p> -—Que coisa? -</p> -<p> -—Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata -que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:—mas porque é que você não -compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e -ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não -podia tomar gelo, mas perguntei:—porque é que você não toma um -sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor -vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem -uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que -desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma -carteirinha no bolso... -</p> -<p> -—Queres então dar-lhe uma carteira? -</p> -<p> -—Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por -mamãe. -</p> -<p> -—Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço. -</p> -<p> -Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio -faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer. -</p> -<p> -Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se -para a sobrinha, declarou: -</p> -<p> -—Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para -você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os -mezes um vestido a seu gosto. -</p> -<p> -A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou -com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a -saude. Ella começou a chorar. -</p> -<p> -—Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De -maneiras que você... -</p> -<p> -Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla -applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos. -</p> -<p> -Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao -tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou: -</p> -<p> -—A casa não é grande, mas é nova e bonitinha. -</p> -<p> -—É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever, -insistindo para que você não falte ao baile do pae. -</p> -<p> -Parece que a Paquita está apaixonada! -</p> -<p> -Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que -recomeçara a partir o <i>beef</i> das primas. -</p> -<p> -—Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado. -</p> -<p> -—Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do -Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só -attribuo a querel-o o Meirelles para genro. -</p> -<p> -—Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O -Meirelles não é nenhum parvo. -</p> -<p> -Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse: -</p> -<p> -—Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de -mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não -quero. -</p> -<p> -Nina tremia. -</p> -<p> -Francisco Theodoro riu alto. -</p> -<p> -—Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou -a outra, com um homem de peso... -</p> -<p> -—Pois sim!... -</p> -<p> -—Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são? -</p> -<p> -—Cinco, parece-me que cinco. -</p> -<p> -—Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem -nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do <i>Chora vintens</i>... -D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio... -Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado... -</p> -<p> -—Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho -de nojo. -</p> -<p> -—Que queres? Nem todos nascem para doutores. -</p> -<p> -Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega; -todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do -filho. -</p> -<p> -Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar: -</p> -<p> -—Que foi que eu lhe disse hoje? -</p> -<p> -A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou: -</p> -<p> -—Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa -nova? -</p> -<p> -—Borboleta azul?... -</p> -<p> -—Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul? -Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito -dote... E ainda ha quem não acredite! -</p> -<p> -—Sim, é verdade, você me disse... -</p> -<p> -E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de -doçura. -</p> -<p> -Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga -apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S. -Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em -casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que -transparecia a mais viva curiosidade. -</p> -<p> -O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os -pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de -dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro -prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia, -na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto. -</p> -<p> -Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão -uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna -não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade, -tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado. -</p> -<p> -Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e, -cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao -Innocencio... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIII">XIII</a></h4> - -<p> -O palacete Theodoro preparava-se para o baile. -</p> -<p> -Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e -corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de -escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando -<i>parquets</i> e de moveis deslocados. -</p> -<p> -Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o -despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas -escancaradas, com inteiro desassombro. -</p> -<p> -Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa -perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel -e discreto. -</p> -<p> -Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a -interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma -salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um -romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e -não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das -suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro -abandonados. -</p> -<p> -Os outros da familia preoccupavam-se com a festa. -</p> -<p> -Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da -modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas -sobre <i>tules</i>, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro. -</p> -<p> -O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas -salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho -das dansas. -</p> -<p> -Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando -para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não -provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal, -quem sabe? a gente illude-se tantas vezes! -</p> -<p> -E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que -tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio -não a deixava tomar corpo. -</p> -<p> -Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem -determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de -musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco; -foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e -harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos -parecia a Camilla perfeito. -</p> -<p> -Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As -gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se -por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da -desordem que provocavam. -</p> -<p> -Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito. -</p> -<p> -Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta -do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz. -</p> -<p> -Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais -risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a -familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava -construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um -avestruz. -</p> -<p> -Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta -por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, -estacou surprehendida. -</p> -<p> -De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, -soprando em longos flautins de ouro. -</p> -<p> -A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, -porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, -que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da -atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida -da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus -olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento. -</p> -<p> -Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A -machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos. -</p> -<p> -Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se -podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e -bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas -de filó batiam tremulas. -</p> -<p> -Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um -paiz de sonho. -</p> -<p> -Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a -vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas -tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em -flechas de sol. -</p> -<p> -Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio -entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da -parede: -</p> -<p> -—Estou gostando de vêr... -</p> -<p> -«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao -mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não -lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente. -</p> -<p> -Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle -respondeu: -</p> -<p> -—Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e -injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia -esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma -perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não -digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o -effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa... -</p> -<p> -—Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a -mamãe que me mande ensinar pintura... -</p> -<p> -—Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é -raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não -pense em mais nada... -</p> -<p> -Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a -não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos -trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no -caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de -musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou -coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas. -</p> -<p> -Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo -lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da -illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os -canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados. -</p> -<p> -Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a -Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia -Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao -Observatorio para vêr a lua e as estrellas. -</p> -<p> -Era a occasião. -</p> -<p> -Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no -oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa -rezada. -</p> -<p> -D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a -essa hora o—<i>ora pro nobis</i> em côro com o povo e os frades. -</p> -<p> -Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas -encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes -desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia -todos os sacrificios. Ficaria. -</p> -<p> -Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa -em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, -perguntando pela sua encommenda. -</p> -<p> -—Que encommenda, gente? -</p> -<p> -—A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que -eu pedi... -</p> -<p> -—Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu -dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu? -</p> -<p> -—Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa... -</p> -<p> -—P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein? -</p> -<p> -A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice. -</p> -<p> -—Não diga nada... -</p> -<p> -—Você é tola!... -</p> -<p> -A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser -ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas -dilatadas farejando mysterios. -</p> -<p> -D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo -questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando -desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel -de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha. -Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e -torpes: -</p> -<p> -—O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias? -</p> -<p> -—Vae, sim, senhora. -</p> -<p> -—Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas? -</p> -<p> -—Não sei... -</p> -<p> -—Camilla sae sozinha? -</p> -<p> -—Ás vezes sae. -</p> -<p> -—Porque é que você não vae sempre com ella, hein? -</p> -<p> -—Eu tenho que estudar. -</p> -<p> -—Não fica bem uma senhora sahir só... -</p> -<p> -Ruth contemplou-a, estupefacta. -</p> -<p> -—As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto? -</p> -<p> -—Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno. -</p> -<p> -—Em quantos contos está? -</p> -<p> -—Não sei, não, senhora... -</p> -<p> -—O Dr. Gervasio vae tambem? -</p> -<p> -—Acho que não. -</p> -<p> -—Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de -olho? -</p> -<p> -—P'ra Nina? não, senhora. -</p> -<p> -—Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz -que estão reformando tudo! é verdade? -</p> -<p> -Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do -medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, -as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o -vestibulo... -</p> -<p> -D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava -a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um -sorriso torto: -</p> -<p> -—Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar. -</p> -<p> -Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. -Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a -lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã -voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a -viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que -por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha -julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra -o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que -embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender... -</p> -<p> -Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca -rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella! -</p> -<p> -D. Joanna entrou, gemendo de cançaço. -</p> -<p> -—Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã. -</p> -<p> -—Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se -precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra -tia. -</p> -<p> -—Quem foi que trouxe você? -</p> -<p> -—Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não -queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi, -tanto pedi... -</p> -<p> -—Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de -trinta annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É -muito triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas... -</p> -<p> -Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a -duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu: -primeiro de dor, depois de allivio. -</p> -<p> -—Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã -poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e... -</p> -<p> -—E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim. -Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma -curiosidade! -</p> -<p> -—Mas... -</p> -<p> -—Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha, -sim? -</p> -<p> -Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de -kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou -a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor. -</p> -<p> -Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á -janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe -historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de -rogada. -</p> -<p> -As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam -a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num -ambiente tão diverso do que lhe era habitual. -</p> -<p> -Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a -nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças -flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando -judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições -injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os -extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, -assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a -vastidão sombria do aposento mudo. -</p> -<p> -Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas -indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das -lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho -erguido a uivar... -</p> -<p> -—Tia Joanna, tia Joanna! -</p> -<p> -—Que é isso, minha filha?! -</p> -<p> -—Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave... -</p> -<p> -—Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que -ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda -hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras. -</p> -<p> -—Mas, o céo assim é feio, tia Joanna... -</p> -<p> -—Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda -muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem -simples. -</p> -<p> -—Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim? -</p> -<p> -—Nem sangue, nem fogueiras:—Foi um dia... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIV">XIV</a></h4> - -<p> -«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a -Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de -rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo. -</p> -<p> -Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria -negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista. -</p> -<p> -Uma tristeza. -</p> -<p> -No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da -portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão -doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror -Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda -e murmurava: -</p> -<p> -—Ave! -</p> -<p> -E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul. -</p> -<p> -Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu -habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu -ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, -tirando a cruz e o véu. -</p> -<p> -Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. -Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera -tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não -sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando... -</p> -<p> -Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr? -</p> -<p> -Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, -com dois olhos que nem duas estrellas. -</p> -<p> -—Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo -as mãos tremulas. -</p> -<p> -—Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle. -</p> -<p> -E logo de mil modos começou a tental-a. -</p> -<p> -Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. -Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe -que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no -abysmo... -</p> -<p> -A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer -despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que -fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, -muito tremula, muito alvoroçada. -</p> -<p> -Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus -que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O -beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, -embriagador. -</p> -<p> -Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha -deliquios, abstracções. -</p> -<p> -O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que -fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares -cheirosos e aguas crystallinas. -</p> -<p> -Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os -labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a -perpetua bemaventurança, mais que tudo! -</p> -<p> -E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á -portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento. -</p> -<p> -Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A -freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas -ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu -cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e -tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava -com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando -contrictamente:—Ave!—e passava; mas, oh! surpreza! a grande -porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só -havia grossas paredes impenetraveis. -</p> -<p> -Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul. -</p> -<p> -Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão -levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a -communidade entoava: -</p> -<p> -—Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos -trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa! -</p> -<p> -Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em -redor, por aquellas penedias. -</p> -<p> -E entoavam hymnos. -</p> -<p> -Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão -aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto -voltado para a outra banda. -</p> -<p> -Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa -vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e -trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que -a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco... -</p> -<p> -Depois... -</p> -<p> -Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a -misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão—mas o diabo -em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de -cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se -com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por -mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés -ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os -penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se. -</p> -<p> -Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito -velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar -em uma religiosa fugida do convento um anno antes? -</p> -<p> -—Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são -todas umas santinhas, louvado seja o Senhor! -</p> -<p> -—<i>Amen</i>! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que -recebia rosas... -</p> -<p> -—A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se -soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos. -</p> -<p> -Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, -com o coração aos pulos, bateu á porta do convento. -</p> -<p> -—Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima. -</p> -<p> -—Uma peccadora arrependida, para a penitencia—sussurrou soror -Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos... -</p> -<p> -A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos -enferrujados estavam de velludo,—e a rodeira mostrou se com um -sorriso á freira apoquentada. -</p> -<p> -Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os -joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa -compuncção e infinita doçura: -</p> -<p> -—Ave! -</p> -<p> -A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a -fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: -badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos -altares e arrumando os gavetões da sacristia. -</p> -<p> -—Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua -cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!... -</p> -<p> -Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; -depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando: -</p> -<p> -—E Vós, Mãe Santissima?! -</p> -<p> -—Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho -azul...» -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o -lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior -economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror -Pallida. -</p> -<p> -Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se -das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito -branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o -quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, -e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do -silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos -lancinantes. -</p> -<p> -Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados. -</p> -<p> -—Que é isto, tia Joanna?! -</p> -<p> -—Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha... -</p> -<p> -—Meu Deus! -</p> -<p> -—Não é nada, dorme, minha filha! -</p> -<p> -—Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na -coitada! -</p> -<p> -—Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de -intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa. -</p> -<p> -—Vou eu. -</p> -<p> -Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um -movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz; -guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a -cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de -marmelleiro. -</p> -<p> -A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a -cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia -descahindo sobre a carapinha da outra. -</p> -<p> -—Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com -impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta. -</p> -<p> -—Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito -gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth, -vá dormir. -</p> -<p> -—Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem -coração?! -</p> -<p> -—Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui! -</p> -<p> -A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava -as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth. -</p> -<p> -D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, -puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua -carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha. -</p> -<p> -—Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio -nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos. -</p> -<p> -D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra: -</p> -<p> -—Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de -ajustar contas... -</p> -<p> -Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e -Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna. -</p> -<p> -A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a: -</p> -<p> -—É sempre assim? -</p> -<p> -—Não ... uma vez ou outra. -</p> -<p> -—Mas como podem viver neste inferno?! -</p> -<p> -—Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que -ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim. -E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é -raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das -missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu -não teria paciencia para a aturar. -</p> -<p> -—A Sancha vae amanhã commigo para casa. -</p> -<p> -—Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço? -</p> -<p> -—Aluguem uma mulher. -</p> -<p> -—Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz -tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei. -Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto -de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a -apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais -nella. Durma... -</p> -<p> -Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se -levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir -tambem. -</p> -<p> -Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a -Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se -chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo -que a tia Joanna a ouvisse: -</p> -<p> -—Sancha, porque é que você não foge? -</p> -<p> -A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo. -</p> -<p> -—Nhá?! -</p> -<p> -—Fuja! -</p> -<p> -A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada. -Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta. -</p> -<p> -—E depois? perguntou ella, assustada. -</p> -<p> -—Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe. -</p> -<p> -—De que serve! me mandarão outra vez para cá... -</p> -<p> -—Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella... -</p> -<p> -A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café -da vespera, requentado. -</p> -<p> -Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos -telhados, e nada se via da cidade, em baixo. -</p> -<p> -Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello -espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros -vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a -madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a -pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella -luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo. -</p> -<p> -Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma -oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o -altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma -supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um -ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, -foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De -mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de -piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias -do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, -fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam -soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr -nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos -seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa -delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou -uma saudade absurda, a <i>saudade do céo</i>, como dizia o Dr. Gervasio, e -que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que -germinava no seu peito fraco. -</p> -<p> -E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se -á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a -ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, -apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões -rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga! -</p> -<p> -Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, -se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade? -</p> -<p> -Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça -para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos -rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes -perseguidos. -</p> -<p> -E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a -fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e -soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao -grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão -bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle -corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda -e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra. -</p> -<p> -—Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava -Ruth, confusa, com os olhos no altar. -</p> -<p> -Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas -corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados. -</p> -<p> -Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de -agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de -boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os -ultimos farrapos de neblina. -</p> -<p> -A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a -egreja do Carmo. -</p> -<p> -Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em -egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina. -</p> -<p> -—Você conhece a egreja do Carmo? -</p> -<p> -—Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto -das egrejas grandes. -</p> -<p> -—Porque?! -</p> -<p> -—Não sei... -</p> -<p> -—Ora essa! -</p> -<p> -—Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á -senhora não acontece o mesmo? -</p> -<p> -—A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou -não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz. -</p> -<p> -—A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e -fria, que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores? -</p> -<p> -—Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas. -Elle está em toda a parte. -</p> -<p> -—Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas? -</p> -<p> -D. Joanna estacou. -</p> -<p> -—Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem. -</p> -<p> -—E a Sancha? -</p> -<p> -—Hein? -</p> -<p> -—A Sancha. -</p> -<p> -—Lá vem você com a negrinha! -</p> -<p> -—Negra ou branca, é creatura. -</p> -<p> -—Não digo que não. Mas que falta á Sancha? -</p> -<p> -—Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra... -</p> -<p> -—Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz. -Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada, -d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho -nos braços. -</p> -<p> -—Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia -Joanna. Tomara eu. -</p> -<p> -—Menina, que é que você está dizendo! -</p> -<p> -—Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte -filhos, vinte! -</p> -<p> -A velha corou. -</p> -<p> -—Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a -repetil-as, ouviu? -</p> -<p> -Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D. -Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma -harpa, outra com uma rabeca: -</p> -<p> -—Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á -chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima. -</p> -<p> -—Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar -livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em -qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao -menos estes teem a musica. -</p> -<p> -D. Joanna riu-se. -</p> -<p> -—É verdade; quando você toca esquece tudo. -</p> -<p> -Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar -sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para -que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na -primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as -saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel -aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase! -</p> -<p> -Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da -egreja. -</p> -<p> -Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia -ouvil-a. No adro lembrou ainda: -</p> -<p> -—Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do -padre Euclydes, que está doente. -</p> -<p> -Ruth objectou: -</p> -<p> -—Mas titia, eu estou com fome... -</p> -<p> -—Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará -informações e seguiremos logo para casa. -</p> -<p> -Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria -as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á -missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes. -D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da -egreja, dizendo: -</p> -<p> -—Rezemos por alma d'este morto, filha. -</p> -<p> -—Mas nós nem o conhecemos, titia! -</p> -<p> -—Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o. -</p> -<p> -Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar. -Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth -deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle -desconhecido, por quem tantas mulheres choravam... -</p> -<p> -Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos! -</p> -<p> -Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a -chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no -domingo a sua missa. -</p> -<p> -—Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse -Ruth. -</p> -<p> -—Peça, filhinha. -</p> -<p> -—Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A -estas horas elle está farto de estar no armazem. -</p> -<p> -D. Joanna hesitou: -</p> -<p> -—Olhe que não é tão perto assim... -</p> -<p> -—Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa... -</p> -<p> -—Vamos lá... Que pieguice! -</p> -<p> -Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco -Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas, -empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um -paletot preto fazia resaltar a alvura. -</p> -<p> -Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle -extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria: -</p> -<p> -—Senhora fujona, que faz por aqui?! -</p> -<p> -—Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora -procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos -almoçar... -</p> -<p> -Se papae nos levasse a um hotel?... -</p> -<p> -—Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o -Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus. -</p> -<p> -E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis, -aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E -despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth -mandava á mãe. -</p> -<p> -D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais -valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um -restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas -economias sordidas da irmã. -</p> -<p> -—Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei -contente; respondeu-lhe a menina. -</p> -<p> -Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e -entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr. -Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de -rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam -o escrupulo dos moradores. -</p> -<p> -O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho, -arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo -cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o -rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina -da velhice. -</p> -<p> -D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth -tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar. -</p> -<p> -Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do -almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no -fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa -recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e -Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo -com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel. -</p> -<p> -Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas -camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e -para elles fazia convergir todos os seus cuidados. -</p> -<p> -A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se -acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim, -mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para -medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados, -escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de -grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão. -</p> -<p> -Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas -de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á -sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida. -</p> -<p> -Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela -innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no -seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á -morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E -toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico. -</p> -<p> -D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com -difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os -ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do -medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de -primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as -nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir -tão alto, tão alto! -</p> -<p> -—O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e -todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; -percebem? -</p> -<p> -D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth -murmurou: -</p> -<p> -—Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito! -</p> -<p> -Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que -se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo -corredor. -</p> -<p> -D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O -marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe -valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal -e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já -trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, -por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro. -</p> -<p> -Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu -a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota -da negrinha não ouvira o seu conselho? -</p> -<p> -Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido -ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder -abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna -benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua -consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era -bom, estava tudo sempre muito bem. -</p> -<p> -Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para -vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e -tantas as suas exclamações, que a tia observou: -</p> -<p> -—Você é muito exaggerada, Ruth! -</p> -<p> -Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado, -aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta -estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um -<i>bouquet</i> de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e -outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas, -que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas -como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata, -aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando, -cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica... -Depois a lua... -</p> -<p> -—Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, -como é bonito! -</p> -<p> -—Bom, bom; divirta-se... -</p> -<p> -Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia -d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem -sobre ella aromas que a embriagassem. -</p> -<p> -—Filhinha, vamo-nos embora... -</p> -<p> -—Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna! -</p> -<p> -Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que -tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada -as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de -flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia -lhe ouviu em um murmurio entrecortado: -</p> -<p> -—Como é bonito! -</p> -<p> -No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha -para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros -pela casa. -</p> -<p> -Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta: -</p> -<p> -—Que é? -</p> -<p> -A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina: -</p> -<p> -—A Sancha fugiu! -</p> -<p> -Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth. -</p> -<p> -Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde -teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa -se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora! -sempre seria mais feliz lá fora... -</p> -<p> -Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços -ao pescoço. Era a sua libertação. -</p> -<p> -D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se -levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, -provocando a negrinha para o assanhamento da rua. -</p> -<p> -Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha, -deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo -vagavam conjunctamente. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XV">XV</a></h4> - -<p> -Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas, -quando viu entrar a Therezinha Braga. -</p> -<p> -—Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre. -</p> -<p> -—Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo -figurino. -</p> -<p> -—Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora... -</p> -<p> -—Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno! -</p> -<p> -Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira -tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio: -</p> -<p> -—Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança. -</p> -<p> -—Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim. -</p> -<p> -—Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em -seu nome? -</p> -<p> -—Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe! -</p> -<p> -—Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança. -Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae -tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão! -</p> -<p> -—Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez -se possa arranjar alguma coisa... -</p> -<p> -—Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata. -</p> -<p> -Servindo o café, Nina explicou á Therezinha: -</p> -<p> -—A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande -logo os seus figurinos. -</p> -<p> -—É para o meu vestido de baile. -</p> -<p> -—Você mesma é que o vae fazer? -</p> -<p> -—Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes? -</p> -<p> -—Não... -</p> -<p> -—Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o -vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a -Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia: -parece outra coisa... -</p> -<p> -—Está muito bonita, agora, depois que engordou. -</p> -<p> -—Mas cada vez mais maliciosa... -</p> -<p> -Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e -Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, -muito pirracentas. -</p> -<p> -—Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os -sonhos a Ruth. -</p> -<p> -Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se -balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram -para a mesa, á espera do café. -</p> -<p> -—Ora graças! -</p> -<p> -Engulido o café, Therezinha declarou: -</p> -<p> -—Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora! -</p> -<p> -As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; -Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre -os restos assucarados dos pratos. -</p> -<p> -De repente, Nina: -</p> -<p> -—Em que é que você está pensando, Ruth? -</p> -<p> -—Na Sancha. -</p> -<p> -—Que ideia! -</p> -<p> -—É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive -tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu -vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não -sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que -fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa, -que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond... -Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel! -</p> -<p> -Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera -envenenar-se; era menos burra do que parecia. -</p> -<p> -—Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia -Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá? -</p> -<p> -—Para que? -</p> -<p> -—Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas -visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com -Mario? -</p> -<p> -—Não... -</p> -<p> -—Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado! -</p> -<p> -—Mario não gosta d'ella. -</p> -<p> -—Quem disse? -</p> -<p> -—Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu? -</p> -<p> -—Ouvi... -</p> -<p> -—Então? -</p> -<p> -—Então? Quem sabe o que estará para acontecer! -</p> -<p> -Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da -Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o -baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos. -</p> -<p> -O negociante olhou boquiaberto para a mulher. -</p> -<p> -Ella disse: -</p> -<p> -—Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a -Europa. -</p> -<p> -—Mas é incrivel! -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer -entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage -está doida. -</p> -<p> -—Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a. -</p> -<p> -—Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. -Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia? -</p> -<p> -—Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais... -</p> -<p> -—Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente. -Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se -casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida. -A experiencia da vida é um grande dote. -</p> -<p> -—Você falla com Mario? -</p> -<p> -—Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante -asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos. -Falla-lhe tu ... se quizeres. -</p> -<p> -Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, -fazendo tilintar as chaves. -</p> -<p> -—A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o -Innocencio... -</p> -<p> -—Como soube ella d'isso?! -</p> -<p> -—Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi... -</p> -<p> -—Tenho medo... -</p> -<p> -—Hein? -</p> -<p> -—Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles -querem mesmo o casamento? -</p> -<p> -—Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O -Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom -gosto. -</p> -<p> -—Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos. -</p> -<p> -—Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por -emquanto é bom não dizer nada a ninguem. -</p> -<p> -—A quem o dizes... -</p> -<p> -Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, -vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava. -</p> -<p> -Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga? -</p> -<p> -Abriu a janella e encostou-se. -</p> -<p> -De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a -musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro. -</p> -<p> -No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam -as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva -sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás -mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como -ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme -posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, -rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de -palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma -cesta de fructas e frescos pés de alface. -</p> -<p> -A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, -nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com -clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir -sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante. -</p> -<p> -No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza -enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo. -</p> -<p> -Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos -alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e -as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do -seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição -da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos. -</p> -<p> -Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter -sabido crear para os seus uma felicidade perfeita. -</p> -<p> -Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua, -desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo -sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a -abundancia e a alegria. -</p> -<p> -As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida. -</p> -<p> -Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da -janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem -desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito -florido por um fresco <i>bouquet</i> de myosotis, as mãos nos bolsos, -parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito. -</p> -<p> -Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os -perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa -estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido -escuro, dava uns retoques á fructeira. -</p> -<p> -—O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio. -</p> -<p> -—Como sempre. -</p> -<p> -—Virá jantar? -</p> -<p> -—Creio que não... -</p> -<p> -—É o diacho ... eu precisava fallar-lhe! -</p> -<p> -—O seu empregado está peior? -</p> -<p> -—Parece-me que sim ... coitado... -</p> -<p> -Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no -velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa: -</p> -<p> -—Quer que eu mande tocar a sineta? -</p> -<p> -—É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De -maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui? -</p> -<p> -Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage -deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario -se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que? -</p> -<p> -Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um -jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher -a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella -creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal -casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o -consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por -caduquice; miolo molle.—O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao -Mario!—resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se -fizesse um commentario ao artigo acabado de ler. -</p> -<p> -Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, -de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, -muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde -relampejavam fulgores frios. -</p> -<p> -Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira -depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes -nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a -verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, -offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade -outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada -a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de -sentimentos dava-lhe desejos máos. -</p> -<p> -A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo -pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? -Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus -olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com -as delicias do amor? -</p> -<p> -Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, -apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de -arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a -historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, -não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem -tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada... -</p> -<p> -Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se. -</p> -<p> -Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava -dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario? -</p> -<p> -Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força, -reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim -rosadas, com os cabellos ao vento. -</p> -<p> -Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente, -pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de -verdade, puxado a <i>poneys</i>, com o cocheiro vestido de azul. -</p> -<p> -Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a -conferencia da tia. -</p> -<p> -E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas -physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como -se de outra coisa não tivessem tractado. -</p> -<p> -Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido: -</p> -<p> -—O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo -gosto para o commercio... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVI">XVI</a></h4> - -<p> -Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado, -<i>seu</i> Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, -olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede -encardida. -</p> -<p> -Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas -passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço. -</p> -<p> -Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da -molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se -quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, -que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se -enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o -avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola -e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que -esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, -tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e -escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com -os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou -torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar. -</p> -<p> -A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais -côr de cidra. -</p> -<p> -Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. -O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal. -</p> -<p> -O pae chamou-a: -</p> -<p> -—Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me -incommodando. O paletot está sem botões. -</p> -<p> -Ella não respondeu, foi dentro e voltou: -</p> -<p> -—Estão aqui outras meias. -</p> -<p> -—Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna... -</p> -<p> -Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou: -</p> -<p> -—As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom -alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu -terno de casimira está escovado? -</p> -<p> -Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a, -com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com -exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que -as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas -morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol. -</p> -<p> -Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar -rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os -olhos para reter as lagrimas. -</p> -<p> -Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua -defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira. -</p> -<p> -Quem diria que de tal mãe... -</p> -<p> -Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da -cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados. -</p> -<p> -De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava: -</p> -<p> -—Que jantarzinho cangueiro... -</p> -<p> -Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que -elle engulia com esforço. -</p> -<p> -Nesse dia a tarde estava quente. -</p> -<p> -O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras -de baixo, reunidas no quintal. -</p> -<p> -Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira -voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas -frias tornou-se insuportavel. -</p> -<p> -Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a -bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos. -</p> -<p> -O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos -livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e -de sentir a morrinha da casa suja. -</p> -<p> -Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de -alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda -recambiada, fatias de <i>Mané-taiado</i>, ou cocadas com abobora, sujeitas -ao azedume. E então era só: -</p> -<p> -—Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos -dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E -adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô! -</p> -<p> -Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir. -</p> -<p> -Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o -Ribas. -</p> -<p> -<i>Seu</i> Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao -rapaz, mas abria os ouvidos. -</p> -<p> -Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia -duzia de palavras: -</p> -<p> -—Hontem houve um baile em casa de <i>seu</i> Theodoro. Diz que a rua -estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos... -</p> -<p> -—Quem acredita nisso... -</p> -<p> -—O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. -Foi ao baile coberta de joias. <i>Seu</i> Guimarães, <i>seu</i> Castro, -todos estes turunas do café foram lá. -</p> -<p> -—Como sabe você de tanta coisa? -</p> -<p> -—Foi o Isidoro quem me contou. -</p> -<p> -O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles, -fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva. -</p> -<p> -O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, -sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou: -</p> -<p> -—Você não tem que fazer? -</p> -<p> -—Eu ainda não achei emprego... -</p> -<p> -—Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha -casa. -</p> -<p> -—Meu cunhado não me governa. -</p> -<p> -<i>Seu</i> Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada -sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo -de vida, um zum-zum de fóra. -</p> -<p> -O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem -um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades -só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda -aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só -fallar com o <i>Pirueta</i> da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a -capoeiragem... -</p> -<p> -Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que -esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o -seu ventre enorme. -</p> -<p> -Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando -ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não -entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo. -</p> -<p> -—Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi... -</p> -<p> -—Queria que você me emprestasse quinhentos réis... -</p> -<p> -—Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente! -</p> -<p> -—Na gaveta do balcão. -</p> -<p> -—Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu -o que aconteceu; vá-se embora! -</p> -<p> -—Não seja má, Deolinda. -</p> -<p> -—E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha -creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada. -Mal dá p'ra comer, sabe Deus como! -</p> -<p> -—Não seja sovina; depois eu pago. -</p> -<p> -—Ubaldino ahi vem ... vá-se embora. -</p> -<p> -—Ora... -</p> -<p> -E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta -encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia, -tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas -ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu -as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento. -</p> -<p> -Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de <i>seu</i> Joaquim, postando-se -como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua -faina entrarem e sahirem sem interrupção. -</p> -<p> -Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada -de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão -do filho para o trabalho. -</p> -<p> -O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,—e -accrescentava: -</p> -<p> -—Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem. -Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a -Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na -volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será -então tempo de você ceder-lhe o campo... -</p> -<p> -—E eu estou morto por isso... -</p> -<p> -—Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do -<i>Equateur</i>. -</p> -<p> -Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim, -seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria -um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria -ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre -na moldura dos seus cabellos louros. -</p> -<p> -Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e -dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa. -</p> -<p> -Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa -commercial, que já não acabaria com elle. -</p> -<p> -Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho -perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a -sentir que lhe não perdera o amor. -</p> -<p> -Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com -elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro, -feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVII">XVII</a></h4> - -<p> -Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu -quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho. -</p> -<p> -Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem -d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só -voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita -cruzar os mares nos braços do seu amor... -</p> -<p> -Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera -para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao -chão, quando alguem bateu á porta. Abriu. -</p> -<p> -Era a Noca, que vinha toda alterada. -</p> -<p> -—Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão! -</p> -<p> -—Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa. -</p> -<p> -—Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho -quebrado: morte ou ruina. -</p> -<p> -—Morte! se fosse a minha... -</p> -<p> -—Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só -na vida? -</p> -<p> -—Muita gente ... eu. -</p> -<p> -—Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver -o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta. -Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje! -</p> -<p> -—Vá andando, eu já vou. -</p> -<p> -Nina mudou de vestido á pressa e desceu. -</p> -<p> -Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo -desgraças, suggestionados pela influencia da Noca. -</p> -<p> -—Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente, -pensando na Paquita. -</p> -<p> -—O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo. -</p> -<p> -—Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um -sorriso pallido. -</p> -<p> -—Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez -aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa. -Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla. -</p> -<p> -—É melhor... -</p> -<p> -No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla, -encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu <i>peignoir</i> marfim -pontilhado de ouro. -</p> -<p> -—Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou -beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa. -</p> -<p> -E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres -d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia -aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante, -levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, -elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe? -</p> -<p> -Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a -casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em -baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela -escada acima. -</p> -<p> -Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á -essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá -Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma -d'elle que ella trouxesse comsigo. -</p> -<p> -—Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para -fóra com a mão fulgurante de anneis. -</p> -<p> -Era um pôr-de-sol maravilhoso. -</p> -<p> -—Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. -Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se -matam! -</p> -<p> -Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido. -</p> -<p> -—O senhor está doente? perguntou-lhe Nina. -</p> -<p> -—Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim. -</p> -<p> -Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros: -</p> -<p> -—Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês -procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite -para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle -não me fique doente... -</p> -<p> -E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla. -</p> -<p> -Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle -repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o -fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem -parecia ouvil-as... -</p> -<p> -Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um -facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está -começando... Eu não dizia?» -</p> -<p> -Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do -Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a -propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia -de bem merecer um grande amor. -</p> -<p> -Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e -redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e -pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia -de graça. -</p> -<p> -Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle -dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas -aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu. -</p> -<p> -Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que -se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo -despedir-se do filho. -</p> -<p> -Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o -estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle -sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E -foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas, -d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu, -sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos. -</p> -<p> -Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco -Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio -Braga. -</p> -<p> -Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do -Havre para o <i>Jornal</i>, que affirmava ter descido o preço do café nos -principaes mercados. -</p> -<p> -Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou -logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas -risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro. -</p> -<p> -—Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto -tudo é jogo? -</p> -<p> -—Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em -que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga -esperança. -</p> -<p> -—Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes -espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus -lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é -coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma. -</p> -<p> -Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!... -</p> -<p> -—É impossivel! -</p> -<p> -—Acredite. -</p> -<p> -—Não póde ser. O <i>Jornal</i>, tão serio... -</p> -<p> -—Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque -sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que -eu estivesse calmo? -</p> -<p> -—Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital! -</p> -<p> -—Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado; -sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou -ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está -satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um -homem do tempo, ha de ir longe... -</p> -<p> -—Pois, eu, confesso-me arrependido. -</p> -<p> -—Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já -que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao -Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas -machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente... -Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a -veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas. -</p> -<p> -Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as -horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder -trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego. -</p> -<p> -Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia -maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom -senso naufragava. -</p> -<p> -Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um -telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser -verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são -como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta. -</p> -<p> -Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem -era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria -esperar pelas taes provas irrefutaveis... -</p> -<p> -Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao -<i>Equateur</i>. -</p> -<p> -Foi um alvoroço em casa. -</p> -<p> -Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr -por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á -mão de Deus Padre! -</p> -<p> -Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os -vestidos novos e os chapéos côr de rosa. -</p> -<p> -—Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na -cidade ... levem os brancos. -</p> -<p> -—Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel: -</p> -<p> -—Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa. -</p> -<p> -—Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar! -</p> -<p> -As meninas berraram, e Milla interveio: -</p> -<p> -—Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de -aborrecer as creanças. -</p> -<p> -Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao -<i>Neptuno</i>, e voltando-se para a mãe, perguntou: -</p> -<p> -—É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino. -</p> -<p> -Camilla levantou os hombros. -</p> -<p> -—Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio -pela bahia. -</p> -<p> -—Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para -bulir com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha: -</p> -<p> -—Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e -trovões. Ainda ha de ser mais bonito. -</p> -<p> -—Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com -este sol todo estou com medo, quanto mais... -</p> -<p> -—É pena que Nina não tivesse vindo... -</p> -<p> -—Para quê? para vêr a outra? -</p> -<p> -Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos -os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não -sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões. -</p> -<p> -Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o -Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as -palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias -afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás -ordens que ella lhe dava em phrases curtas: -</p> -<p> -—Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse -buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e -que mandasse a vermelha para o beliche. -</p> -<p> -Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que -o afastava:—Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das -fructas ao <i>maître d'hotel</i>, recommendando-lhe que as mettesse na -geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das -cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de -borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla -pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco, -tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo -aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua -de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa. -</p> -<p> -Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás -perguntas da sogra. -</p> -<p> -Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa -á ré. -</p> -<p> -O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do <i>Jornal</i> inserido -na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em -secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital -fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as -palavras do Braga e as suas affirmações. -</p> -<p> -—Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um -especulador sem escrupulos ... quer mais claro?—é um ladrão! -</p> -<p> -Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já -passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos! -</p> -<p> -Vi a prova. O patife! -</p> -<p> -Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro -marreco que tal! Homem—não se deixe levar pelas cantigas novas, nós -antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo -terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não -tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para -descerem sem precipitação... -</p> -<p> -Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada, -recommendou-lhe: -</p> -<p> -—Juizo, meu rapaz! -</p> -<p> -Camilla, branca como marmore, apertou o filho com força ao coração; -depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e -fixou nelle em uma queixa muda os seus grandes olhos maguados. Foi só -na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ella desatou em -soluços que ninguem tentou reprimir. -</p> -<p> -Havia em todos egual resentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de -lambisgoia, percebendo que ella roubava o Mario a toda a familia, -absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras -do amor. Cuidára ella nunca por ventura que um abraço de despedida -custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos -rostos preoccupados, e só Francisco Theodoro acenou para o filho com um -lenço, pondo naquelle adeus toda a sua ternura. -</p> -<p> -Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a unica pessoa -da familia que elle via salva era o Mario! -</p> -<p> -Chegando á terra, Camilla e as filhas foram de carro para casa, e -Francisco Theodoro, depois de almoçar á pressa num restaurante, seguiu -impaciente para o armazem. -</p> -<p> -Á porta d'elle a pretinha Terencia guinchava contra um italianinho que -se lhe associara sem licença ao negocio, atirando-se á pilhagem do -café da calçada. -</p> -<p> -—Ha alguma novidade? perguntou Theodoro ao gerente. -</p> -<p> -—Não, senhor. Ah! é verdade, o Motta parece que está moribundo. -</p> -<p> -—Pobre homem... -</p> -<p> -—A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando. -</p> -<p> -—Ha de ser preciso mandar recursos a essa gente... -</p> -<p> -—Arreda d'alli aquelle sacco, João! -</p> -<p> -—Coitado do Motta... -</p> -<p> -O gerente já não o ouvia: determinava serviços. -</p> -<p> -Chegado ao escriptorio, Francisco Theodoro tractou de remetter dinheiro -ao Motta e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O -velho tivéra uma syncope mas estava melhor. -</p> -<p> -—Coitado do Motta, murmurou Theodoro, consultando o relogio, morto -pelas duas horas. E ás duas horas correu ao escriptorio do Innocencio. -</p> -<p> -Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Innocencio partira nessa -manhã para Petropolis, a negocio urgente. Deixara dito que na volta -iria procural-o. -</p> -<p> -Francisco Theodoro não conteve um movimento de raiva, e sahiu tonto, -sem cumprimentar ninguem. -</p> -<p> -O ruido, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-n'o sentir mais o -seu cançaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros; -deteve-lhe os passos e, quasi sem explicação, perguntou-lhe: -</p> -<p> -—Diga-me cá: que opinião faz você do Innocencio Braga? -</p> -<p> -O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou: -</p> -<p> -—Aquillo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar. -</p> -<p> -—E que me diz você d'aquelle telegramma do <i>Jornal</i> de hontem, -sobre a baixa do café? -</p> -<p> -—Que hei de dizer? que annuncia catastrophe para muita gente boa. -Sabe o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior -do que nós. Não lhe parece? -</p> -<p> -Que importavam a Francisco Theodoro as fallencias dos americanos! elle -só tremia pela d'elle, era na sua fortuna que estavam condensados todos -os bens do universo. -</p> -<p> -Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lh'a, e voltou-se de -repente, fixando-o nos olhos: -</p> -<p> -—Homem, querem vêr que você... -</p> -<p> -O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adeante. -</p> -<p> -Nessa tarde elle encontrou a casa cheia. D. Ignacia espalhava receitas -de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A -Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as -Bragas, que riam muito, alludindo aos namorados da Judith e da irmã, -piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que ellas -apresentavam nesse dia á familia Theodoro, como um excellente recitador -de monologos. -</p> -<p> -Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguem lh'os pediu. -</p> -<p> -O Dr. Gervasio jogava com o Gomes e o Lelio, Camilla gyrava pela casa, -esquecendo-se, no meio do ruido, da impressão de abandono d'essa manhã -no <i>Equateur</i>. -</p> -<p> -Lá dentro, Nina mandava accrescentar mais uma taboa á mesa e descia á -adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir. -</p> -<p> -Assim, aquelle dia de semana parecia de festa. -</p> -<p> -Francisco Theodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se -olhasse para phantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda -aquella gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que -pensar? -</p> -<p> -Não esteve muito tempo socegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os -joelhos, e elle, cançado, deixou-as trepar, e fez de cavallinho durante -alguns minutos... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4> - -<p> -Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava -da cama com sentido nos telegrammas do <i>Jornal</i>. D'esta vez, como das -outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o -café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente. -</p> -<p> -Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos -da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam -pelos tamarineiros. -</p> -<p> -Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de -calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os -enxugadores no braço e a saboneteira na mão. -</p> -<p> -—Então, creanças; que cacetes! -</p> -<p> -As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o -passo. -</p> -<p> -—Bons dias, papae! -</p> -<p> -—Bons dias, papae! -</p> -<p> -O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse: -</p> -<p> -—Vão tomar o seu banho. -</p> -<p> -—Eu quero passear com o senhor. -</p> -<p> -—Eu tambem quero... -</p> -<p> -—Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo... -</p> -<p> -As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em -correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da -chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos -empregados que passavam por elle. -</p> -<p> -Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito -pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da -mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma. -</p> -<p> -E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para -isso... -</p> -<p> -A Nina foi ter com elle. -</p> -<p> -—O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto. -</p> -<p> -Elle puxou pelo relogio. -</p> -<p> -—Sim, posso ir, são quasi nove horas... -</p> -<p> -Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na -bocca bocadinhos de pão com ovo. -</p> -<p> -—O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina. -</p> -<p> -—Não tenho fome. -</p> -<p> -—Depois fica doente ... porque não falla com o medico? -</p> -<p> -—Eu?! para quê? -</p> -<p> -—Aqui está o café. -</p> -<p> -Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado. -</p> -<p> -Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro -parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e -foi ainda a mulata quem murmurou: -</p> -<p> -—Quem sabe se alguem disse de <i>nhá</i> Milla, hein? -</p> -<p> -Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de -Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro. -</p> -<p> -A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas, -através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos -excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas -jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias, -egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude... -Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho? -</p> -<p> -Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla. -</p> -<p> -—Seu marido está melhor? -</p> -<p> -—Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle -não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está. -Não sei o que é aquillo. -</p> -<p> -Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra. -</p> -<p> -—Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou -Ruth ao medico. -</p> -<p> -—Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso -de alabastro d'alli, ou eu não volto cá. -</p> -<p> -—Acha feio? -</p> -<p> -—Horrivel. -</p> -<p> -Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no -trabalho. -</p> -<p> -Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações, -percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente. -</p> -<p> -Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam -regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre. -</p> -<p> -E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido -esgarçado, fugitivo. -</p> -<p> -Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros, -teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir; -todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do -outro com o protesto de ser a ultima vez. -</p> -<p> -Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um -telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia, -arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro. -</p> -<p> -O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou -por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de -olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas. -</p> -<p> -Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella -scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal -escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar -de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande -desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto -transtornado do patrão. -</p> -<p> -Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força. -</p> -<p> -Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,—a grande casa -Theodoro teve de declarar fallencia. -</p> -<p> -Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos -uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa -segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se. -</p> -<p> -A familia Gomes chegou cedo. -</p> -<p> -D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de -pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno. -</p> -<p> -—Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se -na melhor cadeira da sala de jantar. -</p> -<p> -—Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito -abatido, respondeu Nina. -</p> -<p> -—Isso é que é máo. E sua tia? -</p> -<p> -—Está lá em cima, já vem. -</p> -<p> -—Gostaram dos biscoitos que eu mandei? -</p> -<p> -—Muito, são muito bons. -</p> -<p> -—Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de -experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho. -Perceberam? -</p> -<p> -—Percebemos. -</p> -<p> -—Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim... -</p> -<p> -—Não... -</p> -<p> -Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da <i>etagère</i>, -cantarolando: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">«No Brasil é doce d'ovos,</span><br /> -<span class="i10">Chiquita!</span><br /> -<span class="i2">Um beijo dado em você.»</span><br /> -<span class="i10">«Um beijo...»</span> -</div></div> - -<p> -e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella. -</p> -<p> -Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala, -sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe, -puxando-a para o terraço: -</p> -<p> -—Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como -eu estou contente! -</p> -<p> -—Foi o Samuel? -</p> -<p> -—Então, quem havia de ser? -</p> -<p> -—Seu pae não queria... -</p> -<p> -—Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui... -Você vem commigo para o jardim? -</p> -<p> -Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr. -Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para -o joguinno com o Lelio e o Gomes. -</p> -<p> -Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança -tagarelava pelos corredores. Fazia um sol! -</p> -<p> -—Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro? -</p> -<p> -—Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos. -</p> -<p> -—São de polvilho... Eu trouxe... -</p> -<p> -Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia -remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra: -</p> -<p> -—Como ella vem! É um céo! -</p> -<p> -De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a -vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros -criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha -Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas. -</p> -<p> -—Credo, um mocinho tão aquelle... -</p> -<p> -Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram -as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com -o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As -Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas -de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de -pecegos inchados, bons para doce. -</p> -<p> -Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de -Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que -não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga. -</p> -<p> -—Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente. -</p> -<p> -Os outros concordaram. -</p> -<p> -Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco -Theodoro entrou no quarto das creanças. -</p> -<p> -Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de -porcellana. -</p> -<p> -Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e -separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam -profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos -espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o -ar e labios entreabertos. -</p> -<p> -Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz, -parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama; -a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no -peitinho gordo. -</p> -<p> -Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das -palpebras mimosas... -</p> -<p> -Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora -para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle -quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios -sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e -aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de -uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle -conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para -onde? que os esperaria a todos? -</p> -<p> -Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos; -voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A -mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou: -</p> -<p> -—Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era. -</p> -<p> -—Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo -quietas... -</p> -<p> -—Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons... -</p> -<p> -—Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê... -</p> -<p> -—Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas! -</p> -<p> -Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam -educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma -lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla -adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para -o seu escriptorio, no rez do chão. -</p> -<p> -Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze -descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e -de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto -naquella claridade muda. -</p> -<p> -Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr -de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva... -</p> -<p> -Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha -reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros -saltavam lampejos luminosos que animavam a sala. -</p> -<p> -Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra. -Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as -mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos -de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e -encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve -largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se -lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um -revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo -ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre -os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma -gaveta, que fechou á chave. -</p> -<p> -Estava alli dentro o descanço, a eterna paz. -</p> -<p> -Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo... -</p> -<p> -No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro -desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e -prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via -pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para -o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres -irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em -flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu -desgosto, quando a afilhada o interrompeu: -</p> -<p> -—Bons dias, titio! -</p> -<p> -—Adeus, Nina. -</p> -<p> -—Estava gostando de vêr os manacás? -</p> -<p> -—Sim ... estão bonitos... -</p> -<p> -—Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto! -</p> -<p> -—Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado. -</p> -<p> -—Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está -dizendo que é signal de desastre em uma casa... -</p> -<p> -—Ah! ella disse isso? -</p> -<p> -—Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é -impressionavel! -</p> -<p> -—Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá? -</p> -<p> -—O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre? -</p> -<p> -—Não... Dê-me uma chicara de chá... -</p> -<p> -—Mas o bife e os ovos ahi vêm... -</p> -<p> -—Não quero nada. Só chá. -</p> -<p> -—Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas. -</p> -<p> -Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto -o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever -uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo: -</p> -<p> -—Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla -recommendou... -</p> -<p> -Depois leu alto: -</p> -<p> -—Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande -trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza. -</p> -<p> -Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de -sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e... -</p> -<p> -—Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso. -</p> -<p> -—Então tia Milla irá á cidade... É melhor. -</p> -<p> -—Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei -cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de -setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina? -</p> -<p> -—Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu -não sei nada! -</p> -<p> -—Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o -significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa... -</p> -<p> -Nina ficou pensando: -</p> -<p> -—Tio Francisco estará doido? -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as -cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de -creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio. -</p> -<p> -Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso -derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond -já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho -recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos -sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado, -entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa. -Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança -rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta -da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o -espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este -céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de -esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das -aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão, -d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de -trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da -mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do -moleiro... -</p> -<p> -E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta -para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e -a agua do bom Deus! -</p> -<p> -«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a -riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida! -Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús -pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ... -verás: pesarão ouro e valerão pó...» -</p> -<p> -Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. <i>Seu</i> Joaquim -andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo -rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum -caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é -para as aranhas do tecto. -</p> -<p> -Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de -entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os -calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio. -</p> -<p> -Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho -Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias. -</p> -<p> -—O Leite Mendes mandou cá? -</p> -<p> -—Não senhor... -</p> -<p> -—Está tudo direito, não? -</p> -<p> -—Tudo. -</p> -<p> -—Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem... -</p> -<p> -O guarda-livros fez um gesto de recusa. -</p> -<p> -—Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será -bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro. -</p> -<p> -—Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos. -</p> -<p> -—Para que? -</p> -<p> -—Adiaremos ao menos a ... a catastrophe. -</p> -<p> -—Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui -justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora. -</p> -<p> -Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com -mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura -uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o -negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para -o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida: -</p> -<p> -—Que dia é mesmo hoje? -</p> -<p> -—29... -</p> -<p> -—Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo. -</p> -<p> -Os outros calavam-se. -</p> -<p> -O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as -folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em -diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a -raspar com a unha. -</p> -<p> -Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e -vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de -pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente. -</p> -<p> -Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com -voz segura: -</p> -<p> -—Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete. -</p> -<p> -O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo, -que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo: -</p> -<p> -—<i>Seu</i> Augusto! -</p> -<p> -Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força, -o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro -gritou: -</p> -<p> -—<i>Seu</i> Augusto ainda não voltou da rua! -</p> -<p> -Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles -e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações. -</p> -<p> -Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage, -mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de -negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo -emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se -ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a -familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o -golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as -filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a -escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente -desencantal-as em cofres avaros! -</p> -<p> -As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a -reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa. -Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a -familia, mas faltava-lhe a coragem. -</p> -<p> -Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou -outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta -da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o -corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para -trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o -abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser -engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo, -esboçou um sorriso e foi andando. -</p> -<p> -Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os -passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força -ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar -sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter -engolido todo o pó das ruas. -</p> -<p> -Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia -pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda -a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado -alguns metros quando esbarrou com o Negreiros. -</p> -<p> -—Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de -quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle. -</p> -<p> -—Todos bons ... estou á espera do <i>bond</i>. -</p> -<p> -—Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia! -</p> -<p> -—Han ... é aborrecido. -</p> -<p> -Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um <i>coupé</i> -particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e -os cumprimentou com um adeuzinho de mão. -</p> -<p> -Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio: -</p> -<p> -—Cão! -</p> -<p> -—Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete -da Nova Zelandia, amanhã. -</p> -<p> -—Com o meu dinheiro... -</p> -<p> -Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando -um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou: -</p> -<p> -—Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões... -</p> -<p> -Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos -olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima. -Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de -Negreiros e partiu. -</p> -<p> -No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa, -Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas -sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a -mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho. -</p> -<p> -—Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito. -Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se -não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o -dinheiro fóra... -</p> -<p> -—Ah... -</p> -<p> -—Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... -Irei abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes? -</p> -<p> -—Não... -</p> -<p> -—É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu <i>bond</i>. -</p> -<p> -—E a senhora? -</p> -<p> -—Eu vou de carro. Saudades a todos. -</p> -<p> -Ella afastou-se ligeira, no <i>frou-frou</i> das saias de seda, e o -negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage, -acerca de Mario: «<i>Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo -o dinheiro fóra.</i>» -</p> -<p> -Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta. -</p> -<p> -Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas -gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e -saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que -lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa; -e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da -<i>toilette</i> da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de -anneis, unidos nas ondas negras do penteado... -</p> -<p> -Que lhes diria elle? que lhes diria?! -</p> -<p> -Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse -de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse -com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim! -</p> -<p> -Essa ideia animou-o. -</p> -<p> -Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia -tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas -bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em -uma sonatina fresca. -</p> -<p> -Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de -milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das -gardenias. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIX">XIX</a></h4> - -<p> -Com um avental atado sobre as rendas do <i>peignoir</i>, Camilla executava, -com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia. -</p> -<p> -Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel -nos jantares de anniversario das Gomes. -</p> -<p> -A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda -e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da -Judith confundia os <i>a a</i> com os <i>o o</i>, quando a Nina appareceu -dizendo: -</p> -<p> -—Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a -senhora. -</p> -<p> -—A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?... -perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o -avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, -despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o -tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo -ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez! -</p> -<p> -—Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia... -</p> -<p> -—Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, -lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha. -</p> -<p> -—Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar -bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga. -Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de -manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu -logar, Nina. -</p> -<p> -Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao -chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que -as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho. -</p> -<p> -Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão -grave e desusado que ella logo o extranhou. -</p> -<p> -—Está doente?! -</p> -<p> -—Eu, não ... porque? -</p> -<p> -—Você está differente. Que modo! -</p> -<p> -—É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer. -</p> -<p> -—A mim?! -</p> -<p> -—Sim. -</p> -<p> -—Que é? -</p> -<p> -Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio, -segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir -o golpe em cheio. Milla impacientou-se. -</p> -<p> -—Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera -algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle -pensamento, balbuciou apenas:—Mario? -</p> -<p> -—Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro -falliu. -</p> -<p> -Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo -zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não -ouvia nada. -</p> -<p> -O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão -desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope, -amparou-a, dizendo: -</p> -<p> -—Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida, -é preciso coragem... Camilla! -</p> -<p> -Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe -o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte! -Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras—fallir não é -morrer. Teu marido não morreu,—falliu. -</p> -<p> -—É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula. -</p> -<p> -—Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês -mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela -superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos. -Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de -outro... A série ha de ser longa. -</p> -<p> -—Que me importam os outros! -</p> -<p> -—Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te, -estás muito fria ... queres uma capa? -</p> -<p> -—Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella -desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços. -</p> -<p> -—Descança... -</p> -<p> -—Não posso. -</p> -<p> -Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas -irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida, -ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o -corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases: -</p> -<p> -—Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... -Que insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que -vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde -ser. -</p> -<p> -Subitamente parou, com um relampago de esperança. -</p> -<p> -—Se fosse mentira?! -</p> -<p> -—Eu seria um miseravel. -</p> -<p> -—Podiam ter-te enganado. Quem te disse? -</p> -<p> -—Elle. -</p> -<p> -—Burro! -</p> -<p> -Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e -recomeçou logo no seu gyro tonto. -</p> -<p> -O medico tentou acalmal-a: -</p> -<p> -—Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa -felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu -marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais -desgraçado. -</p> -<p> -Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda: -</p> -<p> -—A culpa é d'elle... -</p> -<p> -—A culpa é de todos. -</p> -<p> -—Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada! -Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos -só para o seu prazer! Só, só, só! -</p> -<p> -—Theodoro está muito acabrunhado... -</p> -<p> -—Quando foi que elle te disse? -</p> -<p> -—Hontem á noite, em minha casa. Chorou. -</p> -<p> -—Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar! -</p> -<p> -—A dôr é forte. -</p> -<p> -—Já perdeu uma filha... -</p> -<p> -—Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante, -que elle préza acima de tudo. -</p> -<p> -—A sua honra! mas Theodoro não roubou nada! -</p> -<p> -—Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem -severidades. É preciso estar preparada para tudo. -</p> -<p> -—Quer dizer que elle póde ser preso? -</p> -<p> -—Quem sabe, não é provavel, mas... -</p> -<p> -Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella -disse, com os beiços tremulos: -</p> -<p> -—Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o. -</p> -<p> -—Tu o amas, Camilla! -</p> -<p> -Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico, -olhando-o de face. -</p> -<p> -Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que -se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos. -</p> -<p> -Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto -escondido nas mãos. -</p> -<p> -A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos -indiscretos pelo corredor. -</p> -<p> -Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em -S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se -oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo -chamalotado de nuvenzinhas brancas. -</p> -<p> -Um bello dia perdido! -</p> -<p> -Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia. -Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca -a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela -perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção -tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria -extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos -primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida -a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se -mais abundante. -</p> -<p> -Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr. -Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado: -</p> -<p> -—Mas sempre o amaste assim?! -</p> -<p> -—Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é -uma amisade muito grande! -</p> -<p> -O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um -largo silencio: -</p> -<p> -—Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia. -</p> -<p> -Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o -Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi -fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se -tractava. -</p> -<p> -Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem -rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As -palavras para ellas só tinham som, mas não sentido. -</p> -<p> -Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse: -</p> -<p> -—Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae. -</p> -<p> -O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para -Nina: -</p> -<p> -—E você, que diz? -</p> -<p> -—Nada; espero. -</p> -<p> -—E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz -tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio. -</p> -<p> -Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma -ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida. -O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se -de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de -transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada. -</p> -<p> -Em baixo, o armazem parecia outro. <i>Seu</i> Joaquim permanecia sentado ao -pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas -das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga -para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão -de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua -havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens -que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos. -</p> -<p> -Do seu ponto, <i>seu</i> Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, -agora a mais afortunada da rua. -</p> -<p> -Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco -Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas -as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração -absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha -secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como -um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno. -</p> -<p> -Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o -chapéo, entrou outra vez no escriptorio. -</p> -<p> -O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O -guarda-livros levantou-se e disse: -</p> -<p> -—Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o -Norte. Vou tentar outra vida... -</p> -<p> -—Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz! -abraçaram-se. -</p> -<p> -Motta approximou-se. -</p> -<p> -—E o senhor? perguntou-lhe Theodoro. -</p> -<p> -O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou. -</p> -<p> -—Fico p'ra ahi, atôa... -</p> -<p> -—Recommendal-o-ei ao Negreiros. -</p> -<p> -—Será favor... -</p> -<p> -Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu -áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos -com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo -periodo de trinta annos... -</p> -<p> -No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e -deteve-se a fallar com o Joaquim. -</p> -<p> -—O senhor que tenciona fazer agora? -</p> -<p> -—Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres... -Devo entrar para lá amanhã... -</p> -<p> -—Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, -relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus -saudosissimo, sahiu para a rua. -</p> -<p> -Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço -branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os -ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. -Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol -encarapuçava de ouro as platibandas dos predios. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XX">XX</a></h4> - -<p> -Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no -céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no -jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada -ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem. -</p> -<p> -—D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico—Noca está ao pé -d'ella. -</p> -<p> -Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de -extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa -pausa: -</p> -<p> -—Está desesperada, muito contra mim? -</p> -<p> -—Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes, -acredite. -</p> -<p> -—Coitadas... -</p> -<p> -—Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo -então só ha logar para os ricos? -</p> -<p> -—Bom, só... -</p> -<p> -—Qual! havemos de ser muito felizes, descance. -</p> -<p> -—Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o -medico. -</p> -<p> -—Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas -venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para -obrigal-a a dormir e repousar os nervos... -</p> -<p> -—Fez bem; obrigado. -</p> -<p> -—Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao -menos... -</p> -<p> -—Estou cançado... -</p> -<p> -—Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar. -</p> -<p> -Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina -esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola -vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. -Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois, -deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso, -acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia -Camilla o marido? -</p> -<p> -Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse -acordada e andasse nervosamente pela casa... -</p> -<p> -Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando -tudo pasmadamente. -</p> -<p> -Imperturbavel, Nina servia a todos. -</p> -<p> -—Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente, -apontando para as gemeas. -</p> -<p> -—Seis annos, respondeu Ruth. -</p> -<p> -—É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando -alto um pensamento qualquer. -</p> -<p> -Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu. -</p> -<p> -—D. Camilla? -</p> -<p> -—Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois -acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não -tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça... -</p> -<p> -—Comprehendeu, mas resignou-se. -</p> -<p> -—Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a -pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será -possivel? -</p> -<p> -—Virei. -</p> -<p> -—Obrigado. -</p> -<p> -O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas -horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina, -não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao -escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária. -</p> -<p> -—Dá licença, tio Francisco? -</p> -<p> -O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e -respondeu: -</p> -<p> -—Póde entrar. -</p> -<p> -E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio. -</p> -<p> -—Que quer você? -</p> -<p> -—Quero pedir-lhe um favor... -</p> -<p> -—Eu ainda os poderei prestar?! -</p> -<p> -—Oh! tio Francisco! -</p> -<p> -—Diga lá. -</p> -<p> -—Tenho vergonha ... eu... -</p> -<p> -—Diga, diga. -</p> -<p> -Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se: -</p> -<p> -—Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é -pequena, mas caberemos todos lá, se... -</p> -<p> -Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as -lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse: -</p> -<p> -—Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem -vejo que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu -agasalho; olhe por minhas filhas. -</p> -<p> -As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me -pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com -sua tia, é quem vae soffrer mais... -</p> -<p> -—O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação. -</p> -<p> -—Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir. -</p> -<p> -—Mas... -</p> -<p> -—Vá dormir. -</p> -<p> -Nina murmurou, muito embaraçada: -</p> -<p> -—Boa noite. -</p> -<p> -—Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz. -</p> -<p> -Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido -das palavras do tio. -</p> -<p> -Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da -familia não subsistisse á catastrophe. -</p> -<p> -Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu -merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom -porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de -conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara -a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha -dinheiro. -</p> -<p> -Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão -tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir -tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil! -</p> -<p> -Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva, -chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua -falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a -sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os -amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então -todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, -depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem -consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido. -</p> -<p> -Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe -valia de nada. -</p> -<p> -A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á -lucta tremenda de recomeçar. -</p> -<p> -Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa -melhor do que o dinheiro—a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito -amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava -boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua -lembrança. -</p> -<p> -«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E -agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? -Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle -tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! -Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. -Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus -filhos. Eu sou um ladrão!» -</p> -<p> -Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo -escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo -agonisava com elle. -</p> -<p> -A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam -roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores -seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua -era uma das precursoras. -</p> -<p> -No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as -vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo -consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear. -</p> -<p> -A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção -phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela -maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em -voragens abertas pela politica amaldiçoada. -</p> -<p> -Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da -sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a -Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do -desespero. -</p> -<p> -Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas -cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio -caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, -percebesse o volume e os perigos. -</p> -<p> -Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra -maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado -enfeitiçar por palavras! -</p> -<p> -Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma -coisa... -</p> -<p> -Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto, -num suspiro: -</p> -<p> -—Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job! -</p> -<p> -Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi -á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de -viagem: idas á Europa, regalados descanços. -</p> -<p> -Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas -mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o -trabalho. -</p> -<p> -E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo -miseravel! corpo miseravel. -</p> -<p> -Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a -frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella. -</p> -<p> -Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa -amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que -lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes -antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que -tranquillidade! -</p> -<p> -Francisco Theodoro olhou para a noite: -</p> -<p> -O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos -manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce. -</p> -<p> -O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de -outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas -terras, trabalhadas por homens pagos por elle. -</p> -<p> -A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava -tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher -e aos filhos... -</p> -<p> -—Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as -faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo -physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia. -</p> -<p> -Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é -signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o -avô! Riu alto; elle era um doido! -</p> -<p> -Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em -surdina. -</p> -<p> -Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado -para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam, -Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira -com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal -mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma -de extase e de sonho? -</p> -<p> -Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos -invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas -suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção, -Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio -era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto -tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou -a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, -teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos. -</p> -<p> -Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de -enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução. -</p> -<p> -Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar -dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, -inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da -sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo. -</p> -<p> -Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe -os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim -longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando... -</p> -<p> -Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado -silencio do somno. -</p> -<p> -Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e -rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do -cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a -sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve -de saias que deslisavam pela escada abaixo. -</p> -<p> -Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante -e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de -terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação -da vida e apressou o tiro. -</p> -<p> -E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar, -clamava por soccorro. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXI">XXI</a></h4> - -<p> -A morte de Francisco Theodoro fez sensação. -</p> -<p> -Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia. -</p> -<p> -Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a -baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de -madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro -seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade. -</p> -<p> -Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma -fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como -se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente. -</p> -<p> -Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de -duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por -encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida, -sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua -felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só -viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse -adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não -tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita? -</p> -<p> -O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa. -Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma -hora antes! Um minuto antes! -</p> -<p> -E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos -annos? Que fariam todos alli, sem elle? -</p> -<p> -Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar. -</p> -<p> -No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal -acreditavam na sua sinceridade. -</p> -<p> -As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e -dever de apparencia cumprimentavam a viuva. -</p> -<p> -As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e -tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo, -ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia. -</p> -<p> -D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho. -Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha -tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não! -</p> -<p> -Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da -visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella -casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo, -cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de -passos e de vozes abafadas... -</p> -<p> -D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a -encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos -inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno -na fé ardente e pura da sua prece. -</p> -<p> -Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo! -</p> -<p> -E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida. -</p> -<p> -Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda -russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade -humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar. -</p> -<p> -O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte; -afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado, -acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento. -</p> -<p> -Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma -cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a -tudo. -</p> -<p> -Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem -conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em -suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria. -</p> -<p> -Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes -inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla. -</p> -<p> -Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos -mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão... -</p> -<p> -D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com -asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo -lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do -forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos. -</p> -<p> -—Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si. -</p> -<p> -Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo... -</p> -<p> -Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus -lhes deu cinco dedos em cada mão. -</p> -<p> -No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á -lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella -dar entrada a alguem! -</p> -<p> -Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo: -</p> -<p> -—Coitadinha... -</p> -<p> -E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos -soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela -violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas, -faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar -ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e -emfim chegou. -</p> -<p> -Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o -Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso -fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina -acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da -face do morto, beijou-o tres vezes. -</p> -<p> -De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz -da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a -um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas -adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror -das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar. -</p> -<p> -Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto -das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa. -</p> -<p> -Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a -friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a, -com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso. -</p> -<p> -Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o -obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do -outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando -para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios -aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver... -</p> -<p> -A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das -creanças bem accommodadas. -</p> -<p> -Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito -inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua -negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho, -de queixo cahido para o peito. -</p> -<p> -Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça. -Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços. -</p> -<p> -—Como está Ruth? perguntou Milla. -</p> -<p> -—Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para -o medico: -</p> -<p> -—Vá vel-a ... sim? -</p> -<p> -Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXII">XXII</a></h4> - -<p> -Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se. -</p> -<p> -Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas, -leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo, -traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam, -indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria. -</p> -<p> -—Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o -medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu -tenho conhecido. -</p> -<p> -—De que serve?!... -</p> -<p> -—Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade -teem realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios! -</p> -<p> -—Bem vê que fazia mal... -</p> -<p> -—Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou: -</p> -<p> -—Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo, -sem saber como. -</p> -<p> -Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande -sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais -foi sempre... -</p> -<p> -—Preguiçosa. -</p> -<p> -—Sim... As outras são tão pequenas! -</p> -<p> -—Eu estarei a seu lado. -</p> -<p> -Nina corou, e não respondeu. -</p> -<p> -Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já -na outra casa. -</p> -<p> -Milla apertou as palpebras. -</p> -<p> -—A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro? -</p> -<p> -Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as -mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom! -</p> -<p> -O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava -a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo -redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da -fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem -grandes ventanias. -</p> -<p> -Noca insistiu: -</p> -<p> -—Abro a janella? -</p> -<p> -Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do -seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia -desprender por si, seria preciso que a arrancassem. -</p> -<p> -A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob -um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das -minimas coisas na harmonia do conjuncto. -</p> -<p> -Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do -chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a -até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja. -</p> -<p> -Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do -passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã -Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse -aposento, em que havia roupas pelas paredes... -</p> -<p> -Noca andava pelo quarto; Camilla olhou: -</p> -<p> -Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava -quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e -fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de -jornaes da tarde. -</p> -<p> -E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor, -ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e -se agarrava tanto á mocidade. A mocidade! -</p> -<p> -Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca -avisou, já impaciente: -</p> -<p> -—Olhe, <i>nhá</i> Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a -pouco está ahi. -</p> -<p> -—Ajuda-me a vestir... -</p> -<p> -—E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar -banho... -</p> -<p> -—Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei -sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca! -</p> -<p> -—Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem! -</p> -<p> -Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as -gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e -percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal; -Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as -janellas e as portas. -</p> -<p> -No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em -uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina -ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou, -olhando atterrorisada para o chão: -</p> -<p> -—Pisei?! -</p> -<p> -—Quasi... -</p> -<p> -—Meu Deus! -</p> -<p> -Contemplaram-se as duas por entre lagrimas. -</p> -<p> -—Foi uma grande desgraça, Noca! -</p> -<p> -—Se foi! Ainda me parece mentira... -</p> -<p> -—A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou -vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco! -</p> -<p> -Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes -extendia os braços numa supplica. -</p> -<p> -Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já -vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto, -havia scintillações frias. -</p> -<p> -Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura -atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um -aceno arrogante de adeus. -</p> -<p> -Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta. -</p> -<p> -Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um -sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que -Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia -reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava -gritando-lhe: -</p> -<p> -—Cala a bocca! cala a bocca! -</p> -<p> -Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste -sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a -fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como -reliquia. -</p> -<p> -Para que nascera ella, senão para ser batida? -</p> -<p> -Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas -gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz -d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu -violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo. -</p> -<p> -Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do -jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava -alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a -caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um -suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa. -</p> -<p> -Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae... -Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.—Emfim, iam para a casa nova! -</p> -<p> -Durante a viagem ninguem mais fallou. -</p> -<p> -Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam -lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova. -</p> -<p> -Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina. -</p> -<p> -Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava -com força no cascalho branco do chão. -</p> -<p> -A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza, -disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos -oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que -aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente, -esmagando-os a todos. -</p> -<p> -O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina -dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo. -</p> -<p> -A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel, -abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a -desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro -e uns vasos de flores na janella. -</p> -<p> -Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a -mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas. -</p> -<p> -Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era -ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil, -de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura, -cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma -taboa de engommar. -</p> -<p> -—Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa -censura leve, sentando-se, muito abatida. -</p> -<p> -A sobrinha explicou: -</p> -<p> -—A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças -brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa. -</p> -<p> -—Depois... -</p> -<p> -Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o -resto. -</p> -<p> -Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas -<i>bicyclettes</i>? A cosinha então era aquelle cochicholo? -</p> -<p> -A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados. -</p> -<p> -Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis -mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao -menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas -que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova. -</p> -<p> -Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos -indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido -por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal -lapidado que atiravam sobre a toalha <i>bouquets</i> iriados e -tremeluzentes. Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz -e se espalhassem sobre o adamascado do linho. -</p> -<p> -O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu -repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua -ração, encheu os pratos das primas. -</p> -<p> -O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no -verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos -do papel. -</p> -<p> -A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou -brutalmente em um canto da mesa. -</p> -<p> -Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha -extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete. -</p> -<p> -Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe: -</p> -<p> -—Só veio esta canequinha? -</p> -<p> -—E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um -copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar? -</p> -<p> -—Não quero differenças para mim. -</p> -<p> -Depois:—Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!... -</p> -<p> -—Eu não acho... -</p> -<p> -—Ah, você! -</p> -<p> -Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou -trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro, -que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria. -</p> -<p> -—Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada. -</p> -<p> -—Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e -mais o leiloeiro. -</p> -<p> -—Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro. -</p> -<p> -—Seu doutor já avisou. -</p> -<p> -—Bem; póde ir... -</p> -<p> -A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de -atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava -ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o -interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por -ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo. -</p> -<p> -Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso -de pobreza e de inercia. -</p> -<p> -Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os -joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada -na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados -do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos -olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe, -impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não -encontrava ninguem! -</p> -<p> -Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de -saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as -palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao -Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre -reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora, -aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu -saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que -ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no -collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce... -</p> -<p> -Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o -bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava -a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida. -</p> -<p> -Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o -dever das restricções. -</p> -<p> -Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma -doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é -que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam -resentimentos, fugindo de aggravar tristezas. -</p> -<p> -Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para -engommados. -</p> -<p> -Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa -atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas -alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida -pesava-lhe. -</p> -<p> -Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma -discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da -visinhança. -</p> -<p> -Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando -dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo... -</p> -<p> -—Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que -devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e -accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para -mais de dois mezes... -</p> -<p> -Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da -sua desgraça... -</p> -<p> -Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições -seriam um meio de a distrahir; já não aguentava aquelles dias sem fim. -</p> -<p> -Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava -dividir-se em todos os misteres domesticos; as cosinheiras não paravam, -umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho... Era um -vae-vem cançativo, e ella sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua -paciencia nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de -mulher, adoçando soffrimentos, serenando tempestades e conservando-se -na meia sombra de um papel secundario. -</p> -<p> -Corriam assim os mezes. Os amigos escasseavam, mais pelo retrahimento da -familia que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens -peiores do que elles são, e nunca vêem em si a causa justificada de -certos abandonos. Camilla queixava-se ás vezes das relações antigas, -sem cogitar que quem mais fugia era ella, envergonhada da sua nova -situação. -</p> -<p> -Levado talvez mais pelo habito que por outra causa, o Dr. Gervasio -continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas, -feitas de passagem; evitava, com escrupulosa discreção, os almoços -naquelle lar pobre e simples. Demais a mais, não podia fallar nunca a -sós com Milla, naquella casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da -familia, fechada no seu rigoroso vestido de viuva, muito arredia. -Aquellas esquivanças não o atormentavam, elle sentia que a ia amando -com menos amor e mais amizade; era como uma irmã, necessitada do seu -amparo e do seu conselho, que elle não podia deixar de vêr todos os -dias; o calôr da sua mão e o som da sua voz já não lhe alvoroçavam -os sentidos adormecidos; e bem percebia que no coração d'ella a -paixão estava tambem apaziguada, e que para Camilla elle ia já sendo -apenas o amigo. -</p> -<p> -E assim se passaram poucos mezes, até que chegou um dia em que o olhar -de Camilla, irradiando, se trocou com o d'elle num fulgor de desejo. O -fogo abafado pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma -labareda de fragoa. Elle espantou-se, ella conteve-se envergonhada, e -separaram-se ambos inquietos e torturados. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXIII">XXIII</a></h4> - -<p> -Adeus, mamãe! nós vamos levar estas sobras do jantar ás creanças da -Jacintha, ouviu? Nina disse que não vale a pena guardar para amanhã; -é pouco e póde azedar. -</p> -<p> -—Mas que creanças são essas? perguntou Camilla ás duas gemeas, que -lhe fallavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo. -</p> -<p> -—São as netas da Jacintha... -</p> -<p> -Ruth appareceu atraz das irmãs. -</p> -<p> -—Mamãe não conhece... Jacintha é uma velha paralytica que mora na -visinhança da minha discipula. Sempre que passamos por lá nos pede -esmola... É tão velhinha que faz pena. Combinámos com a Nina que -sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fossemos levar a ella. Quando -me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a -gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a -necessidade dos outros não consolam ninguem... -</p> -<p> -—Falla baixo! Bem, meus amores, vão, antes que seja noite. -</p> -<p> -—Anda depressa, Noca. -</p> -<p> -—Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um -passeiozinho? -</p> -<p> -—Sim... -</p> -<p> -As creanças sahiram com a mulata. Camilla sorriu. A Providencia não a -desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar... -</p> -<p> -A tarde cahia com lentidão; a viuva, derreada na cadeira de balanço da -sala de jantar, olhava pela janella aberta para a grande amendoeira do -quintal, cujas folhas côr de ferrugem cahiam espaçadamente, com um -rumor timido. -</p> -<p> -Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na -transformação de uma essencia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe -dentro do peito na ancia do calor do abraço e do sabor do beijo. Não -podia mais, as roupas negras suffocavam-na, lembravam-lhe a todos os -instantes aquelle minuto inolvidavel, que se lhe fixara na vida, que se -repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ella não se -libertaria nunca! -</p> -<p> -Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo lethargo com -fremitos de mocidade, capaz de todos os prodigios. Se a paixão que ella -via arrefecer nos olhos de Gervasio se reaccendesse! Se elle voltasse a -amal-a com aquelle amor antigo, todo de extremos... Se elle voltasse! -</p> -<p> -Na pallidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava-se, -tranquillamente. Camilla olhava para ella, invejando-lhe a serenidade, -quando sentiu passos. -</p> -<p> -Voltou-se. -</p> -<p> -Gervasio sorria-lhe da porta. -</p> -<p> -—Vem! murmurou ella então, num triumpho, extendendo-lhe os braços. -Elle precipitou-se. -</p> -<p> -—Emfim, voltas a ser minha! a ser minha! -</p> -<p> -—Espera ... socega ... a Nina está em casa... -</p> -<p> -—Que importa a Nina? -</p> -<p> -—Cala-te! Oh, eu já não posso mais! -</p> -<p> -Muito junctos, com as boccas quasi unidas, elles repetiam as mesmas -palavras de outr'ora, que soavam agora aos ouvidos de Milla como novas. -</p> -<p> -O céo ia mudando de côr; as folhas da amendoeira desprendiam-se -celeres e com frequencia; dir-se-ia uma tarde de outomno, e era apenas -começo de verão. -</p> -<p> -Camilla, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia illuminada. O -medico puxou-a para si, ia beijal-a, quando a Nina appareceu na sala, -com modo disfarçado. -</p> -<p> -—Querem luz? Como as meninas estão tardando! -</p> -<p> -Gervasio não respondeu; achou-a importuna. Camilla disse com meiguice: -</p> -<p> -—É cedo, minha filha... -</p> -<p> -Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como -se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em -que houvesse outra atmosphera que lhe alterasse a natureza, isolando-a -de tudo o mais. As roupas do lucto não lhe pesavam, semelhavam rendas -levissimas; pela primeira vez a imagem do marido no ultimo momento se -lhe apagou na memoria... Era já noite quando ella acompanhou Gervasio -ao jardinzinho da entrada. Elle sentia-a tremula, numa commoção de -virgem, como se aquelle velho amor peccaminoso fosse um amor nascente. -</p> -<p> -A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões timidas, e a brancura da sua -carne, tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de -uma immaterialidade purissima. -</p> -<p> -—Agora és só minha, só minha! dizia Gervasio, apertando-lhe as mãos -com força, quando um homem se approximou do portão e o empurrou. -Olharam, com espanto, mas logo Camilla deu um grito: reconhecera o filho -e correu para elle. -</p> -<p> -Mario olhou para o medico com aborrecimento não disfarçado e recuou, -dando logar a que elle passasse para a rua, como a despedil-o. -</p> -<p> -Trocaram um cumprimento rapido e cruzaram-se. -</p> -<p> -Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mario -se voltou para a mãe com uma expressão que significava—ainda?! -</p> -<p> -Camilla rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e -foi-a levando para dentro. Nina accendeu o gaz, batendo os dentes, num -accesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silencio. Foi ainda -soluçante, que Milla perguntou afinal: -</p> -<p> -—A Paquita? -</p> -<p> -—Está muito pesada, por isso não veio. -</p> -<p> -Camilla sentiu o sangue sumir-se-lhe. Que! um neto! o seu Mario ia ter -um filho! -</p> -<p> -—Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os medicos acharam -imprudente que a Paquita se mettesse em viagens... -</p> -<p> -—Fizeram bem. Por aqui soffreu-se tanto!... Quando chegaram? -</p> -<p> -—Esta madrugada. Desembarcámos ás nove horas... -</p> -<p> -Outra decepção: todo o dia no Rio, e só á noite o filho a procurava! -</p> -<p> -Elle explicou: tivera muito trabalho, idas á alfandega, uma trapalhada! -E as irmãs? onde estavam as irmãs? -</p> -<p> -—Já vêm, andam ahi pela calçada. Vae avisai-as, Nina. -</p> -<p> -A moça sahiu. Mario continuou: -</p> -<p> -—Porque não as entregou á minha cunhada? Ella escreveu-nos fallando -nisso... -</p> -<p> -—Tive pena ... não me quero separar d'ellas. -</p> -<p> -—Sim, concordo que é penoso; mas é para o bem d'ellas, e esta -situação não póde continuar. Paquita é uma mulher sensata, mesmo a -bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachel vão para a casa -de minha cunhada; Ruth irá morar comnosco, isto até lhe facilitará um -casamento, coisa sempre difficil para uma moça pobre, e Nina tem o -recurso de ir para a casa do pae... -</p> -<p> -—E ... eu?! -</p> -<p> -—A senhora, visto que agora é livre ... porque não se ha de casar? -</p> -<p> -Camilla tornou-se rubra e escondeu o rosto nas mãos. -</p> -<p> -Mario não soubera reprimir-se, e já agora proseguia: -</p> -<p> -—Acho preferivel o casamento á continuação d'esta vida. Perdôe-me -que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos... -</p> -<p> -As mãos de Milla, geladas, apertaram com mais força o rosto em fogo. -</p> -<p> -Mario fallou ainda. -</p> -<p> -Elle premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita; mas a -lingua recusava-se a repetil-o inteirinho, no seu rigor de fórma -decisiva. -</p> -<p> -Vinha como uma espada, cortando todos os nós. Prevalecia-se da sua -autoridade de homem. -</p> -<p> -A mãe teve nojo, e num só grito explodiram-lhe todas as queixas. As -faces, de vermelhas tornaram-se lividas, as mãos e os beiços -tremiam-lhe; avançou: -</p> -<p> -—Vá dizer á Paquita, á sua pratica e sensata Paquita, que eu não -preciso do dinheiro d'ella, ouviu? Não se demore, que ella é capaz de -bater em você! -</p> -<p> -—Mamãe! -</p> -<p> -—Perversos! vir de tão longe, o meu filho, para me dizer isto. O meu -filho! e eu que tinha tantas saudades! -</p> -<p> -—Mamãe, a senhora é injusta... -</p> -<p> -—Injusta é ella, que me quer separar de todos os filhos e te ensina a -faltar-me ao respeito. Acham que tenho soffrido pouco?! -</p> -<p> -—Acalme-se e reconhecerá que temos razão. Paquita é um anjo. -</p> -<p> -—Um diabo do inferno! -</p> -<p> -—A senhora está-me offendendo. -</p> -<p> -—E ninguem me offendeu? Diga! ninguem me offendeu?! -</p> -<p> -—Socegue: tudo se ha de arranjar; bem sabe que eu não tenho nada; a -fortuna é de minha mulher, mas nós lhe daremos uma mezada, visto -que... -</p> -<p> -—Recuso; não quero nada d'essas mãos. O meu filho morreu no dia em -que se casou. Se o envergonho, é melhor fingir que não me conhece. -Vá-se embora. -</p> -<p> -—Mamãe... -</p> -<p> -—Vá-se embora! Eu não preciso de nada. Suas irmãs sahiram para dar -uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus! -</p> -<p> -—Não tive a intenção de a offender. Se eu não tivesse encontrado -aqui aquelle maldicto homem, as coisas teriam caminhado de outra -maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora -é viuva, o Dr. Gervasio é solteiro, amam-se, casem-se. É logico. -</p> -<p> -—Pelo amor de Deus! Mario! -</p> -<p> -—A senhora não é creança, deve perceber que d'esse modo compromette -o futuro das meninas. O tempo lhe dirá se tenho razão... -</p> -<p> -—Que insistencia! uma vez por todas: basta, basta, basta! -</p> -<p> -—Bem, mamãe, calo-me. -</p> -<p> -—Emfim! -</p> -<p> -Era opportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim, -gritando: -</p> -<p> -—Mario, Mario! -</p> -<p> -Elle chegou á porta, agitadissimo e extendeu os braços a Ruth, que lhe -pareceu muito magrinha, já de vestido comprido, como uma senhora. O -abraço evocou em ambos a lembrança do pae. Mario semeou beijos e -lagrimas nos cabellos da irmã, na sua primeira effusão de ternura. -</p> -<p> -Foi só depois de tudo acabado, que a Noca, contemplando o moço de -frente, murmurou: -</p> -<p> -—Gentes! reparem como o bigode de Mario cresceu, e como elle está -bonito! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXIV">XXIV</a></h4> - -<p> -Domingo de verão: as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant da -rua. Grande socego em tudo. -</p> -<p> -Fechada no seu quarto, Camilla tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da -leitura para as caminhas vazias das gemeas, entregues desde a vespera á -baroneza da Lage. Cumpriam-se as ordens de Mario. -</p> -<p> -A familia espalhava-se ao bruto ponta-pé da pobreza: uns para aqui, -outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida! -</p> -<p> -Numa persistencia cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no cerebro. -Exangue e dolorida, ella não luctava; a fatalidade faria d'ella o que -quizesse... O que a atormentava sobretudo era a saudade das gemeas, que -tinham levado comsigo toda a sua alegria e que, ausentes d'ella, iriam -dispensando á outra os afagos que deveriam ser só seus! Pobres -innocentes, lá viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse -no seu caminho, como um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue -e a carne. -</p> -<p> -Via já a outra como uma inimiga. Fôra ella quem lhe tirara o filho -para a irmã; era ella quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto -humilhava-a, achava-se indigna por não ter tido forças de defender as -creanças, arrancadas de casa pela pressão da necessidade. Olhou para -as mãos: eram bonitas, mas não sabiam fazer nada. Camilla escondeu-as -depressa, arrepiada, nas dobras do casaco. -</p> -<p> -E o conselho do filho não a deixava, numa fixidex allucinadora. Sim, -só Gervasio poderia salval-a, se quizesse dizer primeiro a palavra que -ella não tinha coragem de pronunciar. -</p> -<p> -Camilla fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente, -entre o seu orgulho de mulher e os seus extremos de mãe, badalavam as -palavras do filho: -</p> -<p> -—Case-se, case-se, case-se! -</p> -<p> -E elle tinha razão; só assim ella tornaria a ter um lar onde aninhasse -as filhas; cessariam os sacrificios de Nina e de Ruth, a Noca -trabalharia só para si, e o Mario... -</p> -<p> -O resentimento que lhe ficára d'aquelle filho, que viera de longe para -lhe dizer amarguras, avolumou-lhe as lagrimas que chorava. Tinha-se -humilhado, havia de humilhar-se até ao fim. Fallaria a Gervasio. -</p> -<p> -Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as -creanças antes do desapêgo completo. -</p> -<p> -Francisco Theodoro assim quizera, furtando-se á responsabilidade da -familia, fugindo da vida desde que a vida, em vez de presenteal-o, lhe -pedia favores. Era o abandono; pois bem, ella reconstituiria o lar que -elle desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobresaltos, -por tantas agonias, resurgiria, como um dia de luz apóz outros de -negrume, para a felicidade de todos! -</p> -<p> -O coração faz pagar caro ás mulheres a sua gloria, bem o sabia. Dera -tudo, certa de que não era a honra do marido que sacrificava mas a sua -propria. Elle não era auctor nem cumplice, não podia ser arguido pela -sociedade hypocrita. -</p> -<p> -Por fortuna, tinha-se empenhado com um homem de bem: Gervasio -salval-a-ia. Mario dissera um dia: -</p> -<p> -—Escolha entre mim e o Dr. Gervasio—Ahi estava ella agora -radiante, escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era mãe do outro. -</p> -<p> -As horas passavam devagar. Num piano visinho rompeu uma polka faceira; -resoavam gargalhadas na rua. -</p> -<p> -Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camilla foi á janella; -vacillava ainda. Nem uma nuvem no céu; voltou para dentro e esbarrou -com as caminhas vazias. Numa imposição de vontade, despiu-se á pressa -e enfiou o vestido de sahir; os dedos mal atinavam com os colchetes; nem -olhou para o espelho, na anciedade de partir, de correr para o futuro... -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Eram quatro horas quando entrou no bond que a levaria á casa do Dr. -Gervasio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu véo de -viuva, ciosa de que lhe não lessem os pensamentos na alteração do -rosto. Dobrava-se, emfim, á vontade da nora, aquella creatura -implacavel, que nunca a procurava, conservando-se a distancia, com medo -do contacto. Camilla sorria d'aquelles grandes escrupulos, tão -tardiamente acordados... -</p> -<p> -Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petropolis; e o -Mario, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a familia, -carregado de encommendas para a mulher e o filho, um rapagão nascido -longe da avó. -</p> -<p> -Camilla esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens -exteriores. Era como se tivesse sahido de um carcere: tudo lhe parecia -differente e mais bonito. Começavam já a apparecer as chacaras de -Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de agua e de -sombras macias. -</p> -<p> -Em quantas d'aquellas casas, ella fizera brilhar as suas joias, rugir as -suas sedas, vagar o perfume do seu lenço de rendas e dos seus vestidos! -Bons tempos ... ah! mas elles voltariam, quando a fortuna e a lealdade -de Gervasio a repuzessem no logar de que a ambição do marido a tinha -arrancado. -</p> -<p> -Ia leve. Como é bonito e curto o caminho da felicidade! -</p> -<p> -O bond dobrou a rua dos Voluntarios; e uma subita angustia cahiu no -coração de Camilla. Ia passar pelo palacete Theodoro como uma -extranha. Por um grande trecho da rua, ella esperava esse momento com -curiosidade e terror; e quando o momento chegou, quiz abranger tudo com -a vista, adivinhar até o que se passava dentro d'aquellas grossas -paredes. Na fugacidade do instante só pôde perceber que a janella do -seu quarto estava aberta e que tinham substituido por areia preta a -antiga areia branca do jardim. Teve impetos de mandar parar o bond, de -entrar pela casa, ir até á sua saleta, continuar o bordado ou a -leitura interrompida e beijar as duas filhinhas, coradas, offegantes -pelas ultimas corridas da bicycleta, que lá deviam estar dentro, ao pé -da Noca, na sala de engommar, sobraçando as suas grandes bonecas de -olhos azues... -</p> -<p> -O bond passou, e Milla, toda voltada no banco, olhava para a <i>sua</i> -casa, depois para o <i>seu</i> jardim, e ainda, emquanto a viu, para a -alta copa ramalhuda da <i>sua</i> mangueira... -</p> -<p> -Sentiu então como que um desdobramento de personalidade. Ella que -passava, sózinha, vestida da lã negra, com um véo de crepe pela cara, -mal arranjada, abotoada á pressa, não era a Camilla dos vestidos -claros e das mãos luminosas; essa estaria lá dentro do palacete no seu -eterno sonho de mocidade, de amor e de belleza... -</p> -<p> -Quando entrou em casa de Gervasio, teve um impeto de voltar para traz. -Todos os seus escrupulos se levantaram em revoada. Feriu-a então a -ideia de que já era avó, e que esse titulo devia ser um ridiculo -algemando-a ao silencio. O filho de seu filho seria tambem um inimigo? -Tão pequenino, apenas nascido, e já teria força para se interpor -entre ella e a felicidade? -</p> -<p> -Um criado abriu o guarda-vento; ella entrou indecisa para o vestibulo. -Nunca se encontrara alli sozinha: Gervasio não quizera expol-a aos -commentarios dos seus criados; preferira ter um canto obscuro, todo -destinado a ella e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua -presença ou a sua indagação curiosa. -</p> -<p> -O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas, -até uma sala do mesmo pavimento terreo, abrindo sobre um jardinzinho -interior, onde as dracenas se empennachavam de flores. -</p> -<p> -Pediu-lhe que esperasse alli. O senhor doutor conferenciava com um -individuo no escriptorio, mas ia avisal-o. -</p> -<p> -Ella respondeu-lhe que não, não tinha pressa; ficaria até que o outro -sahisse... -</p> -<p> -Quando se viu só, Milla levantou o véo com um suspiro de allivio. -Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa -sobriedade nos arranjos e nos moveis. Reconheceu numa cadeira uma -almofada bordada por ella, e, a um canto, um jarrão chinez com que -Francisco Theodoro presenteara o medico, após uma doença grave do -Mario. -</p> -<p> -O marido! o Mario! como elles lhe fugiam para o horisonte da vida... -Aquelle jarrão evocava uma epocha feliz. O filho era então já um -rapazinho atrevido, mas tão meigo, tão lindo! o marido era forte, -fallador, arrebatado, ameaçando fazer cahir a casa ao furor das suas -rebentinas. E ella? Ella bem differente: caseira, mal vestida, egoista e -muito severa para as faltas alheias... Prodigalisava-se pouco, o proprio -marido não obtinha d'ella mais do que o carinho frio, de -condescendencia; não por mal, não por proposito, nem sabia porque... -</p> -<p> -Fôra Gervasio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas -coleras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embellezar a sua casa, a -sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com intelligencia e com -consciencia. Antes não o houvera conhecido; ella talvez não tivesse -sido boa para ninguem, mas teria sido honesta e não conheceria o -soffrimento. -</p> -<p> -Com os olhos parados nas figuras polychromas do jarrão, Camilla -relembrava todo o martyrio do seu amor, nascido pouco a pouco da -intimidade... -</p> -<p> -O tal individuo demorava-se no escriptorio. Ella levantou-se, foi á -janella olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior da -casa, havia tambem alli uma tranquillidade distincta. Sentia-se que os -gostos e os instinctos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte. -</p> -<p> -Camilla olhava abstractamente para as flores, quando ouviu passos no -corredor. Voltou-se; Gervasio appareceu no limiar da porta. -</p> -<p> -—Que é isso, Milla?! -</p> -<p> -—Nada ... eu... -</p> -<p> -—Por que vieste?! -</p> -<p> -Camilla avançou timidamente. Elle continuou: -</p> -<p> -Por que não me mandaste chamar logo que entraste? Estás tão -pallida!... tão fria... Foi uma imprudencia vir aqui, a esta hora!... -Mas por que?! -</p> -<p> -—Lá eu não poderia fallar... -</p> -<p> -—Tens razão, aquella casa é tão pequena! está-se tão perto de -todos! Senta-te, meu amor. -</p> -<p> -—Contrario-te? -</p> -<p> -—Nunca! estamos junctos! Falla. -</p> -<p> -—Eu... -</p> -<p> -Mal pronunciou a primeira palavra, Camilla arrependeu-se da sua -resolução. Era quasi velha, já era avó! Áquelle pensamento toda se -enrubeceu; calou-se de novo, com os olhos razos de agua. -</p> -<p> -—Não te comprehendo ... assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que -me zango! Vamos, que aconteceu? -</p> -<p> -—Amas-me sempre? -</p> -<p> -—Sempre! -</p> -<p> -—Como ... no principio? -</p> -<p> -—Mais. -</p> -<p> -Então baixinho, num sussurro, com o rosto unido ao rosto d'elle, -Camilla disse tudo. Levada pelo seu sonho, ella não percebia quanto as -mãos d'elle tremiam nas suas mãos e que sombras lhe passavam pelo -rosto transtornado. -</p> -<p> -Quando ella acabou, elle não respondeu; ficou por largo tempo immovel, -como se ainda esperasse a ultima palavra. -</p> -<p> -A viração da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas; Camilla -sorveu-o com deleite, como se fôra um afago do céu. Emfim, fallara, -tinha-se dissipado a nuvem e já sorridente, instou pela resposta: -</p> -<p> -—Queres?... -</p> -<p> -O medico ergueu-se de chofre, e com voz metalica e dura disse -rapidamente: -</p> -<p> -—Não pode ser. -</p> -<p> -Camilla moveu os labios, numa agonia de morte. O que ella temia alli -estava. Elle tinha razão, era bem feito, casar, para que? Fôra a nora -que a obrigara a tamanha humilhação! Atraz d'aquella mascara de -seriedade, Gervasio havia de se estar rindo d'ella, da pretenção -d'aquelle miseravel corpo de avó a um noivado de amor! Teve a -impressão dolorosissima de estar coberta de rugas e de cabellos -brancos; olhou para as mãos com medo; não comprehendeu bem o motivo -porque continuava alli e levantou-se com esforço, para se ir embora. O -seu destino estava escripto: via todo o futuro tapado pelo corpo -pequenino do neto. -</p> -<p> -Gervasio, pondo-lhe as mãos nos hombros, fêl-a sentar-se outra vez, -com brandura. -</p> -<p> -—Para que? perguntou-lhe ella, quasi chorando. -</p> -<p> -—Para te dizer tudo: eu sou casado. -</p> -<p> -Camilla abafou um grito, tapando a bocca com a mão. -</p> -<p> -Elle dissera aquillo num desabafo, na ancia do golpe inevitavel, com uma -voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Rôto o -segredo, apiedou-se logo e fallou com humildade, muito chegado a ella. -Tambem pensara nisso, elle, tambem a quereria fazer sua aos olhos de -toda a gente, mas estava preso a outra mulher, até que a morte... -</p> -<p> -—A morte! suspirou Camilla. -</p> -<p> -E elle continuou, muito commovido: -</p> -<p> -—Viste-a uma vez, lembras-te? era aquella mulher de lucto que -encontrámos na volta do <i>Neptuno</i>. Achaste-a bonita ... percebeste a -nossa impressão e tiveste ciumes... Eu não queria que soubesses ... -mas agora a explicação deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade. -Meu pobre amor, perdôa-me... -</p> -<p> -Gervasio segurou nas mãos de Camilla; ella retirou-as devagar e fixou-o -com um olhar de tão clara interrogação, que elle continuou mais -baixo, mastigando as palavras: -</p> -<p> -—Sim, amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que -ella me enganava, deixei-a... Moravamos no Rio Grande, ella ficou lá -com a mãe, eu voltei para aqui. Quiz divorciar-me ... ella oppôz-se; -oppõe-se ainda; quer ter-me acorrentado como um cão: consegue-o. É -tudo. -</p> -<p> -Era tudo. Camilla percebeu o melindre do segredo, mantido para -evitar-lhe uma offensa. A razão illuminava-se-lhe; ella não podia ser -aos olhos d'aquelle homem nem melhor nem mais digna do que a outra que -elle desprezara; a mesma culpa as nivelava, e se elle não encontrara -perdão para a esposa, como encontraria respeito para ella? -</p> -<p> -Sempre calada, puxou o seu véo de viuva para o rosto e levantou-se. -</p> -<p> -O aroma das dracenas invadia tudo, numa exhalação suffocante. -</p> -<p> -Gervasio beijava-lhe as mãos, supplicando-lhe que lhe perdoasse; fôra -por amor de ambos. Porque não continuariam a viver como até então? -</p> -<p> -Camilla não respondia, e como elle instasse, ella pediu: -</p> -<p> -—Deixa-me ir embora! -</p> -<p> -—Tens razão; precisas descançar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao -menos mandar buscar-te um carro! -</p> -<p> -Camilla desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a -pé, ao ar livre. Elle consentiu, adivinhando que a perdia para sempre. -Talvez fosse melhor assim... -</p> -<p> -Ella colheu a cauda da saia e sahiu tiritando de frio, por aquella -luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltava -para traz, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido, -badalando furiosamente. Elle era casado! Elle mentira-lhe! Tantos annos -de mentira, tantos annos de mentira! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Era já noite quando Camilla entrou no seu jardinzinho da rua de D. -Luiza. A casa estava ainda ás escuras, mas Ruth tocava lá dentro um -adagio de Mendelssohn. Extenuada, Camilla sentou-se nos degráus de -pedra, como uma mendiga á espera da esmola. As luzes dispersas dos -lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a ultima -cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres -invisiveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetravel e sagrado -mysterio... -</p> -<p> -Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que -estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma -carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As -lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que -aquelle era o dia da sua segunda viuvez. -</p> -<p> -Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um -amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a -illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da -terra! -</p> -<p> -Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella, -por ventura, uma criminosa? -</p> -<p> -Maldizia-se, fôra uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os -seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquelle a quem -tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fóra da sua vida, como a -uma extranha. -</p> -<p> -Elle mentira-lhe, elle mentira-lhe! -</p> -<p> -Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ella -tambem aos olhos d'elle? -</p> -<p> -Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se -pudesse voltar atraz, desfazer todos aquelles dias de sonho e de -ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de -esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita, -em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta -humilhação, peior que todas as mortes, porque vinha d'elle, que ella -amava tanto! Amava ainda. Ainda! -</p> -<p> -Olhou com desprezo para o seu bello corpo de mulher ardente. Era um -despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquellas -creanças nascidas d'ella, predestinadas para o Soffrimento. Caminhariam -alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miseria. -</p> -<p> -Numa angustia, Camilla interrogou com olhar ancioso a treva muda: -Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?! -</p> -<p> -Alguma coisa fallou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia ás -estrellas: a musica de Ruth. A essencia da lagrima purificava-se no som, -com um poder de infinita pacificação. -</p> -<p> -Então a viuva teve inveja da filha, d'aquelle ideal purissimo, que não -lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem, -pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir... -</p> -<p> -Maldicta a natureza, que a fizera, a ella, só para o amor! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Ás onze horas da manhã seguinte, Camilla sentou-se a um canto da sala -de trabalho. O sol entrava pela janella, extendendo no chão uma toalha -de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta, -preparando lições para duas discipulas novas. Toda a sua indolencia -antiga se transformara em actividade; Nina cosia á machina e, no meio -da casa, Noca burrifava a roupa para o engommado. Ella olhou para todos. -Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem illuminava-lhe a -fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até -mais bonitas naquelle afan. Estavam na sua atmosphera. -</p> -<p> -Com voz pausada e clara, Camilla pediu que lhe dessem trabalho. -Olharam-na com espanto. -</p> -<p> -—Mamãe quer mesmo fazer alguma coisa?! -</p> -<p> -—Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova! -</p> -<p> -—Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth. -</p> -<p> -Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou: -</p> -<p> -—Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os -filhos. Deixe Mario fallar, afinal aqui ninguem ha de morrer de fome... -Vou buscar as creanças?! Vou, ou não vou? -</p> -<p> -—Vae, respondeu Camilla muito excitada: mas olha, não offendas a -baroneza. Basta dizer ... que eu não tenho nada no mundo senão as -minhas filhas! -</p> -<p> -—Bem que eu ouvi a senhora chorar toda a santa noite... Até estive -quasi... -</p> -<p> -—Basta de palavriado, Noca! interrompeu Nina; e accrescentou: -</p> -<p> -—Vá descançada, eu acabarei de burrifar a roupa. E depois, para a -tia: -</p> -<p> -—Faz bem, tia Milla. O trabalho distrae. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXV">XXV</a></h4> - -<p> -Depois de dois annos de viagens pelos Estados Unidos, o capitão Rino -desembarcou no Rio de Janeiro. Vinha outro, remoçado, lepido, despido -do seu ar de ingenua rudeza. Havia agora no seu sorriso a mesclazinha de -ironia que a perversidade do mundo ensina aos homens. -</p> -<p> -Catharina notou-lhe logo a differença, ao conduzil-o alegremente por -entre os gyrasóes do seu jardim. Comprehendeu a serenidade do irmão. -Vinha salvo. -</p> -<p> -Na manhã seguinte elle lia alto um jornal, quando esbarrou com um -annuncio para um concerto de Ruth. -</p> -<p> -Parou; elle soubera de tudo pelas cartas de Catharina, e, voltando-se, -fixou nella os seus olhos claros. Houve uma troca de confidencias entre -os dois rostos mudos; depois, curvando-se um pouco para o irmão, a -moça perguntou em voz baixa: -</p> -<p> -—Vaes visital-a agora? -</p> -<p> -Rino hesitou, e depois, com o tom mais natural do mundo, respondeu com -outra pergunta: -</p> -<p> -—Para que?... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>FIM</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FALLENCIA</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. 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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> - -</html> diff --git a/old/69229-h/images/fallencia_cover.jpg b/old/69229-h/images/fallencia_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index edb4fa5..0000000 --- a/old/69229-h/images/fallencia_cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69229-h/images/fallencia_frontispiece.jpg b/old/69229-h/images/fallencia_frontispiece.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2ed0cf3..0000000 --- a/old/69229-h/images/fallencia_frontispiece.jpg +++ /dev/null |
